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🦴 Osteoporose Morgana R. Duarte- TXI Introdução Osteoporose: doença osteometabólica mais comum na prática clínica, caracterizada pela diminuição da massa óssea e pela deterioração de sua microarquitetura → risco maior de fragilidade e fratura óssea. Fraturas ocasionam: dor, incapacidade física, deformidades e redução da qualidade e expectativa de vida. Etiopatogenia Osteoporose primária: associada à menopausa ou ao envelhecimento. Osteoporose secundária: fator causal bem estabelecido, como medicações (pp glicocorticoides) ou doenças (endócrinas, desnutrição). Osteoporose 1 Patogênese Patogênese diversa e complexa, causada por um desequilíbrio na remodelação ósseoa. Aumento da reabsorção óssea (osteoclastos) e redução da formação óssea (osteoblastos), resultando em perda progressiva de massa óssea e aumento do risco de fraturas. Osteoporose 2 1) Remodelação óssea O tecido ósseo é ativo e sofre remodelação contínua. Osteoclastos: reabsorvem ossos velhos. Osteoblastos: formam novos ossos. Osteócitos: coordenam esse processo, indicando os locais de reparo. 2) Mecanismos celulares RANK/RANKL/OPG RANKL estimula osteoclastos, aumentando a reabsorção óssea, OPG bloqueia RANKL, inibindo a ativação dos osteoclastos. a Reguladores: vitamina D, PTH, citocinas IL1, IL6, IL11 estimulam RANKL e interferon gama inibe os osteoclastos. Via Wnt/B-catenina: estimula a atividade osteoblástica e a formação óssea. Esclerostina (produzida pelos osteócitos) inibe essa via, reduzindo a formação óssea. a Ação de LRP5 e proteínas Frizzled ativa a B-catenina e promove crescimento ósseo. Regulação da atividade do osteoclasto pelo sistema OPG/RANKL. Sob diferentes estímulos, os osteoblastos são levados a produzir em especial osteoprotegerina OPG ou ligante do receptor ativador do fator nuclear kappa B RANKL. O excesso de RANKL sobre OPG induz a diferenciação e a ativação dos osteoclastos, aumentando a reabsorção óssea. A OPG funciona como uma armadilha, capturando o RANKL sem deixar que ele chegue ao seu receptor. Osteoporose 3 3) Fatores que influenciam a osteoporose Pico de massa óssea atinge seu máximo por volta da 3ª década de vida. Fatores genéticos e ambientais: nutrição, exercícios, tabagismo, álcool e drogas ilícitas. Sexo: homens possuem ossos maiores, mais resistentes e menos reabsorvidos, mulheres têm maior dependência do estrógeno (perda acelerada na menopausa). 4) Papel dos hormônios Estrógeno: inibe esclerotina, reduz RANKL e regula citocinas inflamatórias (aumenta IGF1, TFGB e síntese de colágeno), favorecendo a formação óssea. a Déficit na menopausa: perda de 2030% do osso trabecular e 510% do osso cortical nos primeiros 10 anos. Papel da via Wnt na formação óssea por estimular a atividade osteoblástica. Os esquemas acima mostram os estados “ligadoˮ e “desligadoˮ da via Wnt/β-catenina. No estado “ligado ,ˮ a Wnt, um ligante extracelular, se liga à proteína relacionada ao receptor de lipoproteína 5/6 (LRP5/6 e à proteína Frizzled FZD, ambos na superfície da membrana plasmática do osteoblasto, formando um complexo ternário, que leva à translocação do chamado complexo de destruição para a membrana. Desta forma, a β-catenina não sofre fosforilação e fica livre para seguir até o núcleo e se ligar aos fatores de transcrição TCF/LEF, dando início à transcrição dos genes responsáveis pela formação óssea. A esclerostina (Scl), por sua vez, se liga a LRP4 e LRP5/6, impedindo a formação do complexo ternário com a Wnt. Dessa forma, o complexo de destruição fica livre para causar fosforilação P e ubiquitinação (Ub) da β-catenina, que é, assim, degradada por proteossomos. No núcleo, o repressor transcricional groucho toma o lugar da β-catenina, inibindo a formação óssea Osteoporose 4 Testosterona: homens convertem parte da testosterona em estradiol, contribuindo para saúde óssea, se houver deficiência de aromatase têm menor densidade óssea. PTH e Vitamina D: no envelhecimento, há maior PTH devido a menor síntese de Vitamina D e absorção intestinal de cálcio → ativação crônica da remodelação óssea. 💡 Impacto do envelhecimento: aumento de radicais livres ROS e glicação proteica fragiliza o osso. Osteócitos senescentes liberam citocinas que estimulam osteoclastos e a porosidade cortical aumenta (ossos mais frágeis). 5) Efeito dos glicocorticoides Suprimem osteoblastos, promovem morte celular de osteoblastos e osteócitos. Prolongam a sobrevida dos osteoclastos, acelerando a perda óssea. Causam hiperparatireoidismo secundário ao reduzir absorção intestinal e renal de cálcio. Diagnóstico Manifestações clínicas Doença assintomática até a ocorrência de uma fratura por fragilidade. Osteoporose 5 Principal manifestação: fratura por fragilidade → ocorre sem ou com mínimo trauma ou após queda da própria altura ou de uma altura menor, desde que um trauma de alto impacto não esteja envolvido. Maior frequência em vértebras 1º) → quadril 2º) → rádio distal (fratura de Colles, 3º). 💡 Fratura de quadril: maior morbimortalidade e limitação física. Fratura de vértebras: podem causar dor e limitação, mas em 2/3 dos casos são assintomáticas (achado incidental ou busca ativa com Rx simples). Como consequência pode haver cifose ou perda de altura. Osteoporose grave, com acentuada cifose (corcunda de viúva) e diminuição da altura, secundárias a fraturas de vértebras dorsais. Cunha: perda da altura anterior. Bicôncava: perda da altura média. Compressiva: perda das três alturas. Osteoporose 6 💡 Em paciente com osteoporose realizar busca por manifestações clínicas de causas secundárias para perda de massa óssea: hipercortisolismo, hiperparatireoidismo, hipertireoidismo, mieloma múltiplo e doença celíaca. Em homens pesquisar hipogonadismo. Densitometria óssea 1) Papel do diagnóstico A absorciometria por dupla emissão de raios X DXA é o exame padrão para medir a densidade mineral óssea DMO. Forte correlação entre risco de fratura e DMO. DXA usada para monitoramento da resposta terapêutica também. Osteoporose 7 💡 Cálculo da DMO: mede o conteúdo mineral ósseo (g) e a área óssea (cm2) fornecendo uma densidade areal. Indivíduos baixos 1,5m): subestima a DMO. Indivíduos altos 1,9m): superestima a DMO. Escores T e Z Escore T: compara a DMO com a média de jovens 2030 anos). Escore Z: compara a DMO com indivíduos da mesma idade. Escore T Classificação ≥ 1 Normal Osteoporose 8 Escore T Classificação 2,5 Osteopenia a DMO reduz além da MVS. Estabilidade da DMO quando a variação está dentro da MVS. Avaliação de fratura vertebral Osteoporose 11 Escore de osso trabecular Avalia indiretamente a microarquitetura óssea (dado não fornecido pela DMO → baixo TBS, alto risco de fratura. Prediz risco de fratura independente da DMO. DMO: mede a quantidade óssea, TBS mede a qualidade óssea → testes complementares. Outros exames de imagem TC quantitativa: mede a densidade volumétrica em coluna e quadril e analisa separadamente ossos cortical e trabecular, serve para acompanhamento de resposta terapêutica → exame caro e alta exposição à radiação. USG quantitativa do calcâneo: útil na predição do risco de fratura, mas não possui boa correlação com a DXA, utilidade única nas situações em que DXA não for possível. Densitometria óssea periférica DMO de sítios periféricos (calcâneo, antebraço e mãos), realizada com aparelhos portáteis. Cuidados na coleta da densitometria óssea Osteoporose 12 Biópsia óssea Padrão-ouro para o diagnóstico de osteoporose → técnica complexa e invasina, uso limitado. Indicação: achado clínicos e laboratoriais não permitem correto diagnóstico diferencial da osteoporose com a osteomalacia ou a doença mineral óssea do paciente renal crônico. Ferramentas para estimativa de risco de fratura FRAX Ferramenta desenvolvida pela OMS e Universidade de Sheffield. Mais difundida e usada mundialmente para estimar o risco de fratura em 10 anos. Pode ser usada como triagem para indicar necessidade de DXA. Fatores de risco utilizados: idade, sexo, peso, altura, histórico pessoal de fratura, histórico familiar de fratura de fêmur, AR, uso de glicocorticoides, tabagismo ativo, consumo elevado de álcool, causas secundárias de osteoporose e DMO do colo do fêmur (opcional). Osteoporose 13 Vantagens Desvantagens Fácil aplicação clínica Não considera a intesidade da exposição aos fatores de risco Fornece um ponto de corte indicativo de tratamento Não pode ser usado para monitoramento da resposta ao tratamento Não inclui o risco de quedas e algumas causas secundárias DM2 Não explica totalmente a fragilidade óssea de muitos pacientes Avaliação laboratorial Toda mulher pós-menopausa com osteoporose deve realizar exames laboratoriais antes do início do tratamento farmacológico. Objetivos: afastar causas de osteoporose secundária, diagnóstico diferencial e avaliar o status da vitamina D. Osteoporose 14 Achado Investigar Hipercalcemia Dosar PTH para investigar hiperparatireoidismo Hipercalcemia + anemia Solicitar eletroforose de proteínas para excluir mieloma múltiplo Hipocalciúria Pode indicar síndromes de má absorção (deficiência de vit D, por exemplo) Hipercalciúria Pode indicar hiperparatireoidismo primário ou hipercalciúria idiopática Calciúria Auxilia na investigação de ingestão dietética de cálcio Fosfatase alcalina elevada Suspeita de doença de Paget óssea Fósforo baixo Indicativo de osteomalacia Investigação em homens 4050% dos casos de osteoporose masculina são idiopáticos. Causas secundárias mais comuns: consumo excessivo de álcool, hipogonadismo ou uso crônico de glicocorticoides. Sempre avaliar testosterona na investigação inicial. Investigação em jovens: se baixa massa óssea, solicitar exames adicionais → pesquisa de anticorpos para doença celíaca, hipercortisolismo, dosagem de PTH. Papel dos marcadores de turnover ósseo Osteoporose 15 São indicadores da atividade metabólica óssea, associados à perda de massa óssea e risco de fratura: Marcadores de formação óssea P1NP Marcadores de reabsorção óssea (CTx) Ainda não têm papel definido no rastreio, diagnóstico ou decisão terapêutica da osteoporose → não há recomendação para solicitação de rotina. Possível utilidade para avaliar a aderência ao tratamento. Tratamento da osteoporose Medidas gerais Início precoce: garantir um pico adequado de massa óssea desde a infância. Exercícios físicos: aumentam a massa óssea e força muscular, melhoram o equilíbrio e reduzem o risco de quedas. Osteoporose 16 a Evitar: flexão anterior/lateral do tronco em pacientes com risco elevado de fratura vertebral. Hábitos de vida: parar de fumar, evitar excesso de álcool, adotar medidas de segurança em casa (corrimãos, tapetes, antiderrapantes, boa iluminação) Suplementação de Ca2: de 10001200 md/dia (preferencialemente da dieta), leite e derivados. Suplementação de VitD: exposição solar, óleo de peixe, gema de ovo, fígado → atenção aos grupos de risco. a Deficiência 20 ng/mL associação com osteomalacia e maior risco de quedas. b 50.000 UI/semana ou 7.000 UI/dia por 68 semanas e evitar doses muito altas intermitentes. Tratamento farmacológico Critérios para tratamento Fratura por fragilidade (independente do escore T. Escore T 2,5 (coluna, fêmur total ou colo do fêmur). Escore T entre 1,0 e 2,5 FRAX® indicando risco de fratura 3% (quadril) ou 20% (qualquer sítio). Classe Fármacos Mecanismo de ação Bifosfonatos (antirreabsortivos) Alendronato, Risedronato, Ibandronato, Ácido Zoledrônico Ligam-se ao osso e inibem a reabsorção pelos osteoclastos, induzindo sua apoptose. Denosumabe (ag monoclonal) Denosumabe Prolia®) Inibe o RANKL, reduzindo sua diferenciação e atividade dos osteoclastos. Terapia hormonal Estrógenos + Progesterona, Tibolona Reduz a reabsorção óssea ao modular a atividade osteoclástica. SERM Raloxifeno, Bazedoxifeno Agonista estrogênico no osso (preserva a massa óssea), antagonista na mama. Osteoporose 17 Classe Fármacos Mecanismo de ação Calcitonina Calcitonina de salmão (nasal, injetável) Inibe a reabsorção óssea, mas com eficácia limitada. Anabólicos Teriparatida, Abaloparatida Estimula os osteoblastos e promove formação óssea. Romosozumabe Romosozumabe Inibe a esclerostina, promovendo a formação óssea e reduzindo a reabsorção. Osteoporose 18 Osteoporose 19