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42 Unidade II Unidade II 5 PEDAGOGIA DO ESPORTE A pedagogia do esporte investiga a teoria e prática da organização, sistematização, aplicação e avaliação de conteúdos e procedimentos pedagógicos em ensino‑aprendizagem, especialização e treinamento esportivo, considerando os diferentes personagens, cenários e significados do fenômeno esporte (GALATTI et al., 2017). Os objetivos da pedagogia do esporte estão centrados na pessoa e na sua relação com o ambiente esportivo. A preocupação com a investigação dos métodos de ensino é denominada sistematização, que deve ser precedida pela organização dos conteúdos a serem ensinados. A preocupação da ciência com o esporte, marcante a partir da década de 1960, evidenciou uma característica emergente naquele momento: a especialização de técnicas e procedimentos das diferentes modalidades esportivas e aplicadas a estas. Essa pedagogia do esporte, intitulada tradicional, está centrada na reprodução de modelos e padrões de eficiência e determina pré‑requisitos para a organização do processo de ensino‑aprendizagem. Por consequência, resulta deste processo um estado de dependência – portanto, ausência de autonomia – do aprendiz na prática esportiva. A pedagogia tradicional constantemente se apresenta em diferentes segmentos da prática esportiva, e desconsidera a complexidade envolvida no ato de ensinar o esporte. Uma das principais características dos modelos tradicionais de ensino do esporte é a centralização na técnica, em que os métodos de ensino e treinamento baseados no princípio analítico‑sintético levam a uma busca pela reprodução de modelos e repetição de movimentos para a automação e mecanização do gesto. O princípio analítico‑sintético propõe o ensino, a vivência e a aprendizagem do esporte a partir do exercício de habilidades isoladas, com ênfase na repetição de tarefas para aprimoramento técnico (as denominadas sequências pedagógicas), que deve preceder a prática do jogo formal. Neste modelo, para o ensino do futebol, por exemplo, o profissional deveria separar os elementos que compõem esta modalidade (fundamentos esportivos) e praticar cada um deles individualmente, a fim de primeiro aperfeiçoar a técnica de execução. Neste modelo pedagógico tradicional os JECs são considerados sistemas simples, cujas partes têm relações independentes umas das outras. É notada uma relação de causa e efeito ou de dependência entre as partes baseada no conceito de pré‑requisito. Para exemplificar, imagine que para jogar handebol primeiro se deva saber passar e receber a bola, para depois aprender a driblar e arremessar. Essa perspectiva prevaleceu nas primeiras propostas metodológicas sistematizadas para o ensino dos JECs, por volta da década de 1960, e, mesmo sendo criticada pelas propostas contemporâneas, ainda se mostra presente na prática pedagógica atual (GALATTI et al., 2014). 43 ESPORTES COLETIVOS Os exercícios analíticos, ainda predominantes como estratégia de iniciação ao treinamento nos JECs, se manifestam através da repetição de determinada técnica “perfeita”, que posteriormente seria aplicada no contexto do jogo. As propostas pedagógicas tradicionais alocam o professor/treinador como aquele que enfatiza os procedimentos, condicionando o meio na organização dos ensaios para reduzir erros. São fundamentadas a partir da teoria mecanicista, que busca compreender o comportamento do todo através das propriedades de suas partes. A prática pedagógica analítica reduziu o foco do ensino dos JECs a seus componentes técnicos, descontextualizando seu desenvolvimento das situações reais do jogo. Assim, o uso prioritário deste tipo de estratégia pedagógica em detrimento de práticas de ensino que privilegiem a inteligência do jogador em relação ao jogo não promove a autonomia do praticante na modalidade praticada. A busca por um padrão de movimento baseado na reprodução de modelos acaba por mecanizar e desumanizar o esporte. Observação O termo analítico é também conhecido na literatura como por partes. Outro exemplo bastante comum de estratégias analíticas mecanizadas durante o ensino dos JECs são as jogadas ensaiadas, que são composições predeterminadas para ações defensivas ou ofensivas. As práticas são organizadas de maneira a oferecer exercícios que ensaiem jogadas/ações táticas (abordadas no próximo tópico) predeterminadas com os jogadores, apontando exatamente quais espaços estes devem ocupar na quadra para aproximar‑se do alvo, a fim de aplicá‑las durante uma partida. Desta forma, a imprevisibilidade, característica fundamental dos JECs, é ignorada, e o contexto do jogo é tratado como um fenômeno previsível. Ações como estas impõem aos praticantes formas rígidas de agir e de organizar‑se taticamente, desestimulando a busca por respostas novas para os problemas que os jogos apresentam. O ensino dos JECs baseado na pedagogia tradicional pautou as práticas em atividades analíticas e dissecadas em partes com a finalidade de simplificar um fenômeno de natureza complexa, como é o caso dos JECs. Perante estes pressupostos, o praticante é considerado alguém que ainda não sabe executar, o qual terá de aprender por níveis, progredindo do mais simples ao mais complexo de forma linear. As atividades propostas partem da concepção de que a equipe é feita da soma dos indivíduos e o jogo é composto por elementos justapostos, privilegiando ações voltadas para a relação do sujeito com a bola. A aprendizagem é orientada por modelos predeterminados (o modelo é o jogador de elite), hierarquizando em diferentes níveis o repertório de gestos técnicos (do simples ao complexo), privilegiando procedimentos pautados na imitação, demonstração e repetição (GALATTI et al., 2014). O produto do ensino dos JECs através da pedagogia tradicional foi a reprodução de modelos, a repetição de movimentos para a automação, a mecanização do gesto, o empobrecimento do acervo de possibilidades de respostas, o descarte da solução eficaz em função da eficiente, a exigência de pré‑requisitos engessados e a pobreza das ações de tomada de decisão. Todas essas consequências tornam o jogador dependente da instrução do professor, uma vez que o ambiente de aprendizagem foi pouco estimulante ou inadequado às demandas do jogo, que é um fenômeno complexo (LEONARDO; SCAGLIA; REVERDITO, 2009). 44 Unidade II No Brasil, a partir das obras de autores como Bayer (1994), Graça e Oliveira (1995) e Teodorescu (2003), há um questionamento acerca da eficiência dos métodos tradicionais de ensino dos JECs. O estopim para estes questionamentos são a emergência e o ganho de notoriedade das teorias de sistemas dinâmicos aplicadas à aprendizagem de habilidades motoras (KUGLER; KELSO; TURVEY, 1980) e da teoria do caos (PRIGOGINE, 1996), que conduziram os olhares para observar os JECs como fenômenos complexos alinhados aos fenômenos que estas teorias buscavam entender e explicar. Na tentativa de romper com a pedagogia tradicional e com os pressupostos da simplificação, os novos procedimentos metodológicos passaram a sustentar uma lógica pedagógica mais semelhante à lógica do jogo, valorizando a aquisição de competências e a compreensão tática. Para tanto, as tarefas que eram sistematizadas em função da compartimentação do conteúdo (técnica, tática, físico, psicológico) passam a se orientar pela exploração das características dos jogos e dos problemas reais que estes apresentam. Com a compreensão sistêmica dos JECs, se altera a forma de ensino. A partir de então, não bastam mais metodologias que proponham apenas exercícios com tarefas fechadas e repetição de movimentos predeterminados pelo professor/treinador: o aprendiz/praticante passa a ser o centro do processo de ensino‑aprendizagem e é quem tem maior poder decisório no sistema. Ele é quem deve ser capaz de interagir com a complexidade, instabilidade, intersubjetividade dos demais elementos. Portanto, não só o sujeito nem só o meio são os responsáveis pela aprendizagem e desenvolvimento esportivo,na modalidade escolhida pelo indivíduo, que passa a se considerar atleta. O profissional deve promover o aperfeiçoamento e a otimização do potencial técnico e tático do esportista, cuja participação em competições deve aumentar sensivelmente. Esta etapa tem duração de 2 a 4 anos, e é a primeira fase de direcionamento para o esporte de alto nível. 73 ESPORTES COLETIVOS 8.2.6 Fase de aproximação/integração Abrangendo dos 18 aos 21 anos, esta fase pode ser considerada o momento mais importante na transição do jovem para uma possível carreira esportiva. Aqui será definido se será possível visar o esporte de alto rendimento e a profissionalização. A fase de crescimento encontra‑se quase finalizada, ficando determinado o biótipo corporal e os traços do seu perfil psicológico. Estes fatores somados fazem com que o momento da decisão para o esporte de alto nível, ou o esporte de lazer ou em níveis de rendimento, seja relativamente reduzido. Nesta fase, além do trabalho de aperfeiçoamento e otimização das capacidades técnicas, táticas e físicas, é importante conceder um bom tempo à otimização das capacidades psíquicas e sociais. 8.2.7 Fase de alto nível A estabilização e o domínio técnico, tático, psíquico e social atingido na fase anterior serão aprimorados, tendo em conta um significativo aumento do volume, da intensidade e da densidade das cargas de treinamento. 8.2.8 Fase de recuperação/readaptação Nesta fase visa‑se readaptar o ex‑atleta à sociedade, bem como aplicar atividades físicas e programas adequados que contribuam para o destreinamento gradativo, conduzindo‑o ao esporte como forma de beneficiar a saúde. Procura‑se adaptar os parâmetros fisiológicos para evitar problemas de saúde, ou seja, para se adaptar a uma vida comum. Um programa de readaptação deve ser planejado sob supervisão médica. Quando se projeta um programa semelhante, deve‑se considerar as necessidades de cada atleta, sua anamnese, condições médicas atuais, capacidades funcionais, entre outras. Objetivos realistas devem ser determinados, considerando as limitações de tempo, espaço e interesse do próprio atleta. 8.2.9 Fase de recreação e saúde O conhecimento das experiências passadas e presentes em atividade física e uma avaliação cuidadosa da adaptabilidade individual em realizar esforços devem proporcionar a estrutura básica da formulação de programas de atividade física que assegurem os efeitos positivos na manutenção da função fisiológica durante o envelhecimento. Este deve ser gentil e condizente com as características do indivíduo e do grupo. O jogo como atividade central pode manter o desenvolvimento das habilidades táticas (aspectos cognitivos importantes de serem constantemente estimulados durante o envelhecimento). 74 Unidade II Figura 33 – Master handebol Por fim, é importante destacar que a proposta da IEU não é a única centrada no aprender a jogar jogando. Atualmente existem várias propostas pautadas na pedagogia do esporte moderna, em que os JECs são ensinados a partir do jogo. Saiba mais Para conhecer melhor o método da IEU, consulte a obra: GRECO, P. J.; BENDA, R. N. (org.). Iniciação esportiva universal. Belo Horizonte: UFMG, 1998. Para que o estudante conheça melhor cada uma dessas propostas, especialmente as nacionais – originárias do Brasil com a IEU –, a seguir é apresentado o texto de um dos pesquisadores da pedagogia do esporte que atuam em pesquisas e projetos de extensão na área do ensino dos JECs: o professor Alcides Scaglia, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Texto simples, de fácil compreensão, sintetiza em poucas e precisas palavras algumas metodologias modernas que a literatura sugere para ensinar JECs. Em seguida, é apresentada uma síntese dessas propostas baseadas no jogo. 75 ESPORTES COLETIVOS Novas tendências em pedagogia do esporte: as principais abordagens* Almejo, com esta quarta e última crônica pedagógica da série de novas tendências em pedagogia do esporte, apresentar as principais ideias de alguns autores que venho estudando há certo tempo. Desse modo, quando me refiro às novas tendências em pedagogia do esporte estou me pautando em autores como: Claude Bayer, Linda Griffin, Paulo Cesar Montagner, Elenor Kunz, Jocimar Daólio, Renato Sadi, Wilton Santana, Roberto Paes, Hermes Balbino, João Batista Freire, Júlio Garganta, Amandio Graça, José Oliveira, Fernando Tavares, Kröger e Roth, Pablo Juan Greco e Benda, Isabel Mesquita, entre muitos outros ao redor do mundo. Contudo, pautando‑me num jovem expoente dos estudos referentes à pedagogia do esporte, o competente amigo Riller Reverdito, quero destacar suas pesquisas de revisão bibliográfica, onde juntos encontramos alguns pontos interessantes em quatro grupos de pesquisa em pedagogia do esporte, ou melhor, em quatro correntes que se destacam por suas particularidades (peculiaridades teórico‑metodológicas) ao mesmo tempo que apresentam consensos que as colocam sob a égide das novas tendências em pedagogia do esporte, opondo‑se à pedagogia do esporte tradicional, com sua metodologia tecnicista (esta pesquisa originou o livro Pedagogia do esporte: jogos coletivos de invasão). Desse modo, de acordo com a revisão bibliográfica de Reverdito, é possível dizer que a proposta de Roberto Paes e seu grupo de pesquisa – que inclui os professores Hermes Balbino, Larissa Gallatti, Wilton Santana, Henrique, entre muitos outros – é nosso primeiro agrupamento de ideias convergentes e alinhadas, afirmando que o ensino do esporte se faz por meio da pedagogia, com o objetivo de transcender a simples repetição de movimentos, permitindo uma iniciação e formação esportiva consciente, crítica e reflexiva, fundamentada sobre os pilares da diversidade, inclusão, cooperação e autonomia, sustentando sua prática pedagógica sobre o movimento humano, as inteligências múltiplas, aspectos psicológicos, princípios filosóficos e aprendizagem social. A estratégia‑metodologia está condicionada à essencialidade complexa do jogo, em que o jogar somente se aprende jogando. Desse modo, a aprendizagem dos jogos se faz por meio do jogo possível – atividades lúdicas, jogos pré‑desportivos e brincadeiras populares, tornando‑se jogos reduzidos, jogos condicionados e situacionais, envolvidos por um ambiente fascinante e estimulador. Sua fundamentação faz‑se sobre o pensamento sistêmico, no seio do construtivismo e da teoria das inteligências múltiplas, na perspectiva de compreender o sujeito a partir de suas capacidades potenciais na dimensão de sua totalidade. Já Reverdito, ao estudar em sua revisão as obras do professor João Batista Freire e seus asseclas (onde me incluo), evidenciando uma segunda abordagem, destaca que elas caracterizam uma pedagogia do esporte pautada em princípios pedagógicos, em que o processo seja estabelecido em função do sujeito que joga, respeitando suas motivações 76 Unidade II intrínsecas e humanitude, no comprometimento com o ensinar e com a sua transformação, desenvolvendo autonomia, criticidade e compreensão do fazer, integrada à sua cultura corporal e social. Ou seja: a prática pedagógica sustenta‑se sobre diversidade e princípios pedagógicos do ensinar esportes a todos, ensinar esporte bem a todos, ensinar mais que esportes e ensinar a gostar de esportes. Sua estratégia‑metodologia se pauta na aprendizagem do jogo por meio do jogo jogado, sendo o ensino orientado para compreensão do jogo, com o objetivo do desenvolvimento da capacidade tática (cognitiva) em direção à especificidade técnica (motora específica), privilegiando situações de jogos e brincadeiras populares da cultura infantil, metodicamente orientados pelo jogo‑trabalho. Os autores apoiam‑se nos fundamentos das abordagens interacionista e do pensamento sistêmico‑complexo, para as bases da teoria do jogo, privilegiando o aprendizado na interação entre a capacidade de aprender e das diferentes produções culturais já existentes, sendo o jogo o principal ambiente dessainteração. Uma terceira abordagem surge ao revisarmos os principais estudos dos professores portugueses Júlio Garganta e Amandio Graça. Especificamos que em suas obras há a caracterização de uma abordagem em pedagogia do esporte sobre o jogo e o indivíduo que joga, sendo o jogo formativo por excelência quando, dependendo da metodologia, induz ao desenvolvimento da cooperação e da inteligência, nas quais é referencial para uma cultura esportiva, articulando os aspectos fundamentais dos jogos e o conceito à natureza aberta das habilidades, regulada pelos constrangimentos surgidos dos fatores exteriores. Entretanto, podemos entender que em Garganta e Graça, mesmo sendo possível em sua caracterização visualizar uma linha de pensamento que aproxime a prática científica da pedagógica e possibilite entendê‑las enquanto abordagens, nas estratégias‑metodologias os autores trazem conceitos e orientações que revelam singularidades específicas de suas obras. Para Julio Garganta, a estratégia‑metodologia orientada para o ensino do esporte, especificamente os jogos coletivos, deve acontecer por meio dos jogos condicionados, unidades funcionais, orientados para compreensão do jogo (razões do fazer) e integrados à especificidade técnica (modo de fazer), contemplando uma prática transferível a partir da assimilação dos princípios comuns nos jogos, através de formas acessíveis, motivantes e desafiadoras. Já em Graça a estratégia‑metodologia se pauta na aprendizagem das habilidades básicas para jogos, para o desenvolvimento da capacidade de jogo, por meio de jogos, atividades simplificadas e modificadas, combinando a exercitação e formas de jogos, facilitando a transferibilidade da exercitação para os jogos, através de situações que exijam duplas tarefas (o quê e como), em função das especificidades das habilidades abertas e seu caráter multidimensional. Sendo assim, a fundamentação trazida pelos autores forma uma teoria dos jogos esportivos coletivos, sustentados por uma abordagem fenômeno‑estrutural, e uma prática transferível das similitudes comuns aos jogos, sistêmica para compreender, operacionalizar e otimizar a totalidade complexa fenomenal do jogo. 77 ESPORTES COLETIVOS Por fim, ao revisarmos as obras de Kröger e Roth – autores do livro Escola da bola – e os relevantes estudos dos professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Pablo Juan Greco e Rodolfo Benda, encontramos consensos que nos permitem caracterizar uma quarta abordagem em pedagogia do esporte, como muitos pontos em comum, especialmente em sua fundamentação. A pedagogia do esporte, de acordo com Kröger e Roth, é uma ação orientada para desenvolver a cultura do jogar, uma escola da bola natural, livre e variada, orientada e universal a todos os esportes. Já em Greco e Benda apresenta‑se para a iniciação esportiva universal, pautada em uma aprendizagem incidental, sobre o controle e desenvolvimento das capacidades em meio às relações estabelecidas entre professor e aluno, facilitando o desenvolvimento das capacidades coordenativas, fundamentais para a construção e constituição do potencial do indivíduo, possibilitando‑lhe compartilhar decisões e conscientização político‑social, contextualizada em sua ação. Destacamos que, em suas estratégias‑metodologias, Kröger e Roth defendem o ensino dos jogos coletivos por meio de jogos situacionais e de uma aprendizagem incidental, para o desenvolvimento da capacidade de jogo e das capacidades coordenativas, privilegiando os fatores de pressão (tempo, precisão, complexidade, organização, variabilidade, carga), determinantes da motricidade, para o desenvolvimento das habilidades com bola e da construção de movimentos específicos aos esportes (técnica). Já Pablo Greco e Benda orientam sua proposta para o desenvolvimento das capacidades coordenativas, inicialmente da aprendizagem motora ao treinamento da técnica, por meio de jogos e exercícios dirigidos, de perseguição e estafetas, em conformidade com o desenvolvimento da capacidade de jogo ao treinamento tático, também através de jogos funcionais e situacionais, privilegiando fatores de pressão (tempo, precisão, complexidade, organização, variabilidade e carga), determinantes da motricidade. Contudo, deve‑se destacar que tanto Kröger e Roth quanto Greco e Benda fundamentam suas obras sobre uma visão que se compreende como progressista, na integração entre as ciências biológicas e pedagógicas, subsidiadas pelas teorias de controle e aprendizagem motora, da psicologia geral e cognitiva, nas áreas da aprendizagem formal e incidental e da criatividade. Portanto, ao final desta breve sequência, quis apresentar as novas tendências em pedagogia do esporte, de modo a contribuir com a discussão premente que se inicia na educação física, mais precisamente em ciência do esporte. *Texto apresentado pelo autor em 9 de junho de 2010. Adaptado de: Scaglia (2017, p. 32‑34). 78 Unidade II O quadro a seguir sintetiza as principais propostas de pedagogia do esporte no Brasil, descrevendo os autores de cada modelo pedagógico, a característica principal da proposta, a estratégia metodológica sugerida e a fundamentação teórica que a embasou. É fundamental o profissional dominar tais propostas para planejar adequadamente suas práticas e ter condições de selecionar os modelos mais pertinentes para cada situação de ensino‑aprendizagem. Quadro 6 – Síntese das principais propostas de pedagogia do esporte no Brasil Autores e obras principais Caracterização Estratégia/metodologia Fundamentação Paes (2001) Educação física escolar: o esporte como conteúdo pedagógico do ensino fundamental Balbino (2001) Jogos desportivos coletivos e os estímulos das inteligências múltiplas: bases para uma proposta em pedagogia do esporte Por meio da pedagogia, busca transcender a simples repetição de movimentos para iniciação e formação esportiva consciente, crítica e reflexiva, fundamentada nos pilares da diversidade, da inclusão, da cooperação e da autonomia, sustentando sua práxis pedagógica no movimento humano, nas inteligências múltiplas, nos aspectos psicológicos, nos princípios filosóficos e na aprendizagem social Está condicionada à essência complexa do jogo, em que somente se aprende jogando. A aprendizagem se dá por meio do jogo possível – atividades lúdicas, jogos pré‑desportivos e brincadeiras populares, jogos reduzidos, jogos condicionados e situacionais –, executado em um ambiente fascinante e estimulador Baseia‑se no pensamento sistêmico, no seio do construtivismo e da teoria das inteligências múltiplas, na perspectiva de compreender o sujeito a partir de suas capacidades potenciais em sua totalidade Scaglia (1999, 2003) O futebol que se aprende e o futebol que se ensina O futebol e o jogo/ brincadeira de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes Freire (2003) Pedagogia do futebol É orientada por princípios pedagógicos em que o processo seja estabelecido em função do sujeito que joga, suas motivações intrínsecas e sua humanidade, no comprometimento com o ensinar e com a sua transformação, por meio do desenvolvimento de sua autonomia, criticidade e compreensão do fazer, integrada à sua cultura corporal e social. A práxis pedagógica sustenta‑se na diversidade nos princípios pedagógicos do ensinar esportes a todos, ensiná‑los bem, ensinar mais que esportes e ensinar a gostar de esportes O ensino orienta‑se para a compreensão do jogo, que se aprende jogando, objetivando desenvolver a capacidade tática (cognitiva) em direção à especificidade técnica (motora específica), privilegiando situações de jogos e brincadeiras populares da cultura infantil, metodologicamente orientadas pelo jogo‑trabalho Apoia‑se nos fundamentos das abordagens interacionista e do pensamento sistêmico complexo, para as bases da teoria do jogo, privilegiando o aprendizado na interação entre a capacidade de aprender e dasdiferentes produções culturais já existentes, sendo o jogo o principal ambiente dessa interação 79 ESPORTES COLETIVOS Autores e obras principais Caracterização Estratégia/metodologia Fundamentação Graça (1995) Os comos e quandos no ensino dos JDC Dá‑se sobre o jogo e o indivíduo que joga, sendo formativo por excelência quando induz ao desenvolvimento da cooperação e da inteligência, referenciais para uma cultura esportiva, articulando os aspectos fundamentais dos jogos, tendo por conceito a natureza aberta das habilidades regulada pelos constrangimentos surgidos dos fatores exteriores. Sua práxis pedagógica orienta‑se pela especificidade de equipe, entendida como um microssistema social complexo e dinâmico, articulando os aspectos fundamentais dos jogos, e pelos conhecimentos gerais em pedagogia Ensino orientado para a aprendizagem de habilidades básicas, visando desenvolver a capacidade de jogo dos praticantes por meio de jogos e atividades simplificados e modificados, combinação de exercícios e formas de jogos e a possível transferência da exercitação entre modalidades, por meio de situações que exijam duplas tarefas (o que e como), em virtude das especificidades das habilidades para os jogos e seu caráter multidimensional Para uma teoria nos jogos esportivos coletivos, sustentada pela teoria do fenômeno estrutural, para uma prática transferível das similitudes comuns aos jogos e sistêmica, para a compreensão, a operacionalização e a otimização da totalidade complexa fenomenal do jogo Kröger e Roth (2002) Escola da bola: um ABC para iniciantes nos jogos esportivos Constitui‑se de uma ação pedagógica orientada para o desenvolvimento da cultura do jogar, uma escola da bola natural, livre e variada, orientada e universal a todos os esportes Ensino dos jogos coletivos por meio de jogos situacionais e aprendizagem incidental, para o desenvolvimento das capacidades de jogo e coordenativas, privilegiando os fatores de pressão (tempo, precisão, complexidade, organização, variabilidade e carga), condicionantes da motricidade, o desenvolvimento das habilidades com bola e a construção de movimentos específicos aos esportes (técnica) Sob uma visão progressista, na integração entre as ciências biológicas e pedagógicas, apoiando‑se nas teorias de controle e aprendizagem motora e da psicologia geral e cognitiva, nas áreas da aprendizagem formal e incidental e da criatividade Greco e Benda (1998) Iniciação esportiva universal Apresenta‑se para a iniciação esportiva universal, orientada para uma aprendizagem incidental sobre o controle e o desenvolvimento das capacidades, em meio às inter‑relações estabelecidas entre professor e aluno, visando o desenvolvimento das capacidades coordenativas para a construção e a constituição do potencial do indivíduo, oferecendo‑lhe a possibilidade de compartilhar decisões e a conscientização político‑social contextualizada em sua ação Para o desenvolvimento das capacidades coordenativas, da aprendizagem motora ao treinamento da técnica, por meio de jogos e exercícios dirigidos, de perseguição e estafetas, e, subsequentemente, do desenvolvimento da capacidade de jogo ao treinamento tático, por meio de jogos funcionais e situacionais, privilegiando fatores de pressão (tempo, precisão, complexidade, organização, variabilidade e carga), condicionantes da motricidade Sob uma visão progressista, na integração entre as ciências biológicas e pedagógicas, apoiando‑se nas teorias de controle e aprendizagem motora e da psicologia geral e cognitiva, nas áreas da aprendizagem formal e incidental e da criatividade Adaptado de: Reverdito e Scaglia (2020, p. 259‑262). 80 Unidade II Resumo Na unidade II foram introduzidos os conceitos iniciais de pedagogia do esporte, manifestando um posicionamento em favor dos modelos pedagógicos ativos. Para uma melhor compreensão, foram definidos os conceitos de técnica, tática e estratégia para, posteriormente, serem introduzidos o embasamento teórico e alguns modelos nacionais e internacionais sugeridos para o ensino dos jogos esportivos coletivos (JECs), como a pedagogia da rua, de João Batista Freire – um dos primeiros modelos de pedagogia a serem pensados e discutidos na educação física brasileira – e o ensino dos jogos para a compreensão (teaching games for understanding – TGfU), de Bunker e Thorpe. Em seguida foram apresentadas sugestões embasadas na literatura acerca de como o profissional de educação física deve planejar sua prática para o ensino dos JECs, baseados nos modelos pedagógicos modernos e ativos da pedagogia do esporte. Assim, as sugestões seguem uma iniciação esportiva, com exemplos de classes de jogos sugeridos pelo modelo da escola da bola, de Kroger e Roth, para serem desenvolvidos. Para o treinamento também foram apresentadas sugestões de como trabalhar o aperfeiçoamento técnico‑tático embasado nos modelos ativos, sendo apresentada a proposta de iniciação esportiva universal (IEU), de Greco e Benda, como sugestão para ensinar JECs, tomando por base uma proposta de nove etapas, que se estendem até a fase de destreinamento e envelhecimento. O texto foi concluído com um quadro que sintetizou os modelos pedagógicos brasileiros para ensinar JECs. 81 ESPORTES COLETIVOS Exercícios Questão 1. Jogos esportivos coletivos (JECs) caracterizam‑se pela sucessão de diferentes situações, cuja resolução envolve relacionar processos cognitivos (táticos) com processos motores (técnicos). A respeito do tema, avalie as asserções e a relação proposta entre elas. I – Quando um atleta decide realizar um determinado passe no futsal, ele toma uma decisão técnica ao escolher essa ação motora como a mais adequada na resolução de uma situação específica do jogo. porque II – A tática, que engloba gestos necessários para que o jogo aconteça, deve ser limitada pelo regulamento da modalidade esportiva praticada. A) As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa válida da I. B) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa válida da I. C) A asserção I é verdadeira, e a II é falsa. D) A asserção I é falsa, e a II é verdadeira. E) As asserções I e II são falsas. Resposta correta: alternativa E. Análise das asserções I – Asserção falsa. Justificativa: a tática engloba os processos cognitivos que embasam a tomada de decisão, as escolhas e o planejamento de estratégias e de ações no contexto do jogo. Portanto, quando o atleta decide realizar determinado passe, ele toma uma decisão tática, e não técnica. II – Asserção falsa. Justificativa: no contexto dos JECs, a técnica (e não a tática) engloba os gestos motores específicos necessários para que o jogo aconteça de acordo com as regras. 82 Unidade II Questão 2. Iniciação esportiva universal (IEU) é uma proposta de ensino que visa a resgatar a cultura do jogo em diversos ambientes da vida da criança, como praia, rua e escola, a fim de contextualizar o processo de ensino‑aprendizagem das diferentes modalidades de desporto. A respeito da IEU, avalie as afirmativas: I – Prioriza o desenvolvimento de jogos de inteligência e criatividade tática. II – Apresenta atividades físicas que devem ser desenvolvidas em cada faixa etária, a fim de acompanhar o desenvolvimento cognitivo e motor da criança e do adolescente. III – Procura desenvolver as noções de estratégia, percepção do espaço, desenvolvimento do corpo e integração entre as partes de um sistema, que são habilidades úteis em outros contextos além da prática esportiva. É correto o que se afirma em: A) I, apenas. B) I e II, apenas. C) II, apenas. D) II e III, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa E. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: os jogos de inteligência e de criatividade tática permitem, além do desenvolvimento motor, o desenvolvimento cognitivo das criançase dos adolescentes. II – Afirmativa correta. Justificativa: a IEU propõe atividades específicas para cada fase do desenvolvimento: pré‑escolar (2 a 5 anos), universal (6 a 12 anos), orientação (12 a 14 anos), direção (14 a 16 anos), especialização (16 a 18 anos) e adaptação/integração (18 a 21 anos). São propostas também as fases de alto nível, recuperação e recreação e saúde, que não se restringem a uma faixa etária específica. 83 ESPORTES COLETIVOS III – Afirmativa correta. Justificativa: as habilidades citadas são essenciais para desenvolver jogos individuais e coletivos e podem, também, ser aproveitadas em outros aspectos da vida. Assim, promove‑se o desenvolvimento integral do indivíduo. 84 REFERÊNCIAS BARBANTI, V. Dicionário de educação física e esporte. São Paulo: Manole, 1994. BAYER, C. O ensino dos desportos coletivos. Lisboa: Dinalivros, 1994. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, 1988. Disponível em: https://bit.ly/3gYhhuA. Acesso em: 3 nov. 2022. BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Brasília, 1990. Disponível em: https://bit.ly/2Fomg2Z. Acesso em: 3 nov. 2022. BRASIL. Lei n. 8.672, de 6 de julho de 1993. Brasília, 1993. Disponível em: https://bit.ly/3U1cF5y. Acesso em: 3 nov. 2022. BRASIL. Lei n. 9.615, de 24 de março de 1998. Brasília, 1998. Disponível em: https://bit.ly/3zFF2y6. Acesso em: 3 nov. 2022. BROUGÈRE, G. Jogo e educação. Porto Alegre: Artmed, 1998. BUNKER, D.; THORPE, R. A model for the teaching of games in the secondary school. Bulletin of Physical Education, London,, v. 18, n. 1, p. 5‑8, 1982. CARVALHO, R. M. 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Na perspectiva desta pedagogia moderna, ativa e interacionista emergem os métodos mais recentes de ensino dos JECs. O princípio que rege as novas metodologias é o global‑funcional, em que o ensino é organizado por características (ou famílias) de jogos, havendo sempre oposição entre atacantes e adversários, a fim de garantir no treino o respeito à imprevisibilidade do jogo formal, conectando as capacidades técnicas e táticas. Tais modelos buscam criar um ambiente diversificado e criativo, abrindo uma gama de diferentes níveis de experiências, possibilitando ao indivíduo desenvolver sua autonomia e tornando significativa a sua prática (GALATTI et al., 2017). O jogo é então caracterizado como um sistema complexo, cujas características não podem ser reduzidas a uma soma de partes isoladas. Assim, o ensino dos JECs passa a utilizar a estratégia de ensino pelo jogo, o aprender a jogar jogando, o que significa valorizar a complexidade do fenômeno esportivo, negando o ensino pelas partes e enfatizando o ensino pela totalidade – formada por partes que se manifestam de maneira sistêmica (e não fragmentada), numa teia complexa de ações, gestões, intenções e problemas a serem resolvidos no contexto do jogo (LEONARDO; SCAGLIA; REVERDITO, 2009). Lembrete A pedagogia do esporte investiga a organização, sistematização, aplicação e avaliação de conteúdos e procedimentos pedagógicos nos processos de ensino‑aprendizagem, especialização e treinamento esportivo. 45 ESPORTES COLETIVOS 6 TÉCNICA E TÁTICA NOS JOGOS ESPORTIVOS COLETIVOS Além das características intrínsecas dos jogos, apresentadas na unidade I, a classificação das famílias de jogos e os elementos técnicos e táticos também são fundamentais. Eles estão mais relacionados aos jogadores, porém são indissociáveis do que compõe os jogos. A técnica é uma ação motora composta por movimentos coordenados e organizados que resultam em um gesto motor preciso e eficaz. Considerando o contexto dos JECs, a técnica de determinada modalidade abrange os gestos motores específicos que compõem as ações necessárias para que o jogo aconteça de acordo com as regras. A organização do gesto motor da técnica é limitada pelo regulamento da modalidade. Em suma, a técnica é uma ação motora para alcançar as metas e exigências do jogo/ modalidade. Os gestos técnicos (fundamentos) são as ferramentas que o aprendiz/jogador possui para resolver tarefas e problemas dos jogos. A tática são os processos psicocognitivos e motores que embasam a tomada de decisão e o planejamento de estratégias e ações do indivíduo no contexto do jogo. A tática é o processo decisório ou o sistema de planos de ação que desencadeia escolhas direcionadas à obtenção de uma meta no jogo. Pode ser individual, de grupo ou coletiva. A tática individual é um processo de elaboração no qual o jogador considera sua capacidade (física, técnica, psicológica etc.) e o contexto do jogo, ou seja, é o comportamento de um praticante que através da sua ação consegue interpretar no tempo, espaço e situação movimentos dirigidos a um objetivo do jogo. Tática de grupo envolve ações coordenadas entre dois ou três jogadores, e é composta por uma sequência de atos individuais conforme o objetivo e os elementos de organização do jogo. Por fim, tática coletiva são as ações de três ou mais jogadores conforme o plano de ação, de acordo com as regras do jogo. Técnica e tática são indissociáveis e não se manifestam de maneira isolada nos JECs. Por compreender o intrincado relacionamento entre estes elementos é que a pedagogia do esporte moderna não considera práticas pedagógicas que os separem, pois isso acaba por eliminar o contexto do jogo. Assim, o processo de treinamento técnico não pode se restringir à repetição isolada dos fundamentos específicos. Devem ser considerados métodos que possibilitem ao aprendiz criar novas possibilidades de movimento ou selecionar dentre diferentes técnicas aquela mais adequada para o contexto do jogo. Ou seja, uma vez que deve ser escolhida previamente a técnica que melhor se encaixa na situação‑problema que o jogo apresenta, o bom desempenho técnico está atrelado a um bom entendimento tático do jogo. A tática só se concretiza com as ações motoras especializadas, as técnicas. Assim, tática, técnica e estratégia são conceitos indissociáveis, sendo a tática o fator que conecta a estratégia e a técnica esportiva (GALATTI et al., 2017). Uma vez que agora já são conhecidos os conceitos de técnica e tática, é possível compreender a estrutura das pedagogias tradicional e moderna para o ensino dos JECs. A pedagogia tradicional prioriza inicialmente o aperfeiçoamento do gesto técnico através da sua repetição isolada e descontextualizada do jogo. Por sua vez, a pedagogia moderna – que entende o jogo como um fenômeno complexo de partes indissociáveis – organiza a prática oferecendo situações de jogo nas quais é necessário um processo decisório que antecede a execução da técnica (gestos/fundamentos) para resolver os problemas e alcançar as metas dos jogos. 46 Unidade II Exemplo de aplicação Considerando os modelos pedagógicos tradicional e moderno, reflita acerca das suas experiências na infância e adolescência durante a aprendizagem dos JECs e veja se é capaz de classificar qual foi o modelo pedagógico usado. A compreensão da literatura e do processo histórico pelo qual passou e vem passando a pedagogia do esporte é parte importante do processo de formação do profissional de educação física que vai atuar com os JECs. O desafio é que o professor/técnico seja capaz de reconhecer os modelos pedagógicos para planejar a prática de forma que os JECs sejam oferecidos levando em conta seu caráter político e sociocultural, considerando‑os parte fundamental da formação integral do cidadão. Nesta perspectiva, os JECs devem ser usados como ferramenta da educação esportiva que pode ser potencializada através da oferta de inúmeros jogos reduzidos ou adaptados, tornando o processo de ensino‑aprendizagem mais sedutor e significativo. O trabalho com os JECs através das pedagogias modernas, ativas, que buscam desenvolver a autonomia do praticante, está alinhado à proposta de usá‑los como estratégia para o desenvolvimento humano. Nesta perspectiva de pedagogias renovadas, serão apresentados a seguir alguns modelos alinhados a estas filosofias. 7 MODELOS PEDAGÓGICOS Os modelos tradicionais de pedagogia do esporte, que emergiram como consequência do desaparecimento da pedagogia da rua e com o surgimento das escolinhas de esportes, estiveram – e ainda estão, em sua maioria – centrados no desenvolvimento inicial das capacidades técnicas, ou seja, no aperfeiçoamento do gesto motor. Nestes modelos, o aprendiz não tem autonomia para guiar seu próprio processo de aprendizagem, não participa das decisões das estratégias a serem adotadas e sequer tem liberdade para escolher a ação motora nos exercícios que tem que executar. Isso porque muitas vezes tais exercícios são construídos de maneira que não há mais de uma possível ação a ser executada, tirando assim da prática o elemento de tomada de decisão (que é inerente aos jogos). As pedagogias ativas para ensino do esporte seguem uma direção contrária a esse cenário, pretendendo justamente desenvolver a autonomia do aprendiz. Para isso, as atividades não estão centradas na repetição e aprimoramento do gesto técnico, e sim na repetição das mais variadas situações de jogo. Neste contexto, o aprendiz, através da variabilidade das ações motoras, se depara com situações nas quais diversas ações são possíveis. O ponto‑chave das pedagogias ativas é justamente a oferta de situações que permitem mais de uma ação para que o aprendiz tome suas decisões, reflita e use estas escolhas como seu próprio feedback para as próximas tentativas. Neste caso, a variabilidade do comportamento, e não a rigidez do gesto, é vista como aspecto positivo. Também muda nas pedagogias ativas a maneiracomo a estrutura da prática é elaborada, uma vez que o foco é a oferta das mais variadas situações de jogo e não a repetição do gesto motor. Desta forma, a seguir serão apresentados alguns modelos de pedagogia ativa, bem como seus embasamentos teóricos. 47 ESPORTES COLETIVOS 7.1 Pedagogia da rua Durante muito tempo a rua foi o cenário informal pedagógico dos processos de aprendizagem dos jogos e dos esportes coletivos. Crianças e adolescentes tinham uma rotina de prática lúdica e criativa de jogos e brincadeiras que desenvolviam habilidades e competências. Essa prática é atualmente nomeada pedagogia da rua, termo inicialmente cunhado por João Batista Freire (2011) em seu livro sobre o futebol brasileiro. A rua oferecia naturalmente uma diversidade de situações‑problema cuja resolução demandava espontaneidade. Como aponta Scaglia (1999, p. 1), “as crianças cresciam jogando futebol, ou melhor brincando de bola, o que fez (e ainda faz) muitas pessoas acreditarem que esses meninos já nasciam sabendo jogar, como um dom herdado de um ser divino, ou de uma benção genética”. Figura 21 – Prática de jogo na rua Disponível em: https://bit.ly/3FjU9ky. Acesso em: 26 out. 2022. A partir desta prática se desenvolveu a ideia de que o brasileiro tinha uma habilidade inata para jogar futebol, quando na realidade a professora era a rua. No entanto, com o passar dos anos a sociedade se reestruturou de uma forma que impediu a pedagogia da rua de se manifestar, principalmente nas zonas mais urbanas. Consequentemente, estes espaços deixaram de existir e essa prática foi pouco a pouco sendo esquecida. As ruas asfaltadas passaram a ser vias de trânsito, terrenos baldios foram substituídos por prédios, e os poucos locais que ainda existem para estas práticas, geralmente nas periferias, muitas vezes sofrem com a violência exacerbada e o tráfico de drogas. Com a falta de espaço físico espontâneo e também de aparelhos e parques públicos para a prática do jogo/esporte, a rotina das crianças também mudou bastante. Aquelas com condição socioeconômica menos favorecida muitas vezes precisam trabalhar para ajudar a família ou complementar a renda da casa, enquanto as crianças de classe média e alta estão geralmente comprometidas com uma agenda cheia de atividades, na maioria das vezes relacionadas à escola. 48 Unidade II Parte destas atividades está associada à prática de esportes em escolinhas e clubes. Estes espaços, em geral privados, oferecem segurança e a oportunidade de praticar uma atividade física e/ou jogo, atendendo o desejo dos pais e/ou responsáveis. Entretanto, o que se observa em muitos casos é a especialização precoce da criança em uma modalidade esportiva e a perda do aspecto lúdico e da espontaneidade que a rua oferecia. Uma diferença fundamental entre a pedagogia da rua e a das escolinhas de esporte é a ludicidade. Além disso, a metodologia empregada nestes espaços em geral se volta para o aperfeiçoamento técnico, com foco na repetição dos gestos, deixando de lado o jogo como estratégia pedagógica, conforme Tostão (2016, p. 23) em seu livro Tempos vividos, sonhados e perdidos: Muitos estudos científicos mostram que a habilidade e a criatividade surgem na infância, para depois serem aprimoradas. O menino precisa brincar com bola, sem compromisso, […] para depois aprender a técnica, a tática, o jogo coletivo e as posições do campo. A liberdade de brincar, e não os campos de terra, é que era importante. As atuais escolinhas, de clube ou não, costumam fazer o contrário: ensinam aos meninos as regras e os comportamentos padronizados antes mesmo de desenvolverem a habilidade e a criatividade e antes de terem um desenvolvimento psicomotor adequado. Figura 22 – Prática de esporte em escolinhas Disponível em: https://bit.ly/2N9Sjps. Acesso em: 26 out. 2022. Para desenvolver as competências que os jogos e esportes coletivos exigem, a ludicidade e o brincar são elementos fundamentais. Além de a brincadeira envolver aprendizagem social, o desenvolvimento da capacidade de jogar é mais sobre o modo como se joga e as soluções que se encontra para as demandas apresentadas do que especificamente a maneira como se executa as ações. Brincar é uma atividade social e, portanto, cultural; logo, a cultura lúdica é coconstruída pela criança: 49 ESPORTES COLETIVOS A cultura lúdica é antes de tudo um conjunto de procedimentos que permite tornar o jogo possível. […] A cultura lúdica é, então, composta por um certo número de esquemas que permitem iniciar a brincadeira, já que se trata de produzir uma realidade diferente daquela da vida quotidiana (BROUGÈRE, 1998, p. 24). A pedagogia da rua é um ambiente informal de aprendizagem. Segundo Machado et al. (2019), suas principais características são: • familiarização com a bola; • adaptação dos aspectos estruturais e funcionais do jogo; • variedade na exploração de problemas e soluções táticas e motoras; • reduzido fornecimento de feedback e instrução; • manifestação do prazer pelo jogo; • erro como importante componente da aprendizagem; • ausência de adultos intermediando a prática. Cada um destes aspectos apresenta implicações para a aprendizagem. A familiarização com a bola oferece oportunidades para a criança desde os primeiros momentos. Com a prática espontânea do jogo, a criança procura criar contextos de prática em que possa se familiarizar com o implemento do jogo, isto é, a bola, o que é também estimulado pelo número reduzido de jogadores. Essa familiarização com o implemento do jogo, em diferentes contextos, parece explicar a aprendizagem precoce e a motivação das crianças em jogar, que poderá contribuir com um engajamento preliminar nas modalidades, estimulando os jogadores a perseguir níveis superiores de excelência. Com relação às adaptações dos aspectos estruturais e funcionais do jogo, é possível perceber que as crianças procuram criar jogos/brincadeiras de bola de acordo com o número de jogadores e local disponíveis. Portanto, os jogos tendem a ocorrer em espaços reduzidos, com poucos jogadores e geralmente com regras adaptadas, sendo influenciados pelas interações estabelecidas pelos praticantes com o contexto específico do jogo. Os jogos da rua parecem ser uma rica atividade que contribui para a aprendizagem de habilidades e competências. A prática de diversos jogos/brincadeiras com bola, em diferentes contextos, permitirá à criança explorar muitas situações de jogo, repletas de imprevisibilidade e aleatoriedade, o que a estimula a se adaptar. Um dos grandes problemas dos ambientes formais de aprendizagem do esporte é o excesso de feedback, que pode formar jogadores dependentes desta prática. Na pedagogia da rua, a redução ou 50 Unidade II mesmo a ausência de instrução e feedback extrínseco parece contribuir para que as crianças tenham mais autonomia para perceber e resolver os problemas que emergem no jogo. Por outro lado, o feedback interrogativo pode potenciar a exploração das fontes de informação contidas no contexto, contribuindo para uma melhor análise, reflexão e entendimento do jogo. Portanto, essa exploração do contexto em busca da percepção de informações contribuirá para a emergência de soluções para os problemas de jogo, estimulando a autonomia e a criatividade dos jogadores. Além disso, o prazer e a motivação para o jogar por si só parecem potencializar o processo de aprendizagem. Na pedagogia da rua, o erro pode ser considerado um importante fator para a aprendizagem do jogo. Logo, a prática dos jogos/brincadeiras de bola com os pés estimula uma auto‑organização do erro, contribuindo para uma maior autonomia e compreensão da atividade. Além disso, na tentativa de satisfazer seus desejos de jogar, as crianças procuram e conseguem organizar/adequar os jogos/ brincadeiras a qualquer espaço encontrado e ao número de jogadores disponíveis, mesmo sem a presença de um adulto para orientar a atividade. Considerando esse dilema da falta de espaços para a práticada pedagogia da rua e a oferta do esporte sistematizado em cenários como escolinhas e clubes, é interessante encontrar um denominador comum que atenda às necessidades de desenvolvimento das crianças em primeiro lugar. As escolinhas – que geralmente aplicam pedagogias tradicionais e voltadas para os aspectos técnicos, minimizando a ludicidade, autonomia e criatividade das práticas – oferecem o perigo da especialização precoce, na qual o indivíduo se concentra apenas em um esporte e, assim, vê reduzidas as oportunidades de explorar e construir estratégias e soluções de movimento que são relevantes em contextos reais de desempenho de jogos. Por outro lado, a diversificação precoce, contexto da pedagogia da rua, fornece claramente o caminho para os indivíduos experimentarem esportes diferentes e explorarem melhor os cenários e, assim, produzirem resultados mais significativos à medida que se desenvolvem em um jogo. Lembrete Escolinhas são locais de iniciação esportiva, geralmente definida por uma modalidade específica para a prática. É importante que os profissionais comecem a perceber que os métodos tradicionais de ensino e treinamento contribuem para a falta de desenvolvimento dos indivíduos. Isso tem motivado os pesquisadores da pedagogia do esporte a considerar abordagens que encorajem uma aprendizagem mais exploratória, com recortes representativos que se concentrem na manutenção dos principais elementos estruturais e funcionais do contexto dos jogos. O uso de jogos adaptados (pré‑desportivos) tornou‑se uma valiosa ferramenta alternativa de treinamento para proporcionar às crianças a oportunidade de explorar e resolver problemas de jogo em contextos de desempenho semelhantes. No entanto, para que a abordagem baseada em jogos seja eficaz, é necessário que o praticante conheça muito bem o jogo e tenha habilidades pedagógicas que lhe permitam manipular as principais dificuldades na tentativa de criar ambientes de prática que encorajem uma melhor adaptação entre a complexidade da tarefa e o nível de habilidade percebido dos 51 ESPORTES COLETIVOS aprendizes. Para atingir esses objetivos, os profissionais devem estar cientes dos princípios pedagógicos e metodológicos relevantes para apoiar os alunos na aquisição de conceitos e princípios específicos de jogos por meio do desenvolvimento concomitante de habilidades de desempenho individual e em equipe (SCAGLIA; REVERDITO; GALATTI, 2013). Observação Pré‑desportivos são jogos adaptados e com complexidade reduzida. 7.2 Pedagogia não linear A pedagogia não linear está pautada nos conceitos da teoria dos sistemas dinâmicos e entende o aprendiz como um sistema complexo, não linear e dinâmico. Esse modelo pedagógico descreve, explica e prediz como as mudanças ao longo do tempo ocorrem em um estado organizacional de cada indivíduo, considerando‑o um sistema de aprendizagem. A partir deste ponto de vista, ações de sucesso requerem que o indivíduo efetivamente regule os componentes do sistema envolvidos no comportamento para alcançar os objetivos de cada tarefa motora. Na perspectiva dos sistemas dinâmicos, a interação entre os componentes do sistema e as restrições de cada situação de performance oferece uma plataforma para o comportamento funcional emergir; assim, nenhum componente unitário pode ser considerado um fator primordial na prescrição de como o movimento deverá ser realizado (CHOW et al., 2009). A pedagogia não linear pode oferecer aos profissionais princípios‑chave para serem usados nas situações de ensino‑aprendizagem, tais como formas de avaliar a aquisição de conhecimento, de estruturar a prática e de fornecer feedback e instruções de maneira adequada, favorecendo o aprendizado. Para isso, a atenção do profissional é direcionada para o entendimento de que as soluções de coordenação apresentadas pelo aprendiz são produto da auto‑organização e que períodos de variabilidade de movimentos/performance devem ser valorizados como parte do processo de aprendizagem (DAVIDS; BUTTON; BENNETT, 2008). Para encorajar soluções de coordenação funcionalmente relevantes, sugere‑se que o profissional manipule as interações entre o aprendiz e o contexto do jogo alterando as tarefas, o ambiente e as restrições do próprio aprendiz, a fim de oferecer diversidade. A pedagogia não linear entende que as restrições são influências temporárias nos aprendizes e que a prática deve replicar a dinâmica específica que pode existir numa performance particular em determinada situação do jogo. A pedagogia não linear difere da pedagogia tradicional de muitas maneiras. Em termos de desenvolvimento das habilidades, o movimento executado pelo praticante tem sido tradicionalmente trabalhado com exercícios de aperfeiçoamento da performance em relação a um padrão motor ideal, avaliando a técnica e fornecendo instruções e feedback. Na pedagogia não linear, o ponto fundamental é a importância da facilitação através da aprendizagem independente; assim, é muito mais voltada para o aprendiz autônomo e como peça central do processo de aprendizagem, de maneira que as tarefas/ exercícios têm características peculiares muito diferentes daquelas utilizadas na pedagogia tradicional. Tarefas significantes para os aprendizes são aquelas que criam um ambiente de aprendizagem favorável para a descoberta de soluções ótimas através da manipulação das restrições, da interpretação da variabilidade do movimento e do incentivo dos praticantes nas suas atividades de busca. Assim, a 52 Unidade II estrutura da prática não deve estar pautada no desmembramento das tarefas em partes menores para repetição do gesto motor, devendo, em vez disso, haver uma rica oferta de situações que simulam o jogo, ou ainda que sejam o próprio jogo – esta é a repetição da prática no modelo da pedagogia não linear. Neste sentido, não há padrão motor ideal que se encaixe em todos os aprendizes, e por isso a pedagogia não linear traz uma excelente oportunidade para o aprendiz buscar e identificar as ações ideais através da prática (DAVIDS; BUTTON; BENNETT, 2008). A pedagogia não linear se pauta no conceito de restrições para descrever e explicar mudanças na coordenação dos movimentos resultantes do processo de desenvolvimento e aprendizagem. O modelo de restrições de Newell (1986) considera o efeito de identificar e manipular o ambiente no qual as ações vão emergir, e categoriza as restrições em três tipos: ambiental, da tarefa e do indivíduo (figura 23). Ao professor cabe identificar a natureza das restrições de que cada aprendiz precisa quando executa uma ação no contexto do jogo. A identificação das restrições‑chave a serem manipuladas durante a prática é a base da pedagogia não linear. Indivíduo AmbienteTarefa Comportamento Figura 23 – Modelo das restrições de Newell Adaptada de: Newell (1986). Outro aspecto importante da pedagogia não linear é a avaliação. Profissionais têm frequentemente associado a variabilidade na performance com um erro, e acreditam que minimizar esse erro indicaria melhora. Entretanto, na pedagogia não linear os profissionais veem a variabilidade no sistema motor como positiva, uma vez que é uma característica onipresente, inevitável e ainda pode oferecer informações importantes para a exploração durante a aprendizagem. De maneira geral, uma mudança na variabilidade pode agir como um catalizador para um novo comportamento que pode ajudar a solucionar o problema apresentado no contexto do jogo. 53 ESPORTES COLETIVOS 7.3 Ensino dos jogos para compreensão O ensino dos jogos para compreensão (TGfU, do inglês teaching games for understanding) tem sido um dos modelos pedagógicos modernos mais proeminentes dos últimos 30 anos (BUNKER; THORPE, 1982). Quando propuseram essa abordagem, os autores justificaram que o modelo de ensino dos jogos estava exageradamente pautado na prática das técnicas esportivas isoladas do contexto dos jogos, levando a uma pobreza na capacidade decisória e na transferência de habilidades.Em plena década de 1980, quando este modelo foi proposto, muitas práticas da área da educação física, principalmente a escolar, eram questionadas no Brasil pós‑ditadura militar. Entretanto, na área do treinamento físico, os métodos tradicionais voltados para o desenvolvimento da técnica continuavam predominantes (e ainda o são hoje). O TGfU então foi desenvolvido com a intenção de possibilitar a aprendizagem dos aspectos táticos através da prática de jogar versões modificadas ou adaptadas dos jogos‑alvo. Assim, o método lançava luz no aprendizado dos aspectos táticos em situações reais de jogo nas quais a técnica seria desenvolvida concomitantemente à tática. Ainda que este modelo tenha despertado o interesse de muitos profissionais e sido proposto por pesquisadores da educação física, surpreendentemente existem poucas evidências empíricas de sua aplicação prática para comprovar sua efetividade. Ainda assim, o embasamento teórico do modelo, centrado na abordagem guiada a restrições, apresenta uma argumentação robusta para convencer como e por que modificar os jogos pode produzir tais efeitos. A proposta sugere que as tarefas priorizem a exigência de comportamentos táticos. Uma vez que não é possível realizar ações táticas sem que a técnica esteja a ela associada, nesta proposta ambas as habilidades seriam trabalhadas em conjunto, e, assim, a técnica não seria inicialmente aprimorada para depois ser inserida em contextos mais táticos, como acontece nos modelos tradicionais. Para isso, os autores argumentam que uma pessoa pode jogar com um repertório limitado de técnicas e ainda assim tornar a atividade muito competitiva. Neste sentido, os jogos adaptados são praticados para induzir a compreensão e a consciência dos aprendizes no contexto real do jogo. A apreciação do jogo é enfatizada para instigar o entendimento das regras e da natureza do jogo. A consciência tática também é encorajada para desafiar os aprendizes a resolver os problemas apresentados pelos jogos e ganhar conhecimento relevante para a performance. A execução das habilidades e a performance são acessadas/avaliadas através da observação dos resultados das decisões tomadas pelos praticantes durante o jogo. Nessas circunstâncias, o modelo percorre seis fases: 1) escolha do jogo; 2) apreciação do jogo; 3) consciência tática; 4) tomada de decisão (o que fazer; como fazer); 5) execução das habilidades; 6) performance (DAVIDS; BUTTON; BENNETT, 2008). Uma vez que a literatura não tem mostrado evidências empíricas que favoreçam um modelo ou outro (comparando metodologia tradicional baseada no desenvolvimento da técnica e metodologia moderna baseada no desenvolvimento inicial da tática), os autores argumentam que, considerando que ambos os modelos podem desenvolver tanto as habilidades técnicas quanto táticas, os profissionais deveriam 54 Unidade II privilegiar aquele que mais motiva e entusiasma os praticantes. Neste sentido, os modelos modernos voltados para o desenvolvimento do conhecimento tático, incluindo o TGfU, deveriam ser priorizados. Além disso, os modelos tradicionais focados na repetição do gesto técnico podem contribuir para o desgaste físico antecipado e desnecessário caso a carga de repetições não seja cuidadosamente avaliada pelos profissionais. Esse fato se agrava ainda mais considerando a iniciação esportiva de crianças e jovens que ainda não apresentam a maturação corporal necessária para receber cargas mais altas de treino e, consequentemente, de repetições. Dados os índices elevados de abandono da prática esportiva relacionado a lesões físicas e psicológicas em países que baseiam a iniciação esportiva e o esporte escolar nas pedagogias tradicionais, como Estados Unidos e China, é no mínimo preocupante considerar esses métodos como opção para a iniciação esportiva de crianças e jovens antes da pré‑adolescência. Em suma, o conceito‑chave do modelo centrado no aprendiz é sua flexibilidade para manipular as restrições em jogos modificados visando ensinar conceitos táticos e, consequentemente, habilidades relacionadas a eles. Modelo do TGfU Aprendiz no centro Tomadas de decisão apropriadas Em situações dinâmicas, os praticantes tomam decisões reais. Isso pode acontecer com e sem a bola. O que eu devo fazer? Como eu devo fazer? Jogo Inicialmente praticantes participam de jogos inteiros ou modificados Performance Praticantes experimentam jogos completos ou modificados aplicando todo o conhecimento adquirido. Esse é o momento para avaliação somativa do professor Execução das habilidades (técnica) Os praticantes têm a habilidade de converter suas decisões em ações? Eles conseguem executar a técnica apropriada para permitir o sucesso da equipe? Apreciação do jogo Praticante tem a oportunidade de usufruir da experiência de aprendizagem através do jogar Consciência tática Praticantes são encorajados através do jogar a identificar estratégias de ataque e defesa e implementar ações táticas de sucesso Figura 24 – Esquema sintetizado do modelo de ensino dos jogos para compreensão (TGfU) 55 ESPORTES COLETIVOS 8 ENSINO DOS ESPORTES COLETIVOS NA INICIAÇÃO E NO ESPORTE DE RENDIMENTO A pedagogia e a ciência do esporte se ocupam da prática esportiva em todas as suas manifestações e durante todo o ciclo de vida do indivíduo, começando pela iniciação esportiva (que não considera apenas a criança como possível agente, mas todo e qualquer iniciante na prática dos jogos e esportes), passando pelo esporte escolar, pelo rendimento esportivo e chegando à prática esportiva durante o envelhecimento. Iniciação é o primeiro contato sistematizado do aprendiz com uma modalidade esportiva mediada por um professor/treinador, a fim de dominar os fundamentos e desenvolver autonomia para a prática esportiva. Este momento, que antigamente era restrito àqueles que em geral apresentavam melhor aptidão física ou esportiva, ou seja, os “talentosos”, hoje em dia abrange mais pessoas, acolhendo no seu escopo todo indivíduo que esteja nos momentos iniciais da prática esportiva, independentemente do momento vital (infância, juventude, adolescência, fase adulta ou terceira idade) ou da sua performance. Isso estende para toda a vida a possibilidade de aprender uma modalidade esportiva – afinal, a prática do esporte não se resume a representação ou profissão com alto rendimento, mas pode se associar a outros objetivos e significados (GALATTI et al., 2017). A tarefa da pedagogia do esporte neste contexto de ensino dos JECs não é simplesmente ensinar os gestos motores pertinentes a cada modalidade. Como dito anteriormente, o esporte deve ser uma ferramenta de desenvolvimento humano, e a prática dos JECs deve favorecer o bem‑estar das pessoas na sua vida social. Logo, aprender um esporte, seja qual for, é bom quando os conteúdos propostos em uma aula (treino), independentemente do cenário (escola, clube, escolinha ou rua), se generalizam para a vida. Neste sentido, os procedimentos da prática em um processo comprometido com o desenvolvimento humano devem considerar alguns princípios, como: • tratar a competição (se houver) de modo que apoie o desenvolvimento infantil; • investir no reconhecimento das diferenças entre os iguais; • investir na construção da autonomia do aprendiz. Garantindo estas práticas, a revelação de talentos, tão almejada por tantos profissionais do esporte, pode ser uma consequência, mas não a causa. À luz da pedagogia do esporte moderna, a iniciação esportiva é relevante para desenvolver capacidades motoras e para educar para a autonomia, mas também para despertar interesse pela prática esportiva e para vivenciar a vitória e a derrota no contexto do esporte e no contexto social. Assim, também deve servir para socializar, para aprender a lidar com as diferenças e diversidades. O grande desafio é compreender e oferecer a vivência do esporte enquanto fenômeno sociocultural, proporcionando prazer, desenvolvendo a consciência e a cidadaniae introduzindo uma cultura de lazer, o que pode vir ou não a desencadear o esporte de rendimento. 56 Unidade II A pedagogia do esporte hoje preconiza que a iniciação esportiva nos JECs parta da compreensão dos conceitos de técnica, tática e estratégia, já apresentados. É fundamental que o profissional de educação física conheça claramente estes conteúdos para que seja capaz de operacionalizá‑los e transportá‑los para a prática. Esses conceitos devem nortear a organização, sistematização, aplicação e avaliação dos conteúdos dos JECs durante a iniciação esportiva, bem como nas outras etapas da prática dos esportes coletivos. Lembrete Técnica é a ação composta por movimentos coordenados resultando em um gesto preciso e eficaz para alcançar uma meta do jogo. Tática é o processo que desencadeia decisões direcionadas a uma meta no jogo. No contexto da iniciação esportiva, uma ferramenta‑chave para o ensino dos JECs é o jogo, que apresenta algumas características particulares. Em geral, considera‑se que a estrutura de um jogo contém regras, espaços e tempos estabelecidos, bem como ações motoras específicas a serem realizadas. Também existe o seu mecanismo de funcionamento, que abarca as estruturas de ataque e defesa, e o contexto, que inclui aspectos como imprevisibilidade e variabilidade. Quadro 3 – Disposição das condições mais e menos restritas estabelecidas para atuação no jogo Estrutura Princípios para ação Pressupostos da ação Regras Espaço/tempo N. de jogadores Árbitro Tarefa Defesa Proteger Impedir Recuperar Ataque Manter Progredir Atacar Contexto Imprevisibilidade Subjetividade Variabilidade Adaptado de: Hessen (2000). Lembrete Jogo é a brincadeira que apresenta algum tipo de organização com regras estabelecidas. Esporte é qualquer competição com atividade física subordinada a uma organização fora do controle daqueles que participam ativamente da ação. 57 ESPORTES COLETIVOS A estrutura do jogo é um sistema complexo, caótico, mas que se organiza em sua dinâmica. Combina muitas ações que podem acontecer tanto simultânea quanto sucessivamente, resultado de colaborações ou de processos individuais. Essa interpretação se alinha com a pedagogia do esporte moderna, diferentemente da pedagogia tradicional, que considerava os jogos um processo de organização simples, o que permitia, portanto, trabalhar cada uma de suas partes isoladamente. Em sistemas complexos, as partes isoladas não fazem o mesmo sentido quando estão interagindo – portanto, não é viável trabalhar as partes isoladamente. O jogo precisa acontecer inteiro para que suas dinâmicas emerjam e as situações vivenciadas sejam reais e contextualizadas. A estabilidade do jogo é o desequilíbrio constante, havendo instabilidade nas microações do sistema e suas perturbações. Contudo, o conjunto de ações dos diferentes elementos dá ao sistema uma estabilidade global. Segundo Galatti et al. (2017, p. 641), para interagir no sistema JEC é necessário ao jogador atuar estratégica, tática e tecnicamente. Sobre a estratégia, Garganta (1996) e Grehaigne (1992) destacam sua natureza prospectiva (é o que está previsto anteriormente, é o planificado) referindo ser este um processo organizado com fim definido, a partir de um conjunto de dados, para balizar os meios e os métodos e instituir regras de gestão e princípios de ação em um dado cenário. […] [Ou seja], a estratégia representa o que está previsto antecipadamente e está associada à tática, que é a adaptação instantânea da estratégia às configurações do jogo e à circulação da bola. Sendo o contexto de jogo um sistema adaptativo, que se auto‑organiza e autotransforma, seu nível de organização está diretamente ligado à forma como se prepara. Neste sentido, a natureza das propostas práticas (dos exercícios/tarefas durante as sessões) na iniciação esportiva deve viabilizar a maior transferência possível das exigências e do contexto do jogo para os momentos do treino/ prática. Assim, propor jogos a partir dos elementos estruturais e princípios que constituem a lógica dos JECs é considerado, pela pedagogia do esporte moderna, o meio didático mais específico e adequado para o desenvolvimento da capacidade de jogo, que inclui em si os elementos técnicos, táticos e estratégicos necessários. A imprevisibilidade e a aleatoriedade do jogo apresentam uma série de problemas para os jogadores resolverem. Essas soluções são construídas a partir das experiências e oportunidades vivenciadas anteriormente. Assim, a eficácia da performance desenvolve‑se e condiciona‑se ao processo de ensino‑aprendizagem do jogo no qual o jogador está inserido. Assim, é fundamental que o profissional que organiza a prática entenda a lógica dos JECs, pois isso tem implicações relevantes para o treino e o controle da atuação esportiva, assim como para a concepção e a escolha dos procedimentos metodológicos adequados para potencializar a aprendizagem. 58 Unidade II Depois de compreender os JECs como sistemas e que estratégia, tática e técnica se relacionam, é necessário organizar o conhecimento dos JECs para a iniciação esportiva (GALATTI et al., 2017). Bayer (1994) menciona dois componentes: os estruturais (aspectos invariantes) e os funcionais. Os elementos estruturais são espaço de jogo, alvos, implemento, companheiros, adversários e regras, e estabelecer jogos com eles em mente é o primeiro passo para organizar o processo de ensino. Elementos funcionais são os princípios operacionais dos JECs representados pelos aspectos defensivos (proteger o alvo, impedir a progressão do adversário e recuperar a bola) e ofensivos (manter a posse de bola, aproximar‑se do alvo e finalizar). Assim, a lógica de funcionamento dos JECs se estabelece na relação entre defesa e ataque (cooperação/oposição), buscando controlar o objeto de jogo (bola ou implemento) e conquistar o alvo adversário mais vezes do que ele conquista o alvo defensivo. É a partir desta lógica que se desenrolam os conteúdos dos JECs, que devem ser organizados em um processo de iniciação esportiva. O quadro a seguir sintetiza os aspectos defensivos e ofensivos baseados no conceito de cooperação e oposição. Quadro 4 – Princípios defensivos e ofensivos na perspectiva da cooperação Princípios defensivos Princípios ofensivos Balizadores Particulares Balizadores Particulares Centrado na perspectiva da equipe Proteger o alvo e as zonas mais vulneráveis Dobras de marcação e coberturas Composição do bloco defensivo Conservação da posse de bola Criação de linhas de passe Apoio ao portador da bola Centrado na perspectiva da oposição Impedir a progressão do adversário Recuperar a bola na disputa com o adversário Indução para zonas de menor risco para defesa Temporização do ataque adversário Marcação: aproximação e abordagem Interceptação de linhas de passe Progressão ao alvo adversário Ataque ao alvo adversário Busca de espaços para penetração Quebra de linhas defensivas Tentativa de finalizações Adaptado de: Galatti et al. (2017). Atrelada aos princípios ofensivos e defensivos dos JECs, de natureza estratégico‑tática, emerge paralelamente a demanda técnica do jogo, organizada no quadro a seguir a partir dos elementos técnicos comuns aos JECs. 59 ESPORTES COLETIVOS Quadro 5 – Fundamentos técnicos dos JECs, tipos e características Fundamentos Tipos Características Controle de corpo Paradas bruscas, saídas rápidas, fintas, saltos, giros, corridas e deslocamentos Sem implemento Defesa Ataque Controle do implemento Habilidades básicas diversas de manutenção e centro Com e sem o uso de equipamentos (taco, bastão etc.) Com implemento (bola, puck, frisbee etc.) Ataque Manutenção e condução do implemento Alto, baixo, parado, em deslocamento, em velocidade, com mudança de direção, através do drible, com uso de equipamentos Com as mãos, os pés ou equipamentos (tacos) Alto, baixo, curto, longo Com implementoAtaque Passes Com as mãos, os pés ou equipamentos (tacos) Alto, baixo, curto, longo Com implemento Ataque Finalização Arremesso à cesta, ao gol, chute ao gol, cabeçada, cortada, tacada etc. Com implemento Ataque Fundamentos individuais de defesa Posição básica de defesa Deslocamentos Sem implemento Defesa Adaptado de: Galatti et al. (2017). Toda a estrutura dos JECs depende de uma carga de concentração e competência para perceber, elaborar e resolver o mais rápido possível as situações‑problema que são apresentadas em um contexto de incertezas e instabilidades da própria dinâmica de jogo. A ação do praticante depende do reconhecimento das características dos JECs com relação a estratégia, tática e técnica. Além disso, o jogador precisa gerir aspectos da estrutura e regras do jogo. Cada modalidade tem características próprias, como regulamentos, tamanhos e características do implemento, dimensões dos terrenos de jogo e restrições de uso dos espaços e do corpo. Durante a prática, a interação com esses elementos apresenta demandas que requerem comportamentos específicos. No entanto, as famílias de jogos cujas modalidades apresentam elementos em comum podem usufruir de práticas afins, pois terão uma alta capacidade de transferência das aprendizagens entre si. Assim, o processo de iniciação esportiva baseado no desenvolvimento da capacidade de jogo acaba sendo multilateral, pois proporciona vivências e permite o desenvolvimento de habilidades e capacidades físicas, motoras, cognitivas e afetivas que serão úteis às demais modalidades daquela família. 60 Unidade II Nos modelos tradicionais o professor está no centro do processo de ensino‑aprendizagem, estabelecendo todos os aspectos e procedimentos da tarefa a serem executados pelo aprendiz. Neste caso, as tarefas em geral são elaboradas privilegiando a repetição das técnicas de movimento, que são específicas a cada modalidade, e portanto compartilham pouco entre as famílias de jogos, reduzindo‑os aos fragmentos de suas técnicas. A partir do momento em que a tarefa é apresentada, o professor concentra‑se em fornecer instrução e feedback a fim de garantir a execução correta da técnica, sem considerar as características e estrutura do jogo como um todo. Compreendendo o jogo como um fenômeno complexo, a forma de ensino é alterada, e as atividades de repetição de movimentos predeterminados se tornam incompatíveis. Neste caso, são mais produtivas atividades que demandem o uso de aspectos cognitivos para planejar a ação. Assim, as atividades precisam permitir que o aprendiz escolha entre uma ou outra opção e planeje com antecedência suas ações, considerando o contexto do jogo e sua vivência. Portanto, como dito, não só o sujeito nem só o meio são os responsáveis pela aprendizagem e desenvolvimento esportivo, mas a interação. Esta metodologia se baseia mais nos métodos globais, em detrimento dos analíticos, sendo apresentadas classes de jogos que privilegiam situações de oposição entre atacantes e adversários a fim de garantir a imprevisibilidade do contexto e o desenvolvimento tanto das capacidades técnicas quanto táticas. Saiba mais O livro Escola da bola apresenta conceitos teóricos desta metodologia e traz sugestões de jogos e exercícios para desenvolver habilidades técnicas e táticas: KRÖGER, C.; ROTH, K. Escola da bola. Barueri: Phorte, 2002. O método proposto por Kröger e Roth (2002) está fundamentado no desenvolvimento da cultura do jogar, em uma escola da bola natural, livre e variada, orientada e universal a todos os esportes. O método da escola da bola parte da pedagogia da rua de Freire (2011) – já apresentada nesta mesma unidade – e preconiza que se aprenda, durante a prática do jogar, a “ler” o jogo (competência tática) e a “escrever” de forma sensório‑motora (pré‑requisitos coordenativos/técnicas). A escola da bola é dirigida a iniciantes, inclusive em casos de comprometimentos ou atrasos no desenvolvimento motor. Entretanto, as atividades e jogos sugeridos podem tranquilamente ser usados na fase de aperfeiçoamento, pois oferecem situações de jogo – mesmo que mais gerais e não específicas da modalidade – que são completamente compatíveis com os objetivos da prática. Esta metodologia é classificada de acordo com as características dos jogos: • jogos de acertar o alvo; • jogos de transportar a bola ao objetivo; 61 ESPORTES COLETIVOS • jogos para aprender a tirar vantagem tática; • jogos coletivos; • jogos para reconhecer espaços; • jogos para superar o adversário; • jogos nos quais o praticante deve oferecer‑se e orientar‑se. A seguir, a descrição de cada família de jogo proposta na metodologia da escola da bola. Acertar o alvo Envolve tarefas táticas em que se deve lançar, chutar, combater, disparar etc. uma bola de modo que atinja um local escolhido. Um exemplo de atividade proposta por Kröger e Roth (2002) é o jogo Acertar em Cheio, no qual duas equipes jogam entre si. Cada uma está no seu próprio campo de jogo, delimitado por cordas, banco sueco ou outro material similar. A tarefa consiste em acertar num tempo previamente estabelecido determinados alvos que estarão posicionados de forma variada. Esse jogo tem grau I de dificuldade, conforme indicado na figura 25. Acertar o alvo I 1 Acertar em Cheio Figura 25 – Ilustração do jogo Acertar em Cheio Fonte: Kröger e Roth (2002, p. 37). 62 Unidade II Transportar a bola ao objetivo Abrange tarefas táticas em que se objetiva transportar, jogar, levar a bola a um objetivo determinado. Um exemplo de atividade é o jogo Tocado/Queimado, no qual duas equipes se colocam cada uma atrás de sua linha de fundo. Cada jogador tem a bola e um bastão (ou qualquer objeto semelhante) para conduzi‑la. Um jogador de cada equipe se coloca no meio de campo também com uma bola e um bastão; eles serão os caçadores. Ao sinal, cada jogador deve tentar chegar na linha de fundo da outra equipe, fugindo do caçador. Os que são tocados/queimados devem sair do campo. Para encostar nos jogadores, os caçadores devem usar a mão livre. Cada tocado/queimado corresponde a um ponto. Transportar a bola ao objetivo Oferecer‑se e orientar‑se Superar o adversário II 14 Tocado/Queimado Figura 26 – Ilustração do jogo Tocado/Queimado Fonte: Kröger e Roth (2002, p. 50). 63 ESPORTES COLETIVOS Tirar vantagem tática no jogo Abarca tarefas táticas em que o importante é, por meio do jogo conjunto com o colega, conseguir um ponto, um gol, ou até preparar o ponto ou o gol para o colega. Um exemplo é o jogo Bola no Colchão, no qual cada equipe tem que defender e atacar em um colchão de ginástica, em volta do qual existe um setor de lançamento demarcado. O objetivo é que os jogadores passem a bola entre si para obter uma posição favorável de lançamento fora da zona‑tabu do colchão do adversário, visando obter a maior quantidade de gols. Tirar vantagem tática no jogo Oferecer‑se e orientar‑se Reconhecer espaços Jogo coletivo I 15 Bola no Colchão Figura 27 – Ilustração do jogo Bola no Colchão Fonte: Kröger e Roth (2002, p. 51). 64 Unidade II Jogo coletivo Engloba tarefas táticas em que o importante é receber a bola do colega ou passá‑la para ele. Um exemplo de atividade proposta por Kröger e Roth (2002) é o jogo Soma de Passes, no qual duas equipes tentam pegar a bola. Cada uma deve procurar passar a bola entre seus jogadores a maior quantidade de vezes possível, enquanto o time adversário procura interceptar ou antecipar a bola e pegá‑la. Cada passe é um ponto. Jogo coletivo Oferecer‑se e orientar‑se Tirar vantagem tática no jogo Superar o adversário I 22 Soma de Passes Figura 28 – Ilustração do jogo Soma de Passes Fonte: Kröger e Roth (2002, p. 58). 65 ESPORTES COLETIVOS Reconhecer espaços Envolve tarefas táticas em que o importante é reconhecer as chances para se chegar ao alvo. Um exemplo de atividade é o jogoTroca de Campo, no qual duas equipes jogam entre si lutando pela posse da bola. O objetivo do jogo é fazer com que a bola seja recepcionada por um colega do outro lado do campo. Os passes dentro do próprio campo não contam. Se o adversário pegar a bola ou encostar nela, o ponto não conta. Tirar vantagem tática no jogo Oferecer‑se e orientar‑se Reconhecer espaços Superar o adversário 18 Troca de Campo I Figura 29 – Ilustração do jogo Troca de Campo Fonte: Kröger e Roth (2002, p. 58). 66 Unidade II Superar o adversário Abrange tarefas táticas em que se procura, no confronto com o adversário, assegurar a posse de bola. Um exemplo é o jogo Colocar os Ovos, no qual duas equipes jogam entre si, tentando pegar a bola uma da outra. No campo de jogo são distribuídos bambolês ou aros de ginástica. Os jogadores passam a bola entre si, e quem estiver com a posse da bola e se encontrar dentro de um bambolê, conseguindo pará‑la (pode ser com a mão), consegue um ponto. O ponto somente é válido se no momento de pegar a bola o adversário não estiver com o pé dentro do bambolê. Transportar a bola ao objetivo Tirar vantagem tática no jogo Superar o adversário Oferecer‑se e orientar‑se 13 Colocar os Ovos III Figura 30 – Ilustração do jogo Colocar os Ovos Fonte: Kröger e Roth (2002, p. 49). Oferecer‑se e orientar‑se Abarca tarefas táticas em que o importante é obter uma ótima posição no momento exato. Um exemplo de atividade é o jogo Os Tigres, no qual são formadas duas equipes. Cada uma se posiciona em círculo e envia um ou dois colegas (os tigres) para o círculo adversário. Ao sinal, os jogadores de cada equipe passam a bola entre si pelos círculos sem ordem definida (o passe não pode ser mais alto do que a cabeça). Enquanto isso, os tigres devem procurar pegar a bola ou encostar em quem está com a posse. Os tigres que conseguem pegar a bola mais rápido marcam ponto para sua equipe. Reinicia‑se o jogo com outros tigres. 67 ESPORTES COLETIVOS Jogo coletivo Oferecer‑se e orientar‑se Superar o adversário I 21 Os Tigres Figura 31 – Ilustração do jogo Os Tigres Fonte: Kröger e Roth (2002, p. 57). Em suma, a pedagogia do esporte preconiza que o ensino dos JECs na iniciação esportiva deve se sustentar em práticas em que se aprenda a jogar jogando. Para isso, podem ser utilizados jogos da mesma família e exercício/tarefas que apresentem similaridades com o contexto do jogo, tais como relações de cooperação e oposição e estruturas de ataque e defesa, em atividades nas quais o aprendiz deve se deparar com a imprevisibilidade para a tomada de decisão. 8.1 Treinamento especializado Para o treinamento especializado, que se preocupa com a preparação técnico‑tática, a pedagogia do esporte moderna sugere um trabalho também diferente daqueles praticados nos métodos analíticos. A pedagogia do treinamento na etapa de especialização considera que o atleta já escolheu uma modalidade na qual se especializar. No entanto, ainda assim este atleta deve receber estímulos diferenciados, em uma aprendizagem específica e constante que ofereça um rico repertório de situações contextualizadas à modalidade escolhida. Em geral, de acordo com várias metodologias propostas, é sugerido que a especialização aconteça após os 14 anos de idade (GRECO; BENDA, 1998; KRÖGER; ROTH, 2002; SANTANA; PAES; BALBINO, 2005). Nesta idade, os gestos técnicos passam do estágio específico geral para o estágio especializado, de acordo com a literatura (GALLAHUE; OZMUN, 2005). Além disso, nesta idade os picos de velocidade 68 Unidade II do crescimento já foram atingidos tanto pelos meninos quanto pelas meninas. Considerando o desenvolvimento fisiológico e o amadurecimento dos sistemas, aos 14 anos, para a maioria dos adolescentes, já terminou o processo de maturação sexual responsável pela regulação dos hormônios sexuais (estrogênio e testosterona), que são fundamentais no processo de aperfeiçoamento das capacidades físicas e técnicas. Assim, durante a especialização em uma modalidade, o aprendizado anterior é aperfeiçoado, mas com maior intensidade e dedicação exclusiva nos treinamentos e competições. Mesmo nesta etapa, exercícios gerais são bem‑vindos no treinamento técnico‑tático, mas devem sempre ser desenvolvidos em situações de jogo, mantendo o contexto, as características de cooperação e oposição e a imprevisibilidade. Além desses, os exercícios específicos (aqueles que simulam as situações da competição) devem ser usados para aperfeiçoar a técnica (fundamentos), mas também devem ser aplicados em situações de jogo. É muito interessante que tais atividades aconteçam em contextos de jogos reduzidos, em situações táticas como 2 × 2, 3 × 3, ou ainda com uso de apoios (coringas, que são jogadores que integram a equipe atacante mas não podem realizar ações diretas à meta do jogo, seja cesta, gol ou outra). Os exercícios competitivos, por sua vez, em geral envolvem situação numérica semelhante, como no caso do handebol 6 × 6 e no basquete 5 × 5. Também é interessante trabalhar em situações de inferioridade/superioridade numérica (5 × 4 no basquete ou 6 × 5 no handebol), pois são frequentes nas competições. O uso destes contextos de jogos menores, como 2 × 2 ou 3 × 3, é chamado método situacional, pois simula situações de jogo. Durante o programa de aperfeiçoamento do treinamento ainda é importante oferecer diversas situações, podendo coexistir vários métodos. São eles: • jogos situacionais (escola da bola); • método analítico (repetição do gesto técnico); • método situacional (iniciação esportiva universal). Apesar das críticas que a literatura apresenta a cada um destes métodos, seja para seu uso na iniciação esportiva, seja para o aperfeiçoamento técnico‑tático, a combinação dos aspectos positivos de cada metodologia sempre agrega. Tendo em vista que todos os métodos são relevantes e têm pontos positivos para determinado contexto, o professor/técnico somente tende a se beneficiar com o conhecimento das características de cada um deles, tornando sua aula/treino mais diversificada e motivando os aprendizes. Por exemplo, o professor pode lançar mão dos jogos situacionais lúdicos propostos na metodologia escola da bola em situações como o aquecimento no treino de aperfeiçoamento ou mesmo como recurso lúdico motivacional. Mesmo os métodos analíticos de repetição dos movimentos não precisam ser absolutamente descartados – mas não podem dominar o tempo dedicado às práticas, e os movimentos precisam ser contextualizados. Uma vez que sejam feitas as adaptações necessárias, o gesto motor pode ser repetido. 69 ESPORTES COLETIVOS No treinamento tático, busca‑se desenvolver os sistemas mais complexos, tanto ofensivos quanto defensivos (individuais e coletivos), em simulações o mais próximas possível das situações reais de competição. Neste contexto, a tática vai sempre depender da competência física e técnica e do pensamento estratégico. Ainda deve‑se ter cuidado para que a dimensão cognitiva seja ampla e diversamente trabalhada no treino para rendimento. Para isso, as tarefas devem conter elementos que exijam dos praticantes a leitura do jogo, evitando jogadas ensaiadas, estereotipadas, que podam a criatividade nas ações táticas. É importante desenvolver mais do que a capacidade de execução, e sim a leitura e avaliação crítica das situações do jogo. Com base nestes apontamentos e sugestões acerca dos procedimentos de ensino dos JECs, é importante que o profissional seja capaz de diferenciar os conteúdos para cada etapa da aprendizagem, tanto em uma pedagogia voltada para a iniciação esportiva quanto para a especialização. Para isso será apresentada a proposta de iniciação esportiva universal (IEU), baseada no desenvolvimento das capacidades coordenativas e no uso dos jogos situacionais (GRECO; BENDA, 1998). 8.2 Iniciação esportiva universal (IEU) A IEU, proposta por Greco e Benda (1998), estápautada em uma aprendizagem incidental, sobre o controle e desenvolvimento das capacidades, em meio às inter‑relações estabelecidas entre professor e aluno. Visa facilitar o desenvolvimento das capacidades coordenativas, fundamentais para a construção e constituição do potencial do indivíduo, oferecendo‑lhe a possibilidade de compartilhar decisões e sua conscientização político‑social, contextualizada em sua ação. Também é uma proposta baseada no aprender a jogar através do jogo, uma vez que propõe que sejam oferecidos jogos situacionais para desenvolver capacidades táticas desde os estágios mais iniciais. O diferencial desta proposta é que ela considera o processo de prática esportiva ao longo de todo o ciclo de vida. As etapas sugeridas para o desenvolvimento da capacidade de jogo consideram o processo de envelhecimento, e assim são apresentadas etapas para além da fase de rendimento. Neste sentido, é uma proposta inclusiva que respeita diversidades e, portanto, está alinhada ao conceito de esporte para o desenvolvimento humano. 70 Unidade II Figura 32 – Diversos modelos de bola A estrutura temporal do modelo abrange uma sequência de fases e momentos que caracterizam e compõem os diferentes níveis de rendimento esportivo, conforme as diferentes faixas etárias e acervo de experiências. Considerando que a maior parte da literatura divide o processo de treinamento em apenas três etapas – iniciante, avançado e alto nível –, particularidades entre estes estágios acabam não sendo contempladas nem respeitadas. Desta forma, por vezes a iniciação é atropelada e a especialização é concretizada precocemente. A IEU propõe um método baseado em princípios pedagógicos, biológicos, metodológicos e de gerenciamento do processo ensino‑aprendizagem‑treinamento, dividido em nove fases. Cada fase é composta de períodos curtos e se preocupa em evitar a especialização precoce (GRECO; BENDA, 1998). A proposta se refere aos JECs e aos esportes coletivos em geral. A seguir são apresentadas as nove fases do modelo da IEU. 8.2.1 Fase pré‑escolar Esta fase abrange a faixa etária dos 2 aos 5 anos de idade, dita dos movimentos fundamentais, como cunhado por Gallahue (1982). Nesta etapa, o professor deverá oferecer uma vivência diversificada de movimentos, sem exigir um padrão ideal. É uma etapa totalmente aberta, na qual não há movimento errado. Deve‑se oferecer atividades básicas de deslocamento, equilíbrio, acoplamento, esquema corporal, relação espaçotemporal, entre outras que são prioritárias e devem preferencialmente ser apresentadas em formas jogadas, como jogos de imitação e perseguição. 71 ESPORTES COLETIVOS 8.2.2 Fase universal Abrange dos 6 aos 12 anos. É a fase mais ampla e rica da formação esportiva. A frequência média das atividades extracurriculares esportivas não deve ultrapassar três vezes por semana, para não interferir em outros interesses que a criança possa manifestar. O professor deve desenvolver todas as capacidades motoras e coordenativas da criança de forma geral, criando uma base ampla e variada de movimentações que ressaltem o aspecto lúdico. O ensino‑aprendizagem‑treinamento deve ser administrado conforme a idade e o nível de experiência motora, especialmente no período final da fase, dos 10 aos 12 anos. Algumas crianças, a depender do contexto em que vivem, têm contato com atividades esportivas nas ruas, escolinhas ou clubes. No entanto, outras crianças menos favorecidas pela estrutura socioeconômica não têm a mínima experiência motora, e seu desenvolvimento motor pode estar comprometido. Assim, deve ser considerado o nível de desenvolvimento motor para a eleição das atividades a serem oferecidas. Outra característica peculiar do modelo de IEU é o foco no desenvolvimento das capacidades coordenativas em harmonia com as capacidades motoras. Fatores como desenvolvimento da imagem corporal, percepção sensorial diferenciada e melhoria da coordenação acabaram esquecidos em outras propostas que visam performance ou aperfeiçoamento do nível técnico. Para a faixa etária de 4 a 6 e de 11 a 12 anos, o jogo deve ser um elemento didático‑pedagógico oferecido conforme as características desenvolvimentistas da criança. Assim, crianças de 6 a 8 anos devem trabalhar com jogos de perseguição, estafetas, jogos de relevos, entre outros. Já crianças de 8 a 10 anos podem começar a desenvolver jogos coletivos, através de jogos reduzidos, de iniciação e, em alguns casos, pré‑desportivos. Observação Jogos de perseguição são, por exemplo, pega‑pega e polícia e ladrão. Um aspecto essencial desta proposta é o trabalho de coordenação, que significa desenvolver as capacidades que compõem este sistema. Coordenar preconiza trabalhar junto, mas isso deve ser feito inicialmente de maneira isolada, para posteriormente fazê‑lo de forma combinada. Assim, para desenvolver a coordenação sugere‑se primeiro trabalhar com um elemento, depois com dois (por exemplo, corda e bola), em seguida com três elementos etc. Recomenda‑se ainda que os trabalhos se iniciem com atividades individuais, para depois seguir para duplas, trios e grupos. É necessário variar os exercícios para que os esquemas coordenativos sejam suficientemente flexíveis na constituição dos padrões motores. Variações como duração, sequência dos impulsos, força e timing são muito importantes para o desenvolvimento de padrões flexíveis. 72 Unidade II 8.2.3 Fase de orientação Esta etapa se inicia por volta dos 11‑12 anos e abrange até os 13‑14 anos. Recomenda‑se por volta de 3 encontros semanais para atividades curriculares e extracurriculares sistemáticas, com duração média de 60 a 90 minutos cada. A partir deste momento grande parte dos movimentos começam a se automatizar, liberando a atenção do praticante para a percepção de outros estímulos simultâneos à ação que está sendo realizada. Partindo do rendimento alcançado na fase anterior, deve‑se procurar desenvolver e aperfeiçoar as capacidades físicas e técnicas. É importante destacar que se deve ter como um dos objetivos a iniciação do desenvolvimento da técnica de forma global, procurando sua automatização‑estabilização sem insistir na perfeição dos gestos, que devem ser variados. Ou seja, devem ser oferecidos jogos que incentivem a criança a aplicar técnicas de movimento específicas do esporte, porém sem um alto nível de perfeição gestual. O aperfeiçoamento da coordenação de movimentos das capacidades sensoperceptivas pode ser concretizado através do desenvolvimento das capacidades táticas gerais (aquelas que são comuns a todos os esportes coletivos, tais como tabela, cruzamentos, bloqueios ou corta‑luz, entre outras). Assim começa a ser delineada a finalização do processo de iniciação esportiva. 8.2.4 Fase de direção Inicia‑se por volta dos 13‑14 anos e abrange até os 15‑16 anos. A frequência de atividades extracurriculares formalmente planejadas deve ser de aproximadamente 3 vezes por semana para não entrar em conflito com outros interesses dos jovens. Pode‑se começar com o aperfeiçoamento e a especialização técnica em uma modalidade esportiva, mas é importante destacar que o ideal seria que o jovem participasse de 2 ou 3 modalidades. As técnicas podem ser trabalhadas na forma de exercícios, com diversidade variada. Consideramos que no final desta fase, seja na escola, em atividades curriculares ou extracurriculares, seja no clube, o jovem ou adolescente terá um acervo motor que lhe permitirá (conforme seus interesses) escolher a prática e o treinamento da modalidade visando o rendimento esportivo. 8.2.5 Fase de especialização Esta etapa continua a sequência evolutiva do jovem adolescente. Inicia‑se aos 15‑16 anos e abrange até os 17‑18 anos, idade em que, em média, o jovem conclui o segundo grau. A média de atividades extracurriculares, programadas de forma sistemática para o processo de treinamento, deve ser de três encontros semanais, cada um com 90 a 120 minutos de duração. Este é o momento de concretizar a especialização