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Resumo Texto (PT)
 • DELTA 14 (spe) • 1998 •
https://doi.org/10.1590/S0102-44501998000300018 
O seu Trabalho Está Bom, Mas...
Seu artigo é bom, mas...
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Resumos
O objetivo deste ensaio é observar e analisar uma construção do tipo "Esta é uma primeira
abordagem, mas...", observada de maneira crítica por Charlotte Baker (1995), e refletir sobre as
possibilidades de uso da partícula "mas" no português falado.
Polidez; "Mas"; Atenuação na fala
O objetivo deste artigo é analisar e discutir as estruturas e construções do tipo "Esta é uma
primeira aproximação, mas...", examinadas criticamente por Charlotte Baker (1995), e refletir
sobre as possibilidades de uso da partícula "mas" na fala oral em português.
Polidez; "Mas"; Mitigação no discurso
O seu Trabalho Está Bom, Mas...
(Seu artigo é bom, mas...)
Hudinilson URBANO (Universidade de São Paulo)
RESUMO: O objetivo deste artigo é analisar e discutir as estruturas e construções do tipo "Esta
é uma primeira aproximação, mas...", examinadas criticamente por Charlotte Baker (1995), e
refletir sobre as possibilidades de uso da partícula " mas" na fala oral em português.
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RESUMO: O objetivo deste ensaio é observar e analisar uma construção do tipo "Esta é uma
primeira abordagem, mas...", observada de maneira crítica por Charlotte Baker (1995), e refletir
sobre as possibilidades de uso da partícula "mas" no português falado.
PALAVRAS-CHAVE: Polidez; "Mas"; Mitigação no discurso.
PALAVRAS-CHAVE: Polidez; "Mas"; Atenuação na fala.
É comum alguém começar desta forma a análise crítica de um trabalho, sobretudo quando se
está em presença do seu autor, como no caso das defesas de teses. Vem desse uso talvez até
a substantivação do "mas" em frases do tipo: "Há sempre um más" ou "Não tem más nem meio
más", onde ele significa restrição, objeção, dificuldade, estorvo, obstáculo etc.
Duas podem ser as motivações para o elogio contido na oração que precede o "mas": ou se
trata de um elogio verdadeiro em razão da qualidade real do trabalho ou se trata de um falso
elogio, fruto da simples atitude de polidez e diplomacia do falante. Em ambos os casos, esse
elogio soa como uma atenuação antecipada do que se vai dizer na seqüência do "mas".
Uma construção de estrutura sintático-semântico-pragmática semelhante pode ser
exemplificada em enunciados como:
"Eu não quero ser grosseiro, mas..."
"Posso estar enganado, mas..."
"Não sei se entendi bem, mas..."
"Desculpe o egoísmo, mas..."
Nestes enunciados, o segmento precedente ao "mas" não contém elogio, antes uma ressalva
ou restrição, também falsa ou verdadeira, ao próprio falante. Nesses casos, além da função
atenuadora antecipada, esses segmentos têm um caráter de preparação defensiva em relação
ao que vai ser dito na seqüência introduzida pelo "mas", como por exemplo:
(1)"Eu não quero ser grosseiro, mas você pegou o meu lugar."
Baker (1995) denominou esse uso do "mas" em tais contextos de "mas - prefácio controlador de
resposta". Na realidade o "mas" articula-se com um segmento anterior ("Eu não quero ser
grosseiro"), aprioristicamente atenuador, de feição mais ou menos formulaica. Esse conjunto
prefacia a oração "você pegou o meu lugar", de natureza ofensiva, que, sem o
acompanhamento atenuador do início, poderia ensejar uma réplica agressiva. Trata-se de uma
estratégia que tenta afastar por antecipação o eventual melindre do ouvinte em face de algo
menos cortês ou irreverente que ele, falante, pretende ou vai falar.
Sem que se possa considerar um uso conjuncional típico o "mas", nos termos das gramáticas
tradicionais, não há duvida que entre o segmento anterior e o posterior há uma contrariedade
semântico-pragmática de idéias e atitudes: não se quer ser grosseiro, mas se toma uma atitude
verbal que pode ser interpretada como grosseira. A oposição semântica pode não ser clara e
explícita, como prevêem as gramáticas.
Na verdade, no texto oral, sobretudo na conversação, a oposição estabelecida pelo "mas"
passa muitas vezes por uma cadeia de pressupostos, nem sempre clara e imediatamente
inferíveis, todavia mais ou menos convencionalmente aceitos e pragmaticamente
compreensíveis.
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Observemos o exemplo:
(2) "Sou pobre, mas sou honesto."
Neste exemplo a idéia de honestidade não se contrapõe logicamente à de pobreza, mas o
falante, ao relacionar essas qualidades por meio do "mas", aceita uma espécie de consenso de
que "pobre tem escassez de recursos, por isso tem dificuldade ou impossibilidade de cumprir
suas obrigações, tornando-se mau pagador; logo, desonesto", o que explicaria o emprego da
palavra "honesto" por oposição.
Freqüentemente o "mas" deixa de estabelecer contraste de idéias, proporcionando, porém, em
concorrência ou não, algum outro tipo de oposição de natureza discursiva ou pragmática.
Tomando-se por base o uso sintático original do "mas como conjunção coordenativa, podemos
formular o esquema [X + MAS + Y], aplicando-o às construções sob análise:
(3) "Eu não quero ser grosseiro, mas você pegou o meu lugar.
X Y
Observando este tipo de construção, parece que ela apresenta ao menos as seguintes
características:
1) quanto ao X:
- tem função de "atenuar" em benefício próprio e/ou do ouvinte, por antecipação, o conteúdo de
Y, por meio de um elogio ao outro ("Seu trabalho está bom") ou uma restrição ou falha sobre si
próprio ("Posso estar enganado"). Vale lembrar, com Rosa (1995: 30) que "a noção mesma de
atenuação permanece atada à obtenção de um efeito de sentido que só poderá ser considerado
e avaliado como tal numa interação social específica".
-trata-se de pequenas frases ou orações mais ou menos estereotipadas, como:
Não quero ser detalhista, mas... / Não me lembro bem, mas...
Posso estar enganado, mas... / Desculpe o egoísmo, mas...
- representa um comentário e/ou uma intenção metacomunicativos de controle do conteúdo de
Y. É, portanto, marginal ao tópico;
- nessas condições, controla/delimita uma possível resposta ou co-mentário do ouvinte, atingido
pela mensagem contida em Y, procurando afastar, por antecipação, sua indisposiçãoao que
será dito na seqüência;
- trata-se de oração paralela ao Y, gramaticalmente falando;
- deve estar vinculado necessariamente ao efeito de sentido de Y.
Em caso contrário, pode ocorrer o que Rosa (1992: 85-87) chama de "falso mas - prefácio",
como no exemplo abaixo, em que Y não se relaciona com X, ou, em outras palavras, o
conteúdo da direita ao "mas" não se relaciona com o objeto antecipado à esquerda ("como é
que se deu a mudança"):
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(4) L2 (...)Europa você encontrava os casos de histeria aqueles de histeria de
conversão né? que o cara... tem um TA:: que ali na sua frente... isso não
acontece... mais... sabe... eu não sei te explicar como é que se deu a mudança...
mas... caso assim é muito difícil de encontrar...(...) (vol III - p. 82)
- sinaliza que o falante sabe ou supõe que o conteúdo de Y é dúbio, contestável, ofensivo ou
irreverente, sendo, portanto, passível de uma possível crítica.
2) quanto ao Y:
- trata-se de uma mensagem principal, direta, a prevalecer, falando-se em termos de conteúdo;
- de alguma forma seu conteúdo implica o ouvinte ou o próprio falante, ou suas opiniões, ou os
seus comportamentos;
- trata-se de oração paralela ao X, gramaticalmente falando;
- deve estar vinculado necessariamente à intenção contida em X;
- trata-se de mensagem dúbia, ofensiva ou irreverente ou, de alguma forma, criticável. Enfim,
trata-se de um ato de fala considerado pelo falante como potencialmente ameaçador à face do
ouvinte e, por tabela, a sua própria face.
3) quanto ao X e ao Y:
- ambos devem ocorrer obrigatória e explicitamente, o que determina que o "mas" esteja
sempre em posição medial no turno;
- ambos preenchem estruturas sintáticas equivalentes (unidades teóricas coordenadas) e
correspondem a segmentos semântica e pragmaticamente vinculados e de alguma forma
oponíveis.
4) quanto ao "MAS":
- trata-se de uma conjunção coordenativa, portanto com função sintática normal de
coordenação; daí sua posição inicial na oração e medial no turno;
- no plano semântico, dentro do contexto específico, opõe de algum modo segmentos ou
introduz uma restrição.
Nessas condições, X funciona como um mecanismo atenuador acoplado ao "MAS", com o qual,
em conjunto, prefacia um segmento (Y), classificado como menos polido ou dúbio, capaz de
perturbar a interação pacífica entre os parceiros.
Por outro lado, conforme o grau de questionamento implicado no Y, também varia o grau da
força atenuadora de X.
Assim, por ter uma função mais interacional que referencial, o X pode ser entendido como
marcador de atenuação, mas, por não revelar uma cabal fixidez formal e uma grande
recorrência de uso é melhor designá-lo genericamente de "procedimento" de atenuação.
Levantadas as características gerais dessas construções, procuramos fazer uma pesquisa
rápida em transcrições de vários textos (amostras do Projeto NURC/SP e cerca de dez
entrevistas dos programas de TV "Jô Soares Onze e Meia" e "Marília Gabi Gabriela"), a fim de
examinar ocorrências que permitissem a aplicação desse suporte teórico, bem como reflexões
complementares.
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O levantamento revelou muito poucas ocorrências, principalmente perfeitamente enquadráveis
nas coordenadas arroladas. Parece que textos induzidos, como os do NURC e as entrevistas,
embora possibilitem muitas estratégias de atenuação, não favorecem a ocorrência do tipo de
construções que queríamos enfocar.
Mas as poucas ocorrências do tipo ou variantes dele ensejam, por ora, algumas observações
significativas.
A primeira é que deve ficar claro que o "mas-prefácio" (na realidade: X + MAS prefácio) é
apenas um dos vários procedimentos de atenuação possíveis e em abundância produzidos na
língua falada.
A segunda observação é que a ordem X+MAS+Y pode estar invertida. Assim, em lugar de
(5) O seu trabalho está bom, mas há falhas metodológicas nele.
X Y
pode-se dizer, com efeito atenuador talvez de grau diferente (caberia analisar mais
profundamente para chegar a uma conclusão a respeito):
(6) Há falhas metodológicas no seu trabalho, mas ele está bom.
Y X
ou:
(7) Inf. (...) agora é possível que haja outro termo específico mas isto já está:: ...
confesso... fora... dos meus limitados conhecimentos na matéria (DID 250, p. 139.
1. 261-263)
A terceira observação é quanto ao "falso mas-prefácio atenuador", já lembrado. Pode o Y não
ter vinculação com o X, conforme o exemplo (4); pode o X não conter conteúdo criticável ou de
alguma forma ameaçador à face do ouvinte e/ou do falante.
(8) Inf. agora o::o:: eu não sei bem porque que chamavam colonos mas os
empregados aqui em Campinas eles eram quase todos ... descendentes ... de
colonos italianos ...(DID 18, p, 18, 1. 65-67)
Portanto, não há o que atenuar... salvo se Y contiver um auto elogio, que causa certo
desconforto como em:
(9) L1 (...) e os processos também... que ele... recebe ou...
eu não sou leiga eu não entendo... mas... pelo que a gente... ouve falar são muito bem
estudados... tem pareceres muito bem dados. (D2, p. 166, L 1184-87)
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L1 está falando sobre seu marido como procurador do Estado. Elogiar o trabalho do marido
naturalmente soa como auto elogio, o que caracteriza uma falta de modéstia, que ela procura
atenuar, por antecipação com "eu sou leiga eu não entendo" e mesmo depois de proferido o
"mas", com a estratégia de distanciamento"pelo que a gente... ouve falar".
Muitas outras observações poderiam ainda provocar o presente ensaio, mas o objetivo, neste
curto espaço, é apenas chamar a atenção, juntamente com outros estudiosos sobre o "mas",
para as virtualidades de uso dessa partícula, aqui apenas esboçadas. Trata-se de partícula que,
combinada com outros recursos da língua e em contextos específicos, enseja originais
estratégias retóricas e de estilo, sobretudo na língua falada. Só a título de ilustração
relacionamos, extraída de um inquérito do Projeto NURC (DID 161), de 65 minutos, a
recorrência de nove construções reveladoras, produzidas por um mesmo informante:
(10) (...) colocaram coisas que estavam fo::ras... mas completamente fora da da do
TEMA. (p.39. 1. 46-47)
(11) de quem tivemos apoio? De ninguém... mas DE NINGUÉM MESMO...(p.41, 1.
120-121)
(12) (...) e assim mesmo foi MUITO pouco viu? mas muito pouco mesmo (p.41, 1.
127-128)
(13) (...) não tivemos nenhum PROblema mais sério ma::s aPOIO mesmo de
ninguém (p.41, 1. 134-135)
(14) (...) é um erro muito grande... mas muito grande mesmo(p.44,280-281)
(15) olha... o:: paulista é frio é gelado... mas é gelado mesmo (p.48, 1. 439-440)
(16) (...) existem pouQUÍssimos... principalmente em São Paulo mas
pouQUÍ::ssimos mesmo (p. 52, 1. 628-630)
(17) (...) é praticamente impossível... mas impossível mesmo (p.54, 1. 714-15)
(18) (...) ele é doente.. mas é doente MESmo (p.57, 1. 824-825)
A insistência de construções bastante semelhantes, respingadas de entonação intensiva,
alongamentos e repetições, com "mas enfático", permite abrir caminho para hipóteses
estilísticas desse falante, naturalmente sujeitas a análises mais profundas.
Finalmente cremos que uma variante do "mas prefácio atenuador" pode ocorrer em respostas
do tipo "sim mas" ( e variantes como "ahn ahn mas", "uhm uhm mas", "é mas" etc.), ainda que
com baixo grau de atenuação, não só pela formulaicidade do esquema, como também pela sua
alta rotatividade de uso, o que esvazia a própria significação pragmática do "sim". Pensamos,
sobretudo, nas respostas "sim mas..." em que o "sim"(ou sua variante) é produzido quase
mecanicamente, dentro de uma estratégia de cortesia, preparando um reparo ou discordância,
ainda que parcial, e, portanto, não significando total assentimento, como literalmente faria
supor. Trata-se de um "sim" cortês, facilitador da interação, na medida em que prepara e
atenua, por antecipação, uma resposta ou comentário possivelmente frustrante ou
desagradável para o falante anterior. Por outro lado, facilita a entrada pacífica no turno:
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L1 então você tem que abstrair desse aspecto porque você pode ter ambos os
ca::sos... você tem que pegar na média esquecendo esse aspecto particular...
L2 é mas aí:: é o tal negócio eu não me preocupo muito com a média... (D2, p. 31,
1. 565-569)
L1 faz a seguinte colocação: "você tem que pegar a média esquecendo este aspecto particular",
com a qual L2 não concorda, apesar de iniciar seu turno com "é", aparentemente concordância.
A fim de manter uma interação pacífica, ao invés de discordar prontamente L2 prefere utilizar
um "é"(substituto do "sim", que formal e convencionalmente é uma palavra de concordância),
que facilita polidamente a interação, na medida em que aparenta um alinhamento com o
interlocutor. Por outro lado ameniza antecipadamente o "eu não me preocupo muito com a
média...", enunciado que traduz opinião contrária à do seu interlocutor.
Datas de Publicação
» Publicação nesta coleção
11 Dez 2001
» Data do Fascículo
1998
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP
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