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Crimes contra a dignidade sexual
Aspectos gerais dos crimes sexuais.
Profª. Luciana Fernandes
1. Itens iniciais
Propósito
As modalidades dos crimes sexuais integram importante parte do ordenamento jurídico penal, sendo
fundamental que se conheçam as modalidades, os elementos dos tipos penais em espécie e que se reflita
sobre o que estrutura tais delitos.
Preparação
Antes de iniciar este tema, tenha em mãos a Constituição e o Código Penal.
Objetivos
Identificar os crimes contra a liberdade sexual.
Reconhecer os crimes sexuais contra vulneráveis.
Analisar os delitos do título “lenocínio e tráfico de pessoa para fim de prostituição ou outra forma de 
exploração sexual”.
Classificar os tipos do “ultraje público ao pudor”.
Atenção
O material apresentado pode gerar desconforto psicológico para algumas pessoas. Caso esse seja o seu
caso, saiba que conta com a nossa simpatia. Se precisar, não deixe de buscar ajuda na Unidade Básica
de Saúde (UBS) mais próxima, ou no Serviço de Psicologia Aplicada de alguma Instituição de Ensino
Superior ou no Centro de Valorização da Vida (CVV) através do site cvv.org.br ou número 188. 
Introdução
Abusos sexuais de toda espécie são uma realidade infeliz em todo o mundo. Suas diversas modalidades
distribuem-se desigualmente em nosso país e atingem, principalmente, mulheres negras, pobres e periféricas
(ANDRADE, 2018). Além disso, ao contrário do senso comum, diversas pesquisas têm noticiado que os
principais agressores, especialmente no que se refere ao crime de estupro, são homens dos círculos de
convivência íntimo de mulheres (IPEA, 2014).
Considerando essas condições, iniciamos este duro tema convidando você, que é estudante, a quebrar os
paradigmas hegemônicos sobre “autores” e “vítimas” e a refletir de forma sistêmica sobre o assunto, mais
especificamente, sobre como o cisheteropatriarcado influencia a ocorrência desses fatos. 
Chamamos atenção para uma visão mais estrutural de como a “cultura do estupro” (SOUSA, 2017), aqui
abrigando uma ampla gama de abusos sexuais, tem contextualizado os delitos com maior ocorrência nos
módulos que apresentamos. Queremos despertar em você senso crítico para, não só conhecer as espécies de
delito, que é sobre o que mais nos debruçaremos neste material, mas também para problematizar qualquer
estereotipo lançado a respeito das partes envolvidas e todo tipo de cultura antidemocrática que subjaz aos
conflitos que descreveremos. 
Uma das evidências de como o sexismo influiu – e ainda influi –, inclusive na legislação criminal, é o fato que,
até 2005, para crimes como “Sedução” (art. 217), “Rapto violento ou mediante fraude” e “Rapto consensual”
(arts.219 e 220), se o algoz se casasse com a vítima, haveria uma diminuição de pena (art. 221). Essa prática
contribui para a construção cultural de que não há abusos em casamentos instituídos e tem intimidado, há
décadas, mulheres a denunciarem casos de abusos no próprio lar. Além disso, havia dispositivo (revogado)
que previa aumento de pena (art. 226, III) caso o agressor fosse casado e, a pior violação de todas: todo o
título VI, até 2009, era chamado de “crimes contra os costumes”. 
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A partir desta linguagem, reforçava-se que tais delitos não tutelavam a liberdade sexual, a dignidade humana,
ou sequer o direito à sexualidade, mas sim os “costumes” da família baseada na moralidade cristã. Por esses e
outros motivos, por muitas décadas, o sistema de justiça criminal assentou o entendimento, amparado na
legislação disponível, de que mesmo com aparência de violação sexual, muitas práticas, desde que
costumazes e praticadas em meio ao seio familiar, não configuravam crime. Assim, também, tudo o que
transcendia a moralidade desse modelo de família nuclear, não constituía violação relevante, motivo pelo qual
a população LGBTQI+ e as(os) trabalhadoras(es) sexuais encontram grandes dificuldades ao enfrentar o
sistema quando são vítimas de crimes sexuais.
Neste conteúdo, portanto, exploraremos todos os chamados crimes sexuais e, em síntese, buscamos nesta
introdução incentivar uma pesquisa interdisciplinar sobre o tema. Isto é, uma busca engajada aos pontos que
possam ir além dos limites da racionalidade jurídico descritiva, e implicar cada um para a discussão pública e
pauta de práticas democraticamente localizadas no trato das pessoas que vivem conflitos como esses.
Qualquer um/a que atua no sistema de justiça criminal e está diante de casos como esses deve se revisitar
sempre, sobretudo para não reproduzir os mecanismos de vitimização secundária das pessoas que relatam
abusos, produzindo ainda maior sofrimento a essas partes.
1. Os crimes sexuais
Primeiras palavras
Começamos, então, com o corte dogmático fazendo duas notas comuns a todos os crimes deste título:
Primeira nota: Segundo o art. 234-A, com redação dada pela Lei nº 13.718, de 2018 – implicando em uma 
novatio in pejus –, aumenta-se a pena (BRASIL, 2018): 
de metade a 2/3 (dois terços), se do crime resulta gravidez;
de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o agente transmite à vítima doença sexualmente transmissível
de que sabe ou deveria saber ser portador, ou se a vítima é idosa ou pessoa com deficiência.
Segunda nota: conforme o art. 234-B, “os processos em que se apuram crimes definidos neste título correrão
em segredo de justiça”. 
Feitos os registros, vamos, então, para o estudo detalhado dos delitos, separados em função dos capítulos
que integram. 
Crimes contra a liberdade sexual
Os crimes deste título são dolosos e têm como razão de ser a proteção da liberdade e do direito à
sexualidade, assim como a autonomia e a dignidade humana. Fala-se aqui no livre consentimento ou na
formação da vontade em matéria sexual, sendo um importante espectro da liberdade e da subjetividade das
pessoas.
Tivemos algumas alterações recentes a este tema, como a
emergência da Lei nº 13.718/2018 que criou crimes
autônomos e causas de aumento de pena – os quais
trataremos oportunamente – e alterou a ação penal
referente aos títulos.
Dica
Tome nota, então, que, a partir dessa legislação, todos os casos de crimes contra a liberdade sexual e
de crimes sexuais contra vulneráveis são processados mediante ação penal pública incondicionada (art.
225, CP). 
Antes disso, a ação pública era condicionada à representação, ressalvados alguns casos, como quando a
vítima fosse menor de 18 anos ou pessoa vulnerável. Assim, por se tratar de uma novatio legis híbrida, com
caráter processual e material, e que consiste em um prejuízo para o réu (nos casos em que a ação dependia
de representação), passa a ser aplicada apenas após a sua regência. 
Feitas as notas gerais, podemos passar a estudar cada um dos crimes do capítulo separadamente.
1. 
2. 
O crime de estupro (art. 213, CP)
Estupro
Antes de entrarmos neste tópico, a professora Luciana Fernandes discorrerá sobre o tipo penal de estupro e
as principais questões relativas a ele.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Para fins meramente didáticos, dizemos que são duas as possíveis modalidades do crime de estupro: 
Aquela em que há ato conjunção carnal.
Aquela em que há qualquer outro ato libidinoso.
Exemplo
Por atos libidinosos podemos citar a “masturbação; os toques ou apalpadelas com significação sexual no
corpo ou diretamente na região pudica (genitália, seios ou membros inferiores etc.) da vítima; a
contemplação lasciva; os contatos voluptuosos” (PRADO, 2019, p. 1436). 
Dispensa-se, portanto, a penetração para a tipificação do crime, embora esta possa integrar o contexto do
fato. Nesse sentido, até mesmo um beijo lascivo, a depender do contexto fático, vem sendo encarado pelos
Tribunais como suficiente para ensejar a sua caracterização, o que podemos encarar com bastante
desconfiança, sobretudo em face do princípio da lesividade e da intervenção mínima.
Comete o crime de estupro, em tese, quem constrange alguém, mediante violência ou grave
ameaça, para a prática ou permite com que ele se pratique qualquer uma dessaspúblico ao pudor
	Do ultraje público ao pudor
	Ato obsceno (art. 233, CP)
	Ato obsceno
	Conteúdo interativo
	Comentário
	Ato obsceno
	Lugar público
	Escrito ou objeto obsceno (art. 234, CP)
	Vem que eu te explico!
	Escrito ou objeto obsceno.
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	5. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Explore +
	Referênciasmodalidades. 
Saiba mais
O ato do constrangimento, que é elemento típico essencial, implica em forçar ou obrigar alguém a uma
prática sexual. 
No entanto, o CP sofreu alterações no art. 214: 
Nesse sentido, houve o fenômeno da continuidade normativa ou da continuidade típico-normativa, com uma
alteração geográfica do tipo penal, mas não a sua extinção. Não obstante, no Código Penal Militar, ainda há
essa divisão entre o crime de atentado ao pudor e estupro – e que passa a ser aplicável, estritamente, a esta
justiça. 
Estamos diante de um tipo misto alternativo, logo: 
Se o agente, no mesmo contexto fático, pratica conjunção carnal e outro ato libidinoso contra uma só
vítima, pratica um só crime do art. 213 do CP.
(STJ, HC 212.305/DF)
Podem ser sujeitos ativo e passivo qualquer pessoa, sendo um delito comum e, por mais óbvio que possa
parecer para alguns, vale ressaltar que o casamento ou a união formalizada entre as pessoas envolvidas em
nada interfere para a configuração típica. Outro elemento estruturante do delito é o dissenso da vítima, isto é,
que ela não consinta com a prática de modo objetivo e com clareza. 
Trata-se de um crime doloso, em que a pessoa autora precisa ter consciência e vontade dos
elementos do tipo e que demanda um elemento subjetivo específico, que é a intenção de obter o
envolvimento sexual.
Redação original 
Na redação original, o CP trazia dois tipos
penais: estupro e atentado violento ao pudor
(art. 214), e só havia o estupro com a prática
de conjunção carnal. 
Crime revogado 
Com a Lei nº 12.015/09, o crime de
atentado violento ao pudor foi
formalmente revogado e, como visto, a
prática de qualquer ato libidinoso já
atrai a incidência do crime de estupro. 
Além disso, admite tentativa (art. 14, II, CP), quando por
motivo alheio à vontade algum ato externalizando a
intenção do estupro for cometido, mas nenhum ato
libidinoso for cometido. Suponha, como exemplo, que a
vítima do crime grite e, despertando atenção dos vizinhos,
que tentam adentrar ao local do fato, o autor tenha a
empreitada interrompida. 
Em síntese, trata-se de crime comum, doloso, de resultado
comissivo e instantâneo. Há algumas formas qualificadas do
delito, insculpidas nos parágrafos do art. 213: 
§ 1º Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou
maior de 14 (catorze) anos;§ 2º Se da conduta resulta morte.
(DECRETO-LEI Nº2.848, 1940) 
Vale lembrar que os resultados do estupro qualificado devem se dar, necessariamente, de modo culposo.
Caso, por exemplo, haja dolo na morte da vítima, que ocorre ao longo do estupro, não haverá estupro
qualificado, mas, sim, concurso de crimes (homicídio e estupro). 
Outro caso de concurso de crimes possível e
que, infelizmente, tem recorrência é a hipótese
do sujeito ativo que sabe ou deve saber que
está contaminado com doença venérea e que
obriga a vítima a com ele manter relação sexual,
expondo-a a risco de contrair a moléstia. Nesse
caso, em tese, responde por estupro em
concurso formal com crime do art. 130, caput,
CP.
A sanção da modalidade simples do estupro é
de 6 a 10 anos de reclusão, e, das modalidades
qualificadas, de 8 a 12 ou 12 a 30 anos, a depender da espécie do resultado. Todas as suas modalidades
(simples e qualificado) são crimes hediondos. 
Violação sexual mediante fraude (art. 215, CP)
Trata-se de crime doloso e comum, que admite tentativa e que também envolve aqueles dois elementos: da
conjunção carnal ou ato libidinoso. O tipo consiste em “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso
com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da
vítima” (LEI Nº 12.015, 2009).
Segundo a redação exposta, esse delito altera o modo como o autor executa o crime, aqui não sendo o
constrangimento de modo genérico, mas a “fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação
de vontade da vítima” (LEI Nº 12.015, 2009). Estamos diante de um crime, portanto, que tem o vício da
vontade como principal elemento, de modo que a vítima seja enganada, equivocando-se quanto às reais
características do agente. 
Esse é o motivo de haver consentimento por parte do
sujeito passivo, isto é, ter sido enganada, embora mantenha
a consciência e a capacidade de resistência – motivo pelo
qual não será o caso de um estupro de vulnerável. Mas a
fraude é apenas uma das hipóteses, contemplando o tipo
também a interpretação analógica desta, por meio da
expressão “outro meio que impeça [...]”, sendo que “o
malicioso silêncio e a mentira podem ser utilizados como
meios fraudulentos” (PRADO, 2019, p. 1443). 
Mesmo contemplando a intervenção mínima e o princípio da
legalidade, é preciso ter bastante cuidado para que não se
banalize a possível expressão “fraude”. 
Resumindo
Em síntese, estamos diante de um delito comum, doloso, comissivo, instantâneo e de resultado. 
O delito é sancionado com pena de reclusão de 2 a 6 anos. Também há modalidade qualificada prevista,
quando cometido com o fim de obter vantagem econômica, hipótese em que se aplica também multa (art. 215,
parágrafo único, CP).
Importunação sexual (art. 215-A, CP)
Trata-se de um crime recente, criado pela Lei nº 13.718/2018, e que tipifica de forma subsidiária a conduta de
praticar ato libidinoso sem o consentimento da vítima. Veja que a redação do crime é bem próxima a do
estupro, com exceção do elemento violência ou grave ameaça. Por isso, a sua aplicação fica sujeita à
inexistência do cumprimento dos requisitos daquele crime: 
Praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia
ou a de terceiro. 
(LEI Nº 13.718, 2018)
O delito foi trazido ao ordenamento ao longo de
uma onda de denúncias de casos de
“importunação” em transporte público,
especialmente envolvendo homens que
esfregavam suas genitálias em mulheres em
transportes públicos. 
Essas condutas não chegavam a assumir os
termos do crime de estupro e, por isso, os
poucos casos que chegavam às instâncias
formais de controle eram arquivados.
Também é um crime comum, doloso, que admite tentativa e que deve ter uma natureza física e voltar-se
contra vítima certa. O autor da infração, tal como nos demais tipos vistos, deve ter consciência de que o
sujeito passivo não anuiu para a prática do ato libidinoso. Pela infração, o legislador prevê pena de 1 a 5 anos
de reclusão. 
Como nota distintiva principal, entre este ilícito e o crime de estupro, deve-se verificar a
discordância da vítima, que naquele está relacionada ao constrangimento decorrente do emprego de
violência ou grave ameaça, e aqui não assume forma delimitada. 
Ainda, por ser subsidiário, não estará configurado se o aproveitamento se der em virtude da situação de
vulnerabilidade da vítima, caso em que poderemos estar diante de um dos crimes do próximo título que
estudaremos. 
Por fim, vale trazer a nota que estamos reforçando ao longo da construção de todo este material que nem
todo constrangimento deve, em virtude da ultima ratio que justifica o direito penal, ser considerado crime. É
necessário assumir a centralidade da palavra da vítima, mas não banalizar a responsabilização penal em
virtude de seus efeitos brutais; da seletividade que lhe é imanente; e das limitações conhecidas no que tange
à reversão de questões como essas que tocam aspectos sistêmico-estruturais.
Assédio sexual (art. 216-A, CP)
A principal característica deste crime, distintiva das demais modalidades de abuso sexual (em sentido amplo),
é o âmbito em que é realizada, isto é, nas “atividades de trabalho ou nos ambientes em que determinadas
pessoas tenham ascendência sobre outras, em razão do emprego, cargo ou função, inclusive na seara das
relações docentes (v.g., relação entre professor e aluno)” (PRADO, 2019, p. 1450). 
Assim dispõe o tipo penal: 
Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o
agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício deo direito à liberdade sexual.
O Código Penal faz presumir essa incapacidade em algumas hipóteses e, em outras, atribui maior conteúdo
axiológico. Nesse sentido, são vulneráveis:
Menores de 14 anos
As pessoas com menos de 14 anos (presunção
iuris et de iure de vulnerabilidade, ou seja,
presunção absoluta.)
Sem oferecer resistência
Aquelas que, por enfermidade ou deficiência
mental, “não têm o necessário discernimento
para a prática do ato, ou que, por qualquer
outra causa, não podem oferecer resistência”.
Cada tipo penal contemplará apenas uma ou as duas modalidades e, quanto àquelas que tenham menos de 14
anos, a depender da hipótese, é possível aplicar o ECA.
O erro a respeito da menoridade da vítima ou sobre sua enfermidade ou deficiência mental, isto é, sobre a
causa essencial da condição de vulnerabilidade elide o dolo e afasta a tipicidade, tornando o fato irrelevante
penalmente. Porém, a dúvida que configure dolo eventual, em tese, não elide a responsabilidade. 
Como dito, o legislador visou proteger pessoas que, em virtude de uma condição permanente, transitória ou
acidental, estão mais suscetíveis de serem violadas, sem que respondam pela liberdade sexual. Notem que,
diferentemente de alguns crimes que conhecemos anteriormente, não se requer o dissenso da vítima, sendo
“independente de consentimento ou experiência sexual anterior da vítima, bem como da existência de
relacionamento amoroso com o agente” (PRADO, 2019, p. 1465). 
Então, vamos considerar os seguintes cenários: 
Uso de tóxico
Imagine que se comprove que uma pessoa
estava completamente entorpecida, pelo uso de
tóxicos – e, por isso, esteja incapaz de oferecer
resistência – e que seja abusada sexualmente
nesta condição.
Condição adversa
Ou uma vítima que apresente alguma condição
de deficiência, enfermidade ou idade avançada
que impossibilitem a resistência; ou, sofrimento
mental – desde que qualquer uma dessas
condições, necessariamente, impactem no
exercício da sua liberdade sexual.
Ainda que se alegue que “consentiu”, ou mesmo que se afirme que o uso da substância fora por livre escolha
da vítima, o que se tem em vista é o momento do ato sexual, presumindo-se, nesse caso, que estava
impossibilitada de concordar. Por isso, em tese, teremos a ocorrência de um dos crimes insculpidos neste
tópico. 
Passemos, assim, para a análise dos crimes separadamente que, já adiantamos, são todos dolosos e
processados por ação penal pública incondicionada (art. 225, CP, após a alteração da Lei nº 13.718, de 2018). 
Características do crime de estupro de vulnerável (art. 217-A, CP)
Estupro de vulnerável
Vamos entender as nuances desse tipo penal assistindo ao vídeo a seguir?
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo deste crime, enquanto o sujeito passivo deve ser “vulnerável”, nos
termos que expusemos na introdução e que estão delimitados no art. 217-A, caput e §1º. A conduta
incriminada no caput é a de ter “conjunção carnal” ou praticar “outro ato libidinoso” com essas pessoas,
conceitos que já estudamos quando vimos o crime de estupro e que remetemos, mais uma vez, ao estudo. 
Saiba mais
Trata-se de crime que foi incluído pela Lei nº 12.015, de 2009, sendo que, antes dessa, era tipificado
como estupro com a causa de aumento esboçada no art. 9º da Lei nº 8.072, o que atribuía uma sanção
penal mais favorável ao agente. 
Assim, conforme as lições de conflito de leis penais no tempo, a Lei de crimes hediondos é ultrativa por ser
mais benéfica que o estupro de vulnerável; mas a alteração no CP, com o tipo do art. 217-A, tem sido aplicada
para todas as práticas posteriores a sua vigência, quando não há conflito de normas.
Também aqui falamos de um tipo subjetivo doloso, com a finalidade específica de “constranger à conjunção
carnal ou ao ato libidinoso”, não havendo modalidade culposa por incongruência mesmo com o fato em si
repreendido. Não se exige violência ou ameaça, sendo irrelevante o consentimento e a efetiva conjunção
carnal, bastando que ocorra um chamado “ato libidinoso” (RHC 70.976, Informativo 587, STJ e HC 134591/SP,
julgado pelo STF, Informativo 954). 
Há incidência do crime na modalidade omissiva imprópria,
desde que satisfeitos os requisitos legais para a
configuração dos “agentes garantidores”. É o caso, por
exemplo, de um parente próximo ou de qualquer pessoa que
se coloque como responsável pela vítima, desde que
contemple todos os elementos do art. 13, CP, quando não
afasta o sujeito passivo do agressor, mesmo em
conhecendo os abusos.
Nesse sentido, julgou o STJ:
No caso concreto, a acusada omitiu-se, durante anos, quanto aos abusos sexuais praticados pelo seu
marido, na residência do casal, contra sua irmã menor. Vale ressaltar que ela assumiu a responsabilidade
ao levar a criança para a sua casa sem a companhia da genitora e criou risco da ocorrência do resultado
ao não denunciar o agressor, mesmo ciente de suas condutas, bem como ao continuar deixando a
menina sozinha em casa. 
(HC 603.195-PR, STJ)
É possível a tentativa (art. 14, II, CP), quando o crime não se perfaz por circunstâncias alheias à vontade do/a
autor/a, mas desde que haja alguma externalização dessa vontade relevante e que não chegue a configurar
ato libidinoso, em virtude dos princípios da culpabilidade e da lesividade. Em suma, trata-se de crime comum,
doloso, comissivo, instantâneo e de resultado.
O art. 217-A, §§3º e 4º, CP trabalha com as modalidades qualificadas (delito qualificado pelo resultado) dos
crimes, quando há a intensão de praticar o ato libidinoso e, por culpa, o sujeito ativo causar lesão corporal de
natureza grave ou mesmo a morte. 
Relembrando
Vale lembrar que se demanda que o resultado tenha emergido, no mínimo, a título culposo e que, caso
haja o dolo no resultado, isto é, se há consciência e vontade (dolo geral) ou a assunção de risco de
produção (dolo eventual) da lesão corporal de natureza grave ou mesmo a morte, haverá concurso de
crimes. 
Não obstante, como aponta Regis Prado, e como é comum em crimes que têm a violência como modo de
execução:
A lesão corporal de natureza leve ou as vias de fato resultantes da violência empregada pelo agente
integram a violência real, sendo absorvidas, por conseguinte, pelo tipo legal do artigo 217-A, caput, do
Código Penal. 
(PRADO, 2019, p. 1468)
A pena prevista é reclusão, de 8 a 15 anos (art. 217-A, caput e §1.º, CP). Para as formas qualificadas, as penas
são reclusão, de 10 a 20 anos, se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave, e de reclusão, de 12 a
30 anos, se da conduta resulta morte, respectivamente (art. 217-A, §§3º e 4º, CP). Trata-se de um crime
hediondo, tanto na forma simples, como na qualificada (art. 1.º, VI, Lei 8.072/1990).
Relembrando
Lembre-se de que só corre a prescrição, caso a ação não tenha sido proposta e antes de transitar em
julgado a sentença final, quando a vítima completa 18 anos (art. 111, V, CP). 
Indução de menor de catorze anos a satisfazer a lascívia de outrem (art. 218,
CP)
No crime do art. 218, CP, temos uma das exceções ao monismo em matéria de concurso de pessoas (art. 29,
CP), visto que se pune uma das modalidades de participação no crime de forma autônoma. Aqui, o legislador
busca reprimir quem “faz nascer a ideia” em uma pessoa menor de 14 anos, para satisfazer a lascívia de
outrem, isto é, para o prazer sexual de uma terceira pessoa. 
Trata-se de um ilícito voltado contra quem, portanto, induz
a criança/adolescente a ceder e satisfazer a sexualidade de
alguém. Já a pessoa que cometer o abuso, isto é, o ato
libidinoso contra a criança ou adolescente, efetivamente, irá
responder pelo art. 217-A, nos termos do item que
estudamos anteriormente.
Vale notar que o modo de execução não está recortado pelo
tipo, mas, dada a recorrência, a Lei nº 8.069/1990 inseriu o
§1º, pontuando que no delito incorre quem pratica a indução
por “meios eletrônicos, inclusive salas de bate-papo da
internet”.
Trata-se de um crime com vítima delimitada: pessoaque tenha menos de 14 anos apenas, sendo que o CP
não trouxe aquele conceito axiológico de vulnerabilidade mais amplo. Não obstante, por ser crime comum,
qualquer pessoa, desde que maior de 18 anos, pode ser sujeito ativo.
É um crime doloso e com pena de reclusão de 1 a 4 anos, que será aumentada em um terço se a infração
cometida ou induzida estiver incluída no rol dos crimes hediondos, conforme o artigo 1º da Lei nº 8.072/1990
(art. 244-B, §2º, da Lei nº 8.069/1990). E, por fim, não se confunde com o art. 244-B do ECA, também
conhecido como “corrupção de menores”.
Satisfação de lascívia mediante presença de criança ou adolescente (art. 218-
A, CP)
O delito em exame consiste na ação de praticar, na presença de alguém com menos de 14 anos, ou induzi-lo a
presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem.
Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo (crime comum), embora o sujeito passivo deva ser uma pessoa com
menos de 14 anos, como no crime anterior.
Comentário
Note que não há necessidade de o ato ser praticado diretamente com a vítima, bastando que presencie
qualquer ação voltada à satisfação do apetite sexual e que esta tenha relevância. Inclusive, quando
houver, poderemos estar diante de um concurso de crimes. Assim, o legislador buscou preservar a
formação da personalidade de crianças e adolescentes, como também o fez no delito antecedente. 
O crime é doloso e só se perfaz com a demonstração da vontade de satisfazer a lascívia própria ou de outrem.
Trata-se de uma finalidade específica sem a qual a infração penal não está perfeita. Isto é, o caso de pais que
tiverem relações sexuais, ainda que adolescentes compartilhem o dormitório – como é a realidade de grande
parte da população brasileira – não perfaz o crime, que requer o elemento especial do propósito de satisfação
pelo fato mesmo da presença da vítima.
Em suma, temos um delito comum, doloso, comissivo e de resultado, sendo admitida a tentativa e que tem
pena prevista de reclusão de 2 a 4 anos. 
Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de
criança ou de adolescente ou de vulnerável (art. 218-B, CP)
O crime em exame se perfaz em “submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração
sexual alguém menor de 18 anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário
discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone”. Veja que várias formas
de execução estão abrangidas, já que o verbo “submeter” implica em uma sujeição direta; “atrair”, uma
espécie de induzimento; “facilitar”, criar os meios necessários; “impedir”, obstar e “dificultar” criar óbices para
o abandono da prostituição, sendo esta o exercício do trabalho sexual, ou outra forma de exploração sexual. 
Segundo o art. 218-B, §2º, I e II, CP, incide nas mesmas
penas desse artigo quem pratica conjunção carnal ou outro
ato libidinoso com alguém menor de 18 e maior de 14 anos
na situação descrita no caput, bem como o proprietário, o
gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem as
práticas referidas no caput deste artigo.
Atenção
Para essa equiparação, segundo a qual “cliente que conscientemente se serve de prostituição de
adolescente, com ele praticando conjunção carnal ou outro ato libidinoso, incorre no tipo previsto no inc.
I do §2º do art. 218-B” (HC 288.375-AM, STJ). 
Trata-se de crime comum, que pode ser praticado por qualquer pessoa adulta, mas que contempla os dois
conceitos de “vulnerável”, quanto ao sujeito passivo – vide introdução. Também é um delito doloso, sendo que
a finalidade especial é de satisfazer a lascívia alheia. É possível a tentativa, dado que só se consuma com a
inserção na prostituição ou na cena de outra forma de exploração sexual (para os verbos induzir, atrair e
facilitar) ou então quando se impedir ou dificultar o abandono destas (para o núcleo impedir ou dificultar).
A pena é de reclusão, de 4 a 10 anos e há modalidade qualificada, caso em que se aplica também multa (art.
218-B, §1º). Por fim, vale dizer que também estamos diante de um crime hediondo (art. 1º, VIII, Lei
8.072/1990).
Divulgação de cena de estupro ou de cena de estupro de vulnerável, de cena
de sexo ou de pornografia (art. 218-C)
Este delito foi inserido pela Lei nº 13.718/2018 e consiste em “oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender
ou expor à venda, distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio – inclusive por meio de comunicação de
massa ou sistema de informática ou telemática –, fotografia, vídeo ou outro registro audiovisual que contenha
cena de estupro ou de estupro de vulnerável ou que faça apologia ou induza a sua prática, ou, sem o
consentimento da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia”. 
O primeiro apontamento que deve ser feito é que, por estar
no título referente aos crimes contra vulneráveis, em tese,
têm esta vítima apenas. Não obstante, tal ponto ainda está
gerando debate na cena jurídica, inclusive pela relação que
mantém com o delito do art. 241-B do ECA que listam
práticas que envolvam registro de “cena de sexo explícito
ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente”.
Trata-se de um crime que pode ser cometido de forma livre
e que coíbe, na primeira parte do artigo, a profusão de cena
de estupro ou estupro de vulnerável (arts. 213 e 217-A, CP)
ou que faça apologia, demandando aqui a ocorrência e registro de um destes delitos. 
Na segunda parte, proíbe-se a divulgação de
cenas de sexo, pornografia ou nudez, desde
que haja o dissentimento da vítima. Atenção!
Para esta segunda modalidade,
especificamente, temos esse elemento
normativo da ausência do consentimento da
vítima de propalar as imagens. Isto quer dizer
que, caso a vítima concorde em propagar as
cenas, não haverá, em tese, a infração.
É um crime doloso e que demanda, para a
consumação, com a externalização de algum
dos verbos que sublinhamos, sendo que, na modalidade “oferecer”, a simples oferta da imagem, mesmo sem o
consumo, já perfaz o tipo. Admite-se tentativa, sobretudo nas modalidades de crime de resultado.
A pena é de reclusão de 1 a 5 anos.
Saiba mais
Segundo o §1º, ela pode ser aumentada de 1/3 a 2/3 se a vítima “mantém ou tenha mantido relação
íntima de afeto com a vítima ou com o fim de vingança ou humilhação”, caso que ficou conhecido como
revenge porn (vingança pornográfica). Aqui, buscou-se coibir a recente onda de exposição de vídeos
após términos de relação ou por qualquer outro motivo de chantagem. 
Não há crime quando o agente pratica as condutas “em publicação de natureza jornalística, científica, cultural
ou acadêmica com a adoção de recurso que impossibilite a identificação da vítima, ressalvada sua prévia
autorização, caso seja maior de 18 (dezoito) anos” (§2º art. 218-C, CP), sendo esta uma excludente de ilicitude
específica do crime. Nesse caso, o sopesamento é dos bens jurídicos tutelados com a liberdade de expressão.
Causas de aumento de pena (art. 226, CP)
Por fim, segundo o art. 234-A, todos os crimes deste tópico terão a pena aumentada – valendo notar que as
causas de aumento atribuídas pela Lei nº 13.718/2018 só se aplicam aos fatos cometidos posteriores a sua
vigência:
Inciso I
De quarta parte, se o crime é cometido com o concurso de 2 (duas) ou mais pessoas.
Inciso II
De metade, se o agente é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor,
curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tiver autoridade sobre ela;
(Redação dada pela Lei nº 13.718, de 2018).
Inciso IV
De 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado: (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018).
Estupro coletivo (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)
a) mediante concurso de 2 (dois) ou mais agentes; (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)
Estupro corretivo (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)
b) para controlar o comportamento social ou sexual da vítima: (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)
Duas notas sobre o que embasou a criação legislativa:1
Estupro coletivo
Primeiramente, no caso de “estupro coletivo”, alguns casos paradigmáticos que tomaram a cena
pública envolvendo a violação de mulheres e pessoas LGBTQIA+ por um coletivo, sobretudo, de
homens. Diante da circulação, inclusive, de vídeos envolvendo flagrantes, houve uma intensa
mobilização em favor do aumento da reprimenda nessa hipótese, que informa uma série de
aliciamentos que possibilitam a cultura dos abusos sexuais contra as referidas populações. 
 
2Estupro corretivo
Por último, o chamado “estupro corretivo”, também inserido como uma causa de aumento de pena
aplicável a todos os crimes do título, e que foi fruto do engajamento, sobretudo, da população
LGBTQIA+. Aqui, face ao acúmulo de denúncias de casos de pessoas com identidades de gênero e
sexualidades não hegemônicas (PRECIADO, 2014) que são abusadas diariamente como uma forma
de “correção”, o grupo articulou-se para que a punição fosse mais dura e houvesse algum conteúdo
normativo que reconhecesse a incidência dos casos. 
 
Embora não tenhamos espaço para ampliar a discussão, convidamos você a realizar uma breve reflexão:
Reflexão
A política do enrijecimento penal, com todos os seus limites, tem potencial de transformar a cultura que
subjaz a estes casos? 
Neste item, vimos os crimes sexuais cometidos contra pessoas encaradas como “vulneráveis” e tocamos,
nesse último caso (art. 218-C, CP), em um delito que transcende essa classificação, já que contempla como
vítima também pessoas que não estejam nessa condição. 
De todo modo, busca-se aqui tutelar, além dos bens jurídicos em geral dos crimes sexuais, os direitos das
pessoas em condições especiais de atenção, devendo ser notada a forma como os conceitos se constroem e
a reprimenda se torna legal. 
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Indução de menor de catorze anos a satisfazer a lascívia de outrem.
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Divulgação de cena de estupro ou de cena de estupro de vulnerável,
de cena de sexo ou de pornografia.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
O proprietário, o gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem práticas referidas como exploração
sexual de alguém menor de 18 (dezoito) anos em tese
A
não pode ser responsabilizado penalmente.
B
comete o crime de estupro de vulnerável.
C
incide nas penas do crime de “favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de criança
ou de adolescente ou de vulnerável”.
D
pratica o chamado revenge porn.
E
comete o crime de “indução de menor de catorze anos a satisfazer a lascívia de outrem.
A alternativa C está correta.
A hipótese contempla exatamente o crime previsto no art. 218-B. §2º, II, sendo todas as demais
modalidades de crime externas à conduta descrita.
Questão 2
Sobre os crimes sexuais contra vulneráveis, assinale a alternativa correta:
A
A vulnerabilidade, seja em razão da idade, seja em razão do estado ou condição da pessoa, não diz respeito à
sua capacidade de reagir a intervenções de terceiros quando no exercício de sua sexualidade, não admitindo
erro sobre a conduta.
B
O delito de satisfação de lascívia mediante presença de criança ou adolescente, tem como elemento principal
da ação praticar, na presença de alguém com menos de 14 anos, ou induzi-lo a presenciar, conjunção carnal
ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem.
C
O estupro de vulnerável não é crime hediondo.
D
Nem todos os crimes são dolosos, e a maioria demanda ainda a presença do elemento subjetivo do injusto,
consistente na finalidade expressa (a fim de) de satisfazer a lascívia própria ou de outrem.
E
O erro a respeito da menoridade da vítima não elide o dolo, por conseguinte, não afasta a tipicidade.
A alternativa B está correta.
O art. 218-A do Código Penal classifica o crime de satisfação de lascívia mediante presença de criança ou
adolescente exatamente como está disposto na alternativa correta.
3. Lenocínio e tráfico de pessoa
Lenocínio e tráfico de pessoa para fim de prostituição ou
outra forma de exploração sexual
Todos os crimes contidos no Capítulo V do Título VI do Código Penal referem-se ao “lenocínio” em sentido
amplo. Essa prática envolve a mediação, facilitação e promoção de atos de libidinagem ou favorecimento da
prostituição alheia e pode ser perpetrada sob diferentes contornos. Vamos, então, conhecer os crimes que
contemplam esse grupo.
Nuances do crime de mediação para servir a lascívia de outrem (art. 227, CP)
Mediação para servir a lascívia de outrem
Para melhor compreensão sobre o crime de mediação para servir a lascívia de outrem, acompanhe o
panorama sobre o assunto, fornecido pela professora Luciana Fernandes.
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Agora que você assistiu ao vídeo, já deve ter compreendido que se trata do crime perpetrado por aquele que
busca “induzir alguém a satisfazer a lascívia de outrem” e, por ser comum, pode ser cometido por qualquer
pessoa. No entanto, a pessoa em prol de quem o sujeito ativo age, isto é, a pessoa que tem a lascívia
satisfeita, não responde por este delito – não obstante possa responder por outro delito sexual, satisfeitos os
requisitos legais - já que deve ser “alheia” e não “própria”. 
Um importante questionamento refere-se à constitucionalidade do caput deste crime, já que a vítima é adulta
e livre (não está em situação de vulnerabilidade), podendo aceitar ou não a referida indução (PRADO, 2019, p.
1497; NUCCI, 2019, p. 1214). 
Reflexão
Por enquanto, o debate ainda está mais centralizado no campo teórico, mas convidamos você a pensar
sobre o assunto, em cotejo sobretudo ao sentido do direito à liberdade em um Estado democrático. 
Nesse delito, a pessoa que é autora persuade a vítima a submeter-se ou a praticar atos libidinosos com
destinatário determinado, não sendo necessário que haja habitualidade, nem mesmo finalidade de lucro –
sendo que, nesse caso, falaremos à frente ser hipótese que qualifica o delito. É um crime doloso e que, por ser
de resultado, só se consuma quando a vítima prática, efetivamente, o ato libidinoso, sendo admissível a
tentativa (art. 14, II, CP).
Os parágrafos do art. 227 trabalham com as modalidades qualificadas do crime, quais sejam: 
§1º
Se a vítima é maior de 14 (catorze) e menor de 18 (dezoito) anos, ou se o agente é seu ascendente,
descendente, cônjuge ou companheiro, irmão, tutor ou curador ou pessoa a quem esteja confiada
para fins de educação, de tratamento ou de guarda.
§2º
Se o crime é cometido com emprego de violência, grave ameaça ou fraude.
§3º
Se o crime é cometido com o fim de lucro (venalidade).
Em relação à primeira modalidade de qualificadora, é importante notar que, em razão do princípio da
taxatividade, apenas as relações de parentesco expressas poderão ser consideradas para fins de aplicação da
circunstância diferenciada da pena. 
Exemplo
Logo, por exemplo, a esposa em relação ao marido não está abrangida e responde em tese pela forma
simples do lenocídio. 
Em suma, trata-se de um crime comum; material; de forma livre; comissivo; instantâneo; unissubjetivo e
plurissubsistente. 
A pena prevista é de 1 a 3 anos de reclusão, na modalidade
simples. Na hipótese do artigo 227, §1º, é de 2 a 5 anos de
reclusão e, no caso do §2º, de reclusão, de 2 a 8 anos, além
da pena correspondente à violência. Se presente a
venalidade, também será aplicada pena de multa (art. 227,
§3º, CP).
Favorecimento da prostituição ou outra
forma de exploração sexual (art. 228, CP)
O tipo objetivo desse crime consiste em “induzir ou atrair
alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a
abandone”. 
Quanto ao tema, temos dois importantes comentários a serem feitos: 
Direção e natureza
O primeiro refere-se à direção da incriminação e a naturezade
ilegalidade da prostituição em nosso país. Segundo o nosso ordenamento
jurídico, o trabalho sexual, em si, não é criminalizado e, sim, o
favorecimento da prostituição. Quer dizer, pode ser rotulada como
criminosa a pessoa responsável pela criação da ideia (indução) ou
atração ao trabalho sexual ou exploração sexual, assim como quem
proporciona os meios para a prática (facilitação) ou impede ou impõe de
óbices ao abandono do trabalho.
Definição
A segunda nota que também merece a nossa atenção acerca desse
assunto refere-se à definição da “prostituição”, para fins de atribuição
típica, entendendo-se ser relação de trabalho – não de emprego –,
habitual, voltada à satisfação sexual de um número indeterminado de
pessoas.
Trata-se de crime comum e doloso, sendo que o sujeito ativo pratica a conduta com o especial fim de
satisfação da lascívia alheia. Admite-se a tentativa quando a vítima, por circunstâncias alheias à vontade do
agente, não se prostitui ou não há qualquer forma de exploração sexual (primeira parte); ou quando consegue
abandonar o trabalho (segunda parte). Nucci entende ser impossível nas modalidades “induzir” e “atrair”, visto
que a adesão à prática é essencial para o delito (NUCCI, 2019, p. 1218).
Há três modalidades qualificadas, como no crime anteriormente trabalhado, quais sejam: 
Modalidade 1
Se o agente é ascendente, padrasto, madrasta, irmão, enteado, cônjuge, companheiro, tutor ou
curador, preceptor ou empregador da vítima, ou se assumiu, por lei ou outra forma, obrigação de
cuidado, proteção ou vigilância (§1º).
Modalidade 2
Se o crime é cometido com emprego de violência, grave ameaça ou fraude.
Modalidade 3
Se o crime é cometido com o fim de lucro.
A pena para a modalidade simples é de 2 a 5 anos de reclusão e multa (art. 228, caput, CP). Para o delito
qualificado, nas circunstâncias do artigo 228, §1º, CP, de 3 a 8 anos de reclusão; em caso de emprego de
violência, grave ameaça ou fraude, de 4 a 10 anos, além da pena correspondente à violência (art. 228, §2º,
CP); e na hipótese de venalidade, aplica-se também a pena pecuniária (art. 228, §3º, CP).
Estabelecimento para exploração sexual (art. 229, CP)
Trata-se de mais um crime que reforça a natureza do trabalho sexual no Brasil, dado o legislador considerar a
prostituição, em si, conduta atípica, mas se voltar contra as condutas do seu entorno, as pessoas que tiram
proveito da exploração. No caso do crime examinado, o tipo recai, especificamente, contra aquelas que
mantém “por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja, ou não,
intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente”.
São sujeitos passivos as(os) trabalhadoras(es) sexuais e qualquer um(a) pode ser sujeito ativo, inclusive as
proprietárias do imóvel que não exploram diretamente a atividade. 
Exemplo
É o caso daquelas que cedem ou locam o espaço onde funciona a exploração sexual, respondendo como
coautoras do art. 229, CP, desde que conscientes e com vontade de contribuir ao fato. 
Vale notar, também, que o injusto demanda que a exploração aconteça em espaço de terceiro, voltando-se o
injusto contra estas pessoas do “entorno”. Por isso, caso o trabalho ocorra na própria residência do(a)
trabalhador(a) sexual, não há o crime.
Há centralidade no exame do estabelecimento
onde a exploração acontece, como é o caso
das “casas de prostituição”. Por isso, os
Tribunais têm entendido que não configuram o
tipo “casas de massagem, relax for men, boates
para encontros, motéis, drive in, saunas mistas,
hotéis de alta rotatividade” (NUCCI, 2019, p.
1224).
O ilícito não demanda intuito de lucro como
elementar, nem mesmo mediação direta do
proprietário ou gerente. Não obstante, como o
que se reprime é a prática habitual do trabalho sexual, caso a manutenção seja pontual ou ocasional,
estaremos diante de um fato atípico em tese. 
É necessário o dolo, a vontade de manter o estabelecimento voltado para a exploração sexual, e trata-se de
um delito habitual e permanente. Em virtude disso, inclusive, é impossível a tentativa (art. 14, II, CP). 
Por fim, a sanção penal é de 2 a 5 anos de reclusão, além da pena pecuniária (art. 229).
Rufianismo (art. 230, CP)
Qualquer pessoa pode praticar o rufianismo, sendo um delito comum, desde que tire “proveito da prostituição
alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a
exerça”. Estamos diante, assim, de um agente que explora econômica e continuamente o trabalho sexual,
tirando proveito da atividade e precarizando em elevado grau a vida das pessoas que vivem da atividade. Não
se está reprimindo a pessoa que, por exemplo, ao se envolver afetivamente com esses trabalhadores, fornece
ajuda econômica, mas aquela que se beneficia da exploração.
Segundo Regis Prado,
o legislador reprime duas formas de aproveitamento: a participação direta nos lucros obtidos pela
pessoa prostituída ou o ato de se fazer sustentar, no todo ou em parte, por ela. Na primeira, o agente
torna-se uma espécie de sócio da prostituta, participando diretamente dos lucros por ela auferidos
através da sua atividade, seja este dinheiro ou qualquer outra vantagem de natureza econômica. No que
tange à conduta de se fazer sustentar, parcial ou totalmente, pela pessoa prostituída, representa ela o
fato de o rufião viver às expensas daquela, recebendo roupas, alimentação, moradia etc. 
(PRADO, p. 1510)
Tal como o crime anterior, a exploração sexual deve ser habitual e contínua, sendo também um crime
permanente e que não admite tentativa. A infração se consuma com a participação nos lucros ou a
manutenção própria do rufião, por meio da exploração sexual de terceiro/a. 
As modalidades qualificadas do crime são análogas ao que vimos anteriormente, mas, apesar de aqui o
benefício econômico ser elementar, não há previsão da venalidade: 
Modalidade 1
Se a vítima for menor de 18 e maior de 14 anos
ou se o crime for cometido por ascendente,
padrasto, madrasta, irmão, enteado, cônjuge,
companheiro, tutor ou curador, preceptor ou
empregador da vítima, ou por quem assumiu,
por lei ou outra forma, obrigação de cuidado,
proteção ou vigilância (§1º).
Modalidade 2
Se o crime for cometido mediante violência,
grave ameaça, fraude ou outro meio que
impeça ou dificulte a livre manifestação da
vontade da vítima (§2º).
A pena, na modalidade simples, é de reclusão, de 1 a 4 anos, e multa; na primeira modalidade qualificada,
reclusão, de 3 a 6 anos, e multa; e na segunda reclusão, de 2 a 8 anos, sem prejuízo da pena correspondente
à violência.
Promoção de migração ilegal (art. 232-A, CP)
Trata-se de crime que foi incluído no Código Penal pela Lei nº 13.445, de 2017, a chamada Lei da Migração e
que, reconhecidamente, não é um delito sexual propriamente dito. O legislador, assim, equivocou-se ao trazer
este tipo para o referido capítulo, motivo pelo qual vamos tecer comentários apenas genéricos. 
Trata-se de um delito comum, que pode ser cometido por qualquer pessoa, que tem como sujeitos passivos a
pessoa estrangeira ou brasileira, assim como a coletividade. 
O tipo objetivo reside em “promover, por qualquer meio,
com o fim de obter vantagem econômica, a entrada ilegal
de estrangeiro em território nacional ou de brasileiro em
país estrangeiro”. O tipo subjetivo está na intenção de obter
vantagem econômica. É admitida a tentativa e a
consumação se dá com a promoção da entrada ilegal da(o)
migrante. 
O §1º estabelece a forma equiparada, aduzindo que “na
mesma pena incorre quem promover, por qualquer meio,
com o fim de obter vantagem econômica, a saída de
estrangeiro do território nacional para ingressar ilegalmente em país estrangeiro”. A pena prevista para o crime
é de reclusão de 2 a 5 anos e multa (art. 232-A, caput, CP) e que pode ser aumentada, de 1/6 (um sexto) a 1/3
(um terço):
 
Se o delito é praticado com violência
Se a vitima é colocada em condições desumana ou degradante (art. 232 - A, §2º, CP)
• 
• 
Assim concluímos os crimes do capítulo relacionadosao lenicídio e convidamos você a pensar sobre as
condições sistêmico estruturais que ainda possibilitam a realidade dessas práticas como orgânicas a
diferentes contextos regionais no nosso país. 
Reflexão
Chamamos mais uma vez o debate para a reflexão a respeito de se a resposta oferecida pelo direito
penal se mostrado – e pode um dia se mostrar – capaz de cumprir com as funções prometidas de
transformação da cultura da exploração sexual de terceiros; e o quanto esses crimes reforçam os
sentidos hegemônicos da sexualidade, esquivando a necessidade de se pautar, por exemplo, a
regulação do trabalho da prostituição e agendas políticas que possam tornar menos precárias a
atividade, em vista de um horizonte democrático. 
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual.
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Rufianismo.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Sobre os crimes do título lenicídio, assinale a alternativa correta:
A
O agente do crime de rufianismo ativo garante o seu sustento mediante a exploração de alguém que exerce a
prostituição.
B
No crime de favorecimento da prostituição, é punível o proprietário do local em que se verifiquem as práticas,
ainda que delas não tenha conhecimento.
C
O sujeito passivo deste título só pode ser pessoa menor de dezoito anos.
D
A maioria dos delitos prevê modalidade qualificada se a vítima é menor de 18 e maior de 14 anos.
E
Todas as modalidades exigem, como elementar, a finalidade de lucro.
A alternativa D está correta.
A alternativa A contempla definição do rufianismo passivo, que é quem não recebe os lucros ou participa
diretamente dos lucros, mas garante os sustentos em decorrência da exploração. O proprietário só será
responsabilizado criminalmente caso se comprove que tinha consciência e vontade de colaborar com o
favorecimento. O sujeito passivo pode ter qualquer idade e apenas algumas modalidades exigem o lucro
como elementar, sendo a maioria qualificadora. Esses são os motivos pelos quais as alternativas A, B, C e E,
respectivamente, estão incorretas.
Questão 2
Sobre o grupo de crimes do título lenocídio, assinale a alternativa correta:
A
O crime do favorecimento à prostituição tem como elemento subjetivo o especial fim de satisfazer a lascívia
própria.
B
O delito de estabelecimento para exploração sexual não exige habitualidade.
C
O sujeito ativo dos crimes pode ser qualquer pessoa do sexo masculino.
D
A enumeração das causas de agravamento de pena no art. 227, CP é taxativa, não sendo possível a
contemplação de modalidades de parentesco não expressamente previstas.
E
O rufianismo não pode se dividir em ativo ou passivo.
A alternativa D está correta.
A alternativa D está correta, dado que se trata de um rol taxativo, em contemplação ao princípio da
legalidade penal.
4. Ultraje público ao pudor
Do ultraje público ao pudor
Os dois crimes deste tópico envolvem ainda a razão sexual, não obstante, são carregados da moralidade
pública também, motivo pelo qual assumem como vítima a coletividade. Como falaremos especificamente em
cada um dos casos, são infrações que envolvem interpretação axiológica, estando bastante circunscritas às
delimitações culturais e morais do tempo de sua aplicação. Assim, exigem ainda mais uma aferição
constitucional e democraticamente localizada da sua possibilidade incriminadora. Como no caso de todos os
crimes deste material, são delitos dolosos e processados mediante ação penal pública incondicionada.
Passamos, então, a conhecer cada um deles.
Ato obsceno (art. 233, CP)
Ato obsceno
Vamos entender um pouco mais sobre esse delito? Acompanhe a explanação da professora Luciana
Fernandes acerca deste assunto.
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Como você pôde observar, esse delito é cometido por quem “praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto
ou exposto ao público”. Mais uma vez, qualquer pessoa pode ser sujeito ativo e admite-se concurso de
pessoas. O sujeito passivo é a coletividade, albergada no que o legislador trabalha como “pudor público”, uma
expressão atravessada inteiramente pelo moralismo da época de sua elaboração. 
Comentário
Por se tratar de um elemento normativo referente à moralidade pública, seu conteúdo material pode
variar ao longo do tempo, da região e da cultura. 
Nesse sentido, devemos nos atentar ao seguinte: 
Ato obsceno
Por “ato obsceno” se deve entender uma
conduta com conteúdo sexual relevante,
excluído, por exemplo, o caso do “beijo lascivo”
em público. Também não se adequa à razão de
existência do crime as ações com conteúdo
artístico.
Lugar público
Outro elemento importante é o “lugar público ou
aberto ou exposto ao público”, que contempla
espaços como ruas, praias, praças, parques,
cinemas e teatros.
Tem-se ressalvado, no entanto, os casos em que a prática ocorre em um desses ambientes, mas desde que
em período ermo, como quando estão fechados ou inacessíveis ao público; nesse caso, o fato poderá ser
atípico. Assim, a publicidade deve ser considerada não apenas em abstrato, mas no caso concreto, sob pena
de se configurar crime impossível.
A conduta deve ser dolosa, consistindo na consciência da publicidade e vontade de praticar o ato com
conteúdo sexualizante. E, embora de difícil caracterização, em tese, admite tentativa. A pena cominada é de
detenção, de três meses a um ano, ou multa.
Escrito ou objeto obsceno (art. 234, CP)
Essa infração é cometida por quem “fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de
comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto
obsceno”. Tal como no caso anterior, é um delito comum e que tem como sujeito passivo a coletividade.
Com a expressão de conteúdo múltiplo “qualquer objeto obsceno”, no legislador passou a admitir a
interpretação analógica e casos como álbuns e filmes estão abrangidos, embora não estivessem
expressamente elencados no rol da primeira parte do dispositivo. Exige-se, para a configuração típica, que
haja finalidade comercial ou intenção de obter vantagem econômica e a comprovação do dolo. Em suma, pode
o delito ser assim classificado: comum, doloso, de perigo abstrato e de mera atividade.
O parágrafo único equipara as seguintes condutas como criminosas:
 
Vende, distribui ou expõe à venda ou ao público qualquer dos objetos referidos neste artigo.
Realiza, em lugar público ou acessível ao público, representação teatral, ou exibição cinematográfica
de caráter obsceno, ou qualquer outro espetáculo, que tenha o mesmo caráter.
Realiza, em lugar público ou acessível ao público, ou pelo rádio, audição ou recitação de caráter
obsceno.
Também uma infração de menor potencial ofensivo, a sanção prevista para todas as modalidades é de 6
meses a 2 anos de detenção ou multa.
1. 
2. 
3. 
Trata-se de um delito com baixíssima incidência e muito
questionado, dada a previsão constitucional do direito à
liberdade de expressão da atividade intelectual, artística,
científica e de comunicação, independentemente de
censura ou licença. Caso envolva criança ou adolescente,
não obstante, são aplicáveis os artigos 240 e 241 da Lei nº
8.069/90 (ECA).
Vem que eu te explico!
O vídeo a seguir aborda os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Escrito ou objeto obsceno.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Segundo a constituição federal, “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato” (art. 5.º,
IV, CF); “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente
de censura ou licença” (art. 5.º, IX, CF); “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a
informação, sob qualquer forma, processo ouveículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto
nesta Constituição” (art. 220, caput, CF); “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e
artística” (art. 220, § 2.º, CF).
 
Os dispositivos citados parecem colidir com o seguinte crime
A
atentado ao pudor.
B
escrito ou objeto obsceno.
C
estupro.
D
importunação sexual.
E
assédio sexual.
A alternativa B está correta.
Diversos doutrinadores entendem que o crime de "escrito ou objeto obsceno" é inconstitucional, dada a
violação dos dispositivos supramencionados. Esse é um dos motivos de sua baixa aplicabilidade e da
costumaz defesa, por parte de teóricos, da incompatibilidade material do delito com o Estado Democrático
de Direito.
Questão 2
(2009 - TJ-SP – Juiz) Pode constituir, em tese, ato obsceno, na figura típica do art. 233 do Código Penal
A
a exposição de cartazes, em lugar aberto ao público, mostrando corpos nus.
B
a exposição à venda de revista com fotografias de cunho pornográfico em lugar aberto ao público.
C
o ato de urinar em lugar público com exibição do pênis.
D
a exposição pública de fotografias de crianças nuas.
E
a exibição de filmes de cunho pornográfico.
A alternativa C está correta.
Todas as demais alternativas poderiam implicar na discussão em torno da figura típica do art. 234, CP. A
única assertiva que trabalha com um caso de ato obsceno, isto é, ato com conteúdo sexualizante em
público é a alternativa C. Não obstante, há que se receber com parcimônia casos como o descrito a fim de
analisar mais detidamente, conforme os elementos do caso concreto, se todos os elementos sobretudo do
tipo subjetivo estão satisfeitos.
5. Conclusão
Considerações finais
Terminamos, assim, todos os chamados crimes sexuais e retomamos, nesta conclusão, a discussão em torno
do fato de que, em nosso país, são conflitos que atingem diferencialmente mulheres e a população LGBTQIA+
em geral. Assim, reforçamos a sugestão para uma pesquisa interdisciplinar sobre o tema e fechamos
convidando você a incentivar a discussão pública sobre as formas de reverter a “cultura do estupro” e a
necessidade de se pensar em políticas públicas sobre o trabalho sexual. É basilar a problematização de delitos
que expressam uma racionalidade antidemocrática, como os do tópico que acabamos de visitar, e a
problematização sobre o limite da emergência de novos tipos penais ou normas de enrijecimento da punição,
sobretudo conquanto desacompanhadas de investimento no campo das agendas voltadas ao enfrentamento
do cisheteropatriarcado.
Podcast
A professora Luciana Fernandes fará um panorama geral sobre os crimes contra a dignidade sexual
neste podcast.
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Para conhecer o mapeamento de algumas das questões que envolvem o crime de estupro:
 
Veja o artigo: CERQUEIRA, Daniel; COELHO, Danilo Santa Cruz; FERREIRA, Helder. Estupro no Brasil:
vítimas, autores, fatores situacionais e evolução das notificações no sistema de saúde entre 2011 e
2014. In: Revista Brasileira de Segurança Pública, vol. 11, núm. 1, 2017, pp.24-48.
Para uma reflexão sobre violência sexual: SMITH, Andrea. A violência sexual como arma de genocídio.
Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 195-230, jan.-jun. 2014.
Para o debate teórico e interdisciplinar do crime de estupro: MACHADO, Lia Zanotta. Masculinidade,
sexualidade e estupro: As construções da virilidade. Cadernos Pagú, (11), 1998.
Ouça o episódio O que é a cultura do estupro, do podcast Mamilos.
Referências
ANDRADE, Mailô de Menezes Vieira. Perspectivas Feministas em Criminologia: a interseccionalidade entre
gênero, raça e classe na análise do estupro. Revista Brasileira de Ciências Criminais, v. 146, n. 2018, p.
435-455, 2018. Consultado na internet em: 27 ago. 2021.
 
BRASIL. Código Penal. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Consultado na internet em: 26 ago.
2021.
 
BRASIL. Código Penal. Lei nº 12.015, de 7 de agosto de 2009. Consultado na internet em: 26 ago. 2021.
 
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BRASIL. Código Penal. Lei nº 10.224, de 15 de maio de 2001. Consultado na internet em: 26 ago. 2021.
 
BRASIL. Código Penal. Lei nº 13.718, de 24 de setembro de 2018. Consultado na internet em: 26 ago. 2021.
 
CUNHA, Rogerio Sanches. Breves comentários às Leis 13.769/18 (prisão domiciliar), 13.771/18 (feminicídio) e
13.772/18 (registro não autorizado de nudez ou ato sexual). Consultado na internet em: 27 ago. 2021.
 
IPEA. Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde (versão preliminar). Brasília, 2014.
Consultado na internet em: 27 ago. 2021.
 
NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de direito penal. 16. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020.
 
PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.
 
PRECIADO. Paul B. Manifesto contrassexual: Práticas subversivas de identidade sexual. São Paulo: N1 edições,
2014.
 
RUBIN, Gayle. O tráfico de mulheres: notas sobre a economia política do sexo. Tradução Júlio Simões do artigo
originalmente publicado em: REITER, Rayna (Ed.). Toward an Anthropology of Women. Nova York: Monthly
Review, 1975. Consultado na internet em: 27 ago. 2021.
 
SOUSA, Renata Floriano de. Cultura do estupro: prática e incitação à violência sexual contra mulheres. Revista
Estudos Feministas, v. 25, p. 9-29, 2017. Consultado na internet em: 27 ago. 2021.
	Crimes contra a dignidade sexual
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Preparação
	Objetivos
	Atenção
	Introdução
	1. Os crimes sexuais
	Primeiras palavras
	Crimes contra a liberdade sexual
	Dica
	O crime de estupro (art. 213, CP)
	Estupro
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	Saiba mais
	Violação sexual mediante fraude (art. 215, CP)
	Resumindo
	Importunação sexual (art. 215-A, CP)
	Assédio sexual (art. 216-A, CP)
	Exemplo
	Registro não autorizado da intimidade sexual (art. 216-B, CP)
	Atenção
	Vem que eu te explico!
	Violação sexual mediante fraude.
	Conteúdo interativo
	Importunação sexual.
	Conteúdo interativo
	Assédio sexual.
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	2. Vulneráveis
	Crimes sexuais contra vulneráveis
	Menores de 14 anos
	Sem oferecer resistência
	Uso de tóxico
	Condição adversa
	Características do crime de estupro de vulnerável (art. 217-A, CP)
	Estupro de vulnerável
	Conteúdo interativo
	Saiba mais
	Relembrando
	Relembrando
	Indução de menor de catorze anos a satisfazer a lascívia de outrem (art. 218, CP)
	Satisfação de lascívia mediante presença de criança ou adolescente (art. 218-A, CP)
	Comentário
	Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de criança ou de adolescente ou de vulnerável (art. 218-B, CP)
	Atenção
	Divulgação de cena de estupro ou de cena de estupro de vulnerável, de cena de sexo ou de pornografia (art. 218-C)
	Saiba mais
	Causas de aumento de pena (art. 226, CP)
	Inciso I
	Inciso II
	Inciso IV
	Estupro coletivo
	Estupro corretivo
	Reflexão
	Vem que eu te explico!
	Indução de menor de catorze anos a satisfazer a lascívia de outrem.
	Conteúdo interativo
	Divulgação de cena de estupro ou de cena de estupro de vulnerável, de cena de sexo ou de pornografia.
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	3. Lenocínio e tráfico de pessoa
	Lenocínio e tráfico de pessoa para fim de prostituição ou outra forma de exploração sexual
	Nuances do crime de mediação para servir a lascívia de outrem (art. 227, CP)
	Mediação para servir a lascívia de outrem
	Conteúdo interativo
	Reflexão
	§1º
	§2º
	§3º
	Exemplo
	Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual (art. 228, CP)
	Direção e natureza
	Definição
	Modalidade 1
	Modalidade 2
	Modalidade 3
	Estabelecimento para exploração sexual (art. 229, CP)
	Exemplo
	Rufianismo (art. 230, CP)
	Modalidade 1
	Modalidade 2
	Promoção de migração ilegal (art. 232-A, CP)
	Reflexão
	Vem que eu te explico!
	Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual.
	Conteúdo interativo
	Rufianismo.
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	4. Ultrajepúblico ao pudor
	Do ultraje público ao pudor
	Ato obsceno (art. 233, CP)
	Ato obsceno
	Conteúdo interativo
	Comentário
	Ato obsceno
	Lugar público
	Escrito ou objeto obsceno (art. 234, CP)
	Vem que eu te explico!
	Escrito ou objeto obsceno.
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	5. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Explore +
	Referências

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