Prévia do material em texto
Direito Civil VII (2º Bimestre) Carga horária 51 horas; 03 Créditos Professor: Adriano Lichtenberger Parra Bibliografia Recomendada: · Direito Civil Reais - Sílvio de Salvo Venosa - Editora: Atlas, 19ª edição · Direito das Coisas - Arnaldo Rizzardo - Editora: Forense, 7ª edição · Instituições de Direito Civil: direito reais (posse, propriedade, direitos de fruição, garantia e aquisição) - Caio Mário da Silva Pereira - Volume IV - Editora: Forense, 27ª edição. · Instituições de Direito Civil: direitos patrimoniais, reais e registrários - Rosa Maria de Andrade Nery e Nelson Nery Junior - Volume III - Editora: Revista dos Tribunais, 2ª edição · Direito Civil Brasileiro: direito das coisas - Carlos Roberto Gonçalves - Editora: Saraiva, 16ª edição. · Curso de Direito Civil Brasileiro: direito das coisas - Maria Helena Diniz - Editora: Saraiva, 38ª edição. Aula 1 - 12/05 1) Acessão 1.1) Conceito · Acessão é o modo que se adquire a propriedade imobiliária. Ela transmite a ideia de aumento da coisa, do volume ou extensão do bem, através de uma UNIÃO FÍSICA. A acessão é um modo de aquisição da propriedade imobiliária e essa aquisição da propriedade imobiliária vai ocorrer pelas modalidades previstas nos incisos do art. 1.248 do CC. Portanto, o art. 1.248 do CC anuncia todas as modalidades de acessão. Cumpre mencionar que a única modalidade de acessão que se dá com a intervenção humana, daí se falar em acessão artificial, é a construção, catalogada no inciso V do dispositivo; as plantações também terão uma intervenção humana, mas não em todo o seu processo, somente no início. Art. 1.248 do CC - A acessão pode dar-se: I - por formação de ilhas; II - por aluvião; III - por avulsão; IV - por abandono de álveo; V - por plantações ou construções. · Com a acessão nós estaremos diante de um aumento/acréscimo da extensão de uma propriedade imóvel. Ex: um prédio que aumenta, seja em volume, seja em comprimento. 1.2) Análise Ilustrativa · Estamos falando de um rio. Nesse rio, temos as margens (tanto direita, quanto esquerda) e, necessariamente, um meio. O meio, indicado no desenho pela linha tracejada, vai ser identificado por medidas topográficas. Existem aparelhos específicos (normalmente o teodolito), que são postos na margem e verificam tanto a inclinação quanto a distância existente entre uma margem e a outra. · Verificados os pontos distantes entre uma margem e outra durante toda a extensão do rio, determina-se o curso, o decaimento e, também, a determinação topográfica quantitativa e métrica do rio e, assim, é fixado o meio do rio através dessas medições. · Para o direito, estamos falando de uma medição que temos por base as margens e o meio do rio (linha imaginária da imagem). O que está dentro do rio é o leito do rio. 1.3) Formas de Acessão 1.3.1) Aluvião · Nós sempre temos que pensar nas margens do rio, no próprio leito do rio e na linha imaginária (meio do rio). · Nessa imagem, nós temos um corte transversal de um rio. Nesse corte transversal, nós temos duas margens (margem direita e margem esquerda) e, ao lado do rio, existem propriedades, que tem limites que margeiam o rio. · Conforme mencionado no início da aula, nós estamos estudando formas de aquisição da propriedade imobiliária e a primeira forma que vamos tratar é a aluvião. O que acontece aqui? Com o transcorrer dos anos podem acontecer duas coisas naturais: uma é o acúmulo de detritos no fundo do rio e a outra é a diminuição do volume de água (diminuição da margem do rio). Na imagem abaixo, isso pode ser melhor visualizado. · Nessa imagem, podemos verificar que com o transcorrer dos anos e com a movimentação das águas, houve um acréscimo da margem, tanto esquerda, quanto direta. Por que isso aconteceu? Porque pedras, areias e outros sedimentos foram sendo depositados e isso diminuiu o leito do rio e aumentou a margem. · Portanto, nessa nova imagem, podemos observar que, de forma natural, os detritos foram se acumulando e, assim, houve um acréscimo nas margens do rio e, por conseguinte, haverá um deslocamento natural do meio do rio. Pois bem, para que esse acréscimo que ocorreu nas margens do rio é juridicamente relevante? Porque, o acréscimo da quantidade de terra em decorrência do aumento da margem do rio pertencerá proprietário daquela terra (aquisição de uma maneira natural). Esse aumento pode ser discreto (1,5 m) ou considerável (20 m) em se tratando de rios grandes. · A aluvião, portanto, é uma aquisição natural em que vai existir a incorporação do acréscimo das margens do rio para o proprietário ribeirinho acréscimo das margens do rio de modo que agrega-se, aos proprietários ribeirinhos, aquele trecho respectivo. Art. 1.250 do CC - Os acréscimos formados, sucessiva e imperceptivelmente, por depósitos e aterros naturais ao longo das margens das correntes, ou pelo desvio das águas destas, pertencem aos donos dos terrenos marginais, sem indenização. Parágrafo único. O terreno aluvial, que se formar em frente de prédios de proprietários diferentes, dividir-se-á entre eles, na proporção da testada de cada um sobre a antiga margem. · De acordo com o caput do art. 1.250 do CC não há, com o fenômeno da aluvião, direito ou obrigação indenizatória. · O parágrafo único do dispositivo trata da proporcionalidade de acordo com a testada do terreno. O que é testada do terreno? É a novo trecho que é incorporado à propriedade do dono do imóvel depois de ocorrida a aluvião. Isso pode ser melhor visualizado na imagem abaixo. Na imagem, o rio vermelho era o rio antigo, que, com o acréscimo de sedimentos e detritos, se tornou o rio amarelo (fenômeno da aluvião). Com isso, conforme explicado anteriormente, há um acréscimo da quantidade de terra (representado em roxo) em decorrência do aumento da margem do rio. Isso é a testada do terreno. · Nessa imagem, temos o rio projetado para baixo e, do lado esquerdo, o terreno que se formou para o “A”, o “B” e o “C” e, do lado direito, o terreno que se formou para o “D”, o “E”, o “F” e o “G”. 1.3.2) Avulsão · Na avulsão, a gente tem algo repentino e natural com uma forma violenta. A avulsão está definida no art. 19 do Código de Águas (Decreto nº 24.643/34) e, também, no art. 1.251 do CC. Art. 19 do Dec. nº 24.643/34 - Verifica-se a "avulsão" quando a força súbita da corrente arrancar uma parte considerável e reconhecível de um prédio, arrojando-a sobre outro prédio. Art. 1.251 do CC - Quando, por força natural violenta, uma porção de terra se destacar de um prédio e se juntar a outro, o dono deste adquirirá a propriedade do acréscimo, se indenizar o dono do primeiro ou, sem indenização, se, em um ano, ninguém houver reclamado. Parágrafo único. Recusando-se ao pagamento de indenização, o dono do prédio a que se juntou a porção de terra deverá aquiescer a que se remova a parte acrescida. · Essa imagem representa o curso tortuoso de um rio. O que ocorre por vezes? Vem uma tromba/cabeça da água (curso da água de maneira violenta) que faz uma porção de terra ser deslocada. Essa porção vai se arrastando e é, literalmente, jogada para o outro lado e fica lá. · Pois bem, esse fenômeno, mudou a configuração do rio e os proprietários que estavam, antes da deslocação da porção de terra, com uma propriedade maior, não terão mais aquela porção. Segundo a dicção do art. 1.251 do CC: “Quando, por força natural violenta, uma porção de terra se destacar de um prédio e se juntar a outro, o dono deste adquirirá a propriedade do acréscimo, 1) se indenizar o dono do primeiro ou, 2) sem indenização, se, em um ano, ninguém houver reclamado”. De acordo com o dispositivo, com a deslocação da porção de terra, o novo dono vai incorporar aquele pedaço ao seu terreno. Contudo, ele terá essa aquisição em duas circunstâncias: · 1) Se indenizar o dono a que pertencia aquela porção de terra pela perda proporcional da área essa hipótese não é comum, pois o proprietário originário tem a prerrogativa, caso não haja indenização, de ingressar naquela porção, instalar máquinas e retirar toda aquela porção para voltar ao seu· Possibilidade de corte art. 1.283 do CC. Art. 1.283 do CC - As raízes e os ramos de árvore, que ultrapassarem a estrema do prédio, poderão ser cortados, até o plano vertical divisório, pelo proprietário do terreno invadido. 1.4) Passagem Forçada · Se a passagem é forçada a lei determina que alguém tem direito de passar por algum caminho. Ex: na imagem abaixo, em que temos uma área com diversos proprietários, o proprietário da região em verde, não poderia chegar a sua propriedade sem passar pelas propriedades vizinhas. Há, então, a aplicação do art. 1.285 do CC, que dispõe que: “o dono do prédio que não tiver acesso a via pública, nascente ou porto, pode, mediante pagamento de indenização cabal, constranger o vizinho a lhe dar passagem, cujo rumo será judicialmente fixado, se necessário”. · Tal direito (passagem forçada) deriva de um encravamento natural e absoluto não pode ser provocado e se tiver, na propriedade, qualquer saída, não há que se falar em encravamento. O proprietário não pode vender parte do terreno que dá acesso a via pública e, posteriormente, pretender exercitar o direito da passagem forçada. · Caso existam vários imóveis que podem dar passagem, a escolha será recainte naquele com menor imposição de indenização. Essa é a tônica do parágrafo 1º do art. 1.285 do CC: “Sofrerá o constrangimento o vizinho cujo imóvel mais natural e facilmente se prestar à passagem”. · Quando haverá a extinção da passagem forçada? Em qualquer uma das três possibilidades abaixo: · Abertura de estrada e via pública. · Anexação. · Compra de imóvel confinante com acesso a via pública. Art. 1.285 do CC - O dono do prédio que não tiver acesso a via pública, nascente ou porto, pode, mediante pagamento de indenização cabal, constranger o vizinho a lhe dar passagem, cujo rumo será judicialmente fixado, se necessário. § 1º Sofrerá o constrangimento o vizinho cujo imóvel mais natural e facilmente se prestar à passagem. § 2º Se ocorrer alienação parcial do prédio, de modo que uma das partes perca o acesso a via pública, nascente ou porto, o proprietário da outra deve tolerar a passagem. § 3º Aplica-se o disposto no parágrafo antecedente ainda quando, antes da alienação, existia passagem através de imóvel vizinho, não estando o proprietário deste constrangido, depois, a dar uma outra. 1.5) Passagem de Cabos e Tubulações · Assim como há a passagem de pessoas, coisas e veículos, há, também, a possibilidade de passagem de cabos e tubulações. · Se os cabos e tubulações existirem, não haverá qualquer problema. No entanto, se eles não existirem, nós teremos a incidência do art. 1.286 do CC e o proprietário será obrigado a admitir que ela ocorra. Art. 1.286 do CC - Mediante recebimento de indenização que atenda, também, à desvalorização da área remanescente, o proprietário é obrigado a tolerar a passagem, através de seu imóvel, de cabos, tubulações e outros condutos subterrâneos de serviços de utilidade pública, em proveito de proprietários vizinhos, quando de outro modo for impossível ou excessivamente onerosa. Parágrafo único. O proprietário prejudicado pode exigir que a instalação seja feita de modo menos gravoso ao prédio onerado, bem como, depois, seja removida, à sua custa, para outro local do imóvel. · Ex: vamos supor que um determinado proprietário não deseje mais que o esgoto dos outros imóveis passem pela sua propriedade. Então, esse proprietário, de acordo com o parágrafo único, tem a possibilidade de bancar tubulações para que o esgoto de seus vizinhos seja despejado sem passar por sua propriedade. Cumpre mencionar que, nesse caso, os vizinhos que tiverem o seu esgoto desviado não precisarão arcar com nada. Todo o custo será suportado pelo proprietário. Art. 1.287 do CC - Se as instalações oferecerem grave risco, será facultado ao proprietário do prédio onerado exigir a realização de obras de segurança. · De acordo com o art. 1.287 do CC, em caso de risco, deverá haver indenização ou eliminação do risco. · Então, se o proprietário, por um motivo de caráter pessoal, não desejar mais que o esgoto dos outros imóveis passem pela sua propriedade e quiser fazer uma nova instalação, se essa instalação oferecer um grave risco, o proprietário precisará bancar qualquer modificação nas obras. image4.png image5.png image6.png image7.png image8.png image9.png image10.png image11.png image12.png image13.png image14.png image15.png image16.png image17.png image18.png image19.png image1.png image2.png image3.pnglocal original. · 2) Se não houver indenização e o dono a que pertencia aquela porção de terra não quiser fazer a retirada, no prazo de um ano, o novo proprietário poderá, automaticamente, incorporar aquela porção deslocada ao seu terreno. · O parágrafo único do art. 1.251 do CC coloca que: “Recusando-se ao pagamento de indenização, o dono do prédio a que se juntou a porção de terra deverá aquiescer a que se remova a parte acrescida” de acordo com o parágrafo, caso o novo proprietário não queira indenizar, ele deve permitir com que o proprietário originário retire a porção agregada para retornar ao local de origem. No entanto, se o novo proprietário não pagar a indenização e o proprietário originário não retirar a porção agregada, depois de 1 ano, o novo proprietário poderá incorporar aquela porção deslocada ao seu terreno. 1.3.3) Alveo Abandonado · O que é alveo? É o leito do rio. E Alveo Abandonado? É o abandono das águas do leito do rio. A sua definição está no art. 9º do Código de Águas (Decreto nº 24.643/34) e no art. 1.252 do CC. Art. 9º do Dec. nº 24.643/34 - Álveo é a superfície que as águas cobrem sem transbordar para o solo natural e ordinariamente enxuto. Art. 1.252 do CC - O álveo abandonado de corrente pertence aos proprietários ribeirinhos das duas margens, sem que tenham indenização os donos dos terrenos por onde as águas abrirem novo curso, entendendo-se que os prédios marginais se estendem até o meio do álveo. · Pode ser que o rio diminuía o volume de água anteriormente, a água estava em um determinado nível e, depois, esse nível baixou. Isso acontece de maneira sazonal: em uma época, o rio pode aumentar o seu volume e em outras épocas, ele pode diminuir o seu volume; isso acontece em virtude da própria natureza. · O que o Código de águas (Decreto nº 24.643/34) e o Código Civil dispõem a respeito do álveo abandonado? Eles tratam, justamente, da parte que fica descoberta (sem água), sem possibilidade de retorno ao que era antes. Pois bem, se área agora está descoberta, qual efeito nós vamos ter? A área, agora, descoberta será incorporada aos proprietários ribeirinhos das margens respectivas e na proporção das suas testadas. Isso pode ser melhor visualizado na imagem abaixo. · Nesse sentido, a área descoberta beneficiará os proprietários ribeirinhos em termos de extensão territorial. No entanto, de maneira prática, eles não gostam disso, porque com a diminuição do leito do rio, o habitat, as plantações e a cultura se modificam. · É importante mencionar que o alveo pode ser mostrado de forma parcial ou total. Ele pode ocorrer de maneira natural ou em virtude de uma atividade humana que modifique o leito do rio. Como assim? Vamos supor que exista uma barragem, que gerou o desvio do curso da água. Com esse desvio, houve uma alteração no caminho do curso do rio, de modo que o rio secou em uma parte. Isso pode ser melhor visualizado na imagem abaixo. No desenho retratado a seguir, o traço representa a barragem e o curso do rio (em vermelho), depois da barragem, secou, de modo que os proprietários ribeirinhos serão beneficiados pelo aumento das respectivas áreas (a propriedade será estendida até o meio do alveo). O rio em amarelo é o rio que teve o seu curso alterado pela construção da barragem (intervenção humana). · Pois bem, ainda analisando a imagem, temos que a mudança do curso do rio pode ter ocorrido em virtude de uma obra por parte da Administração Pública. E o que acontece nesse caso? O alveo (leito do rio) vai, conforme afirmado acima, ter um novo caminho e os proprietários referentes a área em laranja, que tiveram sua propriedade ocupada pela água (rio em amarelo), devem ser indenizados e, logicamente, o alveo, com o pagamento da indenização, passa a pertencer ao expropriante. Isso está disposto no art. 27 do Código de Águas (Decreto nº 24.643/34), que coloca que: “Se a mudança da corrente se fez por utilidade pública, o prédio ocupado pelo novo álveo deve ser indenizado, e o álveo abandonado passa a pertencer ao expropriante para que se compense da despesa feita”. Esse entendimento é do STJ: Se o rio teve o seu curso alterado pela ingerência do Poder Público (e não por fato exclusivo da natureza), pertencerá pelo ente público que provocou a modificação, a fração de terra descoberta. 1.3.4) Formação de Ilhas · A formação de ilhas diz respeito ao surgimento de uma ilha no meio do rio. Isso gera o aumento da propriedade. Como o surgimento da ilha pode ocorrer? Muitas vezes, seja em decorrência de sedimentação ou da diminuição do volume de água, pode, no meio de um rio, surgir uma ilha. Pois bem, com isso, o meio do rio também se projeta em face da ilha formada e a testada de cada uma das propriedades das margens, também se projetará. Nesse sentido, nós teremos as projeções respectivas das propriedades ribeirinhas em cima da ilha em outras palavras, a porção que é delimitada pelo meio do rio, com a projeção da testada A, pertence ao proprietário A, a porção que é delimitada pelo meio do rio, com a projeção da testada B, pertence ao proprietário B e assim sucessivamente. Art. 1.249 do CC - As ilhas que se formarem em correntes comuns ou particulares pertencem aos proprietários ribeirinhos fronteiros, observadas as regras seguintes: I - as que se formarem no meio do rio consideram-se acréscimos sobrevindos aos terrenos ribeirinhos fronteiros de ambas as margens, na proporção de suas testadas, até a linha que dividir o álveo em duas partes iguais; II - as que se formarem entre a referida linha e uma das margens consideram-se acréscimos aos terrenos ribeirinhos fronteiros desse mesmo lado; III - as que se formarem pelo desdobramento de um novo braço do rio continuam a pertencer aos proprietários dos terrenos à custa dos quais se constituíram. · Inciso II do art. 1.249 do CC Pode ocorrer que a ilha se forme em um dos lados do rio e não exatamente no meio como retratado acima. Nesse caso, quem terá a propriedade dessa ilha? Deve-se projetar a testada. No caso do desenho, o J terá direito a uma parte e o K terá direito a outra parte. Por que os demais proprietários (A, B, C, D, E, F, G, H e I) não terão direito? Porque não ultrapassou o meio do rio. · Inciso III do art. 1.249 do CC “As que se formarem pelo desdobramento de um novo braço do rio continuam a pertencer aos proprietários dos terrenos à custa dos quais se constituíram”. Como assim? Vamos explicar por meio de um desenho. Na figura abaixo, tem um curso de um rio e na parte inferior do curso de água se formou uma ilha (em roxo). A quem pertencerá essa ilha? Deve-se projetar a testada e ao fazê-la, uma parte da ilha pertencerá ao proprietário da margem esquerda do rio e outra parte da ilha pertencerá ao proprietário da direita esquerda do rio. · Conclusões importantes: · Sempre que nós estivermos diante de um evento natural, não há que se falar em indenização. · Quando haverá a indenização? Dos 4 institutos que nós estudamos (aluvião, acessão, alveo abandonado e formação de ilhas), o único que vai ter indenização é o que tem ‘s’ no nome: acessão. E de que forma? Através da avulsão. Art. 23 do Dec. nº 24.643/34 - As ilhas ou ilhotas, que se formarem no álveo de uma corrente, pertencem ao domínio público, no caso das águas públicas, e ao domínio particular, no caso das águas comuns ou particulares. § 1º Se a corrente servir de divisa entre diversos proprietários e elas estiverem no meio da corrente, pertencem a todos esses proprietários, na proporção de suas testadas até a linha que dividir o álveo em duas partes iguais. § 2º As que estiverem situadas entre esta linha e uma das margens pertencem, apenas, ao proprietário ou proprietários desta margem. Art. 24 do Dec. nº 24.643/34 - As ilhas ou ilhotas, que se formarem, pelo desdobramento de um novo braço de corrente, pertencem aos proprietários dos terrenos, a custa dos quais se formaram. Parágrafo único. Se a corrente, porém, é navegável ou flutuável, eles poderão entrar para o domínio público, mediante prévia indenização. 1.3.5) Construções ePlantações · Agora vamos ver uma outra forma de acessão que vai ter intervenção humana. · Ex: uma pessoa passa por um terreno em que as plantinhas começam a se transformar em algo maior, elas viram árvores e dão frutos. O que essa pessoa pensa? Foi o proprietário que fez. Há uma presunção de que essa plantação foi realizada pelo proprietário, até que se prove o contrário. Essa é a dicção do art. 1.253 do CC. Art. 1.253 do CC - Toda construção ou plantação existente em um terreno presume-se feita pelo proprietário e à sua custa, até que se prove o contrário. Art. 1.254 do CC - Aquele que semeia, planta ou edifica em terreno próprio com sementes, plantas ou materiais alheios, adquire a propriedade destes; mas fica obrigado a pagar-lhes o valor, além de responder por perdas e danos, se agiu de má-fé. · Ex: uma pessoa pega os materiais de construção do seu vizinho para construir a própria casa. Nesse caso, de acordo com o dispositivo, essa pessoa vai adquirir a propriedade desses materiais, porém fica obrigada a pagar o valor e, nesse caso, responder por perdas e danos, pois ela agiu de má-fé. · Não ocorrendo a má-fé, não será preciso pagar as perdas e danos. Art. 1.255 do CC - Aquele que semeia, planta ou edifica em terreno alheio perde, em proveito do proprietário, as sementes, plantas e construções; se procedeu de boa-fé, terá direito a indenização. Parágrafo único. Se a construção ou a plantação exceder consideravelmente o valor do terreno, aquele que, de boa-fé, plantou ou edificou, adquirirá a propriedade do solo, mediante pagamento da indenização fixada judicialmente, se não houver acordo. · Esse art. 1.255 do CC chama-se Vis Atractiva. · O parágrafo único do dispositivo fala que quem plantou e edificou vai adquirir a propriedade do solo, mediante pagamento de indenização. Para isso ficar mais claro, vamos citar um exemplo. No desenho abaixo, “A”, que excedeu seu terreno e plantou no terreno de “B”, vai adquirir a parte em azul, mediante pagamento de indenização. · O caput do art. 1.255 do CC fala que aquele que semeia, planta ou edifica em terreno alheio perde, as sementes, plantas e construções em proveito do proprietário, porque a plantação ou a edificação vão se incorporar à propriedade. No entanto, de acordo com o dispositivo, se ele procedeu de boa-fé, terá direito a indenização. · Conforme destacado acima, o parágrafo único do art. 1.255 do CC fala que se a construção ou a plantação exceder consideravelmente o valor do terreno, aquele que, de boa-fé, plantou ou edificou, adquirirá a propriedade do solo, mediante pagamento da indenização. Mas, o que é exceder consideravelmente? Isso é um pouco vago. Nós temos algum outro dispositivo para servir de paradigma ou com aplicação analógica? Sim, nós vamos ver isso quando estudarmos direito de construção. Art. 1.256 do CC - Se de ambas as partes houve má-fé, adquirirá o proprietário as sementes, plantas e construções, devendo ressarcir o valor das acessões. Parágrafo único. Presume-se má-fé no proprietário, quando o trabalho de construção, ou lavoura, se fez em sua presença e sem impugnação sua. · Mas como assim se houve, de ambas as partes, má-fé? No desenho representado acima, a má-fé do proprietário A se deu quando ele plantou além do que devia (invadiu o terreno de B). Mas, se o B vê que o A está plantando em sua propriedade e não faz nada, ele também age com má-fé. Então, no caso do proprietário que teve, na sua propriedade, trabalho de construção ou lavoura e não fez nada, isto é, agiu de má-fé, incide o parágrafo único do art. 1.256 do CC. 1.4) Aspectos Construtivos 1.4.1) Construção que invade solo alheio ( - de 5%) Art. 1.258 do CC - Se a construção, feita parcialmente em solo próprio, invade solo alheio em proporção não superior à vigésima parte deste, adquire o construtor de boa-fé a propriedade da parte do solo invadido, se o valor da construção exceder o dessa parte, e responde por indenização que represente, também, o valor da área perdida e a desvalorização da área remanescente. · De acordo com o art. 1.258 do CC, temos os seguintes elementos: 1) não pode superar 5%, 2) o construtor precisa estar de boa-fé e 3) indenização → valor da área perdida + desvalorização da remanescente. · Pois bem, vamos supor que a gente um terreno que tenha 20 X 50. O construtor do lado esquerdo pegou 50 cm do construtor do lado direito. Quanto foi invadido? 50 cm em 50 m. Portanto, estamos falando aqui de 25 m2 de um total de 1.000 m2. Qual o percentual de 25 para 1.000 m2? 2,5%. Logo, nesse caso, estamos falando de uma invasão de um solo alheio em uma parte que é inferior a 5%. · Apresentado o exemplo, quais circunstâncias nós vamos ter? O proprietário do lado esquerdo vai incorporar o trecho que excedeu (25 m2), mas vai ter que indenizar. Como vai ser feita essa quantificação? Deve-se verificar o valor do metro quadrado do terreno (no nosso caso 1.000 m2) e do local apropriado (no nosso caso 25 m2) e, com isso, saberemos qual será a indenização a ser paga. · Vamos imaginar que alguém adquira um terreno de 1.000 m2 por R$ 150.000. Quanto serão os 2,5% de R$ 150.000? R$ 3.750,00. Mas, como houve desvalorização, deve-se pegar esse valor e multiplicar por 2. Nesse sentido, o valor da indenização é de R$ 7.500,00. · É importante mencionar que, dentro da questão da indenização trazida pelo art. 1.258 do CC, pode existir um problema: os bens indivisíveis. Um dos exemplos de bens indivisíveis são aqueles que são considerados como tal em virtude de uma norma legal. O código de edificações do Município de SP identifica, como bem indivisível, um mínimo lote passível de construção, isto é, um lote que detenha 5 metros de frente por 25 de fundo ou 125 m2. Pois bem, vamos imaginar que, no desenho abaixo, o proprietário do lote esquerdo exceda o seu terreno em 50 cm, prejudicando, assim, o proprietário do lote direito. Com a invasão do proprietário do lote esquerdo, o terreno do proprietário do lote direito que tinha 5 m de frente, passa a ter 4,5 m. Essa redução ínfima, impede a realização de qualquer projeto no local. Nesse sentido, pode-se depreender que houve uma desvalorização do local, mas ela não diz respeito, apenas, aos 50 cm e sim ao terreno inteiro. Portanto, nesse caso, a indenização será o próprio valor do terreno. · Utilizando os valores da tabela como parâmetro, vamos imaginar que nós tenhamos uma invasão de 50 cm ao longo de toda a extensão de um terreno localizado no bairro de Pompéia, que tenha 12 x 30, isto é, 360 m2. Pois bem, se são 360 m2, de acordo com a tabela, o valor médio é R$ 8.856 por m2. Para sabermos quanto vale o terreno inteiro, basta multiplicarmos os 360 m2 pelo valor médio de R$ 8.856. Se fizermos esse cálculo, vamos chegar em, aproximadamente, R$ 320.000,00. · Como calcular o valor da indenização em relação aos 50 cm ocupados? Se o terreno for ocupado em 50 cm, a conta da indenização será: 50 cm x 30 metros (extensão do terreno). Essa conta vai resultar em 15 m2. Como o terreno tem 360 m2, o valor médio, conforme apontado acima, é R$ 8.856 por m2. Portanto, ao multiplicarmos 15 m2 por R$ 8.856, teremos que a indenização correspondente será de R$ 132.840. No entanto, esse valor concerne apenas a construção e, como vimos, nós temos que observar, também, a desvalorização. Como fazemos nesse caso? · No caso de boa-fé, basta multiplicarmos o valor por 2. Nesse sentido, se multiplicarmos R$ 132.840 por 2, chegaremos em R$ 265.680. · No caso de má-fé, devemos observar o parágrafo único do art. 1.258 do CC que dispõe que: “Pagando em décuplo as perdas e danos previstos neste artigo, o construtor de má-fé adquire a propriedade da parte do solo que invadiu, se em proporção à vigésima parte deste e o valor da construção exceder consideravelmente o dessa parte e não se puder demolir a porção invasora sem grave prejuízo para a construção” de acordo com esse parágrafo, como nós chegamos no valor de R$ 265.680, se houver má-fé, devemos multiplicar esse valor por 10, o que vai resultar em R$ 2.656.800. Cumpre destacar queparágrafo único do art. 1258 é usado quando o construtor está de má fé e a área ultrapassada é menor de 5%. 1.4.2) Construção que invade solo alheio ( + de 5%) · O art. 1.259 do CC coloca que: “Se o construtor estiver de boa-fé, e a invasão do solo alheio exceder a vigésima parte deste, adquire a propriedade da parte do solo invadido, e responde por perdas e danos que abranjam o valor que a invasão acrescer à construção, mais o da área perdida e o da desvalorização da área remanescente; se de má-fé, é obrigado a demolir o que nele construiu, pagando as perdas e danos apurados, que serão devidos em dobro”. · Esse dispositivo pode ser dividido em duas partes: quando o construtor estiver de boa-fé ou quando ele estiver de má-fé. · Se o construtor estiver de boa-fé, ele pode adquirir o solo invadido (+ de 5%) se pagar uma indenização, que vai corresponder ao: valor do solo invadido + valor que aumentar à construção beneficiada + desvalorização da remanescente. Ou seja, ao invés de multiplicar por 2, será no mínimo 3. · Se o construtor estiver de má-fé, ele é obrigado a demolir o que construiu, pagando as perdas e danos apurados, que serão devidos em dobro. Art. 1.259 do CC - Se o construtor estiver de boa-fé, e a invasão do solo alheio exceder a vigésima parte deste, adquire a propriedade da parte do solo invadido, e responde por perdas e danos que abranjam o valor que a invasão acrescer à construção, mais o da área perdida e o da desvalorização da área remanescente; se de má-fé, é obrigado a demolir o que nele construiu, pagando as perdas e danos apurados, que serão devidos em dobro. · Em suma, em relação aos aspectos construtivos, nós temos que fazer as seguintes perguntas: 1) qual a quantificação da área? 2) o invasor agiu de má-fé ou boa-fé? Respondidas essas perguntas, termos que fazer os cálculos. · Dentro da primeira pergunta, temos que quando a invasão for menor do que 5%, o dispositivo aplicável é o art. 1.258 do CC (analisa-se o terreno e a desvalorização). Nesse sentido, se o construtor estiver: · De boa-fé ele adquire a propriedade da parte do solo invadido, caso o valor da construção exceda o valor da parte invadida. Contudo, deverá responder por indenização (tanto em relação à área perdida pelo proprietário invadido quanto em relação à desvalorização da área remanescente). Nesse caso, teremos apenas o valor do solo envolvido na indenização. · De má-fé ele pagará em décuplo. · Dentro da primeira pergunta, temos que quando a invasão for superior à 5%, o dispositivo aplicável é o art. 1.259 do CC (analisa-se o terreno, a desvalorização e a área invadida). Nesse sentido, se o construtor estiver: · De boa-fé além do solo (área perdida pela invasão) e além da desvalorização, ele deverá pagar o valor que a invasão aumentar à construção beneficiada. · De má-fé ele é obrigado a demolir o que nele construiu (terreno invadido), pagando perdas e danos apurados, que serão devidos em dobro. Aula 2 - 19/05 1) Aquisição da Propriedade Mobiliária 1.1) Ocupação e Descoberta · Estávamos falando, anteriormente, de bens imóveis, mas os direitos reais não se circunscrevem, apenas, aos bens imóveis. Existe também um estudo a respeito da propriedade mobiliária. Tanto que essa propriedade mobiliária dos bens móveis encontra guarida em muitas coisas importantes, como, por exemplo, as garantias dos negócios jurídicos. No próximo semestre, nós vamos estudar algumas formas de garantia em que a propriedade mobiliária se torna importante e muito presente em vários negócios jurídicos, principalmente no setor primário (agricultura e pecuária). · Inicialmente, a gente pode falar da aquisição de um bem móvel, pensando em qualquer coisa que tenha algum significado econômico. Esse significado econômico poderá existir para alguns e não existir para outros; pode ser que uma pessoa queira ser dona de um determinado bem e pode ser, também, que uma pessoa não deseje mais aquele determinado bem. Ex: o professor e a sua filha estavam coletando conchas no mar e eles encontraram uma concha linda. Eles iriam devolvê-la para o mar, pois o objeto não interessava a eles, mas chegou uma senhora que ficou encantada com a concha e, então, eles entregaram o objeto a ela. Nesse exemplo, a concha do mar era uma coisa sem dono (res nullius). A partir do instante em que alguém verifica uma oportunidade de ter aquela coisa para si, aquela coisa será deste alguém e se aquela coisa que a pessoa deteve se assenhorou e essa pessoa verificar que há, ali, um cunho econômico envolvido ou transformá-la para que a coisa tenha um determinado valor, essa coisa poderá ser algo que integre o comércio e, com isso, haverá a possibilidade de se constituir um negócio jurídico, tal qual o das lojinhas de praia que vendem conchas do mar. · Vamos, agora, mudar o nosso exemplo. Vamos supor que alguém encontre uma concha na praia, mas que aquele objeto não interesse a essa pessoa e, assim, que ela abandone a concha. Nesse caso, nós teríamos uma coisa abandonada (res derelictae). Logo, uma res derelictae é uma coisa que a pessoa não quer mais, abandonando-a e a deixando como uma oportunidade para que outra pessoa desejá-la, se assenhorar dela e, eventualmente, dar uma destinação aquela coisa. · Quando nós falamos do assenhoramento, estaremos falando de um ato jurídico em sentido estrito. Na classificação dos negócios jurídicos, um fato, se tiver, justamente, um efeito jurídico, se transformará em um fato jurídico e esse fato jurídico, em tendo a participação humana, vai ser ou um ato em sentido estrito ou um negócio jurídico. Para esse ato de assenhoramento basta a manifestação de vontade de uma única pessoa para a produção dos efeitos jurídicos que o ordenamento jurídico prevê. · Esse ato jurídico em sentido estrito poderá ocorrer com o assenhoramento, seja de uma res nullius (coisa sem dono), seja de uma res derelictae (coisa abandonada). No entanto, nunca de uma res desperdicta (coisa perdida). Ex: uma pessoa encontra um celular na rua e consegue devolver o objeto para o dono. Nesse caso, algo foi perdido e, por isso, estamos diante da res desperdicta. Com isso, há uma obrigação, pois não é possível, no Direito Civil, que alguém que encontre um objeto perdido, fique com a coisa para si. Essa é a tônica do art. 1.233 do CC, in verbis: Art. 1.233 do CC - Quem quer que ache coisa alheia perdida há de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor. Parágrafo único. Não o conhecendo, o descobridor fará por encontrá-lo, e, se não o encontrar, entregará a coisa achada à autoridade competente. · Quem é o dono? Quem é esse legítimo possuidor? No caso de um celular é muito mais fácil encontrar quem é o dono ou o legítimo possuidor. No entanto, em outras circunstâncias, não é. Aí entra a regra do parágrafo único, que coloca que se o descobridor não encontrar o dono, deverá entregar a coisa achada à autoridade competente. · Nesse caso, nós estamos diante de um instituto jurídico chamado de descoberta e, aqui, o próprio ordenamento jurídico impõe uma obrigação de caráter legal em que o devedor é a pessoa que encontrou a coisa e essa pessoa que encontrou a coisa, deve restituí-la. · Qualquer coisa que tenha conteúdo econômico e que seja devolvida tem um parâmetro posto pelo art. 1.234 do CC que coloca que aquela pessoa que encontrou a coisa e levou o objeto ao legítimo possuidor, tem direito a uma recompensa/gratificação de, no mínimo, 5% do seu valor + o que pessoa despendeu para fazer a devolução (transporte, técnico do celular, etc). Ex: uma pessoa perdeu um celular de R$ 1.000, que foi achado por Fulano. Para restituir o objeto ao dono, Fulano gastou com transporte. Portanto, nesse caso, temos que o valor da recompensa será de R$ 50,00, mais o que Fulano gastou com a condução. · Vamos supor que uma pessoa perca o seu cachorro com pedigree e coloque um anúncio de R$ 1.000 para quem encontrá-lo. Nesse caso, nós temos uma declaração unilateral de bonificação. Contudo, se no anúncio de procura o dono não tiver especificado o valor da recompensa, tal situaçãotambém se enquadrará no art. 1.234 do CC. A título de curiosidade, hoje, é muito fácil encontrar os donos de animais de estimação perdidos, pois, atualmente, as clínicas veterinárias colocam chips pedigrees com todas as informações necessárias para a identificação do animal de estimação. Art. 1.234 do CC - Aquele que restituir a coisa achada, nos termos do artigo antecedente, terá direito a uma recompensa não inferior a cinco por cento do seu valor, e à indenização pelas despesas que houver feito com a conservação e transporte da coisa, se o dono não preferir abandoná-la. Parágrafo único. Na determinação do montante da recompensa, considerar-se-á o esforço desenvolvido pelo descobridor para encontrar o dono, ou o legítimo possuidor, as possibilidades que teria este de encontrar a coisa e a situação econômica de ambos. · Cumpre mencionar que assim como o descobridor tem direitos, ele também terá deveres art. 1.235 do CC. Art. 1.235 do CC - O descobridor responde pelos prejuízos causados ao proprietário ou possuidor legítimo, quando tiver procedido com dolo. · Ex: descobridor que chantageia a família para devolver o animal de estimação perdido. Nesse caso, o dolo do descobridor não afasta eventual responsabilidade. · Cumpre mencionar que qualquer ato doloso, para que tenha um efeito jurídico, tem que ser provado por quem o alega; não pode ser presumido. · Pois bem, até agora tratamos das hipóteses em que o descobridor encontra o dono ou o legítimo possuidor da coisa perdida, mas e se o descobridor não encontrá-lo? De acordo com o parágrafo único do art. 1.233 do CC: “se não o encontrar, entregará a coisa achada à autoridade competente”. Essa autoridade competente, de acordo com o art. 1.236 e 1.237 do CC, terá alguns procedimentos a serem seguidos. Art. 1.236 do CC - A autoridade competente dará conhecimento da descoberta através da imprensa e outros meios de informação, somente expedindo editais se o seu valor os comportar. Art. 1.237 do CC - Decorridos sessenta dias da divulgação da notícia pela imprensa, ou do edital, não se apresentando quem comprove a propriedade sobre a coisa, será esta vendida em hasta pública e, deduzidas do preço as despesas, mais a recompensa do descobridor, pertencerá o remanescente ao Município em cuja circunscrição se deparou o objeto perdido. Parágrafo único. Sendo de diminuto valor, poderá o Município abandonar a coisa em favor de quem a achou. · O caput do dispositivo fala em deduzidas do preço as despesas mais a recompensa do descobridor. Portanto, pode-se depreender que a recompensa/gratificação de, no mínimo, 5% do valor trazida pelo art. 1.234 do CC não se afasta e o descobridor deverá receber o valor correspondente. · Temos, aqui, a seguinte ordem: o descobridor não encontrou o proprietário publicação 60 dias hasta pública aquisição diminuição de todos esses valores (despesa e recompensa do descobridor) o restante fica com o Município. · Mas, e se a coisa for de pequeno valor? Nesse caso, a coisa volta para a pessoa que a achou se ela assim quiser. · O parágrafo único do art. 1.233 do CC fala que se o descobridor não encontrar o dono da coisa perdida, deverá entregará a coisa achada à autoridade competente. Mas quem é a autoridade competente? A delegacia, exceto quando existe um local, muito bem explicitado, de onde levar aquela coisa perdida. Ex1: achados e perdidos da PUC. Ex2: achados e perdidos do metrô. · E se a pessoa não entregar a coisa a autoridade competente, o que acontece? A pessoa não pode se apropriar da coisa alheia sem fazer todo o procedimento previamente mencionado. Se ela assim o fizer, incorrerá no crime do art. 169 do CP. Art. 169 do CP - Apropriar-se alguém de coisa alheia vinda ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza: Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa. Parágrafo único - Na mesma pena incorre: I - quem acha tesouro em prédio alheio e se apropria, no todo ou em parte, da quota a que tem direito o proprietário do prédio; II - quem acha coisa alheia perdida e dela se apropria, total ou parcialmente, deixando de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de entregá-la à autoridade competente, dentro no prazo de quinze dias. · O sujeito ativo desse crime é a pessoa que encontrou a coisa e dela se apropriou sem levá-la, previamente, a autoridade competente, atuando, assim, como se fosse o senhor daquela coisa. · Nos termos do artigo, existe um prazo para a devolução: 15 dias. · Pois bem, admitindo-se que a coisa tenha sido entregue à autoridade competente, haverá, nos termos do art. 746 do CPC, a lavratura de um auto de arrecadação pela autoridade policial. Cumpre mencionar que deste auto de arrecadação feito pela autoridade policial, será dada a notícia ao Poder Judiciário e aí vão tentar encontrar o respectivo dono da coisa perdida. Art. 746 do CPC/15 - Recebendo do descobridor coisa alheia perdida, o juiz mandará lavrar o respectivo auto, do qual constará a descrição do bem e as declarações do descobridor. § 1º Recebida a coisa por autoridade policial, esta a remeterá em seguida ao juízo competente. § 2º Depositada a coisa, o juiz mandará publicar edital na rede mundial de computadores, no sítio do tribunal a que estiver vinculado e na plataforma de editais do Conselho Nacional de Justiça ou, não havendo sítio, no órgão oficial e na imprensa da comarca, para que o dono ou o legítimo possuidor a reclame, salvo se se tratar de coisa de pequeno valor e não for possível a publicação no sítio do tribunal, caso em que o edital será apenas afixado no átrio do edifício do fórum. § 3º Observar-se-á, quanto ao mais, o disposto em lei. 1.2) Achado de Tesouro · O achado de tesouro encontra-se disciplinado pelos arts 1.264 a 1.266 do CC. · Caso uma pessoa encontre um tesouro, para que ela se torne proprietária do tesouro, ela precisará preencher os requisitos dispostos pelos art. 1.264 do CC, a saber: · A coisa encontrada deve ser antiga e estar escondida. · O dono não pode ser conhecido obviamente, não se pode saber quem é o dono do tesouro, pois se souber, é ele que é o proprietário. · E a descoberta tem que acontecer sem intenção, ou seja, “sem querer”. · Mesmo preenchidos estes requisitos, quem achar o tesouro ainda deverá, de acordo com o art. 1.264 do CC, dividi-lo com o dono do local em que o encontrou. Art. 1.264 do CC - O depósito antigo de coisas preciosas, oculto e de cujo dono não haja memória, será dividido por igual entre o proprietário do prédio e o que achar o tesouro casualmente. · De acordo com o art. 1.265 do CC: “o tesouro pertencerá por inteiro ao proprietário do prédio (local), se for achado por ele, ou em pesquisa que ordenou, ou por terceiro não autorizado”. De acordo com a redação do dispositivo, o dono do local será proprietário de tudo em 2 hipóteses: · Se a pessoa que descobriu o tesouro o estava procurando sem a devida autorização do proprietário a pessoa não tinha autorização para estar no local. · Se o proprietário do terreno ordenou a pesquisa o proprietário sabia, efetivamente, onde estava o tesouro. Logo, aquele tesouro será dele. · A contrário sensu, a aplicação daquele dispositivo (art. 1.264 do CC) em que vai ser dividido o lucro ou o valor do tesouro com o proprietário do local, somente é aplicável para terceira pessoa que esteja autorizada dentro daquele prédio e que tenha encontrado, casualmente, aquele tesouro. Art. 1.265 do CC - O tesouro pertencerá por inteiro ao proprietário do prédio, se for achado por ele, ou em pesquisa que ordenou, ou por terceiro não autorizado. · De acordo com o art. 1.266 do CC: “achando-se em terreno aforado, o tesouro será dividido por igual entre o descobridor e o enfiteuta, ou será deste por inteiro quando ele mesmo seja o descobridor” a enfiteuse é um instituto que não existe mais como uma forma do direito real de aquisição; aquelas que já o foram, perduram em virtude do direito adquirido; não obstante, ela não se forma mais. Mas o que é a enfiteuse? É um direito real sobre coisas alheias, que inclusive garante amplopoderes, já que garante a posse, a fruição, transmissão por herança e a possibilidade de alienação. Vamos pensar em um exemplo. Ex: um sujeito é proprietário de um terreno e ele gostaria que aquela região tivesse um maior adensamento populacional e, para tanto, ele concede a possibilidade, para outras pessoas, de construir naquele local. Essas pessoas terão a possibilidade de construir naquele local pelo resto da vida, estendendo-se, ainda, aquela prerrogativa de construção para os seus sucessores, ad eterno. Além disso, essa pessoa que recebeu a incumbência de construir no local, fica como proprietária, podendo, ainda, receber um determinado valor, também, ad eterno, a partir do instante em que ela ocupe o local. · Sempre que se tem a enfiteuse, nós falamos que o terreno da enfiteuse é um terreno aflorado. Ex1: região de Alphaville. Ex2: regiões de terreno de marinha. Art. 1.266 do CC - Achando-se em terreno aforado, o tesouro será dividido por igual entre o descobridor e o enfiteuta, ou será deste por inteiro quando ele mesmo seja o descobridor. · Quem é o descobridor? Aquela pessoa que estava autorizada a estar no local, tendo encontrado o tesouro casualmente. 1.3) Tradição · Sempre que nós vamos ter a alienação de algo, nós temos um ato solene. Quando se fala de um ato relativo a um imóvel, precisa de um documento e precisa ter uma entrega de uma determinada coisa; normalmente, de maneira simbólica, se entrega as chaves do imóvel. Então, quando nós falamos desse ato solene de transferência de algo de uma pessoa para outra, que foi materializado através de um negócio jurídico, nós temos a tradição. Nos termos do art. 1.267 do CC: “a propriedade das coisas não se transfere pelos negócios jurídicos antes da tradição”. · Cumpre mencionar que a tradição pode ter as seguintes modalidades: · Real na tradição real, a coisa é efetivamente entregue, de modo concreto. Ex: um livro que se adquire. · Ficta na tradição ficta, nós vamos ter, de maneira fictícia a tradição; a transferência é só no papel. O instituto do constituto possessório é muito bom para entendermos a modalidade da tradição ficta. Vamos supor que uma pessoa tenha um trator utilizado para lavoura, este proprietário do trator, que também é proprietário da fazenda, vai buscar um determinado banco para conseguir um empréstimo para plantio da safra futura e o banco vai pedir uma garantia. O proprietário pode fornecer o trator em garantia ao banco. Pois bem, o banco não tem onde guardar o trator e o trator não vai ficar com ele, pois o proprietário vai utilizar o trator na safra. Nesse caso, podemos depreender que a garantia é do banco e o proprietário fica como depositário do bem. Portanto, de uma maneira ficta, ou seja, apenas no papel, haverá essa transferência para o banco. Essa é a tônica do parágrafo único do art. 1.267 do CC, in verbis: Art. 1.267, § único, do CC - Subentende-se a tradição quando o transmitente continua a possuir pelo constituto possessório; quando cede ao adquirente o direito à restituição da coisa, que se encontra em poder de terceiro; ou quando o adquirente já está na posse da coisa, por ocasião do negócio jurídico. · Em relação à parte final do parágrafo único, podemos pensar no seguinte exemplo. Ex: o locatário alugou um apartamento por 30 meses. O proprietário quer vender o imóvel mas, para tanto, precisa, primeiramente, oferecer ao locatário. Vamos imaginar que ele assim o faça e que o locatário compre o imóvel. Nesse caso, nós também estamos diante de uma tradição ficta; subentende-se a tradição. · Simbólica a tradição simbólica, a transferência é simbólica. Ex1: entrega do carro. Ex2: entrega das chaves. Ex3: warrent representativo de uma commodities posta em um armazém geral. · Existe, também, a Tradição a Non Domino que, nos termos do art. 1.268 do CC, é a tradição feita por quem não é o proprietário. No caso, temos uma entrega/transferência por quem não tem o poder de fazê-lo. Então, de fato, ocorre a transferência, mas, de direito, a pessoa não tem essa possibilidade a transferência ocorre, apenas, de fato. No entanto, ela não vai produzir os efeitos jurídicos almejados. Isso pode ter, eventualmente, alguma exceção? Sim, mas, para tanto, precisaremos de: · Boa-fé. · Posterior aquisição da propriedade pela pessoa que se apresentava como sendo dona daquele bem Ex: alguém (A) figura no cartório de registro de imóveis como a dona de um determinado imóvel e faz um contrato de gaveta, transferindo aquela propriedade. Nesse caso, o adquirente (B) não figura, pelo menos a título erga omnes (caráter público) como proprietário do imóvel. Então, estaremos diante da Tradição a Non Domino. Vamos imaginar, agora, que, posteriormente, a dona do imóvel (A) adquira, regularmente, a propriedade do imóvel e que, em seguida, o adquirente (B), transfira o imóvel para o C. Nesse caso, a eventual transferência que o B faça para o C se materializa e considera-se realizada a transferência desde o momento em que ocorreu a tradição. Essa é a tônica do parágrafo 1º do art. 1.268 do CC que coloca que: “se o adquirente estiver de boa-fé e o alienante adquirir depois a propriedade, considera-se realizada a transferência desde o momento em que ocorreu a tradição”. Mas e se a propriedade não for adquira de uma maneira efetiva? Se a propriedade não foi adquirida posteriormente pelo alienante, para a devida legitimação do negócio jurídico, deve retornar para o real dono (+ perdas e danos). · Cumpre mencionar que o negócio jurídico poderá, ainda, ser declarado nulo na hipótese do parágrafo 2º do art. 1.268 do CC. Art. 1.268 do CC - Feita por quem não seja proprietário, a tradição não aliena a propriedade, exceto se a coisa, oferecida ao público, em leilão ou estabelecimento comercial, for transferida em circunstâncias tais que, ao adquirente de boa-fé, como a qualquer pessoa, o alienante se afigurar dono. § 1º Se o adquirente estiver de boa-fé e o alienante adquirir depois a propriedade, considera-se realizada a transferência desde o momento em que ocorreu a tradição. § 2º Não transfere a propriedade a tradição, quando tiver por título um negócio jurídico nulo. 1.4) Especificação · A especificação é a transformação de alguma coisa em outra. Ela é algo voluntário, consciente e proposital. Ex: criança pega uma argila e transforma em uma estátua. · A especificação pode ocorrer de que modo? Com qualquer coisa que seja transformada por alguém. Isso é muito comum com artistas plásticos. · De acordo com o art. 1.269 do CC: “aquele que, trabalhando em matéria-prima em parte alheia, obtiver espécie nova, desta será proprietário, se não se puder restituir à forma anterior” esse dispositivo contempla a pessoa do transformador, que é intitulada especificador. Art. 1.269 do CC - Aquele que, trabalhando em matéria-prima em parte alheia, obtiver espécie nova, desta será proprietário, se não se puder restituir à forma anterior. · E o dono da matéria prima utilizada pelo transformador/especificador? Há uma indenização. No entanto, nos termos do art. 1.270 do CC: “se toda a matéria for alheia, e não se puder reduzir à forma precedente, será do especificador de boa-fé a espécie nova”. Art. 1.270 do CC - Se toda a matéria for alheia, e não se puder reduzir à forma precedente, será do especificador de boa-fé a espécie nova. · E se, eventualmente, ocorrer algum prejuízo? O prejuízo é ressarcido (Teoria da Responsabilidade Civil). Essa é a tônica do art. 1.271 do CC, que coloca que: “aos prejudicados, nas hipóteses dos arts. 1.269 e 1.270, se ressarcirá o dano que sofrerem, menos ao especificador de má-fé, no caso do § 1 o do artigo antecedente, quando irredutível a especificação”. Art. 1.271 do CC - Aos prejudicados, nas hipóteses dos arts. 1.269 e 1.270, se ressarcirá o dano que sofrerem, menos ao especificador de má-fé, no caso do § 1 o do artigo antecedente, quando irredutível a especificação. · E se a pessoa estiver de má-fé e for impraticável a redução/retorno? Incidem os parágrafos 1º e 2º do art. 1.270 do CC, in verbis: Art. 1.270do CC - Se toda a matéria for alheia, e não se puder reduzir à forma precedente, será do especificador de boa-fé a espécie nova. § 1º Sendo praticável a redução, ou quando impraticável, se a espécie nova se obteve de má-fé, pertencerá ao dono da matéria-prima. § 2º Em qualquer caso, inclusive o da pintura em relação à tela, da escultura, escritura e outro qualquer trabalho gráfico em relação à matéria-prima, a espécie nova será do especificador, se o seu valor exceder consideravelmente o da matéria-prima. · Se a pessoa sabia que a coisa pertencia a outra e, mesmo assim, a tomou sem a devida autorização, aplica-se o parágrafo 1º do dispositivo. 1.5) Confusão, ComisTão e Adjunção · Aqui, o correto é comistão e não comissão erro material do Código Civil ao se referir à “Comissão”. · Confusão é a mistura de líquidos. Ex: mistura de água com suco de uva concentrado integral. Nesse caso, não dá para identificar o que é um e o que é outro. Qualquer mistura de líquidos em que não se consiga retornar ao estado anterior recebe o nome de confusão. · A comistão é a mistura de sólidos. Ex: tijolo de material cerâmico que é feito junto com cimento e que se agrega a outro tijolo. · A adjunção é a justaposição de uma coisa à outra. Ex1: tijolo que é sobreposto pela argamassa, seguido de outro tijolo, que é sobreposto por mais argamassa e assim sucessivamente. · Cumpre mencionar que existem processos industrializados que geram a comistão, outros que geram a adjunção e outros que geram a confusão e não haverá nenhum problema se a coisa pertencer a uma única pessoa. No entanto, ocorrerá um conflito se a coisa pertencer a diversos donos. Como esse conflito será resolvido? Caso a pessoa esteja de boa-fé: · Se for possível a separação aplica-se o art. 1.272 do CC, que coloca que: “As coisas pertencentes a diversos donos, confundidas, misturadas ou adjuntadas sem o consentimento deles, continuam a pertencer-lhes, sendo possível separá-las sem deterioração”. · Não sendo possível a separação aplica-se o parágrafo 1º do art. 1.272 do CC que dispõe que: “Não sendo possível a separação das coisas, ou exigindo dispêndio excessivo, subsiste indiviso o todo, cabendo a cada um dos donos quinhão proporcional ao valor da coisa com que entrou para a mistura ou agregado”. Se não der para separar ou se houver um dispêndio muito grande para fazer a separação, a coisa vai ser tida como indivisível. E o que vai acontecer? Os donos vão ter, proporcionalmente, ao valor daquilo que foi utilizado, um percentual. Ex: vamos supor que, com isso, a gente chegue nos seguintes percentuais: 90% e 10%. Nesse caso, aquele que detém os 90% vai ser considerado o dono e indenizará o que tiver o percentual menor (10%). Essa é a tônica do parágrafo 2º do art. 1.272 do CC, que coloca que: “Se uma das coisas puder considerar-se principal, o dono sê-lo-á do todo, indenizando os outros”. · Mas e se a pessoa estiver de má-fé? Aplica-se o art. 1.273 do CC, que afirma que: “Se a confusão, comissão ou adjunção se operou de má-fé, à outra parte caberá escolher entre adquirir a propriedade do todo, pagando o que não for seu, abatida a indenização que lhe for devida, ou renunciar ao que lhe pertencer, caso em que será indenizado”. 1.6) Usucapião · Quando estudamos a usucapião imobiliária, nós vimos que existem prazos de 15, 10, 5 e, de uma maneira excepcionalíssima, a usucapião familiar de 2 anos. · Na usucapião de bem móvel, o art. 1.260 do CC disciplina que: “Aquele que possuir coisa móvel como sua, contínua e incontestadamente durante três anos, com justo título e boa-fé, adquirir-lhe-á a propriedade”. Esse dispositivo trata da usucapião ordinária de bem móvel e, nesse caso, o prazo é de 3 anos. Ex: veículo roubado em São Paulo, transferido ao Paraná, estado em que é realizada uma nova documentação do veículo e, por fim, transferido à uma agência do Rio de Janeiro. Vamos supor que uma pessoa compre o carro na concessionária, mas não saiba que ele era roubado (a pessoa está de boa-fé). Nesse caso, o consumidor final, que comprou na concessionária, poderá, minimamente, requerer a usucapião, que poderá, inclusive, ser somada com o prazo de retenção da loja. Se atingido os 3 anos, o adquirente será o proprietário do veículo. Na usucapião ordinária (art. 1.260 do CC), nós falamos, apenas, de justo título e de boa-fé e o prazo é de 3 anos. · O art. 1.261 do CC traz a usucapião extraordinária de bem móvel. Nessa modalidade de usucapião não importa o justo título ou a boa-fé, mas o prazo é superior a 5 anos. De acordo com o dispositivo: “Se a posse da coisa móvel se prolongar por cinco anos, produzirá usucapião, independentemente de título ou boa-fé”. Ex: ilustrando com o mesmo exemplo citado acima, para ser proprietário do veículo, passados mais de 5 anos, o adquirente nem precisaria comprar a boa-fé. 2) Perda da Propriedade · Nós terminamos a aquisição da propriedade. Agora, vamos falar da perda da propriedade: formas em que alguém deixará de ser proprietário, seja em virtude de ato jurídico em sentido estrito (incisos II e III), seja em virtude de negócio jurídico (inciso I). Nós temos, meramente, um rol exemplificativo no art. 1.275 do CC. Art. 1.275 do CC - Além das causas consideradas neste Código, perde-se a propriedade: I - por alienação; II - pela renúncia; III - por abandono; IV - por perecimento da coisa; V - por desapropriação. Parágrafo único. Nos casos dos incisos I e II, os efeitos da perda da propriedade imóvel serão subordinados ao registro do título transmissivo ou do ato renunciativo no Registro de Imóveis. Art. 1.276 do CC - O imóvel urbano que o proprietário abandonar, com a intenção de não mais o conservar em seu patrimônio, e que se não encontrar na posse de outrem, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade do Município ou à do Distrito Federal, se se achar nas respectivas circunscrições. § 1º O imóvel situado na zona rural, abandonado nas mesmas circunstâncias, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade da União, onde quer que ele se localize. § 2º Presumir-se-á de modo absoluto a intenção a que se refere este artigo, quando, cessados os atos de posse, deixar o proprietário de satisfazer os ônus fiscais. · O caput do dispositivo trata de um imóvel abandonado que ninguém invadiu, ninguém se interessa e ninguém tem a posse. · No parágrafo 1º do artigo, nós estaremos diante de uma intenção de abandono (animus abandonandi) se cessados quaisquer atos de posse e se o proprietário deixar de pagar o imposto. · Nos termos do Enunciado 243 da III Jornada de Direito Civil, a presunção de que trata o §2º do art. 1.276 não pode ser interpretada de modo a contrariar a norma do princípio do art. 150, IV da Constituição da República o que se quis designar com isso? Que se o proprietário deixar de satisfazer os ônus fiscais, isto é, se ele deixar de pagar o imposto relativo à coisa, a pessoa política não poderá simplesmente tomá-la sem a devida indenização. Art. 150 da CF - Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: IV - utilizar tributo com efeito de confisco; · Por fim, nós temos a destruição que é o perecimento e a desapropriação, que é um meio administrativo de transferência. Aula 3 - 26/05 1) Direito de Vizinhança 1.1) Introdução · Quem nunca se aborreceu com alguma atitude de alguma pessoa da nossa convivência social perto da nossa residência? Todo mundo. · Ex1: O Parra estava escrevendo a sua tese de doutorado e, na época, ele tinha, como vizinhos, um grupo de jovens que tinha uma banda de rock barulhenta. O grupo realizava os ensaios na garagem da casa e por volta das 09:00 às 13:00. Ex2: O Parra morou em outro prédio e, nesse prédio, ele tinha, como vizinho, um cantor que fazia ensaios em uma casa com isolamento acústico. Esses exemplos são completamente antagônicos. De um lado, nós temos um cantor com recursos suficientes para realizar um isolamento acústicoem sua residência e, assim, não incomodar os seus vizinhos e, de outro, nós temos um grupo de adolescentes, que estava em início de carreira e que não tinha aquele local próprio com um isolamento para realizar os ensaios. · Como conjugar as situações trazidas pelos exemplos supracitados? Como fazer com que exista uma harmonia entre o lazer e o direito de profissão e o sossego dos vizinhos? Devem ser criadas normas que objetivem essa harmonização. Essas normas precisam ter por base alguns preceitos/diretrizes. Por quê? Porque apesar do detentor ou possuidor do imóvel possuir o direito de usufruí-lo, esse direito de usufruir do imóvel se limita ao incômodo ao outro. Logo, para isso, há a necessidade de um limite. O problema se dá quando, naquela cidade/região, não existir o limite (em norma não há nada). Se não existir nada em norma, o conflito vai ser, obviamente, judicializado. Então, em tese, precisa existir uma norma que venha a harmonizar esses conflitos. Em não existindo, será possível judicializar. · Nos casos de ausência de norma, como será possível solucionar os conflitos judicializados que ocorrem diuturnamente? Incialmente, o nosso Código Civil buscou entender como deve ser a utilização de uma determinada propriedade. Por quê? Porque essa propriedade pode ser utilizada tanto do modo pelo qual a coletividade objetiva, quanto de outro modo. Incialmente, qualquer coletividade vai ter, na sua cidade, uma divisão. Ex: uma cidade muito pequena vai poder ser separada em zonas “se você quiser exercer uma atividade industrial, você só poderá ficar naquele zoneamento (quadrilátero central). As atividades comerciais só poderão ser exercidas no quadrilátero meridional. Já as residências podem ficar tanto no quadrilátero central quanto no centro mais expandido”. Em qualquer cidade existirá esse projeto e, assim, qualquer pessoa poderá observar a norma para ver se, eventualmente, aquela atividade poderá ser desempenhada no local escolhido é preciso saber se naquele local se admite aquela atividade. Essa foi a primeira forma de solução que o legislador imaginou. · É importante mencionar que se esse desempenho de atividade por local determinado for desrespeitado, nós teremos a possiblidade de uma sanção. 1.2) Uso anormal da propriedade · De acordo com o art. 1.277 do CC: “O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos que o habitam, provocadas pela utilização de propriedade vizinha”. · Pois bem, vamos pegar a ideia de norma apresentada acima e combinar com o art. 1.277 do CC há uma normatização posta em todas as cidades e, ao mesmo tempo, nós temos uma norma do Código Civil (art. 1.277) que determina que esses três S’s (segurança, sossego e saúde) devem ser preservados. Essas diretrizes fundamentais - seja relacionado àquilo que a coletividade almeja, seja relacionado àquilo que a pessoa que utiliza do imóvel não pode fazer - é que vão dar a tônica de qualquer solução. Então, vamos ter, logicamente, atos que deverão ser tolerados e outros que não. · Serão levados em consideração: · Critérios objetivos. · Finalidade social. Art. 1.277 do CC - O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos que o habitam, provocadas pela utilização de propriedade vizinha. Parágrafo único. Proíbem-se as interferências considerando-se a natureza da utilização, a localização do prédio, atendidas as normas que distribuem as edificações em zonas, e os limites ordinários de tolerância dos moradores da vizinhança. · O parágrafo único do art. 1.277 do CC determina que as interferências serão proibidas dependendo do que esteja ocorrendo (própria natureza da utilização). No entanto, essa proibição vai estar condicionada à verificação da distribuição do zoneamento daquela cidade, bem como aquilo que pode ser tolerado. Assim, temos critérios de: tolerância, bom convívio, zoneamento. Ademais, as “perturbações” dos vizinhos também não poderão interferir naqueles três S’s (segurança, sossego e saúde) · Ex1: o vizinho fumante pode fumar na sacada, sabendo que ele mora em uma casa geminada e que a fumaça pode invadir as casas ao lado? isso afetará a segurança, o sossego ou a saúde? Se a fumaça interferir na saúde, na segurança ou no sossego dos vizinhos, ele não poderá; ele vai precisar, de algum modo, encontrar um mecanismo que não venha a prejudicar os interesses. · Ex2: em um determinado espaço, situa-se uma igreja, que - através do zoneamento - está em um local que ela pode utilizar, ou seja, as atividades dela são permitidas. Essa igreja pode, aos domingos às 18:00h, produzir sons, de modo que os vizinhos se sintam incomodados? · Existe alguma diferença entre os exemplos acima mencionados? Os dois atos acima (fumaça do cigarro e sons da igreja) são de interferência. No entanto, para que qualquer aplicador do direito consiga responder à pergunta, ele precisará observar uma classificação, qual seja: atos ilegais, atos abusivos e atos lesivos. · Atos ilegais: eles são proibidos; a lei não deixa que esses atos existam. Em sendo assim, o art. 186 do CC denota a responsabilização em caso de violação, dizendo que: “aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. Exs: proibições relacionadas ao próprio zoneamento, aos níveis de poluição sonora, a produção de lixo, etc Havendo uma norma que proíba essas práticas, nós estaremos diante de um ato ilícito e, em caso de descumprimento, cabe indenização. · Atos abusivos: nesse caso, nós estaremos diante de um comportamento que a própria lei tolera. Esse comportamento, certamente, existirá entre os vizinhos, sejam eles contíguos ou não, mas vai existir um grau de tolerância, até pelo próprio convívio social. O art. 187 do CC diz que: “também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes”. Pois bem, de acordo com o dispositivo, o grau de tolerabilidade deve ser analisado caso a caso. Mas como essa análise vai ser feita? Mediante a análise dos três S’s (segurança, sossego e saúde). Será preciso verificar se a interferência está afetando a segurança, o sossego ou a saúde esses serão os elementos que deverão ser utilizados para essa análise e por, logicamente, um critério incialmente subjetivo, o incomodado precisará comprovar o dano. Ex1: se o indivíduo ao lado do vizinho fumante comprovar que a sua família tem problemas alérgicos e ao fumar naquele local, o vizinho está interferindo na saúde de sua família, esse indivíduo conseguirá provar o ato abusivo de seu vizinho. Ex2: se a igreja exacerbar no exercício da sua atividade, ela deverá atenuar aquele determinado mal, mal este que deverá ser provado por quem o estiver sofrendo. Qualquer pessoa que tenha um dano, em face, justamente, dos três S’s (segurança, sossego e saúde), vai ter de comprovar e demonstrar que aquele comportamento deverá ser evitado. · Atos lesivos: são aqueles que causam danos, apesar de ser permitida a realização daquela atividade naquela intensidade. Em outras palavras, a pessoa está fazendo um ato que é, expressamente, admitido por lei. Se existe uma norma que admite aquele ato e a pessoa está realizando o ato daquele jeito e, mesmo assim, está interferindo nos três S’s (segurança, sossego e saúde), o que ocorre? Se existe norma, por óbvio, nós estamos diante de um ato de autorização do Poder Público e a pessoa pode fazer aquilo. Só que ela está causando um mal. Ela vai poder exercer essa atividade? Vai, porém, deverá atenuar ou compensar o dano. · No art. 1.277 do CC nós vamos ter a configuração dos atos ilegais e abusivos que deverão ser coibidos, a ponto até, se for necessário, do juiz fixar uma multa diária para o caso de persistência da interferência. Possibilidade do proprietárioou possuidor fazer cessar as interferências ilegais ou abusivas provocadas pela utilização da propriedade vizinha, em detrimento de sua segurança, de seu sossego e de sua saúde. Art. 1.277 do CC - O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos que o habitam, provocadas pela utilização de propriedade vizinha. Parágrafo único. Proíbem-se as interferências considerando-se a natureza da utilização, a localização do prédio, atendidas as normas que distribuem as edificações em zonas, e os limites ordinários de tolerância dos moradores da vizinhança. · Ao lado de tudo isso, vamos ter a análise da pré-posse (posse antecedente). O que é isso? Naquele local já existia aquela interferência, ela era notória e, mesmo assim, a pessoa foi morar no local, mas depois alegou que a interferência estava ocorrendo se ocorrer esse fato, deverá, de algum modo, a compatibilização de um com o outro. Ex: uma determinada fábrica trabalha na produção de pisos e azulejos e, mesmo assim, o vizinho resolve morar ao lado da fábrica. Vamos imaginar que a fábrica está exercendo uma atividade que o Poder Público autoriza e estando tudo normal, o vizinho não poderá reclamar de nada. · Cumpre mencionar que o juiz tem que analisar alguns critérios para aferir a normalidade ou anormalidade de utilização de um imóvel, a saber: · Verificação da extensão do dano ou do incomodo causado é algo tolerável? Acontece com frequência? É algo que afete de maneira incisiva a saúde, a segurança ou sossego? Ex: existe a possibilidade de se ter pets em um determinado condomínio; normalmente, a norma condominial vai especificar o tamanho, a quantidade, etc. No entanto, mesmo com essas especificações isso não impede de ocorrer alguma interferência e, de alguma maneira, causar um dano. Pois bem, se estamos em um local que se admite pets, esse local admite, também, os sons normais produzidos pelos pets e os hábitos normais que os pets estão sujeitos. Vamos imaginar que o cachorro de um determinado apartamento desse condomínio comece a latir, porque o outro vizinho faz do hall uma extensão da sala de visitas. O vizinho, incomodado com barulho, dá queixa em virtude dos latidos do cachorro. Nesse caso, quem tem razão? O vizinho ou o dono do cachorro? O pet está de acordo com as normas postas e é, absolutamente, normal que ele lata e, dentro da conduta do mundo canino, é normal que o cachorro avise sobre uma eventual situação anormal existente no hall. Se o cachorro latisse de maneira desenfreada o dia inteiro e sem motivo seria uma situação, mas tendo motivo é outra. Então, nesse caso, quem tem razão é o dono do cachorro. · Examinar a zona onde ocorre o conflito, bem como os usos e costumes locais localização, utilização, zoneamento e os próprios limites de tolerabilidade que vem existir e serem analisados. · Considerar a anterioridade da posse. · Como dissemos, os três S’s (saúde, segurança e sossego) é que são a tônica de qualquer interpretação jurídica em qualquer fato. · Segurança Ex: uma pedreira faz muito barulho e pode, eventualmente, até causar rachaduras nas residências ao lado. Isso está dentro dos padrões? Se a pedreira puder exercer aquela atividade naquele local, a atividade será lícita. Se as atividades da pedreira estiverem dentro dos padrões e existir uma autorização por parte do Poder Público, não há a possibilidade de impedir a continuação das atividades, porém, a pedreira poderá, eventualmente, compensar eventuais prejuízos. · Sossego Ex: obras no período noturno. Será que pode haver uma obra de madrugada em um condomínio? Se for uma obra necessária e houver previsão legal, ela poderá ser feita. Do contrário, não (observância da lei, de normas específicas e da própria finalidade da obra). · Saúde a saúde pode ser afetada por atividades lícitas ou não. Se a atividade for lícita e permitida de um modo expresso e mesmo assim afetar a saúde, vão existir consequências. Ex: um posto de gasolina da Shell em São Matheus emitia gás tóxicos, dentro dos limites tolerados, e outras substâncias de caráter poluidor. A atividade era permitida, porque o posto estava em um zoneamento adequado. No entanto, os moradores do entorno começaram a ter problema de saúde (câncer) e provou-se, depois de muito tempo, que o câncer era derivado daqueles produtos químicos. Nesse caso verídico, a Shell teve que indenizar todos os doentes e pagar os seus tratamentos apesar da plena licitude do exercício da atividade. · É importante mencionar que seja com relação à saúde, à segurança ou ao sossego, o decoro não vai estar abrangido. Sobre isso, Carlos Roberto Gonçalves coloca que: “o proprietário ou o possuidor de um prédio não têm como impedir que prostitutas se instalem nos apartamentos, desde que não perturbem o sossego dos demais moradores”. · Se a interferência não for tolerável, teremos que observar: · 1º) Pedido para redução a proporções normais, horários, colocação de aparelhos, barreiras. · 2º) Não sendo possível a adequação (interesses particulares envolvidos) cessação da atividade ou demolição da obra. · 3º) Não sendo possível a adequação (interesses socialmente relevantes) não se determina o fechamento. Essa é a tônica do art. 1.278 do CC que coloca que: “O direito a que se refere o artigo antecedente não prevalece quando as interferências forem justificadas por interesse público, caso em que o proprietário ou o possuidor, causador delas, pagará ao vizinho indenização cabal”. De acordo com o exposto temos que se a atenuação não for possível ou a interferência continuar, se cogitará a cessação da atividade e, eventualmente, se estivermos falando de uma obra, a própria demolição. Ademais, se houver a redução, mas ela não for suficiente pode haver a solução por: (redução + indenização), (redução + indenização + cessação), ou uma análise com uma adequação paulatina. Por fim, se a atividade prejudicar alguns moradores, mas beneficiar, de maneira muito mais ampla, a coletividade, ela poderá funcionar normalmente, desde que haja a indenização. · Ação para a tutela dos direitos cominatória · A obrigação de se abster da prática dos atos prejudiciais. · Tomar as medidas adequadas para a redução do incômodo. · Imposição de pena de pagamento de multa diária (astreinte). · Prestação de caução (se for o caso). Art. 1.280 do CC - O proprietário ou o possuidor tem direito a exigir do dono do prédio vizinho a demolição, ou a reparação deste, quando ameace ruína, bem como que lhe preste caução pelo dano iminente. · Essa caução é uma garantia em virtude de algo que no direito nós chamamos de dano infecto, ou seja, inerente/próprio. · Com isto, existirá a possibilidade de uma demolitória ou não pode ser que a atividade seja algo passível de continuidade e, se não for, haverá a demolição. Art. 1.281 do CC - O proprietário ou o possuidor de um prédio, em que alguém tenha direito de fazer obras, pode, no caso de dano iminente, exigir do autor delas as necessárias garantias contra o prejuízo eventual. 1.3) Árvores Limítrofes · As árvores limítrofes também compõem o direito de vizinhança. · De acordo com o art. 1.282 do CC: “A árvore, cujo tronco estiver na linha divisória, presume-se pertencer em comum aos donos dos prédios confinantes”. Analisando o desenho abaixo temos que pelo fato da árvore estar no limite do terreno de B e o seu galho se projetar para o terreno de A, ela pertence a ambos os proprietários. Se ela estivesse, inteiramente, na esfera do terreno de B, apenas ele seria o proprietário. Em se tratando da retirada da árvore, ela só será possível se ambos os proprietários concordarem e com a autorização do Poder Público. Por fim, em caso de litígio, os proprietários deverão se socorrer do Poder Judiciário. · Frutos art. 1.284 do CC. Art. 1.284 do CC - Os frutos caídos de árvore do terreno vizinho pertencem ao dono do solo onde caíram, se este for de propriedade particular. · Se cair em propriedade pública, continua a pertencer ao dono da árvore.