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A CONSULTA GINECOLÓGICA Almir Antonio Urbanetz Mauri José Piazza Arcélio C. Teixeira Lorena Ana Mercedes Lara Urbanetz 1. 2. 3. 4. A ANAMNESE O EXAME FÍSICO E GINECOLÓGICO Relação médico-paciente Desde o início da consulta médica, faz-se necessário que o ambiente onde ela esteja sendo realizada apresente condições adequadas e que a estrutura existente seja a mais altamente profissional e cercada de toda a infraestrutura. Desse modo, o relacionamento médico-paciente estará, desde o seu início, sendo procedida conforme os melhores preceitos éticos. Em vista disso, pode-se e devere-se dispor de: Todo o tempo que se fizer necessário para que o médico possa ouvir de modo adequado a sua paciente. A indisponibilidade de adequado tempo tem sido um dos fatores primordiais que muitas vezes dificulta ou mesmo aborta um conveniente relacionamento dos profissionais com as suas pacientes; É necessário mútuo respeito e compreensão entre a paciente e seu médico. Tais procedimentos deverão ser seguidos; e maior e direta familiaridade deverá ser evitada para que ocorra conveniente respeito mútuo; Nessa ocasião o profissional deverá evitar qualquer perda de atenção à paciente, seja por causa de discussões financeiras ou políticas, atendimentos a outras pessoas, que possam reduzir a sua atenção, seja devido a atendimentos telefônicos, sempre se reforçando, dessa maneira, que o atendimento à paciente é o seu fulcro principal; Assegurar a paciente que anamnese e conveniente conversa e exame serão progressivos e essenciais, evitando-se atitudes que possam condicionar traumas e ou induzirem dores principalmente durante o exame. Deve-se comunicar que todos os informes que se fizerem necessários terão “total sigilo” e somente poderão ser divididos com outros familiares se forem liberados por sua direta autorização; 5. 6. Em vista de tais situações, a participação no momento da consulta de outro familiar só ocorrerá se for conveniente à paciente e, mesmo de modo importante, se ela for adolescente, respeitando-se, assim, seus direitos e pudores; Estimular a paciente, que deverá fazer questionamentos e perguntas sobre todos os assuntos e dúvidas pertinentes e sobre os demais procedimentos como exames laboratoriais ou de imagens que na sequência se fizerem necessários (Burnett, 1988). Assim, todas essas atitudes médicas, que já de início foram expostas às pacientes, formalizam um bom relacionamento médico- paciente, que deve ser adequado e sem traumas, permitindo um “ato médico” que auxiliará na resolução da problemática existente. Terá existido, desse modo, um conveniente entrosamento entre o médico e a paciente, o que propiciará a solução momentânea ou futura das possíveis anormalidades (Canella, 1987). O médico ginecologista também deverá ter boa capacidade de comunicação e deverá afastar de si todas as possíveis atitudes que possam expressar ou ser interpretadas como hostis, dominantes, críticas ou censuradoras. Muitas vezes o ginecologista é o “clínico da mulher”, ou seja, é a referência que a mulher tem como profissional da saúde, sendo o único médico que a paciente consulta regularmente. Isso quer dizer que, além dos aspectos relacionados à avaliação ginecológica, é importante analisar globalmente a paciente, a fim de detectar alterações em outros sistemas e fatores de risco para doenças importantes. Assim como a pediatria, a geriatria e algumas poucas especialidades, a ginecologia tem a peculiaridade de não necessariamente lidar com doenças, mas tem grande importância na prevenção de doenças e na orientação de saúde. O ginecologista, portanto, tem o dever de priorizar esse aspecto na consulta rotineira (Xavier e Salazar, 2006). A relação entre o médico e sua paciente se inicia no instante em que ela decide buscar atendimento, pois suas expectativas são de grande importância para o relacionamento que se firmará depois. Um fundamento essencial para o cuidado médico é a boa capacidade de comunicação, a começar pelo modo de olhar e pela linguagem corporal, que evidenciarão o interesse do médico por sua cliente. A relação que se desenvolve nesse instante e durante toda a anamnese permitirá que a paciente se sinta confortável para compartilhar detalhes de sua intimidade. Como consequência, médico e paciente estabelecem, acima de tudo, um encontro humano, dos mais genuínos e verdadeiros (Lasmar et al., 2017). A consulta ginecológica apresenta características próprias, pois aborda aspectos íntimos e ou mesmo ligados à sexualidade, podendo o exame ginecológico ser encarado, às vezes, como constrangedor às pacientes. Por isso, a atitude médica deverá ser de ouvir, ver, captar e orientar a paciente a respeito da sua problemática. O desconhecimento pelas pacientes de noções básicas de anatomia e fisiologia impõe muitas vezes orientações iniciais e requer a melhor atenção devida à somatizações em área genital de problemas psicológicos, o qual pode tornar-se um imperativo (Nahoum, 1987). Na entrevista, deve-se estimular as pacientes para que exponham de modo direto e adequado toda a sua problemática, reduzindo-se, assim, quanto possível a sua timidez. Como referimos, os acompanhantes deverão ser evitados. Somente quando existirem limitações mentais ou a paciente for menor de idade serão permitidos acompanhantes. Na ocasião do exame e para a conveniente colaboração da paciente, impõe-se a participação de uma enfermeira auxiliar e, nesse momento, toda a sequência do exame deverá ser notificada. Ao final da consulta, deve-se proceder a uma exposição das possíveis anormalidades detectadas, tendo uma impressão diagnóstica de quais os exames laboratoriais ou de imagem se tornam necessários para a elucidação do caso. Quando pela avaliação for evidenciada a necessidade próxima ou futura de um procedimento cirúrgico, a paciente deverá ser orientada sobre o que deverá ser feito e inclusive sobre as diversas técnicas ou vias de acesso recomendadas. Torna-se fundamental que a paciente seja notificada sobre os riscos e benefícios dos futuros procedimentos cirúrgicos, das possíveis complicações e ou da interferência futura em sua fertilidade, bem como de possível atual ou futura da necessidade de reposição hormonal (Teixeira e Piazza, 2002). Todas essas medidas são convenientes à execução da consulta ginecológica. É apresentado o modelo de ficha médica utilizada em Serviço de Ginecologia – Anamnese (Tabela 4.1). Tabela 4.1. Modelo de ficha médica utilizada em Serviço de Ginecologia – Anamnese 1. Identificação:_________________ Data___/___/_____ Nome:_________________ Idade:_________________ Estado civil:_________________ Raça e religião:_________________ Profissão:_________________ 2. Queixa principal:_________________ 3. História Atual:_________________ 4. Antecedentes pessoais: doenças anteriores/cirurgias/medicamentos em uso:_________________ 5. Antecedentes familiares: diabetes mellitus/neoplasias/hipertensão arterial:_________________ DST ou outras patologias:_________________ 6. Antecedentes menstruais:_________________ Menarca:_________________ Ciclos menstruais prévios – contendo intervalos e duração:_________________ Última menstruação:_________________ Ciclos menstruais atuais com intervalos e duração:_________________ Sintomas pré-menstruais:_________________ 7. Antecedentes obstétricos:_________________ Número de gestações:_________________ Partos normais ( ) Partos cesáreos ( ) Abortamentos ( ) Data do último parto:___/___/_____ Abortamentos espontâneos ( ) Provocados ( ) Puerpérios normais ( ) Complicados ( ) 8. Antecedentes sexuais:_________________ Atividade sexual: Sim ( ) Não ( ) Idade da sexarca:_________________ Número de parceiros sexuais:_________________ Libido:_________________ Orgasmo:_________________ Dispareunia ( ) Sinusiuorragia ( ) Anticoncepção: Sim ( ) Não ( ) Método utilizado ( ) 9. Antecedentes mamários:_________________ Telarca:_________________ Amamentação: Quantas vezes, período e ou complicações:_________________ 10. Secreções vaginais:_________________ Características– períodos – recorrências etc. Número de episódios do corrimento:_________________ Tratamentos anteriores:_________________ 11. Queixas urinárias:_________________ 12. Queixas gastrointestinais: 1. 2. 3. 4. 5. 6. COMENTÁRIOS A RESPEITO DA FICHA MÉDICA Identificação completa com o nome completo, e não abreviado, idade e estado civil: a conveniente avaliação de idade, estado civil, cor, profissão e religião nos permite seguramente identificar e separar diferentes doenças e análise das suas prevalências. Queixas principais: anotar as palavras expostas pela paciente. História da doença atual: com base em ampla análise das queixas referidas, caracterizando-se pelo início e evolução de todo o processo clínico. Será permitido nessa fase que a paciente apresente amplamente todas as suas queixas e que discuta sobre exames anteriormente realizados ou medicamentos utilizados. Antecedentes pessoais: quando será inquirida sobre doenças ou medicamentos anteriores empregados, bem como sobre quais as cirurgias a que foi submetida anteriormente. Questionar sobre outros possíveis hábitos, como fumo, uso de álcool e de drogas ilícitas, e também sobre reações alérgicas medicamentosas ou de outros agentes alergênicos. Antecedentes familiares: valorizar a ocorrência de neoplasias como as das mamas, intestinais e dos ovários e que tenham ocorrido principalmente na parentela de primeiro grau. Torna- se conveniente avaliar a idade do surgimento das neoplasias, principalmente das mamas, pois isso exigirá um rastreio mais precoce das pacientes que futuramente possam ser envolvidas. Os antecedentes de outras doenças endócrinas como diabetes mellitus, hipertensão e hipotireoidismo necessitam de conveniente análise sobre a sua ocorrência familiar. Antecedentes menstruais merecem especial atenção, pois as informações sobre a idade da menarca, do desenvolvimento cronológico, do surgimento dos caracteres sexuais secundários e da regularidade ou irregularidade dos ciclos menstruais subsequentes são imperativas. É necessário • • • • • 7. 8. anotar as datas das últimas menstruações e observar a regularidade ou irregularidade dos ciclos e os sintomas associados, como os pré-menstruais ou mesmo a sintomatologia sistêmica associada à tensão pré-menstrual (TPM). Conceituar as irregularidades menstruais como: Hipomenorreia: diminuição do número de dias e da quantidade do fluxo menstrual; Hipermenorreia/menorragia: aumento do número de dias e da quantidade do fluxo menstrual; Polimenorreia: diminuição do intervalo do fluxo menstrual menor de 21 até 25 dias; Oligomenorreia: aumento do intervalo do fluxo menstrual superior a 35 dias; Metrorragia: sangramento irregular e totalmente desperiodizado, sangramento irregular e acíclico. Antecedentes obstétricos: anotar o número de gestações, o número e os tipos de partos, se normais ou cesáreos; a ocorrência de abortamentos espontâneos ou induzidos e de traumas genitais que possam ter ocorrido, bem como de possíveis complicações infecciosas. Referir também o período puerperal e das lactações, com duração ou complicações. Antecedentes sexuais e dos métodos contraceptivos usados: é necessário inquirir e esclarecer sobre seu início e as suas possíveis falhas e efeitos colaterais. A história sexual dependerá da situação individual de cada paciente, do seu médico e das circunstâncias do momento da consulta, idade da sexarca, mas torna-se essencial conhecer o número prévio de parceiros e a ocorrência de doenças sexuais prévias. As disfunções sexuais, como diminuição da libido e redução no grau de resposta sexual ou impossibilidade no relacionamento, merecem sempre cuidadosa e progressiva análise, principalmente nas consultas posteriores. Deve-se assegurar de que as consultas serão sempre sigilosas e que toda a 9. 10. 11. problemática deverá ser conhecida para propiciar auxílio médico. Antecedentes mamários: questionar sobre o desenvolvimento das mamas, lactação, nódulos, dores, processos inflamatórios e traumas mamários prévios. Avaliar a fase e a época do surgimento e do desenvolvimento de nódulos existentes e sua velocidade de surgimento e de crescimento. Caso tenha realizado exames de imagens (mamografia, ecografia mamária), perguntar quando realizou e o motivo de sua indicação, e se já realizou biópsia mamária e sobre o laudo histopatológico. Antecedentes familiares: como já referimos, é essencial identificar certos tipos de doenças de ocorrência familiar e que apresentam risco genético maior, principalmente as neoplasias das mamas, ovários e intestinos. Avaliação das queixas urinárias ou gastrointestinais: inquirir sobre as ocorrências e o número de infecções urinárias, bem como sobre as medicações utilizadas e o tempo de uso, e se há incontinência urinária ou quadros de urgência miccional. Perguntar sobre intolerância gástrica a alimentos ou medicamentos, ritmo intestinal, continência fecal, sangramento ou dores durante a evacuação. Na Tabela 4.2, observa-se modelo de ficha utilizada em Serviço de Ginecologia – Exame Físico. Tabela 4.2. Modelo de ficha utilizada em Serviço de Ginecologia – Exame Físico 1. Exame geral: ____________________ Peso:___________ Estatura: ___________ IMC:___________ Pulso: ___________ PA: / mmHg Temperatura: ___________ Estado geral: ______________________ Cabeça:______________________ Pescoço:______________________ Tórax: ___________ Aparelho respiratório: ___________ Aparelho cardiovascular: ___________ Abdome: ___________ Região lombossacra: ___________ Membros superiores e inferiores: ___________ Outros dados: ___________ 2. Exame ginecológico Mamas: ___________ Inspeção estática: ___________ Inspeção dinâmica: ___________ Palpação: ___________ Exame das axilas: ___________ Exame das fossas supra e infraclaviculares: ___________ Expressão das mamas: ___________ Órgãos genitais externos: ___________ Vulva: ___________ Pilificação pubiana e genital: ___________ Vestíbulo vulvar: ___________ Procidência das paredes vaginais anterior/posterior: ___________ Ruptura perineal: ___________ Órgãos genitais internos: ___________ Exame especular: ___________ Paredes vaginais: ___________ Conteúdo vaginal: ___________ Coleta de material vaginal ou cervical: ___________ Citologia cervical: ___________ Colo uterino: ___________ Toque vaginal: ___________ 3. Impressão diagnóstica: ___________ 4. Exames solicitados: ___________ 5. Conduta: ___________ 6. Terapêutica proposta: ___________ 7. Revisões necessárias: ___________ 8. Data da conclusão do atendimento: ___________ 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. COMENTÁRIOS E DISCUSSÃO DE TÓPICOS DO EXAME FÍSICO (CURCIO JR., 2002) No exame físico geral: ___________ Desde o início, deve-se ter atenção ao estado geral da paciente, com o seu aspecto físico, muscular e do tecido adiposo, e ao seu trofismo geral; Observar a pressão arterial (PA), o peso, a estatura e a frequência cardíaca (pulso) e, se necessário, a temperatura corporal; calcular o IMC (índice de massa corpórea): Na cabeça e no pescoço, avaliar a fáscies, as mucosas oculares e da boca, a tireoide e a presença ou não de linfonodos cervicais; Realizar ausculta cardíaca e pulmonar de modo objetivo; Fazer inspeção e palpação do abdome, observando as suas cicatrizes cirúrgicas, a sua distensão ou a presença de massas abdominais, avaliando suas dimensões, consistência, mobilidade, superfície e sensibilidade. Analisar também se há hepato ou esplenomegalia; Realizar exame dos membros inferiores para detectar a presença de varizes ou de edema; É importante examinar a coluna, principalmente suas porções dorsolombares e os pontos renoureterais. Exame ginecológico Exame das mamas A inspeção estática e dinâmica deverá sempre ser procedida com a paciente sentada e o examinador postado à sua frente, permitindo- se, assim, uma análise das mamas quanto a sua simetria, volume, mobilidade e retrações ou abaulamentos. Com a paciente nessa posição, deve-se proceder à palpação das axilas e das fossas supra e infraclaviculares,evidenciando-se ou não a presença de aumento dos linfonodos aí situados. Quando se examina a axila, é importante que a paciente relaxe, para que os músculos peitorais fiquem relaxados e seja feito um exame completo da axila. Músculos contraídos podem obscurecer discretamente linfonodos aumentados de tamanho. Para examinar os linfonodos axilares direitos, o examinador deve suspender o braço direito da paciente utilizando seu braço direito, fazendo, então, uma concha com os dedos da mão esquerda, penetrando o mais alto possível em direção ao ápice da axila. A seguir, trazer os dedos para baixo, pressionando contra a parede torácica. O mesmo procedimento deve ser realizado na axila contralateral: suspender o braço esquerdo da paciente utilizando seu braço esquerdo e realizar o exame da axila com os dedos da mão direita. O examinador deve observar o número de linfonodos palpáveis, bem como seu tamanho, consistência e mobilidade. As fossas supraclaviculares são examinadas pela frente da paciente ou por abordagem posterior (Gonçalves et al., 2009). O exame das papilas mamárias e dos mamilos também é necessário para avaliar suas características, como desvios, secreções ou áreas descamativas. A inspeção dinâmica com a contração da musculatura peitoral permite evidenciar áreas de abaulamento ou retrações mamárias. Na sequência, com a paciente deitada em decúbito dorsal, procede-se à palpação pressionando o tecido mamário contra o gradeado costal e observando com acurácia a existência ou não de nódulos. Se presente(s), deverão ser descritos sua localização, características, tamanho e mobilidade. A sua realização poderá ser feita tanto no sentido horário ou anti-horário, mas o essencial é examinar as mamas na sua totalidade. Finaliza-se o exame com a expressão das mamas para evidenciar se há ou não a presença de secreções serosas, lácteas ou sanguinolentas intraductais. Se for positiva a presença de descarga papilar, torna-se imperativa a coleta desse material para análise laboratorial. Se durante o exame for constatada a presença de prótese mamária ou cicatrizes cirúrgicas por exérese de nódulo, sectorectomia, quadrantectomia ou mastectomia, impõe-se avaliação bastante acurada desses locais. Exame do abdome O exame do abdome deve ser realizado com a paciente em decúbito dorsal, com as pernas esticadas e a cabeça apoiada confortavelmente, para que não haja contração da musculatura abdominal. O abdome deve estar completamente exposto, e o examinador deve se posicionar ao lado direito da paciente (Lasmar et al., 2017). Como já referido, todas as etapas do exame do abdome deverá ser procedidas iniciando pela inspeção sobre a presença de anormalidades, como abaulamentos, distensões, retrações ou cicatrizes cirúrgicas. A ausculta dos ruídos abdominais deve se iniciar pelo mesogástrio e seguir pelos quadrantes. Os ruídos normais geralmente se manifestam a cada 10 segundos, e sua ausência após 2 minutos de ausculta está associada a íleo paralítico ou irritação peritoneal difusa. A hiperperistalse produz borborigmos, ruídos presentes na fase inicial da obstrução intestinal. O som do atrito peritoneal pode ser detectado nos quadrantes superiores esquerdo e direito; esse ruído está associado aos movimentos respiratórios e é indicativo de processo inflamatório esplênico ou hepático (Lasmar et al., 2017). A percussão tem a função de identificar distensão gasosa, visceromegalia e massas sólidas ou líquido. Todos os quadrantes devem ser verificados com hepatimetria e avaliação esplênica, inclusive pela percussão do espaço de Traube. O som timpânico é o mais prevalente quando há gás nas alças intestinais e no estômago. Som maciço na região suprapúbica pode corresponder a aumento do volume uterino ou bexiga distendida. Pacientes com quadro doloroso significativo ou irritação peritoneal podem não tolerar a percussão (Lasmar et al., 2017). Na sequência do exame, a palpação poderá determinar a existência de anormalidades, percebendo-se, assim, a mobilidade ou não de massas abdominais ou pélvicas e a sua consistência, se sólidas ou sólido-císticas, ou mesmo a presença de ascite. Nessa ocasião, observar-se-á também a existência de sensibilidade álgica em diversos graus, e o simples ato de tocar na parede abdominal poderá desencadear dores intensas. Finalmente, a percussão avaliará os sinais de macicez ou de sonoridade quando na presença de massas sólidas, sólido-císticas ou císticas. A ascite poderá ser comprovada pela macicez móvel e pelo sinal do piparote. Exame pélvico Deverá ser procedido com a paciente em decúbito dorsal e bexiga vazia, e excepcionalmente poderá ser necessário realizá-lo em outra posição, como a posição do tipo de prece maometana (Lasmar et al., 2017). Quando se passa ao exame pélvico, é importante o posicionamento correto da paciente. O ideal é a posição de litotomia em mesa ginecológica: decúbito dorsal, nádegas junto à borda da mesa de exame, com coxas e joelhos fletidos, descansando os pés ou a fossa poplítea nos estribos (perneiras). É importante que a paciente esteja despida e, de preferência, coberta com um avental de abertura posterior e um lençol para cobrir parcialmente o abdome e os membros inferiores. Além da posição descrita, pode-se utilizar a posição lateral ou lateral-oblíqua esquerda ou posição de Sims, que permitem a realização do toque em uma gestante em trabalho de parto; permite também a visualização da vulva, mas exige maior manipulação. Quando não se dispõe de mesa ginecológica adequada, pode-se colocar a paciente em decúbito dorsal, solicitar que deixe os calcanhares próximos e que afaste bastante os joelhos (Xavier e Salazar, 2006). Exame dos genitais externos É conveniente cuidadosa observação de todas as partes anatômicas dos genitais externos femininos, começando pelos grandes e pequenos lábios, clitóris, uretra, verificando se há ou não procidência das paredes vaginais anterior e posterior. Nesse momento, solicitar-se-á a realização de manobra de esforço-tipo Valsava, que acentuará e mostrará tais procidências e/ou a presença de graus diversos de ruptura perineal (primeiro a terceiro grau) ou de graus diversos de prolapso uterino, detectando-se aí se há ou não lesão do esfíncter anal. Na inspeção e palpação das diversas partes da vulva, impõe-se avaliar o monte de Vênus e a cadeia ganglionar inguinal bilateral para determinar se há existência de linfonodomegalias. Observar-se-á também, em posição suburetral bilateral, o possível aumento de volume das glândulas de Skene e, próximo à rima vulvar, bilateralmente, as glândulas de Bartholin, que, pela presença de infecções, cistos ou tumorações, poderão estar com volume aumentado e com grande sensibilidade dolorosa. Exame dos genitais internos Será sempre realizado pelo exame especular, desde que evidenciada e manifestada pela paciente que há ruptura himenal, com um espéculo de Collins ou hoje com espéculo de plástico, o qual permitirá uma conveniente exposição do colo uterino. Quando o exame especular se fizer necessário de ser realizado em paciente virgem, empregar-se-á o espéculo de Pederson, que apresenta suas valvas com um diâmetro mais fino. Além de avaliar o colo uterino e propiciar a coleta de material cervical, o exame especular permitirá a avaliação das paredes vaginais quanto ao seu trofismo, rugosidade e coloração normal ou alterada ou presença de lesões e/ou tumorações. O espéculo é introduzido fechado. Apoia-se ele sobre a fúrcula, ligeiramente oblíquo (para evitar lesão uretral), e faz-se sua introdução lentamente; antes de ser completamente colocado na vagina, quando estiver no meio do caminho, deve ser rodado, ficando as valvas paralelas às paredes anterior e posterior, posição que ocupará no exame. A extremidade do aparelho será orientada para baixo e para trás, na direção do cóccix, enquanto é aberto. Na abertura do espéculo, a mão esquerda segura e firma a valva anterior dele, para que a mão direita possa, girando a borboleta para o sentido horário, abrir o espéculo e expor o colo uterino(Curcio Jr., 2002). Com a exposição do colo uterino, tem-se a visualização da junção cervicovaginal, sendo essa a oportunidade para a coleta da citologia cervicovaginal, conhecida como teste de G. Papanicolaou. A coleta deverá ser feita com escova apropriada; com a introdução dessa escova, a coleta será feita ao nível da junção dos dois epitélios cervicais. Nesse momento o colo uterino deverá ser visualizado, e terá aspecto puntiforme nas nulíparas e fenda transversa nas multíparas. Também é essencial a observação de nódulos, eversões da endocérvice ou irregularidades como lesões vegetantes que necessitem de complementação diagnóstica com colposcopia ou biópsia dirigida por colposcopia. Poderá ser finalizado com o teste de Schiller; após a limpeza do colo uterino com solução de ácido acético a 2%, faz-se o pincelamento de todo o colo uterino com solução saturada de iodo. Essa solução propiciará a impregnação das células da exocérvice com uma coloração marrom-escura, pois os vacúolos de glicogênio presentes no citoplasma dessas células normais serão assim corados. Em outras células, como as endocervicais ou neoplásicas, que não contêm tais vacúolos, serão consideradas iodo-claro ou iodo negativas e o teste de Schiller positivo. Nessa mesma ocasião, se houver manifestação pertinente à presença de secreção vaginal anormal, tal material deverá ser coletado para a identificação do(s) agente(s). O exame a fresco compreende a coleta do material vaginal que será adicionado a uma gota de soro fisiológico em lâmina e, a seguir, examinado ao microscópio. Nesse momento, identificaremos a presença de parasitos móveis como o Trichomonas vaginalis e a presença de fungos do gênero Candida. Também a identificação das referidas “células-alvo” fará a suspeita de infecção pela Gardnerella vaginalis, e a adição de uma gota de hidróxido de sódio nesse material permitirá a liberação de “aminas” de odor característico e bastante forte. Esses exames são simples, baratos e podem ser realizados durante a consulta ginecológica. O momento também será apropriado à observação do muco cervical, que, sob a ação estrogênica, é claro, filante e de grande distensibilidade. A sua distensibilidade máxima ocorre em fase ovulatória e, nesse momento, se procedemos ao exame ao microscópio desse material ressecado, ele assume uma cristalização específica, conhecida como “cristalização em folha de samambaia”. Essa cristalização já não sucede após a ovulação sob a ação da progesterona secretada pelo corpo lúteo. Na observação do muco cervical, o muco turvo e espesso nos leva a investigar infecções aí localizadas, causadas pela Neisseria gonorrhoeae ou pela Chlamydia trachomatis. Toque vaginal Permitirá avaliar a amplitude e as características das paredes vaginais, do colo e do corpo uterino. Poderá ser unidigital, quando somente o dedo indicador é introduzido na vagina, ou bidigital, quando o procedimento é com dois dedos: indicador e médio. Com o(s) dedo(s) introduzido(s) na cavidade vaginal, se observarão as paredes vaginais, com sua elasticidade e rugosidade, bem como o colo uterino, com sua consistência, posição e direcionamento. A consistência do colo é cartilaginosa, e quando se evidencia a possibilidade de gestação, ele se torna amolecido pela impregnação hormonal gravídica. Na sequência, realiza-se o exame bimanual com a outra mão apoiada sobre o hipogástrio e associado ao toque vaginal, sendo essencial que a bexiga esteja vazia para determinar o posicionamento do útero. Esse habitualmente tem a localização em anteversoflexão (AVF), e suas dimensões têm aspecto piriforme, sendo rijo na sua consistência. Outras posições do útero: retroversoflexão (RVF) ou medioversoflexão (MVF). Poderão ocorrer situações que induzem ao aumento de volume do útero, como se evidencia nos úteros grávidos ou com nódulos leiomiomatosos. A avaliação das dimensões do útero permite, nos quadros de hipogonadismo associado ao hipoestrogenismo, configurar graus de hipotrofia uterina quando suas dimensões se tornam menores e bastante reduzidas. Também ao exame bimanual, é importante avaliar as dimensões dos anexos tubas e ovários, quando poderemos determinar a presença de massas tumorais, sejam elas císticas, sólidas ou sólido-císticas. O fundo de saco de Douglas deverá também ser bem avaliado por massas que aí poderão localizar-se, como o útero retrovertido e fixo ou nódulos tumorais peritoniais, como na endometriose pélvica ou nas neoplasias ovarianas benignas ou malignas. Os anexos também habitualmente poderão não ser palpáveis nas pacientes mais obesas e sempre deverão ser impalpáveis nas mulheres pós-menopausa. No exame bimanual, o ovário direito costuma ser palpável na mulher não obesa, e o ovário esquerdo é dificultado pelo cólon. Trompas e ligamentos redondos são palpáveis quase somente quando estão aumentados de volume, por inflamação ou infiltração. Procuram-se detectar também nódulos e tumorações no fundo de saco de Douglas, os quais podem significar endometriose e desencadear tenesmo ou dor quando tocados (Xavier e Salazar, 2006). Na presença de dor à mobilização do colo uterino, associada à dor à palpação dos anexos, devemos estar diante da suspeita de doença inflamatória pélvica aguda (DIPA). Toque retal Não é essencial, mas poderá ser realizado com a devida colaboração e permissão da paciente em situações distintas, como em pacientes virgens com suspeita de massas pélvicas, quando há neoplasia do colo uterino, para um perfeito estadiamento, e também nas suspeitas de útero retroverto e fixo, por possível endometriose pélvica. O dedo do examinador com a mão enluvada nesse momento deverá ser lubrificado para melhor permitir o toque. A decisão de realizar o exame retovaginal varia entre os médicos. Embora alguns prefiram realizar essa avaliação em todas as pacientes adultas, outros realizam o exame apenas em mulheres com indicações específicas, como dor pélvica, massa pélvica identificada ou sintomas retais. As luvas devem ser trocadas entre os exames bimanual e retovaginal para evitar contaminação do reto com potenciais patógenos vaginais. Outra razão para a troca de luvas seria a indicação para o teste de sangue oculto fecal, a fim de evitar resultados falso-positivos em razão de contaminação com eventual sangue vaginal. Inicialmente, o dedo indicador é introduzido na vagina e o dedo médio, no reto. Esses dedos são aproximados um do outro, no sentido horizontal, como uma tesoura, para avaliar o septo retovaginal em busca de cicatrizes ou saliências peritoneais. O dedo indicador é retirado, e o dedo conclui o toque circular da cavidade anal para excluir a existência de massa. Se houver indicação de teste imediato de sangue oculto fecal, ele pode ser realizado com uma amostra dessa parte do exame (Hoffman et al., 2014). No Anexo 4.1, consta a Ficha Clínica da Mulher, com os dados epidemiológicos da paciente, queixa, história pessoal da moléstia atual, interrogatório sobre os diferentes aparelhos, antecedentes familiares e pessoais, antecedentes menstruais, antecedentes sexuais, antecedentes ginecológicos e obstétricos. Exame físico da paciente. No Anexo 4.2, estão as ilustrações sobre o exame físico da paciente. Nos Anexos 4.3 e 4.4, temos a Ficha Clínica do Climatério, na qual constam os dados epidemiológicos da paciente, motivo da consulta, antecedentes pessoais, antecedentes familiares, antecedentes tocoginecológicos, idade da menopausa, tempo de menopausa, tipo de menopausa, uso de prévio de hormônios. O Índice Menopáusico de Blatt e Kupperman apresenta 11 sintomas e seus respectivos escores: sintoma ausente, escore zero; sintomas de leve intensidade, 1; moderados, 2; intensos, 3. A intensidade desses sintomas é multiplicada pelo peso. Exemplo: ondas de calor até três episódios por dia têm escore 1 multiplicado pelo peso 4. De quatro a sete episódios por dia, escore 2 multiplicado pelo peso 4. Mais de oito episódios por dia, escore 3 multiplicado pelo peso 4. Portanto, uma paciente que refira 10 episódios por dia vai pontuar12. Nos demais sintomas, a pontuação é realizada perguntando-se a intensidade dos sintomas. Na anamnese, deve-se perguntar a ocorrência desses sintomas na última semana. Quando o Índice Menopáusico for menor ou igual a 10, é considerado baixo; entre 11 e 25, moderado; maior ou igual a 26, alto. Esse índice não inclui a avaliação da sexualidade da paciente, porém tem aplicação prática, por ser de simples utilização. Há também a Escala de Greene, que avalia 21 sintomas, sendo o escore avaliado de zero a 6; é uma escala pouco prática para utilização no dia a dia. Nessa ficha, incluem-se o exame físico geral e o ginecológico, assim como a o IMC. Deve-se colocar os exames complementares que fazem parte da rotina do atendimento da mulher na fase do climatério. Demais modelos de ficha clínica existem para cada subespecialidade (Ginecologia Endócrina, Ginecologia Infanto- Puberal, Uroginecologia, Mastologia, Patologia do Trato Genital Inferior etc.). SITUAÇÕES ESPECIAIS NA CONSULTA GINECOLÓGICA A consulta ginecológica flui de forma diferente com cada paciente. É importante ter mentalmente organizado o roteiro de entrevista e exame, mas variações são necessárias de acordo com cada mulher que adentra ao consultório do ginecologista. Algumas situações, no entanto, são previsíveis e merecem atenção. O exame da paciente virgem é mais difícil, pois a avaliação da pelve é prejudicada. O toque retal é indicado por alguns autores, mas deve ser dispensado sempre que se pode substituir pela ultrassonografia. Para a paciente que nunca teve relações sexuais, é importante deixar claro, desde o início, que provavelmente não será realizado exame especular ou toque vaginal, para diminuir sua ansiedade (Xavier e Salazar, 2006). CONSIDERAÇÕES FINAIS A consulta ginecológica é o começo de uma boa relação médico- paciente. A coleta de detalhada anamnese e exame físico é fundamental para uma hipótese diagnóstica adequada. Os exames complementares deverão ser norteados conforme a impressão diagnóstica, além de exames de rastreamento de doenças crônicas. Uma boa consulta ginecológica evitará a solicitação de exames desnecessários e permitirá conhecer o psiquismo da paciente para fazer a melhor abordagem dela. Durante o exame físico e ginecológico, o médico sempre deverá estar acompanhado de uma enfermeira auxiliar. No caso de crianças e adolescentes, solicitar a presença da mãe ou acompanhante durante a consulta e exame físico. Com isso, vamos fazer com que a paciente se sinta mais segura e colaborativa durante a consulta. Os exames complementares de cada subespecialidade estão abordados nos respectivos capítulos. BIBLIOGRAFIA Burnett LS. Gynecology history, examination and operations. In: Jones HW, Wentz AC, Burnett LS. Novak’s Textbook of Gynecology. 11th ed. Baltimore: Williams & Wilkins; 1988. p. 3-39. Canella PRC. A relação médico-paciente: instituição em ginecologia na ótica do médico. In: Halbe HW. Tratado de ginecologia. Rio de Janeiro: Roca; 1987. p. 3-21. Curcio Jr. LR. O exame físico e ginecológico. In: Piazza MJ, Teixeira AC. Rotinas clínicas e cirúrgicas em ginecologia. Rio de Janeiro. Revinter; 2002. p. 9-12. Gonçalves MA, Zerwes F, Badalotti M, Michelon J, dos Santos TG. A consulta ginecológica. In: Badalotti M, Petracco A, Frasson A, Gonçalves MA. Manual de ginecologia. Porto Alegre: EDIPUCRS; 2009. p. 13-22. Hoffman BL, Schorge JO, Schaffer JI, Halvorson LM, Bradshaw KD, Cunningham FG. Atenção preventiva a mulher. Ginecologia de Williams. 2ª ed. Porto Alegre: AMGH Editora Ltda.; 2014. p. 2-32. Lasmar RB, Bruno RV, Santos RLC, Lasmar BP, Costa Soares MC, Macchione RF. Anamnese e exame físico. In: Lasmar RB, Bruno RV, dos Santos RLC, Lasmar BP. Tratado de ginecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2017. p. 3-10. Nahoum JC. Esmeraldite. In: Halbe HW. Tratado de ginecologia. São Paulo: Roca; 1987. p. 34-6. Teixeira AC, Piazza MJ. Consulta e anamnese em ginecologia. In: Piazza MJ, Teixeira AC. Rotinas clínicas e cirúrgicas em ginecologia. Rio de Janeiro: Revinter; 2002. p. 3-8 Xavier NL, Salazar CC. Consulta ginecológica. In: Freitas F, Menke CH, Rivoire WA, Passos EP. Rotinas em ginecologia. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2006. p. 25-33. ANEXOS