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1 DIREITO PENAL – ROGÉRIO SANCHES E MASSON Material Complementar: EMAGIS + LESEN AULA I – DATA: 28.07.2020 Atualização: 27/06/2022 TEORIA GERAL DA NORMA PENAL 1) Conceito e finalidade. 1. Conceito de Direito Penal: I - O Direito é composto de normas jurídicas e estas se dividem em regras e princípios. As regras são mais rígidas e não admitem flexibilização, ao contrário dos princípios que são flexibilizados ao serem confrontados com outros princípios do direito. II – Direito Penal é o conjunto de regras e princípios destinados a enfrentar os crimes e as contravenções penais, mediante a imposição de uma sanção penal (pena ou medida de segurança). III- No Direito Penal há o gênero “infração penal” e ela se divide em: 1º) Crime ou delito; e 2º) Contravenção penal. IV – Segundo Claus Roxin, o Direito Penal é um sistema de dupla via, pois ele responde a quem viola suas normas mediante a pena (1ª via) ou mediante uma medida de segurança (2ª via). Conceito criminológico: O conceito criminológico estuda o delito a partir de uma visão do mundo empírico, do “ser”, com foco diverso do conceito jurídico que estuda o crime como fenômeno do mundo do “dever- ser”. Os conceitos criminológicos do crime partiram da Escola Positiva, como Garofalo e Ferri. Nesse aspecto, Garofalo entende por crime aquela conduta que atinge os sentimentos de solidariedade social, tais como probidade, piedade etc. O problema é que não há uma necessária relação entre crime e afronta a sentimentos altruístas, vez que uma conduta pode 2 ser desonesta, ou contra a caridade, mas não ser exatamente criminosa. Por outro lado, a eutanásia visa dar valor a um sentimento altruísta de piedade, mas ainda assim é considerada crime. Ferri utiliza argumentação semelhante a Garofalo e conceitua crime como conduta que atinge o sentimento de moralidade média da sociedade. A grande crítica que se faz diz respeito a uma correlação entre conduta criminosa e moral que nem sempre se observa na prática. Sob o aspecto formal (estático), direito penal é um conjunto de normas que qualificam certos comportamentos humanos como infrações penais, definem seus agentes e fixa sanções a serem lhes aplicadas. Crime é a prática de uma conduta descrita como criminosa na lei penal. Equivale ao conceito analítico de crime. Fundado sobre o princípio da legalidade. - Conceito analítico de crime: TEORIA TRIPARTIDA • crime é fato típico (ou ação típica), ilícito (ou antijurídico) e culpável; - fato típico: conduta humana, comissiva ou omissiva, dolosa ou culposa + nexo de causalidade + resultado + tipicidade; - culpabilidade: doutrina mais recente no Brasil (Cezar Bitencout, Luiz Regis Prado, Rogério Greco) adere à inserção da culpabilidade no conceito de crime. TEORIA QUADRIPARTIDA • crime é fato típico, ilícito, culpável e punível; - Mezger (Alemanha) e Basilei Garcia (Brasil); - se houver escusa absolutória, o fato não é criminoso, porque, apesar da tipicidade, ilicitude e culpabilidade, não há punibilidade (que é integrante do conceito de crime). • Damásio, Mirabete, Capez; a culpabilidade é pressuposto de aplicação da pena. TEORIA BIPARTIDA 3 FATO TIPO DE INJUSTO • tipo de injusto = fato típico + ilicitude; - fato típico e ilicitude unidos como único elemento; - origem na teoria dos elementos negativos do tipo. CLAUS ROXIN • crime = fato típico + ilicitude + responsabilidade; - responsabilidade = culpabilidade + prevenção. b) Crime vs. Contravenção - Delito (gênero): crime e contravenção são as espécies. Na França, há crimes (graves), delitos (médios) e contravenções (menor gravidade). - Contravenções: previstas no Decreto-lei 3688/41 (não taxativo). Há contravenção prevista no art. 43 da Lei 8.245/91 (referente a aluguel na lei de locação de imóveis urbanos). CRIME CONTRAVENÇÃO Pena de reclusão e detenção. Pena de prisão simples Cabe tentativa Não cabe tentativa Crime de menor potencial ofensivo: pena máxima igual ou inferior a 2 anos. Todas as contravenções penais são de menor potencial ofensivo (art. 61, Lei 9099/95). Competência da Justiça Federal ou Estadual. Competência sempre da Justiça Estadual (art. 109, IV, CF). Ação penal pública (incondicionada ou condicionada) ou privada. Ação penal pública incondicionada (art. 17, LCP). Possível extraterritorialidade da lei penal brasileira Não é possível extraterritorialidade da lei penal brasileira, ou seja, somente se aplica lei penal brasileira para contravenções ocorridas em território nacional. (art. 2º, LCP). 4 Limite de 40 anos de cumprimento de pena (art. 75, CP). Limite de 5 anos de cumprimento de pena (art. 10, LCP). Período de prova no sursis: 2 a 4 anos (art. 77, CP) - sursis etário ou humanitário: 4 a 6 anos. Período de prova no sursis: 1 a 3 anos (art. 11, LCP). Desconhecimento da lei penal é inescusável (art. 21, CP): não afasta a punição, mas pode atenuar (art. 65, II, CP). Ignorância da lei ou errada compreensão, se escusáveis: pena pode deixar de ser aplicada (art. 8º, LCP). Cabe preventiva e temporária. Não cabe preventiva e temporária. Cabe interceptação telefônica se punido com reclusão (Lei 9296/96). Não cabe interceptação telefônica. Reincidência = prática de novo crime após transito em julgado de condenação anterior por crime. - crime anterior + crime posterior = reincidência; contravenção (anterior) e crime (posterior) = não há reincidência, mas gera maus antecendetes. Reincidência: condenação anterior por crime (no Brasil ou exterior) com trânsito em julgado + prática posterior de contravenção - contravenção anterior + contravenção posterior = reincidência; crime Sob o aspecto sociológico (dinâmico), direito penal é mais um instrumento (ao lado dos demais ramos do direito) de controle social de 5 comportamentos desviados, visando assegurar a necessária disciplina social, bem como a conveniência harmônica entre os membros do seu grupo (membros da sociedade). Ultima ratio (principio da intervenção mínima). OBS.: A manutenção da paz social demanda a existência de normas destinadas a estabelecer diretrizes. OBS.: Quando violadas as regras de condutas, surge para o Estado o dever de aplicar sanções (civis ou penais). OBS.: Nesta tarefa de controle social atuam vários ramos do Direito. OBS.: Quando a conduta atenta contra bens jurídicos especialmente tutelados, merece reação mais severa por parte do Estado, valendo-se do direito penal. OBS.: O que diferencia a norma penal das demais é a espécie de consequência jurídica (pena privativa de liberdade). Sob o aspecto material, o direito penal refere-se a comportamentos considerados altamente reprováveis ou danosos, afetando bens jurídicos indispensáveis à própria conservação e progresso da sociedade. Conduta criminosa (conceito formal) que atinge bens jurídicos de maneira relevante. Fundado sobre o princípio da lesividade. DIREITO PENAL CRIMINOLOGIA POLÍTICA CRIMINAL Analisa os fatos humanos indesejados, definindo quais devem ser rotulados como crime ou contravenção Ciência empírica que estuda o crime, sob o enfoque da pessoa do criminoso, da vítima e o comportamento da sociedade. Trabalha as estratégias e meios de controle social da criminalidade. 6 anunciando as respectivas penas. Ocupa-se do crime enquanto norma. Ocupa-se do crime enquanto fato e não enquanto norma. Ocupa-se do crime enquanto valor. OBS.: A criminologia e a política criminal fazem parte da ciência penal. Direito Penal: Missão Na atualidade, a doutrina divide a missão do Direito Penal em duas, tais quais: a) Missão mediata:Se subdivide em: controle social e limitação ao poder de punir estatal (poder de punir do Estado). OBS.: Se de um lado, o Estado controla o cidadão, impondo-lhe limites de outro lado é necessário também limitar o seu próprio poder de controle, evitando a hipertrofia da punição. b) Missão imediata: A doutrina diverge. Uma primeira corrente diz que a missão imediata serve para proteger bens jurídicos (funcionalismo de Roxin). Uma segunda corrente diz que a missão imediata serve para assegurar o ordenamento jurídico, a vigência da norma (Funcionalismo de Jakobs). Resumindo: Duas teorias com enfoque mundial (Função do direito penal - funcionalismo). a) Teleológico (Roxin): O fim do direito penal é assegurar bens jurídicos indispensáveis à convivência social valendo-se das medidas políticas/medidas criminais. b) Sistêmico (Jakobs): O fim do direito penal é resguardar a norma; resguardar o sistema; direito posto, atrelado aos fins da pena. Fazer valer 7 o sistema. Exemplo: furto de uma caneta “bic”. Para o conceito teleológico é princípio da insignificância e para o conceito sistêmico é furto; crime. 2. Posição na Teoria Geral do Direito: I - O Direito Penal é um ramo do Direito Público e, portanto, suas normas são indisponíveis e obrigatórias para todas as pessoas. II – O Estado é o titular exclusivo do direito de punir (ius puniendi). ✓ O Estado é ofendido em todo e qualquer crime. Assim, ele figura como sujeito passivo mediato e/ou imediato) de todo crime. 3. Nomenclatura: Direito Penal versus Direito Criminal I - No Brasil, o correto é falar em Direito Penal, pois há um Código Penal. Além disso, a Constituição Federal, em seu art. 22, I, afirma que compete privativamente à União legislar sobre Direito Penal. II – Crítica: a expressão Direito Penal é menos abrangente e enfatiza à ideia de pena (consequência de um crime). Por outro lado, Direito Criminal traz à tona um direito relativo ao crime, ou seja, é uma expressão mais ampla. ✓ No Brasil, houve um Código Criminal do Império de 1830. ✓ Até hoje, no Brasil, existiram três códigos de Direito Penal (Código Criminal do Império de 1830, Código Penal Republicano de 1890, e o atual Código Penal de 1940). Características do Direito Penal I - Magalhães Noronha: “O Direito Penal é ciência cultural normativa, valorativa e finalista”. De acordo com esse conceito, o Direito Penal, em primeiro lugar, é uma ciência, então possui valores, regras e princípios. ✓ As regras e princípios do Direito Penal formam a chamada “dogmática jurídico-penal”. ✓ Direito Penal como ciência cultural: é uma ciência que estuda o “dever ser”, ao contrário das ciências naturais, que estudam o “ser”. 8 ✓ Direito Penal como ciência normativa: o Direito Penal tem como objeto o estudo das normas jurídicas. ✓ Direito Penal como ciência valorativa: o Direito Penal possui uma escala própria de valores para cada fato que lhe é submetido. ✓ Direito Penal como ciência finalista: o Direito Penal tem que ter uma finalidade prática e não meramente acadêmica ou teórica. Assim, não adianta apenas discutir demasiadas teorias se não se objetivar a aplicação prática do Direito Penal. Obs.: A finalidade do Direito Penal é a proteção de bens jurídicos. II – Questão: o Direito Penal é constitutivo (cria algo novo) ou sancionador? Segundo Zaffaroni, “o direito penal é predominantemente sancionador e excepcionalmente constitutivo”. Como regra, o Direito Penal não cria nada de novo, surgindo para reforçar uma proteção já existente aos bens jurídicos. Assim sendo, o Direito Penal é predominantemente sancionador porque não cria bens jurídicos novos, mas acrescenta uma proteção penal aos bens jurídicos disciplinados por outras áreas do Direito. Exemplo: o Direito Civil protege a propriedade. Muitas vezes, essa proteção do Direito Civil não é suficiente e, nesse âmbito, o Direito Penal surge criando crimes de furto, roubo etc. Excepcionalmente, o Direito Penal é constitutivo, pois cria institutos que não existem em outros ramos de direito. Exemplo: criação do sursis e livramento condicional. CLASSIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA DO DIREITO PENAL DIREITO PENAL SUBSTANTIVO DIREITO PENAL ADJETIVO Corresponde ao direito penal material (crime/pena) Corresponde ao direito processual penal (processo/procedimento). 9 OBS.: Classificação existente quando o processo penal não era ramo autônomo do direito e sim um apêndice do direito penal. É uma classificação ultrapassada. DIREITO PENAL OBJETIVO DIREITO PENAL SUBJETIVO Traduz o conjunto de leis penais em vigor no país. Exemplo: código penal, lei de drogas, etc.. Refere-se ao direito de punir do Estado. Direito penal subjetivo positivo: Capacidade de criar e executar normas penais. Exemplo: Estado. Direito Penal subjetivo negativo: Poder de derrogar preceitos penais ou restringir seu alcance. Exemplo: STF no controle de constitucionalidade. O direito penal objetivo é expressão ou emanação do direito penal subjetivo. O direito penal objetivo é expressão do direito penal subjetivo, ou seja, do poder punitivo estatal. O direito de punir é monopólio estatal (somente o Estado tem o direito de punir alguém). O Estado detém o monopólio do direito de punir, ficando proibida a justiça privada. A justiça privada pode caracterizar o exercício arbitrário das próprias razões (art. 345 do CP). 10 OBS.: O direito de punir estatal não é absoluto, incondicionado e ilimitado. Encontra-se limites. Quanto ao modo, o direito penal deve respeitar direitos e garantias fundamentais (dignidade da pessoa humana, por exemplo). Quanto ao espaço, aplica-se a lei penal aos fatos praticados no território nacional (princípio da territorialidade – art. 5º do CP). Quanto ao tempo, o direito de punir não é eterno e a maior prova disso é a prescrição. OBS.: A legítima defesa é exceção, pois não é uma forma de punir e sim uma forma de defesa. A ação penal privada também é exceção, pois é um direito de perseguir a pena. A aplicação da pena continua sendo monopólio do Estado. OBS: Exceção ao monopólio ao direito de punir: Artigo 57 do Estatuto do índio (lei 6001/73). Será tolerada, a aplicação pelos seus membros, de sanções penais, mas respeitando a dignidade da pessoa humana, não pode ser cruel. Ex2: No caso do Tribunal Penal Internacional, o Brasil acaba abrindo mão de parcela de sua soberania. O TPI é subsidiário; é complementar às jurisdições penais e age nas hipóteses de falha do direito de punir do Estado. O Estatuto de Roma consagrou o princípio da complementaridade, isto é, o TPI não pode intervir indevidamente nos sistemas judiciais nacionais, que continuam tendo responsabilidade de investigar e processar os crimes cometidos nos seus limites territoriais, salvo nos casos em que os Estados se mostrem incapazes ou não de demonstrarem efetiva vontade de punir seus criminosos. O TPI não representa exceção à exclusividade do direito de punir do Estado. O art. 1º do Estatuto de Roma consagrou o princípio da complementariedade. O TPI será chamado a intervir somente se e quando a justiça repressiva interna falhe, seja omissa ou insuficiente. 11 DIREITO PENAL DE EMERGÊNCIA DIREITO PENAL PROMOCIONAL Cria normas penais que rasgam direitos e garantias fundamentais, somente para responder à altura o anseio da sociedade. Chamado de Direito Penal Político ou Demagogo. Visando a consecução dos seus objetivos políticos emprega leis penais, desconsiderando o princípio da intervenção mínima (usar o direito penal para transformação social). Atendendo demanda de criminalização, o Estado cria norma de repressão, ignorando garantias do cidadão. Contravenção de mendicância (foi revogado). Ao invés do Estado criarpolíticas públicas de assistência, ele resolve criminalizar a conduta. Finalidade: Devolver o sentimento de tranquilidade da sociedade. Exemplo: Lei 8.072/90 O direito penal simbólico é o resultado do direito penal de emergência, por isso não tem mais a distinção com o direito de emergência. Pergunta de concurso: O que é Direito penal de emergência, simbólico e promocional? ® Entenda: O Estado percebe a criminalidade em pontos alarmantes e chama o direito penal para limitar e derrogar garantias penais e processuais penais, a exemplo da lei dos crimes hediondos. Trouxe um direito penal de emergência, os crimes mais graves precisavam de uma resposta estatal mais eficiente, limitando garantias. Foi impedida progressão, que agora esta permitida, mas com um requisito temporal diferenciado, proibiu a liberdade provisória, proibiu 12 fiança, livramento condicional mais rigoroso, etc. A lei dos crimes hediondos é um claro exemplo de direito penal de emergência. Resposta: a) Direito penal de emergência: Direito Penal de Emergência: utilizado para limitar ou derrogar garantias penais e processuais penais em busca do controle da alta criminalidade (exemplo: lei 8.072/90). É movido pela sensação de insegurança presente na sociedade, o Direito Penal de emergência, atendendo demandas de criminalização, cria normas de repressão, afastando-se, não raras vezes, de seu importante caráter subsidiário e fragmentário, assumindo feição nitidamente punitivista, ignorando as garantias do cidadão. O Estado cria norma para atender ao anseio da sociedade, para dar a sensação de segurança ao povo por meio da tipificação de novos crimes. Ex.: lei de crimes hediondos (criada em situação excepcional). Esquecendo a real missão do Direito Penal, o legislador atua pensando (quase que apenas) na opinião pública, querendo, com novos tipos penais e/ou aumento de penas e restrições de garantias, devolver para a sociedade a (ilusória) sensação de tranquilidade. Permite a edição de leis que cumprem função meramente representativa, afastando-se das finalidades legítimas da pena, campo fértil para um Direito Penal Simbólico. b) Direito penal simbólico: o Estado, na pretensão de dar rápida resposta aos anseios sociais, muitas vezes criminaliza condutas sem qualquer fundamento criminológico e de política criminal, criando uma ilusão. Acaba cumprindo uma função simbólica. A lei necessária nasce sem qualquer eficácia social. Ex.: cria-se o tipo penal com pena desproporcional. Elaboração de lei sem fundamentação criminológica, que não apresentam respostas efetivas ao anseio da sociedade. 13 Nesse contexto, segundo Cleber Masson (2012, p. 11), o Direito Penal Simbólico diz respeito a uma política criminal, que vai além da aplicação do direito penal do inimigo, e sim as próprias consequências do efeito externo que a aplicação da lei não produz. Manifesta-se, desse modo, com o direito penal do terror, pelo qual se verifica uma inflação legislativa, que cria figuras penais desnecessárias ou, então, o aumento desproporcional e injustificado das penas para os casos determinados. Pode-se, assim, afirmar que o Direito Penal simbólico, geralmente, apresenta-se através de propostas que visam se aproveitar do medo e da sensação de insegurança. Nesse sentido, o propósito do legislador não é a real proteção dos bens jurídicos atingidos pelo delito, mas uma forma de adular a população, dizendo o que ela quer ouvir, fazendo o que ela deseja que se faça, mesmo que isso não surta qualquer efeito na diminuição da criminalidade e da violência. Nessa esteira, quando um fato ganha repercussão, nascem propostas de aumento de pena, de supressão de direitos individuais, de criação de novos tipos penais, mesmo que não seja alternativa adequada para realmente se solucionar com conflitos. Assim, o que o Estado deseja, na verdade, é agir de forma que satisfaça o sentimento emocional de um povo atemorizado. c) Direito penal promocional (político ou demagago): ocorre quando o Estado utiliza as leis penais para a consecução de suas finalidades políticas. Acaba por ignorar o princípio da intervenção mínima. É criticado pela doutrina, o Direito Penal Promocional (político ou demagogo) surge quando o Estado, visando concretizar seus objetivos políticos, emprega as leis penais como instrumento, promovendo seus interesses, estratégia que se afasta do mandamento da intervenção mínima, podendo (e devendo) valer-se, para tanto, dos outros ramos do Direito. É equivocada a utilização do Direito Penal como ferramenta de transformação social. Até 2009, a mendicância era infração penal! 14 Ao invés de usar o direito penal para transformação social, é utilizado como instrumento de políticas públicas (note-se que a finalidade do direito penal é controle social, e não transformação social). Nesse caso, desconsideram-se o princípio da intervenção mínima Funções do Direito Penal: a) Proteção de bens jurídicos: Essa é a principal função do Direito Penal. Roxin diz que, na verdade, é a única função do Direito Penal. ✓ Roxin afirma que essa é a função por excelência do Direito Penal. Essa função confere validade e legitimidade ao Direito Penal. ✓ Bens jurídicos são valores ou interesses relevantes para a manutenção e o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade. ✓ Nem todo bem jurídico é bem jurídico penal, pois nem todo bem jurídico merece a proteção do Direito Penal, mas apenas os bens jurídicos mais relevantes. Nesse aspecto, é necessário realizar um juízo de valor positivo para se descobrir quais são os bens jurídicos efetivamente merecedores de proteção do Direito Penal. Quem faz esse juízo de valor positivo é a Constituição Federal (Teoria Constitucional do Direito Penal). ✓ O Direito Penal somente é legítimo quando protege valores consagrados na Constituição Federal. Todo e qualquer crime precisa ter fundamento constitucional. Exemplo: o crime de homicídio surgiu para proteger a vida (art. 5º, caput, CF). Objetos do crime: Temos - Objeto jurídico: bem jurídico protegido pela lei penal. No crime de furto, o objeto jurídico é o patrimônio; no crime de estupro, o objeto jurídico é a liberdade sexual. OBS.: Atenção! Todo crime tem objeto jurídico. - Objeto material: pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta criminosa. No crime de lesões corporais, o objeto material é a pessoa agredida (então é possível que, em alguns crimes, o sujeito passivo se confunda com o objeto material); no crime de dano, a coisa destruída; 15 no crime de homicídio, a pessoa que foi morta. Também não se pode confundir objeto material com instrumento do crime (meio usado para praticar o crime). *Atenção! Há crimes sem objeto material: crimes de mera conduta; crimes omissivos próprios (omissão de socorro – art. 135, CP); alguns crimes formais (falso testemunho – art. 342, CP). Responsabilidade penal da pessoa jurídica: - societas delinquere non potest = pessoa juridica não pode delinquir. Constituição Federal Art. 173. (...) § 5º A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. Art. 225. (...) § 3º As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. - Há divergência na doutrina a respeito da responsabilização penal da pessoa jurídica: Luis Regis Prado e Cezar Bitencourt (contra); Nucci (favor). - Críticas: PJ não tem vontade; principal pena do nosso sistema não pode ser aplicada (privativa de liberdade); não há culpabilidade (reprovaçãopessoal) para a PJ. As críticas não são consistentes, pois é possível que a vontade da pessoa jurídica seja destacada da vontade de seus diretores; o não cabimento da pena privativa não conduz à conclusão de que a PJ não pode praticar crime. A questão da culpabilidade é realmente mais difícil de ser rebatida, mas ainda assim é possível dizer que, como a PJ tem vontade diversa de seus membros, 16 ela tem consciência e vontade próprias. - Jurisprudência pacífica do STF e STJ admite a responsabilização penal da pessoa jurídica. - Pessoa jurídica de direito público pode sofrer responsabilização criminal? A corrente majoritária admite, não havendo razão para diferenciar em relação às pessoas jurídicas de direito privado. - Entes despersonalizados: massa falida, condomínio, espólio etc.; por falta de previsão legal, não podem ser criminalizados. - STF não admite habeas corpus em favor de pessoa jurídica. - Dupla imputação: a jurisprudência atual do STF e do STJ não exige a dupla imputação, ou seja, que sejam denunciados obrigatoriamente a pessoa jurídica e a pessoa física responsável. Portanto, é possível que somente a pessoa jurídica conste no polo passivo da ação penal. b) Instrumento de controle social: O Direito Penal é dirigido indistintamente a todas as pessoas, embora apenas uma minoria das pessoas pratique crime e contravenções penais. O Direito Penal, com a ameaça de uma sanção penal, é mais um instrumento que o Estado dispõe para a manutenção do controle social e a preservação da paz pública. Essa função não tem se mostrado relevante na atualidade. c) Garantia: Nesse aspecto, utiliza-se o princípio da reserva legal (legalidade estrita), pois somente a lei pode criar crimes e cominar penas ✓ A partir do momento em que o Estado cria um Código Penal, isso é uma garantia, pois, antes de punir, ele visa à proteção das pessoas. ✓ Com a existência de Código Penal e leis penais, as pessoas sabem quais são as 17 condutas que não devem adotar. Para todo o resto, as pessoas são livres. ✓ Franz von Liszt dizia: “o Código Penal é a Magna Carta do delinquente” d) Função ético-social do Direito Penal I - George Jellinek afirma que toda a sociedade precisa ter um mínimo ético. A função ético-social do Direito Penal se relaciona com o mínimo ético defendido por tal filósofo. II – A função ético-social é também conhecida por função criadora ou configuradora dos costumes, ou seja, essa função estabelece uma ligação entre o Direito Penal e valores éticos de uma sociedade. ✓ Tal função busca o efeito moralizador (função educativa) das pessoas e da sociedade com o Direito Penal. Exemplo: a lei dos crimes ambientais ajudou a criar ou a reforçar nas pessoas um sentimento de preservação do meio ambiente. e) Função simbólica I - A função simbólica existe em todos os ramos do direito. Entretanto, no Direito Penal, ela é mais acentuada. II - A função simbólica é aquela que produz somente efeitos internos na mente dos governantes e dos governados. Essa função reflete o fato de que a função simbólica é um Direito Penal que não produz efeitos práticos/concretos. Exemplo: a CF/1988 cita os crimes hediondos. Em 1989, surgiu uma onda de crimes de extorsão mediante sequestro. Posteriormente, sequestraram Abílio Diniz, empresário poderoso e influente da época. A partir disso, o Congresso Nacional resolveu criar a Lei de Crimes Hediondos (Lei 8072/90) como “solução” para o problema. A criação dessa lei criou a falsa sensação de segurança nos governados. A função simbólica cria nos governantes uma falsa sensação e pretensão de estarem realizando ações para combaterem a criminalidade. Por outro lado, tal função cria na população uma falsa sensação de tranquilidade. 18 ✓ É por esse motivo que a função simbólica somente produz somente efeitos internos nas mentes dos governantes e dos governados. ✓ Em suma: Os governantes utilizam a criação de crimes como propaganda governamental. Os governados têm uma falsa sensação de tranquilidade. O professor destaca que, recentemente, o Pacote anticrime (Lei 13.964/2019) trouxe uma ementa presunçosa, com fins ao combate à criminalidade. III - A função simbólica está intimamente ligada ao Direito Penal de emergência, a uma inflação do Direito Penal e à hipertrofia do Direito Penal, pois são criadas exageradamente figuras penais desnecessárias, ou então há o aumento desproporcional e injustificado das penas para os casos pontuais. IV – A função simbólica deve ser alvo de muitas críticas, pois, a curto prazo, ela estabelece uma propaganda de programas governamentais. Além disso, em médio e longo prazo, a função simbólica resulta na perda de credibilidade do Direito Penal, pois é possível perceber que ele não funciona. f) Função motivadora: Ao criar crimes e cominar penas, o Direito Penal motiva os indivíduos a não violarem suas normas. g) Função de redução da violência estatal I - Jesús Maria Silva Sánchez é um doutrinador espanhol que versa sobre esse tema e trabalha as velocidades do direito penal. ✓ Ele tem uma obra muito importante chamada “Aproximação ao direito penal contemporâneo”. ✓ Silva Sánchez afirma que a imposição de uma pena, por mais legítima que seja, representa uma violência do Estado contra o cidadão. ✓ Silva Sánchez defende que o Direito Penal deve incriminar apenas as condutas estritamente necessárias e prever penas cada vez mais proporcionais, de modo a diminuir a violência do Estado contra o 19 cidadão. ✓ O criminoso não deixa de ser cidadão. II - O professor defende que função de redução da violência estatal é uma nova forma de se observar o princípio da intervenção mínima no Direito Penal. h) Função promocional I - Para essa teoria, o Direito Penal não deve se preocupar em manter a sociedade como ela se encontra atualmente, mas deve promover uma melhora da sociedade. O Direito Penal deve ser visto como um dos instrumentos de transformação social. II - O Direito Penal não deve ser empecilho ao progresso, mas ferramenta que auxilia a ordem social e promove as mudanças estruturais necessárias para a evolução da comunidade. 5 – Ciência Penal 5.1. Dogmática penal: I - A palavra dogmática vem de dogma, já que, para o intérprete, os princípios e regras ordenados pelo Direito Penal são regras absolutas a que ele deve se vincular. II - Dogmática penal não deve ser confundida com dogmatismo. ✓ Dogmatismo é aceitação cega e imutável de algo como absoluto. III – A finalidade da dogmática penal é conhecer/desvendar o sentido das normas penais como forma de resolver os problemas práticos que aparecem. IV- A dogmática penal é a interpretação, sistematização e aplicação lógico-racional do direito penal. 5.2. Política criminal: I – A política criminal apresenta propostas e críticas para o aperfeiçoamento do Direito Penal. ✓ Trata-se de um “filtro” entre a letra fria da lei e os anseios da sociedade acerca do Direito Penal. II – Em suma, a política criminal é a aplicação do Direito Penal em sintonia com os anseios da sociedade atual. 5.3. Criminologia: I - Criminologia é uma ciência empírica e interdisciplinar. ✓ Empírica porque leva em conta aquilo que pode ser comprovado cientificamente. ✓ Interdisciplinar porque se relaciona com outras áreas do conhecimento humano. II – O Direito Penal estuda 20 basicamente as consequências do crime. A Criminologia, por sua vez, estuda as causas do crime, os aspectos sintomáticos, individuais e sociais do crime e da criminalidade, isto é, aborda cientificamente os fatores que podem conduzir o homem ao crime. 5.4. Vitimologia: I – O Código Penal é de 1940 e sempre foi (e ainda é) tímido em relação à preocupação com a vítima. ✓ O Código Penal, essencialmente, preocupa-se com o agente. II – Mesmo quando o Código Penal cita a vítima, ele o faz pensandoem favorecer o réu. Exemplo: arrependimento posterior (art. 16 do CP). III – O professor afirma que, felizmente, essa postura está se alterando O acordo de não persecução penal, por exemplo, exige que os danos à vítima sejam reparados antes de haver qualquer acordo. Outro exemplo disso é a nova sistemática de arquivamento do inquérito policial, pois a vítima é intimada do pedido de arquivamento e pode se manifestar sobre esse fato, podendo apresentar para o órgão de revisão do arquivamento as razões pelas quais o inquérito não deve ser arquivado. 6. Divisões do Direito Penal 6.1. Direito Penal fundamental versus Direito Penal complementar: I – O Direito Penal fundamental é chamado de Direito Penal primário. O Direito Penal complementar é chamado de Direito Penal secundário. II - O Direito Penal fundamental são as regras gerais do Direito Penal, aplicáveis, inclusive, aos crimes previstos por leis especiais, quando estas leis especiais não possuem regras específicas sobre um determinado assunto. Exemplo: o Código Penal contém as regras gerais sobre prescrição. Entretanto, se alguma lei especial apresentar regra específica sobre o tema, a norma específica será a aplicável. A Lei de Drogas, por exemplo, possui prazo diferente para a prescrição do crime do art. 28 (Lei 11.343/06). III – Existem regras gerais do Direito Penal previstas, excepcionalmente, na Parte Especial do Código Penal. Exemplo: art. 327 do CP (conceito de funcionário público para fins penais). IV – O Direito 21 Penal complementar ou secundário são as normas especiais de Direito Penal. Ele está previsto na legislação penal extravagante. 6.2. Direito Penal comum versus Direito Penal especial: I - Direito Penal comum é aquele aplicável a todas as pessoas indistintamente. Exemplo: Código Penal e Lei de drogas. II - Direito Penal especial é aquele que se aplica somente a determinadas pessoas que preenchem requisitos diferenciados exigidos em lei. Exemplo: Código Penal Militar. 6.3. Direito Penal geral versus Direito Penal local I – Direito Penal geral é aquele produzido pela União e com aplicabilidade em todo o território nacional. II – Direito Penal local é aquele produzido pelo estado membro e com validade limitada ao respectivo território. Exemplo: imagine que o estado do Paraná crie um crime específico para o seu território. 6.4. Direito Penal objetivo versus Direito Penal subjetivo I - Direito Penal objetivo são as leis penais em vigor. Trata-se do conjunto de todas as leis penais que estão em vigor. II - Direito Penal subjetivo é o ius puniendi, ou seja, é o direito de punir, o qual pertence ao Estado. III – O direito de punir é abstrato e se dirige indistintamente a todas as pessoas. Quando a lei penal é violada, o direito penal que era abstrato se concretiza para punir aquela determinada pessoa. 6.5. Direito Penal material versus Direito Penal formal I - Direito Penal material é também chamado de Direito Penal substantivo. Trata-se do Direito Penal propriamente dito. II - Direito Penal formal é também chamado de Direito Penal adjetivo. Trata-se do nome dado ao Direito Processual Penal. VELOCIDADES DO DIREITO PENAL Trabalham com a gravidade do crime e o tempo que o Estado leva para punir o autor de uma infração penal mais ou menos grave (idealizada por Silva Sanchez). 22 Primeira velocidade: Enfatiza infrações mais graves, punidas com penas privativas de liberdade, exigindo procedimento mais demorado, observando todas as garantias penais e processuais. Segunda velocidade: Flexibiliza direitos e garantias fundamentais, possibilitando punição mais célere, mas, em contrapartida, prevê penas alternativas. Terceira velocidade: Mescla as duas anteriores. Defende a punição do criminoso com pena privativa de liberdade (primeira velocidade), permitindo, para determinados crimes, flexibilização de direitos e garantias fundamentais/constitucionais (segunda velocidade). Primeira velocidade Segunda Velocidade Terceira Velocidade Penas privativas de liberdade Penas alternativas Penas privativas de liberdade Procedimento: Garantista. Exemplo: Código de Processo Penal Procedimento: Flexibilizado. Exemplo: Lei 9.099/95 Procedimento: Flexibilizado. Exemplo: Lei 9.034/95 (lei das organizações criminosas). OBS.: Alguns doutrinadores chamam de quarta velocidade, o direito penal que se preocupa com bens jurídicos imateriais (difusos e coletivos). ESCOLAS PENAIS 1.1. Escola clássica No final do século XVIII, verifica-se uma tendência de reforma nas leis e na administração da justiça, propiciada por um extraordinário movimento de ideias, ao qual se denominou Iluminismo. Verdadeiro marco do direito penal ocorre em 1764, com a publicação, em Milão, da obra Dos delitos e das penas, de Cesare Bonesana, o Marquês 23 de Beccaria. A obra constitui um libelo contra a pena de morte e as arbitrariedades da época, pregando a humanização das penas. A obra de Beccaria deu origem à chamada Escola Clássica de direito penal, nome que foi dado pelos positivistas, com sentido negativo. Heleno Cláudio Fragoso aponta certos princípios fundamentais, tidos como postulados da escola clássica: a) O crime é um ente jurídico, é a violação do direito, como exigência racional (e não como norma jurídica do direito positivo); b) Responsabilidade penal fundada no livre-arbítrio, sendo a liberdade de querer um axioma fundamental para todo o sistema do direito punitivo; c) A pena é retribuição jurídica e restabelecimento da ordem externa violada pelo delito; d) Método lógico-abstrato no estudo do direito penal (Lições de direito penal: parte geral. 16. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 52-53). 1.2. Escola positiva Surge no final do século XIX, época de predomínio do pensamento positivista. O início dessa fase ocorre com a publicação de O homem delinquente (1876), de Cesare Lombroso (fase antropógica). Lombroso introduziu a aplicação do método experimental no estudo da criminalidade, desenvolvendo a teoria do criminoso nato (atavismo), cujas anomalias constituiriam um tipo antropológico específico. Apesar do fracasso de sua teoria, Lombroso teve o mérito de fundar a Antropologia Criminal, que visa a encontrar, por meio do estudo antropológico do criminoso, uma explicação causal de seu comportamento. A teoria de Lombroso foi posteriormente seguida, ainda que com algumas divergências, por seus discípulos, Enrico Ferri e Rafael Garofalo. 1.3. Terceira escola Posteriormente, surgiram movimentos ecléticos, que buscaram conciliar os postulados das duas escolas penais anteriores. Assim, a chamada Terceira Escola (Terza Scuola) defendia a manutenção da autonomia do 24 direito penal, mas aliada à Filosofia do Direito, ao mesmo tempo que se deveriam promover investigações antropológicas e sociológicas do crime. A Terceira escola prestigia o método lógico-abstrato e dedutivo, em contraposição ao experimental, além de negar a existência do criminoso nato. MODELOS DE DIREITO PENAL 1.1. Direito penal mínimo: Intimamente ligado à ideia de intervenção mínima, segundo a qual o Direito Penal deve ser utilizado apenas em se tratando dos ataques mais graves aos bens jurídicos mais relevantes, e apenas quando outros instrumentos, jurídicos ou não, forem insuficientes à sua tutela. 1.2. Garantismo: Nesse contexto surge o garantismo, cujo maior expoente é Luigi Ferrajoli. O garantismo é um modelo normativo de direito penal e processual penal, caracterizado pela estrita legalidade, voltado a minimizar a violência e a maximizar a liberdade. O garantismo prega a intervenção mínima do Direito Penal. Dez axiomas garantistas desenvolvidos por Ferrajoli: 1. Não há pena sem crime 2. Não há crime sem lei 3. Não há lei sem necessidade 4. Não há necessidade sem ofensa a bem jurídico 5. Não há ofensaa bem jurídico sem conduta 6. Não há conduta sem culpabilidade 7. Não há culpabilidade sem o devido processo legal 8. Não há processo sem acusação 9. Não há acusação sem provas 25 10. Não há provas sem defesa *** O que é garantismo hiperbólico monocular e garantismo integral? Garantismo hiperbólico monocular é uma nomenclatura com conotação pejorativa. É hiperbólico porque amplia de forma exagerada e desproporcional os direitos e garantias penais e processuais penais, e monocular por levar em consideração apenas os interesses do réu. Em contraposição, garantismo penal integral é aquele que visa resguardar não somente os direitos do réu (garantismo negativo), mas também o da sociedade (garantismo positivo). Está relacionado à ideia da dupla face da proporcionalidade, que preceitua a proibição do excesso e também a proibição da proteção deficiente. Garantismo integral = garantismo negativo + garantismo positivo 1.3. Abolicionismo penal Os abolicionistas pretendem a eliminação do Direito Penal, considerando que a sua existência traz mais prejuízos que benefícios. O Direito Penal serviria apenas para legitimar injustiças sociais, sendo caracterizado pelo seletivismo e pelo elitismo. Alguns dos expoentes do abolicionismo são Louk Hulsman, Thomas Mathiesen e Nils Christie. 1.4 Direito penal máximo Associado aos movimentos “Lei e ordem” e “Tolerância zero”, parte da ideia de que, se o Direito Penal não é eficaz, é porque não é suficientemente severo. Deve-se punir as pequenas infrações, para evitar infrações maiores, bem como recrudescer as sanções penais. Nenhum culpado deve sair impune, ainda que às custas do sacrifício de algum inocente. 26 FONTES DO DIREITO PENAL Fonte diz respeito à origem, ou seja, à criação do Direito Penal, mas também se relaciona à forma de manifestação da lei penal (aplicação prática). Conceito: Lugar (direito material) de onde vem e como se exterioriza o direito penal (direito formal). a) Fonte material: É a fonte de produção da norma. Órgão encarregado de criar direito penal. Exemplo: União (art. 22, inciso I da CF). I – Fonte material diz respeito ao órgão constitucionalmente encarregado de elaborar o Direito Penal. II – No Brasil, a criação do Direito Penal é feita precipuamente pela União, nos moldes do art. 22, I, Constituição Federal. III – Questão: os estados podem legislar sobre Direito Penal? Em regra, não. Excepcionalmente sim. (CF, art. 22, parágrafo único). Para que os estados possam legislar sobre Direito Penal, a CF impõe dois requisitos: 1º) Deve se tratar de matéria de interesse específico daquele estado; e 2º) Deve existir autorização da União, exteriorizada por lei complementar. O professor ressalta que é muito raro um estado legislar sobre Direito Penal, pois o procedimento é bastante complexo e é difícil existir uma questão que interesse a apenas um estado. OBS: Artigo 22, parágrafo único, CF que fala da lei complementar no que tange a autorização a todos os entes a legislar sobre direito penal e sobre questões específicas. Matéria especifica => interesse local. Poderes restritos ao interesse local. b) Fonte formal: Instrumento de exteriorização do direito penal. O modo como as regras são reveladas. Fonte de conhecimento ou cognição. I – As fontes formais dizem respeito à aplicação prática do Direito Penal. b.1) imediata: Lei. Trata-se da própria lei, pois apenas pode criar crimes e cominar as respectivas penas (art. 5º, XXXIX da CF). Essa lei é a lei ordinária. ✓ Observação 1: a lei complementar depende de quórum 27 diferenciado e só versa sobre temas que a CF a ela reservou. Ocorre que a CF, em momento algum, destinou a criação de crimes e a cominação de penas à lei complementar. ✓ Observação 2: lei em sentido formal é aquela criada conforme o processo legislativo estabelecido na CF. Lei em sentido material é aquela que trata de conteúdo constitucionalmente reservado à lei. b.2) mediata: costumes, princípios gerais do direito. Não criam cries nem cominam penas, pois somente a lei pode fazê-los, mas auxiliam na aplicação prática do Direito Penal. A doutrina não é unânime sobre quais são as fontes mediatas. OBS.: Se a lei é fonte formal imediata, e a CF/88? E os tratados Internacionais de direitos humanos? Eles revelam ou não revelam direito penal de garantia? ® Entenda: Se essa classificação está correta, onde se encaixam a jurisprudência? E a súmula vinculante? E os atos administrativos complementos das normais penais em branco? Essa doutrina tradicional esquece outras normas que revelam direito penal, que é visualizada pela doutrina moderna. Essa classificação está totalmente ultrapassada. Segue abaixo o quadro esquematizado com base na doutrina moderna. FONTE FORMAL (DOUTRINA CLÁSSICA) FONTE FORMAL (DOUTRINA MODERNA) Imediata: lei Imediata: lei, CF, tratados internacionais de direitos humanos, jurisprudências, princípios e atos administrativos. Mediata: costumes e princípios gerais de direito Mediata: doutrina. *** E os costumes? Fonte informal do direito penal. 28 Lei: Fonte formal imediata. Único instrumento normativo capaz de criar infrações penais e cominar sanções. OBS.: A CF também é fonte formal imediata. Muito embora não possa criar infrações penais ou cominar sanções (isso é exclusivo da lei e porque tem um processo legislativo muito rígido), a CF nos revela direito penal estabelecendo patamares mínimos (mandados constitucionais de criminalização) abaixo dos quais a intervenção penal não se pode reduzir. Ex.: Mandados constitucionais de criminalização- ex.: art. 5º, XLII e XLIV da CF. STF. Constituição Federal: como a CF/1988 é analítica, ela contém muitas disposições sobre Direito Penal. Devido a isso, muitos citam a existência de uma “Constituição Penal”. ✓ Constituição Penal é o conjunto de regras e princípios previstos na CF/1988 que tratam sobre Direito Penal. ✓ A Constituição Federal não pode ser fonte imediata do Direito Penal, pois essa função é da lei, a qual cria crimes e comina penas. ✓ Se a Constituição Federal, por meio de emenda, criasse crimes e cominasse penas, isso poderia ser considerado uma norma constitucional inconstitucional. *** Existe mandado de criminalização implícito? De acordo com a maioria, ao lado das obrigações expressas de criminalização, existem as obrigações implícitas, com a finalidade de evitar a intervenção insuficiente do Estado (imperativos de tutela), como por exemplo, o artigo constitucional que garante a vida. Ao trazer essa garantia, a Constituição Federal, de forma implícita, obriga o legislador a punir o homicídio. O STF reconheceu a existência dos mandados constitucionais de criminalização no HC 104410 Tratados Internacionais de Direitos Humanos: Podem ingressar no nosso ordenamento de duas formas, tais quais: a) status constitucional, se aprovado com quórum de emenda b) norma supralegal (infraconstitucional), se aprovado com quórum comum/simples. Para o tratado produzir efeitos no Brasil, é necessário 29 que ele seja incorporado ao ordenamento jurídico brasileiro (assinatura do tratado, aprovação pelo Congresso Nacional por meio de decreto legislativo e promulgação pelo Presidente da República por meio de decreto). OBS.: Os tratados internacionais de direitos humanos não podem criar crime ou cominar pena para o direito interno, só no âmbito do direito penal internacional; Serão mais documentos de garantia do que de punição. O tratado internacional de direitos humanos, ainda que não tenha sido aprovado com status de norma constitucional, terá o status de norma supralegal. Assim sendo, os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos são fontes formais mediatas do Direito Penal, pois eles auxiliam a aplicação do Direito Penal e não criam crimes nem cominam penas. OBS.:Antes da Lei 12.694/12, o STF, no julgamento do HC 96007, decidiu pela proibição da utilização da definição de organização criminosa dada pela Convenção de Palermo, reafirmando que os tratados internacionais não podem criar crimes ou cominar penas para o direito interno, mas apenas para o direito internacional. Jurisprudência: Fonte formal imediata. Revela direito penal, inclusive podendo ter caráter vinculante. Ela não precisa ter caráter vinculante para revelar o direito penal. Artigo 71 do CP. A jurisprudência define as condições de tempo, lugar, etc. A jurisprudência é o conjunto de decisões reiteradas do Poder Judiciário no mesmo sentido. A jurisprudência revela o entendimento do tribunal sobre um determinado assunto. Questão: *** A jurisprudência é fonte do direito? A doutrina, no geral, afirma que a jurisprudência é fonte do direito. Na opinião do professor, a jurisprudência nem sempre é fonte do direito. Para ele, ela será fonte do direito: 1º) Na decisão do caso concreto, em respeito à coisa julgada. 2º) Nos casos de súmula vinculante, pois ela é obrigatória para todos os órgãos do Poder Judiciário e para os órgãos públicos. 3º) Nas hipóteses do art. 927 do CPC. Este dispositivo, como fonte do Direito Penal, permite 30 a obtenção de segurança jurídica, isonomia, unidade e coerência sistêmica, além de proporcionar confiança, pois, se casos iguais recebem tratamento igual, as pessoas passam a confiar no Poder Judiciário. Princípios gerais do direito: Não raras vezes, os tribunais absolvem ou reduzem pena com fundamento em princípios. Exemplo: Princípio da insignificância gerando causa de atipicidade. São fontes mediatas do Direito Penal, pois auxiliam a aplicação do Direito Penal, mas não criam crimes nem cominam penas. Atos administrativos: Revelam-se como fonte quando complementam norma penal em branco. Exemplo: Lei de drogas. Os atos administrativos podem funcionar como complemento das normas penais em branco. Exemplo: a relação de quais são as substâncias consideradas drogas no Brasil consta em Portaria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. *** E a doutrina? É classificada como fonte formal mediata. Alguns autores dizem que a doutrina é fonte formal mediata do direito. O professor, entretanto, acredita que não é o caso, pois, no Brasil, vigora o estado democrático de direito e qualquer pessoa pode escrever sobre qualquer coisa. Assim sendo, adotar a doutrina como jurisprudência, na opinião do professor, seria temerário. Doutrina, segundo o professor, não é fonte do direito porque não possui caráter obrigatório e não vincula a população. *** E os costumes? São classificados como fontes informais do direito penal. Os costumes serão estudados juntamente com o princípio da legalidade (3ª aula). O costume é a reiteração de um comportamento em face da crença da sua obrigatoriedade. O costume possui dois elementos: 1º) elemento objetivo: repetição do comportamento. 2º) elemento subjetivo: crença na sua obrigatoriedade. Espécies de costumes: 31 1º) Costume interpretativo (secundum legem): é aquele que auxilia o intérprete a esclarecer o conteúdo de norma penal. Exemplo 1: a expressão “mulher honesta era compreendida de diversas formas ao longo do território nacional. Exemplo 2: ato obsceno (art. 233, CP). 2º) Costume negativo ou contra legem (desuetudo): é aquele costume contrário à lei, que não a revoga. Manifesta-se nas hipóteses de desuso da lei. Exemplo: a prática da contravenção penal de jogo do bicho, definida pelo art. 58 do Decreto-lei 3.688/19416. Observação: uma lei somente pode ser revogada por outra lei, nos termos do art. 2º, § 1º, Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. Assim, o costume negativo não revoga a lei. 3º) Costume integrativo ou praeter legem: é aquele que visa suprir uma lacuna da lei. Esse costume somente pode ser utilizado no campo das normas penais não incriminadoras. Exemplo: circuncisão peniana feita pelos israelitas. Observação: o costume integrativo ou praeter legem possibilita o surgimento de causas supralegais de exclusão da ilicitude ou da culpabilidade. INTERPRETAÇÃO DA LEI PENAL O ato de interpretar é necessariamente feito por um sujeito que empregando determinado modo chega a um resultado. Extrair (interpretar) da norma o seu real significado. Se divide em: a) Sujeito (origem) b) Modo c) Resultado A) Quanto ao sujeito: a.1) autêntica/legislativa: É dada pela própria lei. Ex. Artigo 327 do CP ao definir funcionário público que para o direito penal é aquele que exerce cargo, emprego e função pública. a.2) doutrinaria/científica: dada pelos estudiosos. 32 a.3) jurisprudencial: fruto das decisões reiteradas dos nossos tribunais, hoje podendo adquirir caráter vinculante (exemplo: súmulas vinculantes). OBS: A exposição de motivos do código penal é dada pelos estudiosos que participaram da sua elaboração. (Rogério Greco e Flávio Monteiro de Barros). É doutrinária, pois não foi votada pelo Congresso Nacional e muito menos sancionada pelo Presidente da República. Do CPP é autêntica. OBS.: A exposição de motivos do código penal é um exemplo de interpretação doutrinária, elaborada pelos doutos que elaboraram o CP. Diferente do CPP, pois a exposição de motivo nos é dada por lei (lei 1.001) B) Quanto ao modo: b.1) gramatical/filológica/literal/sintática: leva em conta o sentido literal das palavras. b.2) teleológica: indaga-se a vontade ou intenção objetivada na lei. Busca alcançar a finalidade da lei. Perquire a intenção objetivada na lei. A interpretação lógica é também chamada de teleológica. Trata-se daquela realizada com a finalidade de desvendar a genuína vontade manifestada na lei, nos moldes do art. 5º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. É mais profunda e, consequentemente, merecedora de maior grau de confiabilidade. Neste caso, o intérprete levará em consideração elementos históricos, direito comparado e elementos extrajurídicos etc. b.3) histórica: procura-se a origem da lei. Indaga a origem da lei. b.4) sistemática: considerada a mais rica. Conjunto da legislação ou dos PGD. Aqui você não analisa de forma isolada. Há análise de todo ordenamento jurídico para buscar solução que resolva o conflito. A lei é interpretada em conjunto com a legislação ou PGD. A lei é interpretada com o conjunto da legislação ou com os princípios gerais de direito. 33 b.5) progressiva/adaptiva/adaptativa/evolutiva: a lei é interpretada de acordo com o progresso da ciência ou informática. Busca o significado legal de acordo com o progresso da ciência. Exemplo: Artigo 213 do CP. Homem não pode ser vítima de estupro. O transexual pode ser vítima de estupro? Roberta Close: transexual é aquele que tem uma dicotomia físico-psíquico, poderia ser vítima? Numa interpretação progressiva diz Rogério Greco que poderia ser vítima sim → quando realizou a cirurgia de ablação definitiva do órgão atualizando o seu registro civil. *** Qual o modo utilizado pelos juízes para interpretar? Na prática, os juízes primeiro interpretam buscando seu objetivo (aonde ele quer chegar) e depois ele procura os meios para chegar ao seu objetivo. OBS: Para Rogério Greco, utilizando a interpretação progressiva, o transexual operado pode ser vitima de estupro. – Questão: Hermenêutica e exegese possuem o mesmo significado? Hermenêutica é a ciência que estuda a interpretação das leis. Exegese é a atividade prática de interpretar uma lei. C) QUANTO AO RESULTADO: c.1) declaratória: É aquela em que a letra da lei corresponde exatamente aquilo que o legislador quis dizer. Nada suprimindo e nada adicionando. É aquela em que há perfeita coincidência entre o texto da lei e sua vontade c.2) extensiva: É aquela que amplia o alcance das palavras da lei para alcançar a vontade do texto. É aquela em quea lei disse menos do que queria. Neste caso, o intérprete amplia o seu alcance. Exemplo 1: o art. 235 do CP trouxe o crime de bigamia. Entretanto, a poligamia também é criminalizada. Exemplo 2: o art. 159 do Código Penal trouxe o crime extorsão mediante sequestro, que também abrange a extorsão mediante cárcere privado. ✓ A interpretação extensiva é cabível no Direito Penal e não se confunde com a analogia in malam partem. Na analogia in malam 34 partem, existe lacuna da lei. Na interpretação extensiva, a atividade não é de integração da lei, mas apenas de interpretação. c.3) restritiva: É aquela que reduz o alcance das palavras para corresponder a vontade do texto da lei. É aquela em que a lei disse mais do que queria. O intérprete vem para restringir seu conteúdo. Relembrando: Quanto ao sujeito Quanto ao modo Quanto ao resultado Autêntica Literal Declarativa Doutrinária Teleológica Restritiva Jurisprudencial Histórica Extensiva Sistemática Progressiva Interpretação progressiva, adaptativa ou evolutiva: Interpretação progressiva, adaptativa ou evolutiva é aquela em que se busca adaptar o texto da lei à evolução da sociedade. Interpretação analógica ou intra legem: Não se confunde com a analogia e ocorre quando a lei traz uma fórmula casuística (fechada), seguida de fórmula genérica (aberta). Exemplo: o art. 121, § 2.º, I, do CP afirma que é qualificado o homicídio praticado mediante paga ou promessa de recompensa ou por outro motivo torpe. OBS.: A doutrina lembra, ainda, duas espécies de interpretação, tais quais: a) sui generis: Se subdivide em: a.1) exofórica: O significado da norma interpretada não está no ordenamento normativo. Ex. Artigo 20 do CP. O significado do “tipo” está na doutrina e não na lei. a.2) endofórica: O texto normativo interpretado empresta o sentido de outros textos do próprio ordenamento normativo. Art. 237 do CP 35 (impedimentos para o casamento – o Código Civil enuncia os impedimentos para o casamento). Essa interpretação é muito utilizada nas normas penais em branco. b) conforme a constituição: O direito penal não pode esquecer da Constituição. A Constituição Federal informa e conforma as normas hierarquicamente inferiores. OBS.: Assume nítido relevo dentro da perspectiva do Estado Democrático de Direito esta espécie de interpretação, hipótese em que a Constituição deve informar e conformar as normas que lhe são hierarquicamente inferiores. Esta forma de interpretação é marcada pelo confronto entre a norma legal e a Constituição. *** O direito penal brasileiro admite interpretação extensiva contra o réu? Há divergência acerca da interpretação extensiva que prejudique o réu, mas a corrente majoritária se posiciona pela possibilidade, pois não existe nenhuma vedação. Ex.: arma, num sentido extensivo/amplo pode. Primeira corrente: É indiferente se a interpretação extensiva beneficia ou prejudica o réu. A tarefa do interprete é evitar injustiças. A CF/88 não proíbe esse tipo de interpretação contra o réu, apesar de alguns ordenamentos proibirem, a exemplo do Estatuto de Roma, art. 22, § 2º. Defendida por Nucci e Luiz Regis Prado. Segunda corrente: Socorrendo-se do princípio do in dubio pro reo não admite interpretação extensiva contra o réu. Na dúvida o juiz deve interpretar em beneficio do réu. Defendida por LFG e para concursos da Defensoria Pública. Adota este posicionamento o art. 22.2 do Estatuto de Roma. Terceira corrente: Em regra, não cabe interpretação extensiva contra o réu, salvo quando interpretação diversa resultar no escândalo por sua notória irracionalidade. Defendida por Zaffaroni. 36 A expressão arma gera controvérsia, a arma deveria ser instrumento fabricado com finalidade bélica. Estaria restringindo arma a REVOLVER, deixando de fora a faca. A segunda corrente diz que arma é todo instrumento com ou sem finalidade bélica capaz de servir ao ataque, aqui a faca entraria. A primeira corrente faz uma interpretação restritiva e a segunda corrente faz uma interpretação extensiva. O que PREVALECE é a arma em sentido imprópria, ENTÃO em casos excepcionais pode ser usada a interpretação EXTENSIVA, logo nossa legislação aceita em casos especiais. OBS.: De acordo com a jurisprudência majoritária, a expressão “arma” deve ser interpretada de forma extensiva, abrangendo todo e qualquer instrumento, com ou sem finalidade bélica, mas capaz de servir para o ataque (exemplo, a faca de cozinha). *** Arma: Sentido Próprio Sentido Impróprio É o instrumento fabricado com finalidade bélica. É o instrumento fabricado com ou sem finalidade bélica, mas que serve ao ataque ou defesa. (é o entendimento que prevalece). OBS: O Equador tem lei que veda essa interpretação expressamente na lei, mas aqui não. Essa interpretação não se confunde com INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA (exemplos). Nesta espécie de interpretação (analógica) o significado que se busca é extraído do próprio dispositivo (existe norma a ser aplicada ao caso concreto). O intérprete leva em conta expressões genéricas e abertas utilizadas pelo legislador. O legislador depois de enumerar exemplos 37 encerra de forma genérica, permitindo ao juiz encontrar outros exemplos não previstos pelo legislador. EXTENSIVA ANALÓGICA Aqui o interprete toma uma palavra e amplia o seu alcance. Aqui existe lei para o caso concreto. É possível em casos excepcionais. Na interpretação analógica (ou intra legem) o código, atendendo ao princípio da legalidade, detalha todas as situações que quer regular e, posteriormente, permite que aquilo que a elas seja semelhante possa também ser abrangido no dispositivo. (exemplos seguidos de fórmula genérica de encerramento). Aqui tem exemplos e depois encerra de forma genérica, permitindo assim ao juiz encontrar outros casos, casos que se assemelham aos exemplos. Aqui é o legislador mostrando que não tem o dom de prever todos os casos possíveis. Aqui também existe lei. Ex: art. 121 §2°, incisos I, III e IV do CP; art. 306 do CTB. Aqui permite que o juiz encontre outros motivos. Para Rogério Grecco, temos interpretação extensiva em sentido amplo que se divide em interpretação extensiva em sentido estrito (amplia o 38 alcance de uma interpretação) e interpretação analógica (formula casuística seguida de encerramento genérico). Essas interpretações acima por sua vez não se confundem com ANALOGIA (regra de integração de lacuna e pressupõe lacuna), nesse caso ao contrário dos anteriores, partimos do pressuposto de que não existe uma lei a ser aplicada ao caso concreto, motivo pelo qual socorre- se daquilo que o legislador previu para outro similar. Aqui a lei é emprestada para o caso concreto, vencendo lacunas. Logo ANALOGIA no direito penal é POSSÍVEL, desde que IN BONAN PARTEM, não incriminadora, pois não tem lei. Ex: cônjuge x companheiro = se for caso de isenção de pena ai sim abrange companheiro, se for para incriminar neste caso não abrange. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA ANALOGIA Existe norma para o caso concreto. Amplia-se a expressão, o alcance da palavra para corresponder a vontade da lei. Existe norma para o caso concreto e exemplos seguidos de expressões genéricas, ou seja, de encerramento genérico. Não há norma para o caso concreto. Admitida no direito penal desde que favorável ao réu. Cria-se nova norma a partir de outra. Forma de interpretação Forma de interpretação. Forma de integração do Direito. Analogia: Parte-se do pressuposto que não existe uma lei a ser aplicada ao caso concreto, motivo pelo qual é preciso socorrer-se de previsão legal empregada a outra situação similar. 39 Analogia no Direito Penal: Pressupostos: a) certeza de que sua aplicação será favorável ao réu(analogia “in bonam partem”); b) existência de uma efetiva lacuna a ser preenchida (analogia pressupõe omissão involuntária do legislador). Exemplo: Ex. Art. 181, I, CP - A expressão “cônjuge” pode ser utilizada como se fosse união estável, aqui se faz uma analogia porque é benéfica. Analogia “in bonam partem”. OBS.: Assis Toledo afirma que analogia pressupõe falha legislativa que prejudica o réu. OBS: De acordo com o STJ, o crime de associação para o tráfico não integra a listagem legal de crimes equiparados a hediondos. Impossível a analogia “in malam partem” com o fito de considerá-lo crime dessa natureza (HC 1770220/RJ). Interpretação conforme a Constituição: a CF informa e conforma as normas hierarquicamente inferiores. Importante forma de interpretação no Estado Democrático de Direito. Analogia: aplicação de dispositivo legal diverso e análogo à situação de lacuna legal. Somente é permitido no direito penal se beneficiar o réu.