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AULA 4 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA Profª Rossana Ghilardi A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 2 2 TEMA 1 – O ALUNO COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA Nesta aula, pretendemos levantar questões relacionadas à atuação de professores e escolas de educação básica no atendimento ao aluno com Transtorno do Espectro Autista (TEA). É desejável a trajetória na qual a criança tenha o diagnóstico de TEA o mais cedo possível, para que receba atendimento terapêutico especializado e oportunize à escola participar em conjunto com especialistas na implantação do tratamento, principalmente em sua especificidade, que é a aprendizagem acadêmica. No entanto, sabemos que essa não é a realidade na maioria dos casos. O esperado não acontece primeiramente porque o diagnóstico costuma acontecer de forma tardia. É muito comum professores e equipe escolar participarem inclusive do levantamento diagnóstico e do encaminhamento para profissional da área da saúde, porque às vezes os familiares percebem os comportamentos da criança como relacionados à personalidade, criando estratégias para lidar com inconveniências, ou lhes falta conhecimento e informação para entender os sintomas apresentados. Também é preciso considerar que o processo diagnóstico pode ser demorado e a escola pode receber a criança sem tratamento definido, sem orientação quanto às dificuldades e potencialidades. É preciso lembrar que um grande entrave para diagnóstico e intervenção no caso do TEA é justamente o espectro, com uma gama muito ampla e variada de dificuldades e comportamentos, com graus de comprometimento diverso, comorbidades e sintomas secundários variados. A finalidade da educação, definida no art. 2o da LDB 9.394/96, é o pleno desenvolvimento do educando, envolvendo acesso ao conhecimento sistematizado e definido pela sociedade como necessário para exercer a plena cidadania e qualificação para o trabalho. Como atingir esses objetivos considerando que a pessoa com TEA tem prejuízo persistente na comunicação, interação social e outros tão fundamentais a educação formal? Lembramos que algumas crianças não falam na idade esperada, outros apesar de desenvolver a linguagem, não evoluíram para fala funcional, e as práticas educacionais brasileiras a interação verbal está muito presente. Outro critério definidor de TEA são os padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, mas as classes convencionais em A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 3 3 nosso país continuam com cadeiras enfileiradas na espera de alunos com poucos movimentos, atentos ao professor de forma padronizada, sentados por várias horas. Sem contar que há crianças autistas com alto nível de ansiedade, comportamento agressivo, crises de birra prolongadas, dentre outras consequências que podem dificultar ainda mais a aprendizagem escolar. Preocupa, mas não imobiliza. Ao contrário, impulsiona a busca de soluções. É importante ressaltar que há tratamento para TEA, portanto, há evolução e desenvolvimento quando a intervenção acontece. Em alguns casos extremos, o convívio escolar será adiado, geralmente quando a criança não controla comportamentos agressivos ou as condições cognitivas são precárias, mas muitos alunos estarão na escola convencional, com ou sem a presença de acompanhante. TEMA 2 – A ESCOLA E O ALUNO COM TEA Cunha (2017) inicia o capítulo de seu livro destinado a orientações aos professores resgatando a perspectiva de Maria Montessori (1870-1952) sobre a mente absorvente da criança: “Uma criança típica aprende, por meio de brincadeiras, com os pais, os colegas e os professores na escola. Faz amizades e adquire habilidades motoras e cognitivas. Simplesmente vivendo ela aprende” (Cunha, 2017). O autista não é assim, não entende objetos pela função cultural deles, tem movimentos estereotipados que prejudica o desenvolvimento motor, precisa aprender até mesmo atividades mais elementares; muitas vezes não fala, não se comunica como esperado. Com certeza essa perspectiva pode assustar alguns docentes, principalmente se considerarmos os déficits na formação deles para atender a alunos de inclusão. Vieira (2020) realizou levantamento de pesquisas e artigos sobre a percepção dos docentes a respeito de sua própria formação e confirma que eles se consideram despreparados, tanto na formação inicial quanto na continuada; entendem que a formação deficitária é uma das principais dificuldades para atender alunos com TEA. Apesar de a legislação educacional destacar a inclusão de todos os alunos e indicar ações de formação específica aos docentes, na prática parece haver ainda muita defasagem. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 4 4 2.1 Dicas iniciais Há muito para fazer a respeito da formação dos professores. Coloque-se no lugar de qualquer docente recebendo no início do ano letivo um grupo de alunos, sendo que um deles é apresentado com suspeita de TEA. Algumas recomendações básicas podem auxiliar nesse primeiro momento, começando com o mais simples e básico, como as dicas do Instituto NeuroSaber (2016): • Estabelecer e manter contato contínuo com familiares e outros profissionais que acompanham a criança com TEA buscando o máximo de informação possível. • No contato com o aluno, tentar identificar o que lhe provoca interesse para utilizar como fator motivacional durante as atividades escolares. • Estabelecer práticas no dia a dia acadêmico para facilitar o acesso da criança às atividades escolares, principalmente sequenciar atividades de forma clara, desmembrar orientações e ordens de um exercício; procurar graduar conteúdos, dos mais simples aos mais complexos, para promover maior compreensão. Um exemplo de questão em exercício escolar é que gastamos muita energia para atividades diárias e precisamos nos alimentar para reposição. Cite as refeições consideradas principais do dia e depois indique o que você costuma comer em cada uma delas. A interação poder ser sequenciada dessa maneira: quais são as principais refeições do dia? O que você costuma comer no café da manhã? O que gosta de comer no almoço? O que prefere comer no jantar? • Para estimular a atenção visual, é interessante utilizar objetos e acessórios de interesse da criança, também por isso a segunda recomendação aqui foi para identificar esses interesses. • Demonstrar paciência. O tempo da criança autista costuma ser diferente da criança com desenvolvimento típico, além disso costuma demorar mais para se recuperar de uma crise de birra, que pode ser frequente. • Sinalizar e indicar previamente alterações na rotina. A pessoa com TEA tem dificuldade em adaptar-se às mudanças, por isso é importante comunicar, apresentar com antecedência quando uma rotina diária for modificada. Muitos utilizam agendas ou quadros visuais com as rotinas, que podem ser montados e remontados com o autista diariamente, assim as alterações podem ser indicadas antes que ocorram. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 5 5 Naturalmente, as dicas são apenas um ponto de partida para situar o profissional na escola em seu primeiro contato com estudante TEA. É importantíssimo ressaltar a impossibilidade de improvisar no atendimento escolar para esses alunos. Parte de nossa motivação para estudar o TEA no contexto escolar está no contato com alunos estagiários de Pedagogia, alguns dos quais buscavam desesperadamente atividades para desenvolver com crianças autistas,pois na escola em que atuavam lhes coube a tarefa de atender a alunos com TEA em determinados momentos da aula. Mais do que improviso, tratava-se de uma ação inaceitável. TEMA 3 – CARACTERÍSTICAS DO ALUNO COM TEA E O PLANO DE ENSINO INDIVIDUAL Uma ferramenta disponível é o plano de ensino individual elaborado por analistas de comportamento nas intervenções com autistas, com metas e atividades envolvendo desde áreas de linguagem, habilidades motoras e sociais até habilidades acadêmicas. Nesses casos, os professores participam da implantação e execução de algumas destas estratégias, no entanto essa não é a única opção e, muitas vezes, o aluno não tem acompanhamento especializado. Assim, nos últimos anos observamos vários documentos das secretarias de educação oferecendo orientação aos docentes para desenvolver planos de aula para esses alunos, alguns sugerindo o Método TEACCH. Considera-se também a legislação educacional brasileira, que, além de garantir a autonomia na gestão escolar, estabelece a responsabilidade da escola no atendimento inclusivo de todos os alunos no mesmo espaço escolar. Assim, cada escola e cada docente se responsabilizam pelo ensino e aprendizagem de todos os seus alunos, tenham ou não autismo, e elaboram seu próprio plano educacional individual. No entanto, a legislação também prevê assistência aos professores para essas ações, garantindo apoio da equipe pedagógica da escola, atendimento educacional especializado (AEE), sala de recursos e formação continuada. 3.1 Habilidades desenvolvimentais A primeira questão a se considerar na elaboração de planos de ensino para alunos autistas é que a maioria das crianças com TEA tem falhas nas A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 6 6 habilidades desenvolvimentais, aquelas que em crianças típicas aparecem naturalmente com avanço da idade cronológica. Exemplo de habilidade desenvolvimental é o contato intencional e controlado com objetos, tocá-los, arremessá-los, recebê-los para deduzir como se comporta (atividade motora). Ou as funções executivas como “atenção seletiva, flexibilidade cognitiva, controle inibitório, planejamento, monitoramento e memória de trabalho, dentre outros, cuja função é regular e controlar comportamentos orientados a metas” (Dias, 2009, p. vii), que estão por trás da aquisição da linguagem e de outros aspectos cognitivos. A imitação, essencial para aprendizagem, também é uma função básica comprometida nos autistas; o contato visual não acontece, a interação é reduzida e a imitação comprometida. No entanto, segundo Moreira (2020, p. 37), a escola pode ser essencial para a criança TEA, “a interação social é fundamental para o desenvolvimento infantil e algumas habilidades cognitivas e adaptativas são desenvolvidas mediante a interação e compartilhamento de experiências com outros alunos.” Os fatores desenvolvimentais normalmente estão fora do currículo convencional de escola formal, e as propostas de trabalho para TEA exigem currículo diferenciado, fato complicado no atual sistema de educação nacional. O mesmo acontece com a avaliação escolar. Em decorrência das implicações comunicacionais do TEA, os formatos de verificação usualmente aplicados podem não traduzir a aprendizagem da criança autista. 3.2 Habilidades sociocomunicativas Para a pessoa com TEA, será necessária uma atenção especial aos aspectos que caracterizam o transtorno, como as habilidades sociocomunicativas. Nas escolas brasileiras, o mais comum é empregar a psicologia histórico-cultural de Lev Vygotsky (1896-1934) para embasar as práticas pedagógicas e a análise das habilidades sociocomunicativas; é mais raro observar emprego de conceitos comportamentais de Skinner, amplamente utilizados nas intervenções para TEA. Então, na área da educação encontramos com mais frequência referências para aplicar princípios da psicologia histórico- cultural na educação de autistas. Vygotsky estudou a linguagem buscando desvendar sua relação com o pensamento, a consciência. Entende que há uma base biológica, mas que o A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 7 7 desenvolvimento das funções psicológicas superiores se estabelece na relação dialética entre o sujeito e seu meio cultural e material. O pensamento se estrutura e se molda na mesma medida em que a criança incorpora a linguagem, aprende lendo, decifrando o mundo, na interação com os outros e demais mediadores como os artefatos. Para Vygostsky, o espaço para aprendizagem é a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), distância entre o que o sujeito já domina e aquilo que ainda não domina, mas pode vir a conhecer. Nas palavras do autor, ZDP é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (Vygotsky, 1998, p. 97). A psicologia histórico-cultural já preconiza atendimento individual e diferenciado para cada criança, pois o potencial de aprendizagem é específico para cada ser. Assim, está em plena consonância com a demanda da pessoa com TEA. Todos os alunos têm limitações e potenciais para aprender, conseguir enxergá-los em sua individualidade e levá-los a se desenvolver mais plenamente, o que chamam de mediação, na perspectiva histórico-cultural. Para a criança com TEA o percurso de desenvolvimento da linguagem é diferenciado, a comunicação não verbal, por exemplo, é pouco significativa, assim, costuma considerar apenas o que se fala, sem as demais referências contextualizadoras. As inabilidades mais comuns de linguagem são ausência de espontaneidade na fala; fala pouco comunicativa com tendência a monólogos; utilização do pronome pessoal de terceira pessoa; frases gramaticalmente incorretas; expressões bizarras, neologismos; dificuldade de compreensão de informações e significados abstratos, além da ecolalia. (Benini; Castanha, 2016, p. 7) Autistas desenvolvem ecolalia com frequência, que é um comportamento de eco. A criança repete frases ouvidas na televisão ou de outras pessoas, usando a mesma entonação e ritmo da original, muitas vezes para criar uma rotina tranquilizadora, mas quase sempre sem considerar o significado e aplicação funcional da informação repetida. Outra característica da linguagem nos autistas está em serem mais literais na comunicação verbal, sem entender metáforas, por exemplo, e muito do que envolve conceitos abstratos. Para muitos professores, o mais impactante no atendimento à criança com TEA é justamente a ausência ou limitação da linguagem verbal. Os A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 8 8 processos educativos convencionais, sobretudo para crianças menores, estão fundados nas trocas vocais, entre professor-aluno e entre os alunos. Muitas pessoas com TEA precisam da comunicação alternativa, para aqueles que não usam a vocalização, se tornando mais um fator de impacto para o professor. 3.3 Interesses, atividades e comportamentos repetitivos e/ou estereotipados Outros aspectos que caracterizam o TEA e que o plano de ensino individual necessariamente contemplará são interesses, atividades e comportamentos repetitivos e/ou estereotipados. “As manifestações de comportamentos repetitivos e estereotipados incluem se fixar em rotinas que trazem segurança e aprender de forma singular. Ocorre uma relação diferente entre o cérebro e os sentidos, de modo que as informações nem sempre geram conhecimento” (Moreira, 2020, p. 39). Alguns apresentam hiper ou hipossensibilidade nas reações,costumam sentir-se atraídos e “perder” muito tempo com objetos que apresentam movimento contínuo ou repetitivo; podem ser muito seletivos quanto aos alimentos. Ao mesmo tempo em que esses objetos ou respostas comportamentais acalmam ou demonstram a insatisfação da criança, também impedem a evolução da aprendizagem e será necessário trabalhar com isso na escola. Pode ser necessário intervir para diminuir os comportamentos excessivos que atrapalham o aprendizado. TEMA 4 – MATERIAIS E RECURSOS PEDAGÓGICOS Nos temas anteriores, levantamos características, limitações e pontos de vista sobre a educação escolar para pessoas com TEA. Passamos agora a indicar soluções, isto é, opções didático-pedagógicas para concretizar propostas de aprendizado. Entendendo que “o processo de mediação pedagógica só será efetivo se o aluno com TEA for visto como alguém que, apesar das limitações impostas pelo transtorno, pode se desenvolver e se apropriar dos diversos aspectos da cultural humana” (Moreira, 2020, p. 55). Começamos pelos materiais didáticos. É consenso que o material precisa ser pensado para estimular a criança e promover a vinculação dela com os professores, colegas e com o conteúdo a ser aprendido. Para oportunizar aprendizagem para pessoas com TEA nem sempre serão necessários recursos A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 9 9 de alta tecnologia, muitas vezes soluções de baixo custo são suficientes, como é o caso dos cartões de comunicação alternativa. Materiais concretos, comumente empregados na escola para alunos pequenos, são alternativas para facilitar o aprendizado de criança com deficiência, transtorno ou dificuldade. Jogos em geral também são opções bem interessantes, dentre eles os de caráter lúdico cooperativo são importantes à medida que promovem o desenvolvimento cognitivo, emocional e social do autista. São considerados relevantes, pois estimulam aspectos afetivos, proporcionando ganhos em habilidades sociais. Sendo assim, um instrumento significativo no processo de inclusão escolar. (Benini; Castanha, 2016, p. 15) Recursos e materiais serão efetivos quando associados a uma proposta de trabalho, ao plano educacional. Lembre-se de que a interação com objetos não é fácil para pessoa com TEA; excesso de estímulos não é um caminho para estimular aprendizado para autistas. Deixar a criança cercada de materiais e jogos pode mais atrapalhar que ajudar. Outros materiais e recursos são muito bem-vindos para organização temporal e espacial, como agendas, calendários, listas, roteiros de estudos e tabelas. (Benini; Castanha, 2016) Nas últimas décadas, temos uma grande possibilidade de contribuição para pessoas com TEA por meio de recursos de alta tecnologia. Como uma das maiores dificuldades dos autistas está na comunicação, com certeza há potencial nas Tecnologias Digitais de Informação e da Comunicação (TDIC). Alguns aplicativos educacionais também são apresentados como alternativa para aprendizagem de pessoas com TEA. TEMA 5 – PRÁTICAS PEDAGÓGICAS Em muitos momentos da aula e dependendo da atividade, o atendimento individualizado será necessário para o estudante com TEA, acompanhado pelo mediador ou pelo professor regente. Nos níveis de gravidade moderado e grave também precisará do Atendimento Educacional Especializado (AEE), cujo profissional responsável, segundo o PNEE (2008) será um norteador para o planejamento do professor da sala de aula convencional, além promover as adaptações dos materiais e para cada criança, incluindo o material de comunicação alternativa quando for o caso. Vamos relembrar os níveis de gravidade do TEA, classificados de acordo com a necessidade de apoio: nível I – bom rendimento com apoio; nível II – precisa de apoio substancial e mesmo A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 10 10 assim há prejuízos sociais; nível III – precisa de muito apoio, no entanto, os prejuízos em seu funcionamento ainda são significativos. Não podemos esquecer que condições comuns em escolas são estressantes para muitos autistas, como barulho intenso, ou mesmo moderado, de vozes e objetos. As mudanças de rotina são muito impactantes para eles, por isso já alertamos da necessidade de prepará-los para qualquer alteração. Nem sempre seguir regras é algo fácil para as crianças TEA. Tendo em vista as diversas características e condições citadas, você consegue indicar o que pode ser ajustado ou incluído na escola para torná-la atrativa a criança com TEA? Considera-se também a frequente associação do TEA a comorbidades, como o alto índice de deficiência intelectual, transtorno de ansiedade e depressão, TDAH, distúrbios do sono e outros. Análises e investimento didático- pedagógico nessas áreas também devem ser considerados para elaboração do plano educacional. Assim como qualquer outra dificuldade, deficiência e transtorno, há aspectos que chamam a atenção positivamente para o TEA. Alguns sujeitos se destacam da população típica, podem também apresentar habilidades incomuns que permitem em muitos casos superar outras áreas de déficits, por exemplo: forte destreza visual, facilidade de entender e reter alguns conceitos, regras, e sequências; excelente memória para detalhes ou fatos mecânicos; memória de longo prazo; capacidade em informática, habilidades tecnológicas ou interesse musical; intensa concentração ou focalização especialmente em áreas de atividade preferidas; habilidades artísticas, matemáticas e a honestidade. (Benini; Castanha, 2016, p. 8) Quando essas habilidades se manifestam é importante tirar proveito para motivar a criança, valorizar suas conquistas e provocá-la a ir além. Seguindo por esse caminho, temos Cunha (2017) com várias orientações práticas para os professores. Uma delas é tirar proveito dos objetos de interesse da criança. Nem sempre esses objetos são empregados pelo autista em sua funcionalidade social, então levá-lo a entender que blocos de montar servem para outras coisas além de enfileirar repetitivamente, que podem ser encaixados e mudar a forma, pode ser uma boa evolução. Considere que “assim como as ações da criança são percebidas como movimento e manipulação sem sentido, a mãe e as pessoas próximas vão deixando de significá-las. Como resultado, persiste um brincar limitado e empobrecido, já que possíveis transformações não são incentivadas” (Martins, 2013, p. 26). Isso não pode acontecer também na escola. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 11 11 Um fator importante da escola para com a pessoa com TEA está na sala de aula como local privilegiado para socialização. Tentar tirar proveito, na medida do possível, da relação e interação com o grupo de alunos tornando-as aos poucos familiares ao autista, será uma excelente oportunidade de aprendizado. Nas palavras de Cunha (2017), “incluir é aprender junto”. Sempre valorizar os momentos nos quais a criança se concentra na atividade, essa é outra orientação de Cunha (2017). Com muita paciência e persistência, estimular sempre à participação tendo em vista que um dos principais propósitos das ações na escola é levar a pessoa com TEA a conquistar maior autonomia. Cunha (2017) também destaca a sala de recursos que precisa ser preparada para aluno com TEA. O excesso de objetos e estímulos não é proveitoso; a ideia é oferecer um espaço simples, com materiais organizados e sinalizados para aumentar a concentração e específicos para a atividade a ser desenvolvida a cada momento. Lembrando da necessidade de preparar as mudanças, quando houver, que devem acontecer paulatinamente. O professor terá que se preparar para atender momentos de birra, medo e raiva,muito comuns em autistas. Cada qual terá sua estratégia e apoiar-se nos interesses da criança é uma boa opção. Como exemplo, para alguns TEA a música pode ser uma forma de acalmar; alguns inclusive têm muito interesse por músicas (Cunha, 2017). O autor relembra que o autista muitas vezes não direciona o olhar, portanto o professor precisa se habituar a colocar-se no campo de visão dele, dessa forma atraí-lo para a atividade ou orientação proposta. As ações cotidianas na escola podem promover desenvolvimento da concentração e memória, um exemplo está na simples organização do material de aula. Atender à orientação do professor na execução das atividades pode auxiliar na organização do pensamento e linguagem, assim como atividades em grupo levam ao desenvolvimento da socialização e afetividade (Cunha, 2017). Para planejar as práticas pedagógicas com objetivo de inclusão de alunos com TEA pode-se incluir • atividades para comunicação, cognição e linguagem: livros, jogos coletivos, pareamento de concreto com símbolos, música, desenho, pintura, jogos e atividades que utilizem novas tecnologias digitais e estimulem o raciocínio; • atividades para desenvolvimento matemático: blocos lógicos, pareamento do concreto com o simbólico; encaixes geométricos, jogos e atividades A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 12 12 que utilizem novas tecnologias digitais, atividades com temas do cotidiano e que estimulem o raciocínio lógico-matemático; • atividades para o desenvolvimento motor: exercícios que trabalhem as funções motoras e sensoriais, encaixes diversos, colagem, recorte, atividades físicas, atividades com música e de vida prática; • atividades para socialização: atividades esportivas individuais e coletivas; atividades pedagógicas em que o aluno possa compartilhar com a turma o seu saber; atividades que possam ser realizadas por todos os alunos; • atividades para o desenvolvimento do foco de atenção: atividades e pesquisas áreas distintas do conhecimento sobre temas que o educando tem interesse; atividades com novas tecnologias digitais, recortes diversos com tesoura, música, arte, desenho, pintura e vida prática (Cunha, 2016, p. 95). Também trazemos aqui o resultado da pesquisa de Moreira (2020), que implementou junto a professores da Educação Básica atividades no Plano de Desenvolvimento Educacional Individualizado (PDEI) para alunos autistas. O ponto de partida para desenvolver o PDEI foi a avaliação dos limiares das ZDP de cada um. As atividades são específicas para cada aluno, de acordo com suas necessidades, desenvolvimento real e potencial. Aqui vamos enumerá-las como exemplos um pouco mais concretos do que nossos docentes têm desenvolvido com seus alunos autistas. Vamos à lista de atividades por habilidade: 1) Habilidades comunicativas: conversas dirigidas; utilização de gestos; escutar histórias curtas; jogos simbólicos, atividades com músicas; nomeação de objetos; contação de histórias; jogos simbólicos e de imitação. 2) Habilidades de leitura/escrita: atividades com música; alfabeto móvel; para identificar vogais e outras atividades; massinha de modelar para desenhar sobre elas; textos pequenos com temas de interesse para identificar sílabas simples; escrita do nome; sílabas móveis; jogos com letras e sílabas. 3) Habilidades de raciocínio lógico-matemático: jogos com sólidos geométricos para aprender nomes e características; jogos com números para reconhecer número e quantidade; com blocos lógicos; com ábaco e material dourado para quantidade e adição. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 13 13 4) Habilidades sensoriais: atividades com materiais diversos para caixa de sensações; sucata para construir objetos, como rolo interno do papel higiênico para simular alto-falante; imitar sons de animais; cantar e emitir sons de vogais; cantar músicas infantis com gestos; massinha de modelar; atividades com balões; música alta e baixa; atividade com espelho (contato visual). 5) Habilidades motoras: arrumar e guardar material escolar; alinhavo para coordenação motora fina; treino com lápis (segurar); recorte e colagem; tapete de lateralidade; recursos concretos. 6) Habilidades sociais: brincadeiras afetivas (cantar com gestos e expressões faciais); cartões de sentimentos; em frente ao espelho para ver expressões; com música, para relaxar. 7) Habilidades adaptativas: escovar os dentes, pentear os cabelos, comer sozinho. Perceba que a lista não está contextualizada, de maneira nenhuma seria um cardápio de sugestões. Apenas tem a intenção de revelar que as atividades para alunos autistas nem sempre são tão diferenciadas daquelas que o professor já conhece e utiliza com alunos de desenvolvimento neurotípico, o importante é adequá-la à necessidade de cada criança e inseri-la no plano de ensino com objetivos claros, bem delineados. Moreira (2020) e os professores que participaram da pesquisa realizaram o levantamento prévio das habilidades deficitárias em cada aluno. Após aplicação das atividades previstas, um novo levantamento foi realizado para identificar alterações no desempenho deles. Rodrigues et al. (2020) tomando Cunha como referência, evidenciam que a prática pedagógica do professor no atendimento do aluno com TEA pode se pautar em três aspectos básicos: observação; avaliação; mediação. Observar para conhecer e entender a criança, suas habilidades e interesses; avaliar para verificar a efetividade das práticas, instrumentos e recursos empregados para ajustes e preparação para os próximos passos; e mediar, que se concretiza nas intervenções para conectar aluno, docente e escola. É necessário lembrar que, para alunos da educação especial, é muito frequente também desenvolver na escola atividades de higiene pessoal, mesmo em idade na qual crianças típicas já as desenvolveram. Apesar de básicas mesmo em ações como escovação, uso do banheiro, lavação de mãos podem apresentar oportunidades de aprendizado mesmo de conteúdos acadêmicos. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 14 14 Toda oportunidade de aprender precisa ser explorada. O mesmo no que se refere à rotina, iniciar o dia escolar trazendo o aluno TEA a participar construindo o cronograma serve tanto para tranquiliza-lo quanto à rotina, quanto ao aprendizado e desenvolvimento de habilidades diversas (Miranda, 2015). Para finalizar, precisamos ressaltar novamente que a responsabilidade sobre os alunos de educação especial é de toda a equipe escolar, além do professor regente. Temos a figura do acompanhante em sala de aula, o profissional da AEE, a equipe pedagógica e sempre que possível a participação de profissionais especializados como fonoaudiólogo, psicólogo, fisioterapeuta e outros. Assim, Benini e Castanha (2016) sugerem ações como: a) realização de reuniões regulares entre os envolvidos no atendimento dos estudantes com autismo; b) a comunicação entre professores e família com o uso de instrumentos como agendas, cadernos e outros, sob a orientação dos multiprofissionais que já atendem estes alunos junto aos professores e equipes pedagógicas das instituições; c) a criação de espaço para formações e grupos de estudos sobre a temática buscando estratégias viáveis e efetivas de atendimento aos alunos com TEA; d) um olhar dos pedagogos para o currículo aplicado nas escolas regulares que possuem alunos com deficiências, como o autismo, e) a proposição de mudança nas metodologias, utilizando e oferecendo materiais de apoio, readaptando espaços se for o caso. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gmail.com 15 15 REFERÊNCIAS BENINI, W.; CASTANHA, A. P. Inclusão do aluno com transtorno do espectro autista na escola comum: desafios e possibilidades. In: PARANÁ. Secretaria da Educação. Os desafios da escola pública paranaense na perspectiva do professor PDE: artigos. 2016. Disponível em: . Acesso em: 18 abr. 2021. CUNHA, E. Autismo e inclusão: psicopedagogia e práticas educativas na escola e na família. Rio de Janeiro: Editora Wak, 2017. DIAS, N. M. Avaliação neuropsicológica das funções executivas: tendências desenvolvimentais e evidências de validade de instrumentos. Dissertação (Mestrado), Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2009. Disponível em: . Acesso em: 18 abr. 2021. MARTINS, A. D. F.; GOES, M. C. R. de. Um estudo sobre o brincar de crianças autistas na perspectiva histórico-cultural. Psicol. Esc. Educ., Maringá, v. 17, n. 1, p. 25-34, jun. 2013. Disponível em: . Acesso em: 18 abr. 2021. MIRANDA, P. C. de. Classe especial e o transtorno do espectro do autismo: ferramentas pedagógicas e processos avaliativos. Especialista em Coordenação Pedagógica. Universidade de Brasília, 2015. Disponível em: . Acesso em: 18 abr. 2021. MOREIRA, L. A. Plano de desenvolvimento educacional individualizado: as contribuições para o desenvolvimento do aluno com transtorno do espectro autista na Rede Pública Municipal de Ensino em Aparecida de Goiânia. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2020. Disponível em: . Acesso em: 18 abr. 2021. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com 16 16 NEUROSABER. Dicas para professores que trabalham com crianças autistas. 2016. Disponível em: . Acesso em: 18 abr. 2021. RODRIGUES, G. et al. Práticas pedagógicas com crianças que possuem o Transtorno do Espectro Autista (TEA) na educação infantil. In: FRANÇA, G.; PINHO, K. R. Autismo: Tecnologias e formação de professores para a escola pública. Palmas: i-Acadêmica, 2020. VIEIRA, S. de C. A. Formação de professores e transtorno do espectro autista: saberes docentes necessários para práticas pedagógicas efetivas. In: FRANÇA, G.; PINHO, K. R. Autismo: Tecnologias e formação de professores para a escola pública. Palmas: i-Acadêmica, 2020. A luno: A N T O N IO JO S E D O S S A N T O S IN Á C IO E m ail: antoniojosesantosinacio@ gm ail.com