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<p>Filosofia moral</p><p>Você vai conhecer o desenvolvimento dos sentidos e das transformações da ética ao longo da história da</p><p>filosofia.</p><p>Profa. Raquel de Azevedo, Prof. Rafael Mófreita Saldanha</p><p>1. Itens iniciais</p><p>Propósito</p><p>Compreender as inúmeras formas da ética na história da filosofia e as razões de suas transformações no</p><p>tempo, assim como o desenvolvimento da capacidade de colocar-se diante de problemas éticos e morais a</p><p>partir dos conceitos trabalhados por filósofos ao longo da História.</p><p>Objetivos</p><p>Distinguir os conceitos de bem e virtude no pensamento da Antiguidade Clássica.</p><p>Identificar os elementos que conciliam os princípios da ética clássica aos fundamentos cristãos do</p><p>medievo.</p><p>Descrever os desafios éticos da Era Moderna a partir dos avanços científicos desse período.</p><p>Reconhecer os principais dilemas éticos explorados pelo pensamento na Era Contemporânea.</p><p>Introdução</p><p>Para apresentarmos os principais conceitos filosóficos que lidam com problemas éticos e morais,</p><p>analisaremos quatro grandes períodos da história da filosofia. Trata-se da Era Clássica, quando</p><p>investigaremos as definições de bem e virtude que influenciaram significativamente todo o pensamento</p><p>ocidental. Ao abordarmos a Era Medieval, veremos como os conceitos de bem e virtude se transformaram a</p><p>partir da difusão do Cristianismo.</p><p>No tocante à Era Moderna, discutiremos o problema da ética na Modernidade com ênfase na liberdade e na</p><p>autonomia dos indivíduos. Por último, quando estudarmos a Era Contemporânea, delinearemos os novos</p><p>dilemas que os pensadores contemporâneos colocaram para o campo da ética ao longo do século XX.</p><p>Com esse percurso, poderemos estabelecer um panorama adequado das principais transformações que esse</p><p>campo do conhecimento vem sofrendo ao longo da História, o que garantirá a compreensão mais ampla dos</p><p>problemas éticos e morais que nos cercam.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Estátua do filósofo grego Aristóteles.</p><p>1. O bem e a virtude na Antiguidade Clássica</p><p>A escola platônica</p><p>A Antiguidade Clássica foi o momento em que a</p><p>filosofia ocidental começou a tomar forma.</p><p>Ainda que não seja possível dizer que a filosofia</p><p>é uma tradição que emergiu exclusivamente no</p><p>mundo grego, pode-se afirmar que a tradição</p><p>conhecida no Ocidente assume a clássica (isto</p><p>é, a grega e a latina) como seu ponto de</p><p>origem.</p><p>Os problemas que a filosofia incorpora remetem</p><p>a esse momento histórico.</p><p>No campo da ética, ela se ocupa com a busca</p><p>para determinar se há algum tipo de bem que</p><p>possa nos auxiliar a construir nossa vida. Uma vez estabelecido que tipo de bem é esse, a filosofia pensa o</p><p>que os indivíduos devem fazer para conquistá-lo.</p><p>O mundo da Antiguidade não era homogêneo. Havia inúmeras escolas filosóficas, e cada uma delas elaborava</p><p>a sua ideia de bem e os distintos meios para alcançá-lo.</p><p>Analisaremos a seguir quatro dessas escolas, destacando as de origem:</p><p>Platônica Aristotélica</p><p>Epicurista Estoica</p><p>Platão identifica na felicidade (ou eudaimonia) o objetivo mais elevado de um pensamento e de uma conduta</p><p>moral. As virtudes (aretê) necessárias para obtê-la são apresentadas por meio dos diálogos; ou seja, as</p><p>disposições da alma e da cidade que fundamentam uma vida digna de ser vivida florescem por meio do tipo</p><p>de acordo ou impasse a que os personagens platônicos chegam.</p><p>Essa característica está presente no Livro I da República (2021) e em diálogos, como Górgias (2020). Nessa</p><p>obra, três personagens – Górgias, Polo e Cálicles – são submetidos aos elenchos socráticos; isto é, ao método</p><p>socrático de investigação da verdade por meio da argumentação de confronto.</p><p>Cálicles, como bom aluno do sofista Górgias, era o representante do modo de vida nas assembleias, nas quais</p><p>nunca se diziam as mesmas coisas sobre os mesmos assuntos, em oposição óbvia à postura do filósofo</p><p>Sócrates.</p><p>Assim, Sócrates foi forçado a explicitar seu modo de vida, segundo a virtude, por meio de um artifício do</p><p>discurso. Vejamos como isso se deu.</p><p>No diálogo, existe uma analogia entre os dois amantes de Sócrates e Cálicles. Enquanto as paixões</p><p>caliclianas são os demoi de Atenas e Demo, filho de Pirilampo; Sócrates ama Alcebíades, filho de</p><p>Clínias, e a filosofia.</p><p>No texto, há o paralelismo entre a filosofia e a política democrática de Atenas. Em outras palavras:</p><p>entre o discurso unívoco do filósofo – que sempre diz as mesmas coisas sobre os mesmos assuntos – e</p><p>o discurso volúvel do político, pois suas opiniões variam conforme as circunstâncias e o público a quem</p><p>ele se volta.</p><p>Na obra, percebe-se que Alcebíades não era estável como a filosofia. Pelo contrário: ele se</p><p>assemelhava aos amantes de Cálicles. Isso significa que Sócrates não é um personagem que elimina o</p><p>conflito em seu íntimo, mas incorpora-o. Dito de outra forma: os dois amantes socráticos, Alcebíades e</p><p>a filosofia, interiorizam a oposição maior entre os dois modos de vida confrontados no não diálogo com</p><p>Cálicles: a política corrompida da polis e a verdadeira política.</p><p>No diálogo, vemos que, com essa operação, Platão parecia fazer do personagem de Sócrates um</p><p>mecanismo que busca a equivalência entre os interlocutores, de modo que se abra um “espaço de</p><p>comunidade” entre eles. No entanto, se o diálogo não for possível, Sócrates será capaz de internalizar</p><p>o conflito.</p><p>demoi</p><p>Subdivisões administrativas da Ática, região ao redor de Atenas. Cada dêmos operava como uma</p><p>minipólis; isto é, uma comunidade. Portanto, as paixões caliclianas voltavam-se para o povo.</p><p>O que Platão encontrou no personagem de Sócrates, que é sempre um tipo de uma representação sua, foi a</p><p>possibilidade de elaborar uma noção de verdade a partir da consistência do discurso. Assim, o objetivo da</p><p>dialética não seria extrair a verdade pela destruição da doxa (crença popular ou comum que reúne diferentes</p><p>pontos de vista), mas, nas palavras de Hannah Arendt (2002), revelar a doxa em sua verdade.</p><p>Se a verdade é a formulação em fala daquilo que parece ser para alguém; isto é, o modo como o mundo se</p><p>abre para essa pessoa, o critério para que ela diga sua doxa com verdade é que ela esteja de acordo consigo</p><p>mesma.</p><p>Esse é o produto da dialética: a produção da correlação sem eliminar o conflito.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Discurso de Sócrates, Louis Joseph Lebrun, 1867.</p><p>Aristóteles, Luca Giordano, 1653.</p><p>O impasse que caracteriza o diálogo Górgias é que Cálicles</p><p>se recusa a conversar e Sócrates termina falando sozinho –</p><p>mas faz isso de forma dialética.</p><p>Platão fez o personagem de Sócrates internalizar a</p><p>oposição entre a verdadeira política e a corrompida da polis,</p><p>expressando o modo virtuoso de vida por meio do acordo</p><p>consigo mesmo.</p><p>Contudo, a insistência de Cálicles não significa a abolição</p><p>da dialética, mas, sim, reduzi-la à não contradição consigo</p><p>mesmo. O monólogo final de Sócrates também repercute na imaginação de uma cidade que será sempre</p><p>semelhante ao bom arranjo dos vários fragmentos da alma.</p><p>A cidade socrática se opõe à cidade das assembleias, dos conselhos e dos tribunais de Górgias, Polo e</p><p>Cálicles. Para construí-la, Sócrates tem de lutar no interior da topologia da cidade (e, portanto, do modo de</p><p>vida) de Cálicles – a saber, nos discursos.</p><p>Platão e os elenchos socráticos</p><p>Conheça, neste vídeo, a escola platônica e o pensamento de Sócrates por meio de seus diálogos.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>A escola aristotélica</p><p>Aristóteles escreveu dois tratados sobre</p><p>ética: Ética a Nicômaco (2010) e Ética a</p><p>Eudemo (2015).</p><p>O pensamento que encontramos em ambos se</p><p>ocupa, primeiro, do conceito de felicidade</p><p>(eudaimonia) e do exame da natureza da</p><p>virtude ou da excelência moral (aretê).</p><p>Para Aristóteles, a ética não é exatamente uma</p><p>disciplina teórica.</p><p>Para ele, não se investiga a diferença de</p><p>opinião a respeito do que é o bem</p><p>simplesmente pelo conhecimento, e sim, por estar em melhores condições de atingi-lo, o que se dá pelo</p><p>desenvolvimento de uma compreensão mais ampla de seu fundamento. Tampouco se trata de criar uma lista</p><p>de coisas que estejam associadas ao bem. Afinal, tal lista seria longa:</p><p>disciplinar, referiu-se a um modelo de prisão</p><p>concebido por Jeremy Bentham, chamado de</p><p>Panóptico. Essa prisão facilitaria o controle</p><p>sobre os presos, devido à impressão de</p><p>constante vigilância.</p><p>Isso é visível, sobretudo, na maneira como o</p><p>ensino público universal passou a ser</p><p>institucionalizado na França após a Revolução</p><p>Francesa. Uma consequência dessas dinâmicas</p><p>é que a consolidação dessas práticas na</p><p>sociedade levou-as a refletirem sobre si</p><p>mesmas a ponto de organizarem-se como</p><p>disciplinas e campos do saber.</p><p>Entretanto, esses campos não são neutros, uma vez que as práticas que se desenvolvem são as atreladas aos</p><p>interesses do Estado em gerir a vida das pessoas. Há uma série de disciplinas científicas que não têm nada de</p><p>neutras, visto que um dos seus efeitos é produzir um saber que pode ser mobilizado para intensificar o</p><p>processo de dominação social.</p><p>As relações entre poder e saber nas sociedades modernas estabelecem um problema ético pela</p><p>maneira como condicionam os sujeitos que existem nessa realidade. Foucault explicitou como esses</p><p>processos, que podem ser tomados como políticos (ou seja, formas como o poder se exerce),</p><p>apresentam obstáculos para a construção de uma vida ética.</p><p>Se, na história da filosofia, o problema da ética era costumeiramente abordado do ponto de vista do sujeito –</p><p>pensado como força que procura construir sua boa vida –, o filósofo francês demonstrou que os processos de</p><p>subjetivação de construção não podem ser descolados das estruturas da sociedade que atuam sobre os</p><p>sujeitos e procuram moldá-los conforme seus interesses.</p><p>Vigiar e punir</p><p>Acompanhe, neste vídeo, como aprofundar um pouco mais seu conhecimento sobre a filosofia de Michel</p><p>Foucault.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Lawrence Kohlberg</p><p>Um dos psicólogos mais influentes do século XX, o norte-americano Lawrence Kohlberg (1927-1987) criou</p><p>uma teoria sobre o desenvolvimento moral dos seres humanos. Os chamados “estágios do desenvolvimento</p><p>moral” procuram pensar as condições para a formação moral de um sujeito a partir do trabalho do psicólogo</p><p>infantil Jean Piaget.</p><p>O objetivo de Kohlberg (2006) era mostrar como a capacidade dos humanos de reagir a dilemas morais</p><p>desenvolve-se. Ele procurou construir uma teoria do raciocínio moral que, no entanto, não se apoiasse em</p><p>qualquer princípio moral.</p><p>A ideia seria pensar uma vida moral que não fosse determinada de antemão por qualquer conjunto de</p><p>princípios, o que se daria como o aperfeiçoamento da nossa capacidade de avaliar as situações morais em</p><p>que nos encontramos. Para desenvolver sua teoria, Kohlberg partiu do pressuposto de que os seres humanos</p><p>possuem a tendência de explorar e adaptar-se aos espaços em que vivem.</p><p>Como o ser humano é uma criatura social, essa adaptação passaria pela compreensão dos que habitam seu</p><p>mundo. Por isso, a maneira mais eficiente de os indivíduos adaptarem-se aos ambientes em que se encontram</p><p>seria imitando as pessoas que têm a ocupação espacial mais eficiente (ou que se imagina que tenham).</p><p>Atenção</p><p>Para que o aprendizado não seja simples impressão errônea daquele que imita, é importante obter a</p><p>validação dos comportamentos imitados por aqueles que acreditamos terem bons comportamentos.</p><p>Podemos dizer que uma comunidade é bem organizada e possui bons comportamentos a serem imitados</p><p>quando se constitui a partir de valores, como reciprocidade, cuidado mútuo e respeito. Nesses casos, o</p><p>desenvolvimento moral de seus participantes ocorreria de maneira progressiva e a partir da forma como os</p><p>comportamentos são recebidos pela própria comunidade.</p><p>O psicólogo dividiu o progresso moral em seis estágios. Confira!</p><p>Estágios 1 e 2</p><p>Os dois primeiros estágios são chamados de pré-convencionais. Avalia-se neles a moralidade de</p><p>nossas ações por meio de suas consequências e de suas preocupações egoístas.</p><p>No primeiro estágio, o foco é avaliar as ações para evitar punições e sofrimento. No segundo, os</p><p>indivíduos também já são capazes de avaliar as ações a partir dos ganhos que podem obter.</p><p>Estágios 3 e 4</p><p>O terceiro e o quarto estágios são chamados de convencionais. Nesse ponto, o raciocínio moral dá-se</p><p>a partir de uma comparação das ações com as expectativas de determinada comunidade. A questão</p><p>não é avaliar as expectativas e as convenções em si mesmas, nas se nossas ações adequam-se a</p><p>elas ou não.</p><p>No terceiro estágio, essa avaliação se dá no nível das relações interpessoais entre pessoas, enquanto,</p><p>no quarto, o crivo de avaliação consiste em leis e convenções explícitas de uma sociedade.</p><p>Estágios 5 e 6</p><p>Os dois últimos estágios são descritos como pós-convencionais. Esse ponto de desenvolvimento é</p><p>alcançado à medida que os indivíduos começam a descolar sua forma de orientar-se moralmente</p><p>daquela que vigora em sua comunidade. Isso acontece não por algum capricho dos sujeitos, mas pelo</p><p>movimento de reflexão sobre as próprias ordenações morais que organizam as comunidades.</p><p>No quinto estágio, surge a percepção de que os princípios que determinam uma comunidade não são</p><p>leis absolutas, mas contratos sociais construídos coletivamente. No sexto, passamos a compreender</p><p>que a avaliação moral deve, antes, se basear em justificativas que apelam para princípios éticos</p><p>universais. Nesse ponto, segundo Kohlberg, podemos ver com mais clareza que qualquer norma</p><p>social tem validade apenas se for fundamentada na justiça.</p><p>O objetivo do psicólogo, com sua teoria, não era simplesmente descrever os processos de construção de um</p><p>sujeito moral. Sua ideia foi pensar como se orienta uma educação moral capaz de realizar-se sem que as</p><p>pessoas precisem partir de preceitos morais já determinados.</p><p>Importa menos o conteúdo moral do pensamento das pessoas e mais sua capacidade de avaliar as situações</p><p>em que se encontram. É por isso que sua ênfase estava no desenvolvimento progressivo dessas capacidades,</p><p>até o ponto no qual as próprias pessoas se tornassem capazes de refletir sobre as formas de situarem-se</p><p>moralmente no mundo.</p><p>Carol Gilligan</p><p>Psicóloga norte-americana (1936) que trabalhou com Kohlberg em sua teoria dos estágios morais, mas</p><p>também a criticou de um ponto de vista feminista. Apesar de construir suas ideias a partir do trabalho de seu</p><p>parceiro de pesquisa, ela procura avançar ao considerar que existem diferentes tipos de vozes morais, o que</p><p>implica distintos desenvolvimentos morais dos indivíduos.</p><p>Para Gilligan (1990), é possível distinguir entre dois tipos de vozes morais. Considere!</p><p>Vozes masculinas</p><p>Dirigem-se para problemas de ordem da justiça.</p><p>A justiça perseguida pela voz moral masculina</p><p>diria respeito a uma lógica individualista, na</p><p>qual o que importa é conseguir diferenciar o</p><p>que é devido a cada um em determinada</p><p>situação.</p><p>Vozes femininas</p><p>Dão mais ênfase à perspectiva do cuidado. As</p><p>vozes femininas orientam as ações a partir de</p><p>uma preocupação e um desejo de proteção dos</p><p>seus próximos.</p><p>Como são problemas morais diferentes que estão em jogo (justiça e cuidado), Gilligan reconstrói a teoria dos</p><p>estágios morais do ponto de vista de uma ética do cuidado.</p><p>Assim como Kohlberg, ela dividiu os estágios em três grupos:</p><p>Pré-convencional</p><p>A mulher teria suas preocupações voltadas para sua sobrevivência como indivíduo e para a</p><p>compreensão de quem ela é.</p><p>Convencional</p><p>As mulheres começam a preocupar-se mais com os outros, passando a considerarem-se como seres</p><p>altruístas.</p><p>Pós-convencional</p><p>O estágio é supostamente marcado por maior reflexividade e responsabilização pelos gestos</p><p>altruístas. Não se trataria apenas de cuidar dos outros, mas de compreender e articular esse cuidado</p><p>de modo sistemático.</p><p>Diferentemente de Kohlberg – para o qual o avanço dos estágios implicava autonomia do indivíduo –, Gilligan</p><p>descreve o progresso em que cada etapa implica menor individualismo. O que aparece nessa distinção é que</p><p>não apenas o progresso moral pode se dar em várias direções, mas a posição original do psicólogo também é</p><p>menos neutra do que ele desejava inicialmente.</p><p>Seu foco em problemas de justiça acaba revelando a posição</p><p>que privilegia a lógica individualista no progresso</p><p>moral. Isso não significa que Gilligan procure afirmar que uma das vozes é superior à outra. Seu objetivo é</p><p>justamente apontar as diferenças para permitir um desenvolvimento que integre as diferentes vozes.</p><p>A psicologia norte-americana e a filosofia contemporânea</p><p>Confira, neste vídeo, como Kohlber e Gilligan contribuíram para o pensamento moral de nossos dias.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>A teoria de Lawrence Kohlberg sobre os estágios morais é dividida em seis estágios, que evoluem em direção</p><p>à autonomia da capacidade de os indivíduos tomarem decisões morais. Qual foi o objetivo do psicólogo ao</p><p>estruturar sua ética dessa forma?</p><p>A</p><p>Restaurar uma ética das virtudes de natureza aristotélica.</p><p>B</p><p>Elaborar um caminho de desenvolvimento moral que não dependesse de nenhum princípio prévio que guiasse</p><p>os indivíduos.</p><p>C</p><p>Superar o fato de que os seres humanos não teriam, segundo sua concepção, livre-arbítrio.</p><p>D</p><p>Demonstrar que, somente com os princípios éticos adequados, podemos progredir moralmente.</p><p>E</p><p>Revelar que o avanço moral não é possível sem a intervenção do acaso.</p><p>A alternativa B está correta.</p><p>O pensamento de Kohlberg procurou elaborar uma forma de pensar o desenvolvimento moral sem apelo a</p><p>qualquer princípio para que o ensino moral não precisasse ser submetido a práticas de doutrinação de</p><p>correntes éticas específicas. É por isso que ele procurou mapear o desenvolvimento moral natural dos</p><p>indivíduos.</p><p>Questão 2</p><p>Apesar de trabalhar com Kohlberg, Carol Gilligan leva adiante sua teoria das etapas do estágio moral e critica-</p><p>a de um ponto de vista feminista. Qual a principal crítica elaborada por Gilligan?</p><p>A</p><p>A teoria de Kohlberg privilegiar um ponto de vista masculino, não compreendendo que pode haver outras</p><p>direções de desenvolvimento moral.</p><p>B</p><p>O fato de Kolberg não elaborar uma progressão moral que demonstre a necessidade de refletir sobre seus</p><p>princípios antes de os indivíduos tornarem-se agentes morais.</p><p>C</p><p>A divergência entre Gilligan e Kohlberg é devido à pensadora assumir que não existe liberdade para os</p><p>indivíduos tomarem suas decisões morais.</p><p>D</p><p>Gilligan diferencia-se de Kohlberg por assumir um ponto de vista kantiano que pensa que a ética se instaura a</p><p>partir de uma noção de dever.</p><p>E</p><p>A politização da esfera moral em Kohlberg.</p><p>A alternativa A está correta.</p><p>A crítica de Gilligan fundamenta-se em um privilégio histórico, que a psicologia deu aos homens na hora de</p><p>investigarem a natureza moral das pessoas. Isso tornou invisível a possibilidade de haver outras formas de</p><p>progresso moral direcionadas a problemas distintos.</p><p>5. Conclusão</p><p>Considerações finais</p><p>Neste conteúdo, revisitamos os principais pensadores e os conceitos da filosofia no campo da ética.</p><p>Começamos na Antiguidade, acompanhando o surgimento das discussões sobre o conceito de bem e as</p><p>virtudes necessárias para alcançá-lo.</p><p>Em seguida, abordamos as transformações dessas questões no Idade Medieval, a partir da consolidação do</p><p>Cristianismo e de sua difusão no campo filosófico. Também analisamos as transformações das questões</p><p>éticas no mundo moderno.</p><p>Diante dos avanços produzidos pela revolução científica, pontuamos como o problema da liberdade começa a</p><p>tornar-se cada vez mais central na investigação sobre a forma de situarmo-nos no mundo.</p><p>Por fim, investigamos alguns dilemas contemporâneos apresentados pelos pensadores do século XX,</p><p>observando que seus questionamentos dizem respeito ao fundo existencial de nossas preocupações éticas,</p><p>às relações de poder que determinam o tipo de vida que podemos ter e aos tipos de progresso moral a que</p><p>podemos aspirar.</p><p>Podcast</p><p>Ouça este podcast e saiba mais sobre alguns pontos de destaque de conteúdo estudado, a partir do</p><p>levantamento de alguns questionamentos!</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para ouvir o áudio.</p><p>Explore +</p><p>Para ampliar seu conhecimento sobre os temas abordados, sugerimos o site Artepensamento. É possível</p><p>encontrar nele uma série de textos que tratam dos problemas discutidos neste conteúdo.</p><p>Recomendamos também dois podcasts (em inglês):</p><p>History of Philosophy without any gaps: conduzido pelo professor Peter Adamson, da Universidade de</p><p>Munique, esse podcast fala sobre a história da filosofia. Ainda há vários episódios sobre filosofia antiga</p><p>e medieval.</p><p>History of ideas: conduzido por David Runciman, professor da Universidade de Cambridge, ele contém</p><p>alguns episódios sobre os personagens da filosofia moderna.</p><p>O longa-metragem Em nome de Deus (1988) conta a suposta história de amor entre Abelardo e a jovem</p><p>Heloise. Apesar de seu roteiro adaptado (ficção), ele é capaz de apresentar a moralidade medieval –</p><p>especialmente a partir da ótica do filósofo Pedro Abelardo.</p><p>•</p><p>•</p><p>O jornal Gazeta do povo oferece uma série de cursos on-line gratuitos. Um deles é o Curso de ética, com</p><p>Guilherme Cunha Pereira. Vale a pena conferir!</p><p>Referências</p><p>ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998.</p><p>AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 2002.</p><p>AQUINO, T. Suma teológica (Summa theologiae). São Paulo: Loyola, 2018.</p><p>ARENDT, H. A dignidade da política. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.</p><p>ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Rio de Janeiro: Loyola, 2010.</p><p>ARISTÓTELES. Ética a Eudemo. São Paulo: Edipro, 2015.</p><p>BENTHAM, J.; MILL, S. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.</p><p>BOÉCIO. A consolação da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2012.</p><p>EPICURO. Carta sobre a felicidade. São Paulo: Unesp, 2002.</p><p>ESPINOSA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.</p><p>FOUCAULT, M. Ciência e saber. In: A arqueologia do saber. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.</p><p>FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2014.</p><p>FOUCAULT, M. História da sexualidade. São Paulo: Paz e Terra, 2020. v. 1-4.</p><p>GILLIGAN, C. Uma voz diferente. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1990.</p><p>KANT, I. Crítica da razão pura. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.</p><p>KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. Porto: Edições 70, 2009.</p><p>KOHLBERG, L. Ética e educação moral. Rio de Janeiro: Moderna, 2006.</p><p>PLATÃO. Górgias. Joinville: Clube de Autores, 2020.</p><p>PLATÃO. República. São Paulo: Lafonte, 2021.</p><p>ROUSSEAU, J. A origem das desigualdades entre os homens. São Paulo: Cia das Letras, 2017.</p><p>SARTRE, J. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 2015.</p><p>SÊNECA. Cartas selecionadas. São Paulo: Auster, 2020.</p><p>Filosofia moral</p><p>1. Itens iniciais</p><p>Propósito</p><p>Objetivos</p><p>Introdução</p><p>1. O bem e a virtude na Antiguidade Clássica</p><p>A escola platônica</p><p>Platônica</p><p>Aristotélica</p><p>Epicurista</p><p>Estoica</p><p>Platão e os elenchos socráticos</p><p>Conteúdo interativo</p><p>A escola aristotélica</p><p>Exemplo</p><p>Justiça proporcional</p><p>Justiça corretiva</p><p>A ética aristotélica e a eudaimonia</p><p>Conteúdo interativo</p><p>As escolas epicurista e estoica</p><p>Epicuro</p><p>Exemplo</p><p>Sêneca</p><p>Exemplo</p><p>A ética nas escolas epicurista e estoica</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>2. Fundamentos da ética na Idade Média</p><p>A alta Idade Média</p><p>Filosofia clássica</p><p>Religião cristã</p><p>Agostinho</p><p>Comentário</p><p>Boécio</p><p>Exemplo</p><p>O pensamento medieval na alta Idade Média</p><p>Conteúdo interativo</p><p>A baixa Idade Média</p><p>Pedro Abelardo</p><p>Exemplo</p><p>Como seria possível cometer o mal voluntariamente?</p><p>Como seria possível fazer um julgamento ético?</p><p>Tomás de Aquino</p><p>Exemplo</p><p>Virtudes naturais</p><p>Morais</p><p>Intelectuais</p><p>Prudência</p><p>Justiça</p><p>Coragem</p><p>Virtudes teológicas</p><p>Fé</p><p>Esperança</p><p>Coragem</p><p>O pensamento medieval na baixa Idade Média</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>3. Os desafios éticos da Era Moderna</p><p>Filosofia e Modernidade</p><p>Bento de Espinosa</p><p>Atenção</p><p>Exemplo</p><p>O que sobraria para os humanos? Seria possível algum tipo de liberdade do ponto de vista humano?</p><p>A Idade Moderna e o pensamento de Espinosa</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Jean-Jacques Rousseau</p><p>Amor de si</p><p>Compaixão</p><p>Atenção</p><p>A liberdade</p><p>A capacidade de aperfeiçoarem-se</p><p>O Iluminismo</p><p>francês e o pensamento de Rousseau</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Immanuel Kant</p><p>Exemplo</p><p>Atenção</p><p>Resumindo</p><p>Kant no contexto do esclarecimento alemão</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Jeremy Bentham e John Stuart Mill</p><p>Exemplo</p><p>A filosofia utilitarista</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>4. A Era Contemporânea e seus dilemas éticos</p><p>A razão em meio às guerras</p><p>Jean-Paul Sartre</p><p>Consciência</p><p>Objeto</p><p>O existencialismo é um humanismo</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Michel Foucault</p><p>Atenção</p><p>Vigiar e punir</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Lawrence Kohlberg</p><p>Atenção</p><p>Estágios 1 e 2</p><p>Estágios 3 e 4</p><p>Estágios 5 e 6</p><p>Carol Gilligan</p><p>Vozes masculinas</p><p>Vozes femininas</p><p>Pré-convencional</p><p>Convencional</p><p>Pós-convencional</p><p>A psicologia norte-americana e a filosofia contemporânea</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>5. Conclusão</p><p>Considerações finais</p><p>Podcast</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Explore +</p><p>Referências</p><p>ter amigos, sentir prazer, ser saudável,</p><p>ser honrado, ser corajoso etc.</p><p>A dificuldade e a controvérsia começam quando nos perguntamos se há entre esses bens alguns mais</p><p>desejáveis que outros. Aristóteles não estava apenas em busca daquilo que se identifica com o bem, mas</p><p>também do que pode ser concebido como o maior dos bens. As três características encontradas no maior dos</p><p>bens são:</p><p>Ser desejável por si mesmo.•</p><p>Aristóteles dando aulas a Alexandre , Jean Leon</p><p>Gerome Ferris, 1895.</p><p>Não ser desejável apenas para obter outro bem.</p><p>Todos os demais bens só são desejáveis para obtê-lo.</p><p>Para Aristóteles, o maior dos bens é a felicidade, ou o bem viver. Ninguém deseja ser feliz para alcançar outro</p><p>objetivo na sequência. Pelo contrário: todos os demais bens (saúde, riqueza, inteligência, honrarias e</p><p>prazeres) são perseguidos para que seja possível atingir a felicidade. Portanto, a felicidade é autossuficiente.</p><p>Em atividades diferentes, o bem possui aparências distintas.</p><p>No entanto, a essência do bem supremo é sempre a mesma:</p><p>trata-se do bem perseguido em si e por si, sem nenhum</p><p>outro fim complementar.</p><p>A felicidade também não é presente dos deuses nem da</p><p>sorte: ela é produto da ação humana, conforme a</p><p>excelência.</p><p>Segundo Aristóteles, a excelência moral não é um estado.</p><p>Ela depende do hábito e caracteriza-se pela prática, como</p><p>qualquer outra arte. Entretanto, essa excelência é destruída</p><p>pela deficiência ou pelo excesso, mas se realiza pelo exercício do meio-termo em conformidade com a razão.</p><p>isto é, a excelência moral é possível à medida que se consegue experimentar sentimentos no momento certo,</p><p>em relação aos objetos corretos, com a pessoa ideal e da maneira certa.</p><p>Exemplo</p><p>Em relação ao dinheiro, Aristóteles argumenta que conseguir agir conforme a excelência; ou seja, o</p><p>meio-termo, é liberalidade. O desperdício caracterizaria o excesso, e a avareza significaria a</p><p>deficiência. Com relação à verdade, seu meio-termo é a veracidade. Seu excesso seria a arrogância,</p><p>enquanto a falsa modéstia seria sua deficiência.</p><p>A justiça também era, para Aristóteles, uma espécie de meio-termo, e na busca da excelência moral, ela</p><p>assumiria a posição de maior das virtudes. Afinal, só se pode ser justo em relação às outras pessoas;</p><p>portanto, apenas se é justo com o “bem do outro”, e não com o próprio.</p><p>É nesse sentido que Aristóteles apresenta dois tipos de justiça. Acompanhe!</p><p>Justiça proporcional</p><p>As pessoas para quem as coisas são justas e as</p><p>coisas em que o que é justo se expressa</p><p>aparecem em uma relação de proporção. Nesse</p><p>caso, o justo é aquilo que é proporcional; o</p><p>injusto, o que viola a proporcionalidade.</p><p>Justiça corretiva</p><p>As pessoas para quem as coisas são justas e as</p><p>coisas em que o que é justo se expressa</p><p>aparecem em uma relação de proporção</p><p>aritmética. A injustiça assume aspecto de</p><p>desigualdade entre os dois lados da equação.</p><p>O papel do juiz é tentar restaurar a igualdade por meio da penalidade, subtraindo do ofensor o excesso de</p><p>ganho. Por sua vez, a justiça por reciprocidade busca estabelecer uma medida comum entre os produtos do</p><p>trabalho de duas pessoas diferentes e desiguais. Tais produtos se tornam comparáveis pelo dinheiro, que,</p><p>segundo Aristóteles, mede todas as coisas.</p><p>Embora o dinheiro tenha papel importante como forma de mediação na justiça por reciprocidade, Aristóteles</p><p>argumentava que sua propriedade deveria servir apenas como meio para a aquisição de bens que atenderiam</p><p>•</p><p>•</p><p>Filósofo Epicuro.</p><p>às necessidades humanas. Ao considerar a propriedade como bem supremo, corre-se o risco de dimensioná-</p><p>la como autossuficiente, enquanto ela não passa, na verdade, de um simples instrumento para algo maior.</p><p>Aristóteles reconhecia duas modalidades para aquisição de riqueza. Observe a seguir!</p><p>A distinção entre as modalidades está fundada na concepção de que a natureza da coisa é o próprio fim dela.</p><p>Para Aristóteles, o fato de a natureza se bastar constituía o fim de cada ser.</p><p>A acumulação de riqueza por meio do comércio é contrária à natureza do ser humano, pois não garante, por si</p><p>só, sua autossuficiência.</p><p>A ética aristotélica e a eudaimonia</p><p>Confira, neste vídeo, os elementos essenciais da ética aristotélica.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>As escolas epicurista e estoica</p><p>Epicuro</p><p>A ética de Epicuro (que viveu aproximadamente entre 341 AEC e 270 AEC) distingue-se das proposições</p><p>platônicas e aristotélicas a respeito da felicidade e da virtude por encontrar seu fundamento na ideia de</p><p>prazer.</p><p>AEC</p><p>O uso das siglas AEC (antes da Era Comum) e EC (Era Comum) tem como objetivo uma escrita inclusiva,</p><p>sem distinção de crença ou cultura. São equivalentes aos termos antes de Cristo (a.C.) e depois de</p><p>Cristo (d.C.).</p><p>A vida virtuosa, segundo ele, não é um meio para a vida feliz (como no caso do aristotelismo) nem idêntica a</p><p>ela (como no estoicismo de Sêneca).</p><p>Para Epicuro, existe uma identidade entre felicidade e prazer. Entretanto, embora o prazer seja sempre algo</p><p>positivo, nem todos os prazeres são iguais nem devem ser perseguidos igualmente.</p><p>Na Carta sobre a felicidade (2002), o filósofo argumentava</p><p>que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Mais do que</p><p>a satisfação de um desejo, o objetivo do prazer epicurista é</p><p>atingir um estado sem dor, em que não haja nenhuma</p><p>perturbação no corpo ou na alma.</p><p>Segundo Epicuro, não sentimos a necessidade de buscar</p><p>prazer quando não estamos sofrendo (ou seja, como cantou</p><p>a Gal Costa, “quando a gente ‘tá contente, [...] nem pensar</p><p>que está contente a gente quer, [...] a gente quer é viver”!).</p><p>Onde existe prazer não há dor corporal ou sofrimento</p><p>mental.</p><p>Em conformidade com a excelência moral</p><p>Assume a riqueza como meio para</p><p>alcançar um bem maior.</p><p>Contrária à natureza humana</p><p>Concebe a riqueza como o próprio</p><p>bem maior.</p><p>Nero e Sêneca, Eduardo Barrón, 1904.</p><p>Como podemos observar, Epicuro definia o prazer como um bem. Para ele, os prazeres, ou os desejos que os</p><p>movem, eram distintos entre si, e por isso o filósofo enumera três tipos de desejos:</p><p>Naturais e necessários.</p><p>Naturais e não necessários.</p><p>Nem naturais, nem necessários. Esse tipo está associado a desejos, como a imortalidade ou a busca</p><p>por riquezas vazias.</p><p>Podemos entender a diferença entre os dois primeiros tipos de desejo como a que existe entre saciar a sede</p><p>com água ou com uma bebida saborosa. Ambas matam a sede. E o fato de que uma bebida é mais saborosa</p><p>que a outra apenas diversifica o prazer, mas não é isso que sacia o desejo.</p><p>É nesse sentido que as proposições de Epicuro não podem ser reduzidas a um simples hedonismo; ou seja, o</p><p>epicurismo não é a mera busca pelo prazer indiferente aos desejos que se satisfazem.</p><p>Mas o que nos permite escolher entre desejos distintos? Epicuro atribuía essa função à prudência, que</p><p>consiste no uso da razão no cálculo dos prazeres, ou na avaliação dos desejos que devemos ou não</p><p>satisfazer. Ele dedicou especial atenção a esse cálculo, pois há certos prazeres que conduzem a males</p><p>maiores, ao passo que certos males que levam a bens maiores.</p><p>Os prazeres associados aos desejos naturais não necessários podem significar a criação de hábitos que nos</p><p>deixam mal-acostumados.</p><p>Exemplo</p><p>Ingressar em uma rede social para sentir pertencimento e criar novas conexões sociais é um desejo</p><p>natural que gera prazeres, como a atenção dos outros (que vem em forma de curtidas e comentários).</p><p>Porém, o mau uso pode criar hábitos ruins, como busca pela validação dos outros, comparações e</p><p>negligência de outras áreas da vida.</p><p>Segundo Epicuro, melhor seria nos habituarmos aos prazeres naturais e necessários para que consigamos nos</p><p>contentar com pouco, caso não tenhamos muito. Assim, se tivermos abundância, poderemos desfrutá-la</p><p>melhor, pois são capazes de apreciá-la mais sabiamente os que menos dependem dela.</p><p>Considerando as características da prudência, Epicuro argumentava que todas as demais virtudes se originam</p><p>dela.</p><p>Sêneca</p><p>Marco Aurélio, Epiteto e Sêneca foram os</p><p>grandes representantes do estoicismo em</p><p>Roma. A distinção</p><p>entre o bem e aquilo que é</p><p>indiferente ocupava lugar central nos escritos</p><p>de Sêneca, que viveu aproximadamente entre 4</p><p>AEC e 65 EC</p><p>Os chamados indiferentes preferidos, como a</p><p>saúde e a riqueza, têm valor (em oposição às</p><p>coisas indiferentes não preferidas, que não</p><p>têm). Para o filósofo, para alcançar a felicidade,</p><p>basta apenas a virtude.</p><p>Sêneca insistia que a saúde e a riqueza têm</p><p>valor, embora não contribuam em nada para a felicidade. Isso significa que ambos não são bens no sentido</p><p>estrito do estoicismo.</p><p>1.</p><p>2.</p><p>3.</p><p>Outra distinção fundamental na ética estoica é a que se pode estabelecer entre as ações corretas e as</p><p>apropriadas. Uma ação apropriada considera os indiferentes de modo adequado. Tanto os sábios como os</p><p>tolos podem agir apropriadamente, mas somente os sábios podem agir de maneira correta; ou seja, sua</p><p>decisão reflete a consistência de sua alma.</p><p>Sêneca argumentava que, embora devamos considerar os indiferentes com toda sensatez – como coisas com</p><p>ou sem valor –, o bem não consiste em tê-los ou evitá-los. O bem se refere, na verdade, a escolher bem. Para</p><p>o filósofo, a virtude é um juízo sólido e verdadeiro.</p><p>Exemplo</p><p>Avaliar a virtude a partir dos indiferentes preferidos seria como preferir, entre dois homens bons, o que</p><p>possui o corte de cabelo da moda.</p><p>Indiferentes preferidos certamente possuem valor; porém, tais valores não são comparáveis ao bem. Na</p><p>verdade, eles só podem ser confrontados com os indiferentes não preferidos.</p><p>Para Sêneca, os indiferentes não são simplesmente irrelevantes; na verdade, eles são, de fato e a todo</p><p>momento, objeto de decisão. Em cada situação específica, os cursos de ação disponíveis envolvem</p><p>indiferentes.</p><p>Nas Cartas 94 e 95 (2020), Sêneca se pergunta se é melhor concentrar nossos estudos em preceitos</p><p>(praecepta) ou em princípios (decreta) para atingir o bem viver. Apesar disso, o filósofo defendia as duas</p><p>posições. Confira!</p><p>Segundo Sêneca, para alcançar a virtude, seria necessário:</p><p>Avaliar as situações.</p><p>Considerar o que significa uma ação apropriada para cada caso.</p><p>Desenvolver a capacidade de atribuir valor aos chamados indiferentes.</p><p>A ética nas escolas epicurista e estoica</p><p>Confira, neste vídeo, os principais representantes das escolas de pensamento da Antiguidade Clássica: os</p><p>epicuristas e os estoicistas.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Por um lado</p><p>É possível considerar que, para agir com</p><p>virtude, seria preciso aprofundar-se nos</p><p>decreta; ou seja, nos princípios da filosofia, e</p><p>não em leis ou princípios práticos.</p><p>Por outro lado</p><p>O estudo dos princípios filosóficos não é</p><p>suficiente: seria preciso levar em conta</p><p>as demandas nas quais as situações</p><p>específicas da vida nos colocam.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Questão 1</p><p>Aristóteles concebia a felicidade como o bem supremo, pois ela se trata de um bem perseguido em si e por si,</p><p>sem nenhum outro fim complementar. Segundo Aristóteles, é possível obtê-la:</p><p>A</p><p>agindo conforme a excelência moral, que é uma dádiva divina.</p><p>B</p><p>buscando o prazer por meio da prudência; isto é, avaliando os desejos que devemos satisfazer ou não.</p><p>C</p><p>agindo conforme a excelência moral, que não é um estado, e sim, uma prática que se aprende como qualquer</p><p>outra arte.</p><p>D</p><p>comportando-se corretamente, de modo que a deliberação reflita a consistência da alma.</p><p>E</p><p>sendo um consigo mesmo; ou seja, elaborando uma noção de verdade a partir da consistência do discurso.</p><p>A alternativa C está correta.</p><p>De acordo com Aristóteles, a felicidade não é presente dos deuses nem da sorte: ela é produto da ação</p><p>humana, conforme a excelência. Já a excelência moral não constitui um estado, mas depende do hábito e,</p><p>como qualquer outra arte, conquista-se pela prática.</p><p>Questão 2</p><p>Considerando o lugar que as posses e as riquezas ocupam no pensamento ético antigo, podemos dizer que:</p><p>A</p><p>o acúmulo de dinheiro proveniente do comércio é, para Aristóteles, uma modalidade natural de aquisição de</p><p>riqueza.</p><p>B</p><p>segundo Epicuro, a abundância é mais sabiamente apreciada por aqueles que menos dependem dela.</p><p>C</p><p>Sêneca classificava as riquezas como um indiferente preferido, sendo exatamente o necessário para alcançar</p><p>a felicidade.</p><p>D</p><p>Epicuro associava as riquezas aos desejos naturais e necessários.</p><p>E</p><p>em relação ao dinheiro, a avareza é, para Aristóteles, o comportamento que representa o meio-termo.</p><p>A alternativa B está correta.</p><p>Segundo Epicuro, devemos nos habituar aos prazeres naturais e necessários para que consigamos nos</p><p>contentar com pouco, caso não tenhamos muito, e se tivermos abundância, poderemos desfrutá-la melhor,</p><p>pois a apreciam mais sabiamente os que menos dependem dela.</p><p>Pintura barroca de Santo Agostinho na Catedral,</p><p>segundo original de Claudio Coello (1642-1693).</p><p>2. Fundamentos da ética na Idade Média</p><p>A alta Idade Média</p><p>A filosofia medieval combinava dois polos:</p><p>Filosofia clássica</p><p>Filosofia clássica pagã (especialmente em suas</p><p>versões grega e romana).</p><p>Religião cristã</p><p>Religião cristã (em seu caminho de formação e</p><p>consolidação).</p><p>Os cristãos buscavam acomodar sua religião aos termos da única tradição filosófica que conheciam. Assim, o</p><p>processo de assimilação dos temas religiosos foi um dos principais motores do pensamento filosófico do</p><p>período. Na conciliação desses campos, surgiam novos conceitos e novas teorias que se tornaram</p><p>ferramentas úteis não apenas no contexto religioso.</p><p>Embora a influência da filosofia clássica pagã tenha sido crucial para o desenvolvimento da filosofia medieval,</p><p>até os séculos XII e XIII quase todos os textos gregos originais ficaram perdidos para o mundo latino ocidental.</p><p>Como poucas pessoas conseguiam lê-los, eles exerceram influência indireta.</p><p>Ainda assim, os pensadores medievais tinham bom conhecimento da filosofia grega. Além disso, grande parte</p><p>do acervo clássico chegou até nós graças aos copistas medievais nos mosteiros e nas abadias.</p><p>Agostinho</p><p>A ética de Agostinho recupera a eudaimonia da filosofia</p><p>antiga, mas adia a felicidade para o além-mundo.</p><p>Essa complexa conjunção de elementos da ética antiga aos</p><p>princípios cristãos explica-se, em grande medida, pelo</p><p>momento histórico em que ele viveu (entre 354 EC e 430</p><p>EC).</p><p>Roma estava ruindo tanto pelas disputas internas de poder</p><p>como pelas invasões bárbaras. O Cristianismo, nesse</p><p>contexto, procurava consolidar seus fundamentos teóricos</p><p>por meio de sua inserção na tradição filosófica.</p><p>O pensamento de Agostinho tentava conciliar o trabalho doxográfico e de comentário das obras dos</p><p>pensadores antigos com as questões postas por uma religião monoteísta em formação. A fundação de um</p><p>pensamento filosófico cristão caracteriza o trabalho de Agostinho.</p><p>A queda e expulsão do Jardim do Éden, Michelangelo,</p><p>1510.</p><p>Trabalho doxográfico</p><p>A doxografia (que tem sua origem na palavra grega doxa) é a compilação e o comentário de obras</p><p>reconhecidamente importantes para o desenvolvimento do pensamento.</p><p>Um dos problemas com que Agostinho se ocupou de maneira central foi a origem do mal. Em primeiro lugar, o</p><p>teólogo perguntava-se se o mal consiste em uma impressão ilusória ou se existe em si. Já a segunda</p><p>investigação realizada envolvia o desvendamento de sua natureza.</p><p>Comentário</p><p>Na história da filosofia, existem diferentes definições acerca da natureza do mal. Enquanto há</p><p>pensadores que defendem que ele não existe em si, argumentando que sua natureza é a privação,</p><p>existem aqueles que afirmam que o mal existe em si, e há ainda os que restringem sua natureza a uma</p><p>esfera puramente moral, em que o mal é agir contra certas determinações ou leis morais. Por fim, há</p><p>quem vislumbram no mal uma questão metafísica; assim seria necessário definir sua essência.</p><p>O esforço de Agostinho significa a conciliação da ideia de um Deus cristão que cria todas as coisas (e é</p><p>sumamente bom em sua criação) com a existência do mal e da corrupção no mundo. Esse impasse se colocou</p><p>para ele enquanto o teólogo ainda seguia os princípios filosóficos do maniqueísmo. Para os maniqueístas, o</p><p>mal teria um conteúdo positivo,</p><p>isto é, uma realidade em si que é independente do bem. Essa ideia do mal</p><p>como realidade em si se opõe à ideia de um Deus sumamente bom. Seguindo esses princípios, duas</p><p>alternativas se impunham para Agostinho:</p><p>Conceber que o mal existe, mas não foi criado por Deus, já que ele é bom.</p><p>Assumir que o mal existe e foi criado por Deus, uma vez que ele criou todas as coisas.</p><p>O problema da primeira alternativa é que Deus não teria criado tudo; o da segunda, que ele não seria</p><p>totalmente bom. Contudo, foi a partir do contato de Agostinho com ideias neoplatônicas que uma alternativa</p><p>se abriu para a resolução do impasse.</p><p>Ideias neoplatônicas</p><p>Neoplatonismo é o conjunto de ideias provenientes do pensamento de Platão, com ênfase nos primeiros</p><p>séculos da Era Comum.</p><p>Até então Agostinho (2002) concebia Deus como um ser</p><p>capaz de estar todas as coisas do mundo, o que significa</p><p>que todas as coisas seriam absolutamente boas, à</p><p>semelhança de seu criador. Contudo, sob a influência do</p><p>neoplatonismo, ele passou a considerar o mal como</p><p>privação do bem.</p><p>As coisas existem na medida em que provêm de Deus; ou</p><p>seja, elas participam parcialmente nele, mas não se</p><p>identificam absolutamente com ele. Agostinho argumentava</p><p>que as coisas podem se corromper à medida que se</p><p>distanciam de Deus. Portanto, o mal não teria realidade em</p><p>si, pois estaria associado ao perecimento das coisas que</p><p>não participam em Deus.</p><p>Boécio</p><p>1.</p><p>2.</p><p>Boécio e a Filosofia, Mattia Preti, 1680.</p><p>Viveu entre 475 EC e 526 EC e foi um</p><p>importante intermediário entre a filosofia antiga</p><p>e o pensamento medieval. Ele traduziu</p><p>Aristóteles, escreveu textos sobre lógica e</p><p>utilizou seu treinamento no estudo dos</p><p>pensadores antigos para contribuir em</p><p>discussões teológicas de seu tempo.</p><p>Dos escritos de Boécio sobre lógica, destacam-</p><p>se aqueles que tratam da diferença tópica. A</p><p>partir da lógica aristotélica, Boécio (2012)</p><p>ajudou a elaborar um sistema de argumentos</p><p>tópicos, que valem mais por serem plausíveis</p><p>do que por serem estritamente rigorosos.</p><p>O objetivo do sistema é descobrir argumentos que, mesmo podendo não ser formalmente válidos, podem ser</p><p>aceitos como válidos.</p><p>Exemplo</p><p>Se quero argumentar que deveríamos elogiar Cícero, devo pensar no tipo de informação que já possuo e</p><p>que poderia me ajudar. Lembro que todos elogiam Demóstenes como orador. Entre as diferenças</p><p>tópicas, a que se dá “entre iguais” é a que fornece o argumento que procuro. Assim, como Cícero</p><p>também é um orador, todos, então, devem elogiar Cícero. Cada diferença tópica está associada a um</p><p>proposição máxima. No exemplo de Cícero e Demóstenes, essa proposição é que coisas iguais devem</p><p>ser julgadas da mesma maneira.</p><p>A proposição máxima indica o sentido do argumento como um todo, mas também pode ser adicionada ao</p><p>argumento para torná-lo formalmente válido. Contudo, é na aplicação dessa estrutura lógica ao estudo dos</p><p>textos teológicos que Boécio se notabilizava.</p><p>Agostinho foi pioneiro no uso da análise lógica em um contexto teológico, mas foi Boécio o responsável por</p><p>aperfeiçoar a técnica. Com isso, tanto posições hereges como a doutrina cristã ortodoxa poderiam ser</p><p>submetidas a uma conferência rigorosa por meio do uso da lógica e da física aristotélicas.</p><p>O pensamento medieval na alta Idade Média</p><p>Confira, neste vídeo, a contribuição de Agostinho e de Boécio pera o pensamento medieval.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>A baixa Idade Média</p><p>Pedro Abelardo</p><p>Abelardo instruindo Heloísa, Charles Durupt, 1837.</p><p>Viveu entre 1079 e 1142 e foi um proeminente</p><p>teólogo e filósofo do século XII. Seus trabalhos</p><p>no campo da ética notabilizam-se pela defesa</p><p>da tese de que a avaliação moral de um agente</p><p>deve se basear em suas intenções, uma vez</p><p>que as ações são moralmente indiferentes.</p><p>Abelardo era um intencionalista na análise da</p><p>moralidade cristã; ou seja, a intenção do agente</p><p>determina o valor moral de sua ação. Ele dizia</p><p>que a relevância moral das consequências de</p><p>uma intenção era uma questão de “sorte moral”.</p><p>Exemplo</p><p>Suponhamos que duas pessoas tenham dinheiro e que sua intenção seja construir abrigos para os</p><p>pobres. No entanto, uma delas é roubada antes de realizar o ato, e por isso somente a outra consegue</p><p>levá-lo a cabo. Para Abelardo, nesse caso, uma moralidade baseada na ação não tem qualquer valor. Ele</p><p>apontava que a negligência é um conceito moral mais relevante do que a ignorância.</p><p>Abelardo argumentava que os soldados que crucificaram Cristo não eram maus pela crucificação, porque a</p><p>ignorância da natureza divina de Cristo não os tornava pessoas más. Eles teriam pecado, segundo o filósofo,</p><p>se fosse necessário crucificar Cristo e eles tivessem se recusado. A culpa vem da ausência de</p><p>correspondência entre consciência e ação moral.</p><p>Porém, podemos estabelecer duas objeções ao intencionalismo de Abelardo:</p><p>Como seria possível cometer o mal voluntariamente?</p><p>Abelardo explicava que é comum querer coisas que não se gostaria de querer. Nossos corpos, afinal,</p><p>sentem prazer e desejo independentemente de nossa vontade. O mal não está no desejo, mas, sim,</p><p>em agir a partir dele.</p><p>Como seria possível fazer um julgamento ético?</p><p>Abelardo admitia que apenas Deus tem acesso às intenções dos agentes. Portanto, só ele pode julgá-</p><p>las (seria essa a origem do pensamento “Só Deus pode me julgar”? Fica a dúvida). Mas isso não</p><p>impede que as pessoas estabeleçam uma justiça humana que não se baseia nas intenções, mas no</p><p>caráter exemplar e de convencimento que as ações podem ter.</p><p>Tomás de Aquino</p><p>Tomás de Aquino.</p><p>Santo Tomás de Aquino, de Carlo Crivelli, 1476.</p><p>Viveu entre 1225 e 1274 e retomou o conceito</p><p>aristotélico de felicidade como bem supremo,</p><p>mas, a exemplo de Agostinho, estabeleceu a</p><p>distinção entre a felicidade imperfeita da vida</p><p>terrena e a perfeita do além-mundo.</p><p>Como discípulo de Aristóteles, ele seguiu o</p><p>argumento de que, em atividades diferentes, o</p><p>bem tem aparências distintas.</p><p>Considerando a função que determinado</p><p>indivíduo executa, podemos identificar a</p><p>excelência e o bem associados àquela prática</p><p>específica.</p><p>Exemplo</p><p>Se sabemos o que um carpinteiro faz, temos um critério para avaliar um bom carpinteiro.</p><p>Como podemos falar do bem em geral? Seria preciso definir a função humana que deve ser cumprida com</p><p>excelência e que corresponde a um bem que não está restrito a uma atividade qualquer.</p><p>Segundo Tomás de Aquino, a qualidade que distingue os indivíduos é a atividade racional. Assim, se a</p><p>racionalidade é uma função humana, quem exerce a razão de maneira adequada é bom e feliz.</p><p>No entanto, Tomás de Aquino argumenta, na Summa</p><p>theologiae (2018), que a felicidade perfeita só pode ser</p><p>alcançada na vida eterna cristã.</p><p>De certa forma, é como se o argumento aristotélico de que</p><p>uma vida em conformidade com a excelência moral bastaria</p><p>para a felicidade fosse insuficiente para o frade católico,</p><p>pois o bem viver que Aristóteles associava à vida terrena</p><p>seria uma promessa que se cumpriria efetivamente no além-</p><p>mundo.</p><p>A vida de acordo com a razão não configura uma vida falsa.</p><p>A felicidade imperfeita a que Tomás de Aquino se refere</p><p>significa apenas que ela é comparativamente inferior à</p><p>vivida em comunhão com o Deus cristão. Como as ações humanas são essencialmente ordenadas pela razão,</p><p>as virtudes constituem os hábitos ou as potências humanas desenvolvidas segundo a razão.</p><p>A distinção entre os dois tipos de felicidade representa dois tipos de virtude. Confira a seguir!</p><p>Virtudes naturais</p><p>Correspondem à felicidade imperfeita. Essas virtudes se subdividem em:</p><p>Morais</p><p>Representam os apetites humanos.</p><p>Intelectuais</p><p>Significam a capacidade de apreender a</p><p>verdade.</p><p>Veja agora como Tomás Aquino caracteriza as virtudes naturais!</p><p>Prudência Justiça</p><p>Coragem</p><p>Virtudes teológicas</p><p>Dizem respeito à felicidade perfeita. Segundo Tomás de Aquino, essas virtudes são concedidas pela graça</p><p>divina. Acompanhe quais são!</p><p>Fé Esperança</p><p>Coragem</p><p>O pensamento medieval na baixa Idade Média</p><p>Veja, neste vídeo, o pensamento de Pedro Abelardo e o de Tomás de Aquino na constituição</p><p>da filosofia da</p><p>Idade Média.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>Agostinho encontrou uma saída para o impasse entre um Deus bom e criador de todas as coisas e a existência</p><p>do mal e da corrupção no mundo. Para isso, ele definiu o mal como:</p><p>A</p><p>algo que existe em si, e isso não é contraditório a um Deus bom.</p><p>B</p><p>algo que existe em si, mas não foi Deus quem o criou.</p><p>C</p><p>privação do bem, de modo que as coisas se corrompem à medida que se afastam da participação em Deus.</p><p>D</p><p>privação da racionalidade, que é a qualidade que distingue os humanos.</p><p>E</p><p>privação das virtudes teológicas.</p><p>A alternativa C está correta.</p><p>Tendo conhecido – e professado – o maniqueísmo em sua juventude, Agostinho preocupava-se em deixar</p><p>claro que, na filosofia cristã, nada está fora de Deus. Desse modo, a compreensão do mal apenas pode se</p><p>dar pela ausência de Deus; ou melhor, pela opção de não acolher a presença dele.</p><p>Questão 2</p><p>Sobre a definição de Tomás de Aquino acerca da felicidade imperfeita, podemos dizer que:</p><p>A</p><p>trata-se de uma forma falsa de felicidade, pois a verdadeira só se realiza na vida eterna.</p><p>B</p><p>as virtudes que a ela correspondem são a fé, a esperança e o amor.</p><p>C</p><p>envolve uma participação parcial em Deus.</p><p>D</p><p>em nada modifica o conceito de felicidade de Aristóteles.</p><p>E</p><p>se a atividade racional é a qualidade que distingue os indivíduos, quem exerce a razão de maneira adequada é</p><p>feliz.</p><p>A alternativa E está correta.</p><p>Seguindo sua herança aristotélica, Tomás de Aquino relacionava a felicidade à plena realização da natureza.</p><p>Assim, como o que marca a natureza do indivíduo é sua racionalidade, quanto mais ele se aproxima da</p><p>excelência dessa natureza, mais ele se aproxima da felicidade.</p><p>Galileo Galilei exibindo seu telescópio para Leonardo</p><p>Donato.</p><p>Bento de Espinosa.</p><p>3. Os desafios éticos da Era Moderna</p><p>Filosofia e Modernidade</p><p>A Era Moderna é marcada por uma série de transformações que ajudaram a construir o mundo como</p><p>conhecemos hoje. Pode-se destacar desse rol a consolidação dos Estados modernos, a revolução científica e</p><p>as grandes navegações ocorridas a partir do século XV.</p><p>Os eventos revolucionários também tiveram grande impacto</p><p>sobre a filosofia e as reflexões sobre o bem viver. No que</p><p>diz respeito à ética, pode-se dizer que grandes problemas</p><p>surgiram com a evolução da ciência moderna. Isso se deve</p><p>ao fato de que as discussões científicas dependiam da</p><p>nossa capacidade de sermos livres e autores das nossas</p><p>ações.</p><p>Por conta dos avanços das ciências, sobretudo no campo</p><p>da Física, a possibilidade de liberdade e de autonomia dos</p><p>indivíduos começou a ser posta em xeque devido às</p><p>relações de causa e de efeito que explicavam os fenômenos</p><p>naturais.</p><p>Se a matéria pode ser explicada por relações de causa e</p><p>efeito, as ações humanas também podem ser pensadas</p><p>como determinadas por algum motivo que as provoca. Isso significava um desafio imenso para o pensamento</p><p>filosófico em geral, já que qualquer discussão sobre ética dependia de alguma forma de liberdade. Se nossas</p><p>ações forem totalmente determinadas, não sobrará espaço para pensarmos uma vida ética, pois nada está</p><p>sob nosso controle.</p><p>Bento de Espinosa</p><p>É nesse contexto que floresce o pensamento</p><p>de Bento de Espinosa (1632-1677). Sua filosofia</p><p>é considerada um marco ético da filosofia</p><p>moderna pela forma como ela procurava</p><p>conciliar os avanços das ciências naturais no</p><p>início da Modernidade com o desejo de manter</p><p>o problema da boa vida como algo que</p><p>coubesse aos seres humanos buscarem.</p><p>O problema da boa vida – de saber como se</p><p>portar diante de si mesmo e dos outros – é algo</p><p>que existe na filosofia desde as suas origens.</p><p>As dificuldades apresentadas foram um</p><p>problema para grande parte dos filósofos</p><p>modernos.</p><p>Espinosa também procurou resolver esse impasse ao tentar conciliar a ideia de que:</p><p>Todos os corpos materiais são, de alguma forma, sempre determinados.</p><p>A expectativa de que podemos nos esforçar para melhorar nossas vidas existe.</p><p>A conciliação das ideias é desenvolvida em sua obra Ética (2009), de 1675, que procura pensar como a</p><p>liberdade pode existir em uma realidade em que tudo é determinado por uma causa. É nesse livro que o</p><p>filósofo buscou dar sua resposta sobre o problema da vida boa.</p><p>•</p><p>•</p><p>O ponto de partida do filósofo para pensar a nossa condição ética foi a estrutura da realidade. Para Espinosa,</p><p>tudo o que existe é uma parte de Deus, pois ele é tudo o que há.</p><p>Atenção</p><p>Deus aqui não era concebido como uma entidade religiosa que age segundo certos preceitos, mas como</p><p>o que se distingue de todas as outras coisas que existem por ser causa de si mesmo.</p><p>Para Espinosa, enquanto todas as coisas que existem eram criadas por algo diferente delas, Deus é o motivo</p><p>da própria existência. Todas as coisas existem porque são parte dele.</p><p>O universo, o planeta, os seres vivos, os seres humanos... todos eram, segundo Espinosa, modificações de</p><p>Deus, já que são, em última instância, causados por ele. Deus é a única coisa que não depende de outra.</p><p>Porém, há um sentido em que as coisas são causadas e que merece destaque: a ideia herdada das conquistas</p><p>da revolução científica: tudo possui uma causa. Como a única coisa que existe em si é Deus, então, em última</p><p>instância, todas as coisas também são causadas por ele.</p><p>Exemplo</p><p>O pai seria a causa do filho, pois, sem ele, o filho não existiria. Por outro lado, o pai também não existiria</p><p>sem ter um pai, que, por sua vez, também depende do seu pai – e assim segue até o infinito. É nesse</p><p>sentido que as coisas que existem são modificações de Deus, mas diferenciam-se dele pela finitude que</p><p>tem.</p><p>Enquanto Deus é algo que existe sem que qualquer coisa o limite – pois não existe nada no universo que exista</p><p>em si além dele –, as coisas do mundo sempre têm, diante de si, outras que as impedem de desenvolver</p><p>completamente sua natureza. A partir dessa dualidade entre Deus e as coisas finitas, podemos considerar o</p><p>problema da liberdade.</p><p>Espinosa não toma a liberdade como uma vontade espontânea ou a capacidade de seguir seus interesses,</p><p>uma vez que não existe nada que aconteça sem que haja uma causa que a provoque.</p><p>Agir de determinada maneira e sem qualquer causa não tem lugar no sistema espinosano. Como</p><p>tudo sempre possui uma causa, um ser será livre apenas quando não for determinado por coisas que</p><p>lhe são externas.</p><p>Para Espinosa, ser livre é conseguir exprimir sua essência sem que qualquer coisa o limite; ou seja, sem ser</p><p>causa de si mesmo. Nessa disposição, apenas Deus pode ser verdadeiramente livre.</p><p>Como os seres humanos não podem agir sem serem, em alguma medida, motivados por algo externo, eles</p><p>estariam condenados à servidão. Além disso, como não são causa de si mesmo, isto é, como são sempre</p><p>produzidos por outra coisa – e, em última instância, por Deus –, os indivíduos também não podem ter domínio</p><p>sobre aquilo que lhes acontece e afeta.</p><p>O que sobraria para os humanos? Seria possível algum tipo de</p><p>liberdade do ponto de vista humano?</p><p>Leitura da tragédia do Órfão da China, de Voltaire no</p><p>salão de Madame Geoffrin, Charles Lemonnier, 1812.</p><p>Para Espinosa, a liberdade humana não se encontra na capacidade de os indivíduos agirem como desejam,</p><p>mas de entenderem-se como parte de uma natureza divina que (e apenas ela) se desenvolve livremente.</p><p>A liberdade para Espinosa é, na verdade, libertar-se das falsas expectativas de poder agir de maneira</p><p>espontânea. Porém, isso também não significa que simplesmente se aceite tudo como é. Enquanto seres</p><p>finitos, nossos desejos são sempre limitados, mas isso não significa que sejamos absolutamente impotentes.</p><p>Para Espinosa, a vida ética passa pela correta avaliação do que está no nosso controle e que é preciso</p><p>simplesmente aceitar como o curso livre do desejo divino. Parece que Espinosa entendia de “entrego, confio,</p><p>aceito e agradeço”, não é mesmo?</p><p>A Idade Moderna e o pensamento de Espinosa</p><p>Confira, neste vídeo, o pensamento de Espinosa no contexto da Idade Moderna.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão</p><p>digital para assistir ao vídeo.</p><p>Jean-Jacques Rousseau</p><p>Na segunda metade do século XVIII, houve na</p><p>Europa – e, sobretudo, na França – grande</p><p>movimentação de intelectuais que procuraram</p><p>combater inúmeras formas de dominação</p><p>religiosa e política a partir do conhecimento</p><p>como força libertadora.</p><p>Conhecido como Iluminismo e composto por</p><p>filósofos como Voltaire (1694-1778),</p><p>Montesquieu (1689-1755), Diderot (1713-1784)</p><p>e D'Alembert (1717-1783), esse momento foi</p><p>uma das principais inspirações para a</p><p>Revolução Francesa, que eclodiu em 1789.</p><p>Os iluministas tinham como principal alvo a Igreja, pois, para eles, essa instituição era uma das principais</p><p>responsáveis por impedir o desenvolvimento da razão e da consciência individual e autônoma nos indivíduos,</p><p>que lhes permitiria conhecer o real e orientar-se segundo seus desejos.</p><p>Partindo da ideia de que os seres humanos possuíam uma razão natural que deveria lhes possibilitar desfrutar</p><p>de vidas plenas, os filósofos iluministas perguntavam por que as pessoas eram facilmente domináveis.</p><p>Para os iluministas, os indivíduos eram impedidos de realizarem-se plenamente pela presença de forças na</p><p>sociedade capazes de difundir crenças e superstições irracionais que bloqueavam as capacidades da razão e</p><p>deixavam os humanos imersos na ignorância, tornando-os facilmente submissos.</p><p>Para lutarem contra as forças da ignorância, os filósofos iluministas tomavam como tarefa a promoção do</p><p>desenvolvimento da razão e do conhecimento como forma de libertar os seres humanos da submissão</p><p>produzida pela ignorância.</p><p>Jean-Jacques Rousseau, Maurice Quentin de La Tour,</p><p>1764.</p><p>Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi um dos principais</p><p>filósofos do Iluminismo. Porém, diferentemente dos demais,</p><p>sua obra tem uma posição mais ambígua sobre as</p><p>capacidades da nossa razão e os efeitos da sociedade no</p><p>desenvolvimento humano.</p><p>O que vemos na obra de Rousseau é a elaboração de uma</p><p>filosofia ambígua, que enxerga na vida social uma</p><p>explicitação para as tensões que compõem a natureza</p><p>humana.</p><p>Para Rousseau, o ser humano possui duas tendências:</p><p>Amor de si</p><p>Refere-se a perseverar sua existência. Trata-se</p><p>do cuidado com comida, moradia e formas de</p><p>prover as necessidades fisiológicas mais</p><p>básicas. Segundo o filósofo francês, o indivíduo</p><p>foi criado de tal maneira que é capaz de</p><p>satisfazer todas as suas necessidades naturais</p><p>de modo individual.</p><p>Compaixão</p><p>É a parte que nos direciona para fora de nós</p><p>mesmos. Se o amor de si nos conduz para</p><p>aquilo que nos permite preservar nossa vida, a</p><p>compaixão é a responsável por nos dirigir para</p><p>outros seres (inclusive, os animais), desde que</p><p>não ponham em risco a nossa própria</p><p>preservação.</p><p>A partir das disposições do humano, Rousseau escreveu o discurso denominado A origem da desigualdade</p><p>entre os homens (2017). O filósofo elaborou nesse texto uma análise sobre como o ser humano teria se</p><p>desenvolvido.</p><p>Atenção</p><p>A origem da desigualdade entre os homens não é uma abordagem histórica. Trata-se, na verdade, de um</p><p>recurso filosófico para tentar entender como é composta a nossa própria subjetividade na medida em</p><p>que vivemos socialmente.</p><p>De acordo com o filósofo, em seu estado solitário, os seres humanos seriam compostos apenas pelo amor de</p><p>si e pela compaixão e, por isso, seriam naturalmente bons. A bondade, nesse momento, não possui nenhum</p><p>conteúdo positivo. Ela diz respeito apenas a uma ausência de maldade.</p><p>Rousseau argumentava que, além das tendências do amor de si e da compaixão, os seres humanos também</p><p>possuem duas propriedades que os diferenciariam de animais. Confira!</p><p>A liberdade</p><p>É o fato de que os humanos não seriam</p><p>governados apenas pelo seu apetite.</p><p>A capacidade de aperfeiçoarem-se</p><p>Significa a habilidade para encontrar meios</p><p>melhores para satisfazer às necessidades.</p><p>Trata-se, em suma, de dois elementos indicativos de uma estrutura no ser humano que o torna capaz de</p><p>progredir e de ter uma vida cada vez mais plena.</p><p>Pirâmide do sistema capitalista, ilustração publicada no</p><p>jornal Industrial Worker, em 1911.</p><p>Porém, de acordo com Rousseau, as características que ajudam a desenvolver a racionalidade e a moralidade</p><p>dos sujeitos também são as que levam as pessoas para uma vida social conturbada.</p><p>A vida em sociedade, que se desenvolveria a partir dos encontros progressivos e casuais entre as pessoas, é</p><p>caracterizada, pelo filósofo, como uma disputa dos indivíduos pelos mesmos bens e pela transformação de</p><p>sua subjetividade. É daí que provém a máxima mais famosa de Rousseau: o homem nasce bom, mas a</p><p>sociedade o corrompe.</p><p>A corrupção tem a ver com o efeito da convivência com outras pessoas nas suas tendências originais. Em uma</p><p>situação em que os humanos precisam disputar bens entre si, por exemplo, o amor de si se tornaria amor-</p><p>próprio. Ele não é mais apenas um instinto de autopreservação, mas um amor que quer se preservar em</p><p>detrimento dos outros, que se tornam adversários.</p><p>A disputa pelos bens e suas consequências são</p><p>intensificadas pela introdução da propriedade privada nas</p><p>relações sociais modernas. Isso não apenas tornam</p><p>escassos certos bens materiais, como também cria</p><p>estruturas de poder que deixam o amor-próprio ainda mais</p><p>tóxico.</p><p>A liberdade é ainda mais prejudicada, já que a disputa pelo</p><p>reconhecimento – que conseguiria satisfazer as nossas</p><p>necessidades – torna-se mais difícil diante do aumento das</p><p>desigualdades.</p><p>Além disso, as disputas entre relações desiguais estimulam</p><p>que a capacidade de o indivíduo aperfeiçoar-se seja mobilizada para conseguir satisfazer ao próprio desejo de</p><p>amor-próprio.</p><p>Por fim, o que Rousseau observou em suas análises da sociedade moderna é a tendência de que os aspectos</p><p>destrutivos do amor-próprio corrompam o que está à sua volta. A moralidade e a razão, em vez de</p><p>complementarem nossa compaixão, seriam deslocadas e postas a serviço do impulso de dominar e explorar,</p><p>tornando a vida em sociedade um imenso tormento para os humanos.</p><p>O Iluminismo francês e o pensamento de Rousseau</p><p>Entenda, neste vídeo, um pouco mais sobre o pensamento rousseauniano.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Immanuel Kant</p><p>Filósofo que revolucionou os principais campos da Filosofia. Seu principal impacto se deu no campo da teoria</p><p>do conhecimento, área em que procurava investigar os limites da razão ao diferenciá-la da nossa capacidade</p><p>de conhecer.</p><p>Na obra Crítica da razão pura (2017), escrita em 1781, Kant realizou a chamada revolução copernicana ao</p><p>descrever a experiência do conhecimento como um contato com coisas que estão fora de nós, o que se dá</p><p>por conceitos inerentes ao sujeito que conhece. A estrutura do sujeito constitui a condição de possibilidade do</p><p>conhecimento, o que Kant denominou como seu elemento transcendental: os dados da experiência, aquilo</p><p>que há de empírico, só podem ser conhecidos à medida que são enquadrados por conceitos, como os de</p><p>causa e efeito; ou seja, pelas condições gerais de conhecimento do sujeito.</p><p>Veja a diferença elaborada por Kant entre pensamento e conhecimento para a atividade da razão e do</p><p>pensamento!</p><p>Apenas por meio da razão não é possível entender o mundo e descrevê-lo adequadamente. Entretanto, existe</p><p>uma função importante para a razão – e ela diz respeito ao campo da ética.</p><p>Como só podemos conhecer aquilo que tem relação com a experiência, certos temas e questões não podem</p><p>ser conhecidos. Para Kant, Deus, a liberdade e o mundo são algumas ideias que não podem ser conhecidas</p><p>por não constituírem coisas passíveis de serem experimentadas por um sujeito. Isso significa que, para falar</p><p>dessas coisas, não faz sentido aplicar conceitos existentes.</p><p>Exemplo</p><p>Como os conceitos de causa e efeito ou de unidade.</p><p>Não faz sentido dizer que há “um” ou “muitos” deuses, pois, para Kant, os conceitos de unidade e</p><p>multiplicidade só fazem sentido para as coisas que são objetos da experiência. Do ponto de vista da</p><p>experiência, também não podemos afirmar se somos livres ou não, já que nossos corpos constituem objetos</p><p>da experiência e lidam com causa e efeito, sendo sempre objetos</p><p>de determinação causal exterior.</p><p>Como a liberdade é justamente compreendida como a ausência de determinações causais, ela não pode ser</p><p>observada e conhecida na experiência. O que resta é elaborar, por meio da razão, ideias e justificativas</p><p>logicamente consistentes que sejam capazes de regular nossas ações, mesmo que não seja possível provar se</p><p>elas são reais ou não.</p><p>É por isso que não interessa, para Kant, se somos livres de fato ou não (já que isso não é possível conhecer), e</p><p>sim se podemos agir como se fôssemos livres. Diante dessas limitações, o problema ético, para esse filósofo,</p><p>põe-se a partir da pergunta: “o que devemos fazer?”.</p><p>Esse problema surge a partir da tentativa de superar as máximas morais subjetivas e contingentes que</p><p>tradicionalmente guiam as ações do ser humano. O que Kant considera problemático nessas máximas não é</p><p>tanto o seu conteúdo, mas o fato de que, por serem subjetivas – isto é, contingentes e baseadas em hábitos e</p><p>costumes –, as máximas morais não podem aspirar a uma posição de lei capaz de conduzir a conduta moral.</p><p>Para ele, a possibilidade de leis universais decorre de:</p><p>Ideia comum do dever.</p><p>Leis morais que podem ser pensadas pela razão.</p><p>Se valem como leis, as leis morais não podem ser contingentes. Elas, na verdade, precisam valer</p><p>universalmente.</p><p>É por isso que pouco importa o conteúdo da lei quando se trata de avaliar uma ação ética. Para que haja uma</p><p>ação moral, não basta que ela coincida com a lei (ou seja, que uma ação realize o que está nela). Para ser</p><p>moral, ela deve assim ser por causa da lei; ou seja, é preciso encontrar suas condições em conceitos da razão</p><p>pura.</p><p>Razão</p><p>Sempre depende de uma referência externa</p><p>construída a partir dos conceitos internos.</p><p>Pensamento (ou conhecimento)</p><p>Apenas elaboraria ideias e princípios</p><p>logicamente consistentes, ainda que</p><p>sem referência com qualquer objeto</p><p>exterior.</p><p>•</p><p>•</p><p>Figura de cera de Immanuel Kant escrevendo uma carta</p><p>e sentado em uma mesa na biblioteca.</p><p>Para Kant, não é o indivíduo que dá razão às leis morais.</p><p>São elas que se impõem a ele, uma vez que o ser humano é</p><p>racional.</p><p>Dessa forma, era vital para seu projeto distinguir entre</p><p>os elementos contingentes e os racionais puros, porque só</p><p>assim seria possível passar do âmbito da moralidade</p><p>contingente para o de uma vida ética racional.</p><p>Reencontrando uma questão clássica da história da</p><p>filosofia, Kant definiu a boa vontade como o maior bem</p><p>possível. Mas o que ela seria? Mais do que letra de canção</p><p>de Natal, é nesse ponto que as posições do filósofo</p><p>começam a divergir de outros pensadores, e vemos o caminho próprio de Kant.</p><p>Para ele, a boa vontade está relacionada à vontade de realizar o seu dever; isto é, de submeter-se a uma</p><p>máxima moral (algum critério que permita agir da melhor maneira possível) ao realizar suas ações. Vê-se</p><p>nesse ponto que, para o filósofo, ocorre uma ação moral à medida que existe um critério que determina e</p><p>orienta a maneira de agir.</p><p>Para compreender melhor esse conceito de boa vontade, o filósofo abordou o conceito de dever, visto que:</p><p>A ação moral está contida no agir.</p><p>As restrições que o agir impõe apenas destacam mais a ação moral.</p><p>Devemos distinguir uma ação realizada por conta do dever e outra que decorre do simples fato de nos</p><p>conformarmos a ele. Não importa simplesmente se nossas ações se alinham àquilo que devemos fazer, uma</p><p>vez que isso implicam apenas coincidência com a lei moral – e não submissão a ela.</p><p>Atenção</p><p>As ações realizadas por dever não dependem de fins e são julgadas apenas a partir da máxima que</p><p>serviu de orientação. Não importa tanto o efeito produzido pela ação, mas, sim, a intenção de quem</p><p>realiza a ação independentemente de seu resultado.</p><p>Por último, Kant argumenta que o dever é sempre a necessidade de uma ação por respeito a uma lei. Mas</p><p>como concordar com esse ponto, em que só me submeto à lei?</p><p>Para Kant, apenas a “representação da lei em si mesma” – isto é, uma esfera completamente racional sem a</p><p>interferência de qualquer inclinação interna ou de pressão externa – pode constituir o bem moral. Dessa</p><p>forma, a única lei que podemos assumir é a de legalidade universal, que condiciona qualquer ação moral a</p><p>submeter-se à própria estrutura da legalidade universal.</p><p>Deriva daí a máxima kantiana (2009) denominada imperativo categórico: nunca devo proceder de outra</p><p>maneira, senão eu também posso querer que a minha máxima se torne uma lei universal.</p><p>Observe a seguir características das ações morais!</p><p>São capazes de conformar-se à estrutura da legalidade.</p><p>Podem ser respeitadas sem nenhuma inclinação ou interferência de interesses, sendo somente</p><p>determinadas pela razão.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Retrato de Jeremy Bentham, Henry William Pickersgill,</p><p>1875.</p><p>Portanto, para Kant, a única lei existente é uma espécie de meta-lei. Trata-se, em suma, da possibilidade de</p><p>que a ação se conforme à estrutura de lei.</p><p>Podemos estabelecer uma clara diferença entre aquilo que se quer e o que se deve. O querer não poderia ser</p><p>universalizado sem prejuízos, vindo daí a impossibilidade de alguém se basear em suas inclinações para</p><p>formular leis.</p><p>Retomemos a máxima katiniana: posso querer a mentira, por exemplo, mas não querer que ela se torne uma lei</p><p>universal. E é nesse ponto que vemos a importância de sair da esfera da moralidade subjetiva em direção à</p><p>objetiva. Só a partir de um ponto objetivo é possível postular, de fato, uma lei sem que nenhum elemento</p><p>particular ou contingente impeça a sua universalização.</p><p>Resumindo</p><p>Para Kant, a liberdade não é a competência de agir da maneira que se deseja, pois não é possível que</p><p>qualquer ação seja conhecida sem estar encadeada em alguma rede causal. Assim, a ação só é livre do</p><p>ponto de vista da intenção, pois, sob esse aspecto, ela não é determinada por qualquer inclinação</p><p>interna ou por pressão externa que a impele a alguma direção.</p><p>Kant no contexto do esclarecimento alemão</p><p>Confira, neste vídeo, o pensamento de Kant no contexto de transição para a Idade Contemporânea.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Jeremy Bentham e John Stuart Mill</p><p>O utilitarismo é uma doutrina elaborada na</p><p>Modernidade, mas que segue exercendo</p><p>significativa influência na ética contemporânea.</p><p>Suas bases foram elaboradas por Jeremy</p><p>Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill</p><p>(1806-1873). Vamos conhecer mais sobre isso!</p><p>Surgido entre o século XVIII e as crises do</p><p>século XX, o utilitarismo procura elaborar uma</p><p>teoria ética normativa que nos permite analisar</p><p>de modo eficaz as situações em que nos</p><p>envolvemos a partir de princípios morais</p><p>facilmente identificáveis. Pode-se dizer que</p><p>esse pensamento é fortemente influenciado</p><p>pelos avanços nas ciências naturais.</p><p>Inspirado pela tradição empírica inglesa, o utilitarismo procura uma base material para conseguir se orientar</p><p>no campo da ética (Bentham; Mill, 1979). Para essa corrente, o ser humano tem como último princípio moral a</p><p>busca pela felicidade. Isso significa que as ações seriam avaliadas conforme a sua capacidade de promover</p><p>maior ou menor felicidade. Nesse contexto, qualquer ação que não contribuísse com esse esforço seria</p><p>moralmente equivocada. Entretanto, a felicidade não era definida de modo abstrato.</p><p>Bentham procurava atribuir base sólida para a investigação ética inspirada na objetividade das</p><p>ciências naturais, e sua definição de felicidade assumia como fundamento a presença de prazer e a</p><p>Retrato de John Stuart Mill.</p><p>ausência de dor. Trata-se de uma definição baseada na própria visão que o filósofo tinha dos</p><p>humanos: seres que se orientam em direção ao prazer e para longe da dor.</p><p>A filosofia de Bentham não tem uma preocupação puramente egoísta: ele também afirmava que o princípio da</p><p>busca por prazer envolvia um elemento de simpatia. Como procuramos maximizá-lo e nossa vida social</p><p>depende, às vezes, da realização do interesse dos outros, há momentos em que privilegiamos a realização do</p><p>prazer do outro para que o prazer geral possa ser alcançado.</p><p>John Stuart Mill foi um seguidor de Bentham que procurou</p><p>levar adiante seu utilitarismo ao torná-lo complexo.</p><p>Para ele, como sujeitos éticos, nossa tarefa seria procurar</p><p>investigar quais são os tipos de prazeres mais desejáveis e</p><p>quais contribuiriam para a promoção geral de felicidade em</p><p>uma sociedade.</p><p>Para dar conta desse projeto, Mill (1979) acabou</p><p>descrevendo o projeto utilitarista a partir do seguinte</p><p>princípio, acompanhe!</p><p>A felicidade é a única coisa desejada em si mesma pelos indivíduos.</p><p>A coisa desejada só existe por constituir um meio para outro desejo.</p><p>Uma das principais contribuições de Mill a essa corrente – e que fazia seu pensamento divergir do de Bentham</p><p>– foram suas formulações sobre a natureza do prazer. Para Bentham, o prazer podia ser distinguido apenas de</p><p>maneira quantitativa. Já Mill tentava, em sua filosofia, diferenciar os tipos de prazer qualitativamente distintos.</p><p>Isso significa a existência de certos prazeres mais valorosos.</p><p>Exemplo</p><p>Os prazeres intelectuais seriam, segundo Mill, qualitativamente melhores que os do corpo por permitirem</p><p>que os seres humanos não fossem reduzidos a meros animais. Trata-se do esforço para estabelecer um</p><p>elemento propriamente humano na ética ao destacar prazeres que apelam para faculdades mentais, as</p><p>quais, em tese, seriam exclusivamente humanas.</p><p>Vê-se como a tradição utilitarista representada por Bentham e Mill procurava determinar um conteúdo positivo</p><p>para a felicidade, a fim de que as ações éticas pudessem ser realizadas de forma mais eficaz. Observa-se</p><p>ainda que, como a questão é promover não a felicidade de indivíduos singulares, mas o bem geral, haveria</p><p>uma tendência para o surgimento de maior igualdade entre os indivíduos de determinada comunidade.</p><p>A filosofia utilitarista</p><p>Assista, neste vídeo, à importância de Bentham e Mill para o pensamento utilitarista.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>•</p><p>•</p><p>Verificando o aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>A filosofia de Rousseau é conhecida pela ideia de que o indivíduo nasce bom, mas a sociedade o corrompe.</p><p>Para o filósofo, o principal motivo dessa corrupção é</p><p>A</p><p>o efeito dos desenvolvimentos tecnológicos decorrentes, uma vez que os seres humanos passam a cooperar</p><p>a partir disso.</p><p>B</p><p>o surgimento de forças religiosas que bloqueiam os caminhos da razão natural, que existe dentro dos</p><p>humanos e submetem-nos à sua autoridade.</p><p>C</p><p>a transformação do amor de si em amor-próprio a partir do momento em que a vida das pessoas desenvolve-</p><p>se de forma socializada com outros seres humanos.</p><p>D</p><p>a presença de estruturas de educação na sociedade, que promovem o desenvolvimento da razão e da</p><p>compaixão pelo outro.</p><p>E</p><p>a natureza antissocial do ser humano, que possui em si apenas o princípio de autopreservação.</p><p>A alternativa C está correta.</p><p>Para Rousseau, o amor de si é uma tendência humana de cuidar da sua autopreservação. Em condições</p><p>sociais em que os recursos naturais são restritos e disputados, esse amor se torna amor-próprio, no qual o</p><p>cuidado consigo mesmo é experimentado de modo comparativo.</p><p>Questão 2</p><p>No campo da ética, o pensamento de Kant propunha como problema esta questão: “o que devemos fazer?”.</p><p>Seu objetivo era conseguir produzir uma resposta universalmente válida. Entre as opções a seguir, qual</p><p>resposta indica o caminho escolhido pelo filósofo?</p><p>A</p><p>Agir eticamente é concordar com os costumes de determinado momento e local.</p><p>B</p><p>Os valores éticos são ideias universais que podem ser descobertos por meio do uso da razão, a fim de que</p><p>possamos guiar nossas vidas com seu auxílio.</p><p>C</p><p>Não existe uma vida ética, pois todos os humanos seriam sempre submetidos a uma ordem causal que</p><p>excluiria sua liberdade e sua aptidão a decidir sobre como atuar.</p><p>D</p><p>A vida ética é pautada pela capacidade de as pessoas serem flexíveis e estarem disponíveis diante dos</p><p>desafios do mundo.</p><p>E</p><p>A ação ética não possui nenhum conteúdo em si e consiste em sua capacidade de adequar-se a uma estrutura</p><p>universalizável, que evita qualquer inclinação particular.</p><p>A alternativa E está correta.</p><p>Para Kant, qualquer determinação positiva do conteúdo das ações éticas e morais implicaria delimitação</p><p>por intermédio de inclinações internas ou externas ao sujeito, o que retiraria o caráter universal pretendido</p><p>pelas ações éticas.</p><p>Cidade de Dresden, na Alemanha, após o fim da</p><p>Segunda Guerra Mundial (1945).</p><p>Simone de Beauvoir e Sartre em Pequim, em 1955.</p><p>4. A Era Contemporânea e seus dilemas éticos</p><p>A razão em meio às guerras</p><p>Após séculos de desenvolvimento da razão</p><p>moderna, a qual foi amparada pelos avanços no</p><p>campo das ciências, o que passa a ser</p><p>questionado ao longo do século XX é a</p><p>hegemonia da razão construída ao longo da</p><p>Modernidade.</p><p>Entretanto, o século XX ficou marcado,</p><p>sobretudo, pelas suas duas grandes guerras.</p><p>Enquanto a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a</p><p>1918, destacou-se pela escala inédita de</p><p>destruição, morte e sofrimento, a Segunda</p><p>Guerra Mundial trouxe os horrores do genocídio</p><p>de diversos grupos, o que foi feito pelos</p><p>nazistas.</p><p>Sofrimentos incalculáveis colocaram em questão as capacidades da razão, o que obrigou os filósofos a</p><p>repensarem como se constrói uma vida ética. Isso também impôs à Filosofia perguntar-se sobre seu papel</p><p>diante de horrores como os presenciados no século XX.</p><p>É por isso que pensadores como Jean-Paul Sartre e Lawrence Kohlberg buscaram compreender as condições</p><p>do nosso desenvolvimento moral. Autores como Michel Foucault e Carol Gilligan demonstraram de que modo</p><p>as próprias empreitadas éticas já são sempre, e em alguma medida, atravessadas por dimensões políticas e</p><p>sociais. Por exemplo, formas de dominação política ou estruturas de opressão de gênero.</p><p>Jean-Paul Sartre</p><p>O escritor e pensador francês Jean-Paul Sartre (1905-1980)</p><p>foi um dos filósofos mais influentes do século XX. Ele é</p><p>considerado a principal figura do existencialismo, uma</p><p>corrente que procurava pensar a humanidade a partir da</p><p>ausência de sentido na vida.</p><p>A experiência que introduz o problema com que se ocupa a</p><p>filosofia sartriana é uma sensação de náusea, na qual se</p><p>revela o caráter absurdo da existência. Esse sentimento não</p><p>é provocado por algo em particular, mas pela simples</p><p>percepção de que nossa experiência não tem qualquer</p><p>sentido além daquele que experimentamos.</p><p>A náusea é a porta de entrada na discussão sartriana sobre o vazio, que é a existência. Ela nos impõe a</p><p>necessidade de encontrarmos um sentido para a nossa vida diante dessa situação.</p><p>Porém, o existencialismo não indica apenas a sensação de náusea. Na verdade, ele constitui as formas de</p><p>responder a ela. Além disso, diante do absurdo, é necessário buscar algum sentido que justifique as nossas</p><p>vidas. Sartre chamava essa busca de humanismo.</p><p>O ser humano não é nada além da sua consciência. Isso significa que, para Sartre, o sujeito não é nada em si,</p><p>é apenas o movimento de direcionar-se ao que está fora dele. Como a consciência é um direcionar-se a algo,</p><p>ela significa justamente alguma coisa em relação ao próprio exterior.</p><p>A forma de conceber a consciência implica a divisão do mundo, conforme apresentada na obra O ser e o nada</p><p>(2015). Nessa obra, Sartre observa que há, de um lado, uma consciência; ou seja, um sujeito, e, de outro, os</p><p>objetos percebidos pela consciência. Veja!</p><p>Consciência</p><p>Constitui um nada, enquanto um visar. Ela é</p><p>uma estrutura vazia, que só possui realidade à</p><p>medida que se dirige a um objeto.</p><p>Objeto</p><p>É visto pela consciência; ou seja, o ser, uma vez</p><p>que o objeto é aquilo que se apresenta para</p><p>uma consciência.</p><p>O conceito remonta à tradição fenomenológica e ao pensamento de Edmund Husserl, que concebia nossa</p><p>subjetividade como uma intencionalidade. Trata-se de uma estrutura que sempre se dirige a alguma coisa (a</p><p>um objeto).</p><p>A consciência é vazia não por não ser, em si, um objeto. Ela é apenas um movimento que se dirige a algo fora</p><p>de si. No entanto, Sartre não se restringiu aos elementos epistêmicos da noção de consciência, que foram</p><p>herdados da tradição fenomenológica.</p><p>Essa questão chamou sua atenção pelas implicações que esse ser nada tem para</p><p>a própria existência do</p><p>sujeito. É justamente por nossa subjetividade ter essa estrutura que nossa existência resulta em uma</p><p>experiência de absurdo.</p><p>Por outro lado, se a consciência tem realidade apenas por visa a algo (ou seja, se ela é mais do que um vazio),</p><p>isso significa que é na relação com o seu objeto que se pode conquistar um sentido (ou não) para a vida.</p><p>Quando se lida com outras pessoas, o caráter vazio da subjetividade acaba transparecendo por meio de uma</p><p>crise. Observe!</p><p>O olhar para outro sujeito permite vermos nele algo que aparece para a consciência; ou seja, ele surge</p><p>como um objeto. Olhando no seu olho, percebemos que ele é mais do que uma mera coisa. Seu olhar,</p><p>como Sartre sublinha, mostra que ali também há um sujeito que visa a outros objetos.</p><p>O outro que olho também é uma consciência. Por isso, ele não é um ser, mas um nada. O problema</p><p>dessa situação é que, ao tomar esse objeto da consciência como outra consciência, o primeiro sujeito</p><p>acaba indiretamente se percebendo como objeto para esse outro.</p><p>O caráter vazio fica claro para o outro percebido, e essa situação lhe provoca sensação de</p><p>incompletude, que deixa o sujeito envergonhado. Foi com isso em mente que Sartre disse sua famosa</p><p>frase: o inferno são os outros.</p><p>O maior obstáculo para a consciência situa-se aqui. Em seu esforço de encontrar algum sentido,</p><p>sobretudo diante do olhar do outro, há a tendência de querer encontrar para si um fundamento. Trata-</p><p>se de um desejo de ser o outro a quem a tendência visa e que, diferentemente dela, é algo. Por esse</p><p>caminho, a consciência esquece seu vazio constitutivo e identifica-se com alguma forma de ser. Sartre</p><p>chamava isso de má-fé.</p><p>Quando assumimos alguma propriedade, como uma profissão, e definimo-nos a partir dela, estamos diante da</p><p>má-fé. Ela não provém de um juízo de valor sobre a propriedade a que aderimos, mas da negação do vazio</p><p>que constitui a nossa subjetividade.</p><p>Para Sartre, dado o aspecto absurdo que nos caracteriza, podemos dizer que nossa existência precede nossa</p><p>essência. Não há nada que possamos dizer de nossa subjetividade além da vida que ela leva. O que está</p><p>implicado aí é o seguinte: como o sujeito é um nada, ele também possui uma liberdade absoluta, já que nada o</p><p>determina de antemão.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Conceito de consciência e liberdade.</p><p>O filósofo francês Michel Foucault.</p><p>A má-fé, portanto, é má ao negar a nossa própria liberdade.</p><p>No pensamento de Sartre, devido à ausência de qualquer</p><p>fundamento, apenas os nossos atos concretos podem nos</p><p>definir e justificar a nossa vida.</p><p>A consequência disso é não existir qualquer fundamento</p><p>absoluto que possa nos eximir de tomar as decisões que</p><p>constroem a nossa vida.</p><p>A existência, em última instância, significa o exercício da</p><p>liberdade a que estamos condenados. Por conta disso, até</p><p>negar essa liberdade por meio da má-fé constitui uma escolha dos sujeitos. Assim, “O que é que eu vou fazer</p><p>com essa tal liberdade?”, já cantou o famoso pagode.</p><p>O existencialismo é um humanismo</p><p>Veja, neste vídeo, o pensamento de Sartre no contexto do início do século XX.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Michel Foucault</p><p>Foi um filósofo francês (1926-1984) que</p><p>investigou as formas de saber, de poder e de</p><p>subjetivação que, com ênfase na Modernidade,</p><p>desenvolveram-se na história do Ocidente.</p><p>A verdade de um sujeito e o que importa na</p><p>vida, como viver adequadamente, são questões</p><p>que perpassam toda a humanidade.</p><p>Para Foucault, a forma como esses problemas</p><p>se colocam varia conforme a situação histórica.</p><p>Além disso, a face ética da filosofia foucaultiana</p><p>não se desenvolve sem uma articulação com</p><p>outros dois grandes temas de sua obra. Veja quais são!</p><p>Processos de subjetivação.</p><p>Formas de poder e saber que constituem os sujeitos.</p><p>Os processos de subjetivação produzem-se diante de formas de poder que dominam e delimitam a</p><p>capacidade dos sujeitos. Por sua vez, as formas de poder não deixam de desenvolver-se com o auxílio de</p><p>saberes e conhecimentos que se constroem em determinado momento histórico.</p><p>Para Foucault (2012), o saber não é simplesmente o conhecimento da realidade, que pode ser produzido em</p><p>qualquer condição. O que chamamos de “ciência” era pensado pelo filósofo como um conjunto de relações de</p><p>diversos discursos em determinado momento histórico.</p><p>É a partir da maneira como esses discursos se organizam e do modo como eles estabelecem suas relações de</p><p>diferença, de oposição e de distância, entre outros, que se constitui a divisão entre o que é um pensamento</p><p>científico e o que não é. Nesse caso, a configuração específica dos discursos é responsável por determinar o</p><p>que pode ser objeto do conhecimento em determinado contexto.</p><p>•</p><p>•</p><p>Homens trabalhando em máquinas.</p><p>Esse jogo não se dá no vácuo, pois é possível observar que o discurso científico está sempre associado a um</p><p>jogo de poder. Os saberes de determinado período são mobilizados no desenvolvimento das formas de poder</p><p>do momento.</p><p>Como Foucault não pensa o poder em termos clássicos, esse deslocamento que torna o conceito tão</p><p>relevante no campo ético.</p><p>No primeiro volume de História da sexualidade (2020), Foucault afirmou que o poder que ele procurava</p><p>descrever não é o exercido por governos ou Estados. Interessava-lhe o poder enquanto algo que constitui as</p><p>próprias relações sociais como um todo, de modo que todas as relações entre as partes sejam relações de</p><p>poder.</p><p>Atenção</p><p>Para Foucault, o poder não é algo impeditivo. Pelo contrário: ele é produtivo. As relações de poder</p><p>existem não à medida que “não se pode” fazer algo, mas apenas quando “se força a fazer alguma coisa”.</p><p>O poder, como Foucault não se cansava de repetir, produz. Ele sempre é uma ação sobre a de outro.</p><p>Podemos entender melhor a relação entre saber e poder a partir das formulações feitas por Foucault em Vigiar</p><p>e punir (2014). Nessa obra, o filósofo elaborou o retrato da gênese de uma sociedade disciplinar no continente</p><p>europeu a partir do século XVIII. Isso era diferente da situação anterior, na qual o poder se organizou a partir</p><p>da soberania do rei. Se essa transformação aconteceu foi devido ao momento em que o mundo se</p><p>transformava. A industrialização desse período precisava cada vez mais de trabalhadores que pudessem</p><p>ocupar postos nas fábricas.</p><p>Um dos principais focos da sociedade passou a ser a</p><p>produção de um tipo de cidadão específico e apto a ocupar</p><p>o lugar de trabalhador fabril, da maneira mais eficiente</p><p>possível. O Estado começou a ocupar-se cada vez mais de</p><p>um controle sobre a vida da população para maximizar a</p><p>sua capacidade produtiva.</p><p>Para conseguir dar forma à vida dos indivíduos, ao longo</p><p>dos séculos XVIII e XIX na Europa, a disciplina da sociedade</p><p>foi realizada para permitir o controle de parte da população.</p><p>Dois mecanismos foram empregados para esse fim, confira!</p><p>Poder disciplinar.</p><p>Controle biopolítico.</p><p>Ainda que Foucault estabelecesse uma distinção entre essas duas práticas, é possível observar como uma</p><p>está relacionada à outra. Veja.</p><p>O poder biopolítico procura constituir indivíduos (subjetividades) submissos aos interesses do governo por</p><p>meio do controle populacional ou da apropriação de técnicas disciplinares que deixam seus corpos domados.</p><p>Se é possível dizer que essas técnicas disciplinares misturam-se ao poder biopolítico é porque a maneira</p><p>como elas se espalham em diversos meios produz corpos dóceis em todas as áreas de uma população.</p><p>Porém, isso não quer dizer que elas tenham sido criadas com a finalidade de atender aos interesses de um</p><p>governo.</p><p>•</p><p>•</p><p>Poder disciplinar</p><p>Diz respeito ao controle de indivíduos.</p><p>Poder biopolítico</p><p>Trata do controle populacional.</p><p>Desenho de uma prisão panóptica, Willey Reveley, s.d.</p><p>As técnicas disciplinares surgiram de maneira autônoma e sem qualquer objetivo superior que orientasse seu</p><p>desenvolvimento. Contudo, à medida que o tipo de corpo que elas produzem interessa ao Estado, essas</p><p>técnicas passam a ser incorporadas em seus mecanismos de controle.</p><p>Foucault, em sua análise da sociedade</p>

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