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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE – FURG ESCOLA DE QUÍMICA E ALIMENTOS – EQA CURSO DE ENGENHARIA BIOQUÍMICA DISCIPLINA DE BIOQUÍMICA II Análise Qualitativa e Quantitativa da Atividade Enzimática Gabriel da Rosa Nunes (135433) Mariana Teixeira de Avila (137968) Rio Grande, 2023 1. INTRODUÇÃO As enzimas atuam como biocatalisadores, geralmente de origem proteica, acelerando a velocidade das reações químicas que ocorrem nos seres vivos, sem serem consumidas ou alteradas durante essas reações (TORTORA; FUNKE; CASE, 2005). Devido ao formato de seu sítio ativo e aos resíduos de aminoácidos presentes nele, são altamente específicas e capazes de reconhecer e interagir seletivamente com seus substratos (FATIBELLO-FILHO; VIEIRA, 2002). As enzimas são essenciais para os sistemas metabólicos de todos os organismos e podem ser obtidas de fontes vegetais, animais e microbiana (MONTEIRO; SILVA, 2009; ORLANDELLI et al., 2012; TEIXEIRA & MILAGRE, 2020). A polifenoloxidase (PFO) é uma enzima oxidorredutase que contém cobre como grupo prostético. Esta enzima está envolvida na oxidação de compostos fenólicos na presença de oxigênio molecular. Compostos difenólicos e monofenólicos são substâncias provenientes de produtos secundários contendo um grupo fenol (grupo hidroxila funcional ligado a um anel benzênico) e estão presentes em uma variedade de células. A PFO compreende duas enzimas diferentes, cuja diferença entre elas está relacionada à especificidade do substrato. O primeiro é denominado lacase, este não atua sobre os monofenóis e se limita à oxidação de orto e para- difenóis. A segunda, denominada catecol oxidase, é responsável por alterações oxidativas nos tecidos (principalmente frutas e vegetais), catalisando a hidroxilação de monofenóis seguida pela oxidação do orto-difenol em orto-quinonas (MENDONÇA & GUERRA, 2003; PAZ, 2010). Também no grupo das oxirredutases estão a peroxidase e a catalase. São responsáveis pela oxidação de substratos orgânicos e têm a função de degradar peróxidos (moléculas formadas naturalmente nos organismos durante o metabolismo oxidativo). Durante a reação da catalase, o peróxido de hidrogênio atua como aceptor de elétrons e é reduzido a água e oxigênio. O papel da peroxidase é acelerar a reação do peróxido de hidrogênio com um substrato específico formando um composto marrom, levando ao escurecimento enzimático em frutas e vegetais, bem como da PFO (APOLINARIO; SILVA; COSTA, 2019; NELSON & COX, 2011). Para quantificar a ação de uma enzima, a sua atividade enzimática deve ser medida. A atividade enzimática representa a velocidade com que a enzima converte substratos em produtos. O método mais adequado para medir essa conversão é baseado na espectrofotometria, e devido a especificidade de cada enzima, a atividade pode ser medida mesmo na presença de outras proteínas (BRACHT & ISHII-IWAMOTO, 2003). 2. OBJETIVOS Observação qualitativa da atividade de enzimas presentes em células vegetais e quantificação da atividade enzimática da peroxidase em maçãs. 3. MATERIAIS E MÉTODOS 3.1 Material • Amostras de maçã e batata; • Solução de peróxido de hidrogênio 0,08% e 3%; • Tampão fosfato de sódio 5 mM pH 6,5; • Solução de guaiacol 1%; • Solução salina de 0,9%; • Béquer de vidro; • Placa de Petri; • Proveta de 250 mL; • Pipetas graduadas; • Funil de vidro; • Papel filtro; • Algodão; • Bico de Bunsen; • Balança semi-analítica; • Liquidificador; • Banho termostatizado; • Espectrofotômetro. 3.2 Métodos 3.2.1 Análise qualitativa Para o primeiro procedimento, uma maçã foi descascada e cortada em dois pedaços. Um pedaço foi exposto ao ambiente na placa de Petri, enquanto o segundo pedaço foi colocado em um béquer contendo água até que a amostra fosse coberta. A coloração das amostras em ambas as situações foi monitorada durante a aula prática. Para o segundo procedimento, 250 mL de água foram aquecidas até ebulição com auxílio de um bico de Bunsen. Enquanto isso, uma batata foi descascada e cortada em pequenos quadrados. Metade dos pedaços de batata foram adicionados em água fervente por 5 min para branqueamento (tratamento térmico). Os pedaços de batata tratados termicamente e os pedaços não tratados foram adicionados a dois béqueres distintos contendo 250 mL de peróxido de hidrogênio 3%. Foi utilizada uma proveta de 250 mL para medir o reagente. Ambas as reações foram observadas durante a aula prática. 3.2.2 Análise Quantitativa Foram pesadas 50 g de maçã descascada e colocadas no liquidificador junto com 100 mL de solução salina de 0,9%. Após agitação no liquidificador por 1 min, a solução foi filtrada com auxílio de funil, algodão e papel filtro. O filtrado (extrato enzimático) foi separado e mantido em banho de gelo para posterior quantificação da atividade enzimática. A quantificação da atividade enzimática de peroxidase foi realizada conforme a Tabela 1. Após o preparo, a mistura reacional e o branco foram incubados em banho termostatizado a 30 ºC por 10 min. TABELA 1 – Dados para a determinação de atividade enzimática de peroxidase Reagentes (mL) Tubos Amostra Branco Tampão fosfato de sódio 5 mM pH 6,5 1,5 1,5 Guaiacol 1% 0,5 0,5 Peróxido de hidrogênio 0,08% 1,0 1,0 Água destilada 2,0 3,0 Extrato enzimático* 1,0 – *adicionado por último Após as reações, a transmitância (T) do branco e dos compostos oxidativos presentes na amostra foi medida utilizado um ajustado no comprimento de onda de 470 nm usando um fator de diluição de 4× (1 mL de amostra/3 mL de água destilada) calculado conforme a Equação 1. 𝐹𝐷 = 𝑉𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎+𝑉á𝑔𝑢𝑎 𝑉𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎 (1) Onde: 𝐹𝐷 é o fator de diluição (diluição do extrato bruto enzimático) 𝑉𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎 é o volume do extrato enzimático utilizado 𝑉á𝑔𝑢𝑎 é o volume da água destilada utilizada Após a obtenção dos dados de transmitância do branco e da amostra, estes foram aplicados à Equação 2 para obter a sua absorbância (A). 𝐴 = 2 − log(𝑇) (2) Para eliminar interferências causadas por componentes presentes no meio reacional, o valor de absorbância obtido para a amostra teve o valor do branco subtraído conforme a Equação 3. 𝐴𝑐𝑜𝑟𝑟𝑖𝑔𝑖𝑑𝑎 = 𝐴𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎 − 𝐴𝑏𝑟𝑎𝑛𝑐𝑜 (3) Onde: 𝐴𝑐𝑜𝑟𝑟𝑖𝑔𝑖𝑑𝑎 é a absorbância da reação com o branco descontado 𝐴𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎 é a absorbância inicial da reação 𝐴𝑏𝑟𝑎𝑛𝑐𝑜 é a absorbância do branco Após os cálculos e o valor da absortividade molar (𝜀) do tetraguaiacol obtido na literatura, foi possível obter a atividade enzimática do extrato de maçã (U/mL) de acordo com a Equação 4. 𝐴𝑡𝑖𝑣𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒𝑒𝑛𝑧𝑖𝑚á𝑡𝑖𝑐𝑎(𝑈 𝑚𝐿⁄ ) = 𝐴𝑐𝑜𝑟𝑟𝑖𝑔𝑖𝑑𝑎×𝑉𝑟𝑒𝑎çã𝑜×𝐹𝐷×10 6 𝜀×𝑉𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎×𝑏×𝑡 (4) Onde: 𝑈 𝑚𝐿⁄ é a unidade de atividade da enzima por mL de extrato; sendo 𝑈 em 𝜇𝑚𝑜𝑙 𝑚𝑖𝑛⁄ 𝐴𝑐𝑜𝑟𝑟𝑖𝑔𝑖𝑑𝑎 é a absorbância corrigida da reação 𝑉𝑟𝑒𝑎çã𝑜 é o volume total do tubo de reação (mL) 𝑉𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎 é o volume de extrato enzimático utilizado (mL) 𝐹𝐷 é o fator de diluição (diluição do extrato bruto enzimático) 106 é a conversão de mol para µmol 𝜀 é absortividade molar do tetraguaiacol (26600 M-1.cm-1) 𝑏 é o tamanho horizontal da cubeta (1 cm) 𝑡 é o tempo de reação (min) Com o valor da atividade enzimática do extrato de maçã, foi possível obter-se a quantidade de produto liberado na reação enzimática (µmol) conforme a Equação 5. 𝑃𝑟𝑒𝑎çã𝑜 = 𝐴𝑐𝑜𝑟𝑟𝑖𝑔𝑖𝑑𝑎×𝑉𝑟𝑒𝑎çã𝑜×10 6 𝜀×𝑏 (5) Onde: 𝑃𝑟𝑒𝑎çã𝑜 é a quantidade de produto liberado na reação enzimática (µmol)𝐴𝑐𝑜𝑟𝑟𝑖𝑔𝑖𝑑𝑎 é a absorbância corrigida da reação 𝑉𝑟𝑒𝑎çã𝑜 é o volume total do tubo de reação (mL) 106 é a conversão de mol para µmol 𝜀 é absortividade molar do tetraguaiacol (26600 M-1.cm-1) 𝑏 é o tamanho horizontal da cubeta (1 cm) 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 Análise Qualitativa Com o primeiro procedimento, observou-se que a fatia de maçã colocada em placa de Petri exposta ao oxigênio ambiente sofreu escurecimento enzimático mais rápido em comparação com a fatia imersa em água (Figura 1). O escurecimento enzimático ocorre por meio de uma reação catalisada pela enzima PFO presente na maçã. Ao entrar em contato com o oxigênio, a enzima oxida os compostos fenólicos da fruta para gerar quinona como produto inicial. A quinona se condensa formando pigmentos escuros, denominados malanina. Essas reações ocorrem nos tecidos vegetais quando as células se rompem e a reação não é controlada. Figura 1 – Atividade enzimática da PFO em maçãs submetidas a diferentes situações (a) maçã exposta ao oxigênio; (b) maçã imersa em água No segundo procedimento foi observada a atividade da catalase contida na batata. Ao adicionar a batata que não foram submetidas ao tratamento térmico ao peróxido de hidrogênio, a enzima aumentou a velocidade da reação química, de modo que o peróxido de hidrogênio se decompôs em água e oxigênio mais rapidamente, sem se tornar parte do sistema reacional. Já a batata que passou pela etapa de branqueamento não sofreu essa reação quando em contato com o peróxido de hidrogênio. Isto se deve à desnaturação das proteínas presentes na batata durante o tratamento térmico, resultando na inativação enzimática. As duas situações podem ser observadas na Figura 2. Figura 2 – Atividade da enzima catalase na batata em contato com o peróxido de hidrogênio (a) batata sem tratamento térmico; (b) batata branqueada 4.2 Análise Quantitativa Os valores de absorbância foram calculados utilizando a Equação 2 com base na transmitância da amostra e do branco obtidos espectrofotometricamente. Posteriormente, o valor de absorbância da amostra foi corrigido com branco conforme Equação 3. Portanto, realizando os cálculos, os valores de transmitância e absorbância estão listados na Tabela 2. Tabela 2 – Dados de transmitância e absorbância da amostra e branco Tubo Transmitância (%) Absorbância Absorbância corrigida Branco 98,5 0,006563 − Amostra 26,0 0,5850 0,5784 Posteriormente o fator de diluição foi calculado de acordo com a Equação 1 e com todos os dados obtidos foi possível calcular a atividade enzimática do extrato de maçã conforme a Equação 4. 𝐴𝑡𝑖𝑣𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒𝑒𝑛𝑧𝑖𝑚á𝑡𝑖𝑐𝑎 = 0,5784 × 0,06𝐿 × 4 × 106 26600 𝐿 𝑚𝑜𝑙⁄ × 1𝑚𝐿 × 1𝑐𝑚 × 10𝑚𝑖𝑛 𝐴𝑡𝑖𝑣𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒𝑒𝑛𝑧𝑖𝑚á𝑡𝑖𝑐𝑎 = 0,5218 𝑈 𝑚𝐿⁄ A quantidade de produto liberado na reação enzimática foi obtida através da Equação 5. 𝑃𝑟𝑒𝑎çã𝑜 = 0,5784 × 0,06𝐿 × 106 26600 𝐿 𝑚𝑜𝑙⁄ × 1𝑐𝑚 𝑃𝑟𝑒𝑎çã𝑜 = 1,3046𝜇𝑚𝑜𝑙 Assim, o extrato enzimático de maçã apresentou atividade enzimática de 0,5218 U/mL (atividade enzimática contida em 1 mL da solução enzimática) e a quantidade de produto liberado na reação enzimática foi de 1,3046 µmol. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS As análises qualitativas permitiram observar as reações de oxidorredução da polifenoloxidase e da catalase, que levam ao escurecimento enzimático e a peroxidação, respectivamente. A análise quantitativa mostrou que a atividade enzimática do extrato de maçã foi de 0,5218 U/mL, e a quantidade de produto liberado na reação enzimática foi de 1,3046 µmol. Portanto, pode-se concluir que as enzimas são altamente específicas em relação ao substrato e que fatores como concentração do substrato e da própria enzima estão relacionados a ocorrência e velocidade dessas reações catalíticas. Além disso, podem ser observadas propriedades semelhantes das enzimas às proteínas, como a desnaturação devido a de altas temperaturas, como na etapa de branqueamento. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APOLINARIO, G.S.; SILVA, R.G.G.; COSTA, I.R. Metabolismo celular do peróxido de hidrogênio: visualização da ação da catalase a níveis microscópicos. Encontros Universitários da UFC, Fortaleza, v. 4, n. 4., 2019. BRACHT, A.; ISHII-IWAMOTO, E.L. Métodos de Laboratório em Bioquímica. 1 ª ed., Barueri: Manole, 2003. FATIBELLO-FILHO, O.; VIEIRA, I.C. Uso analítico de tecidos e de extratos brutos vegetais como fonte enzimática. Química Nova, v. 25, n. 3, p. 455-464, 2002. MENDONÇA, S.C.; GUERRA, N.B. Métodos físicos e químicos empregados no controle do escurecimento enzimático de vegetais. Boletim SBCTA, Campinas, v. 37, n. 2, p. 113-116, 2003. MONTEIRO, V.N.; SILVA, R.N. Aplicações industriais da biotecnologia enzimática. Revista Processos Químicos, v. 3, n. 5, p. 9-23, 2009. NELSON, D.L.; COX, M.M. Princípios de bioquímica. 5ª ed., Porto Alegre: Artmed, 2011. ORLANDELLI, R.C.; SPECIAN, V.; FELBER, A.C.; PAMPHILE, J.A. Enzimas de interesse industrial: produção por fungos e aplicações. SaBios: Revista de Saúde e Biologia, v. 7, n. 3, p. 97-109, 2012. PAZ, J.C.S.N. Caracterização bioquímica da polifenoloxidase e da peroxidase de ameixa rubimel, polpa de cacau e estudo do efeito de agentes anti-escurecimento. Campinas, 2010. Tese (Doutorado em Ciências de Alimentos) - Faculdade de Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual de Campinas. TEIXEIRA, I.S.; MILAGRE, C.D.F. Evolução dirigida de enzimas: pequenas modificações, melhores biocatalisadores. Química Nova, vol. 43, n. 6, p. 773-786, 2020. TORTORA, G.J.; FUNKE, B.R.; CASE, C.L. Metabolismo microbiano. Em: Microbiologia. 8 ed. Porto Alegre: Artmed, cap. 5, p. 111-121, 2005.