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AULA 4 FILOSOFIA DA ARTE Profª Renata Tavares 02 CONVERSA INICIAL Entrando em nossa quarta aula, falaremos de modo mais específico das discussões realizadas dentro do campo da estética filosófica. Essa discussão é muito centrada no período moderno da história da filosofia, pois foi somente nele que o tema começou a ser percebido como um objeto digno de reflexões filosóficas. Isso não significa que não havia discussão sobre arte antes disso, mas que, por muito tempo, os grandes parâmetros para o pensamento em torno da arte foram os gregos, Platão e Aristóteles. Especialmente a Poética de Aristóteles foi lida durante séculos apenas no sentido de um verdadeiro manual sobre como fazer arte, numa postura de evitamento dos sentidos mais questionadores do próprio texto. A Europa do século XVIII, portanto, é o palco onde nossos atores dialogam, contrapondo-se principalmente o empirismo inglês e os movimentos que adiante construirão o romantismo alemão. Alexander Baumgarten, David Hume, Immanuel Kant, Friedrich Schiller e Georg Friedrich Hegel são os atores desta peça. Foram contemporâneos entre si e de uma das revoluções mais importantes da História, a Revolução Francesa (ou burguesa), que viria a inaugurar uma nova ordem política e provocar uma série de rupturas com a visão de mundo de uma Europa monárquica havia muitos séculos. Pensando, portanto, que estamos em um período de transições muito importantes, tomemos a criação por assim dizer da estética como uma disciplina dentro do campo da filosofia como parte também desse período de mudanças. A arte não será mais considerada como algo “dado”, “que é como é”, “que tem preceitos universais e eternos”. A partir desse momento, dessa espécie de “dessacralização”, emergiram as questões que trataremos aqui: “é possível analisar as sensações?”; “existe um padrão para os juízos do gosto?”; “a arte precisa concordar com outros campos do conhecimento?”; “é possível educar pela arte?”, “sempre haverá desenvolvimento de novas artes?”. Estamos elegendo, portanto, as discussões mais emblemáticas desse período, para demonstrar um caminho muito importante percorrido pela filosofia. CONTEXTUALIZANDO Vivemos em um mundo onde a diversidade de padrões e parâmetros estéticos é praticamente infinita, e o imperativo da liberdade de expressão, 03 incontestável. Contudo, este mesmo mundo ainda produz um sem número de transtornos psíquicos ligados diretamente à ideia de que devemos atender a determinados padrões estéticos. Os casos de anorexia, bulimia e muitos outros tipos de transtorno de ansiedade apontam para um severo sofrimento ligado ao não atendimento dos padrões expostos pela indústria da moda. Seria digno de se perguntar por que em um tempo que preza tanto a liberdade de opinião e ação, tantas pessoas ainda se esforçam pela contemplação de um padrão. Deixando de lado as questões mais pertinentes ao campo da psicologia do que ao nosso, gostaríamos de utilizar essa constatação para trazer uma pergunta filosófica muito própria ao tempo que estudaremos, que é a modernidade. Será que as pessoas ainda acreditam na possibilidade de um padrão estético que expresse a ideia de melhor, num sentido que una, como Platão há tanto tempo pensou, as noções de “bom, belo e verdadeiro”? A procura por uma explicação ou caminho para um “padrão do gosto” não é a única, mas é uma pergunta fundamental e originária da estética filosófica, essa espécie de campo do saber filosófico que se dedica de fato a pensar sistematicamente a arte e a sensibilidade. Diante de tal questão, opõem-se fundamentalmente filósofos racionalistas e empiristas, os primeiros naturalizando a ideia de que a beleza ou o gosto são dados por parâmetros formais que estão na razão de todos os seres humanos, e os últimos defendendo que se trata sempre de uma construção subjetiva, baseada na experiência. Desses primeiros debates, surgirão também outras posições e outras questões, que constituirão o conteúdo da filosofia estética da modernidade. É importante compreender que essas discussões vão dar o tom da maneira como a arte é interpretada pela filosofia e também abrir caminhos dentro da própria filosofia, que não existiriam atualmente não fosse a assunção dos problemas da estética como caminhos filosóficos. TEMA 1 – BAUMGARTEN E A IDEIA DE UMA CIÊNCIA DAS SENSAÇÕES O termo estética apareceu pela primeira vez na história da filosofia em 1735, quando Alexander Baumgarten (1714-1762) o mencionou nas suas Meditações poéticas. E, em 1750, apareceria de forma mais bem definida enquanto ciência das sensações no livro de Baumgarten intitulado Estética. A palavra deriva do adjetivo grego aisthetiké, que por sua vez vem do substantivo aisthesis, que significa de modo geral o sensível. 04 A partir disso, já podemos compreender uma primeira diferença entre este termo e o termo filosofia da arte. As questões da estética não dizem respeito simplesmente à arte enquanto técnica ou beleza, mas também estão relacionadas à ideia de sensibilidade e à pergunta a respeito de que tipo de conhecimento é esse que emerge quando estamos voltados sobremaneira para a sensibilidade. O período moderno, notadamente o século XVIII, é uma época em que a oposição empirismo X racionalismo marca a reflexão de todos os filósofos. O ceticismo dos ingleses parece passar como um rolo compressor sobre a longamente estabelecida tradição racionalista, e os representantes dessa via de pensamento se esforçam por resolver as questões em aberto sem renunciar a seus pressupostos. Esta descrição caberia bem a Baumgarten. Ele é herdeiro de uma tradição que vem de Leibniz e Wolff, em sua época os maiores partidários do racionalismo na Alemanha. Em relação à ciência das sensações, Baumgarten chega a afirmar, por exemplo, que a beleza é a “perfeição do conhecimento sensível como tal” (Duarte, 2012, 73). Essa beleza é ainda sinônimo, para o autor, de ordem. A antiga ideia de harmonia e ordenação, características da noção de beleza para os gregos, continua valendo substancialmente para Baumgarten. Até hoje, em nossas vidas diárias, ouvimos afirmações com este teor, ou seja, que alguém é belo porque é dono de formas harmônicas, seja do rosto, seja do corpo, ou ainda esta ideia aplicada a objetos e não a pessoas. Trata-se de uma noção que considera a forma como primordial, que é uma visão bastante racionalizada de beleza. Outro pressuposto racionalista de Baumgarten é a ideia de que temos uma certa disposição natural para a beleza em nosso pensamento. Como se fosse natural preferir o harmônico ao desarmônico. É o que chama de um talento inato, que pode, contudo, ser refinado e exercitado com a experiência, e aqui é onde cede um pouco ao empirismo: O belo talento inato também é exercitado – e evidentemente já se exercita a si próprio, embora não saiba o que esteja fazendo – quando a criança conversa; quando brinca, principalmente, se ela inventa as brincadeiras ou é uma pequena líder entre as companheiras e, com estas, intensamente atenta, transpira, fala e se ocupa com tudo o que há por fazer. (Duarte, 2012, p. 85) Podemos observar que algumas das concepções de Baumgarten permanecem válidas no imaginário das pessoas quando se referem à beleza ou à arte. São formulações, contudo, advindas já de uma longa tradição, que nunca 05 perderam efetivamente espaço em nossa cultura e, especialmente, não haviam perdido no século XVIII. O mérito de Baumgarten, poderíamos dizer, não é tanto o de inventar nada novo com relação a essa ciência das sensações, mas o de justamente reivindicar um espaço para discuti-la de forma mais evidente dentro da filosofia. TEMA 2 – HUME E O JUÍZO DO GOSTO O texto Do padrão do gosto, de David Hume (1711-1776) é umareferência básica e inaugural em termos de questões de estética filosófica. Para situar um pouco, é preciso dizer que Hume é um dos representantes de uma corrente de pensamento que surgiu na Grã-Bretanha e se caracterizou pelo ceticismo advindo da ideia de que todo conhecimento só acontece a partir e dentro da experiência sensível, o que significa uma crítica profunda aos princípios mais fundamentais da tradição filosófica racionalista, ou seja, as ideias de conhecimento inato e racionalidade enquanto natureza do homem. Hume assume nesse texto uma postura crítica com relação à possibilidade de um conceito de beleza abstrato, racional, como é aquele expresso, por exemplo, por Baumgarten. Assim como em outros temas de sua filosofia, Hume entende que um padrão concernente aos juízos de gosto só poderia ser construído a partir da experiência, consistindo em um hábito, e não em uma verdade necessária da razão. Você deve lembrar que David Hume é famoso pelo exemplo que explica a sua ideia do que seja verdade, isto é, que nós apenas acreditamos que o Sol nascerá amanhã porque temos o hábito, a expectativa criada pelo fato de que ele nasceu até hoje todos os dias. Essa postura cética dos empiristas às vezes é mal compreendida. Mas o que ele quer dizer é que só podemos ter certeza e entender o que é verdade a partir da experiência concreta, do que já aconteceu, e não podemos prever o que vai acontecer a partir dessas experiências passadas. Isso significa que a verdade não pode ter nunca o teor de algo válido de forma absoluta, válido sempre, seja agora ou no futuro. Nesse sentido, Hume está enfrentando a ideia de que alguns princípios têm um valor de verdade para além da experiência – como, por exemplo, os princípios lógicos e matemáticos. Quando aplica essa noção aos juízos de gosto, Hume entende que o que pode sim acontecer é a criação de um padrão para o juízo do gosto, ou seja, a criação de um hábito, pela experiência, de padronização do gosto. Mas nunca 06 admitiria a existência de um padrão dado a priori, com uma validade que ultrapasse a da experiência, ou advindo de qualquer coisa inata no ser humano. Hume aponta ainda que, embora possível, essa tarefa oferece muitas dificuldades. O ponto de partida humeano é o reconhecimento da variedade de gostos existentes no mundo, ressaltando que, inclusive no interior de grupos sociais com as mesmas crenças, os gostos individuais diferem em enorme medida. Chama à atenção também o fato de que, em geral, aquilo que nos é próximo ou a que estamos acostumados é recebido de forma positiva, enquanto aquilo que nos parece distante ou diferente gera quase sempre o afastamento, o preconceito. Tendemos a entender como normal o que é parecido conosco e como estranho e ruim aquilo que é diferente. Essas observações servem para ressaltar aquilo que já sabemos sobre a filosofia de David Hume, que é o fato de que parte da experiência e quer analisar exclusivamente a experiência sensível do ser humano. Dentro dessa perspectiva, ele diz: “Beleza não é qualidade das coisas mesmas. Ela só existe na mente de quem as contempla, e cada mente percebe uma beleza diferente”. (Hume, 2011, p. 176). Isso expressa a impossibilidade da existência de um conceito de beleza ao qual nos referimos quando julgamos o belo, e a necessidade de reconhecer que a variedade de gostos não obedece a nenhuma regra ou padrão preestabelecidos. Diz ainda: “Uma pessoa pode, inclusive, perceber deformidade onde outra é sensível à beleza, e cada indivíduo deve aquiescer ao próprio sentimento, sem pretender regular os dos demais” (Hume, 2011, p. 176). Embora ainda estejamos bastante apegados à ideia de uma beleza verdadeira, fato atestado por uma dedicação intensa aos padrões ditados pela indústria da moda, Hume acredita que apenas pela repetição de experiências poderíamos passar a comparar, discernir os sentimentos que nos provocam e, então, sim, realizar adequadamente um juízo de gosto. Assim como faz um enólogo, qualquer um que pretenda julgar a arte deve, segundo Hume, ser alguém que, “acostumado a ver, examinar, e ponderar muitas realizações admiradas em diferentes épocas e nações pode classificar os méritos de uma obra apresentada ao seu olhar e lhe conferir o devido lugar entre as produções do gênio” (Hume, 2011, p. 183). 07 TEMA 3 – KANT E A AUTONOMIA DA OBRA DE ARTE O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) é conhecido pela sistematicidade com que organizou seu pensamento, legando à posteridade um imenso projeto crítico em que se dedicou a averiguar os limites e possibilidades da racionalidade humana. Para tanto, entendeu que precisava separar o seu trabalho em três vertentes, trabalhando primeiro com os juízos que diziam respeito ao conhecimento, na Crítica da razão pura, depois com os juízos morais, na Crítica da razão prática, e por fim trabalhando em tipos de juízos que não eram nem uma coisa nem outra: aqueles que dizem respeito à estética e à conformidade a fins, ou seja, juízos estéticos e teleológicos. A eles se dedicou em sua terceira crítica, intitulada Crítica da faculdade de julgar. A primeira coisa que devemos perceber, então, é a diferença que existiria para Kant entre juízos sobre a arte e todos os demais juízos, ou seja, que eles nada têm a ver nem com a verdade do conhecimento, nem com preceitos da moral. Os juízos do conhecimento são juízos que presumem objetividade – dentro daquilo que Kant entende como fenômeno. Dentro de todas as análises feitas na primeira crítica, se esclarecem os limites daquilo que podemos afirmar como verdade e entender como concernente à ideia de ciência. Da mesma maneira, os juízos morais, embora mirem em um parâmetro ideal, possuem em si, para Kant, uma objetividade, a objetividade de uma lei que a razão dá a si mesma e que pode ser comprovada pela sua logicidade. Quando se fala em estética, estamos falando em juízos de gosto, aqueles que dizem respeito às noções de agradável e belo, e também o que o autor chama de sublime. De forma muito resumida, ele aponta como principal característica dos juízos estéticos o fato de serem subjetivos. Diz Kant: “O juízo de gosto não é, pois, nenhum juízo de conhecimento, por conseguinte não é lógico e sim estético, pelo qual se entende aquilo cujo fundamento de determinação não pode ser senão subjetivo” (Kant, 2008, p. 48). Kant caracteriza este subjetivo enquanto um processo que é reflexivo, ou seja, que se refere somente a algo dentro de nós. Este algo é a faculdade da imaginação. Dessa forma, o juízo de gosto não depende da existência do objeto externo, e a partir dessa independência Kant nomeia o juízo estético como desinteressado, isto é, independente de todo interesse. Antes que cheguemos à velha fórmula do gosto não se discute, que poderia ser uma conclusão a partir da ideia de que o juízo de gosto é subjetivo, precisamos notar que o segundo 08 ponto a que Kant atenta é a ideia de desinteresse. Trata-se de uma espécie de complacência desinteressada, em que sentimos prazer, porém não um prazer que diz respeito a determinado interesse meu. O sentimento do belo é, para Kant, algo muito próximo da ideia de um prazer universal. Apesar de complexo, o trecho abaixo pode nos dar um pouco mais de norte em relação a essa argumentação kantiana: Somente aquilo que tem o fim de sua existência em si próprio – o homem, que pode determinar ele próprio seus fins pela razão –, ou onde necessita tomá-los da percepção externa, todavia, pode compará- los aos fins essenciais e universais e pode então ajuizar também esteticamente a concordância com esses fins; este homem é, pois, capaz de um ideal de beleza, assim como humanidade em sua pessoa, enquanto inteligência, é, entre todos os objetos do mundo, a única capaz do ideal da perfeição. (Kant, 2008, p. 79) Estudar Kant, especialmentena estética, é algo que exige certa concentração de esforços, porque pressupõe a compreensão de outros pontos já elaborados em outras críticas, que o filósofo retoma aqui. É importante compreender, nesse sentido, o que Kant entende por liberdade enquanto finalidade da vida humana. Kant vê o ser humano como uma espécie de cidadão de dois mundos. Pois, enquanto ente físico, está submetido à causalidade das leis da natureza. Mas, enquanto ente capaz de pensamento autônomo, precisa ser entendido como fundamentalmente livre, devendo obedecer às leis da sua própria razão. Note que “sua razão”, aqui, não significa a razão de cada indivíduo, mas a razão pensada universalmente. Na opinião de Kant, o que ocorre ao homem, no fim das contas, é o seguinte: compreendemos que a finalidade de nossas vidas está explicitada pelo conceito de liberdade, mas, ao mesmo tempo, a liberdade não se efetiva plenamente no cotidiano. Embora limitados por uma série de coisas (inclinações, instintos, etc.), precisamos nos pensar como seres destinados à liberdade. A própria moralidade já é pensada dentro desses parâmetros por Kant. E o juízo estético do belo, igualmente, é pensado por Kant como algo concernente aos fins da vida humana, embora isso ainda funcione mais como um paradigma do que uma realização concreta. Assim como à liberdade, a beleza também é algo a que o homem deveria aspirar. Dentro desse raciocínio, surge então a noção de autonomia da obra de arte. Em função da especificidade da ideia de beleza em nossa condição humana, Kant argumenta que não é possível subjugar a arte a nenhum outro tipo de julgamento, que não seja feito dentro dos parâmetros colocados pelo 09 juízo de gosto. Isso significa, de maneira mais clara, que não podemos julgar uma obra de arte em função de fatos alheios à capacidade humana de sentir prazer com a beleza. Não podemos elogiar uma obra nem por cumprir bem um papel político, moral ou religioso, nem por servir de alguma forma ao nosso conhecimento. A palavra autonomia – muito utilizada por Kant também em outros pontos – é bem precisa para falar deste respeito àquilo que “dá a si mesmo as suas leis”. TEMA 4 – SCHILLER E A EDUCAÇÃO ESTÉTICA DA HUMANIDADE A palavra educação nos traz imediatamente a ideia de que se educa para o conhecimento, e que o conhecimento tem um caráter de algo lógico e exato, que diz respeito ao raciocínio mais do que a outras possibilidades humanas. Mas não é de hoje que alguns filósofos e pensadores da educação insistem que é necessário educar pela via da sensibilidade, mais do que pela via do raciocínio. Talvez o primeiro a ter dito isso de forma muito enfática foi Friedrich Schiller (1759-1805), filósofo alemão que viveu um período bastante interessante da História, testemunhando a Revolução Francesa e participando do movimento pré-romântico que ficou conhecido como Sturm und Drang (tempestade e ímpeto). Schiller foi médico, poeta, dramaturgo, filósofo e uma figura de relevo junto a outros nomes, como Goethe, Winckelmann e Herder. Foi partícipe dos ideais do iluminismo e da Revolução Francesa, mas construiu um ponto de vista um tanto quanto dissonante no sentido de acreditar que a educação voltada apenas para a razão não seria capaz de construir o ideal de homem que se pensava naquele momento. A obra mais importante em que o filósofo defende essa perspectiva é A educação estética da humanidade. Nesse texto, Schiller aponta para três pontos de apoio para a consolidação da cultura moderna, dois deles comuns aos intelectuais da Alemanha de seu tempo, ou seja, por um lado, a importância da racionalidade, que se reflete na valorização do conhecimento científico como primordial para o homem moderno, e, por outro, o lema alemão iniciado por Winckelmann de que era preciso “imitar os gregos para tornar-se inimitável”. Isso significava tomar os gregos como inspiração, mas para produzir uma filosofia e uma cultura genuinamente alemãs. 010 O terceiro ponto é justamente aquele que chamamos de dissonante, que se inicia com a constatação de Schiller de que, apesar de a humanidade ter atingido grande desenvolvimento técnico e científico, em outras palavras, racional, parece haver diminuído a capacidade de sentir e de interpretar a própria sensibilidade. Schiller enxerga um atrofiamento da sensibilidade que se expressa, inclusive, na dificuldade de lidar com sentimentos e afetos, fato ao qual poderíamos atribuir ainda bastante atualidade. O exemplo mais emblemático desta proposta foi a reação de Schiller, que era simpático ao movimento francês, como muitos alemães de seu tempo, mas ficou horrorizado ao saber que o rei Luís XVI havia sido decapitado. Liberdade, igualdade e fraternidade não pareciam ao filósofo ideais que pudessem conviver com tal violência. No texto citado, Schiller toma posição no amplo debate de sua época que dizia respeito a como se deveria pensar a formação do homem, em especial na Alemanha, onde esse momento coincide também com a unificação do país e a necessidade de construção de ideais e valores comuns para aquela sociedade. Seria necessário, para ele, rever o desequilíbrio entre razão e sensibilidade, que não devem ser opostos como gostariam, por exemplo, Descartes e Kant, embora este último tenha sido de enorme influência em seu próprio pensamento. A arte e a cultura teriam, para Schiller, o papel de fomentar a sensibilidade, provocando um enfrentamento saudável entre os dois princípios. Diz ele: “Sua incumbência, portanto, é dupla: em primeiro lugar, resguardar a sensibilidade das intervenções da liberdade; em segundo lugar, defender a personalidade contra o poder da sensibilidade”. (Schiller, 2002, p. 68). Para ele, teria faltado a Kant a coragem de colocar ambos os impulsos como igualmente importantes para o homem, pois a razão não seria suficiente para construir os valores moralmente nobres que os filósofos iluministas desejavam. TEMA 5 – HEGEL E O FIM DA ARTE Friedrich Hegel foi um dos filósofos mais importantes para o Ocidente no século XIX, se admitirmos como parâmetro a capacidade de influenciar a cultura, a filosofia e a política de seu tempo, e, além disso, deixar uma contribuição que se consolide como fundamental para o desenvolvimento da história de uma civilização. Suas obras, suas ideias e sua metodologia de investigação e demonstração das ideias tornou-se um marco na história da filosofia, das 011 ciências sociais, da política e das artes. É nesse sentido que procuramos entender uma de suas mais polêmicas projeções, conhecida entre estudiosos como a ideia de fim da arte. Um olhar mais geral sobre sua filosofia talvez nos ajude a entender em que direção aponta essa hipótese problemática e aparentemente perturbadora, já que ele parece dizer que “não haverá mais arte depois de um determinado marco histórico-filosófico”. Na verdade, seu interesse é menos o de propagar uma ideia apocalíptica e mais o de sugerir uma consequência possível para o futuro da obra de arte, pelo menos a partir dos parâmetros pelos quais ela foi compreendida até o século XIX. Dito isto, seria absurdo dizer que o filósofo decretou a impossibilidade de algum músico, pintor ou poeta concluir uma de suas obras pretendidas. Mas, se entendemos que já houve uma compreensão de obra de arte que pressupunha, por exemplo, a singularidade de uma obra enquanto tal e a sua capacidade de provocar no homem uma reflexão ou um conjunto de emoções surpreendentes, isto é, não esperadas e cognoscíveis, aí sim começamos a nos dar conta do que Hegel pretendia nos oferecer quando anunciou ideia tão polêmica. É preciso lembrar, portanto, que há no pensamento de Hegel uma oposição necessária entre a natureza e a cultura, isto é, entre aquilo que podemos compreender como os produtos da natureza e seus fenômenos intrínsecos, e os produtos dasações humanas, para os quais a razão, gradativamente, veio adquirindo importância singular na história da cultura ocidental. Em outras palavras, podemos dizer que a história da arte veio, em nossa cultura, desenvolvendo-se na mesma medida em que crescia, para ela, a influência da racionalidade e da contribuição do homem enquanto sujeito nas suas produções. E, talvez, mais do que isso, a noção de que tudo o que homem produz está cada vez mais impregnado pela racionalidade, seus princípios e parâmetros, suas exigências e limites. Isso porque o sujeito histórico é, necessariamente, alguém capaz de expressar, nas suas criações e atividades, seu grau de consciência histórica e de si mesmo. E, na medida em que entendemos um artista como um exemplar desse tipo de sujeito, queremos dizer que também ele é capaz de expressar em suas produções as duas consciências (individual e histórica), promovendo uma interferência cada vez maior e mais determinante da racionalidade na vida humana. Ou seja, uma obra de arte cada vez mais racionalizada, nos seus princípios e nas suas consequências. 012 Esse conjunto de fatores, para Hegel, indica a necessidade de se constatar que o crescente grau de interferência da racionalidade implica uma diminuição das potências artísticas, sobretudo quanto ao entendimento de que elas ofereceriam ao homem experiências singulares e promoveriam reflexões que nenhuma outra esfera do conhecimento pudesse fazer de forma semelhante. Ora, isso significa dizer que aquilo que tornava a obra de arte singular e, ao mesmo tempo, absolutamente necessária para o desenvolvimento da intelectualidade e da sensibilidade humanas estaria em vias de desaparecer, com a racionalidade corroendo os processos pertinentes à nossa criação artística e produção cultural. Se, em última instância, considerarmos que uma obra de arte possa se apresentar como expressão da racionalidade humana ou da consciência histórica de um sujeito qualquer, desde que ele possa ser alçado a representante dos demais indivíduos, somos levados a admitir a possibilidade de a arte ser exclusivamente produto da razão. Se isso ocorre, temos então uma situação inaudita: uma obra de arte podendo e devendo ser submetida a critérios exclusivamente racionais e, nesse sentido, sendo observada e analisada do ponto de vista do conhecimento racional. Logo, podemos perceber que a tese, inicialmente anunciada como polêmica ou problemática, sugere, sobretudo nos dias de hoje, apenas uma projeção radical, mas suficientemente consciente, daquilo que estávamos começando a ver acontecer há menos de um século atrás. Afinal, as afirmações dos filósofos ligados à Escola de Frankfurt, como Walter Benjamin, com sua teoria da reprodutibilidade técnica da obra de arte, e Theodor Adorno e Max Horkheimer, com a teoria da Indústria Cultural, não podem ser considerados delírios de filósofos de esquerda. Nossa produção cultural e artística vem sendo corroída pelos mecanismos, formas de produção, interesses e especulações das nossas expressões políticas e econômicas, cujo caráter fundamental é a racionalidade. FINALIZANDO O conteúdo trabalhado nesta aula é o de uma introdução aos temas mais relevantes da estética moderna, visando construir uma primeira noção sobre essas discussões no campo da filosofia. Embora um pouco densos, acreditamos que seja importante que você se aprofunde naqueles que mais lhe interessam, 013 principalmente para não deixar de tomar os filósofos propriamente ditos como referência quando se trate de questões relativas aos conceitos de beleza, de gosto, enfim, dos problemas da arte em geral. Em nosso dia a dia, conhecemos a importância atribuída à necessidade de que nós, professores que trabalhamos com a(s) disciplina(s) de arte nas escolas, sejamos capazes de educar os(as) alunos(as) para a sensibilidade. Conhecemos também a dificuldade de fazê-lo dentro de um contexto em que a racionalidade lógica é muito mais preponderante que a sensibilidade, em praticamente todas as outras disciplinas. Que não nos sintamos, contudo, tão sós, porque um filósofo do calibre de Friedrich Schiller já apontou para o problema no século XVIII e nos mostrou alguns caminhos. Aliás, todos os filósofos apontados aqui, desde Baumgarten com a mera assunção dos problemas da estética como filosóficos até Hegel decretando o fim das possibilidades de desenvolvimento da arte, passando pelas importantes concepções de Hume e Kant sobre o juízo do gosto, são companhias valorosas para aqueles que enxergam a necessidade – tal como eles – de valorizar a experiência artística na construção de valores humanos. 014 REFERÊNCIAS FRANZINI, E. La estética del siglo XVIII. Traducción de Francisco Campillo. Madrid: Visor, 2000. HUME, D. Do padrão do gosto. In: O belo autônomo: textos clássicos de estética. Belo Horizonte: Autêntica; Crisálida, 2012. KANT, I. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valério Rohden e António Marques. Rio de Janeiro: Forense, 2008. KIRCHOF, E. R. A estética antes da Estética. Canoas: Ed. ULBRA, 2003. MÁS, S. Hölderlin y los griegos. Madrid: Visor, 1999. NOYAMA, S. Nostalgia e amor na estética alemã: arte e filosofia em Friedrich Schiller. 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