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-	ÍNDICE	-
CAP.	1:	INTRODUÇÃO	ÀS	ANEMIAS
O	QUE	É	ANEMIA?
HEMATOPOIESE
ERITROPOIESE
FORMAÇÃO	DA	HEMOGLOBINA
APRESENTAÇÃO	CLÍNICA	DAS	ANEMIAS
INVESTIGAÇÃO	ETIOLÓGICA EXAMES	COMPLEMENTARES
CAP.	2:	ANEMIA	FERROPRIVA
INTRODUÇÃO
O	METABOLISMO	DO	FERRO
O	CICLO	DO	FERRO
NA	MUCOSA	INTESTINAL	(ABSORÇÃO	E	ELIMINAÇÃO	DO	FERRO)...
NO	PLASMA...
NA	MEDULA	ÓSSEA...
NO	BAÇO...
PERDA	E	GANHO	CORPORAL	DE	FERRO
O	LABORATÓRIO	DO	FERRO
ETIOLOGIA	DAS	ANEMIAS	FERROPRIVAS
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS
ACHADOS	LABORATORIAIS	E	DIAGNÓSTICO
ESTÁGIOS	NA	DEFICIÊNCIA	DE	FERRO
DEPLEÇÃO	DOS	ESTOQUES	DE	FERRO
ERITROPOIESE	DEFICIENTE	EM	FERRO
ANEMIA	FERROPRIVA
TRATAMENTO
CAP.	3:	ANEMIA	NAS	DESORDENS	SISTÊMICAS
INTRODUÇÃO
ANEMIA	DE	DOENÇA	CRÔNICA
PATOGÊNESE
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS
LABORATÓRIO
TRATAMENTO
ANEMIA	DA	IRC
PATOGÊNESE
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS	E	LABORATORIAIS
TRATAMENTO
ANEMIA	DA	HEPATOPATIA	CRÔNICA PATOGÊNESE
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS	E	LABORATORIAIS
ANEMIA	DAS	ENDOCRINOPATIAS
HIPOTIREOIDISMO
HIPERTIREOIDISMO
OUTRAS	ENDOCRINOPATIAS
ANEMIA	POR	OCUPAÇÃO	MEDULAR	(ANEMIA	MIELOFTÍSICA)
CAP.	4:	ANEMIA	MEGALOBLÁSTICA
INTRODUÇÃO
FISIOLOGIA	DO	ÁCIDO	FÓLICO	E	VITAMINA	B12
ÁCIDO	FÓLICO
VITAMINA	B12	()
BIOQUÍMICA	DO	ÁCIDO	FÓLICO	E	DA	VITAMINA	B12
ORIGEM	DAS	DEFICIÊNCIAS	VITAMÍNICAS
CAUSAS	DE	DEFICIÊNCIA	DE	ÁCIDO	FÓLICO
CAUSAS	DE	DEFICIÊNCIA	DE	VITAMINA	B12
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS
LABORATÓRIO
TRATAMENTO
CAP.	5:	ANEMIAS	HEMOLÍTICAS
INTRODUÇÃO	ÀS	ANEMIAS	HEMOLÍTICAS
HEMÓLISE
CRISES	ANÊMICAS
ETIOLOGIA
LABORATÓRIO	DA	HEMÓLISE
ANEMIAS	HEMOLÍTICAS	HEREDITÁRIAS ALTERAÇÕES	DO	CITOESQUELETO	E	MEMBRANA	ERITROCÍTICA
DEFEITOS	ENZIMÁTICOS
ANEMIAS	HEMOLÍTICAS	ADQUIRIDAS HEMÓLISE	EXTRAVASCULAR
HEMÓLISE	INTRAVASCULAR
CAP.	6:	HEMOGLOBINOPATIAS
ANEMIA	FALCIFORME
INTRODUÇÃO
FISIOPATOLOGIA
DIAGNÓSTICO
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS	E	TRATAMENTO
TRAÇO	FALCÊMICO
AS	TALASSEMIAS BETATALASSEMIAS
ALFATALASSEMIAS
APÊNDICE	1:	AS	MIELODISPLASIAS
PATOGÊNESE,	ETIOLOGIA	E	EPIDEMIOLOGIA
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS	E	LABORATORIAIS
LABORATÓRIO
CLASSIFICAÇÃO	E	PROGNÓSTICO
TRATAMENTO
CUIDADOS	DE	SUPORTE
TERAPIA	DE	BAIXA	INTENSIDADE
TERAPIA	DE	ALTA	INTENSIDADE	E	TRANSPLANTE	DE	CÉLULAS-TRONCO	HEMATOPOIÉTICAS
SITUAÇÕES	ESPECIAIS
APÊNDICE	2:	ANEMIA	SIDEROBLÁSTICA
PATOGÊNESE	E	FISIOPATOLOGIA
QUADRO	CLÍNICO	E	DIAGNÓSTICO
TRATAMENTO
APÊNDICE	3:	ANEMIA	APLÁSICA
DEFINIÇÃO
EPIDEMIOLOGIA
ETIOLOGIA
PATOGÊNESE
APLASIAS	CONGÊNITAS ANEMIA	DE	FANCONI
DISCERATOSE	CONGÊNITA
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS
LABORATÓRIO
CONFIRMAÇÃO	DO	DIAGNÓSTICO
TRATAMENTO	E	PROGNÓSTICO
APLASIA	ERITROIDE	ISOLADA
SÍNDROME	DE	SHWACHMAN-DIAMOND
Intro_25155
CAP.	1
INTRODUÇÃO	ÀS	ANEMIAS
O	QUE	É	ANEMIA?
O	 termo	 "anemia",	 que	 define	 clinicamente	 a	 existência	 de	 um	estado	 de	queda	da	hemoglobina	no	 sangue,	 na	 verdade	 não	 faz	 referência	 a	 nenhuma	entidade
nosológica	específica	–	anemia	não	é	uma	doença,	e	sim	um	sinal	de	que	existe	doença.	Infelizmente,	é	grande	o	desconhecimento	médico	sobre	este	tema,	levando	à
omissão,	por	negligência	ou	imperícia,	do	diagnóstico	de	doenças	que	poderiam	ser	curadas	se	fossem	descobertas	em	fases	mais	precoces	(como	no	caso	do	câncer	de
cólon).
Observamos	em	nossa	prática	diária	que	muitos	médicos,	diante	de	um	paciente	anêmico,	contentam-se	apenas	em	corrigir	os	níveis	de	hemoglobina	ou	hematócrito,
utilizando-se	 principalmente	 da	 hemotransfusão;	 com	 isso,	 a	 origem	 do	 processo	 (muitas	 vezes	 controlável)	 não	 é	 revelada,	 e	 o	 paciente	 ainda	 é	 exposto
desnecessariamente	 aos	 riscos	 inerentes	 à	 transfusão.	 Vemos	 médicos	 prescrevendo	 sulfato	 ferroso	 e	 polivitamínicos	 para	 TODOS	 os	 pacientes	 com	 anemia.	 Erro
grosseiro...	 Preocupado	 e	 ansioso	 para	 normalizar	 rapidamente	 o	 hemograma,	 o	 médico	 inexperiente	 muitas	 vezes	 não	 questiona:	 "por	 que	 este	 paciente	 está
anêmico?".
Se	todos	se	preocupassem	em	responder	a	essa	pergunta,	muitos	erros	ou	iatrogenias	poderiam	ser	evitados.	Responder	a	essa	"simples"	pergunta	é	o	principal	objetivo
desta	apostila.	Como	veremos	a	partir	de	agora,	exames	simples,	como	o	hemograma	completo	 (que	 inclui	os	 índices	hematimétricos),	a	contagem	de	 reticulócitos,	a
"cinética	de	ferro"	e	a	microscopia	do	esfregaço	de	sangue	periférico	são	suficientes	para	o	diagnóstico	etiológico	da	grande	maioria	dos	casos	de	anemia	encontrados	na
prática	clínica!	Evidentemente,	a	interpretação	de	tais	exames	deve	ter	como	base	os	dados	da	anamnese	e	do	exame	físico...
Cap1_Video_01_Hem1
HEMATOPOIESE
A	medula	óssea	é	o	órgão	produtor	das	células	sanguíneas.	Até	os	cinco	anos	de	idade,	a	medula	de	todos	os	ossos	do	corpo	participa	desse	processo.	À	medida	que	os
anos	avançam,	ocorre	uma	substituição	gordurosa	na	medula	dos	ossos	longos,	até	que,	na	idade	adulta,	somente	os	ossos	da	pelve	(como	o	ilíaco),	o	esterno,	os	ossos	do
crânio,	 os	 arcos	 costais,	 vértebras	 e	 as	 epífises	 femorais	 e	 umerais	 são	 capazes	 de	 gerar	 células	 sanguíneas...	 A	 medula	 óssea	 com	 atividade	 hematopoiética	 é
denominada	medula	óssea	vermelha,	devido	à	presença	de	grande	quantidade	de	hemácias	e	precursores	eritroides.	O	restante	dos	ossos	contém	a	denominada	medula
óssea	amarela,	preenchida	por	tecido	adiposo,	porém	com	potencial	para	voltar	a	produzir	células	sanguíneas	sob	determinados	estímulos.
Sabemos	que	 todos	os	elementos	do	sangue	 (hemácias,	plaquetas	e	 leucócitos)	originam-se	de	uma	única	célula	progenitora,	denominada	célula-tronco	 (stem	cell)	ou
célula	 totipotente.	 Essa	 célula,	 existente	 apenas	 em	 pequena	 quantidade	 na	medula	 óssea,	 tem	 a	 capacidade	 de	 se	 reproduzir	 quando	 necessário	 e	 dar	 início	 a	 um
processo	de	diferenciação	em	múltiplas	 linhagens	celulares	hematológicas.	O	 transplante	de	medula	óssea	 (ou	"transplante	de	células-tronco"),	a	grande	 revolução	da
terapia	 hematológica	 nas	 últimas	 décadas,	 baseia-se	 na	 propriedade	 de	 um	 pequeno	 grupo	 de	 células-tronco	 do	 doador	 produzir	 novamente	 todas	 as	 células
hematológicas,	reconstituindo	a	medula	óssea	do	receptor.	Assim,	um	paciente	com	leucemia	pode	ser	tratado	com	doses	absurdamente	altas	de	quimioterápicos,	capazes
de	destruir	quase	todas	as	células	de	sua	medula,	recebendo	em	seguida	essas	células	progenitoras	transplantadas.
Inicialmente,	a	célula-tronco	se	diferencia	em	dois	tipos,	cada	um	comprometido	com	a	formação	de	uma	grande	linhagem	hematológica:	a	linhagem	mieloide	–	que	dará
origem	às	hemácias,	plaquetas,	granulócitos	e	monócitos;	e	a	linhagem	linfoide	–	que	dará	origem	aos	linfócitos	(acompanhe	pela	
A	célula	progenitora	mieloide	se	diferencia	em	mais	dois	tipos:	um	comprometido	com	a	linhagem	eritroide-megacariocítica	(formação	de	hemácias	e	plaquetas);	e	outro
comprometido	com	a	 linhagem	granulocítica-monocítica	(formação	dos	granulócitos	e	monócitos).	O	precursor	eritroide-megacariocítico	 finalmente	se	diferencia,	dando
origem	 aos	 progenitores	 eritroides	 (os	 eritroblastos)	 e	 aos	 progenitores	 da	 linhagem	megacariocítica	 (os	 megacarioblastos).	 Cada	 eritroblasto	 sofre	 um	 processo	 de
maturação,	 transformando-se	 no	 final	 em	 uma	 hemácia	 (ou	 eritrócito).	 Cada	 megacarioblasto	 origina	 um	 megacariócito,	 célula	 grande	 (a	 maior	 da	 medula	 óssea),
multinucleada,	 de	 cujo	 citoplasma	 se	desprenderão	várias	plaquetas.	O	precursor	 granulocítico-monocítico	 finalmente	 se	diferencia	nos	progenitores	granulocíticos	 (os
mieloblastos)	e	monocíticos	(os	monoblastos).	Existem	três	tipos	de	mieloblasto,	cada	um	originando	um	dos	três	tipos	de	granulócito:	neutrófilo,	eosinófilo	ou	basófilo.	O
monoblasto	dá	origem	ao	monócito.	Esta	célula	transforma-se	em	macrófago	(histiócito)	quando	penetra	no	tecido	conjuntivo	dos	diversos	órgãos.
A	célula	progenitora	linfoide	se	diferencia	em	dois	tipos	celulares:	um	comprometido	com	a	formação	dos	linfócitos	B;	e	outro	comprometido	com	a	formação	dos	linfócitos
T.	O	precursor	B,	ou	célula	pré-B,	origina	o	linfócito	B	maduro	na	própria	medula	óssea,	enquanto	o	precursor	T	caminha	através	da	corrente	sanguínea	 100	 µg/dl).
Devemos	lembrar	que	a	reação	final	na	síntese	do	heme	envolve	a	incorporação	do	ferro	à	protoporfirina,	sendo	natural	que,	na	presença	de	pouco	ferro,	tenhamos	uma
elevação	de	protoporfirina	não	ligada	a	este	metal.	A	FEP	também	encontra-se	aumentada	na	intoxicação	por	chumbo.
ESTÁGIOS	NA	DEFICIÊNCIA	DE	FERRO
É	importante	compreender	que	a	depleção	dos	estoques	corporais	de	ferro	precede	o	surgimento	da	anemia	ferropriva	propriamente	dita!	Tal	conhecimento	é	essencial
para	se	entender	a	ordem	cronológica	das	alterações	laboratoriais	na	"cinética	de	ferro"...	Desse	modo,	podemos	dividir	a	evolução	da	ferropenia	nos	seguintes	estágios:
DEPLEÇÃO	DOS	ESTOQUES	DE	FERRO
Quando	se	instala	uma	situação	de	balanço	negativo	de	ferro	(isto	é,	"sai"	mais	ferro	do	organismo	do	que	o	que	"entra"),	a	mobilização	dos	estoques	presentes	no	sistema
reticuloendotelial,	 de	 forma	 sustentada,	 caminha	 para	 o	 esgotamento	 dessas	 reservas.	 Em	 tal	 estágio,	 o	 ferro	 sérico,	 a	 saturação	 de	 transferrina	 e	 o	 TIBIC	 ainda
conseguem	ser	mantidos	dentro	da	normalidade	(em	alguns	pacientes	o	TIBIC	pode	estar	um	pouco	aumentado),	observando-se	apenas	uma	diminuição	progressiva	nos
níveis	séricos	de	ferritina	e	no	ferro	corado	no	aspirado/biópsia	de	medula	óssea.	O	estágio	subsequente	("eritropoiese	deficiente	em	ferro")	só	começa	quando	os	estoques
endógenos	de	ferro	efetivamente	acabam.
ERITROPOIESE	DEFICIENTE	EM	FERRO
Esse	estágio	é	caracterizado	pela	ausência	de	ferro	corável	na	medula	óssea	e	pelo	valor	"mínimo"	da	ferritina,	isto	é,	ferritina	abaixo	de	15	ng/ml	(um	patamar	que	reflete
a	ausência	de	 ferro	na	medula).	A	partir	daí,	de	 forma	progressiva,	o	 ferro	sérico	diminui	 (maturação	(eritropoiese	ineficaz)	pela
grave	deficiência	na	síntese	do	heme...	Ocorre,	então,	acentuação	da	anisocitose,	aumento	do	percentual	de	pecilócitos	no	sangue	periférico	e	agravamento	da	microcitose
e	da	hipocromia.
Em	 suma:	 quando	 leve/moderada,	 a	 anemia	 ferropriva	 é	 classificada	 apenas	 como	 HIPOPROLIFERATIVA	 (índice	 de	 produção	 reticulocitária	 baixo;	 relação
mieloide/eritroide	 normal	 ou	 alta).	 No	 entanto,	 quando	 grave,	 a	 anemia	 ferropriva	 assume	 o	 padrão	 de	 ERITROPOIESE	 INEFICAZ,	 isto	 é,	 o	 índice	 de	 produção
reticulocitária	continua	baixo,	mas	a	 relação	M/E	se	 torna	reduzida,	por	hiperplasia	do	setor	eritroide.	Segundo	a	chamada	"classificação	 fisiológica	da	anemia"	 (que
divide	 as	 anemias	 em	 hipo	 ou	 hiperproliferativas),	 a	 eritropoiese	 ineficaz	 é	 um	 subtipo	 especial	 de	 anemia	 hipoproliferativa!	 O	 que	 acontece	 é	 que	 o	 excesso	 de
hemácias	disformes	recém-formadas	acaba	sendo	destruído	antes	mesmo	de	deixar	a	medula	óssea...
Cap2_Video_02_Hem1
QUADRO	DE	CONCEITOS	III
TRATAMENTO
A	terapia	dietética	não	tem	valor	algum	quando	empregada	na	correção	da	anemia	ferropriva,	devido	à	baixa	biodisponibilidade	do	ferro	nos	alimentos.	Em	compensação,
os	preparados	contendo	ferro	em	sua	forma	ferrosa	(Fe+2)	são	prontamente	absorvidos	pelo	trato	gastrointestinal.	De	acordo	com	alguns	pequenos	estudos	nacionais,	os
alimentos	 cozidos	 em	 panela	 de	 ferro	 aumentam	 o	 seu	 conteúdo	 de	 ferro,	mas	 o	 teor	 e	 a	 biodisponibilidade	 ainda	 não	 são	 conhecidos.	 Esse	 fato	 NÃO	 deve	 levar	 o
profissional	de	saúde	a	recomendar	o	tratamento	da	anemia	ferropriva	apenas	cozinhando	os	alimentos	em	panela	de	ferro!!!
A	dose	 recomendada	para	a	correção	da	anemia	 ferropriva	é	de	60	mg	de	 ferro	elementar	 (o	que	equivale	a	300	mg	de	sulfato	 ferroso),	 três	a	quatro	vezes	ao	dia.
Observe	a	relação:	quantidade	de	sulfato	ferroso	(mg)	=	5x	quantidade	de	ferro	elementar	(mg),	ou	ainda,	o	ferro	elementar	constitui	20%	da	massa	do	sulfato	ferroso.
Em	crianças,	a	dose	deve	ser	5	mg/kg/dia	(3-6	mg/kg/dia)	de	ferro	elementar,	dividido	em	três	tomadas.
A	absorção	do	sulfato	ferroso	é	melhor	quando	administrado	de	estômago	vazio,	1-2h	antes	das	refeições,	de	preferência	associado	à	vitamina	C	ou	ao	suco	de	laranja.
Dessa	 forma,	cerca	de	15%	do	 ferro	elementar	é	absorvido	pelo	duodeno	e	 jejuno	proximal.	Os	efeitos	colaterais	gastrointestinais	do	 ferro	oral	são	bem	conhecidos	e
incluem	náuseas,	vômitos,	desconforto	epigástrico	e	diarreia.	Eles	incidem	em	cerca	de	15-20%	dos	pacientes	e	geralmente	são	contornados	quando	as	cápsulas	passam
a	 ser	ministradas	 junto	às	 refeições.	Ou	 seja,	 o	 sulfato	 ferroso	 só	deve	 ser	 dado	 junto	 com	a	 comida	em	caso	de	 intolerância	gástrica...	Deve-se	observar	 a	 resposta
terapêutica,	pois	a	absorção	do	ferro	elementar	torna-se	reduzida	com	o	pH	alcalino	dos	alimentos.
Como	saber	se	o	tratamento	está	sendo	eficaz	e	qual	é	a	duração	da	terapia	com	o	ferro	oral?
Figura	5
Qual	é	o	exame	padrão-ouro	para	o	diagnóstico	de	anemia	ferropriva?
Aspirado/biópsia	de	medula	óssea	e	coloração	para	ferro	com	o	corante	azul	da	Prússia.
Qual	é	o	achado	que	confirma	o	seu	diagnóstico?
Ausência	de	ferro	nos	macrófagos	e	eritroblastos	da	medula.
A	resposta	ao	tratamento	deve	ser	observada	avaliando-se	a	contagem	de	reticulócitos.	Ela	aumenta	nos	primeiros	dias	de	reposição,	atingindo	um	pico	entre	5-10	dias.	A
hemoglobina	e	o	hematócrito	começam	a	subir	em	duas	semanas	(o	início	da	melhora	é	mais	rápido	quanto	mais	grave	for	a	anemia...),	geralmente	voltando	ao	normal
em	dois	meses	após	o	início	da	terapia.	A	reposição	de	ferro	deve	durar	6-12	meses	após	a	normalização	do	hematócrito,	no	intuito	de	reabastecer	os	estoques	corporais
desse	elemento.	O	controle	pode	ser	feito	com	a	ferritina	sérica,	que	deve	chegar	a	valores	acima	de	50	ng/ml...	Em	crianças,	recomenda-se	uma	duração	de	3-
4	meses	para	a	terapia	de	reposição,	ou	dois	meses	após	a	normalização	da	hemoglobina.
Quais	são	as	causas	de	falha	do	tratamento?
A	falha	terapêutica	pode	ser	secundária	a:	(1)	o	diagnóstico	etiológico	da	anemia	está	errado;	(2)	a	anemia	é	multifatorial;	(3)	má	adesão	terapêutica;	(4)	o	ritmo	de
sangramento	crônico	é	maior	do	que	a	reposição	empregada;	e	(5)	doença	celíaca,	quando	o	ferro	oral	não	é	absorvido.	Nos	últimos	dois	casos,	lançamos	mão	do	ferro
parenteral.
Quais	são	as	indicações	de	ferro	parenteral?
As	 indicações	de	 ferro	parenteral	 incluem:	 (1)	 síndromes	de	má	absorção	duodenojejunais,	 como	a	doença	 celíaca;	 (2)	 intolerância	 às	preparações	orais;	 (3)	 anemia
ferropriva	 refratária	 à	 terapia	 oral,	 apesar	 da	 adesão	 terapêutica;	 e	 (4)	 necessidade	de	 reposição	 imediata	 dos	 estoques	de	 ferro,	 quando	utilizamos,	 por	 exemplo,	 a
eritropoetina	recombinante	humana	em	pacientes	com	insuficiência	renal	crônica	em	tratamento	dialítico.
A	 preparação	mais	 antiga	 de	 ferro	 parenteral	 é	 o	 ferro	 dextrano.	 Ela	 contém	 50	mg	 de	 ferro	 elementar	 por	 ml	 de	 solução.	 A	 via	 preferencialmente	 utilizada	 é	 a
endovenosa,	mas	o	uso	intramuscular	também	é	possível.	A	injeção	intramuscular	pode	manchar	a	pele	no	local	da	aplicação,	o	que	pode	persistir	por	anos	(por	isso,	é
indicada	a	técnica	em	"Z"	de	pregueamento	da	pele).
Nos	dias	de	hoje	dispomos	de	outros	preparados	de	 ferro	para	uso	parenteral	 (endovenoso):	 o	gluconato	 férrico	de	sódio	 e	 o	 ferro	sucrose.	 Tais	preparados	 são
comprovadamente	mais	seguros	que	o	ferro	dextrano.
A	dose	 total	 requerida	é	diretamente	proporcional	ao	deficit	de	 ferro	na	hemoglobina,	 somado	à	quantidade	necessária	para	 repor	os	estoques	de	 ferro	 (1.000	mg	no
homem	e	600	mg	na	mulher).
Deficit	de	ferro	da	hemoglobina:
(15	-	Hb)	x	peso	(kg)	x	2,3
Deficit	de	ferro	da	hemoglobina	+	deficit	de	estoque	(dose	TOTAL	do	ferro	parenteral):
(15	-	Hb)	x	peso	(kg)	x	2,3	+	1.000	(no	homem)
(15	-	Hb)	x	peso	(kg)	x	2,3	+	600	(na	mulher)
O	deficit	total	de	ferro	pode	ser	reposto	em	dose	única,	diluída	em	soro	fisiológico	ou	glicosado	a	5%,	ou	então	(modo	preferencial)	em	doses	fracionadas.	Seja	como	for,
quanto	maior	 a	 carga	 férrica,	mais	 lenta	 deve	 ser	 a	 infusão	 (>	 1h)...	 Um	 esquema	muito	 comum	 em	 centros	 de	 hemodiálise	 é	 a	 administração	 de	 100	mg	 de	 ferro
parenteral	 1x/semana	 por	 dez	 semanas	 consecutivas.	 Doses	 de	 até	 100	mg	 podem	 ser	 administradas	 por	 via	 intramuscular	 sem	 riscos	 adicionais	 em	 relação	 à	 via
intravenosa!
O	principal	efeito	colateral	do	ferro	dextrano	é	a	anafilaxia	(reação	alérgica	grave).	Tal	problema	é	menos	provável	com	os	novos	preparados	férricos...	Assim,	em	caso	de
surgimento	abrupto	de	dor	torácica,	sibilos,	queda	da	pressão	arterial	ou	outras	manifestações	sistêmicas,	a	infusão	deve	ser	interrompida.	Não	é	raro,	alguns	dias	após	a
infusão,	o	aparecimento	de	febre	baixa,	artralgias	e	exantemas,	o	que	não	se	relaciona	à	anafilaxia	e	não	obriga	a	interrupção	do	tratamento	(esta	síndrome	parece	ser
devida	a	uma	leve	intoxicação	aguda	pelo	ferro,	de	caráter	benigno	e	autolimitada).
SAIBA	MAIS... Ferumoxytol	(Feraheme®).
O	ferumoxytol	é	uma	nova	formulação	de	ferro	parenteral	que	permite	a	administração	de	uma	enorme	quantidade	de	ferro	em	bolus	intravenoso.	Cada	ampola	de	17	ml
contém	510	mg	de	ferro	elementar,	e	pode	ser	infundida	direto	na	veia,	sem	diluição.	Todavia,	em	2014	foi	recomendado	que	o	produto	passe	a	ser	diluído	em	50-250
ml	 de	 SF	 0,9%	 ou	 SG	 5%,	 com	 infusão	 em	 15min...	 Neste	 composto,	 o	 ferro	 é	 revestido	 por	 uma	 "capa	 protetora"	 de	 carboidratos	 complexos	 (poliglicose-sorbitol-
carboximetil-éter),	o	que	aumenta	a	absorção	pelos	macrófagos	do	sistema	reticuloendotelial	ao	mesmo	tempo	em	que	diminui	a	toxicidade	do	ferro	no	sangue.
CAP.	3
ANEMIA	NAS	DESORDENS	SISTÊMICAS
INTRODUÇÃO
Anemia	é	um	achado	muito	frequente	em	doenças	não	hematológicas,	tais	como	neoplasias	malignas,	infecções	sistêmicas,	colagenoses,	doenças	granulomatosas,	doençainflamatória	intestinal,	insuficiência	renal	crônica,	hepatopatia	crônica	e	endocrinopatias	(hipotireoidismo,	insuficiência	suprarrenal).
Todavia,	de	forma	alguma	isso	nos	autorizaria	a	não	investigar	o	desenvolvimento	de	um	quadro	anêmico	nos	portadores	dessas	condições	–	sabemos	que	tais	desordens
também	podem	complicar	com	outros	tipos	de	anemia,	como	a	ferropriva	por	perda	sanguínea	crônica	(ex.:	câncer	de	cólon,	estômago,	doença	inflamatória	intestinal),	a
anemia	megaloblástica	(ex.:	hepatopatia	alcoólica)	e	a	anemia	por	invasão	da	medula	óssea	(ex.:	câncer	metastático	e	infecções	disseminadas).
Dividiremos	este	capítulo	nos	seguintes	tipos	de	anemia:	"anemia	de	doença	crônica";	anemia	da	insuficiência	renal	crônica;	anemia	da	hepatopatia	crônica;	anemia	das
endocrinopatias;	anemia	por	ocupação	medular	ou	mieloftísica.
ANEMIA	DE	DOENÇA	CRÔNICA
A	 "Anemia	 de	 Doença	 Crônica"	 (ADC)	 é	 o	 estado	 anêmico	moderado	 (queda	 de	 5-15	 pontos	 no	 hematócrito	 ou	 2-5	 pontos	 na	 hemoglobina)	 que	 frequentemente	 se
desenvolve	nos	pacientes	que	apresentam	condições	inflamatórias	(como	infecções	e	doenças	reumatológicas)	ou	neoplásicas,	sempre	quando	estas	se	fazem	presentes
por	um	período	superior	a	20-60	dias.	Do	ponto	de	vista	laboratorial,	o	que	chama	atenção	nesta	forma	extremamente	comum	de	anemia	é	o	achado	paradoxal	de	ferro
sérico	 baixo	 associado	 à	 ferritina	 sérica	 normal	 ou	 alta	 –	 ou	 seja,	 ferro	 sérico	 baixo	 em	 um	 paciente	 com	 aumento	 das	 reservas	 totais	 desse	 metal!!!	 Doenças
inflamatórias/infecciosas	agudas,	com	repercussão	sistêmica,	também	podem	causar	uma	anemia	leve	(queda	de	até	6-9	pontos	no	hematócrito)	em	apenas	1-2	dias.	A
ADC	é	a	principal	etiologia	de	anemia	em	pacientes	internados.
No	entanto,	nem	todas	as	"doenças	crônicas"	 justificam	o	desenvolvimento	de	ADC.	Em	geral	são	aquelas	doenças	que,	de	alguma	forma,	aumentam	as	citocinas	pró-
inflamatórias!	Assim,	anemias	causadas	por	insuficiência	hepática,	insuficiência	renal,	endocrinopatias,	hemólise	e	sangramento	não	estão	incluídas	no	conceito	de	ADC,
ainda	 que	 tais	 doenças	 também	 sejam	 "crônicas"	 e	 comumente	 provoquem	anemia	 (por	 outros	mecanismos	 que	 veremos	 adiante)...	 A	Tabela	1	 reúne	 as	 principais
etiologias	de	ADC.
Tab.	1:	Condições	que	originam	a	"anemia	de	doença	crônica".
Outros	sinônimos	empregados	para	ADC	incluem:	"anemia	inflamatória",	"anemia	hipoferrêmica	com	siderose	reticuloendotelial"	e	"anemia	citocina-mediada".	Embora	esta
última	designação	seja	a	mais	correta,	não	costuma	ser	utilizada	na	prática	clínica.
PATOGÊNESE
Nos	últimos	anos,	o	mecanismo	patogênico	da	anemia	de	doença	crônica	se	 tornou	mais	claro	com	a	descoberta	de	um	hormônio	que	atua	no	metabolismo	do	 ferro:
hepcidina...	 Veja	 o	 que	 acontece:	 os	 estados	 inflamatórios	 e	 neoplásicos	 promovem	 liberação	 de	 várias	 citocinas	 que,	 em	 conjunto,	 acabam	 levando	 às	 seguintes
consequências:
● Redução	da	vida	média	das	hemácias	para	cerca	de	80	dias	(N:	120	dias);
● Redução	da	produção	renal	de	eritropoetina;
● Menor	resposta	dos	precursores	eritroides	à	eritropoetina;
● "Aprisionamento"	do	ferro	em	seus	locais	de	depósito	(principal).
As	principais	citocinas	envolvidas	nestas	alterações	são	a	interleucina-1	(IL-1),	a	interleucina-6	(IL-6),	o	fator	de	necrose	tumoral	alfa	(TNF-alfa)	e	o	interferon	gama	(IFN-
gama).
Em	condições	normais	a	transferrina	transporta	o	ferro	dos	seus	locais	de	depósito	(macrófagos	do	baço/ferritina)	para	a	medula	óssea.	Na	anemia	de	doença	crônica	esta
etapa	encontra-se	"bloqueada".
A	 IL-6	 tem	um	papel	essencial	neste	bloqueio,	 já	que,	após	o	aparecimento	de	uma	doença	 inflamatória	 crônica,	os	macrófagos	começam	a	 liberar	esta	 citocina,	que
estimula	o	fígado	a	produzir	hepcidina	(que	se	comporta	como	um	reagente	de	fase	aguda).	Esta	última,	por	sua	vez,	determina	uma	redução	na	absorção	intestinal	de
ferro	ao	 inibir	a	síntese	de	ferroportina	(o	"canal	de	ferro"	responsável	pela	entrada	deste	elemento	nos	enterócitos).	Ocorre	também	um	"aprisionamento"	do	ferro	no
interior	 dos	macrófagos	 e	 demais	 locais	 de	 depósito,	 comprometendo	 o	 abastecimento	 da	 produção	 eritrocitária	 –	 um	 fenômeno	 chamado	de	 eritropoiese	 restrita	 em
ferro...	Tais	efeitos	da	hepcidina	 justificam	a	HIPOFERREMIA	encontrada	na	anemia	de	doença	crônica!	Conforme	veremos,	na	ADC	o	ferro	sérico	está	baixo,	a	 ferritina
sérica	vai	de	normal	a	alta,	e	a	saturação	da	transferrina	fica	reduzida...	Observe	a	
Infecções	Subagudas	ou	Crônicas
● Abscesso	pulmonar.
● Empiema.
● Tuberculose.
● Pneumonia	bacteriana	prolongada.
● Endocardite	infecciosa.
● Osteomielite.
● Doença	inflamatória	pélvica.
● Infecção	urinária	crônica.
● Micoses	profundas.
● Meningite.
● Infecção	pelo	HIV.
Doenças	Inflamatórias	Não	Infecciosas
● Artrite	reumatoide.
● Lúpus	eritematoso	sistêmico.
● Vasculites	sistêmicas.
● Doenças	inflamatórias	intestinais.
● Sarcoidose.
● Trauma	severo.
Neoplasias	Malignas
● Carcinomas.
● Neoplasias	hematológicas.
Idiopática
Figura	1.	
A	IL-1	estimula	a	síntese,	pelos	polimorfonucleares	de	lactoferrina,	uma	proteína	semelhante	à	transferrina,	que	compete	pelo	ferro.	A	lactoferrina	é	mais	ávida	por	ferro	do
que	a	transferrina,	e	não	libera	o	ferro	para	a	medula	de	forma	adequada.	O	interferon	gama	também	tem	papel	importante	na	anemia	de	doença	crônica,	ao	promover
apoptose	e	fazer	down-regulation	dos	receptores	de	eritropoetina	nas	células	precursoras	da	medula	óssea.	Além	disso,	também	parece	antagonizar	outros	fatores	pró-
hematopoiéticos.
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS
Como	 na	 maioria	 das	 vezes	 a	 ADC	 não	 é	 grave,	 o	 quadro	 clínico	 é	 marcado	 basicamente	 pelos	 sinais	 e	 sintomas	 da	 doença	 de	 base.	 Eventualmente,	 pacientes
assintomáticos	 com	 anemia	 leve	 acabam	 descobrindo,	 no	 processo	 de	 investigação	 diagnóstica,	 uma	 doença	 oculta...	 Um	 paciente	 que	 apresenta	 perda	 ponderal
significativa,	e	cujos	exames	revelam	anemia	+	aumento	do	VHS,	deve	ser	extensivamente	investigado	para	uma	doença	sistêmica!
A	"anemia	de	doença	crônica"	em	geral	se	instala	progressivamente	ao	longo	dos	primeiros	1-2	meses	do	quadro,	estabilizando-se	a	partir	daí.	O	hematócrito	se	mantém
acima	de	25%	em	80%	dos	casos,	e	o	quadro	anêmico	costuma	acompanhar	a	atividade	da	doença.	Por	exemplo:	um	dos	critérios	de	atividade	da	artrite	reumatoide	e	do
lúpus	é	a	anemia.	Quando	os	sinais	e	sintomas	da	colagenose	melhoram	–	fase	da	remissão	–	a	anemia	também	melhora,	e	o	hematócrito	pode	voltar	ao	normal.
Na	maioria	 dos	 casos,	 a	 ADC	 não	 cursa	 com	 hematócrito	 abaixo	 de	 25%.	 Se	 isso	 ocorrer,	 somos	 obrigados	 a	 investigar	 fatores	 contribuintes	 para	 a	 anemia	 (ex.:
ferropenia)!!!
LABORATÓRIO
Embora	possa	ser	normocítica-hipocrômica,	ou	mesmo	microcítica-hipocrômica,	a	ADC	é,	em	sua	forma	mais	característica	de	apresentação,	normocítica-normocrômica.
Quando	 existe	 microcitose,	 esta	 é	 discreta	 e	 quase	 nunca	 o	 VCM	 fica	no	sangue	ou	mesmo	pela	porcentagem	de	sítios	livres	da	transferrina	–	ele	é	útil	porque	traduz,	em	última	análise,	a	concentração
sérica	de	transferrina).
A	anemia	ferropriva	é	tipicamente	microcítica-hipocrômica,	mas,	eventualmente,	em	especial	no	início	do	quadro,	pode	ser	normocítica-normocrômica...	Como	ela	é	de
longe	a	 forma	mais	comum	de	anemia,	acaba	sendo	responsabilizada	como	principal	causa	tanto	de	anemia	microcítica-hipocrômica	quanto	de	anemia	normocítica-
normocrômica!!!
Fig.	1:	Efeitos	da	hepcidina.
Anemia	ferropriva	sobreposta	à	"anemia	de	doença	crônica":	alguns	pacientes	com	ADC	podem	desenvolver	uma	anemia	 ferropriva	sobreposta,	devido	à	perda
sanguínea	crônica.	Neste	caso,	o	diagnóstico	da	ferropenia	torna-se	difícil.	Os	níveis	séricos	de	ferritina,	que	normalmente	estão		500	mg/dl),	 pode	haver	aumento	dos	 reticulócitos.	O	esfregaço	de	 sangue	periférico	pode	 revelar	múltiplos	equinócitos	 (ou	hemácias	 crenadas)	 –	
	–	e	alguns	poucos	esquizócitos	em	capacete	(fragmentos	de	hemácia).	Os	parâmetros	do	metabolismo	do	ferro	são	muito	variáveis,	com	a	ferritina	sérica	em
geral	superior	a	100	ng/ml.	Nos	renais	crônicos,	a	cinética	do	ferro	deve	ser	monitorada	periodicamente.
Qual	é	a	principal	causa	de	anemia	microcítica-hipocrômica?
Anemia	ferropriva.
Qual	é	a	principal	causa	de	anemia	normocítica-normocrômica?
Anemia	ferropriva.
Qual	é	a	segunda	principal	causa	de	anemia	microcítica-hipocrômica?
Anemia	de	doença	crônica.*
Qual	é	a	segunda	principal	causa	de	anemia	normocítica-normocrômica?
Anemia	de	doença	crônica.
Qual	é	a	principal	causa	de	anemia	em	pacientes	hospitalizados?
Anemia	de	doença	crônica.
Figura	2
TRATAMENTO
Deve	 ser	 feito	 com	eritropoetina	 recombinante	 por	 via	 subcutânea	ou	 intravenosa,	na	dose	de	80-120	U/kg	3x/semana,	a	partir	 do	momento	em	que	os	níveis	de
hemoglobina	caírem	abaixo	de	10	g/dl.	O	objetivo	é	manter	a	hemoglobina	em	torno	de	11	g/dl	(entre	10-12	g/dl),	o	que	equivale	a	um	hematócrito	de	33%
(entre	30-36%).	A	hemoglobina	não	deve	ultrapassar	12	g/dl,	pois	isso	aumenta	a	ocorrência	de	complicações	cardiovasculares	(ex.:	eventos	tromboembólicos)!!!	Caso	a
hemoglobina	atinja	este	patamar,	a	eritropoetina	recombinante	deve	ser	suspensa	e	posteriormente	reintroduzida	com	uma	dose	menor...	O	principal	efeito	colateral	é	a
hipertensão	 arterial,	 e	 um	 paraefeito	 gravíssimo,	 embora	 raro,	 é	 a	 aplasia	 eritroide	 pura	 por	 anticorpos	 antieritropoetina	 induzidos	 por	 algumas	 formulações	 de	 EPO
recombinante.	A	diálise	tem	pequeno	papel	no	tratamento	da	anemia,	ao	depurar	toxinas	que	contribuem	para	a	sua	gênese.
Reposição	de	ferro	em	renais	crônicos:	nos	usuários	de	EPO	recombinante,	estima-se	que	o	consumo	médio	de	ferro	para	levar	o	hematócrito	de	24	a	33%	seja	da
ordem	de	1.000	mg	(praticamente	todo	o	estoque	corporal	de	ferro!).	Ainda	há	perda	crônica	de	sangue	na	hemodiálise	e	nas	frequentes	coletas	de	sangue.	Dessa	forma,
é	fundamental	a	monitoração	laboratorial	periódica	da	cinética	de	ferro	nesses	pacientes,	sendo	a	primeira	dosagem	imediatamente	antes	do	início	da	terapia	com	EPO.	A
presença	 de	 saturação	de	 transferrina	≤	 20%	 ou	 ferritina	≤	 100	ng/ml	 (paciente	 pré-dialítico	 ou	 em	diálise	 peritoneal)	 ou	≤	 200	ng/ml	 (paciente	 em
hemodiálise),	a	qualquer	momento	durante	a	terapia	com	EPO,	autoriza	o	início	da	reposição	de	ferro,	primeiro	em	doses	de	reposição,	depois	em	doses	de	manutenção.
A	ferroterapia	deve	ser	interrompida	somente	se	atingida	uma	saturação	de	transferrina	>	50%	ou	ferritina	>	500	ng/ml,	pelo	risco	de	hemocromatose	secundária.	Alguns
nefrologistas	recomendam	a	reposição	rotineira	de	ferro	em	todos	os	renais	crônicos	em	hemodiálise,	e	alguns	ainda	recomendam	a	reposição	em	todos	os	doentes	com
resposta	insatisfatória	à	EPO	recombinante.	Um	dos	esquemas	mais	utilizados	em	nosso	meio	para	reposição	de	ferro	nos	pacientes	em	hemodiálise	é	descrito	na	Tabela
2.
Tab.	2:	Reposição	de	ferro	para	renais	crônicos	em	programa	de	hemodiálise.
Como	a	perda	de	ácido	fólico	na	hemodiálise	pode	originar	anemia	megaloblástica,	a	reposição	desta	vitamina	também	é	necessária	(1	mg/dia).	Finalmente,	a	intoxicação
pelo	alumínio,	proveniente	da	água	para	hemodiálise	não	adequadamente	tratada,	pode	causar	uma	anemia	microcítica	refratária	à	eritropoetina	e	ao	sulfato	ferroso.	O
tratamento	deve	ser	 com	o	quelante	deferoxamina.	 Felizmente,	as	modernas	máquinas	de	hemodiálise	 impedem	a	contaminação	pelo	alumínio,	o	que	 faz	 com	que	a
intoxicação	por	esse	metal	não	faça	mais	parte	do	dia	a	dia	do	nefrologista	como	fazia	há	alguns	anos.
ANEMIA	DA	HEPATOPATIA	CRÔNICA
A	hepatopatia	crônica	frequentemente	cursa	com	anemia,	em	geral	leve	a	moderada.	Apesar	da	prevalência	de	anemia	nos	hepatopatas	crônicos	girar	em	torno	de	75%,
na	maioria	dos	 casos	o	mecanismo	é	meramente	dilucional,	 como	 resposta	à	 retenção	hidrossalina	 característica	da	hipertensão	porta.	Apenas	40%	dessespacientes
possui	uma	redução	absoluta	da	massa	de	hemácias	circulante.
PATOGÊNESE
Fig.	2:	As	hemácias	crenadas	(equinócitos)	na	síndrome	urêmica.
Esquema	de	Reposição
Ferro	IV	1.000	mg,	divididos	em	dez	aplicações	em	sessões	consecutivas	de	HD. Iniciar	se	St	transf	≤	20%	ou	ferritina	≤	200	ng/ml.
Objetivo:	atingir	St	transf	entre	30-50%	e	ferritina	entre	200-500	ng/ml.
Esquema	de	Manutenção
Ferro	IV	25-100	mg	1x/semana. Interromper	se	St	transf	>	50%	ou	ferritina	>	500	ng/ml.
Objetivo:	manter	St	transf	entre	30-50%	e	ferritina	entre	200-500	ng/ml.
O	principal	mecanismo	de	anemia	na	hepatopatia	crônica	é	a	hemodiluição.	Contudo,	vários	outros	mecanismos	podem	levar	à	"anemia	verdadeira",	 isto	é,	redução	da
massa	 de	 hemácias	 circulantes,	 nos	 hepatopatas	 crônicos.	 Dois	 fatores	 costumam	estar	 associados:	 (1)	 redução	 da	 vida	média	 das	 hemácias	 para	 20-30	 dias;	 e	 (2)
redução	da	resposta	medular	à	eritropoetina.
A	justificativa	para	uma	menor	vida	média	do	eritrócito	é	multifatorial,	estando	entre	os	principais	fatores:	(1)	o	hiperesplenismo	(devido	à	esplenomegalia	congestiva);	(2)
alterações	no	metabolismo	eritrocitário,	tornando	as	hemácias	instáveis;	e	(3)	alterações	da	composição	lipídica	de	suas	membranas,	com	aumento	do	teor	de	colesterol	e
lecitina.
A	menor	resposta	eritropoiética	pode	ser	explicada	por:	(1)	efeito	direto	do	álcool	na	medula	óssea	–	no	caso	da	hepatopatia	alcoólica;	(2)	anemia	megaloblástica	por
carência	 de	 folato	 –	 também	 típica	 da	 hepatopatia	 alcoólica;	 (3)	 anemia	 ferropriva	 por	 sangramento	 crônico,	 geralmente	 proveniente	 do	 trato	 digestivo	 alto	 (varizes,
doença	ulcerosa);	e	(4)	talvez	uma	queda	da	produção	da	eritropoetina	hepática.	Na	verdade,	a	anemia	da	hepatopatia	crônica	pode	até	ser	resultante	diretamente	de
uma	doença	hepática,	mas,	frequentemente,	tem	como	causa	principal	um	distúrbio	associado	(etilismo,	ferropenia	pelo	sangramento,	megaloblastose	pela	carência	de
folato).
Síndrome	de	Zieve:	episódios	autolimitados	de	anemia	hemolítica	aguda	podem	se	desenvolver	em	etilistas	crônicos	que	apresentam	hepatopatia	 leve	ou	 incipiente,
geralmente	 com	 predomínio	 de	 esteatose	 hepática.	 Esses	 pacientes	 podem	 desenvolver	 esplenomegalia,	 icterícia	 e	 hiperlipidemia,	 quadro	 que	 conhecemos	 como
síndrome	de	Zieve.	Sua	patogênese	é	desconhecida.
Anemia	hemolítica	com	acantócitos:	cerca	de	5%	dos	pacientes	com	degeneração	hepatocelular	avançada	desenvolvem	uma	anemia	hemolítica	grave,	marcada	pela
presença	de	múltiplos	acantócitos	na	periferia.	O	mecanismo	parece	ser	o	aumento	do	teor	de	colesterol	na	membrana	eritrocítica,	sem	um	aumento	correspondente	da
lecitina.	A	esplenectomia	pode	corrigir	apenas	parcialmente	esta	anemia.
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS	E	LABORATORIAIS
Como,	 na	 maioria	 das	 vezes,	 a	 anemia	 é	 leve	 ou	 moderada,	 o	 quadro	 clínico	 é	 marcado	 pelos	 sinais	 e	 sintomas	 da	 hepatopatia	 crônica.	 Os	 achados	 laboratoriais
característicos	são	de	uma	anemia	normocítica	ou	macrocítica,	com	índice	de	produção	reticulocitária	elevado,	em	torno	de	8,5%	(variação	entre	2,5-24%).	A	macrocitose
ocorre	 em	30-50%	dos	 casos,	 geralmente	 não	 excedendo	 o	 limite	 de	 110	 fl.	 O	 esfregaço	 do	 sangue	 periférico	 pode	mostrar	 uma	 série	 de	 alterações	 sugestivas:	 (1)
macrócitos	finos	–	hemácias	com	diâmetro	aumentado,	porém	volume	corpuscular	normal	–	este	achado	é	comum,	ocorrendo	em	cerca	de	60%	dos	casos;	(2)	hemácias
em	alvo	 –	 idênticas	àquelas	encontradas	nas	hemoglobinopatias	e	na	esplenectomia	 –	 o	mecanismo	é	o	aumento	da	 superfície	da	hemácia,	 em	 razão	do
acúmulo	de	lipídios	na	membrana,	em	relação	ao	volume	corpuscular;	e	(3)	acantócitos	–	5%	dos	pacientes.	Pancitopenia	ou	bicitopenia	(leve	a	moderada)	pode	ocorrer,
em	virtude	do	hiperesplenismo	frequentemente	coexistente.
ANEMIA	DAS	ENDOCRINOPATIAS
HIPOTIREOIDISMO
É	bastante	variável	a	ocorrência	de	anemia	no	hipotireoidismo	–	oscilando	entre	20-60%	dos	casos.	A	anemia	é	leve,	o	hematócrito	quase	sempre	superior	a	30%.	Valores
inferiores	indicam	outras	causas	de	anemia,	em	especial	a	ferropriva	(ex.:	hipermenorreia	associada).
A	tireoidite	de	Hashimoto	pode	estar	associada	à	anemia	perniciosa,	uma	vez	que	ambas	são	doenças	autoimunes.	Neste	caso,	teremos	os	achados	clássicos	da	anemia
megaloblástica	por	carência	de	B12.	Caracteristicamente,	a	anemia	do	hipotireoidismo	é	normocítica-normocrômica	ou	discretamente	macrocítica.	A	macrocitose	também
pode	ocorrer	sem	anemia,	como	uma	resposta	fisiológica	à	redução	do	consumo	de	O2	pelos	tecidos,	típica	do	estado	hipometabólico.	A	menor	necessidade	de	O2	leva	à
queda	dos	níveis	de	eritropoetina.	O	efeito	direto	da	queda	do	T3,	reduzindo	a	eritropoiese	medular,	 também	pode	contribuir.	A	reposição	hormonal	melhora	a	anemia
vagarosamente,	sem	haver	um	pico	reticulocitário.
(Figura	3)	
Fig.	3:	Hemácias	em	alvo	nas	hepatopatias.
HIPERTIREOIDISMO
Cerca	de	10-25%	dos	pacientes	com	hipertireoidismo	apresenta	anemia.	A	anemia	é	discreta,	e	seu	mecanismo	é	desconhecido.	Um	componente	de	hemodiluição	parece
contribuir.
Classicamente,	é	do	tipo	normocítica-normocrômica	ou	microcítica.	A	microcitose	não	responde	à	reposição	de	ferro.	Com	o	tratamento	da	doença,	a	anemia	é	corrigida.
OUTRAS	ENDOCRINOPATIAS
Uma	anemia	leve	pode	aparecer	no	hipoadrenalismo	(ex.:	doença	de	Addison),	hipogonadismo	masculino,	hipopituitarismo	e	hiperparatireoidismo.	Geralmente,	trata-se	de
uma	forma	normocítica-normocrômica	que	reverte	após	a	correção	hormonal.
No	caso	do	hipogonadismo	masculino,	a	falta	de	androgênio	reduz	a	produção	renal	de	eritropoetina,	trazendo	o	hematócrito	para	os	níveis	normais	do	sexo	feminino.
ANEMIA	POR	OCUPAÇÃO	MEDULAR	(ANEMIA	MIELOFTÍSICA)
O	termo	mieloftise	(tise	=	tuberculose)	foi	criado	numa	época	em	que	a	tuberculose	não	apresentava	tratamento,	evoluindo,	com	frequência,	para	a	forma	disseminada
ou	miliar.	A	infecção	atingia	uma	série	de	órgãos,	entre	eles	fígado,	baço,	meninges,	linfonodos,	rins,	coração	e	medula	óssea.	A	medula	apresentava	múltiplos	focos	de
granuloma	 caseoso	 e	 áreas	 de	 fibrose,	 e	 o	 paciente	 desenvolvia	 pancitopenia	 progressiva	 associada	 ao	 aparecimento	 de	 células	 jovens	 na	 periferia	 (eritroblastos	 e
granulócitos	imaturos),	o	que	se	denomina	leucoeritroblastose	
Tab.	3:	Causas	de	anemia	por	ocupação	medular	–	"mieloftísica".
Felizmente,	 nos	 dias	 atuais,	 a	 grande	 maioria	 dos	 casos	 de	 tuberculose	 é	 tratada	 e	 curada,	 evitando	 esse	 tipo	 de	 evolução,	 que	 se	 tornou	 raridade.	 Entretanto,	 a
experiência	médica	tem	mostrado	que	uma	série	de	doenças,	especialmente	as	neoplasias	malignas,	pode	ter	comportamento	semelhante	à	mieloftise,	tornando-se	uma
causa	importante	de	pancitopenia	com	leucoeritroblastose.
As	neoplasias	malignas	(hematológicas	ou	não	hematológicas)	podem	infiltrar	a	medula	óssea,	principalmente	quando	em	seu	estágio	mais	avançado	de	disseminação.	As
células	neoplásicas	estimulam	a	liberação	de	substâncias	fibrosantes	pelos	megacariócitos	medulares,	levando	à	mielofibrose	progressiva.
(Figura	4).	
Fig.	4:	Leucoeritroblastose.	À	esquerda	hemácias	imaturas	(nucleadas),	à	direita	formas	jovens	de	leucócito.	Essas	células	foram	"expulsas"	da	medula	óssea	devido	à	infiltração	desta	última	por
algum	processo	patológico.	Podemos	observar	também	a	presença	de	um	dacriócito	("hemácia	em	lágrima").
Neoplasias	Malignas	Hematológicas
● Leucemias	agudas	ou	crônicas.
● Linfomas.
● Mieloma	múltiplo.
● Metaplasia	mieloide	agnogênica.
● Policitemia	vera.
● Trombocitemia	essencial.
Neoplasias	Malignas	Não	Hematológicas
● Carcinomas	metastáticos	–	principais:
➤ Mama;
➤ Pulmão;
➤ Próstata;
➤ Estômago.
Infecções	Granulomatosas	Disseminadas
● Tuberculose	miliar.
● Micoses	profundas.
Doenças	Inflamatórias	Não	Infecciosas
● Sarcoidose.
● Lúpus	eritematoso	sistêmico	(mielofibrose).
Miscelânea
● Osteopetrose.
● Doença	de	Gaucher.
Nos	 estágios	 mais	 avançados,	 o	 aspirado	 de	 medula	 pode	 ser	 "seco"e	 a	 biópsia	 demonstrar	 apenas	 extenso	 grau	 de	 fibrose.	 Existe	 uma	 neoplasia	 hematológica,
classificada	no	grupo	das	síndromes	mieloproliferativas,	denominada	metaplasia	mieloide	agnogênica	ou	mielofibrose	idiopática,	cujo	quadro	é	caracterizado	por	intensa
mielofibrose	desde	o	início	da	doença.
O	 quadro	 clínico	 da	 anemia	 por	 ocupação	medular	 é	marcado	 pelos	 sinais	 e	 sintomas	 da	 doença	 neoplásica	metastática,	 da	 neoplasia	 hematológica	 ou	 da	 infecção
disseminada.	 É	 comum	 a	 pancitopenia.	 A	 anemia	 (normocítica,	 ou,	 menos	 frequentemente,	 macrocítica)	 é	 o	 achado	 mais	 precoce	 (e	 mais	 comum)	 na	 mielofibrose
secundária.	O	achado	característico	no	sangue	periférico	é,	como	já	dito,	a	leucoeritroblastose,	definida	pela	presença	de	eritroblastos	e	granulócitos	jovens	(mielócitos,
metamielócitos	e	bastões)	em	grande	quantidade,	na	vigência	de	anemia	e	leucopenia.	Também	podem	estar	presentes	hemácias	em	lágrima	(dacriócitos).
O	 tratamento	 é	 voltado	 para	 a	 doença	 de	 base.	 Alguns	 casos	 de	 carcinoma	 de	mama	 respondem	bem	à	 quimioterapia,	mas	 de	modo	 geral	 a	 cura	 é	muito	 difícil.	 O
prognóstico	baseia-se	na	condição	responsável	pela	infiltração	medular.
CAP.	4
ANEMIA	MEGALOBLÁSTICA
INTRODUÇÃO
A	anemia	megaloblástica	é	um	distúrbio	ocasionado	por	um	bloqueio	na	síntese	do	DNA,	que	se	caracteriza	por	um	estado	em	que	a	divisão	celular	 se	 torna	 lenta,	a
despeito	 do	 crescimento	 citoplasmático.	 Esta	 anormalidade	 nada	mais	 é	 do	 que	 uma	 assincronia	 da	maturação	 do	 núcleo	 em	 relação	 ao	 citoplasma	 –	 as	 células	 se
preparam	para	uma	divisão	que	não	ocorre	e,	como	resultado,	acabam	se	tornando	maiores.
As	células	mais	afetadas	são	aquelas	que	possuem	renovação	mais	rápida,	como	as	precursoras	da	Medula	Óssea	(MO)	e	as	células	da	mucosa	do	trato	gastrointestinal.
Anemia	megaloblástica	é	o	mesmo	que	anemia	macrocítica?
Não,	anemia	macrocítica	é	qualquer	anemia	com	hemácias	de	tamanho	e	volume	aumentado,	ou	seja,	com	VCM	(Volume	Corpuscular	Médio)	alto.	Anemia	megaloblástica	é
apenas	 uma	 das	 causas	 de	 anemia	 macrocítica!	 Dividimos	 as	 anemias	 macrocíticas	 em	 dois	 grupos:	 (1)	 anemia	 megaloblástica;	 e	 (2)	 anemias	 macrocíticas	 não
megaloblásticas	(ex.:	anemias	hemolíticas	com	reticulocitose	acentuada,	síndromes	mielodisplásicas,	anemia	do	alcoolismo,	do	hipotireoidismo,	etc.).
O	termo	"megaloblastose"	não	se	refere	a	uma	alteração	no	tamanho	das	hemácias	circulantes,	mas	sim	a	uma	anormalidade	morfológica	nos	núcleos	dos	progenitores
eritroides	no	interior	da	medula	óssea.	Os	eritroblastos	que	desenvolvem	essa	alteração	nuclear	são	reconhecidos	como	megaloblastos	(Figura	1C).	
Os	megaloblastos	 são	 reconhecidos	 como	 células	 defeituosas	 pelos	macrófagos	 da	medula	 óssea,	 sendo	 destruídos	 no	 interior	 da	 própria	medula,	 um	 fenômeno	 que
chamamos	de	eritropoiese	ineficaz.
Até	prova	em	contrário,	uma	anemia	megaloblástica	deve	ser	atribuída	à	carência	de	vitamina	B12	(cianocobalamina)	e/ou	ácido	fólico	(folato),	importantes	cofatores	para
a	síntese	de	DNA...	Outras	condições	que	podem	causar	esse	distúrbio	são	o	uso	de	medicamentos	que	bloqueiam	a	síntese	de	DNA	(antagonistas	de	purinas	e	pirimidinas
–	p.	ex.:	certos	quimioterápicos	e	imunossupressores)	ou	que	interferem	no	metabolismo	do	ácido	fólico	(metotrexato,	anticonvulsivantes).
FISIOLOGIA	DO	ÁCIDO	FÓLICO	E	VITAMINA	B12
ÁCIDO	FÓLICO
O	ácido	fólico	(folato	ou	ácido	pteroilglutâmico)	tem	como	principal	fonte	natural	os	vegetais	verdes	frescos	(fonte	mais	importante),	fígado,	aveia	e	algumas	frutas,	nas
quais	ele	se	encontra	sob	a	forma	de	poliglutamato	(o	cozimento	prolongado	pode	destruir	até	90%	do	folato	alimentar).	A	necessidade	mínima	diária	da	vitamina	gira	em
torno	de	50-200	µg,	entretanto,	durante	períodos	de	demanda	metabólica,	como	gravidez,	lactação	ou	hemólise,	as	necessidades	podem	aumentar	para	200-800	µg/dia.	O
folato	 da	 dieta	 é	 absorvido	 pelo	 duodeno	 e	 jejuno	 proximal	 (mesmo	 local	 da	 absorção	 do	 ferro)	 que	 contêm	 enzimas	 em	 suas	 microvilosidades,	 chamadas
carboxipeptidases,	capazes	de	converter	o	poliglutamato	em	mono	ou	diglutamato,	permitindo	assim	uma	pronta	absorção.
QUADRO	DE	CONCEITOS	I
Fig.	1:	(A)	glossite	atrófica	na	anemia	megaloblástica;	(B)	neutrófilo	hipersegmentado	no	esfregaço	de	sangue	periférico;	(C)	megaloblasto	na	medula	óssea.
Por	que	na	anemia	megaloblástica	temos	hemácias	aumentadas	de	tamanho?
Na	anemia	megaloblástica	temos	uma	alteração	da	síntese	do	DNA.	Com	isso,	o	núcleo	da	célula	amadurece	de	forma	lenta,	e	a	divisão	celular	se	dá	mais	tardiamente.
Entretanto,	o	citoplasma	não	sofre	alterações	e	"cresce"	à	espera	da	divisão	celular,	que	não	vem...
O	que	quer	dizer	exatamente	"megaloblastose"?
É	uma	alteração	no	núcleo	dos	precursores	eritroides	(que	só	pode	ser	observada	na	medula	óssea).
Quando	pensamos	em	anemia	megaloblástica,	quais	são	as	principais	etiologias?
Deficiência	de	vitamina	B12	(cobalamina)	e	ácido	fólico.
Qual	é	a	alteração	no	sangue	periférico	que	mais	sugere	anemia	megaloblástica?
Além	 da	 macrocitose,	 existe	 outra	 alteração	 clássica:	 a	 hipersegmentação	 do	 núcleo	 dos	 neutrófilos	 )	 –	 como	 a	 alteração	 básica	 da	 anemia
megaloblástica	é	nuclear	e	nem	as	hemácias	nem	as	plaquetas	têm	núcleo	no	sangue	periférico,	só	poderíamos	procurá-la	nos	leucócitos...
(Figura	1B
Logo	após	ser	absorvido,	o	 folato	circula	no	plasma	como	metiltetra-hidrofolato	 (MTHF)	 sob	a	 forma	de	monoglutamato,	 ligado	a	proteínas.	Ao	penetrar	nas	células,	o
grupamento	 metil	 é	 retirado	 por	 uma	 enzima	 dependente	 da	 vitamina	 B12	 (metionina	 sintase),	 liberando	 no	 citoplasma	 o	 tetra-hidrofolato	 (THF),	 já	 na	 forma	 de
poliglutamato	–	a	forma	ativa	da	vitamina.	O	maior	reservatório	corpóreo	de	folato	é	o	fígado,	responsável	por	metade	das	reservas.	O	folato	é	secretado	na	bile,	para	ser
reabsorvido	no	jejuno	(ciclo	êntero-hepático	do	folato),	além	de	ser	excretado	na	urina.
O	balanço	negativo	de	folato	geralmente	é	decorrente	de	uma	dieta	inadequada,	da	má	absorção	ou	da	utilização	exagerada	da	vitamina.	O	estoque	de	folato	dura	pouco
(como	na	maioria	das	vitaminas	hidrossolúveis).	Na	maioria	das	vezes,	os	sinais	clínicos	de	deficiência	de	folato	se	desenvolvem	cerca	de	4-5	meses	após	o	início	das
perdas.
A	má	absorção	de	 folato	pode	ser	 consequência	de	um	distúrbio	primário	da	mucosa	duodenojejunal	 (ex.:	doença	celíaca,	espru	 tropical),	 ou	do	uso	de	determinados
fármacos	que	interferem	com	o	processo	de	absorção	como	a	sulfassalazina	e	alguns	anticonvulsivantes.	A	hemodiálise	também	causa	perda	excessiva	do	folato	através
da	membrana	do	dialisador.
Existe	uma	interdependência	do	metabolismo	do	ácido	fólico	e	da	cobalamina,	uma	vez	que	a	vitamina	B12	é	necessária	para	a	manutenção	do	folato	no	meio	intracelular
(conversão	do	monoglutamato	metiltetra-hidrofolato	em	poliglutamato	tetra-hidrofolato).
VITAMINA	B12	( )
Fig.	1:	(A)	glossite	atrófica	na	anemia	megaloblástica;	(B)	neutrófilo	hipersegmentado	no	esfregaço	de	sangue	periférico;	(C)	megaloblasto	na	medula	óssea.
Figura	2
A	vitamina	B12	ou	cobalamina	tem	uma	estrutura	semelhante	ao	heme,	mas,	ao	contrário	deste	último,	não	consegue	ser	sintetizada	no	corpo	humano,	devendo	fazer
parte	da	dieta	(por	isso,	é	uma	vitamina).
A	cobalamina	não	é	encontrada	em	plantas,	e	as	únicas	fontes	dietéticas	são	os	compostos	de	origem	animal,	como	carnes,	ovos	e	laticínios.	Dessa	forma,	vegetarianos
estritos,	que	não	ingerem	nenhum	tipo	de	carne	ou	outros	compostos	animais	(como	leite,	ovos	e	queijo),	acabarão	desenvolvendo	deficiência	de	cobalamina	caso	não
utilizem	suplementos	multivitamínicos.
A	 necessidade	mínima	de	 vitamina	B12	 (que	 corresponde	 às	 perdas)	 é	 de	 cerca	 de	 2,5	 µg/dia	 (2,5	 unidades/dia),	 e	 a	 quantidade	 corpórea	 total	 dessa	 vitamina	 é	 de
aproximadamente	2-4	mg,	com	metade	das	reservas	presentes	no	fígado.	O	estoque	corporal	de	cobalamina	é	bastante	duradouro...Seriam	precisos:	10-15	anos	com
dieta	 pobre	 em	 cobalamina	 para	 haver	 sinais	 clínicos	 de	 deficiência,	 caso	 a	 absorção	 não	 se	 encontre	 prejudicada;	 e	3-6	 anos,	 caso	 a	 absorção	 da	 vitamina	 esteja
prejudicada.
A	 cobalamina	 está	 amplamente	 presente	 (e	 em	 quantidades	 elevadas)	 nos	 vários	 alimentos	 de	 origem	 animal.	 Esse	 fato,	 somado	 aos	 requerimentos	mínimos	 dessa
vitamina,	nos	faz	concluir	que	a	deficiência	de	vitamina	B12	tem	como	etiologia	mais	frequente	a	má	absorção,	em	vez	da	pobre	ingestão	alimentar.
Como	acontece	a	absorção	da	vitamina	B12?
A	cobalamina	da	dieta	vem	sempre	 ligada	às	proteínas	alimentares,	 precisando	 sofrer	 a	ação	do	ácido	gástrico	e	da	pepsina	para	 se	desprender.	Durante	a	digestão
gástrica,	a	vitamina	B12	é	liberada	e	imediatamente	se	liga	a	uma	glicoproteína:	o	ligante	R,	secretado	na	saliva	e	na	mucosa	gástrica.
No	duodeno,	o	complexo	vitamina	B12-ligante	R	é	dissolvido	sob	a	ação	das	proteases	secretadas	pelo	pâncreas.	Dessa	forma,	a	vitamina	B12	é	 liberada,	sendo	então
captada	pelo	Fator	Intrínseco	(FI).	O	FI	é	uma	glicoproteína	produzida	pelas	células	parietais	do	fundo	e	corpo	gástricos,	secretada	em	paralelo	com	o	ácido	clorídrico.
O	complexo	vitamina	B12-FI	é	resistente	à	degradação	proteolítica	e	prossegue	até	o	íleo	distal,	onde	receptores	específicos	situados	na	borda	em	escova	da	mucosa
ligam	o	complexo	e	possibilitam	finalmente	a	absorção	da	vitamina.	Além	de	evitar	a	degradação,	o	FI	também	funciona	como	um	verdadeiro	"guia"	para	a	vitamina	B12
alcançar	o	epitélio	ileal.	Cerca	de	99%	da	absorção	da	vitamina	B12	só	se	dá	ligada	ao	FI.	Uma	pequena	parcela	(1%)	é	absorvida	sem	o	FI,	por	difusão	passiva	por	entre	as
células	da	mucosa	intestinal.
No	 interior	 da	 célula	 da	mucosa	 ileal,	 a	 cobalamina	 (vit.	 B12)	 se	 liga	 a	 uma	 proteína	 transportadora,	 a	 Transcobalamina	 II	 (TC-II),	 que	 a	 transporta	 para	 o	 plasma.
Entretanto,	a	meia-vida	da	TC-II	é	muito	curta,	e	a	cobalamina	que	se	desprende	do	carreador	recém-destruído	passa	a	ser	carreada	pela	TC-I	(quantitativamente,	o	maior
carreador	de	vitamina	B12	no	plasma)	e	TC-III.
BIOQUÍMICA	DO	ÁCIDO	FÓLICO	E	DA	VITAMINA	B12
ÁCIDO	FÓLICO
Fig.	2:	Absorção	da	vitamina	B12.
O	folato	tem	como	função	primordial	 transferir	"fragmentos	de	um	carbono"	(metileno)	para	aceptores,	que	darão	origem	a	bases	nitrogenadas	(purinas	e	pirimidinas),
constituintes	do	DNA.	O	folato	"doador"	é	o	Tetra-Hidrofolato	–	THF	 (na	forma	de	poliglutamato)	–	não	é	difícil	 imaginar	que,	sem	a	metilação	adequada	do	DNA,	os
precursores	 hematopoiéticos	 começam	 a	 ter	 dificuldades	 na	maturação	 do	 núcleo.	 É	 exatamente	 o	 que	 ocorre	 na	 deficiência	 de	 ácido	 fólico!	 Ao	 doar	 grupamentos
metileno,	 o	 THF	 é	 convertido	 em	Di-Hidrofolato	 –	DHF.	 Para	 regenerar	 novamente	 o	 THF,	 a	 partir	 do	DHF,	 é	 necessária	 a	 ação	 de	 uma	 importante	 enzima	 celular,
denominada	di-hidrofolato	redutase.
VITAMINA	B12	
A	cobalamina	(vit.	B12)	é	cofator	de	duas	importantes	reações...
A	primeira	reação	é	extremamente	ligada	ao	metabolismo	do	folato...	O	Metiltetra-Hidrofolato	(MTHF)	é	a	forma	circulante	do	folato	que	precisa	ser	convertida	na	forma
celular,	o	Tetra-Hidrofolato	(THF),	ou	"folato	ativo".	Isso	é	feito	pela	enzima	metionina	sintase,	utilizando	a	cobalamina	(vitamina	B12)	como	cofator.	Perceba,	portanto,	que
a	deficiência	de	B12	impede	a	formação	de	THF	a	partir	do	MTHF,	logo,	reduz	a	forma	ativa,	intracelular,	do	folato.	Em	outras	palavras:	a	deficiência	de	B12	provoca	um
"estado	de	deficiência	celular	de	folato"...	É	através	deste	mecanismo	que	a	deficiência	de	B12	prejudica	a	síntese	de	DNA,	e	isso	explica	porque	a	reposição	de	altas	doses
de	ácido	 fólico	pode	 resolver	parcialmente	a	anemia	megaloblástica	por	carência	de	B12!	Todavia,	 conforme	veremos	adiante,	mesmo	que	altas	doses	de	ácido	 fólico
amenizem	parcialmente	as	alterações	hematológicas	da	carência	de	B12,	as	alterações	neurológicas	persistem	se	a	reposição	de	B12	não	for	realizada,	pois	tais	alterações
dependem	de	uma	reação	bioquímica	diferente,	que	não	tem	qualquer	relação	com	o	metabolismo	do	folato...
Na	reação	da	metionina	sintase,	o	grupamento	metil	do	MTHF	é	transferido	para	a	homocisteína	(um	aminoácido),	formando	a	metionina.	Por	isso,	tanto	na	deficiência	de
folato,	como	na	deficiência	de	cobalamina,	esta	reação	fica	prejudicada,	aumentando	os	níveis	celulares	e	plasmáticos	de	homocisteína.	A	hiper-homocisteinemia	é	lesiva
ao	endotélio,	podendo	aumentar	o	risco	de	aterosclerose.
A	 segunda	 reação	não	é	 ligada	ao	 folato.	 É	a	 conversão	do	metilmalonil-CoA	em	succinil-CoA.	Na	deficiência	de	B12	 (mas	não	na	de	ácido	 fólico),	 os	níveis	 séricos	e
urinários	de	ácido	metilmalônico	aumentam	significativamente	e	isso	pode	ser	utilizado	para	fins	diagnósticos.
O	quadro	neurológico,	próprio	da	carência	de	B12,	deve-se	provavelmente	a	dois	mecanismos:	(1)	os	níveis	aumentados	de	metilmalonil-CoA	promoverão	a	síntese	de
ácidos	 graxos	 não	 fisiológicos,	 que	 irão	 se	 incorporar	 aos	 lipídios	 neuronais;	 e	 (2)	 a	 metionina,	 quando	 não	 formada	 adequadamente,	 promove	 uma	 diminuição	 da
produção	de	fosfolipídios	contendo	colina,	que	são	elementos	fundamentais	na	formação	da	bainha	de	mielina.
ORIGEM	DAS	DEFICIÊNCIAS	VITAMÍNICAS
As	causas	de	deficiência	de	ácido	fólico	e	vitamina	B12	estão	na	Tabela	1.
Tab.	1:	Causas	de	anemia	megaloblástica.
CAUSAS	DE	DEFICIÊNCIA	DE	ÁCIDO	FÓLICO
A	 deficiência	 de	 ácido	 fólico	 é	 vista	 em	 indivíduos	 que	 não	 se	 alimentam	 adequadamente,	 alcoólatras,	 gestantes	 e	 portadores	 de	 síndromes	 disabsortivas	 no	 jejuno
proximal,	 como	a	doença	 celíaca	e	o	espru	 tropical.	O	alcoolismo	predispõe	à	deficiência	de	 folato	por	dois	mecanismos:	 (1)	 como	o	álcool	 tem	alto	 valor	 calórico,	 o
alcoólatra	geralmente	consome	poucos	alimentos,	inclusive	os	ricos	em	folato;	e	(2)	o	álcool	dificulta	a	absorção	e	recirculação	de	folato	através	do	ciclo	êntero-hepático.
Anticonvulsivantes	(fenitoína,	ácido	valproico,	primidona)	e	barbitúricos	prejudicam	a	absorção,	enquanto	pirimetamina,	trimetoprima	em	altas	doses	e	metotrexato	inibem
o	metabolismo	da	vitamina.
Condições	 como	 gestação,	 anemia	 hemolítica	 crônica	 (qualquer	 causa),	 câncer	 e	 doenças	 cutâneas	 exfoliativas	 (ex.:	 psoríase)	 predispõem	 à	 carência	 de	 ácido	 fólico
simplesmente	por	aumentarem	a	utilização	desta	vitamina.
Deficiência	de	Vitamina	B12
Ingesta	inadequada	(raro)
Má	absorção
● Prejuízo	da	liberação	da	vitamina	do	alimento:
➤ Acloridria;
➤ Gastrectomia	parcial.
● Produção	inadequada	de	fator	intrínseco:
➤ Anemia	perniciosa;
➤ Gastrectomia	total;
➤ Ausência	congênita	do	fator	intrínseco.
● Desordens	do	íleo	terminal
➤ Ressecção	intestinal;
➤ Ileíte	regional	(doença	de	Crohn);
➤ Outras	ileopatias;
➤ Má	absorção	seletiva	de	cobalamina	(doença	de	Imerslund).
● Competição	pela	cobalamina:
➤ Síndrome	de	alça	cega	–	hiperproliferação	bacteriana;
➤ Diphyllo​bothrium	latum	("verme	do	peixe").
● Colchicina,	ácido	paraminossalicílico,	neomicina.
Outras	causas
● Deficiência	de	transcobalamina	II.
● Exposição	ao	óxido	nitroso.
● Defeitos	enzimáticos.
Deficiência	de	Folato
Ingesta	inadequada	(alcoólatras,	anorexia	nervosa)
Aumento	das	necessidades
● Gravidez.
● Hemólise.
●Malignidade.
● Doenças	exfoliativas	crônicas	da	pele.
● Hemodiálise.
Má	absorção
● Espru	tropical.
● Doença	celíaca.
● Drogas.
➤ Fenitoína;
➤ Barbitúricos.
Prejuízo	no	metabolismo
● Inibidores	da	di-hidrofolato	redutase:
➤ Metotrexato;
➤ Pirimetamina;
➤ Pentamidina;
➤ Trimetoprima.
● Álcool.
● Deficiências	enzimáticas	(raras).
Outras	Causas	de	Anemia	Megaloblástica
Drogas	que	Interferem	na	síntese	do	DNA
● Antagonistas	das	pirimidinas:
➤ 5-fluoracil.
● Antagonistas	das	purinas:
➤ Azatioprina;
➤ 6-mercaptopurina.
● Outras	drogas:
➤ Zidovudina;
➤ Procarbazina;
➤ Aciclovir;
➤ Hidroxiureia.
Desordens	metabólicas
Etiologia	desconhecida
● Anemia	megaloblástica	refratária.
● Síndromede	Di	Guglielmo	(eritroleucemia).
● Anemia	diseritropoiética	congênita.
Na	gestação,	a	reposição	de	ácido	fólico	também	é	recomendada	para	a	prevenção	dos	Defeitos	do	Tubo	Neural	(DTN).	A	dose	recomendada	para	prevenção	de	DTN	é
de	400	µg/dia	de	folato,	não	se	devendo	ultrapassar	a	dosagem	de	1	mg/dia,	pois	essa	quantidade	poderia	mascarar	uma	deficiência	de	vitamina	B12,	retardando	seu
tratamento	e	podendo	desencadear	lesões	neurológicas.	Estudos	têm	demonstrado	que	a	suplementação	de	ácido	fólico,	desde	três	meses	antes	da	concepção	até	a
12ª	semana	da	gestação,	pode	prevenir	a	DTN	no	feto.	A	razão	para	a	administração	antes	da	gestação	se	deve	ao	fato	do	tubo	neural	se	formar	entre	o	25º	e	27º	dia
após	a	concepção,	antes	que	a	maioria	das	mulheres	se	dê	conta	de	que	está	grávida.
Lactentes:	 as	 reservas	 de	 folato	 são	 reduzidas	 ao	 nascimento,	 e	 podem	 ser	 rapidamente	 depletadas	 em	 função	 do	 crescimento	 acelerado	 nessa	 fase...	 Na	 criança
prematura	as	necessidades	são	ainda	mais	elevadas,	uma	vez	que	a	maior	parte	do	armazenamento	de	folato	ocorre	ao	final	da	gestação.	A	concentração	de	ácido	fólico
no	leite	materno	depende	das	reservas	de	folato	da	mulher	e	da	duração	da	lactação.	Comparado	com	o	colostro,	o	leite	maduro	possui	uma	maior	concentração	desta
vitamina.	O	folato	do	leite	humano	se	encontra	em	maior	proporção	como	monoglutamato,	que	seria	mais	bem	absorvido,	o	que	explicaria	o	melhor	estado	nutricional	de
ácido	 fólico	 de	 crianças	 alimentadas	 com	 o	 leite	materno.	 A	 suplementação	 de	 ácido	 fólico	 (50	 µg/dia)	 e	 ferro	 é	 indicada	 em	 regiões	 onde	 a	 prevalência	 de	 anemia
carencial	na	infância	supera	os	40%.	Outra	situação	na	qual	a	suplementação	ou	fortificação	torna-se	necessária	para	evitar	a	deficiência	de	folato	é	nos	lactentes	sem
aleitamento	materno	e	com	intolerância	ao	leite	de	vaca,	cuja	única	fonte	alimentar	passa	a	ser	o	leite	de	cabra,	que	possui	quantidades	muito	reduzidas	de	ácido	fólico.
CAUSAS	DE	DEFICIÊNCIA	DE	VITAMINA	B12
A	deficiência	de	cobalamina	pode	resultar	de	causas	diversas.	Veja	as	principais:	(1)	acloridria	gástrica	quando	não	ocorre	a	separação	da	vitamina	B12	das	proteínas
alimentares;	(2)	deficiência	de	fator	intrínseco	(anemia	perniciosa,	gastrectomia	total);	(3)	insuficiência	exócrina	pancreática	(pancreatite	crônica),	em	que	não	há	a
separação	do	complexo	vitamina	B12-ligante	R	no	 lúmen	duodenal;	(4)	micro-organismos	competitivos	(hiperproliferação	bacteriana),	que	geralmente	ocorre	em	"alças
cegas"	–	pós-gastrojejunostomias	e	em	alças	atônicas,	como	observamos	na	esclerodermia	e	no	diabete	melito;	(5)	doença	primária	ou	ausência	da	mucosa	ileal	(doença
de	Crohn,	linfoma	intestinal	e	ressecção	ileal);	e	(6)	vegetarianos	e	populações	de	baixa	renda,	que	não	consomem,	ao	longo	de	anos,	alimentos	de	origem	animal,	como
carne,	ovos	e	laticínios,	em	quantidades	adequadas.
Em	nosso	meio,	a	anemia	perniciosa	é	a	doença	que	mais	comumente	causa	deficiência	de	cobalamina,	enquanto	que	o	alcoolismo,	a	gestação	e	a	desnutrição	figuram
como	os	principais	fatores	associados	à	carência	de	folato	(baixa	ingestão	de	frutas	e	vegetais).
Uma	causa	de	má	absorção	de	B12	 rara	no	Brasil	 é	a	 infestação	pela	 "tênia	do	peixe"	Diphyllobothrium	 latum,	mais	 frequente	em	países	escandinavos.	Este	parasita
consome	a	B12	alimentar	presente	no	lúmen	intestinal.
QUADRO	DE	CONCEITOS	II
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS
DEFICIÊNCIA	DE	VITAMINA	B12
● Anemia	megaloblástica
● Distúrbios	neuropsiquiátricos
● Glossite
Grande	parte	dos	pacientes	afetados	pela	carência	de	B12	apresenta	manifestações	hematológicas,	na	mucosa	gastrointestinal	e,	principalmente,	neuropsiquiátricas.
MANIFESTAÇÕES	HEMATOLÓGICAS
Decorrem	de	queixas	referentes	à	anemia,	como	palpitações,	 fraqueza,	cefaleia,	 irritabilidade,	etc.	É	 interessante	notarmos	que	estes	pacientes	são	capazes	de	tolerar
baixíssimos	níveis	de	hemoglobina,	pois	a	anemia	megaloblástica	é	uma	anemia	de	instalação	insidiosa...	Eventualmente,	notamos	petéquias	e	púrpuras	devido	à	presença
de	trombocitopenia.
MANIFESTAÇÕES	DIGESTIVAS
Podemos	observar	diarreia	e	perda	ponderal,	ambos	decorrentes	de	má	absorção.	Os	pacientes	muitas	vezes	queixam-se	de	uma	sensação	dolorosa	na	 língua,	que	se
mostra	avermelhada	e	com	atrofia	de	papilas	(glossite	–	 A	queilite	angular,	semelhante	à	observada	na	anemia	ferropriva,	também	pode	ser	encontrada.
MANIFESTAÇÕES	NEUROLÓGICAS
Estas	 podem	ocorrer	 com	o	 hemograma	absolutamente	normal	 e	 somente	 com	 a	 vitamina	 B12	 sérica	 baixa.	 Entretanto,	 na	maioria	 dos	 casos,	 existe	 anemia
megaloblástica	associada.	Os	achados	neurológicos	ou,	melhor	dizendo,	neuropsiquiátricos,	incluem:	(1)	parestesia	em	extremidades	(alteração	mais	precoce)	decorrente
de	uma	polineuropatia;	(2)	diminuição	da	sensibilidade	profunda	(proprioceptiva	e	vibratória);	(3)	desequilíbrio,	marcha	atáxica,	sinal	de	Romberg,	refletindo	a	perda	da
propriocepção	inconsciente	nos	membros	inferiores;	(4)	fraqueza	e	espasticidade	nos	membros	inferiores,	com	sinal	de	Babinski,	hiper-reflexia	profunda,	refletindo	uma
síndrome	 piramidal	 nos	 membros	 inferiores;	 e	 (5)	 deficit	 cognitivos,	 demência	 e	 psicoses.	 O	 acometimento	 da	 sensibilidade	 profunda	 (cordão	 posterior	 da	 medula
espinhal)	 associado	 ao	 comprometimento	 dos	 feixes	 piramidais	 dá	 o	 nome	de	 "síndrome	dos	 sistemas	 combinados"	 ou	 "mielinose	 funicular"	 ao	 deficit	 neurológico	 da
carência	de	B12.
Obs.:	propriocepção	=	noção	de	posição	segmentar	(pode	ser	consciente	ou	inconsciente).	A	propriocepção	consciente	é	testada	pedindo-se	para	o	paciente,	de	olhos
fechados,	dizer	qual	é	a	posição	do	hálux	(para	cima	ou	para	baixo).	A	propriocepção	inconsciente	é	monitorada	pelo	teste	de	Romberg:	o	paciente	coloca	os	pés	juntos,	os
braços	junto	ao	corpo	e	fecha	os	olhos	–	se	ele	cair,	o	teste	é	positivo,	denotando	a	falta	de	"informação"	da	posição	segmentar	inconsciente	para	o	cerebelo	pelas	fibras	do
cordão	posterior	da	medula...
Fica	claro	que	em	todo	paciente	que	abre	um	quadro	demencial,	a	dosagem	de	vitamina	B12	deve	fazer	parte	da	investigação	laboratorial	inicial.
Qual	é	a	principal	causa	de	deficiência	de	B12	em	nosso	meio?
Anemia	perniciosa.
Qual	é	a	principal	causa	de	deficiência	de	folato?
Alcoolismo.
Figura	1A).	
É	 importante	 termos	 em	mente	 que	 as	manifestações	 neuropsiquiátricas	 só	 respondem	 à	 reposição	 de	 cobalamina	 se	 esta	 for	 iniciada	 de	maneira	 precoce,	 de
preferência	dentro	dos	primeiros	seis	meses	após	o	 início	dos	sintomas!	Reposições	 iniciadas	mais	 tardiamente	costumam	apresentar	uma	resposta	parcial	ou
ausência	de	resposta.	No	entanto,	mesmo	nos	pacientes	que	não	apresentam	melhora	clínica,	a	vitamina	B12	deve	sempre	ser	reposta,	já	que	evita	a	progressão	da
doença...
ANEMIA	PERNICIOSA
A	anemia	perniciosa	é	uma	doença	caracterizada	pelo	desenvolvimento	de	autoanticorpos	que	atacam	as	células	do	corpo	e	fundo	gástricos	(células	parietais),	reduzindo
tanto	a	produção	de	ácido	e	pepsina	quanto	de	fator	intrínseco.	O	resultado	é	o	desenvolvimento	de	hipocloridria	e	anemia	megaloblástica	por	má	absorção	de	B12.
A	anemia	perniciosa	é	a	 causa	mais	 comum	de	deficiência	de	cobalamina	descrita	na	 literatura.	Afeta	 indivíduos	entre	45-65	anos,	 sendo	 rara	antes	dos	30	anos.	É
ligeiramente	mais	comum	em	mulheres	(1,6:1)	de	origem	nórdica,	com	olhos	azuis	e	que	possuem	cabelos	brancos	precocemente.	A	anemia	perniciosa	é	fator	de	risco
para	o	adenocarcinoma	gástrico.
Os	anticorpos	anticélulas	parietais	estão	presentes	em	90%	dos	pacientes,	enquanto	os	anticorpos	antifator	intrínseco	são	encontrados	em	60%,	inibindo	a	ligação
do	 FI	 com	a	 vitamina	B12.	Alguns	apresentam	uma	outra	 variedade	de	anticorpo,	 que	age	bloqueando	a	molécula	de	 fator	 intrínseco	em	seu	 sítio	 de	 ligação	 ileal.	A
anemia	perniciosa	está	associada	a	outras	afecções	autoimunes,	como	a	tireoidite	de	Hashimoto	(hipotireoidismo),	o	vitiligo,	a	insuficiência	suprarrenal	idiopática
(doença	de	Addison),o	hipoparatireoidismo	e	a	doença	de	Graves.
Além	dos	fenômenos	imunológicos,	a	própria	hipocloridria	resultante	dificulta	a	liberação	de	vitamina	B12	da	proteína	alimentar	para	união	com	o	ligante	R,	etapa	anterior
à	sua	captação	pelo	fator	intrínseco.
QUADRO	DE	CONCEITOS	III A	anemia	perniciosa.
DEFICIÊNCIA	DE	ÁCIDO	FÓLICO
● Anemia	megaloblástica
● Glossite
Os	pacientes	com	deficiência	de	folato	geralmente	estão	mais	desnutridos	do	que	aqueles	deficientes	em	cobalamina.	As	manifestações	clínicas	são	semelhantes	às	da
anemia	 por	 deficiência	 de	 vitamina	 B12,	 exceto	 por	 dois	 fatores	 importantes:	 (1)	 os	 achados	 do	 aparelho	 digestivo	 são	 mais	 exuberantes;	 e	 (2)	 não	 ocorrem
manifestações	neurológicas.	A	deficiência	de	folato	(e	a	deficiência	de	cobalamina	também)	pode	cursar	com	hiperpigmentação	difusa	da	pele,	ou	somente	das	pregas
cutâneas.
QUADRO	DE	CONCEITOS	IV A	anemia	megaloblástica.
Cap4_Video_01_Hem1
LABORATÓRIO
Qual	é	a	sua	importância?
É	a	causa	mais	comum	de	deficiência	de	vitamina	B12.
Qual	grupo	tem	maior	chance	de	desenvolvê-la?
Mulheres	brancas	de	meia-idade.
Qual	é	o	seu	mecanismo	patogênico?
É	uma	condição	autoimune	–	destruição	e	atrofia	da	mucosa	do	estômago,	levando	à	redução	da	produção	de	FI.
Quais	são	os	principais	autoanticorpos?
Anticélula	parietal:	90%	dos	casos.
Anti-FI:	60%	dos	casos.
Existe	associação	a	alguma	doença	neoplásica?
Sim,	com	o	câncer	gástrico.
Existe	associação	a	outras	doenças	autoimunes?
Sim,	com	a	doença	de	Graves,	Hashimoto,	vitiligo,	insuficiência	adrenal	idiopática	e	hipoparatireoidismo.
Existem	outras	causas	de	macrocitose	que	não	a	anemia	megaloblástica?
Sim.	As	principais	são:	mielodisplasias,	anemia	aplásica	(eventualmente),	anemia	sideroblástica	(forma	secundária),	anemia	da	hepatopatia,	alcoolismo,	hipotireoidismo,
anemia	hemolítica	grave	e	toxicidade	de	algumas	medicações.
Quando,	então,	devemos	pensar	em	anemia	megaloblástica?
Em	toda	anemia	macrocítica,	principalmente	aquelas	que	cursam	com	o	VCM	muito	aumentado	(VCM	>	120	fl	é	virtualmente	patognomônico	de	megaloblastose).
Qual	é	o	achado	no	sangue	periférico	considerado	quase	patognomônico	de	anemia	megaloblástica?
Em	toda	anemia	associada	a	manifestações	do	TGI	ou	SNC.
Neutrófilos	plurissegmentados.
Quais	são	os	outros	achados	laboratoriais?
Leucopenia,	trombocitopenia,	elevação	da	LDH	e	bilirrubina	indireta.
O	ácido	metilmalônico	está	elevado	na...
...deficiência	de	cobalamina.
A	homocisteína	está	elevada	na...
...deficiência	de	cobalamina	e	folato.
Dividiremos	os	achados	laboratoriais	da	anemia	megaloblástica	como	referentes	ao	hemograma	e	sangue	periférico,	à	medula	óssea	e	à	bioquímica	e	imunologia.
HEMOGRAMA
O	 VCM	 está	 caracteristicamente	 aumentado,	 podendo	 atingir	 valores	 de	 até	 140	 fl.	 Embora	 existam	 outras	 causas	 de	 macrocitose	 que	 não	 a	 anemia
megaloblástica,	quando	nos	deparamos	com	um	VCM	superior	a	110	fl,	o	diagnóstico	é	bem	provável,	quando	além	de	120	fl,	praticamente	não	há	outro
diagnóstico.	O	CHCM	encontra-se	com	valores	normais,	uma	vez	que	a	síntese	da	hemoglobina	continua	e	muitas	vezes	preenche	toda	a	célula.	É	comum	a	anisocitose,
com	aumento	do	RDW.	Uma	análise	dos	hemogramas	anteriores	frequentemente	revela	aumento	progressivo	do	VCM	ao	longo	de	meses	ou	anos...
É	importante	salientarmos	que	o	VCM	pode	permanecer	elevado	por	um	longo	período	(meses	a	anos),	sem	que	tenhamos	anemia	propriamente	dita.	Por	outro	lado,	é
possível	também	que	um	paciente	com	anemia	megaloblástica	apresente	VCM	normal	(entre	80-100	fl).	Este	último	fenômeno	pode	ser	observado	na	coexistência
de	deficiência	de	ferro	com	deficiência	de	vit.	B12	e/ou	ácido	fólico,	ou	então	na	associação	entre	anemia	megaloblástica	e	talassemia...
A	neutropenia	e	a	trombocitopenia	podem	se	associar	à	anemia	(pancitopenia),	mas	geralmente	são	de	intensidade	leve	a	moderada.
SANGUE	PERIFÉRICO
A	alteração	mais	característica	de	anemia	megaloblástica	no	esfregaço	de	sangue	periférico	é	a	chamada	hipersegmentação	do	núcleo	dos	neutrófilos	
que	pode	ser	definida	pelos	seguintes	critérios:	(1)	achado	de	apenas	um	neutrófilo	contendo	seis	ou	mais	lobos;	e	(2)	presença	de	pelo	menos	5%	de	neutrófilos	com
cinco	lobos.	O	achado	desses	neutrófilos	plurissegmentados	é	quase	patognomônico	de	anemia	megaloblástica.
Outras	alterações	incluem	presença	de	anisocitose	e	poiquilocitose	e	dos	macro-ovalócitos,	que	são	eritrócitos	grandes	e	ovais,	completamente	hemoglobinizados.	Os
macrócitos	das	outras	anemias	não	possuem	essa	característica...
Quando	o	hematócrito	está	muito	baixo,	frequentemente	podemos	encontrar	hemácias	nucleadas	no	sangue	periférico.	Nesses	casos,	a	morfologia	nuclear	megaloblástica
pode	ser	evidenciada	sem	o	aspirado	ou	a	biópsia	de	medula	óssea.
MEDULA	ÓSSEA	(MIELOGRAMA)
A	medula	geralmente	é	hipercelular,	com	uma	diminuição	da	relação	mieloide/eritroide.	Podemos	identificar	ferro	corável	em	teores	expressivos.
As	alterações	morfológicas	megaloblásticas	(nucleares)	costumam	ser	vistas	em	todos	os	tipos	celulares,	porém	são	mais	intensas	e	frequentes	na	linhagem	vermelha.	Os
eritroblastos	estão	aumentados	de	volume,	com	importante	assincronia	núcleo/citoplasma,	isto	é,	um	atraso	na	maturação	do	núcleo	quando	comparado	ao	citoplasma.	O
núcleo	 imaturo	 apresenta	 uma	 cromatina	 granulada,	 ou	 com	 aspecto	 "em	 peneira",	 enquanto	 que	 o	 citoplasma	 encontra-se	 desproporcionalmente	 hemoglobinizado
("avermelhado")	–	 Observamos	também	alterações	nos	precursores	dos	granulócitos	e	plaquetas.
DOSAGEM	DE	COBALAMINA	E	FOLATO	SÉRICOS
Os	teores	de	vitamina	B12	e	folato	no	sangue	devem	ser	solicitados.	Níveis	normais	de	vitamina	B12	encontram-se	entre	200-900	pg/ml.	Uma	B12	sérica	acima	de	300
pg/ml	torna	improvável	o	diagnóstico	de	carência	da	vitamina,	enquanto	que	uma	dosagem	abaixo	de	200	pg/ml	praticamente	o	confirma.	Entre	200-300	pg/ml	(normal
baixa)	é	a	 faixa	de	 incerteza.	A	dosagem	da	B12	pode	sofrer	 influência	de	artefatos	provocados	pelo	radioimunoensaio	e	por	hepatopatia	crônica	–	valores	 falsamente
elevados.	A	presença	de	mieloma,	gravidez,	deficiência	concomitante	de	folato,	anemia	aplástica	e	altas	doses	de	vitamina	C	nos	fornecem	valores	falsamente	baixos.
O	folato	sérico	apresenta	níveis	de	2,5-20	ng/ml.	Um	folato	sérico	abaixo	de	2	ng/ml	torna	provável	o	diagnóstico	de	carência	de	folato,	enquanto	que	acima	de	4	ng/ml,
em	termos	práticos,	exclui	este	diagnóstico.	O	folato	sérico	deve	ser	colhido	sempre	em	jejum	e	em	pacientes	sem	história	de	anorexia,	caso	contrário,	não	é	um	exame
confiável	(o	folato	sérico	varia	agudamente	com	a	alimentação).	Mais	uma	vez	há	uma	faixa	de	incerteza:	entre	2-4	ng/ml.	Neste	caso,	dosamos	o	folato	eritrocitário
(mais	confiável).
Devemos	 lembrar,	 também,	 que	 a	 deficiência	 de	 vitamina	 B12	 pode	 levar	 a	 aumentos	 do	 folato	 no	 sangue:	 como	 a	 cobalamina	 é	 necessária	 para	 a
manutenção	do	folato	no	interior	das	células,	em	sua	ausência,	este	se	"desvia"	para	o	soro.
É	importante	que	seja	realizada	a	dosagem	sérica	das	duas	vitaminas,	pois	não	é	incomum	haver	carência	concomitante	de	ambas	(25%	dos	casos).
DOSAGEM	DE	ÁCIDO	METILMALÔNICO	E	HOMOCISTEÍNA
Estas	dosagens	laboratoriais,	ainda	pouco	empregadas	em	nosso	meio,	são	o	melhor	parâmetro	para	o	diagnóstico	e	diferenciação	entre	as	deficiências	de	vitamina	B12	e
ácido	fólico.
O	 ácido	metilmalônico	 encontra-se	 elevado	 apenas	 na	 deficiência	 de	 cobalamina.	 Seus	 valores	 normais	 situam-se	 entre	 70-270	 nmol/L.	 Em	 pacientes	 deficientes	 em
cobalamina,	podemos	encontrar	níveis	de	3.500	até	2.000.000	nmol/L.	Os	valores	podem	estar	falsamente	baixos	em	pacientes	com	carência	de	vitamina	B12,	quando	são
utilizados	antibióticos	de	amplo	espectro.
A	homocisteína	(n	=	5-14	nmol/L)	tem	seus	valores	elevados	tanto	na	deficiência	de	cobalamina	quanto	na	de	folato.	Níveis	de	até	50-250	nmol/L	podem	ser	encontrados
em	estados	de	 carência	dessas	 vitaminas.	A	 insuficiência	 renal	 e	 a	depleção	do	volume	 intravascularpodem	ocasionar	 elevação	nos	 valores	de	homocisteína	e	ácido
metilmalônico.
Lembramos	 que	 as	 elevações	 da	 homocisteína	 e	 do	 ácido	 metilmalônico	 só	 fazem	 o	 diagnóstico	 de	 deficiência	 de	 ácido	 fólico	 e	 vitamina	 B12	 na	 vigência	 de
manifestações	clínicas	e/ou	hematológicas	compatíveis!	A	homocisteína,	por	exemplo,	também	pode	estar	elevada	no	hipotireoidismo	e	em	distúrbios	primários	de	seu
metabolismo.
OUTROS	ACHADOS
(Figura	1B),	
Figura	1C.
Os	níveis	de	LDH	e	bilirrubina	indireta	encontram-se	aumentados,	pois	estamos	diante	de	uma	destruição	aumentada	de	precursores	das	células	vermelhas	no	interior
da	medula	óssea	(eritropoiese	ineficaz).	Devemos	tomar	cuidado	na	interpretação	desses	dados	e	não	confundi-los	com	aqueles	da	anemia	hemolítica,	já	que	esta	última
pode	ser	também	macrocítica,	caso	a	medula	lance	muitas	formas	jovens	de	hemácia	(reticulócitos)	na	periferia.
Por	incrível	que	pareça,	a	anemia	megaloblástica	é	aquela	que	mais	eleva	os	níveis	de	LDH,	mais	do	que	a	própria	hemólise	periférica.	Enquanto	nas	anemias	hemolíticas	a
média	está	em	torno	de	580	U/ml,	na	megaloblastose	encontra-se	um	LDH	ao	redor	de	3.800	U/ml	(normal	=	até	240	U/ml).	Embora	tenha	níveis	elevados	de	LDH	e	de
bilirrubina	indireta,	a	anemia	megaloblástica	possui	contagem	de	reticulócitos	normal	ou	baixa,	diferenciando-a	definitivamente	das	anemias	hemolíticas	macrocíticas...
ORIENTAÇÃO	PARA	O	DIAGNÓSTICO	(POR	ONDE	COMEÇAR?)
Sempre	que	suspeitamos	de	anemia	megaloblástica,	seja	pelos	achados	no	hemograma	e	no	esfregaço	do	sangue	periférico,	ou	pelas	manifestações	clínicas	descritas
acima,	devemos	solicitar	a	dosagem	sérica	de	vitamina	B12	e	folato.	Se	o	sangue	periférico	não	for	diagnóstico,	um	mielograma	deve	ser	providenciado	(padrão-ouro	para
confirmar	a	megaloblastose...).
Uma	B12	sérica	inferior	a	200	pg/ml	e	um	folato	sérico	inferior	a	2	ng/ml	confirmam,	em	termos	práticos,	o	diagnóstico	de	carência	de	B12	e	o	de	folato,	respectivamente.
Uma	B12	sérica	entre	200-300	pg/ml	não	afasta	a	deficiência	da	vitamina,	ao	mesmo	tempo	que	um	valor	do	folato	sérico	entre	2-4	ng/ml	também	não	exclui	a	carência
de	ácido	fólico.	Nesses	casos,	a	confirmação	deve	ser	realizada	pela	dosagem	do	ácido	metilmalônico	no	soro	ou	urina	e	pela	pesquisa	do	folato	eritrocitário.	Só	para
lembrar:	 o	 ácido	metilmalônico	 só	 aumenta	 na	 deficiência	 de	 B12	 e	 não	 na	 de	 folato!!!	 Este	 é	 considerado	 o	 exame	de	maior	 acurácia	 diagnóstica	 para	 tal	 carência
vitamínica...	A	homocisteína	sérica	pode	também	ser	solicitada,	mas	estará	elevada	nas	duas	deficiências	(mais	na	de	folato...).
Como	os	baixos	níveis	séricos	de	folato	podem	gerar	uma	"falsa	queda"	da	vitamina	B12	nos	exames	laboratoriais,	o	achado	concomitante	de	baixos	níveis	séricos	de
cobalamina	e	folato	indicam	a	solicitação	da	dosagem	do	ácido	metilmalônico.	A	presença	de	níveis	aumentados	do	ácido	metilmalônico	confirmaria	a	deficiência	de	B12
(simultânea	à	de	ácido	fólico),	enquanto	o	achado	de	níveis	normais	fala	a	favor	de	uma	"falsa	queda"	da	vitamina	B12	provocada	pelos	baixos	níveis	de	ácido	fólico.
Esses	exames	bioquímicos	têm	substituído,	na	maioria	dos	casos,	o	aspirado	de	medula	óssea,	por	possuírem	uma	elevada	especificidade	para	o	diagnóstico.
A	distinção	entre	a	deficiência	de	cobalamina	e	de	 folato	é	de	capital	 importância,	porque	o	uso	de	 folato	pode	corrigir	 as	anormalidades	hematológicas,	mas	não	as
neurológicas	da	deficiência	de	cobalamina,	podendo	até	agravá-las.
Uma	vez	estabelecido	o	diagnóstico	de	anemia	megaloblástica	por	carência	de	vitamina	B12,	o	diagnóstico	de	anemia	perniciosa	deve	ser	pesquisado	através	da	dosagem
do	 anticorpo	 antifator	 intrínseco.	 A	 sensibilidade	 deste	 marcador	 é	 de	 50-70%,	 e	 sua	 especificidade	 beira	 os	 100%	 (quer	 dizer,	 quando	 positivo	 essencialmente
confirma	o	diagnóstico).	O	anticélula	parietal	é	mais	sensível	 (presente	em	90%	dos	pacientes),	porém	menos	específico	 (isoladamente	não	confirma	o	diagnóstico).	A
biópsia	 gástrica	 não	 é	 obrigatória	 (por	 possuir	 pouca	 especificidade),	mas	 quando	 realizada	 revela	 a	 existência	 de	 uma	 gastrite	 atrófica	 tipo	 A	 (atrofia	 acentuada	 da
mucosa	do	corpo	e	do	fundo	gástrico)...	O	famoso	teste	de	Schilling	não	é	mais	empregado	de	rotina	(trabalhoso,	pouco	disponível,	não	padronizado).	Seu	valor	é	mais
histórico	do	que	prático,	uma	vez	que	nos	ajudou	a	compreender	a	fisiologia	da	absorção	de	vitamina	B12.	A	título	de	curiosidade,	segue	a	seguir	sua	descrição...
TESTE	DE	SCHILLING
O	primeiro	passo	consiste	na	administração	de	1.000	µg	de	cianocobalamina	intramuscular,	a	fim	de	saturar	os	sítios	receptores	no	organismo.	Isso	se	torna	necessário,
pois	em	indivíduos	com	reservas	baixas	de	vitamina	B12,	se	administrássemos	somente	a	cobalamina	marcada	(primeira	fase	do	teste),	esta	poderia	ser	 incorporada
para	suprir	as	próprias	deficiências	corpóreas,	não	sendo	excretada	na	urina	e	dando	a	falsa	 impressão	de	não	ter	sido	absorvida.	Alguns	autores	recomendam	que	se
inicie	o	tratamento	dois	meses	antes	do	teste.
Duas	horas	após,	administra-se	de	0,5-2	µg	de	cianocobalamina	por	via	oral	marcada	radioativamente.	A	radioatividade	é	avaliada	e	medida	na	urina	de	24	ou	de	72	horas.
Se,	após	a	ingestão	de	cianocobalamina	marcada	por	via	oral,	obtivermos	cerca	de	pelo	menos	34%	da	dose	em	análise	urinária,	consideramos	o	teste	normal.	Em	casos
associados	 à	 baixa	 radioatividade	 excretada	 na	 urina	 (0,5-8%),	 devemos	 afastar	 a	 possibilidade	 de	 má	 absorção	 intestinal,	 insuficiência	 pancreática	 exócrina,
hiperproliferação	bacteriana	e,	principalmente,	de	anemia	perniciosa	(deficiência	de	FI),	sempre	a	etiologia	mais	provável	para	a	carência	de	B12.
Para	 isso,	prosseguimos	a	segunda	 fase	 do	 teste,	que	é	dividida	em	 três	etapas:	na	primeira,	administramos	vitamina	B12	marcada	 ligada	ao	FI.	Se	a	vitamina	B12
marcada	 for	detectada	na	urina,	diagnostica-se	anemia	perniciosa,	e	o	 teste	está	concluído.	Se,	mesmo	com	a	administração	de	FI,	obtivermos	contagens	urinárias	de
vitamina	B12	 radioativa	baixa,	o	problema	não	deve	ser	a	carência	desse	 fator...	Devemos	então	 realizar	a	segunda	etapa,	que	consiste	na	 ingestão	de	vitamina	B12
marcada	junto	com	extrato	pancreático	(seis	a	oito	comp.	ou	três	caps.	com	cobertura	entérica).	Se	a	vitamina	B12	marcada	for	detectada	na	urina,	estamos	diante	de	um
caso	 de	 insuficiência	 pancreática	 exócrina,	 mas,	 caso	 ela	 ainda	 não	 consiga	 ser	 detectada	 na	 urina,	 não	 se	 trata	 nem	 de	 anemia	 perniciosa	 nem	 de	 insuficiência
pancreática...	Nesse	ponto,	para	afastarmos	a	suspeita	de	hiperproliferação	bacteriana,	partimos	para	a	terceira	etapa	e	iniciamos	tratamento	empírico	com	metronidazol
(250	mg,	de	8/8h)	+	cefalexina	(250	mg	de	6/6h),	e	o	teste	com	a	vitamina	B12	oral	marcada	deve	ser	repetido	depois	de	quatro	dias	de	antibioticoterapia.	Se	a	contagem
urinária	baixa	a	indetectável	de	vitamina	B12	radioativa	persistir,	devemos	finalmente	suspeitar	de	lesão	dos	receptores	ileais,	como	ocorre	na	doença	de	Crohn,	linfoma,
ressecção	ileal,	tuberculose	extensa	do	íleo,	etc.
O	 teste	de	Schilling,	no	entanto,	só	é	solicitado	quando	a	origem	da	deficiência	de	cobalamina	não	é	esclarecida	nas	avaliações	 iniciais,	o	que	é	 raro.	A	dosagem	dos
anticorpos	antifator	intrínseco	e	anticélulas	parietais	costuma	esclarecer	o	diagnóstico	de	anemia	perniciosa.
Cap4_Video_02_Hem1
TRATAMENTO
DEFICIÊNCIA	DE	COBALAMINA
Na	 grande	 maioria	 dos	 pacientes	 com	 deficiência	 de	 cobalamina	 o	 problema	 está	 na	 má	 absorção	 dessa	 vitamina.	 Assim,	 a	 via	 de	 administração	 tradicional	 é	 a
parenteral.	A	vitamina	B12	é	prescrita	sob	a	forma	de	cianocobalamina	ou	hidroxicobalamina.
Existem	 vários	 esquemas	 de	 reposição	 parenteral,	 todos	 eles	 muito	 parecidos.	 O	 mais	 clássico	 consiste	 numa	 dose	 intramuscular	 de	 1.000	 µg	 (1.000	 unidades),
inicialmente	uma	vez	ao	dia	durante	sete	dias,	seguida	da	mesma	dose	uma	vez	por	semana	por	quatroaté	o	timo,	onde
termina	a	sua	maturação	em	linfócito	T	maduro.	Os	linfócitos	maduros	(tanto	B	quanto	T)	irão	se	concentrar	nos	tecidos	linfoides	do	organismo	(linfonodos,	baço	e	MALT	–
tecido	linfoide	associado	à	mucosa).
Pelo	que	podemos	observar	na	 ,	à	medida	que	os	precursores	vão	se	diferenciando,	dão	origem	a	células	comprometidas	com	a	formação	de	uma	determinada
linhagem	 hematológica.	 Essas	 células	 recebem	 a	 nomenclatura	 de	 "unidades	 formadoras	 de	 colônia"	 (CFU	 –	 Colony-Forming	 Unit).	 Por	 exemplo,	 a	 CFU-E/Mega	 é	 a
nomenclatura	da	célula	progenitora	eritroide-megacariocítica,	e	a	CFU-G/M	é	a	célula	progenitora	granulocítica-monocítica.
Os	 elementos	maduros	 do	 sangue	possuem	uma	vida	 limitada,	 devendo	 ser	 constantemente	 repostos.	Diariamente,	 cerca	 de	meio	 trilhão	 de	 células	 hematopoiéticas
diferenciadas,	incluindo	200	bilhões	de	hemácias,	participam	deste	turnover.	A	vida	média	de	uma	hemácia	gira	em	torno	de	120	dias.	As	plaquetas	vivem	cerca	de	7-10
dias,	e	os	granulócitos,	6-8	horas.	Os	linfócitos	possuem	uma	vida	média	prolongada,	comumente	de	muitos	anos.
A	 produção	 de	 cada	 linhagem	 celular	 hematológica	 (hemácias,	 plaquetas,	 leucócitos)	 é	 regulada	 de	 forma	 independente,	 de	 acordo	 com	a	 necessidade	 fisiológica	 do
organismo.	As	interleucinas	e	os	fatores	de	crescimento	denominados	CSF	(fatores	estimuladores	de	colônia	ou	Colony-Stimulating	Factor)	são	os	principais	mediadores	da
hematopoiese,	existindo,	para	cada	linhagem	celular,	 interleucinas	ou	fatores	específicos.	Dois	exemplos	práticos:	a	eritropoetina	e	o	GM-CSF.	A	eritropoetina	é	uma
substância	peptídica	produzida	no	parênquima	renal,	pelas	células	tubulares	proximais,	em	reposta	à	hipóxia	tecidual.	Funciona	como	um	hormônio	regulador	da	produção
de	hemácias,	estimulando	os	progenitores	eritroides	a	formar	mais	eritroblastos	na	medula	óssea.	O	GM-CSF	é	o	fator	estimulador	de	colônia	de	granulócitos	e	monócitos,
produzido	pelos	macrófagos,	fibroblastos	e	células	endoteliais	dos	diversos	tecidos	do	corpo,	em	reposta	à	inflamação.	Esse	fator	estimula	a	formação	de	mieloblastos	e
monoblastos,	culminando	numa	maior	produção	de	neutrófilos	e	monócitos,	as	principais	células	de	defesa.
ERITROPOIESE
Nas	primeiras	semanas	de	vida	embrionária,	as	células	vermelhas	nucleadas	primitivas	são	produzidas	pelo	saco	vitelínico.	Durante	o	segundo	trimestre	da	gestação,	o
fígado	e,	em	menor	intensidade,	o	baço	e	os	linfonodos,	se	encarregam	dessa	função.	Nos	estágios	finais	de	vida	fetal,	a	medula	óssea	passa	a	ser	o	principal	terreno	da
hematopoiese	e,	após	o	nascimento,	as	células	hematológicas	são	produzidas	exclusivamente	pela	medula	óssea.
Em	 vigência	 de	 determinadas	 patologias,	 a	 produção	 de	 células	 hematológicas	 (incluindo	 a	 série	 eritroide)	 volta	 a	 ocorrer	 nestes	 locais	 extramedulares	 (eritropoiese
extramedular),	que	só	tinham	esta	função	na	vida	embrionária...
Em	tais	situações,	massas	paravertebrais	(linfonodos),	fígado	e	baço	novamente	participam	na	formação	de	células	vermelhas!	Observamos	este	fenômeno,	sobretudo	em
doenças	hemolíticas	graves	como	algumas	hemoglobinopatias	(ex.:	betatalassemia	major),	bem	como	em	doenças	que	cursam	com	mielofibrose	intensa	(ex.:	mielofibrose
idiopática	ou	metaplasia	mieloide	agnogênica).
Figura	1).	
Fig.	1:	Sequência	hematopoiética.
Figura	1
A	primeira	célula	no	interior	da	medula	óssea	identificada	como	pertencente	à	série	eritroide	é	o	pró-eritroblasto	(ou	pró-normoblasto).	Uma	vez	formado,	ele	se	divide
várias	 vezes.	Durante	 seu	 processo	 de	maturação,	 dois	 importantes	 fenômenos	 ocorrem	de	 forma	progressiva:	 (1)	 condensação	 da	 cromatina	 nuclear	 (maturação	 do
núcleo);	 e	 (2)	 hemoglobinização	do	 citoplasma.	O	 citoplasma	do	pró-eritroblasto	é	azulado	 (basofílico).	À	medida	que	aumenta	a	 concentração	de	hemoglobina	neste
compartimento,	a	coloração	vai	se	tornando	mais	próxima	ao	avermelhado	(eosinofílico).	Na	ordem	de	maturação,	teremos:	(1)	pró-eritroblasto;	(2)	eritroblasto	basofílico;
(3)	eritroblasto	policromático;	(4)	eritroblasto	ortocromático	ou	"hemácia	nucleada";	(5)	reticulócito;	e	(6)	hemácia	ou	eritrócito.	Observe	a	
Até	o	estágio	de	"eritroblasto	ortocromático"	a	célula	possui	núcleo.	Para	que	se	forme	um	reticulócito,	o	conteúdo	nuclear	deve	ser	expulso.	Todavia,	sabe-se	que	os
ribossomas,	 ricos	 em	 RNA,	 permanecem	 no	 citoplasma	 do	 reticulócito,	 desaparecendo	 apenas	 cerca	 de	 um	 dia	 após	 a	 célula	 deixar	 a	 medula	 óssea...	 São	 os
ribossomas	que	criam	um	aspecto	de	"rede"	ou	"retículo"	basofílico	(azulado)	no	interior	da	célula,	daí	a	nomenclatura	"reticulócito"...	Quando	esse	retículo	basofílico
é	perdido,	a	célula	passa	a	se	chamar	hemácia	ou	eritrócito.
Na	 condição	 denominada	 megaloblastose,	 o	 defeito	 na	 síntese	 de	 DNA,	 pela	 carência	 de	 B12	 ou	 folato,	 faz	 com	 que	 haja	 uma	 assincronia	 de	 maturação	 núcleo-
citoplasmática:	 núcleos	 com	 cromatina	 frouxa	 em	 células	 com	 o	 citoplasma	 hemoglobinizado.	 Essas	 células	 geralmente	 são	 de	 tamanho	maior,	 daí	 o	 nome	megalo
(grande)	+	blasto	(imaturidade	celular).	Este	fenômeno	será	revisto	no	Capítulo	4	de	Anemia	Megaloblástica.
FORMAÇÃO	DA	HEMOGLOBINA
A	 hemoglobina	 tem	 a	 função	 primordial	 de	 carrear	 oxigênio	 para	 os	 diversos	 tecidos	 do	 organismo.	 Sua	 síntese	 ocorre	 precocemente	 na	mitocôndria	 das	 células	 da
linhagem	vermelha,	iniciando-se	na	fase	de	pró-eritroblasto	e	perpetuando-se	até	a	formação	do	reticulócito.	A	hemácia	nada	mais	é	do	que	um	"pacote"	de	hemoglobina.
A	hemoglobina	é	uma	macromolécula	constituída	por	quatro	cadeias	polipeptídicas	denominadas	globinas,	cada	uma	combinada	a	uma	porção	heme.	Existem	vários
tipos	de	globina,	cada	um	recebendo	a	denominação	de	uma	letra	do	alfabeto	grego	(alfa,	beta,	gama,	delta).
O	heme	é	uma	molécula	formada	por	quatro	anéis	aromáticos	(protoporfirina)	com	um	átomo	de	ferro	no	centro,	no	seu	estado	de	íon	ferroso	(Fe+2),	capaz	de	ligar	o	O2.
Portanto,	cada	molécula	de	hemoglobina	é	capaz	de	ligar	quatro	moléculas	de	O2,	pois	contém	quatro	grupamentos	heme.
No	adulto	normal,	em	torno	de	97%	da	hemoglobina	circulante	possui	duas	cadeias	alfa	e	duas	beta,	a	chamada	hemoglobina	A	(ou	hemoglobina	A1).	Cerca	de	2%	da
hemoglobina	circulante	possui	duas	alfa	e	duas	delta,	ou	hemoglobina	A2;	e	o	1%	restante	possui	duas	alfa	e	duas	gama,	denominada	hemoglobina	F	 (fetal).	Esta
última,	como	o	nome	sugere,	é	a	principal	Hb	da	vida	fetal.
As	talassemias	são	doenças	genéticas	caracterizadas	pela	redução	ou	perda	da	produção	de	uma	determinada	cadeia	de	globina.	Nas	betatalassemias,	o	problema	está
na	produção	das	cadeias	beta,	enquanto	nas	alfatalassemias,	o	defeito	está	na	produção	das	cadeias	alfa.
Figura	2.	
Fig.	2:	Processo	de	maturação.
A	primeira	etapa	na	síntese	do	heme	consiste	na	combinação	de	duas	moléculas	de	succinilcolina	(proveniente	do	ciclo	de	Krebs)	com	duas	moléculas	de	glicina,	formando
um	composto	pirrólico,	o	ALA	(ácido	aminolevulínico).	Através	de	uma	série	de	reações	enzimáticas,	quatro	compostos	pirrólicos	dão	origem	à	protoporfirina	IX	("nove"),
que	se	combina	com	o	Fe+2	para	formar	a	estrutura	do	heme.
As	 anemias	 sideroblásticas	 são	 desordens	 (hereditárias	 ou	 adquiridas)	 caracterizadas	 por	 um	 defeito	 na	 síntese	 do	 heme.	 Resultado:	 sobra	 ferro	 no	 interior	 do
eritroblasto...	 O	 ferro	 livre	 deposita-se	 na	 mitocôndria,	 promovendo	 estresse	 oxidativo	 e	 dano	 a	 esta	 organela.	 O	 depósito	 de	 ferro	 mitocondrial	 dá	 o	 aspecto
microscópico	dos	sideroblastos	em	anel,	isto	é,	eritroblastos	com	depósito	de	ferro	em	volta	do	núcleo.
APRESENTAÇÃO	CLÍNICA	DAS	ANEMIAS
O	 termo	 "anemia"	 traduz	 um	 estado	 em	 que	 a	 concentração	 de	 hemoglobina	 se	 encontra	 abaixo	 dos	 limites	 normais,	 frequentemente	 acompanhado	 de	 queda	 do
hematócrito	e	da	contagem	de	hemácias	no	sangue.	A	concentração	de	hemoglobina	é	medida	em	g/dl,	sendo	normal	entre	12-15	g/dl	nassemanas,	e	daí	em	diante	uma	dose	mensal	para	o	resto	da	vida
do	paciente.
Já	foi	descrito	também	um	tratamento	bem	sucedido	com	a	forma	oral	de	cobalamina,	a	vitamina	B12	cristalina,	2	mg	(2.000	µg)	por	dia,	baseando-se	no	princípio	de	que
1%	da	vitamina	é	absorvido	mesmo	na	ausência	do	FI.	Estudos	recentes	demonstraram	respostas	satisfatórias...
Quando	a	carência	de	vitamina	B12	e	anemia	megaloblástica	são	decorrentes	de	supercrescimento	bacteriano,	devemos	indicar	a	antibioticoterapia.	Nos	pacientes	com
diagnóstico	de	anemia	perniciosa,	deve	ser	feito	acompanhamento	regular	com	endoscopia,	pelo	risco	de	desenvolvimento	de	CA	de	estômago	a	partir	da	gastrite	atrófica.
A	resposta	ao	tratamento	é	fantástica!	Logo	após	seu	início	e,	mesmo	alguns	dias	antes	de	uma	resposta	hematológica	evidente,	o	paciente	sente-se	melhor	disposto.
DEFICIÊNCIA	DE	FOLATO
A	deficiência	de	folato	é	tratada	com	terapia	de	reposição,	na	dose	usual	de	1-5	mg/dia	por	via	oral.	Se	o	problema	estiver	na	absorção,	doses	de	até	15	mg/dia	podem
ser	utilizadas,	sendo	rara	a	necessidade	do	folato	parenteral.	A	duração	da	terapia	depende	do	grau	de	deficiência.	A	dieta	deve	ser	corrigida,	para	que	não	haja	recidiva
do	quadro	carencial	após	o	fim	do	tratamento.
Os	 pacientes	 com	 necessidades	 continuamente	 aumentadas	 (anemia	 hemolítica	 ou	 má	 absorção)	 devem	 continuar	 recebendo	 ácido	 fólico	 oral	 indefinidamente,
juntamente	com	uma	dieta	rica	em	folato.
RESPOSTA	AO	TRATAMENTO
Qual	é	o	acompanhamento	laboratorial	da	resposta	à	reposição	de	vitamina	B12	ou	de	folato?
Assim	como	na	anemia	ferropriva,	em	indivíduos	que	respondem	à	reposição	observamos	um	pico	reticulocitário	dentro	de	5-7	dias.	O	pico	varia	de	10-50%	(sendo	maior
quanto	mais	grave	for	a	anemia...),	comparado	a	um	discreto	pico	de	5-10%	no	tratamento	da	anemia	ferropriva.	A	anemia	começa	a	melhorar	após	dez	dias	da	reposição
e	regride	completamente	após	1-2	meses.	Os	níveis	elevados	de	ácido	metilmalônico	(na	carência	de	B12)	e	de	homocisteína	(na	carência	de	ambos)	começam	a	reduzir
em	48h	e	retornam	ao	normal	dentro	de	5-10	dias	do	início	da	terapia.	Caso	o	aumento	dos	reticulócitos	não	ocorra,	ou	se	ele	for	pouco	expressivo,	devemos	pesquisar
outras	causas	capazes	de	contribuir	para	a	anemia,	como	infecções,	deficiência	simultânea	de	folato	ou	hipotireoidismo.
O	quadro	neurológico	possui	uma	resposta	mais	lenta,	melhorando	após	4-6	meses.	Como	já	dito,	podem	ocorrer	sequelas	neurológicas	irreversíveis	se	o	tratamento	for
tardio!
COMPLICAÇÕES	DO	TRATAMENTO
A	hipocalemia	é	um	achado	 laboratorial	que	sobrevém	durante	a	reposição,	devido	ao	consumo	de	potássio	pelas	células	hematológicas	em	multiplicação	exagerada.
Devemos	ficar	atentos,	repondo	e	acompanhando	o	potássio	sérico	na	primeira	semana	de	tratamento,	especialmente	nas	primeiras	48h,	em	que	a	queda	pode	chegar	a	2
mEq/L.
Cap4_Video_03_Hem1
A	reposição	de	B12	parenteral	pode	provocar	uma	retenção	de	sódio,	que	eventualmente	pode	descompensar	um	paciente	cardiopata.
A	principal	 complicação	da	 reposição	de	ácido	 fólico	é	a	 falsa	melhora	do	paciente	que,	na	verdade,	possui	deficiência	de	B12.	Embora	o	quadro	hematológico	possa
melhorar,	o	distúrbio	neurológico	não	responde	e	costuma	piorar	progressivamente,	caso	a	reposição	de	B12	não	seja	iniciada.
QUADRO	DE	CONCEITOS	V O	tratamento	da	anemia	megaloblástica.
PROVA	TERAPÊUTICA
Este	assunto	é	muito	explorado	na	prova	de	 residência	e	 também	nos	 traz	uma	situação	comum	da	prática	médica:	 imagine	um	paciente	com	diagnóstico	de	anemia
megaloblástica,	internado	num	hospital	público,	sem	os	exames	necessários	para	diferenciação	entre	a	carência	de	B12	e/ou	de	folato...	O	que	fazer	para	descobrir?!
Aí	 está	 o	 papel	 da	 prova	 terapêutica...	 Para	 entender	 os	 princípios	 dessa	 prova	 terapêutica,	 é	 importante	 compreender	 o	 seguinte	 fato:	 pela	 inter-relação	 entre	 o
metabolismo	da	B12	e	o	do	 folato,	 "a	 reposição	de	altas	doses	de	um	pode	corrigir	parcialmente	a	anemia	causada	pelo	outro".	Esse	 fenômeno	é	mais	 característico
quando	repomos	doses	farmacológicas	de	folato	(1-5	mg/dia)	em	pacientes	com	deficiência	de	B12.	Essa	prática	é	extremamente	perigosa,	pois,	embora	a	anemia
seja	parcialmente	corrigida	(inclusive	com	resposta	reticulocitária),	o	quadro	neurológico	continua	progredindo,	podendo	se	tornar	irreversível.
Por	isso,	a	prova	terapêutica	deve	ser	feita	com	B12	em	BAIXAS	DOSES	(10	µg/dia	intramuscular)!!	As	doses	mais	altas	(terapêuticas)	de	B12	(100-1.000	µg/dia)	podem
corrigir	parcialmente	a	anemia	por	carência	de	folato,	atrapalhando	o	diagnóstico.	Enfim:	o	paciente	que	não	responder	a	baixas	doses	parenterais	de	B12	não	deve	ter
carência	dessa	vitamina	–	neste	caso,	é	provável	que	o	problema	seja	a	deficiência	de	folato.
Mais	 uma	 coisa	 importante:	 os	 pacientes	 que	 responderam	 a	 doses	 baixas	 parenterais	 de	 B12,	 embora	 esteja	 confirmado	 o	 diagnóstico	 de	 carência	 de	 B12,	 devem
também	ser	submetidos	em	seguida	à	prova	terapêutica	com	baixas	doses	de	folato	(200-400	µg/dia),	para	averiguar	se	eles	não	possuem	dupla	deficiência	(B12	+	folato).
Isso	é	observado	em	25%	de	todos	os	pacientes	com	anemia	megaloblástica.
Como	devemos	acompanhar	a	resposta	à	terapia	de	reposição	com	vitamina	B12?
Através	da	contagem	de	reticulócitos.	Ela	começa	a	subir	por	volta	do	quarto	ou	quinto	dia	após	o	início	da	terapia	e	atinge	um	pico	no	sétimo	dia.
Qual	é	a	posologia	de	vitamina	B12	a	ser	administrada?
1.000	μg	IM	por	dia	por	sete	dias,	em	seguida,	semanal,	durante	quatro	semanas,	e	depois,	mensal,	indefinidamente	(na	maioria	dos	pacientes).
Quais	são	as	principais	complicações	da	reposição	de	vitamina	B12?
Hipocalemia.
Congestão	volêmica.
Qual	é	a	razão	da	diminuição	do	potássio?
As	células	novas	que	estão	se	formando	em	resposta	à	vitamina	B12	captam	potássio	para	o	seu	citoplasma	–	afinal,	ele	é	o	principal	eletrólito	do	meio	intracelular.
Qual	é	o	perigo	da	administração	de	folato	em	pacientes	com	anemia	megaloblástica?
Se	o	diagnóstico	estiver	errado	ou	incompleto,	e	o	paciente	apresentar	deficiência	de	cobalamina,	as	anormalidades	hematológicas	podem	ser	corrigidas	enquanto	as
manifestações	neurológicas	não	melhoram	e	podem	progredir.	Dessa	forma,	a	reposição	de	ácido	fólico	pode	"mascarar"	uma	deficiência	de	vitamina	B12.
PROFILAXIA
Existem	três	situações	para	as	quais	é	recomendada,	de	rotina,	a	reposição	profilática	de	vitamina	B12:
Em	todos	os	vegetarianos	é	recomendada	a	reposição	de	cobalamina	em	baixas	doses	(5-10	μg/dia);
RN	e	lactentes	filhos	de	mães	deficientes	em	cobalamina;
Pacientes	 com	 disabsorção	 crônica	 de	 vitamina	 B12	 (gastrectomizados,	 com	 anemia	 perniciosa,	 acloridria	 ou	 insuficiência	 pancreática).	 Aqui,	 para	 compensar	 a
disabsorção,	as	doses	são	maiores,	cerca	de	2.000	μg/dia.
A	reposição	profilática	de	ácido	fólico	está	indicada	em	todas	as	gestantes	e	em	mulheres	em	idade	reprodutiva	que	façam	uso	de	anticonvulsivantes,	na	dose	de	400
μg/dia.	Portadores	de	hemólise	crônica	e	doenças	mieloproliferativas	devem	receber	1	mg/dia	de	ácido	fólico.	O	ácido	folínico	deve	ser	usado	de	rotina	em	pacientes	que
usam	metotrexato,	pirimetamina	ou	trimetoprima,	pois	este	composto	não	é	metabolizado	na	via	da	di-hidrofolato	redutase,	enzima	inibida	por	essas	drogas.	A	dose	é	de	1
mg/dia.
CAP.	5
ANEMIAS	HEMOLÍTICAS
Video_01_Hem1
INTRODUÇÃO	ÀS	ANEMIAS	HEMOLÍTICAS
Em	indivíduos	normais,	somente	os	eritrócitos	"envelhecidos"	ou	senescentes	são	removidos	pelo	sistema	reticuloendotelial	do	fígado	e	baço.	No	geral,	após	sua	liberação
da	medula	óssea	para	o	sangue	periférico	como	reticulócito,	a	vida	média	de	uma	hemácia	gira	em	torno	de	120	dias.
Como	é	a	passagem	das	hemácias	pelo	baço?
Observe	a	 	O	sangue	penetra	no	parênquima	esplênico	pelas	arteríolas	centrais,	quando	entra	em	contato	com	a	chamada	"polpa	branca"	–	uma	verdadeira
bainha	de	tecido	linfoide,	contendo	linfócitos	B	e	T.	Os	ramos	da	arteríola	central	desaguam	diretamente	no	interstício	(cordõesesplênicos	de	Billroth),	na	chamada	"polpa
vermelha".	Para	retornar	à	circulação,	as	células	hematológicas	precisam	passar	através	de	"fendas"	endoteliais	nos	sinusoides	esplênicos.	Os	sinusoides
então	convergem	para	o	sistema	venoso	do	órgão.	As	fendas	sinusoidais	têm	um	diâmetro	de	apenas	2-3	micra,	enquanto	as	hemácias	possuem	diâmetro	médio	de	8
micra.	Ou	seja,	só	poderão	passar	pela	fenda	as	hemácias	capazes	de	se	deformar.	Para	isso,	precisam	manter	suas	propriedades	viscoelásticas	e	o	formato	bicôncavo,	o
que	garante	uma	área	de	superfície	proporcionalmente	maior	do	que	o	seu	volume.
Figura	1.
Durante	a	passagem	pelos	cordões	esplênicos,	as	hemácias	encontram	um	ambiente	"hostil",	marcado	pela	hipóxia,	acidez	e	grande	quantidade	de	macrófagos	capazes	de
reconhecer	 qualquer	 anormalidade	 na	 membrana	 eritrocítica.	 Os	 macrófagos	 esplênicos	 podem	 fagocitar	 "pedacinhos"	 de	 hemácia,	 retirando	 resíduos	 nucleares
(corpúsculos	 de	 Howell-Jolly),	 hemoglobina	 desnaturada	 (corpúsculos	 de	 Heinz)	 e	 pigmentos	 férricos	 (corpúsculos	 de	 Pappenheimer).	 Ou	 então,	 fagocitam	 a	 hemácia
"inteira",	 removendo-a	da	circulação.	São	removidas	apenas	as	hemácias	senescentes	(com	120	dias)	e	patológicas.	Essa	 função	seletiva	que	o	baço	exerce	durante	a
passagem	de	células	hematológicas	pelo	seu	interior	é	denominada	hemocaterese.
HEMÓLISE
DEFINIÇÃO
Definimos	hemólise	como	a	destruição	prematura	das	hemácias	na	periferia,	seja	no	espaço	intravascular,	seja	no	interior	dos	órgãos	do	sistema	reticuloendotelial.	Isso
provoca	uma	queda	importante	de	sua	meia-vida.
Se	a	eritropoiese	medular	estiver	normal,	com	estoques	de	ferro,	ácido	fólico	e	B12	preservados,	a	meia-vida	das	hemácias	pode	se	reduzir	para	até	20-25	dias,	sem	que
se	 desenvolva	 anemia.	 Isso	 pode	 ser	 explicado	 pela	 grande	 capacidade	 da	medula	 em	 aumentar	 a	 produção	 de	 hemácias	 (em	 até	 oito	 vezes).	 Quando	 a	meia-vida
eritrocítica	chega	a	um	valor	inferior	a	20	dias,	 instala-se	a	anemia.	Quando	a	meia-vida	está	reduzida,	mas	não	a	ponto	de	causar	anemia,	dizemos	que	há	"hemólise
compensada".	Perceba	que	um	estado	de	hemólise	compensada	pode	evoluir	rapidamente	para	anemia	hemolítica	se	houver	qualquer	problema	que	afete	a	eritropoiese,
tal	como	a	redução	dos	estoques	de	ferro,	ácido	fólico	ou	B12,	ou	uma	infecção	dos	eritroblastos	pelo	parvovírus	B19	(ver	adiante).
HEMÓLISES	EXTRAVASCULAR	E	INTRAVASCULAR
Na	 hemólise	 extravascular	 (o	 tipo	 mais	 comum),	 as	 hemácias	 são	 destruídas	 no	 tecido	 reticuloendotelial,	 especialmente	 no	 baço,	 pelos	 macrófagos	 dos	 cordões
esplênicos	de	Billroth.	Diversos	são	os	mecanismos...	Alterações	hereditárias	ou	adquiridas	que	afetam	o	citoesqueleto,	a	membrana	ou	a	forma	dos	eritrócitos	dificultam
sua	passagem	pelas	fendas	sinusoidais	e,	portanto,	aumentam	o	contato	das	hemácias	com	os	macrófagos.	O	revestimento	da	membrana	eritrocítica	por	anticorpos	IgG	ou
componentes	do	complemento	(C3b)	permite	o	pronto	reconhecimento	pelos	receptores	macrofágicos,	determinando	uma	destruição	precoce.
Na	hemólise	intravascular,	as	hemácias	são	destruídas	na	própria	circulação	e	seu	conteúdo	é	liberado	no	plasma.	Na	maioria	das	vezes,	esta	forma	de	hemólise	resulta
de	anormalidades	adquiridas,	podendo	ser	induzida	por	trauma	mecânico,	destruição	imunológica	pelo	sistema	complemento	ou	exposição	a	fatores	tóxicos.
CONSEQUÊNCIAS	DA	HEMÓLISE
RESPOSTA	MEDULAR
Fig.	1:	O	papel	do	baço	no	condicionamento	das	hemácias	–	observe	que	o	sangue	da	arteríola	central	(cercado	pela	polpa	branca,	rica	em	linfócitos	B	e	T)	ganha	os	cordões	esplênicos	(espaços
intersticiais,	que	constituem	a	polpa	vermelha),	onde	existem	macrófagos	e	células	reticulares.	Para	voltar	à	circulação,	as	hemácias	precisam	passar	pelas	fenestras	dos	sinusoides	"em	dedo	de
luva",	para	então	penetrar	no	sistema	venular.
A	destruição	de	hemácias	(hemólise),	ao	provocar	uma	tendência	à	anemia,	estimula	a	liberação	de	eritropoetina	pelo	parênquima	renal.	Esse	hormônio	atua	na	medula
óssea,	estimulando	a	maturação	dos	eritroblastos,	que	passam	a	lançar	novas	células	vermelhas	no	sangue.	Quem	são	essas	células?	São	os	reticulócitos	ou	"hemácias
jovens".	As	anemias	que	cursam	com	maior	produção	medular	de	reticulócitos	são	as	anemias	hiperproliferativas.
O	reticulócito	é	uma	célula	um	pouco	maior	que	a	hemácia	madura,	apresentando	um	volume	corpuscular	em	torno	de	108	fl,	contendo	no	citoplasma	fragmentos	de	RNA
ribossomal,	 que	dá	o	aspecto	 característico	encontrado	no	 sangue	periférico	pelo	 corante	 supravital	 azul	 de	metileno	novo	 	 ou	azul	 brilhante	de	 cresil.	Os
reticulócitos,	após	serem	lançados	na	circulação,	normalmente	se	tornam	hemácias	maduras	após	um	dia;	esse	é	o	tempo	normal	de	maturação	reticulocitária.	Contudo,
sob	um	forte	estímulo	de	maturação,	a	medula	lança	no	sangue	reticulócitos	mais	imaturos,	denominados	shift	cells,	que	se	caracterizam	por	ser	ainda	maiores	(>	108	fl)	e
por	 ter	 um	 tempo	 de	 maturação	 maior	 (1,5-2,5	 dias).	 As	 "shift	 cells"	 podem	 ser	 identificadas	 no	 esfregaço	 do	 sangue	 periférico	 como	 grandes	 hemácias	 azuladas	
A	presença	dessas	células	confere	o	aspecto	chamado	policromatofilia	ou	policromasia.
A	resposta	medular	também	pode	ser	observada	no	mielograma:	há	intensa	hiperplasia	eritroide,	característica	das	anemias	hemolíticas.
Qualquer	anemia	estimula	a	produção	de	eritropoetina	pelo	 rim,	portanto,	mesmo	em	anemias	 como	a	 ferropriva	e	a	megaloblástica,	há	um	estímulo	à	hiperplasia
eritroide	medular...	A	produção	medular	de	 reticulócitos,	porém,	NÃO	aumenta	nesses	dois	 tipos	clássicos	de	anemia,	pois	há	um	"bloqueio"	na	maturação	da	série
vermelha.	 Na	 verdade,	 ocorre	 sim	 hiperplasia	 eritroide	medular,	mas	 a	 eritropoiese	 é	 "ineficaz",	 levando	 à	 formação	 de	 eritroblastos	 e	 reticulócitos	 anômalos,	 que
acabam	sendo	destruídos	no	interior	da	própria	medula	óssea	(macrófagos	locais	realizam	um	"controle	de	qualidade"	da	produção	medular,	impedindo	a	liberação	de
células	anômalas	para	o	sangue	periférico)!
PRODUÇÃO	DE	BILIRRUBINA	INDIRETA
Assim	que	é	destruída,	a	hemácia	libera	o	seu	conteúdo,	rico	em	hemoglobina.	Os	macrófagos	do	sistema	reticuloendotelial	metabolizam	essa	hemoglobina...	Pela	ação	da
heme	oxigenase,	os	componentes	do	heme	–	 ferro	e	protoporfirina	–	são	separados.	A	protoporfirina	é	 transformada	em	biliverdina	que,	por	sua	vez,	é	convertida	em
bilirrubina	indireta.	Esta	é	lançada	no	plasma	e	transportada	ao	fígado,	 ligada	à	albumina.	O	ferro	é	transportado	pela	transferrina	de	volta	à	medula	óssea	para	ser
incorporado	a	um	novo	eritroblasto	(ciclo	do	ferro).
FORMAÇÃO	DE	CÁLCULOS	BILIARES
Toda	 hemólise	 crônica	 predispõe	 à	 formação	 de	 cálculos	 biliares.	 Os	 principais	 exemplos	 são	 as	 anemias	 hemolíticas	 hereditárias	 (esferocitose	 hereditária,	 anemia
falciforme,	talassemias).	O	aumento	da	produção	de	bilirrubina	pela	hemólise	é	o	fator	predisponente.	Com	maior	concentração	de	bilirrubina	na	bile,	podem	se	formar,	na
vesícula	biliar,	 os	 cálculos	de	bilirrubinato	de	cálcio.	 Por	 conterem	cálcio,	 a	maioria	dos	 cálculos	de	bilirrubina	 são	 radiopacos	 (aparecem	na	 radiografia	 simples	de
abdome),	ao	contrário	dos	cálculos	de	colesterol.	A	litíase	biliar	pode	acarretar	complicações,	como	colecistite	aguda	e	colangite,	manifestando-se	com	icterícia	acentuada,
à	custa	de	bilirrubina	direta	(colestase).	Diante	de	uma	criança	com	episódio	de	crise	biliar,	principalmente	na	presença	de	cálculos	radiopacos,	até	prova	em	contrário,	o
diagnóstico	é	de	anemia	hemolítica	hereditária!
CONTAGEM	DE	RETICULÓCITOS	(ÍNDICES	CORRIGIDOS)
(Figura	2)	
(Figura	3).	
Fig.	2:	Reticulócitos	(coloração	pelo	azul	de	metileno	novo).
Fig.	3:	Shift	cells	(setas),	coloração	convencional	(Wright).
Em	pessoas	normais,	os	reticulócitos	constituem	menos	de	2,5%	do	total	de	eritrócitos,	o	que	corresponde	a	um	valor	absoluto	menor	do	que	100.000	células/mm³.	O
termo	"reticulocitose"	não	 indica	simplesmente	umaumento	no	percentual	de	reticulócitos	na	periferia,	nem	mesmo,	unicamente,	o	seu	número	absoluto	por	mm³.	Na
verdade,	"reticulocitose"	refere-se	a	um	aumento	na	produção	medular	de	reticulócitos!
Para	 que	 a	 contagem	 reticulocitária	 (em	percentual)	 possa	 refletir	 fielmente	 a	 produção	medular	 de	 reticulócitos,	 precisa	 ser	 corrigida	 para	 dois	 fatores:	 (1)	 grau	 de
anemia;	e	(2)	tempo	de	maturação	reticulocitária.
A	primeira	correção	espelha	o	número	absoluto	de	reticulócitos,	determinando-se	o	chamado	de	Índice	de	Reticulócitos	Corrigido	(IRC).	Veja	o	cálculo...
Pelo	hematócrito:	IRC	=	%	retic.	x	Ht/40
Pela	hemoglobina:	IRC	=	%	retic.	x	Hb/15
Os	números	40	e	15	são	os	valores	médios	normais	para	hematócrito	e	hemoglobina,	respectivamente.
Para	entender	o	IRC,	vamos	dar	um	exemplo:	um	paciente	anêmico	possui	Hb	=	7,5	g/dl,	hematimetria	=	2	milhões/mm³	e	reticulócitos	=	4%.	A	primeira	impressão	é
que	ele	tem	reticulocitose...	Mas	isso	não	é	verdade,	pois	o	número	absoluto	de	reticulócitos	encontra-se	normal:	4%	de	2	milhões	=	80.000/mm³,um	número	inferior	ao
limite	de	100.000/mm³.	Utilizando-se	o	IRC,	o	percentual	de	reticulócitos	será	corrigido	de	4	para	2%	(4%	x	7,5/15),	ou	seja,	na	faixa	normal!
A	segunda	correção	é	necessária	porque,	na	anemia,	a	eritropoetina	estimula	a	medula	a	lançar	no	sangue	as	shift	cells:	reticulócitos	ainda	mais	imaturos	cujo	tempo	de
maturação	no	 sangue	é	de	mais	 ou	menos	dois	 dias,	 o	 dobro	do	normal...	 Perceba	então	que	os	 reticulócitos	 produzidos	durante	um	dia	 correspondem	à	metade	do
número	absoluto	de	reticulócitos	presente	no	sangue.	Logo,	para	estimar	a	produção	medular	reticulocitária,	temos	que	dividir	a	contagem	de	reticulócitos	(ou	o	IRC)	por	2.
Surge	assim	um	novo	 índice,	 no	qual	 estão	embutidas	as	duas	 correções	 (o	 IRC	e	a	 correção	para	o	 tempo	de	maturação	dos	 reticulócitos).	 É	 o	 chamado	 Índice	de
Produção	Reticulocitária	(IPR).	Veja	o	cálculo...
Pelo	hematócrito:	IPR	=	%	retic.	x(Ht/40):2
Pela	hemoglobina:	IPR	=	%	retic.	x(Hb/15):2
Dizemos	que	há	reticulocitose	propriamente	dita	quando	o	IPR	está	acima	de	2	(algumas	fontes	citam	>	2,5).	Isto	significa	que	a	produção	reticulocitária	está	mais	do	que
duas	vezes	aumentada.
Reticulocitose	=	IPR	>	2
Só	as	anemias	hemolíticas	cursam	com	reticulocitose?
Não.	A	 reticulocitose	 também	acontece	em	outra	 forma	de	anemia:	anemia	pós-hemorrágica	aguda.	 A	perda	de	hemácias	para	o	meio	externo	é	 seguida	de	uma
resposta	medular	de	hiperprodução	reticulocitária!	Outra	situação	em	que	se	espera	a	ocorrência	de	reticulocitose	é	no	tratamento	das	anemias	carenciais.	Quando
repomos	ferro,	folato	ou	vitamina	B12	em	pacientes	que	tinham	deficiência	desses	fatores,	a	medula	responde	aumentando	a	produção	de	reticulócitos	até	que	a	anemia
seja	corrigida.
CRISES	ANÊMICAS
As	"crises	anêmicas"	são	as	exacerbações	agudas	de	uma	anemia	hemolítica	crônica.	As	anemias	hemolíticas	hereditárias,	tais	como	a	esferocitose	hereditária	e	a	anemia
falciforme,	são	as	principais	condições	associadas	às	crises	anêmicas.
Crise	aplásica:	é	a	mais	comum	das	"crises	anêmicas".	Algumas	desordens	hemolíticas	crônicas	podem	não	cursar	com	anemia	ou	então	apresentam-se	apenas	com	uma
anemia	de	leve	intensidade.	Entretanto,	qualquer	fator	que	iniba	diretamente	a	eritropoiese	pode	precipitar	uma	anemia	grave	e	sintomática,	uma	vez	que	o	mecanismo
compensatório	passa	a	ser	prejudicado...	Dizemos	então	que	ocorreu	uma	crise	aplásica!	A	principal	etiologia	da	crise	aplásica	é	a	infecção	pelo	parvovírus	B19,	o	vírus
do	eritema	infeccioso,	uma	virose	comum	da	infância	(denominada	quinta	doença),	que	também	pode	infectar	adultos.	A	infecção	por	esse	vírus	pode	ocorrer	sem	febre	ou
rash	cutâneo!	O	vírus	tem	tropismo	pelo	pró-eritroblasto,	que	ao	ser	infectado	perde	a	capacidade	de	se	tornar	reticulócito!!!	A	consequência	imediata	é	uma	anemia	com
reticulocitopenia	 (diagnóstico	 diferencial	 com	 anemia	 hipoproliferativa).	 O	 tratamento	 consiste	 em	hemotransfusão.	 Felizmente,	 nos	 indivíduos	 imunocompetentes	 a
infecção	pelo	parvovírus	B19	é	autolimitada,	com	duração	de	3-7	dias.
Crise	megaloblástica:	o	turnover	aumentado	de	hemácias,	presente	nas	desordens	hemolíticas,	exige	produção	aumentada	de	hemácias	pela	medula	óssea	e,	portanto,
maior	 utilização	 de	 nutrientes	 como	 o	 ferro,	 o	 ácido	 fólico	 e	 a	 vitamina	 B12.	Desses	 três,	 aquele	 que	 tende	 a	 se	 esgotar	 primeiro	 é	 o	ácido	 fólico.	 Na	 ausência	 de
reposição	rotineira	desse	elemento	(1	mg/dia),	é	possível	que	 indivíduos	com	hemólise	crônica	evoluam	progressivamente	com	anemia	megaloblástica	por	carência	de
folato!	Esse	fenômeno	é	mais	comum	nas	gestantes,	nos	etilistas	e	nos	indivíduos	que	apresentam	dietas	deficientes	desta	vitamina.
Crise	 hiper-hemolítica:	 na	maioria	 das	 desordens	 hemolíticas,	 o	 baço	 possui	 um	 papel	 central	 na	 destruição	 periférica	 de	 hemácias.	 Infecções	 virais	 que	 ativam	 o
sistema	reticuloendotelial	podem	aumentar	a	atividade	dos	macrófagos	dos	cordões	esplênicos,	promovendo	uma	exacerbação	do	processo	de	hemólise.	O	paciente	evolui
com	piora	súbita	da	anemia,	associada	a	um	aumento	da	reticulocitose	e	da	esplenomegalia.	Esta	parece	ser	a	crise	anêmica	menos	comum...
Sequestro	esplênico:	é	uma	crise	característica	da	anemia	falciforme	em	crianças	muito	utilizados	na	investigação	diagnóstica	de	uma	anemia.
Hereditárias
Hemoglobinopatias
● Anemia	falciforme	e	variantes	(ExtraV).																													
● Talassemias	(ExtraV).
Defeitos	do	citoesqueleto
● Esferocitose	hereditária	(ExtraV).
● Eliptocitose	hereditária	(ExtraV).
● Piropoiquilocitose	hereditária	(ExtraV,	IntraV).
Defeitos	enzimáticos
● Deficiência	de	G6PD	(IntraV).
● Deficiência	de	piruvato	quinase	(ExtraV).
Outras
● Abetalipoproteinemia	(acantócitos	–	ExtraV).
● Estomatocitose	hereditária	(ExtraV).
● Xerocitose	hereditária	(ExtraV).
Adquiridas
Anemia	imuno-hemolítica	(ExtraV)
● Hemólise	autoimune.
● Hemólise	autoimune	por	medicamentos.
● Hemólise	aloimune	(reação	transfusional).
Hiperesplenismo	(ExtraV)
● Esplenomegalia	congestiva.
Insuficiência	hepática	grave
● Anemia	com	acantócitos	(ExtraV).
Hemoglobinúria	paroxística	noturna	(IntraV)
● Com	aplasia	de	medula.
● Sem	aplasia	de	medula.
Anemia	hemolítica	microangiopática	(IntraV)
● Síndrome	Hemolítico-Urêmica	(SHU).
● Púrpura	Trombocitopênica	Trombótica	(PTT).
● Síndrome	HELLP	(gestação).
● Hipertensão	maligna.
● Crise	renal	da	esclerodermia.
● CIVD.
Outras	anemias	hemolíticas	intravasculares
● Prótese	valvar	cardíaca.
● Lesão	térmica	(queimadura,	etc.).
● Lesão	osmótica	(água	destilada	IV,	etc.).
● Hemólise	do	corredor.
● Malária,	babesiose,	bartonelose.
● Sepse	por	Clostridium	sp.
● Drogas	(ex.:	dapsona).
● Envenenamentos	(cobras,	aranhas).
DESIDROGENASE	LÁCTICA	(LDH)
A	LDH	está	quase	sempre	elevada	na	hemólise,	devido	à	liberação	dessa	enzima	do	interior	das	hemácias.	Os	níveis	plasmáticos	de	LDH	não	ficam	tão	elevados	como	na
anemia	megaloblástica,	 alcançando	uma	média	em	 torno	de	580	U/ml,	 variando	entre	285-1.160	U/ml	 (normal:	 até	240	U/ml).	Na	anemia	megaloblástica,	 o	 valor	da
enzima	atinge	um	valor	médio	de	3.800	U/ml.	A	 isoforma	elevada	na	hemólise	é	a	 LDH-2,	em	vez	da	LDH-1,	elevada	na	megaloblastose.	A	LDH-1	é	uma	enzima	que
também	se	eleva	em	diversas	condições	não	hematológicas	(ex.:	IAM	e	TEP	–	pela	necrose	de	células	miocárdicas	e	do	parênquima	pulmonar,	respectivamente).
A	anemia	megaloblástica	ainda	pode	cursar	com	outros	parâmetros	sugestivos	de	hemólise	(além	do	aumento	do	LDH)	como	a	hiperbilirrubinemia	indireta	(com	leve
icterícia)	 e	 a	 redução	 da	 haptoglobina	 (ver	 adiante).	 Nesse	 tipo	 de	 anemia,	 há	 uma	 intensa	 destruição	 intramedular	 de	 precursores	 eritroides	 hemoglobinizados
(eritropoiese	ineficaz).	A	diferenciação	é	feita	pelo	índice	de	reticulócitos:	normal	ou	baixo	na	megaloblastose.
HAPTOGLOBINA
A	haptoglobina,	uma	alfaglobulina	sintetizada	pelo	fígado,	é	capaz	de	se	ligar	à	fração	globina	da	hemoglobina.	Na	presença	de	hemólise	(intravascular	ou	extravascular),
as	 cadeias	 de	 globina	 liberadas	 unem-se	 à	 haptoglobina;	 este	 complexo	 é	 rapidamente	 "clareado"	 pelos	 hepatócitos.	 Os	 níveis	 séricos	 de	 haptoglobina	 diminuem	 ou
tornam-se	indetectáveis	na	presença	de	hemólise.
Um	estudo	mostrou	que	um	nível		108	fl).	Nas	hemólises	graves,	o	VCM	pode	chegar	eventualmente	até
120	fl.
HEMATOSCOPIA
As	 hemólises	 agudas	 graves	 frequentemente	 cursam	 com	 intensa	 policromatofilia	 no	 sangue	 periférico	 (presença	 das	 shift	 cells).	 Anisocitose	 e	 poiquilocitose	 são
achados	comuns.	Diversos	pecilócitos	correlacionam-se	a	certas	etiologias.	Vamos	relembrar	as	principais.
Video_03_Hem1
Tab.	2
ANEMIAS	HEMOLÍTICAS	HEREDITÁRIAS
ALTERAÇÕES	DO	CITOESQUELETO	E	MEMBRANA	ERITROCÍTICA
Video_04_Hem1
O	citoesqueleto	da	membrana	eritrocitária
A	membrana	do	eritrócito	é	sustentada	por	uma	rede	de	proteínas	que	formam	um	citoesqueleto,	como	mostra	a	 A	espectrina,	uma	proteína	fibrilar	em	forma	de
hélice	(cadeias	alfa	e	beta),	é	o	principal	constituinte	do	sistema.	A	 interação	espectrina-actina	é	fundamental	para	a	manutenção	da	rede	("forças	horizontais"),	sendo
reforçada	pela	proteína	4.1.	O	ancoramento	das	fibras	de	espectrina	na	membrana	eritrocítica	("forças	verticais")	é	 feito	pela	anquirina,	que	serve	como	ponte	entre	a
espectrina	e	a	proteína	banda	3	(glicoforina).	A	interação	anquirina-espectrina	é	reforçada	pela	proteína	4.2	(palidina).
De	uma	 forma	geral,	 defeitos	 genéticos	 das	 "forças	 verticais"	 (espectrina,	 anquirina,	 banda	3,	 proteína	4.2)	 levam	à	esferocitose	 hereditária,	 enquanto	que	defeitos
genéticos	das	"forças	horizontais"	(espectrina,	actina,	proteína	4.1)	levam	à	eliptocitose	hereditária	e	suas	variantes.
Microesferócitos
● Esferocitose	hereditária.
● Anemia	imuno-hemolítica.
Eliptócitos
● Eliptocitose	hereditária.
Células	Afoiçadas	(drepanócitos)
● Anemia	falciforme.
● Variantes	falcêmicas.
Hemácias	em	Alvo	(leptócitos)
● Hemoglobinopatia	SC.
● Talassemias.
● Hepatopatia.
Esquizócitos	(fragmentos	de	hemácia)
● Microangiopática.
● Prótese	valvar.
● Queimadura.
Acantócitos
● Insuficiência	hepática	grave.
● Abetalipoproteinemia.
Figura	4.	
Fig.	4:	O	citoesqueleto	que	sustenta	e	dá	forma	à	membrana	dahemácia.
O	 citoesqueleto	 da	 membrana	 eritrocitária,	 além	 de	 dar	 sustentação	 à	 membrana	 e	 garantir	 a	 forma	 bicôncava,	 confere	 a	 propriedade	 de	 maleabilidade	 ou
deformabilidade	característica	dos	eritrócitos,	tão	necessária	para	a	passagem	dessas	células	através	das	fendas	sinusoidais	do	leito	esplênico.
ESFEROCITOSE	HEREDITÁRIA
PATOGÊNESE
A	esferocitose	hereditária	é	uma	desordem	autossômica	dominante	em	80%	dos	casos,	e	autossômica	recessiva	nos	20%	restantes.	É	caracterizada	por	deficiências	em
graus	 variados	 de	 uma	 das	 seguintes	 proteínas	 do	 citoesqueleto:	 espectrina,	 anquirina,	 banda	 3,	 proteína	 4.2.	 A	 deficiência	 de	 anquirina	 acarreta	 uma	 deficiência
secundária	de	espectrina,	pois	a	primeira	é	necessária	para	a	incorporação	da	última	à	membrana	do	eritrócito...	Recentemente,	observou-se	que,	de	todos	os	casos	de
esferocitose	hereditária,	a	deficiência	mais	comum	é	a	da	anquirina	(40-50%	dos	casos),	seguida	pela	deficiência	da	banda	3	(20%	dos	casos)	e	das	cadeias	alfa	ou	beta	da
espectrina	(10%	dos	casos).
FISIOPATOLOGIA
A	 deficiência	 do	 ancoramento	 da	 espectrina	 no	 citoesqueleto	 eritrocitário	 ("forças	 verticais")	 leva	 à	 perda	 de	 fragmentos	 da	 camada	 lipídica	 da	membrana.	 A	 célula,
portanto,	perde	superfície	em	relação	ao	volume,	acabando	com	seu	formato	bicôncavo	e	transformando-se	em	um	esferócito.	Os	esferócitos,	ao	passarem	pelos	cordões
esplênicos,	não	conseguem	se	deformar	o	suficiente	para	penetrar	nas	fendas	sinusoidais,	ficando	mais	tempo	em	contato	com	os	macrófagos.	A	primeira	consequência	é
a	perda	de	pequenos	"pedaços"	de	membrana,	transformando-os	em	microesferócitos	( ).	São	essas	células	que	se	encontram	presentes	no	sangue	periférico	do
paciente.	 Na	 passagem	 pelo	 baço,	 alguns	 esferócitos	 e	 microesferócitos	 são	 fagocitados	 e	 destruídos,	 gerando	 hemólise	 crônica.	 A	 forma	 inversa	 ao	 esferócito	 ou
microesferócito	 é	 a	 hemácia	 em	 alvo	 (leptócito),	 presente	 nas	 talassemias,	 anemia	 ferropriva	 e	 doença	 hepática	 (pelo	 aumento	 de	 certos	 lipídios	 na	 membrana
eritrocítica).	O	esferócito	e	o	microesferócito	são	células	com	pouca	superfície	de	membrana	em	relação	ao	volume,	enquanto	a	hemácia	em	alvo	é	uma	célula	com	muita
superfície	de	membrana	em	relação	ao	volume.
CLÍNICA
O	grau	de	anemia	geralmente	é	moderado,	mas	pode	ser	leve,	grave	ou	mesmo	não	haver	anemia	(apenas	hemólise	compensada).	O	cenário	diagnóstico	típico	é	o	de
uma	criança	submetida	à	investigação	de	esplenomegalia.
A	presença	de	anemia	leve	a	moderada,	icterícia	discreta	e	esplenomegalia,	numa	criança	ou	adulto	jovem,	sugere	o	diagnóstico.	Eventualmente,	a	manifestação	clínica
predominante	 é	 a	 litíase	 biliar	 por	 cálculo	 de	 bilirrubinato	 de	 cálcio	 (crise	biliar).	 Talvez	 o	 quadro	mais	 preocupante	 seja	 o	 da	crise	aplásica	 (anemia	 aguda	grave
sintomática,	com	reticulocitopenia,	após	infecção	pelo	parvovírus	B19).	Outras	crises	anêmicas	da	hemólise	crônica	podem	ocorrer,	como	a	crise	hemolítica	(hiperfunção
esplênica	durante	infecções)	e	a	crise	megaloblástica	(deficiência	relativa	de	folato).
Uma	manifestação	eventualmente	encontrada	é	a	icterícia	neonatal	(nos	primeiros	dois	dias	do	nascimento),	que	às	vezes	é	grave	o	suficiente	para	causar	kernicterus.	O
diagnóstico	costuma	ser	difícil	neste	momento,	pois	a	esferocitose	periférica	é	um	achado	inespecífico	desta	faixa	etária.
LABORATÓRIO
Anemia	 leve	 a	 moderada	 (raramente	 grave),	 micro	 ou	 normocítica,	 com	 hemácias	 tipicamente	 HIPERcrômicas	 (aumento	 do	 CHCM),	 além	 de	 reticulócitos	 e
microesferócitos	 no	 esfregaço	 de	 sangue	 periférico.	 Perceba	 que	 a	 esferocitose	 hereditária	 é	 a	 causa	 clássica	 de	 anemia	 hipercrômica...	 Outras	 etiologias	 de
microesferocitose	são:	anemia	imuno-hemolítica	e	algumas	variantes	da	eliptocitose	hereditária.
DIAGNÓSTICO
O	 diagnóstico	 de	 esferocitose	 hereditária	 é	 dado	 pelo	 encontro	 de	 anemia	 hemolítica	 crônica	 (laboratorialmente	 confirmada),	 na	 presença	 de	 reticulócitos	 e
microesferócitos	no	sangue	periférico	e	na	ausência	de	um	teste	de	Coombs	direto	positivo	(afastando	anemia	 imuno-hemolítica,	outra	causa	de	microesferocitose).	Às
vezes,	cumpre	ressaltar	que	os	esferócitos	e	microesferócitos	não	são	bem	visualizados	na	hematoscopia...
Na	 dúvida	 quanto	 à	 presença	 de	microesferócitos,	 o	 teste	de	 fragilidade	osmótica	 é	 classicamente	 indicado!	 Sua	 positividade	 indica	microesferocitose	 em	grande
número	 de	 hemácias.	 Os	 microesferócitos,	 por	 terem	 uma	 área	 de	 superfície	 pequena	 em	 relação	 ao	 volume	 eritrocítico,	 são	 exageradamente	 sensíveis	 à	 hipo-
osmolaridade	(isto	é,	ao	 reduzirmos	artificialmente	a	osmolaridade	do	meio	de	suspensão,	as	hemácias	não	 toleram	a	entrada	de	água	no	citoplasma	e	se	 rompem)...
Embora	muito	útil	para	o	diagnóstico	presuntivo,	o	teste	da	fragilidade	osmótica	possui	acurácia	subótima	para	a	doença.	Além	de	resultados	falso-positivos	em	outras
anemias	(ex.:	imuno-hemolítica),	apresenta	resultado	falso-negativo	em	10-20%	dos	pacientes	com	esferocitose	hereditária.	Condições	responsáveis	pelos	falso-negativos:
anemia	ferropriva,	 icterícia	colestática,	 reticulocitose	presente	na	recuperação	de	uma	crise	aplásica	(o	reticulócito	tem	maior	resistência	osmótica)	e	desidratação	dos
microesferócitos	ou	esferócitos.
Figura	5
Fig.	5:	Microesferócitos	no	sangue	periférico.
Atualmente	existem	também	testes	genéticos	que	pesquisam	a	existência	de	mutações	associadas	à	esferocitose	hereditária.	Todavia,	são	testes	disponíveis	apenas	em
laboratórios	de	pesquisa,	desnecessários	para	a	confirmação	diagnóstica	na	maioria	dos	casos...
TRATAMENTO
O	tratamento	recomendado	é	a	esplenectomia,	exceto	para	os	pacientes	com	anemia	leve	ou	com	hemólise	compensada.	A	esplenectomia	(ao	remover	o	principal	sítio
de	hemólise)	previne	a	anemia	e	as	demais	complicações	da	doença,	embora	não	elimine	os	esferócitos	do	sangue	periférico.	Em	crianças,	ela	deve	ser	evitada	antes	dos
quatro	 anos	 de	 idade,	 período	 de	 maior	 risco	 de	 sepse	 fulminante	 por	 germes	 encapsulados	 (ex.:	 pneumococo	 e	 hemófilo).	 A	 vacina	 antipneumocócica	 deve	 ser
administrada	 em	 todos	 os	 indivíduos	 antes	 do	 procedimento,	 e	 o	 uso	 de	 penicilina	 profilática	 após	 a	 cirurgia	 é	 controverso.	 De	 qualquer	 forma,	 é	 necessária	 uma
suplementação	constante	com	ácido	fólico	(1	mg/dia),	a	fim	de	evitar	a	crise	megaloblástica.	A	crise	aplásica	deve	ser	prontamente	tratada	com	hemotransfusão.
ELIPTOCITOSE	HEREDITÁRIA
A	 eliptocitose	 hereditária	 é	 uma	 desordem	 autossômica	 dominante,	 caracterizada	 por	 um	 distúrbio	 na	 síntese	 da	 espectrina	 ou	 da	 proteína	 4.1,	 afetando	 as	 "forças
horizontais"	 do	 citoesqueleto	 da	 membrana	 eritrocítica.	 A	 maioria	 dos	 indivíduos	 é	 assintomática,	 apresentando	 hemólise	 leve,	 não	 acompanhada	 de	 anemia	 ou
esplenomegalia.	 O	 sangue	 periférico	 revela	 ovalócitos	 e	 eliptócitos	 os	 quais	 não	 possuem	 correlação	 com	 o	 grau	 de	 hemólise.	 A	 ectacitometria	 (ver
anteriormente)	demonstra	a	existência	de	um	defeito	na	deformabilidade	dessas	hemácias	em	função	de	variações	na	osmolaridade	do	meio.	Nos	eventuais	casos	que
evoluem	com	episódios	hemolíticos	frequentes	e	graves,	devemos	indicar	a	esplenectomia,	que	corrige	a	hemólise,	mas	não	a	anormalidade	apresentada	pela	hemácia.
PIROPOIQUILOCITOSE	HEREDITÁRIA
A	piropoiquilocitose	é	um	distúrbio	autossômico	recessivo	muito	raro.	Tem	como	manifestação	clínica	uma	anemia	hemolítica	grave	(necessitando	de	esplenectomia)	e
presença	de	poiquilócitos	bizarros,	além	de	hemácias	 fragmentadas	no	sangue	periférico.	A	anemia	é	microcítica.	A	anormalidade	estrutural	 também	consiste	em	um
defeito	 na	 síntese	 de	 espectrina.	 Em	 laboratório,	 essas	 hemácias	 fragmentam-se	 quando	 aquecidas	 a	 45ºC	 em	 vez	 de	 49ºC,	 como	 é	 o	 normal	 (daí	 o	 nome
piropoiquilocitose;	piro	=	calor).
ESTOMATOCITOSE	HEREDITÁRIA
Trata-sede	uma	doença	de	caráter	autossômico	dominante.	O	defeito	de	membrana	permite	que	haja	grande	 influxo	de	sódio	e	água	para	o	 interior	da	hemácia.	Esta
torna-se	edemaciada	com	uma	redução	de	sua	hemoglobina	corpuscular	média.	A	hemácia	super-hidratada	é	vista	no	sangue	periférico	com	uma	área	de	palidez	central
semelhante	a	uma	boca,	sendo	denominada	de	estomatócito	( ).	
SAIBA	MAIS...
Um	 novo	 método	 laboratorial	 que	 vem	 sendo	 empregado	 no	 lugar	 do	 teste	 de	 fragilidade	 osmótica	 para	 diagnóstico	 dos	 defeitos	 da	 membrana	 eritrocitária	 é	 a
ectacitometria.	Um	aparelho	chamado	viscômetro	de	difração	por	 laser	permite	uma	análise	quantitativa	e	precisa	da	deformabilidade	das	hemácias	em	 função	da
variação	na	 osmolaridade	do	meio	de	 suspensão.	As	 hemácias	 dos	 portadores	de	 esferocitose	 e	 eliptocitose	hereditária	 fornecem	curvas	de	 ectacitometria	 bastante
características,	bem	diferentes	daquelas	observadas	nas	hemácias	cuja	membrana	é	normal...
(Figura	6),	
Fig.	6:	Os	eliptócitos	no	sangue	periférico.
Figura	7
A	maioria	dos	pacientes	possui	esplenomegalia	e	anemia	hemolítica.	A	esplenectomia	deve	ser	evitada,	pois	se	associa	à	ocorrência	de	eventos	tromboembólicos	graves
(possivelmente	devido	à	trombocitose	secundária,	que	se	desenvolve	após	a	retirada	do	baço).	Devemos	memorizar	que	o	estomatócito	pode	estar	presente	em	afecções
adquiridas	e	não	relacionadas	à	hemólise,	como	o	alcoolismo	e	a	doença	hepática.
DEFEITOS	ENZIMÁTICOS
A	 hemácia	 é	 uma	 célula	 com	 metabolismo	 muito	 simples...	 Sua	 energia	 (o	 ATP	 intracelular)	 é	 empregada	 em	 dois	 processos	 básicos:	 (1)	 manter	 a	 Na-K-ATPase
funcionante;	 e	 (2)	 regenerar	 lipídios	 da	 membrana.	 Existem	 duas	 vias	 metabólicas	 principais:	 (1)	 via	 glicolítica	 (Embden-Meyerhof),	 responsável	 pelo	 fornecimento
energético	 (síntese	de	ATP);	e	 (2)	 via	do	NADPH	 (shunt	da	hexose-monofosfato),	que	depende	diretamente	da	via	glicolítica	e	 tem	como	objetivo	 transformar	o	NADP
(forma	oxidada)	em	NADPH	(forma	reduzida).	O	NADPH	regenera	o	glutation	intracitoplasmático	(fornecendo	elétrons	para	ele,	isto	é,	"reduzindo"	o	glutation	oxidado).	O
glutation	é	o	pivô	do	principal	sistema	"tampão",	que	protege	a	célula	contra	o	estresse	oxidativo	(sua	forma	reduzida	sequestra	e	reage	com	radicais	livres	de	oxigênio,
impedindo	que	eles	causem	danos	às	estruturas	celulares).
Ambas	as	vias	do	metabolismo	podem,	em	maior	ou	menor	grau,	apresentar	defeitos	em	suas	enzimas,	o	que	pode	levar	à	destruição	acelerada	de	hemácias	(anemia
hemolítica)...	Discutiremos	cada	uma	em	separado.
DEFICIÊNCIA	DE	G6PD	(SHUNT	DA	HEXOSE-MONOFOSFATO)
A	deficiência	enzimática	mais	comum	desta	via	é	representada	pela	glicose-6-fosfato	desidrogenase	(G6PD).	Esta	desordem	hereditária	é	extremamente	comum	em	todo	o
mundo,	afetando	cerca	de	200	milhões	de	pessoas.	Por	ter	uma	herança	recessiva	ligada	ao	X,	é	mais	frequente	(porém	não	exclusiva)	no	sexo	masculino.	O	shunt	da
hexose-monofosfato	 tem	 por	 função	 regenerar	 o	 glutation	 reduzido,	 elemento	 que	 protege	 a	 hemoglobina	 e	 a	membrana	 da	 hemácia	 de	 radicais	 livres	 derivados	 do
oxigênio.	Estes	últimos	são	formados	apenas	durante	processos	infecciosos,	exposição	a	drogas,	toxinas,	etc.
GENÉTICA	E	PATOGENIA
Existem	dois	tipos	de	enzima	G6PD	consideradas	normais	("tipo	A"	e	"tipo	B"),	diferenciadas	apenas	pela	sua	mobilidade	eletroforética.	A	enzima	"tipo	B",	representada
como	GdB,	é	a	mais	comum,	sendo	encontrada	em	99%	dos	brancos	e	70%	dos	negros.	A	enzima	"tipo	A",	representada	como	GdA+,	praticamente	não	existe	na	raça
branca,	sendo	exclusividade	dos	negros,	pardos	e	mestiços.	Cerca	de	20%	dos	negros	possui	esta	variante.
A	deficiência	de	G6PD,	na	verdade,	é	definida	pela	presença	de	um	mutante	enzimático,	com	atividade	reduzida	e/ou	meia-vida	curta.	 Já	 foram	descritos	cerca	de	150
mutantes	diferentes...	Os	dois	principais	mutantes	responsáveis	pela	doença	são:	(1)	GdA-	(variação	patológica	da	enzima	GdA+),	encontrado	em	8-10%	dos	negros;	e	(2)
GdMed	 ou	mediterrâneo	 (variação	patológica	da	enzima	GdB),	 encontrado	na	população	de	ascendência	 italiana,	 bem	como	em	gregos,	 árabes	e	 judeus	 sefarditas.	O
primeiro	tipo	(GdA)	está	associado	a	um	quadro	mais	brando	de	deficiência	de	G6PD,	enquanto	que	o	segundo	tipo	(GdMed)	confere	uma	evolução	clínica	bem	mais	grave...
O	que	acontece	na	deficiência	de	G6PD?
A	meia-vida	da	G6PD	normal	é	de	60	dias,	portanto,	até	o	final	da	vida	de	uma	hemácia	(120	dias)	ainda	existe	alguma	atividade	enzimática	presente.	O	mutante	GdA-	(dos
negros	e	pardos)	apresenta	uma	meia-vida	reduzida,	em	torno	de	13	dias.	Neste	caso,	as	hemácias	jovens	estão	protegidas	contra	a	oxidação!	Somente	as	hemácias	mais
velhas	sofrerão	destruição,	em	caso	de	estresse	oxidativo.	Já	o	mutante	GdMed	(dos	brancos)	tem	uma	atividade	reduzida	desde	o	início	da	vida	eritrocitária.	Logo,	tanto	as
hemácias	jovens	quanto	as	velhas	estão	suscetíveis	à	hemólise!	Por	isso,	esta	forma	é	a	mais	grave...
Como	ocorre	a	hemólise	na	deficiência	de	G6PD?
O	paciente	se	apresenta	com	"crises	hemolíticas",	sempre	precipitadas	por	algum	estresse	oxidativo.	O	mais	comum	é	a	INFECÇÃO,	por	ativar	neutrófilos	que	produzem
radicais	livres	de	oxigênio.	Diversas	DROGAS	ou	substâncias	com	potencial	oxidante	também	costumam	desencadear	as	crises:
Sete	drogas	comprovadamente	iniciam	hemólise	nos	portadores	de	deficiência	de	G6PD:	dapsona,	fenazopiridina	(Pyridium®),	primaquina,	nitrofurantoína,	azul
de	metileno,	azul	de	toluidina	e	rasburicase.	Logo,	qualquer	uma	delas	está	terminantemente	proibida	nesses	indivíduos...	Outras	têm	associação	mais	ou	menos
controversa,	devendo-se,	de	um	modo	geral,	evitá-las:	sulfonamidas,	ácido	nalidíxico	e	naftaleno	("bolinhas	de	naftalina").	No	caso	do	AAS,	vitamina	C	e	vitamina	K,
embora	haja	relatos	de	precipitação	de	crises	hemolíticas,	elas	só	acontecem	numa	forma	bastante	grave	e	rara	da	síndrome...
Fig.	7:	Os	estomatócitos	no	sangue	periférico	–	caracterizados	pelo	centro	pálido	em	forma	de	boca.
Diversas	moléculas	 são	oxidadas:	proteínas,	 lipídios	da	membrana	e	a	própria	hemoglobina.	O	 ferro	oxidado	 forma	metemoglobina,	 incapaz	de	se	 ligar	ao	oxigênio.	A
desnaturação	oxidativa	da	cadeia	de	globina	produz	precipitados	intracelulares	de	hemoglobina	desnaturada,	os	corpúsculos	de	Heinz	( ).	Tais	corpúsculos	se
ligam	à	banda	3	da	membrana	eritrocítica,	formando	agregados	dessa	proteína.	Esses	agregados	tornam-se	"neoantígenos",	promovendo	a	ligação	de	autoanticorpos	IgG
na	 superfície	 das	 hemácias.	 Ao	 passar	 pelos	 cordões	 esplênicos,	 os	macrófagos	 retiram	 os	 corpúsculos	 de	 Heinz,	 deixando	 uma	 série	 de	 hemácias	 "com	 um	 pedaço
arrancado",	as	famosas	"células	mordidas"	e	"células	bolhosas"	( ).	Além	da	hemólise	esplênica	(extravascular),	destaca-se	também	a	hemólise	INTRAVASCULAR,
decorrente	da	rotura	da	membrana,	resultado	da	peroxidação	de	seus	lipídios.
CLÍNICA,	DIAGNÓSTICO,	TRATAMENTO	E	PROGNÓSTICO
Clinicamente,	o	paciente	se	apresenta	com	hemólise	intravascular	aguda,	associada	a	febre,	lombalgia,	palidez	e	icterícia,	precipitada	por	uma	infecção	(ex.:	Escherichia
coli,	estreptococo	beta-hemolítico,	hepatite	viral)	ou	pela	administração	de	uma	das	drogas	listadas	acima...	O	quadro	clínico	se	instala	geralmente	2-4	dias	após	o	fator
precipitante.
A	intensa	hemoglobinúria	pode	lesar	os	túbulos	renais,	levando	à	necrose	tubular	aguda,	com	insuficiência	renal	aguda	oligúrica,	que	pode	ser	grave	e	necessitar	de
suporte	dialítico.	Em	casos	mais	agressivos,	o	colapso	vascular	pode	sobrevir,	decorrente	de	uma	anemia	aguda	muito	grave.
Nos	negros	 (mutante	GdA-),	 o	processo	é	mais	brando	 (anemia	 leve	a	moderada)	e	 sempre	autolimitado,	 a	despeito	do	estímulo	 continuado,	pois	as	hemácias	mais
jovens	possuem	uma	quantidade	maior	de	G6PD	funcionante.	Um	pico	de	reticulócitos	é	observado	entre	7-10	dias	após	o	início	da	anemia;	o	hematócrito	começa	a	subir
após	uma	semana	da	instalação	do	quadro...	Nospacientes	de	origem	mediterrânea	(mutante	GdMed),	a	crise	hemolítica	é	mais	grave	e	pode	não	ser	autolimitada,	pois
até	mesmo	os	reticulócitos	neoformados	apresentam	a	enzima	deficiente.
O	 laboratório	 está	 alterado	 durante	 a	 crise,	 revelando	 hemoglobinemia,	hemoglobinúria,	 metalbuminemia,	 além	 dos	 demais	 achados	 clássicos	 de	 qualquer	 anemia
hemolítica.	O	sangue	periférico	apresenta	"células	mordidas"	e	"células	bolhosas".	Numa	coloração	supravital,	observam-se	os	clássicos	(e	já	mencionados)	corpúsculos
de	Heinz	( ).	
Para	o	diagnóstico,	é	só	dosar	a	atividade	da	G6PD	no	sangue	do	paciente.	No	caso	do	mutante	GdA–,	o	diagnóstico	só	poderá	ser	feito	com	o	sangue	colhido	após	6-8
semanas	da	crise,	quando	as	hemácias	já	se	tornaram	mais	velhas...
Não	 há	 tratamento	 específico,	 apenas	 a	 hemotransfusão	 e	 o	 suporte	 clínico	 nos	 casos	 graves.	 O	 principal	 é	 a	 profilaxia	 das	 crises,	 evitando	 o	 uso	 das	 substâncias
potencialmente	oxidativas	e	tratando	de	forma	adequada	e	precoce	as	infecções.
DEFICIÊNCIA	DE	PIRUVATO	QUINASE	(VIA	DE	EMBDEN-MEYERHOF)
Como	vimos,	um	defeito	nesta	via	do	metabolismo	ocasionará	uma	queda	na	produção	de	energia	das	hemácias	(ATP),	o	que	resultará	em	disfunção	da	membrana,	pois
seus	lipídios	não	serão	renovados.	Esse	evento	se	traduz	por	rigidez	da	célula	e	destruição	precoce	no	baço.	Cerca	de	95%	dos	defeitos	observados	se	devem	à	deficiência
(de	caráter	autossômico	recessivo)	de	piruvato	quinase.
O	grau	de	hemólise	é	variável.	Os	 indivíduos	gravemente	afetados	apresentam	a	desordem	desde	a	 infância,	 acompanhada	de	 icterícia	e	esplenomegalia.	Gravidez	e
infecções	 intercorrentes	podem	precipitar	uma	crise	hemolítica.	A	análise	do	sangue	periférico	pode	demonstrar	eritrócitos	bizarros	e	múltiplos	equinócitos	 (hemácias
crenadas),	porém	não	se	observa	esferocitose.	Cuidado:	hemácias	crenadas	ou	equinócitos	são	frequentemente	encontrados	em	esfregaços	tecnicamente	mal	preparados!
O	 teste	da	 fragilidade	osmótica	das	hemácias	 é	negativo.	A	maioria	 dos	pacientes	não	necessita	 de	 tratamento,	 a	 não	 ser	 a	 prescrição	de	ácido	 fólico	para	 os	 casos
moderados	a	graves.	A	esplenectomia	é	recomendada	em	casos	graves.
ANEMIAS	HEMOLÍTICAS	ADQUIRIDAS
Figura	8
Figura	8
Fig.	8:	(A)	Hemácias	"mordidas"	ou	"irregularmente	contraídas".	(B)	Corpúsculos	de	Heinz	na	coloração	supravital.
Figura	8
SAIBA	MAIS...
Assim	como	acontece	em	diversas	hemoglobinopatias,	como	a	anemia	falciforme	e	as	talassemias	(ver	adiante),	a	deficiência	de	G6PD	protege	seus	portadores	contra
formas	graves	de	malária!	Isso	explica	porque	esta	condição	é	tão	frequente	em	negros	e	outras	etnias	originárias	de	locais	com	alta	endemicidade	daquela	infecção...
Assim	que	o	Plasmodium	invade	a	hemácia,	ele	produz	radicais	livres	de	oxigênio.	Logo,	as	hemácias	deficientes	em	G6PD	acabam	sendo	rapidamente	destruídas,	o	que
impede	 o	 surgimento	 de	 altos	 níveis	 de	 parasitemia!	 Curiosamente,	 existem	 evidências	 de	 que	 portadores	 de	 deficiência	 de	 G6PD	 também	 têm	 menos	 doença
coronariana,	além	de	uma	menor	incidência	de	neoplasias.	A	explicação	para	estes	dois	últimos	achados	não	foi	totalmente	elucidada,	mas	possivelmente	justifica	uma
maior	expectativa	de	vida	para	esses	indivíduos.
HEMÓLISE	EXTRAVASCULAR
Video_05_Hem1
HIPERESPLENISMO
Como	vimos,	 o	 baço	 é	 um	órgão	encarregado	de	diversas	 funções...	 Uma	delas	 é	 denominada	hemocaterese,	 que	 significa	 a	 destruição	de	hemácias	 senescentes	 ou
defeituosas.	Além	disso,	o	baço	também	funciona	como	uma	espécie	de	"armazenador"	de	plaquetas	e,	em	menor	grau,	de	leucócitos.
Apesar	do	diagnóstico	de	hiperesplenismo	exigir	o	achado	de	esplenomegalia,	suas	manifestações	não	são	diretamente	proporcionais	ao	tamanho	do	baço,	e	nem	toda
esplenomegalia	 causa	 hiperesplenismo...	 De	 uma	 forma	 geral,	 as	 esplenomegalias	 congestivas	 são	 as	 principais	 condições	 associadas	 ao	 hiperesplenismo	 na	 prática
médica.	Duas	causas	assumem	grande	 importância:	(1)	cirrose	hepática;	e	(2)	esquistossomose	hepatoesplênica.	Nessas	entidades,	a	 instalação	da	hipertensão
porta	determina	uma	esplenomegalia	congestiva.
O	baço	destes	pacientes	aumenta	o	seu	poder	de	hemocaterese,	pois	o	sangue	passa	com	maior	morosidade	pelos	cordões	esplênicos	congestos.	O	resultado	é	a	hemólise
extravascular.	Este	tipo	de	anemia	hemolítica	tende	a	ser	leve,	pois	o	poder	de	destruição	do	baço	congesto	geralmente	é	contrabalançado	pelo	aumento	na	produção
de	hemácias	pela	medula	óssea.	A	presença	de	reticulocitose	marca	a	existência	do	processo	hemolítico.
Mais	 importante	 do	 que	 a	 própria	 anemia	 hemolítica	 é	 a	 trombocitopenia	 do	 hiperesplenismo.	 Um	 baço	 normal	 "armazena"	 ou	 "sequestra"	 cerca	 de	 um	 terço	 das
plaquetas	 circulantes.	 Um	 baço	 congesto	 é	 capaz	 de	 "sequestrar"	 um	 percentual	 bem	 maior,	 causando	 plaquetopenia.	 Nos	 casos	 de	 hipertensão	 porta	 grave,	 o
hiperesplenismo	cursa	com	plaquetopenia	na	 faixa	de	30.000-60.000/mm³.	Uma	plaquetopenia	menor	do	que	esses	valores	deve	 levar	à	suspeita	de	outras	patologias
associadas.	A	neutropenia	por	"sequestro	esplênico"	pode	acompanhar	a	plaquetopenia	em	alguns	casos.	Geralmente	é	uma	neutropenia	leve	a	moderada.	Nos	poucos
casos	de	citopenia	grave	sintomática,	pode	ser	indicada	a	esplenectomia.
Devemos	identificar	quatro	critérios	para	o	diagnóstico	de	hiperesplenismo:
Citopenia	de	uma	ou	mais	linhagens	hematológicas	(plaquetas,	hemácias	e	leucócitos);
Hiperplasia	reativa	compensatória	da	medula	óssea;
Esplenomegalia;
Correção	das	anormalidades	após	esplenectomia	(este	critério	nem	sempre	é	necessário).
O	hiperesplenismo	pode	ser	identificado	e	quantificado	quando	demonstramos	uma	diminuição	da	meia-vida	de	eritrócitos	marcados	com	Cr51,	associada	a	uma	captação
excessiva	pelo	baço	(sequestro).
ANEMIA	HEMOLÍTICA	COM	ACANTÓCITOS
Esta	 anemia	 se	 desenvolve	 em	 5%	 dos	 pacientes	 com	 cirrose	 hepática	 avançada,	 especialmente	 a	 cirrose	 alcoólica.	 São	 pacientes	 que	 já	 possuem	 um	 prognóstico
reservado	pela	sua	doença	de	base	(mortalidade	de	90%	em	um	ano).
A	 hepatopatia	 avançada	 aumenta	 o	 teor	 de	 colesterol	 e	 lecitina	 na	membrana	 eritrocítica,	 gerando	 as	 "famosas"	hemácias	 em	alvo	 (leptócitos).	 Quando	 o	 teor	 de
colesterol	supera	o	de	lecitina,	surge	um	tipo	morfológico	de	hemácia	chamado	acantócito	(spur	cell),	visto	na	 .	Estas	células	parecem	ter	"espinhos".
A	hemólise	se	dá	no	 tecido	esplênico,	uma	vez	que	os	acantócitos	 têm	a	membrana	 rígida,	 reduzindo	a	deformabilidade	eritrocítica,	o	que	dificulta	a	passagem	pelas
fendas	 sinusoidais	 (permitindo	 a	 fagocitose	 pelos	macrófagos).	 Os	 pacientes	manifestam	 um	 quadro	 de	 anemia	 com	 hematócrito	 entre	 15-25%,	 com	 reticulocitose	 e
esplenomegalia.	A	meia-vida	das	hemácias	é	tão	pequena	quanto	seis	dias.	O	tratamento	seria	a	esplenectomia,	mas	o	procedimento	só	está	indicado	nos	poucos	casos
em	que	o	paciente	apresenta	um	risco	cirúrgico	aceitável.
Há	outras	causas	(raras)	de	anemia	hemolítica	com	acantocitose:	uma	doença	hereditária	autossômica	recessiva	chamada	abetalipoproteinemia,	também	conhecida	por
síndrome	de	Bassen-Kornzweig,	além	de	outra	desordem	genética,	chamada	"coreia	com	acantocitose".
ANEMIA	HEMOLÍTICA	AUTOIMUNE	(AHAI)
Esta	é	a	mais	importante	anemia	hemolítica	adquirida,	tanto	pela	sua	frequência	quanto	pelo	seu	potencial	de	gravidade.
Figura	9
Fig.	9:	Acantócitos	na	insuficiência	hepática	grave	(excesso	de	colesterol	na	membrana	plasmática).
A	 hemólise	 imune	 pode	 ser	 induzida	 pela	 ligação	 de	 anticorpos	 e/ou	 componentes	 do	 complemento	 à	 membrana	 da	 hemácia.	 Geralmente,	 ela	 é	 ocasionada	 por
autoanticorpos	 que	 reagem	com	determinados	antígenos	de	membrana	que	constituem	os	grupos	 sanguíneos,	 como	o	 sistema	Rh.	Eventualmente,	 os	aloanticorpos
adquiridos	por	transfusões	prévias	e	gravidez,	podem	desencadear	reação	hemolítica	transfusional.	O	prefixo	"alo"	significa	"de	outro	indivíduoda	mesma	espécie".
O	mecanismo	de	hemólise	na	AHAI	depende	basicamente	de	um	fenômeno	denominado	"opsonização".	Ao	revestirem	a	membrana	eritrocítica,	os	anticorpos	IgG	se	ligam
a	 receptores	 específicos	 (FcγRI)	 dos	macrófagos	 esplênicos,	 permitindo	 a	 fagocitose	 das	 hemácias	 (hemólise	 extravascular).	 Ou	 seja,	 é	 como	 se	 as	moléculas	 de	 IgG
"temperassem"	 as	 hemácias	 para	 serem	 "deglutidas"	 pelos	macrófagos,	 daí	 o	 termo	 "opsonização"	 (do	 grego	 opson	=	 tempero).	 Apenas	 os	 anticorpos	 da	 classe	 IgG
possuem	receptores	nos	macrófagos.
O	componente	C3b	do	sistema	complemento	também	é	capaz	de	"opsonizar"	hemácias.	Os	macrófagos	esplênicos	e	hepáticos	(células	de	Kupffer)	possuem	receptores
para	C3b	em	sua	membrana	e,	portanto,	podem	fagocitar	as	células	revestidas	por	complemento.
A	AHAI	é	composta	de	duas	síndromes	bastante	distintas:
AHAI	por	anticorpos	"quentes"	(IgG);
AHAI	por	anticorpos	"frios"	(IgM).
Na	primeira	os	autoanticorpos	são	do	tipo	IgG.	Eles	se	ligam	à	superfície	do	eritrócito	na	temperatura	corpórea	(em	torno	de	37°C)	e	por	isso	são	chamados	anticorpos
"quentes".	Os	anticorpos	 IgG	são	 fracos	ativadores	do	sistema	complemento:	a	ativação	só	é	possível	quando	duas	moléculas	de	 IgG	estão	bem	próximas	entre	 si	na
superfície	da	hemácia.	Veja	o	resultado:	quando	há	um	pequeno	número	de	anticorpos	 IgG	revestindo	a	hemácia,	a	opsonização	depende	exclusivamente	da	 interação
macrófago-anticorpo;	mas	se	houver	um	grande	número	de	anticorpos	na	membrana	eritrocítica,	o	complemento	é	ativado	e	então	a	hemácia	passa	a	ser	revestida	tanto
por	IgG	quanto	por	C3b	–	isso	aumenta	a	intensidade	da	opsonização	e	a	gravidade	da	hemólise	no	sistema	reticuloendotelial.
Na	segunda	os	autoanticorpos	são	do	tipo	IgM	e	reagem	com	as	hemácias	em	baixas	temperaturas	(0-10°C),	daí	a	denominação	de	anticorpos	"frios"	(crioaglutininas).
Apesar	de	não	servirem	como	agentes	"opsonizantes"	diretos,	os	anticorpos	IgM	são	potentes	ativadores	do	sistema	complemento.	Uma	única	IgM	já	pode	desencadear	a
formação	de	C3b.	Na	prática,	 algumas	poucas	moléculas	de	 IgM	se	 ligam	à	membrana	eritrocítica,	 ativando	o	 complemento,	o	que	 resulta	na	 ligação	de	uma	grande
quantidade	 de	 moléculas	 de	 C3b	 à	 superfície	 das	 hemácias.	 A	 hemólise	 extravascular	 é	 mediada	 pela	 "opsonização"	 dependente	 do	 complemento.	 Os	 macrófagos
hepáticos	(células	de	Kupffer)	são	os	grandes	responsáveis	pela	destruição	das	hemácias	revestidas	por	C3b.	Raramente,	um	número	grande	de	anticorpos	IgM	se	liga	à
membrana	das	hemácias.	Nesse	caso,	a	ativação	do	complemento	é	tão	intensa,	que	pode-se	formar	o	chamado	"complexo	de	ataque	à	membrana"	(C5b-C9),	provocando
hemólise	intravascular.	Isso	acontece	pouco	na	prática,	pois	os	anticorpos	"frios"	têm	pouca	atividade	na	temperatura	corporal.
AHAI	POR	IgG	(ANTICORPOS	"QUENTES")
Esta	é	a	variedade	de	hemólise	imunológica	mais	encontrada	na	prática	clínica.	Os	autoanticorpos	IgG	são	habitualmente	dirigidos	contra	antígenos	do	sistema	Rh	(D,	C,	E,
c,	e).	O	principal	local	de	hemólise	é	no	baço,	já	que	os	macrófagos	esplênicos	são	ricos	em	receptores	para	IgG	de	alta	afinidade	(FcγRI).
	ETIOLOGIA
Cerca	de	50%	dos	casos	de	AHAI	por	IgG	não	têm	causa	aparente:	AHAI	por	IgG	idiopática.	O	restante	está	relacionado	com	alguma	causa	específica.
Diversas	são	as	condições	que	podem	levar	a	uma	desregulação	do	sistema	de	autotolerância,	provocando	hemólise	imunomediada.	Entre	elas,	podemos	citar:	drogas	(ex.:
alfametildopa,	fludarabina),	lúpus	eritematoso	sistêmico,	outras	colagenoses	(esclerodermia),	artrite	reumatoide,	retocolite	ulcerativa,	LLC	(Leucemia	Linfocítica	Crônica),
linfoma	não	Hodgkin,	outras	neoplasias	 (mieloma	múltiplo,	 timoma,	cisto	dermoide	de	ovário,	sarcoma	de	Kaposi,	carcinomas),	 infecções	do	 tipo	 tuberculose,	CMV	e	a
doença	agamaglobulinemia	hereditária.
Leia	novamente	as	causas	e	memorize	as	principais:	alfametildopa,	LES,	leucemia	linfocítica	crônica	e	linfomas	não	Hodgkin.
A	anemia	imuno-hemolítica	induzida	por	drogas	será	comentada	com	detalhes	adiante	neste	capítulo,	pois	possui	mecanismos	peculiares...
	CLÍNICA	E	LABORATÓRIO
A	forma	idiopática	da	doença	é	mais	comum	em	mulheres	e	predomina	na	faixa	etária	entre	50-60	anos.	Em	mulheres	jovens,	a	doença	pode	se	acentuar	na	gestação,
por	efeito	estrogênico.	As	manifestações	clínicas	variam	desde	formas	assintomáticas	e	sem	anemia	(hemólise	compensada)	até	episódios	hemolíticos	agudos	gravíssimos
(fulminantes),	com	anemia	profunda,	 insuficiência	cardíaca	congestiva	e	colapso	vascular.	Grande	parte	dos	pacientes	encontra-se	em	uma	situação	intermediária,	com
anemia	leve	a	moderada	e	oligossintomática.	No	exame	físico,	podemos	notar	uma	leve	icterícia	(sugerindo	hemólise).	Esplenomegalia	discreta	pode	ser	detectada	nos
casos	mais	graves	pela	hiperplasia	do	tecido	reticuloendotelial.	Uma	esplenomegalia	moderada	ou	de	grande	monta	aponta	para	um	distúrbio	 linfoproliferativo	de	base
(LLC,	linfoma).	Na	criança,	os	episódios	geralmente	seguem	quadros	virais	respiratórios,	com	início	da	doença	sendo	repentino	e	severo.	A	letalidade	oscila	entre	10-30%.
Existe,	nesses	casos,	uma	discreta	predominância	do	sexo	masculino.
A	reação	autoimune	pode	não	ser	restrita	às	hemácias...	As	plaquetas	e,	eventualmente,	os	granulócitos	(neutrófilos)	também	podem	ser	"atacados"	por	autoanticorpos!	A
associação	AHAI	por	IgG	com	a	PTI	(púrpura	trombocitopênica	autoimune)	é	conhecida	como	síndrome	de	Evans.	Quando	a	plaquetopenia	é	grave	(reagir
também	com	o	C3b	(complemento).	Então,	pode-se	repetir	o	teste	utilizando-se	anticorpos	anti-IgG	humano	(Coombs	anti-IgG)	ou	anticorpos	anti-C3b	humano	(Coombs
anti-C3b).	Na	anemia	imuno-hemolítica	por	anticorpos	"quentes",	ambos	os	testes	específicos	serão	positivos.
	TRATAMENTO	ESPECÍFICO
A	 hemólise	 clinicamente	 significativa	 deve	 ser	 tratada	 com	 glicocorticoides.	 A	 preferência	 deve	 ser	 para	 a	prednisona,	 na	 dose	 de	 1-2	mg/kg/dia	 ou	 40	mg/m²	 de
superfície	corporal.	Com	esse	esquema	terapêutico,	observaremos	uma	elevação	da	hemoglobina	dentro	da	primeira	semana.	Quando	os	níveis	atingem	10	g/dl,	devemos
reduzir	a	dose	do	esteroide	em	quatro	a	seis	semanas	para	20	mg/m².	A	partir	de	então,	a	redução	deve	ser	mais	gradual	e	realizada	em	três	a	quatro	meses.	Mesmo
assim,	 alguns	 pacientes	 necessitarão	 de	 doses	 baixas	 (5-10	mg	 em	 dias	 alternados)	 por	 um	 período	mais	 prolongado.	 Com	 essa	 abordagem,	60-80%	 dos	 pacientes
responderão	satisfatoriamente.
Os	corticoides	apresentam	três	efeitos:	(1)	reduzem	a	afinidade	dos	receptores	FcγRI	dos	macrófagos	esplênicos	–	sendo	este	o	responsável	pelo	início	da	resposta	nos
primeiros	quatro	dias;	(2)	reduzem	a	afinidade	dos	anticorpos	IgG	pelos	antígenos	da	membrana	eritrocítica;	e	(3)	diminuem	a	produção	de	anticorpos	IgG	(este	é	o	efeito
responsável	pela	resposta	mais	tardia,	porém	mais	duradoura).
Cerca	de	20-40%	dos	 indivíduos	mostram-se	refratários	à	corticoterapia,	ou	necessitam	de	altas	doses	de	prednisona	para	manter	a	doença	em	remissão.	Tais	doses,
como	sabemos,	provocam	uma	série	de	efeitos	adversos	em	longo	prazo...	Para	os	pacientes	que	não	respondem	ou	não	toleram	a	terapia	com	corticoide,	atualmente	se
recomenda	o	emprego	de	rituximabe	(anticorpo	monoclonal	anti-CD20,	que	depleta	linfócitos	B	com	taxa	de	resposta	de	80%	na	AHAI)	ou	a	esplenectomia.	Este	último
procedimento	reduz	a	fagocitose	esplênica	das	hemácias	opsonizadas	e	diminui	a	produção	de	anticorpos,	já	que	o	baço	contém	tecido	linfoide.	Aqueles	que	continuam
com	anemia	hemolítica	após	a	esplenectomia,	o	fazem	pela	destruição	das	hemácias	opsonizadas	pelas	células	de	Kupffer	hepáticas.
Nos	 pacientes	 que	 não	 respondem	 a	 nenhuma	 das	 medidas	 citadas,	 podemos	 lançar	 mão	 de	 esquemas	 de	 terceira	 linha	 como	 ciclofosfamida,	 azatioprina	 ou
imunoglobulina	intravenosa.	O	transplante	de	células-tronco	hematopoiéticas	pode	ser	considerado	em	casos	extremos.
	TRATAMENTO	DE	SUPORTE
Não	podemos	esquecer	de	prescrever	ácido	fólico	para	todos	os	pacientes	que	apresentam	hemólise	crônica.
Em	 relação	 à	 hemotransfusão,	 temos	 um	 problema...	 Imagine	 a	 situação:	 um	 paciente	 com	 anemia	 grave	 (Hg	 =	 3	 g/dl),	 bastante	 sintomático,	 necessitando	 de
transfusão.	O	 técnico	do	Banco	de	Sangue	 liga	para	a	enfermaria	e	diz:	 "Não	estamos	encontrando	nenhum	sangue	compatível	 com	este	paciente!	A	 "prova	cruzada"
sempre	aglutina!".	Esta	é	a	regra	na	AHAI...	O	soro	do	paciente	tem	anticorpos	contra	um	antígeno	básico	do	grupo	Rh	que	está	presente	nas	hemácias	de	quase	todos	os
indivíduos	(independente	do	Rh	do	doador	ser	"positivo"	ou	"negativo").	Na	"prova	cruzada",	uma	amostra	de	soro	do	paciente	é	misturada	com	uma	amostra	do	sangue
selecionado	para	a	doação:	se	houver	aglutinação,	a	tipagem	sanguínea	deve	ser	repetida	e,	a	princípio,	a	bolsa	de	sangue	não	é	 liberada.	O	que	fazer	neste	caso?	O
médico	deve	 informar	ao	Banco	de	Sangue	a	hipótese	diagnóstica,	confirmando-a	pelo	 teste	de	Coombs	direto.	Se	 for	comprovada,	a	 transfusão	de	sangue	ABO	e	Rh
compatível	é	permitida,	mesmo	com	a	"prova	cruzada"	mostrando	aglutinação.
AHAI	POR	IgM	(ANTICORPOS	"FRIOS")
Os	autoanticorpos	IgM	geralmente	são	dirigidos	contra	o	antígeno	I	(ou	i)	da	membrana	eritrocitária.	Esse	antígeno	pertence	ao	grupo	sanguíneo	(I,	i)	e	está	presente	em
quase	 todas	 as	 pessoas.	 Como	 esses	 anticorpos	 são	 mais	 ativos	 em	 baixas	 temperaturas	 (0-10°C),	 costumam	 ser	 chamados	 de	 crioaglutininas.	 O	 mecanismo	 de
hemólise	é	bem	diferente	em	relação	à	AHAI	por	IgG	–	a	destruição	das	hemácias	ocorre	no	fígado,	por	ação	de	seus	macrófagos	(células	de	Kupffer).
	ETIOLOGIA
Fig.	10:	Teste	de	Coombs	direto.
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A	etiologia	também	é	variada,	porém,	a	forma	predominante	é	a	AHAI	por	IgM	idiopática,	sinônimo	de	"doença	da	crioaglutinina".	Trata-se	de	uma	expansão	clonal
de	linfócitos	B,	levando	à	produção	excessiva	de	uma	IgM	monoclonal	(produzida	por	apenas	um	clone	linfocitário)	com	atividade	de	crioaglutinina.	Essa	entidade	é	mais
comum	 em	 adultos	 velhos	 e	 idosos	 (entre	 50-70	 anos).	 A	 aglutinação	 transitória	 de	 hemácias	 nos	 vasos	 da	 derme	 ou	 dos	 dígitos	 pode	 provocar	 livedo	 reticularis	 e
acrocianose	por	exposição	ao	frio.	Pode	se	relacionar	com	doenças	linfoproliferativas,	como	os	linfomas	não	Hodgkin	e	a	macroglobulinemia	de	Waldenström.	O	LES	pode
também	raramente	se	associar	à	doença	das	crioaglutininas.
Quando	uma	causa	específica	é	identificada,	a	mais	comum	é	a	infecção	por	Mycoplasma	pneumoniae.	O	paciente	apresenta	um	quadro	de	pneumonia
atípica,	evoluindo	com	discreta	anemia	e	icterícia	após	a	primeira	semana	da	doença.	Outros	agentes	infecciosos	relacionados	são:	vírus	Epstein-Barr	(mononucleose
infecciosa),	caxumba,	CMV.	Quando	associada	a	infecções,	a	crioaglutinina	é	policlonal	(produzida	por	diversos	clones	linfocitários).
	CLÍNICA	E	LABORATÓRIO
O	quadro	clínico	costuma	ser	mais	brando	e	indolente,	quando	comparado	com	a	AHAI	por	IgG	(anticorpos	"quentes").	Os	casos	relacionados	à	infecção	são	autolimitados,
mas	a	doença	das	crioaglutininas	(forma	idiopática)	e	a	forma	secundária	a	neoplasia	linfoproliferativa	não	melhoram	espontaneamente,	além	de	não	apresentarem	uma
boa	resposta	à	terapêutica.
O	 laboratório	 é	 típico...	 Um	 simples	 exame	 à	 beira	 do	 leito	 pode	 revelar	 o	 diagnóstico:	 colhemos	 o	 sangue	 do	 paciente	 em	 um	 tubo	 contendo	 anticoagulante	 (para
hemograma);	em	seguida,	colocamos	o	tubo	na	geladeira	(temperatura	de	4°C);	na	presença	de	crioaglutininas	em	títulos	satisfatórios,	formar-se-ão	diversos	grumos	na
parede	 do	 tubo,	 que	 logo	 se	 desfazem	 após	 o	 aquecimento	 à	 temperatura	 corpórea	 (na	mão).	 Os	 grumos	 representam,	 na	 verdade,	 a	 aglutinação	macroscópica	 de
hemácias.
Como	o	exame	à	beira	do	leito	pode	falhar	(falso-negativo),	devemos	buscar	o	diagnóstico	através	do	já	descrito	teste	de	Coombs	direto	e	pela	pesquisa	dos	títulos
séricos	 de	 crioaglutinina.	 O	 Coombs	 específico	 só	 é	 positivo	 quando	 é	 usado	 o	 anticorpo	 anti-C3b	 humano	 (em	 vez	 do	 anti-IgG	 humano),	 pois	 as	 hemácias	 só
apresentam	C3	em	sua	superfície.	No	organismo,	as	hemácias	opsonizadas,	ao	passarem	pelo	fígado,	perdem	o	IgM,	enquanto	o	fragmento	C3b	é	convertido	na	partícula
inerte	C3dg.	Na	verdade,	este	último	é	o	antígeno	reconhecido	pelo	teste	de	Coombs	anti-C3b	humano.
O	teste	da	crioaglutinina	é	obtido	observando-se	a	diluição	(título)	máxima	do	soro	do	paciente	capaz	de	aglutinar,	na	temperatura	de	0°C,	hemácias	ABO	compatíveis	e
fator	I	positivo.	Na	infecção	por	micoplasma,	os	títulos	superam	1:32,	enquanto	que	na	forma	idiopática	monoclonal,	os	títulos	excedem	1:1.000.
O	sangue	periférico	geralmente	é	pobre	em	microesferócitos,	mas	pode	apresentar	aglutinação	espontânea,	mesmo	à	temperatura	ambiente	( ). É	importante
saber	que	um	esfregaço	mal	preparado	ou	feito	com	sangue	colhido	com	EDTA	(tubo	de	hemograma)	pode	mostrar	aglutinação	de	hemácias	artefatual.
	TRATAMENTO
Atualmente,	a	droga	de	escolha	para	tratar	a	doença	da	crioaglutinina	é	o	rituximabe	(taxa	de	resposta	=	60%).	Nos	demais	casos,	pode-se	tentar	imunossupressores	ou
agentes	 alquilantes	 como	 o	 clorambucil.	 Se	 o	 paciente	 possuir	 um	 linfoma,	 este	 deverá	 ser	 tratado	 de	 forma	 específica.	 Lembre-se	 de	 que,	 como	 as	 hemácias	 são
destruídas	no	fígado,	não	há	resposta	aos	corticosteroides	e	muito	menos	à	esplenectomia...	A	exposição	ao	frio	deve	ser	evitada!
ANTICORPODE	DONATH-LANDSTEINER
Este	anticorpo	é	colocado	como	um	subitem	à	parte,	por	apresentar	características	especiais	e	estar	relacionado	a	uma	síndrome	diferente	das	que	já	foram	descritas.
Apesar	 de	 ser	 um	 autoanticorpo	 da	 classe	 IgG,	 possui	 características	 de	 um	 anticorpo	 "frio",	 apresentando	 atividade	 máxima	 em	 temperaturas	 entre	 0-10°C.	 Sua
especificidade	é	contra	o	antígeno	P	da	membrana	eritrocitária.	Foi	descrito	inicialmente	associado	à	sífilis	terciária.
O	anticorpo	de	Donath-Landsteiner	é	uma	potente	hemolisina,	na	verdade	uma	"crio-hemolisina".	Sua	notável	capacidade	de	ativar	o	sistema	complemento	(apesar	de
ser	da	classe	IgG,	permite	a	formação	do	"complexo	de	ataque	à	membrana"	(Cb5-C9),	provocando	hemólise	no	espaço	INTRAVASCULAR	(pela	súbita	entrada	de	água	na
célula).
Essa	 rara	 entidade	 é	 mais	 comum	 em	 crianças,	 após	 infecções	 virais,	 manifestando-se	 com	 um	 quadro	 hemolítico	 leve	 a	 moderado	 (às	 vezes,	 grave),	 associado	 à
hemoglobinúria	(daí	chama-se	essa	síndrome	de	"crio-hemoglobinúria	paroxística").	O	anticorpo	se	liga	à	membrana	do	eritrócito	quando	ele	passa	pela	circulação
periférica	(baixas	temperaturas)	e	depois	ativa	o	complemento,	promovendo	hemólise	intravascular.	O	curso	costuma	ser	autolimitado.
ANEMIA	IMUNO-HEMOLÍTICA	FARMACOINDUZIDA
■
Figura	11 	
Fig.	11:	Hemácias	aglutinadas	no	sangue	periférico.
■
Diversos	 fármacos	 têm	 sido	 incriminados	 em	 casos	 de	 anemia	 imuno-hemolítica.	 Os	mais	 importantes	 são:	 alfametildopa	 (principal),	 levodopa,	 penicilina	 e	 quinidina.
Observe	a	Tabela	3.
Tab.	3			
*Drogas	mais	importantes.
Obs.:	embora	seja	uma	droga	obsoleta,	o	estibofeno	é	um	agente	antiesquistossoma	de	importância	histórica	na	hemólise	imunoinduzida	por	medicamentos.
A	hemólise	imunoinduzida	por	drogas	pode	ser	classificada	com	base	em	dois	mecanismos	de	ação:
Tipo	autoimune:	 tem	como	protótipo	 o	 uso	 de	alfametildopa	 (mais	 comum)	 e	 levodopa.	 A	 droga	 altera	 a	 estrutura	 do	 complexo	 antigênico	Rh,	 tornando-o	 um
autoantígeno.	Autoanticorpos	da	classe	 IgG	(anticorpos	"quentes")	se	 ligam	à	superfície	das	hemácias,	situação	 idêntica	à	encontrada	na	AHAI	por	 IgG	 idiopática.	É
interessante	notarmos	que	10-25%	dos	pacientes	que	utilizam	alfametildopa	por	mais	de	3-6	meses	 tornam-se	positivos	no	 teste	de	Coombs	direto,	enquanto	que
anemia	hemolítica	é	vista	em	0,8%	dos	casos;
Tipo	hapteno:	quando	uma	molécula	não	proteica,	ao	se	combinar	com	uma	proteína	do	organismo,	forma	um	complexo	antigênico,	passa	a	ser	denominada	hapteno.
Existem	dois	subtipos	de	hemólise	do	tipo	hapteno:	(1)	"tipo	penicilina";	e	(2)	"tipo	quinidina".	O	primeiro	é	descrito	após	a	administração	de	altas	doses	de	penicilina
G	cristalina	(10-20	milhões	de	unidades	por	dia).	Forma-se	um	complexo	antigênico	penicilina-proteína	na	membrana	do	eritrócito,	provocando	a	ligação	de	anticorpos
da	classe	IgG.	Esse	fenômeno	pode	também	ocorrer	com	a	cefalotina.	No	segundo	tipo,	a	quinidina	se	liga	fracamente	à	glicoproteína	da	membrana,	tempo	suficiente
para	que	se	liguem	anticorpos	IgM	e	ocorra	a	ativação	do	complemento.	Depois	que	o	processo	foi	desencadeado,	a	quinidina	se	desloca	da	membrana,	atuando	como
um	"espectador	inocente",	enquanto	o	sistema	complemento	se	encarrega	de	promover	hemólise	intravascular	(geralmente	grave).	Esse	fenômeno	também	é	descrito
com	as	sulfas	e	a	clorpromazina.
HEMÓLISE	INTRAVASCULAR
O	grande	marco	da	hemólise	intravascular	é	a	presença	de	hemoglobinúria	e	hemossiderinúria.	Nos	casos	crônicos,	a	consequente	perda	de	ferro	urinária	pode	levar	à
anemia	ferropriva.	Nas	 formas	agudas	e	 fulminantes	de	hemólise	 intravascular,	a	hemoglobinúria	pode	 intoxicar	o	sistema	tubular	renal,	provocando	necrose	tubular
aguda	e	insuficiência	renal	oligúrica.
Para	que	a	 destruição	 eritrocitária	 se	 proceda	na	própria	 circulação	 sanguínea	 (hemólise	 intravascular),	 são	necessários	 estímulos	mais	 potentes,	 tais	 como:	 (1)	uma
potente	hemolisina;	(2)	um	defeito	que	a	deixe	suscetível	ao	complemento;	ou	(3)	a	estresses	oxidativos;	ou	(4)	a	ocorrência	de	estresse	mecânico,	 físico	ou	químico
significativo.
As	hemolisinas	são	substâncias	(anticorpos	ou	peçonhas)	capazes	de	ativar	o	sistema	complemento	até	a	formação	do	"complexo	de	ataque	à	membrana"	(C5b-C9),	de
modo	a	induzir	rotura	da	membrana	do	eritrócito	pela	súbita	entrada	de	água	na	célula.	Existem	duas	hemolisinas	extremamente	potentes:	(1)	os	anticorpos	do	sistema
ABO;	e	(2)	o	veneno	da	aranha-marrom	(Loxosceles	sp.).
A	 incompatibilidade	ABO	é	a	mais	grave	das	reações	hemolíticas	 transfusionais.	Os	anticorpos	desse	sistema	são	da	classe	 IgM,	sendo	potentes	ativadores	do	sistema
complemento.
Em	 nosso	 meio,	 a	 picada	 da	 Loxosceles	 sp.	 ou	 aranha-marrom	 ( ) é	 uma	 importante	 causa	 de	 hemólise	 intravascular	 grave.	 O	 veneno	 loxoscélico	 é	 a
esfingomielinase-D,	com	atividade	sobre	os	constituintes	das	membranas	das	hemácias	e	do	endotélio	vascular.	Por	ativar	o	sistema	complemento	 (e	 talvez	por	efeito
direto),	o	veneno	provoca	intensa	hemólise	intravascular.	O	envenenamento	manifesta-se	com	necrose	no	local	da	picada,	seguida	por	um	quadro	de	anemia	hemolítica
aguda,	icterícia,	urina	vermelho-acastanhada	(hemoglobinúria)	e	insuficiência	renal	aguda	oligúrica.	O	quadro	pode	ser	fatal.	O	soro	antiaracnídeo	deve	ser	administrado
prontamente	na	dose	de	dez	ampolas,	associado	à	prednisona	1	mg/kg/dia.
Drogas	Causadoras	de	Hemólise	Autoimune
● Alfametildopa*
● Levodopa*
● Antimicrobianos
➤ Penicilina	G	(altas	doses)*
➤ Outras	penicilinas*
➤ Cefalosporinas*
➤ Sulfonamidas*
➤ Eritromicina
➤ Tetraciclina
➤ Ácido	nalidíxico
➤ Isoniazida,	rifampicina
➤ Anfotericina	B
● Quinidina/quinino*
● Estibofeno*
● Sulfonilureias*
● Clorpromazina*
● Paracetamol
● Dipirona
● Diclofenaco,	ibuprofeno,	fenoprofeno
● Diuréticos	tiazídicos
● Hidralazina
● Procainamida
● Ranitidina
● Omeprazol
Figura	12 		
Outras	hemolisinas	conhecidas	são	o	anticorpo	de	Donath-Landsteiner	e	as	crioaglutininas,	 já	estudados.	Estas	últimas	raramente	provocam	hemólise	intravascular,	por
sua	baixa	atividade	na	temperatura	corpórea.
Aproveitando	o	ensejo	das	doenças	tropicais,	em	nosso	meio	existe	uma	parasitose	que	se	comporta	como	uma	clássica	causa	de	hemólise	intravascular:	a	malária.	A
rotura	dos	eritrócitos	é	mecânica,	pela	divisão	e	proliferação	celular	da	fase	esquizogônica.	A	forma	mais	grave	de	malária	é	a	por	Plasmodium	falciparum.	Outras	causas
infectoparasitárias	de	hemólise	intravascular	são:	babesiose,	bartonelose,	infecção	grave	pelo	Clostridium	perfringens	(ação	de	uma	toxina).
Já	vimos	uma	doença	hereditária	que	leva	a	crises	de	hemólise	intravascular	desencadeadas	por	estresse	oxidativo	(deficiência	de	G6PD).
Agora	veremos	uma	doença	adquirida	que	deixa	as	hemácias	suscetíveis	à	 lise	por	complemento,	e	em	seguida	comentaremos	sobre	a	hemólise	por	 fragmentação	de
hemácias,	 por	 estresse	 físico	 ou	 químico.	 A	 rotura	 mecânica	 dos	 eritrócitos	 na	 microvasculatura	 define	 a	 síndrome	 das	 anemias	 hemolíticas	 microangiopáticas,
representadas	pela	síndrome	hemolítico-urêmica,	Púrpura	Trombocitopênica	Trombótica	(PTT),	síndrome	HELLP	da	gestação,	entre	outros.
HEMOGLOBINÚRIA	PAROXÍSTICA	NOTURNA
A	Hemoglobinúria	Paroxística	Noturna	(HPN)	é	uma	desordem	adquirida	da	célula-tronco	(stem	cell)	que	tem	como	principal	característica	a	produção	de	subpopulações	de
granulócitos,	plaquetas	e	hemácias	hipersensíveis	ao	sistema	complemento.
PATOGÊNESE
O	clone	mutante	da	stem	cell	produz	progenitores	"defeituosos"	que	originam	hemácias,	plaquetas	e	granulócitos	alterados	–	as	chamadas	células	HPN.	Estas	células,
especialmente	as	hemácias,	possuem	extrema	sensibilidade	à	lise	pelo	complemento,	o	que	explica	uma	desordem	hemolítica	intravascular	crônica.
As	 células	 HPN	 apresentam	mutações	 no	 gene	 PIG-A	 que	 controla	 a	 formação	 de	 glicosilfosfatidilinositol,	 uma	 espécie	 de	 "âncora"	 que	 prende	 diversasmulheres	e	entre	13,5-17	g/dl
nos	homens.	Estudos	epidemiológicos	mais	precisos	colocam	uma	faixa	de	normalidade	um	pouco	diferente:	11,8-14,8	g/dl	nas	mulheres	e	13,2-16,7	g/dl	nos	homens.	O
hematócrito	é	a	fração	volumétrica	ocupada	pelos	eritrócitos	no	sangue,	obtido	através	do	processo	de	centrifugação.	Os	valores	normais	do	hematócrito	são:	36-44%	nas
mulheres	e	39-50%	nos	homens.	De	uma	forma	geral,	o	hematócrito	está	em	torno	de	três	vezes	o	valor	da	hemoglobina.	A	contagem	de	hemácias	normal	varia	entre	3,8-
5	milhões/mm³	nas	mulheres	e	4,3-5,6	milhões/mm³	nos	homens.	A	Tabela	1	facilita	a	memorização	de	tais	valores...
Tab.	1
Regra:	hematócrito	=	três	vezes	a	hemoglobina
Obs.:	nas	crianças	de	um	a	dois	anos,	de	ambos	os	sexos,	o	limite	inferior	de	hemoglobina	sérica	é	de	9,5	g/dl	(anemia	fisiológica	da	infância).	Os	indivíduos	residentes
em	elevadas	altitudes,	em	razão	dos	menores	teores	de	oxigênio	do	ar	ambiente,	possuem	níveis	marcadamente	superiores.
A	dosagem	de	hemoglobina	possui	maior	acurácia	quando	comparada	ao	hematócrito	e	à	contagem	de	hemácias,	devendo,	portanto,	ser	a	medida	de	escolha	utilizada
para	o	diagnóstico	de	anemia.	As	consequências	fisiopatológicas	do	quadro	anêmico	estão	diretamente	relacionadas	à	diminuição	dos	teores	de	hemoglobina...
É	 importante	 ressaltar	que	os	valores	normais	de	hemoglobina,	hematócrito	e	contagem	eritrocítica	 são	baseados	em	estudos	populacionais,	existindo	ampla	 faixa	de
"normalidade".	Tal	faixa	inclui	95%	da	população,	de	acordo	com	a	"curva	de	Gauss".
Os	extremos	 (2,5%	para	cada	 lado)	estão	 fora	da	 faixa	considerada	normal,	apesar	de	serem	pessoas	normais.	Esse	 fato	pode	 (e	deve)	ser	considerado	na	hora	de
interpretar	uma	dosagem	de	hemoglobina	discretamente	baixa	ou	discretamente	alta,	pela	possibilidade	de	representar	apenas	uma	variação	da	normalidade.
Os	 pacientes	 anêmicos	 geralmente	 procuram	 cuidados	médicos	 devido	 a:	 (1)	 sinais	 e	 sintomas	 da	 doença	 de	 base,	 independentes	 da	 anemia;	 (2)	 sinais	 e	 sintomas
decorrentes	da	anemia;	ou	(3)	as	duas	situações	juntas.	Os	sintomas	decorrentes	da	anemia	estão	listados	na	Tabela	2.
Tab.	2
Mais	comumente,	entretanto,	o	paciente	é	oligossintomático	ou	mesmo	assintomático,	e	o	diagnóstico	de	anemia	é	feito	somente	após	a	análise	dos	exames	"de	rotina",
como	parte	de	um	check-up,	por	exemplo.
No	geral,	 os	 sintomas	do	quadro	 anêmico	provêm	do	prejuízo	 na	 capacidade	 carreadora	de	O2	 do	 sangue,	 predispondo	à	 hipóxia	 tecidual	 e	 estimulando	o	 coração	a
aumentar	o	débito	cardíaco	de	forma	compensatória.	Se	o	paciente	for	cardiopata	prévio,	ou	então	em	casos	de	anemia	aguda	grave,	pode	surgir	um	estado	de	ICC	de
alto	débito,	que	pode	ser	 fatal.	Se	o	paciente	 for	um	cerebropata	prévio	ou	tiver	mais	de	80	anos,	uma	anemia	moderada	a	grave	pode	 induzir	sonolência,	 torpor	e,
raramente,	coma.	Quando	a	anemia	se	instala	de	forma	insidiosa,	como	ocorre	na	insuficiência	renal	crônica,	na	anemia	megaloblástica	e	nas	mielodisplasias,	o	paciente
pode	permanecer	oligossintomático,	mesmo	com	hematócritos	bastante	baixos.	No	entanto,	dificilmente	um	hematócrito	proteínas	 na
membrana	celular.	Em	português	claro:	algumas	proteínas	começam	a	se	"soltar"	da	membrana	das	células	hematopoiéticas...	Entre	elas,	dois	importantes
reguladores	 do	 sistema	 complemento,	 o	 CD55	 e	 o	 CD59.	 Sem	 esses	 fatores,	 o	 sistema	 complemento	 pode	 agir	 descontroladamente	 sobre	 a	membrana	 das	 células
sanguíneas,	provocando	hemólise	intravascular	ou	mesmo	pancitopenia.
É	conhecida	a	associação	entre	anemia	aplásica	e	HPN.	Cerca	de	15-30%	dos	pacientes	com	anemia	aplásica	desenvolvem	células	HPN	e,	eventualmente,	a	doença
clinicamente	manifesta.	A	anemia	aplásica	pode	abrir	o	quadro	clínico	de	cerca	de	30%	dos	casos	de	HPN.	Ambas	são	condições	ocasionadas	por	 lesões	adquiridas	no
genoma	das	células-tronco	hematopoiéticas,	daí	a	frequente	associação...	Relata-se	ainda	um	aumento	na	incidência	de	mielodisplasia	e	Leucemia	Mieloide	Aguda	(LMA)
em	portadores	de	HPN.
Trombogênese	na	HPN:	as	plaquetas	"se	defendem"	do	"complexo	de	ataque	à	membrana"	(C5b-C9)	removendo-o	em	pequenas	vesículas	de	membrana.	A	superfície
dessas	vesículas	atrai	o	fator	V	e	o	fator	Xa,	promovendo	a	formação	da	trombina.	A	trombina	é,	por	sua	vez,	um	potente	ativador	plaquetário.	Como	as	plaquetas	dos
pacientes	com	HPN	estão	mais	propensas	ao	ataque	pelo	sistema	complemento,	a	"vesiculação"	acentua-se,	resultando	num	estado	de	hipercoagulabilidade	e	ativação
plaquetária	(trombogênese),	capaz	de	explicar	a	grande	propensão	destes	pacientes	aos	eventos	trombóticos.
Outros	comemorativos	da	HPN:	além	de	citopenias	e	trombose,	portadores	de	HPN	apresentam	ainda	uma	maior	 incidência	de	espasmo	esofagiano	e	disfunção
erétil.	A	base	fisiopatológica	desses	achados	parece	ser	a	deficiência	de	óxido	nítrico:	sabemos	que	na	hemólise	intravascular	a	hemoglobina	liberada	"consome"	o
óxido	 nítrico	 circulante...	 O	 óxido	 nítrico	 é	 um	 importante	 regulador	 da	motricidade	 do	 esôfago	 e	 dos	 vasos	 penianos!	 Outra	 complicação	 descrita	 na	 HPN	 é	 a	maior
propensão	à	injúria	renal	aguda,	tanto	pela	hemoglobinúria	(efeito	nefrotóxico	deste	pigmento)	quanto	pela	deficiência	de	óxido	nítrico	(disfunção	microvascular).
CLÍNICA	E	LABORATÓRIO
A	HPN	é	uma	doença	de	adultos	 jovens,	embora	possa	ocorrer	em	qualquer	 idade.	A	anemia	pode	ser	 leve,	moderada	ou	grave,	 tomando	um	curso	crônico,	mas	com
períodos	de	exacerbação.	Estes	podem	vir	acompanhados	de	cefaleia,	dor	subesternal	e	abdominal,	lombalgia,	febre	e	astenia.
A	predisposição	a	eventos	tromboembólicos	pode	dominar	o	quadro.	Eventos	veno-oclusivos	ocorrem	em	30-40%	dos	pacientes	e	são	a	principal	causa	de	óbito	na	HPN.
A	síndrome	de	Budd-Chiari	é	o	evento	mais	clássico.	Trata-se	da	trombose	das	veias	supra-hepáticas,	evoluindo	com	hepatomegalia	congestiva,	ascite	e	hipertensão
porta.	 A	 trombose	 de	 veia	 porta	 e/ou	 esplênica	 pode	 levar	 à	 esplenomegalia	 e	 ao	 hiperesplenismo.	 Tromboses	 em	 outros	 leitos	 venosos	 abdominais	 (ex.:	 veias
mesentéricas)	também	são	descritas,	podendo	provocar	infarto	intestinal.	O	acometimento	de	pequenas	vênulas	cutâneas	justifica	o	surgimento	de	nódulos	subcutâneos
dolorosos.	O	evento	mais	temido	(por	ser	frequentemente	fatal)	é	a	trombose	venosa	cerebral.
A	hemoglobinúria,	um	sinal	clássico	da	síndrome,	é	referida	como	queixa	inicial	em	somente	25%	dos	casos.	O	paciente	relata	urina	de	tonalidade	escura	pela	manhã,	pois
os	episódios	de	hemólise	ocorrem	mais	frequentemente	à	noite,	durante	o	sono.	Acredita-se	que	a	explicação	para	este	fenômeno	seja	a	seguinte:	durante	o	sono,	o	pH
sanguíneo	tende	a	cair	discretamente	(isto	é,	ocorre	uma	tendência	à	acidose).	Pequenas	diminuições	do	pH	já	são	capazes	de	acelerar	a	ativação	do	complemento	e	a	lise
de	hemácias...	Outras	causas,	que	nestes	indivíduos	propiciam	uma	destruição	acelerada	das	hemácias,	incluem	infecções	e	exercício	físico	extenuante.
Fig.	12:	Aranha-marrom	(Loxosceles	sp.).	Esta	aranha	mede	1	cm	(corpo)	e	3	cm	(patas).	Em	nosso	meio,	pode	ser	encontrada	sob	cascas	de	troncos	de	árvore	ou	sob	telhas,	tijolos,	madeiras	ou	até
no	interior	de	domicílios	(atrás	de	móveis	e	cantos	escuros).
O	 laboratório	 apresenta	 anemia	 com	 parâmetros	 de	 hemólise	 intravascular:	 hemoglobinúria,	 hemossiderinúria.	 Plaquetopenia	 e	 granulocitopenia	 são	 comuns.	 Vale
ressaltar	que	a	perda	crônica	e	continuada	de	hemoglobina	e	hemossiderina	pela	urina	pode	levar	à	anemia	ferropriva.
DIAGNÓSTICO
Durante	 anos	 o	 diagnóstico	 foi	 feito	 pelo	 teste	 de	 Ham	 (adiciona-se	 às	 hemácias	 soro	 acidificado,	 o	 que	 promove	 ativação	 da	 via	 alternativa	 do	 complemento	 e
consequente	lise	dos	eritrócitos	anormais)	ou	pelo	teste	da	sacarose	a	5%	(na	HPN,	ocorre	hemólise	do	sangue	nesse	meio).	Atualmente,	no	entanto,	estes	testes	são
inferiores	à	citometria	de	fluxo,	que	identifica	subpopulações	de	células	sanguíneas	deficientes	em	CD59	e/ou	CD55.
TRATAMENTO
Uma	 parte	 dos	 pacientes	 apresenta	 um	 quadro	 brando	 que	 não	 requer	 tratamento.	 Quando	 necessário,	 medidas	 de	 suporte	 como	 a	 hemotransfusão	 devem	 ser
indicadas.	Sabemos	que	as	hemácias	transfundidas	têm	boa	sobrevida	nos	pacientes	com	HPN,	e	a	correção	dos	valores	de	hemoglobina	inibe	a	liberação	de	formas	jovens
e	defeituosas	de	eritrócitos	pela	medula...	Os	corticosteroides	reduzem	a	taxa	de	hemólise	por	um	mecanismo	pouco	compreendido,	porém	NÃO	são	indicados	de	rotina.
A	reposição	de	ferro	deve	ser	empreendida	em	todo	doente	com	depleção	dos	estoques	corporais	deste	elemento.	O	ácido	fólico	também	deve	ser	suplementado	na
vigência	de	hemólise	crônica.
Um	novo	medicamento	foi	aprovado	para	o	tratamento	da	HPN:	o	anticorpo	monoclonal	anti-C5,	chamado	eculizumabe	(Soliris®).	Ao	inibir	a	cascata	do	complemento	a
partir	 de	 C5	 (evitando	 a	 formação	 do	 "complexo	 de	 ataque	 à	 membrana"),	 o	 eculizumabe	 reduz	 a	 taxa	 de	 hemólise	 intravascular,	 diminuindo	 a	 necessidade	 de
hemotransfusões!	Esta	droga	também	reduz	a	ocorrência	de	tromboses,	por	evitar	a	vesiculação	das	plaquetas.	Seu	principal	efeito	colateral	é	o	aumento	no	risco	de
infecção	 por	 Neisseria	 meningitidis	 (meningococo).	 Pacientes	 com	 indicação	 de	 eculizumabe	 (isto	 é,	 hemólise	 grave	 e/ou	 trombose)	 devem	 receber	 vacina
antimeningocócica	antes	de	iniciar	o	tratamento.
Os	episódios	trombóticos	graves	(ex.:	Budd-Chiari)	podem	ser	manejados	com	trombolíticos,	 instituindo-se	posteriormente	anticoagulação	plena	para	o	resto	da	vida.	O
transplante	alogênico	de	medula	óssea	deve	ser	considerado	em	pacientes	jovens	com	anemia	aplásica	ou	mielodisplasia	associada.
HEMÓLISE	MECÂNICA	COM	FRAGMENTAÇÃO	DE	HEMÁCIAS
Quando	os	eritrócitos	estão	sujeitos	a	trauma	físico	excessivo	no	sistema	cardiovascular,	eles	se	fragmentam	prematuramente	e	dão	origem	aos	"fragmentos	de	hemácia"
ou	esquizócitos	( ).	Estes	corpúsculos	circulam	por	um	período	muito	breve,	sendo	logo	reconhecidos	e	removidos	pelos	macrófagos	esplênicos.	Os	esquizócitos
podem	 assumir	 a	 forma	 de	 capacete,	 crescente,	 triângulo	 ou	 microesferócitos.	 Esta	 morfologia	 característica	 diferencia	 as	 síndromes	 de	 fragmentação	 de	 outras
variedades	de	anemias	hemolíticas	intravasculares.
FRAGMENTAÇÃO	EM	PRÓTESE	VALVAR
A	hemólise	pode	acompanhar	qualquer	lesão	ou	modificação	na	estrutura	cardíaca	que	altere	a	hemodinâmica.	As	válvulas	cardíacas	protéticas	representam	a	maior	parte
dos	casos.	As	válvulas	do	 tipo	 "bola	e	cesta",	próteses	em	disco,	 folhetos	de	Teflon	e	válvulas	 sintéticas	 feitas	de	Dacron	 impregnadas	com	borracha,	 são	variedades
possivelmente	associadas	a	este	distúrbio.	As	próteses	mais	frequentemente	envolvidas	com	esta	condição	são	as	de	localização	aórtica.	As	manifestações	clínicas	não	são
características.	Algumas	vezes	notamos	os	episódios	hemolíticos	coincidentes	à	deterioração	cardíaca,	seja	por	uma	ruptura	de	cúspide	ou	uma	frouxidão	na	fixação	da
prótese.	Quando	a	hemólise	é	clinicamente	significativa,	encontramos	icterícia.	A	hemoglobinúria	geralmente	não	é	observada	a	olho	nu.
Os	achadoslaboratoriais	dependem	da	intensidade	do	processo	de	destruição	de	células	vermelhas.	Quando	intenso	e	prolongado,	a	hemoglobinúria	e	a	hemossiderinúria
podem	 levar	 à	 depleção	 de	 ferro.	 Neste	 caso,	 notamos	 o	 surgimento	 de	 hipocromia	 em	 uma	 anemia	 que	 anteriormente	 era	 normocítica	 e	 normocrômica.	 Um	 grau
exagerado	de	anemia	e	uma	elevação	marcante	da	LDH	(isoenzima	1)	nos	 indica	a	necessidade	de	troca	valvar	cirúrgica.	 Indicamos	 também	o	 repouso	durante	as
exacerbações	de	hemólise,	associado	à	reposição	de	ácido	fólico	e	sulfato	ferroso.	A	eritropoetina	tem	sido	utilizada	com	sucesso	no	lugar	das	transfusões.
Figura	13
Fig.	13:	Os	esquizócitos.
HEMÓLISE	DO	CORREDOR
Nos	 corredores	 de	maratona	 e	 triatletas,	 ocorre	 destruição	 de	 eritrócitos	 em	 consequência	 da	 lesão	 dos	 pequenos	 vasos	 dos	 pés,	 induzida	 pelo	 repetido	 impacto	 do
calcanhar	com	o	solo	duro.	A	chamada	"hemoglobinúria	da	marcha"	é	descrita	em	soldados	que	calçam	botas	pesadas	sem	acolchoamento	para	os	pés.	Na	maioria	das
vezes,	não	há	anemia	hemolítica,	e	sim	um	estado	de	hemólise	compensada.
ANEMIA	HEMOLÍTICA	MICROANGIOPÁTICA
A	Anemia	Hemolítica	Microangiopática	(AHM)	é	um	termo	empregado	para	designar	qualquer	processo	hemolítico,	relacionado	à	fragmentação	de	hemácias	que	ocorra	em
associação	com	doença	em	pequenos	vasos,	marcada	por	uma	patologia	das	células	endoteliais.
O	 termo	 "microangiopatia	 trombótica"	 foi	 recentemente	 empregado	 para	 descrever	 síndromes	 associadas	 à	 anemia	 hemolítica	 por	 fragmentação	 de	 eritrócitos,
trombocitopenia	e	 lesões	trombóticas	em	pequenos	vasos,	como	os	glomérulos.	O	processo	que	geralmente	desencadeia	a	fragmentação	eritrocitária	é	a	deposição	de
fibrina	decorrente	de	lesão	endotelial.	A	malha	de	fibrina	na	microcirculação	faz	com	que	as	hemácias	passem	com	mais	dificuldade	e,	muitas	delas,	pela	força	da	corrente
sanguínea,	acabam	por	se	fragmentar.	O	consumo	plaquetário	na	formação	dos	microtrombos	acarreta	trombocitopenia.
As	principais	condições	relacionadas	a	AHM	são:
● Síndrome	hemolítico-urêmica;
● Púrpura	trombocitopênica	trombótica;
● Coagulação	Intravascular	Disseminada	(CIVD);
● Gestações	complicadas	(eclâmpsia,	síndrome	HELLP);
● Hipertensão	arterial	maligna;
● Crise	renal	da	esclerodermia;
● Carcinomatose	disseminada;
● Presença	de	hemangiomas	gigantes	(síndrome	de	Kasabach-Merritt).
HEMÓLISE	CAUSADA	POR	EFEITOS	TÓXICOS	DIRETOS	À	HEMÁCIA
Vários	agentes	físicos	e	químicos	podem	causar	hemólise	por	dano	tóxico	direto	às	hemácias.	As	causas	mais	importantes	que	devemos	memorizar	são	as	seguintes:
● Queimaduras	extensas;
● Exposição	a	altas	temperaturas	(>	49ºC);
● Lise	osmótica	(infusão	de	água	destilada);
● Agentes	químicos	(dapsona,	fenazopiridina,	nitrato	de	amila,	nitrato	de	isobutila,	nitrato	de	potássio,	fenacetina);
● Doença	de	Wilson	(intoxicação	pelo	cobre);
● Ingestão	de	sulfato	de	cobre.
CAP.	6
HEMOGLOBINOPATIAS
ANEMIA	FALCIFORME
Video_06_Hem1
INTRODUÇÃO
HISTÓRIA
Em	1910,	Herrick	descreveu	pela	primeira	vez	a	 síndrome	clínica	que	caracteriza	a	anemia	 falciforme:	um	 jovem	negro,	 oriundo	da	 ilha	de	Granada	 (no	Caribe),	 com
história	de	episódios	recorrentes	de	dor,	anemia	crônica	e	hemácias	"afoiçadas"	no	esfregaço	de	sangue	periférico	( ).	Em	1940,	Ham	e	Castle	perceberam	que	as
hemácias	desses	indivíduos	possuem	um	limiar	de	pO2	abaixo	do	qual	o	afoiçamento	se	exacerba,	gerando	hiperviscosidade	sanguínea	(reversível	com	a	reoxigenação),	e
em	1949	Neel	demonstrou	que	se	trata	de	uma	condição	hereditária	de	transmissão	autossômica	recessiva.	Foi	somente	em	1957	que	Ingram	elucidou	a	causa	básica	do
problema:	a	substituição	do	ácido	glutâmico	pela	valina,	na	posição	6	da	cadeia	de	β-globina,	cria	uma	molécula	de	hemoglobina	com	comportamento	totalmente	anômalo:
a	hemoglobina	S	("s"	de	sickle,	ou	foice	em	inglês).
Figura	1
Nos	dias	de	hoje,	muito	mais	 já	 foi	descoberto	acerca	da	complexa	 fisiopatologia	dessa	doença...	Sabemos,	por	exemplo,	que	não	se	 trata	apenas	do	afoiçamento	de
hemácias	levando	à	hemólise	e	à	oclusão	microvascular!	Ocorre	também	inflamação	sistêmica,	com	disfunção	endotelial	crônica	afetando	vasos	de	TODOS	OS
CALIBRES,	além	de	hipercoagulabilidade	 (justificando	a	vasculopatia	macroscópica	subjacente	a	certas	complicações	da	AF,	até	pouco	 tempo	atrás	consideradas	de
origem	"misteriosa",	como	o	AVE	e	a	hipertensão	pulmonar).	Os	parágrafos	a	seguir	resumem	a	literatura	atual...
GENÉTICA
Como	já	dito,	a	mutação	pontual	GAG	➔	GTG	(6-Glu	➔	Val)	cria	o	gene	βS.	Todo	ser	humano	possui	duas	cópias	(alelos)	do	gene	da	β-globina.	Somente	aqueles	que	são
homozigotos	 para	 o	 gene	 βS	 (isto	 é,	 os	 dois	 alelos	 são	 do	 tipo	 βS)	 desenvolvem	 a	 "doença"	 anemia	 falciforme.	 Indivíduos	 que	 herdam	 apenas	 uma	 cópia	 do	 βS	 em
associação	a	outro	alelo	qualquer	possuem	o	que	se	chama	de	"variante	falcêmica"	(heterozigotos	para	o	gene	βS).	Existem	diversas	variantes	falcêmicas	possíveis,	na
dependência	do	segundo	alelo	presente.	As	mais	comuns	são	descritas	na	Tabela	1...	Essa	codominância	entre	diferentes	alelos	do	gene	β	faz	surgirem	fenótipos	clínicos
distintos,	de	gravidade	e	prognóstico	variáveis.
Tab.	1
*HPFH	=	persistência	hereditária	da	hemoglobina	fetal.
O	 gene	 βS	 ainda	 pode	 ser	 classificado	 em	 função	 de	 seus	 haplótipos.	 Haplótipos	 são	 alelos	 com	 pequenas	 diferenças	 em	 certos	 pontos	 na	 sequência	 de	 DNA
(polimorfismos)	que	não	mudam	o	resultado	final	(fenótipo).	Seu	reconhecimento	serve	apenas	para	determinar	as	regiões	etnogeográficas	onde	o	βS	surgiu	de	maneira
independente.	Temos	cinco	grandes	haplótipos	do	βS:	Senegal,	Benin,	Bantu,	Camarões	e	Indo-Arábico.
Qual	é	a	origem	do	gene	βS?
Fig.	1:	Observe	a	presença	de	hemácias	em	forma	de	foice	no	sangue	periférico.
A	elevada	prevalência	do	βS	em	certas	populações	é	explicada	pelo	processo	de	seleção	natural:	quando	em	heterozigose	com	o	gene	β	normal	 (traço	 falcêmico),	ele
confere	uma	vantagem	biológica	ao	proteger	o	indivíduo	contra	as	formas	graves	de	malária!	Vamos	entender?	Quando	o	Plasmodium	invade	a	hemácia	portadora	do	traço
falcêmico,	 a	 HbS	 presente	 nessa	 célula	 se	 desnatura	 de	 forma	 extremamente	 rápida.	 Tal	 fenômeno	 se	 acompanha	 de	 uma	 modificação	 antigênica	 na	 membrana
plasmática:	 agregação	 da	 proteína	 banda	 3.	 Autoanticorpos	 antibanda	 3,	 fisiologicamente	 presentes	 na	 circulação,	 opsonizam	 a	 superfície	 externa	 das	 hemácias
parasitadas,	 aumentando	 a	 taxa	 de	 eritrofagocitose	 (remoção	 de	 hemácias	 pelo	 baço).	 O	 rápido	 clearance	 dessas	 células	 impede	 o	 surgimento	 de	 altos	 níveis	 de
parasitemia,	dando	tempo	ao	sistema	imune	para	se	adaptar	e	atingir	o	controle	espontâneo	da	infecção!
Vale	dizer	que	os	portadores	de	HbSS	 (anemia	 falciforme),	em	oposição	ao	 "traço	 falcêmico",	 têm	maior	 chance	de	morrer	quando	 infectados	pelo	Plasmodium...	A
explicação	é:	ainda	que	a	mesma	modificação	antigênica	na	membrana	também	ocorra	nesses	indivíduos	(agregação	da	banda	3),	a	presença	de	ASPLENIA	(perda	da
função	do	baço	–	mais	detalhes	adiante)	inviabiliza	o	aumento	no	clearance	das	células	parasitadas!	Assim,	portadores	de	HbSS	exacerbam	sua	taxa	básica	de	hemólise
quando	acometidos	por	malária,	o	que	agrava	tanto	a	anemia	crônica	quanto	a	malária	aguda...	De	fato,	a	malária	é	a	principal	causa	de	óbito	em	crianças	falcêmicas
nas	áreas	endêmicas!
Acredita-se	que	o	gene	βS	tenha	se	fixado	e	se	expandido	na	região	conhecida	como	"cinturão	da	malária"	há	cerca	de	4.000	anos	( ) 	quando	o	homem	entrou	na
"Idade	do	Ferro"	e	passou	a	utilizar	instrumentos	que	permitiram	o	desenvolvimento	da	agricultura,	deixando	de	ter	um	comportamento	nômade.	O	consequente	aumento
na	densidade	populacional	favoreceu	a	proliferação	do	mosquito	Anopheles,	vetor	da	malária,	gerando	hiperendemias	da	infecção.	Desse	modo,	ao	longo	dos	séculos,	o	βS
foi	naturalmente	selecionado	numa	espécie	de	"solução	biológica	para	um	problema	cultural".(hemoglobina	fetal)	bloqueia	a	polimerização	da	HbS	pelo	seguinte	motivo:	a	HbF	possui	alta	afinidade	pelo	oxigênio;	logo,	quanto	mais	HbF	dentro	da
hemácia,	 maior	 a	 quantidade	 de	 oxigênio...	 Na	 presença	 de	 altos	 níveis	 intracelulares	 de	 HbF	 (ex.:	 primeiros	 SEIS	 meses	 de	 vida,	 heterozigose	 HbS/HPFH,	 uso	 de
hidroxiureia),	a	formação	de	polímeros	de	HbS	e	o	afoiçamento	de	hemácias	se	reduzem	(pois	há	menos	desoxi-HbS),	o	que	ameniza	ou	mesmo	previne	as	manifestações
clínicas	da	anemia	falciforme.
● Por	 fim,	 surgem	modificações	antigênicas	na	membrana,	 como	a	 já	 citada	agregação	da	proteína	banda	3	 (que	estimula	autoanticorpos	antibanda	3,	naturalmente
presentes	na	circulação	a	opsonizar	a	superfície	da	hemácia,	aumentando	a	eritrofagocitose	no	sistema	reticuloendotelial	–	componente	de	hemólise	extravascular).
Outra	modificação	antigênica	de	interesse	é	a	exposição	da	fosfatidilserina	(FS),	uma	molécula	com	propriedades	diretamente	adesiogênicas	e	pró-inflamatórias.	A
FS	presente	na	membrana	pode	ser	"virada"	para	dentro	ou	para	fora	da	célula,	de	acordo	com	a	atividade	da	enzima	translocase.	O	estresse	oxidativo	desregula	a
translocase,	fazendo	com	que	mais	FS	seja	externalizada...	 Isso	acontece,	 inclusive,	nas	vesículas	que	se	desprendem	das	hemácias	falcêmicas,	o	que	explica	a	sua
participação	nos	processos	de	lesão	endotelial	difusa	e	estímulo	à	resposta	inflamatória,	conforme	veremos	adiante.
CONSEQUÊNCIAS	PARA	O	ORGANISMO
As	hemácias	ricas	em	HbS	são	verdadeiros	"agentes	do	caos"	dentro	do	corpo	do	paciente!
Por	motivos	didáticos,	a	primeira	repercussão	orgânica	que	vamos	explicar	é	a	ANEMIA	HEMOLÍTICA.	Entenda	que	os	dois	mecanismos	básicos	de	hemólise	acontecem	ao
mesmo	tempo	na	anemia	falciforme	(Tabela	2).
Tab.	2
Apesar	de	representar	a	menor	parcela	da	taxa	hemolítica	total,	a	hemólise	intravascular	é	a	chave	para	compreendermos	aquele	que	atualmente	é	considerado	um	dos
pontos	centrais	na	fisiopatologia	da	doença:	a	disfunção	endotelial.
Qual	é	a	relação	entre	hemólise	intravascular	e	disfunção	do	endotélio?
Quando	as	hemácias	falcêmicas	são	destruídas	no	interior	da	corrente	circulatória,	ocorre	liberação	de	seus	conteúdos	para	o	sangue.	A	hemoglobina	S	(instável	e	com
tendência	 a	 provocar	 reações	 oxidativas),	 bem	 como	 as	moléculas	 "desnaturadas"	 existentes	 nessas	 células	 (que	 são	 ricas	 em	 ferro	 não	 heme	 altamente	 catalítico),
exercem	uma	série	de	efeitos	negativos	sobre	a	camada	interna	da	parede	vascular,	isto	é,	o	endotélio.	Uma	das	principais	consequências	observadas	é	a	depleção	do
óxido	nítrico,	 uma	 substância	 com	propriedades	vasodilatadoras,	 antitrombóticas	e	anti-inflamatórias.	Não	 se	esqueça	que,	mesmo	antes	da	destruição	definitiva	da
hemácia,	as	microvesículas	ricas	em	fosfatidilserina	que	se	desprenderam	da	membrana	já	deram	início	ao	processo	de	lesão	endotelial...
Fig.	4:	As	hemácias	ricas	em	HbS	são	verdadeiros	"agentes	do	caos".
Mecanismos	de	Hemólise	na	Anemia	Falciforme
Hemólise	EXTRAVASCULAR	=	2/3	do	total
Opsonização	 por	 autoanticorpos	 antibanda	 3,	 externalização	 de	 fosfatidilserina	 e	 afoiçamento	 celular	 estimulando	 a	 eritrofagocitose	 (remoção	 de	 hemácias	 por
macrófagos	do	sistema	reticuloendotelial).
Hemólise	INTRAVASCULAR	=	1/3	do	total
Ruptura	das	interações	entre	citoesqueleto	e	membrana	(pelo	estresse	oxidativo)	com	fragilização	celular	progressiva	e	tendência	à	fragmentação	(desprendimento	de
vesículas)	e	lise	osmótica.
Além	de	todos	esses	efeitos	tóxicos	diretos,	ocorre	ainda	um	efeito	indireto:	os	conteúdos	das	hemácias	e	as	microvesículas	ricas	em	FS	também	estimulam	células	da
imunidade	inata,	como	macrófagos	e	monócitos,	a	produzir	e	secretar	citocinas	pró-inflamatórias,	como	TNF-alfa	e	interleucinas.	Assim,	na	anemia	falciforme	ocorre	um
estado	de	inflamação	sistêmica	crônica,	que	por	sua	vez	potencializa	a	disfunção	endotelial!!!	Corroboram	a	noção	de	que	existe	inflamação	sistêmica	crônica	nessa
doença	a	presença	de	alterações	persistentes	nos	exames	de	sangue,	como	leucocitose	e	elevação	de	marcadores	de	fase	aguda	(ex.:	proteína	C-reativa)	–	o	falcêmico	é
um	paciente	constantemente	"inflamado"!
O	 resultado	 final	 é	 que	 o	 endotélio	 (considerado	 o	 maior	 órgão	 do	 corpo,	 por	 revestir	 internamente	 toda	 a	 rede	 micro	 e	 macrovascular)	 acaba	 sendo	 difusamente
comprometido.	Suas	células	adquirem	um	fenótipo	"ativado",	com	exposição	de	fatores	adesiogênicos	na	superfície.	Sobrevém	um	processo	de	hiperplasia	e	fibrose	na
parede	dos	vasos	de	maior	calibre,	com	obstrução	progressiva	do	lúmen,	e	a	inflamação	sistêmica	crônica	produz	ainda	hipercoagulabilidade,	facilitando	o	surgimento	de
tromboses...	O	aumento	episódico	na	exposição	de	fatores	adesiogênicos	pelas	células	endoteliais	(aliado	a	um	aumento	no	afoiçamento	de	hemácias)	explica	o	fenômeno
da	vaso-oclusão	capilar	que	caracteriza	as	crises	falcêmicas	agudas	(ex.:	crises	álgicas).	Já	a	lesão	crônica	da	parede	vascular,	em	associação	à	hipercoagulabilidade,
explica	a	vasculopatia	macroscópica	subjacente	a	certas	complicações,	como	o	AVE	isquêmico	e	a	hipertensão	pulmonar.
VASO-OCLUSÃO	CAPILAR
Vejamos	agora	como	se	desenrola	o	processo	de	vaso-oclusão	da	microcirculação	capilar,	o	evento	fisiopatológico	mais	clássico	da	anemia	falciforme.	Como	já	dissemos,	a
vaso-oclusão	aguda	justifica	as	crises	álgicas,	mas	sabe-se	que	ela	também	ocorre	de	forma	crônica	em	baixa	escala,	levando	à	disfunção	orgânica	lentamente	progressiva
(pequenos	infartos	teciduais	cumulativos)...	Acredita-se	que	existam	duas	etapas	sucessivas:
Adesão	de	hemácias	ao	endotélio	das	vênulas	pós-capilares	(em	geral	formas	jovens	de	hemácia,	como	os	reticulócitos),	lentificando	o	fluxo	sanguíneo	local;
Impactação	e	empilhamento	de	hemácias	a	montante,	inicialmente	as	ISC	(mais	viscosas	e	menos	deformáveis)	e	posteriormente	hemácias	não	afoiçadas	
A	estase	sanguínea	subsequente	produz	hipóxia	e	acidose,	o	que	faz	o	afoiçamento	se	generalizar	criando	a	obstrução	microvascular	propriamente	dita,	que	culmina
em	isquemia	tecidual.
QUADRO	DE	CONCEITOS	I
(Figura	5).	
Fig.	5:	Representação	esquemática	do	fenômeno	de	vaso-oclusão	da	microcirculação.	Reticulócitos	não	afoiçados	geralmente	são	as	primeiras	células	a	se	aderirem	ao	endotélio,	especialmente
quando	o	endotélio	já	se	encontra	previamente	"ativado"	pela	resposta	inflamatória	sistêmica.	As	ISC	se	impactam	a	montante,	bloqueando	o	fluxo	sanguíneo.
A	anemia	falciforme	cursa	com	disfunção	endotelial	crônica,	tanto	na	MICRO	quanto	na	MACROcirculação.	Os	capilares	tendem	à	vaso-oclusão	em	decorrência	da	maior
adesividade	entre	o	endotélio	e	as	hemácias	 falcêmicas.	Na	parede	dos	vasos	de	maior	 calibre	ocorre	hiperplasia	e	 fibrose,	 obstruindo	progressivamente	o	 lúmen	e
aumentando	a	chance	de	trombose	in	situ.
A	adesão	de	hemácias	ao	endotélio	pode	ocorrer	espontaneamente,	mas	sabemos	que	ela	é	modulada	por	fatores	exógenos	como	infecções,	desidratação,	exposição	ao
frio	e	diversas	outras	formas	de	"estresse"	(incluindo	o	estresse	emocional)...	Tais	fatores	não	só	aumentam	a	chance	de	polimerização	da	HbS	como	também	estimulam
diretamente	 a	 resposta	 inflamatória,	 sobrepondo-se	 ao	 estímulo	 inflamatório	 crônico	 promovido	 pela	 hemólise	 intravascular	 constante...	 A	 agudização	 do	 estado
inflamatório	crônico	"ativa"	ainda	mais	as	células	endoteliais,	aumentando	transitoriamente	a	exposição	de	moléculas	adesiogênicas	em	sua	interface	com	o	sangue	–	um
verdadeiro	"estopim"	para	que	um	grande	número	de	hemácias	fiquem	presas	na	microcirculação!
Quais	são	as	consequências	da	vaso-oclusão	capilar?
A	isquemia	tecidual	evidentemente	 irá	produzir	 focos	de	necrose	nos	órgãos	envolvidos	(p.	ex.:	medula	óssea,	medula	renal,	baço,	pulmões,	mucosa	 intestinal,	etc.).	A
disfunção	 orgânica	 na	 anemia	 falciforme	 apresenta	 um	 curso	 crônico	 e	 progressivo,	 pois	 à	 vaso-oclusão	 capilar	 constante	 somam-se	 episódios	 intermitentes	 de
agravamento...	 Curiosamente,a	 isquemia	 localizada	 também	 estimula	 a	 disfunção	 endotelial	 sistêmica:	 mediadores	 inflamatórios,	 liberados	 pelos	 tecidos	 infartados,
exercem	 efeitos	 sistêmicos	 (à	 distância)	 que	 modificam	 a	 biologia	 vascular	 de	 todo	 o	 organismo!	 Assim,	 podemos	 afirmar	 que	 a	 vaso-oclusão	 repetitiva	 da
microvasculatura	é	um	fator	adjuvante	que,	junto	à	hemólise	intravascular	ininterrupta,	produz	inflamação	sistêmica	e	disfunção	endotelial!
QUADRO	DE	CONCEITOS	II
DIAGNÓSTICO
LABORATÓRIO	BÁSICO
Por	ser	uma	anemia	hemolítica	crônica,	a	anemia	falciforme	cursa	com	alterações	laboratoriais	estereotipadas	condizentes	com	este	grupo	de	doenças,	a	saber:	(1)	queda
leve	a	moderada	da	hemoglobina	e	do	hematócrito;	(2)	reticulocitose	(entre	3-15%);	(3)	hiperbilirrubinemia	indireta;	(4)	aumento	de	LDH;	e	(5)	queda	da	haptoglobina.	A
reticulocitose	 provoca	 um	aumento	 "artificial"	 do	VCM	 (os	 reticulócitos	 possuem	maior	 tamanho	que	 as	 hemácias	maduras),	 de	 tal	 sorte	 que	quando	um	portador	 de
anemia	falciforme	não	apresenta	VCM	"normal	alto"	ou	francamente	alto,	deve-se	suspeitar	da	coexistência	de	ferropenia...	As	hemácias	falcêmicas	são	normocrômicas,	e
a	hipocromia	também	sugere	ferropenia	associada...	Devido	à	resposta	inflamatória	sistêmica	que	acompanha	a	doença,	esperam-se	contagens	de	leucócitos	e	plaquetas
aumentadas,	além	de	elevação	dos	"marcadores	de	fase	aguda"	(ex.:	proteína	C-reativa).
A	anemia	falciforme	cursa	com	inflamação	sistêmica	crônica,	pois	tanto	os	produtos	da	hemólise	intravascular	quanto	os	da	isquemia	tecidual	estimulam	diretamente	a
secreção	de	mediadores	pró-inflamatórios	pelas	células	do	sistema	imune.	A	 inflamação	sistêmica	potencializa	a	disfunção	endotelial,	que	por	sua	vez	facilita	a	vaso-
oclusão	capilar	e	a	lesão	na	parede	dos	vasos	de	maior	calibre,	gerando	um	ciclo	vicioso.
Fig.	6:	Resumo	da	cascata	de	eventos	fisiopatológicos	da	anemia	falciforme.
O	panorama	apresentado	pelo	esfregaço	de	sangue	periférico	é	relativamente	específico,	sugerindo	o	diagnóstico	no	contexto	apropriado.	Observam-se	neste	exame:	(1)
hemácias	irreversivelmente	afoiçadas	–	as	ISC;	(2)	policromasia	–	indicativo	de	reticulocitose;	(3)	corpúsculos	de	Howell-Jolly	–	sinal	de	asplenia;	e	(4)	hemácias	"em	alvo"
–	indício	genérico	de	que	existe	uma	hemoglobinopatia.
CONFIRMAÇÃO
Assim	 como	 acontece	 com	 outras	 hemoglobinopatias,	 o	 diagnóstico	 de	 AF	 geralmente	 é	 confirmado	 por	meio	 da	eletroforese	 de	 hemoglobina.	 Neste	método,	 as
diferentes	hemoglobinas	presentes	nas	hemácias	são	separadas	num	gel	em	função	de	seu	peso	molecular	e	carga	elétrica	( ). 	Na	grande	maioria	das	vezes,	o
"perfil	de	distribuição"	das	hemoglobinas	encontradas	permite	o	diagnóstico	diferencial	entre	anemia	falciforme	e	as	principais	variantes	falcêmicas	(Tabela	3).	Outros
exames	 capazes	 de	 confirmar	 o	 diagnóstico	 são	 a	 cromatografia	 líquida	 de	 alta	 performance	 (HPLC)	 e	 a	 análise	 genética.	 Os	 testes	 de	 afoiçamento	 e	 de
solubilidade	 da	 hemoglobina	 não	 diferenciam	 entre	 AF	 e	 as	 variantes	 falcêmicas	 (apenas	 detectam	 a	 presença	 de	 HbS),	 logo,	 não	 são	 capazes	 de	 confirmar	 o
diagnóstico,	ainda	que	possam	ser	usados	como	testes	de	rastreio.
SAIBA	MAIS...
A	Velocidade	de	Hemossedimentação	 (VHS)	 não	 é	 útil	 na	 anemia	 falciforme!	As	 hemácias	 falcêmicas	 não	 formam	 rouleaux,	 logo,	 a	VHS	 é	 sempre	 baixa	 nesses
doentes,	mesmo	quando	existe	inflamação	sistêmica	importante.
Figura	7 	
Fig.	7:	Eletroforese	de	hemoglobina.	Nesta	técnica,	um	campo	elétrico	criado	entre	as	extremidades	do	gel	faz	as	moléculas	adicionadas	migrarem	em	direção	ao	polo	de	carga	oposta.	A	velocidade
de	migração	depende	não	apenas	da	carga	total	da	molécula,	mas	também,	e	principalmente,	de	seu	peso,	pois	o	gel	possui	orifícios	com	tamanho	fixo,	o	que	"atrasa"	a	movimentação	das	moléculas
maiores...	Após	um	período	de	tempo	pré-determinado,	pode-se	separar	as	diferentes	hemoglobinas	presentes	na	amostra	analisada	em	função	de	sua	velocidade	de	migração.
Tab.	3
Guarde	 para	 a	 prova	 o	 seguinte	MACETE:	 os	 níveis	 de	 HbA2	 são	 praticamente	 normais	 na	 anemia	 falciforme	 e	 no	 traço	 falcêmico.	 Se	 um	 paciente	 que	 tem	HbS	 na	 eletroforese	 de
hemoglobina	apresentar	também	níveis	elevados	de	HbA2	(>	3%)	isso	indica	a	existência	de	heterozigose	com	alguma	forma	de	β-talassemia!	Para	definir	o	tipo	de	β-talassemia,	olhamos	para
a	HbA1:	se	esta	 for	detectável,	a	heterozigose	só	pode	ser	com	β+-talassemia!!!	Caso	contrário	 (ausência	de	HbA1),	a	heterozigose	só	pode	ser	com	β0	 -talassemia.	Lembre-se:	a	HbA1	é
composta	por	duas	cadeias	α	e	duas	cadeias	β.	Na	anemia	falciforme	não	há	cadeias	β	"normais",	logo,	não	há	como	formar	HbA1.	Na	presença	do	gene	β+	ocorre	alguma	formação	de	cadeias
β	 (e,	consequentemente,	de	HbA1).	 Já	o	gene	β0	não	determina	a	 formação	de	cadeias	β,	 logo,	não	há	HbA1	se	este	gene	estiver	presente	em	homozigose	 (betatalassemia	major)	ou	em
heterozigose	com	o	gene	βS.
Uma	 vez	 confirmado	 o	 diagnóstico	 de	 anemia	 falciforme,	 deve-se	 solicitar	 uma	 bateria	 de	 exames	 específicos	 visando	 o	 acompanhamento	 evolutivo	 da	 função	 dos
múltiplos	"órgãos-alvo"	dessa	doença	(mais	detalhes	adiante).
RASTREIO
PRÉ-NATAL
Nas	gestações	onde	existe	risco	de	HbSS	no	concepto	(ex.:	HbSS	ou	traço	falcêmico	em	ambos	os	pais)	pode-se	realizar	o	diagnóstico	pré-natal	da	doença	por	meio	da
biópsia	de	vilo	coriônico,	coletada	entre	8-10	semanas	de	gestação	e	submetida	à	análise	genética.	Vale	lembrar	que,	em	nosso	meio,	o	aborto	de	fetos	HbSS	(um	tipo	de
"aborto	eugênico")	é	proibido.
NEONATAL
No	Brasil,	TODOS	os	recém-nascidos,	por	lei,	devem	realizar	o	teste	do	pezinho	(entre	2-30	dias	de	vida),	a	fim	de	detectar	uma	série	de	doenças	genéticas,	incluindo	a
anemia	falciforme.	Tal	conduta	se	justifica	porque	a	adoção	precoce	de	medidas	preventivas	(como	o	uso	diário	de	penicilina	V	oral	até	a	idade	de	cinco	anos)	é	capaz	de
mudar	a	história	natural	da	doença,	reduzindo	sua	morbimortalidade.
A	 partir	 do	 sangue	 obtido	 por	 punção	 do	 calcanhar	 determina-se	 o	 fenótipo	 de	 hemoglobina	 utilizando	 a	 seguinte	 nomenclatura:	 (1)	 cada	 hemoglobina	 encontrada	 é
representada	por	uma	letra;	e	(2)	a	sequência	de	letras	obedece	à	frequência	das	hemoglobinas	em	ordem	decrescente.	Não	se	esqueça	que	nos	primeiros	seis	meses	de
vida	existe	um	predomínio	fisiológico	da	hemoglobina	F...	Ver	Tabela	4.
Tab.	4
*Na	heterozigose	HbS/β0-talassemia	não	há	formação	de	hemoglobina	A	normal,	pois	não	existem	cadeias	βA.	O	diagnóstico	dessa	variante	falcêmica	deve	ser	cogitado	quando	um	dos	pais	não
for	portador	de	anemia	falciforme	nem	de	traço	falcêmico...	Na	HbS/HPFH,	níveis	elevados	de	HbF	persistem	após	os	primeiros	seis	meses	de	vida,	fazendo	com	que	o	indivíduo	não	desenvolva
sintomas	de	anemia	falciforme.	O	diagnóstico	definitivo,	em	ambos	os	casos,	só	pode	ser	dado	pela	análise	genética.
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS	E	TRATAMENTO
A	anemia	falciforme	se	manifesta	essencialmente	como	um	quadro	de	hemólise	crônica	associado	a	múltiplas	disfunções	orgânicas	progressivas.	A	maioria	dos	pacientes
apresenta	uma	evolução	pontuada	por	crises	álgicas	recorrentes	(crises	vaso-oclusivas),	que	se	 iniciam	a	partir	do	momento	em	que	os	níveis	de	HbF	fisiologicamente
aumentados	nos	primeiros	meses	de	vida	começam	a	se	reduzir	 (o	que	se	acompanha	de	um	aumento	proporcional	nos	níveis	de	HbS).	Os	principais	"órgãos-alvo"	da
doença	são:	(1)	baço;	(2)	ossos;	(3)	rins;	(4)	cérebro;	(5)	pulmões;	(6)	pele;	e	(7)	coração.	A	expectativa	de	vida	dos	falcêmicos	é	inferior	à	da	população	geral,	girando
em	torno	de	42	anos	para	os	homens	e	48	anos	para	as	mulheres.	Ressalte-se	que,	a	despeito	dessas	cifras	reduzidas,	o	prognóstico	melhorou	muito	nas	últimas	décadas
se	considerarmos	que	por	volta	de	1970	os	falcêmicos	em	geral	NÃO	sobreviviam	por	mais	do	que	20	anos...
O	avanço	na	sobrevida	é	consequência	de	uma	compreensão	aprofundada	da	fisiopatologia,o	que	permitiu	o	desenvolvimento	não	apenas	de	medidas	mais	seguras	e
eficazes	 para	 combater	 as	 complicações	 falcêmicas	 agudas,	 como	 também	 estratégias	 comprovadamente	 capazes	 de	 alterar	 sua	 história	 natural.	 Por	 uma	 questão
didática,	antes	de	abordarmos	as	manifestações	clínicas	individuais	e	suas	respectivas	condutas	pertinentes,	falaremos	sobre	a	terapia	modificadora	de	doença	que	deve
ser	cogitada	em	todos	os	casos.
PRINCÍPIOS	TERAPÊUTICOS
AVALIAÇÃO	GLOBAL	INICIAL
Idealmente,	toda	pessoa	que	recebe	o	diagnóstico	de	anemia	falciforme	deve	ser	acompanhada	por	um	médico	hematologista.	Diversos	exames	complementares	devem
ser	 rotineiramente	solicitados	a	 fim	de	avaliar	o	grau	de	comprometimento	orgânico,	servindo,	 inclusive,	como	base	para	comparações	 futuras.	Alguns	desses	exames
serão	discutidos	com	mais	detalhes	adiante,	nas	subseções	específicas	–	ver	Tabela	5.
Tab.	5																					
Obs.:	(1)	sua	monitoração	após	o	início	da	terapia	modificadora	de	doença	serve	para	acompanhar	o	grau	de	inflamação	sistêmica	crônica;	(2)	se	houver	hematúria	no	EAS;	(3)	se	houver
baixa	performance	escolar,	problemas	de	cognição	e	memória,	ou	alterações	na	RM	do	encéfalo.
Video_07_Hem1
TERAPIA	MODIFICADORA	DE	DOENÇA
Existem	quatro	condutas	básicas	que	comprovadamente	diminuem	a	morbimortalidade	da	anemia	falciforme,	prolongando	a	vida	do	paciente.	Tal	conjunto	de	medidas	é
denominado	terapia	modificadora	de	doença	e	está	embasado	por	evidências	científicas	robustas:	(1)	profilaxia	contra	o	pneumococo;	(2)	reativação	da	síntese	de	HbF;
(3)	hemotransfusão;	e	(4)	uso	de	quelantes	de	ferro.	Estude	atentamente	os	parágrafos	a	seguir	e	revise	no	Quadro	de	Conceitos	III	as	indicações	precisas	de	cada	um
desses	tratamentos	–	com	exceção	da	profilaxia	contra	o	pneumococo,	nem	sempre	os	outros	três	serão	indicados...
QUADRO	DE	CONCEITOS	III Terapia	modificadora	de	doença	na	anemia	falciforme.
	PROFILAXIA	CONTRA	O	PNEUMOCOCO
A	principal	causa	de	óbito	em	crianças	falcêmicas	(em	particular	na	faixa	etária	entre	1-3	anos)	é	a	infecção	por	germes	encapsulados,	com	destaque	para	o	Streptococcus
pneumoniae	 (pneumococo).	 O	 pneumococo	 tem	 comportamento	 mais	 invasivo	 nesses	 pacientes,	 evoluindo	 com	 pneumonia,	 bacteremia	 e	 meningite.	 A	 vacinação
antipneumocócica	e	o	uso	profilático	de	penicilina,	apesar	de	não	 interferirem	diretamente	no	processo	de	afoiçamento	de	hemácias,	 reduzem	de	 forma	significativa	a
morbimortalidade	precoce	da	AF,	sendo	consideradas,	por	conseguinte,	terapias	modificadoras	de	doença!
Vacinação:	para	crianças	com		2.000/ml.	É	esperado	um	aumento	discreto	do	VCM	com	seu	uso...	Na	maioria	dos	adultos	a	dose	prescrita	fica
entre	1-2	g/dia.	Com	essa	posologia,	leva	de	três	a	quatro	meses	para	se	atingir	o	efeito	pleno	(isto	é,	resposta	máxima	da	HbF)...	As	principais	indicações	de	HU	na	AF	são
listadas	na	Tabela	6.
Tab.	6
*No	caso	de	reticulócitos		250.000,	necessidade	de
hemotransfusão	crônica,	porém	aloimunização	significativa,	prevenção	secundária	da	STA.
Obs.:	manter	neutrófilos	>	2.000/ml.
Terapia	Transfusional
● Transfusão	simples:
➤ Hb		20%	em	relação	ao	basal;
➤ Pré-operatório;
➤ Pode	ser	indicada	na	síndrome	torácica	aguda	e	no	priapismo.
Alvos:	Hb	=	10	g/dl	e	Ht	=	30%.
● Transfusão	de	troca	parcial:
➤ Prevenção	primária	e	secundária	do	AVC	isquêmico;
➤ Ideal	na	síndrome	torácica	aguda	e	priapismo.
Alvos:	Hb	=	10	g/dl,	Ht	=	30%	e	HbS		2.000	mcg/L;
➤ Ferro	hepático	>	2.000	mcg/g	de	peso	seco;
➤ Histórico	de	transfusões	mensais	por	>	1	ano;
➤ RM	cardíaca	e/ou	hepática	(Ferriscan)	positiva	para	excesso	de	ferro.
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Principais	Indicações	de	HU
● Duas	ou	mais	crises	álgicas	por	ano,	com	necessidade	de	internação	hospitalar.
● Presença	de	alguma	disfunção	orgânica	crônica	relacionada	à	AF.
● Anemia	profunda,	desde	que	reticulócitos	>	250.000*.
● Paciente	com	indicação	de	hemotransfusão	crônica	que	apresenta	aloimunização	importante.
● Prevenção	secundária	da	síndrome	torácica	aguda.
	HEMOTRANSFUSÃO
Existem	duas	modalidades	básicas	de	hemotransfusão	na	AF:	(1)	transfusão	simples;	e	(2)	transfusão	de	troca	parcial	(exsanguinotransfusão	parcial).	Ambas	podem
ser	 realizadas	 de	maneira	 episódica,	mas	 quando	 é	 necessário	 transfundir	 cronicamente	 o	 paciente	 indica-se	 apenas	 a	 transfusão	 de	 troca	 parcial,	 já	 que	 com	 este
procedimento	o	risco	de	sobrecarga	de	ferro	é	menor	(ver	adiante).
Na	transfusão	simples,	as	bolsas	de	hemácias	são	ministradas	conforme	a	necessidade.	Lembre-se	que	cada	bolsa,	num	adulto	médio,	eleva	a	hemoglobina	em	cerca	de	1
g/dl	(o	que	equivale	a	um	aumento	de	3%	no	hematócrito).	Tal	estratégia,	em	falcêmicos,deve	trazer	a	Hb	e	o	Ht	até	um	máximo	de	10	g/dl	e	30%,	respectivamente.
Valores	de	Hb/Ht	acima	desses	limiares	produzem	hiperviscosidade	sanguínea	na	presença	de	HbS.
Na	transfusão	de	troca	parcial,	parte	das	hemácias	falcêmicas	é	removida	da	circulação	em	troca	de	hemácias	normais.	Isto	pode	ser	feito	sequencialmente,	através	de
uma	flebotomia	(retirada	de	10	ml/kg	de	sangue)	seguida	pela	transfusão	de	hemácias.	Também	se	pode	realizar	a	troca	de	forma	concomitante,	por	meio	de	um	aparelho
automatizado.	Os	alvos	de	Hb	e	Ht	são	os	mesmos:	10	g/dl	e	30%.	No	entanto,	além	de	aumentar	Hb	e	Ht,	a	transfusão	de	troca	possui	uma	vantagem	adicional:	redução
na	quantidade	de	HbS	circulante.	Neste	procedimento,	objetiva-se	manter	a	proporção	de	HbS		20%	em	relação	ao	basal*.
● Pré-operatório	(Hb	alvo	=	10	g/dl).
● Pode	ser	indicada	na	síndrome	torácica	aguda	e	no	priapismo.
Principais	Indicações	de	Transfusão	de	Troca	Parcial	na	Anemia	Falciforme
● Prevenção	primária	e	secundária	do	AVC	isquêmico.
● Preferencial	à	transfusão	simples	nos	casos	de	síndrome	torácica	aguda	e	priapismo.
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Indicações	para	o	Uso	dos	Quelantes	de	Ferro
● Ferritina	sérica	>	2.000	mcg/L.
● Ferro	hepático	>	2.000	mcg/g	de	peso	seco.
● História	de	transfusões	mensais	por	>	1	ano.
● RM	cardíaca	e/ou	hepática	(Ferriscan)	positiva	para	excesso	de	ferro.
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Sabemos	que	na	anemia	falciforme	um	hematócrito	>	30%	(Hb	>	10-11	g/dl)	se	associa	a	um	aumento	da	viscosidade	sanguínea,	o	que	por	sua	vez	aumenta	a	frequência
e	 a	 intensidade	 do	 fenômeno	 de	 vaso-oclusão	 capilar.	 Nos	 raros	 pacientes	 que	 apresentam	 espontaneamente	 uma	Hb	 ≥	 9,5	 g/dl,	 um	 protocolo	 de	 flebotomias
quinzenais	pode	ser	instituído,	visando	à	redução	da	hiperviscosidade.	A	conduta	consiste	na	retirada	de	10	ml	de	sangue/kg	de	peso	em	20-30min	(com	reposição	de
igual	volume	de	salina	isotônica),	repetindo-se	o	procedimento	até	que	um	alvo	de	Hb	entre	9-9,5	g/dl	seja	atingido.
	ERITROPOETI​NA/DARBEPOETINA
A	reposição	de	eritropoetina	(ou	seu	análogo	de	meia-vida	longa,	a	darbepoetina)	está	sendo	estudada	no	tratamento	da	anemia	falciforme.	É	possível	que	haja	benefício
nos	casos	que	apresentam	Hb	pelo	aumento	do	d-dímero
plasmático	 durante	 uma	 crise	 vaso-oclusiva),	 o	 verdadeiro	 papel	 da	 trombose	 na	 fisiopatologia	 falcêmica	 ainda	 não	 foi	 plenamente	 esclarecido...	 De	 forma	 análoga,
também	não	existem	evidências	definitivas	na	literatura	a	respeito	dos	riscos	e	benefícios	dos	agentes	antiplaquetários	e	anticoagulantes	nessa	doença.
Um	pequeno	estudo	utilizando	minidoses	diárias	de	heparina	não	fracionada	(7.500	UI	SC	de	12/12h,	por	um	período	de	dois	a	seis	anos),	sugeriu	redução	na	intensidade	e
frequência	 das	 crises	 álgicas.	 Já	 outro	 estudo	 que	 empregou	 baixas	 doses	 de	 aspirina	 não	 encontrou	 diferenças	 significativas...	 Evidentemente,	 mais	 estudos	 são
necessários,	e	até	que	tenhamos	dados	mais	fidedignos,	a	anticoagulação	e	a	antiagregação	plaquetária	não	podem	ser	indicadas	de	rotina	só	pela	existência	de	AF	(isto	é,
utilizaremos	anticoagulantes	e/ou	antiplaquetários	nesses	doentes	somente	se	houver	indicações	válidas	para	tal).
	ÁCIDO	ÔMEGA	3
Estudos	recentes	sugeriram	que	a	suplementação	de	ácido	ômega	3	diminui	a	ocorrência	de	crises	vaso-oclusivas	em	portadores	de	anemia	falciforme,	além	de	poder
reduzir	a	necessidade	de	hemotransfusão.	O	benefício	seria	decorrente	do	efeito	anti-inflamatório	dessa	substância.
TERAPIAS	EXPERIMENTAIS
Encontram-se	em	fase	de	desenvolvimento	diversas	estratégias	potencialmente	modificadoras	de	doença,	como	o	uso	de	inibidores	da	adesão	eritrocitária	ao	endotélio
(ex.:	 imunoglobulina	anti-PSGL),	estimulantes	da	síntese	de	óxido	nítrico	 (ex.:	glutamina)	e	 fitoterápicos	de	mecanismo	 incerto,	para	os	quais	há	 relatos	anedóticos	de
benefício	(ex.:	Niprisan®).
COMPLICAÇÕES	E	SEU	MANUSEIO	ESPECÍFICO
Video_08_Hem1
CRISE	ÁLGICA
A	dor	aguda	é	o	sintoma	inicial	da	AF	em	>	25%	dos	casos,	e	representa	o	principal	motivo	que	leva	esses	doentes	a	procurar	auxílio	médico.	A	forma	mais	comum	de	crise
álgica	é	a	"crise	esquelética",	sendo	seu	mecanismo	causal	a	vaso-oclusão	no	interior	da	medula	óssea	produzindo	infarto	ósseo.
Em	crianças	com	menos	de	dois	anos	de	idade,	a	primeira	crise	álgica	costuma	ser	a	síndrome	mão-pé	(dactilite	falcêmica).	Ocorre	dor	e	edema	nas	extremidades,	em
consequência	à	isquemia/infarto	dos	pequenos	ossos	das	mãos	e	pés.
A	 intensidade	e	a	 frequência	das	crises	álgicas	são	amplamente	variáveis	entre	diferentes	pacientes,	podendo	variar	 também,	por	motivos	pouco	compreendidos,	num
mesmo	paciente	ao	longo	do	tempo.	Por	exemplo:	um	grande	estudo	demonstrou	que	cerca	de	1/3	dos	falcêmicos	raramente	apresenta	uma	crise	álgica	importante,	ao
passo	que	1/3	interna	por	este	motivo	de	2	a	6x/ano,	e	o	1/3	restante	interna	>	6x/ano.	Cerca	de	5%	dos	pacientes,	apenas,	respondem	por	mais	de	30%	de	todas	as
visitas	 aos	departamentos	de	 emergência!	 Logo,	 quem	dá	plantão	em	emergência	 geralmente	 adquire	 uma	 ideia	 "enviesada"	 a	 respeito	 da	 realidade	dos	 falcêmicos:
somente	uma	minoria	desses	indivíduos	apresenta	crises	álgicas	muito	frequentes!!!
A	probabilidade	de	ocorrer	uma	crise	álgica	 tende	a	 ser	maior	na	vigência	de:	 (1)	 níveis	 reduzidos	de	HbF;	 (2)	 níveis	aumentados	de	Hb/Ht	 –	pela	maior	viscosidade
sanguínea;	e	(3)	história	de	apneia	do	sono	(risco	de	dessaturação	arterial	noturna).	A	dor	pode	ser	desencadeada	por	fatores	como	frio,	desidratação,	infecções,	estresse
emocional,	menstruação	e	libação	alcoólica.	Muitas	vezes,	entretanto,	nenhum	fator	desencadeante	pode	ser	identificado,	e	a	crise	é	dita	"espontânea"...
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Qualquer	parte	do	corpo	pode	ser	afetada,	mas	as	topografias	onde	a	dor	geralmente	incide	são:	(1)	região	dorsolombar;	(2)	tórax;	(3)	extremidades;	e	(4)	abdome.	A	dor
pode	variar	de	leve	a	excruciante,	ficando	a	duração	de	um	episódio	típico	entre	quatro	a	dez	dias.
Vale	 ressaltar	 que	 a	 "crise	 abdominal"	 é	 causada	 por	 isquemia/microinfartos	 no	 território	mesentérico,	 geralmente	 evoluindo	 com	 resolução	 espontânea	 e	 sem
maiores	complicações...	O	quadro	clínico	é	de	dor	abdominal	intensa	acompanhada	de	sinais	de	irritação	do	peritônio	(ex.:	descompressão	brusca	dolorosa),	o	que
pode	simular	abdome	agudo	cirúrgico	e	 levar	o	médico	a	 indicar	uma	laparotomia	exploradora	(que	no	caso	será	"branca",	 isto	é,	nenhum	diagnóstico	cirúrgico	é
encontrado)...	Um	dado	importantíssimo	que	ajuda	a	afastar	a	existência	de	abdome	agudo	"cirúrgico"	no	contexto	da	crise	abdominal	falcêmica	é	a	presença	de
peristalse	ao	exame	clínico!	Se	a	peristalse	estiver	normal	a	 indicação	de	 laparotomia	deverá	ser	baseada	em	outros	dados	que	não	a	"síndrome	de	peritonite"
observada	no	exame	físico	(ex.:	demonstração	de	pneumoperitônio	em	exames	de	imagem).
A	conduta	perante	a	crise	álgica	falcêmica	consiste	na	pesquisa/correção	dos	fatores	desencadeantes,	bem	como	no	alívio	imediato,	seguro	e	eficaz	da	dor.	A	eliminação
completa	da	dor	é	um	objetivo	irreal,	e	deve-se	pesar	os	riscos	e	benefícios	do	tratamento	em	cada	caso:	subtratar	o	paciente	(deixando-o	com	dor	residual	significativa)	é
tão	ruim	quanto	o	supertratamento	que	resulta	em	sedação,	depressão	respiratória	e	hipoxemia	(levando	à	piora	do	afoiçamento	de	hemácias)...
Diferentes	"pontos"	da	via	nociceptiva	devem	ser	farmacologicamente	modulados	visando	o	controle	do	sintoma.	Para	tanto,	utilizam-se	combinações	de	analgésicos	com
mecanismos	 de	 ação	 distintos,	 o	 que	 potencializa	 a	 eficácia	 do	 esquema	 ao	mesmo	 tempo	 em	 que	 permite	 reduzir	 a	 dose	 e	 a	 chance	 de	 toxicidade	 de	 cada	 droga
individual.	AINE,	paracetamol,	dipirona	e	opioides	devem	ser	prescritos	em	intervalos	regulares	(e	não	apenas	como	"SOS")	de	maneira	sequencial	e	aditiva.	Na	dor	leve	a
moderada	 utilizam-se	 os	 três	 primeiros,	 associando	 os	 opioides	 nos	 quadros	 mais	 graves	 e/ou	 refratários	 (a	 potência	 e	 a	 dose	 dos	 opidoides	 devem	 aumentar	 em
proporção	direta	à	dor).	Observe	a	Tabela	10.
Fig.	8:	Dactilite	falcêmica	(síndrome	mão-pé).
SAIBA	MAIS... Diagnóstico	laboratorial	da	crise	álgica???
Não	há	correlação	direta	entre	o	número	de	ISC	no	sangue	periférico	e	o	diagnóstico/gravidade	das	crises	álgicas	falcêmicas,	porém,	parece	haver	estreita	associação
entre	o	grau	de	adesividade	intercelular	(medido	por	métodos	laboratoriais	especiais)	e	o	diagnóstico/gravidade	dessas	crises...	O	fato	é	que	até	o	momento	NÃO	HÁ	um
exame	 especificamente	 validado	 para	 documentar	 se	 o	 paciente	 está	 ou	 não	 na	 vigência	 de	 uma	 crise	 vaso-oclusiva!	 Se	 existisse,	 tal	 exame	 seria	muito	 útil,	 por
exemplo,	para	auxiliar	na	diferenciação	com	dependência	aos	opioides	naqueles	pacientes	que	"vivem"	procurando	serviços	de	emergência	com	queixas	de	dor	(isto	é,
poderíamos	verificar	se	de	fato	o	paciente	possui	uma	crise	vaso-oclusiva,	ou	se	ele	está	apenas	simulando	sintomas	para	conseguir	medicamentos)...
Tab.	10
Obs.:	(1)	deve-se	evitar	o	uso	regular	de	meperidina,	pois	a	normeperidina	(seu	principal	metabólito,	que	se	acumula	no	organismo)	é	neurotóxica,	acarretando	risco	de	agitação	psicomotora	e
convulsões;	(2)	o	cetorolaco	é	o	AINE	com	maior	potência	analgésica	–	uma	única	dose	produz	analgesia	equivalente	a	6	mg	de	morfina.
A	hidratação	 é	outro	ponto	essencial	no	manuseio	da	crise	álgica,	devendo	ser	 feita	preferencialmente	pela	via	oral	 (60	ml/kg/dia).	A	hidratação	venosa	passa	a	 ser
indicada	nos	 casos	 em	que	a	hidratação	oral	 não	é	 adequada	ou	não	pode	 ser	 garantida,	 tendo	em	mente	que	 todo	 cuidado	é	 pouco	a	 fim	de	evitar	 a	 hipervolemia
iatrogênica	(particularmente	em	falcêmicos	adultos,	que	costumam	apresentar	disfunção	cardíaca	crônica).	O	grau	de	hidratação	pode	ser	objetivamente	avaliado	através
da	monitorização	diária	do	EAS,	que	deve	ter	a	densidade	urinária	mantida	nem	sua	duração,	pelo	contrário:	se	a	Hb
ultrapassar	10	g/dl	pode	ocorrer	hiperviscosidade	sanguínea	e	piora	da	vaso-oclusão	capilar...
DOR	CRÔNICA
Na	maioria	das	vezes,	os	portadores	de	AF	que	se	queixam	de	dor	crônica	possuem	um	substrato	anatômico	para	tal,	por	exemplo:	fraturas	vertebrais,	osteonecrose	da
cabeça	do	fêmur	e/ou	úmero,	úlceras	cutâneas	persistentes...	Para	estes	pacientes	o	uso	de	analgésicos	em	longo	prazo	está	indicado,	lançando	mão	do	mesmo	tipo	de
estratégia	empregada	na	paliação	do	câncer	 terminal,	como	 formulações	de	morfina	oral	de	 liberação	prolongada,	antidepressivos	 tricíclicos	em	baixas	doses	e	certos
agentes	anticonvulsivantes	(ex.:	gabapentina,	pregabalina).	A	primeira	deve	ter	sua	dose	titulada	até	o	controle	álgico	satisfatório,	e	os	dois	últimos	devem	ser	ajustados
de	modo	a	amenizar	os	componentes	neuropáticos	da	dor	crônica	(ex.:	sensação	de	"queimação",	parestesias)	e	os	distúrbios	neuropsiquiátricos	associados	(ex.:	insônia,
depressão).	Se	a	causa	da	dor	crônica	possuir	tratamento	específico,	este	deve	ser	tentado	(ex.:	artroplastia	total	de	quadril	na	osteonecrose	da	cabeça	do	fêmur)...
Por	outro	lado,	quando	nenhum	substrato	anatômico	é	identificado,	o	mais	provável	é	que	se	trate	de	um	paciente	com	crises	de	vaso-oclusão	muito	amiúdes...	Neste	caso,
o	tratamento	"paliativo"	crônico	com	as	drogas	citadas	deve	ser	LIMITADO,	focando-se	a	conduta	nas	medidas	que	reduzem	a	vaso-oclusão	(ex.:	aumento	da	HbF	com	o
uso	de	HU;	transplante	de	células-tronco	hematopoiéticas	nos	casos	refratários	e	incapacitantes).
CRISES	ANÊMICAS
Falcêmicos	vivem	sob	um	estado	de	constante	"estresse	hematopoiético".	Devido	à	meia-vida	extremamente	curta	de	suas	hemácias	(média	de	17	dias,	bem	abaixo	do
valor	normal	de	120	dias),	a	produção	eritrocitária	da	medula	óssea	se	aproxima	de	sua	capacidade	máxima...	Logo,	qualquer	distúrbio	que	 interfira	nos	componentes
dessa	resposta	adaptativa	pode	desencadear	as	chamadas	"crises	anêmicas",	episódios	de	súbito	agravamento	da	anemia	que	acarretam	risco	imediato	à	vida.	Falaremos
aqui	sobre	as	principais	modalidades	de	crise	anêmica	na	anemia	falciforme...
Crise	aplásica:	caracterizada	por	uma	interrupção	transitória	na	proliferação	dos	precursores	eritrocitários	na	medula	óssea,	cursa	como	um	quadro	de	queda	súbita
nos	níveis	de	hemoglobina	acompanhada	de	reticulocitopenia.	Em	crianças,	a	causa	mais	comum	é	a	infecção	pelo	parvovírus	B19	(68%	dos	casos),	um	vírus	que
invade	especificamente	os	eritroblastos	da	medula	promovendo	uma	"parada"	em	sua	maturação.	Em	adultos	outras	etiologias	parecem	mais	importantes,	pois	a	maioria
desses	pacientes	apresenta	níveis	protetores	de	anticorpos	antiparvovírus	B19...	Neste	grupo,	as	 infecções	por	pneumococo,	Salmonella,	outros	estreptococos	e	o	vírus
Epstein-Barr	–	bem	como	os	infartos	ósseos	extensos,	que	comprometem	o	funcionamento	da	medula	óssea	–	constituem	as	causas	mais	frequentes	de	crise	aplásica!	O
mecanismo	é	a	inibição	da	eritropoiese	em	decorrência	da	exacerbação	da	resposta	inflamatória	sistêmica...	A	ocorrência	de	infarto	extenso	de	medula	óssea	é	sugerida
pela	combinação	de	crise	aplásica	 (queda	da	Hb	com	reticulocitopenia)	+	crise	álgica	 intensa	+	 febre	+	 leucoeritroblastose	no	sangue	periférico	 (presença	de	 formas
jovens	de	hemácias	e	leucócitos	na	circulação).	O	tratamento	é	feito	com	hemotransfusões	simples	de	acordo	com	a	necessidade.
Crise	megaloblástica:	caracterizada	por	uma	queda	súbita	nos	níveis	de	hemoglobina	acompanhada	por	um	aumento	do	VCM	(macrocitose).	Costuma	ser
causada	 pelo	 rápido	 esgotamento	 das	 reservas	 endógenas	 de	 folato,	 que	 duram	poucos	 dias	 nos	 estados	 hemolíticos	 crônicos	 se	 o	 paciente	 não	 ingerir	 quantidades
suficientes	deste	nutriente...	Às	vezes	existe	também	um	componente	de	deficiência	de	vitamina	B12,	em	particular	nos	indivíduos	que	apresentam	outros	motivos	para	tal
(ex.:	desnutrição	crônica,	má	absorção	intestinal).	O	tratamento	é	feito	com	hemotransfusões	simples	conforme	a	necessidade,	aliada	à	reposição	da	vitamina	que	está
faltando.	A	profilaxia	é	feita	com	ácido	fólico	1	mg/dia.
Crises	de	"sequestro"	(esplênico,	hepático	ou	pulmonar):	nas	crises	de	"sequestro"	ocorre	obstrução	aguda	da	rede	de	drenagem	microvenular	de	determinados
órgãos,	em	consequência	à	vaso-oclusão	local,	culminando	em	represamento	de	sangue	no	interior	do	órgão	(que	acaba	funcionando	como	uma	verdadeira	"esponja"	de
sangue,	com	risco,	 inclusive,	de	 ruptura	e	hemorragia	 interna	 fatal).	O	órgão	mais	 frequentemente	acometido	é	o	baço,	devido	à	maior	propensão	ao	afoiçamento	de
hemácias	nos	cordões	esplênicos.	No	entanto,	o	sequestro	 também	pode	ocorrer	nos	sinusoides	hepáticos	e	na	circulação	venocapilar	pulmonar...	O	que	caracteriza	o
"sequestro"	é	a	queda	súbita	nos	níveis	de	hemoglobina	acompanhada	por	um	aumento	da	reticulocitose	 (bem	diferente	da	crise	aplásica).	Costuma	haver
também	plaquetopenia,	e	o	paciente	pode	apresentar	sinais	de	hipovolemia...	No	caso	do	sequestro	esplênico	o	baço	aumenta	rapidamente	de	tamanho,	enquanto	no
sequestro	hepático	ocorre	hepatomegalia	aguda	dolorosa.	No	sequestro	pulmonar	pode	haver	hemorragia	alveolar	(com	hemoptise)	e	insuficiência	respiratória.	As	crises
de	sequestro	podem	ser	desencadeadas	por	infecções,	mas	também	podem	ser	espontâneas.	Os	pais	devem	ser	treinados	a	medir	o	tamanho	do	baço	de	suas	crianças
falcêmicas	na	vigência	de	processos	infecciosos.
Exemplos	de	Analgésicos	Comumente	Utilizados	na	Crise	Álgica
Paracetamol 0,3-0,6	g	até	de	4/4h.
Dipirona 0,5-1	g	até	de	4/4h.
Ibuprofeno 300-400	mg	até	de	4/4h.
Cetorolaco
Ataque:	30-60	mg.
Manutenção:	15-30	mg	até	de	6/6h	(usar	no	máximo	por	cinco	dias).
Codeína 30-60	mg	até	de	4/4h.
Oxicodona 0,15	mg/kg	até	de	4/4h.
Tramadol 50-100	mg	até	de	6/6h.
Morfina
Ataque:	0,1	mg/kg	IV	ou	SC	a	cada	20min	até	o	controle	álgico	ou	sedação.
Manutenção:	0,05-0,15	mg/kg	IV	ou	SC	de	2/2h	ou	4/4h	(evitar	doses	isoladas	>	10
mg).
"SOS":	50%	da	dose	de	manutenção	a	cada	30min	(acrescentar	à	prescrição	do	dia
seguinte	 a	 quantidade	 de	 SOS	 utilizada	 na	 véspera).	 Após	 2-3	 dias	 de	 morfina
parenteral,	passar	para	via	oral	e	desmamar	progressivamente	(redução	de	15-20%
da	dose	a	cada	dia).
Na	AF	o	sequestro	esplênico	só	acontece	nos	primeiros	anos	de	vida	(em	geral	em	menores	de	cinco	anos,	já	tendo	sido	relatado	numa	idade	tão	baixa	quanto	cinco
semanas):	 após	 esse	 período,	 a	maioria	 dos	 pacientes	 já	 completou	 o	 processo	 de	autoesplenectomia,	 secundário	 à	 destruição	 do	 parênquima	 esplênico	 em
decorrência	de	múltiplos	infartos	teciduais	cumulativos.	O	baço	de	um	falcêmico	adulto	é	absolutamente	atrófico	e	fibrosado,	sem	condições	de	albergar	uma	crise	de
sequestro...	 Já	 na	hemoglobinopatia	SC	 e	 na	heterozigose	HbS/β+-talassemia,	 as	 crises	 de	 sequestro	 esplênico	 podem	aparecer	 em	adultos,	 uma	 vez	 que
nestas	condições	não	ocorre	a	autoesplenectomia!
Cerca	de	30%	das	crianças	falcêmicas	vão	desenvolver	sequestro	esplênico.	Em	até	15%	das	vezes	o	episódio	inicial	é	fatal...	A	taxa	de	recidiva	é	de	50%.	Por	este	motivo,
após	 o	 primeiro	 episódio,	 já	 se	 indica	 a	 esplenectomia	 cirúrgica	 profilática.	 O	 tratamento	 agudo	 das	 crises	 de	 sequestro	 consiste	 na	 reposição	 volêmica	 com
hemotransfusão.
Crises	hiper-hemolíticas:	a	principal	crise	hiper-hemolítica	da	AF	é	a	reação	hemolítica	tardia.	Sabemos	que	até	30%	dos	falcêmicos	tornam-se	aloimunizados	após
algumas	hemotransfusões,	desenvolvendo	aloanticorpos	contra	antígenos	de	grupos	sanguíneos	"menores"	(Kell,	Duffy,	Kidd).	Esses	aloanticorpos	podem	desaparecer	da
circulação	com	o	tempo,	sendo	novamente	produzidos	diante	da	reexposição	ao	sangue	incompatível	(resposta	amnéstica	tardia).	Quando	isso	acontece,	um	paciente	que,
a	princípio,	teve	prova	cruzada	compatível	com	o	sangue	doado,	apresenta	uma	queda	inexplicada	dos	níveis	de	hemoglobina	após	4-10	dias,	acompanhada	por	sinais
laboratoriais	de	agravamento	da	hemólise	(piora	dos	níveis	de	LDH,bilirrubina	indireta,	haptoglobina	e	surgimento	de	hemoglobinúria).	Curiosamente,	hemácias	do	próprio
paciente	também	podem	ser	destruídas,	devido	ao	efeito	bystander	(lise	de	células	não	dotadas	do	antígeno	"alvo"),	o	que	resulta	numa	anemia	ainda	mais	profunda	do
que	aquela	que	motivou	a	hemotransfusão...	Se	uma	fenotipagem	adequada	do	sangue	doado	não	for	realizada	(em	associação	a	um	"painel	de	aloanticorpos"	no	sangue
do	receptor),	a	continuidade	das	transfusões	pode	levar	o	paciente	ao	óbito	por	anemia	paradoxalmente	progressiva...	Há	relatos	de	melhora	com	o	uso	de	glicocorticoides
(ex.:	"minipulso"	com	500	mg	de	metilprednisolona	IV	por	três	dias)	e	imunoglobulina	humana	intravenosa.
INFECÇÕES
As	infecções	estão	entre	as	principais	causas	de	morbimortalidade	na	AF.	Sabe-se	que	portadores	dessa	doença	possuem	imunodeficiência	significativa,	devido	à	perda
precoce	da	função	esplênica.	Tal	processo	é	secundário	à	ocorrência	de	infartos	cumulativos	no	parênquima,	que	por	sua	vez	são	ocasionados	pela	maior	tendência	ao
afoiçamento	de	hemácias	na	polpa	vermelha	do	órgão	(cordões	esplênicos).	Por	volta	dos	cinco	anos	de	 idade	a	maioria	dos	 falcêmicos	 já	se	encontra	 funcionalmente
"asplênica",	 isto	 é,	 com	 baços	 atróficos	 e	 fibrosados	 ( ). Todavia,	 antes	 mesmo	 dessa	 "autoesplenectomia"	 se	 completar	 já	 existem	 claros	 indícios	 de
hipoesplenismo,	 como	 a	 presença	 dos	 corpúsculos	 de	 Howell-Jolly	 nas	 hemácias	 do	 sangue	 periférico.	 A	 cintilografia	 com	 tecnécio	 mostra	 ausência	 de	 captação	 do
radiotraçador	 no	 baço...	 O	 resultado	 final	 é	 a	 perda	 da	 habilidade	 em	 remover	 bactérias	 que	 atingem	 a	 circulação	 sistêmica,	 além	 de	 uma	 queda	 na	 capacidade	 de
sintetizar	 e	 secretar	 opsoninas	 (deficit	 de	 opsonização).	 O	 risco	 de	 infecções	 invasivas	 por	 germes	 encapsulados,	 como	 pneumococo	 e	 Haemophilus,	 torna-se
extremamente	aumentado!
SAIBA	MAIS...
Outra	causa	clássica	de	crise	hiper-hemolítica	é	a	deficiência	de	G6PD	 (glicose-6-fosfato	desidrogenase),	que	pode	coexistir	com	a	AF	e	só	se	manifestar	quando	o
paciente	é	exposto	a	algum	medicamento	indutor	de	hemólise.
Figura	9 	
Fig.	9:	Baço	atrófico	e	fibrosado.
Outros	tipos	de	infecção	também	têm	frequência	aumentada	na	AF,	justificando-se	por	mecanismos	de	imunodeficiência	distintos.	Grande	exemplo	é	o	da	osteomielite
por	Salmonella:	o	fenômeno	de	vaso-oclusão	ao	nível	da	mucosa	intestinal	promove	isquemia	local	e	necrose,	com	"quebra	de	barreira"	e	penetração	de	enterobactérias
Gram-negativas	 (em	particular	a	Salmonella)	ocasionando	bacteremia.	A	vaso-oclusão	ao	nível	da	medula	óssea	produz	 infarto	ósseo,	que	serve	como	"nicho"	para	as
salmonelas	se	assestarem	e	provocarem	osteomielite	aguda	hematogênica.	Infecções	por	outros	agentes	–	como	Mycoplasma	pneumoniae	e	vírus	Influenza	–	também	são
comuns	em	falcêmicos.	Vale	dizer	que,	após	o	advento	das	medidas	de	proteção	contra	o	pneumococo	(vacinação	+	antibioticoprofilaxia),	estes	dois	últimos	patógenos	se
tornaram	as	principais	etiologias	de	pneumonia	nesses	doentes...	Observe	a	Tabela	11.
Tab.	11
Obs.:	(1)	o	pneumococo	é	o	principal	agente	etiológico	de	artrite	séptica	na	AF;	(2)	o	S.	aureus	é	o	principal	agente	etiológico	de	osteomielite	hematogênica	fora	do	contexto	da	AF,	mas	nos
portadores	 dessa	 doença	 ele	 fica	 atrás	 da	 Salmonella,	 representando	 apenas	25%	dos	 casos;	 e	 (3)	 o	 risco	 de	 pielonefrite	 em	 falcêmicos	 é	MAIOR	 que	 na	 população	 geral.	 A	 chance	 de
bacteremia	também	está	aumentada.	Logo,	toda	ITU	em	falcêmicos	é	considerada	"complicada",	devendo	ser	tratada	por	10-21	dias.
Em	face	do	elevado	risco	de	infecções	invasivas	em	crianças	falcêmicas,	todo	episódio	de	febre	acima	de	38,5ºC	neste	subgrupo	deve	ser	abordado	como
um	caso	de	bacteremia	pelo	pneumococo	até	prova	em	contrário.	Desse	modo,	 é	mandatório	 hospitalizar	 o	 paciente	 e	 iniciar	 antibioticoterapia	 empírica
(droga	de	escolha	=	ceftriaxona)	após	coleta	de	culturas	(sangue	±	liquor).	Em	locais	onde	o	pneumococo	já	adquiriu	um	alto	grau	de	resistência,	a	droga	de	escolha
para	a	terapia	empírica	passa	ser	a	vancomicina.	Se	as	culturas	forem	positivas,	deve-se	ajustar	o	esquema	antimicrobiano	de	acordo	com	o	antibiograma.
ACIDENTE	VASCULAR	ENCEFÁLICO
Diversas	formas	de	Acidente	Vascular	Encefálico	(AVE)	podem	acometer	os	falcêmicos.	A	mais	comum	é	o	AVE	isquêmico	por	oclusão	trombótica	de	um	grande	vaso
intracerebral	(70-80%	dos	casos),	que	tem	na	disfunção	endotelial	crônica	(e	consequente	vasculopatia	macroscópica)	seu	mecanismo	etiopatogênico	básico.	A	vaso-
oclusão	na	microcirculação	cerebral	pode	levar	ao	surgimento	de	microinfartos	"silenciosos"	do	parênquima:	tais	indivíduos	apresentam	deficit	cognitivo	progressivo.	É
importante	ter	em	mente	que	a	AF	também	predispõe	ao	AVE	hemorrágico	(que	pode	cursar	como	hemorragia	subaracnoide,	intraparenquimatosa	e/ou	intraventricular).
O	mecanismo	costuma	ser	a	ruptura	de	aneurismas,	os	quais	têm	incidência	aumentada	na	AF...	A	explicação	para	a	maior	ocorrência	de	dilatação	aneurismática	nessa
doença	é:	existe	um	processo	multifatorial	de	"enfraquecimento"	da	parede	vascular,	combinando	disfunção	endotelial	crônica,	oclusão	falcêmica	dos	vasa	vasorum	(que
promove	 isquemia	 da	 parede	 arterial)	 e	 estresse	 mecânico	 mediado	 pelo	 próprio	 fluxo	 sanguíneo,	 que	 se	 torna	 turbulento	 nas	 regiões	 onde	 existe	 lesão	 endotelial
subjacente.
O	risco	de	AVE	encontra-se	especialmente	aumentado	em	crianças	falcêmicas,	por	conta	dos	níveis	fisiologicamente	mais	altos	de	fluxo	sanguíneo	cerebral	característicos
da	faixa	etária	infantil	(o	fluxo	elevado	favorece	o	turbilhonamento	do	sangue,	o	que	agrava	a	lesão	da	parede	vascular).	O	risco	é	cerca	de	200-400	vezes	maior	que	nas
crianças	normais...	A	prevalência	de	AVE	clinicamente	manifesto	gira	em	torno	de	11%	dos	falcêmicos.	No	entanto,	por	volta	dos	20	anos	de	 idade	até	20%	apresenta
alterações	 no	 parênquima	 cerebral	 em	 exames	 de	 neuroimagem	 (microinfartos	 "silenciosos"),	 possuindo,	 no	mínimo,	 disfunção	 cognitiva.	 Curiosamente,	 na	 AF	 o	 AVE
isquêmico	predomina	em	crianças	e	em	adultos	com	mais	de	30	anos.	Já	o	AVE	hemorrágico	tem	seu	pico	de	incidência	na	faixa	etária	entre	20-30	anos...
Os	principais	fatores	de	risco	para	AVE	na	anemia	falciforme	são	descritos	na	Tabela	12.
Tab.	12
Obs.:	os	fatores	mais	importantes	foram	destacados	em	negrito.
Até	 1/3	 dos	 AVE	 em	 falcêmicos	 se	 manifesta	 como	 crise	 convulsiva	 isolada,	 logo,	 tal	 evento	 deve	 motivar	 a	 realização	 de	 exames	 de	 neuroimagem	 assim	 como	 o
surgimento	de	deficit	focal	agudo	ou	rebaixamento	do	sensório.	A	mortalidade	do	primeiro	episódio	de	AVE	na	AF	é	extremamente	alta,	beirando	os	20%.	Cerca	de	70%
dos	sobreviventes	apresenta	uma	recidiva	dentro	de	três	anos,	e	a	maioria	evolui	com	deficit	motores	e/ou	cognitivos	permanentes.	Isso	quer	dizer	que	o	AVE	é	uma	das
complicações	mais	devastadoras	da	AF,	justificando	a	instituição	de	medidas	agressivas	tanto	para	a	profilaxia	PRIMÁRIA	(antes	do	primeiro	evento)	quanto	SECUNDÁRIA
(após	o	primeiro	evento).
Profilaxia	primária:	o	risco	de	AVE	em	crianças	falcêmicas	gira	em	torno	de	1%	ao	ano.	No	subgrupo	que	apresenta	uma	velocidade	de	fluxo	>	200	cm/s	na	artéria
carótida	interna	ou	cerebral	média,	conforme	verificado	pelo	Doppler	Transcraniano	(DTC),	esse	risco	ultrapassa	10%	ao	ano!	Em	adultos,	o	risco	de	AVE	deve	ser	avaliado
pela	angio-RM.	Existem	evidências	consistentes	de	que	um	programa	de	transfusão	de	troca	parcial	crônica	(mantido	indefinidamente)	reduz	em	>	90%	a	chance	de
um	primeiro	 AVE	 nos	 pacientes	 de	 alto	 risco,	 restabelecendo	 a	média	 de	 1%	ao	 ano.	 A	 transfusão	 de	 troca	 parcial	 crônica	 promove	melhora	 angiográfica	 das	 lesões
estenóticas...
Fig.	10:	Aspecto	da	doença	de	Moyamoya	na	arteriografia	cerebral.
SAIBA	MAIS... Anemia	falciforme	e	doença	de	Moyamoya.
A	doença	de	Moyamoya	pode	ser	encontrada	em	até	30%	dos	falcêmicos.	Trata-seVCM	(Volume	Corpuscular	Médio) 80-100	fl
HCM	(Hemoglobina	Corpuscular	Média) 28-32	pg
CHCM	(Concentração	de	Hemoglobina	Corpuscular	Média) 32-35	g/dl
RDW	(Red	cell	Distribution	Width	–	índice	de	anisocitose) 10-14%
Leucometria*	(contagem	de	leucócitos) 5-11	x	10³/mm³
Plaquetometria	(contagem	de	plaquetas) 150-400	x	10³/mm³
Tab.	5:	Tipos	de	anemia	de	acordo	com	VCM	e	CHCM.
Esses	índices	são	automaticamente	determinados	pelo	Coulter	(hemograma	de	automação),	mas	também	podem	ser	calculados	através	da	hematimetria,	hematócrito	e
hemoglobinemia:
VCM	=	Ht	x	10/hematimetria
HCM	=	Hg	x	10/hematimetria
CHCM	=	HCM/VCM	x	100
Obs.:	hematimetria	(milhões/mm3);
Ht	(%);
Hg	(g/dl).
Índice	de	anisocitose	(RDW):	indica	a	variação	de	tamanho	entre	as	hemácias,	sendo	normal	até	14%.	Vários	tipos	de	anemia	podem	elevar	o	RDW,	porém	uma	causa
comum	de	anemia	cursa	com	este	parâmetro	caracteristicamente	normal:	betatalassemia	minor.	A	anemia	ferropriva	possui	RDW	aumentado,	portanto,	este	parâmetro
pode	ser	útil	(mas	nunca	definitivo)	para	diferenciar,	diante	de	uma	anemia	microcítica,	entre	ferropriva	e	talassemia	minor.	Na	anemia	ferropriva,	o	RDW	encontra-se	em
torno	de	16%,	enquanto	na	talassemia	minor,	está	próximo	a	13%.
Leucócitos	e	plaquetas:	 a	 presença	 de	 pancitopenia	 (anemia	+	 leucopenia	+	plaquetopenia)	 sugere	 anemia	 aplásica	 ou	 leucemia	 aguda.	Uma	pancitopenia	 leve	 a
moderada	pode	ocorrer	na	anemia	megaloblástica,	mielodisplasias,	neoplasias	hematológicas	ou	não	hematológicas	metastáticas.	A	anemia	autoimune	pode	cursar	com
plaquetopenia	 (também	 autoimune),	 levando	 a	 uma	 bicitopenia	 (síndrome	 de	 Evans).	 O	 achado	 de	 anemia	 microcítica	 hipocrômica	 com	 trombocitose	 (aumento	 da
contagem	plaquetária)	é	muito	sugestivo	de	anemia	ferropriva.	Um	aumento	extremo	dos	leucócitos	(>	25	mil/mm³)	pode	estar	presente	nas	infecções	bacterianas	graves,
na	hepatite	alcoólica,	na	hemorragia	aguda,	nas	síndromes	mieloproliferativas	e	nas	leucemias.	A	associação	de	anemia	com	leucocitose	e	trombocitose	está	presente	no
sangramento	agudo	e	nas	síndromes	mieloproliferativas.	O	diferencial	de	leucócitos	pode	revelar	achados	importantes	para	o	diagnóstico	(ver	 	O	exemplo	mais
marcante	é	a	presença	de	formas	jovens	da	linhagem	granulocítica	(bastões,	metamielócitos	e	mielócitos)	associada	a	eritroblastos	(hemácias	nucleadas)	na	periferia,	um
achado	 denominado	 leucoeritroblastose,	 que	 tem	 como	 significado	 clínico	 a	 ocupação	 medular	 por	 algum	 processo	 patológico	 (mielofibrose	 idiopática,	 neoplasia
metastática	ou	mesmo	uma	infecção	disseminada).
Contagem	de	reticulócitos:	os	reticulócitos	são	as	células	imediatamente	precursoras	das	hemácias	representando	normalmente	0,5-2%	do	total	de	células	vermelhas
circulantes.	São	reconhecidos	pela	análise	do	esfregaço	do	sangue	periférico	(corado	pelo	azul	de	metileno	novo	ou	azul	brilhante	de	cresil),	aparecendo	com	um	reticulado
azul	em	seu	interior,	material	correspondente	ao	RNA	ribossômico.	Alguns	aparelhos	são	capazes	de	contar	os	reticulócitos	de	forma	automática.
A	presença	de	reticulocitose	indica	dois	grandes	grupos	de	anemias:	(1)	anemias	hemolíticas;	e	(2)	anemia	por	hemorragia	aguda.	Essas	são	as	duas	únicas	formas	de
anemia	que	se	originam	por	"perda"	periférica	de	hemácias,	sem	nenhum	comprometimento	da	medula	óssea	(direto	ou	indireto).	Como	a	capacidade	de	produção	dessas
células	 está	 intacta,	 há,	 na	 tentativa	 de	 corrigir	 a	 anemia,	 intensa	 proliferação	 medular	 da	 linhagem	 vermelha,	 com	 consequente	 aumento	 de	 hemácias	 jovens
(reticulócitos)	na	corrente	sanguínea.	Ou	seja,	a	presença	de	 reticulocitose	 indica	que	a	medula	está	hiperproliferativa:	um	mielograma	mostraria	 intensa	hiperplasia
eritroide.
Pela	 contagem	 reticulocitária,	 classificamos	 as	 anemias	 em	 HIPOPROLIFERATIVAS	 (carenciais,	 distúrbios	 medulares)	 –	 aquelas	 sem	 reticulocitose	 –	 e
HIPERPROLIFERATIVAS	(hemolítica	ou	sangramento	agudo)	–	aquelas	com	reticulocitose.
Cuidado!!	Devemos	corrigir	rotineiramente	o	percentual	reticulocitário	para	o	grau	de	anemia.	Duas	correções	precisam	ser	feitas...
Anemias	Microcíticas-Hipocrômicas
A	microcitose	é	definida	por	um	VCM		100	fl.	A	causa	clássica	de	anemia	macrocítica	é	a	anemia	megaloblástica	(carência	de	folato	e/ou	B12).	É	nela
que	observamos	os	maiores	níveis	de	VCM,	frequentemente	na	faixa	entre	110-140	fl...	Existem	diversas	outras	causas	de	macrocitose,	todas	elas	"leves"	(100-110	fl).
São	elas:	(1)	síndromes	mielodisplásicas,	incluindo	a	forma	adquirida	da	anemia	sideroblástica;	(2)	anemia	aplásica;	(3)	etilismo;	(4)	drogas	do	tipo	AZT	e	metotrexato;
(5)	anemia	da	hepatopatia	crônica;	(6)	anemia	do	hipotireoidismo;	(7)	anemias	hemolíticas	(excetuando-se	as	talassemias);	e	(8)	anemia	da	hemorragia	aguda.	Estas
duas	últimas	cursam	com	reticulocitose	importante.	Como	os	reticulócitos	são	hemácias	de	tamanho	maior,	o	aparelho	"pensa"	que	elas	são	macrocíticas...
Anemias	Normocíticas-Normocrômicas
Uma	vasta	gama	de	etiologias	encontra-se	neste	grupo.	Listaremos	as	principais:	(1)	anemia	ferropriva,	fase	inicial;	(2)	anemia	de	doença	crônica;	(3)	anemia	da	IRC;	(4)
anemia	da	hepatopatia	crônica;	(5)	anemia	das	endocrinopatias	–	hipotireoidismo,	hipoadrenalismo;	(6)	anemia	aplásica;	(7)	mielodisplasias;	(8)	ocupação	medular	–
mielofibrose	 idiopática,	 leucemias,	 câncer	 metastático,	 infecção	 disseminada;	 (9)	 anemias	 hemolíticas;	 (10)	 anemia	 por	 sangramento	 agudo;	 e	 (11)	 anemia
multicarencial	–	ferropriva	e	megaloblástica.
Figura	3).	
Fig.	3:	A	contagem	diferencial	dos	leucócitos.
SAIBA	MAIS...
Por	causa	do	tempo	necessário	para	aumentar	a	produção	de	eritropoetina	e	a	subsequente	proliferação	medular,	nem	sempre	será	encontrada	reticulocitose	em	um
paciente	com	sangramento	agudo.	Quanto	mais	recente	o	sangramento,	menor	a	chance	de	se	encontrar	reticulócitos	em	excesso.
Entenda	a	primeira	correção...	Na	anemia,	a	contagem	total	de	eritrócitos	(hematimetria)	está	reduzida;	por	conseguinte,	o	mesmo	percentual	reticulocitário	equivale	a
um	menor	número	absoluto	de	reticulócitos	na	periferia.	Se	a	hematimetria	for	de	5	milhões/mm³,	uma	contagem	de	2%	representa	100.000	reticulócitos	por	mm³.	Os
mesmos	2%	representam	50.000	reticulócitos	por	mm³,	se	a	hematimetria	for	de	2,5	milhões/mm³.
Como	na	verdade	a	resposta	medular	é	representada	pelo	número	absoluto	de	reticulócitos	(normal	=	40.000-100.000/mm³),	o	percentual	deve	ser	corrigido	pelo	grau	de
anemia.	Veja	como	é	feita	a	correção:
Índice	de	Reticulócitos	Corrigido	(IRC)	=	Ht/40	x	%retic.	ou	Hb/15	x	%retic.
Entenda	 a	 segunda	 correção...	 Em	 casos	 de	 anemia	moderada	 ou	 grave,	 em	 geral	 os	 níveis	 de	 eritropoetina	 se	 elevam	muito,	 reduzindo	 o	 tempo	 de	maturação
reticulocitária	 na	 medula	 óssea.	 Por	 exemplo,	 quando	 o	 Ht	 está	 abaixo	 de	 25%,	 esse	 tempo	 cai	 para	 a	 metade.	 Significa	 que	 metade	 dos	 reticulócitos	 circulantes
representa	células	pré-formadas,	que	acabaram	de	ser	deslocadas	da	medula	para	o	sangue.	Como	esses	reticulócitos	não	refletem	a	produção	medular	eritroide	(isto	é,
são	células	que	 foram	precocemente	 liberadas,	 antes	de	estarem	"prontas"	 –	as	 chamadas	shift	cells),	 precisamos	corrigir	 para	este	 fator.	 É	 só	dividir	 tudo	por	dois
(metade).	Assim,	definimos	o	Índice	de	Produção	Reticulocitária	(IPR):
Índice	de	Produção	Reticulocitária	(IPR)	=	Ht/40	x	%retic.	÷	2	ou	Hb/15	x	%retic.	÷	2
O	 IPR,	portanto,	é	o	 índice	que	reflete	as	duas	correções	explicadas	anteriormente.	Por	 isso,	é	o	mais	 fidedigno	para	classificar	as	anemias	em	hipoproliferativasde	uma	hiperproliferação	de	pequenos	vasos	colaterais	a	partir	de	uma	grande	artéria
cerebral	estenosada,	lembrando,	na	angiografia,	o	aspecto	de	uma	"nuvem	de	fumaça	saindo	da	ponta	de	um	cigarro"	(significado	da	expressão	moyamoya	em	japonês	–
	Este	emaranhado	de	vasos	colaterais	tende	a	ser	friável,	sofrendo	ruptura	e/ou	trombose	com	uma	certa	facilidade...	Assim,	portadores	de	Moyamoya	estão
sob	risco	aumentado	de	AVE	hemorrágico,	isquêmico,	crises	convulsivas	e/ou	deficit	cognitivo.
Figura	10).
Fatores	de	Risco	para	AVE	na	AF
● História	prévia	de	infarto	cerebral	(clinicamente	manifesto	ou	"silencioso").
● Velocidade	de	fluxo	sanguíneo	cerebral	>	200	cm/s.
● Hipoxemia	noturna	(ex.:	apneia	do	sono).
● Anemia	profunda.
● Reticulocitose	e/ou	leucocitose	intensas.
● Baixos	níveis	de	HbF.
● História	de	enxaqueca.
● Aumento	da	homocisteína.
● Hipertensão	sistólica.
● Presença	da	doença	de	Moyamoya.
Acontece	que	tal	conduta	não	é	isenta	de	complicações:	ainda	que	o	risco	de	hemocromatose	secundária	seja	inferior	ao	de	um	programa	de	transfusão	simples	(no	qual	o
balanço	 corporal	 de	 ferro	 é	 invariavelmente	 positivo),	 a	 transfusão	 de	 troca	 parcial	 também	 se	 associa	 a	 esse	 desfecho	 após	 alguns	 anos,	 além	 de	 poder	 gerar
aloimunização.	 Infelizmente,	 até	 o	momento	 não	 dispomos	 de	 alternativas	 validadas	 pela	 literatura	 para	 substituir	 a	 transfusão	 de	 troca	 parcial	 como	 estratégia	 de
profilaxia	primária	do	AVE	na	AF:	o	risco-benefício	de	medidas	como	HU,	AAS	ou	transplante	de	células-tronco	hematopoiéticas	ainda	está	sendo	estudado,	sem	conclusões
definitivas.	 É	 importante	 enfatizar	 que	 todos	 os	 fatores	 de	 risco	 compartilhados	 com	 pessoas	 não	 falcêmicas	 (ex.:	 fibrilação	 atrial,	 tabagismo)	 também	 devem	 ser
controlados.
O	programa	de	exsanguinotransfusão	parcial	crônica,	além	de	prevenir	o	AVE,	acaba	protegendo	também	contra	a	ocorrência	de	crises	álgicas,	infecções	bacterianas,
síndrome	torácica	aguda	e	hospitalizações	em	geral.
Conduta	no	AVE	agudo:	a	avaliação	inicial	do	AVE	agudo	em	falcêmicos	é	idêntica	à	da	população	geral.	O	primeiro	exame	deve	ser	a	tomografia	computadorizada	de
crânio	 sem	 contraste,	 para	 definir	 se	 existe	 ou	 não	 hemorragia	 intracerebral.	 Quando	 há	 hemorragia,	 complementa-se	 com	 uma	 angio-RM	 ou	 mesmo	 com	 uma
arteriografia	cerebral.	A	principal	conduta	terapêutica	–	tanto	no	AVE	isquêmico	quanto	no	hemorrágico	–	é	a	transfusão	de	troca	parcial	(visando	uma	HbS	vida)!	Em	60%	das	vezes	os	cálculos	de
bilirrubinato	de	cálcio	são	radiopacos,	aparecendo	no	RX	simples	de	abdome	 ,	o	que	não	acontece	com	cálculos	de	colesterol,	que	representam	o	tipo	mais
comum	de	cálculo	biliar	fora	do	contexto	das	doenças	hemolíticas	crônicas.	Após	o	diagnóstico	em	geral	se	indica	a	colecistectomia	videolaparoscópica,	a	fim	de	evitar	a
ocorrência	de	complicações	como	colecistite	e	pancreatite	aguda	biliar.
(Figura	11)
A	vaso-oclusão	no	interior	do	parênquima	hepático	pode	resultar	em	duas	síndromes	distintas:	a	crise	de	sequestro	hepático	(que,	conforme	explicado	anteriormente,
consiste	numa	queda	abrupta	da	Hb	acompanhada	por	hepatomegalia	dolorosa,	reticulocitose	e	hipovolemia)	e	a	crise	hepatocelular	aguda.	Esta	última	é	uma	espécie
de	"hepatite	isquêmica	microvascular"	caracterizada	por	um	aumento	leve	a	moderado	das	enzimas	(AST	em	torno	de	300	U/L)	e	da	bilirrubina	sérica	(que	não	ultrapassa
15	mg/dl).	O	quadro	se	resolve	espontaneamente	dentro	de	3-14	dias,	devendo	ser	abordado	com	as	mesmas	medidas	de	suporte	comuns	às	demais	crises	vaso-oclusivas
(hidratação,	 analgesia).	 No	 entanto,	 nos	 casos	 que	 evoluem	 com	 indícios	 de	 falência	 hepática	 (ex.:	 encefalopatia),	 deve-se	 realizar	 a	 transfusão	 de	 troca	 parcial
(objetivando	uma	HbS		 12h	 de	 duração	 devem	 ser	 tratados	 com
exsanguinotransfusão	parcial	(visando	uma	HbS	à	hemólise	–	produz
deformidades	como	a	turricefalia	e	a	proeminência	exagerada	da	fronte.	A	isquemia	do	osso	cortical	pode	dar	às	vértebras	um	aspecto	em	"boca	de	peixe"	( ) A
osteonecrose	(necrose	asséptica	ou	avascular	do	osso)	é	outra	complicação	frequente,	acometendo	o	fêmur	( ) 	o	úmero,	os	ossos	cuboides	das	mãos	e	dos
pés,	e	os	corpos	vertebrais	(que	desenvolvem	as	típicas	irregularidades	"em	degrau").	Como	vimos,	uma	das	primeiras	manifestações	da	doença	em	crianças	pequenas	é	a
síndrome	mão-pé,	uma	forma	peculiar	de	crise	vaso-oclusiva	caracterizada	por	infartos	isquêmicos	nos	ossos	das	extremidades.	Vimos	também	que	os	falcêmicos	são
mais	propensos	à	osteomielite	por	Salmonella.	O	surgimento	de	dor	e	edema	articular	pode	ser	justificado	por	infecção	articular	(artrite	séptica),	gota	(atrite	por	cristal)
e/ou	inflamação	dos	tecidos	moles	periarticulares	("periartrite	falcêmica").
Figura	12),		e
Fig.	12:	Retinopatia	falcêmica	proliferativa.	Observe	a	presença	de	neovascularização	e	hemorragia.
Figura	13 .	
Figura	14 ,
Fig.	13:	Vértebras	em	"boca	de	peixe".
COMPLICAÇÕES	DERMATOLÓGICAS
Úlceras	 cutâneas	 crônicas	 provocam	 grande	 morbidade	 e	 complicam	 a	 vida	 de	 25-75%	 dos	 falcêmicos.	 Elas	 costumam	 ser	 bilaterais	 e	 predominam	 sobre	 as
eminências	maleolares	( ).	Osteomielite	(polimicrobiana,	com	participação	de	anaeróbios),	infecção	sistêmica	e	tétano	são	complicações	clássicas	associadas	às
úlceras	cutâneas	 falcêmicas...	O	 tratamento	é	difícil	 e	demorado,	envolvendo	 repouso	no	 leito,	debridamento	 físico	e	químico,	antibioticoterapia	 (sistêmica	e	 tópica)	e
substâncias	cicatrizantes	(ex.:	óxido	de	zinco).	Múltiplas	abordagens	experimentais	estão	sendo	estudadas	(ex.:	oxigenoterapia	hiperbárica),	ainda	sem	definições	precisas
da	literatura.
Fig.	14:	Osteonecrose	da	cabeça	do	fêmur.
Figura	15
COMPLICAÇÕES	CARDÍACAS
O	estado	anêmico	crônico	que	caracteriza	a	AF	é	compensado	por	um	aumento	sustentado	do	débito	cardíaco.	Tal	fenômeno	resulta	em	dilatação	das	câmaras	cardíacas,
justificando	 a	 cardiomegalia	 e	 os	 sopros	 de	 regurgitação	 mitral	 e	 tricúspide	 tão	 frequentes	 na	 adolescência/idade	 adulta	 jovem	 dos	 falcêmicos.	 No	 ECG	 é	 comum
encontrarmos	sinais	de	hipertrofia	ventricular	e	alterações	 inespecíficas	da	 repolarização	 (segmento	ST	e	onda	T).	A	dilatação	cardíaca	 se	agrava	com	a	 idade,	 sendo
inversamente	proporcional	aos	níveis	de	hemoglobina...	Assim,	falcêmicos	adultos	geralmente	têm	baixa	"reserva	cardíaca",	o	que	explica	sua	tendência	a	desenvolver
congestão	pulmonar	em	face	à	expansão	volêmica	intravenosa	(o	coração	desses	doentes	"não	manuseia	bem	o	volume	infundido",	o	que	leva	a	um	aumento	das	pressões
de	 enchimento	 diastólico	 e	 edema	 de	 pulmão).	 A	 vaso-oclusão	 na	 circulação	 capilar	 intramiocárdica	 agrega	 um	 componente	 de	microinfartos	 cumulativos	 na	 parede
ventricular,	contribuindo	para	a	maior	incidência	de	insuficiência	cardíaca	na	medida	em	que	o	paciente	envelhece.	Outra	complicação	que	agrava	o	quadro	que	acabamos
de	descrever	é	o	surgimento	de	hipertensão	arterial	pulmonar,	cuja	consequência	é	a	sobrecarga	do	ventrículo	direito.
COMPLICAÇÕES	OBSTÉTRICAS
A	gravidez	 em	 falcêmicas	 acarreta	 riscos	 tanto	maternos	quanto	 fetais,	 porém,	 o	 risco	não	é	 tão	 alto	 a	 ponto	de	proibir	 a	 gestação.	A	gestante	 falcêmica	 tem	maior
frequência	 de	 crises	 álgicas,	 além	 de	 sua	 anemia	 crônica	 ser	 agravada	 pela	maior	 demanda	 de	 ferro	 e	 ácido	 fólico,	 e	 pela	 própria	 "anemia	 fisiológica	 da	 gravidez"
(dilucional).	O	risco	de	infecções	(ITU,	pneumonia,	endometrite)	e	pré-eclâmpsia	também	aumenta.	Para	o	feto,	a	maior	taxa	de	complicações	se	relaciona	à	vaso-oclusão
placentária:	há	mais	casos	de	abortamento	espontâneo,	restrição	ao	crescimento	intrauterino	e	baixo	peso	ao	nascer,	com	aumento	dos	óbitos	fetais.	Falcêmicas	devem
ser	 acompanhadas	 por	 um	 especialista	 em	 gestação	 de	 alto	 risco,	 além	 do	 hematologista.	 Não	 existem	medidas	 específicas	 comprovadamente	 eficazes	 em	 evitar	 a
restrição	ao	crescimento	intrauterino	na	AF...	As	hemotransfusões	devem	ser	realizadas	conforme	as	indicações	habituais,	acrescidas	das	seguintes	indicações	específicas:
(1)	antes	da	cesária;	(2)	pré-eclâmpsia;	(3)	gestação	gemelar;	e	(4)	história	prévia	de	morte	perinatal.	Se	a	hemoglobina	estiver	entre	8-10	g/dl	(ou	nas	situações	em	que
transfusões	repetitivas	são	necessárias),	o	método	transfusional	deve	ser	a	exsanguinotransfusão	parcial.
O	oxigênio	é	rapidamente	extraído	do	sangue	materno	na	circulação	uteroplacentária,	pois	o	sangue	fetal	é	rico	em	HbF	(uma	hemoglobina	que	tem	maior	afinidade
pelo	O2).	Por	este	motivo,	a	placenta	é	um	alvo	frequente	de	afoiçamento	de	hemácias,	vaso-oclusão	e	infartos	isquêmicos.
Em	relação	às	medidas	contraceptivas,	ainda	não	está	totalmente	claro	se	os	anticoncepcionais	que	contêm	estrogênio	(mesmo	em	baixas	doses)	aumentam	ou	não	o
risco	de	AVE	em	falcêmicas.	Logo,	é	prudente	evitá-los...	As	injeções	trimestrais	de	medroxiprogesterona	não	aumentam	o	risco	de	AVE,	porém	podem	acelerar	a	perda	de
massa	óssea,	o	que	potencializaria	a	fragilidade	esquelética	secundária	aos	infartos	ósseos...	Desse	modo,	um	dos	métodos	anticoncepcionais	de	escolha	na	AF	é	o	uso	de
Dispositivos	Intrauterinos	(DIU)	sem	estrogênio.
TRAÇO	FALCÊMICO
Fig.	15:	Úlcera	cutânea	crônica	em	paciente	falcêmico.
Video_10_Hem1
O	 "traço"	 (heterozigose	 entre	 os	 genes	 βS	 e	 βA	 normal)	 é	 a	 variante	 falcêmica	mais	 frequente	 na	 prática.	 Nas	 áreas	malarígenas	 da	 África	 equatorial	 ele	 pode	 ser
encontrado	em	até	30%	da	população.	No	Brasil,	sua	incidência	varia	entre	1	a	cada	20	nascimentos	no	Rio	de	Janeiro,	e	1	a	cada	80	nascimentos	no	Rio	Grande	do	Sul.
Curiosamente,	a	eletroforese	de	hemoglobina	desses	indivíduos	não	mostra	uma	distribuição	equilibrada	entre	HbS	e	HbA,	isto	é,	a	proporção	de	HbS	é	inferior	a	50%...	Por
que	isso	acontece?	Vamos	entender	agora.
INTERAÇÃO	ENTRE	AS	CADEIAS	βS	E	βA
Sabemos	 que	 a	 hemoglobina	 é	 um	 tetrâmero	 composto	 por	 quatro	 cadeias	 de	 globina,	 cada	 uma	 delas	 dotada	 de	 um	 grupamento	 heme.	 A	 hemoglobina	 A1,
fisiologicamente	predominante,	é	composta	por	duas	cadeias	α	e	duas	cadeias	β.	Durante	sua	síntese,	primeiro	ocorre	a	formação	de	dímeros	αβ,	e	depois	os	dímeros	se
combinam	entre	si.	O	que	governa	a	formação	dos	dímeros	iniciais	é	a	força	eletrostática,	pois	a	cadeia	α	tem	carga	positiva	e	a	cadeia	β	tem	carga	negativa.	Na	presença
do	traço	falcêmico,	a	cadeia	βs	compete	com	a	cadeia	βA	normal	pela	formação	dos	dímeros	αβ!	A	cadeia	βS,	por	ser	menos	eletronegativa,	liga-se	de	forma	mais	lenta	às
cadeias	α...
Como	a	cadeia	βA	 é	mais	eletronegativa,	 sua	 ligação	com	as	cadeias	α	é	preferencial	 (e	cerca	de	2x	mais	 rápida).	Por	 tal	motivo,	na	eletroforese	de	hemoglobina	do
portador	de	"traço	falcêmico"	a	HbS	constitui	apenas	40%	da	hemoglobina	total,	e	não	50%,	como	seria	intuitivamente	esperado.	Nesta	situação,	quase	todo	o	restante
(cerca	de	60%)	é	representado	pela	HbA1	normal...	Evidentemente,	a	chance	de	polimerização	e	afoiçamento	é	significativamente	reduzida	devido	à	menor	proporção	de
HbS.
Em	 termos	 clínicos,	 portadores	 de	 traço	 falcêmico	 são	 essencialmente	 assintomáticos,	 não	 apresentando	 anemia	 ou	 crises	 vaso-oclusivas.	 Sua	 expectativa	 de	 vida	 é
idêntica	à	da	população	geral,	e	não	se	esperam	múltiplas	disfunções	orgânicas	progressivas.	Assim,	a	princípio	não	há	necessidade	de	qualquer	tipo	de	tratamento,	mas
existem	certos	cuidados	especiais	que	não	podem	ser	negligenciados...
Por	exemplo:	se	um	portador	de	traço	for	submetido	a	um	ambiente	com	baixa	tensão	atmosférica	de	O2,	existe	risco	de	sequestro	esplênico	(mesmo	na	vida	adulta).
Tal	 evento	 já	 foi	bem	documentado	em	pacientes	que	 realizaram	escaladas	ou	voos	despressurizados	a	altas	altitudes	 (acima	de	10.000	pés,	ou	3.000	metros).	Voos
comerciais	geralmente	têm	pressão	de	O2	dentro	da	aeronave	compatívelcom	uma	altitude	de	8.000	pés,	e	por	isso	não	representam	risco	para	portadores	de	traço...
É	válido	relembrar	que,	mesmo	ao	nível	do	mar,	portadores	de	traço	–	assim	como	os	falcêmicos	–	desenvolvem	lesão	isquêmica	da	medula	renal	(região	fisiologicamente
hipóxica,	 acidótica	 e	 hiperosmolar	 do	 rim).	 A	 lesão	 medular	 renal	 se	 expressa	 pelo	 achado	 de	 hipostenúria	 no	 EAS	 (perda	 da	 capacidade	 de	 concentrar	 a	 urina
maximamente)...	Raramente	estes	indivíduos	evoluem	com	necrose	de	papila	renal,	o	que	tende	a	ocorrer	quando	algum	insulto	orgânico	promove	hipoperfusão	renal
transitória	(ex.:	sepse)...	Outra	complicação	associada	ao	traço	(que,	como	vimos,	não	possui	uma	explicação	definitiva)	é	o	carcinoma	de	medula	renal.	Alguns	autores
descrevem	ainda	uma	chance	aumentada	de	infecção	urinária	na	gestação	e	uma	maior	prevalência	de	hematúria.
Existe	certa	controvérsia	a	respeito	dos	potenciais	riscos	de	portadores	de	traço	falcêmico	engajarem	na	prática	de	atividades	físicas	competitivas	e	vigorosas.	Alguns
relatos	de	morte	súbita	em	atletas	e	recrutas	militares	foram	inicialmente	atribuídos	à	heterozigose	AS...	Todavia,	parece	que	nestes	casos	a	causa	mortis	na	realidade
foi	o	baixo	grau	de	condicionamento	físico	aliado	à	existência	de	cardiopatias	de	base	previamente	não	detectadas.
AS	TALASSEMIAS
Video_11_Hem1
As	talassemias	são	desordens	hereditárias	que	têm	como	característica	básica	uma	deficiência	na	síntese	das	cadeias	de	globina.	Elas	possuem	um	espectro	clínico	amplo
de	 apresentação,	 variando	 desde	 indivíduos	 inteiramente	 assintomáticos	 até	 crianças	 com	 anemia	 grave,	 deformidades	 ósseas	 e	 destruição	 acelerada	 de	 células
vermelhas...
As	 talassemias	não	eram	reconhecidas	até	1925,	quando	um	pediatra	de	Detroit,	Thomas	Cooley,	descreveu	uma	síndrome	em	uma	criança	descendente	de	 italianos,
caracterizada	por	anemia	profunda,	esplenomegalia	e	deformidades	ósseas.
Dessa	época	até	os	dias	de	hoje,	esta	hemoglobinopatia	foi	cada	vez	mais	estudada	e	o	seu	reconhecimento,	tanto	pelo	clínico	quanto	pelo	pediatra,	é	de	fundamental
importância	 para	 o	 tratamento	 precoce	 das	 formas	 graves,	 para	 o	 aconselhamento	 genético	 de	 casais	 e	 para	 a	 identificação	 de	 indivíduos	 com	 as	 formas	 brandas,
manifestadas	somente	por	achados	laboratoriais.
As	talassemias	são	classificadas	de	acordo	com	o	tipo	de	cadeia	globínica	deficiente.	Os	tipos	mais	conhecidos	são	as	betatalassemias	(deficiência	na	produção	de	cadeias
beta)	e	as	alfatalassemias	(deficiência	na	produção	de	cadeias	alfa).
BETATALASSEMIAS
PREVALÊNCIA	E	DISTRIBUIÇÃO	GEOGRÁFICA
A	 betatalassemia	 é	 a	 forma	 mais	 comum	 de	 talassemia	 no	 Brasil,	 sendo	 a	 terceira	 hemoglobinopatia	 registrada	 (menos	 prevalente	 que	 a	 anemia	 falciforme	 e	 a
hemoglobinopatia	SC).	A	prevalência	do	gene	betatalassêmico	no	Rio	de	Janeiro	encontra-se	em	torno	de	0,15%,	sendo	esse	percentual	bem	mais	elevado	nas	áreas	de
colonização	 italiana	 de	 nosso	 país	 (São	 Paulo	 e	 Região	 Sul).	 A	maioria	 dos	 pacientes	 é	 descendente	 de	 italianos	 ou	 gregos,	mas	 a	 doença	 também	 é	 relatada	 em
indivíduos	 negros.	 No	 mundo,	 grande	 parte	 dos	 casos	 se	 concentra	 nos	 países	 do	 Mediterrâneo,	 como	 a	 Grécia	 e	 a	 ilha	 de	 Chipre,	 onde	 a	 prevalência	 do	 gene
betatalassêmico	é	de	5-15%.	A	doença	também	é	identificada,	com	uma	certa	frequência,	no	norte	da	África,	bem	como	nos	países	do	Oriente	Médio	e	nos	negros	dos	EUA.
MECANISMOS	GENÉTICOS
A	betatalassemia	é	caracterizada	por	uma	diminuição	ou	ausência	na	síntese	de	cadeias	beta	de	globina.	O	gene	defeituoso	apresenta	geralmente	mutações	pontuais
(troca,	acréscimo	ou	deleção	de	um	ou	dois	nucleotídeos)	envolvendo	a	regulação	ou	expressão	do	gene	produtor	da	cadeia	beta.
O	gene	da	cadeia	beta,	ou	β,	de	globina	está	presente	no	cromossoma	11,	juntamente	com	os	genes	das	outras	cadeias	globínicas	não	alfa,	isto	é,	a	cadeia	delta	ou	δ
(forma	adulta)	e	a	cadeia	gama	ou	γ	(forma	fetal).	Os	genes	dessas	três	cadeias	globínicas	compõem	o	chamado	haplótipo	do	grupamento	betaglobínico.	Veja	a	
.
Existem	pelo	menos	200	tipos	de	mutação	envolvidos	com	as	betatalassemias,	embora	cerca	de	20	deles	respondem	por	80%	dos	casos	mundiais.	Não	vem	ao	caso	agora
sabermos	a	nomenclatura	de	cada	uma	dessas	200	mutações	(aliás,	de	nenhuma	delas...).	Contudo,	é	importante	termos	em	mente	que	cada	etnia	(ex.:	mediterrânea)
possui	apenas	algumas	poucas	dessas	mutações	(três	ou	quatro)...
As	diversas	mutações	só	podem	determinar	dois	tipos	de	gene	betatalassêmico:	(1)	um	gene	totalmente	incapaz	de	produzir	cadeia	beta	(gene	β0);	e	(2)	um	gene	que
produz	uma	pequena	quantidade	de	cadeia	beta	(gene	β+),	mas	inferior	ao	normal.	Ainda	dentro	do	gene	β+,	existem	subtipos	que	produzem	mais	ou	menos	cadeia	beta
(ex.:	o	gene	β+	mediterrâneo	produz	menos	cadeia	beta	do	que	o	gene	β+	africano,	do	negro).	O	gene	normal	da	cadeia	beta	é	representado	como	gene	β.
Assim,	os	genótipos	possíveis	de	encontrar	são:
β/β	(pessoa	normal);	β0/β0	e	β+/β+	(homozigotos);	β0/β+	(duplo	heterozigoto);	β0/β	e	β+/β	(heterozigotos).
Vejamos	o	que	acontece...
Em	 um	 extremo,	 os	 homozigotos	 para	 o	 gene	 β0	 (genótipo	 β0/β0)	 não	 produzem	 absolutamente	 nenhuma	 cadeia	 beta,	 e	 os	 duplos	 heterozigotos	 (genótipo	 β0/β+)
produzem	pouquíssima	cadeia	beta.	O	paciente	desenvolve	a	betatalassemia	major	(anemia	de	Cooley),	um	quadro	de	extrema	gravidade	e	letalidade,	dependente	de
hipertransfusão	para	a	sobrevivência	(este	é	considerado	o	fenótipo	mais	grave	da	doença).	No	extremo	oposto,	os	heterozigotos	para	o	gene	β0	ou	β+	(genótipo	β0/β	ou
β+/β)	apresentam	a	chamada	betatalassemia	minor	ou	"traço	talassêmico".	Um	gene	(ex.:	o	gene	paterno)	produz	cadeia	beta	normalmente,	enquanto	o	outro	(ex.:	o
gene	materno)	não	produz	ou	produz	menos	esta	cadeia...	Estes	indivíduos	são	totalmente	assintomáticos,	embora	tenham	típicas	alterações	nos	índices	hematimétricos
do	hemograma	(ver	adiante).
Os	 homozigotos	 para	 o	 gene	 β+	 (genótipo	 β+/β+)	 costumam	dar	 origem	 à	betatalassemia	 intermédia,	 um	 quadro	moderadamente	 grave	 de	 talassemia,	mas	 não
dependente	 da	 hipertransfusão.	 Raramente,	 o	 genótipo	 heterozigoto	 β0/β	 pode	 cursar	 com	 uma	 espécie	 de	 betatalassemia	 intermedia	 "mais	 branda",	 assim	 como	 o
genótipo	 β+/β+	 também	 pode	 se	 apresentar	 como	 uma	 betatalassemia	 major	 "menos	 grave"	 que	 a	 β0/β0	 e	 a	 β0/β+,	 especialmente	 quando	 o	 gene	 β+	 é	 do	 tipo
mediterrâneo.
No	geral,	a	gravidade	da	anemia	e	do	quadro	clínico	é	dependente	da	quantidade	total	de	cadeia	beta	produzida	pelos	dois	alelos	(paterno	e	materno).
FISIOPATOLOGIA
O	que	acontece	quando	a	cadeia	beta	está	em	quantidade	reduzida	ou	ausente	nas	células	eritroides?
Duas	 consequências	 sobrevêm:	 (1)	 diminui	 a	 síntese	de	hemoglobina,	 promovendo	microcitose,	 hipocromia	 e	 anemia;	 e	 (2)	 sobram	cadeias	 alfa	 no	 citoplasma	do
eritroblasto.	 As	 cadeias	 alfa	 livres	 são	 completamente	 insolúveis	 e	 precipitam	no	 citoplasma	da	 célula.	O	 seu	efeito	 tóxico	 culmina	na	destruição	dos	 eritroblastos	 na
própria	medula	óssea,	um	processo	chamado	eritropoiese	ineficaz.	Na	betatalassemia	major,	somente	15-30%	dos	eritroblastos	escapam	da	destruição	medular!!
Os	poucos	que	sobrevivem	originam	hemácias	 "defeituosas":	além	de	microcíticas	e	hipocrômicas,	estas	hemácias	contêm	corpúsculos	de	 inclusão	 (remanescentes	de
cadeia	alfa),	que	as	tornam	suscetíveis	aos	macrófagos	do	baço,	explicando	a	hemólise	extravascular	crônica.
Em	resumo:	a	anemia	é	consequência	ao	mesmo	tempo	da	redução	da	síntese	de	hemoglobina,	da	eritropoiese	ineficaz	e	da	hemólise	crônica	extravascular.
Ainda	há	um	outro	problema...	A	eritropoiese	ineficaz	acaba	estimulando	(por	um	mecanismo	desconhecido)	a	absorção	intestinal	de	ferro,	levando	à	hemossiderose	(ou
hemocromatose),	mesmo	na	ausência	da	reposição	inadvertida	de	sulfato	ferroso.	Este	é	o	fenômeno	da	hemocromatose	eritropoiética.Video_12_Hem1
Figura	16
Fig.	16:	Cromossoma	11.
QUADRO	CLÍNICO	E	LABORATÓRIO
BETATALASSEMIA	MAJOR	(ANEMIA	DE	COOLEY)
O	 tipo	mais	 clássico	 desenvolve-se	 no	 homozigoto	 para	 o	 gene	 β0	 (β0/β0),	 embora	 possa	 ocorrer	 este	 fenótipo	 com	 as	 combinações	 β0/β+	 e	 β+/β+	mediterrâneo.	 A
ausência	completa	(ou	quase	completa)	de	cadeia	beta,	permite	a	formação	de	uma	quantidade	expressiva	de	complexos	de	cadeia	alfa	que	irão	provocar	a	destruição
celular.	Como	até	os	3-6	meses	de	idade	a	hemoglobina	predominante	é	a	HbF	(α2γ2),	não	há	necessidade	de	cadeia	beta:	não	há	como	"sobrar"	cadeias	alfa,	uma	vez
que	elas	se	ligam	quase	todas	às	cadeias	gama,	para	formar	HbF.
A	partir	 dessa	 faixa	etária,	 a	doença	 se	 instala	 com	anemia	grave	 (Hg	entre	3,0-5,0	g/dl)	 e	 icterícia.	O	 ritmo	acelerado	de	destruição	de	 células	eritroides	 (tanto	na
medula,	 quanto	 na	 periferia)	 estimula	 fortemente	 (por	 intermédio	 da	 eritropoetina	 renal)	 a	 proliferação	 e	 maturação	 dos	 eritroblastos	 (hiperplasia	 eritroide).	 Como
consequência,	 há	uma	grande	expansão	da	medula	óssea	 (mais	do	que	em	qualquer	outra	anemia),	 levando	às	 clássicas	deformidades	ósseas	 talassêmicas,	 a	 saber:
proeminência	dos	maxilares	("fácies	talassêmico"	ou	"fácies	de	esquilo"	–	 ), 	aumento	da	arcada	dentária	superior,	com	separação	dos	dentes	e	bossa	frontal.
Enquanto	 as	 reservas	 metabólicas	 são	 utilizadas	 para	 a	 expansão	 do	 eritron,	 outras	 funções,	 como	 o	 crescimento,	 desenvolvimento	 e	 resposta	 imunológica	 ficam
prejudicadas.	 Por	 isso,	 baixa	 estatura	 torna-se	 uma	 regra,	 bem	 como	 disfunção	 endócrina,	 inanição	 e	 suscetibilidade	 a	 infecções.	 Pela	 hemólise	 crônica,	 as	 crianças
talassêmicas	estão	sujeitas	à	litíase	biliar	(cálculos	de	bilirrubinato	de	cálcio)	e	a	úlceras	maleolares.
A	hepatoesplenomegalia	é	um	achado	clássico.	As	talassemias	estão	entre	as	causas	de	esplenomegalia	de	grande	monta...	O	aumento	dessas	vísceras	se	dá:	(1)	pela
hemólise	crônica	(hiperplasia	reticuloendotelial);	e	(2)	pela	eritropoiese	extramedular	(o	intenso	estímulo	à	hiperplasia	dos	eritroblastos	faz	com	que	o	baço	e	o	fígado
retomem	a	sua	produção	de	células	eritroides,	tal	como	na	vida	fetal).
A	radiografia	de	crânio	pode	revelar	os	aspectos	clássicos	da	expansão	medular	–	 :	adelgaçamento	da	cortical,	alargamento	da	cavidade	medular	e	a	imagem	do
"hair-on-end",	ou	"cabelos	na	extremidade".	Na	radiografia	de	mão,	notamos	também	adelgaçamento	cortical,	com	expansão	dos	espaços	entre	as	trabéculas	ósseas.
As	crianças	que	recebem	hemotransfusão	esporádica,	evitando	a	morte	precoce	por	anemia,	continuam	mantendo	os	efeitos	deletérios	da	hiperplasia	eritroide	exagerada:
deficit	importante	de	crescimento	e	desenvolvimento,	deformidades	ósseas	e	infecções	recorrentes.	Acabam	falecendo	de	complicações	na	primeira	década	de	vida.
Com	a	 instituição	 da	 terapia	 com	hipertransfusão	 regular	 (ver	 adiante),	 objetivando-se	 uma	Hg	 entre	 11-13	 g/dl,	 as	 complicações	 acima	 citadas	 podem	 ser	 evitadas,
permitindo	 um	 crescimento	 adequado	 e	 uma	 qualidade	 de	 vida	 mais	 razoável,	 pelo	 menos	 até	 os	 15-17	 anos	 de	 idade.	 Há	 uma	 importante	 redução	 da
hepatoesplenomegalia.	Outro	problema	então	se	manifesta...
As	transfusões	repetidas	durante	longos	anos	levam	à	sobrecarga	de	ferro	no	organismo,	provocando	hemocromatose	transfusional.	Lembre-se	de	que	o	paciente	já
havia	acumulado	ferro	por	aumento	da	absorção	intestinal	(hemocromatose	eritropoiética).	O	ferro	se	acumula	em	diversos	órgãos	e	tecidos,	provocando	morte	de	células
e	disfunção	orgânica.	Os	mais	afetados	são:	fígado,	sistema	endócrino,	pele,	coração.	O	quadro	clínico	é	marcado	por	agravamento	da	hepatoesplenomegalia,	coloração
"bronzeada"	 da	 pele,	 hipogonadismo,	 diabetes	mellitus	 e	 insuficiência	 cardíaca	 congestiva	 refratária.	O	 paciente	 acaba	por	 falecer	 por	 arritmias	 cardíacas	 ou	 falência
cardíaca	ainda	numa	idade	jovem.	Com	o	início	precoce	da	terapia	quelante	de	ferro	(ver	adiante),	a	sobrevida	média	pode	chegar	aos	31	anos.
	LABORATÓRIO
Os	achados	 laboratoriais	são	de	uma	anemia	grave,	microcítica	e	hipocrômica,	 com	VCM	entre	48-72	fl	e	CHCM	entre	23-32	g/dl.	As	alterações	características	de
hemólise	 extravascular	 encontram-se	 presentes:	 hiperbilirrubinemia	 indireta,	 aumento	 do	 LDH,	 redução	 da	 haptoglobina,	 reticulocitose.	 Como	 a	 anemia	 não	 é
exclusivamente	 pela	 hemólise,	 o	 índice	 de	 reticulócitos	 é	 de	 apenas	5-15%,	menor	 do	 que	 o	 esperado	 para	 a	 gravidade	 da	 anemia.	 O	 hemograma	 pode	 apresentar
leucocitose	neutrofílica,	mas	a	plaquetometria	 está	normal.	O	esfregaço	do	 sangue	periférico	é	bastante	 rico.	Há	uma	 intensa	anisopoiquilocitose,	 com	predomínio	de
hemácias	microcíticas	e	hipocrômicas	e	de	hemácias	em	alvo	(leptócitos).	A	eritroblastose	é	marcante,	decorrente	da	hiperplasia	eritroide	exagerada	–	 . A
fragilidade	 osmótica	 das	 hemácias	 em	 alvo	 está	 reduzida,	 pois	 a	 sua	 superfície	 é	 maior	 proporcionalmente	 ao	 seu	 volume	 (oposto	 ao	 que	 acontece	 com	 os
microesferócitos).
Figura	17 	
Fig.	17:	Criança	de	descendência	libanesa,	com	betatalassemia	major.	Observe	à	esquerda	o	"fácies	talassêmico",	com	proeminência	dos	maxilares.	À	direita,	a	radiografia	de	crânio	mostra	o	sinal
clássico:	"hair-on-end".
Figura	17
■
Figura	18 	
Os	eritroblastos	na	periferia	("hemácias	nucleadas"),	correspondem	a	mais	de	10%	da	contagem	leucocitária,	ou	mais	de	200/mm³.	Eventualmente,	o	hematologista	se
surpreende	com	a	contagem	extrema	de	50.000-100.000	eritroblastos	por	mm³.	A	hematoscopia	também	pode	revelar	hemácias	com	pontilhado	basofílico	(tal	como	na
anemia	sideroblástica	e	no	saturnismo).
BETATALASSEMIA	INTERMÉDIA
A	betatalassemia	intermédia	é	um	quadro	mais	brando	que	o	descrito	para	a	anemia	de	Cooley,	pois	estes	pacientes	possuem	uma	produção	intermediária	de	cadeia	beta
pelos	seus	eritroblastos.	Frequentemente,	o	diagnóstico	é	feito	na	adolescência	ou	fase	adulta.	São	indivíduos	cronicamente	anêmicos,	com	Hg	na	faixa	entre	6-9	g/dl	(Ht
entre	 18-27%),	 deformidades	 ósseas	 características,	 icterícia	 intermitente,	 episódios	 de	 litíase	 biliar	 recorrente	 e	 esplenomegalia	 moderada.	 O	 crescimento,
desenvolvimento	e	fertilidade	estão	preservados.
A	absorção	de	ferro	intestinal	também	está	aumentada	(3-10	vezes	em	relação	ao	normal),	por	um	mecanismo	semelhante	ao	da	talassemia	major.	Os	sinais	e	sintomas	da
hemossiderose	só	aparecem	após	os	30	anos,	a	não	ser	quando	é	prescrito	sulfato	ferroso	inadvertidamente	ao	paciente,	quando	o	médico	julga	tratar-se	de	uma	anemia
ferropriva...	Nesse	caso,	o	acúmulo	de	ferro	é	bastante	acelerado	pela	iatrogenia!
	LABORATÓRIO
Os	achados	dos	índices	hematimétricos	e	na	hematoscopia	do	sangue	periférico	são	idênticos	aos	da	betatalassemia	major.	O	que	as	diferencia	é	o	grau	de	anemia.
BETATALASSEMIA	MINOR
A	principal	importância	da	talassemia	minor	na	prática	médica	é	o	seu	reconhecimento	como	entidade	benigna.	O	clínico	não	deve	confundir	a	talassemia	minor	(e	nem	a
intermédia)	com	anemia	ferropriva!!
Esses	pacientes	são	heterozigotos	para	o	gene	β+	(β+/β)	ou	para	o	gene	β0	(β0/β).	A	talassemia	minor	também	é	referida	como	"traço	talassêmico".
Se	dois	indivíduos	com	talassemia	minor	tiverem	prole,	a	chance	de	terem	um	filho	com	betatalassemia	major	(β0/β0	ou	β0/β+)	ou	intermédia	(β+/β+)	é	de	25%.	O	risco	de
talassemia	major	na	prole	está	presente	 se	ambos	os	pais	 forem	heterozigotos	para	o	gene	β0	 ou	um	dos	pais	 tiver	o	gene	β0	 e	o	outro	 tiver	o	gene	β+.	O	 risco	de
talassemia	intermédia	(ao	invés	de	major)	geralmente	ocorre	quando	ambos	os	pais	têm	o	gene	β+.	O	risco	do	casal	com	"traço	talassêmico"	ter	filhos	genotipicamente
normais	(β/β)	também	é	de	25%,	enquanto	o	de	nascer	com	"traço	talassêmico"	(β0/β	ou	β+/β)	é	de	50%...
O	 paciente	 é	 assintomático,	 sendo	 o	 seu	 problema	 descoberto	 acidentalmente	 no	 seu	 hemograma.	 Alguns	 possuem	uma	 anemia	 discreta(Hg	>	 10	 g/dl),	 outros	 não
apresentam	anemia.	Os	grandes	marcadores	desta	entidade	são	a	microcitose	(VCM	entre	60-75	fl)	e	a	hipocromia	(HCM	entre	18-21	pg).	O	sangue	periférico	contém
hemácias	em	alvo	e	pontilhado	basofílico.
DIAGNÓSTICO
O	 exame	 padrão-ouro	 para	 o	 diagnóstico	 das	 betatalassemias	 (e	 o	 único	 capaz	 de	 confirmá-las)	 é	 a	 eletroforese	 de	 hemoglobina.	 Este	 exame	 quantifica
proporcionalmente	os	tipos	de	hemoglobina	presentes	no	homogeneizado	de	hemácias	do	paciente.	Como	vimos	em	capítulos	passados,	o	normal	de	um	adulto	é	97%	de
HbA1,	2%	de	HbA2	e	1%	de	HbF.
Nas	betatalassemias,	como	há	menos	cadeias	beta	(ou	simplesmente	não	há),	as	hemoglobinas	formadas	por	outras	cadeias	não	alfa	sobressaem,	como	a	HbA2	e	a	HbF.
Valores	de	HbA2	entre	3,5-8%	são	característicos.
O	percentual	de	HbF	depende	do	grau	de	deficiência	da	cadeia	beta:	na	 forma	major,	esse	percentual	pode	ultrapassar	90%,	enquanto	que	na	 forma	minor,	pode	ser
normal	ou	levemente	elevado.
TRATAMENTO
BETATALASSEMIA	MAJOR
O	 tratamento	 se	 baseia	 na	hipertransfusão	 crônica.	 Esta	 terapia	 controla	 a	 hiperplasia	 eritroide	 desordenada,	 por	 retirar	 o	 estímulo	 anêmico	 à	 produção	 renal	 de
eritropoetina.	Além	disso,	está	se	fornecendo	hemácias	com	hemoglobina	normal	(HbA)	ao	paciente,	 justamente	o	que	está	faltando	a	ele.	A	hipertransfusão	é	feita	na
dose	 de	 5-10	 ml/kg	 a	 cada	 3-5	 semanas,	 com	 o	 objetivo	 de	 manter	 a	 hemoglobina	 média	 de	 12	 g/dl	 e	 mínima	 de	 10	 g/dl.	 Para	 reduzir	 a	 reações	 hemolíticas
(aloimunização)	e	febris,	o	Banco	de	Sangue	dá	preferência	a	sangue	de	doadores	da	mesma	etnia,	além	de	usar	hemácias	leucodepletadas	(filtro	de	leucócitos).
Fig.	18:	Sangue	periférico	na	betatalassemia	major.	Observe	a	anisopoiquilocitose,	com	hemácias	em	alvo,	hipocrômicas	e	um	eritroblasto	("hemácia	nucleada")	–	seta.
■
Com	esse	tratamento,	as	crianças	recuperam	o	crescimento	e	desenvolvimento,	reduzem	o	risco	a	infecções	e	controlam	a	hepatoesplenomegalia.	Ou	seja:	melhora	da
qualidade	de	vida	e	redução	da	mortalidade.	Elas	chegam	até	a	adolescência	sem	muitos	problemas.	A	reposição	de	ácido	fólico	1	mg/dia	é	rotineira.
A	 esplenectomia	 é	 recomendável	 sempre	 que	 as	 necessidades	 de	 transfusão	 aumentarem	mais	 de	 50%	 em	 um	 ano	 ou	 ultrapassem	 200	 ml/kg/ano.	 Toda	 criança
candidata	deve	ter	pelo	menos	6-7	anos	de	idade	e	ser	imunizada	(antes	da	cirurgia	eletiva)	para	pneumococo,	hemófilo	tipo	B	e	meningococo.
O	maior	problema	passa	a	ser	a	hemocromatose	secundária	 (transfusional).	A	terapia	com	deferoxamina,	um	quelante	do	ferro	parenteral,	 representa	a	abordagem
clássica.	A	via	de	administração	é	subcutânea,	infundida	em	12h	(por	meio	de	um	dispositivo	próprio),	com	a	dose	variando	de	1,5-2,5	g/dia,	cinco	vezes	por	semana.	Ver	
.	 Atualmente,	 no	entanto,	 tem-se	preferido	um	novo	quelante	de	 ferro:	 o	deferasirox	 (20-30	mg/kg/dia),	 que	pode	 ser	 feito	pela	 via	 oral,	 com	os	mesmos
benefícios.
A	 avaliação	 da	 sobrecarga	 de	 ferro	 e	 a	 resposta	 à	 terapêutica	 aos	 quelantes	 deve	 ser	 feita	 através	 de	 dosagens	 seriadas	 da	 ferritina,	 ferro	 sérico	 e	 saturação	 da
transferrina	e	quantificação	de	ferro	no	parênquima	hepático	(biópsia	hepática	e/ou	ressonância	magnética).	A	ferritina	sérica	deve	permanecer	DOENÇA	DA	HEMOGLOBINA	H
A	ausência	de	três	genes	(genótipo	α_/_	_)	permite	o	nascimento	da	criança	sem	maiores	problemas,	mas	já	com	anemia.	O	quadro	clínico	se	desenvolve	tal	como	uma
talassemia	 intermédia,	 com	 hemólise	 extravascular	 e	 moderada	 eritropoiese	 ineficaz.	 Os	 pacientes	 chegam	 à	 fase	 adulta	 sem	 necessidade	 de	 hemotransfusões.
Apresentam	esplenomegalia	e	uma	anemia	moderada	microcítica-hipocrômica.
A	sobra	de	cadeias	beta	não	possui	o	efeito	tóxico	grave	das	cadeias	alfa	livres	(como	nas	betatalassemias).	Forma-se	um	tetrâmero	de	cadeias	beta	(β4),	denominado
HbH.	Esta	última	pode	se	precipitar	nas	hemácias,	aparecendo	no	esfregaço	do	sangue	periférico,	corado	pelo	azul	brilhante	de	cresil,	como	um	pontilhado	eritrocítico.
ALFATALASSEMIA	MINOR
São	pacientes	assintomáticos,	mas	com	microcitose	e	hipocromia	no	hemograma.	O	valor	médio	do	VCM	é	de	72	fl	e	do	CHM,	de	31	g/dl.	O	diagnóstico	é	suspeitado	com
exames	de	check-up.	A	principal	preocupação	é	de	saber	o	genótipo	e	a	possibilidade	de	ter	filhos	com	hidropsia	fetal	ou	doença	da	HbH.
DIAGNÓSTICO
A	eletroforese	de	hemoglobina	pode	confirmar	o	diagnóstico	em	casos	de	hidropsia	fetal	(forma	mais	grave),	ao	mostrar	a	Hb	Barts	e	ausência	completa	de	HbA.	A	doença
da	HbH	também	é	diagnosticada	por	esse	exame:	o	percentual	de	HbH	detectado	varia	entre	5-40%.	A	HbA2	e	a	HbF	estão	proporcionalmente	normais	ou	reduzidas	(ao
contrário	das	betatalassemias).
Fig.	20:	Cromossoma	16.
A	 alfatalassemia	 minor	 é	 mais	 difícil	 de	 diagnosticar.	 Indivíduos	 com	 microcitose	 entre	 70-80	 fl,	 sem	 anemia,	 com	 laboratório	 do	 ferro	 normal	 e	 eletroforese	 de
hemoglobina	 normal	 provavelmente	 possuem	 alfatalassemia	 minor.	 O	 diagnóstico	 deve	 ser	 confirmado	 por	 estudo	 genético.	 Este	 último	 tem	 importância	 no
aconselhamento	genético	de	casais	portadores.
O	diagnóstico	precoce	da	hidropsia	fetal	já	é	possível	a	partir	da	10ª	semana	de	gestação,	através	de	biópsia	do	vilo	coriônico	com	realização	de	teste	genético	no	material
coletado.
TRATAMENTO
O	 tratamento	 só	 está	 indicado	 na	 doença	 da	 HbH,	 sendo	 semelhante	 àquele	 preconizado	 para	 a	 betatalassemia	 intermédia,	 observando-se	 as	 indicações	 de
hemotransfusão,	quelação	de	ferro	e	esplenectomia.	A	reposição	de	ácido	fólico	1	mg	VO/dia	está	sempre	indicada.
APÊNDICE	1
AS	MIELODISPLASIAS
(SÍNDROMES	MIELODISPLÁSICAS)
Descritas	desde	1938	e	agrupadas	em	1982	pela	FAB	 (French-American-British	Cooperative	Group)	e	mais	 recentemente	pela	OMS,	as	entidades	clínicas	denominadas
síndromes	mielodisplásicas	(ou	mielodisplasias)	têm	se	revelado	importantes	causas	de	anemia	crônica	na	população	idosa.
Trata-se	de	desordens	hematológicas	adquiridas,	 caracterizadas	pela	 transformação	mutagênica	da	célula-tronco	hematopoiética	da	medula	óssea,	o	que	dá	origem	a
células	progenitoras	anômalas	(displásicas),	incapazes	de	seguirem	um	processo	de	maturação	normal.
Este	distúrbio	origina	a	alteração	mais	característica	das	mielodisplasias:	a	coexistência	paradoxal	de	uma	medula	normo	ou	hipercelular,	associada	à	redução	da
produção	das	diversas	linhagens	hematopoiéticas.	Clinicamente,	surge	anemia,	bicitopenia	ou	mesmo	pancitopenia.
A	displasia	das	células	hematopoiéticas	pode,	mais	cedo	ou	mais	 tarde,	 converter-se	em	uma	 leucemia	aguda	 (transformação	 leucêmica),	por	uma	segunda	mutação,
culminando	em	um	quadro	agudo	que	evolui	rapidamente	para	o	óbito.
PATOGÊNESE,	ETIOLOGIA	E	EPIDEMIOLOGIA
As	Síndromes	Mielodisplásicas	(SMD)	podem	ser	classificadas	de	duas	formas,	sob	o	ponto	de	vista	patogênico:	(1)	idiopática	ou	primária,	típica	de	pacientes	idosos	(>	60
anos)	e	com	curso	clínico	arrastado;	e	(2)	secundária	 (induzida	por	drogas),	que	pode	ocorrer	alguns	anos	após	quimio/radioterapia	para	o	 tratamento	de	neoplasias
malignas,	 independente	da	 idade	do	paciente.	A	doença	 tem	 ligeiro	predomínio	no	sexo	masculino.	No	Brasil,	a	média	de	 idade	ao	diagnóstico	é	de	58	anos	 (possível
predomínio	da	forma	secundária).
O	risco	de	mielodisplasia	primária	aumenta	conforme	a	 idade	do	paciente.	Exposição	ao	benzeno	e	à	radiação	ambiental	 (aumentada	em	certas	 localidades)	são	os
fatores	que	mais	consistentemente	se	associam	à	mielodisplasia	primária.	Outras	exposições	ambientais	têm	associação	causal	menos	consistente,	como	a	exposição	a
certos	pesticidas.
A	 forma	 secundária	 possui	 uma	 chance	 maior	 de	 evoluir	 para	 leucemia	 mieloide	 aguda	 e,	 portanto,	 guarda	 um	 pior	 prognóstico.	 As	 drogas	 quimioterápicas	 mais
comumente	associadas	são	os	agentes	alquilantes	(clorambucila,	bussulfano,	melfalano,	nitrosureias	e	ciclofosfamida),	também	chamados	de	agentes	"radiomiméticos"
(por	 produzirem	 quebras	 na	 cadeia	 de	 DNA,	 à	 semelhança	 da	 radiação	 ionizante),	 e	 os	 inibidores	 de	 topoisomerase.	 Foi	 relatada	 uma	 incidência	 de	 até	 15%	 de
mielodisplasia	secundária	na	primeira	década	após	tratamento	combinado	com	agentes	alquilantes	+	radioterapia.
Após	transplantes	autólogos	de	medula,	nos	quais	se	utiliza	quimio	e	radioterapia	para	obter	aplasia	total	da	medula,	as	SMD	acometem	mais	de	20%	dos	pacientes!
O	caráter	clonal	da	doença	está	bem	estabelecido,	considerando-se	as	mielodisplasias	exemplos	de	doenças	pré-leucêmicas.	A	doença	se	inicia	após	uma	mutação	nos
genes	relacionados	à	síntese	e	duplicação	do	DNA,	promovendo	um	desarranjo	na	maturação	celular.	As	células	das	diversas	linhagens	hematopoiéticas,	então,	dão	origem
a	progenitores	defeituosos	que	se	proliferam	e	substituem	os	precursores	normais.	As	células	displásicas	apresentam	uma	capacidade	prejudicada	de	se	transformarem
em	células	maduras	(hemácias,	granulócitos	e	plaquetas).	O	setor	mais	comprometido	geralmente	é	o	eritroide.	Por	isso,	quase	sempre	o	quadro	clínico	predominante	é	o
de	uma	anemia	crônica,	refratária	ao	tratamento	medicamentoso.
Uma	 série	 de	 alterações	 citogenéticas	 tem	 sido	 descritas	 nas	 síndromes	mielodisplásicas,	 tais	 como	 a	 deleção	 do	 braço	 longo	 (q)	 dos	 cromossomos	5,	 7	 ou	20	 e	 a
trissomia	 do	 8	 (as	 deleções	 predominam	 nas	 mielodisplasias,	 ao	 passo	 que	 as	 translocações	 são	 mais	 típicas	 da	 LMA).	 Acredita-se	 que	 a	 maioria	 das	 alterações
citogenéticas	 que	 acompanham	 as	mielodisplasias	 resulte	 em	 inativação	 de	 genes	 supressores	 tumorais.	 Tais	mutações	 são	mais	 comumente	 encontradas	 na	 forma
secundária	(80%)	em	relação	à	primária	(40%).
MANIFESTAÇÕES	CLÍNICAS	E	LABORATORIAIS
Devemos	suspeitar	de	mielodisplasia	em	todo	paciente	idoso	que	se	apresente	com	anemia	normocítica	ou	macrocítica,	bicitopenia	ou	pancitopenia,	uma	vez	descartada	a
anemia	 megaloblástica	 por	 carência	 de	 vitamina	 B12	 ou	 folato.	 A	 mesma	 conduta	 vale	 para	 pacientes	 mais	 jovens	 que	 possuem	 história	 prévia	 de	 quimio	 e/ou
radioterapia.
A	anemia	tanto	pode	ser	um	achado	laboratorial	num	paciente	totalmente	assintomático	quanto	determinar	um	quadro	característico:	astenia,	tonteira,	cefaleia,	dispneia	e
angina.	A	leucopenia	pode	provocar	infecções	bacterianas	ou	fúngicas.	A	chance	de	infecção	é	desproporcional	ao	grau	de	neutropenia,	devido	à	disfunção	dos	neutrófilos
gerados	pelos	mielócitos	displásicos...	A	causa	mais	comum	de	óbito	na	mielodisplasia	é	a	 infecção!	Petéquias	e	púrpuras	podem	ser	encontradas	em	25%	dos	casos,
decorrentes	da	plaquetopenia	ou	disfunção	plaquetária	(mesmo	com	plaquetometria	normal).
Linfadenopatia,	 esplenomegalia	 e	 hepatomegalia	 são	 achados	 incomuns	 nas	 mielodisplasias,	 com	 exceção	 da	 LMMC	 (Leucemia	 Mielomonocítica	 Crônica),	 que	 pode
apresentar	esplenomegalia	de	grande	monta	em	25%	dos	casos.
Nas	mielodisplasias,	manifestações	autoimunes	(vasculites,	artrite)	podem	ser	observadas	em	15%	dos	pacientes.	A	síndrome	de	Sweet	(dermatose	neutrofílica	febril)	é
outra	complicação	das	mielodisplasias,	sendo	geralmente	um	prenúncio	de	evolução	para	LMA.	Nesta	síndrome,	surgem	placas	eritematosas	predominando	no	tronco	e
face,	febre	alta	e	leucocitoseneutrofílica.	Esta	síndrome	parece	ser	causada	pela	liberação	local	de	fator	estimulante	de	granulócitos	(G-CSF)	e	Interleucina	6	(IL-6).
Algumas	vezes	faz-se	o	diagnóstico	de	uma	Leucemia	Mieloide	Aguda	(LMA),	que,	na	verdade,	é	uma	complicação	evolutiva	de	uma	mielodisplasia.	Há	uma	piora	abrupta
da	anemia,	trombocitopenia	e	surge	leucocitose	à	custa	de	blastos	mieloides.	Em	comparação	com	as	leucemias	agudas	primárias,	o	prognóstico	é	muito	pior,	e	a	resposta
à	quimioterapia	é	precária.	A	LMA	é	a	segunda	causa	de	morte	nas	mielodisplasias!
LABORATÓRIO
A	anemia	sem	reticulocitose	é	um	achado	praticamente	universal,	sendo	de	grau	variável	(leve,	moderada	ou	grave).	Os	 índices	hematimétricos	são	normais	("normo-
normo")	ou,	mais	comumente,	revelam	macrocitose,	raramente	superior	a	115	fl.	A	leucopenia	com	neutropenia	ocorre	em	50%	dos	casos;	e	a	plaquetopenia,	em	25%.	O
sangue	periférico	pode	mostrar	alterações	sugestivas	da	doença	(Tabela	1).	As	mais	frequentes	são:	macro-ovalócitos,	neutrófilos	hipossegmentados	e	hipogranulares,
anomalia	de	pseudo-Pelger-Huët	(neutrófilo	com	núcleo	em	forma	de	halteres),	ver	 .Figura	1
Tab.	1
Confirmação:
Estudo	 da	medula	 óssea:	 a	 confirmação	 do	 diagnóstico	 só	 pode	 ser	 feita	 através	 da	 biópsia	 de	medula	 óssea,	 embora	 não	 exista	 achado	 patognomônico	 de
mielodisplasia.	 O	 aspirado	 de	medula	 (mielograma)	 pode	 sugerir	 o	 diagnóstico,	 ao	mostrar	 algumas	 displasias...	 A	 análise	 qualitativa	 das	 células	 hematopoiéticas	 irá
demonstrar	as	alterações	displásicas	características	da	doença	(Tabela	2).	A	medula	encontra-se	hiper	ou	normocelular.	Em	um	pequeno	número	de	casos,	a	medula
está	hipocelular,	fazendo	diagnóstico	diferencial	com	anemia	aplásica.	As	alterações	mielodisplásicas	mais	valorizadas	são	a	diseritropoiese	e	a	"localização	anormal	dos
precursores	mieloides",	também	chamada	de	ALIP	(Abnormal	Localization	of	Immature	Precursors),	na	qual	os	mielócitos	tomam	uma	posição	central	na	medula,	em	vez
de	situarem-se	na	região	paratrabecular,	 isto	é,	adjacentes	às	trabéculas	ósseas	(como	na	medula	normal).	A	presença	da	ALIP	confere	um	pior	prognóstico.	Dentro	da
diseritropoiese,	entre	outras	alterações,	podem-se	observar	eritrócitos	com	núcleos	megaloblásticos	e	hemoglobinização	deficiente,	além	dos	sideroblastos	em	anel.	São
eritroblastos	que	acumulam	ferro	em	suas	mitocôndrias,	dispostas	em	volta	do	núcleo	(formando	uma	espécie	de	"anel	de	ferro").	Quando	representam	mais	de	15%	dos
eritroblastos	da	medula,	caracterizam	a	anemia	sideroblástica,	que	será	descrita	adiante...	Um	leve	grau	de	mielofibrose	pode	ser	encontrado	em	até	50%	dos	casos;
um	grau	acentuado	é	descrito	em	10-15%.
Tab.	2
Fig.	1:	Anomalia	de	Pelger-Huët	–	neutrófilos	bissegmentados,	com	núcleo	em	forma	de	óculos	ou	halteres.
O	Esfregaço	de	Sangue	nas
Mielodisplasias
Série	vermelha
Macro-ovalócitos.
Eliptócitos.
Acantócitos.
Estomatócitos.
Hemácias	em	lágrima.
Pontilhado	basofílico.
Corpúsculos	de	Pappenheimer.
Série	branca
Neutrófilos	hipossegmen​tados	(menos	de	três	segmentações	nucleares).
Anomalia	pseudo-Pelger-Huët.
Neutrófilos	hipo	ou	agranulares.
Bastonetes	de	Auer.
Série	plaquetária Megatrombócitos	(plaquetas	gigantes).
Plaquetas	hipo	ou	agranulares.
A	Medula	Óssea	nas	
Mielodisplasias
Linhagem	eritroide	(diseritro​poiese)
Megaloblastose	(assincronia	de	maturação	núcleo-citoplasma).
Diseritropoiese	 (eritroblastos	 bilobulados	 ou	 multilobulados,	 apresentando	 cariorrexe,	 vacuolização
citoplasmática).
Sideroblastos	em	anel.
Linhagem	mieloide	(disgra​nulo​poiese)
Localização	anormal	dos	precursores	mieloides	(ALIP).
Parada	da	maturação	no	estágio	de	mielócito.
Aumento	das	formas	monocitoides.
Hipogranulação	e	anomalia	de	Pelger-Huët.
Linhagem	megacario​cítica	(dis​me​ga​ca​ri​o​poie​se)
Micromega​cariócitos	(megacariócito	"anão").
Múltiplos	pequenos	núcleos.
Hipogranulação.
Estudo	das	alterações	citogenéticas:	a	análise	das	alterações	citogenéticas	pode	fornecer	dados	importantes	para	o	diagnóstico	das	SMD,	através	da	identificação	de
alterações	clássicas,	como	as	deleções	7	e	20q.	O	achado	da	deleção	5q	na	presença	de	uma	medula	compatível	com	mielodisplasia	identifica	a	síndrome	5q,	que	será
descrita	adiante.
CLASSIFICAÇÃO	E	PROGNÓSTICO
A	 FAB	 classificou	 as	 síndromes	 mielodisplásicas	 em	 cinco	 grupos,	 de	 acordo	 com	 características	 clínicas,	 laboratoriais	 e	 prognósticas	 (Tabela	 3).	 Observe	 nesta
classificação	que	uma	das	formas	de	anemia	sideroblástica	adquirida	pertence	ao	grupo	das	síndromes	mielodisplásicas,	bem	como	um	tipo	especial	de	leucemia	crônica
–	a	LMMC.
Tab.	3
O	defeito	na	síntese	do	heme	responsável	pela	formação	dos	sideroblastos	em	anel	é	uma	forma	de	displasia	eritroide.	Estes	pacientes	possuem	uma	clínica	semelhante	à
anemia	sideroblástica	adquirida	 idiopática,	 também	apresentando	aumento	 importante	da	saturação	de	 transferrina	e	da	 ferritina	sérica,	bem	como	um	dimorfismo	na
população	eritrocitária	do	sangue	periférico.	Raramente	ocorre	resposta	a	altas	doses	de	piridoxina.
A	LMMC,	apesar	de	apresentar	uma	série	de	alterações	medulares	compatíveis	com	mielodisplasia,	funciona,	na	verdade,	como	uma	síndrome	mieloproliferativa.	O	quadro
clínico	 é	 semelhante	 ao	 da	 LMC	 (Leucemia	Mieloide	Crônica),	 havendo	 esplenomegalia	 de	 grande	monta	 e	 leucocitose	 significativa,	 neste	 caso,	 com	o	 predomínio	 de
monócitos	no	diferencial.	Segundo	a	classificação	da	FAB,	as	LMMC	com	menos	de	12.000	monócitos/mm³	são	classificadas	como	síndromes	mielodisplásicas;	as	LMMC
com	mais	de	12.000	monócitos/mm³	são	classificadas	como	síndromes	mieloproliferativas.
Em	relação	ao	prognóstico,	a	anemia	refratária	sideroblástica	tem	sobrevida	média	entre	2-6	anos,	evoluindo	para	leucemia	aguda	em	apenas	5%	dos	casos.	A	sobrevida
média	e	a	chance	de	transformação	leucêmica	das	outras	entidades	são:	anemia	refratária	(2-5	anos;	10%);	anemia	refratária	com	excesso	de	blastos	(7-15	meses;	25%);
anemia	refratária	com	blastos	em	transformação	(5-12	meses;	50%);	LMMC	(1-5	anos;	20%).	Os	pacientes	com	anemia	refratária	ou	com	anemia	refratária	sideroblástica
acabam	morrendo	de	infecções	bacterianas	em	razão	da	neutropenia	e	imunodepressão,	enquanto	os	demais	grupos	acabam	falecendo	de	leucemia	aguda.
Atualmente,	os	hematologistas	têm	utilizado	a	classificação	da	OMS,	considerada	mais	representativa	das	alterações	histopatológicas	e	do	prognóstico.	Essa	classificação
separa	 os	 casos	 de	 displasia	 eritroide	 isolada	 (com	 ou	 sem	 sideroblastos	 em	 anel),	 de	 melhor	 prognóstico,	 da	 displasia	 multilinhagem	 (acometendo	 as	 três	 séries
hematológicas).	 Por	 exemplo,	 o	 acometimento	 restrito	 ao	 setor	 eritroide	 confere	uma	 sobrevida	média	de	6-7	anos	 versus	2	anos	 na	displasia	multilinhagem.	Outra
diferença	é	o	percentual	de	blastos	(progenitores	com	nucléolo)	que	define	uma	Leucemia	Mieloide	Aguda	(LMA),	neste	caso	acima	de	20%	(enquanto	que	na	FAB	seria
acima	de	30%...).	Caracteriza	também	um	grupo	de	mielodisplasias	não	classificáveis	bem	como	a	síndrome	da	deleção	5q.	Esta	síndrome	é	mais	comum	em	mulheres
e	manifesta-se	com	grave	anemia	macrocítica	refratária	 (transfusão-dependente),	associada	à	 leucopenia,	 trombocitose,	megacariócitos	hipolobulados	na	medula	e	um
prognóstico	favorável,	com	baixa	taxa	de	conversão	em	LMA	(apenas	10%).	Uma	rara	síndrome	infantil,	a	síndrome	da	monossomia	do	cromossomo	7,	possui	prognóstico
reservado,	 pelo	 alto	 risco	 de	 infecções	 bacterianas	mesmo	 na	 ausência	 de	 neutropenia	 (disfunção	 dos	 neutrófilos).	 A	 classificação	 da	 OMS	 não	 incluiu	 a	 LMMC,	 pois
resolveu	classificá-la	como	síndrome	mieloproliferativa,	independente	da	contagem	de	monócitos.	A	Tabela	4	representa	de	forma	didática	a	classificação	da	OMS.
Tab.	4
(*1)	O	achado	de	mais	de	1.000	monócitos	na	periferia	caracteriza	a	LMMC,	não	incluída	pela	OMS	na	classificação	das	mielodisplasias.
	
(*2)	Tanto	na	LMA	quanto	na	AREB-2	podem	ser	encontrados	bastonetes	de	Auer	naM.O.
Os	fatores	prognósticos	nas	SMD	estão	listados	nos	quadros	abaixo:
As	Duas	Classificações	das	
Mielodisplasias	(FAB	e	OMS)
Mielodisplasias:	Classificação	da	FAB
1.	Anemia	refratária 	15%	sideroblastos	em	anel	na	M.O.
	1.000	monócitos/mm³	na	periferia.
Mielodisplasias:	
Classificação	da	OMS	(2002)
Anemia	refratária	sem	sidero​blastos	em	anel
	10%	em	duas	ou	mais	linhagens.
	5%)	na	medula;
● Localização	anormal	dos	precursores	imaturos	(ALIP);
● Displasia	multilinhagem	e/ou	múltiplas	citopenias;
● Imuno-histoquímica	CD34+;
● Deleção	7q,	trissomia	8,	monossomia	7.
Fatores	de	prognóstico	favorável:
● Menor	percentual	de	blastos	(nestes	casos.
Estude	a	Tabela	6,	que	resume	as	principais	recomendações	para	o	tratamento	das	mielodisplasias:
Tab.	6
APÊNDICE	2
ANEMIA	SIDEROBLÁSTICA
A	Anemia	Sideroblástica	(AS)	representa	um	grupo	de	desordens	heterogêneas	que	possuem	como	característica	comum,	além	de	anemia,	a	presença	de	depósitos	de
ferro	nas	mitocôndrias	dos	eritroblastos.	A	mitocôndria	"carregada"	de	ferro	assume	localização	perinuclear	nessas	células	vermelhas	jovens,	que	recebem,	por	isso,
o	nome	de	sideroblastos	em	anel	( ).
Você	ainda	não	entendeu	o	que	é	uma	síndrome	mielodisplásica?	Vamos	explicar	de	novo...
O	termo	mielodisplasia	abrange	um	espectro	heterogêneo	de	alterações	observadas	nas	células	progenitoras	da	medula	óssea,	que	acarreta	consequências	clínicas
como	o	surgimento	de	anemia	refratária	e/ou	Leucemia	Mieloide	Aguda	(LMA).	Sua	origem	está	em	mutações	genéticas	da	célula-tronco	hematopoiética.	As	mutações
mais	comuns	são	as	deleções	5q,	7q	ou	20q.	A	consequência	dessas	mutações,	em	última	instância,	é	a	criação	de	clones	displásicos	de	precursores	hematopoiéticos!
Tais	precursores	displásicos	têm	dificuldade	de	maturação.	Assim,	a	medula	fica	normo	ou	hipercelular,	porém,	repleta	de	células	displásicas,	 isto	é,	células	com
morfologia	 aberrante	 (ex.:	 citoplasma	 desproporcional	 ao	 núcleo,	 hipossegmentação	 do	 núcleo	 de	mielócitos,	 entre	 outras).	 Apesar	 de	 uma	 "medula	 cheia",	 com	 a
dificuldade	 de	 maturação	 ocorre	 apoptose	 de	 grande	 parte	 das	 células	 geradas	 e,	 com	 isso,	 surgem	 citopenias...	 Como	 o	 setor	 mais	 acometido	 é	 o	 eritroide,	 a
manifestação	mais	comum	é	a	anemia.	As	principais	complicações	são	infecções	bacterianas,	já	que	alguns	pacientes	desenvolvem	neutropenia,	e	a	evolução	para	LMA
(mutações	adicionais	podem	transformar	uma	displasia	em	neoplasia).	Apesar	de	não	haver	achados	patognomônicos,	a	biópsia	de	medula	óssea	é	o	único	exame
capaz	 de	 confirmar	 o	 diagnóstico	 (veja	 a	 Tabela	 2).	 É	 sempre	 importante	 excluir	 diagnósticos	 diferenciais	 como	 deficiência	 de	 B12	 e/ou	 ácido	 fólico...	 A	 análise
citogenética	pode	revelar	mutações	características	e,	com	isso,	corroborar	o	diagnóstico.
Tratamento	das	Mielodisplasias
≤	60	anos	+	bom	PS	+	risco	interme​diário-2	ou	alto Terapia	de	alta	intensidade	+	Tx	células-tronco	hematopoiéticas.
≤	60	anos	+	bom	PS	+	risco	interme​diário-1	ou	baixo
Terapia	de	baixa	intensidade	ou	medidas	de	suporte.
● Opção	(principalmente	se	HLA-DR15+):	imunossupressão	(globulina	antitimócito	+	ciclosporina	ou	Campath).
≥	60	anos	+	bom	PS	+	risco	interme​diário-2	ou	alto Terapia	de	baixa	intensidade.
≥	60	anos	+	bom	PS	+	risco	interme​diário-1	ou	baixo Medidas	de	suporte	ou	terapia	de	baixa	intensidade.
Síndrome	de	deleção	5q Lenalidomida.
Figura	1A
PATOGÊNESE	E	FISIOPATOLOGIA
A	patogênese	das	anemias	sideroblásticas	(independente	da	causa)	tem	como	base	um	distúrbio	da	síntese	do	heme,	desde	que	não	seja	a	carência	de	ferro.	Lembre-
se	de	que	o	heme	é	formado	pela	incorporação	do	ferro	(no	seu	estado	de	íon	ferroso,	ou	Fe+2)	à	protoporfirina	IX.	Todo	esse	processo,	desde	a	síntese	da	protoporfirina
até	a	incorporação	do	ferro,	ocorre	no	interior	da	mitocôndria	dos	eritroblastos.	Deficiências	enzimáticas	ou	defeitos	mitocondriais	podem	prejudicar	a	síntese	do	heme.
Duas	consequências	surgem	nesse	momento:	(1)	prejuízo	à	síntese	de	hemoglobina,	levando	à	hipocromia	e	anemia;	e	(2)	acúmulo	de	ferro	na	mitocôndria.	Veja	o	que
acontece...	 Fisiologicamente,	 o	 heme	 inibe	 a	 captação	 de	 ferro	 pelo	 eritroblasto	 (um	 tipo	 de	 feedback	 negativo)	 –	 como	 pouco	 heme	 é	 formado,	 o	 ferro	 continua	 se
acumulando	cada	vez	mais	na	célula,	culminando	com	a	formação	dos	sideroblastos	em	anel.
O	 ferro	 mitocondrial	 acumulado	 é	 potencialmente	 lesivo	 ao	 eritroblasto,	 eventualmente	 levando	 à	 sua	 destruição	 na	 própria	 medula	 –	 um	 mecanismo	 chamado
eritropoiese	 ineficaz.	 Isso	 explica	 o	 encontro	 de	 uma	 leve	 hiperplasia	 eritroide	 na	medula	 óssea,	 sem	 elevação	 da	 contagem	 de	 reticulócitos	 periférica.	 A	 anemia
megaloblástica	e	as	talassemias	são	outros	exemplos	de	anemia	relacionada	à	eritropoiese	ineficaz.
A	 redução	da	síntese	do	heme,	em	conjunto	com	a	eritropoiese	 ineficaz,	estimula	 (por	mecanismos	desconhecidos)	a	absorção	 intestinal	de	 ferro.	Após	vários	anos,	o
paciente	evolui	com	um	estado	de	sobrecarga	de	ferro	–	chamado	de	hemossiderose	ou	hemocromatose.	Para	diferenciar	da	hemocromatose	primária	e	da	secundária	a
múltiplas	transfusões,	este	tipo	de	sobrecarga	corporal	de	ferro	é	denominada	hemocromatose	eritropoiética.	É	o	mesmo	fenômeno	que	ocorre	nas	talassemias...	Por
isso,	grande	parte	da	morbidade	das	anemias	sideroblásticas	 (especialmente	as	hereditárias)	vem	da	sobrecarga	de	 ferro	nos	órgãos	e	 tecidos,	manifestando-se	como
hepatoesplenomegalia,	lesão	hepática	e	cardíaca.
Finalmente,	cabe	uma	pergunta:	de	onde	vem	o	distúrbio	na	síntese	do	heme?	Não	há	um	distúrbio	único	para	todas	as	anemias	sideroblásticas...	Veja	os	exemplos:
No	 tipo	 hereditário	 (ligado	 ao	 cromossomo	X),	 há	 uma	mutação	 na	 primeira	 enzima	 da	 síntese	 protoporfirínica	 –	 a	 ALA	 sintase.	 Essa	 enzima	 catalisa	 a	 reação
limitante	do	processo:	a	síntese	do	ALA	(ácido	aminolevulínico)	a	partir	da	glicina	e	do	succinil-CoA.	Essa	enzima	tem	como	principal	cofator	a	vitamina	B6	(sob	a	forma	de
piridoxal-5-fosfato).	O	mutante	da	ALA	sintase	só	"funciona"	quando	altas	doses	 (suprafisiológicas)	de	vitamina	B6	são	oferecidas	ao	paciente.	Existe	ainda	um	tipo	de
anemia	sideroblástica	hereditária	causada	por	uma	mutação	na	proteína	hABC7,	que	auxilia	a	enzima	ferroquelatase	a	incorporar	o	ferro	ao	heme.
Mais	 recentemente,	 foram	 descobertas	 anemias	 sideroblásticas	 hereditárias	 por	 herança	 autossômica,	 dominante	 e	 recessiva.	 O	mecanismo	 dessas	 anemias	 ainda
permanece	desconhecido.
No	tipo	adquirido	idiopático,	não	se	conhece	bem	onde	está	o	distúrbio	na	síntese	do	heme.	Contudo,	há	fortes	indícios	de	que	mutações	no	DNA	mitocondrial	(lembre-
se	de	que	a	mitocôndria	também	contém	ácido	nucleico)	prejudicam	a	ação	de	uma	enzima	que	converte	o	íon	férrico	(Fe+3)	em	íon	ferroso	(Fe+2).	O	íon	férrico	(Fe+3)
não	 consegue	 ser	 incorporado	 à	 protoporfirina	 IX.	 Tais	 mutações	 podem	 determinar	 outras	 consequências	 nas	 células	 hematopoiéticas	 da	 medula,	 provocando	 uma
síndrome	mielodisplásica,	que	pode	fazer	parte	do	contexto	das	anemias	sideroblásticas	adquiridas.
No	 tipo	 adquirido	 reversível,	 determinadas	 drogas	 ou	 distúrbios	 de	 oligoelementos	 podem	 atingir	 diretamente	 ou	 indiretamente	 a	 síntese	 do	 heme.	 O	 etanol	 é	 o
principal	exemplo.	Essa	substância	pode:	(1)	interferir	na	interação	entre	a	piridoxina	(vitamina	B6)	e	a	ALA	sintase;	(2)	inibir	diversas	enzimas	da	síntese	protoporfirínica;
e	 (3)	 promover	 disfunção	mitocondrial.	 Outras	 drogas	 implicadas	 são:	 isoniazida,	 pirazinamida	 e	 cloranfenicol.	 A	 deficiência	 de	 cobre	 provoca	 anemia	 sideroblástica,
provavelmente	pelo	fato	da	enzima	mitocondrial	que	converte	Fe+3	em	Fe+2	(citocromo	oxidase)	conter	cobre	em	sua	composição.	As	principais	causas	de	deficiência	de
cobre	na	prática	médica	são	nutrição	parenteral	 total,	gastrectomia	e	reposição	desnecessária	de	sais	de	zinco.	O	excesso	de	zinco	 induz	à	 formação	de	uma	proteína
intestinal	(metalotioneína)	capaz	de	quelar	todo	o	cobre	da	dieta.
QUADRO	CLÍNICO	E	DIAGNÓSTICO
Antes	de	descrevermos	separadamente	os	tipos	de	anemia	sideroblástica,	vamos	apresentar	algumas	características	comuns	a	todos	os	tipos.	Por	exemplo,	as	hemácias
circulantes,	 provenientes	 dos	 sideroblastos	 em	 anel	 da	 medula	 óssea,	 caracterizam-se	 por	microcitose	 e	 hipocromia,	 o	 que	 reflete	 a	 produção	 inadequada	 de
hemoglobina	 (existe	pouco	heme).	Entretanto,	o	que	 frequentemente	observamos	na	prática	são	duas	populações	de	eritrócitos:	uma	hipocrômica	e	microcítica;	outra
normocítica	 e,	 eventualmente,	 macrocítica.	 A	 issoou
hiperproliferativas,	quando	o	hematócrito	está	abaixo	de	30%.	A	anemia	é	considerada	hiperproliferativa	(hemolítica	ou	hemorrágica	aguda)	se	o	IPR	estiver	acima	de
2%	(obs.:	algumas	fontes	citam	2,5%).
Esfregaço	do	sangue	periférico	(hematoscopia):	esse	é	um	dos	mais	importantes	exames	para	avaliação	etiológica	da	anemia	e	deve	ser	feito	de	forma	rotineira	pelo
hematologista.	É	um	exame	bastante	simples:	utilizando-se	uma	gota	de	sangue	(obtida	após	lancetar	a	ponta	do	dedo	do	paciente,	ou	mesmo	do	sangue	colhido	para	o
hemograma),	faz-se	um	esfregaço	ou	distensão	sanguínea	em	uma	lâmina	com	a	ajuda	de	outra	lâmina.	Depois	é	só	corar,	utilizando-se	os	corantes	do	grupo	Romanowsky
(Giemsa,	Wright).	Um	técnico	experiente	ou	um	hematologista	treinado	é	capaz	de	observar	uma	série	de	alterações	nas	hemácias,	leucócitos	e	plaquetas,	que	sugerem
(ou	confirmam)	determinadas	etiologias	de	anemia.
Podem-se	observar:	(1)	o	 tamanho	dos	eritrócitos,	comparando-os	ao	núcleo	de	um	 linfócito	normal;	(2)	a	cromia	dos	eritrócitos	–	hemácias	hipocrômicas	possuem
apenas	um	pequeno	halo	róseo	envolvendo	um	grande	centro	claro;	(3)	o	grau	de	anisocitose	–	se	houver	anisocitose	acentuada,	são	vistas	hemácias	pequenas,	normais	e
grandes	em	vários	campos	da	 lâmina;	 (4)	poiquilocitose	ou	pecilocitose	–	hemácias	de	várias	 formas,	com	 formato	bizarro	–	alguns	 tipos	de	pecilócitos	são	 típicos	de
determinadas	etiologias	 	e	Tabela	6);	 (5)	 presença	de	 inclusões	hemáticas,	 sugestivas	de	algumas	patologias	 	e	Tabela	7);	 e	 (6)	 alterações	dos
leucócitos	ou	plaquetas	 típicas	de	certas	desordens	–	ex.:	neutrófilo	hipersegmentado	na	anemia	megaloblástica,	megatrombócitos	e	 fragmentos	de	megacariócitos	na
mielofibrose,	neutróf	ilos	hipo	ou	agranulares	e	com	anomalia	do	tipo	pseudo-Pelger-Huët	na	mielodisplasia.
(Figura	4 (Figura	5
Fig.	4:	Principais	pecilócitos	(poiquilócitos)	–	ver	Tabela	6.
Tab.	6:	Principais	pecilócitos	(poiquilócitos)	e	outros	achados	de	hematoscopia.
Fig.	 5:	 Principais	 inclusões	 citoplasmáticas	 dos	 eritrócitos	 –	Pappenheimer:	 depósitos	 de	 ferro	 (anemia	 sideroblástica,	 hemolítica,	 megaloblástica	 e	 hemoglobinopatias);	Heinz:	 hemoglobina
precipitada	(hemoglobinopatias),	e	Howell-Jolly:	DNA	(hipoesplenismo)	–	ver	Tabela	7.
Microesferócito ● Esferocitose	hereditária.
● Anemia	hemolítica	autoimune.
Macro-Ovalócito ● Anemia	megaloblástica.
Eliptócito ● Eliptocitose	hereditária.
● Anemia	ferropriva	grave.
Estomatócito ● Estomatocitose	hereditária.
Equinócito	(espinhos	regularmente	distribuídos) ● Artefato.
● Insuficiência	renal	crônica.
Acantócito	(espinhos	irregularmente	distribuídos) ● Insuficiência	hepática.
● Abeta​lipoproteine​mia.
Dacriócito	(hemácia	em	lágrima) ● Mielofibrose.
● Metaplasia	mieloide	agnogênica.
Leptócito	(hemácia	em	alvo)
● Talassemia.
● Hepatopatia.
● Esplenectomia.
Drepanócito	(hemácia	afoiçada) ● Anemia	falciforme	e	variantes.
Esquizócito	(fragmento	de	hemácia) ● Anemia	hemolítica	microangiopática.
Queratócito ● Anemia	hemolítica	microangiopática.
Hemácia	Irregularmente	Contraída ● Deficiência	de	G6PD.
● Hemólise.
Pontilhado	Basofílico ● Saturnismo.
● Eritropoiese	ineficaz.
Hemácias	Empilhadas	(rouleaux) ● Mieloma	múltiplo	e	outras	paraproteinemias.
Tab.	7:	Principais	inclusões	citoplasmáticas.
Bioquímica	sérica:	 a	 dosagem	das	 escórias	 nitrogenadas	 (ureia	 e	 creatinina)	 pode	 confirmar	 o	 diagnóstico	 de	 insuficiência	 renal	 crônica.	 A	 anemia	geralmente	está
presente	quando	a	 creatinina	 está	 acima	de	2,5	mg/dl.	O	hepatograma	pode	ajudar	 no	diagnóstico	 de	uma	hepatopatia	 crônica.	 As	 anemias	hemolíticas	 cursam	com
hiperbilirrubinemia	indireta,	aumento	do	LDH	e	redução	da	haptoglobina.	A	destruição	celular	na	anemia	megaloblástica	ocorre	dentro	da	medula	óssea	(eritropoiese
ineficaz),	levando	a	um	quadro	bioquímico	semelhante	ao	das	anemias	hemolíticas.	O	ferro	sérico	está	reduzido	na	anemia	ferropriva	e	na	anemia	de	doença	crônica.
A	saturação	de	transferrina		2)	 e	 razão	M/E	de	1:1	 ou	1:2.	A	 relação	M/E	normalmente	diminui	 sempre	que	há	aumento	de	 reticulócitos	 e	 vice-versa.	 Existe,
contudo,	 uma	 exceção	 a	 essa	 regra:	 a	 eritropoiese	 ineficaz.	 Na	 anemia	 megaloblástica	 e	 na	 mielodisplasia,	 por	 exemplo,	 apesar	 da	 reticulocitopenia,	 não	 ocorre
hipoproliferação	medular,	 pelo	 contrário;	 ocorre	 proliferação	 normal	 ou	mesmo	 aumentada,	 porém	 há	 um	 distúrbio	 na	maturação	 dos	 eritrócitos,	 isto	 é,	 observa-se
aumento	dos	precursores	eritroides	na	medula,	que,	no	entanto,	não	se	desenvolvem	completamente	e	acabam	sofrendo	apoptose	antes	de	serem	 liberados	para	o
sangue...	Como	o	aspecto	da	medula	é	"hiperproliferativo",	a	relação	M/E	encontra-se	reduzida	(1:1	ou	menos),	a	despeito	da	reticulocitopenia	periférica...	A	eritropoiese
ineficaz	também	faz	parte	da	fisiopatologia	da	anemia	sideroblástica,	da	intoxicação	por	chumbo	e	das	formas	graves	de	anemia	ferropriva.
CAP.	2
ANEMIA	FERROPRIVA
INTRODUÇÃO
Consta	da	idade	média	a	identificação	e	descrição	de	uma	desordem,	na	época	nomeada	"clorose",	típica	de	moças	adolescentes.	O	quadro	se	caracterizava	por	fraqueza
progressiva	associada	a	uma	palidez	esverdeada	e	frequentemente	evoluía	para	o	óbito.	Os	estudiosos	acreditam	que	a	clorose	era	uma	forma	grave	e	não	tratada	de
anemia	ferropriva.	Ainda	hoje	a	forma	adulta	dessa	anemia	carencial	é	típica	de	mulheres	na	menacme,	especialmente	as	hipermenorreicas,	aparecendo	como	resultado
da	perda	crônica	e	excessiva	de	ferro	pelo	sangue	menstrual.
A	carência	de	ferro	é	mais	prevalente	nos	países	em	desenvolvimento,	onde	a	alimentação	é	pobre	nesse	metal	e	rica	em	cereais	(que	inibem	a	absorção	intestinal	de
ferro),	e	onde	a	prevalência	das	parasitoses	intestinais	ainda	é	alta.
De	fundamental	importância	é	o	conceito	de	que	a	anemia	ferropriva	nunca	deve	ser	o	diagnóstico	final!!!	Por	trás	do	quadro	anêmico	existe	quase	sempre	uma	doença	de
base	determinando	perda	sanguínea	crônica	de	pequena	monta.	Devemos	buscar	este	diagnóstico	específico	–	embora	muitas	vezes	a	doença	subjacente	seja	de	pouca
morbidade	(como	um	leiomioma	uterino	ou	mesmo	uma	hemorroida).denominamos	 dimorfismo	 eritrocitário.	 Esse	 dimorfismo	 (ou	 bimorfismo)	 pode	 ser	 identificado	 por	 um	 RDW
aumentado,	pela	curva	de	anisocitose	"bífida",	ou	na	própria	hematoscopia	do	sangue	periférico.
Fig.	1:	(A)	Aspirado	de	medula	óssea	revelando	os	típicos	eritroblastos	com	grânulos	de	ferro	perinucleares	–	os	sideroblastos	em	anel;	(B)	Biópsia	de	medula	óssea	evidenciando	fartos	depósitos	de
ferro	e,	em	close,	sangue	periférico	revelando	os	corpúsculos	de	Pappenheimer.
"Um	momento!	Afinal	de	contas,	a	anemia	sideroblástica	é	micro	ou	macrocítica?"	Na	verdade,	a	anemia	sideroblástica	se	caracteriza	por	apresentar,	no	esfregaço	de
sangue	 periférico,	 tanto	 hemácias	microcíticas	 quanto	macrocíticas	 –	 ocorre	 que,	 na	 forma	 herdada	 da	 doença,	 predominam	 os	micrócitos	 (típica	 redução	 do	 VGM),
enquanto	que,	na	forma	adquirida,	geralmente	predominam	os	macrócitos	(aumento	do	VGM).	Os	macrócitos	são	decorrentes	da	eritopoiese	acelerada	dos	eritroblastos
não	afetados	pela	doença,	por	estímulo	da	eritropoetina.
Um	outro	aspecto	 importante	é	a	cinética	do	 ferro.	Como	há	um	estímulo	à	absorção	 intestinal	de	 ferro,	ele	se	acumula	no	organismo	(hemocromatose	eritropoiética).
Como	consequência,	teremos	ferro	sérico	alto	 (>	150	μg/dl),	 ferritina	sérica	normal	alta	ou	alta	(>	100-200	ng/ml),	TIBC	normal	e	saturação	de	transferrina	alta	(30-
80%).
Quando	devemos	suspeitar	da	presença	de	anemia	sideroblástica?
Guardem	esta	dica,	 especialmente	para	as	provas:	devemos	 suspeitar	de	anemia	 sideroblástica	 sempre	quando	houver	a	 coexistência	paradoxal	de	hipocromia	 com
ferro	sérico	alto,	saturação	da	transferrina	elevada	e	ferritina	elevada.	As	talassemias	(major	e	intermédia)	também	podem	determinar	esse	padrão.	Uma	eletroforese	de
hemoglobina	pode	excluir	esta	última	entidade.
Tab.	1
O	que	são	os	corpúsculos	de	Pappenheimer?
Em	alguns	pacientes	com	AS,	as	hemácias	circulantes	podem	reter	as	mitocôndrias	sideróticas	por	um	breve	período.	Nesses		casos,	um	esfregaço	de	sangue	periférico
identifica	precipitados	de	ferro	conhecidos	como	corpúsculos	de	Pappenheimer	( ).	Note:	os	sideroblastos	em	anel	aparecem	no	aspirado	de	medula;	enquanto	os
corpúsculos	de	Pappenheimer,	no	sangue	periférico.
Como	confirmar	o	diagnóstico?
Só	há	uma	 forma:	aspirado	de	medula	óssea	 (mielograma),	 pelo	encontro	de	mais	de	15%	de	eritroblastos	do	 tipo	 sideroblastos	em	anel.	Este	achado	é	 sempre
confirmatório...
ANEMIA	SIDEROBLÁSTICA	HEREDITÁRIA
Apesar	 de	 ser	menos	 comum	do	que	as	 formas	adquiridas,	 a	 anemia	 sideroblástica	 assume	uma	grande	 importância	 clínica,	 pela	 sua	potencial	 reversibilidade	 com	o
tratamento,	na	forma	hereditária	(altas	doses	de	piridoxina)	e	adquirida	reversível,	e	pela	sua	semelhança	laboratorial	com	a	anemia	ferropriva	(microcitose	e	hipocromia).
Perceba	que	uma	"confusão"	diagnóstica	poderá	ser	fatal:	a	reposição	de	sulfato	ferroso	para	um	paciente	com	anemia	sideroblástica,	além	de	não	corrigir	a
anemia,	pode	acelerar	o	processo	de	hemocromatose	(ou	hemossiderose),	culminando	em	doença	grave,	com	risco	de	óbito	por	arritmia	ou	disfunção
miocárdica.
Esta	anemia	é	mais	comum	em	homens	(herança	ligada	ao	X),	tal	como	a	hemofilia	e	o	daltonismo.	O	grau	de	anemia	é	variável,	podendo	ser	leve,	moderada	ou	grave	(Hg
Eventualmente,	no	entanto,	nos	deparamos	com	o	diagnóstico	de	condições	graves	e	inicialmente
silenciosas,	como	o	adenocarcinoma	de	cólon...
O	METABOLISMO	DO	FERRO
A	quantidade	corporal	total	de	ferro	está	em	torno	de	50	mg/kg	no	homem	e	35	mg/kg	na	mulher.	A	maior	parte	(cerca	de	70-75%)	é	encontrada	nas	hemácias,	ligada	ao
heme	da	hemoglobina.	Uma	parcela	menor	(25%)	pode	ser	encontrada	nas	proteínas	ferritina	e	hemossiderina,	que	formam	os	"compartimentos	armazenadores	de
ferro",	 especialmente	 nas	 células	 da	 mucosa	 intestinal,	 e	 nos	 macrófagos	 do	 baço	 e	 medula	 óssea.	 O	 restante	 (cerca	 de	 2%)	 fica	 circulando	 no	 plasma,	 ligado	 à
transferrina	sérica.
Todas	as	três	(ferritina,	hemossiderina	e	transferrina)	são	proteínas	capazes	de	ligar	o	ferro,	podendo	ser	encontradas	tanto	no	plasma	quanto	no	meio	intracelular.
A	apoferritina	é	uma	proteína	sintetizada	pelo	fígado	(um	"reagente	de	fase	aguda").	Possui	uma	estrutura	geométrica	esférica,	delimitando	uma	região	central,	capaz	de
armazenar	os	átomos	de	ferro.	Quando	ligada	ao	ferro,	ganha	o	nome	de	ferritina.	Essa	proteína	é	a	principal	responsável	pelo	armazenamento	de	ferro	no	organismo:	"a
ferritina	tem	a	capacidade	de	armazenar	grandes	quantidades	de	ferro	e,	ainda	assim,	de	manter	uma	reserva	para	mais	estoque	–	da	mesma	forma	que	armazena,	é
também	capaz	de	mobilizar	rapidamente	grandes	quantidades	desse	metal,	quando	necessário".
A	 "ferritina"	medida	 no	 plasma,	 na	 verdade,	 é	 a	 apoferritina	 (molécula	 sem	 ferro).	 Contudo,	 "ferritina	 sérica"	 é	 o	 termo	mais	 utilizado...	A	 concentração	 sérica	de
ferritina	é	diretamente	proporcional	às	reservas	de	ferro	no	organismo,	isto	é,	quanto	maior	o	acúmulo	de	ferro,	maior	será	o	valor	da	ferritina	sérica.	Os	níveis
normais	de	ferritina	no	plasma	variam	de	20-200	ng/ml,	sendo	a	média	no	homem	de	125	ng/ml	e,	na	mulher,	de	55	ng/ml.	De	uma	forma	geral,	cada	ng/ml	de	ferritina
sérica	corresponde	a	10	mg	de	ferro	armazenado	(uma	ferritina	de	100	ng/ml	reflete	1.000	mg	de	ferro	nas	reservas	corporais...).
A	hemossiderina	é	um	derivado	da	ferritina	após	proteólise	por	enzimas	lisossomais.	Funciona	também	como	uma	proteína	"armazenadora	de	ferro",	porém	de	liberação
muito	mais	lenta.
A	transferrina	(ou	siderofilina)	é	uma	proteína	sintetizada	pelo	fígado	responsável	pelo	transporte	do	ferro	no	plasma,	agindo	como	um	link	entre	os	principais	depósitos
teciduais	do	metal	e	o	setor	eritroide	da	medula	óssea.
O	CICLO	DO	FERRO
NA	MUCOSA	INTESTINAL	(ABSORÇÃO	E	ELIMINAÇÃO	DO	FERRO)...
O	duodeno	e	o	jejuno	proximal	são	as	regiões	intestinais	responsáveis	pela	absorção	de	todo	o	ferro	alimentar.	Em	pessoas	normais,	e	mesmo	na	anemia	ferropriva,	o
percentual	de	ferro	absorvido	pela	mucosa	duodenojejunal	não	ultrapassa	50%	do	ferro	ingerido	(na	prática,	varia	entre	10-30%).	Esse	percentual	sofre	grande	influência:
(1)	do	tipo	de	alimento	que	contém	ferro;	(2)	de	outros	alimentos	que	podem	inibir	ou	estimular	a	absorção	de	ferro;	e	(3)	das	necessidades	do	organismo	(por	exemplo:
no	estado	ferropênico,	o	percentual	de	ferro	absorvido	aumenta,	aproximando-se	a	50%...).
Uma	dieta	normal	ocidental	contém	entre	5-15	mg	de	ferro	por	dia.	Pessoas	de	baixa	renda	costumam	consumir	quantidades	menores...
TIPOS	DE	FERRO	ALIMENTAR
Existem	duas	formas	de	ferro	proveniente	da	dieta:	(1)	forma	heme,	proveniente	de	alimentos	de	origem	animal;	e	(2)	forma	não	heme,	derivada	de	alimentos	de	origem
vegetal.	Na	primeira	forma,	é	a	própria	molécula	de	heme	que	é	absorvida	pela	mucosa	intestinal;	na	forma	não	heme,	é	absorvido	diretamente	o	íon	ferroso	(Fe+2).
O	heme	é	liberado	das	proteínas	animais	no	estômago	por	ação	da	pepsina,	sendo	em	seguida	absorvido	no	duodeno.	A	forma	heme	é	melhor	absorvida	do	que	a
forma	não	heme,	além	de	não	sofrer	nenhuma	influência	de	outras	substâncias	alimentares.	De	uma	forma	geral,	cerca	de	30%	do	heme	é	absorvido,	contra	apenas
10%	da	forma	não	heme.	Por	isso,	as	fontes	animais	(carne	vermelha,	frango,	frutos	do	mar,	miúdos)	são	as	mais	importantes	em	termos	de	oferta	diária	de	ferro.
EFEITO	DOS	ALIMENTOS
A	absorção	do	ferro	não	heme	é	altamente	influenciável	pelo	pH	gástrico	e	pela	composição	dos	alimentos.	O	pH	ácido	do	estômago	promove	a	conversão	do	íon	férrico
(Fe+3)	em	íon	ferroso	(Fe+2),	aumentando	a	sua	absorção.	O	ácido	ascórbico	(vitamina	C),	por	ser	um	ácido,	é	um	importante	agente	estimulante	da	absorção	dos	sais	de
ferro.	 A	 proteína	 derivada	 da	 carne,	 por	 mecanismos	 desconhecidos,	 também	 aumenta	 a	 capacidade	 de	 absorção	 dos	 sais	 de	 ferro.	 Enquanto	 isso,	 uma	 série	 de
substâncias	alimentares	(especialmente	as	derivadas	de	cereais)	inibe	a	absorção	devido	às	suas	propriedades	quelantes.
QUADRO	DE	CONCEITOS	I Deseja	saber	se	a	quantidade	total	de	ferro	corpóreo	de	um	paciente	está	alta	ou	baixa?
Tab.	1
QUADRO	DE	CONCEITOS	II
REGULAÇÃO	DA	ABSORÇÃO	DE	FERRO	(DE	ACORDO	COM	AS	NECESSIDADES	DO	ORGANISMO)
O	ferro	dietético,	absorvido	pelas	células	da	mucosa	intestinal,	tem	dois	destinos	básicos:	(1)	ser	incorporado	pela	ferritina	presente	nas	próprias	células	da	mucosa;	e	(2)
ser	transportado	através	da	célula	intestinal	para	um	transportador	na	membrana	basolateral	–	a	ferroportina	–	ligando-se,	depois,	à	transferrina	plasmática.
O	ferro	absorvido	pelas	células	da	mucosa	intestinal	só	será	repassado	para	a	transferrina	(e	daí	para	todo	o	organismo)	se	as	necessidades	corpóreas	desse	metal	assim
determinarem.	Caso	 contrário,	 ele	 permanece	no	 interior	 da	 célula	 intestinal,	 sem	 ser	 de	 fato	 absorvido,	 e	 o	 processo	normal	 de	descamação	e	 renovação	 celular	 se
encarrega	de	eliminá-lo.	Uma	das	principais	vias	de	eliminação	corpórea	de	ferro	é	a	via	fecal...
Mas	como	o	enterócito	"sabe"	se	deve	repassar	o	ferro	para	a	transferrina	ou	retê-lo	para	eliminação?
Observe	a	ferritina	sérica:
● Ferritina	sérica	alta	=	reserva	total	de	ferro	aumentada.
● Ferritina	sérica	baixa	=	reserva	total	de	ferro	diminuída.
Estimulantes	da	Absorção	de	Ferro	Não	HEME
● Ácido	ascórbico	(vitamina	C).
● Outros	ácidos	orgânicos	(cítrico,	málico).
● Proteínas	da	carne.
Inibidores	da	Absorção	de	Ferro	Não	HEME
● Fitatos	(presentes	em	fibras	dietéticas	e	cereais).
● Compostos	fenólicos	(encontrados	em	bebidas	como	chá	preto,	mate,	café	e	refrigerantes).
● Fosfato	(presente	em	ovos	e	leite).
● Proteínas	dos	ovos	(albumina)	e	leite	(caseína).
● Aditivos	(EDTA).
● Minerais	(Ca,	Zn,	Cu,	Co,	Mn).
● A	vitamina	C	estimula	a	absorção	intestinal	de	ferro	não	heme,	e	pode	figurar	como	adjuvante	na	prescrição	de	reposição	oral	deste	metal.
● A	mucosa	intestinal	é	um	importante	compartimento	armazenador	(estoque)	de	ferro.
● A	descamação	das	células	da	mucosa	intestinal	é	a	principal	via	de	eliminação	do	ferro	e	de	proteção	contra	uma	sobrecarga	dietética.
A	hepcidina,	um	hormônio	sintetizado	no	fígado,	desempenha	um	papel	central	na	regulação	do	metabolismo	do	ferro:	ela	tem	a	capacidade	de	se	 ligar	à	ferroportina,
inibindo	o	transporte	de	ferro	pela	membrana	basolateral	do	enterócito	em	direção	ao	plasma.	A	hipóxia	inibe	a	sua	síntese,	ao	passo	que	o	ferro	e	citocinas	inflamatórias
estimulam	sua	produção.	Pacientes	com	adenoma	hepático	também	fazem	hipersecreção	de	hepcidina,	que	resulta	em	uma	anemia	refratária	à	ferroterapia.	A	descoberta
dessa	substância	fornece	explicações	bastante	plausíveis	para	os	achados	da	cinética	do	ferro	na	anemia	de	doença	crônica,	como	veremos	no	próximo	capítulo...
NO	PLASMA...
Das	células	da	mucosa	intestinal,	o	ferro	ganha	a	corrente	sanguínea	e	se	distribui	para	diversos	tecidos	do	corpo,	em	especial	a	medula	óssea	e	o	fígado.	Mas	ele	não
circula	entre	esses	compartimentos	em	sua	forma	livre	(que	é	tóxica)	–	praticamente	todo	ferro	plasmático	circula	ligado	a	uma	glicoproteína	especial:	a	transferrina	(ou
siderofilina),	que	é	sintetizada	no	fígado	e	tem	a	capacidade	de	capturar	e	transportar	duas	moléculas	de	ferro.
Apesar	de	apenas	2%	do	 ferro	corporal	 total	estar	 ligado	à	 transferrina,	ela	é	umelemento	crucial	no	chamado	"ciclo	do	 ferro".	É	através	dela	que	o	 ferro	chega	aos
precursores	eritroides	da	medula	óssea,	que	possuem	grande	quantidade	de	receptores	de	transferrina	em	sua	membrana.
NA	MEDULA	ÓSSEA...
A	 transferrina	plasmática,	que	 incorporou	o	 ferro	da	mucosa	 intestinal	e	o	está	 transportando	pelo	sangue,	atinge	 receptores	nas	membranas	dos	eritroblastos.	Nesse
processo,	 ocorre	 internalização	 do	 complexo	 transferrina-ferro-receptor.	 O	 ferro	 se	 dissocia	 do	 complexo,	 e	 a	 transferrina	 é	 exocitada	 da	 célula	 para	 ser	 novamente
aproveitada,	retornando	ao	sangue.
Nesse	momento,	o	ferro	incorporado	pelas	células	medulares	tem	dois	destinos	básicos:	(1)	ser	armazenado	pela	ferritina	dentro	das	próprias	células	da	medula;	e	(2)	ser
captado	pelas	mitocôndrias	dessas	células	e	introduzido	numa	protoporfirina,	para	formar	o	heme	e	tomar	parte	na	composição	de	uma	molécula	de	hemoglobina.	Dessa
maneira,	a	medula	óssea	também	é,	à	semelhança	da	mucosa	intestinal,	um	importante	compartimento	"armazenador"	de	ferro.
O	ferro,	então,	passa	a	fazer	parte	da	estrutura	da	hemoglobina,	circulando	junto	com	as	hemácias	por	cerca	de	120	dias.
NO	BAÇO...
Quando	as	hemácias	se	tornam	senis,	são	 fagocitadas	por	macrófagos	nos	sinusoides	do	baço.	Esses	 fagócitos	rompem	a	membrana	das	hemácias,	e	as	moléculas	de
hemoglobina	 são	 dissociadas	 em	 globina	 e	 heme.	 O	 heme	 recebe	 a	 ação	 da	 heme	 oxigenase,	 liberando	 ferro	 e	 biliverdina.	 O	 ferro	 reciclado	 dentro	 dos	macrófagos
esplênicos	tem	dois	destinos	básicos:	(1)	ser	estocado	pela	ferritina	e	hemossiderina	dos	próprios	macrófagos;	e	(2)	ser	liberado	no	plasma,	se	ligando	à	transferrina	e
sendo	novamente	captado	pelos	eritroblastos	da	medula	óssea.	Aqui,	mais	uma	vez,	a	hepcidina	interfere	no	metabolismo	do	ferro,	pois	pode	inibir	a	liberação	de	ferro	dos
macrófagos	para	a	transferrina	plasmática,	a	exemplo	do	que	ocorre	nos	enterócitos.	Assim,	o	baço	também	é,	à	semelhança	da	mucosa	intestinal	e	da	medula	óssea,	um
importante	compartimento	"armazenador"	de	ferro.
Cap2_Video_01_Hem1
PERDA	E	GANHO	CORPORAL	DE	FERRO
O	organismo	humano	não	é	capaz	de	eliminar	ativamente	o	ferro	já	estocado	em	seu	interior!	Toda	vez	que	este	metal	é	introduzido	em	nosso	sistema,	não	consegue	ser
fisiologicamente	eliminado.	De	posse	desse	conhecimento,	podemos	chegar	a	duas	conclusões:
● Conclusão	1:	 é	por	essa	 razão	que	o	paciente	que	 se	 submete	 cronicamente	a	diversas	hemotransfusões,	 se	 intoxica	pelo	 ferro,	 desenvolvendo	hemocromatose
secundária.	O	organismo	não	consegue	eliminar	nem	mesmo	a	pequena	fração	de	ferro	presente	em	cada	bolsa	transfundida	–	a	soma	dessas	pequenas	frações,	após
anos	ou	décadas	de	hemotransfusão,	acaba	sendo	significativa.
● Conclusão	2:	quem	protege	contra	uma	intoxicação	pelo	ferro	é	o	próprio	local	responsável	pela	sua	absorção:	a	mucosa	intestinal.	Na	verdade,	um	excesso	de	ferro
alimentar	 não	 costuma	 causar	 nenhum	 dano,	 já	 que	 as	 células	 da	 mucosa	 captam	 o	 ferro	 e	 só	 o	 repassam	 para	 a	 circulação	 sistêmica	 se	 o	 organismo	 assim
determinar.	Caso	contrário,	o	ferro	fica	ali,	"estagnado"	na	mucosa,	até	que	a	descamação	do	epitélio	intestinal	o	elimine...
Existem,	entretanto,	 três	doenças	que	aumentam	patologicamente	a	absorção	 intestinal	de	 ferro:	as	 talassemias,	a	anemia	sideroblástica	e	a	hemocromatose	primária
(hereditária).	Nessas	desordens,	a	reposição	inadvertida	de	sulfato	ferroso	pode	levar	à	intoxicação	pelo	ferro...
Outro	conceito	 importante	sobre	o	metabolismo	do	 ferro	é	o	seguinte:	como	não	existe	nenhuma	via	para	eliminação	 "ativa"	desse	metal,	um	quadro	de	 ferropenia	é
atingido	quase	sempre	através	de	perda	sanguínea...
Em	geral,	os	pacientes	que	desenvolvem	carência	de	ferro	são	"aqueles	que	menstruam"	(mulheres)	ou	que	apresentam	perda	sanguínea	repetida,	crônica,	suficiente
para	esgotar	completamente	os	estoques	de	ferro	dos	macrófagos	(geralmente	após	três	meses	de	perda	de	ferro).
O	sangramento	CRÔNICO	é	a	principal	causa	de	anemia	ferropriva!!!
Qualquer	que	seja	a	origem	da	perda	sanguínea	crônica,	a	medula	óssea	desses	pacientes	necessita	 constantemente	de	mais	 ferro	para	a	 síntese	de	hemoglobina	e,
dependendo	da	quantidade	perdida,	os	estoques	de	 ferro	podem	se	esgotar.	Neste	momento,	pode	surgir	uma	dúvida:	mas	a	dieta	 "normal"	não	contém	quantidades
significativas	de	ferro?	Não	seria	suficiente	para	repor	as	perdas?	Já	dissemos	aqui	que	em	pessoas	hígidas,	a	capacidade	da	mucosa	intestinal	em	absorver	o
ferro	dietético	não	ultrapassa	50%	do	total	ingerido.	Mas	então	é	só	o	paciente	aumentar	a	 ingesta	de	ferro,	através	de	um	complemento	alimentar!	Claro,	mas
lembre	que,	em	geral,	o	paciente	não	sabe	que	está	perdendo	sangue	insidiosamente...	Como	a	dieta	"normal"	do	brasileiro	contém	de	5-10	mg	de	ferro,	no	máximo	5
mg/dia	desse	metal	conseguiriam	ser	 incorporados	às	reservas.	Se	as	perdas	ultrapassarem	tal	 limite,	 instalar-se-á	a	 ferropenia...	Detalhe:	10	ml	de	sangue	contêm
cerca	de	5	mg	de	ferro...	Se	um	tumor	de	cólon	"oculto"	sangra	entre	15-30	ml/dia,	a	ferropenia	será	inevitável.
No	caso	de	uma	hemorragia	aguda,	mesmo	quando	volumosa,	 se	o	paciente	sobrevive	e	o	sangramento	é	estancado,	a	perda	de	hemácias	será	compensada	por	um
aumento	na	produção	medular	de	reticulócitos.	Obviamente,	esse	processo	envolve	síntese	de	mais	hemoglobina	e,	por	conseguinte,	requer	mobilização	de	ferro	–	nesta
situação,	o	 ferro	pode	ser	 tranquilamente	"requisitado"	dos	compartimentos	armazenadores	 (como	a	mucosa	 intestinal	e	os	macrófagos	do	baço	e	medula	óssea),	e	o
paciente	não	costuma	evoluir	com	ferropenia.	Exceção	a	essa	regra	seria	o	paciente	que	já	possuía	baixas	reservas	de	ferro,	não	tendo	"estoque"	suficiente	para	aumentar
a	produção	de	reticulócitos	em	face	da	maior	requisição...
O	sangramento	AGUDO	nem	sempre	causa	anemia	ferropriva!!!
O	LABORATÓRIO	DO	FERRO
Como	a	anemia	ferropriva	é	extremamente	comum	em	todas	as	idades,	e	ainda	pode	se	associar	às	demais	formas	de	anemia,	existe	uma	regra	que	diz:	"todo	paciente
anêmico	deve	ter	solicitada	uma	cinética	de	ferro".
Os	exames	 laboratoriais	para	confirmar	anemia	ferropriva	são	relacionados	ao	ferro	e	às	suas	principais	proteínas	de	 ligação:	transferrina	e	apoferritina.	Alguns	desses
exames	envolvem	conceitos	que,	para	serem	realmente	entendidos,	necessitam	de	cautela	e	uma	boa	dose	de	atenção,	pois	passamos	a	lidar	com	uma	linguagem	um
pouco	diferente	da	utilizada	no	dia	a	dia	de	nossa	profissão:	a	matemática.
Conversaremos	neste	momento	 sobre	 o	 ferro	 sérico,	 o	 TIBC	 (Total	 Iron	Binding	Capacity	 ou	 capacidade	 total	 de	 ligação	 do	 ferro),	 a	 transferrinemia	 e	 a	 saturação	 de
transferrina.
● Conceito	1:	praticamente	todo	o	ferro	sanguíneo	circulante	está	ligado	à	transferrina.
● Conceito	2:	não	interprete	a	transferrina	como	uma	única	molécula,	mas	sim	como	um	conjunto	de	moléculas	contendo	múltiplos	"sítios	ligados"	ao	ferro	e	múltiplos
"sítios	livres".
A	primeira	conclusão	é	que	o	ferro	sérico	dosado	(normal	=	60-150	mcg/dl)	mede	o	ferro	ligado	à	transferrina	e,	portanto,	representa	a	concentração	dos	"sítios	ligados"
de	transferrina.
Esses	conceitos	serão	usados	para	você	entender	como	se	determina	o	TIBC	(capacidade	total	de	ligação	do	ferro)	e	a	saturação	de	transferrina...
A	princípio	parece	simples,	não	é?	Façamos	um	teste.	Analise	as	duas	afirmativas	a	seguir:
● Afirmativa	1	–	quanto	maior	o	ferro	sérico,	maior	a	saturação	da	transferrina	e	vice-versa;
● Afirmativa	2	-	na	anemia	ferropriva	o	TIBC	está	elevado,	pois	há	mais	sítios	livres	de	transferrina	disponíveis.
Você	concorda?	É	assim	que	muitos	de	nós	aprendemos	na	faculdade...	Mas	nenhuma	das	duas	afirmativas	está	correta.
O	 erro	 surge	 quando	mentalizamos	 a	 transferrina	 como	 uma	 única	molécula	 e	 pensamos:	 quanto	mais	moléculas	 de	 ferro	 forem	 captadas	 por	 ela,	maior	 será	 a	 sua
saturação	e	menor	será	a	sua	capacidade	de	captar	mais	ferro.	Isso	nãoexiste	–	cada	molécula	de	transferrina	só	consegue	captar	duas	moléculas	de	ferro!	Na
verdade,	se	pensássemos	assim,	os	valores	de	saturação	de	transferrina	seriam	0%	saturada	(nenhum	ferro	ligado),	50%	saturada	(um	ferro	ligado)	e	100%	saturada	(duas
moléculas	de	ferro	ligadas).	O	conceito	de	"saturação	da	transferrina"	envolve	especificamente	a	seguinte	variável:	quantas	moléculas	de	transferrina	existem	no	sangue.
Talvez	fosse	mais	adequado,	por	uma	questão	didática,	substituir	o	termo	"saturação	de	transferrina"	por	"saturação	da	massa	total	de	transferrina".
A	saturação	de	transferrina	nem	sempre	aumenta	com	o	aumento	do	ferro	sérico,	pois	se	a	"massa	total	de	transferrina"	também	aumentar	(ex.:	o	fígado	produziu	mais
transferrina),	a	saturação	não	sofrerá	variações...
E	o	TIBC?	Como	interpretá-lo?	O	TIBC	não	é	uma	espécie	de	"marcador"	da	quantidade	de	sítios	livres	da	transferrina?	Ou	seja,	aumentando	o	TIBC	não
estamos	também	aumentando	a	capacidade	da	transferrina	em	captar	o	ferro?
Esse	realmente	é	o	conceito	que	muitos	têm,	mas	definitivamente	não	é	verdadeiro.	Na	realidade,	o	TIBC	representa	o	somatório	de	todos	os	sítios	de	ligação	de	todas	as
moléculas	de	transferrina	circulantes,	ou	seja,	o	somatório	dos	"sítios	ligados"	com	os	"sítios	livres".	No	final	das	contas	ele	traduz	o	seguinte:	qual	é	a	capacidade	que	a
"massa	total	de	transferrina"	sérica	tem	de	abarcar	ferro.	O	somatório	dos	"sítios	livres"	das	moléculas	de	transferrina	é	reconhecido	como	"capacidade	latente	de	fixação
do	ferro".	Analisando	com	maior	atenção,	podemos	concluir:	o	TIBC	não	sofre	influência	direta	das	variações	do	ferro	sérico.	Ele	representa,	de	forma	indireta,
a	concentração	de	transferrina	sérica.	Na	verdade,	o	TIBC	foi	um	artifício	inteligente	e	barato	criado	para	substituir	a	dosagem	de	transferrina	sérica,	um	exame	caro	e
pouco	prático.	Com	isso,	a	investigação	da	anemia	ferropriva	tornou-se	mais	econômica...
Como	calcular	o	TIBC?
Você	acabou	de	aprender	que	o	TIBC	representa	todos	os	sítios	da	"massa	de	transferrina	sérica"	e,	portanto,	é	o	somatório	dos	"sítios	ligados"	+	"sítios	livres".	Ora,	os
"sítios	ligados"	são	representados	pelo	ferro	sérico	e	os	"sítios	livres"	são	representados	pela	"capacidade	latente	de	fixação	do	ferro".	Laboratorialmente,	tanto	a	dosagem
do	ferro	quanto	da	"capacidade	latente"	são	exames	simples,	feitos	por	espectrofotometria	(o	mesmo	utilizado	para	dosagem	de	sódio	ou	potássio).	A	"capacidade	latente"
é	determinada	indiretamente	utilizando-se	uma	resina...
TIBC	=	(sítios	de	transferrina	ligados	ao	ferro)	+	(sítios	de	transferrina	não	ligados	ao	ferro),	ou	seja:
TIBC	=	(ferro	sérico)	+	(capacidade	latente	de	fixação	do	ferro)
O	valor	normal	do	TIBC	é	de	250-360	mcg/dl.	Observe	que	ele	é	dado	na	mesma	unidade	do	ferro	sérico	e	também	poderia	ser	interpretado	da	seguinte	maneira:	"qual
seria	o	valor	do	ferro	sérico	se	todos	os	sítios	de	ligação	da	transferrina	estivessem	ocupados	com	este	elemento?".
E	a	saturação	de	transferrina?
Representa	 qual	 é	 o	 percentual	 de	 todos	 os	 sítios	 da	 "massa	 total	 de	 transferrina"	 que	 estão	 ocupados	 pelo	 ferro.	 De	 posse	 do	 valor	 do	 ferro	 sérico	 e	 do	 TIBC	 (e
entendendo	o	que	ele	representa)	podemos	calcular	a	saturação	de	transferrina:
Em	indivíduos	normais,	apenas	1/3	dos	locais	de	ligação	de	ferro	da	transferrina	está	ocupado	(saturação	normal	da	transferrina:	30-40%).
E	a	ferritina?
Como	já	visto,	esta	é	a	grande	proteína	de	depósito	(reserva)	de	ferro.	Quanto	maior	a	quantidade	de	ferro	nos	estoques	celulares,	maior	será	o	valor	da	ferritina	sérica.	O
contrário	também	é	verdadeiro.
ETIOLOGIA	DAS	ANEMIAS	FERROPRIVAS
EM	ADULTOS
Já	foi	mencionado	que	os	pacientes	que	desenvolvem	quadros	carenciais	de	ferro	são	as	mulheres	que	menstruam	ou	qualquer	indivíduo	que	apresenta	perda	sanguínea
crônica.	Assim,	para	desenvolver-se	o	estado	ferropênico,	é	necessário	que	haja	um	balanço	negativo	do	ferro	corporal,	até	que	seja	consumido	todo	o
estoque	armazenado	desse	metal.
Defeitos	na	absorção	de	ferro	também	são	causas	importantes	de	ferropenia,	tal	como	acontece	após	cirurgias	como	a	gastrectomia	subtotal	com	anastomose	Billroth	II,
quando	o	trânsito	digestivo	"bypassa"	o	duodeno,	importante	sítio	de	absorção	do	ferro.	Cerca	de	metade	destes	pacientes	acaba	desenvolvendo	anemia	ferropriva	com	o
passar	dos	anos.	A	gastrectomia	também	predispõe	à	má	absorção	de	ferro	pelo	efeito	da	hipo	ou	acloridria,	pois	perde-se	a	acidez	gástrica	necessária	para	a	conversão
do	 íon	 férrico	 no	 íon	 ferroso.	 As	 enteropatias	 que	 acometem	 conjuntamente	 o	 jejuno	 proximal	 e	 o	 duodeno,	 em	 especial	 a	doença	 celíaca,	 também	 podem	 causar
ferropenia	 por	má	 absorção.	 Em	 populações	 carentes,	 a	 ingesta	 insuficiente	 de	 ferro,	mesmo	 na	 ausência	 de	 defeitos	 na	 absorção,	 é	 uma	 causa	 comum	 de	 anemia
ferropriva.
Durante	a	gestação,	a	mulher	 tem	uma	perda	média	elevada	de	 ferro,	 chegando	a	4	mg/dia.	A	perda	excessiva	provém	dos	seguintes	 fatores:	aumento	da	massa	de
hemácias	 típico	 da	 gestação,	 perda	 para	 o	 feto,	 perda	 sanguínea	 no	 parto.	 Se	 a	 dieta	 não	 for	 adequada,	 pode	 instalar-se	 uma	 anemia	 ferropriva.	Por	 esse	 fato,	 a
reposição	de	sulfato	ferroso	tem	sido	rotina	durante	a	gestação	(profilaxia	primária).
A	hipermenorreia	sem	dúvida	é	uma	das	causas	mais	comuns	de	anemia	ferropênica.	Toda	mulher	com	esse	tipo	de	anemia	durante	a	menacme	deve	ser	avaliada	pelo
ginecologista,	para	busca	de	um	leiomioma	ou	pólipo	uterino,	ou	então	um	distúrbio	hormonal-funcional.
A	 hemodiálise	 e	 exames	 de	 sangue	 frequentes	 podem	 levar	 à	 depleção	 de	 ferro.	 Um	 estudo	 mostrou	 que	 pacientes	 internados	 perdem	 cerca	 de	 15	 ml	 de	 sangue
diariamente	para	fins	diagnósticos,	com	um	total	perdido	na	internação	de	175	ml.	Os	pacientes	da	unidade	de	terapia	intensiva	fornecem	cerca	de	40	ml	de	seu	sangue
diariamente	para	exames,	com	um	total	de	760	ml	durante	a	sua	estadia.	Caso	as	reservas	de	ferro	já	estejam	depletadas	previamente,	uma	anemia	ferropriva	pode	se
instalar	nesses	pacientes.	A	doação	de	sangue	frequente	é	uma	outra	causa	de	anemia	ferropriva.	Cada	doação	corresponde	a	uma	perda	de	250	mg	de	ferro.
Tab.	2:	O	ferro	e	a	investigação	laboratorial	das	anemias.
Entre	 vermes	 causadores	de	anemia	 ferropriva,	 destacamos	os	 ancilostomídeos:	Necator	 americanus	e	Ancylostoma	duodenale	 (os	mais	 importantes	 no	Brasil).	 Esses
helmintos	habitam	o	duodeno,	 aderidos	por	meio	de	ventosas	à	mucosa	duodenal,	 alimentando-se	de	 sangue.	O	Trichuris	 trichiura	 (tricocéfalo)	pode	causar	múltiplas
lesões	hemorrágicas	no	cólon.
Homens	ou	pacientes	 idosos	que	desenvolvem	anemia	 ferropriva,	na	maioria	das	vezes	apresentam	perda	sanguínea	crônica	pelo	 trato	gastrointestinal.	A	causa	mais
comum	é	a	hemorroida,	seguida	pela	doença	péptica	ulcerosa	e	finalmente	pelo	câncer	de	cólon.
Fundamental	saber:	como	o	câncer	de	cólon	direito	não	costuma	alterar	o	hábito	intestinal,	todo	paciente	com	mais	de	50	anos	com	diagnóstico	de	anemia
ferropriva	deve	ser	submetido	a	uma	colonoscopia,	mesmo	se	a	endoscopia	digestiva	alta	mostrar	doença	péptica	ou	se	houver	hemorroidas.
Causas	 mais	 raras	 de	 perda	 férrica	 crônica	 são:	 hematúria	 crônica,	 hemossiderose	 pulmonar	 idiopática,	 hemoglobinúria	 paroxística	 noturna	 e	 hemoglobinúria	 do
marchador.
EM	CRIANÇAS
A	anemia	 ferropriva	é,	de	 longe,	a	causa	mais	comum	de	anemia	em	crianças,	 sendo	encontradas,	em	alguns	 locais,	 taxas	 tão	altas	quanto	50%!	A	criança	que
nasceu	a	termo,	com	peso	normal,	apresenta	reservas	corporais	de	ferro	(estimadas	em	70	mg/kg)	suficientes	para	garantir	as	necessidades	do	metal	até	os	seis
meses	de	 idade.	Por	 isso,	a	anemia	é	menos	comum	nessa	 faixa	etária.	O	aleitamento	materno	exclusivo	é	recomendado	até	essa	 idade,	pois,	apesar	de	conter
pequena	quantidade	de	ferro	(0,26-0,73	mg/ml),	a	sua	absorção	é	excelente	(50%).	O	ferro	presente	no	leite	de	vaca	(in	natura	ou	industrializado)é	muito	pouco
absorvido	(apenas	10%).
Em	prematuros	e	crianças	com	baixo	peso	ao	nascer	(PIG),	tudo	muda:	estas	crianças	nascem	com	menor	estoque	de	ferro	e	têm	uma	velocidade	de	crescimento	maior	da
massa	hemoglobínica	no	primeiro	ano	de	vida,	necessitando,	portanto,	de	maior	aporte	diário	de	ferro	(2-4	mg/kg/dia	dependendo	do	peso	de	nascimento,	comparado	a	1
mg/kg/dia	na	criança	a	termo	de	peso	normal).	Daí	a	maior	chance	de	desenvolver	anemia	ferropriva,	caso	não	recebam	suplementos	de	ferro.
Ferro	Sérico
Valor	normal 60-150	mcg/dl.
Quando	aumenta
Hemocromatose	(primária	ou	secundária).
Talassemia.
Hepatite	aguda	grave.
Uso	de	anticoncepcional	à	base	de	progesterona.
Quando	reduz
Anemia	ferropriva.
Anemia	de	doença	crônica.
Síndrome	nefrótica	(perda	urinária	de	transferrina).
Resultados	falsos
Falsa	elevação	em	vigência	de	hemólise.
Falsa	redução	nos	soros	lipêmicos.
Transferrina	Sérica
Valor	normal 200-400	mg/dl.
Quando	aumenta
Deficiência	de	ferro	(anemia	ferropriva).
Gestação	e	uso	de	anticoncepcionais	à	base	de	progesterona.
Quando	reduz
Anemia	de	doença	crônica	e	hemocromatose.
Síndrome	nefrótica.
Hipertireoidismo.
Desnutrição.
Capacidade	Total	de	Ligação	do	Ferro
Valor	normal 250-360	mcg/dl	(para	alguns:	300-400	mcg/dl).
Quando	aumenta Em	todas	as	situações	em	que	há	elevação	da	transferrina	sérica.
Quando	reduz Em	todas	as	situações	em	que	há	redução	da	transferrina	sérica.
Saturação	da	Transferrina
Valor	normal 30-40%.
Como	calcular Ferro	sérico	dividido	pelo	TIBC.
Quando	aumenta
Hemocromatose	(primária	e	secundária).
Talassemia.
Uso	de	anticoncepcional	à	base	de	progesterona.
Ingestão	excessiva	de	ferro.
Quando	reduz
Anemia	ferropriva.	
Anemia	de	doença	crônica.	
Síndrome	urêmica.
Ferritina	Sérica
Valor	normal 20-200	ng/ml.
Quando	aumenta
Nas	condições	que	cursam	com	aumento	do	ferro	corporal	total:
● Ingestão	excessiva	de	ferro;
● Hemocromatose	(primária	e	secundária);
● Anemia	de	doença	crônica.
Quando	reduz
Nas	condições	que	cursam	com	esgotamento	do	ferro	corporal	total:
● Anemia	ferropriva	(	14%),	sendo	em	média	16%.	Isso	ajuda	a	diferenciar	a
anemia	ferropriva	da	talassemia	minor	(também	microcítica),	que	tem	RDW	normal	(em	torno	de	13%).	Diante	de	uma	anemia	com	acentuada	microcitose	(VCM	denominamos	 dimorfismo	 eritrocitário.	 Esse	 dimorfismo	 (ou	 bimorfismo)	 pode	 ser	 identificado	 por	 um	 RDW
aumentado,	pela	curva	de	anisocitose	"bífida",	ou	na	própria	hematoscopia	do	sangue	periférico.
Fig.	1:	(A)	Aspirado	de	medula	óssea	revelando	os	típicos	eritroblastos	com	grânulos	de	ferro	perinucleares	–	os	sideroblastos	em	anel;	(B)	Biópsia	de	medula	óssea	evidenciando	fartos	depósitos	de
ferro	e,	em	close,	sangue	periférico	revelando	os	corpúsculos	de	Pappenheimer.
"Um	momento!	Afinal	de	contas,	a	anemia	sideroblástica	é	micro	ou	macrocítica?"	Na	verdade,	a	anemia	sideroblástica	se	caracteriza	por	apresentar,	no	esfregaço	de
sangue	 periférico,	 tanto	 hemácias	microcíticas	 quanto	macrocíticas	 –	 ocorre	 que,	 na	 forma	 herdada	 da	 doença,	 predominam	 os	micrócitos	 (típica	 redução	 do	 VGM),
enquanto	que,	na	forma	adquirida,	geralmente	predominam	os	macrócitos	(aumento	do	VGM).	Os	macrócitos	são	decorrentes	da	eritopoiese	acelerada	dos	eritroblastos
não	afetados	pela	doença,	por	estímulo	da	eritropoetina.
Um	outro	aspecto	 importante	é	a	cinética	do	 ferro.	Como	há	um	estímulo	à	absorção	 intestinal	de	 ferro,	ele	se	acumula	no	organismo	(hemocromatose	eritropoiética).
Como	consequência,	teremos	ferro	sérico	alto	 (>	150	μg/dl),	 ferritina	sérica	normal	alta	ou	alta	(>	100-200	ng/ml),	TIBC	normal	e	saturação	de	transferrina	alta	(30-
80%).
Quando	devemos	suspeitar	da	presença	de	anemia	sideroblástica?
Guardem	esta	dica,	 especialmente	para	as	provas:	devemos	 suspeitar	de	anemia	 sideroblástica	 sempre	quando	houver	a	 coexistência	paradoxal	de	hipocromia	 com
ferro	sérico	alto,	saturação	da	transferrina	elevada	e	ferritina	elevada.	As	talassemias	(major	e	intermédia)	também	podem	determinar	esse	padrão.	Uma	eletroforese	de
hemoglobina	pode	excluir	esta	última	entidade.
Tab.	1
O	que	são	os	corpúsculos	de	Pappenheimer?
Em	alguns	pacientes	com	AS,	as	hemácias	circulantes	podem	reter	as	mitocôndrias	sideróticas	por	um	breve	período.	Nesses		casos,	um	esfregaço	de	sangue	periférico
identifica	precipitados	de	ferro	conhecidos	como	corpúsculos	de	Pappenheimer	( ).	Note:	os	sideroblastos	em	anel	aparecem	no	aspirado	de	medula;	enquanto	os
corpúsculos	de	Pappenheimer,	no	sangue	periférico.
Como	confirmar	o	diagnóstico?
Só	há	uma	 forma:	aspirado	de	medula	óssea	 (mielograma),	 pelo	encontro	de	mais	de	15%	de	eritroblastos	do	 tipo	 sideroblastos	em	anel.	Este	achado	é	 sempre
confirmatório...
ANEMIA	SIDEROBLÁSTICA	HEREDITÁRIA
Apesar	 de	 ser	menos	 comum	do	que	as	 formas	adquiridas,	 a	 anemia	 sideroblástica	 assume	uma	grande	 importância	 clínica,	 pela	 sua	potencial	 reversibilidade	 com	o
tratamento,	na	forma	hereditária	(altas	doses	de	piridoxina)	e	adquirida	reversível,	e	pela	sua	semelhança	laboratorial	com	a	anemia	ferropriva	(microcitose	e	hipocromia).
Perceba	que	uma	"confusão"	diagnóstica	poderá	ser	fatal:	a	reposição	de	sulfato	ferroso	para	um	paciente	com	anemia	sideroblástica,	além	de	não	corrigir	a
anemia,	pode	acelerar	o	processo	de	hemocromatose	(ou	hemossiderose),	culminando	em	doença	grave,	com	risco	de	óbito	por	arritmia	ou	disfunção
miocárdica.
Esta	anemia	é	mais	comum	em	homens	(herança	ligada	ao	X),	tal	como	a	hemofilia	e	o	daltonismo.	O	grau	de	anemia	é	variável,	podendo	ser	leve,	moderada	ou	grave	(Hg
<	7	g/dl).	Os	casos	 leves	a	moderados	podem	ser	descobertos	 somente	na	 idade	adulta,	 já	quando	existe	hemossiderose,	 representada	por	hepatoesplenomegalia	ao
exame	físico.	A	anemia	é	microcítica	(o	VCM	podendo	chegar	na	faixa	entre	50-60	fl)	e	hipocrômica,	com	intensa	anisocitose	(aumento	do	RDW)	e	poiquilocitose.	Os	casos
mais	 graves	 podem	 evoluir	 com	 as	 lesões	 orgânicas	 da	 hemossiderose	 (cardiomiopatia,	 cirrose	 hepática,	 hiperpigmentação,	 diabetes	 mellitus	 secundário).	 Mulheres
heterozigotas	podem	apresentar	uma	leve	anemia	ou	apenas	uma	curva	de	anisocitose	"bífida"	no	hemograma.
Nem	toda	anemia	sideroblástica	hereditária	é	de	herança	 ligada	ao	X.	Existem	casos	de	comprovada	herança	autossômica	dominante	e	 recessiva.	Nesse	caso,	não	há
preferência	de	sexo.	Existe	um	tipo	relacionado	à	porfiria	eritropoiética,	pela	deficiência	da	enzima	ferroquelatase.	Nessa	doença,	pode	haver	tanto	a	anemia	sideroblástica
(pela	redução	da	síntese	do	heme)	quanto	lesões	cutâneas	de	porfiria	(fotossensibilidade),	pelo	acúmulo	de	protoporfirina.	Uma	forma	muito	rara	de	AS	é	a	síndrome	de
Pearson,	resultante	de	um	distúrbio	mitocondrial	congênito.	Trata-se	de	uma	síndrome	bastante	grave	que	cursa	com	anemia	severa	na	infância	relacionada	à	insuficiência
exócrina	do	pâncreas.	Na	maioria	dos	casos,	as	crianças	não	sobrevivem	além	dos	dois	a	três	anos	de	idade.
ANEMIA	SIDEROBLÁSTICA	ADQUIRIDA	IDIOPÁTICA
Há	grandes	 indícios	de	que	a	anemia	sideroblástica	adquirida	 idiopática	seja	uma	desordem	mielodisplásica.	Este	conceito	 já	 foi	estabelecido,	mas	vamos	rever	alguns
pontos	 importantes...	 Após	 uma	 mutação	 de	 um	 clone	 progenitor	 hematopoiético	 (que	 pode	 ser	 a	 própria	 célula-tronco)	 ou	 eritroide,	 este	 ganha	 uma	 "vantagem
proliferativa"	sobre	as	outras	células	da	hematopoiese	normal.	Portanto,	um	grupo	de	células	derivadas	do	mesmo	clone	começa	a	se	sobressair	na	medula	óssea.	O	que
caracteriza	uma	síndrome	mielodisplásica	é	o	fato	de	este	clone	ser	"defeituoso"	–	neste	caso,	com	um	distúrbio	na	síntese	do	heme.
Estes	 pacientes	 geralmente	 são	 adultos	 de	meia-idade	 ou	 idosos	 (raramente	 jovens	 e	 crianças),	 sem	 preferência	 de	 sexo.	 A	 anemia	 é	 leve	 a	moderada,	 lentamente
progressiva	até	um	grau	de	estabilidade	(o	paciente	mantém	aquele	hematócrito	por	longos	anos).	Também	existe	hemocromatose	eritropoiética,	justificando	o	achado	de
hepatoesplenomegalia	em	1/3	a	1/2	dos	casos.
Formas	de	Anemia	Sideroblástica
Hereditária
Herança	ligada	ao	X.
Herança	autossômica	dominante.
Congênita	–	síndrome	de	Pearson.
Adquirida
	Idiopática	pura.
		Hipotermia.
Associada	à	mielo​displasia,	doenças	mielopro​liferativas	e		quimioterapia.
Alcoolismo.
Drogas	(isoniazida,	pirazinamida,	cloranfenicol).
Deficiência	de	cobre	(nutricional,	toxicidade	pelo	zinco).
Figura	1B
SAIBA	MAIS...
O	diagnóstico	de	anemia	sideroblástica	nos	pacientes	com	anemia	ferropriva	coexistente	pode	ser	extremamente	difícil,	pois,	nessa	situação,	os	níveis	séricos	de	ferro	e
ferritina	não	estão	elevados	como	deveriam	estar,	e	a	medula	óssea,	por	estar	depletada	de	ferro,	pode	não	revelar	os	sideroblastos	em	anel.	Diante	da	suspeita	clínica
dessa	coexistência,	devemos	fazer	a	reposição	de	ferro	e,	quando	o	hematócrito	estiver	subindo,	repetir	o	exame	de	medula	óssea.
O	hemograma	mostra	anemia	normocítica	ou	levemente	macrocítica.	Pode	ser	normocrômica	ou	hipocrômica.	A	macrocitose	vem	do	predomínio	dos	macrócitos	sobre	os
micrócitos	no	sangue	periférico,	dentro	de	uma	população	eritrocitária	dimórfica.	Os	micrócitos	são	derivados	dos	sideroblastos	em	anel,	enquanto	que	os	macrócitos	são
provenientes	 de	 progenitores	 normais,	 mas	 que	 possuem	 um	 tempo	 de	 maturação	 reduzido	 num	 ambiente	 de	 hiperplasia	 eritroide	 medular	 (níveis	 aumentados	 de
eritropoetina).
Podemos	dividir	os	pacientes	com	AS	adquirida	idiopática	em	dois	subgrupos:
"Anemia	sideroblástica	pura",	em	que	as	demais	alterações	displásicas	medulares	são	inexistentes;
"Forma	verdadeiramente	mielodisplásica",	também	chamada	de	"anemia	refratária	com	sideroblastos	em	anel",	nas	quais	a	displasia	medular	é	encontrada	em
sua	forma	típica.
Na	primeira,	a	sobrevida	média	é	semelhante	à	da	população	hígida	e	a	chance	de	transformação	leucêmica	é	praticamente	nula.	Na	segunda,	a	sobrevida	média	está
reduzida	e	há	risco	para	transformação	leucêmica	(em	torno	de	5%).
ANEMIA	SIDEROBLÁSTICA	ADQUIRIDA	REVERSÍVEL
Alcoolismo:	a	anemia	associada	ao	alcoolismo	geralmente	 tem	 inúmeras	causas.	A	presença	de	sideroblastos	em	anel	geralmente	não	se	constitui	em	causa	 isolada,
entretanto	pode	ocorrer	em	25-30%	dos	alcoólatras,	sobretudo	na	presença	de	desnutrição.	Anemia	é	geralmente

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