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Dinamica e genese dos grupos - Kurt Lewin

Material de apoio da disciplina Intervenção e Processos Grupais (UNESP Bauru) que apresenta revisão e síntese da concepção de Kurt Lewin: contexto histórico e biográfico, principais teses sobre dinâmica de grupos, implicações teórico-práticas, críticas e estudos sobre judeus e maioria/minoria psicológica.

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<p>1</p><p>Dinâmica e gênese dos grupos: o legado de Kurt Lewin</p><p>Material de apoio da disciplina “Intervenção e Processos Grupais”</p><p>Curso de Graduação em Psicologia – UNESP Bauru</p><p>Profa. Juliana C. Pasqualini</p><p>2017</p><p>O psicólogo Kurt Lewin (1890-1947) foi quem introduziu o termo “dinâmica</p><p>de grupo” nas ciências sociais e “deu nome e identidade definitivos para o estudo dos</p><p>grupos” na Psicologia Social norte-americana (MARTIN-BARÓ, 2017, p.141). Suas</p><p>proposições têm importância histórica para a ciência psicológica – a ponto de se</p><p>considerar que Lewin “conquistou” o grupo como objeto da psicologia – e seu legado</p><p>teórico-científico apresenta ainda hoje contribuições relevantes para a formação de</p><p>psicólogos. Tendo em vista subsidiar o ensino da teoria da Dinâmica de Grupo no</p><p>âmbito da graduação em Psicologia e considerando a escassez de publicações que</p><p>cumpram essa função1, tivemos como objetivo nesse texto elaborar uma revisão e</p><p>síntese teórica da concepção de Lewin sobre os grupos humanos, contextualizando</p><p>historicamente sua elaboração conceitual e metodológica, destacando suas principais</p><p>teses e as implicações teórico-práticas delas decorrentes e, por fim, apresentando a</p><p>apreciação das contribuições e equívocos do pensamento lewiniano formulada por</p><p>autores do campo crítico, como George Lapassade, Ignácio Martin-Baró.</p><p>Kurt Lewin teve uma vida breve mas extremamente fecunda em termos do</p><p>desenvolvimento e socialização de seu pensamento científico. Vindo a falecer</p><p>prematuramente aos 56 anos, no ano de 1947, Lewin nasceu em 9 de setembro de 1890</p><p>na Prússia e fez seus estudos universitários na Alemanha, os quais incluíram formação</p><p>em Química, Física, Filosofia e finalmente Psicologia. Doutorou-se em 1914 na</p><p>Universidade de Berlim, defendendo uma tese sobre psicologia do comportamento e das</p><p>emoções. Nesse mesmo ano iniciou sua carreira acadêmica, mas logo foi convocado</p><p>1	 Essa	 necessidade	 foi	 por	 nós	 identificada	 justamente	 na	 condição	 de	 docente	 responsável	 pela</p><p>disciplina	 “Intervenção	 e	 Processos	 Grupais”	 para	 a	 graduação	 em	 Psicologia	 a	 partir	 de	 2011.</p><p>Buscamos,	nesse	sentido,	nos	somar	aos	esforços	de	Andaló	(2006)	e	Barreto	(2010).</p><p>Cisnes. Escher, 1956.</p><p>2</p><p>pelo Exército, ao qual serviu durante toda a Primeira Guerra Mundial. Em 1921 tornou-</p><p>se professor assistente do Instituto de Psicologia da Universidade de Berlim e em 1926</p><p>confirmou-se professor titular, conservando suas funções até 1933, quando da tomada</p><p>do poder pelos nazistas. Na condição de judeu, foi então obrigado a deixar a Alemanha</p><p>com sua família, sob pena de ser encarcerado em campo de concentração. Viveu alguns</p><p>meses na Inglaterra e emigrou para os Estados Unidos.</p><p>Num primeiro momento de sua produção científica, ainda radicado na Europa,</p><p>Kurt Lewin interessava-se pela psicologia individual, sob a ótica gestaltista, mas já</p><p>apontando a importância do ambiente na determinação do comportamento.</p><p>Posteriormente, em especial a partir de 1936, o pesquisador voltou sua atenção para a</p><p>problemática dos grupos humanos. No prefácio à coletânea “Problemas de Dinâmica de</p><p>Grupo”, publicada logo após a morte de Lewin, sua esposa, Gertrud Weiss Lewin, relata</p><p>que ele viveu os últimos quinze anos de sua vida nos Estados Unidos e nesse período</p><p>seu interesse científico foi-se concentrando cada vez mais nos problemas de psicologia</p><p>social e dinâmica de grupo. Barreto (2010) destaca, nessa direção, que “datam da</p><p>segunda metade dos anos trinta suas investigações que redundariam no nascimento e na</p><p>expansão do movimento de Dinâmica de Grupo, primeiro nos EUA e posteriomente em</p><p>escala mundial.” (p.14).</p><p>Segundo Mailhiot (1977), “o primeiro problema social ao qual Lewin dedica</p><p>sua atenção, após emigrar para os Estados Unidos, é a psicologia de seu próprio grupo</p><p>étnico. As discriminações, as injustiças, os vexames, o ostracismo aos quais ele e os</p><p>seus foram submetidos pelos nazistas nos últimos meses vividos na Alemanha</p><p>traumatizaram-no sob muitos aspectos” (p.29). No período de 1935 a 1941, publicou</p><p>quatro estudos sobre a psicologia dos judeus, a saber: Problemas psicológicos de um</p><p>grupo minoritário, Enfrentando o perigo, A educação da criança judia e Ódio de si</p><p>entre os judeus. Nesses estudos, Lewin adota os conceitos de maioria e minoria</p><p>psicológica. Em psicologia, os termos minoria e maioria assumem sentidos diferentes da</p><p>demografia: “um grupo é considerado fundamentalmente como maioria psicológica</p><p>quando dispõe de estruturas, de um estatuto e de direitos que lhe permitem auto-</p><p>determinar-se no plano do seu destino coletivo, independentemente do número ou da</p><p>porcentagem de seus membros” (p.30). Assim, “é considerado como maior pelo</p><p>psicólogo social todo grupo humano que se percebe na posse de plenos direitos que dele</p><p>fazem um grupo autônomo” (p.30). Por outro lado, um grupo deve ser classificado</p><p>como uma minoria psicológica desde que seu destino coletivo dependa da boa vontade</p><p>de um outro grupo” (p.30). Para Lewin, a minoria psicológica não existe senão porque é</p><p>tolerada, ou seja, sua sobrevivência depende da boa vontade das classes privilegiadas.</p><p>“Os membros que pertencem a uma minoria psicológica se sentem, se percebem e se</p><p>conhecem em estado de tutela. E isto independentemente da porcentagem de seus</p><p>membros em relação à população total onde vivem” (p.30).</p><p>Após tentar elucidar a psicologia das minorias judias, Lewin se esforça por</p><p>apreender as constantes psicológicas de todo grupo minoritário, buscando elaborar uma</p><p>psicologia dos grupos minoritários.</p><p>3</p><p>Nos Estados Unidos, o pesquisador lecionou nas Universidades de Standford,</p><p>Cornell e Iowa, nesta tendo sido convidado a ocupar a cátedra de psicologia da criança.</p><p>Em 1939 retornou a Standford e em 1940 tornou-se professor da Universidade de</p><p>Harvard. Em 1944, já com um acúmulo de esforços pioneiros de investigação científica</p><p>sobre a vida dos grupos, publicou o artigo “Fronteiras na Dinâmica de Grupo”, no qual</p><p>afirma a realidade (existência) do grupo como “entidade social” que deve ser tomada</p><p>como objeto de estudo científico, requerendo um corpo conceitual próprio. Nesse</p><p>mesmo ano foi convidado a organizar e dirigir o Research Center of Group Dynamics</p><p>(Centro de Pesquisas de Dinâmica de Grupo) vinculado inicialmente ao MIT</p><p>(Massachusetts Institute of Technology) (LAPASSADE, 1983). A preocupação</p><p>dominante de Lewin passou a ser a de elaborar uma psicologia dos grupos dinâmica e</p><p>gestáltica, articulada e definida por referência constante ao meio social no qual se</p><p>formam, integram-se, gravitam ou se desintegram os grupos.</p><p>De acordo com Gertrud W. Lewin, o Centro de Pesquisas de Dinâmica de</p><p>Grupo foi concebido e planejado por Lewin como um laboratório destinado a</p><p>desenvolver uma combinação entre pesquisa e ação, concretizando a relação entre teoria</p><p>e realidade, o que, segundo ela, era uma preocupação permanente e premente do autor.</p><p>Nessa instituição, dirigiu um programa de pesquisa sobre a dinâmica dos pequenos</p><p>grupos de grande importância teórica e empírica e “(...) não só desenvolveu um rico</p><p>arsenal de conceitos, princípios e dados empíricos, mas soube criar um notável</p><p>entusiasmo entre seus discípulos, que continuaram seu trabalho e sustentaram sua</p><p>contribuição até o presente” (MARTIN-BARÓ, 2017, p.142). Após sua morte, em 1947,</p><p>o centro mudou-se para a Universidade de Michigan em Ann Arbor (BARRETO, 2010).</p><p>Conforme Barreto (2010), a temática dos grupos sociais fora objeto da</p><p>sociologia desde seus primórdios, partindo de antigas especulações filosóficas a respeito</p><p>da natureza e características dos grupos humanos. A pesquisa e a teorização dos grupos</p><p>à luz da psicologia são, por sua vez, mais tardias “(...) e decorrem principalmente dos</p><p>empenhos do psicólogo social alemão Kurt Lewin.” (p.13-14). O autor considerava que</p><p>o estudo dos grupos se constituía como trabalho investigativo na interface entre</p><p>psicologia e</p><p>sociologia, assim posicionando-se na introdução do artigo “Experimentos</p><p>com espaço social”, originalmente publicado em 1939:</p><p>Como sou oficialmente psicólogo, talvez devesse desculpar-me perante os</p><p>sociólogos por ultrapassar as fronteiras do meu campo. (...) Na última década,</p><p>a Psicologia aprendeu a dar-se conta da extraordinária importância dos</p><p>fatores sociais em praticamente toda espécie e tipo de comportamento. É</p><p>verdade que, desde o primeiro dia de sua vida, a criança faz parte de um</p><p>grupo e morrerá se o grupo não cuidar dela. Os experimentos sobre êxito e</p><p>fracasso, nível de aspiração, inteligência, frustração e todos os demais,</p><p>demonstraram, de maneira cada vez mais convincente, que o objetivo que</p><p>uma pessoa se propõe é profundamente influenciado pelos padrões sociais do</p><p>grupo a que pertence ou deseja pertencer. O psicólogo atual reconhece que</p><p>existem poucos problemas mais importantes para o desenvolvimento da</p><p>criança e para o problema da adolescência que um estudo dos processos pelos</p><p>quais uma criança incorpora ou se opõe à ideologia e ao estilo de vida</p><p>predominante em seu clima social, às forças que a levam a pertencer a</p><p>determinados grupos, ou que determinam seu status social e sua segurança</p><p>dentro desses grupos.</p><p>4</p><p>Uma tentativa autêntica de abordar experimentalmente esses problemas – por</p><p>exemplo, os de status social ou liderança – implica, tecnicamente, a</p><p>necessidade de criar diferentes tipos de grupos, e de estabelecer</p><p>experimentalmente uma série de fatores sociais que poderiam alterar tal</p><p>status. O psicólogo social experimental terá de familiarizar-se com o trabalho</p><p>de criar experimentalmente grupos, de criar um clima social ou estilo de vida.</p><p>Espero portanto que o sociólogo o desculpe quando ele não possa evitar</p><p>ocupar-se também dos problemas, ditos sociológicos, de grupos e da vida</p><p>grupal. Talvez o psicólogo social possa até mostrar-se de considerável</p><p>utilidade para o sociólogo. Frequentemente, a pesquisa na linha fronteiriça de</p><p>duas ciências se mostrou particularmente vantajosa para o progresso de</p><p>ambas. (LEWIN, 1949, p.88, grifo nosso)</p><p>Lewin concebe o grupo como um todo dinâmico caracterizado pela</p><p>interdependência dos membros. No texto de apresentação da coletânea “Problemas de</p><p>Dinâmica de Grupo”, Gordon W. Allport (1948) sintetiza a concepção do autor acerca</p><p>da relação indivíduo-grupo: “o grupo a que pertence o indivíduo constitui a base de suas</p><p>percepções, ações e sentimentos” (p.7) e “a menos que seja alterada a estrutura do grupo</p><p>que os inclui, não é possível transformar fundamentalmente os indivíduos” (p.11).</p><p>A dinâmica de grupo pretendia ser a ciência experimental dos pequenos</p><p>grupos. Portanto, seu objeto seria o micro-grupo e seu método deveria ser experimental.</p><p>A ênfase no estudo de microgrupos ou face-to-face groups justificava-se, segundo o</p><p>próprio autor, em vista do insuficiente instrumental conceitual e metodológico da</p><p>ciência psicológica para a compreensão de fenômenos ao nível da sociedade global ou</p><p>dos grandes conjuntos sociais. O estudo dos pequenos grupos constituía, para Lewin,</p><p>uma opção estratégica, que permitiria desvelar os mecanismos psicológicos de</p><p>integração e desenvolvimento dos diversos tipos de micro-grupos, levando a que, pouco</p><p>a pouco, se evidenciassem “certas constantes na formação e na evolução dos</p><p>agrupamentos humanos” (MAILHIOT, 1997, p.23). Segundo Mailhiot (1977), o</p><p>período em que se dedicou ao estudo da psicologia dos grupos minoritários (a princípio</p><p>o grupo judeu e posteriormente as minorias psicológicas em geral) foi decisivo para que</p><p>Lewin constatasse que a inteligência científica dos macro-grupos não se tornaria</p><p>acessível senão após longas e sistemáticas pesquisas sobre a psicologia dos grupos</p><p>restritos (p.39).</p><p>No plano metodológico, Lewin advogava que as construções teórico-</p><p>conceituais deveriam ser relacionadas aos fatos observáveis por meio de definições</p><p>operacionais de modo que as hipóteses pudessem ser verificadas. Em outras palavras,</p><p>defendia um empirismo metodológico. O pesquisador preocupava-se com a superação</p><p>do que chamou de etapa pré-científica da Psicologia tanto do ponto de vista</p><p>metodológico quanto teórico e investigou problemas que pareciam inteiramente</p><p>inacessíveis à experimentação, como, por exemplo, o fenômeno da liderança. Allport</p><p>(1948) destaca o caráter pioneiro dos métodos de Kurt Lewin, que, segundo ele,</p><p>conseguiu adaptar a experimentação a problemas complexos da vida do grupo:</p><p>“problemas que poderiam parecer inteiramente inacessíveis à experimentação renderam-</p><p>se à sua investida.”</p><p>Em sua primeira fase, a Dinâmica de Grupo “constituiu-se como uma ciência</p><p>experimental praticada em laboratório e sobre grupos artificialmente reunidos, para fins</p><p>5</p><p>de experiência, com controle de variáveis, quantificação, etc. Numa segunda fase, saiu</p><p>do laboratório, passando a tratar com grupos reais, na solução de conflitos sociais.”</p><p>(ANDALÓ, 2006, p.43) Entre os temas e aspectos investigados podem ser destacados:</p><p>coesão, comunicação, criatividade, liderança, mudança e resistência à mudança.</p><p>Vemos assim, com Lapassade (1983, p.66), que “no sentido original (...) a</p><p>dinâmica de grupo constitui o setor de pesquisas aberto por Kurt Lewin e por seus</p><p>assistentes entre 1938 e 1939.” Contudo,</p><p>num sentido mais amplo e mais popular, o mesmo termo tende a</p><p>designar, ao mesmo tempo, o conjunto de pesquisas experimentais</p><p>sobre os pequenos grupos e todas as técnicas de grupo que constituem</p><p>os meios ditos de aplicação. Essas técnicas são instrumentos de</p><p>formação, de terapia, de animação e de intervenção, que têm como</p><p>denominador comum o fato de se apoiarem no grupo.</p><p>Em sentido semelhante, Barreto (2010) considera que a Dinâmica de Grupo</p><p>desenvolveu-se historicamente consolidando-se como campo de pesquisas, realizadas</p><p>em laboratório ou em campo, e também como campo de aplicação, relacionado a</p><p>problemas e contextos diversos.</p><p>Proposições teóricas para a psicologia individual</p><p>Como destaca Lapassade (1983), “a obra de K. Lewin começou (...) na</p><p>Alemanha com trabalhos de psicologia individual que será necessário conhecer para</p><p>compreender-se a origem e o conteúdo dos conceitos que fundamentam a dinâmica de</p><p>grupo” (LAPASSADE, 1983, p.52). Embora a psicologia dos grupos não seja redutível</p><p>à psicologia individual, as proposições de Kurt Lewin no âmbito da psicologia social e</p><p>em particular da dinâmica de grupo constituem, em grande medida, uma transposição</p><p>das posições básicas do autor no âmbito da psicologia individual, como aponta Martin-</p><p>Baró (2004, p.202): “O sistema conceitual desenvolvido por Lewin para analisar a</p><p>conduta individual se prestava para analisar também a conduta do grupo.” Assim, a</p><p>dinâmica das relações interpessoais e intergrupais é investigada por Lewin a partir das</p><p>mesmas hipóteses e concepções que elaborara a respeito da dinâmica da vida</p><p>intrapessoal, sintetizadas em sua Psicologia Topológica e Psicologia Vetorial.</p><p>Partindo do pressuposto de que uma pessoa concreta em uma situação concreta</p><p>pode ser representada matematicamente, o autor buscou em uma disciplina matemática,</p><p>a ‘topologia’, auxílio para “fazer da psicologia uma verdadeira ciência” (MAILHIOT,</p><p>1997, p.11). A topologia é um ramo não quantitativo da matemática que trata das</p><p>relações espaciais que podem ser estabelecidas em termos de parte e todo. A Psicologia</p><p>Topológica de Kurt Lewin trata de descrever e especificar quais os eventos possíveis em</p><p>um espaço de vida por meio da elaboração de uma representação espacial das situações</p><p>psicológicas e de seu ambiente. Entende-se por espaço de vida a totalidade dos fatos que</p><p>determinam o comportamento de um indivíduo em um determinado momento. Dois</p><p>conceitos se mostram fundamentais na análise topológica: região psicológica e</p><p>6</p><p>locomoção. Esse instrumental teórico-metodológico será mais tarde transposto para o</p><p>estudo dos grupos.</p><p>A Psicologia Topológica permite mapear a estrutura do espaço de vida do</p><p>indivíduo e descrever os eventos possíveis nesse campo, mas os conceitos topológicos</p><p>por si só não são suficientes para explicar o comportamento do indivíduo. Lewin</p><p>considerava necessário que a psicologia pudesse compreender, diante da totalidade de</p><p>eventos possíveis, por que motivo este e unicamente este comportamento ocorre. Para</p><p>tanto, seria preciso considerar o espaço de vida dinamicamente, isto é, como campo de</p><p>forças. Essa é a tarefa da Psicologia Vetorial, que diferentemente da Psicologia</p><p>Topológica, se funda em conceitos dinâmicos voltados à explicação das causas do</p><p>comportamento, ou seja, que buscam a compreensão de qual o evento que ocorre dentre</p><p>as diversas possibilidades dadas no espaço vital. A Psicologia Vetorial tem, portanto,</p><p>como objeto, as forças psicológicas, conceito inspirado na Física e diretamente ligado à</p><p>causa do comportamento.</p><p>Na Psicologia Vetorial, o espaço de vida é considerado dinamicamente, como</p><p>campo de forças, ou como campo psicológico. As forças psicológicas em ação no</p><p>campo psicológico podem ter natureza impulsora ou frenadora; tais forças são</p><p>representadas matematicamente por vetores, em função de sua direção e intensidade.</p><p>Um vetor tende sempre a produzir locomoção em uma certa direção. Os objetos,</p><p>pessoas ou situações (regiões do espaço vital) de valência positiva atraem o indivíduo e</p><p>os de valência negativa o repelem, sendo a atração a força ou vetor dirigido para o</p><p>objeto, pessoa ou situação e a repulsa a força ou vetor que o leva a se afastar do objeto,</p><p>pessoa ou situação, tentando escapar. A atração ou repulsa por determinadas regiões do</p><p>espaço vital se relacionam à existência de sistemas de tensão: quando existe um estado</p><p>de tensão, entendida não como estresse mas como disposição para agir, o indivíduo</p><p>tenderá a mover-se em direção a uma região do estado vital de valência positiva, o que</p><p>equivale a atuar para atingir um objetivo desejado.</p><p>Em síntese, o comportamento de uma pessoa será, em cada caso, função da</p><p>particular situação de forças em seu campo ou espaço vital (MARTIN-BARÓ, 2004,</p><p>p.201). O indivíduo tende a mudar sua posição no espaço vital, ou seja, a locomover-se</p><p>de uma região a outra como consequência do equilíbrio ou desequilíbrio no sistema de</p><p>forças. Quando dois ou mais vetores atuam sobre uma pessoa ao mesmo tempo, a</p><p>locomoção é uma espécie de resultante de forças. Quando se estabelece uma relação de</p><p>oposição de forças contrárias de igual intensidade, configura-se um conflito psicológico.</p><p>Cada vetor depende da inter-relação de vários fatores, que incluem a estrutura e</p><p>as propriedades do meio e também da pessoa (suas necessidades, seu estado emocional,</p><p>etc.). A partir dessas constatações, K. Lewin chegou à formulação C = f (P, A),</p><p>propondo que o comportamento de um indivíduo é função da pessoa (P) e de seu</p><p>ambiente (A). No entanto, não se trata de proceder a uma análise física do meio, mas</p><p>apreender como o meio é psicologicamente percebido pelo indivíduo: “É decisiva a</p><p>maneira pela qual o indivíduo percebe e interpreta a situação social. Suas percepções</p><p>podem não corresponder (e freqüentemente não correspondem) à realidade social”</p><p>7</p><p>(p.11). Portanto, é mais preciso afirmar que o comportamento é função da pessoa e do</p><p>ambiente percebido: C = f (P, Ap.).</p><p>Subjacentes às proposições da Psicologia Topológica e Vetorial, identificamos</p><p>alguns postulados fundamentais: a) o comportamento humano não depende somente do</p><p>passado, ou do futuro, mas do campo dinâmico atual e presente (causalidade histórica x</p><p>causalidade sistêmica); b) o comportamento humano é derivado da totalidade de fatos</p><p>coexistentes; c) esses fatos coexistentes têm o caráter de um campo dinâmico, no qual</p><p>cada parte do campo depende de uma inter-relação com as demais outras partes.</p><p>Conjuntura histórica em que se formula a teoria da Dinâmica de Grupo</p><p>Lapassade (1983) localiza no nascimento da sociedade industrial capitalista no</p><p>século XIX condições e formulações precursoras à emergência da Dinâmica de Grupo.</p><p>Naquele momento foram elaboradas as primeiras grandes doutrinas sociológicas e</p><p>políticas da nova sociedade, marcada pelo trabalho parcelado e pela organização</p><p>hierárquica da produção. A fábrica “em que cada um executa apenas uma parte muito</p><p>especializada na preparação dos objetos fabricados” (p.46) requeria a coordenação das</p><p>ações dos indivíduos na base de uma cooperação/solidariedade mecânica e de</p><p>justaposição. Os socialistas utópicos, em sua crítica à sociedade industrial, trazem</p><p>antecipações daquilo que seria posteriormente formulado como a teoria da dinâmica dos</p><p>grupos. Lapassade (1983), apoiado em Touraine, denomina esse período “fase A”.</p><p>A “fase B” refere-se ao momento histórico marcado pela burocratização das</p><p>grandes empresas industriais no início do século XX, período em que se formulam as</p><p>teorias clássicas da administração, as quais exprimem e justificam essa burocratização,</p><p>tendo em Taylor e Fayol seus grandes expoentes. “O próprio ato do trabalho, da</p><p>produção”, diz Lapassade (1983, p.47), “torna-se ‘burocratizado’ pelo taylorismo: o</p><p>movimento dos gestos produtores é calculado, medido, decidido em outro lugar, nos</p><p>escritórios de estudos.” A partir de 1924 desencadeia-se nas ciências sociais a crítica às</p><p>burocracias industriais, destacando-se o surgimento da sociologia industrial e da</p><p>psicossociologia, na qual o autor situa a obra de Lewin.</p><p>Nesse período histórico, coloca-se o problema das relações humanas na empresa.</p><p>Nessa direção, destacam-se, de um lado, os experimentos de Elton Mayo que – a partir</p><p>de 1924 – identificaram o grupo informal como um fator de rendimento de operárias da</p><p>Western Eletric Company e descortinaram “(...) a vida social da equipe, com os seus</p><p>jogos, os seus comportamentos na produção, as suas relações, os seus conflitos internos,</p><p>seu sistema de papéis” (LAPASSADE, 1983, p.49); e de outro a contribuição da</p><p>sociometria de Jacob Moreno, entendida como técnica de mudança social baseada no</p><p>exame da organização interna dos grupos, identificando seus líderes, subgrupos,</p><p>rejeições, aproximações, redes, desvelando as “estruturas informais de ordem afetiva</p><p>que estavam ocultas sob a aparente unidade de um grupo social (MARTIN-BARÓ,</p><p>2017, p.141) Em Moreno, em especial, é marcante o posicionamento antiburocrático,</p><p>8</p><p>esposando o autor a perspectiva de liberar a criatividade e a espontaneidade; dessa</p><p>forma, o conhecimento do grupo não se apresentava como finalidade exclusiva de</p><p>pesquisa, mas visava facilitar essas mudanças.</p><p>Martin-Baró (2017) analisa o desenvolvimento da Psicologia Social nesse</p><p>período, mostrando-a fortemente concentrada no continente norte-americano. No início</p><p>do século XX, segundo o autor, os Estados Unidos enfrentavam dois grandes problemas</p><p>sociais: a integração de muitos e diversificados grupos de imigrantes, que colocava o</p><p>desafio de assimilá-los à ordem estabelecida adaptando-os à cultura e ao estilo de vida</p><p>dominantes; e as crescentes exigências do processo de acelerada industrialização, que</p><p>colocava problemas críticos para indivíduos e comunidades. Nesse contexto,</p><p>A psicologia social poderia dar uma contribuição eficaz</p><p>determinando quais eram os indivíduos mais adequados para as tarefas</p><p>necessárias (processos de seleção) e ajudando no processo de</p><p>adaptação dos indivíduos às exigências e condições das tarefas postas</p><p>(processos de formação, mediação de conflitos, trabalho com ‘relações</p><p>humanas’. (p.139)</p><p>Martin-Baró (1983) pondera que o estudo dos grupos era particularmente</p><p>atrativo para os norte-americanos por razões diversas e complementares que</p><p>potencializaram a pesquisa científica e aplicada. Primeiramente por atender o interesse</p><p>pela integração de diversos grupos étnicos na mesma sociedade, mas também,</p><p>considerando-se o advento das duas guerras mundiais, por instrumentalizar a integração</p><p>dos indivíduos nas unidades militares, otimizando sua eficiência, problema que também</p><p>estava colocado para a indústria. Os</p><p>psicossociólogos eram interpelados pelas</p><p>organizações industriais a subsidiar a compreensão e manejo das dificuldades de</p><p>comando, de comunicação, de funcionamento da burocracia organizacional. A</p><p>burocracia, concebida como a racionalização da organização da empresa, começa a se</p><p>mostrar ao mesmo tempo irracional; vai ficando evidente que a função implica</p><p>disfunções; os laços informais dos grupos e subgrupos coexistem com os laços formais.</p><p>Conforme Lapassade (1983), nesse cenário:</p><p>A tarefa do psicossociólogo será encontrar novamente a relação</p><p>entre o formal e o informal, entre a organização e a motivação, será</p><p>‘desburocratizar’ a organização, ou, mais exatamente, modernizar a</p><p>burocracia por uma terapêutica da rigidez burocrática, da</p><p>impossibilidade de comunicação efetiva, da prática do trabalho em</p><p>comum.</p><p>Princípios da Dinâmica dos Grupos</p><p>Como já indicado, o sistema conceitual desenvolvido por Lewin para analisar a</p><p>conduta individual foi também referência para analisar a conduta dos grupos:</p><p>O sistema conceitual desenvolvido por Lewin para analisar a conduta</p><p>individual se prestava para analisar também a conduta do grupo. Por um lado,</p><p>os grupos podiam ser concebidos como regiões do espaço vital dos</p><p>indivíduos. Por outro, os mesmos grupos podiam ser concebidos como</p><p>campos de forças, espaços vitais, com os quais representar sua estrutura e</p><p>9</p><p>dinâmica internas. A conduta do grupo seria, então, a resultante do particular</p><p>sistema de tensão entre os membros do grupo em um determinado momento.</p><p>Mas assim como a conduta individual constitui sempre uma função do estado</p><p>de forças em um espaço vital, a conduta grupal seria a resultante não da ação</p><p>de um ou outro dos indivíduos que compõem o grupo, mas do sistema de</p><p>relações entre os membros do grupo. Assim, a compreensão do que o grupo é</p><p>e como atua haveria de ser buscada mais no sistema de relações, isto é, na</p><p>interdependência entre os membros do grupo do que nas características de</p><p>cada um de seus membros em particular. (tradução nossa) (MARTIN-BARÓ,</p><p>2004, p.202)</p><p>• O grupo como totalidade dinâmica</p><p>As proposições acima estão sintetizadas na concepção de Kurt Lewin do</p><p>micro-grupo como uma totalidade dinâmica. Esse conceito remete ao princípio</p><p>gestaltista de que o todo é distinto da soma de suas partes: “qualquer todo dinâmico tem</p><p>características próprias. O todo pode ser simétrico, embora as partes sejam assimétricas;</p><p>um todo pode ser instável, embora suas partes sejam estáveis” (LEWIN, 1948b, p.89).</p><p>Trata-se, então, de compreender que o grupo é irredutível à mera soma de seus</p><p>integrantes, possuindo propriedades específicas enquanto totalidade, não diretamente</p><p>decorrentes das propriedades das partes em si: “hoje se reconhece amplamente que um</p><p>grupo é mais que a soma de seus membros, ou, mais exatamente, é diferente dela. Tem</p><p>estrutura própria, objetivos próprios e relações próprias com outros grupos” (LEWIN,</p><p>1948a, p.100). Em outras palavras, o grupo não é o resultado apenas das psicologias</p><p>individuais, mas de um conjunto de relações. Assim, a explicação dos fenômenos de</p><p>grupo não será encontrada na natureza de cada um dos seus componentes (dissecando o</p><p>todo em partes), mas nas múltiplas interações que se produzem entre os elementos da</p><p>situação social. Para Lewin, portanto, a natureza do grupo está na interdependência</p><p>entre seus membros: “a essência de um grupo não é a semelhança ou a diferença entre</p><p>seus membros, mas a sua interdependência” (idem, p.100). Para o autor:</p><p>Tal definição despoja de misticismo a concepção de grupo e reduz o</p><p>problema a uma base totalmente empírica e experimental. Ao mesmo</p><p>tempo, significa completo reconhecimento do fato de que as</p><p>características de um grupo social, tais como sua organização,</p><p>estabilidade, objetivos, são diferentes da organização, estabilidade e</p><p>objetivos dos indivíduos que o compõem (p.89)</p><p>Como implicação metodológica desse princípio, Lewin indica que ao</p><p>invés de se observar as características dos indivíduos que compõem um grupo, é preciso</p><p>se observar as características do grupo como tal: sua organização em subgrupos, as</p><p>relações entre os líderes e membros, a atmosfera grupal, etc.</p><p>Ao definir o grupo como totalidade dinâmica, se destaca a apreensão do</p><p>movimento grupal: “A vida do grupo nunca para de mudar, o que existe são meras</p><p>diferenças na quantidade e tipo da mudança” (LEWIN, 1948, p.225-6). Caracterizar o</p><p>grupo como um todo dinâmico também “(...) significa que uma mudança no estado de</p><p>qualquer subparte modifica o estado de todas as outras subpartes”. Para Lewin, o grupo</p><p>10</p><p>é uma realidade da qual o indivíduo faz parte, de forma que a dinâmica de um grupo</p><p>tem sempre um impacto social sobre os indivíduos que o constituem, o que implica que</p><p>a cada vez que o grupo sofre modificações em suas estruturas ou em sua dinâmica, estes</p><p>inescapavelmente se ressentem (MAILHIOT, 1977, p.55). O impacto da mudança no</p><p>estado de uma parte sobre as demais depende do grau de interdependência das</p><p>subpartes, que “varia desde a ‘massa’ amorfa a uma unidade compacta” e “depende,</p><p>entre outros fatores, do tamanho, organização e intimidade do grupo” (LEWIN, 1948a,</p><p>p.100).</p><p>Como fatores determinantes da gênese e dinâmica dos grupos, Kurt</p><p>Lewin identifica o senso de interdependência do destino, que se refere ao</p><p>reconhecimento por parte do indivíduo de que sua sorte ou destino depende do destino</p><p>do grupo como um todo, e a interdependência da tarefa, ou seja, o fato de que os</p><p>membros do grupo engajados em uma atividade dependem uns dos outros para que suas</p><p>metas sejam atingidas.</p><p>• O grupo como espaço vital</p><p>A figura 1, retirada do artigo “A origem do conflito no casamento”, publicado</p><p>em 1940, ilustra o trabalho de análise topológica proposto por Lewin (1948a) tomando</p><p>como objeto um conflito conjugal. A imagem representa o espaço de vida do marido,</p><p>identificando as áreas mais ou menos influenciadas pela esposa e o espaço de</p><p>movimento livre o marido. Vale notar que o casamento é compreendido pelo autor</p><p>como “uma situação de grupo e, como tal, apresenta as características gerais da vida</p><p>grupal” (p.100)</p><p>11</p><p>• O grupo como campo de forças</p><p>A noção lewiniana de dinâmica de grupo supõe que se possa definir um</p><p>grupo como um sistema de forças (LAPASSADE, 1983, p.67). Conforme Andaló</p><p>(2006), “segundo essa concepção, nos grupos, os indivíduos interagem e criam um</p><p>estado de equilíbrio resultante das forças em jogo (...)” (p.43). Fazem-se presentes na</p><p>situação grupal: forças de coesão/atração, que fomentam atitudes de lealdade e</p><p>pertencimento, motivando os membros a permanecer no grupo; forças de</p><p>desenvolvimento, que impulsionam o grupo para os fins que ele se atribui; e também</p><p>forças de dissolução/repulsa, que concorrem para o esfacelamento dos grupos.</p><p>Lapassade (1983) identifica como fatores de coesão do grupo a pertinência das</p><p>finalidades, a clareza compartilhadas das finalidades e a aceitação das finalidades pelos</p><p>membros, ao passo que divergências no tocante às finalidades do grupo configuram</p><p>forças de dissolução. Lewin (1948c) assim aborda o problema das forças no campo</p><p>grupal:</p><p>Analiticamente, podem-se distinguir dois tipos de forças no tocante ao</p><p>membro de qualquer grupo – um tipo de força o impele para o grupo e</p><p>o conserva dentro dele, o outro tipo o afasta do grupo. Podem ser</p><p>múltiplas as origens das forças que impelem para o grupo: talvez o</p><p>indivíduo se sinta atraído por outros membros do grupo, talvez os</p><p>outros membros o arrastem, talvez ele esteja interessado no objetivo</p><p>do grupo ou se sinta de acordo com a sua ideologia, ou talvez prefira</p><p>esse grupo a estar só. De maneira análoga, as forças que o afastam do</p><p>grupo podem ser o resultado de qualquer tipo de traços desagradáveis</p><p>do próprio grupo, ou talvez sejam expressão da maior atratividade de</p><p>um grupo exterior.</p><p>Se for negativo o equilíbrio entre as forças que impelem para o grupo</p><p>e as que afastam dele, e não houver interferência</p><p>de outros fatores, o</p><p>indivíduo deixará o grupo. Em condições ‘de liberdade’, portanto, um</p><p>grupo conterá unicamente os membros para quem as forças positivas</p><p>são mais intensas que as negativas. Se um grupo não for atraente o</p><p>bastante para um número suficiente de indivíduos, ele desaparecerá.</p><p>(LEWIN, 1948c, p.204-5)</p><p>A análise da configuração dinâmica das forças presentes na situação</p><p>grupal pode constituir um instrumento de avaliação diagnóstica para o coordenador do</p><p>grupo: quais as forças em ação nesse campo? Predominam forças de aglutinação ou</p><p>dissolução? Forças impulsoras ou restritivas (em relação aos objetivos do grupo)? É</p><p>possível detectar forças de atração/ repulsa por certos aspectos da situação social ou</p><p>mesmo por determinados componentes do grupo?</p><p>Para Lewin (1948c), “um importante fator no que respeita à intensidade</p><p>das forças que impelem para o grupo ou afastam dele é a medida em que a satisfação</p><p>das necessidades do indivíduo é favorecida ou dificultada por sua participação no</p><p>grupo” (p.205, grifo nosso). Ao mesmo tempo, o autor indica que “(...) a participação</p><p>em qualquer grupo limita, até certo ponto, a liberdade de ação do membro individual.”</p><p>(p.205).</p><p>12</p><p>Como explica Afonso (2007), a teoria lewiniana propõe que pequenos</p><p>grupos têm uma estrutura e uma dinâmica: “a estrutura diz respeito à sua forma de</p><p>organização, a partir da identificação de seus membros. A dinâmica diz respeito às</p><p>forças de coesão e dispersão no grupo, e que fazem com que ele se transforme. A</p><p>dinâmica do grupo inclui, assim, os processos de formação de normas, comunicação,</p><p>cooperação e competição, divisão de tarefas e distribuição de poder e liderança”. Para</p><p>Mailhiot (1997), “toda dinâmica de grupo é a resultante do conjunto das interações no</p><p>interior de um espaço psico-social. Estas interações poderão ser tensões, conflitos,</p><p>repulsas, atrações, trocas, comunicações ou ainda pressões e coerções” (p.50).</p><p>Minorias psicológicas</p><p>Psicologia dos judeus – Dentre suas importantes conclusões, destacamos a</p><p>proposição de que a criança que pertence a um grupo minoritário deve conhecer o mais</p><p>cedo possível sua condição, enfatizando que se trata de uma questão social, libertando-a</p><p>do mito de que será facilmente aceita pelos não-judeus se sobressair-se</p><p>(profissionalmente, por exemplo). Lewin alerta, também, para a necessidade de se criar</p><p>condições para que o jovem judeu possa identificar positivamente com seu grupo étnico</p><p>(MAILHIOT, 1977).</p><p>O autor analisa as minorias psicológicas em termos de sua gênese, estrutura e</p><p>dinâmica. Postula que as minorias são sociais em sua origem, estruturas, dinâmica e</p><p>evolução. Em termos de sua estrutura, as minorias são constituídas de várias camadas.</p><p>No centro as camadas mais solidificadas, que compõem-se de membros que aderem</p><p>com a maior boa vontade às instituições, costumes, tradições e valores que distinguem</p><p>seu grupo dos outros grupos: tais membros identificam-se positivamente com tudo</p><p>aquilo que é típico/ próprio ao seu grupo. As camadas periféricas são compostas de</p><p>membros que experimentam uma ambivalência em relação ao grupo, ou seja, membros</p><p>marginais que suportam à revelia seu pertencimento ao grupo e se sentem atraídos pela</p><p>maioria; nessas camadas são encontrados mais frequentemente membros que</p><p>conseguiram sobressair-se em seu trabalho ou profissão e esperam que seus sucessos</p><p>pessoais facilitem sua aceitação por parte da maioria (o que Lewin considera ilusório).</p><p>No tocante a sua dinâmica, as minorias constituem um equilíbrio mais ou menos estável</p><p>entre dois campos de força: forças de atração/ centrípetas, que engendram entre os</p><p>minoritários atitudes de lealdade para com o grupo; e forças centrífugas/ de dissolução,</p><p>oriundas das frustrações, limitações e discriminações importas pela maioria e ao mesmo</p><p>tempo constituídas pela atração por vezes irresistível exercida pela maioria com suas</p><p>promessas de prestígio e privilégios (que produz o desejo de assimilação à maioria e</p><p>desamor em relação ao grupo de origem) (MAILHIOT, 1977).</p><p>Lewin distingue dois tipos de minorias:a) unidades articuladas de modo</p><p>orgânico, em que a condição de minoritário e a interdependência do destino de seus</p><p>membros é reconhecida e aceita, o que permite aos membros se unirem na luta pela</p><p>13</p><p>emancipação; b) minorias mal ou não integradas, em que a condição de minoritário é</p><p>suportada, resultando em uma unidade apenas aparente, artificial, produto de pressões e</p><p>coerções exteriores. No segundo caso, as ligações entre os membros são frágeis, não</p><p>constituindo um grupo no sentido restrito: “trata-se antes de um agregado de indivíduos,</p><p>mais ou menos submetidos às mesmas restrições, privações e frustrações” (MAILHIOT,</p><p>1977, p.42). Quanto ao futuro das minorias, Lewin visualiza três diferentes</p><p>possibilidades: a) assimilação à maioria, o que implica na não sobrevivência da</p><p>minoria; b) integração com a maioria, lutando por igualdade de direitos e privilégios; e</p><p>c) independência, entendida como única possibilidade de preservar a integridade da</p><p>cultura e da identidade. Para o psicólogo, a integração com a maioria é uma ilusão e a</p><p>independência é a única possibilidade de assegurar a sobrevivência da minoria, caso</p><p>contrário cedo ou tarde ela será assimilada; nesse sentido, a busca de independência</p><p>revela maturidade e identificação positiva com o grupo.</p><p>• Comunicação, criatividade e produtividade dos grupos</p><p>Os processos de comunicação se mostram decisivos para compreender a</p><p>dinâmica de um grupo, uma vez que o problema das comunicações, em última análise, é</p><p>o problema das trocas no interior do grupo (LAPASSADE, 1983). Como explica</p><p>Lapassade (1983), investigar o problema das comunicações nos grupos na perspectiva</p><p>da Dinâmica de Grupo significa analisar a estrutura dos canais de comunicação e seu</p><p>efeito sobre a circulação de informações, estruturação das ações, eficácia na solução de</p><p>problemas e emergência de papéis. Isso se mostra relevante pois “essas estruturas de</p><p>comunicações têm consequências para a vida do grupo, para seu ‘clima’” (p.71). Num</p><p>grupo, existem comunicações verbais e não-verbais, redes formais e informais, e</p><p>processos de comunicação que podem se estruturar de diferentes formas, com diferentes</p><p>impactos em termos do rendimento e da satisfação dos membros do grupo. Lapassade</p><p>(1983) destaca a comunicação em cadeia, em estrela, ou em círculo, indicando que “a</p><p>comunicação em forma de estrela favorece o rendimento, mas pode fazer crescer</p><p>frustrações e, por isso mesmo, manifestações agressivas; as comunicações em forma de</p><p>círculo são as mais satisfatórias no que se refere aos sentimentos dos membros do</p><p>grupo, mas podem acarretar perdas de tempo”.</p><p>As investigações conduzidas por Lewin e seu grupo o levaram a formular</p><p>a hipótese de que “a integração não se realizará no interior de um grupo e, em</p><p>consequência, sua criatividade não poderá ser duradoura, enquanto as relações</p><p>interpessoais entre todos os membros do grupo não estiverem baseadas em</p><p>comunicações abertas, confiantes e adequadas.” (p.89). Portanto, Kurt Lewin</p><p>considerava que “a produtividade de um grupo e sua eficiência estão estreitamente</p><p>relacionadas não somente com a competência de seus membros, mas sobretudo com a</p><p>solidariedade de suas relações pessoais” e à capacidade de estabelecer comunicações</p><p>abertas e autênticas.</p><p>14</p><p>• Mudança e resistência à mudança nos grupos</p><p>Lewin tinha uma preocupação com o funcionamento democrático da</p><p>sociedade e entendia que o trabalho com grupos seria fundamental para o processo de</p><p>reeducação democrática, pois o psicólogo defendia que “a mudança na situação de um</p><p>indivíduo se deve, em grande parte, a uma mudança na situação do grupo a que</p><p>pertence. (...) Como membro de um grupo, ele, habitualmente, tem os ideais e os</p><p>objetivos do grupo” (LEWIN, 1940/1948, p.102). O grupo constitui, assim, um</p><p>privilegiado espaço de mudança social. A necessidade da reeducação democrática se</p><p>justificava, para</p><p>Lewin (1939/1948), tendo em vista que “a autocracia é imposta ao</p><p>indivíduo”, enquanto “a democracia, ele a precisa aprender” (p.97).</p><p>Como explica Mailhiot (1977, p.58), “a mudança social implica em uma</p><p>modificação do campo dinâmico no qual o grupo se encontra”. Nos trabalhos de</p><p>observação-participante, Lewin pôde detectar três tipos de fenômenos distintos em</p><p>relação a esse processo:</p><p>1. Ou os grupos não sentem nem experimentam nenhum desejo,</p><p>nenhuma aspiração a evoluir, a mudar. É o caso de todos os grupos</p><p>conformistas que se comprazem nas percepções estereotipadas da</p><p>situação social e cujas atitudes coletivas e comportamentos de grupo</p><p>são determinados e condicionados por preconceitos. Para diagnosticar</p><p>estes casos, Lewin recorre ao termo constância social, o que não</p><p>constitui mais uma dinâmica de grupo, mas uma estática de grupo, de</p><p>tal modo que as estruturas formais absorveram ou anularam em uma</p><p>estratificação cristalizada as dimensões funcionais destes grupos.</p><p>2. No caso precedente a mudança social tem pouca ou nenhuma</p><p>possibilidade de se operar de tal modo o status quo é valorizado. No</p><p>caso presente, a mudança social é iniciada e desejada pelos elementos</p><p>não-conformistas do grupo. Mas estes últimos encontram resistências</p><p>da parte dos membros do grupo que têm interesses investidos no</p><p>status quo. Os elementos conformistas freiam então ou tentam</p><p>contrariar as tentativas de mudança. Suas manobras são geralmente</p><p>clandestinas e tendem a criar climas de grupo que tornam as</p><p>transformações sociais provisoriamente impossíveis, de modo a não</p><p>comprometer privilégios adquiridos. No caso precedente, o grupo</p><p>seria majoritária ou totalmente conformista. No caso presente, os</p><p>elementos conformistas estão em minoria, as mudanças sociais não se</p><p>operam senão lentamente e na superfície, em razão de suas</p><p>resistências à mudança.</p><p>3. Lewin menciona, enfim, o caso dos grupos não-conformistas no</p><p>interior dos quais a totalidade ou a maioria dos membros experimenta</p><p>e sente uma inclinação para a mudança. Nestes grupos, as percepções</p><p>de grupo, as atitudes coletivas, os comportamentos de grupo são</p><p>polarizados por uma aspiração dos membros em crescer e em superar</p><p>a si mesmos como grupo. Nestes grupos, as estruturas formais são</p><p>flexíveis e funcionais. Elas favorecem entre eles relações</p><p>interpessoais, laços de interdependência e interações cada vez mais</p><p>dinâmicos.</p><p>15</p><p>O fator determinante para a mudança social será, para Lewin, o clima de</p><p>grupo dominante, também chamado por ele de atmosfera de grupo, a qual tem caráter</p><p>intangível mas existência objetiva. O clima ou atmosfera grupal pode ser entendido</p><p>como o ânimo, disposição, tom emocional ou sentimento de bem-estar ou desconforto</p><p>que se difunde no grupo em relação às pessoas e aos acontecimentos. O clima ou</p><p>tonalidade emocional faz com que a atmosfera grupal seja amistosa ou hostil, calorosa</p><p>ou fria, rígida ou flexível, cordial ou agressiva. Para Kurt Lewin, a atmosfera do grupo</p><p>depende diretamente do tipo de liderança que nele se exerce: a atmosfera autoritária</p><p>carrega maior tensão, enquanto a democrática é marcadamente mais favorável à</p><p>produtividade, criatividade e cooperação grupal. Pode-se considerar, nesse sentido, que</p><p>o sentimento de igualdade é um dos elementos que podem contribuir para criar uma boa</p><p>atmosfera grupal.</p><p>Conforme Mailhiot (1997), “havia para Kurt Lewin um problema</p><p>fundamental que ele procurou elucidar até sua morte: que estruturas, que dinâmica</p><p>profunda, que clima de grupo, que tipo de leadership permitem a um grupo humano</p><p>atingir autenticidade em suas relações tanto intra-grupais quanto inter-grupais, assim</p><p>como a criatividade em suas atividades de grupo?” (p.15). Em seu curto tempo de vida,</p><p>o psicólogo iniciou a exploração de três problemas-chave vinculados a essa</p><p>problemática: a comunicação, o aprendizado da autenticidade e o exercício de</p><p>autoridade em grupos de trabalho, temáticas que continuaram a ser investigadas por</p><p>seus seguidores.</p><p>Considerações finais</p><p>Diante do exposto, vemos que a contribuição de Kurt Lewin para a</p><p>ciência psicológica em geral e para o estudo dos processos grupais foi ímpar. Sua</p><p>produção não é, contudo, isenta de críticas.</p><p>Dentre elas, destacamos, a partir de G. Lapassade, a forte influência</p><p>sofrida pela perspectiva lewiniana dos valores ideológicos da sociedade americana e sua</p><p>democracia liberal (ANDALÓ, 2006).</p><p>Embora sua produção se mostre engajada com os problemas sociais de</p><p>sua época, seus pressupostos se revelam a-históricos e explicitamente comprometidos</p><p>com os ideais de produtividade, trazendo implícita a perspectiva de harmonização,</p><p>manutenção e ajustamento. Para Martin-Baró (2017, p.105), o conceito de dinâmica de</p><p>grupo é, em si, problemático, pois refere-se a “(...) forças e processos produzidos no</p><p>interior do grupo, na interação dos membros, como se o pequeno grupo fosse uma</p><p>entidade fechada e independente do mundo”.</p><p>16</p><p>Ainda que muitos dos processos descritos e analisados por Lewin e seu</p><p>grupo tenham importância teórica e validade, o enfoque adotado assumia</p><p>implicitamente a perspectiva do poder estabelecido, “a partir da perspectiva de quem</p><p>busca fazer com o que o grupo aceite metas convenientes para aqueles que possuem</p><p>poder social” (p.105).</p><p>Referências:</p><p>AFONSO, M. L. M. Oficinas de dinâmica de grupo: um método de intervenção psicossocial.</p><p>São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.</p><p>ANDALÓ, C. Mediação grupal: uma leitura histórico-cultural. São Paulo: Ágora, 2006.</p><p>BARRETO, M. F. M. Dinâmica de grupo: breve histórico. In: _______. (org.) Dinâmica de</p><p>grupo: história, prática e vivências. Campinas-SP: Alínea, 2010.</p><p>CHAVES, A. V. Os processos grupais em sala de aula. Disponível em:</p><p>http://www.franca.unesp.br/oep/Eixo%203%20-%20Tema%203.pdf. Acesso em 08/abril/2011.</p><p>LEWIN, K. In: A origem do conflito no casamento (1940). In:________. Problemas de</p><p>Dinâmica de Grupo. São Paulo: Cultrix, 1948a.</p><p>LEWIN, K. Experimentos com espaço social (1939). In:________. Problemas de Dinâmica de</p><p>Grupo. São Paulo: Cultrix, 1948b.</p><p>LEWIN, K. O ódio a si mesmo entre os judeus (1941). In:________. Problemas de Dinâmica de</p><p>Grupo. São Paulo: Cultrix, 1948c.</p><p>MAILHIOT, G. B. Dinâmica e gênese dos grupos. 4ª ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades,</p><p>1977.</p><p>MARTIN-BARÓ, I. Sistema, grupo y poder: Psicología social desde Centroamérica (II). 5ª ed.</p><p>El Salvador: UCA editores, 2004.</p>

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