Prévia do material em texto
GESTÃO DE PESSOAS Débora Frizzo 2GESTÃO DE PESSOAS CONTEXTUALIZANDO A GESTÃO DE PESSOAS 3 Contextualizando: de onde vem todas estas ideias? 11 PERSONALIDADE, COMPORTAMENTO E ATITUDES 15 Personalidade, atitudes e comportamentos 16 Estrutura da Personalidade de acordo com a Teoria Psicanalítica 22 HORA DE PARAR E PENSAR! 25 Fases do desenvolvimento e traços de personalidade 30 COMPETÊNCIAS INTERPESSOAIS E AUTOCONHECIMENTO 41 Traços de Personalidade ou Perfis de Personalidade 41 Segunda Competência 48 ATITUDES NO MUNDO DO TRABALHO 56 Definições e Critérios para a Competência Interpessoal 57 Os Óculos que Usamos (Ou nossos Modelos Mentais) 58 Resiliência 64 Liderança 66 Motivação 69 Comprometimento 70 Envolvimento 72 A menina Quebrada 75 SUMÁRIO CENTRO UNIVERSITÁRIO UNIFTEC Rua Gustavo Ramos Sehbe n.º 107. Caxias do Sul/ RS REITOR Claudino José Meneguzzi Júnior PRÓ-REITORA ACADÊMICA Débora Frizzo PRÓ-REITOR ADMINISTRATIVO Altair Ruzzarin DIRETORA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA (NEAD) Lígia Futterleib Desenvolvido pelo Núcleo de Educação a Distância (NEAD) Designer Instrucional Sabrina Maciel Diagramação, Ilustração e Alteração de Imagem Igor Zattera, Sabrina Maciel Revisora Carmem Maura Vaccari 3GESTÃO DE PESSOAS CONTEXTUALIZANDO A GESTÃO DE PESSOAS A Trajetória do “Arigó” rumo ao Lado do Sol da Calçada Neste capítulo compreenderemos o que é Gestão de Pes- soas, o seu outro lado. Veremos suas bases teóricas e o processo de transformação que poderá acontecer com você, aluno. “Olhe para dentro, para as suas profundezas, aprenda primeiro a se conhecer”. (Sigmund Freud) Querido aluno, seja bem-vindo à disciplina de Gestão de Pessoas. Iniciaremos nosso estudo por meio de uma “viagem”, uma encantadora viagem sobre o ser humano, sobre nós mesmos, sobre as pessoas que estão ao nosso redor, com as quais interagimos e sobre nossa capacidade de desenvolvimento durante a vida. Ao longo desta viagem, desenvolveremos diversas habilidades e competências, que são essenciais para aprimorarmos a nossa principal ferramenta de trabalho, nós mesmos. Tais competências são um diferencial competitivo 4GESTÃO DE PESSOAS para todo e qualquer profissional. Por esse motivo, essa disciplina está presente em todos os nossos cursos de graduação, independentemente da área. Profissionais das áreas de gestão, de engenharia, de tecnologia da informação, entre outras, necessitam aprender a se autodesenvolver para aprimorar suas habilidades comportamentais. Isso garantirá sua sobrevivência e sua sustentabilidade num cenário tão competitivo e mutante, como o mundo vivemos hoje. Falaremos sempre em mundo do trabalho, um conceito bem mais amplo do que mercado de trabalho. Esse mundo contemporâneo, onde vivemos, amamos e trabalhamos, pode ser considerado como um universo em constante mutação, cada vez mais complexo, dinâmico, fluido e contraditório. Visto isso, o mesmo nos exige cada vez mais habilidades sofisticadas, presentes somente às pessoas que desejam estar em constante autodesenvolvimento. Para fins da nossa disciplina vamos compreender a Gestão de Pessoas como a competência de lidar, conviver e gerir pessoas da forma mais saudável e produtiva possível. De modo que possamos atender aos nossos objetivos, tanto individuais, como sociais e organizacionais. Saber gerir, relacionar-se e interagir com as pessoas. Além disso, saber gerir a si mesmo. Essa autogestão será nosso foco principal. Ela sempre será nosso guia. Tudo aquilo que falarmos será para subsidiar nossa autogestão. Só consegue gerir as pessoas, ou relacionar-se com os outros, aquela pessoa que sabe gerir a si mesmo, que sabe conhecer-se e relacionar-se consigo mesmo. Por isso, ao longo da nossa disciplina, falaremos muito em autoconhecimento. Ele é um pré-requisito essencial para toda e qualquer forma de gestão de pessoas. É muito importante que vocês entendam essa perspectiva da nossa disciplina. Na maioria das vezes, quando se fala em Gestão de Pessoas, estamos nos referindo ao modo como uma organização lida com as pessoas que estão inseridas nela. Refere-se ao conjunto de políticas e práticas adotadas pela área de recursos humanos, com vistas a lidar com as pessoas que compõem os quadros de uma organização. Nossa perspectiva, é então, um passo anterior a isso. Mas, como assim? Se entendermos que, seja lá qual for a área de atuação, de trabalho, de posto de trabalho ou a função de uma pessoa, independente do seu cargo, venha situar- se de maneira produtiva no contexto de uma organização, ela necessita, antes de tudo, autodesenvolver-se. E para se autodesenvolver, será preciso potencializar três competências essenciais, para aprender a lidar com as pessoas. Aqui, não vamos falar sobre as práticas de gestão de pessoas, vamos falar sobre as práticas que precisamos adotar para com as outras pessoas e, principalmente, para conosco, de modo a sermos profissionais de sucesso no mundo do trabalho. Por isso, falaremos em competências comportamentais. Ta i s c o m p e t ê n c i a s v i s a m desenvolver uma série de habilidades comportamentais. 5GESTÃO DE PESSOAS Portanto, queridos alunos, nosso objetivo, aqui, será o autodesenvolvimento de vocês! Existem estatísticas espalhadas por aí, em variadas fontes, que nos dizem que 80% das demissões dos ambientes de trabalho são devidas a problemas comportamentais. As pessoas são contratadas pelas organi- zações, por sua competência técnica, pelo seu currículo, por aquilo que sabem fazer. Porém, depois são desligadas em função da falta de competências comportamen- tais; por serem pessoas que não sabem lidar com as outras pessoas, por causarem con- flitos improdutivos, que povoam ambientes tensos, enfim, pessoas que não possuem a habilidade de se fazerem ferramentas na busca de soluções. Justamente, as compe- tências comportamentais que faltam, na maior parte das pessoas, são as que vamos desenvolver aqui. O que desejamos é que todos vocês possam, pelo menos, começar a desenvolver tais competências, para que, jamais, entrem nestas estatísticas! Essas competências comportamentais ajudarão, ou servirão de “pano de fundo” para que você possa exercitar, mostrar ou desempe- nhar todas as suas competências técnicas, em qualquer contexto do mundo do traba- lho. A partir de agora, deve ser uma reflexão constante, para você, a seguinte pergunta: Pessoas que só desenvolvem com- petências técnicas encontram, no mundo do trabalho (e mesmo no mundo privado de suas vidas), adversidades e situações complexas, naturais e inevitáveis, que as impedem de demonstrar suas competências técnicas. Se elas não tiverem a capacidade de gerir a si mesmas, de gerir seus relaciona- mentos interpessoais, tais momentos serão um entrave para seu sucesso profissional. Elas apresentam comportamentos e ati- tudes que desenvolvem problemas no seu ambiente de trabalho, estruturam conflitos e dificuldades interpessoais. Desse modo, construindo o caminho da sua demissão. Por mais habilidoso tecnicamente, que você seja diante das complexidades dos ambien- tes do mundo do trabalho, da diversidade de pessoas com as quais você irá interagir, chegará um momento em que todas as suas competências técnicas “desaparecerão” , caso você não tiver a habilidade de gerir a si mesmo e as suas relações interpessoais. Assim, podemos dizer que é, praticamente, impossível você desenvolver uma carreira profissional e ter uma vida saudável sem interagir com pessoas. As interações são inevitáveis e estão presentes em todos os momentos da nossa vida. Atualmente, até mesmo as interações virtuais são inevitáveis e necessárias, exi- gindo habilidades de comportamento. Ao escrever um e-mail, comentar uma posta- gem numa rede social ou postar uma foto Por onde eu ando, eu sou a solução ou a causa dos problemas! 6GESTÃO DE PESSOAS sua na própria timeline, precisará levar em contaeducativas dos seus pais. Agora o prazer sexual será obtido na exploração e manipulação dos seus ge- nitais. A criança também começa a ter muita curiosidade sobre sua origem, sobre o corpo humano, sobre o nascimento dos bebês, e em relação a todos os assuntos ligados à sexualidade. Os conflitos vividos pela criança são, para muitas pessoas, até difíceis de serem compreendidos, porque envolvem temas considerados complicados na nossa cultura, tais como fantasias sexuais e o tabu de incesto. Os conflitos básicos dessa fase con- centram-se no desejo inconsciente da criança pelo seu genitor do sexo oposto, e acompanhado pelo desejo agressivo incons- ciente de substituir o genitor do mesmo sexo. Fantasias amorosas e agressivas, de rivalidade de paixão, povoam o inconsciente da criança, menino ou menina, e vão mol- dar seus comportamentos nesta idade. O menino deseja ser “o príncipe”, o amor da mamãe, e a menina deseja ser “a princesa”, o amor do seu papai. Cabe, aqui, lembrar que, estas vivências não são necessariamente ligadas aos pais biológicos. Qualquer pes- soa adulta que seja importante na vida da criança, poderá desempenhar estes papeis de pai e mãe e despertar estes sentimentos de amor e ódio na criança. E por vivenciar sentimentos tão in- tensos, ambivalentes e considerados con- denáveis, a criança sente culpa e remorso. Culpa e remorso por desejar coisas ruins ao genitor do sexo oposto, considerado rival nas suas fantasias de amor. Na verdade, nesta fase, a criança vivencia um triângu- lo amoroso com seus pais, com todas as emoções e dores que um triângulo amo- roso pode trazer. Para encerrar esta fase, a criança precisará, através das práticas edu- cativas firmes, mas amorosas, de seus pais, compreender que necessita abrir mão dos seus desejos amorosos, que esse triângulo amoroso é inviável, e que ela tem que se conformar com isso. No final da fase, a criança precisará estar apta a compreender e vivenciar a sensação de que todas as suas vontades instintivas não são e não poderão ser satisfeitas, nem agora, nem ao longo de sua vida. E, esse fundamental entendi- mento, será obra do superego, o qual estará completamente formado. É ele que fará a criança abdicar de suas fantasias amorosas, tornando-se conformada com os limites impostos pelo mundo externo. Por meio das três fases que descre- vemos que esta parte da personalidade, chamada superego, que tem um papel tão importante na nossa vida, foi se formando, e agora estará em pleno funcionamento. A partir do final da fase fálica, a criança será mais apta a controlar sua impulsividade, suas vontades e desejos, levando em conta as realidades externas e os impeditivos para a plena e imediata satisfação de suas vontades. Isso será um avanço incrível e fundamental no seu desenvolvimento! 36GESTÃO DE PESSOAS E, nesta formação, o equilíbrio das práticas educativas parentais é fundamental. Os pais, no seu comportamento, em relação à criança não podem ser nem austeros, auto- ritários e severos demais, nem permissivos e condescendes demais. Aos olhos da criança os pais podem parecer severos e punitivos demais. Mas a crescente imposição de li- mites para a criança é fundamental para estruturação adequada da personalidade. 37GESTÃO DE PESSOAS A personalidade da criança está em construção. E para que isso aconteça da forma mais saudável possível, para que a idade adulta dela seja capaz de lidar com o mundo, é preciso um balanço entre autori- dade e permissão, além de, sempre, muito afeto. Os vínculos afetivos vão acontecendo enquanto são dadas, para a criança, ordens, comandos, regras e carinhos. São eles que vão consolidando o ego e dando força para essa obra que está em construção – a per- sonalidade. Lembrando sempre do nosso lado do sol da calçada, vamos consolidar em nós o entendimento de que, a maior parte da nos- sa personalidade foi montada até estas fases que terminamos de ver. Do lado do sol da calçada às pessoas tem autoconhecimento, e este entendimento será bem importante para desenvolvermos o mesmo. Até o final da fase fálica as três estruturas da personali- dade – id, ego e superego - estão formadas, bem como, as relações entre elas estão se consolidando e estabelecendo, de forma cada vez mais clara, o papel bem definido. Assim sendo, nestas fases que estudamos está a base, a origem de muitos dos nossos comportamentos, e precisamos entendê-los bem para olhar nossos comportamentos com um olhar diferenciado. Usando um exemplo bem simples e até mesmo caricato, eu preciso entender que quando sofro alguma frustração na vida e reajo como um “bebê chorão”, que grita e esperneia para que sua vontade seja atendida imediatamente, eu estou me com- comportando como quando eu estava lá na fase oral e, diante da fome, gritava e chorava chamando pelo alimento, sem paciência e tolerância alguma. Esse entendimento vai aumentar a minha capacidade de au- toconsciência e, com isso, a capacidade de deixar de agir, em certas situações, como um “bebê chorão”! Nós passamos pelas fases do desen- volvimento, mas elas não passam por nós! Elas ficam dentro de nós! Vamos lá para a próxima fase, a latência, considerada uma fase de descanso para as crianças e para os próprios pais, que vem de uma caminhada de anos lutando para domar instintos infantis sem frustrar e cercear demais a criança. Uma caminhada de anos que simboliza bem o que é o desen- volvimento humano: crescente e, cada vez mais complexa, a habilidade de lutar e lidar com forças externas e internas, de modo que se obtenha um equilíbrio que promova o bem-estar e saúde da pessoa. Bem-estar, este, ligado, na perspectiva desta teoria, com a redução da tensão e da frustração. E nessa caminhada de luta, a próxima fase, a latência, será um oásis no deserto! Latência: a formação plena do su- perego permitirá que a criança evolua para esta nova fase, a latência. Ela só será possível com o pleno funcionamento do superego. Será ela que permitirá a completa repressão de todos os dramas afetivos vividos nas fases anteriores. Anseios, vontades, desejos instintivos serão agora todos esquecidos, reprimidos e a vida da criança será marcada por uma “calmaria” instintiva. Não surgem novas áreas do corpo que funcionem como zona erógena, e o prazer dos instintos passa para segundo plano. 38GESTÃO DE PESSOAS Agora, a criança vai destinar sua energia instintiva para outras atividades que não tem finalidades sexuais direitas de prazer sexual, como por exemplo, o estudo e brincadeiras. Isso será possível graças a um processo psicológico chamado subli- mação, que acontecerá pela primeira vez nesta fase, e, que, acompanhará toda a vida da pessoa. Sublimação é justamente esse processo de canalizar energia instintiva para atividades que não tem finalidade sexual, mas que podem ser igualmente fontes de prazer. Esta sublimação só acontece agora na vida da criança, porque ela é obra de um acordo entre o ego e o superego. A energia instintiva será utilizada para outras ativi- dades, ficando à disposição do ego, como uma fonte inesgotável. Esta capacidade de sublimar, de ter prazer em atividades produtivas sem caráter sexual será uma das qualidades ou apti- dões mais importantes para a personalidade adulta, pois ela permite aliviar as pressões instintivas e atender demandas externas da vida adulta. Trabalhar e estudar são os maiores e melhores exemplos de sublima- ção. Freud, ao escrever toda esta teoria, já dizia que a pessoa adulta normal e saudável, é aquela capaz de amar e trabalhar, ou sejam de amar e sublimar. Agora que estamos falando de su- blimação, este mecanismo que nos per- mite ter energia para o trabalho e para o estudo, obter prazer nas atividades, cabe lembrarmos lá do nosso personagem “ari- gó”. O “arigó”, pelas suas características que já descrevemos, é uma pessoa que, por problemas acontecidos durante suas fases dodesenvolvimento, não possui uma plena capacidade de sublimação. Para ele, traba- lhar jamais é sentido ou percebido como fonte de prazer. Trabalhar nunca será fonte de prazer, ao contrário, sempre é fonte de dor e sofrimento, sempre é um fardo pesado demais, do qual quer se livrar. Trabalhar é apenas uma forma de conseguir e manter sua subsistência, mas algo totalmente dis- sociado da palavra prazer! Importante lembrar disso, pois a nossa capacidade de sublimação está li- gada com a nossa capacidade de usufruir e sentir prazer no trabalho. Caso isso não ocorra, eis aí uma oportunidade para mudar alguma coisa no leve e frágil equilíbrio dos nossos comportamentos. Não devemos nos acostumar em não ter prazer no trabalho e no estudo. Devemos, sim, entender que quando esse prazer não ocorre, alguma coisa não está funcionando bem dentro de nós! E precisamos descobrir o que é isso que está bloqueando esta capacidade de sublimação. Não podemos, em prol do nosso bem-estar, nos acostumarmos em trabalhar e estudar somente por obrigação, por dever, abrindo mão do prazer que poderíamos obter destas atividades. Tendo falado sobre a sublimação e sua importância para a vida adulta, voltemos agora para a última fase psicossexual do desenvolvimento da personalidade, a fase genital adulta. Fase Genital Adulta: esta fase co- meça quando as transformações físicas da puberdade, com toda sua explosão de hor- mônios “empurra” a criança para fora da latência. As mudanças corporais dificultam a manutenção da latência, a manutenção das vontades instintivas reprimidas pelo superego. Agora, durante a fase chamada 39GESTÃO DE PESSOAS adolescência, todos os conflitos e dramas instintivos voltam a fazer parte da vida in- terior da criança, não mais criança agora, mas um jovem, com um corpo apto a sa- tisfazê-los. Veja que os dramas e emoções ligadas às vontades instintivas não tinham ido embora, estavam apenas reprimidos, represados, e agora voltam com força total. Por isso, esta fase é considerada normal- mente uma das fases mais complicadas, atormentadas da vida. Uma fase de defi- nições, descobertas, conflitos, internos e externos. Ao final dessa vida, chegando à personalidade, na idade adulta, teremos a completa definição da identidade da pessoa e a capacidade de atender, tanto as pressões instintivas internas, quanto as demandas da realidade. Freud enfatizou em toda sua teoria, como estamos vendo, a importância destas fases dos primeiros anos da infância na de- terminação de como será a personalidade adulta. Segundo ele, os primeiros cinco anos são cruciais, até a fase genital infantil ou fá- lica. Para ele, o que nós somos como adultos, como é nosso ego, como nos comportamos, pensamos e agimos e determinamos tipos, qualidade e intensidades de todos estes con- flitos a que estamos expostos nas primeiras etapas da vida. Como dizem os autores em psicologia, muito antes de aprendermos a ler, a escrever e a fazer contas, precisamos aprender a lidar com emoções e conflitos e sobreviver a elas. Então, como falávamos anteriormen- te, sobre o ego, e a importância de termos um ego forte, robusto, agora ao final destas fases, vemos que este ego robusto é o resul- tado de uma longa e dramática caminhada de fases do desenvolvimento. Uma cami- nhada ao longo da qual a criança precisa de algumas coisas essenciais: sentir-se amada e aceita, sentir-se livre para buscar suas gratificações e, ao mesmo tempo, sentir-se limitada nesta busca. Uma medida certa de liberdade e limites, sempre com muito afeto, aceitação e carinho. Isso é o que constrói um ego forte! Isso é o que prepara a pessoa para, na vida adulta, estar e desejar perma- necer, no lado do sol da calçada. No lado do sol da calçada se compre- ende bem que precisamos atender a dois senhores: nosso mundo interno com seus arroubos e vontades, e o mundo externo, com suas limitações, obrigações e limites. Este é o equilíbrio da vida. Esse é o mun- do dentro do qual devemos nos equilibrar, num constante movimento de satisfações internas e externas. Atender aos outros e a nós mesmos, é isso que fazemos no lado do sol da calçada! E, caso essa aptidão tão complexa não tenha sido construída, po- deremos ver, mais adiante, aqui nos nossos estudos, que podemos encontrar formas de aprender isso, de recuperar ou reconstruir o que não foi possível ao longo da cami- nhada do desenvolvimento – a mudança tão necessária. As fases do desenvolvimento não são um destino inexorável, são um caminho que pode sempre ser melhorado! E, dentro desta perspectiva psicanalí- tica vamos encontrar esta proposta que diz que, conforme acontecem os conflitos, as relações e os vínculos em cada uma das fases estudadas, teremos como herança aquilo que chamamos de traços de personalidade. Traços são os componentes da persona- lidade, responsáveis pela durabilidade e 40GESTÃO DE PESSOAS constâncias nos comportamentos das pes- soas. Não podemos visualizar os traços de personalidade, mas podemos “enxergá-los” nos comportamentos e atitudes das pessoas. Quando, nas fases anteriores, a crian- ça teve suas necessidades, ou muito satis- feitas, em demasia, ou muito frustradas, em virtude da incapacidade dos adultos de atenderem suas reais necessidades, te- remos à formação dos traços que podem ser entendidos como forças que levam à pessoa a funcionar como se estivesse fixada lá atrás, numa das fases pelas quais passou, que deu “zebra”. Zebra, no caso, foi a ex- trema frustração ou extrema gratificação das necessidades da criança. Lembre-se, do que falamos anteriormente, que para o desenvolvimento ocorra da forma mais saudável possível, precisamos do equilíbrio: nem muito prazer, nem muita frustração. Todos nós teremos os traços como herança, já que todos nós passamos pelas mesmas fases. A questão é que, quanto mais turbu- lenta for esta passagem, quanto mais “zebra” acontecer, mais intensos serão os traços, mais fortes. E isso torna-se um problema! Por quê? Porque os traços são responsáveis pela durabilidade e imutabilidade dos padrões de comportamento. Quanto mais fortes e intensos são os traços, menos flexibilidade a pessoa será capaz de ter diante das tarefas da vida, menos adaptabilidade ela terá, conse- quentemente, mais rígida ela será. A mesma tenderá a agir da mesma forma, em todas as situações da vida. Mesmo em situações novas, ela terá uma incapacidade de mudar seu padrão de pensamento, sentimento e comportamento. Ela terá dificuldade de se engajar em algum processo de mudança, mesmo que esteja sofrendo reveses da vida. Por isso, precisamos conhecer os tipos de traços de personalidade, jamais para julgar ou rotular uma pessoa, mas para compreen- der o seu comportamento e entender o grau de mudança ao qual ela está apta na vida. Esta sim é uma dica preciosa para nosso estudo: conhecer e compreender os traços da personalidade é muito importante, não para rotularmos as pessoas, ou para termos uma atitude conformista diante de si. Isso é importante, porque é o primeiro passo para o autodesenvolvimento: faz parte do autoconhecimento. Falaremos muito mais sobre isso, no próximo capítulo da nossa aula! E autoconhecimento está no topo do interesse e em toda parte das pessoas do lado do sol da calçada! 41GESTÃO DE PESSOAS COMPETÊNCIAS INTERPESSOAIS E AUTOCONHECIMENTO Como desenvolver as competências relacionadas à gestão de outras pessoas e, principalmente à gestão de si mesmo? Neste capítulo vamos estudar e compreender as compe- tências que podemos desenvolver, na idade adulta, e especial- mente, no mundo do trabalho, para nos transformarmos em profissionais de sucesso - gestores de si mesmos. Traços de Personalidade ou Perfis de Personalidade Se você fizer uma busca na literatura sobre traços de personalidade disponível, nas bibliotecas ou na internet, en- contrará uma infinidade de denominações e tipos de traços. Todos estão certos,cada um com seu enfoque. Mais ou menos como falamos sobre a personalidade, há uma infinidade de teo- 42GESTÃO DE PESSOAS rias, todas certas dentro da sua perspectiva. Aqui, vamos citar somente os três tipos de traços que tem relação com o tema que estamos estudando – fases psicossexuais do desenvolvimento - e que são originadas por experiências ou vínculos complicados entre crianças e adultos no início da vida. Personalidades com traços orais passivos: estes são traços originados nas experiências da fase oral. Levam à pessoa a ter uma predisposição em que há uma dependência fora do comum de outras pes- soas, devido excesso de gratificação oral. Precisam muito de outras pessoas para to- marem atitudes, fazerem escolhas e satisfa- zerem suas necessidades. Essa dependência excessiva inclui a tomada de decisões em coisas simples da vida, como por exemplo, que cor de calçado comprar, ou até mesmo decisões importantes, como por exemplo, que curso superior cursar. Normalmente essas pessoas com estes traços são muito crédulas e confiantes nos outros, confiam em demasia e esperam sempre o conse- lho ou orientação de alguém para tomar qualquer atitude na vida. São pessoas com pouca iniciativa, pró-atividade e receosas de fazer escolhas erradas na vida. Essa extrema dependência as tornam pessoas inseguras, medrosas, pouco aptas a lidar com os de- safios cotidianos com os quais, todos se deparam na vida. O lado do sol da calçada, para elas, depende, e só acontece quando alguém diz que é para lá que devem ir, e como fazer isso. Personalidades com traços anais: estes são traços originados nas experiências da fase anal. Levam à pessoa a ter uma pre- disposição para comportamentos teimosos e mesquinhos, marcados por necessidade de controlar tudo e todos. Gostam de guardar, organizar e reter coisas, porque as sensa- ções de bem-estar e segurança dependem do que é poupado, e, da ordem em que as coisas e todos os outros aspectos da vida são mantidos. São pessoas rígidas, obstinadas, cons- cienciosas, que apreciam e precisam muito da limpeza, ordem e organização, desde ordem nas suas gavetas, até ordem na sua vida amorosa. Estas pessoas não gostam e não sabem lidar com os imprevistos, com os riscos, com nada que saia da sua organização e ordem. Gostam muito de planejar tudo na sua vida, desde as coisas mais simples, como uma refeição do cotidiano, até as coi- sas mais complexas, como a vida amorosa. Normalmente, tendem a infringir às pessoas que estão ao seu redor, em qualquer ambiente, esta necessidade imperiosa de ordem, planejamento e controle. Dizemos 43GESTÃO DE PESSOAS que se pudessem, essas pessoas colocariam a vida, em todos os seus aspectos, numa pla- nilha de Excel, para ser calculada e organi- zada, em todas as suas vaiáveis. Costumam falar muito pouco de sentimentos e afetos, pois estas coisas são de uma dimensão mui- to difícil de ser organizada e colocada em ordem. Costumam ter uma aparência física mais sóbria e séria, que denota sua rigidez e sua necessidade de conter as coisas que possam sair do controle. A variabilidade e as incertezas da vida costumam fazer essas pessoas sofrerem muito, já que são incapazes de lidar bem com as incontrolabilidades da vida, sejam lá quais forem. Para elas, o lado do sol só será realmente ensolarado e atrativo, se for muito bem organizado e planejado, em todos os seus detalhes. Quase impossível! Personalidades com traços fálicos ou histriônicos: estes são traços originados nas experiências da fase fálica ou genital infantil. Levam à pessoa a ter uma predis- posição para uma necessidade imperiosa de conseguir, obter e manter das demais pessoas atenção, reconhecimento e elogios contínuos. Se recebem este reconhecimento se sentem bem, caso contrário se sentem frustradas e inferiores. São pessoas que gos- tam de chamar a atenção, de serem o centro das atenções e de terem o tempo todo seu valor reconhecido pelos outros. Precisam de “aplausos”, reconheci- mento, visibilidade, precisam “chamar a atenção” sempre. Geralmente tendem a ser pessoas expansivas, extrovertidas, vistosas, alegres, que se destacam por onde andam. Gostam de expressar seus sentimentos, fa- zendo isso quase sempre de modo teatral, inclusive usando a linguagem corporal de maneira muito intensa. Cabe aqui lembrar que, nos tempos atuais, de redes sociais, essas pessoas tem uma ferramenta a mais, aliada à sua necessidade de exibição e aten- ção! Estas adoram o lado do sol da calçada, porque neste lado do sol da vida, o clima está sempre quente, colorido e animando! Mas elas podem irritar as outras pessoas com essa necessidade de reconhecimento e vontade “de parecer”, podem parecer aos olhos dos outros, pessoas superficiais, fúteis e pouco confiáveis! — Percebam que os diferentes tipos de traços geram diferentes tipos de comporta- mentos, diferentes modos de funcionar no mundo, diferentes maneiras de lidar com as pressões internas e externas. Os traços são, efetivamente, responsáveis pela imensa e incrível variabilidade do comportamen- to humano. Algumas pessoas tendem a ter apenas um ou dois dos traços. Outras, tem uma mistura de todos, apresentando mais “colorido” em sua personalidade, mais flexibilidade de comportamento, porque se comportam, dependendo da situação, de formas diferentes, “usando” todos os seus traços. Então, como falamos anteriormente, esperamos que essa compreensão dos traços possa contribuir para desenvolvermos uma visão menos rasa e superficial do compor- tamento das outras pessoas. 44GESTÃO DE PESSOAS E agora, retomando nossa compe- tência inicial – lembram qual seria ela?! - compreender o comportamento hu- mano, o comportamento organizacional e as relações interpessoais nas organizações, desenvolvendo uma perspectiva sistêmi- ca e positiva da gestão de pessoas. Vamos ao final deste capítulo, abordar mais duas questões importantes. Uma destas questões diz respeito à ambivalência emocional. Vamos entender o que é isso. Como vimos anteriormente, no nos- so id estão presentes energias instintivas de duas ordens: a energia instintiva sexual, chamada de libido, e a energia instintiva agressiva, chamada de agressividade. Te- mos, portanto, dentro de nós, uma energia sexual, chamada de energia de vida, e uma energia agressiva, chamada de energia de morte. Ambas atuantes o tempo todo no id, impulsionando nossos comportamentos. Portanto, podemos dizer que temos, duas forças impulsionantes, o tempo todo, em ação dentro de nós: o amor e o ódio. Estes dois afetos, um positivo – o amor, e o outro negativo – o ódio - se manifestam sempre, ao mesmo tempo, nos nossos comporta- mentos. Isto é a ambivalência afetiva. Em todos os nossos vínculos afetivos, em todas as nossas relações interpessoais, estes dois afetos, opostos, estarão presentes e irão se manifestar, simultaneamente. Na prática, o que isto quer dizer? O que isso significa para nosso tão almejado conhecimento sobre o comportamento humano? Isso quer dizer que, em todas às nossas relações interpessoais temos, em relação às pessoas com as quais interagi- mos e com as quais estabelecemos vínculos afetivos, sentimentos positivos e negati- vos. Sentimos, por todas elas, amor e ódio. Nunca uma relação interpessoal afetiva será pura, somente de amor, ou somente de ódio. Nunca teremos, em relação a alguma pessoa que seja significativa para nós, sentimentos totalmente puros de amor, por mais que isso seja chocante. Sempre sentiremos um pou- co de ódio em relação a quem amamos. E sempre teremos um pouco de amor, mesmo em relação a quem mais odiamos. Isto significa que precisamos aceitar e tolerar a ambivalência inevitável, pre- sente em todas nossas relações afetivas. Um ego, forte, maduro, tolera e aceita que nada, nem mesmo, as mais amorosas re- lações interpessoais sejam puras. Sempre, vontades, desejos, anseios e afetos opostos estão presentes em todosos âmbitos da nossa vida. Nada é somente bom, amor, puro e positivo. Nada é somente ódio, ruim e negativo. Os opostos sempre estão juntos, convivem inevitavelmente e devemos saber lidar com isso. No lado do sol da calçada sabemos e toleramos que há momentos nos quais sentimos sentimentos negativos em rela- ção à uma pessoa que amamos. Que, por exemplo, posso sentir uma inveja danada de uma ótima amiga, que posso desejar ficar por instantes longe de um filho amado, e que posso ter momentos de muita raiva em relação à um colega com o qual tenho uma ótima relação no dia a dia. Essa compreen- são e aceitação da ambivalência inevitável, presente em todas as nossas relações, traz muitos benefícios. Um deles é que enten- demos que nada é perfeito e puro. 45GESTÃO DE PESSOAS Desistimos de procurar relaciona- mentos interpessoais e pessoas puras e per- feitas. A perfeição não existe. As pessoas são como são. As relações são como são, dentro das possibilidades de cada pessoa, com isso, desenvolvemos uma atitude mais compre- ensiva e de aceitação diante daquilo que, no senso comum, chamamos de imperfeições. Compreender a ambivalência afetiva nos torna mais tolerantes e nos permite sofrer menos em busca de coisas, pessoas e rela- ções interpessoais perfeitas. Citando um exemplo, conforme fala- mos anteriormente, pessoas que têm perfis de personalidade marcados pos traços anais, tem uma incapacidade de entender a aceitar a ambivalência afetiva presente em todas as relações interpessoais. Essas pessoas, com sua busca constante de ordem, organização e perfeição, buscam à relação perfeita, que é uma relação jamais maculada pelo ódio e pela agressividade. Essa ideia de ideali- zação de uma relação interpessoal perfeita, impossível, e inexistente na prática, causa muito sofrimento e frustração as mesmas. Enfim, é importante compreender- mos que em virtude da própria constituição da nossa personalidade, o amor e ódio, o lado bom e o lado ruim, o negativo e o positivo, estão sempre presentes, dentro de nós, e fora de nós. Para lembrar como essa questão da ambivalência é importante e presente o tempo todo na nossa vida, basta lembrar- mos desse símbolo, tão badalado por aí: o símbolo do “ yin e o yang”, forças opostas presentes em todos os fenômenos da na- tureza. Portanto, dentro da nossa temática de autodesenvolvimento, precisamos entender que a ambivalência, os opostos, as ambigui- dades, os contraditórios, os paradoxos, são inerentes à natureza humana e, portanto, precisamos aprender a lidar com eles, sem negá-los ou tentar eliminá-los. Tolerar e lidar de forma construtiva e paciente com a ambivalência afetiva será uma característica de egos fortes, que moram do lado do sol da calçada! Então, para concretizar essa questão da ambivalência num exemplo bem sim- ples: imagine que aqui, na nossa disciplina de gestão de pessoas, você encontre algum tema que te desagrade, do qual não goste nem um pouco. Você deverá tolerar esse tema, tolerar o desgosto por ele, para poder seguir em frente nos seus estudos. Não será porque a disciplina tem um tema que não agrada que você abandonará a mesma por completo. Este é um exemplo simples de tolerância, a ambivalência. E de como ela pode interferir na nossa vida quando não é bem tratada por nós mesmos. 46GESTÃO DE PESSOAS Outra questão importante que tem relação com o desenvolvimento das fases da personalidade, é que devemos tratar aqui o tipo de relação interpessoal que somos capazes de estabelecer. Sobre este tópico, vamos apenas abordar algumas ideias ini- ciais. Mais adiante, em outra disciplina des- te curso, Relações Humanas, veremos isso de maneira mais profunda. Por enquanto, somente para despertar a curiosidade de refletir sobre isso! Este é um tema muito importante para nossa questão do autode- senvolvimento. Vamos lá! Voltando lá para as fases psicossexu- ais do desenvolvimento da personalidade. Na primeira e segunda fases do desenvol- vimento – fase oral e anal respectivamente, vimos que a figura materna tem um papel fundamental na vida da criança. E atende a todas às necessidades da mesma. Ela exis- te para satisfazer suas necessidades e dar toda a sensação de segurança e conforto necessárias. A mãe vive para a criança e para atender suas necessidades. Precisa estar, no começo da vida, totalmente disponível, física e afetivamente, para ela. Isto permitirá um desenvolvimento saudável na base da personalidade. Para a criança, por sua vez, não interessa se a mãe está disponível ou não, se a mãe quer ou não esta dependência, se a mãe pode ou não estar disponível. Os desejos e necessidades da mãe enquanto pessoa não entram em questão. A mãe, en- quanto tal, existe para exercer seu papel de mãe e satisfazer à criança. A este tipo de vínculo afetivo, ou de relação interpessoal chamamos de relação dual. Dual, porque envolve duas pessoas somente, e porque não leva em considera- ção os desejos e necessidades de uma das partes. Somente os desejos e necessidades de uma das partes pautam à relação e, a própria relação, só serve para satisfazer, para gratificar, às necessidades de uma delas. Não se estabelece uma relação de reciprocida- de, de troca, de consideração para com as necessidades de ambas, somente de uma. O mundo de uma das partes deve ser a busca da satisfação da outra parte. Ela só existe – no caso, a mãe – enquanto fonte de prazer, de gratificação para a outra parte – à criança. As suas próprias gratificações não existem e não são levadas em conta. Vejam que este tipo de relação dual necessariamente está carregada de um certo grau de dependência e egoísmo. Claro que não podemos dizer que a criança é egoísta, pois ela não tem consciência do que isto significa, mas, apenas, se interessa pelas suas gratificações. No entanto, a relação dual das fases iniciais do desenvolvimen- to se baseiam na posição egocêntrica da criança (Bee, 1997). É o seu mundo e a sua perspectiva que contam e que devem pautar o que acontece ao redor dela. O outro 47GESTÃO DE PESSOAS não consegue ser percebido como um ser a parte, com suas próprias necessidades e peculiaridades. Pois bem, este tipo de relação dual, à medida que a criança vai progredindo nas fases do desenvolvimento e ingressa na fase fálica ou genital infantil, esse processo é substituído por aquilo que chamamos de relação triangular. . Na fase fálica, a criança vai se deparar com esse tipo de relação pela primeira vez. Na relação triangular, bem diferente da relação dual, as partes envol- vidas precisam se aperceber, aceitar, saber lidar com as peculiaridades, necessidades e vontades das outras partes. A criança pre- cisa entender o triângulo: ela, a mãe, e todo um outro mundo de relações e elementos de todas as espécies que fazem parte do mundo da mãe, que são importantes, e dos quais, a criança não faz parte. O triângulo é justamente isso: o outro que tem atenção e interesse da mãe, e que não é a criança. Esse outro pode ser outra pessoa, o trabalho, um interesse profissional, um lazer, um hobby, uma tarefa, seja lá o que for, mas precisa ser algo da mãe em que a criança não faça parte. Ela precisa se sentir excluída des- sa terceira parte. E tolerar, aceitar e saber aprender com essa exclusão. Voltaremos a falar sobre isso na dis- ciplina de Relações Humanas, tal a mag- nitude da importância disso para o tipo de qualidade das relações interpessoais que as pessoas estabelecem na vida adulta. Ser capaz de evoluir de modos de relações duais, para modos de relações triangulares e uma evolução muito importante na vida da pes- soa. Egos fortes são capazes de estabelecer relações triangulares, eles abandonam, lá na infância, as relações duais egoístas. Relações duais de dependência e egoísmo não fazem parte do lado do sol da calçada. Assim, chegamos ao final desta nossa primeira competência. Muito importante que você faça uma reflexão neste momento,que você tente organizar seus pensamentos, suas reflexões para avaliar se, efetivamen- te, você atingiu o que esperamos até aqui: começar a desenvolver uma compreensão mais ampla, mais profunda, acerca do com- portamento humano, seja do seu próprio comportamento ou do comportamento das outras pessoas. Com este objetivo em mente, vamos continuar nossa viagem para construir o nosso lado do sol da calçada, com a nossa segunda competência a ser desenvolvida. Esperemos, acima de tudo, que você esteja apreciando a viagem, que esteja cada vez mais fascinado pela possibilidade de aprender a gerir pessoas, começando pela sua própria autogestão. Vamos lá, para nos- sa segunda competência! 48GESTÃO DE PESSOAS Segunda Competência Desenvolver a sua Inteligência Emocional, com o desenvolvimento gradual e constante das cinco habilidades que a compõe. Repare na figura ao lado. Pare um minuto a sua leitura e pense sobre o que ela desperta em você. Que ideias e sentimentos ela desperta? O que seria isso que está saindo da mão? Se essa mão da figura fosse a sua mão, o que poderia sair dela, de modo tão colorido, leve e bonito como isso que aparece na figura? Pois bem, esta imagem deve servir para inspirar você para esta nova temática que vamos abordar. Nosso objetivo é despertar em você a consciência do quão importante será desenvolver, em você mesmo, esta competência chamada de inteligência emocional. A inteligência emocional é uma competência que está totalmente presente nas atitudes e comportamentos das pessoas que estão do lado do sol da calçada. Ela é uma competência que permite a pes- soa desenvolver e experenciar todas as suas potencialidades, todos os melhores aspectos de sua personalidade, sejam lá quais forem seus traços de personalidade. Dentro da perspectiva teórica que já abordamos aqui, a Psicologia Positiva, diríamos que a inteligência emocional é o auge do autodesenvolvimento. Pois bem, esperamos que você se engaje nesta parte da nossa viagem com muito entu- siasmo e sede de aprender, porque a inteligência emocional será um verdadeiro diferencial competitivo na sua vida, tanto privada, 49MODELOS DE GESTÃO quanto profissional. Vamos chamar a inteligência emo- cional de competência. Ela é uma com- petência que pode ser desenvolvida por todas pessoas. Não nascemos com ela. Ela pode ser aprendida a qualquer momento da vida, e é isso que desejamos aqui. Claro que o desenvolvimento desta competência exige muita disciplina e esforço, mas esse trabalho mental será recompensador. E o desenvolvimento da inteligência emocional não tem absolutamente nada a ver com a inteligência intelectual, com nos- so QI. Por outro lado, podemos dizer que uma pessoa inteligente emocionalmente, consequentemente, se tornará uma pessoa mais inteligente, de modo geral. Para fins de destacar a importância desta competência, costumamos dividir todas as pessoas do mundo, de uma ma- neira bem genérica e quase lúdica, em dois grandes grupos de pessoas: o grupo das que apresentam a inteligência emocional e o grupo das que não apresentam a inteligência emocional. Aqui você deve se perguntar duas coisas: HORA DE PARAR E PENSAR! Em qual desses dois grupos eu estou? Em qual desses dois grupos eu quero estar, por opção? Espero que o estudo até aqui realizado tenha despertado em você a ati- tude de querer desenvolver sua inteligência Emocional! Mas, vamos lá para mais alguns argumentos. As pessoas do grupo que têm a inteligência emocional bem desenvolvida são pessoas que possuem uma capacidade de lidar com os problemas de uma forma mais eficaz, sem desenvolver sofrimento exagerado diante das dificuldades da vida. Elas apresentam mais tranquilidade, mais serenidade e, consequentemente, utilizam sua energia em atividades produtivas, ao invés de utilizar sua energia em focos negativos, tais como problemas e conflitos. Tornam- se pessoas mais sociáveis, agradáveis e boa de relacionamento. Sabem gerir a si mesmas e, naturalmente, se tornam pessoas inspiradoras para as que estão ao seu redor. Decididamente, são pessoas que moram e que cultivam o lado do sol da calçada! 50GESTÃO DE PESSOAS Dito isso, vamos ao conceito de inteligência emocional. Existem muitas definições de Inteligência Emocional. Este conceito tem suas origens ligadas ao psicólogo Howard Gardner, no contexto da sua Teoria das Múltiplas Inteligências, criada na década de 80. Ele desenvolveu uma proposta que diz que, todas as pessoas possuem oito tipos de inteligência, sendo que duas delas são a inteligência interpes- soal e a intrapessoal. A soma destas duas inteligências formaria a inteligência emo- cional. Posteriormente, outro psicólogo, Daniel Golemann, com seus livros sobre a Inteligência emocional, popularizou o conceito. A figura ao lado ilustra esta Teoria das Múltiplas Inteligências. Todas definições encontradas na lite- ratura para a IE (Inteligência Emocional) são corretas, mas podemos usar as conside- rações de Caruso e Salovey (2007) que diz que, a inteligência emocional e a capacidade de utilizar de maneira coesa emoções e razões, com o objetivo de identificar, deno- minar e gerir as nossas próprias emoções e as emoções dos outros. Assim, a inteligên- cia emocional seria uma competência, que Fonte: adaptado de Howard Gardner (1983) 51GESTÃO DE PESSOAS pode ser desenvolvida por qualquer pessoa, e que tem um papel fundamental na vida privada e na vida profissional das pessoas, conforme falamos anteriormente. Mais adiante, quando falarmos sobre liderança, veremos que no nosso mundo atual, um líder poderá ser líder legítimo, somente, se ele desenvolver sua inteligência emocional E, obviamente, lembrando do nosso personagem, precisamos dizer que o “arigó” não apresenta nenhum traço dessa inteligência emocional. Ele, inclusive, não tem e não pensa que seria importante ter. Pensa e diz que essa conversa toda sobre emoções e seus gerenciamentos não passa de “papo de psicólogo”. Mas, como não somos “arigós”, va- mos lá conhecer as cinco habilidades que compõem a inteligência emocional. Im- portante destacar que as habilidades têm uma determinada ordem, elas não podem ser desenvolvidas aleatoriamente. Para que uma possa ser desenvolvida, a anterior, que funciona quase como que um pré-requisito, deve já estar em pleno funcionamento na pessoa. Veja que, para cada habilidade, co- locamos o nosso sol, que tem nos acom- panhado ao longo da disciplina. A ideia é essa mesma: a cada habilidade desenvolvida, mais ensolarada ficará a pessoa. Ou, rela- cionando com outra temática já abordada por nós, quanto mais inteligência emocio- nal desenvolvermos, mais forte e robusto ficará nosso ego, para lidar com as pressões advindas do mundo interno ou externo. A u t o c o n s c i ê n c i a o u Auto-Observação: habilidade de reco- nhecer e entender seu temperamento, suas emoções e iniciativas, assim como seus efeitos nos outros. A auto-observação é a capacidade de identificar, no momento em que estão acontecendo, seus pensamen- tos, emoções e comportamentos. A marca desta habilidade é a apresentação de um senso de autoconfiança, decorrente uma autoavaliação realista e senso de humor para com os próprios defeitos, e orgulho para com as próprias virtudes. A pessoa que desenvolve a auto-observação conseguirá ampliar, continuamente, um excelente grau de autoconhecimento. Autodisciplina ou Autocontrole: habilidade de controlar ou redirecionar impulsos e temperamentos desordenados. É uma propensão a protelar julgamentos e pensar antes de agir. A pessoa que consegue fazer isso desperta confiança e integridade e está apta a lidar com as incertezas. Esta habilidade diz respeito à capacidade da pessoa que controla a expressão externa de suas vontades e pensamentos, sempre com o objetivo de gerir às relações interpessoais nas quais está envolvida. Uma vez desen- volvida a auto-observação, o autocontrole surge comoconsequência natural. 52GESTÃO DE PESSOAS Automotivação: é uma paixão pelo trabalho e pela produtividade, de modo geral, por razões que vão além do dinhei- ro, poder ou posição. É uma propensão a perseguir metas com energia e persistência. A habilidade de ser auto motivado torna à pessoa, independente, da existência de re- compensas e prêmios advindos do ambiente externo. Ela se motiva por motivos internos, conhecidos por ela em decorrência de seu autoconhecimento bem desenvolvido. A pessoa auto motivada não fica adiando suas realizações com especulações. Ela pensa, planeja e realiza, movida por suas energias internas. Podemos dizer, também, que ela possui uma ótima capacidade de sublima- ção. Lembrem de sublimação! Empatia: é a capacidade de entender o modo de ser emocional das outras pessoas. A pessoa com esta habilidade tem facilidade em construir e manter relacionamentos e consegue se sensibilizar com às questões alheias. Esta é a habilidade mais facilmente reconhecida, todos sentem quando estão diante de uma pessoa empática. A empatia pode ser considerada como um “adubo” para as relações interpessoais saudáveis, para os vínculos afetivos que promovem o bem-estar das mesmas. Habilidade Social: é a capacidade de gerenciar relacionamentos e desenvolver uma ampla e significativa rede de relações interpessoais. A pessoa com esta habilidade tem um amplo repertório de condutas e sabe utilizá-las com flexibilidade, de acordo com as demandas de seu ambiente social. Ela possui uma eficiente e eficaz capacidade de comunicação verbal e não verbal. Sabe falar, ouvir e responder de forma empá- tica aos outros que precisam e querem se comunicar com ela. Esta habilidade é fun- damental para o profissional que vai lidar com pessoas e gerenciar equipes (para quase todos, então!). Na verdade, esta habilidade é a culminação de todas as outras habilidades da inteligência emocional. 53GESTÃO DE PESSOAS Todas estas habilidades podem ser aprendidas ou aprimoradas. É claro que esse processo de aprendizagem não é fácil. É lento, exige persistência, tempo e com- promisso. Mas os benefícios que advêm de uma inteligência emocional, bem de- senvolvida, tanto para o indivíduo, como para a organização onde ele está inserido, tornam válido e esforço, como já explicado anteriormente. Importante citar que a inteligência emocional cresce com a idade, ou seja, à medida que a pessoa vai adquirindo matu- ridade, ela se torna mais inteligente emo- cionalmente. Os treinamentos que visem desenvolver a inteligência emocional devem ajudar as pessoas a abandonar seus velhos hábitos, comportamentos e estabelecer ou- tros novos, preferencialmente, numa abor- dagem individualizada. Além disso, a cons- trução da inteligência emocional não pode acontecer sem o sincero desejo de mudança. Uma palestra, um seminário, um livro, um manual, não ajudam. É preciso vivenciar os problemas e experenciar novos modos de ser. O fundamental para este aprendizado é a motivação e experimentação. Ou seja, o ensolarado desejo de mudar. 54GESTÃO DE PESSOAS Pense! Reflita! Responda! Aqui, vamos parar um pouco de ler e vamos nos deter na tarefa: Escreva uma carta para você mesmo dissertando, nela, sobre estas cinco habilidades. Escreva uma autorreflexão que mostre como estas habi- lidades estão presentes nas suas atitudes e comportamento. Escreva sobre o quanto você as tem desenvolvidas, quais são mais desenvolvidas, quais são menos desenvol- vidas, qual faz mais falta nas suas relações interpessoais, e ideias de como você poderia se engajar num processo para desenvolver todas elas. O objetivo desta carta deve ser uma autorreflexão sobre como está a qua- lidade da sua Inteligência Emocional. Esta carta já irá funcionar como um exercício da primeira habilidade, da auto-observa- ção. Após escrever a carta leia-a e guarde. Periodicamente leia a carta, novamente, para que a mesma o ajude neste processo de autodesenvolvimento! 55MODELOS DE GESTÃO Lembrando novamente do nosso personagem “arigó”, imagine se ele escre- veria esta carta! Ele consideraria esta tarefa pura perda de tempo, uma tarefa sem senti- do, porque para ele refletir e pensar nestas questões de autodesenvolvimento não faz o menor sentido. Como nós estamos aqui para extirpar qualquer rastilho de espírito “arigó”, em nós mesmos, capriche na sua carta para si mesmo! Ela pode ser uma ferramenta interessante para sua mudança pessoal! Pois bem, agora que já falamos sobre nossa segunda competência da disciplina, vamos para a última competência. Etapa final da nossa fascinante viagem! A cada página que você lê, procure avaliar o quan- to você está predisposto a se engajar num processo de mudança, de autodesenvolvi- mento. Avalie o quanto você está disposto a se mudar para o lado do sol da calçada e a cultivar comportamentos e atitudes que contribuam para sua evolução. Na nossa ter- ceira competência a ser desenvolvida, abor- daremos temas que têm relação com nossa postura nos ambientes organizacionais, por onde passamos, com a possibilidade de ser um trabalhador engajado e comprometido com os objetivos de produtividade do nosso trabalho. Tudo o que estudamos até aqui deve servir de base, de conteúdo para que nossa postura, no mundo do trabalho, seja cada vez mais produtiva, mais engajada e mais ensolarada. Vamos adiante! 56GESTÃO DE PESSOAS ATITUDES NO MUNDO DO TRABALHO Neste capítulo quatro vamos estudar as atitudes que uma pessoa que está em processo de autodesenvolvimento apresenta diante das adversidades do cotidiano profissional. Nossa terceira competência será desenvolver a sua Com- petência Interpessoal, de modo que você possa estabelecer rela- ções mais funcionais e saudáveis em todos os ambientes nos quais você transita, especialmente nos ambientes organizacionais nos quais trabalha. Crescentemente o mundo do trabalho precisa de menos pessoas “arigós”, e mais, de pessoas que estejam do lado do sol da calçada! Repare que estamos usando o termo mundo do trabalho e não mercado de trabalho, e isso, não é somente uma questão de nomenclatura. Para o “arigó” o que importa na vida é conseguir um emprego, o que importa para ele é o mercado de trabalho, no qual estabelecem-se relações de trabalho bem definidas, reguladas pela legislação trabalhista. Desta relação de trabalho pretende-se extrair seu sustento. E 57GESTÃO DE PESSOAS era isso, somente isso. O trabalho serve para a subsistência. Porém, quando falamos em mundo do trabalho, nossa visão se amplia. O mundo do trabalho inclui, sim, às relações formais do mercado de trabalho entre empregados e empregadores, mas não se restringe a isso. O mundo do trabalho inclui empregos, trabalho, produtividade, criação de oportunidades, motivação, situ- ações que permitem às pessoas conseguir seu sustento, mas, mais do que meramente seu sustento. Inclui situações cujas pessoas possam desenvolver todas suas potenciali- dades, possam sentir o significado do termo sublimação, possam incluir suas atividades laborais no contexto daquilo que dá prazer e sentido à vida. No mundo do trabalho, trabalhar, produzir são atividades prazerosas, agra- dáveis. No lado do sol da calçada falamos, pensamos e queremos estar no mundo do trabalho, um mundo muito mais amplo e cheio de possibilidades de autodesenvolvi- mento do que o mercado de trabalho. Portanto, estudaremos a seguir al- guns tópicos que são indispensáveis para que nos preparemos para este mundo do trabalho, cada vez mais dinâmico, comple- xo e que clama por pessoas competentes, emocionalmente e interpessoalmente. Definições e Critérios para a Competência Interpessoal Dizemos que uma pessoa tem com- petência interpessoal, especialmente no mundo do trabalho, quando ela sabe se relacionar. As pessoas que estão do lado do sol da calçada têm essa competência muito desenvolvida. Elas têm essa competência bem desenvolvida porque tiveram umahistória de vida saudável, que “construiu” um ego forte e apto para os embates que existem no contexto das relações interpes- soais, ou, porque aprenderam a se avaliar e a desenvolver esta competência ao longo da vida. Mas o que é saber se relacionar? Se eu perguntasse para você refletir por alguns segundos sobre essa questão: você sabe se relacionar com as pessoas? Provavelmente sua reposta seria: sim, claro que sei! Pois bem, todas pessoas têm uma tendência em afirmar que sabem se relacionar com as ou- tras. Mas, vamos refletir. As relações inter- pessoais podem ser uma fonte inesgotável de satisfação, de bem-estar, de qualidade de vida no cotidiano das pessoas. No en- tanto, podem ser uma fonte inesgotável de problemas, conflitos, insatisfações e dores (e na maior parte das vezes, assim o são). Portanto, se todos soubessem se relacionar da forma como otimistamente avaliam sua própria capacidade interpessoal, teríamos menos conflitos, menos problemas, mais sol nas relações humanas no nosso cotidiano. Assim sendo, é importante desenvol- vermos uma perspectiva humilde da nossa competência interpessoal, pensando que ela sempre pode e deve ser aprimorada, para que possamos estabelecer relações satisfa- tórias, em todos os âmbitos de nossa vida: afetiva, familiar, social, escolar e laboral. E, o bom disso, é que quem aprende a se relacionar, não esquece mais. Poderá utili- zar sua competência em todas as áreas de sua vida e sempre aprenderá mais com as relações que estabelecer. 58GESTÃO DE PESSOAS Para refletir sobre nossa capacidade de nos relacionarmos adequadamente, de maneira saudável, com as outras pessoas, vamos conhecer dois critérios que podemos utilizar para avaliar nossas relações inter- pessoais e saber se elas podem ser tidas como satisfatórias, nos vários contextos da vida! O primeiro critério diz respeito a reciprocidade. As relações interpessoais podem ser consideradas saudáveis quan- do elas envolvem a reciprocidade, isto é, ambos os envolvidos estabelecem trocas igualitárias e justas. Estas trocas podem ser: atenção, afetos, tempo, favores, coi- sas materiais, disponibilidade, etc. No en- tanto, ambos os envolvidos precisam ter a sensação de que ambos estão dando e recebendo, de maneira igualitária. Numa relação interpessoal saudável, seja em que contexto for, os envolvidos não se sentem explorados e injustiçados. Há troca entre as pessoas, não dependência, nem aquele terrível sentimento de se sentir dando, sem nada receber, ou recebendo muito aquém do que se precisaria. Outro critério é a melhora da auto- estima nos envolvidos. Podemos dizer que às relações que estabelecemos são saudáveis quando elas promovem, pelo modo como são conduzidas, um incremento, uma me- lhora na autoestima das pessoas. Sempre que estivermos nos relacionando, interagin- do com alguém, ao término desta relação, seja ela com duração de alguns minutos, de uma hora, de um turno, ou de meses, as pessoas envolvidas devem ficar com a sen- sação de que aquela interação fez bem para elas, promoveu seu desenvolvimento, trouxe coisas boas, enfim, fez elas se sentirem me- lhor. Isso se refere aquela sensação boa que temos quando encontramos, conversamos ou interagimos com uma pessoa, e, após a interação, ficamos com aquela sensação: “nossa, como me fez bem, como foi bom estar com ela”! As relações interpessoais são saudáveis quando deixam esse rastro positivo em quem participou delas! Então, para que possamos usufruir de todos os benefícios que uma relação interpessoal possa trazer, precisamos pensar nossas relações no contexto de algumas ideias, que veremos a seguir. A primeira ideia importante para refletirmos sobre nossa competência interpessoal será a ideia de avaliarmos quais óculos usamos! “Mas eu não uso óculos”, você pode estar pensan- do! Engano! Todos nós usamos óculos, o tempo todo! Os Óculos que Usamos (Ou nossos Modelos Mentais) “Tudo é uma questão de ponto de vista: para a formiga, gota de chuva é tsunami.” Matheus Rocha 59GESTÃO DE PESSOAS Você sabia que todos nós usamos óculos, o tempo todo! A partir de agora você sabe disso! São óculos invisíveis, que estão sempre “na frente” dos nossos olhos, e com eles olhamos e interpretamos o mundo que está ao nosso redor. Estes óculos invisí- veis são aquilo que chamamos de Modelos Mentais. Modelos Mentais são representações mentais de situações reais ou imaginárias. São as lentes ou filtros por meio das quais vemos as coisas, e, como qualquer filtro ou lente, podem proporcionar distorções (Mariotti, 2010). Estes modelos mentais tendem a ser fixos, mas não são uma re- presentação exata daquilo que vemos, são uma construção da nossa mente, cheia de “coloridos” particulares. Eles existem para nos dar explicações sobre o que acontece ao nosso redor. Eles nos ajudam a perceber à realidade, ou melhor dizendo, na verdade eles são o filtro que percebe a realidade, ao nosso redor. Portanto, não existe realidade, existe à realidade construída pelo nosso mo- delo mental. Costumamos construir e usar, o tempo todo, modelos mentais acerca de nós mesmos, das outras pessoas e dos acon- tecimentos que ocorrem ao nosso redor. Nós vamos aqui chamar nossos modelos mentais de óculos, os óculos que usamos o tempo todo para enxergar o mundo. São nossos filtros cogniti- vos para entender o mundo e para organizar nossa ação no mundo. E estes óculos podem ser de várias formas, vários tipos ou cores. Basicamente, assim como nós dividimos as pessoas em dois grandes grupos acerca de sua inte- ligência emocional, aqui também vamos dividir em dois grandes grupos acerca do tipo de óculos que utilizamos. Podemos dividir às pessoas em dois grupos: o grupo de pessoas que usa óculos colorido e o grupo de pessoas que usa óculos escuro. Seu desafio agora, será compreender quais são as diferenças entre estes dois gru- pos, qual a relação do tipo de óculos com tudo aquilo que estudamos anteriormen- te e escolher, por fim, qual o grupo mais adequado para estar levando em conta às necessidades contemporâneas do mundo do trabalho. Lembrando que estes óculos, en- quanto processo de interpretação do mun- do, são um processo in- consciente. Não estamos o tempo todo atentos à qualidade da nossa inter- pretação, ela funciona no automático. Por isso é impor- tante ser capaz de sair desse funcionamento no piloto automático e dar-se conta do tipo de óculos que usamos. Eis aqui um outro exemplo de exercício da primeira habilidade da inteligência emocional, a auto-observa- ção. Ah, já íamos esquecendo! Você deve identificar, também, em qual esses grupos nosso personagem “arigó” está situado! Isso vai ser fácil! As pessoas que usam os óculos escu- ros, obviamente, não estão do lado do sol da calçada. O “arigó” usa óculos escuro. Estes óculos escuros funcionam como uma lente negativa que faz a pessoa perceber de forma negativa a si mesmo, as outras pessoas e aos eventos que a cercam. Em virtude da escuridão dos seus óculos ela acaba tendo uma percepção seletiva do mundo, que cap- ta somente os aspectos negativos de tudo. 60GESTÃO DE PESSOAS E são estes aspectos negativos captados negativamente que vão servir de balizador para suas atitudes e comportamentos. O pessimismo funciona como um pano de fundo em que esta pessoa vai agir. Ela age sempre de maneira a esperar o pior de cada situação, sendo que esta percepção negativa das coisas, em geral, afeta de modo muito ruim sua competência interpessoal. Nas suas interações a pessoa tem sempre uma tendência de fazer interpretações ne- gativas da pessoa que está a sua frente e da própria interação. Na verdade, o fato de usar óculos escuro predispõe a não gostar das interações interpessoais e a não conseguir usufruir do prazer que é uma interação po- sitiva. E, este modo de filtrar à vida, negati- vo, pessimista, desesperançoso, obviamente, tem consequências muito ruins.Esta pessoa experiência em sua vida muito mais emoções negativas do que po- sitivas, e tende a apresentar comportamen- tos que despertam, no mundo que a cerca, hostilidade e aversão. E assim, ela fica presa num círculo vicioso: seus óculos escuros gera comportamentos pouco competentes interpessoalmente que, por sua vez, criam eventos ao seu redor ruins, que só confir- mam sua percepção negativa da realidade. A tendência dela será se esquivar das relações interpessoais e viver da maneira menos in- terativa possível. Assim sendo, as demandas e desafios do mundo do trabalho são sempre percebidas como problemas e não como demandas, le- vando a uma sensação de irritabilidade, desconfiança e incompetência. Tais emoções obviamente, em nada contri- buem para uma postura ativa e solucionadora dos proble- mas. Muito antes pelo con- trário, os problemas tendem a se agigantar. Aqui, novamente, vamos lembrar daquela imagem que vimos lá no começo da nossa matéria. Esses óculos escuros impedem com- pletamente o desenvolvimento de novas habilidades comportamentais, impedindo o início de qualquer processo de mudança. Por outro lado, e ainda bem, existe o grupo das pessoas que usam óculos colo- ridos. Obviamente são estas que moram e fazem o lado do sol da calçada. Seriam às pessoas que funcionam dentro do preceito estipulado pela Psicologia Positiva, de de- senvolver uma perspectiva otimista acerca de si mesmo, do mundo e das outras pesso- as. Estas pessoas têm, como consequência desses óculos coloridos, um funcionamento muito mais saudável, muito mais adequa- do para a vida, tornando-se, naturalmente competentes interpessoalmente. Nos diz a Psicologia Positiva (Bas- tianello & Hutz, 2015) que o otimismo, tanto do ponto de vista da sabedoria po- pular, passando pelas discussões filosóficas até os estudos científicos em Psicologia, está fortemente associado a uma visão positiva da vida, especialmente diante dos eventos difíceis. Pessoas com uma disposição oti- mista sustentam expectativas generalizadas positivas de êxito e realização no futuro, mesmo que enfrentem grandes dificulda- des ou fracassos. Um crescente número de estudos sustenta a ideia de que o otimismo confere mais benefícios nos âmbitos intra e interpessoal na vida da pessoa, do que o pessimismo. 61MODELOS DE GESTÃO No âmbito organizacional estes efei- tos são percebidos por meio do desenvolvi- mento de comportamentos mais eficazes, motivados e autônomos, exatamente o que se espera de um profissional não “arigó”, no mundo do trabalho contemporâneo. Estas pessoas estão, ao contrário do grupo anterior, sempre envoltas em um círculo vir- tuoso: sua percepção positiva de si mesmo, do mundo e das pessoas as levam a gostar e buscar interações interpessoais. Nas suas interações, por sua vez, são extremamente afáveis, positivas, empáticas e habilidosas, o que as faz criar um mundo ao seu redor marcado por interações que só aumentam sua autoestima. Tudo isso, por sua vez, re- força seus óculos colorido! E agora pense e responda: HORA DE PARAR E PENSAR! Em qual dos grupos você está hoje? Não importa em qual dos dois grupos você esteja, daqueles que usam óculos coloridos, ou daqueles que usam óculos escuros. O importante, para seu autodesenvolvimento, será justamente desenvolver esta capaci- dade de pensar sobre seus óculos, de não considerar que, seu modo de ver, perceber e reagir ao mundo, seja o único modo pos- sível. Reflita sobre seus óculos e sobre as consequências que ele traz em termos de qualidade de vida, de competência inter- pessoal e de possibilidades de sucesso no mundo do trabalho. 62GESTÃO DE PESSOAS Talvez aquilo que você considera como natural e inevitável ao longo de sua vida, nada mais seja do que as consequências estáticas dos seus óculos escuro. Pense sobre isso! Sem essa reflexão o caminho apara o autodesenvolvimento ficando completa- mente obstaculizado. Mas sabemos que essa reflexão nem sempre é fácil. Ela exige aquilo que tantos ouvem falar por aí, exige que você saia da sua zona de conforto. Mas as vantagens que viram são, sem dúvidas, enormes. Você precisa estar convencido disso para trocar a escuridão pelo lado do sol da calçada! Estes filtros cognitivos que usamos para interpretar à realidade, que estamos chamando de óculos, não são inatos. Não nasceram conosco, mas sim, o resultado das vivências que tivemos naquelas fases do desenvolvimento que já estudamos. Eles são desenvolvidos, ou dito de outra forma, aprendidos. Isso significa uma boa notícia. Se eles são o resultado de um aprendizado – aprendemos a ver o mundo de uma deter- minada forma – eles podem estar sujeitos às mudanças, modificações. Se aprendemos a usar óculos, podemos aprender a usar outro. Obviamente as pessoas têm óculos colorido e enxergam esta possibilidade de uma maneira mais receptiva, pois justamen- te suas cores na interpretação do mundo lhe dizem que sempre é possível e é bom mudar. Por outro lado, quem usa os óculos negativos são aqueles que mais precisa- riam modificar sua percepção da realidade. Encaram esta mudança como algo muito trabalhoso, difícil, inútil ou impossível. O primeiro passo para essa possibi- lidade de mudança dos óculos que usamos será a autopercepção do tipo de óculos que usamos. Normalmente, consideramos como natural a percepção que temos das coisas, afinal, sempre percebemos da mesma for- ma. Então, o que abre a possibilidade de mudança dos óculos será admitirmos que existem outros modos, outras percepções do mundo diferente daquela que, nós, usual- mente temos. A percepção da realidade que temos não está em nós como algo imutável, não nasceu conosco. Podemos mudar. Basta entender que se pode mudar. Agora, para ilustrar esta temática do modo como percebemos as coisas – nossos óculos - vamos falar um pouco do que os últimos avanços da ciência estão dizendo acerca disso. Sabemos que as pessoas que usam óculos escuros tendem a ter um pa- drão de comportamento queixoso e cos- tumam reclamar muito das coisas da vida, seja lá do que for. Mesmo eventos positivos, como uma festa por exemplo, podem ser alvo de comentários e reclamações, pois a escuridão dos óculos aponta dificuldades até mesmo numa festa! A ciência, atualmente, nos explica porque não devemos reclamar, porque isso pode alterar negativamente nosso cérebro e nosso ambiente, por conse- quência. Veja que interessantes essas ideias. Ouvir alguém reclamar, mesmo que seja você mesmo, nunca fez bem. Algumas pessoas dizem que reclamar pode agir como uma catarse, uma maneira de descarregar emoções e experiências negativas. Mas olhar com mais atenção ao que o ato de reclamar realmente faz para o cérebro nos dá motivos reais para lutar por um estado de espírito mais positivo e eliminar o mimimi de nossas vidas, ou seja, aprender a trocar de óculos e usar um óculos colorido. 63GESTÃO DE PESSOAS O cérebro é um órgão complexo que, de alguma forma, funciona em conjunto com a consciência para criar a personalidade de um ser humano, sempre aprendendo, sempre recriando e se regenerando. É ao mesmo tempo o produto da realidade e o criador da realidade, e, a ciência está fi- nalmente começando a entender como o cérebro cria a realidade. Steven Parton, um cientista e filósofo que estudou esta temática, examinou como as emoções negativas na forma de reclama- ções, tanto expressas por você mesmo, ou vindas de outros, afetam o cérebro e o corpo, nos ajudando a entender porque algumas pessoas parecem não conseguir sair de um estado negativo. Sua teoria sugere que a negatividade e a reclamação, realmente, alteram fisicamente a estrutura e a função da mente e do corpo. Como se os óculos es- curos, que é um filtro mental, ganhasse raiz no corpo! O cérebro constrói suas conexões com base em tudo o que é repetidamente exposto. Negatividade e reclamações irão reproduzir mais do mesmo, como essa teoria destaca. O autorexplica que: O princípio é simples: em todo o seu cé- rebro há uma coleção de sinapses (responsáveis por transmitir às informações de uma célula para outra) separadas por espaços vazios cha- mados de fenda sináptica. Sempre que você tem um pensamento, uma sinapse dispara uma reação química através da fenda para outra sinapse, construindo assim uma ponte por onde um sinal elétrico pode atravessar, carregando a informação relevante do seu pensamento durante a descarga. […] toda vez que essa descarga elétrica é acionada, as sinapses se aproximam mais, a fim de diminuir a distância que a descarga elétrica precisa percorrer… o cérebro irá refazer seus próprios circuitos, alterando-se fisicamente para facilitar que as sinapses adequadas com- partilhem a reação química e, tornando mais fácil para o pensamento se propagar. Além disso, a compreensão desse processo inclui a ideia de que as ligações elétricas mais utilizadas pelo cérebro se tornarão mais curtas, portanto, escolhidas mais frequentemente pelo cérebro. Isso ex- plica como atitudes e comportamentos po- dem ser alterados. No entanto, como seres conscientes, e desejosos de autodesenvol- vimento, temos o poder de modificar esse processo, simplesmente ao nos tornarmos conscientes de como o jogo universal da dualidade atua no momento em que sur- gem os pensamentos. Nós temos o poder de escolher, criar pensamentos positivos conscientes de amor e harmonia, garantin- do, assim, que o cérebro e a personalidade sejam positivamente alterados. Essa linha de raciocínio científico se estende até a dinâmica entre duas pessoas, explicando cientificamente como a reclamação joga outras pessoas para baixo. Toda essa conversa serve para alertar sobre os grandes benefícios ou malefícios que nossos óculos podem ter, principal- mente no comportamento organizacio- nal. Assim, quando alguém “derrama um caminhão de fofocas”, de negatividade e drama em cima de você, tenha certeza de que está sendo afetado bioquimicamente, diminuindo as suas chances ser feliz e de estar do lado do sol da calçada. A exposição a esse tipo de explosão emocional realmente provoca efeitos negativos na sua mente e no seu corpo. Portanto, reclamação e ne- 64GESTÃO DE PESSOAS gatividade podem contribuir seriamente para o seu adoecimento, para sua estagnação profissional, para o enfraquecimento do seu ego. Preste atenção nos seus óculos! Pense sobre ele! Sabemos que isso não significa uma tarefa fácil, exige esforço e atenção. Exige querer estar do lado do sol da calçada! Lembram do nosso conhecido “arigó”?! Ele gosta muito de derramar queixas, fofocas, reclamações, negatividade, pelos ambientes por onde passa! Imaginem os danos e as impossibilidades de desenvolvimento que ele causa a si mesmo e às pessoas com as quais interage! Este padrão negativo e queixoso impossibilita, de acordo com as ideias trazidas pelo texto, toda e qualquer mudança em comportamentos ou atitudes, que poderiam trazer benefícios para a vida da pessoa. E, se formos agora relacionar nossos entendimentos aos filtros que usamos para perceber a realidade, seu imenso impacto sobre nossa competência interpessoal, vamos chegar a um outro conceito que pode nos ajudar nesta “viagem” rumo ao autodesen- volvimento que estamos fazendo, a resiliência. Resiliência Após estudarmos sobre inteligência emocional, sobre nossos “óculos”, o cami- nho inevitável será abordarmos o tema da resiliência, pois toda essa nossa conversa aqui, todos estes conceitos que promovem o autodesenvolvimento levam ao desenvol- vimento da resiliência. Este termo está na moda até os dias de hoje, mas não devemos vê-lo como, mais um modismo importado para a gestão, mas sim como uma habilidade para lidar com as adversidades da vida. Então, é justamente sobre isso que trata à resiliência, sobre sobreviver. Trata- -se de um termo que a área da psicologia “tomou emprestado” da engenharia. Na en- genharia se fala em material resiliente, que é aquele que quando submetido a grandes pressões, apresenta alguma deformação, mas ela não é tão grave a ponto de afetar sua estrutura molecular. Uma vez passada a pressão externa, o material volta ao seu estado ou funcionamento normal, habitual. Como nos sugere a figura acima, a resiliência seria a capacidade de sobreviver 65MODELOS DE GESTÃO aos priores dias, aos piores eventos, aos pio- res acontecimentos que ocorrem ao nosso redor, mantendo a capacidade de se regene- rar, de “dar a volta por cima”, de sofrer sim, mas sem desenvolver grandes e profundos transtornos e doenças. A pessoa resiliente consegue lidar bem com a adversidade da vida, sem se deixar abater, mantendo sua capacidade de viver e ser produtiva nas vá- rias áreas da vida. Chegando, com nossa viagem, na nossa terceira competência – o desenvolvi- mento da inteligência interpessoal, espera- mos que você perceba que esta competência deveria, ou espera-se que seja desenvolvi- da, ou surgir, naturalmente, após o desen- volvimento das duas anteriores. As três competências da nossa disciplina não são separadas, isoladas, mas sim um encadea- mento, formando uma corrente única – o seu autodesenvolvimento. Se você desenvolver uma compreen- são positiva e sistêmica do comportamento humano, individualmente e nas organiza- ções, se você entender e desenvolver sua inteligência emocional, consequentemente se tornará uma pessoa competente inter- pessoalmente. Uma pessoa residente no quente lado do sol da calçada! Portanto, vamos a ela! Mas imaginamos que nada do que falaremos agora seja estranho ou novo para você. Já aqui, tudo precisa fazer sentido para você. Enquanto você reflete sobre isso tudo, e sobre seus óculos, vamos falar de um dos temas mais preciosos, mais estudados e mais debatidos em gestão de pessoas, o tema da liderança. Com todas estas competências sobre as quais estamos falando, você está apto a desenvolver seu papel de líder quando for necessário, em virtude de sua carreira profissional, e a entregar comportamentos e atitudes diferenciados no ambiente de trabalho no qual está inserido – comporta- mentos, esses, totalmente alheios e ausentes no “arigó”! Quais são? Motivação, com- prometimento e envolvimento no trabalho! 66GESTÃO DE PESSOAS Liderança Obviamente não vamos esgotar aqui o tema da liderança. Este é o tema sobre o qual mais se escreve, mais se estuda, mas se discute e mais se ensina em gestão de pessoas. São milhares de teorias, de pro- postas de lideranças, de tipos de lideranças, de estilos de liderança. Aqui não vamos estudar todo esse arcabouço teórico, mas vamos sim apontar um item atual, que nos parece importante para a gestão de si mes- mo e para a gestão dos outros, no mundo do trabalho contemporâneo. Antes de mais nada, será importante diferenciar líder de chefe. Tudo o que fa- lamos até agora em nossa disciplina deve servir para desenvolver você não para se tornar um chefe - uma mera posição em algum nível hierárquico de alguma orga- nização – mas para querer se tornar um líder. E, nos tempos atuais, o que um líder deve fazer? Quais seus desafios e tarefas? No mundo do trabalho como o temos en- tendido até aqui, a liderança tem um papel de inspirar ás pessoas. Inspirá-las para que façam o que precisa ser feito, seja lá o que for isso, de modo engajado, comprometido, com competência interpessoal e se sentindo bem. A liderança deve inspirar as pessoas a desenvolverem suas mais altas e profundas potencialidades. A liderança deve servir como uma ferramenta para os propósitos da Psicologia Positiva, sobre a qual falamos anteriormente. Quando esta temática diz respeito às mudanças presentes nos tempos atuais, no mundo do trabalho, crises, gestão da crise, esta questão do líder e de seu estilo de li- derança o papel alcança uma importância, ainda maior. Um líder é a peça fundamental no gerenciamento de equipes, pois é com a sua influência e credibilidade que guiará a equipepara alcançar os objetivos organiza- cionais e concomitantemente, desenvolver as competências individuais, incluindo as competências comportamentais. Portanto, você, precisa entender o que é liderança e quais aspectos fortalecem essa liderança no mundo do trabalho de hoje. A presença de um líder como aliado das organizações é a linha frente das organiza- ções de hoje. Para tanto, o líder, precisa ir além da atuação de facilitador de operações, processos e tarefas, também atuará como um facilitador de mudanças. Ele deve se preocupar com o aprendizado constante da sua equipe, e com o seu próprio, com o seu autodesenvolvimento, tornando a sua liderança aquilo que chamamos de lideran- ça sustentável (Hargreaves & Fink, 2007). Se você desenvolver todas estas competências estará apto a gerir a si mesmo, o que é um pré-requisito fundamental para a liderança. Nesse sentido, vamos assistir o vídeo abaixo, que ilustra o que um líder deve fazer nos tempos atuais. Link O vídeo nos inspira a entender o quanto a questão da liderança sempre é central, seja lá qual for a temática, que esteja falando em gestão de recursos humanos ou de pessoas. 67GESTÃO DE PESSOAS Essa abordagem da liderança, en- quanto um fenômeno que deve se preo- cupar com sua sustentabilidade, parece ser a mais adequada nos tempos atuais. De acordo com estes autores, a lideran- ça sustentável, tal como o aprimoramento sustentável, começa com um senso forte e inabalável do propósito moral. O sentido central do líder será o de sustentar, que é “manter erguido; suportar peso; estar apto a suportar (superexigência, sofrimento e coisas parecidas) sem desabar”. Convicção interna, fé inabalável e um esperançoso e compelidor senso de propósito que se es- tende para muito além do self – estes são elementos inalienáveis do caráter moral que verdadeiramente sustentam as pessoas em tempos de dificuldades esmagadoras e de sofrimento quase insuportável. A liderança sustentável está, portanto, totalmente vol- tada para o desenvolvimento da resiliência do próprio líder e de seus liderados. É, sem dúvidas, um enorme desafio, construir a sustentabilidade e consolidar uma liderança, uma vez que, para criar a sustentabilidade da sua liderança, o líder deve desenvolver à competência do apren- dizado para poder, não somente, ensinar a sua equipe, mas também aprender com ela, dando sempre prioridade ao apren- dizado coletivo, pois aprendendo com os seus liderados, a equipe e o trabalho fluirão com mais energia e produtividade. Para ser um líder sustentável Hargreaves e Fink (2007) argumentam que será necessário, que, o líder compreenda integralmente a natureza e o processo de aprendizado, de mudança. A liderança sustentável nunca engana, esconde ou nega os eventos di- fíceis ou adversos. Ao contrário, ela põe o aprendizado no centro de tudo que os líderes e as pessoas fazem, e o aprendizado e a mudança passam a ser os caminhos para resolver os problemas e situações adversas. Portanto, líderes sustentáveis têm um senso de otimismo constante na capacidade de mudança das pessoas. Isso significa, na prática, criar opor- tunidades de aprendizado poderosas e igualitárias para todas as pessoas, desen- volvendo uma percepção otimista de que, todos podem aprender a se desenvolver. Mesmo o “arigó”, nosso personagem, para o líder sustentável, não deixa de ser uma oportunidade de aprendizado e de trabalho construtivo. Transformar um “arigó” num trabalhador engajado, comprometido, que vive do lado do sol da calçada, será missão do líder sustentável. Todos esses cuidados como à apren- dizagem, à mudança irão transformar o líder sustentável em uma base para a susten- tabilidade da organização, seja ela qual for. Por isso, o líder, se estiver bem desenvolvido na sua competência interpessoal, na sua competência da aprendizagem e, de modo complementar, estiver dando atenção aos processos e tarefas, garantirá o bem-estar da organização e de todos os que a compõe. Importante perceber que todas aque- las competências sobre as quais estamos estudando até aqui, culminam na propos- ta de liderança - a liderança sustentável. Tais competências e a liderança sustentável constituem uma espiral positiva para as pessoas e para as organizações. Sintetizando o que falamos até agora, o líder sustentável deve e precisa se preocupar e operaciona- lizar o desenvolvimento das competências comportamentais que promovem o auto- 68MODELOS DE GESTÃO desenvolvimento. Porque o autodesenvol- vimento pressupõe a constante capacidade de aprender, de mudar. E isso, por sua vez, torna pessoas e o próprio líder, sustentáveis. O mundo do trabalho, hoje, exige que as pessoas, sendo elas líderes ou não, sejam sustentáveis. Agora vamos fazer uma pausa. Va- mos refletir. HORA DE PARAR E PENSAR! Procure pensar sobre o que estuda- mos até aqui, e, escreva uma relação entre o que foi apresentado sobre a liderança sus- tentável e a necessidade de desenvolvimento da nossa segunda competência, a inteli- gência emocional. Procure dissertar sobre como a inteligência emocional se relaciona com a capacidade do líder de desenvolver uma postura sustentável em relação a sua própria liderança e aos aprendizados dos seus liderados. 69GESTÃO DE PESSOAS E agora, na última parte da nossa viagem, após termos refletido sobre essa abordagem da liderança, que chamamos de liderança sustentável, vamos falar so- bre aquilo que chamamos de atitudes no mundo do trabalho - motivação, envol- vimento e comprometimento. Mas antes, preste atenção na nossa viagem! Começa- mos lá atrás falando sobre o quanto preci- samos compreender: a origem dos nossos comportamentos e dos outros, para poder modificá-los. Depois falamos sobre a fun- damental inteligência emocional, e sobre as nossas relações interpessoais. A importância de cuidarmos dos óculos que usamos, de avaliarmos os filtros cognitivos que usamos para agir no mundo. Todas estas temáticas vão se materializar naquilo que chamamos de liderança sustentável. Um líder que muda e aprende constantemente e que promo- ve à mudança e o aprendizado de todos. Lembrando que, todos estes temas têm como base teórica aquilo que se chama de Psicologia Positiva, corrente teórica que se preocupa em promover a saúde e bem-estar das pessoas, estimulando-as para que de- senvolvam tudo aquilo que tem de melhor enquanto potencialidades. Assim, após esta trajetória, chegamos aos últimos temas que vamos abordar, as chamadas atitudes no mundo do trabalho: motivação, comprometimento e envolvi- mento. Por que estamos falando sobre isso, agora, no final da nossa viagem? Porque sabemos que hoje, mais do que nunca na história da humanidade, a criatividade, a constante renovação de competências téc- nicas e comportamentais, a flexibilidade, a disposição para enfrentar novos desafios, a iniciativa e a capacidade de atuar em situa- ção de crise de modo resilientes são vitais. Atualmente deve-se investir na busca de algo a mais, pois preparar-se para manter o emprego já não é mais suficiente. Bus- ca-se, então, profissionais trabalháveis, ou seja, que precisam se desenvolver e renovar capacidades e habilidades que sejam valo- rizadas no mundo do trabalho, que sintam prazer em investir em seu desenvolvimento, atualizando-se e administrando sua própria carreira, num mundo de ambiguidade e incertezas. Por isso, vamos falar de moti- vação, envolvimento e comprometimento. Motivação Assim como liderança, a motivação vem a ser um dos temas mais debatidos e estudados na área de gestão de pessoas. Existe uma infinidade de teorias que ex- plicam os principais fatores motivacionais que podem atuar para gerar e manter a motivação (Robins, 2010). Nestas teorias motivacionais a motivação está sempre associada a uma infinidade de fatores ou circunstâncias, ou várias, algumas internas, outras externas. Dentro do contexto, aqui da nossa disciplina, precisamos pensarcertos aspectos básicos para que a relação interpessoal com seu interlocutor virtual não tenha problemas. Portanto, não há como fugir dessa máxima: ou você sabe gerir pessoas ou seu sucesso profissional estará ameaçado. Ou você sabe gerir a si mesmo, ou você será uma nuvem escura ambulante nos ambientes por onde passar! Costumamos ilustrar as pessoas que não aprendem a desenvolver suas habilida- des interpessoais ou comportamentais. A imagem a seguir exemplifica bem tal situ- ação: um ícone do cinema ou das histórias em quadrinhos, reconhecível e compreensí- vel a todos; pessoas sem habilidades com- portamentais funcionam como uma nuvem negra para os ambientes em que estão, e para as pessoas com quem interagem. Elas “contaminam” o ambiente, provocando o surgimento de conflitos, mais dificuldades, emoções negativas e deterioram as relações interpessoais. E, o pior, sem nos darmos conta disso! Pois bem! Então, quais são estas ma- ravilhosas e diferenciais competências que farão de você um profissional diferenciado, seja qual for sua área de atuação? 1. Compreender o comportamento humano, o comportamento organi- zacional e as relações interpessoais nas organizações, desenvolvendo uma perspectiva sistêmica da gestão de pessoas. 2. Desenvolver sua Inteligência Emo- cional, com o desenvolvimento gra- dual e constante das cinco habilida- des que a compõe. 3. Desenvolver sua Competência In- terpessoal, de modo que você possa estabelecer relações mais funcionais e saudáveis em todos os ambientes nos quais transita, especialmente, nos ambientes organizacionais em que trabalha, apresentando compor- tamentos desejáveis no mundo do trabalho. Observe a imagem e reflita: você é o tipo de pessoa que por onde anda leva consigo uma nuvem escura? Se a resposta for não, ótimo! Você está no caminho certo para ser um profissional de sucesso, e aqui em nossa disciplina, aprimorará as competências que já possue. Se sim, ótimo também! Pois agora você irá aprender a refletir, a mudar, encontrará ajuda e recursos para desenvolver aspectos tão importantes, para os quais ainda não prestou atenção na sua trajetória como estudante e profissional! 7GESTÃO DE PESSOAS Então, vamos começar nossa “via- gem”! Aperte os cintos, acione seu mais importante aplicativo, sua mente, a qual deve estar cheia de vontade de aprender! Vamos conhecer o lado do sol da calçada! Ah! Mas antes de começarmos nossa viagem, quero apresentar a você um perso- nagem, bem importante a ser conhecido por nós. Todas as competências que vamos estudar irão nos ajudar a não nos tornarmos ou matarmo-nos, caso sejamos um “arigó”. Quem seria esse “arigó” ??? O “arigó” descrito aqui, não se refere a nenhuma tradução ou significado que este termo tenha em qualquer outro contexto já utilizado. Na verdade, o “arigó” aqui descrito, é uma espécie de personagem, construído a partir de observações, ao longo do tempo, de dezenas de trabalhadores em seus ambientes de trabalho e suas gemestes locais. O termo não se refere a uma específica classe de trabalhadores ou a uma função de trabalho, nem mesmo a pessoas que se localizem em determinado estrato das pirâmides hierárquicas das or- ganizações. O termo “arigó” utilizado aqui descreve, antes de mais nada, uma atitude geral de determinadas pessoas, diante da vida e do trabalho. Tal atitude é caracte- rizada por uma série de comportamentos, cognições e sentimentos que tornam o “arigó” um trabalhador problemático nas mais diversas organizações, e que exige de seus gestores e dos profissionais de recursos humanos, grandes esforços para que ele possa desempenhar de maneira minima- mente satisfatória suas atividades, levando em conta, as necessidades da organização, e as suas próprias, enquanto ser humano. Parte-se do pressuposto que, a ati- tude de “arigó” pode estar presente em qualquer pessoa, de qualquer gênero, idade, poder aquisitivo ou nível educacional. Qualquer um poderá, na sua trajetória profissional ou em alguns momentos de sua vida, ter uma atitude “arigó”, não im- portando se é um trabalhador braçal ou um trabalhador do conhecimento. A questão chave é a magnitude ou a dura- bilidade, ao longo do tempo, dessa atitude. Todos podemos “estar arigós” em momen- tos passageiros da vida, mas não podemos “ser arigó” o tempo todo. Costumamos dizer que “estar arigó” é uma cadeira na qual po- demos sentar por algum tempo, mas não pode ser uma cidade para onde devêssemos nos mudar! Para ele, trabalhar, significa uma tor- tura, um castigo, algo do qual se deveria fugir sempre que possível. Trabalhar enver- gonha, humilha. Vemos que a percepção do 8GESTÃO DE PESSOAS trabalho do “arigó” está atrelada às questões de sofrimento, dor, desgaste e cansaço do trabalho físico. Atualmente, mesmo com as mais variadas formas de trabalho físico e intelectual, sendo estudadas e debatidas, para ele, trabalhar significa algo a ser evita- do, assim como, evita-se qualquer circuns- tância que prejudique o corpo. Não há no “arigó” a percepção que o trabalho pode ser considerado uma obra, uma produção que dignifica e traz satisfações das mais variadas formas. Há uma dicotomia prevalente na percepção do arigó: trabalhar é sofrer, jamais é obter prazer. O prazer e a satisfação estão alocados, na sua percepção, em qualquer circunstância, lugar ou atividade que esteja longe do trabalho. Lazer sim, é prazer e prio- ridade nos dias da vida de um “arigó”. Trabalhar, jamais é prioritário. Abrir mão dos lazeres, eventualmente, (por exemplo, horas extras, atividades extra turno) para atividades laborais e, com isso, obter prazer, é algo inconcebível). O sonho e projeto de vida do “arigó” é o ócio. O ócio físico e mental, jamais um ócio produtivo e criativo, encarado como tempo para pensar, refletir e criar (De Masi, 2000). Juntamente disso, o “arigó”, na sua vida profissional, procura, não por trabalho, mas por empregos, os quais possam satisfa- zer suas necessidades de sobrevivência, não se preocupando com a construção de uma carreira profissional. Empregos nos quais ele irá sofrer, e procurará fazer o mínimo possível de esforços, sejam eles físicos ou mentais, cumprindo minimamente as atri- buições explicitadas em seu contrato de trabalho. Nada mais do quê isso! A vida profissional do “arigó” resume-se em ter um emprego e nele fazer o mínimo esfor- ço possível, e a receber a remuneração a ele devida. Pensar sobre sonhos, projetos, desafios, evolução pes- soal e gestão da carreira são coisas completamente alheias às aspirações do “arigó”. Como consequência dessa percepção, todas aquelas atitudes tão desejadas pelo RH das orga- nizações, tais como motivação, comprometimento e envolvimento estarão completamente ausentes do seu repertório comportamental. No empre- go, o “arigó” busca apenas a remuneração e os benefícios, sendo eles os seus únicos fato- res motivacionais. Jamais busca a realização profissional e do reconhecimento dos seus pares e dos seus superiores. E, além disso, no ambiente de trabalho, comumente avalia, pejorativamente, os colegas que têm moti- vação, comprometimento e envolvimento, qualificando-os com desprezo e deboche. Portanto, querido aluno, sinta que devemos fugir dessa descrição, não é?! En- tão, vamos desenvolver nossas três funda- mentais competências para que nenhum rastro desse triste personagem exista em nós mesmos! Uma vez que o “arigó” não sabe, não conhece, não quer e nem al- meja aprender a fazer gestão de pessoas! Além do que, o “arigó” anda pelo mundo com a nuvem escura pairando sobre sua cabeça e contagiando aos demais. 9GESTÃO DE PESSOAS PARTIU FUGIR DO “ARIGÓ”! ELE NÃO SABE O QUE É AUTODESENVOLVIMENTO! 10GESTÃO DE PESSOAS Pense! Reflita! Responda! Antes de continuarmos, precisamos nos certificar de que você compreendeu perfeitamente o que será essa gestão de pessoas., pois iremos estudá-la pelas pró- ximasesta atitude – motivação- como uma das maiores propulsoras dos comportamentos adequa- dos no mundo do trabalho. A motivação está ligada à execução de comportamentos com a persistência desejada, e com a capaci- dade de sempre aprender com afinco novos comportamentos. Portanto, vem a ser um componente fundamental na gestão de si mesmo e de outras pessoas. Após estudarmos a Inteligência Emocional não nos parece adequado, no entanto, falar de motivação. Motivação, em virtude do senso comum e de algu- 70GESTÃO DE PESSOAS mas teorias motivacionais, lembra sempre a dependência de algum fator externo que “empurre” ou “puxe” a pessoa. Pensamos ser melhor falar de automotivação. Somente a automotivação seria a verdadeira e legítima motivação, que suporta os reveses dos am- bientes externos e que mantém as pessoas persistindo nos comportamentos que pre- cisam ser feitos. Somente a automotivação seria sustentável. Somente a motivação que independe de qualquer fator externo, mas que se alimenta somente de fatores inter- nos da pessoa, seria a legítima motivação, necessária e desejada pelo mundo do tra- balho de hoje. Dentro desta perspectiva devemos pensar e descobrir quais são os fatores que afetam esta automotivação, a única motivação legítima e sustentável. Essa automotivação interna está diretamente relacionada aos óculos que desenvolvemos e que usamos. Se utilizarmos óculos positivos conseguimos perceber que nosso comporta- mento tem a capacidade de gerar êxitos e de conseguir superar obstáculos. Conseguimos entender que somos capazes de produzir, nos ambientes por onde passamos, resul- tados positivos e desejáveis. Por outro lado, se utilizarmos filtros ou óculos negativos, pessimistas, não percebemos quão somos capazes de gerar, com nosso esforço, os re- sultados desejados. Então porque se engajar, se motivar, se nada do que desejamos ou precisamos que aconteça depende do nosso esforço e empenho?! Vejam que óculos positivos, acerca da própria capacidade de gerar resultados desejáveis, são a fonte da automotivação. Esta ideia está ligada ao conceito de crença de autoeficácia, conceito desenvolvido por um psicólogo chamado Albert Bandura (Wiener, 1980). A autoeficácia de uma pessoa diz respeito a quanto ela acredita que seu esforço é capaz de produzir resul- tados desejáveis em todos os âmbitos de sua vida. Diz respeito ao quanto ela acredita que será capaz de lidar com os eventos e circunstâncias da vida com suas caracterís- ticas pessoais, de modo a produzir resul- tados esperados. Diz respeito a sua crença na própria capacidade de se autogerir e se autodesenvolver, de modo a se manter constantemente motivada. Decididamente, as pessoas que utili- zam óculos coloridos, possuem crenças de autoeficácia bem firmes, que permitem sua constante automotivação. São estas pessoas as que estão do lado do sol da calçada. São otimistas acerca da sua habilidade em lidar com as circunstâncias. Comprometimento Comprometimento vem a ser uma atitude no trabalho que, hoje, possui um papel estratégico fundamental nas organi- zações, e no mundo do trabalho em geral (Siqueira, 2008). Imagine comprometimen- to como um compromisso, uma aliança, um casamento, entre o indivíduo e seu trabalho. O trabalhador comprometido quer e age para estar na empresa, adotar seus valores e metas como seus, e participar ativamente para que os mesmos sejam realizados. O trabalhador comprometido faz sua parte e, se preciso, faz mais do que a sua parte, para que a organização cresça. Supõe-se que qualquer processo nas organizações precise de relações de 71GESTÃO DE PESSOAS compromisso entre as partes envolvidas, e mais, o comprometimento fomenta possi- bilidades de êxitos em situações adversas frente ao mercado, reforçando a justifica- tiva de comprometimento ser estratégico. O engajamento com o trabalho pode ser importante para ajudar as empresas a con- quistarem melhores mercados, tornando-se mais competitivas, uma vez que o ambiente organizacional e aspectos psicológicos estão engajados. E, este comprometimento vai além de recompensas financeiras. Ele significa que o indivíduo conhece a organização e quer participar dela. Ele aceita as políticas e valores da empresa, e percebe como pode contribuir para ajudar com esses valores e objetivos. Sendo assim, engajar-se no traba- lho é positivo tanto para o indivíduo quanto para a empresa. A pessoa comprometida tem a agradável sensação de plena reali- zação de seus potenciais, de que consegue atingir metas pessoais e profissionais, o que lhe possibilita tornar-se mais confiante de suas tarefas e habilidades. O indivíduo torna-se mais motivado a contribuir com os objetivos da empresa no momento que se fortalece como pessoa e profissional e sente-se envolvido com seu trabalho. São três os componentes do compro- metimento: o comprometimento afetivo, que acontece quando o trabalhador quer se esforçar consideravelmente em privilégio da organização, quando ele assimila e aceita valores e crenças da organização e quando ele possui um desejo forte de permanecer na organização. Resumido, é estar ligado a algo, e querer permanecer nesse movimento. E, ainda, comprometer-se é identificar e assentir aos valores da empresa, sendo assim empenhar-se além da sua função para que a empresa possa atingir metas e objetivos. Depois, temos o comprometimento instrumental, que acontece quando o tra- balhador permanece ligado à organização em função dos ganhos de remuneração e benefícios que ele tem. Ele se compromete porque ganha com isso. Na verdade, neste comprometimento, ele permanece na orga- nização por necessidade. E, ainda, temos o comprometimento que diz respeito ao foco do trabalhador nas regras, normas, missão da organização que são transmitidas na mesma. Percebe-se que o mais importante a ser desenvolvido será o comprometimento afetivo, pois nele existe um vínculo emo- cional e não uma avaliação em relação a custos e benefícios. Todos podemos apre- sentar os três tipos de comprometimento, mas deve ser o comprometimento afetivo o mais forte. Somente ele tem a possibilidade de afetar os óculos que usamos diante de nossa vida laboral. Os funcionários afetivamente com- prometidos tendem a auxiliar no desempe- nho da empresa, sendo assim, a mesma tem menor índice de absenteísmo e de outros problemas na sua área de gestão de pes- soas. Provavelmente os funcionários com o comprometimento afetivo adotam mais comportamentos positivos, que se originam na satisfação que sentem no trabalho, na identificação com a organização, bem como na confiança em seus líderes. Assim sendo, o comprometimento afetivo será responsável pela sustentabilidade de comportamento ativo, assertivo e positivo no ambiente de trabalho. 72MODELOS DE GESTÃO Envolvimento Envolvimento diz respeito ao ato ou efeito de envolver ou envolver-se com algo, significa desenvolver uma ligação afetiva com o trabalho e com a organização. O envolvimento não é um aspecto externo, um comportamento como era o comprometi- mento, mas uma condição interior da pes- soa, uma emoção. De acordo com Siqueira (2008) envolver-se com o trabalho acontece quando o desempenho afeta e influencia a autoestima dessa pessoa no trabalho. Para a pessoa, sua ocupação representa algo im- portante para sua imagem própria, para sua autoestima. O envolvimento pressupõe um nível profundo de afinidade psicológica entre a pessoa e seu trabalho. O envolvimento é apontado como um dos principais vínculos afetivos da pessoa, em relação às suas atividades profissionais. O envolvimento utiliza toda capacidade do trabalhador de produzir, incentivando o comprometimento constante, em um processo que se denomina participativo e resulta no sucesso de uma organização. Logo, o trabalhador envolvido, se torna, dentro do que diz respeito às suas deman- das, mais motivado e se compromete com o trabalho e a empresa.Torna-se produtivo, e tende a estar satisfeito com o emprego. Existem algumas variáveis, ligadas ao modo como as coisas funcionam na organi- zação, que são chave no que diz respeito ao envolvimento do empregado. São elas: ter acesso às informações, poder tomar decisões e influenciar, participar em recompensas e, por fim, ter reconhecimento. O envolvimento de funcionários está ligado diretamente ao comprometimento e a motivação. Quando o funcionário se encontra em condição de envolvido, ele absorve o trabalho e coopera para que suas atividades sejam vivenciadas positivamente. Ainda falando do envolvimento, o mesmo seria composto por características como vigor, dedicação e absorção. Importante ressaltar que o indivíduo envolvido tem características diferentes do trabalhador compulsivo, ou viciado em seu trabalho, chamado de workaholic. O workaholic é extremamente rígido, e possui dificulda- des em deixar o trabalho, pensando muito nele. Já o envolvimento é algo saudável, que pressupõe dedicação e importância do trabalho na vida da pessoa. Então, está mais do que na hora de desenvolver esta motivação interna, o comprometimento e o engajamento. 73MODELOS DE GESTÃO Pode-se concluir, após visitarmos es- tes três conceitos – motivação, comprometi- mento e envolvimento – que eles compõem aquilo que a Psicologia Positiva chamaria de potencialidades. Os envolvidos, motivados e comprometidos não se preocupam em “se livrar” do trabalho para ter prazer no final de semana, porque conseguem obter prazer enquanto estão trabalhando, não após o trabalho. O trabalho não é uma tortura ou um fardo. O trabalho significa realização. São potencialidades que podem e devem ser desenvolvidas na carreira pro- fissional, porque agregam vantagens com- petitivas para a empresa. Mas, principal- mente, porque traz vantagem para a saúde e bem-estar das pessoas. Trabalhadores que estão do lado do sol da calçada apresentam estas três atitudes em altos níveis. Traba- lhadores que apresentam óculos coloridos para com sua vida profissional e para com a organização onde trabalham desenvolvem estes três comportamentos, pois conseguem compreender que os mesmos lhes garan- tem produtividade, sinergia com o trabalho, bem-estar e a possibilidade de um constante autodesenvolvimento. HORA DE PARAR E PENSAR! Agora, aqui, novamente faça uma pausa para refletir. Você deve exercitar a primeira habilidade da inteligência emo- cional, a auto-observação, e avaliar o quanto você possui estas três atitudes: motivação, comprometimento, e envolvimento. E o quanto, ao pensar sobre isso, seus óculos disseram que estas atitudes dependem da sua empresa, do seu emprego, do seus chefe, ou de outras coisas externas a você. Pense sobre o que seus óculos disseram sobre sua motivação, sobre seu comprometimento, e seu envolvimento com o trabalho. Pense acerca da sua autoeficácia. 74MODELOS DE GESTÃO Quero encerrar a nossa viagem com um texto que fala, de forma indireta, sobre todas estas coisas que abordamos na nossa disciplina de Gestão de Pessoas. Conside- ro-o um bom encerramento pois fala das “quebraduras” que vivemos inevitavelmen- te ao longo da vida, e de como precisa- mos “arrumar” nossos pedaços quebrados. Desejo que tudo o que vimos aqui, tenha despertado em você o desejo de se colar, de se arrumar, de colar todos os cacos nos quais, alguma vez, você vai se transformar. Isso chama-se Inteligência Emocional. Isso chama-se autodesenvolvimento. Desejo também que as três compe- tências que guiaram nosso estudo sirvam, não como três competências a serem es- tudadas para a aprovação numa disciplina, mas que sirvam como uma bússola, a ser usada constantemente. Se você fizer isso, aumentará constantemente sua autoeficácia, fortalecerá seu ego, e, consequentemente, se manterá automotivado para a vida, para o trabalho e para o estudo. Você conseguirá conhecer, gostar e estar do lado do sol da calçada. Lembre-se sempre que em Gestão de Pessoas você aprendeu a compreender o comportamento humano, a compreender a si mesmo e as demais pessoas, e, que aqui, você descobriu que existe um lugar, um jeito de ser, um estilo de vida, chamado de Lado do Sol da Calçada. No lado do sol da calçada estão as pessoas que são aptas a lidar com o contemporâneo mundo do trabalho, que, por suas características, estão aptas a constantemente aprenderem e a aprenderem de novo. Pessoas que gostam de sucesso e se preparam para ele. Você está neste lugar não é!!! 75GESTÃO DE PESSOAS Era uma festa. Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga da mãe. Eu havia acabado de segurá-la para que ela passasse a pequena mão na água da fonte do jardim. Ela tentava colocar o dedo gorducho no buraco para que a água se espalhasse, como tinha visto uma criança mais velha fazer. Parecia encantada com a possibilidade de controlar a água. Tem 1 ano e oito meses, cabelos cacheados que lhe dão uma aparência de anjo barroco e uns olhos arregalados. Com olheiras, Catarina é um bebê com olheiras, embora durma bem e muito. De repente, ela enrijeceu o corpo e deu um grito: “A menina.... A menina.... Quebrou”. Era um grito de horror. O primeiro que eu ouvia dela. Animação, manha, dor física, tudo isso eu já tinha ouvido de sua boca bonita. Aquele era um grito diferente. Não parecia um tom que se pudesse esperar de alguém que ainda precisava se esfor- çar para falar frases completas. Catarina estava aterrorizada. “A menina... A menina...” Ela continuava repetindo. Olhei para os lados e demorei um pouco a enxergar o que ela tinha visto em meio à tanta gente. Uma garota, de uns 10, 12 anos, talvez, com uma perna engessada. “Quebrou...” Catarina repetia. “A menina... quebrou.” Ela não olhava para mim, como costuma fazer quando espera que eu esclareça alguma novidade do mundo. Era mais uma denúncia. Pelo resto da festa, ela gritou a mesma frase, no mesmo tom aterrorizado, sempre que a menina quebrada passava por perto. Nos aproximamos da garota, para que Catarina pudesse ver que ela parecia bem, e que os amigos se divertiam escrevendo e desenhando coisas no gesso, mas nada parecia diminuir o seu horror. Os adultos próximos tentaram explicar a ela que era algo passageiro. Mas ela não acreditava. Naquele sábado de janeiro Catarina descobriu que as pessoas quebravam. Eu a peguei, olhei bem para ela, olho no olho, e tentei usar minha suposta credibilidade de madrinha: “A menina caiu, a perna quebrou, agora a perna está colando, e depois ela vai voltar a ser como antes”. Catarina me olhou com os olhos escancarados, e eu tive a certeza de que ela não acreditava. Ficamos nos encarando, em silêncio, e ela deve ter visto um pouco de vergonha no assoalho dos meus olhos. Era a primeira vez que eu mentia pra ela. E dali em diante, ela talvez intuísse, as mentiras não cessariam. Naquela noite, depois da festa, fui dormir envergonhada. O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas A menina Quebrada Eliane Brum 76GESTÃO DE PESSOAS quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem. E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quantoo tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sen- tido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará. Existe gente, Catarina, que não consegue dar sentido, ou acha que os farelos de sentido que consegue escavar das pedras são insuficientes para justificar uma vida humana, e quebra. Quebra por inteiro. Estes você precisa respeitar, porque sofrem de delicadeza. E existe gente, Catarina, que só é capaz de dar um sentido bem pequenino, um sentido de papel, que pode ser derrubado mesmo com uma brisa. E essa brisa, Catarina, não pode ser soprada pela sua boca. Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber ser quebrado. É ser capaz de cuidar de seus barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente. Não, acho que eu não poderia ter dito isso a você, Catarina. Não naquela noite, não agora. Ao lhe assegurar, cheia de autorida- de de adulto, que tudo estava bem com a menina quebrada, com qualquer e com todas as meninas quebradas, o que eu dei a você foi um vislumbre da minha abissal fragilidade. Esta, Catarina, é uma verdade entre as tantas mentiras que lhe contei, ao tentar fazer com que acreditasse que eu seria capaz de proteger você. Vai chegar um momento, se é que já não houve, em que você vai olhar para todos nós, seus pais, seus “dindos”, seus avós e tios, e vai perceber que nós todos vivemos em cacos. E eu espero que você possa nos amar mais por isso. Essa conversa, Catarina, está apenas adiada. Talvez, daqui a alguns anos, você precise me perguntar como se faz para viver quebrada. Ou por que vale a pena viver, mesmo se sabendo que- brada. E eu vou lhe contar uma história. Ela aconteceu alguns dias depois daquela festa em que você descobriu que até as meninas quebram. Nós estávamos na fila do caixa do supermercado perto de casa, com uma cesta cheia de compras, e havia um homem atrás de nós. Era um homem vestido com roupas velhas e sujas, parte 77GESTÃO DE PESSOAS delas quase farrapos. E ele cheirava mal. Poderia ser alguém que dorme na rua, ou alguém que se perdeu na rua por uns tempos. Ficamos com medo de que o segurança do supermercado tentasse tirá-lo dali, ou que a caixa o tratasse com rispidez, ou que as outras pessoas na fila começassem a demonstrar seu desconforto, como sabemos que acontece e que jamais poderia acontecer. Enquanto pensávamos nisso, ele nos abordou. E pediu, com toda a educação, mas com os olhos dolorosamente baixos: “Por favor, será que eu poderia passar na frente, porque tenho pouca coisa?”. Quando lhe demos passagem, vimos que o homem não tinha pouca coisa. Ele só tinha uma. Sabe o que era, Catarina? Um sabonete. Era o que havia entre as mãos de unhas compridas e sujas, junto com algumas moedas e notas amassadas, como em geral são as notas que valem pouco. Aquele homem, que parecia ter perdido quase tudo, aquele homem talvez ainda mais quebrado que a maioria, porque tinha perdido também a possibilidade de esconder suas fraturas, o que ele fez? Quando conseguiu juntar uns trocados, o que ele escolheu comprar? Um sabonete. Catarina, talvez um dia, daqui a alguns anos, você volte a me olhar nos olhos e a dizer: “A menina... quebrou”. Ou: “Eu... quebrei”. E talvez você me pergunte como continuar ou por que continuar, mesmo quebrada. E eu vou poder lhe dizer, Catarina, pelo menos uma verdade: “Por causa do sabonete”. 78MODELOS DE GESTÃO ENSOLARE-SE ARIGÓ: modo de ser e estar no mundo, marcado por uma constante falta de vontade e de energia para trabalhar e produzir de modo geral. Este modo de ser apresenta baixos índices de motivação, comprometimento e envolvimento, procurando sempre se comportar do modo que exija o menor esforço possível. Não possui inteligência emocional, nem o menor grau de envolvimento em processos de autodesenvolvimento. MIMIMI: postura de vida marcada por uma acentuada e constante atitude queixosa diante dos fatos e das outras pessoas. Essa atitude queixosa vem acompanhada de pensamentos pessimistas e desmotivados, gerando uma visão negativa do mundo. ÓCULOS: filtros cognitivos formados por pensamentos e crenças, conscientes e inconscientes, que influenciam o modo como interpretamos o mundo, a nós mesmos e as outras pessoas. Podem ser divididos em dois grandes conjuntos: óculos coloridos, ou positivos, e óculos negativos ou escuros. LADO DO SOL DA CALÇADA: postura de vida, ou estilo de vida marcado por uma constante atitude positiva, otimista e animada diante da vida. Tem como consequência a externalização constante de comportamentos entusiasmados e assertivos, pensamentos positivos, e a vivência predominante de emoções positivas, menos diante de momentos de vida adversos. 79GESTÃO DE PESSOAS Referências ARAÚJO, Silvia Maria de; BRIDI, Maria Aparecida; MOTIM, Benilde Lenzi. Sociologia: Um Olhar Crítico. São Paulo: Contexto, 2009. BARROS, R.M.A; MARTIN, J.I.G; PINTO, J.F.V.C. Investigação e Pratica em Psicologia Positiva. Psicologia Ciência e profissão, 2010, 30 (2), 318-327. BASTIANELLO, Micheline Roat; HUTZ, Claudio. Do Otimismo Explicativo ao Disposicional: a Perspectiva da Psicologia Positiva. Psico-USF, v. 20, n. 2, p. 237-247, 2015. BEE, Helen. O Ciclo Vital. Porto Alegre, Artes Medicas, 1997. BERGAMINI, Cecília Whitaker. Motivação nas Organizações. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1997. CARUSO, D. R., SALOVEY, P. Liderança com Inteligência Emocional – Liderando e Administrando com Competência e Eficácia. São Paulo, M. Books, 2007. DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2000. DUTRA, Joel Souza. Gestão de Pessoas: modelo, processo, tendências e perspectivas. 1 ed. São Paulo: Atlas, 2002. BARDUCHI, Ana Lúcia Jankovic; PICOLI, Ana Paula Bonilha; TITTA- NEGRO, Franscisco Sérgio; CINTRA, Josiane C.; MONTEIRO, Karla Guimarães; LENA, Renato César; OZAKI, Yaeko. Empregabilidade: Competências Pessoais e Profissionais. São Paulo: Pearson Prentice Hall. 2010. BORGES-ANDRADE, Jairo E; ABBAD, Gardênia da Silva; MOURÃO, Luciana. Treinamento, Desenvolvimento e Educação em Organizações e Trabalho: Fundamentos para a Gestão de Pessoas. 1ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. CARUSO, David, R; SALOVEY, Peter. Liderança com inteligência emocional. Liderando e administrando com competência e eficácia. M. Books do Brasil Editora Ltda. São Paulo, 2007. FRANÇA, Ana Cristina Limongi, Práticas de Recursos Humanos-PRH: Conceitos, Ferramentas e Procedimentos. São Paulo: Atlas, 2010. HANASHIRO, Darcy Mitiko; TEIXEIRA, Maria Luisa Mendes; ZAC- CARELLI, Laura Menegon. Gestão do Fator Humano: Uma Visão Baseada em Stakeholders. 2ª Ed. São Paulo: Saraiva. 2008. HARGREAVES, A., FINK, D. Liderança sustentável. Porto Alegre: Artmed, 2007. KRAUSZ, Rosa R. Trabalhabilidade. 1ª Ed. São Paulo: Nobel. 1999. MARIOTTI, Humberto. Pensando diferente. Para lidar com a comple- xidade, a incerteza e a ilusão. São Paulo: Atlas, 2010. TANURE, Betania; EVANS, Paul; CANÇADO, Vera L. As Quatro Faces de RH: Analisando a Performance da Gestão de Recursos Humanos em Empresas no Brasil. RAC, v. 14, n. 4, pp. 594-614, 2010. 80GESTÃO DE PESSOAS ROBBINS, Stephen P. Comportamento Organizacional. São Paulo: Ed. Pearson, 2006. SCHULTZ, P.D; SCHULTZ, S.E.S. História da Psicologia Moderna. São Paulo, Cultrix, 1981. SCHULTZ, D.P; SCHULTZ, S. E. Teorias da Personalidade. São Paulo, Pioneira Thomson Learning, 2002. SCORSOLINI-COMIN, F; SANTOS, M. A. Psicologia positiva e os instrumentos de avaliação no contexto brasileiro. Psicologia Reflexão e Critica, 23 (3),440-448. SIQUEIRA, Mirlene Maria Matias. Medidas do Comportamento Or- ganizacional – Ferramentas de Diagnósticos e de Gestão. Porto Alegre: Artmed, 2008. WEINER, Bernard. Human motivation. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1980. Biblioteca Virtual (acesso online) ROBBINS, Stephen P. A verdade sobre gerenciar pessoas. São Paulo: Pearson Education, 2003. ROBBINS, Stephen P; JUDGE, Timothy A; SOBRAL, Filipe. Compor- tamento Organizacional. 14ª ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010. DESSLER, Gary. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Prentice Hall, 2003. PEARSON EDUCATION DO BRASIL. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2010.semanas! Pense, reflita, e responda, mentalmente, a seguinte questão: O que é gerir pessoas? Pense! Reflita! Responda! Explique para alguém! Essa ideia precisa estar bem clara na sua cabeça! 11GESTÃO DE PESSOAS Contextualizando: de onde vem todas estas ideias? Para começarmos a trabalhar com competências da disciplina, precisamos fazer uma contextualização. Estamos falando aqui, na nossa disciplina, do desenvolvimento de habilidades comportamentais, do autodesenvolvimento, do não nos transformarmos em pessoas “arigós” , que sofrem com o trabalho e que contaminam negativamente os ambientes pelos quais passam. A proposta é desenvolver competências que façam de você uma pessoa mais produtivas, saudável e feliz, que contribua positivamente nos ambientes em que está inserido! Ou, dito de outra forma, uma pessoa mais desenvolvida, mais evoluída, mais saudável. Pessoa que, ao invés de carregar uma nuvem escura na cabeça, vive e está do lado do sol da calçada! “Estar do lado do sol da calçada” é uma expressão inventada por nós, que significa comportar-se e ter atitudes positivas que contribuam para o próprio bem-estar, bem como para o das outras pessoas. O lado do sol da calçada é um lugar “abstrato”, que simboliza, metaforicamente, um jeito de ser e de estar no mundo, um jeito saudável e que ilumina os que estão ao redor, por isso a referência à luz solar. Pessoas que estão do lado do sol da calçada são, simbolicamente, pessoas iluminadas, ensolaradas, porque cuidam de si mesmas e das suas relações interpessoais. Pessoas que estão do lado do sol da calçada são afetuosas, carismáticas, tem uma expressão facial agradável, sabem lidar bem com suas emoções, pois desenvolvem sua inteligência emocional e tornam-se pessoas resilientes. São agradáveis ao convívio, são promotoras de ambientes otimistas e com clima agradável, procuram resolver ou amenizar os conflitos, ao invés de causá- los, procuram ser otimistas e esperançosas, conseguindo extrair os melhores aspectos de cada situação e de cada pessoa. Não são pessoas “arigós”, pois entendem e usufruem do trabalho, como algo positivo, que enobrece, desenvolve e que é prazeroso. Se fizéssemos uma linha contínua imaginária, diríamos que as pessoas do lado do sol da calçada estão no ponto extremo, contrário às pessoas consideradas “arigós”. As pessoas que estão do lado do sol da calçada são automotivadas, comprometidas e engajadas em suas atividades laborais. Sentem prazer no trabalho e, com tudo isso, conseguem a maravilhosa façanha de continuamente desenvolver suas potencialidades. Estão sempre em desenvolvimento, sempre aprendendo. Para que tudo isso possa ser possível, essas pessoas procuram conhecer-se e autodesenvolver-se continuamente, num constante processo de autorreflexão. Consequentemente, obtém sucesso nas suas tarefas profissionais, tendem a ser bem-sucedidas diante das adversidades da vida, e conseguem superar bem os obstáculos. Desenvolvem carreiras profissionais afortunadas e sustentáveis, visto que todas as suas características positivas enaltecem suas competências técnicas. Por isso, são otimistas e cheias de energia, persistentes e autoconfiantes. Contaminam os ambientes de forma positiva e construtiva. As pessoas do lado 12GESTÃO DE PESSOAS do sol da calçada sabem gerir pessoas e sabem gerir a si mesmas. Estão sempre usando óculos colorido que, mais tarde veremos, tem uma função essencial. Isso tudo não quer dizer que as pessoas do lado do sol da calçada não tenham problemas ou dificuldades ao longo da vida, e que não passem por momentos difíceis. A grande diferença, a diferença chave, é o modo como lidam com essas dificuldades. E o modo como seu autodesenvolvimento contribui para que os problemas sejam percebidos e tratados de uma maneira mais otimista e esperançosa, o que, por sua vez, retroalimenta o seu modo de ser. Otimistas, quando confrontados com desafios e dificuldades, tendem a agir com confiança e persistência, mesmo que os progressos ou sucessos sejam difíceis ou lentos. E o otimismo é uma das características mais fortes da pessoa do lado da calçada. Pessoas otimistas, de acordo com Bastinaello & Hutz, (2015) vivenciam menor ansiedade, mantém- se empreendendo esforços contínuos e criam estratégias em direção a melhores resultados, mesmo nas piores situações. Otimistas são confiantes com relação ao sucesso na realização de suas metas, portanto, continuam empreendendo esforços mesmo diante de adversidades. As vantagens de uma orientação otimista para a vida também parecem estar presentes no domínio das relações interpessoais, uma vez que pessoas otimistas, com sua tendência a perceber os eventos de vida da melhor forma possível, acabam envolvendo mais esforços para a solução de problemas que mantêm relacionamentos vivos. Assim, podemos dizer que o otimista que mora do lado do sol da calçada é um ótimo gestor de pessoas. Então, poderíamos dizer que, enquanto o “arigó” fica “preso” num círculo vicioso de preguiça, pessimismo, relações interpessoais improdutivas, pouco saudáveis e falta de motivação, a pessoa do lado do sol da calçada está “presa” num círculo virtuoso de otimismo, esperança e relações interpessoais satisfatórias. Recordem que na primeira página da disciplina dissemos que estávamos iniciando uma viagem, uma encantadora viagem sobre o ser humano, sobre nós mesmos, sobre as pessoas que estão ao nosso redor, e com as quais interagimos. Pois bem, ao longo dessa viagem, que na verdade nunca termina, devemos ir nos transportando para o lado do sol da calçada! Onde é bem mais saudável viver! A disciplina de Gestão de Pessoas deve servir como o ponto de partida para o seu autodesenvolvimento, que deverá ser um processo contínuo de evolução ao longo da vida. Isso sim, fará de você um profissional diferenciado, que agrega valor e diferencia os ambientes onde trabalha. Por onde passar: seja otimista, persistente e corajoso! 13GESTÃO DE PESSOAS Entretanto, além de entender tal objetivo, precisamos saber de onde “saiu” tudo isso. O referencial teórico para compreendermos todas essas questões é chamado Psicologia Positiva (Barros, Martin, & Pinto, 2010; Scorsolini- Comin & Santos, 2010). Durante toda sua história, enquanto ciência e profissão, a psicologia preocupou-se em estudar, compreender e tratar os problemas e as doenças das pessoas. O seu foco sempre foi os aspectos doentios que não funcionavam bem nas pessoas, seus problemas, limitações, e as melhores formas de tratar tudo isso. Com resposta surgiu, na década de 80, nos Estados Unidos, a corrente chamada Psicologia Positiva. Uma das teorias mais jovens da psicologia, que estuda as potencialidades, motivações e realizações humanas , bem como analisa as condições que contribuem para a promoção do funcionamento ótimo de pessoas, grupos e instituições. Ela se preocupa em entender características pessoais positivas, que promovem o bem-estar das pessoas e das organizações. A psicologia positiva seria o estudo das forças e virtudes das pessoas. Seu foco deixa de ser a cura ou reparação dos aspectos ruins da vida, e passa a ser a construção de qualidades positivas nos indivíduos e organizações. A Psicologia Positiva pretende se debruçar sobre as experiências positivas (como emoções positivas, felicidade, esperança e alegria) das pessoas, sobre as características positivas individuais (como caráter, forças e virtudes), e sobre instituições positivas (como organizações baseadas no sucesso e potencial humano, sejam locais de trabalho, escolas, famílias, hospitais, comunidades ou sociedades). A psicologia positiva cuida “do lado do sol da calçada”. Essa corrente resgata o caráter preventivo que há muito tempo foi abandonado por uma Psicologia exclusivamente focalizada na doença. Assim, nossa gestão de pessoas insere-se no contexto da psicologiapositiva, pois procura, com suas competências, compreender e promover aspectos saudáveis positivos nas pessoas, nas interações e nos ambientes, de modo que em todos os níveis da vida da pessoa prevaleçam seu bem-estar e suas emoções positivas. Desse modo, a gestão de pessoas pode ser entendida como toda a área que busca desenvolver pessoas e organizações que se movem e que são sustentadas no sucesso do potencial humano. 14GESTÃO DE PESSOAS HORA DE PARAR E PENSAR! Agora, na última pausa antes de iniciarmos nossas competências, mais um momento de reflexão! Pegue um papel, ou qualquer dispositivo móvel no qual você possa digitar, e tente escrever um parágra- fo, somente um parágrafo que sintetize as ideias tratadas até aqui. Procure construir um texto ou um parágrafo coerente, que una as seguintes ideias: o objetivo da gestão de pessoas, nosso personagem Arigó, nosso lugar desejável, o lado do sol da calçada, e as propostas da Psicologia Positiva. Você deve ser capaz de unir todas estas ideias antes de avançarmos. A importância de escrever sua refle- xão, de construir essa união no seu enten- dimento, reside no fato de que isso ajuda a construir um todo, coerente na “sua ca- beça” sobre tudo que estamos conversan- do e aprendendo. Não basta ler e estudar, tem que entender, introjetar, absorver, para poder usar de verdade no seu autodesen- volvimento. 15GESTÃO DE PESSOAS PERSONALIDADE, COMPORTAMENTO E ATITUDES Como são construídos nossos comportamentos Neste capítulo vamos estudar o que são nossos comportamentos, atitudes e personalidade, e como são construídos ao longo da nossa história de vida pessoal. Com isso, vamos desenvolver a primeira competência da nossa disciplina. Primeira Competência: Compreender o comportamento humano, o comportamento organizacional e as relações interpessoais nas organizações, desenvolvendo uma perspectiva sistêmica e positiva da gestão de pessoas. Para desenvolver uma perspectiva positiva e sistêmica da gestão de pessoas, dentro do nosso enfoque de autodesenvolvimento, precisamos compreender bem os conceitos de comportamento, atitudes, personalidade e formação dos mesmos. Será isso que estudaremos a seguir. Tudo o que veremos deverá ajudar você a compreender o comportamento humano, 16MODELOS DE GESTÃO tanto o próprio como o das outras pessoas, assim como compreender o comportamento e as relações interpessoais que acontecem nas organizações. Você deve ser capazes de “olhar” para determinada situação, pessoa ou interação pessoal e compreender o que está acontecendo, quais as possíveis razões e motivos, estejam elas claras ou não. Toda essa compreensão é o primeiro passo para desenvolver a capacidade de gerir pessoas e, principalmente, gerenciar a si mesmo. Personalidade, atitudes e comportamentos Vamos começar nosso estudo pela personalidade. Existem muitas e muitas teorias que estudam a personalidade, definições de personalidade, atitudes e comportamentos. Todas corretas, todas que se complementam. Precisamos compreender estes conceitos, agora, no começo da nossa disciplina, para depois compreendermos o restante, pois eles são conceitos básicos. Estaremos o tempo todo aqui, falando em desenvolvimento de competências e habilidades, em autodesenvolvimento. Portanto, estaremos, indubitavelmente, falando em mudanças nas nossas capacidades de mudar “coisas”, e nas dificuldades e desafios de fazer mudanças em nós mesmos. Assim, quando falamos em mudanças, precisamos discutir e entender bem os três conceitos: personalidade, atitudes e comportamentos, pois é importante distinguir quando as mudanças acontecem nos comportamentos ou nas atitudes das pessoas. Podemos definir personalidade como o conjunto peculiar e duradouro de características de uma pessoa, os quais podem se manifestar de maneiras diferentes em situações diferentes (Schultz & Schultz, 2002). Também pode ser entendida como o conjunto de aspectos internos e externos peculiares, relativamente permanentes, do caráter de uma pessoa, e que influencia o seu comportamento em situações diferentes. Essas características são desenvolvidas ao longo da história de vida de uma pessoa. Portanto, a personalidade, que seria o fruto de uma longa história de vida de uma pessoa, Mudar significa sair de uma posição ou de um lugar, ao qual estamos, e ir para outro lugar ou posição. Exige movimento, disposição e vontade. Sair de onde se está para ir a outro lugar. 17MODELOS DE GESTÃO é algo estável, não tende às mudanças. As mudanças acontecem a nível de atitude e comportamentos. A personalidade é a responsável pelas diferenças interindividuais que encontramos entre os seres humanos. Nunca encontraremos duas pessoas iguais, porque nunca haverá duas pessoas com a mesma personalidade. A personalidade é que dá o, “colorido”, único para cada ser humano, o jeito de cada pessoa ser, que não deve ser copiado e que deve. Sempre compreender como resultado de sua história de vida. Agora, antes de continuarmos, uma reflexão importante! HORA DE PARAR E PENSAR! Ao longo de toda nossa disciplina estaremos falando, estudando e refletindo acerca de uma questão paradoxal, ou seja, que pode parecer ambígua, contraditória e que merece toda nossa atenção: mudança x estabilidade. Quando falamos que nossa personalidade é algo estável, algo construído ao longo do tempo, durante os primeiros anos de nossa vida, ligado ao nosso passa- do, estamos dizendo que tendemos a ter estabilidade nos nossos comportamentos e atitudes, no nosso jeito de “funcionar” na vida, no nosso jeito de ser e agir diante dos eventos que acontecem ao nosso re- dor. Tendemos a ser sempre os mesmos, a não mudar, a ter um padrão que é típico e arraigado em nós. Como se fôssemos uma construção do nosso passado. Estamos mol- dados, construídos de determinada forma e assim seremos ao longo da vida, com o passar dos anos. Mudar não combina com todo esse entendimento do conceito de personalidade. 18GESTÃO DE PESSOAS Por outro lado, estaremos comentan- do muito sobre mudanças, autodesenvol- vimento e desenvolvimento de habilidades comportamentais. Não serão contraditórias essas ideias! Não são! É isso que você pre- cisa entender bem! O fato da personalidade ser algo estável, construído durante anos na infância das pessoas, não impede que mu- danças ocorram. As mudanças vão ocorrer, podem ocorrer nos comportamentos e nas atitudes. A ideia de personalidade significa a ocorrência de um padrão de comporta- mento, porém padrões podem e devem ser alterados. A ideia de personalidade não deve funcionar como algo determinístico, como um destino. “Sou feito assim e não há o que fazer!” Jamais podemos concordar com essa frase dita por muitas pessoas e certamente já escutada por você. Toda a proposta da Psicologia Positiva sobre a qual falamos, está atrelada na potencialidade do ser humano de sempre, continuamente, desenvolver os melhores aspectos de sua personalidade, evoluir, transformar-se, e desenvolver novas habilidades, com a fina- lidade de cada vez mais atingir seu bem-es- tar. Nessa perspectiva, o determinismo que pode acompanhar a ideia de personalidade será substituído pelo otimismo, da sempre possível mudança. Por isso que estamos aqui estudando tantos conceitos. Assim, faz-se pertinente compreender o passado, as causas, as determinações, para poder mu- dá-los. Essa é a lógica do entendimento que devemos ter. Lembrando do nosso lado do sol da calçada, estar no lado do sol será compreender o passado para poder mudá-lo. Devemos compreender como funcionam e de onde vem nossos comportamentos e atitudes para, em seguida, poder modificá-los para melhor, para nosso desenvolvimento pessoal e, consequentemente, quanto aos ambientes por onde circulamos! “Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda.” Sigmund Freud 19GESTÃO DE PESSOAS Apósessa reflexão, que precisará nos acompanhar durante toda a nossa disciplina, voltemos aos nossos conceitos. Agora vamos falar sobre comportamentos. O que seria comportamento, então? Comportamento pode ser definido como tudo o que uma pessoa faz, suas ações e reações. São exemplos de comportamentos os atos de sentar, escrever, estudar, olhar, comer, cheirar, sentir, pensar, caminhar, cozinhar, enfim, tudo o que fazemos, que pode ser visto ou não por outra pessoa. Pare de ler, nesse instante, e pense: você está se comportando? Quando questionamos isso, se alguém está se comportando, normalmente temos em mente a ideia de avaliar o comportamento da pessoa, quanto à maneira certa ou errada, se está “ bem- comportada”, se está obedecendo alguma regra ou norma. Comportar-se, para o senso comum, significa “comportar-se bem”, adequadamente em determinado contexto. Mas não! Nós sempre estamos nos comportando. Neste momento, você está se comportando, porque está sentado, está lendo, coçando a cabeça talvez, olhando, enfim, executando ações. E tudo o que fazemos é nosso comportamento. E nossos comportamentos podem sempre estar acompanhados de um pensamento e de uma emoção, formando um trio que “sempre anda junto”. A cada comportamento, estamos vivenciando uma emoção, e tendo um pensamento. Pode parecer que não, porque muitas vezes, senão na maioria das vezes, esses dois elementos do trio – a emoção e o comportamento – são inconscientes, no sentido de serem desconhecidos por nós. Logo, chamamos de atitudes o conjunto de comportamento, emoção e pensamento. Atitude é o comportamento acompanhado de vontades e de ideias. Atitude é mais do que agir, significa agir conscientemente e com uma emoção. Pode ser entendida como algo “maior”, mais profundo do que o comportamento. Dentro da perspectiva que nos interessa, aqui, de aprender novas habilidades comportamentais, mudar essa distinção torna-se fundamental. Uma pessoa muda quando muda seus comportamentos, mas também as suas atitudes. Mudanças de comportamento podem ser fáceis, mas não são resistentes ao tempo e não podem ser generalizáveis para todos os contextos da vida de uma pessoa. Já as mudanças de atitudes são mais duradouras, consistentes ao longo do tempo e ao longo dos ambientes, são mais importantes, porque acarretam uma mudança legítima na pessoa. Dessa maneira, quando queremos mudar, verdadeiramente, devemos mudar as nossas atitudes. Aprender novas habilidades comportamentais, como no caso da nossa disciplina, significa mudar nossas atitudes. Aluno, foi possível entender a diferença? 20MODELOS DE GESTÃO Exemplo Vamos a um exemplo que pode aju- dar no entendimento da diferença entre comportamento e atitude. Digamos que você seja um gestor de determinado setor de uma organização e possui um funcionário, seu subordinado, que sempre chega no tra- balho atrasado, ocasionando transtorno na execução das tarefas do setor. Após suces- sivos atrasos, você decide chamar seu fun- cionário e conversar com ele, alertando-o sobre seu comportamento inadequado , bem como os problemas causados. Você alerta sobre a possibilidade de uma advertência, e pede que isso não se repita mais. Após o dia dessa conversa, o referido funcionário não mais se atrasa, chega na hora certa por alguns dias. Podemos supor que houve uma mudança de comportamento da parte dele. O comportamento de atraso foi substituído pelo comportamento da pontualidade no trabalho. Mas qual não será sua surpresa, após dois ou três dias? Ele volta ao antigo com- portamento, volta a se atrasar. Será neces- sária uma nova conversa, uma mudança na sua abordagem com ele, pois podemos pressupor que a primeira conversa provocou somente uma mudança de comportamento do funcionário, e não uma mudança de atitude. Podemos pressupor que ele mudou somente de forma superficial seu compor- tamento, a fins de atender uma ordem ou pedido, por receio de punições, mas não houve uma legítima mudança no seu in- terior. Se tivesse havido uma mudança de atitude, ele permaneceria sendo pontual, porque teria a vontade de ser e compre- enderia o porquê. Ele teria mudado suas emoções e seus pensamentos. Nesse sentido, pode-se pressupor que ele se comportou de forma pontual por alguns dias, mas não entendeu a real necessidade de ser de tal forma, assim como sua vontade não era essa. A pontualidade, como resultado de uma mudança legítima de comportamento, seria resultado de emoções e pensamentos de pontualidade, e seria duradoura. 21GESTÃO DE PESSOAS Esperamos que esse exemplo singelo tenha ajudado você a compreender a diferença entre os possíveis tipos de mudanças que podem ocorrer no comportamento humano, e a entender às mudanças desejáveis, as quais ajudam no desenvolvimento de competências novas. Uma vez que são essas as mudanças de atitudes. Atente para o do lado do sol da calçada, caso haja mudança para tal lado, significa mudar atitudes diante das circunstâncias da vida! Nas partes anteriores ao nosso texto, enquanto expl icávamos a diferença entre personalidade, atitudes e comportamentos, trouxemos para nosso estudo alguns conceitos novos. Vamos vê-los novamente! Falamos que algumas vezes não conhecemos alguns de nossos pensamentos e de nossas emoções. Que pensamentos, ideias e emoções podem estar inconscientes. Essa é uma ideia importante a ser bem entendida quando falamos sobre comportamento humano. Podemos citar alguns aspectos para exemplificar esse contexto, pois a grande parte do nosso mundo interior, daquilo que compõe nossa personalidade, causas internas dos nossos comportamentos e atitudes inconscientes, que significa dizer que está “escondido” de nós mesmos, que está longe do acesso imediato da nossa atenção, da nossa consciência. Existe “um mundo” dentro de nós, em que não temos acesso imediato, porque está inconsciente, no sentido de desconhecido para nós. Bons exemplos disso são todos os aspectos que compõem nossa personalidade, os pensamentos que acompanham nossas ações, e as nossas emoções. Se alguém lhe perguntar agora, porque escolheu este curso superior que está fazendo, você pode relatar vários motivos da sua escolha. Contudo, certamente, existem outros motivos inconscientes, aos quais você não tem acesso imediato com sua atenção e que determinaram, de forma bem importante, sua escolha. Além desse sentido de desconhecido, o termo inconsciente pode se referir a “um lugar” dentro de nós, uma parte da nossa personalidade chamada inconsciente. Essa parte da nossa personalidade, também chamada de ID, compõe aquilo que a teoria psicanalítica freudiana chama de personalidade. Para essa teoria, que é muito boa para alcançarmos um entendimento profundo do nosso comportamento, nossa personalidade, é composta de três partes: id, ego e superego (Schultz & Schultz, 2002). Vamos entender um pouco mais sobre essa teoria psicanalítica da personalidade. Ela nos ajudará a compreender as razões “escondidas” dos nossos comportamentos. E compreender as razões escondidas dos nossos comportamentos, nos fornecerá subsídios para, posteriormente, poder mudá-los. Portanto, essa teoria, uma das várias teorias da personalidade que existem, merece nossa atenção. 22GESTÃO DE PESSOAS Estrutura da Personalidade de acordo com a Teoria Psicanalítica De acordo com a teoria psicanalíti- ca da personalidade (Schultz & Schultz, 2002), nossa personalidade é composta conforme a figura a seguir. Vamos descrever e entender cada uma dessas partes. Mas, antes, algumas con- siderações importantes para compreender à formação da personalidade. É importante salientar que dessas três partes, em tese, a única, presente quando nascemos é o ID. O ego e o superego são resultado de uma “construção” ao longo dos primeiros anos da infância. Essa construção ou formação acontece durante, através e dependendo das relações interpessoais que a criançaestabelece com os adultos que cuidam dela. Dizemos, normalmente, que são as relações que os pais estabelecem com a criança que “formam” sua personalidade. Vale salientar, que quando falamos em pais, não estamos nos referindo ne- cessariamente aos pais biológicos, quando falamos em termos de estruturação da per- sonalidade. O termo pais se refere àquelas pessoas que estabelecem relações interpes- soais e que criam vínculos afetivos com a criança, cujas são significativas para a sua socialização e educação de forma geral. Po- dem ser os pais biológicos, os pais adotivos, outros parentes, ou qualquer outra pessoa, sem vínculo biológico com ela, mas que seja importante ao longo da sua infância. ID: O id (também chamado de in- consciente) é uma parte inconsciente da nossa personalidade, sendo a única parte que nasce conosco, portanto, inato. O id é o reservatório dos nossos instintos, con- tém os nossos instintos de vida e de morte, bem como suas respectivas energias, cha- Teoria psicanalítica da personalidade Fonte: Igor G. Zattera (2016) 23GESTÃO DE PESSOAS madas de libido e agressividade. Funciona como um reservatório de energia psíqui- ca e funciona de acordo com, o chamado, princípio do prazer. Isso quer dizer que o id “empurra-nos” para buscar a satisfação das nossas energias instintivas. Não tem noção da realidade e funciona como um bebê chorão, desejando que todos seus de- sejos sejam satisfeitos imediatamente. Não sabe esperar, não tolera frustrações. Seria a parte instintiva da nossa personalidade, que quer somente gratificação e prazer, não levando em conta o mundo real, as outras pessoas ou a moralidade. Como dizemos na linguagem do senso comum, o id é o nosso lado “animal”, nosso lado B, amoral e instin- tivo. Além disso, é onde ficam armazenadas nossas memórias infantis, experiências que vamos “esquecendo” ao longo da vida. Na verdade, nada é esquecido, tudo vai para esse reservatório de emoções e instintos, chamado inconsciente. Superego: o superego é o inimigo número um do id. Também inconsciente e funcionado como uma barreira repressora dos instintos do id. O superego é a parte da nossa personalidade que funciona como uma barreira, uma censura interna para as satisfações impiedosas do id. Também é o responsável pelos nossos freios morais, pelos nossos limites, pelo controle interno das nossas vontades instintivas. O superego não nasce conosco, ele é uma parte da persona- lidade desenvolvida através da assimilação. Uma vez que, quando crianças, aprendemos a respeitar e ter limites, respeitar ordens que recebemos dos adultos responsáveis por nossa socialização e educação. Assim, são frutos do superego os sentimentos de remorsos, de culpa, de “peso na consciên- cia” por quando fazemos algo que pode ser julgado ou considerado errado. Então, o superego é o nosso limite interno, nossa lei, nossa norma, que carrega- mos dentro de nós para limitar e controlar nosso comportamento. Se não tivéssemos superego agiríamos, com base no princí- pio do prazer, somente, ou seja, seriamos escravos das nossas vontades instintivas. Todos os nossos comportamentos seriam para buscar prazer e evitar sofrimento, não importando quais consequências eles tives- sem no mundo real, ao nosso redor. Dessa maneira, essa parte respon- sável pela nossa censura moral difere da intensidade de cada pessoa. Alguns sujeitos possuem um superego mais rígido, quase como se estivessem carregando um “tira- no” dentro de si, que as castiga e que as faz despertar intenso sentimento de culpa e remorso diante do menor pensamento, fantasia ou ato que vise satisfação de al- guma vontade instintiva. Outras pessoas, por sua vez, apresentam um superego mais tênue, menos severo, que não as castiga tanto diante de suas vontades instintivas. Essas diferenças na severidade do superego provocam algumas das diferenças entre os indivíduos, tornando-as mais ou menos contidas e severas para consigo, ou para com os outros. Além disso, essa diferença de severidade do superego também responde pelas diferenças de comportamentos mais ou menos audazes, mais ou menos arris- cados que podemos encontrar nas pesso- as. Quanto mais severo o superego, mais O superego é fracionado, possuindo a parte inconsciente e outra pré-consciente, que quer dizer, facilmente, nossa atenção. 24GESTÃO DE PESSOAS contida, menos arriscada e menos ousada será a pessoa. E de onde vem essa diferença do su- perego nas pessoas? Porque ele é tão severo em algumas e tão permissivo em outras?! Uma das principais causas dessas diferenças é o que chamamos de práticas educativas parentais (Bee, 1997). Práticas educativas parentais são todos os comportamentos que os adultos que educam uma criança têm em relação a ela. São as ações que os que edu- cam tem e o modo como se relacionam com a criança, no intuito de socializar a mesma e ensiná-la os comportamentos adequados, ao longo do seu desenvolvimento. Quando os adultos educam uma criança, utilizam ações mais enérgicas, au- toritárias, com ameaças e castigos, com o uso de punições físicas e psicológicas diante das desobediências da mesma, essas que, por sua vez, são chamadas práticas parentais autoritárias, torna-se provável a estrutu- ração de um superego mais severo e rígido. Acontece como que se a autorida- de punitiva e a severidade dos adultos se transformasse numa autoridade muito se- vera “dentro da personalidade”. Por outro lado, se as práticas parentais são menos severas, mais amenas, mais calorosas e mais permissivas com os comportamentos e de- sobediências da criança, o seu superego não será tão severo. Assim como os adultos eram mais condescendentes com suas travessuras na infância, ela será mais condescendente consigo mesma quando adulta. Se você não tivesse superego, ao me- nor sinal de alguma vontade, ou do surgi- mento de algo mais prazeroso para fazer, você abandonaria esta leitura, levantaria do lugar onde está e iria fazer algo que lhe trouxesse alguma sensação mais prazerosa do que ler e estudar. E você não precisa que alguém lhe diga que você deve ficar aí lendo e estudando até o fim da tarefa. Você sabe e sente que, isso, é o certo a ser feito. Isso é o resultado do seu autocontrole interno, efeito do seu superego. Ego: finalmente temos o ego, a parte mais superficial da personalidade, que man- tém o nosso contato com a realidade. Pode- mos definir o ego como o mediador entre as vontades instintivas do id, as demandas repressivas do superego e as demandas do mundo externo. Veja que o ego, que também é desenvolvido ao longo das experiências de vida, possui muitos “senhores” a quem servir, com quem negociar, e a quem atender. O ego deve sempre manter o equilíbrio entre todas as vontades internas advindas do id e do superego, e o mundo real, que está fora da pessoa. Logo, ele precisa ser forte, para dar conta de todas estas tarefas e manter a pessoa em contato com a realidade. O ego não pode impedir completamente as vontades do id, ele deve sim atendê-las le- vando em conta às limitações da realidade e dele extrair sua energia e força. Após estas considerações, podemos perceber que nossa personalidade é prati- camente um ringue de uma luta constan- te. As três partes, id, ego, superego, estão constantemente em conflito, lutando por interesse antagônicos, com vontades opos- tas, e, manter este equilíbrio constante não é uma tarefa fácil. O ego precisa ser capaz de compreender e atender a todos e, ainda mais, se adequar às pressões externas vindas dos ambientes. 25MODELOS DE GESTÃO Vamos usar um exemplo lúdico para ilustrar esta constante luta que se trava no nosso interior. Digamos que você está ao ar livre, à beira de um precipício, numa paisagem incrivelmente linda. Você sente uma vontade louca de pular para experi- mentar uma sensação nunca conhecida antes. Imagine, você, com os pés bem na beira do precipício, olhando lápara baixo. Neste exato momento, cada uma das partes lhe diz algo diferente: o id grita empolgado “vai, se atira, vai ser ótimo, você vai sentir um prazer incrível! ”, o superego, apavora- do, e como que segurando um chicote nas mãos, te olha severamente e fala em voz grave e firme: “de jeito nenhum, não faça isso, senão será severamente castigado. Não se arrisque a ceder as vontades daquele louco! ”. E, para resolver isso, chega o ego, com sua racionalidade e paciência e propõe: “então, quem sabe a gente procura um paraquedas para poder pular, usufruir do prazer, mas sem tantos riscos! ” Compreenderam como funciona o conflito?! HORA DE PARAR E PENSAR! Agora, para exercitar mentalmente esta compreensão sobre o chamado conflito psíquico que é natural e inerente a nossa personalidade, procure imaginar ou lembrar uma situação vivida por você, na qual tenha experimentado, sentido, estas diferentes forças atuando em si. Uma vontade muito grande de fazer algo extremamente pra- zeroso, uma censura interna ou remorso lhe dizendo que não fizesse, e a solução mediadora encontrada por você para sair dessa situação de conflito. Se você prestar atenção em si, e se concentrar, encontrará muitos e muitos exemplos disso no seu cotidiano. 26GESTÃO DE PESSOAS Vivemos o tempo todo em conflito e a maneira pela qual lidamos com esses conflitos inconscientes é crucial para o nosso desenvolvimento de habilidades comportamentais, de compreensão do comportamento dos outros, e do próprio. Cada vez que olhamos para uma pessoa, não podemos esquecer que ela está vivendo uma batalha interna, mesmo sem sabermos, e que seus comportamentos e atitudes exprimem esta batalha. Vejam que conhecer estas questões sobre o conflito das partes da nossa personalidade deve nos ajudar a entender melhor o nosso próprio comportamento e a compreender de uma forma mais generosa os comportamentos alheios, sem julgamentos prévios ou preconceitos. Cada um vive e luta como pode e resolve esta batalha interna de sua personalidade da melhor maneira que consegue. Importante salientar que nesta batalha o papel do ego, e de sua capacidade de lidar com todas demandas, advindas de dentro e de fora é essencial. As pessoas precisam desenvolver aquilo que chamamos de um ego forte, robusto, resistente. Que não se acanhe diante das vontades instintivas do id, que não se deixe dominar pela censura e culpa causados pelo superego, e que não se preocupe somente em atender as demandas e padrões da realidade externa da pessoa. Ele precisa ser capaz de atender, de forma eficaz, todas estas vontades juntas, de ser um negociador, um mediador, de utilizar a energia do id em prol da produtividade. Da energia do id o ego deve extrair sua força máxima para produzir, viver, estudar, amar, enfim, viver. O id funciona como uma fonte de energia, que precisa ser bem utilizada pelo ego. Portanto, o ego não deve se amedrontar diante do id, mas, sim, saber extrair o melhor de nossas vontades instintivas. Anteriormente, quando falamos do superego, falamos sobre sua origem. E o ego, de onde vem? Como se forma? Antes de falarmos sobre isso, vamos a uma outra reflexão importante, que pode ajudá-lo a entender tudo isso que estamos estudando aqui. Quando falamos em desenvolvimento humano, de forma geral, ou seja, quando estamos dialogando sobre o longo e continuo processo pelo qual, uma pessoa, desde o seu nascimento, até a sua morte, se desenvolve, amadurece seu corpo e aperfeiçoa suas aptidões físicas, emocionais, sociais e intelectuais (Bee, 1997), estamos nos remetendo a algo que acontece de fora para dentro. O processo de desenvolvimento requer colocar coisas que “estavam fora da pessoa para dentro”. Quando proferimos o desenvolvimento da personalidade, isso é ainda, mais relevante. Pois bem, o que é isso? O que é esse processo de “colocar para dento o que está fora? Esse processo de desenvolvimento, de evolução do ser humano acontece através de dois mecanismos psicológicos ou mentais chamados de introjeção e identificação. Através deles, colocamos para dentro de nós, tudo o que acontece desde os primeiros meses de vida, coisas, pessoas, eventos que estão no ambiente, fora do nosso corpo e da nossa mente. Vamos logo a dois exemplos que ajudarão a entender isso. Normalmente dizemos no senso comum que, uma pessoa adulta só saberá amar se tiver sido uma criança amada durante sua infância. O amor 27MODELOS DE GESTÃO dos pais (que estão fora dela) passa para dentro dela, através dos mecanismos citados, ela guarda esse amor dentro de si, o qual passa a fazer parte dela, e, posteriormente, colocará, novamente, esse amor para fora nas usas relações interpessoais. Outro exemplo é aquele que descrevemos acima, quando explicamos à formação do superego. Lembra! Falamos que a autoridade, as punições que são feitas pelos pais (que estão fora da criança) são introjetados formando o superego. Quando ele está formado, a autoridade e a punição está dentro da criança (no superego). Claro que todos estes processos acontecem inconscientemente, longe da consciência da criança ou adulto, mas é assim que as coisas internas, nosso mundo interior, nossa personalidade “vai criando corpo” e existindo. Pois bem, na formação do ego acontece a mesma coisa. Ele não nasce conosco, é formado ao longo da vida por meio das relações interpessoais que a criança e, depois, o adulto, estabelecem com as pessoas que estão ao seu redor, e que são significativas para sua vida. O ego é como um mosaico, formado pelas relações interpessoais que vamos estabelecendo desde o nosso nascimento. Cada relação que for importante é “colocada para dentro” através da introjeção e identificação, e passa a compor este ego. O ego é o somatório de todas as nossas relações interpessoais. Mas não é qualquer relação interpessoal que constrói o ego. Somente aquelas relações que trazem em si aquilo que chamamos de vínculo afetivo. Dito de outra forma, podemos dizer que nosso ego é formado pelos vínculos afetivos que vamos tendo ao longo da vida. Mas qual é a diferença entre relação interpessoal e vínculo afetivo? Vamos aos exemplos! Preste atenção, isso é bem importante! 28GESTÃO DE PESSOAS VS Se você está dentro de um elevador ou numa fila qualquer e começa a interagir com as pessoas, você poderá até estabelecer uma relação interpessoal com elas. Você irá conversar, sorrir, fazer gestos, enfim, interagir com estas pessoas que antes daquele momento você desconhecia. Uma vez que você sair do elevador ou da fila, a relação terminará e, provavelmente, estas pessoas não serão mais significativas na sua vida. Geralmente é isso o que acontece. Você não formou vínculos afetivos com elas, somente teve uma relação interpessoal. Não estabeleceu uma relação de afeto, a princípio, você não tem nenhum afeto por aquelas pessoas do elevador ou da fila, elas não irão despertar nenhuma emoção em você. Então, o vínculo afetivo é algo maior, mais profundo, mais significativo do que uma relação interpessoal. Podemos ter relações pessoais que não tem, não geram, não são acompanhadas de víncu- los afetivos. Estabelecer vínculo afetivo com alguém é conectar-se, afetivamente, com alguém, e viver uma troca de afetos, de emoções, tanto positivas quanto negativas. Vincular-se afetivamente com alguém significa que essa pessoa passará a ser importante para você. Ela passará fazer parte do seu ego, será significativa para você. Relações com vínculos afetivos, como o próprio nome diz, são cheias de afeto, de emoções, calorosas. São ligações afetivas, fios de afeto que ligam às pessoas umas às outras, de modo que estabeleçam trocas satisfatórias. Tendem a ser mais duradouras e são, porque são “colocadas para dentro da pessoa” mais importan- tes e impactantes para a vida. É como se nosso ego carregasse em si todas as pessoas com as quais estabelecemos vínculosafetivos desde o nosso nascimento. 29GESTÃO DE PESSOAS Então, de que forma nosso ego é im- portante? Lembrando que ele é formado pelos vínculos afetivos que estabelecemos ao longo da vida. E nessa formação, os vínculos afetivos iniciais, os quais estabelecemos du- rante os primeiros anos de vida, são os mais importantes. Voltaremos a falar disso mais adiante, quando entramos no assunto das fases do desenvolvimento da personalidade. Quanto mais satisfatórios forem os vínculos afetivos que uma criança estabe- lecer na infância, mais forte e robusto será seu ego e, mais, terá força para lidar com as demandas internas e do ambiente exter- no. Mas o que serão vínculos satisfatórios na infância?! Que tipo de vínculo entre criança e adultos consegue formar um ego saudável, forte e robusto?! São os vínculos verdadeiramente legítimos. Aqueles que acontecem entre a criança e os adultos que a cercam, com as seguintes característi- cas: respeito pelas necessidades da criança, demonstrações verdadeiras e naturais de afetos, e constância. Em resumo, vínculos que façam a criança sentir-se respeitada, aceita, amada e em segurança. Também podemos relembrar do lado do sol da calçada. As pessoas que estão do lado do sol da calçada, normalmente, tem um ego forte. Resultado de um bom desenvolvimento da personalidade ou de um processo de autodesenvolvimento. Elas gostam de estabelecer vínculos afetivos com as outras pessoas, sentem-se bem vinculan- do-se afetivamente com os outros, sabem e gostam de demonstrar seus afetos, e isso as tornam muito carismáticas. Repare que, ao longo da nossa vida, pode-se estabelecer um círculo virtuoso ou vicioso, em termos de relações interpessoais. Provavelmente elas tiveram na sua infância algum tipo de relação interpessoal muito satisfatória, carregada de vínculos afetivos, que construíram um ego forte e saudável. Esse ego forte, por sua vez, na idade adulta, gosta e procura estabelecer vínculos afetivos com as pessoas, com as quais interage, o que reforça às características positivas do ego, e tornam o ambiente da pessoa muito melhor. Assim, todos queremos e precisamos nos vincular afetivamente aos outros. Já pessoas que possuem um ego frá- gil, pouco apto a lidar com seus conflitos internos e com as pressões do ambiente externo, provavelmente sejam resultado de histórias de vida marcadas por relações interpessoais sem vínculos afetivos, pouco afetivos ou frias. E, por sua vez, quando adultos, tenderão a repetir este padrão de relações interpessoais frias, distantes, sem afeto, justamente, porque não viveram isso. Mas nada, como já falamos anteriormente, que não possa ser alterado! Se vocês quiserem estudar mais sobre esses conceitos, devem procurar algum livro básico sobre psicologia e suas correntes teóricas, ou sobre teorias da personalidade. Fica a dica do livro clássico, História da Psicologia Moderna, de Schultz e Schultz, em qualquer edição. 30GESTÃO DE PESSOAS Fases do desenvolvimento da personalidade e traços de personalidade. Após termos estudado os conceitos de comportamento, atitudes e personalida- de é importante estudarmos mais detalha- damente as fases do desenvolvimento desta personalidade. Falamos que este desenvol- vimento é uma espécie de construção, a qual acontece em etapas sucessivas durante as novas aquisições que vão acontecendo, novos processos de introjeção e identifi- cação. As etapas que veremos, agora, são descritas pela teoria psicanalítica do de- senvolvimento da personalidade (Schultz & Schultz, 2002). São consideradas etapas universais, o que quer dizer que, com algumas variações, todas as crianças, de todas as culturas, pas- sam por elas ao longo de sua infância. As etapas acompanham a idade cronológicas, contendo pequenas variações, que podem estar ligadas aos tipos de ambientes em que a criança está submetida. O importante é entender o que cada etapa agrega em termos de formação da personalidade, para que possamos aprofundar nosso entendimento sobre o comportamento humano. Em cada fase, ou etapa, a criança tem tarefas a cumprir, demandas internas com as quais tem que aprender a lidar, desejos que buscam satisfação, demandas do seu ambiente externo que a pressionam, e de- senvolver determinadas características que a acompanharão pela vida afora. Em cada fase, ela aprenderá, convi- vendo, interagindo e se vinculando com os adultos que estão ao seu redor, um mode- lo, um padrão de relacionamento social e afetivo, que tende a se cristalizar e a fazer parte do seu perfil de personalidade, quan- do chegar a fase adulta. Importante dizer que, quando falamos em desenvolvimento humano, precisamos entender que ele é um processo continuo de desenvolvimento dos vários aspectos do ser humano: aspectos físicos, aspectos cognitivos, aspectos sociais, aspectos afetivos. Aqui vamos enfatizar o desenvolvimento afetivo e social porque será ele que vai marcar o modo como as pessoas se comportarão em interação com as outras, e o modo como poderão modificar sua personalidade, atitudes e comporta- mentos na vida adulta. As fases do desenvolvimento da personalidade são chamadas, dentro do contexto da teoria psicanalítica, de fases ou estágios psicossexuais do desenvolvimen- to da personalidade (Schultz & Schultz, 2002). Eles têm esse nome porque são uma secessão de fases, sendo que em cada qual a energia instintiva da criança está “ligada” a uma área do seu corpo, que passa a fun- cionar como uma verdadeira zona erógena, e que “comanda” todas as suas relações in- terpessoais. Vemos, portanto, que a questão da sexualidade (não do sexo), é uma ques- tão importante para o desenvolvimento da personalidade. O desenvolvimento da personalidade é o próprio desenvolvimento da sexualidade de uma pessoa. Mas, atenção, quando falamos em sexualidade, queremos dizer o quê?! 31GESTÃO DE PESSOAS Sexualidade é energia. A energia vital que nos move, que impulsiona para todas as formas de desenvolvimento que podemos experimentar na vida. Neste contexto, o qual estamos estudando, o desenvolvimento da personalidade, a partir do ponto de vista da teoria psicanalítica, sexu- alidade não significa atos sexuais. A sexualidade, que está presente no ser humano desde o nosso nascimento, tem a ver com a obtenção de um prazer difuso em várias partes do corpo ao longo da vida, e com a constante busca de prazer, são impulsionadas pelo nosso instinto. A sexualidade tem a ver com prazer, com impulso para a ação, com a busca de vários tipos de prazer, com a vontade de se movimentar de várias formas para buscar satisfações de variados tipos. Enfim, sexuali- dade é um termo amplo, que significa a vontade de viver, buscar prazer e se sentir satisfeito. Podemos dizer, que a sexualidade, neste amplo e vital sentido, tem tudo a ver com a postura das pessoas que vivem do lado do sol da calçada! 32GESTÃO DE PESSOAS Após esta observação, que é impor- tante para o entendimento deste desen- volvimento da personalidade que estamos estudando, vamos voltar para as fases. Ao lado, apresentamos uma tabela com as fases psicossexuais do desenvol- vimento da personalidade e, a seguir, a explicação de cada uma delas, lembrando que é o que acontece com a energia sexual – libido – que vai comandar o surgimento das fases e a importância que, cada uma delas, tem na formação das características da personalidade. É importante nesse momento, como sempre, resgatarmos o propósito de estar- mos estudando as fases do desenvolvimento da personalidade. Estamos nos instruindo disso, para termos subsídios para compre- endermos, de uma forma mais profunda e robusta, os comportamentos humanos, sejam os nossos próprios, ou das pessoas que nos cercam. Importante sempre lem- brar disso, para ir “formando” na sua mente ideias coerentes e coesas sobre o entendi- mento do ser humano. Fase oral: primeira fase do desen- volvimento, que vai do nascimentoaté o segundo ano de vida. Nesta fase, a principal fonte de prazer da libido da criança são as atividades ligadas à sua alimentação. Ela obtém prazer na sucção, e posteriormente, nas mordidas, e a sensação do alimento (leite) entrando pelo seu corpo é uma fonte maravilhosa de prazer. O prazer vem também de todo o contato corporal que a criança tem com a mãe, tais como o afago, aconchegos, o cheiro da mãe, sua segurança ao ser tocada. Tudo isso, juntamente com a alimentação, compõe o conjunto de fontes de prazer da criança e contribuem para a formação do ego incipiente. A criança está totalmente Nome da Fase Idade Média Características ORAL 0-1 Predominância do id, sendo a boca a principal fonte de prazer obtido pela sucção. ANAL 1-3 Em função do treino dos hábitos de higiene, a região anal passa a ser a principal fonte de prazer. FÁLICA OU GENITAL INFANTIL 4-5 Fase do prazer com fantasias incestuosas. Fase do Complexo de Édipo. Formação do superego. LATÊNCIA 5 - Puberdade Fase de sublimação dos instintos sexuais. GENITAL ADULTA Adolescência em diante Fase do desenvolvimento da identidade sexual, do papel sexual e de relações adultas. Consolidação da personalidade. Tabela das Fases Psicossexuais do Desenvolvimento da Personalidade Fo nt e: B ee (2 00 7) 33GESTÃO DE PESSOAS dependente da figura materna que a cuida, e entre esta figura e a criança vai aconte- cendo um aprendizado: ambas aprendem a se amar. Esta será a primeira relação in- terpessoal da criança, seu primeiro vínculo afetivo, e por isso mesmo, o mais poderoso de sua vida. A forma como a mãe consegue atender às necessidades da criança, que são somente instintivas, será fundamental para o começo da formação de seu mun- do interior, do seu ego. Será no contexto desta relação, dependendo do que acontece com essa dupla, que a criança aprenderá se o mundo é bom ou mau, se é um lugar satisfatório ou não para suas necessidades, seguro ou perigoso. Toda esta relação oral e de dependência, que é fonte de prazer, será introjetada, “colocada para dentro”, começando a formar o ego da criança. Nesta fase a criança pequena precisa aprender a sentir que a figura materna irá satisfazer suas necessidades, que ela estará amparada e que a mãe é alguém em quem ela pode confiar, pois ira ajudá-la com suas necessidades. Os comportamentos orais que demonstramos na idade adulta, que nos dão satisfação, tais como beijar, comer ou beber, falar muito, são comportamentos originados desta fase da vida, em que o prazer vinha de atividades ligadas à boca. Fase anal: com o crescimento e de- senvolvimento físico, a partir do segundo ano de vida, a criança vai diminuindo sua total dependência da figura materna. Co- meça a se perceber como um ser separado da mãe, mais autônomo, com as possibi- lidades de locomoção trazem maior inde- pendência e autonomia. Nesta fase, também são fundamentais as práticas educativas parentais, ligadas ao treino do controle dos esfíncteres. Este treino terá importância fundamental na continuidade da formação da personalidade. Para esta teoria, a defe- cação traz um prazer sexual para a criança. O prazer que na fase anterior ela sentia, ao se alimentar, agora sente ao defecar e controlar os seus próprios esfíncteres. Além disso, os produtos fecais serão percebidos pela criança como o primeiro produto que ela faz e entrega ao mundo, “seu cocô é algo valioso”, que ela faz e entrega aos adultos, e espera que seja recebido com cuidado e carinho. Então, agora, diferente da fase an- terior, a criança terá que aprender a lidar com um obstáculo na busca da gratificação das suas necessidades: o treino higiênico imposto pelos seus pais, que não permitirá a ela dar vazão a todos os seus instintos libidinosos. Ela terá que aprender a abrir do prazer anal tão desejado para agradar aos seus pais. Esta fase será, portanto, muito con- flitiva para todos os envolvidos do que a anterior: crianças e pais. A criança aprende que tem uma arma a ser usada contra os pais: a desobediência aos seus pedidos de controle do cocô e xixi. Ela aprende que tem o controle sobre algo importante, o seu treino de higiene, e que pode optar ou não por agir de acordo com as demandas dos pais. De acordo com o grau de exigência do pais, a criança aprenderá a manipular os mesmos, podendo apresentar compor- tamentos de birra, desobediência, protesto, fazendo as suas necessidades em locais e modos bem diferentes daquelas que os pais tanto pedem. Também poderá aprender a reter suas fezes, o que poderá ser uma outra técnica de manipulação dos adultos. 34MODELOS DE GESTÃO O que é certo e que quanto maior for a rigidez dos adultos em relação ao treino da higiene, mais a criança irá aprender formas de combater esta rigidez e manipular os pais, pois ela entende que tem o direito de ter prazer e comandar esses aspectos tão importantes e recém descoberto de si mesma: suas atividades fecais. Então percebam que a relação de puro amor e satisfação da fase oral dá lugar a uma relação conflitiva, cuja apresentada para a criança com os dramas e os desafios que terá que enfrentar daqui em diante: a satisfação de suas vontades instintivas x a obediência aos outros que estão no mundo externo. A partir da fase anal, o ego (que está aprendendo a se relacionar e, simultanea- mente, se formando através das introjeções e identificações) terá que aprender a lidar com relações interpessoais mais confliti- vas, mais frustrantes. Os vínculos afetivos passam a não ser, somente, estabelecidos em relações de amor e satisfação, mas em relações de amor e ódio, de gratificação e frustração. Vejam que nessa fase acontece um processo longo e suave, de socialização da criança, a qual trará grandes mudanças gra- dativas na formação do seu ego. A socia- lização é um processo contínuo, no qual, o indivíduo, ao longo da vida, aprende e identifica hábitos e valores característicos que o ajudam no desenvolvimento de sua personalidade e na integração de seu grupo, tornando-o sociável, hábitos, esses, que não são inatos. Importante notar que existem dife- rentes processos de socialização de acordo com a sociedade que estamos inseridos, que utilizam diferentes práticas educativas. Qualquer que seja a classe social e a realida- de, os processos de socialização são muito diversos e podem ocorrer entre pessoas que vivem numa favela, por exemplo, ou entre os burgueses que habitam a zona sul de uma grande capital. Mas todos estes processos tem um objetivo comum: “domar” as von- tades instintivas da criança e ensiná-la a se comportar de acordo com os parâmetros da sociedade, a qual está sendo educada. Antes de continuarmos as fases do desenvolvimento, uma pausa! A essas alturas, você deve estar pen- sando: “nossa, quanta coisa que acontece e que se passa na cabeça de uma criança tão pequena”! Não me lembro disso na minha própria infância”! Importante lembrarmos que todos estes acontecimentos, a memória afetiva deles, os resultados de todas estas fases estão guardados lá no nosso incons- ciente. Lembram quando falamos que o inconsciente guarda todas as nossas me- mórias infantis?! As experiências, emoções, sentimentos, afetos, os vínculos vivencia- dos ao longo dessas fases, tudo isso está guardado lá no fundo da nossa mente, no nosso inconsciente. E, de lá, comandam e influenciam nossos comportamentos e atitudes. 35GESTÃO DE PESSOAS Fase Fálica ou Genital Infantil: com o seu crescimento contínuo, com seu en- tendimento da realidade sendo ampliado, a criança entra na terceira fase do desenvol- vimento. Nesta fase, o foco do prazer passa da zona anal do corpo para os genitais, tra- zendo um novo conjunto de conflitos para as relações interpessoais da criança com seus pais. Novamente, a criança encontrará batalhas entre a busca da satisfação dos seus desejos inconscientes e as demandas da sociedade, materializadas nas práticas