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Práticas pedagógicas em instituições não escolares Educação popular e o estado democrático Objetivos de aprendizagem Ao término desta aula, vocês serão capazes de: • compreender e classificar educação popular e o estado democrático; • reconhecer e apontar algumas práticas de educação popular. Prezados(as) alunos(as), Continuaremos nosso estudo, compreendendo na aula 5, refletindo sobre a educação popular e o estado democrático, além de compreender as práticas de educação popular na visão de estado democrático. Lembre-se de ler e posicionar-se criticamente em relação aos os objetivos de aprendizagem e as seções de estudo da aula 5. Afinal, você é o protagonista de sua aprendizagem! Contamos com a sua participação ativa durante o estudo que se inicia! Bom trabalho! Bons estudos! 5º Aula 49 1 - Educação popular 2 - Reflexões sobre a educação popular e o estado democrático 3 - Práticas de educação popular na visão de estado democrático Para iniciar nossas reflexões, nesta primeira seção da aula 5, vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre o que é a educação popular, dando destaque para as determinações de alguns autores. Durante a leitura desta aula é importante que destaque no texto os assuntos que considerar de maior relevância, elabore resumos, anotações, tabelas, esquemas, desenhos, fluxogramas ou gráficos sobre os conteúdos estudados nesta aula. Assim, será mais fácil transformações os conteúdos em conhecimentos úteis para sua futura atuação profissional! Pense nisso... Bons estudos! 1 - Educação popular Vamos iniciar nosso estudo da aula 5 refletindo a respeito da questão: O que é Educação popular? Antes de responder a este questionamento, é necessário definir o termo ‘popular’. Uma definição comum, que pode ser encontrada em várias fontes, incluindo os dicionários, é a de que ‘popular’ trata-se de algo do povo, para o povo, que objetiva o atendimento das necessidades do povo (NASSIF, 2010). No Dicionário Aurélio (FERREIRA, 2008), por exemplo, popular é definido como ‘do ou próprio do povo, ou feito por ele’ ou ainda como algo ‘simpático ao povo’. VOCÊ SABIA Como concepção de educação, a educação popular é uma das mais importantes contribuições da América Latina para o pensamento pedagógico universal, o que ocorreu de maneira especial devido à atuação internacional de um dos mais respeitados pensadores da área: Paulo Freire. Ele semeou ideias de concepção popular emancipadora da educação (GADOTTI, 1987). Dessa forma, seguindo as ideias de Teixeira (2007), podemos entender que a teoria de educação popular, proposta por Freire, trata-se de conteúdos referenciados na realidade do alunos, com uso de metodologias que incentivam o pensamento autônomo e crítico, bem como a participação ativa das pessoas, fundamentada em uma política capaz de fomentar transformações da sociedade, por meio da alimentação de anseios pela felicidade, liberdade, justiça e igualdade. PARA REFLETIR “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria” (Paulo Freire). Seções de estudo Vale ressaltar que a educação popular, como prática pedagógica e educacional pode ser vista em todos os continentes, manifestadas em concepções e práticas variadas e até antagônicas. A partir da busca pela conscientização, a qual ocorreu entre os anos de 1950 e 1960, a educação popular vivenciou, historicamente, distintas fases epistemológicas, organizacionais e educativas, nas quais defendia-se a construção de uma instituição escolar pública popular comunitária. Já nas décadas de 1970 e 1980, verificou-se a chamada ‘escola cidadã’, a qual, nos últimos anos, transformou- se em um mosaico de interpretações, divergências e convergências (GADOTTI, 1987). Em outras palavras, baseadas agora no pensamento de Pereira e Andrad (2013), a Educação Popular é vista como uma prática político-pedagógica que engloba vários e contraditórios significados, de acordo com os interesses de grupos, em diferentes conjunturas. Ainda segundo autores, podemos construir uma reflexão sobre a Educação Popular, enquanto produto histórico do seu tempo, a qual implica em muito mais que simplesmente apreciar conceitos, mas, em intentar fugir de uma prática reprodutora, para uma ação transformadora da sociedade. Podemos aprofundar mais, porém, a necessidade de buscar bases sólidas, sobretudo, por meio de suporte teórico que convirjam conhecê-la e entendê-la em seu contexto histórico. Buscando fundamentos na teoria/metodologia freiriana, podemos pensar que a educação popular trata-se de uma concepção de educação idealizada e organizada a partir de uma proposta contínua e permanente de formação, a qual possui o intento de transformar o contexto no qual se está inserido a partir do protagonismo dos indivíduos (PEREIRA; ANDRAD, 2013). A Educação Popular é, ainda segundo Pereira e Andrad (2013), uma ação coletiva para elaborar, traduzir e socializar conhecimentos que possibilitem aos docentes e discentes a capacidade de realização de uma leitura crítica do contexto da realidade em busca de transformá-lo. Ao assumir uma postura crítica diante da realidade (seus acontecimentos, fenômenos e raízes), é possível entender a luta existente entre as classes e lutar pela quebra de toda forma de alienação. “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (Paulo Freire). Vale ressaltar que a Educação Popular, de acordo com os pressupostos do Cepis (2013), é um instrumento que desperta, qualifica e reforça o potencial popular em sua luta para eliminar a lógica do capital e elaborar uma alternativa solidária. Para tanto, ela tem como objetivos (CEPIS, 2013): a) Ajudar, por meio do entendimento, assimilação e aplicação, a traduzir, divulgar e recriar o conhecimento, compreendendo-o como força material para transformar a realidade. b) Fomentar e oferecer subsídios para a construção e divulgação da organização popular como meio de enfrentar os desafios verificados na prática cotidiana e histórica. c) Oferecer qualificação nos níveis: econômico, político, 50Práticas pedagógicas em instituições não escolares ideológico e cultural, aos grupos militantes que buscam a transformação estrutural do sistema capitalista. d) Contribuir para elevação do nível de consciência da classe oprimida, por meio de uma compreensão do povo como protagonista. e) Possibilitar a compreensão e a aplicação prática do conteúdo e da metodologia da Educação Popular, motivando os sujeitos a multiplicá-la de forma criativa e constante. A Educação Popular, ainda segundo Cepis (2013), considera os vários níveis de consciência, mas não deve confundir princípio com método. Entretanto, a defesa intransigente da igualdade entre os humanos, sem superiores ou inferiores, não pode desconhecer as diferenças produzidas pela carga genética, o ambiente cultural, oportunidades históricas, esforço pessoal. Há pelo menos quatro níveis de formação, mesmo sem critérios exatos para demarcar limites, são eles (CEPIS, 2013, p. 2, grifo nosso): a) Base: com temas que se referem à identidade, à integração na vida, o ânimo para a luta, os valores. b) Militantes: o esforço de reconstruir os conceitos enquanto acúmulo da prática social, categoria de análise. c) Dirigentes: que exercita a capacidade de análise, a elaboração estratégica, a habilidade na condução política. d) Formadores: que, junto com os conteúdos, inclui o domínio da habilidade pedagógica. Ademais, a pedagogia popular promove a interação entre as partes envolvidas, fomentando uma prática que busque descartar qualquer forma de enquadrar ou doutrinar os sujeitos, levando-os a envolver-se ativamente em seu processo de aprendizagem. Dessa forma, segundo Cepis (2013), a educação popular, no que concerne à sua metodologia, buscasua construção por meio da aplicação prática dos conhecimentos pelos sujeitos que dela participam, por meio da problematização do saber e do questionamento. Para concretizá-la de forma integral, é preciso que o sujeito se envolva de forma ampla, ativa, consciente e criativa. Enfim, a educação popular trata-se de um fenômeno de produção e apropriação dos produtos culturais, utilizando-se, para tanto, de um sistema aberto de ensino e aprendizagem, formado de uma teoria de conhecimento inspirada no contexto cotidiano real, com metodologias (pedagogia) que fomentam e oferecem subsídios para participação e empoderamento dos sujeitos, com conteúdos e técnicas de avaliação processuais, tendo como base a política estimuladora de transformações sociais e orientado por anseios humanos de liberdade, justiça, igualdade e felicidade (MELO NETO, 2013). Na concepção de Paulo Freire: “educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante!”. Com este pensamento, vamos passar ao estudo da seção 2! 2 - Reflexões sobre a educação popular e o estado democrático A Educação Popular, segundo Andrade (2013), fundamentou sua construção histórica em uma práxis político-pedagógica voltada para a emancipação dos sujeitos que compõem as classes denominadas ‘subalternas’, figurando assim, como um ‘instrumento político de expressão pedagógica’ ou em uma ‘expressão pedagógica dos movimentos sociais’. Tal concepção foi fortemente disseminada durante os anos de 1970 a 1980, época na qual a prática político-pedagógica teve sua figura destacada na politização popular e na democratização da nação brasileira. Após as anos de 1990, ainda segundo o mesmo autor, no período da ofensiva neoliberal, essa perspectiva político-pedagógica foi confrontada e/ou capturada, em parte, pela nova pedagogia da hegemonia desse projeto de sociabilidade capitalista, que desencadeou não apenas um processo permanente de fragmentação e desarticulação das forças políticas e culturais articuladas a esse campo político-pedagógico, como, também, rebaixou o horizonte de emancipação humana a elas vinculadas, re-colocando os conteúdos e as formas dos ideais de liberdade e igualdade no interior dos interstícios da estrutura capitalista. É válido salientar que o crescimento do projeto de sociabilidade capitalista, pautado em uma ideologia de liberdade e igualdade formal entre a totalidade dos seres humanos, apresenta como um dos seus recursos principais, a busca constante de criação e aprimoramento de ‘técnicas sociais’ inovadoras ou de mecanismos ideológicos, voltados para as chamadas ‘camadas populares’, com o intento de “controlar e dosar os graus de liberdade, de civilização, de racionalidade e de submissão suportável pelas novas formas de produção [...] e pelas novas relações sociais entre os homens” (ARROYO, 2007, p.36). Podemos afirmar, portanto, que a educação popular tem uma função importantíssima e estratégica diante desta realidade, uma vez que, partindo dela, os grupos organizados com o objetivo de apoiar as ‘camadas populares’ podem reivindicar, ao longo do tempo, e disputar, mesmo diante das contradições impostas pelo capitalismo, por uma educação voltada para a população que seja, em sua totalidade, completamente diferente da lógica de controle e disciplina traduzida, de forma ideológica, como prática para civilizar e tornar cidadãos aqueles que, para Locke, “vivem apenas de mão para a boca” (ANDRADE, 2013). Segundo Jara (1994), esse tipo de educação é defendida, reivindicada e praticada por segmentos sociais que enfatizam valores de liberdade, igualdade e solidariedade, mas que trabalham com conteúdos que promovem a produção e/ou reprodução social da vida material das classes sociais. Em outro contexto, com referência nas ideias de Netto (2007), a educação popular tem uma proposta diferenciada, ao passo que funciona como um elemento relevante de mediação política, apresentando como eixo orientador, uma pedagogia para a liberdade e emancipação dos sujeitos das camadas populares. 51 Para a sociedade brasileira, conforme defende Neves (2005), as práticas vivenciadas com a educação popular vão sendo vivenciadas como uma resposta original para superação de uma educação dualista e disciplinadora, que funciona como ferramenta para solidificar uma sociedade desigual e conservadora, demarcada pelo poder de alguns e pela servidão e o medo de muitos. VOCÊ SABIA Paulo Freire como mais significativo teórico da perspectiva político- pedagógica denominada “educação popular”, influenciou e foi influenciado pelas experiências em desenvolvimento sobre o tema, formada a partir da configuração histórica, constituída após os anos 90 (ANDRADE, 2013). A novidade trazida pelo pensamento teórico de Paulo Freire não está presente na “afirmação da necessidade de adequar o processo educativo às características do meio”, uma vez que estas ideias já figuravam no pensamento de outros educadores; sua contribuição pode ser encontrada, portanto, no “modo de realizar esta associação necessariamente, como intrínseca do processo educativo” (BEISIEGEL, 1974, p.163). Nas palavras de Andrade (2013), Freire oferece uma importante contribuição quando defende que uma proposta político-pedagógica que objetive figurar como prática libertadora, não pode buscar justificativa no esforço de se adequar ou contextualizar o processo educativo a determinadas condições culturais, sociais e históricas dos sujeitos, mas em visualizar esses contextos como conteúdos determinantes no processo educativo dos participantes. Ademais, é esta valorização do autor que vai denominar como “leitura do mundo”, impregnada na práxis cotidiana dos participantes das camadas populares, como algo que precede e colabora, substancialmente, na “leitura da palavra” e que implica, de forma consequente, no desvelamento do mundo e dos próprios sujeitos, possibilitando que reconheçam a condição de “desumanização, não apenas como viabilidade ontológica, mas como realização histórica”, transformando- se, por conseguinte, em “sujeitos da denúncia do mundo, para sua transformação” (FREIRE, 2005, p. 32-195). Observe que Paulo Freire nega os valores de uma “educação bancária”, que se expressa na transferência de conteúdos, de “comunicados”, na autoridade dos que sabem e na submissão dos que nada sabem. Além disso, confirma a necessidade e possibilidade histórica de uma educação que, partindo da leitura que os homens e as mulheres têm da sua realidade, possibilita a eles, pela pronúncia da palavra, pela decodificação da realidade, estar no mundo “como consciência de si e do mundo, em relação de enfrentamento com sua realidade em que historicamente se dão as ‘situações limites’” (FREIRE, 2005, p.105,), por meio da vivencia de uma relação dialética entre a realidade social e histórica e os seus desejos de liberdade. Nesse contexto, gradualmente, a “educação popular” foi se demonstrando como um importante movimento político de expressão pedagógica e na própria expressão pedagógica do agir político dos movimentos sociais, a partir desse período, afirmado por Brandão (1986, p. 37) não “apenas como uma forma avançada de educação do povo, mas um movimento pedagógico e, depois, um movimento popular que incorpora um movimento pedagógico”. Já nas palavras de Paludo (2001, p. 91), coexiste uma ideia de educação que “leva em consideração a realidade brasileira com vistas à sua transformação, em que as classes populares assumem papel central”. A educação vai se construindo, em tese, de forma comprometida com os anseios das classes populares, ou como afirma Jara (1994, p. 95), como “um processo permanente de teorização sobre a prática ligada indissoluvelmente ao processo organizativo das classes populares”. A educação popular, nesse contexto, tem sua transformação entendida como a própria práxis política dos movimentos da sociedade, como descobrimentos vividos pelos participantes dentro de suamilitância política. Mas, como o Estado pode interagir com a Educação popular? Como o principal provedor e como disseminador de ideologias, o estado pode contribuir para a construção de uma prática educativa que incentiva a perpetuação da realidade existente ou de uma nova concepção de sociedade, tudo dependerá da forma de como serão propostas e realizadas as políticas educacionais. SABER MAIS “As teorias e pesquisas sobre o Estado mostram que uma análise do sistema educacional não pode estar separada de algumas análises explícitas ou implícitas do papel, do propósito e do funcionamento do governo. De fato, a educação pública, não significa apenas uma função do Estado em termos de ordem legal ou suporte de financiamento público. [...] Muitos argumentam que o Estado desempenha um papel importante em relacionar a Educação com a Economia. Apesar das dificuldades em identificar as exatas contribuições para o crescimento econômico, é evidente que o Estado por meio da política pública e das despesas públicas contribuiu muito para facilitar os elos entre o sistema educacional e a economia. Exatamente por isso as relações entre educação, política e Estado não podem ser discutidas unicamente a partir da perspectiva da cultura política dominante. Esse caráter político está relacionado, ante de tudo, com os currículos explícitos e também com as ligações mais sutis entre a educação e o poder” (NASCIMENTO, 2007, p. 1). Além disso, no contexto da educação popular, segundo Gadotti (2013), o estado precisa ser o ‘principal articulador’, mas não o ‘articulador exclusivo’, uma vez que é necessário que se planeje uma integração das inúmeras esferas de poder, de maneira que consigam resolver os problemas identificados na realidade, os quais extrapolam as atribuições do Estado e referem-se a própria sociedade. Nesse contexto, ainda segundo o autor, cabe à sociedade civil, [...] Principalmente, o papel de contribuir na elaboração e fiscalização das políticas educacionais, bem como na gestão dos órgãos responsáveis por sua aplicação. Mas não só; cabe também, em parceria com o estado, 52Práticas pedagógicas em instituições não escolares participar do esforço coletivo para a superação de desafios educacionais (GADOTTI, 2013, p. 11). Gohn (1996) analisa este processo educativo autoconstruído pelos movimentos no espaço/tempo do processo de organização interna e luta política, ainda confirma que a consciência gerada no processo de participação em um movimento social leva ao conhecimento e reconhecimento das condições de vida de parcela da população, no presente e no passado. Isso leva ao reconhecimento de uma parte relevante da vida dos sujeitos, relacionada ao contexto construído pelas classes sociais na luta do dia a dia, além de resgatar “[...] elementos da consciência fragmentada das classes populares, ajudando sua articulação, no sentido gramsciniano de construção de pontos de resistência a hegemonia dominante, construindo lentamente a contra-hegemonia popular” (GRAMSCI, 1968, p. 20-21). Nesse ínterim, a educação popular tende a se firmar na relação criativa e dialética existente entre teoria e a prática, o dia a dia e a história, o subjetivo e a objetivo, o conhecimento e o engajamento político. Finalmente, a educação popular trata-se de uma ação pedagógica voltada para a formação do consenso sobre “os sentidos de democracia, cidadania, ética e participação adequados aos interesses privados do grande capital nacional e internacional “(NEVES, 2005 p. 15), que “centra-se na despolitização das relações sociais” (NETTO, 2007, p. 80). Em outras palavras, é uma corrente de pensamento que redefine as temáticas do pensamento político clássico, “como soberania popular, igualdade natural dos indivíduos, vontade geral e os simplifica numa espécie de igualdade de dever, na consciência do ‘dever social’ para o ‘bem comum’” (ARROYO, 2007, p. 56). Com tais conhecimentos, iniciaremos, agora, o estudo da seção 3! 3 - Práticas de educação popular na visão de estado democrático “Quem quiser fazer só pedagogia, só metodologia, sem esta visão política, acaba fazendo uma contra-educação popular” (Madre Cristina, Julho/1985). O processo metodológico de planejamento e execução de Educação Popular, baseia-se na pedagogia de educação popular e se realiza pela interação de quatro balizas básicas (CEPIS, 2013): a) O querer do educador: uma vez que este profissional representa um dos lados do diálogo, o qual será permeado pelos seus anseios, ideologias, escolhas, limites e conhecimentos da práxis social que carrega (teoria). Aqui, o educador não trata- se de um mentor genial que manipula, conforme entendido em teorias autoritárias e vanguardistas, tampouco apenas um acessório presente, como entendido no discurso autoritário e basista. Sua atividade é de educar, oferecer assessoria (facilitar o acesso à), apoiar o entendimento dos conceitos, como primeiro passo para fragmentá- lo e reconstruí-lo. b) A necessidade do trabalhador: isto porque o educando é o outro lado do diálogo com suas especificidades, anseios, potencialidades, limitações, conhecimentos, cultura, valores, experiências etc. Nesta concepção, ele não é visto um ser ignorante, um cliente, um objeto de manipulação; tampouco é o quem detém todo o conhecimento e precisa apenas ser despertado como é entendido no discurso basista, pois ele pode saber o que quer, mas, por vezes, pode não querer o que não sabe. c) O contexto onde se dá o processo: pois a educação acontece em um ambiente composto por uma teia de relações sociais, econômicas, políticas, históricas, culturais e interpessoais. Desse modo, o processo educacional se dá em um contexto estrutural e conjuntural conflitivo que facilita e desafia. d) A postura e a prática do intercâmbio: porque acontece em meio ao relacionamento de troca entre sujeitos que têm os mesmos objetivos. Verifica-se uma interação/tensão de todos com todos, com mútua influência, nos quais tanto os educadores, quanto os educandos buscam superar o voluntarismo, o possibilismo e o basismo. O método popular tem princípios ou convicções que são seu ponto de partida, tais como (CEPIS, 2013): a) todo sujeito é capaz; b) apenas quem está efetivamente oprimido, como sujeito individual ou como grupo social, pode interessar-se pela libertação; c) somente quem realiza um trabalho produtivo pode realizar efetivamente as transformações radicais; d) apenas quem se dispõe a um processo deve incorporado no processo. O ponto de chegada do método popular é: a) animar e apaixonar porque resgata o elemento da identidade e dignidade (autoestima): as pessoas se tornam protagonistas, capazes de andar com seus próprios pés; b) mobilizar porque rompe com a situação de dormência, fatalismo e a sensação de impotência gerada pela dominação; c) aumentar o grau de consciência; d) qualificar, política e tecnicamente a militância para o Trabalho de Base - atuação na realidade, experimentação permanente e apropriação dos conteúdos e do método; e) levar militantes e educadores à multiplicação criativa e ousada – assumem-se como parte comprometida com a massividade; f) canalizar as legítimas resistências de emancipação para um Projeto Popular sem 53 o paradigma da desigualdade. Sabe a inclusão capitalista é uma lógica insustentável, onde não há lugar para os oprimidos (CEPIS, 2013). Para melhor compreensão prática, vejamos exemplos de duas oficinas realizadas no contexto da educação popular não formal, denominadas “Oficina dos Direitos de Cidadania” e “Oficina da História de Vida”! 3.1 - Oficinas-exemplos de propostas de educação não formal popular ATENÇÃO As oficinas apresentadas a seguir são exemplos baseados na experiência de Dombrowski e colaboradores (2013). Sugerimos que, além de outros exemplos e referências, confira a referência disponibilizada no final desta aula e consulte-a para ampliar seus conhecimentossobre o tema. 3.1.1 - Oficina dos Direitos de Cidadania (DOMBROWSKI et al., 2013) Primeiro momento – sensibilização No contexto prático, o primeiro passo para a educação popular é sensibilização, em que efetuamos uma aproximação do educando com a temática da cidadania, procurando promover a superação da visão parcial e muitas vezes ingênua com a qual o sujeito encara as questões que fazem parte de seu cotidiano. Vejamos o passo a passo de como é possível sensibilizar os alunos, no caso da oficina de direitos humanos: • Passo 1 - “tempestade de ideias”: solicitar ao grupo que cite a totalidade de direitos que forem capazes de se lembrarem. Aqui, é importante que se prepare emocionalmente para não se assustar, uma vez que a quantidade lembrada pelos alunos pode não ser tão grande como imaginamos ou desejamos, fazendo que a inserção de estímulos se faça necessária. SABER MAIS Sugerimos que utilize a legislação brasileira, especialmente a Constituição Federal de 1988 como fonte de prévia de pesquisa para localização dos direitos de cidadania. Os direitos precisam ser anotados pelo educador no quadro, no momento e ordem na qual forem sendo citados. ATENÇÃO Determinadas colocações dos educandos podem não corresponder a tipos de direitos, nestes casos, o educador deve expor a ideia ao debate, de forma a buscar esclarecer o sentido para encontrar o direito que mais se aproxima da intenção inicial do educando propositor. • Passo 02 – “Organização das Ideias”: após a obtenção de uma quantidade significativa e variada de direitos, o educador poderá apresentar ao grupo determinados conceitos que exemplifiquem os direitos citados. Conforme foi observado por Marshall (1967), os direitos não são todos do mesmo gênero. Alguns deles remetem às liberdades dos homens, condição essencial para a própria existência humana (Ex.: direito de ir e vir, liberdade de crença etc.); estes são os “Direitos Civis”. Outros dizem respeito à atividade política, ou seja, são direitos que garantem aos cidadãos a participação em todas as decisões que, de alguma forma, lhes dizem respeito (Ex.: direito de votar, de livre associação etc.); trata-se dos “Direitos Políticos”. Outros ainda, comportam uma noção de materialidade por se referirem a determinados “bens sociais” (Ex.: saúde, educação, moradia etc.); são os “Direitos Sociais” (DOMBROWSKI et al., 2013). Com a conclusão desta rápida conceituação, o educador pode solicitar ao grupo que reorganize os direitos citados no passo 1, dividindo-os em três grupos a serem, por ele, sugeridos. O momento de organização das ideias pode se mostrar bastante rico, uma vez que a classificação de determinados direitos pode fomentar debates intensos e ricos para a aprendizagem de todos! • Passo 3 – “Síntese”: após classificada a totalidade dos direitos citados, o educador poderá solicitar ao grupo que identifiquem possíveis relações que podem ser estabelecidas entre os três conjuntos de direitos obtidos. Em geral, se nota uma relação temporal entre os grupos de direitos e a sequencia histórica proposta por Marshall. Ao educador fica a responsabilidade de sintetizar e apontar os conceitos para a noção de que a cidadania é histórica e que para se assegurar o efetivo exercício dos direitos a sua realidade é preciso ampliar cada vez mais as noções de direitos para as novas gerações, para que a noção de cidadania seja historicamente ampliada. Segundo momento - aprofundamento do tema O aprofundamento do tema é o momento mais longo da oficina, uma vez que nele, os educandos são incentivados a pensar a respeito de sua realidade, buscando e sistematizar informações sobre os direitos de cidadania e sobre os serviços públicos que são (ou não) colocados à sua disposição. Para concretização deste momento, os autores estruturaram duas séries de atividades, a saber: “O jogo da Cidadania” e “O diagnóstico da cidade”, as quais vamos conhecer nas próprias palavras de Dombrowski e colaboradores (2013): 54Práticas pedagógicas em instituições não escolares a) Jogo da cidadania: durante o transcorrer do jogo um jogador pode ficar desempregado, ou ficar sem dinheiro para pagar suas taxas tornado-se um pedinte. Em um determinado instante do jogo, os cidadãos se reúnem em um “conselho” ou um “fórum da cidade”, quando têm a oportunidade de propor soluções para alguns problemas. Mas para isso eles precisam rapidamente chegar a um entendimento sobre qual problema solucionar com os recursos disponíveis. O andamento do jogo, bem como o comportamento dos jogadores, constitui farto material para debate após o seu encerramento. Inumeráveis acontecimentos se colocam para o monitor retomar em uma discussão. Esta deve seguir na direção de evidenciar o fato de que nas cidades não estamos sozinhos e que somos responsáveis também pelos destinos dos outros cidadãos, uma vez que a participação de cada um é fundamental para a solução dos problemas da cidade. O monitor lembra que no “jogo da cidadania” os cidadãos enfrentavam vários problemas fictícios. Mas e na vida real, como anda a saúde em nossa cidade? E a educação? A alimentação é um problema em nosso município? Como encaramos os problemas ambientais? Inevitavelmente, surgem vários testemunhos e opiniões sobre problemas relacionados com a qualidade da oferta dos serviços públicos no município. Nossa experiência demonstra que algumas turmas se interessam mais por debater alguns problemas que outros. Isto, obviamente, depende da maior ou menor intensidade com os problemas se apresentam nas diferentes comunidades. Chamando a atenção para o fato de que no “jogo da cidadania” os jogadores se reuniam para debater e propor soluções para os problemas, o monitor sugere a cada turma a organização de um “fórum” para debater e propor soluções para problemas reais enfrentados pelas comunidades. Aqui é importante que se tenha clareza de que não se trata de impor uma tarefa ao grupo, mas de propor uma atividade. As turmas não mobilizadas para a realização do “fórum” devem continuar desenvolvendo as atividades em sala de aula e propor outros encaminhamentos, tais como a elaboração de abaixo-assinados, a publicação de manifestos, a realização de atos públicos etc. b) O diagnóstico da cidade: a cidade que temos e a cidade que queremos. Esta não é, propriamente, uma atividade, mas uma série de atividades orientadas voltadas para o questionamento da cidade real. Nesse momento as turmas são levadas a refletir sobre sua própria realidade, com o apoio de informações disponibilizadas pelos monitores. O objetivo é contrastar, por exemplo, o direito à saúde com os serviços médicos disponíveis. O mesmo para a alimentação, o ambiente, a educação, a segurança, enfim, os temas escolhidos pelas turmas. Para isso, as turmas são orientadas a voltarem os olhos para a sua própria realidade e verificar, de fato, o que acontece e construir um quadro de duas colunas: a cidade que temos, e a cidade que queremos. Terceiro momento – síntese O terceiro momento, trata-se de um espaço em que os educandos compartilham experiências, dados e reflexões, para avançarem na direção da construção de um entendimento coletivo sobre a própria realidade, de forma que supere o senso comum: Este momento se caracteriza pelo debate – que aqui é tomado como um momento privilegiado para a construção do conhecimento científico, bem como para o posicionamento político dos cidadãos. Esta etapa do projeto, momento no qual as diversas turmas irão elaborar suas sínteses, deverá ocorrer fundamentalmente nos “fóruns” agendados em cada uma das escolas participantes. As turmas que não optaram pela realização do fórum deverão desenvolver outras atividades voltadas para a produção de sínteses (DOMBROWSKI et al., 2013). * Quarto Momento - Conclusão das Atividades Na conclusão das atividades, pode-se propor a realização de fóruns de debates entre os educandos, nos quais eles poderãoser estimulados a se comprometerem com a comunidade em busca de seus direitos, por intermédio do encaminhamento de propostas de ações que ofereçam sugestões plausíveis para a superação de alguns dos problemas. Nesse momento os educandos poderão ser levados a conhecer e considerar distintas possibilidades de práticas políticas da sociedade civil democrática, tais como: “o encaminhamento de demandas e petições a órgãos e instituições públicas, o acompanhamento e a fiscalização das ações e políticas de governo no nível local, estadual e federal, a participação organizada em conselhos, conferências, audiências públicas etc.” (DOMBROWSKI et al., 2013). Os educandos podem, ainda, se comprometerem com o encaminhamento de problemas, cujas soluções estejam ao alcance de ações diretas da sociedade civil. 3.1.2 - Oficina da história de vida (DOMBROWSKI et al., 2013) Seguem passos para realização desta oficina: • Passo 1 – “Trocar sua história com o grupo”: o educador divide o grupo, de forma aleatória, em turmas com quatro ou cinco componentes, solicitando que cada um conte aos seus colegas 55 de turma a ‘história’ da sua família, o quanto se lembrar desde as origens: por exemplo quem são seus bisavôs e suas bisavós, seus avôs e suas avós, seu pai e sua mãe, de que localidade vieram, como estão atualmente, o que fazem, como vivem etc.; até chegar na na história pessoal contando sua história pessoal, o que já fez, em que localidade morou, onde estudou etc. até chegar no relato de sua situação atual. • Passo 2 – “Comparar as histórias”: o educador pode solicitar para que os componentes das distintas turmas relatem as demais o que foi falado em cada uma delas, questionando o grupo sobre: “quais as semelhanças entre as diferentes histórias? Quais as especificidades? Alguém no grupo tinha uma história muito diferente dos demais? O que há de comum em todas as histórias?” (DOMBROWSKI et al., 2013). • • Passo 3 – “Síntese”: os relatos permitem ao educador chamar a atenção do grupo para o fato de que a totalidade das pessoas detém uma história de vida, a qual é única e exclusiva: sua vida e sua família. Contudo, também nos é possível observar que, de alguma maneira, todos nós compartilhamos de uma única história, o que podemos verificar ao ouvir as histórias particulares. Por exemplo, questões como migrações massivas, urbanização, desenvolvimento das indústrias, certamente serão temas cativos nas história de boa parte dos educandos em quase ou em todas as turmas. O educador pode finalizar explicando que cada um de nós somos parte da história e ao mesmo tempo, nós construímos a história. 3.1.3 - Demais momentos Compartilhados em Ambas as Oficinas (DOMBROWSKI et al., 2013) Neste contexto, vale a pena ressaltar que essas oficinas têm como base uma metodologia que atende aos princípios do paradigma socioprogressista de educação, os quais segundo Dombrowski e colaboradores (2013): [...] Pressupõe uma prática educacional participativa, dialógica e democrática que aponte para a superação das práticas autoritárias incrustadas no interior das escolas e que esteja comprometida com a construção de uma sociedade que tenha por base a afirmação da vida e da dignidade da pessoa humana, tendo como referência as ideais de Candau (1995), Freire (1997) e Gadoti (1983). Por fim, ainda com referência nas ideias dos autores, ressaltamos que as ações práticas da Educação Popular democrática precisam ter, desde sua concepção filosófico- pedagógica, os pensamentos que encaminhem para uma prática libertadora e comprometida com os pressupostos democráticos de igualdade. Retomar conhecimentos é fundamental para sedimentar o processo de aprendizagem. Assim, convidamos você a relembrar os estudos realizados na aula 5! Retomando a aula 1 - Educação popular Na primeira seção de estudo, conhecemos a definição de educação popular de acordo com a visão de alguns autores, dando ênfase a concepção de Paulo Freire, que ressalta que a comunidade especificamente no âmbito “popular” pode ser chamada de oprimida, pois, é composta por aquele que vive sem as condições elementares para o exercício de sua cidadania e que está fora da posse e uso dos bens materiais produzidos pelo sistema econômico atual. 2 - Reflexões sobre a educação popular e o estado democrático Já na segunda seção, compreendemos as reflexões a respeito da “educação popular” que construiu-se, historicamente, como uma práxis político-pedagógica comprometida com a emancipação humana das classes tidas como “subalternas”, transformando-se num importante movimento político de expressão pedagógica e numa expressão pedagógica dos movimentos sociais. 3 – Práticas de educação popular na visão de estado democrático Para finalizar nossos estudos, vimos na última seção que o processo metodológico de planejamento e execução de Educação Popular, baseia-se na pedagogia de educação popular e se realiza pela interação de quatro balizas básicas, ainda conhecemos as “Oficinas de Direitos de Cidadania” e de “História de Vida” de autoria de Dombrowski e colaborados (2013). Seja um amante do saber! Para tanto, sugerimos que pesquise nas obras e sites referenciados a seguir, os quais foram consultados e/ou serviram de base para elaboração da aula 5, bem como em outras fontes confiáveis de pesquisa. ANDERSON, Balanços do Neoliberalismo. In: SADER, E; GENTILI, P. Pós Neoliberalismo. As políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo: Paz e Terra, 1995. Vale a pena ler Vale a pena 56Práticas pedagógicas em instituições não escolares ANDRADE, E. C. A Educação Popular versus a “educação do popular”: Diferentes horizontes da emancipação humana no contexto atual. Disponível em: http://www.uff.br/iacr/ ArtigosPDF/55T.pdf. Acesso em: 18 maio 2013. ANDRADE, Edinaldo Costa de. A Educação Popular versus a “educação do popular”: Diferentes horizontes da emancipação humana no contexto atual. Disponível em: http://www.uff.br/iacr/ArtigosPDF/55T.pdf. Acesso em: 25 maio 2013. Vale a pena acessar Minhas anotações