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Crimes contra a dignidade sexual Profª. Luciana Fernandes false Descrição Aspectos gerais dos crimes sexuais. Propósito As modalidades dos crimes sexuais integram importante parte do ordenamento jurídico penal, sendo fundamental que se conheçam as modalidades, os elementos dos tipos penais em espécie e que se reflita sobre o que estrutura tais delitos. Preparação Antes de iniciar este tema, tenha em mãos a Constituição e o Código Penal. Objetivos Módulo 1 Os crimes sexuais Identificar os crimes contra a liberdade sexual. Módulo 2 Vulneráveis Reconhecer os crimes sexuais contra vulneráveis. Módulo 3 Lenocínio e trá�co de pessoa Analisar os delitos do título “lenocínio e tráfico de pessoa para fim de prostituição ou outra forma de exploração sexual”. Módulo 4 Ultraje público ao pudor Classificar os tipos do “ultraje público ao pudor”. Aviso O material apresentado pode gerar desconforto psicológico para algumas pessoas. Caso esse seja o seu caso, saiba que conta com a nossa simpatia. Se precisar, não deixe de buscar ajuda na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, ou no Serviço de Psicologia Aplicada de alguma Instituição de Ensino Superior ou no Centro de Valorização da Vida (CVV) através do site cvv.org.br ou número 188. Abusos sexuais de toda espécie são uma realidade infeliz em todo o mundo. Suas diversas modalidades distribuem-se desigualmente em nosso país e atingem, principalmente, mulheres negras, pobres e periféricas (ANDRADE, 2018). Além disso, ao contrário do senso Introdução comum, diversas pesquisas têm noticiado que os principais agressores, especialmente no que se refere ao crime de estupro, são homens dos círculos de convivência íntimo de mulheres (IPEA, 2014). Considerando essas condições, iniciamos este duro tema convidando você, que é estudante, a quebrar os paradigmas hegemônicos sobre “autores” e “vítimas” e a refletir de forma sistêmica sobre o assunto, mais especificamente, sobre como o cisheteropatriarcado influencia a ocorrência desses fatos. Chamamos atenção para uma visão mais estrutural de como a “cultura do estupro” (SOUSA, 2017), aqui abrigando uma ampla gama de abusos sexuais, tem contextualizado os delitos com maior ocorrência nos módulos que apresentamos. Queremos despertar em você senso crítico para, não só conhecer as espécies de delito, que é sobre o que mais nos debruçaremos neste material, mas também para problematizar qualquer estereotipo lançado a respeito das partes envolvidas e todo tipo de cultura antidemocrática que subjaz aos conflitos que descreveremos. Uma das evidências de como o sexismo influiu – e ainda influi –, inclusive na legislação criminal, é o fato que, até 2005, para crimes como “Sedução” (art. 217), “Rapto violento ou mediante fraude” e “Rapto consensual” (arts.219 e 220), se o algoz se casasse com a vítima, haveria uma diminuição de pena (art. 221). Essa prática contribui para a construção cultural de que não há abusos em casamentos instituídos e tem intimidado, há décadas, mulheres a denunciarem casos de abusos no próprio lar. Além disso, havia dispositivo (revogado) que previa aumento de pena (art. 226, III) caso o agressor fosse casado e, a pior violação de todas: todo o título VI, até 2009, era chamado de “crimes contra os costumes”. A partir desta linguagem, reforçava-se que tais delitos não tutelavam a liberdade sexual, a dignidade humana, ou sequer o direito à sexualidade, mas sim os “costumes” da família baseada na moralidade cristã. Por esses e outros motivos, por muitas décadas, o sistema de justiça criminal assentou o entendimento, amparado na legislação disponível, de que mesmo com aparência de violação sexual, muitas práticas, desde que costumazes e praticadas em meio ao seio familiar, não configuravam crime. Assim, também, tudo o que transcendia a moralidade desse modelo de família nuclear, não constituía violação relevante, motivo pelo qual a população LGBTQI+ e as(os) trabalhadoras(es) sexuais encontram grandes dificuldades ao enfrentar o sistema quando são vítimas de crimes sexuais. 1 - Os crimes sexuais Ao �nal deste módulo, esperamos que você identi�que os crimes contra a liberdade sexual. Primeiras palavras Começamos, então, com o corte dogmático fazendo duas notas comuns a todos os crimes deste título: Primeira nota: Segundo o art. 234-A, com redação dada pela Lei nº 13.718, de 2018 – implicando em uma novatio in pejus –, aumenta-se a Neste conteúdo, portanto, exploraremos todos os chamados crimes sexuais e, em síntese, buscamos nesta introdução incentivar uma pesquisa interdisciplinar sobre o tema. Isto é, uma busca engajada aos pontos que possam ir além dos limites da racionalidade jurídico descritiva, e implicar cada um para a discussão pública e pauta de práticas democraticamente localizadas no trato das pessoas que vivem conflitos como esses. Qualquer um/a que atua no sistema de justiça criminal e está diante de casos como esses deve se revisitar sempre, sobretudo para não reproduzir os mecanismos de vitimização secundária das pessoas que relatam abusos, produzindo ainda maior sofrimento a essas partes. pena (BRASIL, 2018): III. de metade a 2/3 (dois terços), se do crime resulta gravidez; IV. de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o agente transmite à vítima doença sexualmente transmissível de que sabe ou deveria saber ser portador, ou se a vítima é idosa ou pessoa com deficiência. Segunda nota: conforme o art. 234-B, “os processos em que se apuram crimes definidos neste título correrão em segredo de justiça”. Feitos os registros, vamos, então, para o estudo detalhado dos delitos, separados em função dos capítulos que integram. Crimes contra a liberdade sexual Os crimes deste título são dolosos e têm como razão de ser a proteção da liberdade e do direito à sexualidade, assim como a autonomia e a dignidade humana. Fala-se aqui no livre consentimento ou na formação da vontade em matéria sexual, sendo um importante espectro da liberdade e da subjetividade das pessoas. Tivemos algumas alterações recentes a este tema, como a emergência da Lei nº 13.718/2018 que criou crimes autônomos e causas de aumento de pena – os quais trataremos oportunamente – e alterou a ação penal referente aos títulos. Dica Tome nota, então, que, a partir dessa legislação, todos os casos de crimes contra a liberdade sexual e de crimes sexuais contra vulneráveis são processados mediante ação penal pública incondicionada (art. 225, CP). Antes disso, a ação pública era condicionada à representação, ressalvados alguns casos, como quando a vítima fosse menor de 18 anos ou pessoa vulnerável. Assim, por se tratar de uma novatio legis híbrida, com caráter processual e material, e que consiste em um prejuízo para o réu (nos casos em que a ação dependia de representação), passa a ser aplicada apenas após a sua regência. Feitas as notas gerais, podemos passar a estudar cada um dos crimes do capítulo separadamente. O crime de estupro (art. 213, CP) Estupro Antes de entrarmos neste tópico, a professora Luciana Fernandes discorrerá sobre o tipo penal de estupro e as principais questões relativas a ele. Para fins meramente didáticos, dizemos que são duas as possíveis modalidades do crime de estupro: Aquela em que há ato conjunção carnal. Aquela em que há qualquer outro ato libidinoso. Exemplo Por atos libidinosos podemos citar a “masturbação; os toques ou apalpadelas com significação sexual no corpo ou diretamente na região pudica (genitália, seios ou membros inferiores etc.) da vítima; a contemplação lasciva; os contatos voluptuosos” (PRADO, 2019, p. 1436). Dispensa-se, portanto, a penetração para a tipificação do crime, embora esta possa integrar o contexto do fato. Nesse sentido, até mesmo um beijo lascivo, a depender do contexto fático, vem sendo encarado pelos Tribunais como suficiente para ensejar a sua caracterização, o que podemos encarar com bastante desconfiança, sobretudo emface do princípio da lesividade e da intervenção mínima. Comete o crime de estupro, em tese, quem constrange alguém, mediante violência ou grave ameaça, para a prática ou permite com que ele se pratique qualquer uma dessas modalidades. Saiba mais O ato do constrangimento, que é elemento típico essencial, implica em forçar ou obrigar alguém a uma prática sexual. No entanto, o CP sofreu alterações no art. 214: Redação original Na redação original, o CP trazia dois tipos Crime revogado Com a Lei nº 12.015/09, o crime de atentado penais: estupro e atentado violento ao pudor (art. 214), e só havia o estupro com a prática de conjunção carnal. violento ao pudor foi formalmente revogado e, como visto, a prática de qualquer ato libidinoso já atrai a incidência do crime de estupro. Nesse sentido, houve o fenômeno da continuidade normativa ou da continuidade típico-normativa, com uma alteração geográfica do tipo penal, mas não a sua extinção. Não obstante, no Código Penal Militar, ainda há essa divisão entre o crime de atentado ao pudor e estupro – e que passa a ser aplicável, estritamente, a esta justiça. Estamos diante de um tipo misto alternativo, logo: Se o agente, no mesmo contexto fático, pratica conjunção carnal e outro ato libidinoso contra uma só vítima, pratica um só crime do art. 213 do CP. (STJ, HC 212.305/DF) Podem ser sujeitos ativo e passivo qualquer pessoa, sendo um delito comum e, por mais óbvio que possa parecer para alguns, vale ressaltar que o casamento ou a união formalizada entre as pessoas envolvidas em nada interfere para a configuração típica. Outro elemento estruturante do delito é o dissenso da vítima, isto é, que ela não consinta com a prática de modo objetivo e com clareza. Trata-se de um crime doloso, em que a pessoa autora precisa ter consciência e vontade dos elementos do tipo e que demanda um elemento subjetivo especí�co, que é a intenção de obter o envolvimento sexual. Além disso, admite tentativa (art. 14, II, CP), quando por motivo alheio à vontade algum ato externalizando a intenção do estupro for cometido, mas nenhum ato libidinoso for cometido. Suponha, como exemplo, que a vítima do crime grite e, despertando atenção dos vizinhos, que tentam adentrar ao local do fato, o autor tenha a empreitada interrompida. Em síntese, trata-se de crime comum, doloso, de resultado comissivo e instantâneo. Há algumas formas qualificadas do delito, insculpidas nos parágrafos do art. 213: § 1º Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos; § 2º Se da conduta resulta morte. (DECRETO-LEI Nº2.848, 1940) Vale lembrar que os resultados do estupro qualificado devem se dar, necessariamente, de modo culposo. Caso, por exemplo, haja dolo na morte da vítima, que ocorre ao longo do estupro, não haverá estupro qualificado, mas, sim, concurso de crimes (homicídio e estupro). Outro caso de concurso de crimes possível e que, infelizmente, tem recorrência é a hipótese do sujeito ativo que sabe ou deve saber que está contaminado com doença venérea e que obriga a vítima a com ele manter relação sexual, expondo-a a risco de contrair a moléstia. Nesse caso, em tese, responde por estupro em concurso formal com crime do art. 130, caput, CP. A sanção da modalidade simples do estupro é de 6 a 10 anos de reclusão, e, das modalidades qualificadas, de 8 a 12 ou 12 a 30 anos, a depender da espécie do resultado. Todas as suas modalidades (simples e qualificado) são crimes hediondos. Violação sexual mediante fraude (art. 215, CP) Trata-se de crime doloso e comum, que admite tentativa e que também envolve aqueles dois elementos: da conjunção carnal ou ato libidinoso. O tipo consiste em “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima” (LEI Nº 12.015, 2009). Segundo a redação exposta, esse delito altera o modo como o autor executa o crime, aqui não sendo o constrangimento de modo genérico, mas a “fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima” (LEI Nº 12.015, 2009). Estamos diante de um crime, portanto, que tem o vício da vontade como principal elemento, de modo que a vítima seja enganada, equivocando-se quanto às reais características do agente. Esse é o motivo de haver consentimento por parte do sujeito passivo, isto é, ter sido enganada, embora mantenha a consciência e a capacidade de resistência – motivo pelo qual não será o caso de um estupro de vulnerável. Mas a fraude é apenas uma das hipóteses, contemplando o tipo também a interpretação analógica desta, por meio da expressão “outro meio que impeça [...]”, sendo que “o malicioso silêncio e a mentira podem ser utilizados como meios fraudulentos” (PRADO, 2019, p. 1443). Mesmo contemplando a intervenção mínima e o princípio da legalidade, é preciso ter bastante cuidado para que não se banalize a possível expressão “fraude”. Resumindo Em síntese, estamos diante de um delito comum, doloso, comissivo, instantâneo e de resultado. O delito é sancionado com pena de reclusão de 2 a 6 anos. Também há modalidade qualificada prevista, quando cometido com o fim de obter vantagem econômica, hipótese em que se aplica também multa (art. 215, parágrafo único, CP). Importunação sexual (art. 215-A, CP) Trata-se de um crime recente, criado pela Lei nº 13.718/2018, e que tipifica de forma subsidiária a conduta de praticar ato libidinoso sem o consentimento da vítima. Veja que a redação do crime é bem próxima a do estupro, com exceção do elemento violência ou grave ameaça. Por isso, a sua aplicação fica sujeita à inexistência do cumprimento dos requisitos daquele crime: Praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro. (LEI Nº 13.718, 2018) O delito foi trazido ao ordenamento ao longo de uma onda de denúncias de casos de “importunação” em transporte público, especialmente envolvendo homens que esfregavam suas genitálias em mulheres em transportes públicos. Essas condutas não chegavam a assumir os termos do crime de estupro e, por isso, os poucos casos que chegavam às instâncias formais de controle eram arquivados. Também é um crime comum, doloso, que admite tentativa e que deve ter uma natureza física e voltar-se contra vítima certa. O autor da infração, tal como nos demais tipos vistos, deve ter consciência de que o sujeito passivo não anuiu para a prática do ato libidinoso. Pela infração, o legislador prevê pena de 1 a 5 anos de reclusão. Como nota distintiva principal, entre este ilícito e o crime de estupro, deve-se veri�car a discordância da vítima, que naquele está relacionada ao constrangimento decorrente do emprego de violência ou grave ameaça, e aqui não assume forma delimitada. Ainda, por ser subsidiário, não estará configurado se o aproveitamento se der em virtude da situação de vulnerabilidade da vítima, caso em que poderemos estar diante de um dos crimes do próximo título que estudaremos. Por fim, vale trazer a nota que estamos reforçando ao longo da construção de todo este material que nem todo constrangimento deve, em virtude da ultima ratio que justifica o direito penal, ser considerado crime. É necessário assumir a centralidade da palavra da vítima, mas não banalizar a responsabilização penal em virtude de seus efeitos brutais; da seletividade que lhe é imanente; e das limitações conhecidas no que tange à reversão de questões como essas que tocam aspectos sistêmico-estruturais. Assédio sexual (art. 216-A, CP) A principal característica deste crime, distintiva das demais modalidades de abuso sexual (em sentido amplo), é o âmbito em que é realizada, isto é, nas “atividades de trabalho ou nos ambientes em que determinadas pessoas tenham ascendência sobre outras, em razão do emprego, cargo ou função, inclusivena seara das relações docentes (v.g., relação entre professor e aluno)” (PRADO, 2019, p. 1450). Assim dispõe o tipo penal: Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função. (LEI Nº 10.224, 2001) Em virtude disso: Sujeito ativo O sujeito ativo deve ter uma qualidade própria, qual seja, deve ser superior hierárquico ou ter ascendência sobre a vítima. Sujeito passivo Já o passivo deve ser inferior hierárquico ou qualquer pessoa que esteja submetida à ascendência do agente. Caso não tenham esses atributos, pode-se estar configurado outro crime do título ou estar-se diante de um irrelevante penal. Vale notar que, ao contrário da hierarquia, que demanda uma carreira funcional, na ascendência deve haver qualquer relação de domínio ou influência. Exemplo Contemplam-se os casos envolvendo professor-aluno desde que os restantes dos elementos do assédio tenham sido praticados. É elemento subjetivo do tipo, para além do dolo genérico que já dissemos estar em todas as infrações do título, o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual. Além disso, a maioria dos autores informa que estamos lidando com um chamado “crime de mera atividade”, isto é, não é necessário que haja a obtenção da vantagem/favorecimento, mas que haja a intenção e a externalização de algum ato voltado a essa obtenção a ponto de deixar a vítima perturbada (NUCCI, 2019; PRADO, 2019). Por isso, também é possível que o crime se dê de forma tentada (art. 14, II, CP), desde que a vítima não tome conhecimento do ato. Imagine, então, uma mensagem escrita por um chefe a uma “subordinada hierárquica”, com a forma descrita do assédio, mas que seja recolhida por um terceiro. A depender dos demais contornos do fato, podemos estar diante da infração. As manifestações de assédio podem ser físicas ou verbais e não necessariamente precisam ser explícitas, embora tenham que ser relevantes. Apesar de ser mais comum que ocorram no ambiente laboral, não precisam ser praticadas nesse espaço físico, basta que tenham como elemento a hierarquia/ascendência no cargo e função. A pena cominada ao assédio sexual é de 1 a 2 anos de detenção, sendo aumentada em até 1/3 (um terço) se a vítima for menor de 18 anos. Trata-se, portanto, de um crime de menor potencial ofensivo, com uma sanção penal sensivelmente menor do que a dos outros crimes que estudamos anteriormente. Registro não autorizado da intimidade sexual (art. 216-B, CP) Esse crime foi incluído pela Lei nº 13.772, de 2018, e é o único do capítulo I-A “Da exposição da intimidade sexual” no item referente aos delitos sexuais no Código. O tipo objetivo consiste em “produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, conteúdo com cena de nudez, ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e privado, sem autorização dos participantes”. Caminhou o legislador, aqui, em sintonia com as alterações na sociedade e tendo em vista a recorrência de denúncias de práticas nesse sentido, que não tinham definição precisa. Foi o caso paradigmático, por exemplo, narrado por Rogério Sanches: O tipo preenche a lacuna que existia em relação à punição da conduta de indivíduos que registravam a prática de atos sexuais entre terceiros. Foi grande a repercussão quando, em janeiro de 2018, um casal alugou um apartamento para passar alguns dias no litoral de São Paulo e, depois de se instalar, percebeu uma pequena luz atrás de um espelho que guarnecia o quarto. O inusitado sinal faz com que um deles vistoriasse o espelho e, espantado, descobrisse que ali havia uma câmera instalada. O equipamento foi imediatamente desligado e, logo em seguida, o casal recebeu uma ligação do proprietário do imóvel, que indagou se havia ocorrido algum problema, o que indicava que as imagens estavam sendo transmitidas em tempo real. (CUNHA, 2018). Também estamos diante de um tipo doloso e que, dado o último elemento da frase antecedente, requer que se demonstre que o agente conhecia a inexistência de autorização, sob pena de incorrer em erro de tipo. Caso haja autorização para o registro das cenas, a conduta será atípica. Além disso, é um crime comissivo, doloso, de mera atividade e instantâneo, sendo também possível, embora de difícil configuração, a tentativa (art. 14, II, CP). Atenção Fotografar criança ou adolescente em poses nitidamente sensuais, com enfoque em seus órgãos genitais, ainda que cobertos por peças de roupas, e com finalidade sexual e libidinosa, amolda os tipos do art. 240 e 241-B do ECA, considerando o princípio da especialidade. A pena cominada é de 6 meses a 1 ano de detenção e multa e o parágrafo único do art. 216-B, CP, dispõe sobre a modalidade equiparada. Assim, na mesma pena incorre quem “realiza montagem em fotografia, vídeo, áudio ou qualquer registro com o fim de incluir pessoa em cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo”. Finalizamos assim os crimes deste capítulo, crimes sexuais que têm como vítimas pessoas “capazes” – nos termos jurídicos. Sugerimos a revisão profunda dos temas, visto que voltaremos a utilizar as categorias trabalhadas neste ponto sem nos aprofundarmos novamente, e seguimos, então, para conhecer as condições dos delitos cometidos contra aqueles que estão em situação de vulnerabilidade. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Com relação aos chamados crimes sexuais, assinale a alternativa correta: Parabéns! A alternativa D está correta. Há tempos o Código Penal previa dois tipos penais diferentes: estupro e atentado violento ao pudor (art. 214). Todavia, com o A São indiferentes ao consentimento da vítima para caracterização dos crimes. B Não podem ter como vítima o homem. C Todas as modalidades absorvem a eventual violência de natureza leve utilizada em seu cometimento. D A prática de qualquer ato libidinoso atrai a incidência do crime de estupro. E Alguns crimes são processados mediante ação penal pública condicionada. advento da 12.015/09, o segundo crime foi revogado e, por conseguinte, a prática de qualquer ato libidinoso configura crime de estupro. Questão 2 Sobre os crimes sexuais, assinale a alternativa correta: Parabéns! A alternativa E está correta. A No crime de assédio, a pena é aumentada em até 2/3 (um terço) se a vítima for menor de 18 anos. B A consumação do crime de divulgação de cena de estupro ou de cena de estupro de vulnerável, de cena de sexo ou de pornografia ocorre com a produção, a captura da imagem por fotografia ou a filmagem da cena, e depende de que alguém tome conhecimento da produção ou que haja qualquer divulgação do conteúdo. C O crime de importunação sexual implica em praticar contra alguém (vítima determinada) e com a sua anuência ato libidinoso (de natureza sexual). D O crime de estupro tutela a liberdade sexual da pessoa em sentido, protegendo apenas sua integridade e autonomia sexual. E A tentativa é possível no crime de assédio sexual, que demanda que o autor seja pessoa superior hierarquicamente ou que tenha ascendência sobre a vítima em razão de emprego, cargo ou função (delito especial próprio). A tentativa é possível, embora seja de difícil configuração, no crime de assédio sexual. 2 - Vulneráveis Ao �nal deste módulo, esperamos que você reconheça os crimes sexuais contra vulneráveis. Crimes sexuais contra vulneráveis Dos crimes sexuais, os cometidos contra pessoas “vulneráveis”, expressão que é digna de críticas, mas que reproduzimos por ter sido a escolhida por nosso legislador, são os que despertam maior repulsa no geral. Nesse caso, o direito penal diz proteger a intangibilidade sexual de pessoas que são ditas como incapazes de consentir validamente ao ato sexual. Anote, então, este primeiro atributo, comum a todas as espécies de ilícitos que conheceremos: Têm como vítimapessoa que o legislador entende sem capacidade de discernimento para consentir, transitória ou permanentemente, e, por isso, exercer plenamente o direito à liberdade sexual. O Código Penal faz presumir essa incapacidade em algumas hipóteses e, em outras, atribui maior conteúdo axiológico. Nesse sentido, são vulneráveis: As pessoas com menos de 14 anos (presunção iuris et de iure de vulnerabilidade, ou seja, presunção absoluta.) Aquelas que, por enfermidade ou deficiência mental, “não têm o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não podem oferecer resistência”. Cada tipo penal contemplará apenas uma ou as duas modalidades e, quanto àquelas que tenham menos de 14 anos, a depender da hipótese, é possível aplicar o ECA. O erro a respeito da menoridade da vítima ou sobre sua enfermidade ou deficiência mental, isto é, sobre a causa essencial da condição de vulnerabilidade elide o dolo e afasta a tipicidade, tornando o fato irrelevante penalmente. Porém, a dúvida que configure dolo eventual, em tese, não elide a responsabilidade. Como dito, o legislador visou proteger pessoas que, em virtude de uma condição permanente, transitória ou acidental, estão mais suscetíveis de serem violadas, sem que respondam pela liberdade sexual. Notem que, diferentemente de alguns crimes que conhecemos anteriormente, não se requer o dissenso da vítima, sendo “independente de consentimento ou experiência sexual anterior da vítima, bem como da existência de relacionamento amoroso com o agente” (PRADO, 2019, p. 1465). Então, vamos considerar os seguintes cenários: Imagine que se comprove que uma pessoa estava completamente entorpecida, pelo uso de tóxicos – e, por isso, esteja incapaz de oferecer resistência – e que seja abusada sexualmente nesta condição. Ou uma vítima que apresente alguma condição de deficiência, enfermidade ou idade avançada que impossibilitem a resistência; ou, sofrimento mental – desde que qualquer uma dessas condições, necessariamente, impactem no exercício da sua liberdade sexual. Ainda que se alegue que “consentiu”, ou mesmo que se afirme que o uso da substância fora por livre escolha da vítima, o que se tem em vista é o momento do ato sexual, presumindo-se, nesse caso, que estava impossibilitada de concordar. Por isso, em tese, teremos a ocorrência de um dos crimes insculpidos neste tópico. Passemos, assim, para a análise dos crimes separadamente que, já adiantamos, são todos dolosos e processados por ação penal pública incondicionada (art. 225, CP, após a alteração da Lei nº 13.718, de 2018). Características do crime de estupro de vulnerável (art. 217-A, CP) Estupro de vulnerável Vamos entender as nuances desse tipo penal assistindo ao vídeo a seguir? Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo deste crime, enquanto o sujeito passivo deve ser “vulnerável”, nos termos que expusemos na introdução e que estão delimitados no art. 217-A, caput e §1º. A conduta incriminada no caput é a de ter “conjunção carnal” ou praticar “outro ato libidinoso” com essas pessoas, conceitos que já estudamos quando vimos o crime de estupro e que remetemos, mais uma vez, ao estudo. Saiba mais Trata-se de crime que foi incluído pela Lei nº 12.015, de 2009, sendo que, antes dessa, era tipificado como estupro com a causa de aumento esboçada no art. 9º da Lei nº 8.072, o que atribuía uma sanção penal mais favorável ao agente. Assim, conforme as lições de conflito de leis penais no tempo, a Lei de crimes hediondos é ultrativa por ser mais benéfica que o estupro de vulnerável; mas a alteração no CP, com o tipo do art. 217-A, tem sido aplicada para todas as práticas posteriores a sua vigência, quando não há conflito de normas. Também aqui falamos de um tipo subjetivo doloso, com a finalidade específica de “constranger à conjunção carnal ou ao ato libidinoso”, não havendo modalidade culposa por incongruência mesmo com o fato em si repreendido. Não se exige violência ou ameaça, sendo irrelevante o consentimento e a efetiva conjunção carnal, bastando que ocorra um chamado “ato libidinoso” (RHC 70.976, Informativo 587, STJ e HC 134591/SP, julgado pelo STF, Informativo 954). Há incidência do crime na modalidade omissiva imprópria, desde que satisfeitos os requisitos legais para a configuração dos “agentes garantidores”. É o caso, por exemplo, de um parente próximo ou de qualquer pessoa que se coloque como responsável pela vítima, desde que contemple todos os elementos do art. 13, CP, quando não afasta o sujeito passivo do agressor, mesmo em conhecendo os abusos. Nesse sentido, julgou o STJ: No caso concreto, a acusada omitiu-se, durante anos, quanto aos abusos sexuais praticados pelo seu marido, na residência do casal, contra sua irmã menor. Vale ressaltar que ela assumiu a responsabilidade ao levar a criança para a sua casa sem a companhia da genitora e criou risco da ocorrência do resultado ao não denunciar o agressor, mesmo ciente de suas condutas, bem como ao continuar deixando a menina sozinha em casa. (HC 603.195-PR, STJ) É possível a tentativa (art. 14, II, CP), quando o crime não se perfaz por circunstâncias alheias à vontade do/a autor/a, mas desde que haja alguma externalização dessa vontade relevante e que não chegue a configurar ato libidinoso, em virtude dos princípios da culpabilidade e da lesividade. Em suma, trata-se de crime comum, doloso, comissivo, instantâneo e de resultado. O art. 217-A, §§3º e 4º, CP trabalha com as modalidades qualificadas (delito qualificado pelo resultado) dos crimes, quando há a intensão de praticar o ato libidinoso e, por culpa, o sujeito ativo causar lesão corporal de natureza grave ou mesmo a morte. Relembrando Vale lembrar que se demanda que o resultado tenha emergido, no mínimo, a título culposo e que, caso haja o dolo no resultado, isto é, se há consciência e vontade (dolo geral) ou a assunção de risco de produção (dolo eventual) da lesão corporal de natureza grave ou mesmo a morte, haverá concurso de crimes. Não obstante, como aponta Regis Prado, e como é comum em crimes que têm a violência como modo de execução: A lesão corporal de natureza leve ou as vias de fato resultantes da violência empregada pelo agente integram a violência real, sendo absorvidas, por conseguinte, pelo tipo legal do artigo 217-A, caput, do Código Penal. (PRADO, 2019, p. 1468) A pena prevista é reclusão, de 8 a 15 anos (art. 217-A, caput e §1.º, CP). Para as formas qualificadas, as penas são reclusão, de 10 a 20 anos, se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave, e de reclusão, de 12 a 30 anos, se da conduta resulta morte, respectivamente (art. 217-A, §§3º e 4º, CP). Trata-se de um crime hediondo, tanto na forma simples, como na qualificada (art. 1.º, VI, Lei 8.072/1990). Relembrando Lembre-se de que só corre a prescrição, caso a ação não tenha sido proposta e antes de transitar em julgado a sentença final, quando a vítima completa 18 anos (art. 111, V, CP). Indução de menor de catorze anos a satisfazer a lascívia de outrem (art. 218, CP) No crime do art. 218, CP, temos uma das exceções ao monismo em matéria de concurso de pessoas (art. 29, CP), visto que se pune uma das modalidades de participação no crime de forma autônoma. Aqui, o legislador busca reprimir quem “faz nascer a ideia” em uma pessoa menor de 14 anos, para satisfazer a lascívia de outrem, isto é, para o prazer sexual de uma terceira pessoa. Trata-se de um ilícito voltado contra quem, portanto, induz a criança/adolescente a ceder e satisfazer a sexualidade de alguém. Já a pessoa que cometer o abuso, isto é, o ato libidinoso contra a criança ou adolescente, efetivamente, irá responder pelo art. 217-A, nos termos do item que estudamos anteriormente. Vale notar que o modo de execução não está recortado pelo tipo, mas, dada a recorrência, a Lei nº 8.069/1990 inseriu o §1º, pontuando que no delito incorre quem pratica a indução por “meios eletrônicos, inclusivesalas de bate-papo da internet”. Trata-se de um crime com vítima delimitada: pessoa que tenha menos de 14 anos apenas, sendo que o CP não trouxe aquele conceito axiológico de vulnerabilidade mais amplo. Não obstante, por ser crime comum, qualquer pessoa, desde que maior de 18 anos, pode ser sujeito ativo. É um crime doloso e com pena de reclusão de 1 a 4 anos, que será aumentada em um terço se a infração cometida ou induzida estiver incluída no rol dos crimes hediondos, conforme o artigo 1º da Lei nº 8.072/1990 (art. 244-B, §2º, da Lei nº 8.069/1990). E, por fim, não se confunde com o art. 244-B do ECA, também conhecido como “corrupção de menores”. Satisfação de lascívia mediante presença de criança ou adolescente (art. 218-A, CP) O delito em exame consiste na ação de praticar, na presença de alguém com menos de 14 anos, ou induzi-lo a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem. Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo (crime comum), embora o sujeito passivo deva ser uma pessoa com menos de 14 anos, como no crime anterior. Comentário Note que não há necessidade de o ato ser praticado diretamente com a vítima, bastando que presencie qualquer ação voltada à satisfação do apetite sexual e que esta tenha relevância. Inclusive, quando houver, poderemos estar diante de um concurso de crimes. Assim, o legislador buscou preservar a formação da personalidade de crianças e adolescentes, como também o fez no delito antecedente. O crime é doloso e só se perfaz com a demonstração da vontade de satisfazer a lascívia própria ou de outrem. Trata-se de uma finalidade específica sem a qual a infração penal não está perfeita. Isto é, o caso de pais que tiverem relações sexuais, ainda que adolescentes compartilhem o dormitório – como é a realidade de grande parte da população brasileira – não perfaz o crime, que requer o elemento especial do propósito de satisfação pelo fato mesmo da presença da vítima. Em suma, temos um delito comum, doloso, comissivo e de resultado, sendo admitida a tentativa e que tem pena prevista de reclusão de 2 a 4 anos. Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de criança ou de adolescente ou de vulnerável (art. 218-B, CP) O crime em exame se perfaz em “submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone”. Veja que várias formas de execução estão abrangidas, já que o verbo “submeter” implica em uma sujeição direta; “atrair”, uma espécie de induzimento; “facilitar”, criar os meios necessários; “impedir”, obstar e “dificultar” criar óbices para o abandono da prostituição, sendo esta o exercício do trabalho sexual, ou outra forma de exploração sexual. Segundo o art. 218-B, §2º, I e II, CP, incide nas mesmas penas desse artigo quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor de 18 e maior de 14 anos na situação descrita no caput, bem como o proprietário, o gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem as práticas referidas no caput deste artigo. Atenção Para essa equiparação, segundo a qual “cliente que conscientemente se serve de prostituição de adolescente, com ele praticando conjunção carnal ou outro ato libidinoso, incorre no tipo previsto no inc. I do §2º do art. 218-B” (HC 288.375-AM, STJ). Trata-se de crime comum, que pode ser praticado por qualquer pessoa adulta, mas que contempla os dois conceitos de “vulnerável”, quanto ao sujeito passivo – vide introdução. Também é um delito doloso, sendo que a finalidade especial é de satisfazer a lascívia alheia. É possível a tentativa, dado que só se consuma com a inserção na prostituição ou na cena de outra forma de exploração sexual (para os verbos induzir, atrair e facilitar) ou então quando se impedir ou dificultar o abandono destas (para o núcleo impedir ou dificultar). A pena é de reclusão, de 4 a 10 anos e há modalidade qualificada, caso em que se aplica também multa (art. 218-B, §1º). Por fim, vale dizer que também estamos diante de um crime hediondo (art. 1º, VIII, Lei 8.072/1990). Divulgação de cena de estupro ou de cena de estupro de vulnerável, de cena de sexo ou de pornogra�a (art. 218-C) Este delito foi inserido pela Lei nº 13.718/2018 e consiste em “oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender ou expor à venda, distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio – inclusive por meio de comunicação de massa ou sistema de informática ou telemática –, fotografia, vídeo ou outro registro audiovisual que contenha cena de estupro ou de estupro de vulnerável ou que faça apologia ou induza a sua prática, ou, sem o consentimento da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia”. O primeiro apontamento que deve ser feito é que, por estar no título referente aos crimes contra vulneráveis, em tese, têm esta vítima apenas. Não obstante, tal ponto ainda está gerando debate na cena jurídica, inclusive pela relação que mantém com o delito do art. 241-B do ECA que listam práticas que envolvam registro de “cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente”. Trata-se de um crime que pode ser cometido de forma livre e que coíbe, na primeira parte do artigo, a profusão de cena de estupro ou estupro de vulnerável (arts. 213 e 217-A, CP) ou que faça apologia, demandando aqui a ocorrência e registro de um destes delitos. Na segunda parte, proíbe-se a divulgação de cenas de sexo, pornografia ou nudez, desde que haja o dissentimento da vítima. Atenção! Para esta segunda modalidade, especificamente, temos esse elemento normativo da ausência do consentimento da vítima de propalar as imagens. Isto quer dizer que, caso a vítima concorde em propagar as cenas, não haverá, em tese, a infração. É um crime doloso e que demanda, para a consumação, com a externalização de algum dos verbos que sublinhamos, sendo que, na modalidade “oferecer”, a simples oferta da imagem, mesmo sem o consumo, já perfaz o tipo. Admite-se tentativa, sobretudo nas modalidades de crime de resultado. A pena é de reclusão de 1 a 5 anos. Saiba mais Segundo o §1º, ela pode ser aumentada de 1/3 a 2/3 se a vítima “mantém ou tenha mantido relação íntima de afeto com a vítima ou com o fim de vingança ou humilhação”, caso que ficou conhecido como revenge porn (vingança pornográfica). Aqui, buscou-se coibir a recente onda de exposição de vídeos após términos de relação ou por qualquer outro motivo de chantagem. Não há crime quando o agente pratica as condutas “em publicação de natureza jornalística, científica, cultural ou acadêmica com a adoção de recurso que impossibilite a identificação da vítima, ressalvada sua prévia autorização, caso seja maior de 18 (dezoito) anos” (§2º art. 218- C, CP), sendo esta uma excludente de ilicitude específica do crime. Nesse caso, o sopesamento é dos bens jurídicos tutelados com a liberdade de expressão. Causas de aumento de pena (art. 226, CP) Por fim, segundo o art. 234-A, todos os crimes deste tópico terão a pena aumentada – valendo notar que as causas de aumento atribuídas pela Lei nº 13.718/2018 só se aplicam aos fatos cometidos posteriores a sua vigência: Inciso I De quarta parte, se o crime é cometido com o concurso de 2 (duas) ou mais pessoas. Inciso II d é d d Duas notas sobre o que embasou a criação legislativa: Estupro coletivo Primeiramente, no caso de “estupro coletivo”, alguns casos paradigmáticos que tomaram a cena pública envolvendo a violação de mulheres e pessoas LGBTQIA+ por um coletivo, sobretudo, de homens. Diante da circulação, inclusive, de vídeos envolvendo flagrantes, houve uma intensa mobilização em favor do aumento da reprimenda nessa hipótese, que informa uma série de aliciamentos que possibilitam a cultura dos abusos sexuais contra as referidas populações.Estupro corretivo Por último, o chamado “estupro corretivo”, também inserido como uma causa de aumento de pena aplicável a todos os De metade, se o agente é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tiver autoridade sobre ela; (Redação dada pela Lei nº 13.718, de 2018). Inciso IV De 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado: (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018). Estupro coletivo (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018) a) mediante concurso de 2 (dois) ou mais agentes; (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018) Estupro corretivo (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018) b) para controlar o comportamento social ou sexual da vítima: (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018) crimes do título, e que foi fruto do engajamento, sobretudo, da população LGBTQIA+. Aqui, face ao acúmulo de denúncias de casos de pessoas com identidades de gênero e sexualidades não hegemônicas (PRECIADO, 2014) que são abusadas diariamente como uma forma de “correção”, o grupo articulou- se para que a punição fosse mais dura e houvesse algum conteúdo normativo que reconhecesse a incidência dos casos. Embora não tenhamos espaço para ampliar a discussão, convidamos você a realizar uma breve reflexão: Re�exão A política do enrijecimento penal, com todos os seus limites, tem potencial de transformar a cultura que subjaz a estes casos? Neste item, vimos os crimes sexuais cometidos contra pessoas encaradas como “vulneráveis” e tocamos, nesse último caso (art. 218-C, CP), em um delito que transcende essa classificação, já que contempla como vítima também pessoas que não estejam nessa condição. De todo modo, busca-se aqui tutelar, além dos bens jurídicos em geral dos crimes sexuais, os direitos das pessoas em condições especiais de atenção, devendo ser notada a forma como os conceitos se constroem e a reprimenda se torna legal. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 O proprietário, o gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem práticas referidas como exploração sexual de alguém menor de 18 (dezoito) anos em tese Parabéns! A alternativa C está correta. A não pode ser responsabilizado penalmente. B comete o crime de estupro de vulnerável. C incide nas penas do crime de “favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de criança ou de adolescente ou de vulnerável”. D pratica o chamado revenge porn. E comete o crime de “indução de menor de catorze anos a satisfazer a lascívia de outrem. A hipótese contempla exatamente o crime previsto no art. 218-B. §2º, II, sendo todas as demais modalidades de crime externas à conduta descrita. Questão 2 Sobre os crimes sexuais contra vulneráveis, assinale a alternativa correta: Parabéns! A alternativa B está correta. A A vulnerabilidade, seja em razão da idade, seja em razão do estado ou condição da pessoa, não diz respeito à sua capacidade de reagir a intervenções de terceiros quando no exercício de sua sexualidade, não admitindo erro sobre a conduta. B O delito de satisfação de lascívia mediante presença de criança ou adolescente, tem como elemento principal da ação praticar, na presença de alguém com menos de 14 anos, ou induzi-lo a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem. C O estupro de vulnerável não é crime hediondo. D Nem todos os crimes são dolosos, e a maioria demanda ainda a presença do elemento subjetivo do injusto, consistente na finalidade expressa (a fim de) de satisfazer a lascívia própria ou de outrem. E O erro a respeito da menoridade da vítima não elide o dolo, por conseguinte, não afasta a tipicidade. O art. 218-A do Código Penal classifica o crime de satisfação de lascívia mediante presença de criança ou adolescente exatamente como está disposto na alternativa correta. 3 - Lenocínio e trá�co de pessoa Ao �nal deste módulo, esperamos que você analise os delitos do título “lenocínio e trá�co de pessoa para �m de prostituição ou outra forma de exploração sexual”. Lenocínio e trá�co de pessoa para �m de prostituição ou outra forma de exploração sexual Todos os crimes contidos no Capítulo V do Título VI do Código Penal referem-se ao “lenocínio” em sentido amplo. Essa prática envolve a mediação, facilitação e promoção de atos de libidinagem ou favorecimento da prostituição alheia e pode ser perpetrada sob diferentes contornos. Vamos, então, conhecer os crimes que contemplam esse grupo. Nuances do crime de mediação para servir a lascívia de outrem (art. 227, CP) Mediação para servir a lascívia de outrem Para melhor compreensão sobre o crime de mediação para servir a lascívia de outrem, acompanhe o panorama sobre o assunto, fornecido pela professora Luciana Fernandes. Agora que você assistiu ao vídeo, já deve ter compreendido que se trata do crime perpetrado por aquele que busca “induzir alguém a satisfazer a lascívia de outrem” e, por ser comum, pode ser cometido por qualquer pessoa. No entanto, a pessoa em prol de quem o sujeito ativo age, isto é, a pessoa que tem a lascívia satisfeita, não responde por este delito – não obstante possa responder por outro delito sexual, satisfeitos os requisitos legais - já que deve ser “alheia” e não “própria”. Um importante questionamento refere-se à constitucionalidade do caput deste crime, já que a vítima é adulta e livre (não está em situação de vulnerabilidade), podendo aceitar ou não a referida indução (PRADO, 2019, p. 1497; NUCCI, 2019, p. 1214). Re�exão Por enquanto, o debate ainda está mais centralizado no campo teórico, mas convidamos você a pensar sobre o assunto, em cotejo sobretudo ao sentido do direito à liberdade em um Estado democrático. Nesse delito, a pessoa que é autora persuade a vítima a submeter-se ou a praticar atos libidinosos com destinatário determinado, não sendo necessário que haja habitualidade, nem mesmo finalidade de lucro – sendo que, nesse caso, falaremos à frente ser hipótese que qualifica o delito. É um crime doloso e que, por ser de resultado, só se consuma quando a vítima prática, efetivamente, o ato libidinoso, sendo admissível a tentativa (art. 14, II, CP). Os parágrafos do art. 227 trabalham com as modalidades qualificadas do crime, quais sejam: Em relação à primeira modalidade de qualificadora, é importante notar que, em razão do princípio da taxatividade, apenas as relações de parentesco expressas poderão ser consideradas para fins de aplicação da circunstância diferenciada da pena. Exemplo Logo, por exemplo, a esposa em relação ao marido não está abrangida e responde em tese pela forma simples do lenocídio. Em suma, trata-se de um crime comum; material; de forma livre; comissivo; instantâneo; unissubjetivo e plurissubsistente. §1º Se a vítima é maior de 14 (catorze) e menor de 18 (dezoito) anos, ou se o agente é seu ascendente, descendente, cônjuge ou companheiro, irmão, tutor ou curador ou pessoa a quem esteja confiada para fins de educação, de tratamento ou de guarda. §2º Se o crime é cometido com emprego de violência, grave ameaça ou fraude. §3º Se o crime é cometido com o fim de lucro (venalidade). A pena prevista é de 1 a 3 anos de reclusão, na modalidade simples. Na hipótese do artigo 227, §1º, é de 2 a 5 anos de reclusão e, no caso do §2º, de reclusão, de 2 a 8 anos, além da pena correspondente à violência. Se presente a venalidade, também será aplicada pena de multa (art. 227, §3º, CP). Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual (art. 228, CP) O tipo objetivo desse crime consiste em “induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone”. Quanto ao tema, temos dois importantes comentários a serem feitos: Direção e natureza O primeiro refere-se à direção da incriminação e anatureza de ilegalidade da prostituição em nosso país. Segundo o nosso ordenamento jurídico, o trabalho sexual, em si, não é criminalizado e, sim, o favorecimento da prostituição. Quer dizer, pode ser rotulada como criminosa a pessoa responsável pela criação da ideia (indução) ou atração ao trabalho sexual ou exploração sexual, assim como quem proporciona os meios para a prática (facilitação) ou impede ou impõe de óbices ao abandono do trabalho. De�nição A segunda nota que também merece a nossa atenção acerca desse assunto refere-se à definição da “prostituição”, para fins de atribuição típica, entendendo-se ser relação de trabalho – não de emprego –, habitual, voltada à satisfação sexual de um número indeterminado de pessoas. Trata-se de crime comum e doloso, sendo que o sujeito ativo pratica a conduta com o especial fim de satisfação da lascívia alheia. Admite-se a tentativa quando a vítima, por circunstâncias alheias à vontade do agente, não se prostitui ou não há qualquer forma de exploração sexual (primeira parte); ou quando consegue abandonar o trabalho (segunda parte). Nucci entende ser impossível nas modalidades “induzir” e “atrair”, visto que a adesão à prática é essencial para o delito (NUCCI, 2019, p. 1218). Há três modalidades qualificadas, como no crime anteriormente trabalhado, quais sejam: Modalidade 1 Se o agente é ascendente, padrasto, madrasta, irmão, enteado, cônjuge, companheiro, tutor ou curador, preceptor ou empregador da vítima, ou se assumiu, por lei ou outra forma, obrigação de cuidado, proteção ou vigilância (§1º). Modalidade 2 S i é id d i lê i A pena para a modalidade simples é de 2 a 5 anos de reclusão e multa (art. 228, caput, CP). Para o delito qualificado, nas circunstâncias do artigo 228, §1º, CP, de 3 a 8 anos de reclusão; em caso de emprego de violência, grave ameaça ou fraude, de 4 a 10 anos, além da pena correspondente à violência (art. 228, §2º, CP); e na hipótese de venalidade, aplica-se também a pena pecuniária (art. 228, §3º, CP). Estabelecimento para exploração sexual (art. 229, CP) Trata-se de mais um crime que reforça a natureza do trabalho sexual no Brasil, dado o legislador considerar a prostituição, em si, conduta atípica, mas se voltar contra as condutas do seu entorno, as pessoas que tiram proveito da exploração. No caso do crime examinado, o tipo recai, especificamente, contra aquelas que mantém “por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente”. São sujeitos passivos as(os) trabalhadoras(es) sexuais e qualquer um(a) pode ser sujeito ativo, inclusive as proprietárias do imóvel que não exploram diretamente a atividade. Exemplo É o caso daquelas que cedem ou locam o espaço onde funciona a exploração sexual, respondendo como coautoras do art. 229, CP, desde que conscientes e com vontade de contribuir ao fato. Vale notar, também, que o injusto demanda que a exploração aconteça em espaço de terceiro, voltando-se o injusto contra estas pessoas do “entorno”. Por isso, caso o trabalho ocorra na própria residência do(a) trabalhador(a) sexual, não há o crime. Se o crime é cometido com emprego de violência, grave ameaça ou fraude. Modalidade 3 Se o crime é cometido com o fim de lucro. Há centralidade no exame do estabelecimento onde a exploração acontece, como é o caso das “casas de prostituição”. Por isso, os Tribunais têm entendido que não configuram o tipo “casas de massagem, relax for men, boates para encontros, motéis, drive in, saunas mistas, hotéis de alta rotatividade” (NUCCI, 2019, p. 1224). O ilícito não demanda intuito de lucro como elementar, nem mesmo mediação direta do proprietário ou gerente. Não obstante, como o que se reprime é a prática habitual do trabalho sexual, caso a manutenção seja pontual ou ocasional, estaremos diante de um fato atípico em tese. É necessário o dolo, a vontade de manter o estabelecimento voltado para a exploração sexual, e trata-se de um delito habitual e permanente. Em virtude disso, inclusive, é impossível a tentativa (art. 14, II, CP). Por fim, a sanção penal é de 2 a 5 anos de reclusão, além da pena pecuniária (art. 229). Ru�anismo (art. 230, CP) Qualquer pessoa pode praticar o rufianismo, sendo um delito comum, desde que tire “proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a exerça”. Estamos diante, assim, de um agente que explora econômica e continuamente o trabalho sexual, tirando proveito da atividade e precarizando em elevado grau a vida das pessoas que vivem da atividade. Não se está reprimindo a pessoa que, por exemplo, ao se envolver afetivamente com esses trabalhadores, fornece ajuda econômica, mas aquela que se beneficia da exploração. Segundo Regis Prado, o legislador reprime duas formas de aproveitamento: a participação direta nos lucros obtidos pela pessoa prostituída ou o ato de se fazer sustentar, no todo ou em parte, por ela. Na primeira, o agente torna-se uma espécie de sócio da prostituta, participando diretamente dos lucros por ela auferidos através da sua atividade, seja este dinheiro ou qualquer outra vantagem de natureza econômica. No que tange à conduta de se fazer sustentar, parcial ou totalmente, pela pessoa prostituída, representa ela o fato de o ru�ão viver às expensas daquela, recebendo roupas, alimentação, moradia etc. (PRADO, p. 1510) Tal como o crime anterior, a exploração sexual deve ser habitual e contínua, sendo também um crime permanente e que não admite tentativa. A infração se consuma com a participação nos lucros ou a manutenção própria do rufião, por meio da exploração sexual de terceiro/a. As modalidades qualificadas do crime são análogas ao que vimos anteriormente, mas, apesar de aqui o benefício econômico ser elementar, não há previsão da venalidade: Modalidade 1 Se a vítima for menor de 18 e maior de 14 anos ou se o crime for cometido por ascendente, padrasto, madrasta, irmão, enteado, cônjuge, companheiro, tutor ou curador, preceptor ou empregador da vítima, ou por quem assumiu, por lei ou outra forma, obrigação de cuidado, proteção ou vigilância (§1º). Modalidade 2 Se o crime for cometido mediante violência, grave ameaça, fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação da vontade da vítima (§2º). A pena, na modalidade simples, é de reclusão, de 1 a 4 anos, e multa; na primeira modalidade qualificada, reclusão, de 3 a 6 anos, e multa; e na segunda reclusão, de 2 a 8 anos, sem prejuízo da pena correspondente à violência. Promoção de migração ilegal (art. 232-A, CP) Trata-se de crime que foi incluído no Código Penal pela Lei nº 13.445, de 2017, a chamada Lei da Migração e que, reconhecidamente, não é um delito sexual propriamente dito. O legislador, assim, equivocou-se ao trazer este tipo para o referido capítulo, motivo pelo qual vamos tecer comentários apenas genéricos. Trata-se de um delito comum, que pode ser cometido por qualquer pessoa, que tem como sujeitos passivos a pessoa estrangeira ou brasileira, assim como a coletividade. O tipo objetivo reside em “promover, por qualquer meio, com o fim de obter vantagem econômica, a entrada ilegal de estrangeiro em território nacional ou de brasileiro em país estrangeiro”. O tipo subjetivo está na intenção de obter vantagem econômica. É admitida a tentativa e a consumação se dá com a promoção da entrada ilegal da(o) migrante. O §1º estabelece a forma equiparada, aduzindo que “na mesma pena incorre quem promover, por qualquer meio, com o fim de obter vantagem econômica, a saída de estrangeiro do território nacional para ingressar ilegalmente em país estrangeiro”. A pena prevista para o crime é de reclusão de 2 a 5 anos e multa (art. 232-A, caput, CP) e que pode ser aumentada, de 1/6 (um sexto) a 1/3 (um terço): Se o delito é praticado com violência. Se a vítimaé colocada em condição desumana ou degradante (art. 232- A, §2º, CP). Assim concluímos os crimes do capítulo relacionados ao lenicídio e convidamos você a pensar sobre as condições sistêmico estruturais que ainda possibilitam a realidade dessas práticas como orgânicas a diferentes contextos regionais no nosso país. Re�exão Chamamos mais uma vez o debate para a reflexão a respeito de se a resposta oferecida pelo direito penal se mostrado – e pode um dia se mostrar – capaz de cumprir com as funções prometidas de transformação da cultura da exploração sexual de terceiros; e o quanto esses crimes reforçam os sentidos hegemônicos da sexualidade, esquivando a necessidade de se pautar, por exemplo, a regulação do trabalho da prostituição e agendas políticas que possam tornar menos precárias a atividade, em vista de um horizonte democrático. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Sobre os crimes do título lenicídio, assinale a alternativa correta: A O agente do crime de rufianismo ativo garante o seu sustento mediante a exploração de alguém que exerce a prostituição. B No crime de favorecimento da prostituição, é punível o proprietário do local em que se verifiquem as práticas, ainda que delas não tenha conhecimento. C O sujeito passivo deste título só pode ser pessoa menor de dezoito anos. Parabéns! A alternativa D está correta. A alternativa A contempla definição do rufianismo passivo, que é quem não recebe os lucros ou participa diretamente dos lucros, mas garante os sustentos em decorrência da exploração. O proprietário só será responsabilizado criminalmente caso se comprove que tinha consciência e vontade de colaborar com o favorecimento. O sujeito passivo pode ter qualquer idade e apenas algumas modalidades exigem o lucro como elementar, sendo a maioria qualificadora. Esses são os motivos pelos quais as alternativas A, B, C e E, respectivamente, estão incorretas. Questão 2 Sobre o grupo de crimes do título lenocídio, assinale a alternativa correta: D A maioria dos delitos prevê modalidade qualificada se a vítima é menor de 18 e maior de 14 anos. E Todas as modalidades exigem, como elementar, a finalidade de lucro. A O crime do favorecimento à prostituição tem como elemento subjetivo o especial fim de satisfazer a lascívia própria. B O delito de estabelecimento para exploração sexual não exige habitualidade. C O sujeito ativo dos crimes pode ser qualquer pessoa do sexo masculino. Parabéns! A alternativa D está correta. A alternativa D está correta, dado que se trata de um rol taxativo, em contemplação ao princípio da legalidade penal. 4 - Ultraje público ao pudor Ao �nal deste módulo, esperamos que você classi�que os tipos do “ultraje público ao pudor”. Do ultraje público ao pudor Os dois crimes deste tópico envolvem ainda a razão sexual, não obstante, são carregados da moralidade pública também, motivo pelo qual assumem como vítima a coletividade. Como falaremos especificamente em cada um dos casos, são infrações que envolvem D A enumeração das causas de agravamento de pena no art. 227, CP é taxativa, não sendo possível a contemplação de modalidades de parentesco não expressamente previstas. E O rufianismo não pode se dividir em ativo ou passivo. interpretação axiológica, estando bastante circunscritas às delimitações culturais e morais do tempo de sua aplicação. Assim, exigem ainda mais uma aferição constitucional e democraticamente localizada da sua possibilidade incriminadora. Como no caso de todos os crimes deste material, são delitos dolosos e processados mediante ação penal pública incondicionada. Passamos, então, a conhecer cada um deles. Ato obsceno (art. 233, CP) Ato obsceno Vamos entender um pouco mais sobre esse delito? Acompanhe a explanação da professora Luciana Fernandes acerca deste assunto. Como você pôde observar, esse delito é cometido por quem “praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público”. Mais uma vez, qualquer pessoa pode ser sujeito ativo e admite-se concurso de pessoas. O sujeito passivo é a coletividade, albergada no que o legislador trabalha como “pudor público”, uma expressão atravessada inteiramente pelo moralismo da época de sua elaboração. Comentário Por se tratar de um elemento normativo referente à moralidade pública, seu conteúdo material pode variar ao longo do tempo, da região e da cultura. Nesse sentido, devemos nos atentar ao seguinte: Por “ato obsceno” se deve entender uma conduta com conteúdo sexual relevante, excluído, por exemplo, o caso do “beijo lascivo” em público. Também não se adequa à razão de existência do crime as ações com conteúdo artístico. Outro elemento importante é o “lugar público ou aberto ou exposto ao público”, que contempla espaços como ruas, praias, praças, parques, cinemas e teatros. Tem-se ressalvado, no entanto, os casos em que a prática ocorre em um desses ambientes, mas desde que em período ermo, como quando estão fechados ou inacessíveis ao público; nesse caso, o fato poderá ser atípico. Assim, a publicidade deve ser considerada não apenas em abstrato, mas no caso concreto, sob pena de se configurar crime impossível. A conduta deve ser dolosa, consistindo na consciência da publicidade e vontade de praticar o ato com conteúdo sexualizante. E, embora de difícil caracterização, em tese, admite tentativa. A pena cominada é de detenção, de três meses a um ano, ou multa. Escrito ou objeto obsceno (art. 234, CP) Essa infração é cometida por quem “fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno”. Tal como no caso anterior, é um delito comum e que tem como sujeito passivo a coletividade. Com a expressão de conteúdo múltiplo “qualquer objeto obsceno”, no legislador passou a admitir a interpretação analógica e casos como álbuns e filmes estão abrangidos, embora não estivessem expressamente elencados no rol da primeira parte do dispositivo. Exige- se, para a configuração típica, que haja finalidade comercial ou intenção de obter vantagem econômica e a comprovação do dolo. Em suma, pode o delito ser assim classificado: comum, doloso, de perigo abstrato e de mera atividade. O parágrafo único equipara as seguintes condutas como criminosas: Também uma infração de menor potencial ofensivo, a sanção prevista para todas as modalidades é de 6 meses a 2 anos de detenção ou multa. I Vende, distribui ou expõe à venda ou ao público qualquer dos objetos referidos neste artigo. II Realiza, em lugar público ou acessível ao público, representação teatral, ou exibição cinematográfica de caráter obsceno, ou qualquer outro espetáculo, que tenha o mesmo caráter. III Realiza, em lugar público ou acessível ao público, ou pelo rádio, audição ou recitação de caráter obsceno. Trata-se de um delito com baixíssima incidência e muito questionado, dada a previsão constitucional do direito à liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença. Caso envolva criança ou adolescente, não obstante, são aplicáveis os artigos 240 e 241 da Lei nº 8.069/90 (ECA). Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Segundo a constituição federal, “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato” (art. 5.º, IV, CF); “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (art. 5.º, IX, CF); “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição” (art. 220, caput, CF); “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” (art. 220, § 2.º, CF). Os dispositivoscitados parecem colidir com o seguinte crime Parabéns! A alternativa B está correta. Diversos doutrinadores entendem que o crime de “escrito ou objeto obsceno” é inconstitucional, dada a violação dos dispositivos supramencionados. Esse é um dos motivos de sua baixa aplicabilidade e da costumaz defesa, por parte de teóricos, da A atentado ao pudor. B escrito ou objeto obsceno. C estupro. D importunação sexual. E assédio sexual. incompatibilidade material do delito com o Estado Democrático de Direito. Questão 2 (2009 - TJ-SP – Juiz) Pode constituir, em tese, ato obsceno, na figura típica do art. 233 do Código Penal Parabéns! A alternativa C está correta. Todas as demais alternativas poderiam implicar na discussão em torno da figura típica do art. 234, CP. A única assertiva que trabalha com um caso de ato obsceno, isto é, ato com conteúdo sexualizante em público é a alternativa C. Não obstante, há que se receber com parcimônia casos como o descrito a fim de analisar mais detidamente, conforme os elementos do caso concreto, se todos os elementos sobretudo do tipo subjetivo estão satisfeitos. A a exposição de cartazes, em lugar aberto ao público, mostrando corpos nus. B a exposição à venda de revista com fotografias de cunho pornográfico em lugar aberto ao público. C o ato de urinar em lugar público com exibição do pênis. D a exposição pública de fotografias de crianças nuas. E a exibição de filmes de cunho pornográfico. Considerações �nais Terminamos, assim, todos os chamados crimes sexuais e retomamos, nesta conclusão, a discussão em torno do fato de que, em nosso país, são conflitos que atingem diferencialmente mulheres e a população LGBTQIA+ em geral. Assim, reforçamos a sugestão para uma pesquisa interdisciplinar sobre o tema e fechamos convidando você a incentivar a discussão pública sobre as formas de reverter a “cultura do estupro” e a necessidade de se pensar em políticas públicas sobre o trabalho sexual. É basilar a problematização de delitos que expressam uma racionalidade antidemocrática, como os do tópico que acabamos de visitar, e a problematização sobre o limite da emergência de novos tipos penais ou normas de enrijecimento da punição, sobretudo conquanto desacompanhadas de investimento no campo das agendas voltadas ao enfrentamento do cisheteropatriarcado. Podcast A professora Luciana Fernandes fará um panorama geral sobre os crimes contra a dignidade sexual neste podcast. Explore + Para conhecer o mapeamento de algumas das questões que envolvem o crime de estupro: Veja o artigo: CERQUEIRA, Daniel; COELHO, Danilo Santa Cruz; FERREIRA, Helder. Estupro no Brasil: vítimas, autores, fatores situacionais e evolução das notificações no sistema de saúde entre 2011 e 2014. In: Revista Brasileira de Segurança Pública, vol. 11, núm. 1, 2017, pp.24-48. Para uma reflexão sobre violência sexual: SMITH, Andrea. A violência sexual como arma de genocídio. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 195-230, jan.-jun. 2014. Para o debate teórico e interdisciplinar do crime de estupro: MACHADO, Lia Zanotta. Masculinidade, sexualidade e estupro: As construções da virilidade. Cadernos Pagú, (11), 1998. Ouça o episódio O que é a cultura do estupro, do podcast Mamilos. Referências ANDRADE, Mailô de Menezes Vieira. Perspectivas Feministas em Criminologia: a interseccionalidade entre gênero, raça e classe na análise do estupro. Revista Brasileira de Ciências Criminais, v. 146, n. 2018, p. 435-455, 2018. Consultado na internet em: 27 ago. 2021. BRASIL. Código Penal. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Consultado na internet em: 26 ago. 2021. BRASIL. Código Penal. Lei nº 12.015, de 7 de agosto de 2009. Consultado na internet em: 26 ago. 2021. BRASIL. Código Penal. Lei nº 10.224, de 15 de maio de 2001. Consultado na internet em: 26 ago. 2021. BRASIL. Código Penal. Lei nº 13.718, de 24 de setembro de 2018. Consultado na internet em: 26 ago. 2021. CUNHA, Rogerio Sanches. Breves comentários às Leis 13.769/18 (prisão domiciliar), 13.771/18 (feminicídio) e 13.772/18 (registro não autorizado de nudez ou ato sexual). Consultado na internet em: 27 ago. 2021. IPEA. Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde (versão preliminar). Brasília, 2014. 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