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1 
 
DIREITO PENAL – ROGÉRIO SANCHES E MASSON 
Material Complementar: EMAGIS + LESEN 
AULA I – DATA: 28.07.2020 
Atualização: 27/06/2022 
 
TEORIA GERAL DA NORMA PENAL 
 
1) Conceito e finalidade. 
 
1. Conceito de Direito Penal: 
I - O Direito é composto de normas jurídicas e estas se dividem em regras 
e princípios. As regras são mais rígidas e não admitem flexibilização, ao 
contrário dos princípios que são flexibilizados ao serem confrontados com 
outros princípios do direito. 
II – Direito Penal é o conjunto de regras e princípios destinados a 
enfrentar os crimes e as contravenções penais, mediante a imposição de 
uma sanção penal (pena ou medida de segurança). 
III- No Direito Penal há o gênero “infração penal” e ela se divide em: 1º) 
Crime ou delito; e 2º) Contravenção penal. 
IV – Segundo Claus Roxin, o Direito Penal é um sistema de dupla via, 
pois ele responde a quem viola suas normas mediante a pena (1ª via) ou 
mediante uma medida de segurança (2ª via). 
 
Conceito criminológico: O conceito criminológico estuda o delito a 
partir de uma visão do mundo empírico, do “ser”, com foco diverso do 
conceito jurídico que estuda o crime como fenômeno do mundo do “dever-
ser”. Os conceitos criminológicos do crime partiram da Escola Positiva, 
como Garofalo e Ferri. Nesse aspecto, Garofalo entende por crime aquela 
conduta que atinge os sentimentos de solidariedade social, tais como 
probidade, piedade etc. O problema é que não há uma necessária relação 
entre crime e afronta a sentimentos altruístas, vez que uma conduta pode 
2 
 
ser desonesta, ou contra a caridade, mas não ser exatamente criminosa. 
Por outro lado, a eutanásia visa dar valor a um sentimento altruísta de 
piedade, mas ainda assim é considerada crime. Ferri utiliza 
argumentação semelhante a Garofalo e conceitua crime como conduta 
que atinge o sentimento de moralidade média da sociedade. A grande 
crítica que se faz diz respeito a uma correlação entre conduta criminosa 
e moral que nem sempre se observa na prática. 
 
Sob o aspecto formal (estático), direito penal é um conjunto de normas 
que qualificam certos comportamentos humanos como infrações penais, 
definem seus agentes e fixa sanções a serem lhes aplicadas. Crime é a 
prática de uma conduta descrita como criminosa na lei penal. Equivale 
ao conceito analítico de crime. Fundado sobre o princípio da 
legalidade. 
 
- Conceito analítico de crime: 
 
 
 
TEORIA TRIPARTIDA 
• crime é fato típico (ou ação típica), ilícito (ou antijurídico) e culpável; 
 
- fato típico: conduta humana, comissiva ou omissiva, dolosa ou culposa + nexo 
de causalidade + resultado + tipicidade; 
- culpabilidade: doutrina mais recente no Brasil (Cezar Bitencout, Luiz Regis 
Prado, Rogério Greco) adere à inserção da culpabilidade no conceito de crime. 
 
 
 
TEORIA QUADRIPARTIDA 
• crime é fato típico, ilícito, culpável e punível; 
 
- Mezger (Alemanha) e Basilei Garcia (Brasil); 
- se houver escusa absolutória, o fato não é criminoso, porque, apesar da 
tipicidade, ilicitude e culpabilidade, não há punibilidade (que é integrante do conceito de 
crime). 
• 
 
Damásio, Mirabete, Capez; 
 
a culpabilidade é pressuposto de aplicação da pena. 
 
 
TEORIA BIPARTIDA 
3 
 
 
 
FATO TIPO DE INJUSTO 
• tipo de injusto = fato típico + ilicitude; 
 
- fato típico e ilicitude unidos como único elemento; 
 
- origem na teoria dos elementos negativos do tipo. 
 
CLAUS ROXIN 
• crime = fato típico + ilicitude + responsabilidade; 
 
- responsabilidade = culpabilidade + prevenção. 
 
b) Crime vs. Contravenção 
- Delito (gênero): crime e contravenção são as espécies. Na França, 
há crimes (graves), delitos (médios) e contravenções (menor gravidade). 
 
- Contravenções: previstas no Decreto-lei 3688/41 (não taxativo). 
Há contravenção prevista no art. 43 da Lei 8.245/91 (referente a 
aluguel na lei de locação de imóveis urbanos). 
 
CRIME CONTRAVENÇÃO 
 
Pena de reclusão e detenção. 
 
Pena de prisão simples 
Cabe tentativa Não cabe tentativa 
Crime de menor potencial 
ofensivo: pena máxima igual 
ou inferior a 2 anos. 
Todas as contravenções penais 
são de menor potencial ofensivo 
(art. 61, Lei 9099/95). 
Competência da Justiça Federal 
ou Estadual. 
Competência sempre da Justiça 
Estadual (art. 109, IV, CF). 
Ação penal pública 
(incondicionada ou 
condicionada) ou 
privada. 
Ação penal pública 
incondicionada (art. 17, LCP). 
Possível extraterritorialidade 
da lei penal brasileira 
Não é possível 
extraterritorialidade da lei penal 
brasileira, ou seja, somente se 
aplica lei penal brasileira para 
contravenções ocorridas em 
território nacional. (art. 2º, LCP). 
 
4 
 
Limite de 40 anos de 
cumprimento de pena (art. 75, 
CP). 
Limite de 5 anos de 
cumprimento de pena (art. 10, 
LCP). 
 
Período de prova no sursis: 2 a 4 
anos (art. 77, CP) 
- sursis etário ou humanitário: 
4 a 6 anos. 
 
Período de prova no sursis: 1 a 3 
anos (art. 11, LCP). 
 
Desconhecimento da lei penal é 
inescusável (art. 21, CP): não 
afasta a punição, mas pode 
atenuar (art. 65, II, CP). 
 
Ignorância da lei ou errada 
compreensão, se escusáveis: 
pena pode deixar de ser aplicada 
(art. 8º, LCP). 
 
Cabe preventiva e temporária. 
 
Não cabe preventiva e 
temporária. 
Cabe interceptação telefônica se 
punido com reclusão (Lei 
9296/96). 
 
Não cabe interceptação 
telefônica. 
Reincidência = prática de 
novo crime após transito 
em julgado de condenação 
anterior por crime. 
 
- crime anterior + crime 
posterior = reincidência; 
 
contravenção (anterior) e crime 
(posterior) = não há reincidência, 
mas gera maus antecendetes. 
Reincidência: 
 
condenação anterior por 
crime (no Brasil ou exterior) 
com trânsito em julgado + prática 
posterior de contravenção 
 
- contravenção anterior + 
contravenção posterior = 
reincidência; 
crime 
 
Sob o aspecto sociológico (dinâmico), direito penal é mais um 
instrumento (ao lado dos demais ramos do direito) de controle social de 
5 
 
comportamentos desviados, visando assegurar a necessária disciplina 
social, bem como a conveniência harmônica entre os membros do seu 
grupo (membros da sociedade). Ultima ratio (principio da intervenção 
mínima). 
 
OBS.: A manutenção da paz social demanda a existência de normas 
destinadas a estabelecer diretrizes. 
 
OBS.: Quando violadas as regras de condutas, surge para o Estado o 
dever de aplicar sanções (civis ou penais). 
 
OBS.: Nesta tarefa de controle social atuam vários ramos do Direito. 
 
OBS.: Quando a conduta atenta contra bens jurídicos especialmente 
tutelados, merece reação mais severa por parte do Estado, valendo-se do 
direito penal. 
 
OBS.: O que diferencia a norma penal das demais é a espécie de 
consequência jurídica (pena privativa de liberdade). 
 
Sob o aspecto material, o direito penal refere-se a comportamentos 
considerados altamente reprováveis ou danosos, afetando bens jurídicos 
indispensáveis à própria conservação e progresso da sociedade. Conduta 
criminosa (conceito formal) que atinge bens jurídicos de maneira 
relevante. Fundado sobre o princípio da lesividade. 
 
DIREITO PENAL CRIMINOLOGIA POLÍTICA CRIMINAL 
Analisa os fatos 
humanos 
indesejados, definindo 
quais devem ser 
rotulados como crime 
ou contravenção 
Ciência empírica que 
estuda o crime, sob o 
enfoque da pessoa do 
criminoso, da vítima e 
o comportamento da 
sociedade. 
Trabalha as 
estratégias e meios de 
controle social da 
criminalidade. 
6 
 
anunciando as 
respectivas penas. 
Ocupa-se do crime 
enquanto norma. 
Ocupa-se do crime 
enquanto fato e não 
enquanto norma. 
Ocupa-se do crime 
enquanto valor. 
 
OBS.: A criminologia e a política criminal fazem parte da ciência penal. 
 
Direito Penal: Missão 
Na atualidade, a doutrina divide a missão do Direito Penal em duas, tais 
quais: 
a) Missão mediata:Se subdivide em: controle social e limitação ao poder 
de punir estatal (poder de punir do Estado). 
 
OBS.: Se de um lado, o Estado controla o cidadão, impondo-lhe limites 
de outro lado é necessário também limitar o seu próprio poder de 
controle, evitando a hipertrofia da punição. 
 
b) Missão imediata: A doutrina diverge. Uma primeira corrente diz que 
a missão imediata serve para proteger bens jurídicos (funcionalismo de 
Roxin). Uma segunda corrente diz que a missão imediata serve para 
assegurar o ordenamento jurídico, a vigência da norma (Funcionalismo 
de Jakobs). 
 
Resumindo: Duas teorias com enfoque mundial (Função do direito 
penal - funcionalismo). 
 
a) Teleológico (Roxin): O fim do direito penal é assegurar bens jurídicos 
indispensáveis à convivência social valendo-se das medidas 
políticas/medidas criminais. 
 
b) Sistêmico (Jakobs): O fim do direito penal é resguardar a norma; 
resguardar o sistema; direito posto, atrelado aos fins da pena. Fazer valer 
7 
 
o sistema. Exemplo: furto de uma caneta “bic”. Para o conceito teleológico 
é princípio da insignificância e para o conceito sistêmico é furto; crime. 
 
2. Posição na Teoria Geral do Direito: 
I - O Direito Penal é um ramo do Direito Público e, portanto, suas normas 
são indisponíveis e obrigatórias para todas as pessoas. 
II – O Estado é o titular exclusivo do direito de punir (ius puniendi). 
✓ O Estado é ofendido em todo e qualquer crime. Assim, ele figura como 
sujeito passivo mediato e/ou imediato) de todo crime. 
 
3. Nomenclatura: Direito Penal versus Direito Criminal 
I - No Brasil, o correto é falar em Direito Penal, pois há um Código Penal. 
Além disso, a Constituição Federal, em seu art. 22, I, afirma que compete 
privativamente à União legislar sobre Direito Penal. 
 
II – Crítica: a expressão Direito Penal é menos abrangente e enfatiza à 
ideia de pena (consequência de um crime). Por outro lado, Direito 
Criminal traz à tona um direito relativo ao crime, ou seja, é uma 
expressão mais ampla. ✓ No Brasil, houve um Código Criminal do 
Império de 1830. ✓ Até hoje, no Brasil, existiram três códigos de Direito 
Penal (Código Criminal do Império de 1830, Código Penal Republicano de 
1890, e o atual Código Penal de 1940). 
 
Características do Direito Penal 
I - Magalhães Noronha: “O Direito Penal é ciência cultural normativa, 
valorativa e finalista”. 
De acordo com esse conceito, o Direito Penal, em primeiro lugar, é uma 
ciência, então possui valores, regras e princípios. ✓ As regras e princípios 
do Direito Penal formam a chamada “dogmática jurídico-penal”. 
✓ Direito Penal como ciência cultural: é uma ciência que estuda o 
“dever ser”, ao contrário das ciências naturais, que estudam o “ser”. 
8 
 
✓ Direito Penal como ciência normativa: o Direito Penal tem como 
objeto o estudo das normas jurídicas. 
✓ Direito Penal como ciência valorativa: o Direito Penal possui uma 
escala própria de valores para cada fato que lhe é submetido. 
✓ Direito Penal como ciência finalista: o Direito Penal tem que ter uma 
finalidade prática e não meramente acadêmica ou teórica. Assim, não 
adianta apenas discutir demasiadas teorias se não se objetivar a 
aplicação prática do Direito Penal. 
 
Obs.: A finalidade do Direito Penal é a proteção de bens jurídicos. 
 
II – Questão: o Direito Penal é constitutivo (cria algo novo) ou 
sancionador? Segundo Zaffaroni, “o direito penal é predominantemente 
sancionador e excepcionalmente constitutivo”. Como regra, o Direito 
Penal não cria nada de novo, surgindo para reforçar uma proteção já 
existente aos bens jurídicos. Assim sendo, o Direito Penal é 
predominantemente sancionador porque não cria bens jurídicos novos, 
mas acrescenta uma proteção penal aos bens jurídicos disciplinados por 
outras áreas do Direito. 
 
Exemplo: o Direito Civil protege a propriedade. Muitas vezes, essa 
proteção do Direito Civil não é suficiente e, nesse âmbito, o Direito Penal 
surge criando crimes de furto, roubo etc. Excepcionalmente, o Direito 
Penal é constitutivo, pois cria institutos que não existem em outros ramos 
de direito. Exemplo: criação do sursis e livramento condicional. 
 
CLASSIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA DO DIREITO PENAL 
DIREITO PENAL SUBSTANTIVO DIREITO PENAL ADJETIVO 
Corresponde ao direito penal 
material (crime/pena) 
Corresponde ao direito processual 
penal (processo/procedimento). 
 
9 
 
OBS.: Classificação existente 
quando o processo penal não era 
ramo autônomo do direito e sim 
um apêndice do direito penal. É 
uma classificação ultrapassada. 
 
DIREITO PENAL OBJETIVO DIREITO PENAL SUBJETIVO 
Traduz o conjunto de leis penais 
em vigor no país. 
 
Exemplo: código penal, lei de 
drogas, etc.. 
Refere-se ao direito de punir do 
Estado. 
 
Direito penal subjetivo positivo: 
Capacidade de criar e executar 
normas penais. Exemplo: Estado. 
 
Direito Penal subjetivo 
negativo: Poder de derrogar 
preceitos penais ou restringir seu 
alcance. Exemplo: STF no 
controle de constitucionalidade. 
O direito penal objetivo é 
expressão ou emanação do direito 
penal subjetivo. 
 
O direito penal objetivo é 
expressão do direito penal 
subjetivo, ou seja, do poder 
punitivo estatal. O direito de punir 
é monopólio estatal (somente o 
Estado tem o direito de punir 
alguém). 
O Estado detém o monopólio do 
direito de punir, ficando proibida a 
justiça privada. A justiça privada 
pode caracterizar o exercício 
arbitrário das próprias razões (art. 
345 do CP). 
 
10 
 
OBS.: O direito de punir estatal não é absoluto, incondicionado e 
ilimitado. Encontra-se limites. 
Quanto ao modo, o direito penal deve respeitar direitos e garantias 
fundamentais (dignidade da pessoa humana, por exemplo). Quanto ao 
espaço, aplica-se a lei penal aos fatos praticados no território nacional 
(princípio da territorialidade – art. 5º do CP). Quanto ao tempo, o direito 
de punir não é eterno e a maior prova disso é a prescrição. 
OBS.: A legítima defesa é exceção, pois não é uma forma de punir e sim 
uma forma de defesa. A ação penal privada também é exceção, pois é um 
direito de perseguir a pena. A aplicação da pena continua sendo 
monopólio do Estado. 
 
OBS: Exceção ao monopólio ao direito de punir: Artigo 57 do Estatuto 
do índio (lei 6001/73). Será tolerada, a aplicação pelos seus membros, de 
sanções penais, mas respeitando a dignidade da pessoa humana, não 
pode ser cruel. 
Ex2: No caso do Tribunal Penal Internacional, o Brasil acaba abrindo 
mão de parcela de sua soberania. O TPI é subsidiário; é complementar às 
jurisdições penais e age nas hipóteses de falha do direito de punir do 
Estado. O Estatuto de Roma consagrou o princípio da 
complementaridade, isto é, o TPI não pode intervir indevidamente nos 
sistemas judiciais nacionais, que continuam tendo responsabilidade de 
investigar e processar os crimes cometidos nos seus limites territoriais, 
salvo nos casos em que os Estados se mostrem incapazes ou não de 
demonstrarem efetiva vontade de punir seus criminosos. 
O TPI não representa exceção à exclusividade do direito de punir do 
Estado. O art. 1º do Estatuto de Roma consagrou o princípio da 
complementariedade. O TPI será chamado a intervir somente se e quando 
a justiça repressiva interna falhe, seja omissa ou insuficiente. 
 
11 
 
DIREITO PENAL DE 
EMERGÊNCIA 
DIREITO PENAL PROMOCIONAL 
Cria normas penais que rasgam 
direitos e garantias fundamentais, 
somente para responder à altura 
o anseio da sociedade. 
Chamado de Direito Penal 
Político ou Demagogo. Visando a 
consecução dos seus objetivos 
políticos emprega leis penais, 
desconsiderando o princípio da 
intervenção mínima (usar o 
direito penal para transformação 
social). 
Atendendo demanda de 
criminalização, o Estado cria 
norma de repressão, ignorando 
garantias do cidadão. 
Contravenção de mendicância (foi 
revogado). Ao invés do Estado 
criarpolíticas públicas de 
assistência, ele resolve 
criminalizar a conduta. 
Finalidade: Devolver o 
sentimento de tranquilidade da 
sociedade. 
Exemplo: Lei 8.072/90 
O direito penal simbólico é o 
resultado do direito penal de 
emergência, por isso não tem 
mais a distinção com o direito de 
emergência. 
 
 
Pergunta de concurso: O que é Direito penal de emergência, 
simbólico e promocional? ® Entenda: O Estado percebe a criminalidade 
em pontos alarmantes e chama o direito penal para limitar e derrogar 
garantias penais e processuais penais, a exemplo da lei dos crimes 
hediondos. Trouxe um direito penal de emergência, os crimes mais graves 
precisavam de uma resposta estatal mais eficiente, limitando garantias. 
Foi impedida progressão, que agora esta permitida, mas com um 
requisito temporal diferenciado, proibiu a liberdade provisória, proibiu 
12 
 
fiança, livramento condicional mais rigoroso, etc. A lei dos crimes 
hediondos é um claro exemplo de direito penal de emergência. 
Resposta: 
a) Direito penal de emergência: Direito Penal de Emergência: utilizado 
para limitar ou derrogar garantias penais e processuais penais em busca 
do controle da alta criminalidade (exemplo: lei 8.072/90). 
É movido pela sensação de insegurança presente na sociedade, o Direito 
Penal de emergência, atendendo demandas de criminalização, cria 
normas de repressão, afastando-se, não raras vezes, de seu importante 
caráter subsidiário e fragmentário, assumindo feição nitidamente 
punitivista, ignorando as garantias do cidadão. O Estado cria norma para 
atender ao anseio da sociedade, para dar a sensação de segurança ao 
povo por meio da tipificação de novos crimes. Ex.: lei de crimes hediondos 
(criada em situação excepcional). 
Esquecendo a real missão do Direito Penal, o legislador atua pensando 
(quase que apenas) na opinião pública, querendo, com novos tipos penais 
e/ou aumento de penas e restrições de garantias, devolver para a 
sociedade a (ilusória) sensação de tranquilidade. Permite a edição de leis 
que cumprem função meramente representativa, afastando-se das 
finalidades legítimas da pena, campo fértil para um Direito Penal 
Simbólico. 
b) Direito penal simbólico: o Estado, na pretensão de dar rápida 
resposta aos anseios sociais, muitas vezes criminaliza condutas sem 
qualquer fundamento criminológico e de política criminal, criando uma 
ilusão. Acaba cumprindo uma função simbólica. 
A lei necessária nasce sem qualquer eficácia social. Ex.: cria-se o tipo 
penal com pena desproporcional. Elaboração de lei sem fundamentação 
criminológica, que não apresentam respostas efetivas ao anseio da 
sociedade. 
13 
 
Nesse contexto, segundo Cleber Masson (2012, p. 11), o Direito Penal 
Simbólico diz respeito a uma política criminal, que vai além da aplicação 
do direito penal do inimigo, e sim as próprias consequências do efeito 
externo que a aplicação da lei não produz. Manifesta-se, desse modo, com 
o direito penal do terror, pelo qual se verifica uma inflação legislativa, que 
cria figuras penais desnecessárias ou, então, o aumento desproporcional 
e injustificado das penas para os casos determinados. 
Pode-se, assim, afirmar que o Direito Penal simbólico, geralmente, 
apresenta-se através de propostas que visam se aproveitar do medo e da 
sensação de insegurança. Nesse sentido, o propósito do legislador não é 
a real proteção dos bens jurídicos atingidos pelo delito, mas uma forma 
de adular a população, dizendo o que ela quer ouvir, fazendo o que ela 
deseja que se faça, mesmo que isso não surta qualquer efeito na 
diminuição da criminalidade e da violência. 
Nessa esteira, quando um fato ganha repercussão, nascem propostas de 
aumento de pena, de supressão de direitos individuais, de criação de 
novos tipos penais, mesmo que não seja alternativa adequada para 
realmente se solucionar com conflitos. Assim, o que o Estado deseja, na 
verdade, é agir de forma que satisfaça o sentimento emocional de um 
povo atemorizado. 
c) Direito penal promocional (político ou demagago): ocorre quando 
o Estado utiliza as leis penais para a consecução de suas finalidades 
políticas. Acaba por ignorar o princípio da intervenção mínima. É 
criticado pela doutrina, o Direito Penal Promocional (político ou 
demagogo) surge quando o Estado, visando concretizar seus objetivos 
políticos, emprega as leis penais como instrumento, promovendo seus 
interesses, estratégia que se afasta do mandamento da intervenção 
mínima, podendo (e devendo) valer-se, para tanto, dos outros ramos do 
Direito. É equivocada a utilização do Direito Penal como ferramenta de 
transformação social. Até 2009, a mendicância era infração penal! 
14 
 
Ao invés de usar o direito penal para transformação social, é utilizado 
como instrumento de políticas públicas (note-se que a finalidade do 
direito penal é controle social, e não transformação social). Nesse caso, 
desconsideram-se o princípio da intervenção mínima 
Funções do Direito Penal: 
a) Proteção de bens jurídicos: Essa é a principal função do Direito 
Penal. Roxin diz que, na verdade, é a única função do Direito Penal. ✓ 
Roxin afirma que essa é a função por excelência do Direito Penal. Essa 
função confere validade e legitimidade ao Direito Penal. ✓ Bens jurídicos 
são valores ou interesses relevantes para a manutenção e o 
desenvolvimento do indivíduo e da sociedade. ✓ Nem todo bem jurídico é 
bem jurídico penal, pois nem todo bem jurídico merece a proteção do 
Direito Penal, mas apenas os bens jurídicos mais relevantes. Nesse 
aspecto, é necessário realizar um juízo de valor positivo para se descobrir 
quais são os bens jurídicos efetivamente merecedores de proteção do 
Direito Penal. Quem faz esse juízo de valor positivo é a Constituição 
Federal (Teoria Constitucional do Direito Penal). ✓ O Direito Penal 
somente é legítimo quando protege valores consagrados na Constituição 
Federal. Todo e qualquer crime precisa ter fundamento constitucional. 
Exemplo: o crime de homicídio surgiu para proteger a vida (art. 5º, caput, 
CF). 
Objetos do crime: Temos 
- Objeto jurídico: bem jurídico protegido pela lei penal. No crime de furto, 
o objeto jurídico é o patrimônio; no crime de estupro, o objeto jurídico é 
a liberdade sexual. 
OBS.: Atenção! Todo crime tem objeto jurídico. 
- Objeto material: pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta 
criminosa. No crime de lesões corporais, o objeto material é a pessoa 
agredida (então é possível que, em alguns crimes, o sujeito passivo se 
confunda com o objeto material); no crime de dano, a coisa destruída; 
15 
 
no crime de homicídio, a pessoa que foi morta. Também não se pode 
confundir objeto material com instrumento do crime (meio usado para 
praticar o crime). 
*Atenção! Há crimes sem objeto material: crimes de mera conduta; 
crimes omissivos próprios (omissão de socorro – art. 135, CP); alguns 
crimes formais (falso testemunho – art. 342, CP). 
 
Responsabilidade penal da pessoa jurídica: 
- societas delinquere non potest = pessoa juridica não pode 
delinquir. 
 
Constituição 
Federal Art. 173. 
(...) 
§ 5º A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, 
estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua 
natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia 
popular. 
 
Art. 225. (...) 
§ 3º As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, 
pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da 
obrigação de reparar os danos causados. 
- Há divergência na doutrina a respeito da responsabilização penal 
da pessoa jurídica: Luis Regis Prado e Cezar Bitencourt (contra); Nucci 
(favor). 
 
- Críticas: PJ não tem vontade; principal pena do nosso sistema 
não pode ser aplicada (privativa de liberdade); não há culpabilidade 
(reprovaçãopessoal) para a PJ. As críticas não são consistentes, pois é 
possível que a vontade da pessoa jurídica seja destacada da vontade de 
seus diretores; o não cabimento da pena privativa não conduz à 
conclusão de que a PJ não pode praticar crime. A questão da 
culpabilidade é realmente mais difícil de ser rebatida, mas ainda assim 
é possível dizer que, como a PJ tem vontade diversa de seus membros, 
16 
 
ela tem consciência e vontade próprias. 
 
- Jurisprudência pacífica do STF e STJ admite a responsabilização 
penal da pessoa jurídica. 
 
- Pessoa jurídica de direito público pode sofrer responsabilização 
criminal? A corrente majoritária admite, não havendo razão para 
diferenciar em relação às pessoas jurídicas de direito privado. 
 
- Entes despersonalizados: massa falida, condomínio, espólio etc.; 
por falta de previsão legal, não podem ser criminalizados. 
 
- STF não admite habeas corpus em favor de pessoa jurídica. 
 
- Dupla imputação: a jurisprudência atual do STF e do STJ não 
exige a dupla imputação, ou seja, que sejam denunciados 
obrigatoriamente a pessoa jurídica e a pessoa física responsável. 
Portanto, é possível que somente a pessoa jurídica conste no polo 
passivo da ação penal. 
 
b) Instrumento de controle social: O Direito Penal é dirigido 
indistintamente a todas as pessoas, embora apenas uma minoria das 
pessoas pratique crime e contravenções penais. O Direito Penal, com a 
ameaça de uma sanção penal, é mais um instrumento que o Estado 
dispõe para a manutenção do controle social e a preservação da paz 
pública. Essa função não tem se mostrado relevante na atualidade. 
c) Garantia: Nesse aspecto, utiliza-se o princípio da reserva legal 
(legalidade estrita), pois somente a lei pode criar crimes e cominar penas 
✓ A partir do momento em que o Estado cria um Código Penal, isso é uma 
garantia, pois, antes de punir, ele visa à proteção das pessoas. ✓ Com a 
existência de Código Penal e leis penais, as pessoas sabem quais são as 
17 
 
condutas que não devem adotar. Para todo o resto, as pessoas são livres. 
✓ Franz von Liszt dizia: “o Código Penal é a Magna Carta do delinquente” 
d) Função ético-social do Direito Penal 
I - George Jellinek afirma que toda a sociedade precisa ter um mínimo 
ético. A função ético-social do Direito Penal se relaciona com o mínimo 
ético defendido por tal filósofo. II – A função ético-social é também 
conhecida por função criadora ou configuradora dos costumes, ou seja, 
essa função estabelece uma ligação entre o Direito Penal e valores éticos 
de uma sociedade. 
✓ Tal função busca o efeito moralizador (função educativa) das pessoas e 
da sociedade com o Direito Penal. 
Exemplo: a lei dos crimes ambientais ajudou a criar ou a reforçar nas 
pessoas um sentimento de preservação do meio ambiente. 
e) Função simbólica 
I - A função simbólica existe em todos os ramos do direito. Entretanto, 
no Direito Penal, ela é mais acentuada. 
II - A função simbólica é aquela que produz somente efeitos internos na 
mente dos governantes e dos governados. Essa função reflete o fato de 
que a função simbólica é um Direito Penal que não produz efeitos 
práticos/concretos. Exemplo: a CF/1988 cita os crimes hediondos. Em 
1989, surgiu uma onda de crimes de extorsão mediante sequestro. 
Posteriormente, sequestraram Abílio Diniz, empresário poderoso e 
influente da época. A partir disso, o Congresso Nacional resolveu criar a 
Lei de Crimes Hediondos (Lei 8072/90) como “solução” para o problema. 
A criação dessa lei criou a falsa sensação de segurança nos governados. 
A função simbólica cria nos governantes uma falsa sensação e pretensão 
de estarem realizando ações para combaterem a criminalidade. Por outro 
lado, tal função cria na população uma falsa sensação de tranquilidade. 
18 
 
✓ É por esse motivo que a função simbólica somente produz somente 
efeitos internos nas mentes dos governantes e dos governados. 
✓ Em suma: Os governantes utilizam a criação de crimes como 
propaganda governamental. Os governados têm uma falsa sensação de 
tranquilidade. 
O professor destaca que, recentemente, o Pacote anticrime (Lei 
13.964/2019) trouxe uma ementa presunçosa, com fins ao combate à 
criminalidade. 
III - A função simbólica está intimamente ligada ao Direito Penal de 
emergência, a uma inflação do Direito Penal e à hipertrofia do Direito 
Penal, pois são criadas exageradamente figuras penais desnecessárias, 
ou então há o aumento desproporcional e injustificado das penas para os 
casos pontuais. 
IV – A função simbólica deve ser alvo de muitas críticas, pois, a curto 
prazo, ela estabelece uma propaganda de programas governamentais. 
Além disso, em médio e longo prazo, a função simbólica resulta na perda 
de credibilidade do Direito Penal, pois é possível perceber que ele não 
funciona. 
f) Função motivadora: Ao criar crimes e cominar penas, o Direito Penal 
motiva os indivíduos a não violarem suas normas. 
g) Função de redução da violência estatal 
I - Jesús Maria Silva Sánchez é um doutrinador espanhol que versa sobre 
esse tema e trabalha as velocidades do direito penal. ✓ Ele tem uma obra 
muito importante chamada “Aproximação ao direito penal 
contemporâneo”. ✓ Silva Sánchez afirma que a imposição de uma pena, 
por mais legítima que seja, representa uma violência do Estado contra o 
cidadão. ✓ Silva Sánchez defende que o Direito Penal deve incriminar 
apenas as condutas estritamente necessárias e prever penas cada vez 
mais proporcionais, de modo a diminuir a violência do Estado contra o 
19 
 
cidadão. ✓ O criminoso não deixa de ser cidadão. II - O professor defende 
que função de redução da violência estatal é uma nova forma de se 
observar o princípio da intervenção mínima no Direito Penal. 
h) Função promocional 
I - Para essa teoria, o Direito Penal não deve se preocupar em manter a 
sociedade como ela se encontra atualmente, mas deve promover uma 
melhora da sociedade. O Direito Penal deve ser visto como um dos 
instrumentos de transformação social. 
II - O Direito Penal não deve ser empecilho ao progresso, mas ferramenta 
que auxilia a ordem social e promove as mudanças estruturais 
necessárias para a evolução da comunidade. 
5 – Ciência Penal 
5.1. Dogmática penal: I - A palavra dogmática vem de dogma, já que, 
para o intérprete, os princípios e regras ordenados pelo Direito Penal são 
regras absolutas a que ele deve se vincular. II - Dogmática penal não deve 
ser confundida com dogmatismo. ✓ Dogmatismo é aceitação cega e 
imutável de algo como absoluto. III – A finalidade da dogmática penal é 
conhecer/desvendar o sentido das normas penais como forma de resolver 
os problemas práticos que aparecem. IV- A dogmática penal é a 
interpretação, sistematização e aplicação lógico-racional do direito penal. 
5.2. Política criminal: I – A política criminal apresenta propostas e 
críticas para o aperfeiçoamento do Direito Penal. ✓ Trata-se de um “filtro” 
entre a letra fria da lei e os anseios da sociedade acerca do Direito Penal. 
II – Em suma, a política criminal é a aplicação do Direito Penal em 
sintonia com os anseios da sociedade atual. 
5.3. Criminologia: I - Criminologia é uma ciência empírica e 
interdisciplinar. ✓ Empírica porque leva em conta aquilo que pode ser 
comprovado cientificamente. ✓ Interdisciplinar porque se relaciona com 
outras áreas do conhecimento humano. II – O Direito Penal estuda 
20 
 
basicamente as consequências do crime. A Criminologia, por sua vez, 
estuda as causas do crime, os aspectos sintomáticos, individuais e 
sociais do crime e da criminalidade, isto é, aborda cientificamente os 
fatores que podem conduzir o homem ao crime. 
5.4. Vitimologia: I – O Código Penal é de 1940 e sempre foi (e ainda é) 
tímido em relação à preocupação com a vítima. ✓ O Código Penal, 
essencialmente, preocupa-se com o agente. II – Mesmo quando o Código 
Penal cita a vítima, ele o faz pensandoem favorecer o réu. Exemplo: 
arrependimento posterior (art. 16 do CP). III – O professor afirma que, 
felizmente, essa postura está se alterando O acordo de não persecução 
penal, por exemplo, exige que os danos à vítima sejam reparados antes 
de haver qualquer acordo. Outro exemplo disso é a nova sistemática de 
arquivamento do inquérito policial, pois a vítima é intimada do pedido de 
arquivamento e pode se manifestar sobre esse fato, podendo apresentar 
para o órgão de revisão do arquivamento as razões pelas quais o inquérito 
não deve ser arquivado. 
6. Divisões do Direito Penal 
6.1. Direito Penal fundamental versus Direito Penal complementar: 
I – O Direito Penal fundamental é chamado de Direito Penal primário. O 
Direito Penal complementar é chamado de Direito Penal secundário. II - 
O Direito Penal fundamental são as regras gerais do Direito Penal, 
aplicáveis, inclusive, aos crimes previstos por leis especiais, quando estas 
leis especiais não possuem regras específicas sobre um determinado 
assunto. Exemplo: o Código Penal contém as regras gerais sobre 
prescrição. Entretanto, se alguma lei especial apresentar regra específica 
sobre o tema, a norma específica será a aplicável. A Lei de Drogas, por 
exemplo, possui prazo diferente para a prescrição do crime do art. 28 (Lei 
11.343/06). III – Existem regras gerais do Direito Penal previstas, 
excepcionalmente, na Parte Especial do Código Penal. Exemplo: art. 327 
do CP (conceito de funcionário público para fins penais). IV – O Direito 
21 
 
Penal complementar ou secundário são as normas especiais de Direito 
Penal. Ele está previsto na legislação penal extravagante. 
6.2. Direito Penal comum versus Direito Penal especial: I - Direito 
Penal comum é aquele aplicável a todas as pessoas indistintamente. 
Exemplo: Código Penal e Lei de drogas. II - Direito Penal especial é aquele 
que se aplica somente a determinadas pessoas que preenchem requisitos 
diferenciados exigidos em lei. Exemplo: Código Penal Militar. 
6.3. Direito Penal geral versus Direito Penal local I – Direito Penal 
geral é aquele produzido pela União e com aplicabilidade em todo o 
território nacional. II – Direito Penal local é aquele produzido pelo estado 
membro e com validade limitada ao respectivo território. Exemplo: 
imagine que o estado do Paraná crie um crime específico para o seu 
território. 
6.4. Direito Penal objetivo versus Direito Penal subjetivo I - Direito 
Penal objetivo são as leis penais em vigor. Trata-se do conjunto de todas 
as leis penais que estão em vigor. II - Direito Penal subjetivo é o ius 
puniendi, ou seja, é o direito de punir, o qual pertence ao Estado. III – O 
direito de punir é abstrato e se dirige indistintamente a todas as pessoas. 
Quando a lei penal é violada, o direito penal que era abstrato se 
concretiza para punir aquela determinada pessoa. 
6.5. Direito Penal material versus Direito Penal formal I - Direito 
Penal material é também chamado de Direito Penal substantivo. Trata-se 
do Direito Penal propriamente dito. II - Direito Penal formal é também 
chamado de Direito Penal adjetivo. Trata-se do nome dado ao Direito 
Processual Penal. 
VELOCIDADES DO DIREITO PENAL 
Trabalham com a gravidade do crime e o tempo que o Estado leva para 
punir o autor de uma infração penal mais ou menos grave (idealizada 
por Silva Sanchez). 
22 
 
Primeira velocidade: Enfatiza infrações mais graves, punidas com penas 
privativas de liberdade, exigindo procedimento mais demorado, 
observando todas as garantias penais e processuais. 
Segunda velocidade: Flexibiliza direitos e garantias fundamentais, 
possibilitando punição mais célere, mas, em contrapartida, prevê penas 
alternativas. 
Terceira velocidade: Mescla as duas anteriores. Defende a punição do 
criminoso com pena privativa de liberdade (primeira velocidade), 
permitindo, para determinados crimes, flexibilização de direitos e 
garantias fundamentais/constitucionais (segunda velocidade). 
Primeira velocidade Segunda Velocidade Terceira Velocidade 
Penas privativas de 
liberdade 
Penas alternativas Penas privativas de 
liberdade 
Procedimento: 
Garantista. Exemplo: 
Código de Processo 
Penal 
Procedimento: 
Flexibilizado. 
Exemplo: 
Lei 9.099/95 
Procedimento: 
Flexibilizado. 
Exemplo: 
Lei 9.034/95 (lei das 
organizações 
criminosas). 
 
OBS.: Alguns doutrinadores chamam de quarta velocidade, o direito 
penal que se preocupa com bens jurídicos imateriais (difusos e coletivos). 
ESCOLAS PENAIS 
1.1. Escola clássica 
No final do século XVIII, verifica-se uma tendência de reforma nas leis e 
na administração da justiça, propiciada por um extraordinário 
movimento de ideias, ao qual se denominou Iluminismo. 
Verdadeiro marco do direito penal ocorre em 1764, com a publicação, em 
Milão, da obra Dos delitos e das penas, de Cesare Bonesana, o Marquês 
23 
 
de Beccaria. A obra constitui um libelo contra a pena de morte e as 
arbitrariedades da época, pregando a humanização das penas. 
A obra de Beccaria deu origem à chamada Escola Clássica de direito 
penal, nome que foi dado pelos positivistas, com sentido negativo. Heleno 
Cláudio Fragoso aponta certos princípios fundamentais, tidos como 
postulados da escola clássica: a) O crime é um ente jurídico, é a violação 
do direito, como exigência racional (e não como norma jurídica do direito 
positivo); b) Responsabilidade penal fundada no livre-arbítrio, sendo a 
liberdade de querer um axioma fundamental para todo o sistema do 
direito punitivo; c) A pena é retribuição jurídica e restabelecimento da 
ordem externa violada pelo delito; d) Método lógico-abstrato no estudo do 
direito penal (Lições de direito penal: parte geral. 16. ed. Rio de Janeiro: 
Forense, 2004, p. 52-53). 
1.2. Escola positiva 
Surge no final do século XIX, época de predomínio do pensamento 
positivista. O início dessa fase ocorre com a publicação de O homem 
delinquente (1876), de Cesare Lombroso (fase antropógica). Lombroso 
introduziu a aplicação do método experimental no estudo da 
criminalidade, desenvolvendo a teoria do criminoso nato (atavismo), 
cujas anomalias constituiriam um tipo antropológico específico. Apesar 
do fracasso de sua teoria, Lombroso teve o mérito de fundar a 
Antropologia Criminal, que visa a encontrar, por meio do estudo 
antropológico do criminoso, uma explicação causal de seu 
comportamento. A teoria de Lombroso foi posteriormente seguida, ainda 
que com algumas divergências, por seus discípulos, Enrico Ferri e Rafael 
Garofalo. 
1.3. Terceira escola 
Posteriormente, surgiram movimentos ecléticos, que buscaram conciliar 
os postulados das duas escolas penais anteriores. Assim, a chamada 
Terceira Escola (Terza Scuola) defendia a manutenção da autonomia do 
24 
 
direito penal, mas aliada à Filosofia do Direito, ao mesmo tempo que se 
deveriam promover investigações antropológicas e sociológicas do crime. 
A Terceira escola prestigia o método lógico-abstrato e dedutivo, em 
contraposição ao experimental, além de negar a existência do criminoso 
nato. 
MODELOS DE DIREITO PENAL 
1.1. Direito penal mínimo: Intimamente ligado à ideia de intervenção 
mínima, segundo a qual o Direito Penal deve ser utilizado apenas em se 
tratando dos ataques mais graves aos bens jurídicos mais relevantes, e 
apenas quando outros instrumentos, jurídicos ou não, forem 
insuficientes à sua tutela. 
1.2. Garantismo: Nesse contexto surge o garantismo, cujo maior 
expoente é Luigi Ferrajoli. O garantismo é um modelo normativo de 
direito penal e processual penal, caracterizado pela estrita legalidade, 
voltado a minimizar a violência e a maximizar a liberdade. O garantismo 
prega a intervenção mínima do Direito Penal. 
Dez axiomas garantistas desenvolvidos por Ferrajoli: 
1. Não há pena sem crime 
2. Não há crime sem lei 
3. Não há lei sem necessidade 
4. Não há necessidade sem ofensa a bem jurídico 
5. Não há ofensaa bem jurídico sem conduta 
6. Não há conduta sem culpabilidade 
7. Não há culpabilidade sem o devido processo legal 
8. Não há processo sem acusação 
9. Não há acusação sem provas 
25 
 
10. Não há provas sem defesa 
*** O que é garantismo hiperbólico monocular e garantismo integral? 
Garantismo hiperbólico monocular é uma nomenclatura com conotação 
pejorativa. É hiperbólico porque amplia de forma exagerada e 
desproporcional os direitos e garantias penais e processuais penais, e 
monocular por levar em consideração apenas os interesses do réu. 
Em contraposição, garantismo penal integral é aquele que visa 
resguardar não somente os direitos do réu (garantismo negativo), mas 
também o da sociedade (garantismo positivo). Está relacionado à ideia da 
dupla face da proporcionalidade, que preceitua a proibição do excesso e 
também a proibição da proteção deficiente. 
Garantismo integral = garantismo negativo + garantismo positivo 
1.3. Abolicionismo penal 
Os abolicionistas pretendem a eliminação do Direito Penal, considerando 
que a sua existência traz mais prejuízos que benefícios. O Direito Penal 
serviria apenas para legitimar injustiças sociais, 
sendo caracterizado pelo seletivismo e pelo elitismo. Alguns dos 
expoentes do abolicionismo são Louk Hulsman, Thomas Mathiesen e Nils 
Christie. 
1.4 Direito penal máximo 
Associado aos movimentos “Lei e ordem” e “Tolerância zero”, parte da 
ideia de que, se o Direito Penal não é eficaz, é porque não é 
suficientemente severo. Deve-se punir as pequenas infrações, para evitar 
infrações maiores, bem como recrudescer as sanções penais. Nenhum 
culpado deve sair impune, ainda que às custas do sacrifício de algum 
inocente. 
 
 
26 
 
FONTES DO DIREITO PENAL 
Fonte diz respeito à origem, ou seja, à criação do Direito Penal, mas 
também se relaciona à forma de manifestação da lei penal (aplicação 
prática). 
Conceito: Lugar (direito material) de onde vem e como se exterioriza o 
direito penal (direito formal). 
a) Fonte material: É a fonte de produção da norma. Órgão encarregado 
de criar direito penal. Exemplo: União (art. 22, inciso I da CF). 
I – Fonte material diz respeito ao órgão constitucionalmente encarregado 
de elaborar o Direito Penal. II – No Brasil, a criação do Direito Penal é 
feita precipuamente pela União, nos moldes do art. 22, I, Constituição 
Federal. III – Questão: os estados podem legislar sobre Direito Penal? 
Em regra, não. Excepcionalmente sim. (CF, art. 22, parágrafo único). 
Para que os estados possam legislar sobre Direito Penal, a CF impõe dois 
requisitos: 1º) Deve se tratar de matéria de interesse específico daquele 
estado; e 2º) Deve existir autorização da União, exteriorizada por lei 
complementar. O professor ressalta que é muito raro um estado legislar 
sobre Direito Penal, pois o procedimento é bastante complexo e é difícil 
existir uma questão que interesse a apenas um estado. 
OBS: Artigo 22, parágrafo único, CF que fala da lei complementar no que 
tange a autorização a todos os entes a legislar sobre direito penal e sobre 
questões específicas. Matéria especifica => interesse local. Poderes 
restritos ao interesse local. 
 
b) Fonte formal: Instrumento de exteriorização do direito penal. O modo 
como as regras são reveladas. Fonte de conhecimento ou cognição. I – As 
fontes formais dizem respeito à aplicação prática do Direito Penal. 
b.1) imediata: Lei. Trata-se da própria lei, pois apenas pode criar crimes 
e cominar as respectivas penas (art. 5º, XXXIX da CF). Essa lei é a lei 
ordinária. ✓ Observação 1: a lei complementar depende de quórum 
27 
 
diferenciado e só versa sobre temas que a CF a ela reservou. Ocorre que 
a CF, em momento algum, destinou a criação de crimes e a cominação 
de penas à lei complementar. ✓ Observação 2: lei em sentido formal é 
aquela criada conforme o processo legislativo estabelecido na CF. Lei em 
sentido material é aquela que trata de conteúdo constitucionalmente 
reservado à lei. 
b.2) mediata: costumes, princípios gerais do direito. Não criam cries nem 
cominam penas, pois somente a lei pode fazê-los, mas auxiliam na 
aplicação prática do Direito Penal. A doutrina não é unânime sobre quais 
são as fontes mediatas. 
OBS.: Se a lei é fonte formal imediata, e a CF/88? E os tratados 
Internacionais de direitos humanos? Eles revelam ou não revelam 
direito penal de garantia? ® Entenda: Se essa classificação está correta, 
onde se encaixam a jurisprudência? E a súmula vinculante? E os atos 
administrativos complementos das normais penais em branco? Essa 
doutrina tradicional esquece outras normas que revelam direito penal, 
que é visualizada pela doutrina moderna. 
Essa classificação está totalmente ultrapassada. Segue abaixo o quadro 
esquematizado com base na doutrina moderna. 
FONTE FORMAL (DOUTRINA 
CLÁSSICA) 
FONTE FORMAL (DOUTRINA 
MODERNA) 
Imediata: lei Imediata: lei, CF, tratados 
internacionais de direitos 
humanos, jurisprudências, 
princípios e atos administrativos. 
Mediata: costumes e princípios 
gerais de direito 
Mediata: doutrina. 
 
*** E os costumes? Fonte 
informal do direito penal. 
 
28 
 
Lei: Fonte formal imediata. Único instrumento normativo capaz de criar 
infrações penais e cominar sanções. 
OBS.: A CF também é fonte formal imediata. Muito embora não possa 
criar infrações penais ou cominar sanções (isso é exclusivo da lei e porque 
tem um processo legislativo muito rígido), a CF nos revela direito penal 
estabelecendo patamares mínimos (mandados constitucionais de 
criminalização) abaixo dos quais a intervenção penal não se pode reduzir. 
Ex.: Mandados constitucionais de criminalização- ex.: art. 5º, XLII e XLIV 
da CF. STF. 
Constituição Federal: como a CF/1988 é analítica, ela contém muitas 
disposições sobre Direito Penal. Devido a isso, muitos citam a existência 
de uma “Constituição Penal”. ✓ Constituição Penal é o conjunto de regras 
e princípios previstos na CF/1988 que tratam sobre Direito Penal. ✓ A 
Constituição Federal não pode ser fonte imediata do Direito Penal, pois 
essa função é da lei, a qual cria crimes e comina penas. ✓ Se a 
Constituição Federal, por meio de emenda, criasse crimes e cominasse 
penas, isso poderia ser considerado uma norma constitucional 
inconstitucional. 
*** Existe mandado de criminalização implícito? De acordo com a 
maioria, ao lado das obrigações expressas de criminalização, existem as 
obrigações implícitas, com a finalidade de evitar a intervenção 
insuficiente do Estado (imperativos de tutela), como por exemplo, o artigo 
constitucional que garante a vida. Ao trazer essa garantia, a Constituição 
Federal, de forma implícita, obriga o legislador a punir o homicídio. O 
STF reconheceu a existência dos mandados constitucionais de 
criminalização no HC 104410 
Tratados Internacionais de Direitos Humanos: Podem ingressar no 
nosso ordenamento de duas formas, tais quais: a) status 
constitucional, se aprovado com quórum de emenda b) norma 
supralegal (infraconstitucional), se aprovado com quórum 
comum/simples. Para o tratado produzir efeitos no Brasil, é necessário 
29 
 
que ele seja incorporado ao ordenamento jurídico brasileiro (assinatura 
do tratado, aprovação pelo Congresso Nacional por meio de decreto 
legislativo e promulgação pelo Presidente da República por meio de 
decreto). 
OBS.: Os tratados internacionais de direitos humanos não podem criar 
crime ou cominar pena para o direito interno, só no âmbito do direito 
penal internacional; Serão mais documentos de garantia do que de 
punição. O tratado internacional de direitos humanos, ainda que não 
tenha sido aprovado com status de norma constitucional, terá o status 
de norma supralegal. Assim sendo, os tratados e convenções 
internacionais sobre direitos humanos são fontes formais mediatas do 
Direito Penal, pois eles auxiliam a aplicação do Direito Penal e não criam 
crimes nem cominam penas. 
OBS.:Antes da Lei 12.694/12, o STF, no julgamento do HC 96007, 
decidiu pela proibição da utilização da definição de organização 
criminosa dada pela Convenção de Palermo, reafirmando que os tratados 
internacionais não podem criar crimes ou cominar penas para o direito 
interno, mas apenas para o direito internacional. 
Jurisprudência: Fonte formal imediata. Revela direito penal, inclusive 
podendo ter caráter vinculante. Ela não precisa ter caráter vinculante 
para revelar o direito penal. Artigo 71 do CP. A jurisprudência define as 
condições de tempo, lugar, etc. A jurisprudência é o conjunto de decisões 
reiteradas do Poder Judiciário no mesmo sentido. A jurisprudência revela 
o entendimento do tribunal sobre um determinado assunto. 
Questão: *** A jurisprudência é fonte do direito? A doutrina, no geral, 
afirma que a jurisprudência é fonte do direito. Na opinião do professor, a 
jurisprudência nem sempre é fonte do direito. Para ele, ela será fonte do 
direito: 1º) Na decisão do caso concreto, em respeito à coisa julgada. 2º) 
Nos casos de súmula vinculante, pois ela é obrigatória para todos os 
órgãos do Poder Judiciário e para os órgãos públicos. 3º) Nas hipóteses 
do art. 927 do CPC. Este dispositivo, como fonte do Direito Penal, permite 
30 
 
a obtenção de segurança jurídica, isonomia, unidade e coerência 
sistêmica, além de proporcionar confiança, pois, se casos iguais recebem 
tratamento igual, as pessoas passam a confiar no Poder Judiciário. 
Princípios gerais do direito: Não raras vezes, os tribunais absolvem ou 
reduzem pena com fundamento em princípios. Exemplo: Princípio da 
insignificância gerando causa de atipicidade. São fontes mediatas do 
Direito Penal, pois auxiliam a aplicação do Direito Penal, mas não criam 
crimes nem cominam penas. 
Atos administrativos: Revelam-se como fonte quando complementam 
norma penal em branco. Exemplo: Lei de drogas. Os atos administrativos 
podem funcionar como complemento das normas penais em branco. 
Exemplo: a relação de quais são as substâncias consideradas drogas no 
Brasil consta em Portaria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. 
*** E a doutrina? É classificada como fonte formal mediata. Alguns 
autores dizem que a doutrina é fonte formal mediata do direito. O 
professor, entretanto, acredita que não é o caso, pois, no Brasil, vigora o 
estado democrático de direito e qualquer pessoa pode escrever sobre 
qualquer coisa. Assim sendo, adotar a doutrina como jurisprudência, na 
opinião do professor, seria temerário. Doutrina, segundo o professor, não 
é fonte do direito porque não possui caráter obrigatório e não vincula a 
população. 
*** E os costumes? São classificados como fontes informais do direito 
penal. Os costumes serão estudados juntamente com o princípio da 
legalidade (3ª aula). 
O costume é a reiteração de um comportamento em face da crença da 
sua obrigatoriedade. O costume possui dois elementos: 1º) elemento 
objetivo: repetição do comportamento. 2º) elemento subjetivo: crença na 
sua obrigatoriedade. 
Espécies de costumes: 
31 
 
1º) Costume interpretativo (secundum legem): é aquele que auxilia o 
intérprete a esclarecer o conteúdo de norma penal. Exemplo 1: a 
expressão “mulher honesta era compreendida de diversas formas ao 
longo do território nacional. Exemplo 2: ato obsceno (art. 233, CP). 
2º) Costume negativo ou contra legem (desuetudo): é aquele costume 
contrário à lei, que não a revoga. Manifesta-se nas hipóteses de desuso 
da lei. Exemplo: a prática da contravenção penal de jogo do bicho, 
definida pelo art. 58 do Decreto-lei 3.688/19416. Observação: uma lei 
somente pode ser revogada por outra lei, nos termos do art. 2º, § 1º, Lei 
de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. Assim, o costume negativo 
não revoga a lei. 
3º) Costume integrativo ou praeter legem: é aquele que visa suprir 
uma lacuna da lei. Esse costume somente pode ser utilizado no campo 
das normas penais não incriminadoras. Exemplo: circuncisão peniana 
feita pelos israelitas. Observação: o costume integrativo ou praeter legem 
possibilita o surgimento de causas supralegais de exclusão da ilicitude 
ou da culpabilidade. 
INTERPRETAÇÃO DA LEI PENAL 
O ato de interpretar é necessariamente feito por um sujeito que 
empregando determinado modo chega a um resultado. Extrair 
(interpretar) da norma o seu real significado. Se divide em: 
a) Sujeito (origem) 
b) Modo 
c) Resultado 
A) Quanto ao sujeito: 
a.1) autêntica/legislativa: É dada pela própria lei. Ex. Artigo 327 do CP 
ao definir funcionário público que para o direito penal é aquele que exerce 
cargo, emprego e função pública. 
a.2) doutrinaria/científica: dada pelos estudiosos. 
32 
 
a.3) jurisprudencial: fruto das decisões reiteradas dos nossos tribunais, 
hoje podendo adquirir caráter vinculante (exemplo: súmulas 
vinculantes). 
OBS: A exposição de motivos do código penal é dada pelos estudiosos que 
participaram da sua elaboração. (Rogério Greco e Flávio Monteiro de 
Barros). É doutrinária, pois não foi votada pelo Congresso Nacional e 
muito menos sancionada pelo Presidente da República. Do CPP é 
autêntica. 
OBS.: A exposição de motivos do código penal é um exemplo de 
interpretação doutrinária, elaborada pelos doutos que elaboraram o CP. 
Diferente do CPP, pois a exposição de motivo nos é dada por lei (lei 1.001) 
B) Quanto ao modo: 
b.1) gramatical/filológica/literal/sintática: leva em conta o sentido 
literal das palavras. 
b.2) teleológica: indaga-se a vontade ou intenção objetivada na lei. 
Busca alcançar a finalidade da lei. Perquire a intenção objetivada na lei. 
A interpretação lógica é também chamada de teleológica. Trata-se 
daquela realizada com a finalidade de desvendar a genuína vontade 
manifestada na lei, nos moldes do art. 5º da Lei de Introdução às Normas 
do Direito Brasileiro. É mais profunda e, consequentemente, merecedora 
de maior grau de confiabilidade. Neste caso, o intérprete levará em 
consideração elementos históricos, direito comparado e elementos 
extrajurídicos etc. 
b.3) histórica: procura-se a origem da lei. Indaga a origem da lei. 
b.4) sistemática: considerada a mais rica. Conjunto da legislação ou dos 
PGD. Aqui você não analisa de forma isolada. Há análise de todo 
ordenamento jurídico para buscar solução que resolva o conflito. A lei é 
interpretada em conjunto com a legislação ou PGD. A lei é interpretada 
com o conjunto da legislação ou com os princípios gerais de direito. 
33 
 
b.5) progressiva/adaptiva/adaptativa/evolutiva: a lei é interpretada 
de acordo com o progresso da ciência ou informática. Busca o significado 
legal de acordo com o progresso da ciência. Exemplo: Artigo 213 do CP. 
Homem não pode ser vítima de estupro. O transexual pode ser vítima 
de estupro? Roberta Close: transexual é aquele que tem uma 
dicotomia físico-psíquico, poderia ser vítima? Numa interpretação 
progressiva diz Rogério Greco que poderia ser vítima sim → quando 
realizou a cirurgia de ablação definitiva do órgão atualizando o seu 
registro civil. 
*** Qual o modo utilizado pelos juízes para interpretar? Na prática, 
os juízes primeiro interpretam buscando seu objetivo (aonde ele quer 
chegar) e depois ele procura os meios para chegar ao seu objetivo. 
OBS: Para Rogério Greco, utilizando a interpretação progressiva, o 
transexual operado pode ser vitima de estupro. 
– Questão: Hermenêutica e exegese possuem o mesmo significado? 
Hermenêutica é a ciência que estuda a interpretação das leis. Exegese é 
a atividade prática de interpretar uma lei. 
C) QUANTO AO RESULTADO: 
c.1) declaratória: É aquela em que a letra da lei corresponde exatamente 
aquilo que o legislador quis dizer. Nada suprimindo e nada adicionando. 
É aquela em que há perfeita coincidência entre o texto da lei e sua 
vontade 
c.2) extensiva: É aquela que amplia o alcance das palavras da lei para 
alcançar a vontade do texto. É aquela em quea lei disse menos do que 
queria. Neste caso, o intérprete amplia o seu alcance. Exemplo 1: o art. 
235 do CP trouxe o crime de bigamia. Entretanto, a poligamia também é 
criminalizada. Exemplo 2: o art. 159 do Código Penal trouxe o crime 
extorsão mediante sequestro, que também abrange a extorsão mediante 
cárcere privado. ✓ A interpretação extensiva é cabível no Direito Penal e 
não se confunde com a analogia in malam partem. Na analogia in malam 
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partem, existe lacuna da lei. Na interpretação extensiva, a atividade não 
é de integração da lei, mas apenas de interpretação. 
c.3) restritiva: É aquela que reduz o alcance das palavras para 
corresponder a vontade do texto da lei. É aquela em que a lei disse mais 
do que queria. O intérprete vem para restringir seu conteúdo. 
Relembrando: 
Quanto ao sujeito Quanto ao modo Quanto ao resultado 
Autêntica Literal Declarativa 
Doutrinária Teleológica Restritiva 
Jurisprudencial Histórica Extensiva 
 Sistemática 
 Progressiva 
 
Interpretação progressiva, adaptativa ou evolutiva: Interpretação 
progressiva, adaptativa ou evolutiva é aquela em que se busca adaptar o 
texto da lei à evolução da sociedade. 
Interpretação analógica ou intra legem: Não se confunde com a 
analogia e ocorre quando a lei traz uma fórmula casuística (fechada), 
seguida de fórmula genérica (aberta). Exemplo: o art. 121, § 2.º, I, do CP 
afirma que é qualificado o homicídio praticado mediante paga ou 
promessa de recompensa ou por outro motivo torpe. 
OBS.: A doutrina lembra, ainda, duas espécies de interpretação, tais 
quais: 
a) sui generis: Se subdivide em: 
a.1) exofórica: O significado da norma interpretada não está no 
ordenamento normativo. Ex. Artigo 20 do CP. O significado do “tipo” está 
na doutrina e não na lei. 
a.2) endofórica: O texto normativo interpretado empresta o sentido de 
outros textos do próprio ordenamento normativo. Art. 237 do CP 
35 
 
(impedimentos para o casamento – o Código Civil enuncia os 
impedimentos para o casamento). Essa interpretação é muito utilizada 
nas normas penais em branco. 
b) conforme a constituição: O direito penal não pode esquecer da 
Constituição. A Constituição Federal informa e conforma as normas 
hierarquicamente inferiores. 
OBS.: Assume nítido relevo dentro da perspectiva do Estado Democrático 
de Direito esta espécie de interpretação, hipótese em que a Constituição 
deve informar e conformar as normas que lhe são hierarquicamente 
inferiores. Esta forma de interpretação é marcada pelo confronto entre a 
norma legal e a Constituição. 
*** O direito penal brasileiro admite interpretação extensiva contra 
o réu? Há divergência acerca da interpretação extensiva que prejudique 
o réu, mas a corrente majoritária se posiciona pela possibilidade, pois 
não existe nenhuma vedação. Ex.: arma, num sentido extensivo/amplo 
pode. 
Primeira corrente: É indiferente se a interpretação extensiva beneficia 
ou prejudica o réu. A tarefa do interprete é evitar injustiças. A CF/88 não 
proíbe esse tipo de interpretação contra o réu, apesar de alguns 
ordenamentos proibirem, a exemplo do Estatuto de Roma, art. 22, § 2º. 
Defendida por Nucci e Luiz Regis Prado. 
Segunda corrente: Socorrendo-se do princípio do in dubio pro reo não 
admite interpretação extensiva contra o réu. Na dúvida o juiz deve 
interpretar em beneficio do réu. Defendida por LFG e para concursos da 
Defensoria Pública. Adota este posicionamento o art. 22.2 do Estatuto 
de Roma. 
Terceira corrente: Em regra, não cabe interpretação extensiva contra o 
réu, salvo quando interpretação diversa resultar no escândalo por sua 
notória irracionalidade. Defendida por Zaffaroni. 
36 
 
A expressão arma gera controvérsia, a arma deveria ser instrumento 
fabricado com finalidade bélica. Estaria restringindo arma a REVOLVER, 
deixando de fora a faca. A segunda corrente diz que arma é todo 
instrumento com ou sem finalidade bélica capaz de servir ao ataque, aqui 
a faca entraria. 
A primeira corrente faz uma interpretação restritiva e a segunda 
corrente faz uma interpretação extensiva. 
O que PREVALECE é a arma em sentido imprópria, ENTÃO em casos 
excepcionais pode ser usada a interpretação EXTENSIVA, logo nossa 
legislação aceita em casos especiais. 
OBS.: De acordo com a jurisprudência majoritária, a expressão “arma” 
deve ser interpretada de forma extensiva, abrangendo todo e qualquer 
instrumento, com ou sem finalidade bélica, mas capaz de servir para o 
ataque (exemplo, a faca de cozinha). 
*** Arma: 
Sentido Próprio Sentido Impróprio 
É o instrumento fabricado com 
finalidade bélica. 
É o instrumento fabricado com ou 
sem finalidade bélica, mas que 
serve ao ataque ou defesa. (é o 
entendimento que prevalece). 
 
OBS: O Equador tem lei que veda essa interpretação expressamente na 
lei, mas aqui não. 
Essa interpretação não se confunde com INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA 
(exemplos). 
Nesta espécie de interpretação (analógica) o significado que se busca é 
extraído do próprio dispositivo (existe norma a ser aplicada ao caso 
concreto). O intérprete leva em conta expressões genéricas e abertas 
utilizadas pelo legislador. O legislador depois de enumerar exemplos 
37 
 
encerra de forma genérica, permitindo ao juiz encontrar outros exemplos 
não previstos pelo legislador. 
EXTENSIVA ANALÓGICA 
Aqui o interprete toma uma 
palavra e amplia o seu alcance. 
Aqui existe lei para o caso 
concreto. 
É possível em casos excepcionais. 
Na interpretação analógica (ou 
intra legem) o código, atendendo ao 
princípio da legalidade, detalha 
todas as situações que quer 
regular e, posteriormente, permite 
que aquilo que a elas seja 
semelhante possa também ser 
abrangido no dispositivo. 
(exemplos seguidos de fórmula 
genérica de encerramento). 
Aqui tem exemplos e depois 
encerra de forma genérica, 
permitindo assim ao juiz 
encontrar outros casos, casos que 
se assemelham aos exemplos. 
Aqui é o legislador mostrando que 
não tem o dom de prever todos os 
casos possíveis. 
Aqui também existe lei. 
 Ex: art. 121 §2°, incisos I, III e IV 
do CP; art. 306 do CTB. Aqui 
permite que o juiz encontre outros 
motivos. 
 
Para Rogério Grecco, temos interpretação extensiva em sentido amplo 
que se divide em interpretação extensiva em sentido estrito (amplia o 
38 
 
alcance de uma interpretação) e interpretação analógica (formula 
casuística seguida de encerramento genérico). 
Essas interpretações acima por sua vez não se confundem com 
ANALOGIA (regra de integração de lacuna e pressupõe lacuna), nesse 
caso ao contrário dos anteriores, partimos do pressuposto de que não 
existe uma lei a ser aplicada ao caso concreto, motivo pelo qual socorre-
se daquilo que o legislador previu para outro similar. Aqui a lei é 
emprestada para o caso concreto, vencendo lacunas. 
Logo ANALOGIA no direito penal é POSSÍVEL, desde que IN BONAN 
PARTEM, não incriminadora, pois não tem lei. Ex: cônjuge x 
companheiro = se for caso de isenção de pena ai sim abrange 
companheiro, se for para incriminar neste caso não abrange. 
INTERPRETAÇÃO 
EXTENSIVA 
INTERPRETAÇÃO 
ANALÓGICA 
ANALOGIA 
Existe norma para o 
caso concreto. 
Amplia-se a 
expressão, o alcance 
da palavra para 
corresponder a 
vontade da lei. 
Existe norma para o 
caso concreto e 
exemplos seguidos de 
expressões genéricas, 
ou seja, de 
encerramento 
genérico. 
Não há norma para o 
caso concreto. 
Admitida no direito 
penal desde que 
favorável ao réu. 
Cria-se nova norma a 
partir de outra. 
Forma de 
interpretação 
Forma de 
interpretação. 
Forma de integração 
do Direito. 
 
Analogia: Parte-se do pressuposto que não existe uma lei a ser aplicada 
ao caso concreto, motivo pelo qual é preciso socorrer-se de previsão legal 
empregada a outra situação similar. 
39 
 
Analogia no Direito Penal: Pressupostos: a) certeza de que sua 
aplicação será favorável ao réu(analogia “in bonam partem”); b) existência 
de uma efetiva lacuna a ser preenchida (analogia pressupõe omissão 
involuntária do legislador). 
Exemplo: Ex. Art. 181, I, CP - A expressão “cônjuge” pode ser utilizada 
como se fosse união estável, aqui se faz uma analogia porque é benéfica. 
Analogia “in bonam partem”. 
OBS.: Assis Toledo afirma que analogia pressupõe falha legislativa que 
prejudica o réu. 
OBS: De acordo com o STJ, o crime de associação para o tráfico não 
integra a listagem legal de crimes equiparados a hediondos. Impossível a 
analogia “in malam partem” com o fito de considerá-lo crime dessa 
natureza (HC 1770220/RJ). 
Interpretação conforme a Constituição: a CF informa e conforma as 
normas hierarquicamente inferiores. Importante forma de interpretação 
no Estado Democrático de Direito. 
Analogia: aplicação de dispositivo legal diverso e análogo à situação de 
lacuna legal. Somente é permitido no direito penal se beneficiar o réu.

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