Prévia do material em texto
DIREITO PENAL ITER-CRIMINIS 1. O direito penal brasileiro não admite a punição de atos meramente preparatórios anteriores à fase executória de um crime, uma vez que a criminalização de atos anteriores à execução de delito é uma violação ao princípio da lesividade. 2. Um crime é enquadrado na modalidade de delito tentado quando, ultrapassada a fase de sua cogitação, inicia-se, de imediato, a fase dos respectivos atos preparatórios, tais como a aquisição de arma de fogo para a prática de planejado homicídio. 3. Os atos de cogitação materialmente não concretizados são impuníveis em quaisquer hipóteses. 4. São fases do iter criminis a cogitação, a preparação, a execução e a consumação. A tentativa, a desistência voluntária e o arrependimento eficaz ocorrem na fase de execução, já a consumação se dá quando no crime se reúnem todos os elementos de sua definição legal. 5. O crime é dito impossível quando não há, em razão da ineficácia do meio empregado, violação, tampouco perigo de violação, do bem jurídico tutelado pelo tipo penal. CRIME IMPOSSÍVEL 6. Sílvio, maior e capaz, entrou em uma loja que vende aparelhos celulares, com o propósito de furtar algum aparelho. A loja possui sistema de vigilância eletrônica que monitora as ações das pessoas, além de diversos agentes de segurança. Sílvio colocou um aparelho no bolso e, ao tentar sair do local, um dos seguranças o deteve e chamou a polícia. Nessa situação, está configurado o crime impossível por ineficácia absoluta do meio, uma vez que não havia qualquer chance de Sílvio furtar o objeto sem que fosse notado. 7. Segundo entendimento sumulado do STF, não há crime quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação. 8. Considere que Cláudio, pretendendo matar Juarez, vá à procura deste e encontre-o deitado em via pública, aparentemente embriagado, todavia, morto anteriormente por Horácio, mediante enforcamento. Desconhecendo tal circunstância, Cláudio desfere em Juarez cinco tiros, evadindo-se em seguida do local. Nessa situação, Cláudio responderá por tentativa de homicídio, enquanto Horácio responderá pelo crime consumado. 9. Se alguém com animus necandi (vontade de matar) deflagra tiros em cadáver, supondo pessoa viva, comete crime impossível por absoluta impropriedade do objeto. DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA, ARREPENDIMENTO EFICAZ E ARREPENDIMENTO POSTERIOR 10. Configura-se a desistência voluntária ainda que não tenha partido espontaneamente do agente a ideia de abandonar o propósito criminoso, com o resultado de deixar de prosseguir na execução do crime. 11. Lúcio, ladrão contumaz, adentrou em uma rica residência, mas, no momento em que se preparava para a subtração de bens e valores, desistiu do furto e se retirou do local. Nessa situação, apesar de ter desistido voluntariamente da conduta, Lúcio deverá responder pela tentativa de furto, pois chegou a entrar na residência e ter acesso aos objetos. 12. Quem, iniciada a execução de um crime de homicídio descrito como "matar alguém", deixar de nela prosseguir em atenção aos pedidos de clemência da vítima terá desistido, voluntariamente, da execução do crime. 13. Os crimes culposos não admitem a forma tentada, mas admitem a desistência voluntária. 14. A reparação do dano ou a restituição da coisa, por ato voluntário, até o recebimento da denúncia ou da queixa configura o arrependimento eficaz e permite a redução da pena de um a dois terços. 15. É admissível a incidência do arrependimento eficaz nos crimes perpetrados com violência ou grave ameaça. 16. Entende-se que o arrependimento eficaz se configura quando o agente, no curso do iter criminis, podendo continuar com os atos de execução, deixa de fazê-lo por desistir de praticar o crime. 17. O arrependimento posterior pode ser aplicado aos crimes cometidos com violência ou grave ameaça. 18. O arrependimento posterior incide apenas nos crimes patrimoniais e sua caracterização depende da existência de voluntariedade e espontaneidade do agente. 19. Diante da prática de um crime de roubo mediante grave ameaça, se o agente, por ato voluntário, restituir a coisa subtraída até o recebimento da denúncia, terá a pena reduzida de um a dois terços, a teor do que dispõe o Código Penal, que prevê o instituto do arrependimento posterior. TENTATIVA 20. Em se tratando de tentativa branca ou incruenta, a vítima não é atingida e não sofre ferimentos; se tratar-se de tentativa cruenta, a vítima é atingida e é lesionada. 21. Crime culposo não admite tentativa. 22. João, namorado de Ana, acha que ela um dia, no passado, o traiu com Pedro, seu vizinho, que é muito forte. Em uma ocasião, chegando à casa de Ana, encontrou Pedro no portão e imediatamente passou a agredi-lo verbalmente. Em seguida, atracaram-se e, na briga, João, que estava apanhando, usou uma navalha que carrega sempre consigo para furar Pedro na barriga. Pedro não morreu, mas ficou internado em hospital por dois meses. Com relação a essa situação hipotética, julgue o item que se segue. Caso caracterizada a tentativa de homicídio, a pena aplicada será reduzida de um a dois terços da pena correspondente ao crime consumado. 23. Se um indivíduo desferir cinco tiros em direção a seu desafeto, com intenção apenas de o lesionar, e, no entanto, por má pontaria, nenhum projétil atingir a vítima, ocorrerá a denominada tentativa cruenta. 24. Para se caracterizar a tentativa de um crime, basta a exteriorização da vontade por meio de atos preparatórios, não se exigindo que o agente tenha praticado atos típicos de execução. 25. Configura-se tentativa imperfeita ou crime falho se o agente esgota todos os atos executórios e, por circunstâncias alheias a sua vontade, o crime não se consuma. 26. Tratando-se de tentativa de crime, o critério utilizado para cálculo da fração a ser considerada na redução da pena deve levar em conta exclusivamente as circunstâncias judiciais, tais como a primariedade e a personalidade do réu, os antecedentes, os motivos e a intensidade do dolo. 27. A tentativa incruenta não é punível, pois considera-se que o agente não iniciou a fase executória do iter criminis. 28. Apesar de, no campo fático, ser possível ocorrer a tentativa de contravenção penal, esta, quando se desenvolve na forma tentada, não é penalmente alcançável. 29. Caso a consumação do crime seja impedida por impropriedade relativa do objeto, a tentativa será impunível. 30. A diferença entre a tentativa e a tentativa abandonada é que, no primeiro caso, o agente diz “eu consigo, mas não quero” e, no segundo, o agente diz “eu quero, mas não consigo”. Gabaritos: 1-E; 2-E; 3-C; 4-C; 5-C; 6-E; 7-C; 8-E; 9-C; 10-C; 11-E; 12-C; 13-E; 14-E; 15-C; 16-E; 17-E; 18-E; 19-E; 20-C; 21-C; 22-C; 23-E; 24-E; 25-E; 26-E; 27-E; 28-C; 29-E; 30- E.