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PSICANÁLISE, SAÚDE E 
SOCIEDADE 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Kályton Resende 
 
 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Nesta etapa, vamos mergulhar profundamente no conceito de Síndrome 
do Impostor, explorando-o não apenas como um fenômeno psicológico 
individual, mas como uma experiência profundamente enraizada nas dinâmicas 
sociais e culturais de poder, saber e identidade. Vamos analisar como a 
ascensão social, especialmente por meio da educação, pode reconfigurar a 
percepção de si mesmo e influenciar as relações com os outros. 
A Síndrome do Impostor é um transtorno psicológico caracterizado pela 
dúvida doentia e persistente sobre o próprio sucesso, em que a pessoa percebe 
suas conquistas como acidentais e teme que sua suposta incompetência seja 
descoberta. Este transtorno é comum em profissionais, como professores, que 
enfrentam avaliações constantes e está associado a sentimentos de 
inadequação e medo de exposição. O artigo intitulado “A Síndrome do Impostor: 
Um Olhar para a Saúde Mental de Professores”, escrito por Dartel Ferrari de 
Lima e publicado na revista Perspectivas em Diálogo: Revista de Educação e 
Sociedade, v. 10, n. 22, de janeiro a março de 2023, explora a dimensão 
cognitiva desta síndrome em professores, destacando o sofrimento emocional e 
a autoimagem negativa associada. 
O conteúdo será estruturado em cinco tópicos principais, cada um 
abordando diferentes aspectos da Síndrome do Impostor e da arrogância no 
contexto da ascensão social. Vamos integrar teorias de autores como Michel 
Foucault (1976, 1977, 1980a, 1980b) e Friedrich Nietzsche, além de pesquisas 
contemporâneas sobre psicologia social e educação. 
Nosso principal objetivo é fornecer uma compreensão mais matizada da 
Síndrome do Impostor, destacando como as experiências de ascensão social e 
educação remodelam a percepção de si mesmo e as interações sociais. 
Queremos desafiar a visão tradicional da síndrome e mostrar como ela se 
entrelaça com questões mais amplas de poder, saber e identidade. 
Neste segmento, abordaremos a intrincada relação entre poder, saber e 
arrogância, um trio dinâmico que desempenha um papel crucial na forma como 
as pessoas percebem e interagem umas com as outras em contextos de 
ascensão social. Inspirados pelas ideias de Michel Foucault, vamos explorar 
como esses conceitos se entrelaçam e influenciam as relações sociais e a 
autoimagem. 
 
 
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TEMA 1 – PODER, SABER E ARROGÂNCIA 
Foucault, em suas obras, discute extensivamente a relação simbiótica 
entre poder e saber. Ele afirma que “o exercício do poder perpetua saber e vice-
versa” (Foucault, 1975, p. 27). Nessa perspectiva, o poder é exercido por meio 
do saber e, simultaneamente, o saber é uma forma de poder. Isso é 
particularmente relevante na ascensão social, em que a educação e o 
conhecimento adquirido podem ser vistos como ferramentas de poder. 
No contexto da ascensão social, a arrogância pode surgir como uma 
manifestação de poder. Ela pode ser vista como uma forma de alguém afirmar 
sua posse de conhecimento ou status. Foucault observa que as relações de 
poder estão em constante fluxo e são exercidas de várias formas, incluindo 
através da linguagem e do comportamento (Foucault, 1980a, p. 100). A 
arrogância, então, pode ser uma expressão dessa dinâmica de poder. 
A subjetivação, segundo Foucault, é o processo pelo qual os indivíduos 
são moldados e se moldam dentro das estruturas de poder da sociedade. Em 
História da Sexualidade, Foucault (1976, p. 59) explora como os indivíduos são 
"feitos sujeitos" dentro de certos discursos de poder. 
Nesse contexto, a arrogância pode ser entendida como uma forma de 
resistência ou uma maneira de afirmar a si mesmo contra as formas de 
subjetivação impostas. Para indivíduos em ascensão social, exibir confiança ou 
até mesmo arrogância pode ser uma resposta ao serem submetidos a processos 
de subjetivação que tentam marginalizá-los ou desvalorizá-los. 
Foucault (1977, p. 95) argumenta que onde há poder, há resistência. A 
arrogância, nesse quadro, pode ser vista como uma forma de resistência contra 
as estruturas dominantes de poder, especialmente em contextos onde as 
normas tradicionais são desafiadas pela ascensão de novos grupos sociais. 
A educação é frequentemente vista como um veículo para a ascensão 
social, proporcionando não apenas habilidades e conhecimentos técnicos, mas 
também facilitando a aquisição de um tipo de poder socialmente reconhecido. 
Bourdieu, em suas análises sobre o capital cultural, argumenta que a educação 
é uma das principais maneiras de adquirir e acumular esse capital, que é tão 
crucial na sociedade moderna (Bourdieu, 1986, p. 243). A ascensão social por 
meio da educação confere não apenas conhecimento, mas também um novo 
status e um conjunto de poderes associados a esse saber. 
 
 
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À medida que os indivíduos ascendem socialmente, eles frequentemente 
experimentam uma reconfiguração de sua identidade e status. Isso pode levar a 
um comportamento que outros podem interpretar como arrogância. Foucault 
(1980, p. 109), ao discutir as relações entre poder e saber, sugere que o 
conhecimento é uma forma de poder. Assim, quando um indivíduo exibe sua 
educação ou conhecimento adquirido, isso pode ser visto como uma 
manifestação de poder. Em contextos sociais onde o saber é altamente 
valorizado, a exibição desse saber pode ser uma afirmação do poder recém-
adquirido do indivíduo. 
A aquisição de educação e o subsequente processo de ascensão social 
podem reconfigurar as relações existentes de poder e saber. A educação eleva 
o indivíduo a um novo patamar social, onde o saber é tanto um recurso quanto 
um símbolo de status. No entanto, isso também pode criar tensões e conflitos, 
especialmente em ambientes que eram anteriormente inacessíveis para o 
indivíduo. A arrogância, nesse contexto, pode ser uma resposta às dinâmicas de 
poder desafiadoras que o indivíduo enfrenta em sua nova posição social. 
TEMA 2 – SUBJETIVAÇÃO E IDENTIDADE 
A subjetivação, como conceito desenvolvido por Michel Foucault, é 
fundamental para compreender como os indivíduos são moldados e se moldam 
em resposta às estruturas de poder e saber nas quais estão inseridos. Foucault 
(1976, p. 98), em A História da Sexualidade (1976), descreve a subjetivação 
como o processo pelo qual os indivíduos se tornam sujeitos em sociedades 
específicas. No contexto da ascensão social, esse processo torna-se 
particularmente intenso, pois os indivíduos enfrentam novas formas de saber e 
poder que podem transformar profundamente sua identidade e autoconcepção. 
A ascensão social, especialmente por meio da educação, coloca os 
indivíduos em uma posição única, em que eles muitas vezes se encontram entre 
dois mundos: o de sua origem e o do novo ambiente social ao qual aspiram 
pertencer. Essa transição pode gerar uma sensação de deslocamento, de tal 
forma que o indivíduo se sente nem completamente pertencente ao seu passado 
nem totalmente aceito em seu presente. A formação da identidade nesse 
contexto torna-se um processo dinâmico, cheio de negociações e 
reinterpretações de si mesmo. 
 
 
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Em resposta a esse deslocamento, a arrogância pode emergir como um 
mecanismo de defesa e autoafirmação. A arrogância, nesse sentido, pode ser 
interpretada não como um mero traço de personalidade, mas como uma resposta 
complexa a um ambiente que desafia constantemente o senso de pertencimento 
e valor do indivíduo. Isso é particularmente evidente em ambientes educacionais 
e profissionais, em que as diferenças de classe e cultura podem ser mais 
pronunciadas. A arrogância pode então ser vista como uma forma de o indivíduo 
reafirmar sua nova identidade e seu lugar na nova estrutura social. 
O Estágio do Espelho, um conceito fundamental na teoria psicanalítica de 
Jacques Lacan, desempenha um papel crucial na constituiçãodo sujeito. Esse 
conceito, introduzido por Lacan em seu artigo O Estágio do Espelho como 
formador da função do Eu, publicado em 1949, é baseado na ideia de que o 
desenvolvimento do eu é influenciado pela percepção de um reflexo no espelho. 
Lacan (1949) sugere que, entre os 6 e 18 meses de idade, a criança experimenta 
uma identificação primordial ao reconhecer sua imagem refletida. Esse momento 
é significativo, pois marca a primeira vez que a criança se vê como um eu 
separado e distinto do mundo externo e de outras pessoas. 
A teoria de Lacan desenvolve a noção tradicional de desenvolvimento do 
ego proposta por Freud, introduzindo a ideia de que o eu é formado pela 
linguagem e pela interação simbólica. O Estágio do Espelho, portanto, não é 
apenas um fenômeno de reconhecimento físico, mas também um processo 
simbólico. Para Lacan, a formação do eu está intrinsecamente ligada à ordem 
simbólica, que é mediada pela linguagem e cultura. A criança, ao identificar-se 
com sua imagem refletida, começa a construir uma identidade baseada não 
apenas em percepções sensoriais, mas também em significados simbólicos e 
sociais. 
Essa identificação inicial, no entanto, é marcada por uma alienação 
fundamental. Lacan (1949) argumenta que, ao se identificar com a imagem no 
espelho, a criança adquire um senso de unidade que na verdade é ilusório. Este 
momento de reconhecimento é acompanhado por uma descontinuidade, pois o 
eu percebido na imagem refletida é uma idealização. A criança vê uma versão 
de si mesma que é mais coerente e unificada do que sua experiência real de 
fragmentação e dependência. Assim, a formação do eu implica uma divisão: a 
diferença entre o eu real e o eu idealizado. 
 
 
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Essa ideia de divisão e alienação é fundamental na teoria lacaniana e se 
relaciona com a noção de falta. Lacan (1949) argumenta que a busca pela 
identidade é uma busca contínua para preencher essa falta. O eu, uma vez 
formado, está sempre em um estado de desejo, buscando constantemente algo 
que está faltando ou perdido. O desejo, portanto, é um componente central na 
constituição do sujeito. 
A influência do Estágio do Espelho estende-se além da psicanálise e 
penetra em áreas como a filosofia, a teoria cultural e os estudos de gênero. Ele 
proporciona uma estrutura para entender como os indivíduos se relacionam com 
os outros e com a sociedade em geral, e como as identidades são formadas por 
meio dessa interação. 
A jornada de ascensão social é frequentemente marcada por uma 
vivência entre dois mundos distintos – o da origem e o do destino. Esse interstício 
de identidades cria uma experiência única para os indivíduos, moldando 
profundamente a percepção que têm de si mesmos e de seu lugar no mundo. 
Indivíduos que experimentam a ascensão social, especialmente por meio 
da educação, encontram-se frequentemente navegando em um espaço de 
liminaridade. Esse conceito, explorado por Victor Turner (1969, p. 94), em O 
processo ritual, descreve um estado de estar entre fases sociais definidas. Na 
ascensão social, essa liminaridade é vivenciada quando os indivíduos deixam 
para trás suas origens, mas ainda não se integraram completamente em seu 
novo ambiente social. Essa transição pode levar a um sentimento de 
deslocamento, em que o indivíduo não se sente completamente enraizado nem 
em seu passado nem em seu presente. 
A experiência de estar entre dois mundos é particularmente intensa em 
contextos onde há diferenças significativas de classe e cultura. Bourdieu (1984, 
p. 31), em A distinção: crítica social do julgamento, discute como o capital cultural 
de um indivíduo – seus gostos, conhecimentos e comportamentos – é moldado 
pelo seu ambiente social. Para indivíduos em ascensão, o confronto entre o 
capital cultural de sua origem e o do seu novo ambiente pode ser fonte de tensão 
e confusão, afetando a maneira como veem a si mesmos e como se relacionam 
com os outros. 
No processo de ascensão social, os indivíduos são desafiados a 
reconstruir sua identidade. Esse processo pode envolver a reavaliação de 
valores antigos e a adoção de novos, um fenômeno que Goffman (1963, p. 3) 
 
 
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explora em Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada como 
as identidades são formadas e reformadas em resposta a novas informações e 
experiências. Nesse contexto, a formação da identidade não é apenas sobre 
adaptação; é também sobre resistência e negociação entre diferentes aspectos 
de si mesmo. 
No processo de ascensão social, especialmente em contextos de 
marginalização, a arrogância pode emergir como uma complexa manifestação 
de defesa e autoafirmação. Esse fenômeno é frequentemente mal interpretado 
como simples presunção ou vaidade, mas, sob um exame mais atento, revela-
se como uma resposta multifacetada às dinâmicas de poder e identidade. 
Goffman (1963, p. 208), em sua análise sobre a construção da identidade social, 
sugere que a maneira como nos apresentamos ao mundo é uma performance 
cuidadosamente orquestrada, muitas vezes moldada pela necessidade de negar 
estigmas ou preconceitos. Nesse sentido, a arrogância pode ser uma expressão 
dessa performance, um esforço para controlar a percepção dos outros e afirmar 
o próprio valor em face da marginalização. 
Indivíduos que enfrentam marginalização, seja devido à sua origem 
socioeconômica, raça, gênero ou outras características, muitas vezes 
desenvolvem mecanismos de defesa para lidar com as barreiras e preconceitos 
que encontram. A arrogância, nesse contexto, pode ser uma forma de reagir 
contra essas forças marginalizantes. É uma maneira de afirmar a si mesmo em 
um mundo que frequentemente nega reconhecimento ou respeito. Bourdieu 
(1982, p. 171), ao discutir a dinâmica do poder simbólico, argumenta que a 
linguagem e a postura – componentes frequentes da arrogância – são meios 
pelos quais os indivíduos exercem poder e resistem à dominação. A arrogância, 
portanto, pode ser entendida como uma tentativa de reivindicar um tipo de poder 
simbólico em ambientes onde o indivíduo sente que seu status ou identidade 
estão sendo desafiados. 
A autoafirmação, especialmente em contextos de marginalização, é um 
processo complexo e multifacetado. Ela envolve a reivindicação de espaço, voz 
e identidade em ambientes que muitas vezes são hostis ou indiferentes. A 
arrogância, nesse sentido, pode ser uma expressão dramática dessa 
reivindicação. Ela pode ser uma forma de os indivíduos destacarem suas 
conquistas e capacidades, especialmente quando sentem que esses aspectos 
de si mesmos estão sendo subestimados ou ignorados. 
 
 
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Além disso, a arrogância pode funcionar como uma estratégia de 
empoderamento. Para pessoas de origens marginalizadas, afirmar-se 
arrogantemente pode ser uma maneira de reverter as expectativas negativas e 
desafiar as narrativas dominantes sobre suas capacidades e valor. É uma forma 
de dizer "Eu sou capaz, sou digno e mereço estar aqui", uma mensagem 
importante em um trajeto de ascensão onde a legitimidade do indivíduo é 
frequentemente posta em dúvida. 
TEMA 3 – NIETZSCHE E A AFIRMAÇÃO DO SELF 
Friedrich Nietzsche, um dos filósofos mais influentes e provocativos do 
século XIX, oferece uma perspectiva única sobre a afirmação do self, 
especialmente relevante no contexto da ascensão social. Em suas obras, como 
Assim Falou Zaratustra e Além do Bem e do Mal, Nietzsche (1883, 1886) desafia 
as noções convencionais de moralidade, identidade e poder, propondo uma 
reavaliação radical do self e de sua relação com o mundo 
A ideia do Übermensch, ou Super-homem, é central na filosofia de 
Nietzsche. O Übermensch representa um ideal de humanidade que transcende 
as limitações morais e culturais convencionais, buscando criar seus próprios 
valores e significados. Para indivíduos em ascensão social, essa ideia pode ser 
interpretada como um chamado para transcender as limitações de sua origeme 
das expectativas sociais, redefinindo seu lugar no mundo com base em seus 
próprios termos. A arrogância, nesse contexto, pode ser vista não como uma 
falha, mas como uma manifestação da vontade de poder e da autoafirmação 
(Nietzsche, 1883). 
Nietzsche contrasta os princípios dionisíacos de paixão, êxtase e caos 
com os apolíneos de ordem e racionalidade. Em O Nascimento da Tragédia, ele 
explora como esses dois princípios se manifestam na arte e na vida (Nietzsche, 
1872). No processo de ascensão social, o princípio dionisíaco pode ser expresso 
através de uma exuberante afirmação da própria existência e capacidades, 
desafiando as normas e estruturas que buscam restringir e definir o indivíduo. A 
arrogância, assim, pode ser um ato de rebelião dionisíaca, uma celebração da 
própria vitalidade e realização contra as forças apolíneas de conformidade e 
submissão. 
A vontade de poder é um conceito-chave na filosofia de Nietzsche, 
frequentemente mal interpretado como uma simples busca por dominação. No 
 
 
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entanto, Nietzsche vê a vontade de poder como uma força vital, uma aspiração 
fundamental para alcançar e expressar o máximo potencial de um indivíduo 
(Nietzsche, 1886). No contexto da ascensão social, a vontade de poder pode ser 
uma força motriz para superar barreiras e alcançar novos patamares de 
realização e reconhecimento. A arrogância, nesse sentido, pode ser uma 
expressão da vontade de poder, um sinal de que o indivíduo está se esforçando 
para alcançar e afirmar seu lugar no mundo. 
Friedrich Nietzsche, em sua obra seminal Assim Falou Zaratustra, 
introduziu o conceito do Übermensch, frequentemente traduzido como Super-
homem (Nietzsche, 1886). Esse conceito representa não apenas um ideal 
filosófico, mas também um chamado para a transcendência individual e a 
redefinição dos valores e da identidade. O Übermensch é alguém que supera as 
convenções morais e sociais tradicionais, criando seus próprios valores e 
definindo o significado da sua existência. Para Nietzsche, o Übermensch é o 
ápice da evolução humana, uma figura que ultrapassa os limites do que é 
considerado normal ou aceitável pela sociedade. 
No contexto da ascensão social, o conceito do Übermensch pode ser 
particularmente inspirador. Para indivíduos que estão emergindo de contextos 
de marginalização ou desvantagem, a ideia de transcender limites e redefinir o 
próprio caminho pode ser uma poderosa fonte de motivação e autoafirmação. O 
Übermensch, nesse sentido, simboliza a capacidade de superar as barreiras 
impostas pela origem social e as expectativas pré-concebidas, abrindo caminho 
para uma nova forma de ser e agir no mundo. 
A vontade de poder, outro conceito central na filosofia de Nietzsche, é 
fundamental para a compreensão da autoafirmação na ascensão social. Para 
Nietzsche, a vontade de poder é uma força intrínseca que impulsiona os 
indivíduos a alcançar, a se superar e a moldar o mundo ao seu redor (Nietzsche, 
1886). Na jornada de ascensão social, a vontade de poder pode manifestar-se 
como uma busca incansável por realização, reconhecimento e um lugar legítimo 
na sociedade. Essa força pode, às vezes, ser interpretada como arrogância, mas 
sob uma lente nietzschiana, é uma expressão vital da própria existência e 
aspiração. 
É importante notar que as ideias de Nietzsche sobre o Übermensch têm 
sido objeto de numerosas interpretações e críticas. Alguns argumentam que a 
noção de superar e redefinir valores pode levar a um individualismo extremo ou 
 
 
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a uma justificação para comportamentos egocêntricos ou até mesmo tirânicos. 
No entanto, uma interpretação mais equilibrada sugere que o Übermensch é um 
chamado para a autoexploração, autoexpressão e uma reavaliação constante do 
que significa ser humano em um mundo em constante mudança. 
Friedrich Nietzsche, em sua obra O nascimento da Tragédia, introduz a 
ideia do dionisíaco como um elemento fundamental da experiência humana 
(Nietzsche, 1872). O dionisíaco, associado ao deus grego Dionísio, representa 
o caos, a paixão, a espontaneidade e a irracionalidade. Para Nietzsche, o 
dionisíaco é uma força vital que celebra a vida em sua totalidade, incluindo seus 
aspectos mais selvagens e instintivos. Essa perspectiva contrasta com o 
apolíneo, que representa a ordem, a lógica e a racionalidade. 
No contexto da ascensão social e da autoafirmação, o princípio dionisíaco 
pode ser interpretado como uma expressão de paixão e resistência contra as 
normas e estruturas opressivas. Para indivíduos que emergem de contextos 
marginalizados ou restringidos, abraçar o dionisíaco pode significar uma 
celebração de suas próprias identidades, desejos e aspirações, muitas vezes em 
oposição às expectativas sociais convencionais. A arrogância, nesse sentido, 
pode ser vista como uma manifestação do dionisíaco – uma forma de proclamar 
a própria existência com força e audácia, desafiando as normas que buscam 
limitar e definir o indivíduo. 
Nietzsche vê o dionisíaco como uma celebração da vida em todas as suas 
formas, incluindo a aceitação e a integração dos aspectos mais turbulentos e 
desordenados da existência. No processo de ascensão social, em que os 
indivíduos enfrentam inúmeros desafios e barreiras, adotar uma postura 
dionisíaca pode ser uma forma de afirmar a própria vida e experiências, mesmo 
que isso seja percebido como arrogância por outros. É uma maneira de dizer “eu 
existo, eu tenho valor, e eu tenho o direito de expressar minha voz e minha 
verdade”. 
A abordagem dionisíaca é particularmente relevante em contextos de 
marginalização, onde os padrões e estruturas sociais dominantes 
frequentemente negam reconhecimento e respeito às experiências e identidades 
de indivíduos marginalizados. Aqui, a arrogância pode ser um ato de resistência, 
uma recusa em ser silenciado ou invisibilizado. É um desafio às estruturas que 
buscam minimizar ou negar a legitimidade das experiências e conquistas desses 
indivíduos. 
 
 
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TEMA 4 – O INVESTIMENTO NARCÍSICO REINTERPRETADO 
Para indivíduos pobres e racializados, o mundo frequentemente envia 
mensagens de inferioridade, seja por meio de discriminações abertas, 
preconceitos velados ou sistemas estruturais de opressão. O investimento 
narcísico, nesse contexto, pode ser visto não como um ato de vaidade, mas 
como um ato de resistência — um meio de contrapor as mensagens negativas 
que recebem e afirmar seu próprio valor e dignidade. 
O conceito de narcisismo, frequentemente entendido de forma negativa 
na psicologia e na cultura popular, merece uma reinterpretação, especialmente 
no contexto da ascensão social. Tradicionalmente associado a uma auto-
obsessão patológica ou a um amor excessivo por si mesmo, o narcisismo, na 
ótica da psicanálise, é um componente essencial do desenvolvimento do ego. 
Freud, em Introdução ao narcisismo (1914), explora o narcisismo como uma fase 
normal e necessária no desenvolvimento psíquico do indivíduo (Freud, 1914). 
No processo de ascensão social, o investimento narcísico pode ser entendido 
não apenas como uma busca por autoengrandecimento, mas como uma 
estratégia de sobrevivência e autoafirmação em ambientes novos e 
frequentemente hostis. 
Para indivíduos que enfrentam desafios significativos em sua jornada de 
ascensão – seja por barreiras sociais, econômicas ou culturais –, o investimento 
narcísico pode funcionar como um mecanismo de defesa. Esse investimento 
pode ser uma forma de proteger e fortalecer o ego contra as adversidades e 
rejeições enfrentadas. Em contextos em que a identidade e o valor de um 
indivíduo são constantemente questionados ou desvalorizados, o narcisismo 
pode servir como um baluarte contra a internalização de percepções negativas. 
A ascensão social muitas vezes implica uma luta por reconhecimento e 
validação em novos contextos sociais. O investimento narcísico, nesse sentido, 
pode ser uma expressão dessa busca,uma tentativa de afirmar o próprio valor 
e conquistas. Longe de ser uma mera exibição de vaidade, pode ser uma 
resposta à necessidade de ser visto e reconhecido como competente, capaz e 
digno de respeito. 
Além de ser um mecanismo de defesa, o narcisismo pode ser uma fonte 
de resiliência. Ele pode fornecer a força emocional necessária para enfrentar 
desafios e perseverar diante de obstáculos. Em um percurso de ascensão social 
 
 
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cheio de incertezas e dificuldades, o amor próprio e a autovalorização podem ser 
recursos psicológicos valiosos, ajudando os indivíduos a manterem uma visão 
positiva de si mesmos e de suas capacidades. 
TEMA 5 – RECONFIGURANDO A SÍNDROME DO IMPOSTOR 
A Síndrome do Impostor, um fenômeno psicológico em que indivíduos 
duvidam de suas conquistas e têm um medo persistente de serem expostos 
como fraudes, é frequentemente discutida no contexto profissional e acadêmico. 
No entanto, sua interpretação tradicional necessita de uma reavaliação 
significativa quando aplicada ao contexto da ascensão social. 
Indivíduos em ascensão social, especialmente aqueles provenientes de 
ambientes menos privilegiados, muitas vezes enfrentam desafios únicos que 
podem reconfigurar a experiência e percepção da síndrome. Em vez de serem 
impulsionados por um medo de inadequação baseado em padrões internos, seu 
sentimento de impostura pode ser exacerbado por fatores externos, como 
preconceitos sociais e estereótipos. Clance e Imes (1978), ao introduzirem o 
conceito em 1978, focaram principalmente em mulheres de alta conquista, mas 
não abordaram em profundidade as dimensões sociais e culturais que podem 
influenciar essa percepção. 
A ascensão social implica uma redefinição do que é considerado mérito e 
autenticidade. Indivíduos que superam obstáculos significativos para ascender 
socialmente muitas vezes desenvolvem uma consciência aguda do valor e da 
legitimidade de suas conquistas. Essa consciência pode entrar em conflito com 
as noções convencionais de mérito e sucesso, particularmente em ambientes 
que historicamente valorizaram determinados tipos de conquistas ou trajetórias. 
Essa redefinição de mérito pode levar a uma complexa dinâmica 
psicológica. Por um lado, os indivíduos podem se sentir orgulhosos de suas 
realizações; por outro, podem enfrentar a desconfiança ou a desvalorização de 
suas experiências por parte de outros. Esse confronto pode intensificar 
sentimentos associados à Síndrome do Impostor, mas com uma camada 
adicional de complexidade: a dúvida sobre a autenticidade não vem apenas de 
dentro, mas também é refletida e reforçada por estruturas sociais e culturais. 
 
 
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NA PRÁTICA 
Que horas ela volta, um aclamado filme brasileiro dirigido por Anna 
Muylaert, apresenta a história de Val, uma empregada doméstica, e sua filha 
Jéssica, que se muda para São Paulo para prestar vestibular. Jéssica, vinda de 
um contexto social mais humilde, entra em um mundo novo e desafiador, 
representando uma jornada de ascensão social e enfrentamento de barreiras 
culturais e de classe. 
Jéssica, ao chegar em São Paulo e integrar-se na casa onde sua mãe 
trabalha, encontra-se na encruzilhada de identidades. Ela não compartilha das 
normas e expectativas da família para a qual sua mãe trabalha, mas também 
não se enquadra completamente no ambiente de onde veio. Esse cenário reflete 
a discussão sobre estar entre dois mundos, onde Jéssica luta para manter sua 
identidade e valores enquanto navega em um novo espaço social. Sua 
experiência ressalta a dinâmica de subjetivação e a construção da identidade em 
um contexto de ascensão social. 
Jéssica exibe uma confiança que é frequentemente interpretada como 
arrogância pela família para a qual sua mãe trabalha. Essa percepção pode ser 
analisada sob a luz das teorias discutidas nesta etapa, particularmente a ideia 
de que a arrogância pode emergir como um mecanismo de defesa e 
autoafirmação em contextos de marginalização. Jéssica usa sua arrogância não 
como um sinal de superioridade, mas como uma forma de afirmar seu direito de 
ocupar espaço e ser tratada com igualdade e respeito. 
A trajetória de Jéssica desafia a narrativa tradicional da Síndrome do 
Impostor. Ela enfrenta obstáculos e preconceitos, mas sua autoconsciência e 
entendimento de seu mérito e capacidades são fortes. Jéssica não demonstra 
dúvidas significativas sobre suas habilidades ou realizações, apesar das 
barreiras impostas pela classe e pelas expectativas sociais. Isso exemplifica 
como a experiência de ascensão social pode levar a uma nova compreensão da 
síndrome, onde as dúvidas internas são substituídas por uma luta contra as 
percepções e estruturas externas. 
FINALIZANDO 
Ao longo deste conteúdo, exploramos a complexidade da ascensão social 
e como ela impacta a autoimagem e as interações sociais. Discutimos como 
 
 
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conceitos como a Síndrome do Impostor e a arrogância, geralmente vistos de 
maneira simplista, ganham novas dimensões quando inseridos em contextos de 
mudança social e de classe. 
Em conclusão, esta etapa ressalta a importância de reconhecer a 
complexidade das experiências de indivíduos em ascensão social. Ao reavaliar 
conceitos como a Síndrome do Impostor e a arrogância, podemos entender 
melhor como eles se entrelaçam com questões mais amplas de poder, 
identidade e resistência. Essa compreensão nos permite apreciar a jornada de 
ascensão social não apenas como uma mudança econômica, mas também 
como um processo de transformação pessoal e social profundo. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
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