Prévia do material em texto
m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ ANEMIAS HEMOLÍTICAS P R O F . H U G O B R I S O L L A m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED 2Prof. Hugo Brisolla| Anemias HemolíticasHEMATOLOGIA PROF. HUGO BRISOLLA APRESENTAÇÃO @estrategiamed /estrategiamed Estratégia Med t.me/estrategiamed Olá, Estrategista. Hoje trataremos de condições muito interessantes, as anemias hemolíticas. Esse é um conjunto extenso de doenças muito diversas, algumas muito frequentes e algumas muito raras, tanto na prática clínica quanto nas provas de Residência. Hemoglobinúria paroxística noturna Anemias hemolíticas microangiopáticas Talassemia Anemia falciforme Esferocitose hereditária Deficiência de G6PD Anemias hemolíticas autoimunes Classificação das anemias hemolíticas ANEMIAS HEMOLÍTICAS 36% 17%15% 6% 7% 4% 12% 3% Este é um livro bem extenso, abordando inúmeras doenças diferentes, com fisiopatologias próprias e peculiaridades em seu quadro clínico, diagnóstico e tratamento. A maioria das questões aborda a anemia falciforme e as talassemias, mas eventualmente você se verá diante de condições mais raras, como a deficiência de G6PD, a esferocitose hereditária e a hemoglobinúria paroxística noturna. Realcei ao longo do texto todos os pontos mais cobrados de cada doença, para que você saiba as informações que deve priorizar. Sei que este é um livro longo, mas temos temas muito importantes aqui tratados. Estude com calma e acertará valiosas questões nas provas! Bons estudos! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ https://www.instagram.com/estrategiamed/?hl=pt https://www.facebook.com/estrategiamed1/ https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://t.me/estrategiamed m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 3 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED SUMÁRIO 1.0 INTRODUÇÃO À HEMÓLISE 5 1.1 TIPOS DE HEMÓLISE 5 1.2 QUADRO LABORATORIAL DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS 6 1.3 CLASSIFICAÇÃO DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS 10 2.0 ANEMIAS HEMOLÍTICAS CONGÊNITAS 13 2.1 ANEMIA FALCIFORME 13 2.1.1 EPIDEMIOLOGIA DA ANEMIA FALCIFORME 14 2.1.2 FISIOPATOLOGIA DA ANEMIA FALCIFORME 14 2.1.3 HERANÇA GENÉTICA NA ANEMIA FALCIFORME 16 2.1.4 TRIAGEM NEONATAL DA ANEMIA FALCIFORME 20 2.1.5 QUADRO LABORATORIAL DA ANEMIA FALCIFORME 21 2.1.5.1 COMPLICAÇÕES AGUDAS DA ANEMIA FALCIFORME 23 2.1.5.1.1 CRISES ÁLGICAS 23 2.1.5.1.2 AUTOESPLENECTOMIA 26 2.1.5.1.3 SEQUESTRO ESPLÊNICO 29 2.1.5.1.4 CRISE APLÁSICA E CRISE HIPER-HEMOLÍTICA 31 2.1.5.1.5 ACIDENTE VASCULAR ENCEFÁLICO ISQUÊMICO 34 2.1.5.1.6 SÍNDROME TORÁCICA AGUDA 35 2.1.5.1.7 PRIAPISMO 38 2.1.5.1.8 COMPLICAÇÕES OSTEOMUSCULARES DA ANEMIA FALCIFORME 39 2.1.5.2 COMPLICAÇÕES CRÔNICAS DA ANEMIA FALCIFORME 40 2.1.6 TRATAMENTO DA ANEMIA FALCIFORME 40 2.1.6.1 HIDROXIUREIA NA ANEMIA FALCIFORME 40 2.1.6.2 SUPORTE TRANSFUSIONAL NA ANEMIA FALCIFORME 42 2.1.7 OUTRAS HEMOGLOBINOPATIAS QUALITATIVAS 43 2.1.7.1 HEMOGLOBINOPATIA SC 44 2.1.7.2 S/β-TALASSEMIA 45 2.2 ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 47 2.2.1 FISIOPATOLOGIA DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 47 m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 4 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.2.2. QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 49 2.2.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 50 2.3 ELIPTOCITOSE HEREDITÁRIA 54 2.4 DEFICIÊNCIA DE G6PD 54 2.4.1 FISIOPATOLOGIA DA DEFICIÊNCIA DE G6PD 54 2.4.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA DEFICIÊNCIA DE G6PD 56 2.4.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA DEFICIÊNCIA DE G6PD 59 2.5 DEFICIÊNCIA DE PIRUVATO-QUINASE 60 3.0 ANEMIAS HEMOLÍTICAS ADQUIRIDAS 61 3.1 ANEMIAS HEMOLÍTICAS AUTOIMUNES - AHAI 61 3.1.1 CLASSIFICAÇÃO DAS AHAI 61 3.1.2 DIAGNÓSTICO DAS AHAI 63 3.1.3 TRATAMENTO DAS AHAI 67 3.2 ANEMIAS HEMOLÍTICAS MICROANGIOPÁTICAS 69 3.2.1 PÚRPURA TROMBOCITOPÊNICA TROMBÓTICA – PTT 70 3.2.1.1 FISIOPATOLOGIA DA PTT 70 3.2.1.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA PTT 72 3.2.1.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA PTT 75 3.2.2 SÍNDROME HEMOLÍTICO-URÊMICA – SHU 79 3.2.2.1 FISIOPATOLOGIA DA SHU 79 3.2.2.2 TRATAMENTO DA SHU 82 3.2.3 COAGULAÇÃO INTRAVASCULAR DISSEMINADA – CIVD 83 3.3 HIPERESPLENISMO 86 3.4 HEMOGLOBINÚRIA PAROXÍSTICA NOTURNA - HPN 89 3.4.1 FISIOPATOLOGIA DA HPN 89 3.4.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA HPN 91 3.4.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA HPN 93 4.0 FLUXOGRAMA DE INVESTIGAÇÃO DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS 95 5.0 LISTA DE QUESTÕES 96 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 97 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 97 m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 5 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAPÍTULO 1.0 INTRODUÇÃO À HEMÓLISE As hemácias ou eritrócitos são células discoides que realizam o transporte do oxigênio. Anucleadas e sem organelas celulares, as hemácias são basicamente “um saquinho de hemoglobina”, incapazes de produzir proteínas ou lipídios, o que faz com que tenham uma sobrevida limitada: com o tempo, a diminuição da atividade de suas enzimas, mudanças lipídicas em suas membranas e outras alterações não totalmente esclarecidas fazem com que as hemácias “envelheçam”. De fato, a vida média da hemácia humana é de 120 dias, período após o qual perde deformabilidade de membrana, o que faz que seja fagocitada e destruída pelos macrófagos do sistema reticuloendotelial, espalhados pelo baço, fígado e medula óssea. É o equilíbrio entre a produção de hemácias na medula, a eritropoiese e sua destruição normal pelo sistema reticuloendotelial, a hemocaterese, que nos permite manter quantidade de eritrócitos praticamente constante ao longo da vida adulta. Quando ocorre um desequilíbrio entre a fabricação e a degradação das hemácias é que se instalam os quadros de anemias, condições de redução da massa eritrocitária do indivíduo. Já conhecemos, nos livros anteriores, algumas das causas de anemias hipoproliferativas, em que essa redução eritrocitária ocorre por comprometimento da eritropoiese, como, por exemplo, na anemia ferropriva e na anemia megaloblástica. Hoje, abordaremos as anemias hemolíticas, aquelas derivadas de uma destruição eritrocitária precoce e aumentada, levando à redução de sua vida média habitual e consequente redução da massa eritrocitária total. Mas, antes de falar dessas condições em si, Estrategista, precisamos entender as formas pelas quais os eritrócitos podem sofrer hemólise. 1.1 TIPOS DE HEMÓLISE Hemólise é a destruição prematura das hemácias, encurtando sua vida média de 120 dias e podendo desencadear estado de anemia, caso supere a capacidade da medula óssea em repor os eritrócitos perdidos. Na maioria dos casos, esse processo é mediado pelos macrófagos, como ocorre fisiologicamente, constituindo o que chamamos de hemólise extravascular. Apesar de ocorrer também na medula óssea e no fígado, a hemólise extravascular é mediada principalmente pelo baço. Exemplos de anemias hemolíticas com componente predominantemente extravascular são a esferocitose hereditária, a anemia hemolítica autoimune por anticorpos quentes e o hiperesplenismo. Outras condições, entretanto, podem levar à hemólise intravascular, isto é, destruição das hemácias na própria circulação, rompendo sua membrana celular e levando à liberação de seu conteúdo citoplasmático. É o que ocorre na anemia hemolítica autoimune por anticorpos frios, nas anemias microangiopáticas, na deficiência de G6PD e na hemoglobinúria paroxística noturna. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi ae fígado normal. Hemograma demonstra Hb: 3; 10% de eritroblastos; plaquetas: 150.000 e Leucócitos 15.000, sem desvios. Qual a hipótese diagnóstica mais provável? A) Rotura traumática do baço B) Sequestro esplênico C) Anemia hemolítica autoimune D) Leucemia COMENTÁRIO O sequestro esplênico é uma das complicações falcêmicas mais abordadas na prova de Residência, caro Estrategista, e as questões seguem sempre esse mesmo padrão: somos apresentados a uma criança com anemia falciforme apresentando piora de sua anemia basal e esplenomegalia. Não deve haver dúvida: estamos diante de um quadro clássico de sequestro esplênico e medidas como hidratação endovenosa m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 31 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED e transfusão de hemácias devem ser prontamente instituídas. As demais condições listadas até podem levar à anemia e à esplenomegalia, mas não são tão associadas à anemia falciforme quanto o sequestro esplênico. Correta a alternativa B (Comissão Estadual de Residência Médica do Amazonas - CERMAM-2020) Pré–escolar de 02 anos, portador de anemia falciforme é levado a emergência apresentando dor abdominal, palidez acentuada (Hg 3g|dl), hipovolemia, reticulocitose, taquicardia, taquipneia, prostração, baço 5 cm do Rebordo Costal Esquerdo (RCE). A hipótese diagnóstica mais provável é: A) Sequestro esplênico B) Crise aplástica C) Colelitíase aguda D) Hepatite A COMENTÁRIO Viu como as questões são muito parecidas? Criança com anemia falciforme apresentando piora da anemia e esplenomegalia. Isso é sequestro esplênico, sem sombra de dúvidas! Nessa questão em especial, um ponto ajuda a corroborar o diagnóstico: a presença de reticulocitose. Lembre-se de que os reticulócitos são hemácias jovens, liberadas pela medula óssea em resposta à perda periférica de hemácias. No caso da sequestração esplênica, o aprisionamento das hemácias no baço e consequente redução dos níveis de hemoglobina fazem a medula produzir novas hemácias e liberá- las sob a forma de reticulócitos, levando a grandes reticulocitoses. Isso é importante porque nos ajuda a diferenciar o sequestro esplênico de outra complicação da anemia falciforme, a crise aplásica, que conheceremos a seguir. Correta a alternativa A 2.1.5.1.4 CRISE APLÁSICA E CRISE HIPER-HEMOLÍTICA O sequestro esplênico faz parte de um grupo de condições que pode levar à piora da anemia basal do paciente falcêmico, em conjunto com a crise aplásica e a crise hiper-hemolítica. Essas condições são bem mais raras nas provas de Residência, basicamente aparecendo em alternativas de questões como diagnóstico diferencial do sequestro esplênico. A crise aplásica decorre da infecção pelo parvovírus B19 ou eritrovírus B19, que possui um especial tropismo pelas células precursoras eritropoiéticas. Também causador do eritema infeccioso, esse vírus invade os progenitores eritroides na medula óssea, levando a sua destruição. Instala-se, assim, uma parada temporária na produção de hemácias. Como o paciente falciforme está constantemente em hemólise, essa mielossupressão temporária faz com que piore sua anemia basal, sendo a crise aplásica um importante diagnóstico diferencial do sequestro esplênico. Contudo, em pacientes com crise aplásica não esperamos encontrar esplenomegalia ou reticulocitose. Pelo contrário, a contagem de reticulócitos estará diminuída, indicando a parada de produção de novas hemácias pela medula. O tratamento é basicamente de suporte clínico, como mostra o resumo a seguir, até que a medula óssea se recupere da lesão viral e restabeleça a eritropoiese. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 32 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 19. Fisiopatologia da crise aplásica: a infecção pelo parvovírus B19 determina destruição dos progenitores eritropoiéticos, levando à parada temporária na produção de hemácias. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 33 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Por fim, a crise hiper-hemolítica é um estado de aumento da destruição das hemácias do paciente falcêmico, precipitada por eventos como infecção por micoplasma, deficiência de G6PD e reações transfusionais. Haverá aumento de provas de hemólise, como elevação de bilirrubina indireta e desidrogenase lática, além de grandes reticulocitoses. Não esperamos encontrar esplenomegalia. Compare essas três complicações agudas da anemia falciforme pela tabela a seguir: Sequestro esplênico Crise aplásica Crise hiper-hemolítica Aprisionamento de hemácias no baço Parada temporária na produção de hemácias por infecção pelo parvovírus B19 Aumento das taxas de hemólise precipitado por diversas condições Piora da anemia basal Piora da anemia basal Piora da anemia basal Com esplenomegalia Sem esplenomegalia Sem esplenomegalia Reticulocitose Reticulocitopenia Reticulocitose Hidratação e transfusão de hemácias Suporte clínico Suporte clínico Para fixar esses conceitos, vejamos a seguir uma questão que aborda o diagnóstico diferencial entre essas três condições. CAI NA PROVA (Hospital Israelita Albert Einstein - HIAE-SP 2017) Menino, 5 anos de idade, com diagnóstico de anemia falciforme, faz uso de penicilina oral desde os 8 meses de idade e recebeu vacinação adequada. Hoje apresenta adinamia, cansaço, dispneia, dor abdominal e fezes amolecidas. Ao exame físico: está pálido, a frequência cardíaca = 150 batimentos/minuto e o baço é palpável a 2 cm do rebordo costal esquerdo. No prontuário observa-se que a dosagem habitual de hemoglobina da criança = 9 g/dL. A medida no momento é Hb = 4,5 g/dL, com reticulócitos ausentes. O melhor exame para elucidação diagnóstica é: A) Mielograma. B) Hemocultura. C) Dosagem de ferritina. D) Coprocultura. E) Sorologia para Parvovírus. COMENTÁRIO Vamos lá, Estrategista, hora de usar os conhecimentos adquiridos. Temos uma criança falcêmica com clara piora de sua anemia basal, levando-nos a pensar nos três diagnósticos diferenciais mais importantes para esse quadro: sequestro esplênico, crise aplásica e crise hiper- hemolítica. O paciente apresenta um baço minimamente palpável, o que nos faz afastar a hipótese de sequestro esplênico, já que esperamos esplenomegalias moderadas a grandes nessa condição. O achado de reticulocitopenia corrobora esse raciocínio, também afasta a crise hiper- hemolítica e guia-nos ao diagnóstico correto: a crise aplásica. Nesse quadro, uma infecção pelo parvovírus B19 leva à parada temporária na produção de hemácias, causando baixa contagem reticulocitária e quedas nos níveis de hemoglobina do paciente. Assim, o melhor exame para confirmarmos o diagnóstico é a sorologia para esse vírus, como afirma a alternativa E! As demais opções trazem exames que não conseguiriam confirmar a crise aplásica. Correta a alternativa E m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 34 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.1.5.1.5 ACIDENTE VASCULAR ENCEFÁLICO ISQUÊMICO Ainda falando sobre as complicações da anemia falciforme que predominam sobre crianças, temos o acidente vascular encefálico isquêmico (AVEi). Estima-se que 11% dos pacientes falcêmicos terão um episódio de AVEi até os 20 anos de idade, enquanto esse é um evento raro na população pediátrica normal. Entre adultos jovens, na segunda e terceira década de vida, predomina o AVE hemorrágico, enquanto o AVEi volta a ser mais comum após os trinta anos. Decorrente da obstrução das artérias cerebrais comconsequente isquemia e infarto, o AVEi manifesta-se como na população geral: déficits focais, hemiparesia, deficiência visual, afasia. Em face da menor suspeita do evento, terapia específica deve ser instituída e é aí que o quadro será diferente da população geral: a primeira medida diante de um AVEi em paciente falciforme é a exsanguineotransfusão parcial ou transfusão de troca. Nesse procedimento, retiramos parte dos eritrócitos com HbS da circulação e infundimos hemácias normais, contendo HbA. Isso permite a redução da concentração da HbS para abaixo de 30%, evitando, assim, a falcização das hemácias e aliviando o evento agudo de vaso-oclusão. Figura 20. Exsanguineotransfusão parcial ou transfusão de troca: nesse procedimento, utilizamos uma máquina de aférese, capaz de separar as hemácias e o plasma através de uma centrífuga. As hemácias com HbS são então desprezadas, enquanto reconstituímos o sangue do paciente, unindo seu plasma a concentrados de hemácias normais, e reinfundimo-lo, levando a uma diminuição da concentração de HbS. Além desse método automatizado, podemos realizar a exsanguineotransfusão de forma manual, fazendo uma sangria (que retira hemácias com HbS), seguida de uma transfusão de hemácias normais. Paciente falcêmico com suspeita de AVEi deve ser prontamente submetido à transfusão de troca, mesmo que tenha tomografia de crânio normal! Passado o evento agudo, o paciente deverá ser mantido em um regime transfusional crônico como medida de profilaxia secundária, com objetivo de manter os níveis de HbS sempre abaixo de 30% e, assim, evitar a recorrência dos episódios de AVEi. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 35 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED PROFILAXIA PRIMÁRIA DE AVE EM PACIENTES FALCÊMICOS Diante do elevado risco de AVEi que possuem as crianças com anemia falciforme e da alta morbimortalidade a ele associada, é preconizado o uso do doppler transcraniano como forma de triagem para identificar pacientes de alto risco para essa complicação. Todo paciente falcêmico de 2 a 16 anos de idade deve ser submetido ao exame anualmente. Aqueles em que a velocidade de fluxo sanguíneo cerebral for maior de 200cm/s são considerados de alto risco para AVEi e devem ser encaminhados para avaliação de regime transfusional crônico como medida de profilaxia primária. CAI NA PROVA (Hospital São Lucas da PUC - RS - 2020) Mulher, 17 anos, com anemia falciforme, apresenta início súbito de hemiparesia esquerda. História de crises álgicas frequentes e síndrome torácica aguda. Faz uso contínuo de ácido fólico, hidroxiureia e analgésicos. Ao exame físico, Tax 36,8°C, PA 160/85 mmHg, FC 108 bpm, FR 22 mrpm. Exame neurológico: paresia em hemicorpo esquerdo e afasia. Hemograma revela Hb 8.7 g/dL, leucócitos 16.000/mm³ e contagem de plaquetas de 400.000/mm³. Ressonância magnética de encéfalo revela infarto agudo no território da artéria cerebral média direita. Qual é a melhor abordagem para prevenir novos eventos isquêmicos nessa paciente? A) Indicar esplenectomia B) Uso contínuo de anticoagulação C) Plasmaférese periódica D) Exsanguineotransfusão periódica COMENTÁRIO Veja bem, Estrategista, temos uma paciente falcêmica jovem apresentando um acidente vascular encefálico. Como vimos acima, a melhor medida para o tratamento dessa condição em portadores de anemia falciforme é a exsanguineotransfusão parcial ou transfusão de troca. Mais ainda, essa terapia é também indicada como profilaxia primária, ou seja, para evitar episódios de AVEi em pacientes que nunca o tiveram e apresentarem velocidade de fluxo cerebral maior que 200cm/s, e como a profilaxia secundária, para evitar novos episódios em pacientes que já sofreram essa intercorrência. As demais medidas apresentadas pela questão não são eficazes nesse sentido. Correta a alternativa D 2.1.5.1.6 SÍNDROME TORÁCICA AGUDA Agora que conhecemos as principais complicações que ocorrem em crianças falcêmicas, abordaremos as intercorrências que mais marcam a vida adulta dos pacientes com anemia falciforme. A principal delas é, sem dúvida, a síndrome torácica aguda, um grave quadro pulmonar que configura a causa mais comum de morte em adultos com a doença. Trata-se de uma síndrome clínica marcada pela presença de sintomas respiratórios e opacidade pulmonar nova à radiografia de tórax. Frequentemente é precedida por uma crise álgica. A síndrome torácica aguda é uma condição de origem multifatorial, envolvendo vaso-oclusão na circulação pulmonar, eventos tromboembólicos e infecção. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 36 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED As bactérias mais envolvidas na patogênese da síndrome torácica aguda são Streptococcus pneumoniae, Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae. Essa informação é importante para a escolha da antibioticoterapia empírica a ser utilizada na síndrome torácica aguda, o que eventualmente é cobrado nas provas. Sempre devemos suspeitar de síndrome torácica aguda diante de um paciente falcêmico com sintomas respiratórios, como tosse, dispneia e dor torácica. Nesses casos, é preciso solicitar uma gasometria arterial, a fim de verificar a presença de hipoxemia, a alteração mais precoce e marcante desse quadro. Além disso, a radiografia de tórax será essencial para confirmar o quadro, já que seu diagnóstico é feito clinicamente pelo achado de opacidade pulmonar em conjunção à sintomatologia respiratória. De elevada mortalidade, a síndrome torácica aguda deve ser manejada em internação hospitalar, através das medidas a seguir: • Medidas comuns a uma crise vaso-oclusiva: afastamento de desencadeantes, hidratação endovenosa e analgesia adequada à dor do paciente; • Oxigenoterapia: corrigir hipoxemia, se presente, evitando fornecer oxigênio se não for necessário; • Antibioticoterapia empírica: uso de cefalosporinas de terceira ou quarta geração, associadas a macrolídeos (ceftriaxona + claritromicina, por exemplo), com objetivo de cobrir os microrganismos mais comuns; • Suporte transfusional: indicado sempre que houver acentuada dispneia ou sinais de hipoxemia, como queda de saturação ou redução do conteúdo arterial de oxigênio. Em casos de hematócrito abaixo de 30%, pode-se utilizar a transfusão simples de hemácias. Já com hematócrito maior de 30%, preferimos a exsanguineotransfusão parcial, com fins de evitar-se a hemoviscosidade. Veja a seguir um esquema que resume a síndrome torácica aguda, antes que vejamos como ela é abordada nas questões: m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 37 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 21. Fisiopatologia, quadro clínico e tratamento da síndrome torácica aguda.m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 38 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAI NA PROVA (Universidade de São Paulo - USP-SP - 2020) Adolescente masculino, 13 anos de idade, portador de anemia falciforme em seguimento regular com hematologista, apresenta queixa de febre e tosse há dois dias e dor em face anterior do tórax à direita. Ao exame clínico encontra-se em regular estado geral, levemente descorado, FC: 84 bpm, FR: 34 ipm, Saturação de Oxigênio: 95% em ar ambiente, Temp: 38°C, PA: 100/60 mmHg. Realizou radiografia de tórax, que mostrou a imagem ao lado. A conduta inicial mais adequada é: A) Prescrição de amoxacilina, alta hospitalar com reavaliação. B) Internação com ceftriaxone e claritromicina. C) Fibrinolítico endovenoso e enoxaparinadose terapêutica. D) Hiper-hidratação endovenosa e oxigenioterapia. COMENTÁRIO Mais uma questão clássica, caro Estrategista! Temos um paciente falcêmico com febre, tosse e opacidade pulmonar à radiografia de tórax. Você já sabe: estamos diante de um quadro de síndrome torácica aguda. Quais são as medidas indicadas no momento? Ora, além das medidas gerais para toda crise vaso-oclusiva (hidratação, analgesia, afastar precipitantes), devemos internar o paciente, instituir antibioticoterapia empírica e avaliar a necessidade de outras terapias. A oxigenioterapia, por exemplo, não está indicada, já que nosso paciente está com boa saturação de oxigênio periférica. Da mesma forma, ainda não temos dados que sugiram necessidade de suporte transfusional, já que o paciente não apresenta acentuada dispneia ou hipoxemia. Vejamos as alternativas: Incorreta a alternativa A: a síndrome torácica aguda é grave, sendo, inclusive, a causa mais comum de óbito na população falciforme adulta. Assim, deve sempre ser tratada em internação hospitalar. Correta a alternativa B é isso aí! Diante de um quadro de síndrome torácica aguda, é preciso internar o paciente e iniciar antibioticoterapia empírica com cefalosporinas de terceira/quarta geração e macrolídeos, a fim de cobrir infecções por pneumococo, micoplasma e clamídia. Incorreta a alternativa C: não há indicação de anticoagulação ou fibrinólise no tratamento da síndrome torácica aguda. Incorreta a alternativa D: não há necessidade de fornecer oxigênio a um paciente que não está hipoxêmico. Além disso, nunca devemos hiper-hidratar os pacientes falciformes, mas sim buscar restabelecer sua euvolemia com hidratação vigorosa. 2.1.5.1.7 PRIAPISMO Já abordamos anteriormente as intercorrências da doença falciforme mais cobradas nas provas. Restam ainda algumas complicações marcantes que apenas eventualmente são alvo de questões. É o caso do priapismo, uma ereção prolongada e indesejada decorrente de vaso- oclusão nos corpos cavernosos do pênis. Atinge pelo menos 30% dos pacientes falcêmicos, principalmente a partir da puberdade. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 39 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Considerada uma emergência médica por poder evoluir com disfunção crônica do órgão, o priapismo deve ser manejado como qualquer crise vaso-oclusiva: afastar desencadeantes, hidratação endovenosa profusa e analgesia adequada à dor do paciente. O paciente deve ser orientado a iniciar essas medidas já em domicílio e buscar atendimento médico rapidamente, caso não haja resposta. No pronto-socorro, avaliação urológica é mandatória, com possível indicação de drenagem dos corpos cavernosos. As transfusões de troca podem ser usadas em casos refratários, diminuindo a concentração de HbS e, assim, reduzindo a falcização. 2.1.5.1.8 COMPLICAÇÕES OSTEOMUSCULARES DA ANEMIA FALCIFORME A circulação óssea é bastante propensa à obstrução pelas hemácias falcizadas, fazendo com que uma série de manifestações possa ocorrer. Além das frequentes crises álgicas, a necrose avascular de longos ossos é comum, acometendo principalmente o fêmur e o úmero. Úlceras cutâneas, especialmente maleolares, são extremamente frequentes. A complicação osteomuscular mais abordada é, no entanto, a osteomielite. Com prevalência estimada de 12% da população falcêmica, essa infecção do tecido ósseo possui uma particularidade muito cobrada nas provas: além de mais frequente que na população geral, a osteomielite em pacientes com anemia falciforme é mais comumente causada por bactérias do gênero Salmonella. Enquanto na população geral a principal etiologia de osteomielite é, de longe, o S. aureus, em portadores de anemia falciforme a Salmonella supera esse agente. Essa informação é importante na escolha da antibioticoterapia empírica a utilizar no tratamento dessa condição. CAI NA PROVA (Universidade Federal de Grande Dourados - UFGD - 2018) Paciente de 5 anos, portador de doença falciforme, é internado na enfermaria de pediatria com diagnóstico de osteomielite. Quais os principais microrganismos responsáveis por osteomielite na doença falciforme? A) Haemophilus influenzae e Mycoplasma pneumoniae. B) Staphylococcus aureus e Salmonella sp. C) Staphylococcus aureus e Haemophilus influenzae. D) Haemophilus influenzae e Salmonella sp. E) Salmonella sp e Mycoplasma pneumoniae COMENTÁRIO Não pode esquecer, Estrategista: osteomielite na doença falciforme é causada principalmente pelas bactérias do gênero Salmonella, ainda que o S. aureus ainda seja uma importante etiologia. Quase todas as questões perguntarão isso de forma direta, como no caso acima. Correta a alternativa B m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 40 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.1.5.2 COMPLICAÇÕES CRÔNICAS DA ANEMIA FALCIFORME As intercorrências agudas da anemia falciforme, decorrentes da obstrução vascular na microcirculação de órgãos e tecidos, são os pontos mais abordados sobre essa doença nas provas de Residência. Contudo, esses quadros isquêmicos também levarão à disfunção orgânica crônica, acometendo diversos tecidos, como rins, coração e pulmões. Hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca, osteoporose, retinopatia proliferativa, atraso de desenvolvimento e puerperal são algumas dessas complicações crônicas. Os rins são particularmente afetados: hematúria, isostenúria (incapacidade de concentrar a urina), insuficiência renal crônica são complicações comuns. Cabe salientar, colega Estrategista, que a anemia falciforme causa doença renal crônica com rins de tamanho normal ou aumentados, diferente do que vemos na maioria das outras doenças. Ainda sobre os acometimentos renais, lembre-se de que a doença falciforme é uma causa clássica de necrose de papila renal. A morbimortalidade obstétrica da população falcêmica também é aumentada, com risco aumentado de abortamentos, tromboembolismo, pré-eclâmpsia e eclâmpsia. 2.1.6 TRATAMENTO DA ANEMIA FALCIFORME Como vimos, a anemia falciforme é uma doença complexa, com complicações agudas e crônicas que acrescentam importante morbimortalidade na vida de seus portadores, ocasionando uma sobrevida cerca de 20 anos menor do que a população geral. O manejo da doença envolve acompanhamento multidisciplinar e especializado, com inúmeras particularidades. Atualmente, o transplante alogênico de medula óssea e a terapia gênica são as duas opções curativas para a anemia falciforme, ainda que pouco disponíveis em nosso meio e possíveis apenas em crianças ou adolescentes, indivíduos em que as disfunções orgânicas típicas ainda não se instalaram. Essas terapêuticas não são, entretanto, abordadas pelas questões de prova. Além do manejo específico de cada intercorrência a que esses pacientes estão sujeitos, os examinadores preferem por abordar dois pontos específicos do tratamento da anemia falciforme: o uso da hidroxiureia e o suporte transfusional. 2.1.6.1 HIDROXIUREIA NA ANEMIA FALCIFORME A hidroxiureia ou hidroxicarbamida foi a primeira medicação a comprovadamente diminuir complicações na anemia falciforme, reduzindo a incidência de crises vaso-oclusivas e internações, inclusive aumentando a sobrevida desses pacientes. A medicação age pelo bloqueio da síntese de DNA através de inibição da ribonucleotídeo redutase, enzima envolvida na produção de nucleotídeos. Através dessa inibição, a hidroxiureia possui diversos efeitos que são benéficos ao paciente falcêmico, como aumento de hidratação das hemácias, efeito vasodilatador por aumento de síntese de ácido nítrico pelo endotélio, menor atividade inflamatória pela redução do número de neutrófilos. Sua principal ação, contudo,é aumentar a síntese de hemoglobina fetal (HbF) e, assim, reduzir a concentração de HbS, o que impede a falcização, como mostra o esquema a seguir. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 41 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 22. Efeitos do uso da hidroxiureia na anemia falciforme. O uso da hidroxiureia é recomendado para pacientes que sofram crises álgicas recorrentes ou episódios vaso-oclusivos graves. Suas indicações de uso, conforme orienta o Ministério da Saúde, estão resumidas a seguir. O principal efeito colateral da hidroxiureia é a mielossupressão, com risco de leucopenia, plaquetopenia e piora da anemia. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 42 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Indicações de uso da hidroxiureia na anemia falciforme Diagnóstico de anemia falciforme, idade maior de 2 anos, fora do período gestacional, tendo apresentado pelo menos uma das complicações abaixo nos últimos 12 meses Três ou mais crises álgicas com necessidade de atendimento hospitalar Dois episódios de síndrome torácica aguda Um episódio de priapismo grave ou recorrente Necrose isquêmica óssea (necrose asséptica) Insuficiência renal Anemia grave e persistente (Hb menor que 6g/dL em 3 dosagens) DHL três vezes acima do limite da normalidade Doppler transcraniano com velocidade de fluxo sanguíneo cerebral acima de 160 e abaixo de 200cm/s Retinopatia proliferativa Qualquer outra lesão crônica de órgãos Você pôde notar que as indicações de hidroxiureia são bastante específicas. Infelizmente um ou outro examinador já cobrou esses critérios, mas, sinceramente, não recomendo que você os decore. O mais importante é lembrar do principal mecanismo de ação da hidroxiureia, o aumento da produção de HbF. Essa informação é muito mais abordada pelas provas, como vemos a seguir. CAI NA PROVA (Hospital Angelina Caron - HAC PR - 2020) A hidroxiureia é usada em adultos e também em crianças com anemia falciforme, para reduzir a morbidade desses pacientes. Qual a sua função? A) Aumentar o nível da hemoglobina A. B) Aumentar o nível da hemoglobina A2. C) Aumentar o nível da hemoglobina fetal. D) Diminuir o nível da hemoglobina fetal. E) Aumentar o nível da hemoglobina S. COMENTÁRIO Decore esta informação, Estrategista: por mecanismos não totalmente conhecidos, a hidroxiureia age aumentando o nível de hemoglobina fetal, reduzindo, assim, a concentração de HbS e, portanto, impedindo a falcização das hemácias. Correta a alternativa C 2.1.6.2 SUPORTE TRANSFUSIONAL NA ANEMIA FALCIFORME As transfusões sanguíneas são parte essencial do tratamento do paciente falcêmico. De fato, esses indivíduos receberão inúmeros concentrados de hemácias ao longo da vida, muitos deles sem qualquer indicação clínica. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 43 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Lembre-se ainda de que transfusões não são isentas de riscos, podendo precipitar reações ou transmitir infecções, principalmente quando são recorrentes, como é o caso na anemia falciforme. A sobrecarga de ferro, por exemplo, é comum nesses pacientes, sendo muitas vezes necessário o uso de quelantes. Mais ainda, sempre que formos transfundir um paciente falciforme, devemos optar por hemácias filtradas (leucorreduzidas), o que diminui a chance de formação de aloanticorpos contra hemácias de outros pacientes (aloimunização), dificultando o achado de bolsas compatíveis. Preferencialmente, as hemácias também devem ser fenotipadas para os sistemas Kell, Kidd e Duffy, além das tipagens habituais para o ABO e Rh. Isso permite que sempre escolhamos as bolsas “mais compatíveis”, evitando ainda mais a aloimunização. Por fim, não devemos transfundir pacientes sem indicação, como é o caso de pacientes com anemia crônica compensada, em crises álgicas simples ou em quadros infecciosos não complicados. As principais recomendações de suporte transfusional na anemia falciforme estão listadas a seguir, leia o esquema com atenção! 2.1.7 OUTRAS HEMOGLOBINOPATIAS QUALITATIVAS A anemia falciforme é, com folga, a hemoglobinopatia qualitativa mais cobrada nas provas. Algumas outras, no entanto, eventualmente são abordadas. Trataremos brevemente sobre elas a seguir, antes de continuar nosso estudo sobre as anemias hemolíticas. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 44 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.1.7.1 HEMOGLOBINOPATIA SC A hemoglobina C é uma hemoglobina anômala resultante da mutação que substitui o ácido glutâmico pela lisina como sexto aminoácido na cadeia de betaglobina. Ainda que não possua a capacidade de se polimerizar como a HbS, a HbC é menos solúvel, formando cristais no interior das hemácias, que tornarão sua membrana mais rígida e, em última instância, levarão à sua destruição no baço (hemólise extravascular). Em pacientes homozigotos para a mutação da HbC, esperamos encontrar uma eletroforese de hemoglobinas com mais de 90% dessa hemoglobina anômala, levando a um quadro de anemia hemolítica crônica, acompanhada de esplenomegalia. A presença de leptócitos (hemácias em alvo) é bastante característica. No indivíduo heterozigoto, o traço HbC, será assintomático, assim como no traço falcêmico. Já a combinação de um alelo mutado para a HbS e um alelo mutado para a HbC leva ao quadro da hemoglobinopatia SC. Esses pacientes possuem cerca de 60% de HbS e 40% de HbC, gerando um quadro intermediário entre o traço falcêmico e a anemia falciforme franca, porque a HbC facilita a polimerização da HbS. O paciente apresenta um quadro mais atenuado de anemia falciforme, mas marcado por algumas particularidades: a retinopatia falcêmica e a necrose asséptica de cabeça de fêmur são até mais prevalentes nos pacientes com hemoglobinopatia SC do que nos indivíduos falcêmicos. Homozigotos para a HbS Dois alelos produtores de HbS Eletroforese de hemoglobinas: 90% HbS Polimerização da HbS levando à falcização Hemólise Vaso-oclusões Duplos heterozigotos para a HbS e HbC Anemia falciforme Hemoglobinopatia SC Um alelo produtor de HbS e um alelo produtor de HbC Eletroforese de hemoglobinas: 60% HbA, 40% HbS HbC facilita a polimerização da HbS mesmo em níveis não tão elevados Retinopatia falcêmica necrose asséptica de fêmur Heterozigotos para a HbS Traço falcêmico Um alelo produtor de HbS e um alelo produtor de HbA Eletroforese de hemoglobinas: 60% HbA, 30% HbS Sem polimerização e sem falcização Assintomáticos CAI NA PROVA (Universidade Federal de Goiás - UFG - 2016) Quais são as duas situações clínicas mais frequentes na hemoglobinopatia SC em relação à hemoglobinopatia SS homozigótica? A) Esplenomegalia e insuficiência cardíaca. B) Colelitíase e úlceras maleolares. C) Priapismo e osteomielite por Salmonella sp. D) Retinopatia e necrose de cabeça de fêmur. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 45 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.1.7.2 S/β-TALASSEMIA Esse é um tema pouquíssimo abordado, um pouco espinhoso e que, historicamente, só foi tema de questões nas provas da USP de Ribeirão Preto. Então, Estrategista, vamos revisar rapidamente seus pontos mais importantes! Como vimos no livro de anemias microcíticas, as betatalassemias são condições congênitas em que há mutações pontuais no gene da betaglobina, levandoà menor produção dessa cadeia e consequente impacto à produção de HbA (α2β2). A S/β-talassemia é justamente a combinação da mutação para a HbS e da mutação das betatalassemias: o paciente é duplamente heterozigoto, apresentando um alelo produtor de betaglobina mutada (geradora de HbS) e um alelo incapaz de produzir cadeias beta. Assim, apesar de possuir um único gene gerador de HbS, o paciente é incapaz de produzir HbA, apresentando uma eletroforese de hemoglobinas dominada pela HbS (> 90%) e um quadro clínico semelhante à anemia falciforme. A única diferença é que, por produzir menos cadeias beta, há um aumento da HbA2 (α2δ2), como esperamos em outras formas de betatalassemia. O ponto de que você deve se lembrar da S/β-talassemia para as provas é que a eletroforese de hemoglobinas mostrará níveis elevados de HbS (> 90%) acompanhados de aumento de HbA2 (> 3,5%), indicando a presença de um alelo mutado para a HbS e um alelo mutado para a betatalassemia. O quadro clínico, contudo, será semelhante ao de uma anemia falciforme clássica. COMENTÁRIO A hemoglobinopatia SC é um tema raro nas provas. Tanto que a questão mais recente sobre esse diagnóstico é essa, datada de 2016. Mas, vamos lá, Estrategista: o que esperamos caracteristicamente encontrar na hemoglobinopatia SC? Como vimos acima, retinopatia falcêmica e necrose asséptica de cabeça de fêmur são justamente as duas complicações que ocorrem até mais em pacientes com essa doença em relação aos portadores de anemia falciforme, sendo esse o ponto mais importante a gravar a respeito da hemoglobinopatia SC. Correta a alternativa D CAI NA PROVA (Universidade de São Paulo - USP-RP - 2018) Criança parda, 2 anos de idade, procurou serviço médico com história de há 3 dias ter iniciado quadro de febre, edema em mãos e pés e palidez cutaneomucosa. Ao exame: bom estado geral, descorada (+++/++++), ictérica (+/++++), acianótica, edema discreto de mãos e pés. Membrana timpânica abaulada e hiperemiada à direita. Presença de baço palpável há 2 cm do rebordo costal direito. Restante do exame físico sem alterações. Exames laboratoriais apresentam os seguintes resultados: Hemograma: Hb: 7,2 g/dL, VCM: 67 fl, HCM: 21 pg, GB: 18.300 (2% bastões, 78% neutrófilos, 20% linfócitos), Plaquetas: 250.000/mm³, RDW: 24%, Reticulócitos corrigidos 3,5%, Bilirrubina indireta: 1,8g/dL. Eletroforese de hemoglobina: S: 92%, A2: 5,5%, F: 2,5%. Qual diagnóstico mais provável? A) ß-talassemia B) Sß-talassemia C) a-talassemia D) Anemia falciforme m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 46 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED COMENTÁRIO Veja que questão capciosa. Temos um paciente que apresenta um quadro muito sugestivo de dactilite falcêmica: criança de 2 anos com edema de mãos e pés. Mais ainda, há outras evidências que apontam para a possibilidade de anemia falciforme, como o quadro de anemia, a icterícia às custas de bilirrubina indireta sugerindo hemólise, a reticulocitose. De fato, quando avaliamos a eletroforese de hemoglobinas, vemos que o exame é dominado pela presença de HbS, o que faria a maioria dos candidatos considerar a alternativa D, anemia falciforme, como resposta correta. Olhando com atenção, no entanto, vemos um outro ponto importante: há aumento de HbA2, maior de 3,5%, uma alteração típica das betatalassemias! Ou seja, temos um quadro clínico de anemia falciforme, com uma evidência laboratorial de betatalassemia. Estamos diante de uma S/β-talassemia! Essa é uma questão difícil e o conceito de S/β-talassemia é raramente cobrado, mas você será capaz de identificá-lo lembrando-se desses conceitos. Correta a alternativa B Agora que abordamos todos os pontos relevantes sobre as hemoglobinopatias, passemos às demais anemias hemolíticas congênitas, começando pelas membranopatias eritrocitárias. Mas, antes, Estrategista, revise atentamente os principais pontos sobre a anemia falciforme, a anemia hemolítica mais cobrada nas provas! EM RESUMO - ANEMIA FALCIFORME 1. Hemoglobinopatia qualitativa congênita marcada pela presença da HbS. 2. Fisiopatologia: uma mutação pontual autossômica recessiva determina a formação da HbS, uma hemoglobina anômala capaz de polimerizar-se quando desoxigenada, alterando a forma bicôncava eritrocitária habitual, gerando os drepanócitos ou hemácias em foice. De deformabilidade diminuída, esses eritrócitos alterados possuem sobrevida diminuída, sofrendo hemólise e obstruindo a microcirculação de órgãos e tecidos. 3. Quadro clínico-laboratorial: anemia hemolítica crônica marcada por inúmeros eventos vaso-oclusivas. 4. Traço falcêmico: heterozigoto para a mutação da HbS, assintomático. 5. Diagnóstico: cromatografia líquida de alta performance (padrão-ouro) ou eletroforese de hemoglobinas (mais disponível). 6. Crises álgicas: episódios de dor de intensidade e duração variáveis, decorrentes de vaso-oclusões no território de ossos e músculos. Devem ser tratadas com afastamento de fatores precipitantes, hidratação endovenosa (evitando hiper- hidratação) e analgesia adequada à dor do paciente. Não é indicação de transfusão de hemácias. 7. Autoesplenectomia: estado de asplenismo funcional secundário à fibrose do baço por repetidas vaso-oclusões em seu parênquima. Leva a uma suscetibilidade aumentada a infecções por bactérias encapsuladas (pneumococo, meningococo e hemófilo), fazendo necessária a antibioticoterapia profilática com penicilina V oral até os 5 anos de idade, vacinação estendida com pneumo-23 e cuidado infeccioso redobrado. 8. Sequestro esplênico: quadro grave de aprisionamento de hemácias falcizadas na circulação esplênica, levando à piora da anemia basal do paciente e esplenomegalia de rápida instalação. Tratado com hidratação e transfusão de hemácias. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 47 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 9. Crise aplásica: episódio de parada temporária da produção de hemácias decorrente de infecção pelo parvovírus B19, levando à piora da anemia basal do paciente. Tratamento de suporte. 10. Acidente vascular encefálico isquêmico: especialmente prevalente em crianças falcêmicas. Exsanguineotransfusão parcial deve ser usada como profilaxia primária, profilaxia secundária e tratamento. 11. Síndrome torácica aguda: quadro multifatorial de sintomas respiratórios (especialmente hipoxemia) associados a infiltrado pulmonar novo. Tratada com afastamento de desencadeantes, hidratação endovenosa, analgesia potente, antibioticoterapia empírica (voltada contra pneumococo, micoplasma e clamídia), oxigenoterapia e suporte transfusional (se hipoxemia). 12. Priapismo: ereção indesejada, prolongada e dolorosa, decorrente de vaso-oclusões nos corpos cavernosos do pênis. Pode levar à disfunção do órgão. Tratado com analgesia, hidratação e drenagem de corpos cavernosos, se indicado. Transfusões de troca indicadas em casos refratários. 13. Complicações ósseas: necrose asséptica de fêmur e osteomielite por Salmonella. 14. Complicações crônicas: retinopatia, insuficiência renal, úlceras maleolares, insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar, complicações obstétricas. 15. Tratamento: suporte transfusional com hemácias filtradas e fenotipadas, quelação de ferro, hidroxiureia (aumenta produção de HbF), transplante alogênico de medula óssea, terapia gênica. 2.2 ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA A esferocitose hereditária é a mais comum das doenças da membrana das hemácias e a mais cobrada nas provas de Residência. É uma condição congênita caracterizada por deficiência de proteínas do citoesqueleto, levando à formação de hemácias esféricas com resistência osmótica diminuída. Vamos destrinchar sua fisiopatologia a seguir, caro Estrategista, paraque você entenda qual é o quadro clínico dessa condição. 2.2.1 FISIOPATOLOGIA DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA A membrana eritrocitária tem papel fundamental na função das hemácias. É por seu formato bicôncavo, em que há mais superfície de membrana do que volume celular, que essas células conseguem ser bastante maleáveis, capazes de passar pelos estreitos capilares da microcirculação. Para manter essa forma tão particular, existe uma complexa relação entre proteínas do citoesqueleto e da membrana das hemácias, “fixando” o formato eritrocitário habitual. Algumas dessas proteínas da membrana, como a glicoforina C e banda 4.1, interagem com o citoesqueleto eritrocitário (espectrina) no que chamamos de interações horizontais, que garantem estabilidade ao formato da hemácia. Já as interações verticais ocorrem entre a espectrina e outras proteínas da membrana, como a anquirina, banda 3 e banda 4.2, conforme mostra a imagem a seguir. São essas ligações verticais que garantem a fixação do citoesqueleto à superfície celular, evitando que fragmentos da membrana eritrocitária se desprendam e sejam perdidos. Na esferocitose hereditária, há deficiência congênita autossômica dominante dessas proteínas, habitualmente espectrina e anquirina, levando justamente a um comprometimento das interações verticais e, consequentemente, perda de fragmentos (microvesículas) da membrana das hemácias. Isso faz com que os eritrócitos percam superfície de m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 48 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 23. Fisiopatologia da esferocitose hereditária: essa é uma condição autossômica dominante marcada por deficiência de proteínas do citoesqueleto, mais comumente espectrina e anquirina. Sem adequada fixação da membrana celular, há perda de microvesículas, alterando o formato das hemácias e, assim, gerando os esferócitos. Ao passar pelos sinusoides esplênicos, esses eritrócitos esféricos ficam aprisionados, sofrendo ação dos macrófagos e posterior hemólise. Assim, a esferocitose é marcada pela presença dos esferócitos, tipicamente hipercrômicos, e pela hemólise extravascular dessas hemácias anômalas. Isso se reflete diretamente no quadro clínico dessa condição, que vamos esmiuçar a seguir. membrana em relação a seu volume, alterando seu formato habitual: surgem, assim, os esferócitos, hemácias de formato esférico, com teor de hemoglobina aumentado (hipercrômicas), perdendo sua característica palidez central à hematoscopia. Mais ainda, os esferócitos possuem uma deformabilidade diminuída em relação às hemácias normais, fazendo com que fiquem aprisionados no baço e sofram o chamado condicionamento esplênico: os macrófagos retiram mais e mais fragmentos da membrana eritrocitária, levando finalmente à hemólise. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 49 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.2.2. QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA Como vimos acima, a esferocitose hereditária é marcada pela presença e destruição dos esferócitos, ocorrida no baço. Assim, configura um quadro congênito de anemia hemolítica crônica associada à esplenomegalia moderada. Por ser uma condição autossômica dominante, a história familiar será habitualmente positiva, com parentes de primeiro grau também sendo portadores da doença. Alterações típicas de hemólise crônica são esperadas, como icterícia por hiperbilirrubinemia indireta, consumo de haptoglobina e reticulocitose. Litíase biliar é muito comum. A presença de hipercromia é especialmente característica: por terem perdido superfície, mas mantendo a mesma quantidade de hemoglobina, os esferócitos apresentam elevação de hemoglobina corpuscular média (HCM > 32) e concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM > 36), o que nos permite facilmente identificá-la em algumas questões. Na prova de Residência, SEMPRE que tivermos uma anemia hipercrômica (HCM ou CHCM elevados), o diagnóstico será de esferocitose hereditária! O quadro clínico é, entretanto, bastante variável. Há pacientes completamente assintomáticos, com anemias hemolíticas crônicas compensadas, enquanto alguns casos cursam com quadros hemolíticos graves. Em muitos casos, o diagnóstico será feito durante investigação de um achado eventual de esplenomegalia, sem qualquer quadro hemolítico manifesto. Quadro clínico-laboratorial da esferocitose hereditária Apresentação variável: de assintomático a quadros graves Herança autossômica dominante: história familiar positiva Anemia normocítica e hipercrômica (VCM normal, CHCM elevado) Sinais de hemólise: elevação de bilirrubina indireta e desidrogenase lática, queda de haptoglobina, reticulocitose Hemólise de componente extravascular: esplenomegalia Vejamos como esse quadro clínico é abordado pelas provas? CAI NA PROVA (Universidade Federal do Paraná - UFPR- 2018) A esferocitose hereditária é uma anemia hemolítica geneticamente determinada e comum na população. Qual dos achados abaixo NÃO é compatível ou NÃO tem relação com essa patologia? A) Concentração Hemoglobínica Corpuscular Média (CHCM) elevada. B) Esplenomegalia. C) Contagem de reticulócitos reduzida. D) Litíase biliar. E) Bilirrubina indireta elevada. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 50 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED COMENTÁRIO Agora você já sabe, caro Estrategista: a esferocitose hereditária é um quadro congênito de hemólise extravascular crônica desencadeada por deficiência autossômica dominante de proteínas do citoesqueleto das hemácias. Assim, esperamos encontrar esplenomegalia, uma vez que o baço é o responsável pelo quadro hemolítico instituído. Além disso, o paciente apresentará alterações típicas de anemias hemolíticas crônicas, como aumento de bilirrubina indireta e desidrogenase lática, consumo de haptoglobina e reticulocitose. Pelo metabolismo aumentado das bilirrubinas, litíase biliar é muito comum. Por fim, uma característica marcante é a hipercromia, marcada por aumento do HCM e CHCM. Podemos notar, portanto, que a única das alternativas que traz uma condição não associada à esferocitose hereditária é a letra C, já que esperaríamos encontrar AUMENTO da contagem reticulocitária, algo comum a todas as anemias hemolíticas. Correta a alternativa C (Unievangélica - Centro Universitário de Anápolis - UEVA-GO - 2018) Mulher de 24 anos foi encaminhada ao ambulatório de hematologia para investigação de anemia. Os exames solicitados pelo médico da família revelaram hiperbilirrubinemia indireta, DHL aumentado e COOMBS negativo. O hemograma apresentava hemoglobina = 9,8mg/dL, hematócrito 30%, CHCM elevado, VCM normal, e reticulocitose. A principal hipótese diagnóstica é: A) esferocitose B) alcoolismo C) anemia ferropriva D) anemia hemolítica autoimune COMENTÁRIO Preste atenção, Estrategista! Temos uma paciente jovem, com anemia normocítica acompanhada de alterações típicas de hemólise, como reticulocitose e aumento de DHL e bilirrubina indireta. Só com essas informações já podemos afastar o quadro de alcoolismo e anemia ferropriva, uma vez que não são quadros hemolíticos. A pista final vem de um índice hematimétrico: CHCM elevado indica hipercromia e, sempre que tivermos um quadro de hipercromia na prova, estaremos diante da esferocitose hereditária, alternativa A! Como veremos à frente, podemos eliminar o quadro de anemia hemolítica autoimune, já que o exame do Coombs direto está negativo. Correta a alternativa A 2.2.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA Devemos suspeitar da esferocitose hereditáriase estivermos diante de um paciente com anemia hemolítica com esplenomegalia, em que não haja evidências de autoimunidade. Infelizmente, o achado de esferócitos no esfregaço de sangue periférico não consegue confirmar o diagnóstico, já que, como vimos, essas hemácias esféricas podem aparecer em vários tipos de anemia hemolítica. O principal exame diagnóstico para confirmar a suspeita nesses casos é a curva de fragilidade osmótica, teste que mede a resistência osmótica das hemácias diante de soluções progressivamente hipotônicas. Por possuírem menor superfície em relação à membrana, os esferócitos possuem baixa tolerância ao estresse osmótico: as hemácias normais conseguem “inchar”, absorver bastante água até sofrer hemólise, enquanto os esferócitos sofrem lise precocemente nessas situações. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 51 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 24. Teste de fragilidade osmótica: nesse exame, avaliamos a resistência à lise pelo estresse osmótico. Hemácias do paciente são colocadas em soluções hipotônicas de concentração progressivamente maior, fazendo com que as hemácias absorvam água e, eventualmente, “explodam”, sofrendo hemólise. As hemácias normais possuem mais “espaço” a ser ocupado pela água, resistindo bem ao estresse osmótico. Já os esferócitos não possuem volume para “inchar”, apresentando uma maior suscetibilidade à lise por osmose, hemolisando com soluções menos hipotônicas. Os resultados do exame são transpostos para um gráfico, uma “curva de fragilidade osmótica” e, assim, conseguimos visualizar que a hemólise na esferocitose já se inicia com concentrações de 0,7 a 0,6% de solução salina, enquanto as hemácias normais só começarão a sofrer destruição osmótica em soluções hipotônicas de aproximadamente 0,5%. Muitos pacientes com esferocitose hereditária não precisarão de tratamento específico. Esse só será indicado em quadros hemolíticos graves, com repercussão clínica sintomática. A terapia de primeira linha nesses casos é a esplenectomia: como é justamente o baço que ocasiona a destruição precoce das hemácias, a retirada cirúrgica do órgão corrige totalmente a anemia hemolítica. O tratamento de escolha para a esferocitose hereditária é a esplenectomia, considerada inclusive curativa! O paciente continuará apresentando esferócitos em sangue periférico, mas eles não sofrerão mais hemólise e não ocasionarão repercussões clínicas. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 52 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAI NA PROVA (Centro Universitário UNIRG-TO 2019) Mulher, 21 anos, apresenta ao exame físico esplenomegalia e, ao exame laboratorial, anemia leve normocítica, com hemácias hipercrômicas. O teste classicamente indicado frente à suspeita clínica elaborada a partir desses dados é: A) Teste de fragilidade osmótica; B) Eletroforese de hemoglobina; C) Aspirado de medula óssea; D) Ultrassonografia hepática com doppler. COMENTÁRIO Não tenha dúvida, Estrategista! Diante de uma anemia hipercrômica, nossa principal hipótese é a esferocitose hereditária. Para confirmar esse diagnóstico, o exame indicado é, como vimos acima, o teste de fragilidade osmótica, capaz de confirmar a presença dos esferócitos no sangue periférico. Correta a alternativa A (Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS - 2016) Menino negro, de 9 meses de idade, foi trazido à consulta por palidez e anemia. Ao exame, apresentava icterícia, mucosas hipocoradas, taquicardia e baço palpável a 3 cm abaixo do rebordo costal esquerdo. Na revisão da história familiar, o pai e o tio foram esplenectomizados por condição semelhante na adolescência. O quadro abaixo reproduz os resultados do hemograma. Qual a hipótese diagnóstica mais provável? Hemoglobina 5,2 g/dL Hematócrito 15,5% VCM 80fL Reticulócitos 15,2% A) Anemia hemolítica autoimune. B) Esferocitose hereditária. C) Anemia falciforme. D) Talassemia. E) Síndrome hemolítico-urêmica. COMENTÁRIO Veja que interessante. Temos uma criança com importante redução dos níveis de hemoglobina, VCM normal (VR de 80 a 100) e grande reticulocitose. Associado à icterícia e à esplenomegalia, esse quadro laboratorial sugere uma anemia hemolítica. Mais ainda, a presença de parentes de primeiro grau também com a doença sugere uma herança autossômica dominante. Por fim, o fato de terem sido tratados com esplenectomia não deixa dúvida: nossa principal hipótese diagnóstica é a esferocitose hereditária. As demais condições não são autossômicas dominantes e não são tratadas com a esplenectomia tão frequentemente, tornando-as menos prováveis como etiologia do quadro. Correta a alternativa B m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 53 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED EM RESUMO - ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 1. Membranopatia eritrocitária mais comum. 2. Fisiopatologia: mutações autossômicas dominantes levando à deficiência de proteínas do citoesqueleto das hemácias, que causam a perda de fragmentos da membrana eritrocitária, criando os esferócitos, hemácias hipercrômicas de forma esférica, que sofrem hemólise ao passar na circulação esplênica. 3. Quadro clínico-laboratorial: anemia hipercrômica congênita marcada por hemólise extravascular, cursando com esplenomegalia moderada e alterações hemolíticas típicas como elevação de desidrogenase lática e bilirrubina indireta, reticulocitose e queda da haptoglobina. 4. Diagnóstico: curva de fragilidade osmótica mostrando um aumento da suscetibilidade ao estresse osmótico. 5. Tratamento: esplenectomia - terapia curativa em primeira linha, indicada em pacientes que apresentam quadros hemolíticos graves. Figura 25. Esferocitose hereditária em resumo: a deficiência de proteínas do citoesqueleto leva à perda de porções da membrana eritrocitária, surgindo assim os esferócitos, hemácias esféricas hipercrômicas. Ao passar nos sinusoides esplênicos, os esferócitos sofrem ação dos macrófagos por possuírem deformabilidade diminuída, levando a posteriores perdas de membrana e finalmente hemólise. Assim, a esferocitose é uma anemia hemolítica crônica, de herança autossômica dominante, cursando com esplenomegalia e tratada curativamente com a esplenectomia.m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 54 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.3 ELIPTOCITOSE HEREDITÁRIA Também uma membranopatia eritrocitária, a eliptocitose hereditária é uma doença autossômica dominante marcada pela presença de eritrócitos ovais e alongados, os eliptócitos. Ela é raramente cobrada nas provas, normalmente aparecendo apenas como um diagnóstico diferencial nas alternativas das questões, mas pouco explorada quanto a suas características próprias. O defeito autossômico dominante que caracteriza a eliptocitose hereditária é também sobre as proteínas do citoesqueleto, mas dessa vez afetando as interações horizontais da membrana eritrocitária, levando às características alterações da forma das hemácias. A maioria dos pacientes não apresenta quadro hemolítico e Figura 26. Eliptócitos: hemácias de formato elíptico, geradas por deficiências de proteínas relacionadas às interações horizontais da membrana eritrocitária. Costumam ser mais de 25% das hemácias do paciente, podendo ser até 100% delas. 2.4 DEFICIÊNCIA DE G6PD A deficiência de glicose-6-fosfato-desidrogenase (G6PD) é a mais comum das enzimopatias eritrocitárias e praticamente a única cobrada nas provas de Residência. É uma condiçãode herança ligada ao sexo (relacionada ao cromossomo X), afetando principalmente homens (heterozigotos) e raramente mulheres (homozigotas). Seu quadro clínico marcante é a informação mais abordada pelas bancas examinadoras, como veremos a seguir. Mas, antes, vamos entender o que é a G6PD e qual é sua função. 2.4.1 FISIOPATOLOGIA DA DEFICIÊNCIA DE G6PD A G6PD é uma enzima necessária para manter os níveis celulares de glutationa, substância que protege as hemácias contra o dano oxidativo. Quando as células são expostas a algum agente oxidante, é a glutationa que age inibindo a formação de espécies reativas de oxigênio (EROs), impedindo que oxidem e lesem os componentes eritrocitários. Na deficiência de G6PD, os níveis reduzidos dessa enzima fazem com que haja menor produção de glutationa, com consequente acúmulo de agentes oxidantes nas hemácias. Essas substâncias agirão sobre a molécula de hemoglobina, levando à sua oxidação e precipitação no citoplasma das hemácias, formando os característicos corpos de Heinz. Figura 27. Corpúsculos de Heinz: depósitos de hemoglobina oxidada no citoplasma das hemácias, caracteristicamente localizados junto à membrana eritrocitária. São tipicamente encontrados na deficiência de G6PD, justamente uma situação em que há perda da proteção das hemácias contra o dano oxidativo. nem mesmo anemia. O achado característico e diagnóstico é a presença dos eliptócitos no esfregaço de sangue periférico. Aqueles pacientes que eventualmente necessitarem de tratamento costumam responder bem à esplenectomia. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 55 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A descrição de corpos de Heinz no esfregaço de sangue periférico do paciente ajuda a facilmente suspeitar da deficiência de G6PD nas questões de prova! Quando as hemácias contendo corpúsculos de Heinz passam pela circulação esplênica, os macrófagos tentam eliminar essas inclusões citoplasmáticas, fagocitando parte do citoplasma eritrocitária e gerando, assim, as bite cells, hemácias “mordidas”, mostradas na imagem abaixo. São bem menos abordadas nas provas que os corpos de Heinz. Figura 28. Bite cells: hemácias que perderam fragmentos de sua membrana celular por ação dos macrófagos esplênicos, na tentativa de retirar da circulação os corpos de Heinz. Na maior parte do tempo, as hemácias deficientes em G6PD conseguem manter sua função normal, sem sofrer hemólise. O paciente, portanto, não possui sequer anemia. É em situações de estresse oxidativo aumentado que o acúmulo de espécies reativas de oxigênio será mais pronunciado, levando à deposição de hemoglobina oxidada, dano na membrana celular e, em última instância, hemólise intravascular. Por isso, a deficiência de G6PD expressa-se habitualmente em surtos hemolíticos autolimitados, desencadeados por algumas situações particulares. São clássicas, por exemplo, as descrições de pacientes com deficiência de G6PD apresentando episódios de hemólise intravascular durante quadros infecciosos ou após a ingesta de favas (leguminosas semelhantes ao feijão), que possuem substâncias capazes de aumentar o dano oxidativo. Apesar de infecções e favismo serem frequentes, o fator desencadeante mais cobrado nas provas é o uso de medicações, especialmente primaquina, dapsona, quinolonas (ácido nalidíxico) e sulfas. A maioria das questões sobre deficiência de G6PD trará justamente uma criança que desenvolve um quadro agudo de hemólise intravascular precipitado pelo uso de uma dessas medicações. Mas, antes de ver como a deficiência de G6PD é abordada nessas questões, revise rapidamente na imagem a seguir sua fisiopatologia, para que possamos descrever com mais detalhes a apresentação dessa clássica enzimopatia. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 56 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.4.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA DEFICIÊNCIA DE G6PD Como vimos acima, na maior parte do tempo os pacientes com deficiência de G6PD estão compensados clinicamente, não apresentando anemia ou sinais de hemólise. Contudo, quando expostos a fatores que aumentam o estresse oxidativo, as hemácias são incapazes de gerar glutationa para proteger-se das espécies reativas de oxigênio, levando à lesão celular e, assim, hemólise intravascular. Desse modo, devemos suspeitar da deficiência de G6PD em pacientes que apresentem episódios súbitos de hemólise intravascular, precipitados principalmente pelo uso de medicações, Figura 29. Fisiopatologia da Deficiência de G6PD: a G6PD é responsável pela formação da glutationa (GSH), a principal proteção das hemácias contra a formação de espécies reativas de oxigênio (EROs). Quando o paciente apresenta uma mutação congênita que determina menor síntese de G6PD, a produção de glutationa é comprometida, levando ao acúmulo de EROs e dano celular, culminando em destruição das hemácias na própria circulação, ou seja, hemólise intravascular. Os típicos surtos hemolíticos ocorrem frequentemente após a exposição da fatores de aumento do estresse oxidativo, como infecções, uso de medicações ou ingesta de favas. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 57 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A deficiência de G6PD é abordada nas provas basicamente de uma única forma: seremos apresentados a um paciente, normalmente uma criança, que apresenta um surto de hemólise intravascular franca pouco após ingestão de alguma medicação. As drogas mais comumente trazidas nas provas são a primaquina e o ácido nalidíxico. Mais raramente, alguns portadores de deficiência de G6PD possuem apresentações diferentes da descrita acima, cursando com anemia hemolítica crônica contínua ou icterícia neonatal. Essas apresentações, entretanto, são menos cobradas nas provas, que preferem abordar o quadro clássico de surto hemolítico desencadeado por medicações. Quadro clínico-laboratorial da deficiência de G6PD Mais comum: episódios súbitos de hemólise intravascular precipitados por desencadeantes conhecidos Herança ligada ao sexo (cromossomo X): mais comum em homens Anemia normo/normo (eventualmente macrocítica pela reticulocitose) Sinais de hemólise: elevação de bilirrubina indireta e desidrogenase lática, queda de haptoglobina, reticulocitose Hemólise de componente intravascular: hemoglobinemia, hemoglobinúria e hemossiderinúria Esfregaço de sangue periférico: corpos de Heinz e bite cells Veja a seguir como as questões abordam a deficiência de G6PD! como a primaquina. Normalmente, o quadro manifesta-se algumas horas ou um a três dias após a exposição ao desencadeante. Alterações laboratoriais típicas de anemias hemolíticas intravasculares são esperadas, como hiperbilirrubinemia indireta, queda de haptoglobina, reticulocitose e, especialmente, hemoglobinúria. Por deposição de hemoglobina oxidada, o esfregaço de sangue periférico mostrará os corpos de Heinz e as bite cells. CAI NA PROVA (Hospital Israelita Albert Einstein - SP - 2020) Fernanda, 4 anos, é levada à Unidade de Pronto Atendimento por sua mãe, que relata que sua filha está amarelada e cansa-se com facilidade. Há três dias iniciou tratamento para infecção urinária com ácido nalidíxico. Ao exame físico, Fernanda encontra-se descorada ++/4+, ictérica +/4, principalmente em face e tronco. Ausculta cardíaca e pulmonar normais. FC: 120 bpm, FR: 44 irpm, SatO₂: 96%, Abdome: flácido, ruídos hidroaéreos presentes, fígado no rebordo costal direito e baço palpável a 1 cm do rebordo costal esquerdo. Exames laboratoriais: Hb: 6,5 g/dL, Ht: 19,5%, reticulócitos:9%. Dentre as abaixo, a principal hipótese diagnóstica para esse caso é: A) anemia ferropriva. B) anemia falciforme. C) esferocitose. D) deficiência de G6PD. E) deficiência de piruvato quinase. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 58 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED COMENTÁRIO Temos aqui uma criança apresentando a instalação súbita de um quadro de anemia com sinais de hemólise: a reticulocitose indica resposta eritropoiética medular à destruição periférica de hemácias e a icterícia provavelmente decorre de aumento de bilirrubina indireta, um produto de degradação da hemoglobina. Apesar de não haver descrição de hemoglobinúria, para caracterizarmos presença de hemólise intravascular, o fato de o quadro hemolítico ter sido precipitado por uso de uma medicação aponta o diagnóstico de nossa paciente: a deficiência de G6PD. Nenhuma das anemias presentes nas demais alternativas possui essa característica apresentação clínica de surto hemolítico desencadeado pelo uso de ácido nalidíxico. Correta a alternativa D (Faculdade de Medicina de Marília - Famema-SP - 2020) Paciente de 21 anos de idade, sexo masculino, apresenta quadro de celulite na coxa direita, iniciando o tratamento oral com trimetoprim-sulfametoxazol. Algumas horas depois, evolui com mal-estar, tontura, falta de ar, calafrios e lombalgia. Não há histórico de uso prévio de antibióticos. Exame físico: hipocorado (2+/4+), ictérico (1+/4+), eupneico e afebril. Exames séricos: hemoglobina: 9,1 g/dL, plaquetas: 330000/mm³, reticulócitos corrigidos: 15,8%; esfregaço de sangue periférico: presença de corpúsculos de Heinz. O diagnóstico mais provável é: A) deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase. B) desordem da membrana do eritrócito. C) hemólise autoimune. D) sepse por bactérias anaeróbias. COMENTÁRIO Agora você já sabe identificar a deficiência de G6PD, colega Estrategista! Veja que somos apresentados a um paciente que abre um quadro anêmico súbito após a ingestão de uma sulfa. Alterações como reticulocitose e icterícia apontam para a presença de hemólise, enquanto o achado de corpos de Heinz não deixa dúvida do diagnóstico. Nenhuma das demais condições descritas nas outras alternativas cursa com hemólise rapidamente induzida por medicações, nem está associada à visualização de corpos de Heinz na hematoscopia. (Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ 2017) Lactente, seis meses, masculino, é medicado com sulfametoxazol + trimetoprima por apresentar doença febril. Após 36 horas, apresenta icterícia, queda da hemoglobina e presença de corpúsculos de Heinz no esfregaço periférico. Sua mãe refere que, no teste do pezinho, havia uma alteração, mas não sabe ao certo qual era. Pode-se afirmar que a causa da lesão da membrana celular nesta doença é a: A) Ruptura da molécula da hemoglobina devido à ausência de substâncias reduzidas. B) Alteração na síntese da hemoglobina pela presença de compostos oxidantes. C) Precipitação da hemoglobina pela perda da proteção contra agentes oxidantes. D) Perda de um grupo heme da hemoglobina pela presença de agentes reduzidos. Correta a alternativa A m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 59 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED COMENTÁRIO Vamos lá! Uma criança desenvolve anemia hemolítica (queda de hemoglobina + icterícia) após uso de uma sulfa. Só essa história clínica já nos faz suspeitar do diagnóstico e, quando vemos a descrição dos corpos de Heinz, não temos mais dúvidas: estamos diante de um portador de deficiência de G6PD. Como vimos, essa doença é a principal das enzimopatias eritrocitárias, causada por deficiência congênita do principal mecanismo de proteção das hemácias contra o dano oxidativo. Sem a G6PD, a hemácia é incapaz de produzir glutationa, levando ao acúmulo de espécies reativas de oxigênio, oxidação de moléculas de hemoglobina e consequente dano à membrana celular, culminando em hemólise intravascular. Desse modo, a única alternativa que descreve adequadamente a fisiopatologia do quadro acima é a alternativa C. Correta a alternativa C 2.4.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA DEFICIÊNCIA DE G6PD Diante de um quadro suspeito de surto hemolítico em paciente com deficiência de G6PD, nossa primeira medida deve ser o suporte clínico, inclusive com transfusão de concentrados de hemácias se necessário. É preciso, principalmente, afastar o fator precipitante, tratando infecções ou suspendendo o uso de drogas que iniciaram o quadro. Para confirmar a deficiência de G6PD, devemos dosar a atividade da enzima nos eritrócitos, que estará caracteristicamente reduzida. O diagnóstico, no entanto, não costuma ser firmado durante o episódio hemolítico: as hemácias com menor atividade de G6PD terão sido destruídas na crise hemolítica, restando hemácias que podem ter uma boa atividade da enzima. Assim, devemos esperar cerca de 2 a 3 meses após o episódio para dosar a atividade da G6PD e confirmar o quadro. A orientação do paciente sobre o diagnóstico é, certamente, a parte mais importante do tratamento, devendo ser longamente orientado sobre os possíveis desencadeantes dos surtos hemolíticos, especialmente quanto à grande lista de medicações que deve evitar. EM RESUMO - DEFICIÊNCIA DE G6PD 1. Enzimopatia eritrocitária mais comum. 2. Fisiopatologia: mutações de herança ligada ao sexo levam à menor atividade da enzima G6PD, causando a perda de proteção do principal mecanismo de proteção das hemácias contra o estresse oxidativo. Em situações de oxidação aumentada, as hemácias são incapazes de reduzir a formação de espécies reativas de oxigênio, que levam à precipitação de hemoglobina oxidada e dano à membrana celular, culminando em hemólise intravascular. 3. Quadro clínico-laboratorial: surtos de hemólise intravascular precipitados por infecções, ingesta de favas ou uso de medicações (primaquina, dapsona, sulfas, quinolonas). Identificar esse quadro é o ponto mais abordado pelas provas. 4. Diagnóstico: dosagem da atividade de G6PD, 2 a 3 meses após o surto hemolítico. 5. Tratamento: suporte clínico e afastamento de desencadeantes. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 60 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 30. Deficiência de G6PD em resumo: a glicose-6-fosfato-desidrogenase é uma enzima responsável por iniciar a formação do principal mecanismo de proteção das hemácias contra o estresse oxidativo. Pacientes deficientes em G6PD possuem uma mutação relacionada ao cromossomo X que determina menor atividade dessa enzima, fazendo com que haja menos produção de glutationa, a substância que, em última instância, protege os eritrócitos do estresse oxidativo. Sem G6PD e sem glutationa, as hemácias são destruídas em situações de oxidação aumentada, levando ao quadro típico da deficiência de G6PD: surtos de hemólise intravascular precipitados por infecções ou uso de medicações. Os corpos de Heinz, depósitos de hemoglobina oxidada, também são característicos. 2.5 DEFICIÊNCIA DE PIRUVATO-QUINASE A deficiência de piruvato-quinase é a segunda enzimopatia eritrocitária mais comum, raramente cobrada nas provas, normalmente aparecendo apenas como um diagnóstico diferencial nas alternativas das questões, mas pouco explorada quanto a suas características próprias. A piruvato-quinase é uma enzima envolvida no metabolismo energético das hemácias, responsável por uma das reações envolvidas na formação de ATP. Na deficiência de piruvato-quinase, a via glicolítica é comprometida, resultando em menor produção de ATP e, consequentemente, incapacidade de manter as bombas de sódio, cálcio epotássio da membrana celular. Isso faz com que as hemácias percam deformabilidade e sejam fagocitadas em sua passagem pelo baço. O quadro clínico é bastante variável, consistindo em anemia normocítica e normocrômica com níveis de hemoglobina entre 6 e 12g/dL. Reticulocitose e outras alterações típicas de anemias hemolíticas são esperadas. O diagnóstico é firmado pela dosagem da atividade da piruvato-quinase, sendo o tratamento baseado no suporte clínico. Quadros graves podem responder à esplenectomia. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 61 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Com isso, colega Estrategista, encerramos o estudo das anemias hemolíticas congênitas. Dedique especial atenção à doença falciforme quando for revisar o tema e responder questões, já que essa é a anemia hemolítica mais comum nas provas. E tome fôlego, porque é hora de seguirmos nossa jornada pelas hemólises, dessa vez tratando de suas causas adquiridas! CAPÍTULO 3.0 ANEMIAS HEMOLÍTICAS ADQUIRIDAS Anemias hemolíticas adquiridas são aquelas que decorrem de destruição precoce das hemácias por mecanismos não constitucionais do indivíduo, desenvolvidos durante a vida. Essas são condições muito importantes na prática clínica e também nas provas: juntas, as hemólises adquiridas são alvo de cerca de 30% das questões sobre anemias hemolíticas! Vamos lá! 3.1 ANEMIAS HEMOLÍTICAS AUTOIMUNES - AHAI As anemias hemolíticas autoimunes (AHAI) são condições incomuns em que a sobrevida das hemácias é reduzida por ação de autoanticorpos dirigidos a antígenos de sua membrana. Por motivos desconhecidos, certos indivíduos desenvolvem esses autoanticorpos, que se ligam à superfície eritrocitária, levando à destruição precoce das hemácias via sistema complemento ou macrófagos do sistema reticuloendotelial. O tipo de autoanticorpo produzido possui implicações fisiopatológicas e clínicas marcantes, separando as AHAI em dois grandes grupos: as AHAI por anticorpos quentes e as AHAI por anticorpos frios. É essa classificação o ponto mais cobrado sobre as AHAI nas provas e justamente do que trataremos a seguir! 3.1.1 CLASSIFICAÇÃO DAS AHAI A maioria das AHAI é ocasionada pelo desenvolvimento de autoanticorpos da classe IgG, responsáveis por 80% dos casos. Nessas situações, a máxima capacidade de ligação dos anticorpos é à temperatura corporal, 37°C, daí a denominação AHAI por anticorpos quentes. Esses autoanticorpos são normalmente voltados contra antígenos do sistema Rh, podendo interferir na sua tipagem. Já a AHAI por anticorpos frios ou doença das aglutininas frias é mais rara, cerca de 15% dos casos, e causada pela presença de anticorpos da classe IgM, que reagem melhor a temperaturas baixas, de 4 a 30°C. Esses autoanticorpos geralmente são voltados contra antígenos do sistema I (antígenos I e i), presentes na membrana de todas as hemácias. Assim, pacientes com AHAI a frio terão interferência tanto na tipagem Rh quanto ABO. Por fim, existe uma terceira categoria, de AHAI mistas, que expressam anticorpos IgG e IgM, mas é raríssima e nunca cobrada nas provas. É importante notar que a classificação das AHAI não tem apenas significado laboratorial, já que as diferenças entre os dois tipos implicam também em sua apresentação clínica e no tratamento. As AHAI a quente são marcadas por hemólise extravascular, mediada pelo baço: os autoanticorpos IgG ligam- se à superfície das hemácias e fazem com que sejam destruídas pelos macrófagos esplênicos. Já na AHAI a frio, a sensibilização eritrocitária pelos autoanticorpos IgM faz com que o sistema complemento causa lise direta às hemácias, configurando um caso de hemólise intravascular, como vemos na imagem a seguir. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 62 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 31. Tipos de anemia hemolítica autoimune (AHAI): as AHAI a frio (A) são ocasionadas por autoanticorpos da classe IgM, cuja ligação máxima às hemácias ocorre abaixo de 30°C (normalmente a 4°C), levando à hemólise na própria circulação por ação do sistema complemento (hemólise intravascular). Já a forma mais comum de AHAI é por anticorpos quentes (B), da classe IgG, que ocasionam hemólise extravascular, através da sensibilização das hemácias à ação dos macrófagos do sistema retículo-endotelial, principalmente no baço. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 63 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED As duas classes de AHAI também diferem em sua etiologia. Na maioria dos casos, a AHAI é idiopática, sem desencadeante conhecido. Isso é verdadeiro tanto para a AHAI por anticorpos quentes quanto pela por anticorpos frios. Quando secundárias, grande porcentagem das AHAI é ocasionada por doenças linfoproliferativas, especialmente a leucemia linfoide crônica (LLC). Existem, entretanto, algumas etiologias particulares a cada classe. A AHAI a quente pode ser precipitada pelo lúpus eritematoso sistêmico (LES), neoplasias e pelo uso de medicações, enquanto casos secundários de AHAI a frio estão associados a infecções pelo micoplasma, vírus Epstein-Barr (EBV) e citomegalovírus (CMV). AHAI a quente Idiopática Doenças linfoproliferativas (LLC) LES, neoplasias Medicações: metildopa, cefalosporinas, quinidina Idiopática Doenças linfoproliferativas Infecções: EBV, CMV, micoplasma Autoanticorpos IgG Reatividade máxima a 37ºC Hemólise extravascular AHAI a frio Autoanticorpos IgM Reatividade máxima a 4ºC Hemólise intravascular Apesar de não serem a etiologia mais comum de AHAI a quente, a maior parte das questões de prova abordam os casos desencadeados por medicações, especialmente a alfametildopa, cefalosporinas e quinidina. São clássicas as questões de uma gestante que desenvolve um quadro hemolítico após iniciar uso de metildopa como anti-hipertensivo ou ceftriaxona para tratamento de uma infecção urinária, como veremos logo a seguir. Mas, antes de ver como esse quadro é apresentado nas questões, vejamos de que forma podemos confirmar o diagnóstico das AHAI. 3.1.2 DIAGNÓSTICO DAS AHAI As AHAI não possuem um quadro clínico com muitas particularidades, além da presença de hemólise. Os principais sintomas relacionam- se à instalação da anemia, como fraqueza, dispneia aos esforços e palpitações, enquanto o laboratório evidenciará as alterações típicas encontradas em estados hemolíticos, como aumento de bilirrubina indireta e desidrogenase lática, consumo de haptoglobina, reticulocitose, achado de microesferócitos. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 64 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Algumas discretas distinções existem entre os dois tipos: na AHAI a quente, pode ser encontrada esplenomegalia leve a moderada (já que a hemólise é predominantemente extravascular), enquanto achados característicos da AHAI a frio são a hemoglobinúria (manifestada por urina escurecida) e a precipitação do quadro pela exposição à baixa temperatura. Todas essas alterações estão resumidas na tabela a seguir, olhe só: Quadro clínico-laboratorial da AHAI AHAI por anticorpos quentes: marcada por hemólise extravascular, cursando com esplenomegalia AHAI por anticorpos frios: marcada por hemólise intravascular, cursando com hemoglobinemia, hemoglobinúria e hemossiderinúria, muitas vezes precipitadas pelo frio Alterações hemolíticas comuns às duas apresentações: anemia normo/normo (podendo ser macrocítica por reticulocitose), icterícia por hiperbilirrubinemianã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 6 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 1. Tipos de Hemólise: o sítio de ocorrência da destruição das hemácias é uma importante informação fisiopatológica que podemos utilizar para identificar a causa da anemia hemolítica. Na maioria das vezes, a hemólise será extravascular, mediada pelos macrófagos esplênicos, levando à metabolização dos componentes das hemácias (hemoglobina, membrana), gerando substâncias como desidrogenase lática e bilirrubina indireta. Já em anemias hemolíticas marcadas por destruição das hemácias na própria circulação (hemólise intravascular), a alteração mais marcante é a liberação de hemoglobina livre no plasma, causando hemoglobinemia e, consequente, eliminação de hemoglobina na urina (hemoglobinúria e hemossiderinúria). Ambos os tipos de hemólise levam a alterações laboratoriais características que nos permitem diferenciá-las, então preste bastante atenção a seguir, Estrategista, porque esses conhecimentos serão importantes para identificarmos os quadros das anemias hemolíticas. 1.2 QUADRO LABORATORIAL DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS Quadros de hemólise só podem ser diagnosticados por meio de exames laboratoriais, apesar da suspeição clínica ser importante. A destruição das hemácias, seja no meio intravascular ou no meio extravascular, leva à liberação de seu conteúdo intracelular, culminando no aumento sérico da desidrogenase lática (DHL), uma enzima abundante no citoplasma de todas as células, relacionada ao metabolismo energético. Essa alteração, contudo, é pouco específica: qualquer situação de destruição celular ou apoptose pode ocasionar elevação de DHL. Uma alteração muito mais específica de estados hemolíticos é o consumo da haptoglobina. Essa proteína hepática presente no plasma tem como função capturar a hemoglobina liberada com a hemólise: qualquer quantidade de hemoglobina livre no plasma deve ser prontamente ligada à haptoglobina, para evitar que cause danos oxidativos ou que seja filtrada pelos rins e eliminada na urina, o que ocasionaria perda de ferro ao organismo. O complexo haptoglobina-hemoglobina é muito grande para ser filtrado pelos rins e será retirado da circulação pelos macrófagos do sistema reticuloendotelial, que procederão à metabolização da hemoglobina. Assim, em quadros hemolíticos, teremos intensa redução dos níveis de haptoglobina, que será consumida para clarear a hemoglobina livre no plasma. Um macete rápido para não esquecer: a haptoglobina é a RAPTOglobina! Ela tem função de RAPTAR a hemoglobina livre do plasma, evitando que reaja com qualquer outra substância ou seja filtrada na urina. Quando captura a hemoglobina, a haptoglobina é consumida, explicando porque estados hemolíticos cursam com níveis reduzidos dessa proteína hepática. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 7 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A metabolização da hemoglobina pelos macrófagos fará com que seja quebrada em seus componentes básicos: protoporfirina, ferro e globinas. Enquanto o ferro será reutilizado para produção de novas moléculas de hemoglobina, a globina é degradada em aminoácidos e a protoporfirina dará origem à bilirrubina indireta ou não conjugada. Figura 2. Ação da haptoglobina: essa proteína hepática tem função de clarear a hemoglobina livre no plasma. Ela age ligando-se à hemoglobina liberada com a destruição das hemácias, evitando que seja filtrada pelos rins e eliminada na urina. O complexo hemoglobina-haptoglobina sofrerá, então, endocitose pelos macrófagos do sistema reticulo-endotelial, que metabolizarão a molécula de hemoglobina em seus componentes básicos: globina e grupo heme. Enquanto a globina será degradada em aminoácidos, a protoporfirina do grupo heme dará origem à bilirrubina indireta e o ferro será reaproveitado, seja armazenado em ferritina ou transportado pela transferrina no soro. É pela degradação da protoporfirina que estados hemolíticos frequentemente cursarão com icterícia às custas de bilirrubina indireta. Após ser transportada ao fígado pela albumina, a bilirrubina indireta será convertida pelos hepatócitos em bilirrubina direta ou conjugada, que então sofre excreção pelas vias biliares. Isso também explica por que pacientes portadores de anemias hemolíticas crônicas frequentemente cursarão com litíase biliar: o metabolismo aumentado das bilirrubinas e a grande excreção de bilirrubina direta faz com que haja propensão à formação de cálculos biliares pigmentados. Outra alteração laboratorial esperada é a reticulocitose. A destruição periférica das hemácias faz com que a medula óssea prontamente reaja, aumentando a produção de novas hemácias, liberadas na circulação justamente na forma de reticulócitos. É por essas contagens reticulocitárias aumentadas na circulação que as anemias hemolíticas podem ser macrocíticas: os reticulócitos são maiores que as hemácias maduras, elevando o volume corpuscular médio (VCM). No entanto, na maioria dos casos, as anemias hemolíticas serão normocíticas, com a exceção das talassemias, tipicamente microcíticas, como vimos no livro que tratava do tema. Alguns quadros de intensa hemólise podem fazer com que a medula óssea reaja tão fortemente produzindo novas hemácias que até precursores eritropoiéticos nucleados, os eritroblastos, são lançados na circulação, podendo ser visualizados no sangue periférico, como explica a imagem a seguir. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 8 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 3. Reticulócitos e eritroblastos: as hemácias são o final de uma longa linha evolutiva iniciada na medula óssea pelos proeritroblastos. Em situações de hemólise, a produção de novas hemácias aumenta com objetivo de repor a perda periférica dessas células, liberando grande quantidade de reticulócitos na circulação, as formas eritrocitárias jovens que acabaram de perder seus núcleos e sair da medula. Em estados hemolíticos muito intensos, a eritropoiese é tão estimulada que há liberação de até mesmo eritroblastos ortocromáticos, tipicamente não vistos no sangue periférico. De fato, como já abordado no livro de Introdução ao Estudo das Anemias, o esfregaço de sangue periférico pode ajudar-nos a pensar no diagnóstico de anemias hemolíticas. Há outras alterações específicas, como drepanócitos, típicos da anemia falciforme, e esquizócitos, encontrados nas anemias microangiopáticas. Figura 4 Hemácia normal, drepanócito e esquizócito. A primeira tem uma forma bicôncava, enquanto o drepanócito, típico da anemia falciforme, possui forma de foice ou meia lua. Já o esquizócito é um fragmento eritrocitário, um “pedaço de hemácia”, característico das microangiopatias. Os leptócitos, ou hemácias em alvo, são, por sua vez, encontrados em todas as hemoglobinopatias, como a anemia falciforme, hemoglobinopatia SC e talassemias. Essas hemácias possuem uma distribuição anômala da hemoglobina, que lhes dá a característica de um alvo. Figura 5. Leptócitos ou hemácias em alvo: típicos das anemias hemolíticas decorrentes de defeitos da hemoglobina. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 9 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Por fim, os microesferócitos podem ser encontrados em todos os tipos de hemólise: algumas das hemácias que não são destruídas perdem parte de sua superfície de membrana, deixando seu formato bicôncavo habitual e ganhando a forma esférica, como mostra a imagem a seguir. Figura 6. Esferócitos e microesferócitos: hemácias de formatoindireta, aumento de desidrogenase lática, queda de haptoglobina, reticulocitose, presença de microesferócitos em sangue periférico Como não possuem grandes características específicas que as diferem das outras anemias hemolíticas, diante de um quadro de hemólise, sempre devemos pensar na possibilidade de AHAI e buscar confirmar ou afastar esse diagnóstico através de um exame: o teste de Coombs direto. Teste da antiglobulina direto (TAD) é a denominação mais atual para o clássico Coombs direto. Nesse exame, detectamos a presença de hemácias sensibilizadas por anticorpos ou complemento, isto é, aquelas que apresentam essas substâncias ligadas em sua superfície. Para tal, submetemos uma amostra de hemácias do paciente ao soro de Coombs, uma mistura de anticorpos anti-IgG e antiC3 que fará com que os eritrócitos ligados a essas substâncias se aglutinem, como mostra a imagem a seguir. Um TAD positivo indica, portanto, que as hemácias do paciente possuem IgG ou C3 em sua superfície, o que, em conjunto com evidências de hemólise, confirma o diagnóstico de AHAI. Figura 32. Teste de antiglobulina direto (TAD) ou Coombs direto: esse exame avalia a presença de anticorpos ligados à superfície das hemácias do paciente, através da adição do soro de Coombs, uma mistura de anticorpos contra IgG e C3. Hemácias sensibilizadas por essas substâncias sofrerão, então, aglutinação, indicando positividade do teste e confirmando o diagnóstico de AHAI, caso também haja alterações indicativas de hemólise. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 65 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Na vida real, até existem raras AHAI em que o TAD será negativo, mas elas nunca são abordadas nas provas. De forma semelhante, um TAD positivo isoladamente não consegue confirmar a AHAI na ausência de sinais de hemólise, já que falsos positivos são possíveis. Os examinadores, contudo, não costumam abordar esses conceitos: nas provas, Coombs direto positivo sempre indica AHAI. Nas provas de Residência, teste de Coombs direto positivo sempre será por AHAI! CAI NA PROVA (Seleção Unificada para Residência Médica do Estado do Ceará - SURCE - 2017) A mãe de um menino de cinco anos de idade relata que ele está com aparência anêmica, nas últimas duas semanas, sem causa aparente. Ao exame clínico, apresenta apenas palidez cutaneomucosa e leve icterícia; o restante do exame é normal. Os resultados laboratoriais revelam hemoglobina de 6,5 g% e Coombs direto positivo. Qual a principal hipótese diagnóstica? A) Doença falciforme. B) Esferocitose hereditária. C) Anemia hemolítica autoimune. D) Anemia por deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase. Não tenha dúvida, Estrategista: diante de um Coombs direto positivo, nossa principal hipótese é a AHAI, sem qualquer sombra de dúvida. Mais ainda quando vem acompanhado de alterações clássicas de uma anemia hemolítica, como redução dos níveis de hemoglobina e icterícia. Não esperamos encontrar positividade do TAD nas demais condições listadas. COMENTÁRIO Correta a alternativa C A contrapartida ao TAD é o teste de Coombs indireto ou pesquisa de anticorpos irregulares (PAI), não utilizado no diagnóstico das AHAI. Nesse exame, buscamos a presença de anticorpos livres no soro do paciente, através de sua incubação junto de hemácias com o soro de Coombs e hemácias de outros pacientes com fenótipo conhecido, como vemos na imagem a seguir. O Coombs indireto permite-nos, assim, identificar quais são os anticorpos presentes no plasma do paciente, sendo usado principalmente como exame pré-transfusional e no diagnóstico da doença hemolítica do recém-nascido. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 66 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 33. Teste de Coombs indireto: exame que avalia a presença de anticorpos antieritrocitários livres no plasma, através da incubação do soro do paciente com o soro de Coombs e hemácias de fenótipo conhecido. Se o paciente apresentar aloanticorpos contra as hemácias utilizadas, a aglutinação da amostra permitirá que digamos contra que antígenos aqueles anticorpos agem. Agora que sabemos identificar e diagnosticar as AHAI, Estrategista, vejamos como as questões abordam esse tema! CAI NA PROVA (Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC - 2019) Uma paciente do sexo feminino, 39 anos, previamente hígida, se queixa de astenia intensa há dois dias. Está no sétimo e último dia de tratamento para infecção respiratória da qual vinha se recuperando bem até o início da astenia. Está em uso de amoxicilina + clavulanato. Apresenta hemoglobina de 6,2/dl, volume corpuscular médio de 87 fl, leucometria de 6.100/μL, contagem de plaquetas de 145.000/μL e contagem de reticulócitos de 22%. A pressão arterial média é de 86 mmHg, a frequência cardíaca é de 105 bpm e a temperatura é 36,7°C. Assinale a alternativa correta em relação ao diagnóstico mais provável. COMENTÁRIO Temos uma paciente que, após alguns dias de uso de uma medicação, começa a apresentar um quadro de anemia hemolítica: há redução dos níveis de hemoglobina, além de grande reticulocitose. Essa é a história clássica das AHAI induzidas por drogas: a substância ingerida precipitou uma reação imune de produção de autoanticorpos, levando a um quadro franco de hemólise alguns dias após o evento. O examinador acabou deixando a alternativa incompleta, mas certamente a resposta da questão é a letra A, anemia hemolítica (autoimune). Veja que as demais condições listadas não são anemias hemolíticas, como a síndrome mielodisplásica e a leucemia linfoide aguda, e nem mesmo são precipitadas por uso de medicações, ou mesmo não existem (hipersensibilidade a cefalosporinas não causa anemia, mas sim reação alérgica). Correta a alternativa A A) Anemia hemolítica. B) Anemia transinfecciosa. C) Anemia de hipersensibilidade às cefalosporinas. D) Síndrome mielodisplásica. E) Leucemia linfoide aguda. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 67 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 3.1.3 TRATAMENTO DAS AHAI O tratamento específico das AHAI depende necessariamente do tipo de autoanticorpo expresso. Nas AHAI por anticorpos frios, a principal medida terapêutica é evitar a exposição ao frio, especialmente mantendo as extremidades aquecidas. Já nas AHAI por anticorpos quentes, o tratamento é muito semelhante ao de outra condição hematológica autoimune que veremos posteriormente, a PTI (púrpura trombocitopênica imune). A primeira linha terapêutica consiste no uso de corticoides, principalmente prednisona 1mg/kg, mantida por pelo menos 10 a 14 dias, inibindo a produção de autoanticorpos IgG, com boas taxas de resposta. Em episódios hemolíticos graves, alguns autores sugerem a pulsoterapia com metilprednisolona endovenosa como terapia de escolha. Em pacientes corticorrefratários, diversas terapias podem ser utilizadas, como esplenectomia, rituximab (proteína monoclonal anti-CD20), imunoglobulina humana e drogas imunossupressoras como ciclofosfamida, ciclosporina e azatioprina. O tratamento das AHAI é o ponto menos abordado sobre o tema nas provas, mas eventualmente uma ou outra questão toca nesse tópico, como veremos a seguir: CAI NA PROVA (Comissão Estadual de Residência Médica do Amazonas - CERMAM - 2020) Considerando as anemias hemolíticas autoimunes (AHAI), assinale a alternativa CORRETA: A) O teste de Coombs indireto detecta anticorpos na superfície das hemácias, enquanto o teste de Coombs direto detecta anticorpos no soro. B) A terapia com ciclosporina é a medida terapêutica de 1ª linha nas AHAI por anticorposquentes. C) O teste de Coombs direto negativo, na maioria das vezes, afasta a hipótese de anemia hemolítica. D) Anticorpos da classe IgM são os principais responsáveis pelas AHAI por anticorpos quentes, causando hemólise extravascular. COMENTÁRIO A maior parte das provas traz casos clínicos de AHAI para que você saiba identificá-los, mas algumas vezes questões conceituais como essa aparecem. Vamos julgar a alternativa, buscando a correta: Incorreta a alternativa A: fique atento, Estrategista! O examinador inverteu os exames para confundir-nos: quem detecta os anticorpos na superfície eritrocitária é o Coombs direto (aquele que vê os anticorpos DIRETAMENTE ligados às hemácias), enquanto o Coombs indireto identifica anticorpos livres no soro (usa hemácias de outros pacientes para INDIRETAMENTE buscar os anticorpos). Incorreta a alternativa B: como vimos, imunossupressores como a ciclosporina são usados em segunda linha para o tratamento das AHAI por anticorpos quentes, após falha dos corticoides como tratamento de primeira escolha. Correta a alternativa C apesar de raramente podermos ter AHAI com Coombs direto negativo, na maioria das vezes podemos afastar essa hipótese diante da negatividade do exame. Incorreta a alternativa D: erro conceitual crasso. As AHAI por anticorpos quentes são desencadeadas por anticorpos IgG e cursam com hemólise extravascular, enquanto autoanticorpos IgM desencadeiam hemólise intravascular nas AHAI por anticorpos frios. (Universidade Federal de Campina Grande - PB - 2018) Qual das seguintes assertivas não é esperada em uma paciente lúpica, com anemia hemolítica autoimune por anticorpos quentes: m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 68 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A) Coombs direto positivo para IgG e C3. B) Hemoglobinúria de grande monta. C) Hemólise predominantemente extravascular. D) Provas cruzadas pré-transfusionais persistentemente positivas. E) Boa resposta terapêutica com gamaglobulina hiperimune. COMENTÁRIO Temos uma paciente apresentando uma AHAI por anticorpos quentes, desencadeada pelo lúpus. O que esperamos encontrar nesses casos? Ora, você já sabe que a AHAI a quente é precipitada pela produção de autoanticorpos IgG, capazes de levar à hemólise extravascular através da sensibilização das hemácias à ação dos macrófagos esplênicos. Com isso em mente, vamos julgar as alternativas: Correta a alternativa A: o Coombs direto positivo é, sim, uma alteração esperada na AHAI por anticorpos quentes, já que justamente detecta a presença de autoanticorpos ligados à superfície das hemácias. Incorreta a alternaitva B a AHAI a quente é marcada pela hemólise extravascular, enquanto hemoglobinúria é uma apresentação típica de quadros de hemólise intravascular. Correta a alternativa C: como vimos na alternativa anterior, é justamente a hemólise extravascular que caracteriza os casos de AHAI por anticorpos quentes. Correta a alternativa D: autoanticorpos IgG podem interferir em exames pré-transfusionais, especialmente na tipagem Rh. No caso da AHAI por anticorpos frios, também há interferência, mas ela habitualmente é controlada através do aquecimento das amostras, já que os autoanticorpos IgM possuem ligação máxima às hemácias abaixo de 30°C. Correta a alternativa E: como vimos, a imunoglobulina humana é uma opção de tratamento de segunda linha para a AHAI por anticorpos quentes, em pacientes refratários à corticoterapia. É isso, Estrategista, já conhecemos as anemias hemolíticas de componente autoimune. Revise rapidamente esse tema a seguir antes de avançarmos para as formas não imunes de hemólise adquirida, começando por um tipo muito importante: as microangiopatias! EM RESUMO - ANEMIAS HEMOLÍTICAS AUTOIMUNES 1. Doenças raras em que há produção de autoanticorpos voltados contra a superfície eritrocitária. 2. Fisiopatologia: a produção de autoanticorpos IgG ou IgM leva à destruição precoce das hemácias. 3. AHAI por anticorpos quentes: mais comum (80% dos casos), causada por autoanticorpos IgG, com reatividade máxima à temperatura corporal, 37°C, causando hemólise extravascular. Na maioria das vezes, idiopática, mas podendo ser secundária a LLC, lúpus, neoplasias e uso de medicações (alfametildopa, cefalosporinas, quinidina). Interfere na tipagem Rh. 4. AHAI por anticorpos frios: 15% dos casos, causada por autoanticorpos IgM, com reatividade máxima abaixo de 30°C, causando hemólise intravascular. Na maioria das vezes, idiopática, podendo ser secundária a doenças linfoproliferativas e infecções (Micoplasma, CMV, EBV). Interfere nas tipagens ABO e Rh. 5. Diagnóstico: alterações típicas de hemólise + Coombs direto positivo. 6. Tratamento da AHAI por anticorpos quentes: corticoterapia em primeira linha, segunda linha com imunossupressores (ciclofosfamida, azatioprina), imunoglobulina, esplenectomia. 7. Tratamento da AHAI por anticorpos frios: evitar exposição a baixas temperaturas. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 69 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 34. AHAI em resumo: as anemias hemolíticas autoimunes são condições primárias ou secundárias em que a produção de autoanticorpos contra antígenos eritrocitários leva à destruição precoce das hemácias. O tipo mais comum, a AHAI por anticorpos quentes, é caracterizado pela presença de anticorpos da classe IgG, que levam à hemólise extravascular, devendo ser tratado em primeira linha com corticoterapia. Já a AHAI por anticorpos frios é mais rara, desencadeada pela presença de anticorpos IgM capazes de precipitar hemólise intravascular. Deve ser tratada principalmente com afastamento de exposição ao frio. 3.2 ANEMIAS HEMOLÍTICAS MICROANGIOPÁTICAS Anemia hemolítica microangiopática refere-se a condições em que ocorre a destruição das hemácias na microcirculação: por inúmeras causas, as hemácias despedaçam-se ao passar pelas arteríolas e capilares, levando ao aparecimento dos chamados esquizócitos, fragmentos eritrocitários que podem ser vistos no sangue periférico. Figura 35. Esquizócitos: "pedaços" de hemácias que sofreram fragmentação na microcirculação, típicos das anemias hemolíticas microangiopáticas. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 70 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A destruição das hemácias por impacto em próteses cardíacas mecânicas também pode levar à formação de esquizócitos, muitas vezes sendo chamada de anemia hemolítica macroangiopática. As diversas condições que podem lesar as microangiopatias estão listadas na tabela a seguir. Algumas dessas são patologias serão abordadas por outras especialidades, como a eclâmpsia, síndrome HELLP e hipertensão maligna. Aqui, trataremos das anemias hemolíticas microangiopáticas de fundo hematológico, as chamadas microangiopatias trombóticas: a PTT (púrpura trombocitopênica trombótica), a SHU (síndrome hemolítico- urêmica) e a CIVD (coagulação vascular disseminadas. Causas de anemias hemolíticas microangiopáticas Microangiopatias trombóticas: púrpura trombocitopênica trombótica (PTT), síndrome hemolítica-urêmica (SHU) e coagulação vascular disseminada (CIVD) Pré-eclâmpsia, eclâmpsia e síndrome HELLP Hipertensão maligna Neoplasias disseminadas 3.2.1 PÚRPURA TROMBOCITOPÊNICA TROMBÓTICA – PTT Microangiopatias trombóticas é um termo que engloba PTT, SHU e CIVD, um grupo de condições em que a destruição das hemácias na microcirculação decorre de formação de trombos, frequentemente cursando com plaquetopenia. A PTT é a mais clássica dessas doenças, caracterizada pela formação de microtrombos formados de plaquetase fatores de von Willebrand gigantes, ocluindo os capilares de diversos órgãos e levando à hemólise. É uma doença rara, afetando anualmente 2 a 6 pessoas a cada milhão de habitantes, com pico de incidência entre os 30 e 50 anos. As mulheres são pelo menos duas vezes mais afetadas que os homens. Apesar de o quadro clínico ser o ponto mais abordado sobre a PTT nas provas, vamos destrinchar abaixo sua interessante fisiopatologia, para que possamos entender melhor sua apresentação. 3.2.1.1 FISIOPATOLOGIA DA PTT O fator de von Willebrand (FVW) é uma glicoproteína plasmática secretada pelo endotélio vascular, que possui importante papel na hemostasia: ele promove a adesão plaquetária através da ligação com um receptor da superfície das plaquetas, a glicoproteína IB (Gp-Ib). Quando há lesão endotelial, é o FVW que unirá as plaquetas ao tecido conjuntivo subendotelial exposto, causando a formação do trombo plaquetário. Normalmente, o FVW é secretado pelo endotélio em grandes polímeros, que precisam ser continuamente clivados, “cortados” em fragmentos menores, que então ganham a circulação. Ou seja, o FVW é como uma planta cujos galhos vão crescendo do endotélio e precisam ser cortados, para que suas “mudinhas” se desprendam m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 71 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED e possam circular no plasma. Quem faz essa “poda”, a clivagem do FVW, é uma metaloprotease chamada ADAMTS13 (A Disintegrin And Metalloproteinase with a ThromboSpondin type 1 motif, member 13). Sintetizada principalmente no fígado, a ADAMTS13 fragmenta o FVW gigante gerado pelo endotélio, formando pequenos multímeros que se desprenderão e circularão pelo plasma. O evento fisiopatológico central da PTT é justamente a deficiência de ADAMTS13: sem a metaloprotease para clivá-los, os grandes polímeros de FVW permanecem ligados ao endotélio e induzem à adesão das plaquetas, formando trombos plaquetários na microcirculação de diversos órgãos e levando à fragmentação mecânica das hemácias que por ali passarem. Essa deficiência de ADAMTS13 pode raramente ser congênita, por mutações que levem à menor formação da enzima, ou, principalmente, adquirida. Nesse caso, a ação de autoanticorpos contra a ADAMTS13 reduz sua atividade, levando ao quadro da PTT. Figura 36. Fisiopatologia da PTT: o fator de von Willebrand normalmente é clivado por ação da ADAMTS13, fazendo com que os grandes multímeros gerados pelo endotélio sejam “cortados” em pequenos fragmentos, que ganham a circulação. Na PTT, a inibição da ADAMTS13 por autoanticorpos faz com que o fator de von Willebrand não seja clivado, culminando na formação de trombos plaquetários na microcirculação. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 72 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A PTT adquirida é, portanto, uma doença imune, mas em que o mecanismo hemolítico em si não decorre diretamente da ação dos autoanticorpos, como ocorre nas AHAI. CAI NA PROVA (Universidade Federal de Campina Grande - UFCG - 2017) A fisiopatologia da púrpura trombocitopênica trombótica está centralmente descrita na seguinte assertiva: A) Acúmulo de multímeros do fator de von Willebrand por inibição da ADAMTS13. B) Ativação plaquetária patológica pela presença de anticorpos anti-PF4. C) Liberação endotelial excessiva do Inibidor do Ativador do Plasminogênio - PAI. D) Liberação endotelial excessiva do fator tecidual. E) Degradação nas células endoteliais dos corpúsculos de Weibel-Palade por serinoproteases. COMENTÁRIO Como se instala a PTT, Estrategista? Ora, vimos que a produção de autoanticorpos contra a ADAMTS13 acaba por reduzir a atividade dessa enzima, impedindo que exerça sua função de clivagem do FVW e, assim, culminando na formação de polímeros gigantes de FVW. Serão esses polímeros que levarão à formação de trombos plaquetários na microcirculação, precipitando todo o quadro da PTT. Assim, a resposta da questão é a alternativa A. Correta a alternativa A Conhecendo a fisiopatologia da PTT, conseguiremos entender como essa doença se manifesta. Tome fôlego, caro Estrategista, porque agora estudaremos justamente o ponto mais importante sobre essa patologia: sua apresentação clínica! 3.2.1.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA PTT Já sabemos agora que a PTT é uma doença causada pela formação de trombos plaquetários na microcirculação, em decorrência de uma ação desregulada do FVW não clivado pela ADAMTS13. Muitos órgãos são acometidos pelos microtrombos plaquetários, fazendo com que a PTT seja uma doença multissistêmica. Pouco vista na prática clínica, a pêntade clínica clássica associada à PTT é composta por febre, sintomas neurológicos, insuficiência renal, anemia hemolítica microangiopática e trombocitopenia, como vemos a seguir. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 73 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Formação de trombos plaquetários na microcirculação Alterações neurológicas Febre Anemia hemolítica microangiopática Plaquetopenia grave Insuficiência renal leve Figura 37. Pêntade clássica de sintomas da PTT. Alterações neurológicas como tontura, cefaleia, convulsões e rebaixamento de nível de consciência decorrem do acometimento encefálico pela trombose da microcirculação, assim como a insuficiência renal, que costuma ser leve, com creatinina tipicamente abaixo de 2mg/dL. O consumo plaquetário na formação dos microtrombos explica a grave trombocitopenia, habitualmente abaixo de 10.000 plaquetas/mm3. São também esses microtrombos que levam à destruição mecânica das hemácias, formando grande quantidade de esquizócitos e caracterizando a hemólise microangiopática, com todas as alterações laboratoriais típicas de uma anemia hemolítica intravascular. Um ponto importante é que a PTT não costuma cursar com alterações do coagulograma, apesar de ser uma condição trombótica. Isso porque o distúrbio decorre principalmente da formação de trombos plaquetários, com pouca participação dos fatores de coagulação. Essa é nossa principal forma de diferenciar a PTT da CIVD, condição que conheceremos mais à frente! Saber identificar a PTT é o ponto mais cobrado sobre essa doença nas provas de Residência. Revise rapidamente, a seguir, as alterações esperadas nesse quadro para que possamos ver como as questões as abordam! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 74 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Quadro clínico-laboratorial da PTT Febre Alterações neurológicas: confusão mental, cefaleia, tontura, convulsões, déficits motores ou sensitivos, rebaixamento do nível de consciência Insuficiência renal: tipicamente leve Plaquetopenia grave: equimoses, sangramento mucoso Anemia hemolítica microangiopática: anemia normo/normo, presença de esquizócitos em sangue periférico, aumento de desidro- genase lática e bilirrubina indireta, reticulocitose, consumo de haptoglobina, hemoglobinúria Hemólise não imune: Coombs direto negativo Distúrbio da hemostasia primária: coagulograma normal CAI NA PROVA (Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ - 2018) Homem, 49 anos, com insuficiência renal aguda e diminuição do nível de consciência. Exames laboratoriais: leucocitose discreta com neutrofilia e trombocitopenia severa (trombótica. C) Coagulação intravascular disseminada. D) Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo. COMENTÁRIO Vamos lá, Estrategista! Temos um paciente apresentando rebaixamento do nível de consciência, insuficiência renal, plaquetopenia e, na avaliação de sangue periférica, provavelmente a presença de esquizócitos, os grandes marcadores das microangiopatias. Ora, faltou apenas a febre para completarmos a pêntade clássica da PTT, o provável diagnóstico de nosso paciente. Nenhuma das outras condições listadas apresenta quadro clínico semelhante: síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAAF) e anemia hemolítica autoimune não são anemias hemolíticas microangiopáticas, enquanto esperaríamos alterações no coagulograma em pacientes com CIVD. Correta a alternativa B (Universidade Federal de Sergipe - UFS – 2020) Homem, 34 anos, maratonista, é admitido em Urgência com queixa de fraqueza. Acompanhante referiu que os sintomas iniciaram há cerca de uma semana e a preocupou, pois ficou sonolento durante toda a manhã. Ao exame notou-se alteração de força motora bilateral e lentificação na resposta verbal e equimoses em membros inferiores. Realizou avaliação laboratorial, cujos resultados estão abaixo, a fim de buscar possíveis causas dos sintomas do paciente. Uma possibilidade mais provável para o diagnóstico é se tratar de: Hemoglobina 7,5g/dL; Hematócrito 28,1%; Leucograma normal; Plaquetas 34.000; LDH aumentado em 2x valor normal; Bilirrubinas totais 5,8mg/DL (conjugada 0,9; não conjugada 4,9); Ureia 45mg/dL; Creatinina 1,3mg/dL; Coagulograma e Fibrinogênio normais. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 75 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A) Coagulação intravascular disseminada. B) Púrpura trombocitopênica imunológica. C) Púrpura trombocitopênica trombótica. D) Púrpura de Henoch-Schonlein. COMENTÁRIO Note que não precisamos da pêntade clássica de sintomas para suspeitar da PTT! Temos um paciente jovem apresentando importantes alterações neurológicas, associadas à plaquetopenia severa e sinais de hemólise como elevação de DHL e bilirrubina indireta. A função renal está pouco alterada e o coagulograma é normal. O examinador não foi muito generoso com as informações, mas, olhando as alternativas, conseguimos chegar ao diagnóstico correto! Incorreta a alternativa A: o coagulograma normal é a principal forma de diferenciarmos a PTT da CIVD, já que, nesta última, estará tipicamente alterado! Incorreta a alternativa B: a púrpura trombocitopênica imune (PTI) é marcada por plaquetopenia e mais nada, não cursando com sintomas neurológicos e hemólise. Correta a alternativa C perfeito! Das opções disponíveis, a única que cursa com sintomas neurológicos tão proeminentes é justamente a PTT. Incorreta a alternativa D: a púrpura de Henoch-Schönlein (PHS) é uma vasculite típica de crianças, desencadeada por um quadro viral de vias aéreas superiores e manifesta por púrpura palpável de membros inferiores, dor abdominal, acometimento articular e glomerulonefrite. 3.2.1.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA PTT Sem terapia específica, a letalidade da PTT é elevadíssima, com mais de 90% dos pacientes evoluindo a óbito. Por isso, é considerada uma emergência médica e, na menor suspeita do quadro, é preciso prontamente introduzir terapia. O diagnóstico até pode ser confirmado pela dosagem da atividade da ADAMTS13, tipicamente reduzida, mas esse é um exame pouco disponível e demorado, o que impede que a decisão terapêutica dependa dessa confirmação. O tratamento baseia-se na plasmaférese, um procedimento em que retiramos o sangue do paciente por um cateter, passamo- lo por uma centrífuga capaz de separar o plasma das hemácias, retiramos o plasma do paciente e fornecemos plasma normal de doadores, reinfundido via cateter junto das hemácias. A PTT é uma condição gravíssima, sendo considerada uma emergência médica. A medida imediata diante de um quadro de PTT deve ser viabilizar a realização da plasmaférese, o procedimento terapêutico mais eficaz nesses casos. O raciocínio por trás da plasmaférese no tratamento da PTT é retirar o plasma doente, com os polímeros gigantes de FVW e os autoanticorpos contra a ADAMTS13, e fornecer plasma normal, com ADAMTS13 ativa, capaz de clivar o FVW. Em situações de exceção, a transfusão simples de plasma normal pode ser usada se a plasmaférese for inacessível, garantindo um aumento da atividade da ADAMTS13 até que o procedimento de escolha possa ser realizado. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 76 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 38. Plasmaférese na PTT: nesse procedimento, utilizamos uma máquina de aférese, capaz de separar as hemácias e o plasma através de uma centrífuga. O plasma doente, sem ADAMTS13 funcionante e com multímeros gigantes de fator de von Willebrand, é desprezado, enquanto reconstituímos o sangue do paciente, unindo as hemácias ao plasma normal, que contém ADAMTS13 não inibido por autoanticorpos. A seguir, reinfundimos o sangue reconstituído, o que corrigirá o quadro: o ADAMTS13 do plasma normal agirá clivando os fatores de von Willebrand gigantes no endotélio do paciente, reduzindo a formação de microtrombos. Não devemos transfundir plaquetas em pacientes com PTT, apesar da plaquetopenia grave! As plaquetas infundidas serão prontamente captadas nos microtrombos, podendo, inclusive, piorar o quadro. É como jogar mais lenha na fogueira! A única exceção a essa regra é em situações de sangramento ativo, em que não temos opção a não ser realizar a transfusão. Uma medida adjuvante à plasmaférese costuma ser a corticoterapia, capaz de diminuir a produção de autoanticorpos e, assim, reduzir a inibição sobre a ADAMTS13. Mais recentemente, foi aprovado o uso em primeira linha do caplacizumabe, um anticorpo antiFVW que inibe sua ligação às plaquetas, impedindo, assim, a formação dos trombos plaquetários. Mas, lembre-se: a plasmaférese é o procedimento essencial no tratamento da PTT e, portanto, o caplacizumabe deve ser usado apenas em conjunto com essa terapêutica, nunca isoladamente. Pacientes refratários ao tratamento de primeira linha podem ser submetidos a diversas terapias, como uso de rituximab (anticorpo monoclonal antiCD20), ciclofosfamida e ciclosporina, mostrados no esquema a seguir: m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 77 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 39. Opções de tratamento da PTT. CAI NA PROVA (Universidade Federal de Campina Grande - UFCG - 2019) Mulher 41 anos, com quadro há 01 semana de febre, mal-estar, palidez cutâneo- mucosa e episódios de desorientação. Laboratório evidenciou Hb = 6,5 g/dL (normocítica e normocrômica), leucócitos = 8.500/mm3, sem alterações significativas na contagem diferencial, plaquetas = 54.000/mm3, DHL = 1.230 UI/L, reticulócitos = 16%, creatinina = 1,6 mg/dL. Hematoscopia evidenciou presença de esquizócitos em abundância. Tempo de protrombina e TTPa inalterados. Em relação ao caso, assinale a alternativa correta. A) A melhor opção terapêutica para o caso é pulsoterapia com metilprednisolona. B) O quadro tende a ser autolimitado e de baixa letalidade, sendo a conduta expectante a mais adequada. C) A hemólise evidenciada neste caso é predominantemente intravascular, cursando com aumento da haptoglobina, hemoglobinúria e hemossiderinúria. D) O diagnóstico mais apropriado neste caso é CIVD associado a sepse, devendo-se tratar a infecção de base. E) A paciente deverá ser encaminhada para realização de plasmaférese. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i dA apresentação da SHU está resumida nesta tabela. Leia com atenção para que possamos encarar umas questões sobre esse tema a seguir! Quadro clínico-laboratorial da SHU Pródromo de gastroenterite por E. coli O157:H7: diarreia sanguinolenta, dor abdominal, febre, vômitos Insuficiência renal grave: muitas vezes com necessidade de hemodiálise, mas na maior parte das vezes reversível Anemia hemolítica microangiopática: anemia normo/normo, presença de esquizócitos em sangue periférico, aumento de desidroge- nase lática e bilirrubina indireta, reticulocitose, consumo de haptoglobina, hemoglobinúria Hemólise não imune: Coombs direto negativo Plaquetopenia grave: equimoses, sangramento mucoso Distúrbio da hemostasia primária: coagulograma normal CAI NA PROVA (Universidade Estadual de Campinas - Unicamp - 2019) Menino, 3a, é trazida a atendimento médico por febre e diarreia com muco e sangue há três dias. Mãe refere queda do estado geral há 1 dia, acompanhada de palidez cutânea e diminuição do volume urinário. Exame físico: FR = 60 irpm; FC= 140 bpm; T= 37,5°C; hipoativo, irritado, perfusão periférica lentificada, olhos encovados, sangramento nos locais de punção e ausência de sinais meníngeos. Hb = 5,3g/dL; plaquetas = 85.000/mm³. A HIPÓTESE DIAGNÓSTICA É: A) Diarréia aguda com desidratação e anemia ferropriva. B) Leucemia aguda. C) Lúpus eritematoso sistêmico. D) Síndrome hemolítico-urêmica. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 82 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Correta a alternativa D (Universidade de São Paulo - USP - 2020) Menina, 2 anos e 6 meses, com 13 kg, previamente saudável. Há 10 dias teve quadro de diarreia e vômitos com resolução espontânea dos vômitos em 48 horas, mas manutenção das fezes líquidas com presença de pequena quantidade de sangue escuro a partir do terceiro dia. Procurou atendimento médico sendo prescrita solução oral para hidratação e ceftriaxone IM, 1 vez ao dia, que a criança utilizou até ontem com resolução do quadro de diarreia no final da primeira semana. Hoje a mãe notou a criança pálida, muito prostrada e sem urinar há 12 horas. Exame físico: criança irritada, chorando com lágrimas, edema bipalpebral. Ausculta pulmonar: MV presente e simétrico com roncos; FR 25 irpm; ausculta cardíaca: 2 BRNF sem sopros, FC 153 bpm; PA 112 x 50 mmHg. Abdome globoso sem alterações. Saturação de oxigênio em oximetria de pulso = 95%. Exames laboratoriais: hemoglobina = 6,5 g/dL, hematócrito = 20%, leucócitos = 14.000, plaquetas = 70.000, ureia = 66 g/dL, creatinina = 3,2 mg/dL, sódio sérico = 130 mEq/L e potássio sérico = 6,0 mEq/L. O comprometimento da função renal, nesse cenário diagnóstico, pode ser atribuído a: A) Necrose tubular aguda. B) Glomerulonefrite aguda pós infecciosa. C) Nefrite túbulo intersticial por droga. D) Microangiopatia trombótica. COMENTÁRIO Veja como a SHU pode ser cobrada tanto na Nefrologia quanto na Hematologia! É preciso que você, Estrategista, saiba reunir as pistas: uma criança evolui com anemia, insuficiência renal e plaquetopenia após episódio de gastroenterite. O examinador poderia ter informado o achado de esquizócitos no sangue periférico para que soubéssemos se tratar de uma anemia microangiopática, mas, de qualquer forma, já sabemos que essa é a história clássica da SHU, um tipo de microangiopatia trombótica. Nenhuma das demais condições cursa com pródromo de diarreia sanguinolenta, nem mesmo com alterações hematológicas marcantes como as de nosso caso. Correta a alternativa D 3.2.2.2 TRATAMENTO DA SHU O tratamento da SHU é basicamente de suporte clínico, feito com transfusão de hemácias, controle hidroeletrolítico e diálise, se necessário. A transfusão de plaquetas, como na PTT, deve ser evitada, exceto em casos de sangramento ativo. Não há indicação de antibioticoterapia para o tratamento da gastroenterite. A maior parte dos casos será de boa evolução, com recuperação da função renal. COMENTÁRIO É exatamente assim que a SHU é cobrada nas provas, caro Estrategista. Somos apresentados a uma criança que, após um quadro de gastroenterite, evolui com anemia, plaquetopenia e insuficiência renal oligúrica. Não deve haver dúvidas, essa é justamente a tríade clássica de manifestações da SHU. As outras condições não conseguiriam explicar o quadro: anemia ferropriva não cursa com plaquetopenia, leucemia aguda não está frequentemente associada à piora da função renal e o lúpus é uma doença crônica que não tipicamente se associa a um episódio agudo de gastroenterite. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 83 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED EM RESUMO - SÍNDROME HEMOLÍTICO-URÊMICA (SHU) 1. Microangiopatia trombótica marcada por acometimento predominante da microcirculação renal. 2. Etiologia: gastroenterite por E. coli O157:H7. 3. Epidemiologia: mais frequente em crianças de até 5 anos de idade. 4. Quadro clínico laboratorial: tríade clássica de anemia hemolítica microangiopática, plaquetopenia e insuficiência renal oligúrica. 5. Diagnóstico: clínico. 6. Tratamento: suporte clínico com diálise, manejo hidroeletrolítico e transfusão de hemácias. Figura 42. SHU em resumo: a síndrome hemolítico-urêmica costuma ser desencadeada por uma gastroenterite por E. coli O157H7, produtora de shiga-toxina. O dano endotelial resultante da passagem dessa toxina para a circulação do paciente levará à tríade clássica de apresentação da SHU: anemia hemolítica microangiopática, plaquetopenia e insuficiência renal aguda. O tratamento é basicamente de suporte, com controle hidroeletrolítico e hemodiálise se necessário. 3.2.3 COAGULAÇÃO INTRAVASCULAR DISSEMINADA – CIVD A última das microangiopatias que estudaremos neste livro é a CIVD, a mais comum delas e a menos cobrada nas provas de Residência. Configura uma síndrome trombo-hemorrágica em que a cascata de coagulação é ativada por algum processo subjacente que cause dano ao endotélio vascular, culminando em um desbalanço da hemostasia normal. Podem precipitar a CIVD condições como sepse, neoplasias e trauma, todas situações em que o dano endotelial leva à liberação de substâncias ativadoras do sistema de coagulação, levando à ativação da cascata de coagulação, formação de trombos intravasculares e à hemólise microangiopática. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 84 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 43. Fisiopatologia da CIVD: a CIVD é um estado paradoxalmente hemorrágico e pró-trombótico, secundário a uma série de condições agudas, como quadros sépticos. Esses eventos precipitam lesão endotelial, com liberação de substâncias pró-coagulantes e antifibrinolíticos, levando a um desbalanço da hemostasia normal. Todo esse quadro acaba por desencadear a formação de redes de fibrina na microcirculação, com desenvolvimento de anemia hemolítica microangiopática e consumo dos fatores de coagulação. Como as demais microangiopatias trombóticas, a CIVD também é marcada por anemia hemolítica intravascular, plaquetopenia e esquizócitos à hematoscopia. O coagulograma, contudo, será marcadamente diferente da PTT e da SHU: ao contrário dessas doenças, a CIVD cursa com importante alargamento do TP (tempo de trombina), TTPA (tempo parcial de trombina ativado) e TT (tempo de trombina), além de consumo de fibrinogênio e aumento dos níveis de D-dímero. Esse coagulograma alterado é resultado do consumo dos fatores de coagulação, que também levará a uma tendência aumentada de sangramento, culminando em um estado paradoxalmente trombótico e hemorrágico ao mesmo tempo. O quadro trombo-hemorrágicocom coagulograma alterado é o ponto mais cobrado nas provas, como vemos nas questões a seguir: CAI NA PROVA (Universidade Federal de Sergipe - UFS - 2019) Senhor de 71 anos de idade vem à urgência com história de febre há 06 horas, calafrios, tremores e dor abdominal. Associado ao quadro refere ainda náuseas e vômitos. Antecedentes médicos importantes: hipertensão arterial sistêmica e infarto agudo do miocárdio tratado há 3 anos com revascularização cirúrgica. Esposa refere que o mesmo apenas usa medicações anti-hipertensivas e “para o colesterol”. No exame da admissão o usuário apresenta-se confuso, pouco responsivo e pouco colaborativo com a história clínica. Está taquicárdico, hipotenso, distensão do abdome e forte dor abdominal mesmo à mínima palpação. Há ainda redução dos ruídos hidroaéreos. Leucócitos 14.300/mm³ (valor normal 4.000–10.000/mm³ ), Hematócrito 37% (valor normal 36–48%), Plaquetas 78.000/ mm³ (valor normal 150.000–450.000/mm³ ), TP 24s (valor normal 11– 13s), TTPa 49s (valor normal 22–34s) Fibrinogênio 210mg/dL (valor m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 85 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Correta a alternativa D normal 200–400 mg/dL), Creatinina 1,8mg/dL (valor normal 0,7–1,3 mg/dL), LDH 426IU/L (valor normal 107–231 IU/L), AST 634IU/L (valor normal 10–50 IU/L), ALT 786IU/L (valor normal 10–50 IU/L), Lactato 19mmol/L (valor normal 0,5–2,2 IU/L). Citologia aponta diversos neutrófilos com granulações tóxicas, bastões, trombocitopenia e moderada presença de esquizócitos. A causa mais provável da trombocitopenia é: A) Trombocitopenia induzida por drogas. B) Púrpura trombocitopênica imunológica (PTI). C) Púrpura trombocitopênica trombótica (PTT). D) Coagulação intravascular disseminada (CIVD). COMENTÁRIO Temos um paciente com o que parece ser um quadro de abdômen agudo obstrutivo, evoluindo para franco quadro de choque. Ao avaliar seus exames, notamos alterações bem marcantes: há plaquetopenia e presença de esquizócitos, indicando uma microangiopatia trombótica, o que nos permite afastar as hipóteses de trombocitopenia induzida por drogas e PTI. Mais ainda, TP e TTPA estão alargados, o que torna a PTT um diagnóstico menos provável. Sobra o provável quadro do paciente, a CIVD, precipitada pela patologia de base, qualquer que seja ela. (Processo Seletivo Unificado - PSU MG - 2019) Homem de 44 anos foi admitido em CTI com choque séptico que teve como foco lesão traumática infectada extensa em membro inferior direito. Algumas horas após a admissão, foram observadas petéquias, equimoses, sangramento no sítio de inserção de cateter venoso central e gengivorragia. O plantonista solicitou hemograma e coagulograma para avaliação inicial. À hematoscopia foram observados numerosos esquizócitos. Dentre as opções abaixo, qual é o diagnóstico MAIS PROVÁVEL e como devem estar o tempo de protrombina (TP), o tempo parcial de tromboplastina ativado (PTTa) e contagem de plaquetas? A) Coagulação intravascular disseminada, TP e PTTa prolongados e trombocitopenia. B) Deficiência prévia de fator de coagulação e infecção aguda, TP e PT Ta prolongados e trombocitose. C) Púrpura trombocitopênica trombótica, TP normal, PTTa prolongado e trombocitopenia. D) Uso prévio de warfarin e infecção aguda, TP prolongado, PTTa normal e trombocitopenia. COMENTÁRIO Veja só, Estrategista, estamos diante de um paciente em choque séptico apresentando importante quadro hemorrágico, acompanhado da presença de esquizócitos em sangue periférico. Ou seja, uma anemia microangiopática precipitada por sepse. Certamente estamos diante de um quadro de CIVD! Esperamos que, nessa condição, o coagulograma esteja alargado e a contagem plaquetária reduzida, como afirma a alternativa A. Correta a alternativa A O diagnóstico da CIVD depende de todo o conjunto de sinais clínicos e laboratoriais, sem haver um único exame específico capaz de confirmá-lo. O tratamento é feito principalmente com o controle da condição desencadeante, se possível. O suporte clínico é essencial, com transfusão de plaquetas e plasma fresco congelado se houver sangramento ativo. O uso de heparina como forma de controle do estado trombótico é controverso, a não ser que eventos trombóticos francos sejam verificados. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 86 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED EM RESUMO - COAGULAÇÃO INTRAVASCULAR DISSEMINADA (CIVD) 1. Microangiopatia trombótica precipitada por condições de dano endotelial, que levam a um desbalanço da hemostasia normal. 2. Etiologias: quadros sépticos, neoplasias, traumas. 3. Fisiopatologia: lesão endotelial leva à liberação de substâncias trombogênicas e ativação do sistema de coagulação, com formação de trombos intravasculares, culminando em anemia hemolítica microangiopática e consumo dos fatores de coagulação. 4. Quadro clínico-laboratorial: quadro trombo-hemorrágico marcado por hemólise microangiopática e alterações do coagulograma. 5. Diagnóstico: clínico, através da análise do quadro e das alterações laboratoriais. 6. Tratamento: suporte clínico e afastamento de desencadeantes. 3.3 HIPERESPLENISMO Agora que encerramos as anemias hemolíticas adquiridas mais comuns nas provas, as AHAI e as microangiopatias, continuaremos nosso estudo abordando quadros menos abordados, começando pelo hiperesplenismo, um estado de citopenias em sangue periférico resultante da presença de esplenomegalia. Lembre-se de que o baço é um órgão linfoide altamente especializado, com múltiplas funções. Sua função imunológica é exercida na porção anatômica conhecida como polpa branca, em que uma grande quantidade de linfócitos B, linfócitos T e plasmócitos interagem para produzir a resposta imune humoral, aquela realizada através de anticorpos. Daí sua importância na proteção contra bactérias encapsuladas como pneumococo, meningococo e hemófilo tipo B. Parte dessa proteção contra essas bactérias de parede celular também ocorre na chamada polpa vermelha, porção do baço responsável pela filtração sanguínea. A passagem do sangue pelos sinusoides esplênicos expõe seus componentes aos macrófagos de sistema reticulo-endotelial, capazes de fagocitar microrganismos e células sanguíneas como hemácias senescentes, leucócitos e plaquetas. Figura 44. Anatomia do baço. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 87 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Localizado no quadrante superior esquerdo do abdômen, dentro do peritônio, o órgão mede cerca de 12 a 13 centímetros. O aumento secundário de tamanho do baço pode levar a um aprisionamento vascular de grande quantidade de células hematológicas e, consequentemente, citopenia de uma ou mais séries hematológicas, configurando o quadro que chamamos de hiperesplenismo. As provas de Residência, entretanto, quase nunca abordam o diagnóstico dessa condição, feito pelo achado de esplenomegalia e citopenias de sangue periférico sem outra causa aparente. Seu tratamento, feito com a esplenectomia, também é alvo incomum de questões. Já um ponto que eventualmente é abordado são as causas de esplenomegalia de grande monta, que, em última instância, levarão ao hiperesplenismo. Definimos esplenomegalia de grande monta como a situação em que o baço se estende a mais de 8 centímetros do rebordo costal, ultrapassa a linha umbilical ou atinge peso superior a 1kg. Suas principais etiologias estão listadas no esquema a seguir. Na sequência, veremos como elas são abordadas nas provas. Figura 45. Esplenomegalia de grande monta. CAI NA PROVA (Universidade Federal do Piauí - UFPI- 2019) São causas de esplenomegalia maciça (gigante): A) Tricoleucemia, talassemia menor, leucemia mieloide crônica. B) Talassemia maior, mielofibrose primária, leucemia mieloide crônica. C) Mielofibrose primária, trombocitopenia imunológica primária, leucemia linfocítica crônica. D) Anemia hemolítica autoimune, policitemia vera, anemia falciforme. E) Leucemia mieloide crônica, doença de Gaucher, púrpura trombocitopênica trombótica. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 88 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED COMENTÁRIO Como vimos, as principais causas de esplenomegalia de grande monta são doenças mieloproliferativas, linfomas, tricoleucemia, infecções como a malária e o calazar, talassemia maior e doenças infiltrativas como a doença de Gaucher. Vejamos as alternativas: Incorreta a alternativa A: como vimos no livro de anemias microcíticas, talassemias podem, sim, cursar com esplenomegalia. Entretanto, apenas as formas maiores cursarão com esplenomegalia maciça. Correta a alternativa B perfeito! A talassemia maior e as doenças mieloproliferativas são causas clássicas de esplenomegalia de grande monta. Incorreta a alternativa C: a trombocitopenia imunológica primária ou púrpura trombocitopênica imune (PTI) não cursa tipicamente com grande esplenomegalia. Incorreta a alternativa D: como vimos no início do presente livro, a anemia falciforme dificilmente está associada a aumento do tamanho do baço. Incorreta a alternativa E: a PTT não é uma causa habitual de esplenomegalia de grande monta. EM RESUMO - HIPERESPLENISMO 1. Citopenias de sangue periférico decorrentes de aumento de tamanho do baço (esplenomegalia). 2. Etiologias: qualquer condição que possa causar esplenomegalia, como neoplasias mieloproliferativas (LMC, mielofibrose), LLC, infiltração secundária (linfomas, doença de Gaucher, sarcoidose), infecções (malária, leishmaniose visceral), cirrose hepática, trombose de veia porta ou esplênica, condições de hemólise extravascular (talassemias, esferocitose hereditária, AHAI). 3. Fisiopatologia: aprisionamento das células hematológicas na circulação esplênica, levando à redução de seus níveis séricos. 4. Diagnóstico: clínico, afastamento de outras causas da citopenia. 5. Tratamento: esplenectomia. 6. Esplenomegalia de grande monta: baço a mais de 8 centímetros do rebordo costal, ultrapassando a linha umbilical, ou com peso superior a 1kg. 7. Causas de esplenomegalia de grande monta: doenças mieloproliferativas, talassemia maior, infecções (malária, leishmaniose visceral), tricoleucemia, linfomas, doença de Gaucher. Hora de uma pausa para organizar o pensamento, colega Estrategista. Até o momento, vimos as anemias hemolíticas adquiridas mais comuns nas provas. Como você pode ter notado, na maioria dos casos, essas condições são secundárias a defeitos extrínsecos às hemácias, justamente o caso das microangiopatias, do hiperesplenismo e da anemia hemolítica autoimune (AHAI). A grande exceção a essa regra é a hemoglobinúria paroxística noturna (HPN), um interessante distúrbio adquirido intrínseco da membrana das células hematológicas. É essa condição, pouco cobrada nas provas, que estudaremos a seguir! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 89 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 3.4 HEMOGLOBINÚRIA PAROXÍSTICA NOTURNA - HPN A HPN é uma rara doença adquirida da membrana eritrocitária, mas que, na verdade, afeta todas as células hematológicas. Sua prevalência não é bem conhecida e pode afetar todas as idades, apesar de ser mais comum em pacientes jovens de 30 a 40 anos. O nome HPN remete ao clássico padrão de episódios de hemólise intravascular e consequente hemoglobinúria, exacerbados durante o sono, uma apresentação que, entretanto, não é comum a todos os pacientes. Mas, antes de falar sobre o quadro clínico da HPN, vamos entender como ela se instala. 3.4.1 FISIOPATOLOGIA DA HPN A HPN deriva da formação de um clone de células-tronco hematopoiéticas que adquire uma mutação somática do gene PIG-A (Phosphatidylinositol Glycan Anchor – âncora de fosfatidilinositol- glicano), localizado no cromossomo X, que codifica a expressão da proteína GPI (glicosilfosfatidilinositol). Note que essa é uma mutação adquirida, não congênita: o clone HPN surge ao longo da vida do paciente, sendo apenas uma porcentagem de todos os progenitores hematopoiéticos. A GPI serve de âncora para diversas proteínas na superfície das células: é através da fixação pela GPI que as hemácias, leucócitos e plaquetas expressarão receptores, moléculas de adesão e outras substâncias em sua superfície. No caso do clone HPN, contudo, a mutação no gene PIG-A faz com que não haja expressão de GPI, impedindo que essas substâncias se fixem na membrana das células. Duas proteínas muito importantes acabam sendo afetadas: o CD55 (ou fator acelerador de degradação) e o CD59 (inibidor da lise de membrana). A função dessas proteínas é a proteção das células contra o sistema complemento. O sistema complemento é uma série de proteínas séricas que possuem importante função imune: essas substâncias estão constantemente ativadas para agir sobre patógenos como bactérias, parasitas e células infectadas por vírus, podendo resultar em morte celular por lise direta ou ativação de fagocitose por macrófagos. Para que nossas células hematológicas não sejam afetadas pelo sistema complemento, elas possuem em sua superfície proteínas que as protegem: justamente o CD55 e o CD59. Você consegue perceber o problema, Estrategista? O CD55 e o CD59 protegem as hemácias, leucócitos e plaquetas contra a lise pelo sistema complemento. No caso da HPN, entretanto, surge um clone de precursores hematopoiéticos incapaz de fixar essas proteínas em sua superfície, ou seja, surgirão hemácias, leucócitos e plaquetas mais suscetíveis à lise pelo complemento, como mostra a imagem a seguir: m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 90 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 46. Fisiopatologia da HPN: essa doença é caracterizada pelo surgimento de um clone de progenitores hematopoiéticos com mutação adquirida do gene PIG-A, gerando uma série de células hematológicas incapazes de expressar a âncora GPI em sua superfície, consequentemente impedindo a fixação de diversas proteínas, como o CD55 e o CD59. Como essas substâncias servem de proteção das células contra a ação do complemento, hemácias, leucócitos e plaquetas advindas do clone HPN serão suscetíveis à lise pelo complemento, levando ao quadro da HPN. Não se sabe ao certo por que o clone HPN é capaz de se proliferar, mas as principais hipóteses consideram que ele apresenta alguma vantagem proliferativa que faça com que se desenvolva, apesar de as células geradas sofrerem lise pelo complemento. Assim, no paciente portador de HPN, teremos uma certa quantidade de hemácias, leucócitos e plaquetas sendo produzidos sem CD55 e CD59 e, portanto, sofrendo a ação do complemento sem qualquer impeditivo. Isso levará à tríade clínica clássica que marca a HPN: hemólise intravascular, pancitopenia e tendência à trombose venosa. É justamente esse quadro clínico tão marcante o ponto mais cobrado sobre HPN nas provas, sendo nosso próximo tópico de discussão. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 91 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 3.4.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA HPN Como vimos acima, a mutação do gene PIG-A e a consequente incapacidadede produção de GPI pelo clone de células-tronco HPN farão com que surja em sangue periférico uma série de hemácias, leucócitos e plaquetas sem CD55 e CD59, o que os torna suscetíveis à lise pelo complemento. As primeiras manifestações costumam ser justamente os episódios de hemólise intravascular, decorrentes da destruição das hemácias deficientes em CD55/CD59 e levando às alterações laboratoriais clássicas: hemoglobinúria, aumento de DHL e bilirrubina indireta, queda de haptoglobina, reticulocitose. Uma complicação frequente é a anemia ferropriva: como é um quadro crônico de hemólise intravascular, a perda de hemoglobina e ferro na urina faz com que o paciente comumente evolua com ferropenia. Contudo, não são só as hemácias afetadas! O clone HPN gera também leucócitos e plaquetas que, incapazes de proteger-se contra o complemento, também serão destruídos, levando à franca pancitopenia, outro dos pilares da apresentação clínica da doença. Por fim, a destruição do clone HPN e a liberação de seu conteúdo intracelular fazem com que haja uma tendência trombótica aumentada, mesmo quando houver trombocitopenia! Por motivos não esclarecidos, a veia porta é um sítio comum de trombose, sendo sempre necessário pensar no diagnóstico de HPN para pacientes que sofram essa particular apresentação. Sempre devemos suspeitar de HPN em pacientes jovens que apresentam trombose venosa sem fatores desencadeantes conhecidos. Isso é particularmente verdadeiro se a trombose ocorrer em sítios incomuns, como a veia porta! Existe também uma forte relação da HPN com a falência medular: é muito frequente que pacientes com aplasia medular apresentem um clone HPN, ainda que não expressem seu quadro clínico franco. Não há uma explicação totalmente conhecida para essa relação, entretanto mais de 50% dos pacientes com anemia aplásica possuem células HPN identificáveis. Mais ainda, pacientes com HPN possuem um risco aumentado de evoluir com outros distúrbios dos precursores hematopoiéticos, como mielodisplasias e leucemia mieloide aguda. Revise a seguir as características clínico-laboratoriais da HPN antes de vermos como isso é cobrado nas provas! Quadro clínico-laboratorial da HPN Tríade clássica: anemia hemolítica intravascular + pancitopenia + trombose venosa Anemia normo/normo ou eventualmente macrocítica (por reticulocitose) Sinais de hemólise: elevação de bilirrubina indireta e desidrogenase lática, queda de haptoglobina, reticulocitose Hemólise de componente intravascular: hemoglobinemia, hemoglobinúria e hemossiderinúria Complicação da hemólise intravascular crônica: deficiência de ferro Pancitopenia: o clone HPN gera todas as linhagens hematológicas Tendência trombótica aumentada, especialmente em veia porta m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 92 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAI NA PROVA (Hospital Estadual Dr Jayme dos Santos Neves - ES 2017) Qual é a principal hipótese diagnóstica para a tríade: trombose de veia porta, pancitopenia e anemia hemolítica? A) Púrpura trombocitopênica idiopática. B) Leucemia promielocítica aguda. C) Hemoglobinúria paroxística noturna. D) Púrpura trombocitopênica trombótica. E) Síndrome hemolítico-urêmica. COMENTÁRIO Questões sobre HPN são raras nas provas, caro Estrategista, e, por isso, temos aqui questões mais antigas sobre o tema. Tentei trazer exemplos mais emblemáticos, como o que você vê acima. Lembre-se: sempre que estivermos diante de um paciente com trombose de veia porta, a HPN é uma hipótese a ser considerada. Isso é mais importante ainda caso essa apresentação seja acompanhada das outras manifestações típicas da HPN, como pancitopenia e anemia hemolítica intravascular, ambas resultado da ação do sistema complemento sobre o clone de células HPN, incapaz de proteger-se por não expressar GPI e, assim, não fixar CD55 e CD59. As demais condições listadas não se caracterizam por essa tríade clínica. Veremos cada uma dessas doenças em seu livro específico! Correta a alternativa C (Hospital das Clínicas de Teresópolis - RJ - 2015) Homem de 30 anos é internado com edema e dor em membro inferior esquerdo, em consequência de trombose venosa profunda confirmada ao exame de doppler. Em sua história recente há relato de urinar "sangue'' (sic) pela manhã. Ao exame físico, além dos achados compatíveis com TVP em membro inferior esquerdo, há intensa palidez e discreta icterícia de conjuntivas. Exames laboratoriais revelam anemia intensa com VCM alto e plaquetopenia. A citometria de fluxo, realizada com eritrócitos e neutrófilos, mostra diminuição da população de células CD59 e CD55. Sobre este caso, marque a alternativa INCORRETA: A) Este paciente tem motivo para preocupar-se com a possibilidade de ter ou vir a ter anemia ferropriva. B) Tem motivo para ter fezes escuras. C) Pode evoluir para leucemia mieloide aguda. D) Sua haptoglobina e sua LDH devem estar muito altas. E) Pode desencadear, de maneira mais ou menos súbita, dor abdominal e hepatoesplenomegalia. COMENTÁRIO Veja que temos uma paciente jovem com quadro clássico de HPN: apresenta trombose venosa profunda, anemia hemolítica (evidenciada pela icterícia), plaquetopenia e hemoglobinúria. Esta última, inclusive, costuma justamente ser a primeira queixa dos portadores de HPN, descrita pelos pacientes como "urina escurecida" ou "urinar sangue". De fato, não há dúvida sobre nosso diagnóstico: a diminuição de células com CD55 e CD59 é o próprio mecanismo fisiopatológico da HPN. Vamos então julgar as alternativas sobre essa condição: m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 93 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Correta a alternativa A: como vimos, portadores de HPN podem, sim, cursar com ferropenia, já que a hemólise intravascular crônica leva à perda urinária de hemoglobina e, consequentemente, de ferro. Correta a alternativa B: quadros hemolíticos crônicos como a HPN são marcados por um metabolismo aumentado das bilirrubinas. A liberação e a metabolização da hemoglobina levam à formação de bilirrubina indireta, que será conjugada em bilirrubina direta e eliminada na bile. Assim, as fezes do paciente podem escurecer à medida que a degradação da bilirrubina direta no intestino garante coloração ao bolo fecal. Correta a alternativa C: sim, sabemos que pacientes com HPN têm risco aumentado de evoluir com outros distúrbios clonais dos progenitores hematopoiéticos, como a LMA. Incorreta a alternativa D em quadros hemolíticos, como a HPN, a haptoglobina está habitualmente consumida, já que é retirada da circulação junto da hemoglobina livre que captura. Correta a alternativa E: sabemos que a HPN possui forte relação com a trombose de veia porta, podendo, sim, desencadear dor abdominal e hepatoesplenomegalia. 3.4.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA HPN O melhor exame para confirmarmos a HPN é a imunofenotipagem por citometria de fluxo, um exame em que usamos anticorpos ligados a corantes (citocromos) para identificar a expressão de moléculas na superfície das células hematológicas. Esse exame é capaz de verificar a presença do clone HPN, uma população de células hematológicas que não expressa em sua superfície o CD55 e CD59, fechando assim o diagnóstico. O tratamento da HPN é, em geral, de suporte, com transfusões de hemácias e uso de anticoagulantes para os quadros trombóticos. Uma medicação específica pode ser usada em casos graves, o eculizumabe, um anticorpo monoclonal voltado contra o C5, uma das proteínas do complemento. Inativando o C5, o eculizumabe é capaz de conter a ação do sistema complemento, controlando o quadro da HPN. EM RESUMO - HEMOGLOBINÚRIA PAROXÍSTICA NOTURNA 1. Rara doença adquirida da membranadas células hematológicas. 2. Fisiopatologia: mutações adquiridas no gene PIGA levam à menor expressão da âncora GPI, responsável pela fixação de diversas substâncias na superfície das células. Surge, assim, um clone de células-tronco incapazes de expressar CD55 e CD59, protetores contra a ação do sistema complemento, levando à geração de hemácias, leucócitos e plaquetas suscetíveis à lise intravascular por esse mecanismo de proteção imune. 3. Quadro clínico-laboratorial: tríade clássica composta por anemia hemolítica intravascular (hemoglobinúria), pancitopenia e tendência à trombose venosa (especialmente de veia porta). 4. Diagnóstico: imunofenotipagem por citometria de fluxo, identificando células com pouca expressão de CD55 e CD59. 5. Tratamento: suporte clínico e eculizumabe. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 94 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 47. Hemoglobinúria paroxística noturna (HPN) em resumo: normalmente, o gene PIGA é responsável pela expressão da GPI, âncora do CD55 e CD59 na membrana das células, garantindo a proteção contra o sistema complemento. Na HPN, mutações adquiridas no gene PIGA levam à menor expressão de GPI e consequente incapacidade de fixação de CD55 e CD59. Surge, assim, uma população de células hematológicas sem CD55/CD59, sendo, portanto, suscetível à lise pelo sistema complemento. Isso leva à tríade clínica clássica que caracteriza a HPN: hemólise intravascular, pancitopenia e trombose (especialmente de veia porta). m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 95 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAPÍTULO 4.0 FLUXOGRAMA DE INVESTIGAÇÃO DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS Agora que conhecemos as principais anemias hemolíticas, trago um pequeno esquema que pode guiá-lo, caro Estrategista, no diagnóstico da maioria das causas de hemólise. Obviamente, ele é uma grande simplificação de todos os conceitos abordados até agora, agilizando sua investigação diante das questões. Estude-o com atenção! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 96 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED https://bit.ly/2ZsUgUO m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ https://bit.ly/2ZsUgUO m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 97 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAPÍTULO 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. KAUSHANSKY, Kenneth et al. Williams Hematology, 9. ed. 2016. 2. MCKENZIE, Shirlyn B.; WILLIAMS, J. Lynne. Clinical Laboratory Hematology, 2. ed., 2010. 3. BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada Doença falciforme: condutas básicas para tratamento, 2012. 4. BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada Manual de eventos agudos em doença falciforme, 2009. 5. BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS n. 55. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Doença Falciforme. Publicada em 29 jan. 2010. 6. BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 1.308. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Anemia Hemolítica Autoimune. Publicada em 22 nov. 2013. CAPÍTULO 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este é um dos livros mais complexos de nosso curso de Hematologia, caro Estrategista. São muitas condições a conhecer e muitos quadros clínicos para que você identifique nas questões. Veja que é justamente saber identificar a apresentação de cada uma dessas doenças a habilidade mais cobrada pelas provas de Residência, ainda que alguns conhecimentos sobre suas fisiopatologias também sejam abordados. Tentei trazer muitas imagens, explicando detalhadamente a patogênese das anemias hemolíticas, para que você possa entendê-las e mais facilmente gravar suas manifestações. Estude cada um desses esquemas com atenção! Bons estudos! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 98 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ https://med.estrategia.com 1.0 INTRODUÇÃO À HEMÓLISE 1.1 TIPOS DE HEMÓLISE 1.2 QUADRO LABORATORIAL DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS 1.3 CLASSIFICAÇÃO DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS 2.0 ANEMIAS HEMOLÍTICAS CONGÊNITAS 2.1 ANEMIA FALCIFORME 2.1.1 EPIDEMIOLOGIA DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.2 FISIOPATOLOGIA DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.3 HERANÇA GENÉTICA NA ANEMIA FALCIFORME 2.1.4 TRIAGEM NEONATAL DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.5 QUADRO LABORATORIAL DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.5.1 COMPLICAÇÕES AGUDAS DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.5.1.1 CRISES ÁLGICAS 2.1.5.1.2 AUTOESPLENECTOMIA 2.1.5.1.3 SEQUESTRO ESPLÊNICO 2.1.5.1.4 CRISE APLÁSICA E CRISE HIPER-HEMOLÍTICA 2.1.5.1.5 ACIDENTE VASCULAR ENCEFÁLICO ISQUÊMICO 2.1.5.1.6 SÍNDROME TORÁCICA AGUDA 2.1.5.1.7 PRIAPISMO 2.1.5.1.8 COMPLICAÇÕES OSTEOMUSCULARES DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.5.2 COMPLICAÇÕES CRÔNICAS DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.6 TRATAMENTO DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.6.1 HIDROXIUREIA NA ANEMIA FALCIFORME 2.1.6.2 SUPORTE TRANSFUSIONAL NA ANEMIA FALCIFORME 2.1.7 OUTRAS HEMOGLOBINOPATIAS QUALITATIVAS 2.1.7.1 HEMOGLOBINOPATIA SC 2.1.7.2 S/β-TALASSEMIA 2.2 ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 2.2.1 FISIOPATOLOGIA DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 2.2.2. QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 2.2.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 2.3 ELIPTOCITOSE HEREDITÁRIA 2.4 DEFICIÊNCIA DE G6PD 2.4.1 FISIOPATOLOGIA DA DEFICIÊNCIA DE G6PD 2.4.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA DEFICIÊNCIA DE G6PD 2.4.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA DEFICIÊNCIA DE G6PD 2.5 DEFICIÊNCIA DE PIRUVATO-QUINASE 3.0 ANEMIAS HEMOLÍTICAS ADQUIRIDAS 3.1 ANEMIAS HEMOLÍTICAS AUTOIMUNES - AHAI 3.1.1 CLASSIFICAÇÃO DAS AHAI 3.1.2 DIAGNÓSTICO DAS AHAI 3.1.3 TRATAMENTO DAS AHAI 3.2 ANEMIAS HEMOLÍTICAS MICROANGIOPÁTICAS 3.2.1 PÚRPURA TROMBOCITOPÊNICA TROMBÓTICA – PTT 3.2.1.1 FISIOPATOLOGIA DA PTT 3.2.1.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA PTT 3.2.1.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA PTT 3.2.2 SÍNDROME HEMOLÍTICO-URÊMICA – SHU 3.2.2.1 FISIOPATOLOGIA DA SHU 3.2.2.2 TRATAMENTO DA SHU 3.2.3 COAGULAÇÃO INTRAVASCULAR DISSEMINADA – CIVD 3.3 HIPERESPLENISMO 3.4 HEMOGLOBINÚRIA PAROXÍSTICA NOTURNA - HPN 3.4.1 FISIOPATOLOGIA DA HPN 3.4.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA HPN 3.4.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA HPN 4.0 FLUXOGRAMA DE INVESTIGAÇÃO DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS 5.0 LISTA DE QUESTÕES 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAISesférico que perdem sua palidez central. Geradas em várias formas de anemias hemolíticas. Enquanto todas essas alterações citadas são comuns à hemólise intravascular e extravascular, algumas particularidades marcam a destruição das hemácias na própria circulação. Quando as hemácias são destruídas pelos macrófagos no baço, apenas pequena quantidade de hemoglobina escapa para o plasma, sendo prontamente capturada pela haptoglobina. Já nos casos de hemólise intravascular, a quantidade de hemoglobina livre no plasma é tão grande que supera a capacidade da haptoglobina em contê-la. Por isso, esses quadros são marcados por grande hemoglobinemia. Além disso, a hemoglobina excedente é filtrada pelos rins e eliminada na urina, levando à hemoglobinúria, um achado muito específico de hemólise intravascular. Certa quantidade de hemoglobina é reabsorvida pelos túbulos renais, sendo armazenada sob a forma de hemossiderina. Quando as células tubulares descamam, instala-se a hemossiderinúria, outra alteração típica da hemólise intravascular. Agora, Estrategista, revise rapidamente todas as alterações laboratoriais esperadas de estados hemolíticos no esquema a seguir antes de prosseguirmos, porque na sequência vamos ver como esse quadro é cobrado nas provas! Hemólise: destruição precoce das hemácias Libertação do conteúdo intracelular Resposta eritripoiética da medula óssea Reticulocitose Hematoscopia Aumento de DHL Consumo de haptoglobina Aumento de bilirrubina indireta Esferócitos Esquizócitos Drepanócitos Hemólise extravascular Esplenomegalia Hemólise intravascular Hemoglobinemia Hemoglubinúria Hemossiderinúria Figura 7. Alterações laboratoriais esperadas nas anemias hemolíticas. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 10 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAI NA PROVA (Faculdade de Medicina de Campos - RJ - 2019) Mulher afro-americana de 36 anos de idade, com lúpus eritematoso sistêmico, apresenta letargia e icterícia de início súbito. Na avaliação inicial ela está taquicárdica, hipotensa, pálida, dispneica e com dificuldade para despertar. O exame físico evidencia esplenomegalia. A hemoglobina inicial é de 6 g/dl, leucócitos 6.300/UI, plaquetas 294.000/UI,e reticulócitos 18%. A bilirrubina total é de 4 g/dl, e a haptoglobina não é detectável. A função renal é normal, assim como o exame de urina. O que você esperaria encontrar no esfregaço de sangue periférico dessa paciente? A) Macrocitose e polimorfonucleares hiperplurissegmentados; B) Microesferócitos; C) Esquizócitos; D) Células em foice; E) Células em alvo; COMENTÁRIO Veja só, caro Estrategista, temos uma paciente lúpica com todas as alterações esperadas de uma anemia hemolítica: além da própria redução dos níveis de hemoglobina, há reticulocitose, icterícia por aumento de bilirrubina indireta e consumo de haptoglobina. Em nosso caso, é provável que a anemia seja de etiologia autoimune, já que a paciente possui diagnóstico de lúpus. O que esperamos, então, encontrar na hematoscopia do sangue periférico dessa paciente? Ora, alguma alteração relacionada a uma anemia hemolítica autoimune! Vejamos nossas opções: Incorreta a alternativa A: os polimorfonucleares hiperplurissegmentados (ou neutrófilos hipersegmentados) são células com cinco ou mais lobulações em seus núcleos, patognomônicas da anemia megaloblástica, uma anemia carencial não hemolítica. Correta a alternativa B perfeito! Como vimos acima, microesferócitos podem estar presentes no sangue periférico de pacientes com qualquer forma de anemia hemolítica! Incorreta a alternativa C: esquizócitos são hemácias fragmentadas típicas de anemias hemolíticas microangiopáticas, como a PTT, SHU e CIVD. Como veremos, essas condições possuem um quadro clínico mais florido do que o apresentado por nossa paciente, sendo pouco prováveis como etiologia de seu quadro. Incorreta a alternativa D: as hemácias em foice ou drepanócitos são típicos da anemia falciforme, não de um quadro de anemia hemolítica autoimune. Incorreta a alternativa E: as hemácias em alvo ou leptócitos são características das hemoglobinopatias, como a anemia falciforme e as talassemias, condições que não explicam o quadro de nossa paciente. 1.3 CLASSIFICAÇÃO DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS Existem diversas formas de anemias hemolíticas e algumas classificações usadas para dividi-las, facilitando sua investigação. A principal delas já conhecemos: é a divisão quanto ao sítio predominante da hemólise, separando-as de acordo com a presença de destruição das hemácias no leito vascular ou no baço, conforme mostra a tabela a seguir: Anemias hemolíticas de acordo com o sítio de hemólise Hemólise extravascular Hemólise intravascular Esferocitose hereditária Anemia hemolítica autoimune (AHAI) por anticorpos quentes Hiperesplenismo Talassemias Deficiência de G6PD Anemia hemolítica autoimune (AHAI) por anticorpos frios Anemias hemolíticas microangiopáticas (PTT, SHU, CIVD) Hemoglobinúria paroxística noturna m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 11 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A classificação mais abordada pelas provas, contudo, é aquela em que dividimos as etiologias de hemólise de acordo com sua relação com as hemácias: defeitos eritrocitários intrínsecos ou extrínsecos. Aquelas decorrentes de defeitos inerentes à hemácia são desordens de algum dos componentes eritrocitários, seja a molécula de hemoglobina, a membrana celular ou as enzimas citoplasmáticas. Em geral, são condições congênitas. Por outro lado, fatores exteriores às hemácias normalmente são adquiridos, também levando à sua destruição precoce, como é o caso de presença de autoanticorpos ou lesões mecânicas. Veja essa classificação das anemias hemolíticas resumida a seguir: Figura 8. Classificação das anemias hemolíticas de acordo com sua relação com as hemácias. Anemias hemolíticas de acordo com sua relação com o eritrócito Defeitos eritrocitários intrínsecos Fatores externos às hemácias Hemoglobinopatias: anemia falciforme, talassemias Enzimopatias: deficiência de G6PD, deficiência de piruvato-qui- nase Membranopatias: esferocitose hereditária, eliptocitose he- reditária, hemoglobinúria paroxística noturna Lesão imune: anemia hemolítica autoimune (AHAI), anemias hemolíticas aloimunes Lesão mecânica: anemias hemolíticas microangiopáticas Hiperesplenismo Obviamente, precisamos conhecer a fisiopatologia de cada anemia hemolítica para poder aplicar essa classificação. É o que faremos nas próximas páginas, caro Estrategista: explorar a fundo cada uma das etiologias de hemólise. Mas, antes disso, vamos ver como a classificação dessas condições é cobrada nas questões de prova? CAI NA PROVA (Universidade Federal do Piauí - UFPI - 2020) São exemplos de anemia hemolítica provocadas por defeito extrínseco às hemácias do paciente, EXCETO: m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 12 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED COMENTÁRIO Vamos avaliar as alternativas, classificando as condições de acordo com sua relação com as hemácias: Correta a alternativa A: próteses cardíacas mecânicas podem levar à fragmentação eritrocitária, configurando uma anemia hemolítica decorrente de fator extrínseco às hemácias. Correta a alternativa B: a púrpura trombocitopênica trombótica (PTT) é um quadro de hemólise microangiopática, isto é, ocorrida pelo turbilhonamento das hemácias na microcirculação e, portanto, um fator externo às hemácias. Decorre de deficiências congênitas ou adquiridas da ADAMTS-13, como veremos mais à frente. Incorreta a alternativaC a hemoglobinúria paroxística noturna (HPN) é uma condição adquirida em que surge um clone de células hematológicas incapaz de proteger-se da ação do sistema complemento. É, dessa forma, um defeito intrínseco das hemácias, que abordaremos bem a fundo mais à frente. Correta a alternativa D: a malária é uma doença parasitária causada por protozoários do gênero Plasmodium, que, em determinada fase evolutiva, invadem as hemácias e levam-nas à sua destruição. É, assim, um defeito eritrocitário extrínseco. Correta a alternativa E: a doença hemolítica do recém-nascido decorre da passagem de aloanticorpos maternos contra antígenos eritrocitários fetais através da placenta, causando hemólise no feto. Nessa condição, a causa da hemólise são aloanticorpos, portanto, um fator extrínseco às hemácias. (Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC - 2018) Considerando as anemias hemolíticas, assinale a opção que indica corretamente a doença e o respectivo defeito observado no eritrócito. A) Talassemia maior – defeito na membrana eritrocitária. B) Deficiência de Glicose-6-fosfato redutase (G6PD) – defeito enzimático eritrocitário. C) Esferocitose hereditária – defeito na síntese de hemoglobina. D) Estomatocitose – defeito enzimático eritrocitário. E) Deficiência de piruvato quinase (PK) – defeito na síntese de hemoglobina. A) Hemólise de próteses cardíacas. B) Púrpura Trombocitopênica Trombótica. C) Hemoglobinúria Paroxística Noturna. D) Malária. E) Doença Hemolítica do Recém-Nascido. COMENTÁRIO Veja como a hemólise é uma condição heterogênea, caro Estrategista! Inúmeras condições podem levar às anemias hemolíticas, por diversos mecanismos diferentes. Vamos julgar se estão corretas as alternativas: Incorreta a alternativa A: como já vimos no livro de anemias microcíticas, as talassemias são hemoglobinopatias quantitativas congênitas, decorrentes de um defeito na síntese da hemoglobina. Correta a alternativa B a mais comum das enzimopatias eritrocitárias, a deficiência de glicose-6-fosfato (G6PD), decorre, sim, de defeitos na produção de enzimas das hemácias. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 13 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Correta a alternativa C: a esferocitose hereditária é uma membranopatia eritrocitária, ou seja, um defeito na membrana das hemácias, decorrente de deficiência congênita de proteínas do citoesqueleto dessas células. Correta a alternativa D: a estomatocitose é uma rara membranopatia eritrocitária, pouco cobrada nas provas. Correta a alternativa E: a deficiência de PK é a segunda enzimopatia eritrocitária mais comum, atrás apenas da deficiência de G6PD. Veja que, para classificar adequadamente as anemias hemolíticas, precisamos conhecer os mecanismos fisiopatológicos por trás dessas condições. É o que faremos logo à frente, caro Estrategista, começando pelas causas adquiridas de hemólise. EM RESUMO - ANEMIAS HEMOLÍTICAS 1. Definição: estados de destruição precoce das hemácias, reduzindo sua vida média habitual de 120 dias. 2. Quadro laboratorial das anemias hemolíticas: anemia normocítica e normocrômica, macrocítica em alguns casos, consumo de haptoglobina, aumento de desidrogenase lática e bilirrubina indireta, reticulocitose, presença de microesferócitos. 3. Hemólise extravascular: mediada pelos macrófagos do baço. 4. Hemólise intravascular: ocorrida na própria circulação. Cursa com hemoglobinemia, hemoglobinúria e hemossiderinúria, além das demais alterações típicas de hemólise. 5. Classificação fisiopatológica das anemias hemolíticas: quanto a defeitos intrínsecos ou extrínsecos às hemácias. CAPÍTULO 2.0 ANEMIAS HEMOLÍTICAS CONGÊNITAS Agora que já conhecemos o quadro geral das anemias hemolíticas, aprofundaremos nosso estudo através da descrição de um grupo de doenças muito interessantes, decorrentes de alterações hereditárias que levam à destruição precoce das hemácias: as anemias hemolíticas congênitas. A maioria dessas condições decorre de defeitos intrínsecos de algum componente das hemácias. É o caso das hemoglobinopatias, como as talassemias e a anemia falciforme, membranopatias, como a esferocitose hereditária, e enzimopatias, como a deficiência de G6PD. Começaremos nossa jornada pelas hemólises congênitas justamente com as mais cobradas delas nas provas de Residências, as hemoglobinopatias! 2.1 ANEMIA FALCIFORME Doenças resultantes de anormalidades da estrutura ou síntese das cadeias de globina da molécula de hemoglobina são chamadas de hemoglobinopatias. A anormalidade nas globinas pode ser quantitativa, como no caso das talassemias, ou qualitativa, como na anemia falciforme e hemoglobinopatia SC. As talassemias foram abordadas no livro de anemias microcíticas, já que aparecem nas questões principalmente relacionadas a essas condições. Aqui, focaremos nas hemoglobinopatias qualitativas, especialmente a anemia falciforme, um dos temas mais cobrados nas questões de Hematologia, em conjunto da anemia ferropriva e da anemia megaloblástica. Vamos lá! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 14 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.1.1 EPIDEMIOLOGIA DA ANEMIA FALCIFORME A anemia falciforme é uma das doenças genéticas mais comuns no Brasil e no mundo, por muitos considerada a doença monogênica mais comum existente, incidindo particularmente na África, Índia e Arábia Saudita. Em nosso país, os transtornos falciformes foram trazidos por movimentos migratórios de origem africana, fazendo com que, atualmente, cerca de 3.000 a 3.500 crianças nasçam com anemia falciforme todos os anos, enquanto portadores de traço falcêmico podem ser 180.000 a 200.000 de todos os nascidos vivos, segundo o Programa Nacional de Triagem Neonatal. A incidência é maior em estados com maiores concentrações de afrodescendentes, como a Bahia, em que nasce 1 criança falcêmica a cada 650 nascidos vivos. A importância da anemia falciforme não decorre apenas de sua elevada presença em nossa população. Acometidos por uma série de complicações e intercorrências de alta morbimortalidade, indivíduos falcêmico possuem uma sobrevida média muito menor do que a população geral, com expectativas de vida girando em torno de 40 a 50 anos. As questões de prova não costumam abordar a epidemiologia da anemia falciforme a fundo, ao contrário da fisiopatologia da doença, que discutiremos a seguir. 2.1.2 FISIOPATOLOGIA DA ANEMIA FALCIFORME As síndromes falcêmicas são, na verdade, um espectro clínico de diversas condições marcadas pela presença de uma hemoglobina anômala chamada HbS. É por isso que a anemia falciforme é chamada de uma hemoglobinopatia qualitativa: porque há uma alteração da natureza da molécula de hemoglobina. Daí também a outra denominação que damos à anemia falciforme: hemoglobinopatia SS. Como vimos no livro que trata das talassemias, a hemoglobina é formada por quatro cadeias de globina ligadas cada uma a um grupo heme (ferro + protoporfirina). No indivíduo normal, cerca de 97% das moléculas de hemoglobina serão de HbA, formadas por 2 cadeias de alfa globina e 2 cadeias de beta globina, enquanto teremos pequenas quantidades de HbA2 (α2δ2) e HbF (α2γ2). Figura 9. Eletroforese de hemoglobinas normal do adulto: após os seis meses de idade, as hemoglobinas normais que esperamos encontrar nas hemácias do indivíduo normal são a HbA (α2β2), HbA2 (α2δ2) e HbF (α2γ2), o que pode ser verificado pelo exame da eletroforese de hemoglobinas, nas proporções indicadas acima. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 15 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MEDNa anemia falciforme, uma mutação pontual leva à substituição do ácido glutâmico pela valina como sexto aminoácido na betaglobina, alterando a HbA e gerando a HbS. Essa troca causa uma mudança conformacional na molécula de hemoglobina, fazendo com que, quando não ligada ao oxigênio, a HbS perca solubilidade e seja capaz de formar longas fibras no interior das hemácias. Essa capacidade de se polimerizar quando desoxigenada faz com que a HbS altere o formato bicôncavo habitual da membrana eritrocitária, dando-lhe uma característica aparência de foice ou meia-lua, como podemos ver no esquema a seguir. Essas hemácias em foice também são chamadas de drepanócitos. Figura 10. Fisiopatologia da anemia falciforme: o evento fisiopatológico básico da anemia falciforme é a mutação pontual que substitui o ácido glutâmico pela valina como sexto aminoácido da cadeia de betaglobina, gerando a HbS, hemoglobina anômala capaz de polimerizar-se em situações de desoxigenação. Quando polimerizada, a HbS em fibras altera o formato da membrana eritrocitária, gerando as hemácias em foice ou drepanócitos. A formação das hemácias em foice, ou falcização, é um evento que ocorre, portanto, quando o eritrócito contendo HbS passa pela microcirculação e deixa o oxigênio aos tecidos. Isso explica por que situações de hipóxia podem precipitar crises de falcização em portadores de anemia falciforme. Outros eventos como desidratação, estresse físico ou emocional e atividade inflamatória aumentada também são conhecidos desencadeantes desse processo. Inicialmente, a falcização é reversível: a maioria dos drepanócitos voltará ao formato bicôncavo habitual após a reoxigenação da HbS. Com vários episódios de falcização, contudo, a membrana eritrocitária torna- se progressivamente mais rígida, até que o formato de foice se torne irreversível, levando a todo o quadro de complicações da anemia falciforme. Por serem menos deformáveis que as hemácias normais, os drepanócitos possuem uma meia-vida diminuída, bem menor do que o normal de 120 dias. Essas células sofrerão hemólise por ação dos macrófagos do sistema reticuloendotelial, explicando porque a anemia falciforme é um quadro de hemólise extravascular. Mais ainda, as hemácias em foice obstruem a microcirculação de órgãos e tecidos por onde passam, tanto por serem mais rígidas que os eritrócitos normais quanto por possuírem alterações de membrana, como expressão de número aumentado de moléculas de adesão. Como vemos a seguir, isso levará a episódios repetidos de vaso-oclusões, justamente a principal manifestação da anemia falciforme. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 16 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 11. Patogênese das crises vaso-oclusivas da anemia falciforme: em situações de desoxigenação, a HbS forma longas fibras insolúveis no citoplasma das hemácias, alterando a forma da membrana eritrocitária e gerando os drepanócitos. Por serem menos maleáveis que o normal, essas hemácias em foice obstruem a microcirculação de órgãos e tecidos, levando aos episódios de vaso-oclusão, tão característicos da anemia falciforme. Fonte: Trello. Alguns pacientes com anemia falciforme serão também portadores da persistência hereditária da hemoglobina fetal (PHHF), condição em que há produção aumentada de cadeias gama mesmo após os seis meses de idade, levando a níveis elevados de HbF (α2γ2), mesmo na vida adulta. Esses indivíduos acabam sendo protegidos das falcizações pela PHHF: a HbF reduz a concentração de HbS e impede sua polimerização, levando a um quadro clínico mais brando que o habitual. Em resumo, a anemia falciforme é uma hemoglobinopatia qualitativa congênita resultante da mutação que substitui o ácido glutâmico pela valina na molécula de betaglobina, gerando a HbS. Essa hemoglobina anômala é capaz de se polimerizar, criando as hemácias em foice ou drepanócitos, que, por possuírem deformabilidade diminuída, levarão ao quadro típico da anemia falciforme, caracterizado por hemólise e eventos vaso-oclusivos. Entretanto, nem todo portador da mutação da HbS desenvolverá anemia falciforme, como veremos a seguir. 2.1.3 HERANÇA GENÉTICA NA ANEMIA FALCIFORME Já sabemos agora que o evento fisiopatológico básico da anemia falciforme é uma mutação pontual no gene da betaglobina, que levará à formação da HbS. Essa é uma mutação de herança autossômica recessiva, o que quer dizer que apenas indivíduos homozigotos, com ambos os alelos mutados, terão o quadro clínico franco da anemia falciforme. Isso ocorre porque a capacidade de polimerização da HbS depende diretamente da concentração dessa hemoglobina anômala nas hemácias: indivíduos homozigotos terão ambos os genes mutados, sendo incapazes de produzir HbA e tendo elevadas concentrações de HbS em suas hemácias, levando à falcização e à anemia falciforme. Já heterozigotos apresentam o chamado traço falcêmico: por possuírem um gene mutado, produtor de HbS, e um gene normal, produtor de HbA, esses indivíduos terão baixa concentração da hemoglobina anômala em suas hemácias, fazendo com que não sofram falcizações e, portanto, sejam assintomáticos! Locais de relativa hipóxia, como a medula renal, podem fazer com que a HbS se polimerize mesmo em baixas concentrações, fazendo com que portadores de traço falcêmico possam apresentar m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 17 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED manifestações como hematúria. Entretanto, o quadro é em geral benigno, em nada semelhante ao quadro de hemólise e vaso-oclusões franco que ocorre na anemia falciforme. Veja a fisiopatologia do traço falcêmico resumida a seguir: Homozigotos para a HbS Dois alelos produtores de HbS Eletroforese de hemoglobinas: : 90% HbS Polimerização da HbS levando à falcização Hemólise Vaso-oclusões Heterozigotos para a HbS Anemia falciforme Traço falcêmico Um alelo produtor de HbS e um alelo produtor de HbA Eletroforese de hemoglobianas: 60% HbA, 30% HbS Sem polimerização e sem falcização Assintomáticos Ao contrário dos indivíduos homozigotos, que terão o quadro franco da anemia falciforme, portadores do traço falcêmico são heterozigotos para a mutação de HbS, produzindo pequenas quantidades dessa hemoglobina anômala. Isso faz com que esses indivíduos sejam completamente assintomáticos, não apresentando nem mesmo anemia, um conceito que as provas gostam de abordar, como veremos a seguir. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 18 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A) A presença de traço falciforme não predispõe a criança às complicações observadas na doença falciforme homozigótica, como a síndrome torácica aguda. B) A doença é de transmissão autossômica dominante, portanto, basta um dos pais apresentar o traço para a ocorrência da anemia falciforme em seus filhos. C) A anemia falciforme se desenvolve em 60% dos pacientes portadores do traço falciforme, independentemente de meninos ou meninas. D) A expectativa de vida para pacientes com traço falciforme é de 40 anos para meninos e 50 anos para meninas. COMENTÁRIO Agora você já sabe, caro Estrategista! O traço falciforme é o estado de heterozigose para a mutação da HbS, levando a um quadro totalmente assintomático de produção de baixas concentrações dessa hemoglobina anômala. Vejamos as alternativas: Correta a alternativa A perfeito! As complicações típicas da anemia falciforme serão vistas apenas em pacientes homozigotos, produtores de grandes quantidades de HbS. Por outro lado, indivíduoscom traço falcêmico serão assintomáticos, não apresentando nem sequer anemia. Incorreta a alternativa B: a anemia falciforme é uma doença de transmissão autossômica recessiva. Assim, ambos os pais devem ser portadores de pelo menos um alelo mutado para que sua prole desenvolva a doença homozigota. Incorreta a alternativa C: pacientes com traço falciforme não podem evoluir para anemia falciforme, já que ambos os quadros são de determinação congênita, constitucional do indivíduo. Incorreta a alternativa D: pacientes com traço falcêmico são assintomáticos, possuindo uma expectativa de vida comparável à da população geral. Como vimos, os pacientes com traço falcêmico não possuem um quadro clínico notável, exceto por eventuais episódios de icterícia e hematúria decorrentes de falcizações no ambiente relativamente hipóxico da medula renal. Desse modo, não há necessidade de manejo específico para esses casos. Na verdade, a única conduta diante de um portador de CAI NA PROVA (Centro Universitário de Anápolis - UEVA-GO 2019) Os pais de uma criança recém-nascida estão muito preocupados, pois, no teste do pezinho, houve observação de "traço falciforme". A fim de esclarecê-los sobre o que significa esse resultado de exame, as informações que devem ser repassadas aos pais sobre a doença, são: traço falciforme é a orientação genética: por possuírem um alelo mutado para a HbS, esses indivíduos possuem 25% de chance de ter filhos com anemia falciforme, caso seu parceiro também possua traço, ou 50% de chance, se o parceiro tiver diagnóstico de anemia falciforme. Essa informação é por vezes abordada nas provas, como veremos abaixo. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 19 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 12. Herança genética na anemia falciforme: a mutação da HbS é de herança autossômica recessiva, o que significa que apenas a presença de dois genes mutados levará à expressão total da doença. Assim, apenas os chamados indivíduos SS serão portadores de anemia falciforme, enquanto indivíduos AS são portadores de traço falcêmico, indicando sua heterozigose. É por isso que pacientes com traço falciforme possuem 25% de chance de terem filhos com anemia falciforme, como mostra o esquema acima. CAI NA PROVA (Processo Seletivo Unificado - PSU-AL-2020) Homem, 22 anos de idade, procura atendimento médico por alterações de exames laboratoriais de rotina. Assintomático. No interrogatório sistemático, referiu ter notado olhos amarelados, há cerca de 2 anos, por cerca de 2 dias, mas não procurou atendimento médico. Nega comorbidades. Exame físico sem alterações. Exames laboratoriais com bilirrubinas totais de 2,89mg/ dl, com bilirrubina indireta de 2,03mg/dl, AST 18U/l (VR 30), ALT 16U/l (VR 30), FA 55U/l (VR 100), GGt 20U/l (VR 60) AntiHCV não reagente, AntiHBs reagente, AntiHAV 1gG reagente Eletroforese de hemoglobina: HbA1 59%, HbA2 4%, HbS 37%. O risco que o filho deste paciente terá de nascer com anemia falciforme, caso a mãe possua traço falcêmico, é de: COMENTÁRIO Veja que questão interessante. Temos um paciente assintomático, apresentando um episódio de icterícia às custas de bilirrubina indireta. Ao analisarmos sua eletroforese de hemoglobinas, vemos que ele possui grande quantidade de HbA, mas também certa quantidade de HbS, indicando que possui um gene normal e um gene mutado para essa hemoglobina anômala. Ou seja, estamos diante de um paciente com traço falcêmico! Mesmo que esteja apresentando uma pequena intercorrência clínica, sua eletroforese de hemoglobinas não deixa dúvidas do diagnóstico! A) 0 (zero%) B) 25% C) 50% D) 100% m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 20 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Mas, o examinador não nos pergunta qual é o quadro do paciente e sim a chance de gerar prole falcêmica caso sua parceira seja também portadora de traço falciforme. Ora, como vimos acima, dois pacientes heterozigotos possuem 25% de chance de ter filhos com dois alelos mutados, sendo a resposta para a questão a alternativa B! Correta a alternativa B Normalmente não fazemos diagnóstico do traço falcêmico, já que esses indivíduos são assintomáticos. Entretanto, os testes de triagem neonatal, implementados em todo o Brasil, podem fazer com que muitos desses indivíduos sejam identificados logo ao nascimento, como veremos a seguir. 2.1.4 TRIAGEM NEONATAL DA ANEMIA FALCIFORME O Programa Nacional de Triagem Neonatal foi criado em 2001, apesar de desde 1992 o teste do pezinho já ter sido incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS). Realiza a identificação precoce de doenças como hemoglobinopatias, hipotireoidismo, fenilcetonúria, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase. Do ponto de vista da Hematologia, a maior importância do teste do pezinho é a identificação precoce dos pacientes com anemia falciforme, para que sejam instituídas medidas que diminuam a mortalidade dessa população. Entretanto, outras hemoglobinopatias, como as talassemias e a hemoglobinopatia C, D e E, podem ser diagnosticadas. A interpretação do teste do pezinho é tema eventualmente cobrado em provas. O exame identifica as hemoglobinas no sangue do neonato e relata-as em ordem decrescente, através de uma sequência de letras, ou seja, a hemoglobina em maior quantidade primeiro, seguida da segunda e da terceira hemoglobinas mais comuns na amostra. Desse modo, indivíduos normais possuem o padrão FA, já que ao nascimento a hemoglobina mais presente é a HbF, seguida pela HbA. Em pacientes falcêmicos, não há produção de HbA, sendo FS o padrão esperado no teste do pezinho. Por fim, pacientes com traço falcêmico possuirão as três hemoglobinas, apresentando o padrão FAS, como mostra a tabela abaixo. Diagnóstico Padrão da Triagem Neonatal para Hemoglobinopatias FA Indivíduo normal FAS Traço falciforme FS Anemia falciforme FC Hemoglobinopatia C FSC Hemoglobinopatia SC Veja como as questões de prova abordam esse tema! CAI NA PROVA (Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC - 2020) Pais procuram o serviço de emergência de hospital pediátrico, com seu filho de 20 dias de vida, porque ficaram muito preocupados com o resultado do teste do pezinho que identificou a presença de Hb FAS. Qual sua hipótese diagnóstica? m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 21 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A) Anemia falciforme B) Traço falciforme C) S/ß⁺ talassemia D) S/ß⁰ talassemia E) Hb S associada a persistência hereditária da Hb fetal COMENTÁRIO Vamos lá, Estrategista! Temos uma criança com padrão FAS na triagem neonatal, o que indica a presença das hemoglobinas F, A e S. Hemoglobinas F e A são esperadas ao nascimento, mas a presença de HbS indica que nosso paciente possui um alelo mutado para essa hemoglobina anômala. Entretanto, como também possui HbA, seu outro alelo não está mutado, indicando um estado de heterozigose, ou seja, traço falciforme! A padrão esperado para a anemia falciforme seria FS, indicando incapacidade de produzir HbA e a presença de apenas HbF e HbS. Já as S/β-talassemias são condições raras, em que esperaríamos não só a presença da HbS, como um aumento de HbA2, como veremos adiante. Correta a alternativa B 2.1.5 QUADRO LABORATORIAL DA ANEMIA FALCIFORME Ainda que a fisiopatologia da anemia falciforme seja alvo de algumas questões, é o quadro clínico marcante dessa doença o tema mais abordado sobre ela nas provas! Antes de abordá-lo, contudo, vamos conhecer algumas características laboratoriais gerais esperadas nessa população. Enquanto a maioria dasmanifestações clínicas de pacientes falcêmicos decorre das complicações agudas e crônicas secundárias às vaso-oclusões a que estão sujeitos, as alterações laboratoriais esperadas relacionam-se primariamente à destruição precoce dos drepanócitos, a hemólise. Os primeiros achados importantes na identificação da anemia falciforme são os esperados de qualquer hemólise crônica: anemia normocítica e normocrômica, reticulocitose, elevação de bilirrubina indireta e desidrogenase lática, consumo de haptoglobina. Leucocitose e plaquetose podem estar presentes, resultado de uma atividade medular aumentada. Pelo acelerado metabolismo das bilirrubinas, secundário ao quadro hemolítico, litíase biliar é frequente, muitas vezes com necessidade de colecistectomia. É a avaliação do esfregaço de sangue periférico que começará a apontar ao diagnóstico. É característica a presença dos drepanócitos, as chamadas hemácias em foice. Os leptócitos, ou hemácias em alvo, também podem ser encontrados, apesar de menos específicos, já que podem ser vistos em outras hemoglobinopatias, como as talassemias e a hemoglobinopatia SC. Figura 13. Drepanócitos (hemácias em foice) e leptócitos (hemácias em alvo): alterações esperadas na análise do esfregaço de sangue periférico de pacientes falcêmicos. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 22 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Não é pela hematoscopia, entretanto, que podemos firmar o diagnóstico: é preciso identificar a presença da HbS em grandes quantidades através de exames específicos, como a eletroforese de hemoglobinas, em que separamos as hemoglobinas do paciente de acordo com sua carga elétrica, ou a cromatografia líquida de alta performance, que usa sorventes para fazer essa separação. O exame padrão-ouro para o diagnóstico da anemia falciforme é a cromatografia líquida de alta performance. O teste mais usado, contudo, é a eletroforese de hemoglobinas, menos custosa e mais disponível. Conhecer o quadro laboratorial geral da anemia falciforme ajuda-nos a identificá-la nas provas, mas o ponto mais abordado sobre essa doença não é esse: a maioria das questões trata das complicações agudas de que sofrem os pacientes falcêmicos. Revise rapidamente na tabela a seguir o laboratório da anemia falciforme antes de estudarmos essas condições! Quadro clínico-laboratorial da anemia falciforme Quadros agudos e crônicos de vaso-oclusão Anemia normocítica e normocrômica Sinais de hemólise: elevação de bilirrubina indireta e desidrogenase lática, consumo de haptoglobina, reticulocitose Esfregaço de sangue periférico: drepanócitos (hemácias em foice), leptócitos (hemácias em alvo) Presença de grande quantidade de HbS na eletroforese de hemoglobina ou na cromatografia líquida de alta performance CAI NA PROVA (Secretaria Estadual de Saúde - SES RJ - 2020) Homem negro de 20 anos, com história de várias internações por crises vaso-oclusivas, é internado por novo quadro álgico. Em relação à doença de base, o resultado laboratorial característico é sugerido por: A) reticulócitos aumentados, haptoglobina diminuída e LDH e bilirrubina indireta elevados B) reticulócitos diminuídos, haptoglobina diminuída e LDH e bilirrubina indireta normais C) reticulócitos aumentados, haptoglobina alta e LDH e bilirrubina indireta elevados D) reticulócitos diminuídos, haptoglobina alta e LDH e bilirrubina indireta normais COMENTÁRIO Temos um indivíduo jovem, negro, com episódios de vaso-oclusão. Ou seja, estamos diante de um portador de anemia falciforme! Quais são as alterações laboratoriais esperadas para esse quadro? Ora, sabemos que, além das vaso-oclusões, pacientes falcêmicos são acometidos por hemólise crônica, cursando com todas as alterações laboratoriais típicas dessa condição: aumento de bilirrubina indireta e desidrogenase lática, consumo de haptoglobina e reticulocitose, conforme afirma a alternativa A! Correta a alternativa A m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 23 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED (Hospital da Aeronáutica de São Paulo - HASP - 2019) Criança de 1 ano e 6 meses, é trazida pela mãe com histórico de choro frequente em crises, sem fator desencadeante óbvio e melhora espontânea. Desde seu nascimento, vários episódios de "infecções", tratados sempre sob orientação médica e nos últimos 15 dias amarelamento da pele e dos olhos, com duração de 5 dias e melhora espontânea. Foi solicitado um hemograma, e durante a análise foi visualizada a seguinte imagem: Diante do exposto, o achado na lâmina e a hipótese diagnóstica são: A) Presença de linfoblasto, hipótese diagnóstica de Leucemia Linfoide Aguda. B) Presença de reticulocitose, hipótese diagnóstica de Anemia Hemolítica. C) Presença de poiquilocitose, hipótese diagnóstica de Anemia Falciforme. D) Presença de microcitose, hipótese diagnóstica de Anemia Ferropriva. COMENTÁRIO Mesmo que você não conhecesse qualquer informação sobre o quadro clínico da anemia falciforme, suspeitaríamos imediatamente desse diagnóstico ao visualizar as características hemácias em foice no sangue periférico de nosso paciente. Elas são denominadas poiquilócitos, como qualquer eritrócito de forma anormal, mais especificamente sendo chamadas de drepanócitos. Assim, a resposta da questão é a alternativa C, já que também não vemos na hematoscopia acima a presença de linfoblastos (precursores linfoides), reticulócitos (hemácias jovens) ou micrócitos (hemácias de tamanho diminuído). Correta a alternativa C 2.1.5.1 COMPLICAÇÕES AGUDAS DA ANEMIA FALCIFORME A doença falciforme é uma anemia hemolítica crônica marcada por inúmeros episódios de vaso-oclusão que acometem diversos órgãos e tecidos. No entanto, os pacientes costumam ser assintomáticos até os seis meses de idade. Isso porque, ao nascimento, a hemoglobina mais produzida é a HbF (α2γ2), não afetada pela mutação da HbS (α2βs2). É só por volta da metade do primeiro ano de vida que a produção de HbF (α2γ2) decai, sendo substituída pela HbS (α2βs2) como hemoglobina predominante. O aumento da concentração da HbS fará então com que essa molécula anômala seja capaz de polimerizar-se, levando à falcização das hemácias e aos quadros agudos que marcam a hemoglobinopatia SS. Abordaremos todos eles um a um, começando por aqueles mais frequentes: as crises álgicas. 2.1.5.1.1 CRISES ÁLGICAS As crises dolorosas são a complicação mais comum da anemia falciforme, além de principal causa de internação nessa população. Também chamadas simplesmente de crises vaso-oclusivas, esses episódios de dor são ocasionados pela isquemia tecidual secundária à obstrução do fluxo sanguíneo pelas hemácias falcizadas, principalmente no território de ossos e músculos. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 24 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED As vaso-oclusões levam a dor de intensidade variável, com duração média de 4 a 6 dias, mas podendo estender-se por semanas. Alguns fatores são desencadeantes conhecidos, como hipóxia, desidratação, infecções, exposição ao frio e estresse físico ou emocional. A dor frequentemente é generalizada, podendo concentrar-se em membros, abdômen ou dorso. A dactilite falcêmica é uma forma particular de crise dolorosa que costuma ser a primeira manifestação da anemia falciforme, acometendo crianças de 6 meses a 2 anos de idade. Decorre de vaso-oclusão nas articulações e ossos de mãos e pés, levando a dor intensa, edema e eritema local. Figura 14. Dactilite falcêmica ou síndrome mão-pé: evento de vaso-oclusão nas articu- lações de mãos e pés, levando a dor intensa,edema e eritema local. É frequentemente a primomanifestação da anemia falciforme, acometendo principalmente crianças de menos de 2 anos de idade. • Afastamento de desencadeantes: evitar fatores precipitantes de falcização, como hipóxia, frio, estresse físico e emocional, desidratação, infecções, dentre outros; • Hidratação vigorosa: realizar hidratação por via oral em crises leves e por via endovenosa em eventos moderados a graves. Quando usada a hidratação parenteral, optar pelo uso de soluções hipotônicas (combinação de soro fisiológico e soro glicosado) com objetivo de atingir a euvolemia. Deve-se evitar a hiper-hidratação, com risco de piorar a crise; • Analgesia imediata e adequada à dor do paciente: usar combinações de analgésicos e adjuvantes em doses de horário fixo, até controle da dor. Indica-se o uso da escala de analgesia da Organização Mundial de Saúde, começando sempre pelo degrau mais adequado à dor do paciente, como mostra o esquema a seguir: Figura 15. Analgesia nas crises vaso-oclusivas: devemos sempre iniciar prontamente o tratamento analgésico no degrau mais adequado à dor do paciente, usando combinações fixas de analgésicos e adjuvantes. Não devemos adiar o início das medicações, usar placebos ou iniciar por medicações não condizentes ao grau de dor apresentado. O ponto mais importante sobre as crises álgicas é seu adequado manejo. Diante de um paciente falcêmico em quadro doloroso agudo, nossas principais medidas devem ser: m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 25 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Não há indicação de transfusão de hemácias em crises álgicas simples! O paciente falcêmico possui uma anemia crônica e não deve ser exposto aos riscos infecciosos e reacionais de uma transfusão sem ter uma indicação específica para tal. Abordaremos mais à frente as indicações de transfusão nessa população. Agora que sabemos manejar uma crise álgica, vejamos como as provas abordam esse tópico! CAI NA PROVA (Hospital Estadual Dirceu Arcoverde - HEDA-PI 2019) Um menino de seis anos de idade, com anemia falciforme, foi levado ao setor de emergência pediátrica com queixa de dor em membros inferiores há cerca de doze horas, sem febre. Já recebeu, em casa, dipirona e paracetamol, sem melhora. Ao exame físico, não apresentou anormalidades, com exceção de fácies dolorosas. A dor foi classificada como intensa (nota 7). Nesse caso hipotético, a melhor conduta é: A) hiper-hidratação endovenosa. B) codeína. C) tramadol. D) anti-inflamatório não hormonal. E) morfina. COMENTÁRIO Estamos diante de uma criança falcêmica em franca crise álgica, apresentando dor intensa em membros inferiores. Não podemos ter dúvida: é preciso prontamente iniciar hidratação endovenosa e analgesia potente, além de identificar e afastar qualquer fator que possa ter precipitado o episódio. Desse modo, a única resposta possível é a alternativa E, uso de morfina, já que, diante de quadros de dor intensa, devemos, sim, fazer uso de opioides potentes, ao contrário das opções de analgesia fraca que sugerem as alternativas B, C e D. Por fim, devemos evitar a hiper- hidratação, sugerida pela alternativa A, e sim instituir hidratação vigorosa com soluções hipotônicas, visando apenas atingir a euvolemia. Correta a alternativa E (Seleção Unificada para Residência Médica do Estado do Ceará - SURCE-2019) Paciente masculino de 26 anos comparece ao pronto- socorro referindo anemia desde a infância e que há um dia iniciou com quadro de dor em membros inferiores, no momento, de forte intensidade. Nega febre, dispneia ou outras queixas. Encontra- se descorado, ictérico, eupneico e com fácies de dor. Hemograma evidenciou hemoglobina de 6,2 g/dl, leucócitos de 13.400/mm³, com neutrofilia e plaquetas de 762.000/mm³. A lâmina de sangue periférico encontra-se em anexo. Além da busca por foco infeccioso e analgesia, qual melhor abordagem imediata para controle do quadro? m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 26 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED A) Hidratação vigorosa. B) Antibiótico empírico. C) Transfusão simples de concentrado de hemácias. D) Transfusão de troca de concentrado de hemácias. Correta a alternativa A Apesar de serem as manifestações mais comuns da anemia falciforme, as crises álgicas não são suas complicações mais abordadas nas provas. Esse título fica com o sequestro esplênico e a síndrome torácica aguda, duas graves intercorrências de elevada mortalidade nessa população. De fato, a síndrome torácica aguda é a causa mais comum de morte em adultos falciformes, enquanto nas crianças infecções por bactérias encapsuladas e sequestro esplênico são os principais eventos de mortalidade. Iniciaremos nossa abordagem por essas complicações, começando pelas infecções por encapsulados, decorrentes do característico quadro de autoesplenectomia. 2.1.5.1.2 AUTOESPLENECTOMIA Um dos órgãos mais afetados pelas crises de vaso-oclusão típicas da anemia falciforme é o baço. Ao longo da vida do paciente falcêmico, o parênquima esplênico sofre inúmeros microinfartos, levando à fibrose progressiva do órgão e à perda de sua função. Esse estado de autoesplenectomia faz com que o paciente falcêmico possua, por exemplo, a expressão dos corpos de Howell-Jolly em seu sangue periférico, já que esses restos de DNA normalmente são retirados do citoplasma das hemácias pelos macrófagos esplênicos. COMENTÁRIO Belíssima questão, Estrategista! O examinador traz um indivíduo com anemia de possível etiologia congênita, já que vem desde a infância, associada à presença de hemácias em foice em sangue periférico. Você já sabe: estamos diante de um portador de anemia falciforme. Mais ainda, esse paciente está, sem dúvidas, em um episódio de crise álgica, apresentando dor intensa em membros inferiores. Qual deve ser nossa conduta nesse caso? Sempre, diante de uma crise dolorosa em paciente falcêmico, as três medidas essenciais são afastamento de desencadeantes, hidratação vigorosa e analgesia adequada. A resposta da questão é, portanto, a alternativa A. Não há qualquer indicação de transfusões simples ou de troca em crises álgicas simples como a acima, além de nenhum benefício de antibioticoterapia empírica, como sugerem as demais alternativas. macrófagos esplênicos. De fato, a frequência de bacteremia em pacientes falcêmicos é estimada em até 300 vezes maior que o esperado para a idade! Isso explica por que a sepse por Streptococcus pneumoniae, Neisseria meningitidis e Haemophilus influenzae tipo b é a causa mais comum de morte em crianças com anemia falciforme, levando à mortalidade de até 30% de todos os falcêmicos com menos de 5 anos! Diante desse grave problema de saúde pública, algumas medidas foram implementadas, com efeito comprovado de redução da mortalidade. A primeira delas é justamente a triagem neonatal para a anemia falciforme: identificar precocemente esses pacientes permite-nos intervir nesses quadros infecciosos graves, Mais ainda, a perda de atividade do baço leva a verdadeiro estado de asplenismo funcional, fazendo com que os pacientes falcêmicos não tenham uma adequada proteção contra bactérias encapsuladas, que normalmente sofrem fagocitose pelos m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 27 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 16. Corpúsculos de Howell-Jolly: restos de DNA encontrados no citoplasma das hemácias, normalmente não visualizados porque são retirados da circulação pelos macrófagos esplênicos. Em estados de esplenectomia ou autoesplenectomia, poderemos visualizaressas inclusões citoplasmáticas nas hemácias do paciente. através das medidas que abordaremos à frente. Isso é especialmente importante considerando que o quadro clínico pode demorar até os seis meses de idade para manifestar-se. Identificados os portadores de anemia falciforme, o cuidado infeccioso deve ser redobrado. Além do calendário vacinal normal, que já inclui vacina antimeningocócica e anti-hemófilo, a vacina contra o Streptococcus pneumoniae deve ser a polissacarídica 23-valente, com uma dose após os 2 anos de idade e um reforço após 5 anos da primeira dose. O uso de antibióticos profiláticos também está indicado: todo paciente falcêmico deve receber antibioticoterapia contínua dos 3 meses aos 5 anos de idade, com penicilina V oral ou eritromicina (para os alérgicos à penicilina). Por fim, diante de um portador de anemia falciforme com suspeita de infecção, sempre devemos ter extrema cautela. Guarde esta informação, Estrategista: crianças falcêmicas com febre devem ser prontamente internadas e submetidas à antibioticoterapia empírica endovenosa, porque há elevado risco de evolução para sepse e morte! Veremos a seguir como as provas adoram cobrar esse conceito. Anemia falciforme - Mutação autossômica recessiva que determina a presença de HbS Falcização das hemácias no baço - Microinfartos repetidos no parênquima esplênico Autoesplenectomia - Fibrose e perda da função esplênica - Perda da fagocitose de patógenos pelos macrófagos do baço Risco infeccioso aumentado - Suscetibilidade à sepse por bactérias encapsuladas Cuidados anti-infecciosos - Profilaxia com penicilina V oral - Vacinação - Sempre internar se houver suspeita de infecção Figura 17. Autoesplenectomia e suscetibilidade a infecções por bactérias encapsuladas. CAI NA PROVA (Universidade Estadual do Piauí - UESPI-2020) Lactente de dois anos, com anemia falciforme, chegou ao pronto-socorro com história de dor em membros inferiores, febre de 38,5°C e tosse há três dias. Ao exame físico está hipocorado ++/4+, eupneico, sem hepatoesplenomegalia, sem edema ou sinais flogísticos em membros inferiores. Raio-X de tórax normal. A conduta mais adequada para o caso é: A) Analgesia – liberar com antibioticoterapia via oral. B) Analgesia – encaminhar para reavaliação ambulatorial. C) Anti-inflamatório – liberar com antibioticoterapia via oral. D) Analgesia – internar com antibioticoterapia via parenteral. E) Analgesia - internar para transfundir. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 28 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED COMENTÁRIO Esse é o protótipo das questões sobre o risco infeccioso de crianças falcêmicas. Somos apresentados a um paciente de 2 anos de idade, com diagnóstico de anemia falciforme, no momento com febre e tosse, sem maiores sinais de gravidade. As alternativas, então, tentam induzir-nos a não internar ou não iniciar antibiótico endovenoso. Não caia na armadilha, Estrategista! Pelo elevado risco de sepse por encapsulados, é essencial internar toda criança falciforme com febre, iniciando prontamente antibioticoterapia empírica endovenosa, até garantia de estabilidade do quadro. Dessa forma, a única alternativa correta é a letra D! Correta a alternativa D (Universidade Federal de Goiás - UFG - 2020) Uma criança de dois anos, portadora de doença falciforme, é atendida na unidade de pronto atendimento com quadro de febre iniciada há 36 horas, sem outros sintomas associados. O exame físico não apresenta alterações além da temperatura de 38,9 ºC. A conduta será: A) acompanhamento ambulatorial e retorno em caso de persistência da febre após 48 a 72 horas ou antes, se houver piora clínica. B) realização dos seguintes exames complementares: hemograma, hemocultura, urocultura e radiografia de tórax; os resultados definirão o plano terapêutico. C) admissão hospitalar e início de antibioticoterapia parenteral, mesmo antes dos resultados dos exames laboratoriais. D) prescrição de oseltamivir, pois o exame físico sem alterações sugere doença viral, e esses pacientes são grupo de risco para influenza grave. COMENTÁRIO Agora você já não tem dúvidas, Estrategista: criança falcêmica com febre deve sempre ser internada com prescrição de antibiótico endovenoso, independentemente das condições clínicas que apresente. É justamente o que essa questão nos apresenta. Vejamos as alternativas: Incorreta a alternativa A: nunca daremos alta para uma criança falcêmica com febre, mesmo que ela esteja sem qualquer outro sintomas! Incorreta a alternativa B: exames complementares até devem ser realizados, mas eles não mudarão nossa conduta. Criança falcêmica + febre = internação + antibiótico na veia! Correta a alternativa C perfeito! Lembre-se bem dessa situação, Estrategista. Como você viu, as provas trazem esse conceito sempre abordado da mesma forma. Incorreta a alternativa D: pelo seu estado de asplenismo funcional, pacientes falcêmicos possuem uma tendência aumentada a infecções por bactérias encapsuladas, especialmente as crianças, que estão mais expostas a esses patógenos. Assim, nossa primeira hipótese diante de um portador de anemia falciforme com menos de 5 anos não é a influenza, mas sim as infecções por pneumococo, meningococo e hemófilo, levando-nos a internar o paciente e iniciar antibioticoterapia endovenosa. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 29 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED 2.1.5.1.3 SEQUESTRO ESPLÊNICO Vimos logo acima que portadores de anemia falciforme são autoesplenectomizados. De fato, após os 5 anos de idade, quase a totalidade dessa população terá o baço atrofiado e sem função, sendo muita rara a verificação de esplenomegalia nesses pacientes. A única situação em que esperamos encontrar aumento de tamanho do baço é uma complicação clínica grave, justamente mais prevalente em crianças de até 5 anos, sendo, inclusive, a segunda maior causa de morte nessa população, atrás apenas da sepse por encapsulados. Estamos falando, Estrategista, da crise de sequestro esplênico. Nesse quadro, há aprisionamento das hemácias falcizadas na circulação esplênica: os eritrócitos entram, mas não conseguem sair do baço, levando a rápido aumento de tamanho do órgão e piora da anemia basal do paciente por redução da massa eritrocitária circulante. A esplenomegalia resultante costuma ser moderada a grande, com baço alcançando pelo menos 5cm do rebordo costal, podendo chegar à fossa ilíaca. Figura 18. Fisiopatologia do sequestro esplênico. Laboratorialmente, além da piora acentuada da anemia, esperamos encontrar contagens para instituição rápida de suporte hemodinâmico, hidratação endovenosa e transfusão de concentrado de hemácias. Passado o episódio agudo, a esplenectomia profilática deve ser programada, já que há risco de recorrência. Observe a seguir um pequeno resumo sobre o sequestro esplênico, antes de vermos como ele é abordado nas provas. reticulocitárias muito elevadas: a medula óssea reage à queda de hemoglobina produzindo novas hemácias, liberadas na circulação sob a forma de reticulócitos. O quadro é gravíssimo, podendo evoluir para choque hipovolêmico e óbito, com taxas de mortalidade em torno de 10% dos casos. Deve ser prontamente reconhecido de forma clínica m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 30 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAI NA PROVA (Faculdade de Medicina do ABC - 2020) Criança de 9 meses com anemia falciforme apresenta palidez súbita com hipoatividade e dor abdominal. Familiares negam febre. Apresenta baço em fossa ilíaca esquerdadas células hematológicas. 2. Fisiopatologia: mutações adquiridas no gene PIGA levam à menor expressão da âncora GPI, responsável pela fixação de diversas substâncias na superfície das células. Surge, assim, um clone de células-tronco incapazes de expressar CD55 e CD59, protetores contra a ação do sistema complemento, levando à geração de hemácias, leucócitos e plaquetas suscetíveis à lise intravascular por esse mecanismo de proteção imune. 3. Quadro clínico-laboratorial: tríade clássica composta por anemia hemolítica intravascular (hemoglobinúria), pancitopenia e tendência à trombose venosa (especialmente de veia porta). 4. Diagnóstico: imunofenotipagem por citometria de fluxo, identificando células com pouca expressão de CD55 e CD59. 5. Tratamento: suporte clínico e eculizumabe. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 94 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED Figura 47. Hemoglobinúria paroxística noturna (HPN) em resumo: normalmente, o gene PIGA é responsável pela expressão da GPI, âncora do CD55 e CD59 na membrana das células, garantindo a proteção contra o sistema complemento. Na HPN, mutações adquiridas no gene PIGA levam à menor expressão de GPI e consequente incapacidade de fixação de CD55 e CD59. Surge, assim, uma população de células hematológicas sem CD55/CD59, sendo, portanto, suscetível à lise pelo sistema complemento. Isso leva à tríade clínica clássica que caracteriza a HPN: hemólise intravascular, pancitopenia e trombose (especialmente de veia porta). m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 95 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAPÍTULO 4.0 FLUXOGRAMA DE INVESTIGAÇÃO DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS Agora que conhecemos as principais anemias hemolíticas, trago um pequeno esquema que pode guiá-lo, caro Estrategista, no diagnóstico da maioria das causas de hemólise. Obviamente, ele é uma grande simplificação de todos os conceitos abordados até agora, agilizando sua investigação diante das questões. Estude-o com atenção! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 96 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED https://bit.ly/2ZsUgUO m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ https://bit.ly/2ZsUgUO m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 97 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED CAPÍTULO 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. KAUSHANSKY, Kenneth et al. Williams Hematology, 9. ed. 2016. 2. MCKENZIE, Shirlyn B.; WILLIAMS, J. Lynne. Clinical Laboratory Hematology, 2. ed., 2010. 3. BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada Doença falciforme: condutas básicas para tratamento, 2012. 4. BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada Manual de eventos agudos em doença falciforme, 2009. 5. BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS n. 55. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Doença Falciforme. Publicada em 29 jan. 2010. 6. BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 1.308. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Anemia Hemolítica Autoimune. Publicada em 22 nov. 2013. CAPÍTULO 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este é um dos livros mais complexos de nosso curso de Hematologia, caro Estrategista. São muitas condições a conhecer e muitos quadros clínicos para que você identifique nas questões. Veja que é justamente saber identificar a apresentação de cada uma dessas doenças a habilidade mais cobrada pelas provas de Residência, ainda que alguns conhecimentos sobre suas fisiopatologias também sejam abordados. Tentei trazer muitas imagens, explicando detalhadamente a patogênese das anemias hemolíticas, para que você possa entendê-las e mais facilmente gravar suas manifestações. Estude cada um desses esquemas com atenção! Bons estudos! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Prof. Hugo Brisolla | Curso Extensivo | 2023 98 Anemias hemolíticasHEMATOLOGIA Estratégia MED m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ https://med.estrategia.com 1.0 INTRODUÇÃO À HEMÓLISE 1.1 TIPOS DE HEMÓLISE 1.2 QUADRO LABORATORIAL DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS 1.3 CLASSIFICAÇÃO DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS 2.0 ANEMIAS HEMOLÍTICAS CONGÊNITAS 2.1 ANEMIA FALCIFORME 2.1.1 EPIDEMIOLOGIA DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.2 FISIOPATOLOGIA DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.3 HERANÇA GENÉTICA NA ANEMIA FALCIFORME 2.1.4 TRIAGEM NEONATAL DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.5 QUADRO LABORATORIAL DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.5.1 COMPLICAÇÕES AGUDAS DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.5.1.1 CRISES ÁLGICAS 2.1.5.1.2 AUTOESPLENECTOMIA 2.1.5.1.3 SEQUESTRO ESPLÊNICO 2.1.5.1.4 CRISE APLÁSICA E CRISE HIPER-HEMOLÍTICA 2.1.5.1.5 ACIDENTE VASCULAR ENCEFÁLICO ISQUÊMICO 2.1.5.1.6 SÍNDROME TORÁCICA AGUDA 2.1.5.1.7 PRIAPISMO 2.1.5.1.8 COMPLICAÇÕES OSTEOMUSCULARES DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.5.2 COMPLICAÇÕES CRÔNICAS DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.6 TRATAMENTO DA ANEMIA FALCIFORME 2.1.6.1 HIDROXIUREIA NA ANEMIA FALCIFORME 2.1.6.2 SUPORTE TRANSFUSIONAL NA ANEMIA FALCIFORME 2.1.7 OUTRAS HEMOGLOBINOPATIAS QUALITATIVAS 2.1.7.1 HEMOGLOBINOPATIA SC 2.1.7.2 S/β-TALASSEMIA 2.2 ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 2.2.1 FISIOPATOLOGIA DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 2.2.2. QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 2.2.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA 2.3 ELIPTOCITOSE HEREDITÁRIA 2.4 DEFICIÊNCIA DE G6PD 2.4.1 FISIOPATOLOGIA DA DEFICIÊNCIA DE G6PD 2.4.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA DEFICIÊNCIA DE G6PD 2.4.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA DEFICIÊNCIA DE G6PD 2.5 DEFICIÊNCIA DE PIRUVATO-QUINASE 3.0 ANEMIAS HEMOLÍTICAS ADQUIRIDAS 3.1 ANEMIAS HEMOLÍTICAS AUTOIMUNES - AHAI 3.1.1 CLASSIFICAÇÃO DAS AHAI 3.1.2 DIAGNÓSTICO DAS AHAI 3.1.3 TRATAMENTO DAS AHAI 3.2 ANEMIAS HEMOLÍTICAS MICROANGIOPÁTICAS 3.2.1 PÚRPURA TROMBOCITOPÊNICA TROMBÓTICA – PTT 3.2.1.1 FISIOPATOLOGIA DA PTT 3.2.1.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA PTT 3.2.1.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA PTT 3.2.2 SÍNDROME HEMOLÍTICO-URÊMICA – SHU 3.2.2.1 FISIOPATOLOGIA DA SHU 3.2.2.2 TRATAMENTO DA SHU 3.2.3 COAGULAÇÃO INTRAVASCULAR DISSEMINADA – CIVD 3.3 HIPERESPLENISMO 3.4 HEMOGLOBINÚRIA PAROXÍSTICA NOTURNA - HPN 3.4.1 FISIOPATOLOGIA DA HPN 3.4.2 QUADRO CLÍNICO-LABORATORIAL DA HPN 3.4.3 DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA HPN 4.0 FLUXOGRAMA DE INVESTIGAÇÃO DAS ANEMIAS HEMOLÍTICAS 5.0 LISTA DE QUESTÕES 6.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS