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TÉCNICA DE ENTREVISTA E ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Conceituar empatia. > Explicar o papel da empatia na análise de casos. > Identificar empatia como modalidade de escuta, forma de comunicação e fator terapêutico. Introdução As relações interpessoais são caracterizadas pela diversidade de elementos que compõem o contato estabelecido entre duas ou mais pessoas e que ocorre nos mais variados espaços. Essas relações podem ser comerciais, educativas, familiares, organizacionais, entre outras possibilidades. No entorno dessas relações, é possível identificar a empatia: a capacidade de alguém se colocar no lugar do outro em compartilhamento de eventos vivenciados, geralmente compostos por situações não agradáveis. Contudo, a compreensão da empatia vai além das relações cotidianas. Ela também está presente no processo terapêutico, em que a relação entre o psicólogo e o cliente ocorre de modo empático. Neste capítulo, você vai ver os aspectos que caracterizam a empatia, tendo como referência as abordagens teóricas da psicologia, com destaque para es- tudiosos como Carl R. Rogers, J. M. Baldwin e M. L. Hoffman. Além disso, vai co- nhecer os aspectos que permitem que os eventos compartilhados pelos clientes sejam analisados pelos psicólogos, motivados pela empatia. Por fim, vai estudar as perspectivas da empatia e como elas podem incidir no desenvolvimento do processo terapêutico. A empatia na clínica psicológica Lívia da Cruz A noção de empatia na clínica psicológica Em geral, ao estabelecermos o contato com uma ou mais pessoas, nos depara- mos com um apanhado de questionamentos, compartilhamos a opinião sobre um determinado evento e podemos estar dispostos a partilhar uma experi- ência menos agradável. Essa partilha pessoal representa a disponibilidade de receber o retorno de uma palavra de conforto ou mesmo uma chamada de atenção. Também pode ser um indicativo de como a experiência pode ser ressignificada. A relação estabelecida entre você e a pessoa que apresentou o comportamento de escuta atenta pode ser compreendida como empática. O termo empatia tem origem grega. É uma derivação da palavra empatheia, que significa ser muito afetuoso. Já no vocábulo alemão, a palavra einfühlung traz a compreensão do termo como um processo de imitação interna. O psicó- logo Edward B. Titchener (1867‒1927), em 1909, apresentou uma tradução, em que einfühlung é identificada na terminologia inglesa como empathy (CUNHA, 2016; MARTINS et al., 2018; SAMPAIO; CAMINO; ROAZZI, 2009). Dentre as características que identificam a empatia, está a habilidade de a pessoa se colocar no lugar do outro em relação à experiência vivenciada e partilhada por outrem. É estabelecida uma compreensão mútua, em que os aspectos cognitivos e afetivos são considerados (CUNHA, 2016). Com base na empatia, é possível que se configure uma percepção diferenciada do eu sobre o vivenciado pelo outro, sem uma cobrança vexatória ou de julgamento. É comum nos depararmos com alertas sobre a importância da empatia quando há uma incidência significativa de eventos sensíveis à sociedade, como acidentes naturais, respostas indevidas a uma situação generalizada de crise sanitária ou situação de autoridade equivocada do professor em sala de aula. A percepção empática sobre esses eventos e outros compreendidos como sensíveis está pautada em uma relação interpessoal generalizada, que considera que pessoas com características semelhantes ou distintas e que atuam nos mais diversos espaços podem manifestar essa empatia. A seguir, vamos descobrir se isso também acontece no atendimento psicoterápico. A empatia na clínica psicológica2 A empatia presente na prática da psicologia A empatia representa um ponto essencial para a configuração do ambiente terapêutico. É importante que o cliente (a pessoa que apresenta a queixa que será acompanhada pelo psicólogo) seja recebido com atenção, se sinta confortável no ambiente onde será acompanhado e tenha segurança em partilhar as experiências íntimas. O papel desempenhado pelo psicólogo contempla a habilidade da em- patia, mesmo que haja uma variação no modo como essa empatia deve ser expressa, no que tange a abordagem teórica de referência. A empatia pode ser expressa tanto pelo comportamento verbal quanto pelo não verbal (SAMPAIO; CAMINO; ROAZZI, 2009). Com atenção ao resgate cronológico e de desenvolvimento de algumas das abordagens teóricas da psicologia, vamos acompanhar a percepção da importância da empatia para a constituição da relação psicólogo-cliente. Vamos começar pelos registros do início do século XIX. Algumas áreas da psicologia estavam atentas à empatia, com a demarcação da psicologia da personalidade, em que a compreensão sobre as vivências do outro represen- tavam uma percepção sobre os sentimentos envolvidos (SAMPAIO; CAMINO; ROAZZI, 2009). No século XX, as impressões sobre a empatia foram debatidas de modo alargado, o que resultou em contextualizações diferenciadas. O Quadro 1 mostra os principais aspectos dessa diferenciação. Quadro 1. Impressões das áreas da psicologia sobre a empatia Abordagem teórica (área da psicologia) Referência Principais aspectos da empatia Abordagem centrada na pessoa (ACP) Carl R. Rogers � Desenvolvimento de sentimen- tos de empatia pelo cliente. � Adequação do clima terapêutico. � Habilidade assimilada que estabelece o vínculo en- tre duas pessoas de ordem cognitivo-afetivas. � Compreensão interna, que de- corre sem o eu julgar a subjeti- vidade do outro. � Técnicas de estudo empírico da empatia. (Continua) A empatia na clínica psicológica 3 Abordagem teórica (área da psicologia) Referência Principais aspectos da empatia Psicologia social � C. Daniel Batson (1943‒presente) � Bruce D. Duncan � Paula Ackerman � Terese Buckley � Kimberly Birch � J. S. Coke � D. C. Batson � K. McDavis � D. Krebs � Estudos pautados em compor- tamentos de ajuda, altruísmo, empatia. � Empatia, simpatia e compaixão. � Aspectos motivacionais. Psicologia do desenvolvimento J. M. Baldwin � Capacidades empáticas sob a perspectiva infantil. � Feshbach Affective Situation Test for Empathy (Faste). Em tra- dução livre: teste de Feschbach para verificar a situação afetiva para empatia). � Destaque ao reconhecimento das emoções do outro. Psicologia evolutiva (psicogenética e evolutiva) M. L. Hoffman � Resposta vicária à imagem men- tal que o eu tem em relação ao sofrimento do outro. � Diferenciação do self (eu). � Angústia empática (centrada no self) ≠ angústia simpática (dire- cionada ao outro — compaixão, ajudar o outro). Psicologia cognitivista R. F. Dymond L. Wispé � Habilidade cognitiva de com- preender as outras pessoas com atenção aos pensamentos, sentimentos ou intenções. � Perspectiva de foco cognitivo. (Continuação) (Continua) A empatia na clínica psicológica4 Abordagem teórica (área da psicologia) Referência Principais aspectos da empatia Neurociências � N. Enz � N. Zoll � William James � J. Decety � P. L. Jackson � Existência de aspectos ideomo- tores (correspondem à manifes- tação de movimentos muscula- res inconscientes). � Neurônios-espelho. � O eu apresenta movimentos se- melhantes ao outro, como uma reação de ordem empática. � Perception action model (PAM). Em português, percepção de modelo de ação. � Experiência fenomênica so- mente humana; bases evolu- tivas; elementos cognitivos presentes. Fonte: Adaptado de Cunha (2016), Pimentel, Alberto e Moreira-Almeida (2016) e Sampaio, Camino e Roazzi (2009). Como um apanhado geral dos aspectos destacados no Quadro 1, é possível citar a teoria rogeriana, de Carl Rogers, em que o cliente é recebido em “[...] um ambiente de aceitação incondicional”, além da expressividade relacionada à autenticidade de sentimentos, comportamentos e pensamentos (CUNHA, 2016, p. 7). A psicologia social, de modo ampliado, chama a atenção para as diferenças existentesentre a empatia, a simpatia e a compaixão, e como elas estão relacionadas a questões motivacionais. A psicologia do desenvolvimento contextualiza as descobertas da infância, em que a empatia é expressa pelo reconhecimento das emoções do outro. Também apresenta o teste Faste. Em relação à psicogenética, entende-se a empatia como uma experiência subjetiva multifacetada, em que ocorre o desenvolvimento gradativo dos elementos afetivos e cognitivos, além da diferenciação entre a angústia empática e a angústia simpática (SAMPAIO; CAMINO; ROAZZI, 2009). No apanhado dos apontamentos da psicologia cognitivista, se intensifica a perspectiva cognitiva ao se entender a empatia como uma habilidade de compreender as intenções, os pensamentos ou os sentimentos do outro. Já a neurociência chama a atenção para os neurônios-espelho e os movimentos ideomotores (CUNHA, 2016; SAMPAIO; CAMINO; ROAZZI, 2009). (Continuação) A empatia na clínica psicológica 5 É importante citar que existe uma frente que defende a perspectiva multidi- mensional — e não unidimensional — da empatia, como Batson, Davis, Siu e Shek e Enz e Zoll (SAMPAIO; CAMINO; ROAZZI, 2009). Esse construto multidimensional evidencia os sentimentos do self e o desejo de ajudar o outro em sofrimento. O acompanhamento das percepções sobre a definição da empatia, com relação às abordagens teóricas que constituem a psicologia, movimenta as áreas que representam o âmbito social, do desenvolvimento e da clínica. A seguir, vamos identificar como a empatia está presente no processo de análise de casos manifestos. Análise de casos e as intervenções empáticas Como já visto, a empatia está presente na relação estabelecida entre o psi- cólogo e o cliente. Por haver uma especificidade quanto ao desenvolvimento do acompanhamento psicoterápico realizado, considerando as características das abordagens teóricas, é importante apresentar um apanhado geral de algumas dessas abordagens, tendo a relação com a empatia em destaque. A empatia presente nas intervenções verbais psicanalíticas Ao pensar na abordagem psicanalítica, é natural que, dentre a lista de teóri- cos clássicos, façamos uma associação direta ao nome de Sigmund S. Freud (1856‒1939). Afinal, ele é considerado o pai da psicanálise. Tendo como referência um apanhado geral dos preceitos registrados por Freud, a empatia foi apontada como um ponto essencial para o desenvolvimento da análise, considerando o modo como o analista deve estabelecer o acordo do estágio terapêutico. Freud também chamou a atenção para o processo de compreensão do ego estranho do outro, ou seja, de que a empatia permitia ao analista acessar o ego ainda desconhecido do outro. Em outras palavras, é como se o analista trou- xesse à luz o ego do qual o cliente ainda não tem conhecimento (DUQUE, 2018). Os estudos psicanalíticos seguiram, e algumas percepções sobre as es- tratégias de atuação clínica foram amplificadas. Um exemplo é o que foi disposto pelo discípulo de Freud, o psicanalista Sandor Ferenczi (1873‒1933). Ferenczi pontua que o preceito básico da empatia, que está relacionada à capacidade do eu em se colocar no lugar do outro no compartilhamento dos eventos vivenciados, é inflamado com o compromisso do analista de também ser analisado (FALZEDER; BRABANT, 1993). A empatia na clínica psicológica6 Para Ferenczi, a partir do momento em que o analista é analisado, ele consegue perceber a fundo suas limitações e demais particularidades, o que vai contribuir para a sua prática profissional de analista (DUPONT, 1995). Com isso, o analista passa a sentir com firmeza os descontentamentos e as dores sinalizadas e experienciadas pelo cliente. Outro ponto essencial do processo analítico se refere ao tato psicológico, que representa a atenção ao modo como o analista deve comunicar algo ao cliente (DUQUE, 2018; PIMENTEL; COELHO JUNIOR, 2009). Penélope atuava como psicóloga clínica há alguns anos e sempre esteve atenta aos preceitos da abordagem psicanalítica, seja no modo como mantinha a postura e a organização do espaço terapêutico, seja na ênfase da empatia para o desenvolvimento da análise. Em uma tarde, Penélope atendeu duas pessoas que tinham modos de lidar com eventos menos agradáveis da vida muito diferentes. Essa diferença também refletia no modo como Penélope comunicava algo para essas pessoas. Um cliente precisava de uma verbalização mais pontual, já o outro demandava uma fala mais sutil, por exemplo. Essa percepção da psicanalista corresponde ao tato psicológico. Após um período de instabilidade da relação da intervenção empática no espaço clínico, Heinz Kohut (1913‒1981) restabeleceu essa relação, e a empatia passou a ser protagonista na psicanálise, tendo o final dos anos 1950 como referência (PIMENTEL; COELHO JUNIOR, 2009). Kohut pontua que a observação analítica parte de um olhar sobre o que constitui o interno do cliente (KOHUT, 2013; ORNSTEIN, 2018). Com isso, para que os dados dos fenômenos psíquicos sejam resgatados, a empatia é o método a ser usado. O autor também chama a atenção para a definição da empatia como uma introspecção vicária, que decorre do eu no lugar do outro, e o acesso aos elementos não verbais acontece pela sintonia entre o analista e o cliente, configurando uma compreensão emocional (DUQUE, 2018; PIMENTEL; COELHO JUNIOR, 2009). A terapia cognitivo comportamental e a relação terapêutica empática Dentre os nomes de referência dos estudos da abordagem cognitivista, há o da psicóloga americana Judith S. Beck (1954‒presente), que entende a empa- tia como uma habilidade interpessoal que possibilita que a relação entre o psicoterapeuta e o cliente seja potencializada para além das competências técnicas do psicoterapeuta (ARAÚJO, 2014). A empatia na clínica psicológica 7 Na terapia cognitivo comportamental, a empatia permite que o psico- terapeuta tenha uma maior compreensão dos sentimentos e pensamentos do cliente, o que contribui para a constituição de uma relação terapêutica positiva. Os desafios inerentes ao tratamento são desconstruídos de modo cooperativo (MARTINS et al., 2018). Como representante dos estudos e práticas da terapia cognitivo compor- tamental na atualidade, destaca-se os apontamentos da psicóloga brasileira Eliane M. de O. Falcone. Ela, em conjunto com outros pesquisadores, fez uma chamada de atenção para os três componentes associados à empatia: cognitivos, afetivos e comportamentais (Quadro 2) (MARTINS et al., 2018). Quadro 2. Características dos componentes relacionados à empatia Componentes Características Cognitivos (tomada de perspectiva) Aprimoramento da capacidade de compreensão dos sentimentos e dos pensamentos de alguém. Afetivos (sensibilidade afetiva) Legitimidade do interesse pelo bem-estar do outro. Comportamentais Comprometimento com as manifestações de comunicação verbal e não verbal que expressam que o outro está sendo compreendido. Fonte: Adaptado de Martins et al. (2018). Os componentes citados no Quadro 2, além de comporem a relação en- tre psicoterapeuta e cliente, promovem reflexões sobre como as relações interpessoais são desenhadas. Elas podem interferir no progresso ou não das relações familiares, de amizade ou mesmo laborais, caso a capacidade empática seja reduzida (MARTINS et al., 2018). Em relação ao componente comportamental expresso pela comunicação verbal, Falcone apresenta algumas possibilidades de manifestação, como o não julgamento dos sentimentos e pensamentos do outro, a ser confirmado verbalmente, e a contextualização dos sentimentos partilhados pelo outro, com a validação deles (ARAÚJO, 2014). A verbalização empática representa um ponto essencial na caracterização da terapia cognitivo comportamental, o que contribui para o estabelecimento do vínculo entre o psicoterapeuta e o cliente e para a constituição de um processo terapêutico promissor (MARTINS et al., 2018). A empatia na clínica psicológica8 O ambiente terapêutico da ACP e a empatiaA ACP, também conhecida como psicologia humanista, tem como principal representante o psicólogo Carl R. Rogers. Em relação ao processo terapêutico, Rogers enfatiza a compreensão empática, caracterizada pela sensibilização do psicoterapeuta em relação aos sentimentos do cliente. A compreensão empática representa o desenvolvimento técnico do psi- coterapeuta em vivenciar com clareza o que foi experienciado pelo cliente e ter como resultado a formulação clara dessa vivência (do psicoterapeuta) a ser transmitida ao cliente (FONTGALLAND; MOREIRA; MELO, 2018). Também é enfatizada a importância do ambiente terapêutico, que deve ser acolhedor e proporcionar ao cliente uma experiência de partilha desprendida de receios, sem o julgamento do psicoterapeuta. O psicoterapeuta, pautado na compreensão empática, fundamenta a relação de vínculo afetivo e cognitivo com o cliente, inspirando o amadure- cimento interno do cliente e seu crescimento (FONTGALLAND; MOREIRA, 2012; SAMPAIO; CAMINO; ROAZZI, 2009). Empatia e suas representações A empatia é reconhecida como um conjunto de características atreladas ao desenvolvimento das relações interpessoais em diversos contextos. Com atenção às relações estabelecidas no processo terapêutico, vamos apontar a seguir três perspectivas que indicam um aprofundamento desse processo na relação psicólogo e cliente. Modalidade de escuta A perspectiva de modalidade de escuta tem como referência as noções de tato psicológico e de introspecção vicária, que indicam que a empatia é uma condição prévia para que as informações partilhadas pelo cliente sejam interpretadas. O psicanalista Ferenczi indica o tato psicológico como modalidade de escuta. O tato representa o “sentir com”. Tal sentir remete a um indicativo da ação do analista. A compreensão emocional serve como orientação para que o analista perceba o momento de preservar o silêncio na sessão terapêutica e saber quando esse silêncio deve ser interrompido (PIMENTEL; COELHO JUNIOR, 2009; VIEIRA, 2017). A empatia na clínica psicológica 9 O psicanalista Kohut indica a introspecção vicária como modalidade de escuta. Essa introspecção está relacionada à sintonia presente na relação entre o analista e o cliente no acesso aos elementos não verbais, o que corresponde a uma compreensão emocional (DUQUE, 2018; PIMENTEL; COELHO JUNIOR, 2009). Forma de comunicação e fator terapêutico O pediatra e psicanalista D. W. Winnicott (1896‒1971) pautou seus estudos na relação mãe-bebê, com o indicativo do estabelecimento da comunicação primária. A amamentação representa a forma elementar de comunicação entre a criança recém-nascida e a mãe (PIMENTEL; COELHO JUNIOR, 2009). Essa compreensão de Winnicott pontua a teorização acerca do desen- volvimento emocional primitivo, em que o psiquismo é percebido como não integralmente estruturado. Considerando os cuidados maternos, a maturação do psiquismo vai decorrer oportunamente. Winnicott também estabelece uma relação direta entre os cuidados ma- ternos e o ambiente, por entender que a permanência no útero e depois no colo materno representa o ambiente físico, que depois torna-se psicológico (PIMENTEL; COELHO JUNIOR, 2009). Ao transpor essa comunicação inicial entre a mãe e o bebê para os eventos futuros, considerando o processo terapêutico, Winnicott pontua que o setting terapêutico (espaço terapêutico) representa esse ambiente. Esses aspectos envoltos pelo setting terapêutico, onde o sentimento de confiança entre o analista e o cliente é constituído, têm a atuação da empatia como um fator terapêutico. Com isso, o setting é integrado à personalidade do analista (PIMENTEL; COELHO JUNIOR, 2009). Este capítulo foi fundamentado no resgate dos apontamentos relacionados à empatia, que assume um aspecto essencial para o desenvolvimento das relações interpessoais nos mais variados ambientes e na manifestação de segurança e acolhimento na efetivação do processo terapêutico. Identificamos como a empatia é caracterizada pelas principais abordagens teóricas da psicologia, e o enfoque sobre a afetividade e a cognição foi contextualizado. Além disso, vimos como a empatia se apresenta nas ações de intervenção terapêutica. Considerando as experiências presentes, a relação empática entre o psicó- logo/psicoterapeuta/analista e o cliente/analisando é envolta por uma diver- sidade de possíveis representantes do ambiente/setting terapêutico. Deve-se A empatia na clínica psicológica10 considerar as intervenções virtuais ou mesmo as de espaços naturais, além das redes sociais de comunicação. Tais redes podem evidenciar as potenciali- dades e/ou fragilidades da empatia do eu frente ao outro. O afastamento dos julgamentos é um passo importante para que a relação empática seja firmada. Referências ARAÚJO, M. L. Empatia e aliança terapêutica sob a ótica dos terapeutas cognitivo-com- portamentais. 2014. 127 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Aplicada) — Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2014. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/ bitstream/123456789/17215/1/EmpatiaAliancaTerapeutica.pdf. 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