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<p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>PONTO 01 – DOS CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL</p><p>1 – INTRODUÇÃO</p><p>No Título VI vamos estudar os crimes contra a dignidade sexual, em que</p><p>abordaremos os seguintes pontos:</p><p> Crimes contra a liberdade sexual;</p><p> Crimes contra vulnerável;</p><p> Lenocínio e do tráfico de pessoas para fim de prostituição ou outra</p><p>forma de exploração sexual;</p><p> Ultraje público ao pudor;</p><p> Disposições gerais.</p><p>É preciso desde já anotar que, ao longo destes últimos anos, referido Título foi</p><p>alterado por diversas legislações, sendo as principais as seguintes: Lei n. 11.106/2005;</p><p>Lei n. 12.015/2009 e, mais recentemente, pela Lei n. 13.718/18.</p><p>A primeira revogou os crimes de sedução e rapto, condutas que já àquela época,</p><p>nos idos de 2005, encontravam-se totalmente descompassadas com o interesse da tutela</p><p>penal.</p><p>Já a Lei n. 12.015/2009, além de modificar a própria rubrica do Título, que</p><p>anteriormente era denominada “Dos crimes contra os costumes”, implementou várias</p><p>outras mudanças, como, por exemplo, a fusão dos crimes de estupro e atentado violento</p><p>ao pudor em único tipo penal e a criação do crime de estupro de vulnerável, dentre outras</p><p>tantas.</p><p>Por fim, em relação à esta última inovação legislativa, que talvez seja a mais</p><p>relevante, podemos ressaltar a criação dos crimes de Importunação Sexual (art. 215-A),</p><p>Divulgação de cena de estupro, de cena de sexo ou de pornografia (art. 218-C), e estupro</p><p>corretivo (art. 226, IV, “b”), bem como a mudança na natureza da ação penal para os</p><p>crimes contra a liberdade sexual, que passou a ser pública incondicionada.</p><p>Em relação à denominação do Título, a sua inadequação vem desde a redação</p><p>original do Código atual, como bem pontuado por Bitencourt, segundo o qual “A</p><p>impropriedade do Título ‘Dos crimes contra os costumes’ já era reconhecida nos idos de</p><p>1940, pois não correspondia aos bens jurídicos que pretendia tutelar, violando o</p><p>princípio de que as rubricas devem expressar e identificar os bens jurídicos protegidos</p><p>em seus diferentes preceitos”.</p><p>De fato, se bem observamos a denominação anterior “crimes contra os</p><p>costumes”, veremos que se privilegiava muito mais a moral sexual de determinada</p><p>sociedade do que a liberdade sexual da vítima, verdadeiro bem jurídico tutelado, que se</p><p>revela como um dos aspectos da dignidade sexual.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>2 – DOS CRIMES CONTRA A LIBERDADE SEXUAL</p><p>A liberdade sexual é um dos aspectos mais expressivos da dignidade sexual, daí</p><p>não ser outra a razão de inaugurar o título que tutela referida objetividade jurídica.</p><p>Nos dizeres de Cleber Masson “Liberdade sexual é o direito de dispor do próprio</p><p>corpo. Cada pessoa tem o direito de escolher seu parceiro sexual e com ele praticar o</p><p>ato desejado no momento que reputar adequado”.</p><p>Assim, os delitos que analisaremos a seguir (estupro, violação sexual mediante</p><p>fraude, importunação sexual, assédio sexual e registro não autorizado da intimidade</p><p>sexual) violam o direito de liberdade, tão inato ao ser humano, especialmente em aspectos</p><p>da mais recôndita intimidade.</p><p>1) Estupro:</p><p>Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter</p><p>conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato</p><p>libidinoso:</p><p>Pena - reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.</p><p>§ 1o Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é</p><p>menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos:</p><p>Pena - reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos.</p><p>§ 2o Se da conduta resulta morte:</p><p>Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos</p><p>1.1) Introdução:</p><p>A atual redação do artigo 213 é resultado de modificação implementada pela Lei</p><p>12.015/2009, que unificou, em um único tipo penal, as condutas de “constranger mulher</p><p>à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça” e “constranger alguém,</p><p>mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que com ele se pratique ato</p><p>libidinoso diverso da conjunção carnal”, outrora previstas em dois dispositivos distintos</p><p>(art. 213 e 214, respectivamente).</p><p>Desde já importa estabelecer a distinção entre referidas condutas.</p><p>Conjunção carnal: caracteriza-se pela introdução do órgão sexual masculino</p><p>no órgão sexual feminino.</p><p>Ato libidinoso diverso de conjunção carnal: qualquer outro ato com conotação</p><p>sexual.</p><p>Cuidado: em que pese encontrarmos no art. 214 a informação “Revogado pela</p><p>Lei nº 12.015, de 2009”, não se trata, efetivamente, de abolitio criminis, ou seja, de</p><p>descaracterização de determinada conduta como crime (abolição do crime), mas sim da</p><p>incidência do chamado princípio da continuidade normativo típica.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Relembrando referido conceito, temos que neste caso o legislador revoga</p><p>determinado tipo penal, como aconteceu com o art. 214, mas não deixa de considerar a</p><p>conduta em si mesma (constranger alguém a praticar ato libidinoso diverso da conjunção</p><p>carnal) como crime, aproveitando a sua descrição em outra norma, que aqui foi justamente</p><p>o art. 213. Assim, embora revogado o tipo penal específico (art. 214), a conduta nele</p><p>anteriormente prevista continua sendo normatizada como típica, já que transferida para</p><p>outra norma penal (art. 213). Daí o nome “princípio da continuidade normativo típica”.</p><p>O crime de estupro é um crime complexo?</p><p>Não, embora haja quem diga que sim. Crime complexo é aquele que é resultado</p><p>da reunião de duas outras figuras penais autônomas, como por exemplo o roubo, que surge</p><p>da fusão entre o furto e o constrangimento ilegal.</p><p>Na verdade, poderíamos asseverar que o estupro é um constrangimento ilegal</p><p>com uma finalidade especifica, exatamente as duas práticas acima pontuadas.</p><p>Atenção: o crime de estupro é sempre hediondo, não importando se simples ou</p><p>qualificado (Lei nº 8.072/90, art. 1º, V).</p><p>1.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>Conforme Cezar Roberto Bitencourt o bem jurídico tutelado “é a liberdade</p><p>sexual da mulher e do homem, ou seja, a faculdade que ambos têm de escolher livremente</p><p>seus parceiros sexuais, podendo recusar inclusive o próprio cônjuge, se assim o</p><p>desejarem. ”</p><p>Na verdade, como bem acentuado pelo próprio Bitencourt, a liberdade sexual é</p><p>apenas as um dos aspectos da dignidade sexual, sendo esta o bem jurídico tutelado</p><p>de maneira ampla.</p><p>Por fim, vale anotar observação de Rogério Greco, no sentido que de que o</p><p>desenvolvimento sexual também se inclui entre os bens jurídicos tutelados, tendo em</p><p>consideração a rubrica inicial que constava do projeto de lei que deu ensejo às</p><p>modificações aqui pontuadas, que previa a inclusão de referido bem jurídico.</p><p>1.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Leciona a doutrina, de um modo geral, que o crime em estudo, com a sua atual</p><p>redação, é delito comum, tanto em relação ao sujeito ativo quanto ao sujeito passivo,</p><p>o que implica dizer que pode ser praticado por qualquer pessoa e em face de qualquer</p><p>vítima.</p><p>No entanto, assim como alguns doutrinadores o fazem, entendemos ser</p><p>necessário algum aprofundamento sobre o tema.</p><p>Vejamos: após a alteração introduzida pela Lei nº 12.105/09 o art. 213 passou a</p><p>trazer duas espécies de relação sexual: conjunção carnal e ato libidinoso, cuja</p><p>diferenciação já vimos anteriormente.</p><p>Quanto ao ato libidinoso, nenhuma dificuldade encontramos, pois podemos</p><p>concluir, tranquilamente, que tanto o homem quanto a mulher podem ser sujeitos ativos</p><p>e/ou passivos.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Já no que diz respeito à conjunção carnal, a coisa muda um pouco de figura.</p><p>Inicialmente importa relembrar que a redação original do art. 213 falava em</p><p>“constranger mulher”, indicando-nos, claramente, que somente pessoa do sexo feminino</p><p>poderia figurar no polo passivo de tal conduta delitiva.</p><p>Hoje, o mencionado dispositivo, em sua primeira parte,</p><p>deste elemento subjetivo especial tornam atípicas determinadas</p><p>situações que se enquadram na parte inicial do dispositivo. É o caso dos pais que,</p><p>residindo em um imóvel de cômodo único, acabem praticando relações na presença dos</p><p>filhos.</p><p>3.6) Consumação e Tentativa:</p><p>A consumação do crime vai depender da conduta delituosa especificamente.</p><p>No que diz respeito à conduta de praticar atos de libidinagem na presença de</p><p>menor de 14 anos, só há que se falar em consumação com a prática efetiva de tais atos.</p><p>Já no que pertine à conduta de induzir a presenciar, basta o mero ato de indução,</p><p>independentemente de se efetivar ou não os atos de libidinagem.</p><p>A tentativa é perfeitamente admissível.</p><p>4 – Favorecimento da Prostituição ou de Outra Forma de Exploração Sexual de</p><p>Criança ou Adolescente ou Vulnerável</p><p>Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de</p><p>exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou</p><p>deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato,</p><p>facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone:</p><p>Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos.</p><p>§ 1o Se o crime é praticado com o fim de obter vantagem econômica, aplica-se</p><p>também multa.</p><p>§ 2o Incorre nas mesmas penas:</p><p>I - quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor de</p><p>18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos na situação descrita no caput deste</p><p>artigo;</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>II - o proprietário, o gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem</p><p>as práticas referidas no caput deste artigo.</p><p>§ 3o Na hipótese do inciso II do § 2o, constitui efeito obrigatório da condenação</p><p>a cassação da licença de localização e de funcionamento do estabelecimento.</p><p>4.1) Introdução:</p><p>A Lei n. 12.015/2009 inseriu o art. 218-B no Código Penal, reproduzindo</p><p>comportamentos que já eram previstos como crime no art. 228, § 1º do CPB e 244-A do</p><p>ECA.</p><p>De fato, o art. 228 punia a conduta daquele que induzisse ou atraísse alguém à</p><p>prostituição, a facilitasse ou impedisse que a abandonasse. Tal conduta era voltada</p><p>inicialmente para as vítimas maiores de 18 anos, fixando-se reprimenda entre dois a cinco</p><p>anos de reclusão. Contudo, o § 1º trazia uma punição mais severa (três a oito anos) se a</p><p>vítima fosse maior de quatorze e menor de 18 anos.</p><p>O art. 244-A do ECA, ao seu turno, traz o seguinte texto:</p><p>Art. 244-A. Submeter criança ou adolescente, como tais definidos no caput do</p><p>art. 2o desta Lei, à prostituição ou à exploração sexual:</p><p>Pena – reclusão de quatro a dez anos e multa, além da perda de bens e valores</p><p>utilizados na prática criminosa em favor do Fundo dos Direitos da Criança e do</p><p>Adolescente da unidade da Federação (Estado ou Distrito Federal) em que foi</p><p>cometido o crime, ressalvado o direito de terceiro de boa-fé. (Redação dada pela</p><p>Lei nº 13.440, de 2017)</p><p>Conforme doutrina majoritária o tal tipo penal foi revogado tacitamente</p><p>pela Lei nº 12.015/09.</p><p>O estranho é que no ano de 2017 tivemos uma alteração promovida no preceito</p><p>secundário do art. 244-A, que, além da pena de reclusão de quatro a dez anos e multa</p><p>(identifica àquela prevista no art. 218-B), passou a prever também perda de bens e valores</p><p>utilizados na prática criminosa em favor do Fundo dos Direitos da Criança e do</p><p>Adolescente da unidade da Federação (Estado ou Distrito Federal) em que foi cometido</p><p>o crime.</p><p>Sendo assim, pelo menos nesta parte do seu preceito secundário, entendemos</p><p>que a norma voltou a ter plena vigência.\WAZ-ppazWACCCVV</p><p>Atenção: a Lei nº 12.978/2014, além de alterar o nomen iuris do tipo em estudo,</p><p>o incluiu no rol dos crimes hediondos.</p><p>Rogério Sanches, citando Eva Faleiros, traz-nos a seguinte conceituação de</p><p>exploração sexual: “dominação e abuso do corpo de crianças, adolescentes e adultos</p><p>(oferta), por exploradores sexuais (mercadores), organizados, muitas vezes, em rede de</p><p>comercialização local e global (mercado), ou por pais ou responsáveis, e por</p><p>consumidores de serviços sexuais pagos (demanda)”.</p><p>Ainda com base em referida autora, a exploração sexual admitiria quatro</p><p>modalidades:</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13440.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13440.htm</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>- prostituição;</p><p>- turismo sexual;</p><p>- pornografia;</p><p>- tráfico para fins sexuais.</p><p>Em relação à prostituição, vale aqui transcrever conceito de HUNGRIA, citado</p><p>por CAPEZ “Prostituição é o comércio habitual do próprio corpo, exercido pelo homem</p><p>ou mulher, em que estes se prestam à satisfação sexual de indeterminado número de</p><p>pessoas. Não é necessária a finalidade lucrativa. A prostituição em si, embora seja um</p><p>ato considerado imoral não é crime, mas a exploração do lenocínio por terceiros é</p><p>reprimida pelo Direito Penal, pois os lenões, ao favorecer a prostituição, acabam por</p><p>fomentá-la mais.”</p><p>4.2) Bem Jurídico:</p><p>Conforme Greco o bem jurídico aqui tutelado é tanto a moralidade quanto o</p><p>desenvolvimento sexual das crianças, adolescentes e demais vulneráveis. De maneira</p><p>ampla podemos falar também na dignidade sexual do indivíduo vulnerável.</p><p>4.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo do crime em comento, já que o legislador</p><p>não exigiu nenhuma qualidade especial do mesmo.</p><p>Já quanto ao sujeito passivo somente poderá sê-lo a criança, o adolescente ou o</p><p>vulnerável.</p><p>Cezar Roberto Bitencourt chama a atenção para o caso de a vítima ser</p><p>menor de quatorze anos ou deficiente mental, de maneira que, neste último caso, não</p><p>possa manifestar consentimento para prática de ato sexual, ocasião em que teríamos</p><p>o estupro de vulnerável.</p><p>A bem da verdade devemos nos atentar que tal raciocínio só será correto se no</p><p>contexto houver efetivação de atos de libidinagem, o que nem sempre é necessário para</p><p>a consumação do crime em estudo, como veremos adiante.</p><p>Atenção: Rogério Sanches nos adverte para o fato de que a pessoa já prostituída</p><p>não poderá ser sujeito passivo em relação às condutas de induzir, atrair ou facilitar.</p><p>4.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>Há seis condutas nucleares previstas no tipo penal, representadas pelos verbos:</p><p>SUBMTER, INDUZIR, ATRAIR, FACILITAR, IMPEDIR ou DIFICULTAR.</p><p>Assim, responderá pelo delito tanto aquele que submeter, induzir ou atrair</p><p>criança, adolescente ou vulnerável à exploração sexual, assim como quem facilitar</p><p>referida prática ou impedir ou dificultar que a vítima dela se desvencilhe.</p><p>SANCHES chama a atenção para o fato de que o favorecimento pode decorrer</p><p>de conduta omissiva, sempre que o agente se encontrar na posição de garantidor.</p><p>O § 2º traz formas equiparadas dizendo que incorrerá nas mesmas penas:</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>- quem praticar conjunção carnal com menor de 18 e maior de 14 anos, nas</p><p>condições descritas no caput;</p><p>- o proprietário, o gerente ou o responsável em que se verifiquem as práticas</p><p>referidas no caput deste artigo.</p><p>Em relação à primeira forma de equiparação BITENCOURT chama a atenção</p><p>para o fato de que não é sempre que teremos a equiparação, “mas somente naquelas</p><p>hipóteses em que restar comprovada a condição de vulnerabilidade do ofendido, e desde</p><p>que, adequadamente, descrita na denúncia”.</p><p>Ainda quanto à esta primeira hipótese, alguns doutrinadores, e aí continuamos</p><p>citando BITENCOURT, criticam o fato de o legislador ter deixado de fora a conduta</p><p>daquele que pratica conjunção carnal ou ato libidinoso diverso (em situação de</p><p>prostituição ou exploração sexual) com quem, por enfermidade ou deficiência mental,</p><p>não tem o necessário discernimento para a prática do ato. Conforme referido autor</p><p>teríamos uma lacuna legislativa que não poderia ser suprida pela analogia ou interpretação</p><p>analógica.</p><p>Para finalizar, lembramos orientação</p><p>doutrinária no sentido que somente</p><p>haverá a equiparação quando o menor de 18 e maior de 14 estiver sendo explorado</p><p>sexualmente por alguém. Quando, por conta própria, dedicar-se a tal prática, não</p><p>haveria enquadramento legal para aqueles que figurassem como clientes.</p><p>Neste ponto, deixamos humildemente aqui o nosso posicionamento, no sentido</p><p>de se configurar o tipo, ainda que o menor esteja se prostituindo por conta própria. Sem</p><p>maiores aprofundamentos no tema, apresentamos os seguintes argumentos:</p><p>1ª) o legislador pune a conduta de quem induz maior de 14 e menor de 18 a</p><p>satisfazer a lascívia de outrem, com pena de reclusão de dois a cinco anos, no art. 228, §</p><p>1º (notem que, absurdamente, temos a mesma pena para o crime de induzir menor de 14</p><p>anos a satisfazer a lascívia de outrem, previsto no art. 218). Ora, se o simples induzir é</p><p>crime que dirá praticar relação sexual com um menor que se encontra prostituindo-se,</p><p>ainda que por conta própria;</p><p>2ª) a punição de quem favorece a prostituição de menor de 18 anos, inclusive</p><p>com pena maior em relação ao favorecimento à prostituição comum, encontra</p><p>fundamento na circunstância de que tais vítimas não possuem maturidade completa, não</p><p>têm ainda uma orientação e senso sexual totalmente formados, podendo vir a sofrer</p><p>influência negativa dos mais variados segmentos sociais. Nesta ordem de ideias, também</p><p>deve ser reprimida a conduta daquele que, ciente de tais circunstâncias, aproveita-se do</p><p>incompleto discernimento do menor para satisfazer a sua libido;</p><p>3ª) por fim, no que entendemos ser o melhor argumento, acreditamos que</p><p>normas que amparam as crianças e adolescentes, sejam de que natureza for, inclusive</p><p>penal, devem ser interpretadas no sentido de se emprestar uma tutela mais ampla e</p><p>abrangente possível, tendo por base o espírito de proteção integral que se deve conceder</p><p>à criança e adolescente, enquanto pessoas em desenvolvimento, insculpido na</p><p>Constituição Federal e no próprio ECA. Registre-se que o art. 227 da Constituição</p><p>assevera que é dever do Estado, da família e da sociedade assegurar à criança e</p><p>adolescente os direitos fundamentais, dentre eles a dignidade e o respeito, devendo os</p><p>mesmos serem colocadas à salvo de qualquer forma exploração. O § 4º do art. 227 é mais</p><p>específico em nossa matéria, dizendo que a lei punirá severamente o abuso, a violência e</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>a exploração sexual da criança e do adolescente. Realmente não vejo como materializar-</p><p>se tais ditames constitucionais seguindo a orientação que parece prevalecer na doutrina.</p><p>Quanto à segunda forma de equiparação, SANCHES aduz que haveria um</p><p>problema de inconstitucionalidade com a forma assemelhada do tipo penal, prevista no §</p><p>2º, II, segundo o qual na mesma pena incorre o proprietário, gerente ou responsável pelo</p><p>local em que o crime se verificar. A questão que se coloca neste caso é não se exigir, pela</p><p>redação do tipo, qualquer vinculação subjetiva entre estas pessoas e aquele que</p><p>efetivamente estiverem atuando na exploração sexual.</p><p>Neste aspecto importa acentuar que, não obstante o tipo não haver previsto</p><p>expressamente, faz se absolutamente necessário que o proprietário, o gerente ou</p><p>responsável pelo local tenham conhecimento dos fatos que ali se passam, sob pena de</p><p>evidente responsabilização objetiva, o que é absolutamente vedado pelo nosso</p><p>ordenamento jurídico penal.</p><p>Aprofundando um pouco mais no debate, trazemos aqui à colação, trecho da</p><p>obra de BITENCOURT em que este enuncia severas críticas ao tipo em estudo, nos</p><p>seguintes termos:</p><p>“Afinal, onde está a ação atribuída ao proprietário, gerente ou</p><p>responsável pelo local em que podem verificar-se as práticas referidas no caput</p><p>deste artigo? Onde estaria o verbo nuclear indicativo da conduta atribuída aos</p><p>referidos agentes? Deverão defender-se de que conduta incriminada, afinal?</p><p>De qual Direito Penal estamos tratando e para que espécie de Estado</p><p>(democrático de direito ou totalitário) se esta legislando? Estaremos</p><p>regredindo de um direito penal do fato e da culpabilidade para um direito penal</p><p>de autor, próprio dos regimes totalitários? Como se pode atribuir</p><p>responsabilidade penal pelos fatos que acontecem no interior de determinado</p><p>estabelecimento, praticados por outrem, ao proprietário ou responsável pelo</p><p>local, pelo simples fato de ostentar essa condição?”</p><p>Como se vê no trecho acima, e em toda a digressão do ponto em que aborda</p><p>referida temática, a reprimenda do penalista gaúcho, quiçá um dos maiores que o Brasil</p><p>já conheceu, perpassa pela ausência de conduta apontada aos agentes.</p><p>Prosseguindo, com a humildade de sempre, agora mais latente ainda, ouso</p><p>discordar do Mestre gaúcho, não obstante o enorme respeito e admiração que nutro pelo</p><p>seu trabalho.</p><p>Partindo da premissa de que o agente conhece a exploração sexual que ocorre</p><p>no local em que é proprietário, gerente ou responsável, e valendo-nos novamente dos</p><p>fundamentos alinhavados no terceiro argumento da problemática anterior, entendemos</p><p>que é possível a configuração do tipo equiparado, desde que a conduta ocorra em locais</p><p>propensos à exploração sexual, como motéis, hotéis, boates, bares, etc.</p><p>Nesta hipótese, ausente efetivamente uma conduta positiva, e nisto o</p><p>BITENCOURT tem inteira razão, entendemos que o agente somente poderá responder</p><p>pela sua omissão, ainda que não totalmente explícita no dispositivo, criando a norma, para</p><p>o caso, uma modalidade específica de garantidor. Em outras palavras: o proprietário, o</p><p>gerente ou responsável por estabelecimentos que, por sua própria natureza, possuam</p><p>condições favoráveis à aproximação de menores vítimas de exploração sexual e seus</p><p>eventuais clientes, ficam com a obrigação de evitar o resultado. Se não o fazem,</p><p>respondem pelo mesmo.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Afora esta linha argumentativa, não vislumbramos, a princípio, como alguém</p><p>possa ser responsabilizado penalmente pelo simples fato de ser proprietário, gerente ou</p><p>responsável por determinado local, sem ter praticado qualquer conduta, ao menos</p><p>omissiva.</p><p>4.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, consistente na vontade livre e consciente de submeter, atrair ou induzir</p><p>alguém à exploração sexual, ou facilitar tal prática ou mesmo impedir ou dificultar o seu</p><p>abandono.</p><p>Há quem entenda que seria necessário um elemento subjetivo específico,</p><p>consistente na vontade de satisfazer a lascívia de outrem.</p><p>Registre-se que se houver finalidade de obtenção de vantagem econômica,</p><p>aplicar-se-á, cumulativamente, a pena de multa.</p><p>4.6) Consumação e tentativa:</p><p>Em relação às condutas de submeter, induzir, atrair e facilitar o crime se</p><p>consuma a partir do momento em que a vítima se coloca à disposição dos clientes, ainda</p><p>que não tenha atendido nenhum.</p><p>Já com relação às condutas de impedir ou dificultar, haverá consumação quando</p><p>a vítima resolver abandonar o comércio sexual e o agente, por qualquer modo, não deixar</p><p>que o faça. Releve-se que se trata, nestas duas últimas modalidades, de crime de natureza</p><p>permanente.</p><p>5 – Divulgação de cena de estupro ou de cena de estupro de vulnerável, de cena de</p><p>sexo ou de pornografia</p><p>Art. 218-C. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender ou expor à venda,</p><p>distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio - inclusive por meio de</p><p>comunicação de massa ou sistema de informática ou telemática -, fotografia,</p><p>vídeo ou outro registro audiovisual que contenha cena de estupro ou de estupro</p><p>de vulnerável ou que faça apologia ou induza a sua prática, ou, sem o</p><p>consentimento da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia: (Incluído pela Lei</p><p>nº 13.718, de 2018):</p><p>Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, se o fato não constitui crime mais</p><p>grave. (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018).</p><p>Aumento de pena (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018).</p><p>§ 1º A pena é aumentada de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços) se o crime é</p><p>praticado por agente que mantém ou tenha mantido relação íntima de afeto com</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>a vítima ou com o fim de vingança ou humilhação. (Incluído pela Lei nº 13.718, de</p><p>2018)</p><p>Exclusão de ilicitude (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)</p><p>§ 2º Não há crime quando o agente pratica as condutas descritas</p><p>no caput deste artigo em publicação de natureza jornalística, científica, cultural ou</p><p>acadêmica com a adoção de recurso que impossibilite a identificação da vítima,</p><p>ressalvada sua prévia autorização, caso seja maior de 18 (dezoito) anos. (Incluído</p><p>pela Lei nº 13.718, de 2018).</p><p>5.1) Introdução:</p><p>A reiteração cada vez mais comum na nossa sociedade em se produzir vídeos</p><p>e/ou fotos contendo cenas de conteúdo sexual, muitas vezes contextualizadas com a</p><p>prática de crime de estupro, associada à divulgação de tal material em redes sociais, com</p><p>a rapidez e amplitude por todos conhecidas, fez o Direito Penal se atentar para a gravidade</p><p>das lesões daí decorrentes, criando figuras típicas aptas a combater estas violações à</p><p>intimidade, imagem e honra das pessoas (arts. 216-B e 218-C)</p><p>Vale acentuar que embora estejamos trabalhando com o Capítulo II, que trata</p><p>dos Crimes Sexuais contra Vulneráveis, tal conduta pode atingir demais indivíduos que</p><p>não se enquadrem nesta ideia de vulnerabilidade.</p><p>5.2) Bem Jurídico:</p><p>Nos exatos dizeres de Cleber Masson “O bem jurídico tutelado é a dignidade</p><p>sexual, maculada pela divulgação de cena de estupro ou de cena de estupro de</p><p>vulnerável, de cena de sexo, nudez ou pornografia.”</p><p>5.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Temos aqui um crime comum que pode ser praticado por qualquer pessoa,</p><p>inclusive por aquele que praticou o anterior delito de estupro, caso em que responderá</p><p>pelas duas infrações em concurso material.</p><p>Se o agente mantém ou já manteve relação intima de afeto com a vítima a pena</p><p>será aumentada de um a dois terços (art. 218-C, § 1º).</p><p>Vítima deste delito poderá ser qualquer pessoa.</p><p>Atenção: Se a vítima for menor de 14 anos teremos a configuração de outros</p><p>tipos penais, previstos no ECA, em atenção tanto ao princípio da especialidade</p><p>quanto a princípio da subsidiariedade expressa. Vejamos:</p><p>Art. 241. Vender ou expor à venda fotografia, vídeo ou outro registro que</p><p>contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou</p><p>adolescente:</p><p>Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.</p><p>Art. 241-A. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, publicar ou</p><p>divulgar por qualquer meio, inclusive por meio de sistema de informática ou</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>telemático, fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito</p><p>ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente:</p><p>Pena – reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa.</p><p>5.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>O art. 218-C elenca nove condutas, em nítido exemplo do que chamamos de tipo</p><p>misto alternativo ou de conteúdo variado. São elas: OFERECER, TROCAR,</p><p>DISPONIBILIZAR, TRANSMITIR, VENDER, EXPOR À VENDA, DISTRIBUIR,</p><p>PUBLICAR e DIVULGAR.</p><p>5.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, independentemente de qualquer finalidade específica do agente.</p><p>Contudo, importa anotar que o se o crime for praticado com o fim de vingança</p><p>ou de se humilhar a vítima, a pena será aumenta de um a dois terços. (§ 1º)</p><p>5.6) Consumação e tentativa:</p><p>O crime se consuma com a prática de quaisquer uma das nove condutas previstas</p><p>na lei, independentemente de a vítima se sentir ou não prejudica ou abalada com a</p><p>situação, tratando-se, deste modo, de crime de natureza formal.</p><p>A tentativa é tranquilamente admissível e Cleber Masson nos traz um exemplo</p><p>neste sentido: “José tenta publicar um vídeo contendo cena de estupro, mas não consegue</p><p>fazê-lo em razão do controle de conteúdo impróprio pela rede social”.</p><p>5.7) Exclusão de Ilicitude:</p><p>Conforme o § 2º não haverá crime quando o agente praticar quaisquer das</p><p>condutas previstas no tipo “em publicação de natureza jornalística, científica, cultural</p><p>ou acadêmica com a adoção de recurso que impossibilite a identificação da vítima,</p><p>ressalvada sua prévia autorização, caso seja maior de 18 (dezoito) anos.”</p><p>Temos aqui mais uma hipótese especial de exercício regular de direito.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>4 – DISPOSIÇÕES GERAIS</p><p>1 – Ação Penal:</p><p>Art. 225. Nos crimes definidos nos Capítulos I e II deste Título, procede-se</p><p>mediante ação penal pública incondicionada. (Redação dada pela Lei nº 13.718,</p><p>de 2018)</p><p>Parágrafo único. (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 13.718, de 2018)</p><p>Antes da Lei n. 12.015/2009 a regra era que os crimes de natureza sexual</p><p>fossem de ação penal de iniciativa privada, o que se excepcionaria nas seguintes</p><p>hipóteses:</p><p>- passaria a ser pública condicionada à representação quando a vítima ou seus</p><p>representantes não pudessem arcar com as despesas do processo;</p><p>- e pública incondicionada, se o crime fosse cometido com abuso de poder</p><p>familiar, ou da qualidade de padrasto, tutor ou curador; se da violência resultasse lesão</p><p>grave ou morte ou quando o crime fosse praticado mediante o emprego de violência real</p><p>(esta última hipótese por aplicação da Súmula 608/STF).</p><p>Após a Lei n. 12.015/2009 a ação penal pública condicionada à representação</p><p>passou a ser a regra, excepcionada no caso de a vítima ser menor de 18 anos ou pessoa</p><p>vulnerável, quando então seria pública incondicionada.</p><p>Agora, com a Lei 13.718/18, os crimes sexuais são orientados pela regra geral</p><p>do Código Penal, no que diz respeito à ação penal, ou seja, são todos de ação penal pública</p><p>incondicionada, o que nos leva a concluir, inclusive, pela desnecessidade de regra</p><p>expressa neste sentido, tendo em vista o que disposto no art. 101 e seu § 1º. Bastaria que</p><p>o legislador revogasse o art. 225 e os crimes sexuais seguiriam a regra geral da ação penal</p><p>pública incondicionada.</p><p>2) Aumento de Pena:</p><p>Art. 226. A pena é aumentada:</p><p>I – de quarta parte, se o crime é cometido com o concurso de 2 (duas) ou mais</p><p>pessoas;</p><p>II - de metade, se o agente é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão,</p><p>cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima ou por</p><p>qualquer outro título tiver autoridade sobre ela; (Redação dada pela Lei nº 13.718,</p><p>de 2018)</p><p>III - (Revogado pela Lei nº 11.106, de 2005)</p><p>IV - de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado: (Incluído pela</p><p>Lei nº 13.718, de 2018)</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art3</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11106.htm#art5</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Estupro coletivo (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)</p><p>a) mediante concurso de 2 (dois) ou mais agentes; (Incluído pela Lei nº 13.718,</p><p>de 2018)</p><p>Estupro corretivo (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)</p><p>b) para controlar o comportamento social ou sexual da vítima. (Incluído pela</p><p>Lei nº 13.718, de 2018)</p><p>No inciso I tem-se que a pena será aumentada de quarta parte se o crime for</p><p>praticado mediante o concurso de duas ou mais pessoas.</p><p>Aqui a justificativa da maior reprimenda penal perpassa pela maior</p><p>periculosidade da conduta, quando praticada mediante o concurso de agentes. Tal ação se</p><p>mostra potencialmente mais lesiva, além de incutir maior temor e dano psicológico à</p><p>vítima.</p><p>Atenção: esta majorante não se aplica ao crime de estupro, uma vez que no</p><p>inciso IV, “a”, há norma específica para este delito.</p><p>No inciso dois o aumento será de metade se o sujeito ativo for ascendente,</p><p>padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, tutor, curador, preceptor ou empregador da</p><p>vítima ou aquele que, por outro título, tenha autoridade sobre ela.</p><p>Aqui o aumento se dá em razão da maior reprovabilidade da conduta daquele</p><p>que ocupa justamente um lugar de cuidado, proteção ou simples respeito familiar.</p><p>Anote-se o significado da palavra preceptor, que é aquele incumbido de</p><p>acompanhar e orientar a educação de uma criança ou adolescente.</p><p>No inciso IV, “a”, temos o chamado estupro coletivo, que nada mais é do</p><p>que um crime de estupro praticado em concurso de agentes. Impende ressaltar que</p><p>as razões do aumento de pena aqui são as mesmas do inciso I, especialmente</p><p>recrudescidas em razão da maior gravidade do crime em comento.</p><p>Já na letra “b” do inciso IV o legislador trouxe o estupro corretivo, que se</p><p>caracteriza quando o agente pratica o delito com o objetivo de controlar o</p><p>comportamento sexual ou social da vítima. É o caso daquele que estupra uma</p><p>mulher para fazer com a que a mesma mude a sua opção sexual e passe a gostar de</p><p>homens.</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>5 – DO LENOCÍNIO E DO TRÁFICO DE PESSOA PARA FIM</p><p>DE PROSTITUIÇÃO OU OUTRA FORMA DE EXPLORAÇÃO SEXUAL</p><p>1 – Mediação para servir a lascívia de outrem</p><p>Art. 227 - Induzir alguém a satisfazer a lascívia de outrem.</p><p>Pena - reclusão, de um a três anos.</p><p>1.1) Introdução:</p><p>O tipo em estudo encontra-se inserido no Capítulo V, que atualmente traz como</p><p>rubrica “Do lenocínio e do tráfico de pessoa para fim de prostituição ou outra forma de</p><p>exploração sexual”, a qual lhe foi conferida pela Lei n. 12.015/09, sendo que antes disso</p><p>já havia sofrido alteração pela Lei n. 11.106/06, que substituiu a expressão “Do lenocínio</p><p>e do tráfico de mulheres” para “Do lenocínio e do tráfico de pessoas”.</p><p>Dito isto, e observando que este tipo penal, bem como os que lhe seguirão</p><p>imediatamente, tratarão do chamado “lenocínio”, importa, desde já, explicitar o</p><p>significado de referida expressão, que por certo representa novidade para alguns.</p><p>Pois bem, segundo o maior penalista brasileiro, Nelson Hungria, por lenocínio</p><p>“pode designar-se não só a atividade criminosa dos mediadores ou fautores, como a dos</p><p>aproveitadores, em geral, da corrupção e da prostituição”.</p><p>Mais à frente, prosseguindo, o Mestre aduz que “Lenocínio é o fato de prestar</p><p>assistência à libidinagem de outrem ou dela tirar proveito. A nota diferencial,</p><p>característica do lenocínio (em cotejo com os demais crimes sexuais), está em que, ao</p><p>invés de servir à concupiscência de seus próprios agentes, opera em torno da lascívia</p><p>alheia, a prática sexual inter alios. E esta é uma nota comum entre proxenetas, rufiões e</p><p>traficantes de mulheres”.</p><p>1.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>Temos como bem jurídico tutelado pela norma a moral sexual ou, de modo</p><p>mais amplo, a dignidade sexual das pessoas.</p><p>Quando o crime for praticado mediante o emprego de violência, grave ameaça</p><p>ou fraude, tal como previsto no § 2º, teremos a liberdade sexual também como bem a ser</p><p>resguardado.</p><p>1.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Crime de natureza comum, pode ser praticado por qualquer pessoa.</p><p>Do mesmo modo, também não se exige qualquer qualidade especial da vítima.</p><p>A observação fica por conta do terceiro favorecido com a prática delituosa,</p><p>o qual não responde pela mesma.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Sim, pois como se pode observar da leitura do tipo, o crime envolve</p><p>necessariamente três pessoas: o autor, a vítima e o terceiro beneficiário da mediação.</p><p>Este último, ainda que tenha instigado o autor à prática do crime, por ele não</p><p>poderá responder, por não se enquadrar em uma das elementares típicas, qual seja, a</p><p>finalidade de satisfazer lascívia de outrem.</p><p>1.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>O tipo prevê como crime a conduta de “induzir alguém a satisfazer a lascívia de</p><p>outrem”.</p><p>Pela expressão “satisfazer a lascívia” devemos entender qualquer</p><p>comportamento de natureza sexual, seja aquele consistente na prática efetiva de atos de</p><p>libidinagem (conjunção carnal ou ato libidinoso diverso), seja a mera contemplação</p><p>lasciva.</p><p>Outro não é o posicionamento de Greco, quando aduz “Por satisfazer a lascívia</p><p>de outrem tem-se entendido qualquer comportamento, de natureza sexual, que tenha por</p><p>finalidade realizar os desejos libidinosos de alguém, seja com ele praticando atos sexuais</p><p>(conjunção carnal, coito anal, sexo oral, etc.), seja tão somente permitindo que o sujeito</p><p>pratique com a vítima, ou mesmo que esta os realize, nela própria, ou no agente que a</p><p>induziu, a fim de serem vistos por terceira pessoa que se satisfaz como voyeur.”</p><p>Neste ponto vale lembrar da figura similar, prevista no art. 218, que prevê como</p><p>crime a conduta daquele que “induzir menor de 14 anos a satisfazer a lascívia de outrem”.</p><p>Ali, como visto anteriormente, prevalece o entendimento que satisfação da lascívia quer</p><p>implicar qualquer coisa que não seja ato de libidinagem, pois, caso contrário, estaríamos</p><p>diante do art. 217-A.</p><p>Para que haja enquadramento no tipo em estudo a conduta deve recair sobre</p><p>pessoa certa ou determinada, pois, se dirigida a um grupo indeterminado de pessoas o</p><p>crime será o do art. 228, que prevê o delito de favorecimento à prostituição.</p><p>Por fim anotamos que, conforme BITENCOURT “A meretriz não pode ser tida</p><p>como vítima do delito previsto no art. 227 do CP, pois não é induzida, mas se presta,</p><p>voluntariamente, à lascívia de outrem”.</p><p>1.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, consistente na vontade livre e consciente de induzir a vítima à</p><p>satisfazer a lascívia de outrem.</p><p>Não há previsão para a modalidade culposa.</p><p>1.6) Consumação e Tentativa:</p><p>Para a consumação do delito, conforme entendimento prevalecente, necessário</p><p>se faz a efetiva prática de ato tendentes à satisfação da lascívia de outrem. O mero</p><p>induzimento não configura o crime. O que não se exige, por outro lado, é que o terceiro</p><p>se dê, necessariamente, por satisfeito.</p><p>A tentativa é perfeitamente admissível.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>1.7) Formas Qualificadas:</p><p>Prevê o § 1º do art. 227:</p><p>§ 1o Se a vítima é maior de 14 (catorze) e menor de 18 (dezoito) anos, ou se o</p><p>agente é seu ascendente, descendente, cônjuge ou companheiro, irmão, tutor ou</p><p>curador ou pessoa a quem esteja confiada</p><p>para fins de educação, de tratamento</p><p>ou de guarda:</p><p>Pena - reclusão, de dois a cinco anos</p><p>Quanto à referida qualificadora muito não se pode delongar, devendo aqui</p><p>apenas ser pontuado que se trata de rol taxativo, não se podendo, por analogia (já que no</p><p>caso seria in malan partem, inadmissível no direito penal), incluir outras situações</p><p>similares, como a do padrasto, por exemplo.</p><p>Em relação à primeira parte do § 1º não custa lembrar que se a vítima for menor</p><p>de 14 anos teremos configurado o art. 218.</p><p>Já o § 2º dispõe:</p><p>§ 2º - Se o crime é cometido com emprego de violência, grave ameaça ou</p><p>fraude:</p><p>Pena - reclusão, de dois a oito anos, além da pena correspondente à violência.</p><p>No caso desta qualificadora a primeira impressão que temos é que deveríamos</p><p>ter configurado, por conta da presença de violência ou grave ameaça, o crime de estupro,</p><p>e não o de mediação para a lascívia.</p><p>Contudo, é preciso distinguir.</p><p>Assim como acontece no assédio sexual, que para alguns doutrinadores, a</p><p>exemplo do Bitencourt, também admite a violência ou grave ameaça em contexto de</p><p>execução do delito, nesta hipótese devemos analisar a violência e grave ameaça em</p><p>si mesmas, bem como a finalidade do agente.</p><p>Se com a violência ou grave ameaça o autor tenciona dobrar totalmente a</p><p>liberdade da vítima, o caso será efetivamente o de estupro, esteja a conduta inserida ou</p><p>não em um contexto preliminarmente caracterizador da mediação para a lascívia.</p><p>Agora, quando, ainda que empregando violência ou grave ameaça, o sujeito</p><p>objetivar apenas influenciar negativamente na vontade da vítima, induzindo-a</p><p>satisfazer a lascívia de outrem, mantendo a vítima alguma liberdade, aí sim será o caso</p><p>da qualificadora.</p><p>Neste sentido, anotamos escólio de Greco: “A diferença fundamental entre estas</p><p>figuras típicas é que a vítima, no delito em estudo, é induzida, mesmo que à força, à</p><p>satisfação da lascívia de outrem.”</p><p>Por fim no § 3º tem-se:</p><p>§ 3º - Se o crime é cometido com o fim de lucro, aplica-se também multa.</p><p>A doutrina denomina esta forma qualificada de lenocínio mercenário ou</p><p>questuário.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>2 – Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual:</p><p>Art. 228. Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração</p><p>sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone:</p><p>Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.</p><p>2.1) Introdução:</p><p>A prostituição, alardeada como a profissão mais antiga do mundo (e não é; na</p><p>verdade, segundo pesquisadores de Harvard, a de cozinheiro seria a profissão mais antiga)</p><p>não constitui um ilícito penal. O que se pune aqui é a conduta daquele que explora a</p><p>prostituição alheia.</p><p>Em tema de exploração sexual, podemos ter a seguintes modalidades:</p><p>prostituição, turismo sexual, pornografia e tráfico de pessoas para fins sexuais.</p><p>De outro lado, considerando a forma como o Estado encara a prostituição em</p><p>meio à sociedade, há três sistemas que orientam o seu posicionamento:</p><p>- regulamentação: o Estado regulamenta, permitindo a sua prática e</p><p>reconhecendo, inclusive, direitos relacionados à tal prática laboral;</p><p>- proibição: tanto a prostituição quanto a sua exploração são vedadas, havendo,</p><p>inclusive, sanções penais;</p><p>- abolicionista: a prostituição em si mesma é considerada lícita, ainda que</p><p>imoral, punindo-se aqueles que a exploram. É o sistema adotado no Brasil.</p><p>2.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>Temos como bem jurídico tutelado pela norma a moral sexual ou, de modo</p><p>mais amplo, a dignidade sexual das pessoas.</p><p>Ressalve-se que, segundo CAPEZ, nestes tipos penais a proteção principal é a</p><p>dignidade da pessoa explorada sexualmente, sendo que a moral média da sociedade vem</p><p>em segundo plano.</p><p>2.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Crime de natureza comum, pode ser praticado por qualquer pessoa.</p><p>Do mesmo modo, também não se exige qualquer qualidade especial da vítima.</p><p>Ressalve-se, apenas, que em relação ao sujeito passivo não poderá sê-lo o</p><p>menor de 18 anos, pois, neste caso, teremos configurado o crime do art. 218-B, cuja</p><p>pena, a propósito, é exatamente o dobro.</p><p>2.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>A conduta ora em análise é bastante similar àquela prevista no artigo 218-B. A</p><p>distinção fica por conta de um verbo nuclear a mais existente naquele dispositivo</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>(SUBMETER), assim como a condição especial do sujeito passivo – menor de 18</p><p>(dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário</p><p>discernimento para a prática do ato.</p><p>Aqui, no art. 228, como já dissemos, o sujeito passivo somente poderá ser o</p><p>maior de 18 anos.</p><p>2.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, consistente na vontade livre e consciente de induzir ou atrair alguém</p><p>à prostituição ou outra forma de exploração sexual, ou mesmo facilitar a sua prática, ou</p><p>impedir ou dificultar que a abandone.</p><p>Para a caracterização do delito não há necessidade de que agente objetive</p><p>lucro. Presente tal finalidade específica teremos uma forma qualificada, para a qual</p><p>prevê-se a aplicação cumulativa da pena de multa.</p><p>2.6) Consumação e Tentativa:</p><p>No que diz respeito às condutas de induzir, atrair e facilitar o crime se consuma</p><p>quando a vítima se expõe à situação de exploração sexual ou prostituição, ainda que,</p><p>efetivamente, não venha conseguir qualquer cliente.</p><p>Já quanto às condutas de impedir ou dificultar o crime se consumará no primeiro</p><p>ato através do qual o agente obstar a vítima de deixar tal atividade, na qual já se encontra</p><p>inserida, tratando-se, nesta hipótese, de crime de natureza permanente.</p><p>A tentativa é perfeitamente admissível.</p><p>2.7) Formas qualificadas:</p><p>§ 1o Se o agente é ascendente, padrasto, madrasta, irmão, enteado, cônjuge,</p><p>companheiro, tutor ou curador, preceptor ou empregador da vítima, ou se</p><p>assumiu, por lei ou outra forma, obrigação de cuidado, proteção ou vigilância:</p><p>Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos.</p><p>§ 2º - Se o crime, é cometido com emprego de violência, grave ameaça ou</p><p>fraude:</p><p>Pena - reclusão, de quatro a dez anos, além da pena correspondente à violência.</p><p>§ 3º - Se o crime é cometido com o fim de lucro, aplica-se também multa.</p><p>Aplica-se aqui as mesmas observações feitas no artigo anterior.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>3 – Casa de prostituição:</p><p>Art. 229. Manter, por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que</p><p>ocorra exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do</p><p>proprietário ou gerente:</p><p>Pena - reclusão, de dois a cinco anos, e multa.</p><p>3.1) Introdução:</p><p>A redação atual do art. 229 também é produto de alteração levada à efeito pela</p><p>Lei n. 12.105/09.</p><p>Na verdade, o tipo anterior trazia conduta mais abrangente, pois, falava em</p><p>“manter casa de prostituição ou lugar destinados a encontros para fins libidinosos”.</p><p>3.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>A moralidade pública sexual.</p><p>3.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo deste delito.</p><p>Anote-se que embora a lei faça menção expressa ao proprietário ou gerente,</p><p>dispensando a mediação direta destes, é preciso que os mesmos estejam vinculados</p><p>subjetivamente.</p><p>Assim, embora em determinado local ocorra exploração sexual, se o proprietário</p><p>ou gerente não tiverem conhecimento de tais circunstâncias, não há que se falar em</p><p>responsabilização penal.</p><p>Em relação ao sujeito passivo GRECO aduz que “Tem-se apontado a</p><p>coletividade como sujeito passivo do delito previsto no art. 229 do Código Penal, haja</p><p>vista ser a moralidade pública sexual o bem por ele juridicamente protegido”.</p><p>Contudo, vale frisar que, segunda maioria dos doutrinadores, entende-se que o</p><p>sujeito passivo é a pessoa que está sendo explorada sexualmente (SANCHES e</p><p>CAPEZ), figurando a coletividade como vítima secundária.</p><p>BITENCOURT, ao seu turno, embora concorde que o sujeito passivo deva ser</p><p>mesmo a pessoa que sofre a exploração sexual, consigna que não se pode incluir como</p><p>sujeito passivo mediato a sociedade, pois esta já não se preocupa referida conduta.</p><p>3.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>A conduta é MANTER estabelecimento em que ocorra exploração sexual.</p><p>O próprio verbo nuclear já nos traz a natureza habitual do delito.</p><p>Neste sentido, veja-se Greco o “núcleo manter nos dá a ideia de habitualidade,</p><p>de permanência. Manter requer um comportamento mais ou menos prolongado, com</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>persistência no tempo. Não se trata de um comportamento praticado em um só instante,</p><p>mas com a finalidade de continuar a acontecer, durante determinado prazo, que pode ser</p><p>longo, ou mesmo de curta duração. O importante, segundo nosso ponto de vista, para</p><p>efeitos de reconhecimento do núcleo manter, é a finalidade de que aquela situação se</p><p>prolongue.”</p><p>3.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, manifestado pela vontade e consciência de manter estabelecimento</p><p>destinado à exploração sexual ou prostituição.</p><p>Repita-se, para que o agente responda pelo crime precisa saber da prática de</p><p>exploração sexual.</p><p>Por outro lado, dispensável se faz a finalidade lucrativa.</p><p>3.6) Consumação e Tentativa:</p><p>Trata-se de delito de natureza habitual, exigindo-se a manutenção para que</p><p>possamos falar em consumação. Neste sentido Sanches e Bitencourt.</p><p>Há quem entenda, como Rogério Greco, que, embora seja crime habitual, a</p><p>consumação possa se verificar com a simples inauguração do estabelecimento.</p><p>Entendemos que melhor razão assiste à primeira corrente, já que a própria</p><p>natureza do verbo nuclear manter exige uma certa perenidade na conduta.</p><p>Diverge a doutrina quanto a natureza permanente do delito, o que possibilitaria</p><p>a prisão em flagrante a qualquer momento após a consumação, prevalecendo o</p><p>posicionamento em sentido afirmativo. Em sentido contrário, cite-se NUCCI.</p><p>Não se admite tentativa por se tratar de crime habitual.</p><p>4 – Rufianismo:</p><p>Art. 230 - Tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de</p><p>seus lucros ou fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a exerça:</p><p>Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.</p><p>§ 1o Se a vítima é menor de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos ou se o</p><p>crime é cometido por ascendente, padrasto, madrasta, irmão, enteado, cônjuge,</p><p>companheiro, tutor ou curador, preceptor ou empregador da vítima, ou por quem</p><p>assumiu, por lei ou outra forma, obrigação de cuidado, proteção ou vigilância:</p><p>Pena - reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa.</p><p>§ 2o Se o crime é cometido mediante violência, grave ameaça, fraude ou outro</p><p>meio que impeça ou dificulte a livre manifestação da vontade da vítima:</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Pena - reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, sem prejuízo da pena correspondente</p><p>à violência.</p><p>4.1) Introdução:</p><p>Conforme anota por SANCHES o “delito de rufianismo dispensa especial</p><p>proteção àqueles que se dedicam ao meretrício, que, por si só, não é crime, e são</p><p>explorados em razão disso”.</p><p>Registre-se que alguns doutrinadores, a exemplo de NUCCI, criticam</p><p>severamente a incriminação desta conduta, assim como de várias outras até então vistas.</p><p>4.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>A moralidade pública e, de maneira mais ampla, a dignidade sexual.</p><p>43) Sujeitos do Crime:</p><p>Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo deste delito, importando lembrar que,</p><p>segundo MIRABETE não incorre neste crime o gigolô que gratuitamente utiliza os</p><p>préstimos da prostituta ou mesmo eventualmente recebe presentes.</p><p>Por outro lado, temos no § 1º uma forma qualificada, que leva em consideração</p><p>relação existe entre autor e vítima que impliquem em uma obrigação de cuidado, proteção</p><p>e vigilância daquele para com esta.</p><p>Quanto ao sujeito passivo tanto o será a pessoa que se dedica à prostituição,</p><p>quanto a própria coletividade.</p><p>Ressalve-se que em sendo a vítima menor de 18 e maior de 14 a também teremos</p><p>a forma qualificada do § 1º, cuja pena será reclusão de três a seis anos.</p><p>4.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>O tipo trabalha com duas condutas nucleares:</p><p>- tirar proveito da prostituição; ou</p><p>- fazer-se sustentar.</p><p>Conforme a doutrina a primeira forma é chamada de rufianismo ativo enquanto</p><p>a segunda de rufianismo passivo.</p><p>Em qualquer uma das formas, contudo, é imprescindível que a vantagem</p><p>advenha dos ganhos obtidos com a prostituição. Se provenientes de outras fontes de renda</p><p>da meretriz não há que se falar no crime.</p><p>No § 2º temos outra forma qualificada que se verificará quando o crime for</p><p>praticado mediante violência, grave ameaça, fraude ou outro meio que impeça ou</p><p>dificulte a livre manifestação de vontade da vítima.</p><p>4.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>É o dolo, que se consubstancia na vontade e consciência de tirar proveito da</p><p>prostituição alheia ou de fazer-se sustentar por quem a exerça.</p><p>4.6) Consumação e Tentativa:</p><p>Conforme SANCHES trata-se de crime habitual que exige reiteração de</p><p>condutas para consumação do crime.</p><p>Dada a sua habitualidade, não admite tentativa.</p><p>5 – Promoção de migração ilegal:</p><p>Art. 232-A. Promover, por qualquer meio, com o fim de obter vantagem</p><p>econômica, a entrada ilegal de estrangeiro em território nacional ou de brasileiro</p><p>em país estrangeiro:</p><p>Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.</p><p>§ 1º Na mesma pena incorre quem promover, por qualquer meio, com o fim de</p><p>obter vantagem econômica, a saída de estrangeiro do território nacional para</p><p>ingressar ilegalmente em país estrangeiro.</p><p>§ 2º A pena é aumentada de 1/6 (um sexto) a 1/3 (um terço) se:</p><p>I - o crime é cometido com violência; ou</p><p>II - a vítima é submetida a condição desumana ou degradante.</p><p>§ 3º A pena prevista para o crime será aplicada sem prejuízo das</p><p>correspondentes às infrações conexas.</p><p>5.1) Introdução:</p><p>Inicialmente vale ressaltar que os arts. 231 e 231-A previam, respectivamente,</p><p>o tráfico internacional e interno de pessoas para fim de exploração sexual, sendo tais</p><p>dispositivos revogados pela Lei nº 13.344/16, não se tratando, todavia, de abolitio</p><p>criminis, mas sim da incidência do princípio da continuidade normativo típica, uma vez</p><p>que tal conduta passou a ser regulamentada pelo art. 149-A do CPB.</p><p>Por outro lado, o art. 232-A foi inserido no Código Penal pela Lei nº 13.445/17,</p><p>a qual revogou a Lei nº 6.815/80 (Estatuto do Estrangeiro).</p><p>Cumpre anotar que a inserção de tal dispositivo no Título que tutela a dignidade</p><p>sexual, mais especificamente no capítulo que versa sobre o lenocínio e tráfico de pessoas</p><p>para fim de prostituição ou outra forma de exploração sexual, não foi a escolha mais feliz</p><p>do legislador, pois, embora se possa consentir que a exploração sexual seja uma das</p><p>principais finalidades almejadas pelo tráfico de pessoas, esta não é a sua modalidade</p><p>única. Assim, melhor estaria alocado referido tipo penal nos crimes contra a</p><p>Administração Pública.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Ademais, o próprio legislador transportou a conduta que tratava do tráfico</p><p>interno e internacional de pessoas para fins de exploração sexual para o capítulo que tutela</p><p>a liberdade individual, dentro do título que dispõe sobres os crimes praticados contra as</p><p>pessoas.</p><p>5.2) Bem Jurídico:</p><p>Consoante Cleber Masson, “o bem jurídico penalmente tutelado é a</p><p>Administração Pública, no tocante à manutenção da soberania nacional relacionada à</p><p>regulamentação e ao controle da entrada e saída de pessoas do Brasil, bem como outros</p><p>valores – ordem interna, saúde pública, ordem econômica e financeira, e notadamente a</p><p>segurança dos nacionais -, os quais são afetados com a entrada ou saída ilegal</p><p>de pessoa</p><p>do território nacional”.</p><p>5.3) Sujeitos do Crime:</p><p>O sujeito ativo poderá ser qualquer pessoa, apenas devendo ser ressaltado que</p><p>aquele que está sendo migrado, ainda que beneficiário da conduta, não se enquadra como</p><p>autor do crime, já que o tipo penal fala especificamente em “promover”.</p><p>Como sujeito passivo figura o Estado.</p><p>5.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>A conduta nuclear é PROMOVER, que quer significar propiciar, tornar</p><p>possível a entrada ilegal de estrangeiro em território nacional ou de brasileiro em país</p><p>estrangeiro, o que poderá ser feito por qualquer meio, caracterizando-se desta forma como</p><p>crime de execução livre.</p><p>Notem, ainda, que o crime só se configura se a entrada for ilegal, ou seja,</p><p>contrária a legislação vigente.</p><p>Cuidado: não confundir o tipo penal em estudo com o art. 149-A do Código</p><p>Penal (Tráfico de Pessoas):</p><p>Art. 149-A. Agenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar</p><p>ou acolher pessoa, mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso,</p><p>com a finalidade de:</p><p>I - remover-lhe órgãos, tecidos ou partes do corpo;</p><p>II - submetê-la a trabalho em condições análogas à de escravo;</p><p>III - submetê-la a qualquer tipo de servidão;</p><p>IV - adoção ilegal; ou</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>V - exploração sexual.</p><p>Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.</p><p>5.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, ao que se soma uma finalidade específica do agente (elemento</p><p>subjetivo especial): o fim de obter vantagem econômica.</p><p>5.6) Consumação e Tentativa:</p><p>O crime se consuma com a efetiva entrada ilegal estrangeiro no Brasil ou com</p><p>a entrada do brasileiro em pais distinto.</p><p>5.7) Forma Equiparada:</p><p>§ 1º Na mesma pena incorre quem promover, por qualquer meio, com o fim de</p><p>obter vantagem econômica, a saída de estrangeiro do território nacional para</p><p>ingressar ilegalmente em país estrangeiro.</p><p>5.8) Causas de aumento de pena:</p><p>§ 2º A pena é aumentada de 1/6 (um sexto) a 1/3 (um terço) se:</p><p>I - o crime é cometido com violência; ou</p><p>II - a vítima é submetida a condição desumana ou degradante.</p><p>Conforme Cleber Masson a primeira majorante se aplica em concurso material</p><p>com a pena correspondente à violência.</p><p>5.9) Crimes conexos e competência:</p><p>Consoante o § 3º a pena prevista para o crime será aplicada sem prejuízo das</p><p>correspondentes às infrações conexas, trazendo, nestes termos, uma hipótese de</p><p>concurso material obrigatório, afastando, peremptoriamente, qualquer discussão a</p><p>respeito de eventual absorção de crimes meios pelo crime de migração ilegal.</p><p>A competência para o julgamento deste crime será da Justiça Federal por ofender</p><p>interesse direto da União.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>6 – DO ULTRAGE PÚBLICO AO PUDOR</p><p>1 – Ato Obsceno:</p><p>Art. 233 - Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao</p><p>público:</p><p>Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.</p><p>1.1) Introdução:</p><p>Preleciona GRECO que a finalidade desta norma consiste em evitar “as práticas</p><p>de condutas que causam, na maioria dos casos, indignação às pessoas...”.</p><p>1.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>Busca-se tutelar o pudor público, a moral coletiva e o próprio pudor individual</p><p>daquele que, eventualmente, presencie o ato obsceno.</p><p>1.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo deste delito.</p><p>Sujeito passivo, preliminarmente será a coletividade. De maneira secundária</p><p>também poderemos incluir no polo passivo aqueles que sofram o constrangimento com</p><p>referida prática.</p><p>1.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>A conduta punível é praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto</p><p>ao público.</p><p>Por “ato obsceno” devemos entendemos que é todo aquele que fere o pudor</p><p>médio da sociedade. Tal conceito pode sofrer variações no tempo e no espaço, isto é,</p><p>aquilo que é obsceno em determinada região do país pode não ser em outras; o que outrora</p><p>era tido por obsceno, como um beijo lascivo, atualmente já é aceito como ato comum para</p><p>a maioria das pessoas.</p><p>Quanto às características do local em que o crime se deve verificar, SANCHES</p><p>explica que</p><p>“Não haverá o crime se o ato for praticado em lugar que não ofereça a</p><p>publicidade requerida para que se ofenda a coletividade. Assim, se o agente se</p><p>envolve, por exemplo, em ato sexual em um terreno, público ou aberto ou</p><p>exposto ao público, sem a possibilidade de ser presenciado (difícil acesso,</p><p>condições climáticas, horário avançado) não haverá o crime”.</p><p>A micção em público caracteriza o crime em estudo?</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Há quem entenda pela configuração penal do art. 233, enquanto outros</p><p>defendem tratar-se de conduta atípica, já que a micção é um ato natural, quase sempre</p><p>efetivado com a exposição do pênis.</p><p>Cremos que razão assiste à SANCHES, para o qual deve-se verificar o caso</p><p>concreto, em especial o elemento subjetivo do agente.</p><p>1.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo que, conforme a maioria da doutrina, se restringe ao genérico (vontade</p><p>e consciência de praticar ato obsceno em local público...), não havendo que se falar em</p><p>elemento subjetivo específico.</p><p>De outro lado, em entendimento que temos por mais coerente com a figura</p><p>penal, NUCCI assevera ser imprescindível o elemento subjetivo específico, qual seja a</p><p>vontade de ofender o pudor alheio.</p><p>1.6) Consumação e Tentativa:</p><p>O crime se consumará com a prática do ato obsceno, não sendo necessário que</p><p>seja presenciado por alguém e muito menos ainda que alguém se sinta ofendido.</p><p>Discute a doutrina quanto à possibilidade de tentativa, entendendo a maioria</p><p>em sentido afirmativo. DAMÁSIO, ao seu turno, aduz ser inviável o conatus, pois ou o</p><p>agente pratica o ato obsceno, e o crime estará consumado, ou não o pratica, não havendo,</p><p>neste caso, início de execução.</p><p>2 – Escrito ou objeto obsceno:</p><p>Art. 234 - Fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de</p><p>comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura,</p><p>estampa ou qualquer objeto obsceno:</p><p>Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.</p><p>Parágrafo único - Incorre na mesma pena quem:</p><p>I - vende, distribui ou expõe à venda ou ao público qualquer dos objetos</p><p>referidos neste artigo;</p><p>II - realiza, em lugar público ou acessível ao público, representação teatral, ou</p><p>exibição cinematográfica de caráter obsceno, ou qualquer outro espetáculo, que</p><p>tenha o mesmo caráter;</p><p>III - realiza, em lugar público ou acessível ao público, ou pelo rádio, audição ou</p><p>recitação de caráter obsceno.</p><p>2.1) Introdução:</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Conforme a doutrina é cada vez mais incomum a aplicação do referido</p><p>dispositivo, tendo em conta o baixo grau de reprovabilidade social de tais condutas.</p><p>A verdade é que a sociedade evoluiu consideravelmente nos últimos tempos nos</p><p>mais variados aspectos, especialmente em relação àqueles ligados à sexualidade, o que</p><p>nos leva a crer pela absoluta dispensabilidade da tipificação em tela.</p><p>2.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>O pudor público é o bem que objetiva tutelar.</p><p>2.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo deste delito.</p><p>Sujeito passivo, preliminarmente será a coletividade. De maneira secundária</p><p>também poderemos incluir no polo passivo aqueles que sofram o constrangimento com</p><p>referida prática.</p><p>2.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>A conduta punível é representada pelos verbos nucleares FAZER, IMPORTAR,</p><p>EXPORTAR, ADQUIRIR ou TER SOB GUARDA, escrito, desenho, estampa, pintura</p><p>ou qualquer objeto obsceno.</p><p>No parágrafo único temos uma forma equiparada que abrange a conduta</p><p>daqueles que, vendem ou expõem à venda quaisquer dos objetos relacionados no caput,</p><p>ou ainda, quem realiza representação teatral, exibição</p><p>cinematográfica, audição ou</p><p>recitação de caráter obsceno, em local público ou acessível.</p><p>2.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, a princípio genérico, que se delineia pela vontade e consciência de</p><p>praticar quaisquer das condutas anteriormente mencionadas.</p><p>Além do dolo genérico o tipo exige um elemento subjetivo específico: a</p><p>finalidade de comércio, distribuição ou exposição pública.</p><p>Segundo SANCHES haveria, ainda, um segundo elemento subjetivo</p><p>indispensável à configuração do crime: a vontade de ofender a moralidade pública.</p><p>2.6) Consumação e tentativa:</p><p>O crime se consumará com a prática de alguma das condutas penalmente típicas.</p><p>A tentativa é perfeitamente admissível.</p><p>Obs. Se a conduta envolver criança ou adolescente o agente será punido por um</p><p>dos dispositivos previstos entre o art. 240 e 241-E do ECA.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>7 – DISPOSIÇÕES GERAIS</p><p>1 – Aumento de pena:</p><p>Art. 234-A. Nos crimes previstos neste Título a pena é aumentada:</p><p>I – (VETADO);</p><p>II – (VETADO);</p><p>III - de metade a 2/3 (dois terços), se do crime resulta gravidez; (Redação</p><p>dada pela Lei nº 13.718, de 2018)</p><p>IV - de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o agente transmite à vítima doença</p><p>sexualmente transmissível de que sabe ou deveria saber ser portador, ou se a</p><p>vítima é idosa ou pessoa com deficiência. (Redação dada pela Lei nº 13.718, de</p><p>2018)</p><p>Art. 234-B. Os processos em que se apuram crimes definidos neste Título</p><p>correrão em segredo de justiça.</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Msg/VEP-640-09.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Msg/VEP-640-09.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>aduz o seguinte:</p><p>“Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal”.</p><p>Partindo de tal pressuposto, e lembrando-nos do conceito de conjunção carnal</p><p>(introdução do pênis na vagina), chegamos à conclusão de que neste caso precisaremos</p><p>de uma relação heterossexual entre homem e mulher, não necessariamente na ordem de</p><p>sujeito ativo e passivo.</p><p>Assim, estamos com doutrinadores como Cleber Masson e Nucci, para os quais</p><p>tanto o homem pode praticar estupro, na modalidade de conjunção carnal, contra a</p><p>mulher, como vice-versa. Nucci rebate sistematicamente o argumento pela</p><p>impossibilidade fática de a mulher constranger o homem à conjunção carnal, relatando,</p><p>inclusive, que há registros de tais casos em outros países.</p><p>Na doutrina clássica discutia-se a possibilidade de a prostituta ser vítima deste</p><p>crime, assim como se o marido poderia figurar no polo ativo da conduta.</p><p>Em que pese a absoluta superação de tais problemáticas, com a evolução cultural</p><p>de nossa sociedade, não é demasiado pontuar breves considerações a respeito.</p><p>Quanto à prostituta, por mais reprovável moralmente que seja a sua conduta, no</p><p>caso em concreto tal circunstância em nada afeta a sua liberdade e dignidade sexual, que</p><p>permanecem íntegra.</p><p>Já em relação à discussão quanto à possibilidade de o marido ser sujeito ativo do</p><p>crime em estudo, não prospera a antiga alegação de que a conjunção carnal se incluía</p><p>entre os deveres conjugais (art. 1566, II do Código Civil), de modo que quando o cônjuge</p><p>exigisse forçosamente o seu cumprimento estaria no exercício regular de direito. Tal</p><p>entendimento viola a dignidade sexual, objeto de tutela jurídica do legislador no Título</p><p>em estudo.</p><p>Atualmente, como bem lembrado por Rogério Sanches, o próprio legislador</p><p>repele tal ideia, ao trazer no art. 226, II uma causa de aumento de metade, quando o agente</p><p>for cônjuge ou companheiro da vítima</p><p> Estupro coletivo: número plural de agentes concorrendo para o mesmo</p><p>evento, existindo liame subjetivo entre eles. Antes da Lei n. 13.718/18 o Código Penal já</p><p>previa tal circunstancia como majorante, aumentando-se a pena de quarta parte (art. 226,</p><p>I). A mudança de referida lei fica por conta do quantum de aumento, que no caso</p><p>específico do estupro passou para 1 a 2/3 (art. 226, IV). Em relação aos demais delitos de</p><p>natureza sexual, segue a aplicação da majorante genérica, já que a novel legislação falou</p><p>especificamente em estupro.</p><p>1.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>A conduta nuclear é CONSTRANGER, à conjunção carnal ou ato libidinoso</p><p>diverso, mediante (modo de execução) violência ou grave ameaça.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Vale desde já pontuar que na sistemática anterior à Lei 12.015/2009 o legislador,</p><p>sob o nomen juris “estupro”, trabalhava tão somente com a prática de conjunção carnal.</p><p>Para o constrangimento à realização de atos libidinosos distintos a lei penal valia-se da</p><p>denominação “atentado violento ao pudor”. Atualmente a expressão “estupro” abrange a</p><p>prática de ambas as condutas.</p><p>Tal modificação legislativa, consequentemente, colocou fim à uma antiga</p><p>discussão doutrinária quanto ao concurso de crimes quando, em um mesmo contexto</p><p>fático, o agente praticasse conjunção carnal e atos libidinosos. Naquela época havia</p><p>dúvida se em tais circunstâncias o agente deveria responder por um só delito, ou por</p><p>ambos em concurso. Tratando-se, agora, de um tipo misto alternativo, ou de conteúdo</p><p>variado, a prática de mais de uma conduta implica em unidade delitiva.</p><p>Para que se configure o delito a conjunção deve ocorrer em contrariedade à</p><p>vontade da vítima, já que o seu consentimento, neste caso, configura excludente de</p><p>tipicidade. O dissenso da vítima é uma elementar implícita no próprio verbo nuclear</p><p>“CONSTRANGER”, que significa obrigar, forçar, etc. O constrangimento pode</p><p>objetivar:</p><p>a) Conjunção carnal: como já dito anteriormente a conjunção carnal se configura</p><p>pela chamada “cópula vagínica”, ou, em outros termos, pela introdução do órgão sexual</p><p>masculino na cavidade vaginal; ou</p><p>b) Atos libidinosos diversos: atos de libidinagem são aqueles destinados a</p><p>satisfazer o prazer o sexual do autor. Na verdade, a própria conjunção carnal é também</p><p>uma espécie de ato libidinoso. Contudo, fala-se em atos libidinosos diversos para todos</p><p>aqueles que não se configure como conjunção carnal.</p><p>O constrangimento, em quaisquer das modalidades, pode ser praticado mediante:</p><p>- violência física: também chamada pela doutrina de vis absoluta. Neste ponto</p><p>vale acentuar, como bem lembrado por Rogério Greco, que a prática de vias de fato e</p><p>lesões leves ficam absorvidas pelo crime de estupro. Em outra perspectiva, contudo,</p><p>havendo lesões graves ou mesmo morte, o crime será qualificado, como se observa,</p><p>respectivamente, nos §§ 1º e 2º do art. 213.</p><p>- grave ameaça: denominada de vis compulsiva, se materializa na promessa de</p><p>mal futuro e grave. Registre-se que, diferentemente do que ocorre com o crime de ameaça,</p><p>o mal prometido não precisa ser injusto.</p><p>Atenção: como dito acima o crime em epígrafe presume o dissenso da vítima,</p><p>caracterizado justamente pelo emprego de violência ou grave ameaça.</p><p>Assim, é necessário que haja recusa explícita e séria por parte da vítima, a ponto</p><p>de necessitar ser rompida pelo emprego de violência ou grave ameaça. A simples negativa</p><p>inicial, que muitas vezes integra o próprio jogo de sedução, não é suficiente para</p><p>configuração do crime.</p><p>No entanto, é preciso esclarecer, essa recusa da vítima não precisa aproximar-se</p><p>das raias do heroísmo. Em outras palavras: não se pode exigir que o ato de recusa da</p><p>vítima implique em grave risco à sua própria vida ou integridade física. Se pelo contexto</p><p>fático pudermos concluir pela gravidade da violência ou ameaça, reconhecido estará o</p><p>crime de estupro.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Cuidado: ainda que haja o consentimento inicial para o ato sexual se, em</p><p>qualquer momento, a vítima manifestar o desejo pela sua interrupção e o agente, por sua</p><p>vez, empregar violência ou grave ameaça para prosseguir, restará consubstanciado o</p><p>estupro.</p><p># Atos libidinosos e princípio da proporcionalidade:</p><p>Especialmente a partir da Lei dos Crimes Hediondos, que elevou</p><p>consideravelmente a pena para os crimes de estupro e atentado violento ao pudor, e antes</p><p>da edição da Lei nº 13.718/18, havia divergência no sentido de que se algumas condutas,</p><p>como passar as mãos nos seios ou nas nádegas da vítima, ou o próprio beijo lascivo,</p><p>caracterizariam ato libidinoso, de modo a configurar o crime em estudo, ou mera</p><p>contravenção de Importunação ofensiva ao pudor, prevista no art. 61 da Lei de</p><p>Contravenções Penais, que dispõe:</p><p>Art. 61. Importunar alguém, em lugar público ou acessível ao público, de</p><p>modo ofensivo ao pudor:</p><p>Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis.</p><p>À época a doutrina asseverava que a grande diferença de gravidade existente</p><p>entre tais condutas e aquelas que normalmente caracterizam o crime de estupro</p><p>(conjunção carnal ou sexo anal), ao que se soma a reprimenda penal mínima bastante</p><p>severa (seis anos de reclusão), desautorizava o enquadramento no delito do art. 213, sob</p><p>pena de violação dos princípios da razoabilidade e proporcionalidade. Nestes casos, a</p><p>conduta deveria se enquadrar na contravenção penal do art. 61 da LCP.</p><p>Neste ponto, permitimo-nos colacionar trecho da obra Tratado de Direito Penal,</p><p>de Cezar Roberto Bitencourt, em que este brilhantemente anota que</p><p>“a diferença do desvalor da ação que há no sexo anal e oral (e suas</p><p>variáveis), praticados com violência, e nos demais atos libidinosos, menos</p><p>graves, é incomensurável. Se naqueles a gravidade da sanção cominada</p><p>(mínimo de seis anos de reclusão) pode ser considerada razoável, o mesmo não</p><p>ocorre com os demais atos, que, confrontados com gravidade da sanção</p><p>referida,</p><p>beiram às raias da insignificância. Nestes casos, quando ocorrem em</p><p>lugar público, ou acessível ao público, devem ser desclassificados para a</p><p>contravenção penal do art. 61 (LCP). Caso contrário, deve-se declarar sua</p><p>inconstitucionalidade por violar os princípios da proporcionalidade, da</p><p>razoabilidade e da lesividade do bem jurídico”.</p><p>Na jurisprudência o tema também era divergente, havendo aqueles que</p><p>entendiam que sempre que o autor praticasse tais atos, ainda que menos lesivos, mas com</p><p>conotação sexual (já que se tratam dos chamados delitos de tendência transcendente),</p><p>restaria configurado o tipo penal do art. 213. Nessa linha de entendimento cite-se Damásio</p><p>de Jesus e Fernando Capez.</p><p>Analisando a jurisprudência do STJ, encontrávamos o REsp 1470165 / MG, de</p><p>relatoria do Ministro Gurgel de Faria, julgado pela 5ª Turma, em 04 de agosto de 2015:</p><p>PENAL. CRIME DE ESTUPRO. ART. 213 DO CÓDIGO PENAL.</p><p>REFORMA TRAZIDA PELA LEI N. 12.015/2009. ATOS</p><p>LIBIDINOSOS DIVERSOS DA CONJUNÇÃO CARNAL.</p><p>RECONHECIMENTO DA CONSUMAÇÃO. 1. A reforma trazida pela</p><p>Lei n. 12.015/2009 unificou em um único tipo penal as condutas</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>anteriormente previstas nos arts. 213 e 214 do Código Penal, constituindo,</p><p>hoje, um só crime constranger alguém, mediante violência ou grave</p><p>ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se</p><p>pratique outro ato libidinoso. 2. Segundo a jurisprudência do Superior</p><p>Tribunal de Justiça, "o delito de estupro, na redação dada pela Lei n.</p><p>12.015/2009, "inclui atos libidinosos praticados de diversas formas, onde</p><p>se inserem os toques, contatos voluptuosos, beijos lascivos, consumando-</p><p>se o crime com o contato físico entre o agressor e a vítima" (AgRg no</p><p>REsp1359608/MG, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEXTA</p><p>TURMA, julgado em 19/11/2013, DJe 16/12/2013). 3. No caso, não há</p><p>que se falar em tentativa, porquanto o contato físico do acusado com a</p><p>vítima, consistente em beijá-la na boca, passar as mãos nas nádegas e seios</p><p>a fim de satisfazer a sua lascívia, é suficiente para caracterizar o delito</p><p>descrito no art. 213 do CP. 4. Recurso especial provido para, reconhecida</p><p>a consumação do delito previsto no art. 213 do Código Penal, fixar a pena</p><p>do recorrido em 7 anos, 4 meses e 20 dias, mantido o regime fechado.</p><p>No mesmo sentido tinha-se posição consolidada do STJ. Vejam-se os REsp’s</p><p>1111043 / SP; 1313369 / RS e 1007121 / ES.</p><p>Por outro lado, no STF, no informativo de jurisprudência 870, encontramos</p><p>decisão em Habeas Corpus em sentido contrário, onde “O relator asseverou que a</p><p>conduta do réu se restringiu à consumação de beijo lascivo. Tal proceder não se equipara</p><p>àquele em que há penetração ou contato direto com a genitália da vítima, situação em</p><p>que o constrangimento é maior, a submissão à vontade do agressor é total e a violência</p><p>deixa marcas físicas e psicológicas intensa”.</p><p>Guilherme de Souza Nucci já sugeria a criação de um novo tipo penal, cuja pena</p><p>não fosse tão branda quanto àquela prevista no art. 61 da LCP, nem tão drástica quanto à</p><p>cominada ao delito em estudo, justamente para abarcar as situações de gravidade</p><p>mediana.</p><p>Assim, com a vigência da Lei nº 13.718/18, entendemos que toda esta</p><p>divergência deva perder o sentido, uma vez que não há mais que se falar na contravenção</p><p>penal da importunação ofensiva ao pudor, que foi revogada, sendo que tais condutas</p><p>enquadram-se, perfeitamente, na redação do art. 215-A.</p><p>O crime de estupro exige contato físico entre os sujeitos?</p><p>1ª corrente: o contato físico é indispensável. Ausente tal circunstância, tem-se o</p><p>constrangimento ilegal;</p><p>2ª corrente: o contato físico é dispensável. Ex: mediante violência o agente</p><p>obriga a vítima a despir-se e masturbar-se. Prevalecente. O STJ tem recentes julgados</p><p>adotando esta segunda corrente.</p><p>Na linha deste último entendimento abre-se espaço para o chamado estupro</p><p>virtual, ou seja, aquele praticado através de meios eletrônicos de comunicação.</p><p>Imagine-se, por exemplo, que através de uma conversa em vídeo, o agente ameace o filho</p><p>da vítima, que se encontra ao seu lado, e constrange esta, a qual se encontra distante e</p><p>comunicando-se via vídeo, a masturbar-se, com o fim de satisfazer a lascívia do agente.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>ATENÇÃO: Conforme Luiz Regis Prado a contemplação lasciva pode</p><p>caracterizar atos libidinosos para fins de configuração do crime em estudo. Neste mesmo</p><p>sentido veja-se a jurisprudência em teses do Superior Tribunal de Justiça, na edição nº</p><p>152, enunciado 4:</p><p>“A contemplação lasciva configura o ato libidinoso constitutivo dos tipos dos</p><p>art. 213 e 217-A do CP, sendo irrelevante, para a consumação dos delitos, que haja</p><p>contato físico entre ofensor e vítima”.</p><p>1.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, consistente na vontade livre e consciente de constranger a vítima à</p><p>pratica de conjunção carnal ou ato libidinoso diverso.</p><p>Discute-se na doutrina a necessidade, ou não, de elemento subjetivo específico</p><p>para caracterização do tipo penal, consistente na finalidade de satisfazer a lascívia,</p><p>prevalecendo o entendimento no sentido negativo.</p><p>Contudo, precisamos explicar um pouco melhor.</p><p>Para grande maioria da doutrina, e aí podemos incluir CAPEZ, SANCHES,</p><p>ANDRE ESTEFAN e ROGÉRIO GRECO não se exige elemento subjetivo específico,</p><p>bastando o dolo genérico consistente na vontade e consciência de constranger a vítima à</p><p>prática de atos de libidinagem (conjunção carnal ou atos libidinosos diversos).</p><p>Por outro lado, existem aqueles para os quais o tipo penal exigiria uma elementar</p><p>de natureza subjetiva específica, qual seja a intenção de manter conjunção carnal ou ato</p><p>libidinoso diverso. Esta, inclusive, distinguiria o estupro do delito de constrangimento</p><p>ilegal comum. Neste sentido podemos citar CLEBER MASSON, MIRABETE e</p><p>BITENCOURT.</p><p>Como se pode ter notado acima, de modos distintos os autores chegaram ao</p><p>mesmo resultado: é necessário que haja vontade e consciência de constranger a vítima à</p><p>prática de atos de libidinagem.</p><p>Entendo que mais razão assiste à primeira corrente, para os quais a intenção de</p><p>submeter a vítima à prática dos atos de libidinagem integra o dolo genérico, pois a conduta</p><p>nuclear não é apenas CONSTRANGER, mas CONSTRANGER À CONJUNÇÃO</p><p>CARNAL OU ATO LIBIDINOSO DIVERSO. Temos aqui um núcleo composto.</p><p>Por fim, e esta divergência já é bem menos expressiva, discute-se se seria</p><p>necessário a finalidade específica de satisfazer a libido, prevalecendo o entendimento,</p><p>como dissemos inicialmente, pela sua dispensabilidade.</p><p>1.6) Consumação e Tentativa:</p><p>O crime de estupro consuma-se no momento em que o agente pratica atos de</p><p>libidinagem, seja a efetiva conjunção carnal ou qualquer outro ato libidinoso diverso.</p><p>A tentativa é perfeitamente admissível, embora, como bem lembrado por</p><p>Bitencourt, possa haver alguma dificuldade em sua constatação prática.</p><p>Ainda no que diz respeito à tentativa, registre-se posicionamento de Greco, para</p><p>o qual a prática de atos libidinosos antecedentes, que se encaixem em uma linha de</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>desdobramento natural de conduta objetivando à conjunção carnal, caracterizará crime de</p><p>estupro em sua forma tentada.</p><p>Assim, se o agente, ao tentar manter conjunção carnal com a vítima, esfrega o</p><p>seu órgão genital em suas nádegas, com o intuito de penetrá-la, não obtendo êxito em tal</p><p>ato, teríamos o estupro tentado e não consumado.</p><p>Discordamos de tal linha de raciocínio, já que o tipo penal prevê, claramente,</p><p>como crime autônomo, a prática de atos libidinosos.</p><p>1.7) Formas Qualificadas:</p><p>Prevê o § 1º do art. 213 que a pena sairá do patamar de seis a dez anos, passando</p><p>para oito a doze anos se da conduta resultar lesão grave ou se a vítima for maior de</p><p>quatorze e menor de dezoito anos; e passará</p><p>para doze a trinta anos quando da conduta</p><p>decorrer morte da vítima.</p><p>A doutrina diverge quanto ao elemento subjetivo causador de tais resultados</p><p>agravadores.</p><p>Bitencourt leciona que, a princípio, trata-se de crime preterdoloso, em que</p><p>somente se aplica a forma qualificada quando o resultado agravador decorresse de culpa;</p><p>resultando de dolo seria o caso do concurso de crimes, material ou formal impróprio, a</p><p>depender das circunstâncias. No entanto, por uma incongruência legislativa, o concurso</p><p>material resultaria em pena menor do que a forma qualificada, razão pela qual, para</p><p>referido doutrinador, deveríamos aplicar sempre a forma qualificada, independentemente</p><p>do elemento anímico que desse causa ao resultado (dolo ou culpa).</p><p>Rogério Greco, a seu turno, adota entendimento contrário, rebatendo o autor</p><p>gaúcho ao lembrar que apenas quando o resultado fosse lesão grave, do § 1º do art. 129,</p><p>é que teríamos na forma qualificada uma pena mínima maior (oito anos) do que aquela</p><p>resultante do concurso de crimes (sete anos).</p><p>No mesmo sentido é o posicionamento de Capez.</p><p>Em relação à qualificadora pela idade da vítima, segundo Fernando Capez e</p><p>Cleber Masson, houve uma lacuna legislativa no que diz respeito à idade de quatorze</p><p>anos exatos. Isto porque se menor de quatorze anos teremos configurado o estupro de</p><p>vulnerável (art. 217-A); se maior de quatorze e menor de dezoito termos a pena</p><p>aumentada de metade; contudo, a lei nada diz quando a vítima possuir quatorze anos</p><p>exatos, o que acontece no dia do seu aniversário, quando a vítima não é menor nem maior</p><p>de 14 anos.</p><p>Por outro lado, temos doutrinadores como Greco e André Estefan que repudiam</p><p>tal conclusão, diante do seu absurdo, pois, para os mesmos, maior de quatorze anos</p><p>também inclui aquele que acabou de completar referida idade.</p><p>À parte essa discussão, que entendemos desarrazoada, cumpre ressaltar que o legislador</p><p>andou muito bem em prever referida qualificadora, já que o ato de tão grande violência</p><p>contra uma pessoa em desenvolvimento certamente lhe trará prejuízos futuros muito</p><p>sérios. Neste sentido importa transferir aqui trecho da obra de Rogério Greco: “A prática</p><p>de um ato sexual violento, nessa idade, certamente trará distúrbios psicológicos</p><p>incalculáveis, levando esses jovens, muitas vezes, ao cometimento também de atos</p><p>violentos e até mesmo similares aos que sofreram.”</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Se o agente, ao tentar estuprar a vítima, acaba derrubando-lhe no chão,</p><p>causando a sua morte?</p><p>Segundo anotado por Rogério Greco o entendimento que prevalece na doutrina</p><p>é de que o caso seria de estupro qualificado consumado. Neste sentido podemos citar</p><p>Fernando Capez e Luiz Regis Prado.</p><p>No entanto, estamos com Greco, para quem esta não é a melhor solução jurídica.</p><p>Com efeito, vale lembrar que tal conclusão afronta a própria disposição legal do</p><p>Código Penal, mais especificamente o Art. 18, inciso I, que diz que o crime será</p><p>considerado consumado quando nele se reunirem todos os elementos de sua discrição</p><p>legal.</p><p>Ora, o crime de estupro qualificado pelo resultado morte certamente não restará</p><p>integralizado enquanto não houver este último resultado. Assim, considerá-lo consumado</p><p>diante da inocorrência do resultado morte é, de fato, uma afronta à disposição expressa</p><p>do Código Penal.</p><p>2 – Violação Sexual Mediante Fraude:</p><p>Art. 215. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém,</p><p>mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de</p><p>vontade da vítima:</p><p>Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos.</p><p>Parágrafo único. Se o crime é cometido com o fim de obter vantagem</p><p>econômica, aplica-se também multa.</p><p>2.1) Introdução:</p><p>O texto acima epigrafado é resultado de duas alterações legislativas recentes,</p><p>efetivadas pelas Leis nºs. 11.106/2005 e 12.015/2009.</p><p>A redação original tipificava a conduta de “Ter conjunção carnal com mulher</p><p>honesta, mediante fraude”. A partir da Lei n. 11.106/2005 suprimiu-se a elementar</p><p>normativa “honesta”, além do que fora criada uma forma qualificada, que se verificava</p><p>quando o crime fosse praticado contra mulher virgem, ou menor de 18 e maior de quatorze</p><p>anos, cuja pena passava a ser de dois a seis anos, em contraposição ao preceito secundário</p><p>da forma simples, que previa pena de um a três anos, nas duas redações anteriores.</p><p>Com a Lei n. 12.015/2009 modificou-se a qualificadora, que apenas passou a</p><p>incidir quando o crime fosse praticado com finalidade econômica, ocasião em que se</p><p>aplicava, também, a pena de multa. Ademais, alterou-se a própria rubrica do delito, que</p><p>de “posse sexual mediante fraude” passou para “violação sexual mediante fraude”, o que</p><p>foi decorrência da principal mudança, a fusão dos dispositivos 216 e 215, já que aquele</p><p>até então previa o crime de “atentado ao pudor mediante fraude”. Ressalve-se, por fim,</p><p>que com a Lei n. 12.015 a pena cominada ao delito passou a ser de 2 a 6 anos.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>2.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>Tutela-se a liberdade sexual das pessoas, na plenitude do seu consentimento,</p><p>livre de quaisquer meios fraudulentos que possam levá-las a anuir de maneira viciada.</p><p>De maneira mais abrangente, como ocorre em todos os crimes do presente título,</p><p>alberga-se a dignidade sexual das pessoas.</p><p>2.3) Sujeitos do Crimes:</p><p>Trata-se de crime comum, tanto em relação ao sujeito ativo quanto ao sujeito</p><p>passivo, o que equivale dizer que pode ser praticado por qualquer agente e contra qualquer</p><p>vítima.</p><p>Registre-se, por oportuno, que antes da Lei n. 12.015 a violação sexual mediante</p><p>fraude tinha por sujeito passivo a mulher, colocando, por via de consequência, o homem</p><p>no polo ativo, já que àquela época o art. 215 contemplava tão somente a conduta de ter</p><p>conjunção carnal. E mais, antes da Lei n. 11.106/05 exigia-se que a mulher fosse honesta,</p><p>elementar normativa que acabou sendo extirpada do nosso ordenamento jurídico penal.</p><p>Por fim, acentue-se que se a vítima for menor de 14 anos teremos caracterizado</p><p>o crime de estupro de vulnerável (art. 217-A).</p><p>2.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>O crime se caracteriza pela prática de conjunção carnal ou ato libidinoso diverso</p><p>em circunstâncias tais em que a VONTADE da vítima esteja viciada pela fraude ou</p><p>qualquer outro meio que impeça ou dificulte a sua livre manifestação volitiva. Daí se</p><p>denominar este delito de “estelionato sexual”.</p><p>A fraude deve se relacionar com a identidade do agente ou a legitimidade da</p><p>relação sexual, podendo, de outro lado, se exteriorizar quando o agente induz a vítima</p><p>em erro, ou simplesmente a mantém em equívoco no qual já incorria. No entanto, em todo</p><p>e qualquer caso, indispensável se faz que haja idoneidade no meio fraudulento, de modo</p><p>a efetivamente enganar a vítima. Neste sentido, veja-se importante apontamento de</p><p>Fernando Capez “É necessário que o meio iludente seja apto a viciar o consentimento da</p><p>vítima, pois, se esta percebe a fraude e, ainda assim, consente na prática do ato sexual,</p><p>não há falar no crime em tela.”.</p><p>Nesta mesma linha de raciocínio também deve ser lembrado que falsas</p><p>promessas não constituem meio fraudulento apto a consubstanciar o delito em</p><p>comento.</p><p>A fraude, como meio executório de violação sexual, traduz conduta de difícil</p><p>visualização no campo prático. No entanto, vejamos alguns exemplos citados pela</p><p>doutrina: o médico que realiza toques em partes intimas da vítima, alegando ser tal</p><p>conduta necessária ao exame; o irmão gêmeo que engana a cunhada, com ela mantendo</p><p>relação sexual; o curandeiro que ludibria pessoas, dizendo que determinados atos sexuais</p><p>fazem parte do “tratamento” que lhes está ministrando; etc.</p><p>Além da fraude o crime também poderá ser consumado mediante “outro meio</p><p>que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima. ”</p><p>DIREITO PENAL</p><p>GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Se em relação à fraude já é muito custoso encontrarmos exemplos práticos, o</p><p>que dirá quanto à esta segunda forma de conduta. Nas quatro doutrinas que utilizamos de</p><p>suporte para elaboração deste material (Capez, Greco, Bitencourt e Sanches) não</p><p>encontramos sequer um único caso.</p><p>Por outro lado, contudo, devemos ter em mente que tais meios funcionam como</p><p>uma fórmula genérica que se equipara à fraude, em nítido exemplo de interpretação</p><p>analógica.</p><p>Por fim, cumpre ressaltar, a fraude não pode anular a manifestação de</p><p>vontade da vítima ou sua capacidade de resistência, sob pena de termos configurado</p><p>o crime de estupro de vulnerável (art. 217-A).</p><p>2.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, que se perfaz com a vontade e consciência de ter conjunção carnal ou</p><p>praticar ato libidinoso diverso com a vítima, através de meio fraudulento, ou do emprego</p><p>de qualquer outro que lhe impeça ou dificulte a livre manifestação volitiva.</p><p>Aqui, como ocorre no crime de estupro, diverge a doutrina quanto à necessidade</p><p>ou não de elemento subjetivo específico, prevalecendo o entendimento pela sua</p><p>dispensabilidade.</p><p>Por outro lado, subsistindo vontade específica de se obter vantagem econômica,</p><p>aplicar-se-á cumulativamente a pena de multa.</p><p>2.6) Consumação e Tentativa:</p><p>Assim como no crime de estupro, o delito se consuma no momento em que o</p><p>agente, com emprego de meios fraudulentos, pratica atos de libidinagem, seja a efetiva</p><p>conjunção carnal ou qualquer outro ato libidinoso diverso.</p><p>A tentativa é perfeitamente admissível.</p><p>3 – Importunação Sexual:</p><p>Art. 215-A. Praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o</p><p>objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro: (Incluído pela Lei nº</p><p>13.718, de 2018)</p><p>Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, se o ato não constitui crime mais</p><p>grave. (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018).</p><p>3.1) Introdução:</p><p>Há determinadas condutas que, se de um lado não preenchem os elementos</p><p>descritivos do tipo penal de estupro, e mesmo não são compatíveis com a gravidade de</p><p>tal crime, especialmente considerando a sua natureza hedionda, por outro não encontram</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>resposta penal adequada na contravenção penal de importunação ofensiva ao pudor, que</p><p>sequer tem pena privativa de liberdade, trazendo como sanção apenas a multa.</p><p>Como exemplo deste hiato legislativo podemos citar o caso de um homem que,</p><p>no dia 29 de agosto de 2017, masturbou-se e ejaculou em uma passageira de um ônibus</p><p>coletivo.</p><p>Foi justamente o clamor público diante da insuficiência da resposta estatal</p><p>(princípio da vedação da proteção deficiente) que fez com que o legislador acordasse</p><p>e criasse um tipo penal que melhor se adequasse aos fatos, surgindo então o art. 215-A,</p><p>acrescentado pela Lei nº 13.718/18, que, ao mesmo tempo, revogou o art. 61 da Lei das</p><p>Contravenções Penais, que previa a importunação ofensiva ao pudor.</p><p>3.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>Conforme Cleber Masson “É a dignidade sexual, relativa ao direito do ser</p><p>humano de não ser incomodado por outra pessoa no campo da sua liberdade sexual”.</p><p>3.3) Sujeitos do Crimes:</p><p>O crime pode ser praticado por qualquer pessoa e contra qualquer um,</p><p>caracterizando-se, assim, como crime comum tanto no que diz respeito ao sujeito ativo</p><p>quanto ao sujeito passivo.</p><p>Em relação a este último devemo-nos atentar para o que dispõe o art. 218-A,</p><p>in verbis, que possui redação parecida com o artigo em análise:</p><p>Art. 218-A. Praticar, na presença de alguém menor de 14 (catorze) anos, ou</p><p>induzi-lo a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer</p><p>lascívia própria ou de outrem:</p><p>Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos.</p><p>Deste modo, em sendo a vítima um menor de quatorze anos, o ato de praticar ato</p><p>libidinoso na sua presença vai caracterizar este tipo penal, que requer uma condição</p><p>especial do sujeito passivo (ser menor de 14 anos).</p><p>Ressalve-se que tais condutas, embora praticados contra menor de 14 anos, não</p><p>possuem conteúdo material suficiente para caracterizar um estupro de vulnerável. Assim,</p><p>quem se masturba na presença de um menor de 14 anos, a fim de satisfazer lascívia</p><p>própria ou de outrem, não pratica estupro de vulnerável, mas sim o tipo penal do art. 218-</p><p>A.</p><p>3.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>A conduta principal é PRATICAR ATO LIBIDINOSO, ou seja, qualquer</p><p>comportamento de natureza sexual que objetive satisfazer a lascívia do agente ou de</p><p>terceiros, excetuado, por obvio, a conjunção carnal.</p><p>Além disso a ação deve se voltar contra pessoa determinada. É o que se dessume</p><p>da parte da norma que diz “Praticar contra alguém...”.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Exemplificando: se o agente, furtivamente, passa a mão em partes íntimas da</p><p>vítima ou se masturba para uma pessoa específica, teremos configura o crime em</p><p>comento.</p><p>Por outro lado, se o agente é flagrado masturbando-se em um parque público,</p><p>ausente o direcionamento de sua conduta em face de pessoa determinada, o crime será</p><p>outro, previsto no art. 233, sob a rubrica de “ato obsceno”:</p><p>Art. 233 - Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao</p><p>público:</p><p>Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.</p><p>O art. 215-A é exemplo de subsidiariedade expressa, como se pode observar</p><p>no preceito secundário do tipo, onde se diz “Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos,</p><p>se o ato não constitui crime mais grave.”</p><p>Assim, somente poderemos falar em Importunação Sexual se a conduta não</p><p>configurar um delito mais grave.</p><p>Nesta linha de raciocínio temos que tomar muito cuidado para não fazermos</p><p>confusão com o art. 213.</p><p>Assim como ocorre com referida norma penal, o art. 215-A também exige que a</p><p>conduta seja praticada contra a vontade da vítima.</p><p>A diferença é que o art. 213 traz como elementares o emprego de violência</p><p>ou grave ameaça para subjugar a vontade da vítima, o que não ocorre no tipo que ora</p><p>analisamos.</p><p>Cuidado também para não confundir com o art. 217-A, na parte da norma em</p><p>que se prevê a prática de ato sexual com alguém que, por qualquer circunstância, não</p><p>possa oferecer resistência.</p><p>Se a vítima se encontra numa situação em que não possa oferecer resistência,</p><p>como por exemplo estar dopada ou totalmente embriagada, e o agente vir a praticar com</p><p>a mesma qualquer ato sexual, restará caracterizado o estupro de vulnerável,</p><p>independentemente do fato de não ter o autor concorrido para que a mesma se visse sob</p><p>tais circunstâncias.</p><p>3.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, consistente na vontade e consciência de praticar ato libidinoso contra</p><p>alguém.</p><p>Além deste elemento subjetivo genérico, exige o tipo penal uma finalidade</p><p>específica do agente (dolo específico ou elemento subjetivo especial) qual seja, a</p><p>intenção do agente de satisfazer a lascívia, própria ou de outrem.</p><p>Subsistindo finalidade distinta não há que se falar em Importunação Sexual,</p><p>podendo ser o caso de outro enquadramento penal.</p><p>3.6) Consumação e Tentativa:</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>O crime se consuma com a prática do ato libidinoso, independentemente de o</p><p>agente conseguir ou não satisfazer o seu desejo sexual.</p><p>A tentativa, em tese, é cabível. Contudo, na prática, é difícil visualização, pois</p><p>qualquer início de atos libidinosos já caracterizaria o crime consumado.</p><p>Cleber Masson traz o seguinte exemplo para a forma tentada: “Pedro começa a</p><p>olhar para Maria, sua colega de trabalho, e abaixa a calça para masturbar-se. Antes de</p><p>iniciar a prática do ato libidinoso, todavia,</p><p>ele vem a ser preso em flagrante pelo</p><p>segurança do local”.</p><p>4 – Assédio Sexual:</p><p>Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou</p><p>favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior</p><p>hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.</p><p>Pena – detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos.</p><p>Parágrafo único. (VETADO)</p><p>§ 2o A pena é aumentada em até um terço se a vítima é menor de 18 (dezoito)</p><p>anos.</p><p>4.1) Introdução:</p><p>O art. 216-A foi introduzido pela Lei 10.224/2001, em fenômeno que se</p><p>denomina novatio legis incriminadora, não podendo, desta feita, retroagir para alcançar</p><p>fatos ocorridos anteriormente à sua vigência.</p><p>A doutrina, e aí podemos citar Bitencourt e Greco, sem descuidar da relevância</p><p>dos bens jurídicos tutelados pela norma em comento, critica a criação deste novo</p><p>dispositivo penal, especialmente por afrontar o princípio da intervenção mínima,</p><p>argumentando que a conduta ora analisada já era objeto de proteção por outros ramos</p><p>jurídicos (direito civil, administrativo e trabalhista) e que, a depender do caso concreto,</p><p>já poderia haver enquadramento em outros dispositivos penais, como o estupro, violação</p><p>sexual mediante fraude, constrangimento ilegal, etc.</p><p>4.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>A conduta em análise caracteriza delito pluriofensivo. Nesta senda, segundo a</p><p>doutrina, além da liberdade sexual, também estariam protegidos pela norma a liberdade</p><p>de exercício de trabalho e o direito à não discriminação, além, é claro, da própria</p><p>dignidade sexual das pessoas.</p><p>Neste sentido, importa transcrever aqui excerto do Tratado de Direito Penal</p><p>(volume 4), de Cezar Roberto Bitencourt, em que este assevera “Assim, bens jurídicos</p><p>protegidos são (1) a liberdade sexual de homem e mulher, indiferentemente, (...); (2) a</p><p>honra e a dignidade sexuais são igualmente protegidos por este dispositivo; e, por fim,</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/Mensagem_Veto/2001/Mv424-01.htm</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>(3) a dignidade das relação trabalhista-funcionais também assumem a condição de bem</p><p>jurídico penalmente protegido por este novo dispositivo legal”.</p><p>4.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Quando falamos em assédio sexual a ideia que inicialmente nos vem à mente é</p><p>a de um homem assediando uma mulher, e, na verdade, tal forma de conduta é a que mais</p><p>comumente ocorre.</p><p>Todavia, vale lembrar que o tipo penal não traz nenhuma restrição neste sentido,</p><p>podendo tanto o homem quanto a mulher figurarem em qualquer um dos polos da relação</p><p>jurídico-penal.</p><p>Trata-se, no entanto, de crime próprio em relação ao sujeito ativo, já que</p><p>somente poderá sê-lo quem se encontrar em posição de superior hierárquico ou</p><p>ascendência inerente à emprego, cargo ou função.</p><p>Do mesmo modo, e consequentemente, somente poderá ser sujeito passivo</p><p>quem se encontrar na condição de subordinado.</p><p>Ressalve-se que se a vítima for menor de 18 anos teremos uma causa de</p><p>aumento de até um terço, prevista no § 2º.</p><p>4.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>A conduta nuclear é CONSTRANGER, que, normalmente, tem o significado de</p><p>forçar, coagir, obrigar a vítima a determinado comportamento.</p><p>Todavia, conforme abalizada doutrina (Bitencourt, Capez), neste caso específico</p><p>não se pode dar tal interpretação à conduta nuclear.</p><p>Segundo tais autores, diferentemente do que ocorre, por exemplo, no crime de</p><p>estupro, em que se constrange alguém a fazer alguma coisa, aqui há apenas o</p><p>CONSTRANGIMENTO de alguém. Neste ponto, importa citar Bitencourt, para o qual</p><p>“Deve-se reconhecer que seu sentido ou significado não é o mesmo</p><p>daquele utilizado no crime de estupro (obrigar, forçar, compelir, coagir), caso</p><p>contrário, a oração estaria incompleta: faltar-lhe-ia um complemento verbal.</p><p>Essa nossa concepção é favorecida pela própria estrutura do texto, que não</p><p>coloca entre virgulas o elemento subjetivo especial do tipo (com o intuito de</p><p>obter vantagem ou favorecimento sexual), como normalmente ocorre nessas</p><p>construções tipológicas. Na verdade, essa construção gramatical nos obriga a</p><p>interpretar o verbo constranger como o sentido de embaraçar, acanhar, criar</p><p>uma situação ou posição constrangedora para a vítima, que lhe dá, segundo a</p><p>definição clássica, a classificação de crime formal”.</p><p>Assim, se nos permitem a insistência em prol da compreensão, a conduta de</p><p>constranger não objetiva coagir alguém a fazer algo, mas simplesmente criar um</p><p>embaraço, um mal estar ou mesmo um temor na vítima, que se vê constrangida pelo</p><p>seu superior hierárquico ou ascendente, numa relação de emprego, cargo ou função.</p><p>Neste ponto vale acentuar que não é qualquer investida ou gracejo por parte</p><p>do agente que caracterizará o delito, mas somente aquela conduta que, de fato,</p><p>caracterizar um constrangimento à vítima.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>A propósito, trazemos mais uma vez à colação os ensinamentos de Bitencourt</p><p>“Assediar sexualmente, ou melhor, constranger, implica importunação séria, grave,</p><p>ofensiva, chantagista ou ameaçadora a alguém subordinado, na medida em que o</p><p>dispositivo legal não dispensa a existência e infringência de uma relação de hierarquia</p><p>ou ascendência. Simples gracejos, meros galanteios ou paqueras não têm idoneidade</p><p>para caracterizar a ação de constranger”.</p><p>Se houver emprego de violência ou grave ameaça o delito, para a maioria</p><p>da doutrina, será o de estupro, embora haja aqueles, como o Bitencourt, que entendem</p><p>que tais meios executórios são compatíveis com o assédio sexual, desde que não exista a</p><p>intenção específica de obrigar a vítima à uma prática sexual contra a sua vontade. No</p><p>assédio, ainda que empregando violência ou grave ameaça, a intenção do autor é obter o</p><p>consentimento da vítima, ainda que conspurcado por tais circunstâncias.</p><p>Por fim devemos diferenciar a situação do superior hierárquico daquele que</p><p>detém ascendência sobre a vítima. Embora haja alguns doutrinadores, como o NUCCI,</p><p>para os quais a relação hierárquica existiria no âmbito público enquanto a ascendência</p><p>teria lugar na seara privada, prevalece o entendimento que tanto uma quanto outra podem</p><p>se verificar nos dois campos.</p><p>Para doutrina majoritária, na superioridade hierárquica temos um</p><p>escalonamento, níveis de progressão em determinada carreira, o que não se verifica na</p><p>relação de ascendência, em que apenas temos uma posição de domínio, influência ou</p><p>respeito.</p><p>Registre-se, todavia, entendimento de autores como o Rogério Greco, para quem</p><p>“A expressão superior hierárquico indica uma relação de Direito Público, vale dizer, de</p><p>Direito Administrativo, não se incluindo nela as relações de Direito Privado”.</p><p>Observação: para a maioria da doutrina não há que se falar em assédio</p><p>sexual nas relações envolvendo professor e aluno. Neste sentido podemos citar o</p><p>posicionamento de BITENCOURT, NUCCI e GRECO. Por outro lado, em entendimento</p><p>minoritário, temos CAPEZ e LUIZ REGIS PRADO, para o qual pode haver configuração</p><p>do delito.</p><p>Ressalve-se, todavia, que no ano de 2019 o STJ, no REsp. 1.759.135/SP</p><p>entendeu que “É patente a aludida ‘ascendência’, em virtude da função desempenhada</p><p>pelo recorrente – também elemento normativo do tipo -, devido à atribuição que tem o</p><p>professor de interferir diretamente na avaliação e no desempenho acadêmico do discente,</p><p>contexto que lhe gera, inclusive, o receio da reprovação. Logo, a ‘ascendência’ constante</p><p>do tipo penal objeto deste recurso não deve se limitar à ideia de relação empregatícia</p><p>entre as partes. Interpretação teleológica que se dá ao texto legal”.</p><p>Registre-se, ainda, que a Jurisprudência em Teses do STJ, na edição de nº 152, em seu</p><p>item 5 aduz que “É possível a configuração do crime de assédio sexual (art. 216-A do</p><p>CP) na relação entre professor e aluno).</p><p>O mesmo acontece com o ministro religioso e fiel, pois, tanto neste quanto no</p><p>caso</p><p>anterior, não haveria relação laborativa entre os agentes.</p><p>4.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, consistente na vontade livre e consciente de constranger a vítima, com</p><p>o fim de obter vantagem ou favorecimento sexual.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>4.6) Consumação e tentativa:</p><p>O crime se consuma com o ato de constrangimento, independentemente de o</p><p>autor conseguir ou não a vantagem ou favorecimento sexual, o que, se ocorrer,</p><p>caracterizará exaurimento do crime.</p><p>Embora de difícil ocorrência a tentativa é perfeitamente possível.</p><p>5 - Registro não autorizado da intimidade sexual</p><p>Art. 216-B. Produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio,</p><p>conteúdo com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e</p><p>privado sem autorização dos participantes: (Incluído pela Lei nº 13.772, de 2018)</p><p>Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e multa.</p><p>Parágrafo único. Na mesma pena incorre quem realiza montagem em</p><p>fotografia, vídeo, áudio ou qualquer outro registro com o fim de incluir pessoa em</p><p>cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo. (Incluído pela Lei nº</p><p>13.772, de 2018)</p><p>5.1) Introdução:</p><p>Assim como o art. 215-B, este disposto foi incluído recentemente em nossa</p><p>legislação, a fim de suprir lacuna existente.</p><p>A conduta ora tipificada, infelizmente, tem se tornado cada vez mais comum em</p><p>nossa sociedade, importando ressaltar que somente se configura o crime quando não há</p><p>consentimento dos participantes, exceto se se tratar de menor de 18 anos, quando então,</p><p>independentemente de autorização da vítima, caracterizar-se-á delito específico previsto</p><p>na ECA.</p><p>5.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>De maneira ampla protege-se a dignidade sexual e, de modo mais específico, a</p><p>intimidade sexual das pessoas.</p><p>5.3) Sujeitos do Crime:</p><p>O crime pode ser praticado por qualquer pessoa, caracterizando, neste passo,</p><p>delito de natureza comum.</p><p>Por outro lado, quanto ao sujeito passivo, a princípio também pode ser qualquer</p><p>pessoa, devendo apenas ser lembrado que, se for menor de 18 anos, teremos um crime</p><p>específico, previsto na Lei n. 8.069/90:</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13772.htm#art3</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13772.htm#art3</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13772.htm#art3</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Art. 240. Produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por</p><p>qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou</p><p>adolescente:</p><p>Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa</p><p>5.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>O crime se configura quando o agente PRODUZIR, FOTOGRAFAR, FILMAR</p><p>ou REGISTRAR conteúdo de nudez, ato sexual ou libidinoso.</p><p>Importa ressaltar, como de resto explícito no próprio tipo penal, que somente</p><p>haverá crime se a conduta violar a intimidade das vítimas. Assim, se alguém resolver</p><p>caminhar nu pela rua, não haverá configuração típica em se fazer registros fotográficos</p><p>do mesmo.</p><p>Além disso, só existe o delito se não houver autorização da vítima; em outras</p><p>palavras, se a conduta se encontrar amparada em expresso consentimento da vítima o fato</p><p>é atípico. Neste ponto não se pode esquecer que quando o ato de nudez, sexual ou</p><p>libidinoso envolver mais de uma pessoa será necessário o consentimento de todas.</p><p>Por fim, não se pode confundir o tipo penal em análise com aquele previsto no</p><p>art. 218-C:</p><p>Art. 218-C. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender ou expor à</p><p>venda, distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio - inclusive por meio de</p><p>comunicação de massa ou sistema de informática ou telemática -, fotografia, vídeo</p><p>ou outro registro audiovisual que contenha cena de estupro ou de estupro de</p><p>vulnerável ou que faça apologia ou induza a sua prática, ou, sem o consentimento</p><p>da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia: (Incluído pela Lei nº 13.718, de</p><p>2018)</p><p>Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, se o fato não constitui crime mais</p><p>grave. (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)</p><p>Aqui o comportamento punível é o ato, basicamente, de se divulgar ou difundir</p><p>fotografia, vídeo ou qualquer outro registro audiovisual que contenha cena de estupro ou,</p><p>sem o consentimento da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia.</p><p>No caso de alguém produzir, fotografar, filmar ou registrar e depois distribuir o</p><p>material teremos o concurso material de crimes.</p><p>5.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, dispensando-se qualquer motivação específica.</p><p>Não se admite modalidade culposa.</p><p>5.6) Consumação e tentativa:</p><p>O crime se consuma no momento em que o agente produz, fotografa, filma ou</p><p>registra.</p><p>A tentativa é possível, embora de difícil caracterização prática.</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>3 – DOS CRIMES SEXUAIS CONTRA VULNERÁVEL</p><p>1 – Estupro de Vulnerável:</p><p>Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de</p><p>14 (catorze) anos:</p><p>Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.</p><p>§ 1o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com</p><p>alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário</p><p>discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode</p><p>oferecer resistência.</p><p>§ 2o (VETADO)</p><p>§ 3o Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave:</p><p>Pena - reclusão, de 10 (dez) a 20 (vinte) anos.</p><p>§ 4o Se da conduta resulta morte:</p><p>Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.</p><p>1.1) Introdução:</p><p>O dispositivo em análise foi introduzido pela Lei n. 12.015/09, a qual, como já</p><p>falamos anteriormente, trouxe inúmeras inovações para os crimes sexuais, uma delas,</p><p>importa aqui relembrar, a fusão entre o art. 213 e 214, os quais tratavam, respectivamente,</p><p>dos crimes de estupro e atentado violento ao pudor, ambos praticados com violência real.</p><p>Em referido contexto legislativo tínhamos, sequencialmente, o art. 224, que</p><p>trazia como causas de violência presumida justamente as circunstâncias que foram</p><p>inseridas no caput e § 1º do art. 217-A. Assim, em tais hipóteses, que a doutrina dizia</p><p>existir a violência ficta, punia-se o estupro e o atentado violento ao pudor praticados</p><p>contra aqueles que, por quaisquer das circunstâncias previstas no art. 224, não podiam</p><p>dar o seu consentimento válido ou mesmo oferecer resistência.</p><p>Naquela época havia grande divergência doutrinária e jurisprudencial quanto à</p><p>natureza da presunção de violência para o caso de o crime ser praticado contra menor de</p><p>quatorze anos. Discutia-se, na ocasião, se se tratava de uma presunção de natureza</p><p>absoluta ou relativa, prevalecendo o entendimento jurisprudencial pela primeira hipótese,</p><p>embora na doutrina o entendimento predominante era justamente em sentido contrário.</p><p>Em outras palavras, discutia-se a possibilidade de se afastar a presunção legal quando, no</p><p>caso concreto, restasse comprovada a experiência sexual da vítima.</p><p>Para alguns doutrinadores, com a nova redação legal não há mais o que se</p><p>discutir. Nesse sentido citamos Rogério Greco.</p><p>De outro lado, há quem entenda que tal discussão não foi superada, sendo</p><p>plenamente possível afastar-se a presunção a depender das circunstâncias do caso</p><p>concreto. Neste sentido Guilherme de Souza Nucci e Cezar Roberto Bitencourt.</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Msg/VEP-640-09.htm</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>A primeira corrente é a que prevalece no STJ, havendo inclusive súmula a</p><p>respeito:</p><p>Sumula 593 do STJ: “O crime de estupro</p><p>de vulnerável se configura com a</p><p>conjunção carnal ou prática de ato libidinoso com menor de 14 anos, sendo irrelevante</p><p>eventual consentimento da vítima para a prática do ato, sua experiência sexual anterior</p><p>ou existência de relacionamento amoroso com o agente. ”</p><p>Por fim, uma outra discussão que também vigia na redação anterior e que, esta</p><p>sim, certamente teve fim com a inovação legislativa, é se o crime de estupro ou atentado</p><p>violento ao pudor praticados com violência presumida ou ficta caracterizariam delitos de</p><p>natureza hedionda. Naquela época prevalecia o entendimento nos Tribunais Superiores</p><p>em sentido afirmativo. Hoje, tal conclusão resulta de expresso texto legislativo, previsto</p><p>no inciso VI, art. 1º da Lei 8.072/90.</p><p>1.2) Bem Jurídico Protegido:</p><p>Tutela-se a liberdade sexual das pessoas que se encontram em situação de</p><p>vulnerabilidade, protegendo-se, de maneira mais ampla, a dignidade sexual.</p><p>Tratando-se de menor de 14 anos temos também a proteção do regular desenvolvimento</p><p>sexual.</p><p>Em relação à este último aspecto vale acentuar que, segundo Bitencourt, trata-se</p><p>do verdadeiro bem jurídico tutelado, já que não podemos falar de liberdade sexual para</p><p>aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade. Veja-se, a seguir, trecho de</p><p>referido doutrinador, em que o mesmo assevera que “Na realidade, na hipótese de crime</p><p>sexual contra vulnerável, não se pode falar em liberdade sexual como bem jurídico</p><p>protegido, pois se reconhece que não há a plena disponibilidade do exercício dessa</p><p>liberdade, que é exatamente o que caracteriza sua vulnerabilidade. Na verdade, a</p><p>criminalização da conduta descrita no art. 217-A procura proteger a evolução e o</p><p>desenvolvimento normal da personalidade do menor, para que, na sua fase adulta, possa</p><p>decidir livremente, e sem traumas psicológicos, seu comportamento sexual”.</p><p>1.3) Sujeitos do Crime:</p><p>O crime pode ser praticado por qualquer pessoa, caracterizando, neste passo,</p><p>delito de natureza comum.</p><p>Por outro lado, quanto ao sujeito passivo, somente poderá sê-lo o menor de 14</p><p>anos, o portador de enfermidade ou deficiência mental que não tenha o necessário</p><p>discernimento para a prática do ato ou aquele que, qualquer outra causa, não possa</p><p>oferecer resistência.</p><p>Atenção: no que diz respeito aos sujeitos do crime há interessante corrente</p><p>doutrinária e jurisprudencial que defende a atipicidade no caso de os envolvidos não</p><p>possuírem diferença de idade superior à cinco anos, especialmente quando a vítima é</p><p>maior de doze anos. Tal ideia é defendida com base na aplicação da Teoria Romeu e</p><p>Julieta, de origem norte-americana, onde alguns Estados preveem a chamada “Romeo e</p><p>Juliet Law”, consistente em dispositivos legais que excluem o crime nesta hipótese.</p><p>1.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>O crime se consubstancia na prática de conjunção carnal ou ato libidinoso</p><p>diverso com qualquer pessoa que se encontre em uma das situações acima pontuadas.</p><p>Assim, dispensa-se maiores comentários quanto à conduta em si mesma, já</p><p>objeto de estudo quando tratamos do crime de estupro.</p><p>Vale à pena, no entanto, fazer alguns apontamentos em relação às circunstâncias</p><p>que caracterizam a presunção legal de vulnerabilidade. Vejamo-las:</p><p>A primeira hipótese é a do menor de 14 anos e aqui a única observação</p><p>importante, que de resto seria até desnecessária, por resultar da teoria geral do direito</p><p>penal, é que tal circunstância tem que fazer parte da esfera de conhecimento do</p><p>autor, sob pena de responsabilização objetiva.</p><p>Nesse sentido, lembramos um exemplo de Rogério Greco, em que o sujeito</p><p>conhece a vítima em uma festa, a qual possui compleição física compatível com uma</p><p>mulher maior de dezoito anos, inclusive, fazendo uso de bebida alcoólica e que, em tal</p><p>contexto, a leva para um motel. Diante de tal conjuntura teremos configurado o erro de</p><p>tipo, pois, não lhe era possível imaginar que se tratava de uma menor de quatorze anos.</p><p>Reconhecido o erro de tipo afasta-se a tipicidade da conduta, justamente por faltar o seu</p><p>elemento primordial, o dolo.</p><p>Em relação à pessoa portadora de deficiência ou debilidade mental vale ressaltar</p><p>que não é em toda e qualquer situação que tais pessoas serão consideradas vítimas do</p><p>crime de estupro. Em outras palavras, se a deficiência ou debilidade mental não</p><p>comprometer o livre discernimento para a prática de atos sexuais, não há que se</p><p>falar no crime em estudo.</p><p>Por fim, na parte final do § 1º, temos uma cláusula genérica que inclui quaisquer</p><p>circunstâncias em razão da qual a vítima não possa oferecer resistência. O principal</p><p>exemplo para tal situação é a vítima que se encontra dopada por alguma substância ou</p><p>medicamento ou mesmo totalmente embriagada. Nesse caso, o crime se caracteriza</p><p>independentemente de a vítima já se encontrar em tal situação ou de ter sido a ela</p><p>submetida pelo autor. Vale lembrar, enfim, que por ser uma cláusula genérica deve</p><p>guardar similitude com as situações de vulnerabilidade anteriormente elencadas.</p><p>Atenção: cuidado com a redação do § 5º do art. 217-A:</p><p>§ 5º As penas previstas no caput e nos §§ 1º, 3º e 4º deste artigo aplicam-se</p><p>independentemente do consentimento da vítima ou do fato de ela ter mantido</p><p>relações sexuais anteriormente ao crime. (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018)</p><p>O problema deste dispositivo encontra-se na parte em que o mesmo faz</p><p>referência ao § 1º.</p><p>Ora, referida norma pune a conduta de quem pratica relação sexual com aquele</p><p>que, por enfermidade ou deficiência mental, não tenha o necessário discernimento para a</p><p>prática do ato; ou que, por qualquer outra causa não possa oferecer resistência.</p><p>Com a redação do § 5º pode ficar parecendo que, em toda e qualquer situação, o</p><p>consentimento da vítima não tem o condão de afastar o crime. E não é bem assim.</p><p>Se estamos diante de um consentimento válido, independentemente de se tratar</p><p>de um portador de doença mental, não há que se falar em crime de estupro. Devemos</p><p>lembrar, inclusive, do art. 6º, II, da Lei nº 13.146/15 (Estatuto dos Deficientes):</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13718.htm#art1</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Art. 6º A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para:</p><p>II - exercer direitos sexuais e reprodutivos;</p><p>E não há que se cogitar em prevalência do § 5º sobre o Estatuto, ao argumento</p><p>de que aquele é mais recente do que este, pois tal diploma nasce de uma Convenção</p><p>Internacional que o Brasil ratificou (Convenção de Nova Iorque), sendo recepcionado no</p><p>nosso ordenamento com o status de emenda constitucional, e, desta forma, devendo</p><p>prevalecer sobre a legislação infraconstitucional.</p><p>A regra, todavia, tem aplicação ao disposto no caput, onde, não obstante o</p><p>consentimento da vítima ou a sua experiência sexual, teremos por configurado o estupro</p><p>de vulnerável.</p><p>1.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, que aqui deve abranger a situação de vulnerabilidade da vítima.</p><p>Se não houver conhecimento quanto à situação de vulnerabilidade da vítima, por</p><p>erro de tipo, não há que se falar em dolo para o delito em estudo, restando, assim, atípica</p><p>a conduta.</p><p>1.6) Consumação e tentativa:</p><p>O crime se consuma com a efetiva prática de conjunção carnal ou ato libidinoso</p><p>distinto.</p><p>A tentativa é perfeitamente admissível.</p><p>1.7) Forma Qualificada:</p><p>A pena prevista para o tipo básico ou fundamental é de reclusão de oito a quinze</p><p>anos.</p><p>Contudo, se da conduta resultar lesão corporal de natureza grave a pena passará</p><p>para dez a vinte anos; se resultar morte, doze a trinta anos.</p><p>Ressalve-se que prevalece o entendimento no sentido de que temos aqui um</p><p>delito eminentemente preterdoloso, vale dizer, cujos resultados agravadores somente</p><p>podem se verificar a título de culpa.</p><p>2 – Corrupção de Menores:</p><p>Art. 218. Induzir</p><p>alguém menor de 14 (catorze) anos a satisfazer a lascívia de</p><p>outrem:</p><p>Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>2.1) Introdução:</p><p>A redação atual do dispositivo em análise também é produto de</p><p>modificação implementada pela Lei n. 12.015/09. Antes disso, o art. 218 punia a</p><p>conduta daquele que corrompesse ou facilitasse a corrupção de pessoa maior de quatorze</p><p>e menor de dezoito, com ela praticando ato de libidinagem, ou induzindo-a a praticá-lo</p><p>ou presenciá-lo.</p><p>Anote-se que, segundo alguns autores, a manutenção da rubrica “corrupção de</p><p>menores” para o art. 218 não é totalmente adequada. Primeiro por que a norma hoje</p><p>veicula conduta bem diferente daquela outrora disciplinada. Segundo, porque existe um</p><p>delito no ECA (Lei nº 8.069/90), em seu art. 244-B, que traz um delito com a mesma</p><p>denominação.</p><p>Registre-se, ainda, que antes da Lei nº 12.015/09 aquele que induzisse menor de</p><p>14 (quatorze) anos a satisfazer a lascívia de outrem deveria incidir no art. 227, § 2º c/c</p><p>com o art. 232, segundo o qual a tal delito deveria ser aplicada a presunção de violência</p><p>do art. 224. Estes dois últimos dispositivos atualmente encontram-se revogados.</p><p>2.2) Bem Jurídico:</p><p>Protege-se a dignidade sexual das pessoas, em especial o regular</p><p>desenvolvimento sexual dos menores de 14 anos.</p><p>2.3) Sujeitos do Crime:</p><p>Crime de natureza comum, pode ser praticado por qualquer pessoa.</p><p>Cuidado: o terceiro destinatário da conduta praticada pelo menor não é sujeito</p><p>ativo deste crime, podendo vir a responder pelo crime de estupro de vulnerável, se praticar</p><p>qualquer ato sexual com o mesmo.</p><p>Gize-se, tão somente, que se o crime for praticado por duas ou mais pessoas, a</p><p>pena será aumentada de quarta parte. Por outro lado, quando o agente for ascendente,</p><p>padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou</p><p>empregador da vítima ou por qualquer outro título tem autoridade sobre ela, a pena será</p><p>aumentada de metade, tudo conforme previsto no art. 226, I e II do Código Penal, que</p><p>tem aplicação a este dispositivo e todos os demais previstos nos Capítulos I e II do Título</p><p>VI.</p><p>Vítima somente poderá ser aquele que tem menos de 14 anos.</p><p>2.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>A conduta criminosa se delineia quando o agente induz a vítima, menor de 14</p><p>anos, a satisfazer a lascívia de outrem.</p><p>Há quem entenda, minoritariamente, que tal disposição legal obstou a punição</p><p>do partícipe do crime previsto no art. 217-A, já que ao prever esta figura autônoma teria</p><p>criado uma nítida exceção pluralística à teoria monística. Neste sentido cite-se NUCCI.</p><p>Por outro lado, prevalece o entendimento (GRECO, SANCHES e</p><p>BITENCOURT) que a o tipo penal em estudo não abrange a prática de atos</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>libidinosos levados à efeito pela vítima, caso em que a conduta se enquadraria na figura</p><p>delituosa do art. 217-A.</p><p>Neste sentido vejamos escólio de Rogério Greco:</p><p>“Por satisfazer a lascívia somente podemos entender aquele comportamento</p><p>que não imponha à vítima, menor de 14 (catorze) anos, a prática de conjunção carnal ou</p><p>outro ato libidinoso, uma vez que, nesses casos, teria o agente que responder pelo delito</p><p>de estupro de vulnerável, em virtude da regra constante do art. 29 do Código Penal, que</p><p>seria aplicada ao art. 217-A do mesmo diploma repressivo.</p><p>Assim, por exemplo, poderia o agente induzir a vítima a fazer um ensaio</p><p>fotográfico, completamente nua, ou mesmo tomar banho na presença de alguém, ou</p><p>simplesmente ficar deitada, sem roupas, fazer danças eróticas, seminua, com roupas</p><p>minúsculas, fazer streap-tease etc., pois essas cenas satisfazem a lascívia de alguém, que</p><p>atua como voyeur.”</p><p>Assim, na expressão “satisfazer lascívia” somente poderíamos incluir</p><p>aqueles atos meramente contemplativos, como deixar-se observar, vestir fantasias</p><p>sexuais para satisfazer a libido de terceiro, etc.</p><p>OBS. Não se deve confundir o delito em estudo com o crime previsto no art.</p><p>244-B do ECA:</p><p>Art. 244-B. Corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18 (dezoito) anos,</p><p>com ele praticando infração penal ou induzindo-o a praticá-la:</p><p>Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos.</p><p>Qual crime pratica aquele que induz menor de 14 a satisfazer a lascívia de</p><p>outrem pela internet?</p><p>Conforme Rogério Greco continuaríamos a ter o crime de corrupção de</p><p>menores, não havendo que se falar em adequação típica para o crime previsto no art. 240</p><p>do ECA:</p><p>Art. 240. Produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por</p><p>qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou</p><p>adolescente:</p><p>Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.</p><p>Ousamos discordar de tal entendimento.</p><p>Atenção: Cleber Masson lembra que se houver recebimento de qualquer</p><p>vantagem por parte da vítima o crime se transmudará para aquele previsto no art. 218-B.</p><p>2.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>É o dolo, consubstanciado na vontade e consciência de induzir menor de 14 anos</p><p>a satisfazer a lascívia de outrem.</p><p>2.6) Consumação e tentativa:</p><p>Para maioria da doutrina trata-se de crime de natureza material, exigindo-</p><p>se a efetiva prática de ato destinado a satisfação da lascívia do agente.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>Registre-se o entendimento de alguns autores, como Paulo Busato e Cezar</p><p>Roberto Bintecourt, para os quais o crime se consumaria com o convencimento do menor,</p><p>ou seja, com o efetivo induzimento.</p><p>A tentativa é tranquilamente admissível.</p><p>3 – Satisfação de Lascívia Mediante Presença de Criança ou Adolescente</p><p>Art. 218-A. Praticar, na presença de alguém menor de 14 (catorze) anos, ou</p><p>induzi-lo a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer</p><p>lascívia própria ou de outrem:</p><p>Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos.</p><p>3.1) Introdução:</p><p>Como dito anteriormente a redação original do art. 218 previa como crime a</p><p>conduta de quem corrompesse ou facilitasse a corrupção de maior de quatorze e menor</p><p>de dezoito, com ela praticando ato de libidinagem, ou induzindo a praticá-lo ou presenciá-</p><p>lo.</p><p>Nesta ocasião entendia-se que se a prática de ato de libidinagem ocorresse com</p><p>menor de quatorze anos teríamos a violência presumida.</p><p>Por outro lado, se o comportamento do agente se restringisse apenas a</p><p>praticar atos de libidinagem em presença de menor de 14 anos a conduta seria</p><p>considerada atípica.</p><p>A Lei n. 12.015 veio preencher tal lacuna legislativa.</p><p>3.2) Bem Jurídico:</p><p>Mais uma vez tutela-se a dignidade sexual das pessoas, em especial o regular</p><p>desenvolvimento sexual dos menores de 14 anos.</p><p>3.3) Sujeito dos Crimes:</p><p>Crime de natureza comum, pode ser praticado por qualquer pessoa.</p><p>Vítima somente poderá ser aquele que tem menos de 14 anos. Notem que na</p><p>redação anterior do art. 218, que previa basicamente a mesma conduta aqui versada, a</p><p>vítima era o maior de 14 e menor de 18 anos.</p><p>Atenção: Greco, citando Renato Marcão e Plínio, Gentil lembra que a</p><p>vítima dever possuir idade suficiente para que possa ter a sua moralidade sexual</p><p>influenciada negativamente pelos atos que presencia.</p><p>DIREITO PENAL GERAL I</p><p>Professor César Cândido Neves Junior</p><p>3.4) Elementos Objetivos do Tipo:</p><p>Há duas maneiras se materializar a conduta típica:</p><p>- Praticar atos de libidinagem na presença da vítima;</p><p>- Induzi-lo a presenciar referidos atos.</p><p>Ressalve-se que em nenhum momento a vítima pode participar dos atos de</p><p>libidinagem, pois, neste caso, teríamos configurado o crime do art. 217-A.</p><p>3.5) Elementos Subjetivos do Tipo:</p><p>Trata-se de crime punido apenas na modalidade dolosa, não havendo previsão</p><p>para a conduta culposa.</p><p>Além do dolo genérico, exige-se finalidade especial consistente na satisfação</p><p>de lascívia própria ou de terceiro.</p><p>A existência</p>

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