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Do original em língua inglesa PRACTICAL KABBALAH — A GUIDE TO JEWISH WISDOM FOR EVERYDAY LIFE © Direitos para a língua portuguesa adquiridos pela Editora Maayanot que se reserva a propriedade desta tradução. Tradução: Sergio M. Cernea Revisão dos originais: Miriam Pomeroy Revisão de conteúdo: Rabino Aharon Chamovitz Apoio: Cia. Suzano de Papel e Celulose Cyrela Empreendimentos Imobiliários — Brazil Realty Produção do e-book: Schaffer Editorial Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia, por escrito, da Editora. 1ª edição versão digital (formato ePub) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Wolf, Laibl Cabalá Prática : um guia da sabedoria judaica para o dia-a-dia / Laibl Wolf ; tradução Sergio M. Cernea. — S. Paulo : Maayanot, 2003. recurso digital Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web Título original: Practical Kabbalah : a guide to jewish wisdom for everyday life ISBN 978-85-7903-088-8 1. Cabala 2. Judeus — Gênero de vida 3. Sefirot (Cabala) I.Título. 03-4550 CDD-296.712 http://www.studioschaffer.com Índices para catálogo sistemático: 1. Cabala : Sabedoria judaica para o dia-a-dia : Judaísmo 296.712 EDITORA MAAYANOT Presidente Elie Horn Editor Responsável Rab. Y. David Weitman Editor Adjunto Rab. Levi Weitman Produção Editorial Michoel Regen Coordenação Ina Brugnara Rua Talmud Torá, 119 - CEP 01126-020 Tel.: 3334-2976 Bom Retiro - São Paulo, SP contato@maayanot.com.br www.maayanot.com.br mailto:contato@maayanot.com.br http://www.maayanot.com.br À minha mãe, Pearl Rivka (Regina) Wolf — que a sua alma siga sempre se elevando no Éden a alturas cada vez maiores. E ao meu pai, Pinchos Wolf — que ele possa continuar em sua liderança e aprendizado judaico até os 120 anos, e mais. Índice Agradecimentos Prefácio da Edição Brasileira Introdução Primeira Parte: O MOVIMENTO DO ESPÍRITO 1. Abraão — O Místico Rebelde 2. A Planta do Cosmos 3. Quem São os Cabalistas? Segunda Parte: OS FLUXOS DA MENTE E EMOÇÃO 4. As Dez Sefirot 5. Chochmá: A Varinha Mágica 6. Biná: Mudando o Padrão do Pensamento 7. Daat: A Mente Crente 8. Chéssed: Destrancando o Fluxo do Amor 9. Guevurá: Aumentando a Força Interior 10. Tiféret: Desenvolvendo um Coração Sábio 11. Netsach: Iniciando Relacionamentos Significativos 12. Hod: Criando Empatia 13. Yessod: Encontrando Uma Verdadeira União 14. Malchut: Dentro do Mundo Conclusão Glossário Sobre o Autor Agradecimentos São inúmeras as pessoas que contribuíram para a realização desta obra, e às quais sou muitíssimo grato. Ainda assim, seria imperdoável se eu não externasse, publicamente, o meu particular agradecimento às seguintes pessoas, cujo apoio e incentivo sempre foram uma verdadeira fonte de inspiração. Àqueles que ajudaram na construção dos alicerces da minha fé: meu mestre e professor: o Lubavitcher Rebe, Rabi Menachem M. Schneerson, de abençoada memória; meu mentor espiritual, Rabi Shneur Zalman Serebryanski, de abençoada memória; meus pais — Reb Pinchos e Regina Wolf –, que possam ambos viver por muitos anos e em saúde plena; meu irmão, Don, cuja perspicácia e sensibilidade sempre me foram de grande ajuda. Meus sinceros agradecimentos a Emanuel Althaus, Morry Fraid, Efrem Harkham, Lynette e Menachem Joel, Eric Kornhauser, Moni Liberman, Garth Symond e Jeffrey Weiss, que, através de sua bondade e generosidade, tornaram possível e viabilizaram a existência deste livro. A Adrienne Weis, da Adrienne Weiss Corporation, que sempre se empenhou em dedicar-me os seus conselhos e a sua amizade; e a Julie Frank, da Fifty Plus Expo, que foi quem tirou este projeto do papel e foi de indispensável ajuda, tanto quanto foi a energia e a exuberância de Roselyn Consentino. Meu agradecimento ao meu agente literário, Frank Waiman, do The Literary Group, sem o qual este livro não teria sido publicado. Meu sincero agradecimento à especial equipe da Random House: Laura Wood, que foi tão paciente com um autor debutante; e Doug Pepper, com quem, graças a uma pronta simbiose, imbuiu-me da confiança numa grande editora; Jéssica Schulte, que conduziu a obra até a sua conclusão; Brian Belfiglio e Ari Gersen, cujos dotes de conseguir transformar o desconhecido em conhecido, também foram de grande importância para a realização desta obra; e Jim Walsh, por seu esmero e cuidado na estética e no estilo deste livro. Igualmente, o meu agradecimento a Judith Estrine, cujo talento em reformular as minhas freqüentemente confusas sentenças e precária gramática em algo que o leitor pudesse ler com lucidez e facilidade foi de muita importância. Quero, também, agradecer a alguns amigos especiais — amigos estes tão preciosos quanto pérolas — Nachman e Ilana Guriel, que mantiveram a minha forma física; e a uma pessoa muito especial, cuja amizade tenho apreciado desde o primeiro ano de escola quando nos encontramos pela primeira vez — Arnold Rosenbaum. A administração do The Human Development Institute, que eu fundei, tem estado nas competentes mãos de um talentoso e esperto australiano, Rabi Moshe Raitman, que tem sido o principal responsável pelo sucesso de minhas diversas viagens de palestras, habilmente assistido pelo muito especial Mordechai Smith. Em tempos em que a informação se torna cada vez mais democrática e acessível, os gerenciadores de páginas na Web (Internet) têm uma particular importância em “espalhar as palavras”. Minha gratidão a Moshe Merwitz e Isroel Meyer, por sua generosidade e experiência. Acharon acharon chaviv — por fim, o mais querido de todos. A minha querida esposa Leah e aos meus filhos, Olamit, e meu genro Eli, Yaakov e minha nora Daniella, Devorah e meu genro Abba, Moshe, Menachem, Chaya, e Yisroel. Algumas vezes vocês tiveram um marido e um pai ausente. E, por isso, a vossa grandeza individual é um tributo aos vossos próprios dons. Minha gratidão por vossa compreensão e por serem tão adoráveis. Ao Criador, por proporcionar-me uma vida plena de realizações e tantas oportunidades maravilhosas de crescer, de descobrir, e de compartilhar com os outros. Prefácio da Edição Brasileira A Cabalá é o conhecimento esotérico da Torá. De acordo com a tradição judaica, D’us outorgou o conhecimento Divino (a Torá) no Monte Sinai, há mais de 3.300 anos, juntamente com as diversas formas de interpretação. Enquanto que as interpretações literais (Pshat), homiléticas (Midrash) e legislativas (Halachá) eram de domínio de todos os judeus — inclusive os mais simples —, a interpretação mística (Sod, Chochmat Hanistar, Cabalá) só pertencia a uma elite. E assim ela foi transmitida de geração em geração para alguns justos eruditos e privilegiados. Uma grande mudança ocorreu a partir do Arizal (Rabi Yitschak Luria, 1534-1572 d.e.c.), que afirmou: “Hoje é mitsvá revelar a sabedoria da Cabalá”. Na prática, isso ocorreu por intermédio do Baal Shem Tov e de seus discípulos, os mestres chassídicos, que consideraram ter chegado o momento de revelar esta “gema que está na coroa do Rei”. Todavia, não é qualquer um que pode estudar e ensinar os princípios da Cabalá. Somente alguém de estatura espiritual elevada e comportamento adequado saberá explanar as alegorias contidas nesta ciência. Ultimamente, porém, assistimos a uma corrida desenfreada a tudo que seja (ou pretenda ser) esotérico. Infelizmente, traduções baratas e literais de obras antigas e profundas, bem como professores inaptos e não-iniciados nessa sabedoria, estão proliferando, aproveitando-se da sede do público pelo lado espiritual da vida. Porque aprofundar-se nos mistérios da Cabalá sem o preparo necessário ou o mestre adequado acaba por confundir o aluno, tornando-se prejudicial. Como forma de remediar esse triste fenômeno, a Editora Maayanot publica este livro, cujo objetivo é expor a origem verdadeira da Cabalá. E nada mais apropriado que esta obra seja de autoria do Rabino Laibl Wolf, especialista na matéria, discípulo degrandes eruditos, que reverencia os ensinamentos no dia-a-dia. Criador de um fenômeno denominado “MindYoga”, Laibl Wolf é um pioneiro e um visionário extraordinário. Nos últimos 32 anos obteve amplo reconhecimento como mentor espiritual e místico de fama internacional. “Cabalá Prática” é uma obra extremamente valiosa, pelo fato de o autor, com sua habilidade, conseguir captar uma ciência tão espiritual e abstrata e extrair os ensinamentos corretos e práticos para a nossa vida cotidiana, permitindo ao leitor usar esta ciência tão antiga em suas realizações diárias. Digno de louvor é o trabalho de Laibl Wolf, que além de rabino, escritor, advogado e psicólogo, é um grande orador, que vem obtendo grande êxito em mostrar a relevância do milenar conhecimento esotérico no controle da mente e das emoções e no aperfeiçoamento do ser humano neste mundo terreno. É com grande satisfação que apresentamos ao leitor esta magnífica obra, desejando que desfrute de uma boa e proveitosa leitura. 20 de Menachem Av, 5763. 18 de agosto de ’003 Y. David Weitman Introdução A Cabalá é uma antiga sabedoria judaica que explica as eternas leis de como se comporta a energia espiritual no Cosmos. Ao longo de muitos séculos, homens santos passaram as suas vidas inteiras envolvidos no estudo de seus místicos ensinamentos. As prateleiras das bibliotecas estão repletas de grossos volumes cheios de misteriosos comentários Cabalísticos, que iluminam minúsculos elementos pertencentes às suas miríades de níveis de profunda verdade. Para poder entender, verdadeiramente, a Cabalá, a pessoa deve passar a vida inteira comprometida ao estudo e à prece. Mesmo sem se aprofundar na investigação de suas profundezas esotéricas, a sabedoria que ela traz consigo pode enriquecer as nossas vidas de muitas maneiras. Na presente obra, embarcaremos numa aventura espiritual, a qual tem como destino este nosso mundo. Todos nós procuramos imbuir nossas vidas com significado e propósito. Procuramos conseguir uma visão clara e uma força de convicção. Infelizmente, são muito poucos aqueles que nascem com a capacidade de agir instintivamente em relação ao nosso propósito inato. Eu escrevi este livro para tornar os ensinamentos básicos da Cabalá relevantes à nossa vida cotidiana, enquanto que, ao mesmo tempo, seja possível proporcionar ao leitor um certo sabor do objetivo original, quais sejam, a autocompreensão e o domínio pessoal. Com este propósito, examinaremos o que é que a Cabalá tem a nos dizer acerca da natureza da Mente e do Coração. Envolveremo-nos em simples exercícios de imagem e usaremos como guia os princípios da psicologia Chassídica, tal como expressos na escola do Chassidismo Chabad Lubavitch. Esta obra está dividida em duas seções. A primeira proporciona uma introdução genérica à tradição da Cabalá. Estudaremos alguns conceitos e abordaremos algumas personalidades, e teremos a oportunidade de explorar fascinantes paralelos existentes entre a Cabalá e outras tradições espirituais. Na segunda seção, estudaremos os dez fluxos espirituais conhecidos como Sefirot, as quais constituem o fundamento básico da Cabalá. Utilizando uma variedade de exercícios de meditação e de criativas visualizações, nós aprenderemos a moldar o profundo conhecimento desta antiga sabedoria, de forma a satisfazer os nossos anseios modernos. Muitos viajantes espirituais têm seguido os caminhos da Cabalá. Ela sustentou o povo judeu ao longo de um exílio geográfico de dois mil anos. Até mesmo o Dalai Lama consultou os seus mestres em busca de pistas que pudessem causar a sobrevivência de sua própria nação, recentemente exilada. Até pouco tempo atrás, os profundos e complexos ensinamentos da Cabalá eram inacessíveis à sociedade Ocidental. Eles foram escritos em idiomas antigos, como o hebraico e o Aramaico, e codificados de forma a ocultar os seus meandros dos olhos não-autorizados. Apesar disso, algumas informações permearam e encontraram seus caminhos em outras culturas e tradições religiosas, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Ao ler este livro, você poderá reconhecer alguns aspectos da Cabalá que acabaram sendo adotados em outros credos. Hoje retornamos àqueles antigos preceitos. Num mundo que carece de autoconfiança e de propósito espiritual, nós ansiamos por um sistema que pode nos conduzir à realização. Se nos for dado sobrevivermos como seres humanos sensitivos, conscientes e empenhados, nós devemos nos submeter a uma revolução em nossa percepção acerca do significado da vida. Nós devemos estudar as histórias que relatam o sucesso daqueles que sobreviveram aos severos desafios pessoais e às violências sociais. Quatro Chaves Para o Crescimento O estudo de um caso aparece entre as páginas antigas da Cabalá — a sobrevivência dos judeus no exílio. Historicamente, nenhum outro povo sofreu tão prolongada adversidade e, ainda assim, desfrutou de tão desproporcional sucesso entre as sociedades anfitriãs. Qual é a chave para esta extraordinária história? Os estudiosos que estudam as escrituras místicas deste antigo povo apuraram quatro princípios básicos que possibilitaram aos judeus sobreviverem e florescerem. A partir destes, podemos projetar as nossas próprias chaves com as quais alimentaremos as sementes da mudança e do crescimento pessoal. AS QUATRO CHAVES PARA A MUDANÇA Emuná: Você deve acreditar que você pode mudar. Ratson: Você deve extrair forças da sua própria vontade. Avodá: Você deve praticar um programa de introspecção. Oneg: Você deve sentir a alegria do sucesso. A Cabalá explora os misteriosos labirintos dos estados alterados e dos elevados domínios espirituais. No seio de seus ensinamentos encontram-se as ferramentas para domar a mente do ego e pôr rédeas nas emoções casuais. Neste livro, interpretaremos princípios esotéricos e os aplicaremos às nossas vidas cotidianas. Aprenderemos que a chave para a felicidade está ligada à nossa capacidade de sacar de nosso lado positivo quando quisermos. Mesmo as aparentes adversidades têm um lado positivo, a bênção proverbial disfarçada. Porém, será somente através do exercício da escolha sensata que a bênção se revelará. Todos os eventos e acontecimentos possuem virtudes remissivas — se escolhermos sabiamente. Tudo o que acontece em nossas vidas serve de lição a ser aprendida. Podemos escolher entre interpretar a “realidade” com ênfase, ou fazê-lo sob um estreito e egocêntrico ponto de vista. O processo da auto-observação e da auto-análise (Avodá) é descrita na psicologia Chassídica como cheshbon Nefesh, que, literalmente, significa tornar-se um “contabilista da alma”. A arena para o cheshbon Nefesh é o ordinário: o mundano e terreno domínio da existência humana. Tal como estabelece uma conhecida instrução mística do Talmud, o ensinamento da vida “não está mais no céu”, mas está, sim, neste momento, aqui na terra. Nós descobrimos na Cabalá que o mundo não muda por sua própria vontade. A nossa transformação pessoal é que altera a forma do Cosmos, e não a recíproca. Nós é que somos responsáveis em fazer mudanças no Cosmos, e é profundamente significativo quando a pessoa chega a verdadeiramente entender que o Cosmos busca o nosso bem- estar. Está escrito que, antes de virmos para este mundo, tudo sabíamos e conhecíamos. Por ocasião de nosso nascimento, chega um anjo e “arquiva” as nossas percepções em nossa mente subconsciente. Ora, o propósito de nossa jornada da vida é extrair estas percepções intuitivas e enriquecer o mundo com as suas expressões. O Cosmos evoca de nosso interior estas verdades internas ao nos oferecer desafios, através dos quais nos é possível crescer em sabedoria. Os místicos da Cabalá ensinam que, assim como a uva, quando pressionada ou comprimida, produz o vinho, tal como acontece com a azeitona para produzir o azeite, igualmente nós, quando desafiados, nos adiantamos com sabedoria. Porém, a sabedoria requer que abordemos a vida com fé, com disciplina e com mente aberta. Muitas vezes a vida parece ser como uma viagem por um deserto cheio de ganância, insegurançae medo. No entanto, podemos escolher aquilo que vemos: no deserto aparentemente inerte, a vida fervilha sob as áridas areias. Espere o cair da noite e você haverá de descobrir a fauna noturna. Olhe para os lugares certos e você poderá ver determinadas floras. E sob a superfície correm riachos subterrâneos que conduzem vivas águas. Da mesma forma, as mesmas pessoas que agarram, que negam, e que ameaçam, também possuem um cerne de bondade que busca a luz do dia. Cada um de nós possui o potencial de repartir a nossa percepção e orientação, bem como a de obtê-las de outrem. No entanto, devemos, primeiramente, encontrar a sabedoria dentro de nós mesmos. A Caverna Rabi Shimon bar Yochai, o estudioso que compilou o Zohar (o “Livro do Esplendor” — o repositório dos mais importantes ensinamentos Cabalísticos), foi forçado a se esconder dos poderosos inquisidores Romanos, os quais estavam tão temerosos de seus ensinamentos Cabalísticos que viam nele uma séria ameaça a todo Império Romano. Finalmente, Shimon bar Yochai saiu da caverna onde viveu durante muitos anos, e concentrou a luz dos ensinamentos do Zohar nas gerações que se seguiram. Cada um de nós deve descobrir como sair de nossa caverna pessoal de acachapante escuridão e fazer com que a nossa individualidade ilumine as vidas daqueles destinados a partilhar de nossa viagem. É somente o ego que se interpõe no caminho da partilha dos nossos dons, expressando compaixão e descobrindo o lado positivo da adversidade. A Cabalá nos diz que quanto mais damos de nós, mais repletas ficam as nossas reservas interiores — com calor, com felicidade e com paz interior. Tudo isto aparece espontaneamente, por si só, de forma que nós não precisamos brigar pelas doces coisas da vida. Quando damos aos outros, nós criamos espaço interior para que um beneficente Cosmos nos reabasteça. Neste livro, eu tento proporcionar-lhe as ferramentas e instrumentos com os quais você pode re-interpretar a realidade. Descobriremos como remodelar o nosso mundo criando uma revolução em nossos relacionamentos. O nosso objetivo é o de alcançar os objetivos universais de: REALIZAÇÃO: O equilíbrio entre a mente e a emoção. SEGURANÇA E PAZ INTERIOR: A fé com a qual se vence o temor. A capacidade de abraçar a força interior, a integridade e a serenidade. AMOR E COMPAIXÃO: As conexões emocionais que unem as pessoas com calor, empatia e relacionamentos responsáveis. EXPRESSÃO HONESTA E CONFIDENTE: O domínio das palavras, do comportamento e do pensamento, de forma tal que eles se tornem uma expressão de nossa verdade e singularidade interiores. Se estes objetivos são universais, por que é que tantos de nós deixam de alcançá-los, seja em nossas vidas pessoais, seja em nossas vidas profissionais? A resposta está em nossa compreensão acerca da verdadeira natureza da Mente e da Emoção. De acordo com a Cabalá, a Mente consiste de uma série de três energias espirituais mediadas pelo cérebro físico. Estas energias criam o esclarecimento e a compreensão. Já a Emoção consiste de sete energias que se manifestam através do coração. Juntas, elas compõem as dez Sefirot, as energias espirituais que fluem ao longo do corpo. Uma Nota Pessoal Sempre que eu leio um livro, especialmente se for um livro que tenta ensinar aspectos espirituais, eu sempre tenho a curiosidade de saber mais sobre o autor. Qual é a experiência de vida daquele autor? Onde foi que aquele autor estudou, e com quem? Quais são as razões que levaram aquele autor a escrever aquele livro? Assim sendo, permita- me apresentar-lhe um pouco da minha vida. Eu sou filho e genro de sobreviventes do Holocausto. Assim como todos os filhos de sobreviventes, eu tenho a consciência de estar vivo. Tenho a plena e profunda convicção de que eu poderia jamais ter nascido — ao menos não daqueles pais que me trouxeram ao mundo. Ainda quando criança, eu encontrei um livro que descrevia os indizíveis horrores da vida nos campos de concentração. Naquela noite, deitado em minha cama, eu recriava em minha mente as cenas daqueles textos. Mais traumatizantes ainda eram os gritos angustiantes durante os pesadelos que os meus pais tinham ao reviver o Holocausto em seus sonhos. Aquilo que me aterrorizava, quando ainda criança, continua a me aterrorizar hoje. Será que eu teria tido aquela mesma determinação de sobreviver? Ou será que a covardia teria me conduzido a uma saída muito mais simples — desistir e morrer? O destino pregou uma peça cruel em meus pais. Eles sobreviveram; mas os seus pais, avós, irmãos e irmãs foram assassinados nas câmaras de gás. Apesar disso tudo, estes sobreviventes encontraram forças e convicção em recônditas fontes — uma fonte interior de vida. Eles não se insurgiram contra D’us que, silenciosamente, testemunhou a absoluta degradação da humanidade; nem se revoltaram contra o Cosmos, que criou cultuados monstros, Doutores com gosto pela boa música e pela tortura, amáveis com os animais e bestiais com os humanos. Ao invés, os meus pais e os meus sogros tiveram filhos, e com audácia incluíram-se na sociedade Ocidental. E mais, eles partiram com tenacidade em busca do sucesso econômico e social. De forma inacreditável eles continuaram fiéis ao D’us que, junto com eles, também sofreu em Auschwitz, Bergen-Belsen e Treblinka. Como foi que eles recompuseram seus corpos quebrados, suas mentes quebradas, e os seus corações partidos? De onde foi que eles conseguiram reunir tanta vontade e determinação para viver, e onde foi que eles conseguiram encontrar a audácia de trazer novas vidas a um mundo tão incerto? Façamos uma breve pausa. Procure se lembrar de um momento de sua vida em que você esteve verdadeiramente aterrorizado. Pode ser um momento que de fato você passou, ou um que você experimentou em seus sonhos. Reviva aquele momento. Tente sair de dentro de você e observe a sua mente. Onde é que estão os seus pensamentos — aqueles “pensamentos fugazes” que afloram ao bel-prazer de suas emoções? Onde estão os seus sentimentos? Você pode admitir para si próprio que, em meio ao terror daquele momento, você perdeu o controle. O seu equilíbrio interior se dissolveu. Uma descomunal força pareceu imobilizá-lo em suas garras. Agora feche os olhos e revivencie aquela experiência. Agora pense um pouco sobre as centenas de milhares de sobreviventes de uma extrema violência e terror sem sentido, em todo o mundo, e que convivem, todas as noites, com a lembrança dos horrendos demônios dominando-os, e que ainda, apesar disso tudo, de alguma forma, quase que impossível, continuam em suas vidas convencionais, mantendo um relativo equilíbrio, disciplina e, até mesmo, fé. Aí está o segredo que eu queria compartilhar e explorar com vocês: a vontade e a determinação de sobreviver e da busca pelo significado — o maior de todos os mistérios da vida. Através de meus estudos da Cabalá, eu consegui obter profundas percepções acerca da natureza da motivação humana, e posso agora entender como foi que os meus pais conseguiram continuar vivendo na esteira de uma calamidade sem precedentes. Há cerca de vinte e oito anos, fui levado sob a asa de um homem sábio. O seu nome era Reb Zalman Serebryanski, de abençoada memória. Também ele foi um sobrevivente do Holocausto e um imigrante na Austrália. Ele era um famoso e cultíssimo estudioso, além de um extraordinário professor. Além disso, ele era um Chassid, e, como vim a aprender, o Chassidismo detém a chave da compreensão da Cabalá. Ele me ensinou muitas coisas, porém a fonte que me direcionou em minha jornada foi o seu ensinamento da psicologia Chassídica. A sua perspicácia, perspectiva e sabedoria semearam o meu próprio crescimento e desenvolvimento. Foi ele que me apresentou ao professor que viria a ser o meu mestre, o Lubavitcher Rebe, de abençoada memória. Foram muitos anos de estudos intensos e de enérgica disciplina, lutando para experimentar a alegria do esclarecimento. Durante todos aqueles anos, eu estudei as leis e graduei-me em psicologia educacional. Fui professor em colégio e em universidade, tornando-meum conselheiro e capelão para estudantes universitários, nos Estados Unidos e na Austrália. Tornei-me um palestrante e líder seminarista, viajando mais de um milhão de milhas ao redor do globo. Neste ínterim, contribuí para trazer ao mundo sete filhos — uma realização que foi possível graças aos dotes e à tolerância e paciência de uma mulher muito especial, Leah, minha esposa há vinte e nove anos. Ao longo de minhas viagens, eu desenvolvi relacionamentos muito próximos com pessoas de todas as culturas, religiões e modos de vida. Tive a honra de encontrar-me com professores espirituais, pesquisadores espirituais, tanto orientais como ocidentais, com empertigados empresários, psiquiatras e psicólogos, profissionais envolvidos com crianças, e muitos outros, todos tentando montar o quebra-cabeças da vida. Foram eles que, originalmente, deram-me a idéia de escrever um livro. Inicialmente, eu estava hesitante; porém, recebi um grande incentivo de meu mestre, o Lubavitcher Rebe, Menachem M. Schneerson, de abençoada memória. Ele me persuadiu a aproveitar a oportunidade de contribuir com alguma direção à busca espiritual da humanidade com a chegada do novo milênio. Você está no limiar de um novo caminho. Seja corajoso. Invoque o compromisso que você precisa para realizá-lo. Você está prestes a embarcar numa viagem ao longo de uma antiga estrada. Trata-se da estrada percorrida pelo Povo do Livro, através de incontáveis gerações. Foi ela que, também, proporcionou o ímpeto espiritual às principais religiões do mundo. Apesar disso tudo, a Cabalá ainda continua envolta em mistério, e as suas contribuições não são prontamente aparentes. Você descobrirá como integrar a percepção e a sabedoria contida na Cabalá em sua vida. O resultado será um equilibrado e profundamente ligado relacionamento. Você terá uma efetiva vida, uma vida de alegria e serenidade. Que a minha humilde contribuição possa pavimentar o caminho para que todos nós possamos cantar uma nova canção de redenção pessoal e mundial. Uma Palavra Sobre o Chassidismo Chabad O Chassidismo Chabad — a teologia e a psicologia transpessoal que explica e decodifica a antiga Cabalá, que busca o nosso bem-estar físico, emocional e mental. Ele demonstra que a pessoa e o Cosmos se complementam e são aspectos cinegéticos de um Todo maior. Ele ensina que tudo aquilo que pensamos, que falamos, ou que fazemos, deixa uma marca no Universo. E que o Universo alterado se “comunica” conosco na nova “linguagem” que já inclui a nossa contribuição. A Cabalá é profundamente mística; porém, as suas explicações Chassídicas proporcionam surpreendentes abordagens práticas aos desafios da vida cotidiana. Em tempos em que a sociedade moderna busca caminhos para se libertar da discordância e da alienação pessoal, esta antiga tradição provê respostas contemporâneas. P R I M E I R A P A R T E O MOVIMENTO DO ESPÍRITO 1 Abraão — O Místico Rebelde Você pode ter lido em algum lugar que a Cabalá é um fenômeno místico que emergiu do período medieval da História, uma criação do Século XIII. Esta é apenas parte da história. Os textos acadêmicos nos dão conta de que Moses de Lyon foi quem publicou o texto principal da Cabalá, conhecido como o Zohar (a Luz Interior), na época medieval. No entanto, Rabi Shimon bar Yochai já havia manuscrito este trabalho, mil anos antes, na antiga Israel. E mais, ele o escreveu com base na tradição oral, a qual remonta a outros setecentos anos. A Cabalá da Torá (o compêndio da lei e instrução que compõe a estrutura da sociedade judaica e as disciplinas espirituais pessoais para seus membros) é incrivelmente antiga e pode ser atribuída a Abraão, a quem se atribui a composição de trabalhos Cabalísticos. Porém, mesmo muito antes, sabemos que Noé e Adão estavam bem familiarizados com os seus ensinamentos. A Cabalá está envolta em mistério. Os acadêmicos ainda hoje discutem, tentando saber como foi que ela evoluiu e como foi que o seu espírito atravessou os séculos. Eu não me dispus a escrever um livro de história ou de análise de textos teológicos. Porém, é necessário apresentar um breve retrospecto para que o leitor possa melhor entender as origens e raízes da Cabalá. A interpretação que segue foi colhida a partir de textos místicos. Alguns doutos acadêmicos poderão discordar deste enfoque, porém os meus professores me asseguraram de que o seguinte está consoante com as verdades Cósmicas contidas nos textos sagrados. Abraão era um homem de porte alto e magro. As areias do deserto afinaram os seus traços faciais com grossos contornos. Uma figura imponente e estóica, Abraão impressionava todos ao seu redor com o seu régio porte e a clareza de sua visão. Ele era o mais festejado líder do Oriente Médio. Apesar dos aparatos característicos do poder e conforto, Abraão vivia uma vida espartana. Ele era extremamente meticuloso e cuidadoso com o seu rebanho de ovelhas, e mais ainda com os seus pastores; afinal de contas, ele próprio era um pastor. Apelidado de Ivri (o Hebreu), Abraão era como uma lenda viva em toda a terra. Ele era um pastor-rei e um renomado guerreiro. Mas, acima de tudo, ele era conhecido como um sábio místico que tinha uma abrangente e estranha noção de uma só Deidade. Ele era capaz de invocar poderes das Alturas para dizimar um exército inteiro, ou para curar uma criança enferma, e tinha a capacidade de ver coisas que os outros não podiam ver. Forças angelicais sussurravam em seus ouvidos. Era sabido que ele recebia instruções do misterioso D’us. Imaginemos Abraão em pé, no alto de um monte de areia — o deserto Tel —, meditando acerca dos dias passados. Ele pode lembrar a Rebeldia de sua juventude; de como ele havia desafiado os modos idólatras do politeísmo da Mesopotâmia; de como ele fora atirado à abrasadora fornalha pelo rei da Mesopotâmia e como havia desafiado todas as leis da natureza ao sobreviver ileso àquele intenso calor. Então, eis que das Alturas chegam-lhe as instruções; foi quando D’us ordenou a Abraão que deixasse a sua terra natal e fosse para uma terra estrangeira. Podemos vê-lo agora, de pé naquela nova terra, uma sagrada energia vibrando por todo o seu corpo. Aquela terra receberia, um dia, o nome de seu neto — Israel. Até o final dos tempos, ela será a encruzilhada para exércitos em guerra que buscam o domínio de seu credo. Quando Abraão obedeceu à ordem de D’us, ele já estava bastante familiarizado com aquilo que, mais tarde, seria conhecido como Cabalá. Inclusive, ele foi o autor de um importante texto Cabalístico — o Sêfer HaYetsirá (o Livro da Formação Criativa). Ele foi um aclamado astrólogo e um conhecedor da mágica e da bruxaria do Leste. Em sua juventude, Abraão virou as costas para as forças negativas da tumá (defeitos ou nódoas espirituais) e adotou o caminho do monoteísmo espiritual. Esta sua postura Rebelde originou o seu apelido — o Ivri, que significa “o do outro lado”, ou “o forasteiro”. A palavra Ivri acabou sendo traduzida como “Hebreu”. Os acadêmicos discutem as origens da palavra Ivri. Ela pode ter sido adotada a partir de seu famoso ancestral, Eiver, o bisneto de Noé. Ou, poderia, simplesmente, denotar que as suas origens eram de além do Rio Eufrates, o outro lado das trilhas proverbiais, e daí “o do outro lado”. Talvez pudesse, simplesmente, tratar-se de um sórdido epíteto que lhe foi atribuído pela classe dominante, para demonstrar o seu desconforto com a crescente popularidade daquele “novo rico”. Quaisquer que tenham sido as suas origens, o fato é que o seu nome ficou gravado para a posteridade. Os sonhos de Abraão para o sucesso das gerações vindouras foram inculcados em seu filho Isaac, nascido de sua esposa Sara. O futuro da dinastia dependia de seu leal e modesto filho. Ele pôde sentir em Isaac as qualidades que viriam a guiar os agora emergentes hebreus através dos acidentados caminhos espirituais do Ocidente. Foi para salvaguardar Isaac que Abraão teve que rejeitar seus outros filhos — os filhos nascidos de sua segunda esposa, Hagar. Estes jovens exerciam má influênciasobre Isaac, por estarem tão emaranhados nas crenças dos cultos então prevalecentes, que envolviam o politeísmo e a bruxaria. Podemos imaginar a tristeza de Abraão ao lembrar de sua amarga partida, e as suas preces ao lembrar dos dotes que lhes havia conferido — percepções e poderes espirituais com os quais podiam navegar pelos reinos superiores. Se os seus filhos tivessem que lidar com o fogo da idolatria, eles teriam, ao menos, uma bússola moral para guiá-los na direção certa. Os dotes dados por Abraão haveria de permitir-lhes enxergar a natureza do mal — shem hatumá, o lado escuro da realidade superior. Será que eles usariam sabiamente os seus conhecimentos? Isto era algo que ele não sabia. Ele podia apenas esperar que aqueles ensinamentos os manteria em boa forma ao partirem para as terras do Leste — o codinome bíblico de Hodu — Índia. É aqui que podemos encontrar os primórdios do grande conflito entre o Oriente e o futuro Ocidente. Tornam-se inteligíveis os notáveis paralelos existentes entre o Judaísmo místico e os caminhos do Budismo e do Hinduismo. O Oriente Encontra o Novo Ocidente Supomos que ao chegarem à antiga Índia — Hodu — os filhos de Abraão começaram a compartilhar suas percepções com os nativos que até chegaram a dar ao grande rio, o Rio Indus, o nome do pai que para lá os mandara. Em Brâmane, a palavra Indus significa “o do outro lado” — o Ivri! Além disso, a sua Divindade — BRAHMAN — é, simplesmente, uma combinação das letras que compõem o nome de seu pai — ABRAHAM. Diz-se que o bisneto de Abraão, ashurim, foi quem criou a comunidade espiritual conhecida como o ashram. É interessante notar que a tradução da Bíblia, o Targum Onkelos, traduz a palavra ashurim como “campos” ou “comunidades”. Outros conceitos hebraicos começaram a transparecer entre os sistemas de credo dos Orientais. Ram, uma elevada deidade no Leste, em hebraico significa ”elevado”. Veydá está, etimologicamente, relacionado à palavra Hebraica deyá, que significa “sabedoria” e “percepção”. A palavra tamas, que em Hindu significa “impureza”, obviamente equivale à palavra tamê, que, em hebraico, tem o mesmo significado. Além das semelhanças terminológicas, podemos nitidamente observar diversos paralelos conceituais. Por exemplo, um conceito como o da reencarnação, toku, no Oriente, é o ensinamento hebraico do guilgul HaNefesh, a reencarnação cíclica da peregrinação da alma. O karma, a “bagagem” trazida das vidas anteriores, lembra a hashgachá pratit, a específica relação entre causa e efeito, determinada por vidas anteriores. As provas e aberturas que constituem os momentos de oportunidade para mudar o destino de reencarnação da pessoa são chamados de bardos no Oriente, e de nissyonot em hebraico. Paral el os ent re Terminol ogia e Conceit o HEBRAIC LESTE SIGNIFICADO Ivri Indus Forasteiro (o do outro lado) Avraham Brahman Pai da nação Deyá Veydá Sabedoria Ashurim Ashram Poder Espiritual Ram Ram Elevado Tamê Tames Impureza Espiritual Guilgul Tulku Reencarnação Hashgachá Karma “Bagagem” para a vida futura Nissayon Bardo Prova, teste, oportunidade A Natureza da Respiração Uma interessante e significativa abordagem Oriental sobre a meditação se concentra na ciência da respiração. Coincidentemente a isto está a associação antropomórfica da respiração com a criação, tal como está descrita na Bíblia Hebraica: “E Ele soprou a alma viva em suas (de Adão) narinas”. A palavra Hebraica que significa “sopro” é neshimá, enquanto que a palavra que significa “alma” é neshamá. A relação é óbvia. A concentração na respiração é a concentração na própria força de vida. Os mestres Chassídicos da Cabalá ofereceram as imagens meditacionais da investidura de D’us no mundo como o processo de memale — o “preenchimento” do mundo com a Presença Divina, tal como a respiração “preenche” os pulmões. O “esvaziamento” da mente, que constitui um outro ensinamento meditacional Oriental, é parecido ao ensinamento Cabalístico de que o mundo é derivado de um vazio, um vazio conhecido como chalal. (Seria esta a origem de hylé Grego, que significa “o material básico com o qual o Cosmos foi esculpido?”). O esvaziamento da mente cria a base para o processo de preenchimento contemplativo, memale, conhecido na meditação Chassídica como hitbonenut. A Cabalá não ensina que a “ciência da respiração” é, por si, um fim, e nem que o esvaziamento da mente seja, por si, uma virtude. Tratam-se de disciplinas que levam a uma maior introspecção, e são instruídas por práticas devocionais bem definidas. Os Primeiros Cabal istas Abraão era proficiente naquilo que, muito mais tarde, viria a ser conhecido como Cabalá. Freqüentemente ele invocava seus poderes místicos e sua sabedoria prática. O pastor-rei estudara no grande centro de ensinamento espiritual, conhecido como a Academia de Shem e Eiver, criado pelo filho de Noé, Shem (o pai dos Shemitas, ou povos Semitas), e o neto do próprio Shem, Eiver, de quem descendia Abraão. A Academia de Shem e Eiver não era um centro público de ensino. O seus portais eram restritos aos recém-iniciados — aqueles encarregados de levar os ensinamentos espirituais de uma futura Torá em seus primeiros caminhos pelo deserto. Os patriarcas hebreus, Abraão, Isaac e Jacob, foram instruídos nesta academia. Supõe-se que Jacob estudou estas disciplinas espirituais durante quarenta anos. Os arquitetos da nação judaica adquiriram, assim, uma disciplina espiritual que se tornaria a marca patente do Povo do Livro. O filho de Jacob, Judá, reabriu a academia exatamente no coração do antigo Egito, onde continuou funcionando em segredo durante os quatrocentos anos de exílio e escravidão no Egito, até mesmo na presença do próprio faraó Ramsés II. Ainda assim, Abraão não foi o primeiro Cabalista. As forças espirituais que constituem o Cosmos e que mantêm a sua integridade física e espiritual, já eram conhecidas pelo primeiro Homem — Adão. E aqui temos alguns fascinantes ensinamentos. Assim, deixemos Abraão, o primeiro hebreu, e visitemos a aurora do primeiro milênio, na pessoa de Adão, também conhecido como Harishon (“o Primeiro”). As Letras da Criação Quem foi aquele bípede humanóide que se sobressaía a todas as demais criaturas? Era ele/ela humano? A Cabalá nos diz que Adão, a primeira Pessoa, foi, inicialmente, uma mistura de homem e mulher — um ser andrógino. Foi somente mais tarde que Adão foi separado em dois: o componente predominante masculino em Adão, e o feminino em Eva. Ainda hoje, o homem possui uma feminilidade latente, e a mulher, uma masculinidade latente. A dualidade masculino-feminina abrange toda a criação. Mesmo as letras hebraicas, sobre as quais estaremos meditando, contribuem para a essência dos componentes masculino e feminino da linguagem. Principalmente, estas letras se relacionam às forças espirituais, masculinas e femininas. Na tradição mística da Cabalá, o componente feminino de um indivíduo é mais profético, previdente e dotado nos talentos espirituais. Eis porque as esposas dos patriarcas, Sara, Rebeca, Raquel e Lea, eram espiritualmente dotadas. Mesmo a Presença Divina que envolve o profeta tem uma denominação feminina, Shechiná (morada Divina interior). Ainda assim, os conceitos de masculinidade e de feminilidade não são absolutos. Tanto o homem como a mulher podem exibir expressões tanto masculinas como femininas. Esta dualidade se manifesta em toda a natureza. A terra é feminina e aceita a atividade masculina das pessoas — ambos, homens e mulheres — de semear o solo e alimentar a semente, dando a luz à prole — a colheita. As energias espirituais que definem a Mente e a Emoção possuem propriedades masculinas e femininas, e, em toda a Cabalá, é possível encontrar imagens do gênero. Isto será apresentado com mais detalhes na segunda parte deste livro. Na verdade, Adão não era, realmente, um humano como você e eu. A sua relação com a natureza da criação estava, literalmente, “fora deste mundo”. Ele conhecia intuitivamente as vinte e duas forças criativas que formam o universo, e entendiaos diferentes caminhos que elas tomavam ao adentrar o reino do “aqui e agora”. Com esta compreensão, ele transpôs os caminhos místicos, e podia ver em vinte e duas formas distintas. Cada uma delas se transformou numa letra do alfabeto hebraico. Adão pôde, também, entender as energias associadas com cada uma destas letras. Ele replicou as energias individuais delas através da respiração, quando ela saía de seus pulmões, através de sua laringe — e, assim, formando aquele sopro em sons, articulados através das cinco características de sua boca: os lábios, a língua, os dentes, o palato e a garganta. Isto resultou em vinte e dois tipos de som — os vários sons do alfabeto hebraico. Adão utilizou a articulação dos sons para expressar a profundidade e a beleza da vida. Cada letra da linguagem Hebraica é uma janela que se abre para uma realidade superior. As letras constituem uma linguagem conhecida como Lashon HaCodesh — “a Língua Sagrada” –, o hebraico. É por isso que a Cabalá enfatiza, sobremaneira, a análise das letras e das palavras, a sua equivalência e valor numérico, formas, e as letras finais das palavras. Cada nuance abre um panorama de significado espiritual, muito mais complexo do que qualquer estrutura gramatical possa vir a sugerir. Vejamos um exercício bastante simples. A palavra, em hebraico, que designa “querer”, ou “desejar” — ratsá –, é composta por três consoantes do alfabeto hebraico, que têm o som de R-TS-H. Estas mesmas três consoantes formam, também, a base da palavra que significa “adversário” — hatsar –, H-TS-R. Além desta, ainda uma outra palavra composta pelas mesmas três consoantes — tsohar –, TS- H-R, que significa “claridade”, “clareza” ou “esclarecimento”. Ainda uma quarta combinação destas três consoantes é TS-R-H — tsará –, que significa “problema” ou “constrangimento”. Em nosso idioma, estas palavras parecem não ter nenhuma relação entre si; mas na Cabalá, o fato de estas palavras terem a mesma raiz significa que elas têm alguma inerente relação. Assim, podemos aprender que a nossa “vontade” e “desejo” cria, incorretamente, uma “adversidade” interna — isto é, um “problema” –, dentro e fora. O seu correto direcionamento traz “esclarecimento” e “clareza” ao espírito. Se as letras do alfabeto hebraico são símbolos que representam os componentes espirituais básicos da criação, então a combinação delas, tal como na Torá, fornece uma completa planta da criação. Exploremos esta planta e aprenderemos um pouco mais acerca dos aspectos espirituais da criação. 2 A Planta do Cosmos A Torá nos dá conta de que milhões de pessoas acamparam ao pé do Monte Sinai — o que equivale à população de uma moderna metrópole. Cada uma daquelas pessoas testemunhou algo que, verdadeiramente, transformou o mundo. Aquilo marcou o início da tradição judaica, donde surgiram ramificações como o Cristianismo e o Islã, e também foi responsável pelo nascimento da tradição da Cabalá. Naquela pequena montanha, Moshé Rabeinu (Moisés) dirigiu-se aos cidadãos de uma nova nação — a nação de Israel. Ele ensinou-lhes a Torá. A Torá era uma constituição nacional e um manual pessoal. Porém, a sua importância principal era que ela continha em seu bojo a planta da criação, e fornecia a corda que amarrava D’us ao Povo do Livro. Tal como qualquer constituição ou código legal, ela tinha que ser interpretada. Moisés educou seu povo em quatro níveis — cada nível decifrando um outro nível. Cada pessoa aprendia o significado básico das leis e regras que governavam o comportamento pessoal, a consciência social, o código de ética e o estilo de vida, bem como o relacionamento com o seu Criador. Este nível de instrução ficou conhecido como Peshat, o que significa “Puro, Limpo, Sóbrio, Isento de Complicação”. A segunda série de “aulas” se limitava àqueles cujas capacidades possibilitava-lhes sondar e aprofundar as implicações implícitas do nível Peshat. Este nível investigava as alusões de maior profundidade, das quais só se denotavam algumas pistas ao longo do texto. Conhecido como o nível Remez, ele alude a uma camada mais profunda da intenção contida na informação básica. A terceira seção era altamente restrita, e os pré-requisitos para dela participar eram muito exigentes. A este seleto grupo foi ensinado um nível mais profundo, Derush (“Inferido”), da mesma Torá. Por exemplo, algumas vezes você pode estar tentando raciocinar sobre um determinado conceito; mas, devido a sua complexidade e profundidade, é provável que a sua expressão literal lhe seja impossível. É possível que você tenha que recorrer a uma apropriada analogia, ou a algum tipo de metáfora, ou, talvez, a uma alegoria. Embora imperfeita, uma analogia inteligente e brilhante compreende a essência que deve ser reunida. Enquanto ela pode trazer luz, uma analogia obscurece, pois ela é enunciada baseada num exemplo que, normalmente, é bastante diferente da informação pretendida. Ironicamente, quando você “esconde” a informação numa analogia, você está, na verdade, “revelando” a sua essência. É isto o que faz o Derush. Ele faz com que a essência da Torá seja conhecida através de metáforas e contos. Para os sábios, isto se tornou como chaves que conduzem aos significados ocultos. Todo o corpo de uma obra da literatura da Torá, conhecido por Midrash, é dedicado à forma Derush de ensinamento. E nem chegamos, sequer, ao nível Cabalá. Este aconteceu quando Moisés escolheu um punhado de futuros nistarim (literalmente, “os ocultos”), e ensinou-lhes o nível Sod (“Secreto”) da Torá. Neste nível, a realidade tangível fica reduzida ao simbolismo, à numerologia e às forças espirituais — aquela energia etérea que suporta a criação. Este ensinamento foi “recebido” (kibel) de geração em geração — daí o nome de Cabalá (o processo de recebimento). PARDES — O POMAR DO MISTICISMO DA CABALÁ P Peshat Pleno Significado R Remez Pista, Alusão D Derush Derivação através de Analogia ou Metáfora S Sod Segredo, a Cabalá O Código Genético Espiritual A abordagem tradicional ao estudo da história pressupõe que o processo histórico é o produto dos eventos que influenciaram uma determinada época, ou de carismáticos líderes que deixaram as suas marcas na sociedade. O meu mentor espiritual, o Rebe de Lubavitch, de abençoada memória, ofereceu uma perspectiva espiritual mais profunda. Ele observou que a história também é afetada pela dimensão vertical — a dimensão da espiritualidade. Ou seja, em outras palavras, a dinâmica espiritual afeta a história. Veja o seguinte exemplo dramático. A Revolução Industrial, os primórdios dos métodos científicos, a ascensão do nascente nacionalismo na Europa, o crescimento do Puritanismo na Inglaterra e o surgimento do Chassidismo evoluíram, todos, num extraordinariamente breve período de tempo. Isto poderia parecer uma coincidência histórica. Apesar disso, o desenvolvimento social, econômico e religioso nas respectivas regiões do mundo Ocidental, onde estes fenômenos aconteceram, estavam longe de refletir o mesmo. Poderia parecer como se alguma força interior comum estivesse a impulsionar cada um destes geograficamente disparatados desenvolvimentos históricos no mundo. Além do mais, a data para a ocorrência de uma transformação histórica estava prevista no Zohar, cujo texto fora primeiramente registrado cerca de mil e quinhentos anos antes. O Zohar assinalava que chegaria um tempo em que “fontes de sabedoria” irromperiam, vindas de cima e de baixo, mudando para sempre a paisagem do mundo. Em outras palavras, além das forças sociais e econômicas vigentes, existe uma dinâmica espiritual universal que une e mescla estes fatores isolados num todo integrado. Assim como os genes mudam a criança para adulto, de uma desajeitada infância à maturidade, igualmente os eventos históricos freqüentemente surgem como uma inevitável conseqüência de uma dupla helicóide cósmica.O progresso próprio de uma pessoa ao longo de sua vida não é somente um resultado da iniciativa pessoal ou de um treinamento. Mesmo esta própria iniciativa já é o resultadode uma aura espiritual definida — a alma. Basta notar como os anos sessenta e os primeiros anos setenta mostraram ser o resultado de um jovem cuidado reformista, buscando a transformação da sociedade e a expressão pessoal. Tudo em flagrante contraste com os últimos anos setenta e os anos oitenta, durante os quais foi possível observar um importante incremento no egoísmo, na autocentralidade, na ganância e na cobiça. Foi possível, nos anos noventa, novamente notar uma nova guinada espiritual, mais uma volta para o interior. Estas transições não são fáceis de ser explicadas. Parece que uma profunda dinâmica espiritual vigora, codificada na Torá — a planta da criação. Trabalhos recentemente publicados, baseados em elaborações matemáticas, apontam para um “código espiritual oculto” no âmago da Torá. Sob um ponto de vista Cabalístico, mesmo estes trabalhos estão muito longe de explicar a dinâmica espiritual vigente no Cosmos. O Beijo Cósmico A metáfora da respiração é largamente usada na explicação da Torá sobre a criação. Por exemplo, ela descreve como Adão foi criado em dois estágios. Inicialmente, o Criador formou o corpo físico de Adão e somente depois é que “soprou” a vida para dentro dele. A Cabalá fala do sopro de D’us como sendo a força vital que sustenta todos os níveis da existência: o inanimado, os vegetais, os animais, os humanos, tanto quanto os etéreos seres angelicais e as almas. O Criador é íntimo com Suas criaturas. Ele as ama e busca por seu completo e absoluto benefício. O “Sopro Cósmico” é tratado como o processo de memale (preenchimento do vazio), assim, animando-o. Quando o Criador encontra Suas criaturas, cara a cara, o Seu sopro passa por entre elas através de um “beijo”. Quando a sua alma se funde ao fluxo Divino da história, a Cabalá a descreve como um “Beijo Cósmico”. O Criador e as Suas criaturas compartilham o “Sopro Cósmico”. A respiração consciente, feita com introspecção, pode se tornar uma poderosa ferramenta para recuperar o equilíbrio interior e pessoal. Ela, igualmente, pode induzir estados de consciência alterados, os quais facilitam uma auto-realização mais profunda e imprimem transformações comportamentais. Quem Sou Eu? Nem o seu corpo, nem a sua mente e seu coração são a essência daquilo que você é. Na Cabalá, o centro espiritual é chamado de neshamá. A neshamá é o cordão umbilical, transcendental e espiritual, que conduz a força vital que o anima. Você pode chamar isto de “alma”; porém, não é aquela alma que foi formulada pela percepção Cristianológica. É provável que você imagine a alma como algum ponto existente nas profundezas de seu interior. Tal conceito é totalmente estranho aos ensinamentos da mística judaica. Na Cabalá, a alma transcende quatro mundos (ou planos) paralelos, conhecidos como Olamot (vide ilustração). A nossa consciência localiza- se onde o fluxo da neshamá intersecta o plano mais inferior — o plano Assiyá. Este é o plano do tempo, do espaço e da consciência. A viagem da alma através destes quatro planos a imbui de propriedade transcendentais. Olhando para ela sob uma perspectiva psicológica, poderíamos dizer que o fluxo da neshamá através destes planos superiores constitui o subconsciente. Na realidade, nós somos uma dualidade composta de alma e corpo. Quando nos sentimos bem, plenamente vivos e brilhando dos pés à cabeça, as nossas dimensões espirituais e físicas estão totalmente integradas. Quando estamos enfermos, a mente fica enevoada e os nossos movimentos se tornam mais lentos. Espiritualmente, isto denota uma leve desintegração das nossas características espirituais e físicas. Quando dormimos, podemos sentir um deslocamento mais profundo e uma desintegração de nossa dualidade interior. É como se perdêssemos a consciência, e a nossa alma ficasse ainda mais deslocada do corpo. Em nossos sonhos, nos tornamos, embora imperfeitamente, conscientes dos planos superiores e da nossa presença neles. Se caíssemos num verdadeiro estado de inconsciência, o deslocamento da alma em relação ao corpo seria ainda maior, ao ponto em que a alma passaria a ter uma expressão bastante limitada sobre o corpo. A mais profunda desintegração da dualidade alma-corpo ocorre por ocasião da morte. Neste caso, o deslocamento da alma em relação ao corpo é tão intenso que apenas uma tênue relação é mantida. Porém, a Cabalá ensina que, até mesmo na morte, um nível básico de integração ainda existe, e o corpo retém a sua forma física. A progressiva decomposição é, na verdade, a perda desta ligação final. Registros de experiências com pessoas à beira da morte nos proporcionaram uma janela à natureza da dualidade alma-corpo. Sob certos aspectos, o fenômeno da proximidade da morte é similar a alguns estados meditativos e experiências extracorpóreas descritas na literatura Cabalística. O fundador do movimento Chassídico, Rabi Yisrael Baal Shem Tov (literalmente, “Mestre do Bom Nome”), registra numa carta endereçada ao seu cunhado, Rabi Gershon Kittiver, como foi que, certa vez, ele praticara um estado alterado, conhecido como Aliyat Haneshamá — a ascensão da alma através dos planos superiores Olamot. Ele descreve uma ascensão em meio à luz e esplendor, passando através de uma série de câmaras, até que, finalmente, encontra a Criatura-Mor conhecida como Mashiach (Messias), que o instrui a espalhar e difundir os ensinamentos Chassídicos da Cabalá como um meio de trazer a realização final da criação. Ao retornar a este plano do aqui e agora, ele vê-se tomado de um grande fervor, e inicia a difusão das perspectivas Cabalísticas através do surgimento do movimento Chassídico. Durante aquela experiência, o seu corpo permaneceu deitado, inerte, e aparentemente sem vida. O fenômeno da proximidade da morte levanta a questão de quem é que faz o ato de ouvir e de ver. Certamente, não pode ser o corpo que jaz sobre uma mesa de operação, mostrando nos instrumentos de monitoração nada além de uma linha reta e inativa. Igualmente, não foi o corpo do Baal Shem Tov que viu ou que falou com Mashiach. A Cabalá ensina que o “eu”, a essência da personalidade e da consciência, é a neshamá que “vê e ouve”. Ela permanece espiritualmente consciente e alerta. Aí reside uma importante diferença entre muitas das crenças do Leste e a tradição da mística judaica. Enquanto que a Cabalá reconhece que há muito a ser obtido dos planos superiores, induzido por estados alterados, o nosso verdadeiro propósito é o de controlar o processo da consciência e do livre pensar, falar e agir, aqui mesmo, no plano terreno de Assiyá. A Cabalá nos ensina a integrar o corpo e a alma, vivendo plenamente no mundo “real”, impregnando-nos com uma profunda consciência de nosso papel como co-criadores de um inacabado Cosmos. É somente através deste esforço que nos será possível encontrar o verdadeiro “eu”. Considere os grandes personagens de nossos tempos: Gandhi, Schweitzer, Madre Teresa, Einstein. A sua grandiosidade não se manifestava através de gloriosos devaneios espirituais, mas na fusão de seus elevados egos com o trabalho de suas próprias mãos. A grandiosidade do Rebe de Lubavitch, de abençoada memória, não está somente em seus muitos milagres. O seu legado inclui as inúmeras instâncias de preocupação que ele demonstrava em relação ao bem-estar material de um carente, ou de um desconhecido, situado no outro lado do globo. Eis a verdadeira mensagem da Cabalá. Não é necessário que a pessoa seja, permanentemente, um santo para alcançar a grandiosidade. A grandiosidade pode ser conseguida através da comunicação de empatia ou de uma palavra sábia. Entre os ensinamentos Chassídicos, aprendemos que o propósito da descida a este plano de uma determinada alma pode ser simplesmente para praticar um único ato de benevolência para uma outra pessoa. Após ter a alma realizado este determinado ato, o motivo pelo qual veio a este plano terreno poderá ter sido plenamente cumprido. Pode acontecer que pratiquemos durante toda a vida para poder encontrar o desafio de uma única provação — e que será determinantesobre a jornada daquela alma em sua próxima vida. Isto lhe parece um tanto quanto Oriental? Pois saiba que se trata de um antigo ensinamento Cabalístico. Vidas comuns podem transformar a própria criação. 3 Quem São os Cabalistas? Muitas pessoas me perguntam qual a aparência de um Cabalista. O que, realmente, faz um Cabalista? Muitos poderão se surpreender ao tomar conhecimento de que o termo é uma invenção dos círculos acadêmicos, que encaravam a tradição da mística judaica do lado de fora. A palavra correta para descrever aquele que dedica a sua vida à Cabalá é mekubal, que significa “aquele que foi recebido”. Atualmente, o termo “Cabalista” parece estar sendo usado de forma liberal para descrever alguém que alega ter estudado um pouco de Cabalá, a partir de um trabalho de pouca importância, e aspira ou alega ser um professor. Não existem muitos mekubalim (plural de mekubal) no mundo. Os poucos que recebem pessoas e que dão assistência moram em Israel ou em Nova Iorque, os principais centros da vida judaica. Alguns mestres Chassídicos, chamados Rebes, também são competentes em Cabalá e são possuidores de um considerável poder. Os Rebes, os mestres espirituais Chassídicos, devem ser diferenciados dos Rabis. Os primeiros são líderes de movimentos Chassídicos e, freqüentemente, são, também, Cabalistas. Os segundos — os Rabis –, geralmente, são líderes religiosos comunitários e funcionários contratados por uma Sinagoga ou Comunidade, e raramente são Cabalistas. O que deve ser entendido é que a Cabalá não é um movimento, mas um domínio espiritual. Por outro lado, o Chassidismo é um movimento, e ele difunde os ensinamentos da Cabalá, freqüentemente usando uma abordagem comportamental, tal como faz o Chassidismo Chabad-Lubavitch, para assistir as pessoas em suas vidas cotidianas. O Chassidismo surgiu na Europa, no Século XVIII, em meio a uma miserável pobreza e um crescente anti-semitismo. Naqueles tempos, a sociedade judaica estava dividida: uma elite estudiosa e a vasta maioria dos judeus, que tinha um limitado acesso à sua herança literária. Foi um período triste, caracterizado por um fervor religioso exterior e que, muitas vezes, carecia de uma verdadeira consistência espiritual. O Chassidismo surgiu como um movimento espiritual, democratizando a sociedade judaica, fazendo com que os iletrados artesãos se sentissem tão próximos de D’us quanto o mais conceituado dos estudiosos, instilando alegria na expressão religiosa. A principal contribuição do Chassidismo continua sendo a adoção de uma abordagem comportamental à Cabalá. Ele ensina as aplicações dos ensinamentos profundamente místicos para o benefício das pessoas em suas vidas cotidianas. A Cabalá também oferece aconselhamento espiritual, de forma bastante independente de quaisquer intervenções dos Cabalistas, na manutenção do bem-estar e da recuperação. Aí se incluem o aconselhamento para certificar-se de que todas as mezuzot (plural de mezuzá— invólucro que contém um trecho da Torá e que é manuscrita, em hebraico, sobre um pergaminho, e colocada nas soleiras das portas), ou os tefilin (filactérios que são usados diariamente por um homem judeu adulto durante as preces matinais), sejam conferidos, procurando por erros de escrita, ou para verificação de integridade após um desgaste por uso. Muitas destas medida profiláticas espirituais estão codificadas na Lei Judaica convencional. A maioria das pessoas desconhece a sua origem na Cabalá. Infelizmente, no presente “mercado” espiritual, podem ser encontrados muitos que se autodenominam Cabalistas, e que sequer estão familiarizados ou possuem alguma experiência com os aspectos básicos da Lei Judaica, ou com seus costumes e tradições, e que podem muito bem nem praticar as tradicionais mitsvot (plural de mitsvá — literalmente, “mandamentos”; usado, coloquialmente, para denotar atos de bondade e benevolência e boas ações), bem como existem alguns que nem sabem ler hebraico ou Aramaico, as línguas nas quais foi escrita a Cabalá. A Cabalá não é apenas conhecimento e sabedoria. Ela deve ser acompanhada de um estilo de vida específico e altamente disciplinado de um judeu religioso, vivendo conforme a Torá. É uma vida que imbui o cotidiano com intensa espiritualidade. A pessoa não pode aspirar ser um Cabalista. Isto será um resultado de um prolongado aprendizado espiritual e um processo que invoca no estudante tanto um sentido de apreensão, como um sentido de temor e de responsabilidade espiritual. Mesmo no final deste árduo processo, um dom deve ser-lhe outorgado, a partir das Alturas, para investir a pessoa com poderes sobrenaturais. As ferramentas são forjadas no fogo espiritual. Portanto, a aproximação a um Rebe Chassídico, ou a um Cabalista, pode vir a ser uma experiência espantosa e assombrosa. O Rebe poderá enxergar diretamente o interior da sua alma. Não haverá segredos. As pessoas têm um conceito um tanto quanto deformado acerca dos Cabalistas. Elas vêm os Cabalistas envergando longos e pesados casacos pretos, variadamente chamados de capotes ou bekeshes, deixam crescer longas costeletas, usam meias brancas compridas e ostentam uma variedade de chapéus, que vão desde os streimels de pele ou spoticks, aos “capuzes” de largas abas. Tal estereotipo não é apenas enganoso, mas é freqüentemente atribuído exclusivamente a uma categoria, inspirada pela mídia, denominada de judeus ultra- ortodoxos. Mesmo este termo é, também, enganoso e simplista. O termo ultra-ortodoxo é, por si, o resultado de uma abordagem de julgamento que infere uma noção de excessivo fervor religioso, como se, de alguma forma, isto pudesse ser objetivamente estabelecido. A maneira com que uma pessoa se veste é sempre menos uma expressão de sua prática religiosa do que uma expressão dos usos específicos e tradicionais na história. Trata-se, apenas, de uma questão de costumes. Estes costumes de vestimentas aplicam-se, quase que igualmente, a praticantes Chassídicos e não-Chassídicos, sendo que a maioria usa este tradicional tipo de vestimentas somente no Shabes (Shabat). Inúmeros grupos muito religiosos vestem roupas convencionais durante a semana. Alguns judeus religiosos do Oriente Médio envergam as tradicionais túnicas e os turbantes, embora este seja apenas um pequeno e quase extinto setor da sociedade israelense. O mesmo é válido quanto aos Cabalistas do Oriente Médio. No entanto, a maioria dos Rebes, bem como alguns de seus seguidores, vestem os trajes tradicionais durante toda a semana. O que é que fazem os Cabalistas para se sustentar? Tradicionalmente, muitos eram artesãos e comerciantes, especialmente na Europa, nos Séculos XVIII e XIX. Alguns expoentes no Oriente Médio ainda continuam, nos dias de hoje, esta tradição. Hoje em dia, um punhado de Cabalistas e Rebes Chassídicos são acessíveis publicamente, e, o dia inteiro, recebem pessoas que buscam seu aconselhamento e sua assistência. Eles são sustentados por seus seguidores e graças a generosos donativos e contribuições de agradecimento pelas consultas concedidas. O seu estilo de vida é rigoroso — muitos dormem apenas algumas poucas horas por noite, usando as horas noturnas para um intenso estudo da Torá, em todos os seus níveis, particularmente, o nível esotérico. Eles são respeitados e reverenciados, e, em se tratando de Rebes Chassídicos, a sua palavra é lei e instrução. Muitas pessoas se dirigem a estes “milagreiros” buscando cura, sendo que cada Cabalista tem a sua própria modalidade individual. Freqüentemente, o conselho trivial e comum que ele dá encobre a verdadeira fonte da cura. Por exemplo, alguns Cabalistas aconselham a pessoa a comer uma certa fruta, ou a acender uma vela. O que não fica evidente àquele que recebe o aconselhamento é que o Cabalista está, na verdade, concentrando energia espiritual Divina. A fruta, ou a vela, torna-se o condutor físico através do qual a energia espiritual pode fluir. Se aquela fruta não fosse ingerida, ou aquela vela não fosse acesa, a bênção do Cabalista deixaria de ter qualquer efeito. Isto é denominado“construir um kelí” (um recipiente para abrigar a bênção). Há os Cabalistas que “lêem as mezuzot”. Estes Cabalistas conseguem perceber todos os aspectos concernentes à vida da pessoa através da mezuzá, e oferecem-lhe aconselhamento com base naquilo que encontraram. Outros reconhecem a alma através do nome da pessoa e do nome de sua mãe. Outros, ainda, poderão pedir que a pessoa abra, aleatoriamente, uma página em Salmos. Muitos Rebes Chassídicos ocultam o miraculoso no ordinário. O último Rebe de Lubavitch, de abençoada memória, freqüentemente camuflava seus miraculosos dotes em conselhos “triviais”. Ele podia aconselhar uma pessoa em sofrimento a consultar um determinado médico, ou a submeter-se a uma específica terapia domiciliar. De alguma forma, o seu aconselhamento resultava numa espontânea remissão de uma séria enfermidade. Em outras ocasiões, o Rebe simplesmente invocava que a pessoa seria curada — e isto bastava. Em outras oportunidades, ainda, ele instruía a pessoa a “fazer um le’chaim” — um brinde (tomar um trago, normalmente um gole de vodka, desejando à pessoa le’chaim — “à vida”), e isto já seria suficiente para efetuar a cura. Às vezes, ele levava o nome da pessoa e o nome de sua mãe ao túmulo de seu santo sogro (seu antecessor espiritual), pedindo uma intervenção Celestial. O famoso Cabalista do Oriente Médio, conhecido como Baba Sali, de abençoada memória, que morreu há poucas décadas, operou milagrosas curas em pacientes hospitalizados e portadores de seriíssimas doenças. Sob os atentos olhos de médicos, ele pedia que o paciente engolisse um pouco d’água. As reações de assombro e admiração por parte dos médicos estão registradas. Alguns Cabalistas, e a maioria dos Rebes Chassídicos, ouvem os casos, e regras de etiqueta norteiam o relacionamento entre eles e os seus seguidores ou visitantes. O protocolo pode envolver tempos específicos para as instruções públicas ou para as reuniões cerimoniais, além de determinar os estilos de comunicação, se orais ou escritos. O protocolo também enseja um sentido de majestade e santidade. Em certos casos, a pessoa não toca o Rebe sequer para dar-lhe a mão ao se encontrarem, e a pessoa deve, sempre, postar-se de pé em sua presença. O Cabalista está num outro nível — literalmente fora deste mundo –, e aquele mundo é, geralmente, desconhecido a quaisquer pessoas, exceto a seus seguidores. Se, algum dia, você tiver a oportunidade de conseguir uma audiência com um Cabalista, isto poderá, verdadeiramente, mudar a sua vida. Embora este livro não seja um manual para que leigos se tornem um mekubal, os ensinamentos básicos da Cabalá, tal como difundidos pelos ensinamentos Chassídicos, contém percepções e aplicações práticas que podem ser acessadas por todos nós, independentemente de nossa condição de vida ou de nossos desafios cotidianos. Enquanto a Cabalá explora as atordoantes alturas dos mundos superiores, os reinos angelicais e as forças que formam o Cosmos, nos proporciona a dinâmica para a vida cá em baixo. O mundo físico é uma imagem finita dos reinos infinitos. Conseqüentemente, as percepções dos trabalhos espirituais “lá em cima” proporcionam percepções paralelas em nossos trabalhos “cá em baixo”. A benéfica natureza da criação torna-se o gabarito para o pensamento positivo e um modelo para a nossa própria fé e otimismo. A principal união das forças no Cosmos torna-a ideal para os relacionamentos significativos e amorosos, e o equilíbrio cá em baixo, na terra. S E G U N DA P A R T E OS FLUXOS DA MENTE E A EMOÇÃO 4 As Dez Sefirot Certa vez, o Baal Shem Tov contou a seus discípulos uma história sobre um lindo pássaro que voou para dentro do jardim do rei e pousou no galho mais alto de uma árvore. Todos os dias, o pássaro cantava seu trinado, e aquela linda melodia acabou cativando de tal forma o rei que ele mandou apanhar aquele pássaro, trazendo-o para dentro do castelo para que o pássaro cantasse só para ele. O rei reuniu os seus servos e instruiu-os a construir uma escada humana, pela qual subiria até o topo daquela árvore. Eles cumpriram rigorosamente as ordens dadas pelo rei, e tudo saiu muito bem, conforme preconizado pelo rei, até o ponto em que ele se esticou para agarrar o pássaro. Foi exatamente naquele momento que o homem que estava na base da escada se cansou e saiu de seu posto. O resultado: a escada inteira desmoronou. O que é que esta história nos transmite? Em um nível, trata-se de uma parábola que pode apontar a tolice de tentar capturar, para o prazer pessoal de um só indivíduo, aquilo que deveria se prestar ao deleite de todos. Porém, nos foi dito que o Baal Shem Tov tinha em mente uma lição mais profunda. Era seu intuito que nós entendêssemos que o amor de D’us somente pode descer à terra quando nós sustentarmos uns aos outros — o mais forte ajudando o mais fraco, e o mais fraco desejoso de ser forte. Quando uma só pessoa desistir e se render à fraqueza — à ganância, ou à crueldade –, a estrutura inteira desmorona. Assim, o universo depende dos esforços de cada um de nós. A Cabalá nos diz que a criação não está completa. Nós criamos o ambiente e as condições através das quais o universo pode ser aperfeiçoado. As ferramentas e instrumentos que nos foram dados são as dez Sefirot. Elas são as energias espirituais da Mente e da Emoção. A Estrela de David Ao longo deste livro, nos envolveremos em diversos exercícios imaginativos que envolvem a imagem da Estrela de David. A Estrela de David é composta de dois triângulos sobrepostos, formando seis pontas. A Cabalá se refere a estas pontas como “asas”. Estas asas simbolizam seis Sefirot da Emoção, os fluxos de energia que nos permitem imbuir- nos de pura atividade cerebral, com calor e graça. Tal como as asas de um pássaro, elas nos impulsionam espiritualmente para o alto. Os dois triângulos sobrepostos criam doze linhas. Elas representam as doze tribos de Israel, cada qual com a sua própria Emoção característica. A Cabalá alude às seis pontas como representantes da dimensão de seis cúbitos quadrados de cada uma das duas Tábuas dos Dez Mandamentos. Maimônides sustenta que cada uma das Tábuas era um quadrado perfeito, e que cada quadrado tinha a dimensão de seis cúbitos de largura por seis cúbitos de altura. Iniciaremos, agora, as nossas explorações acerca de como é que as dez Sefirot podem nos orientar para que possamos alcançar o nosso pleno potencial. Leia cada um dos exercícios várias vezes e em voz alta. Quando você se sentir bem ouvindo a sua própria voz, tente gravá-la num gravador. Se você tiver uma fita para cada exercício, você terá um fácil acesso, especificamente, a cada um dos exercícios imaginativos ou meditações contidos neste livro. Encontre um lugar tranqüilo e sossegado. Sente-se numa posição confortável. Concentre-se em seu estado mental. Você está se sentindo agitado ou triste? Você está tranqüilo ou um pouco preguiçoso? Os seus pensamentos estão fluindo bem ou você está distraído? Relaxe. Você não está aqui para julgar ou para ser julgado. Cada um de nós é um turbilhão em redemoinho de energias espirituais camadas de Sefirot — fluxos espirituais. As dez Sefirot são as matérias-primas do Cosmos. Elas são a base do mundo do tempo e do espaço, da energia e da matéria. As Sefirot são, também, os tijolos de nossas personalidades individuais. Embora espirituais, na natureza elas, principalmente, se tornam Mente (Sechel) e Emoções (Midot). A Alma (neshamá) é a trilha pela qual a energia destas fontes flui para animar e estimular o nosso ser. Onde é que elas se originam? Estas dez Sefirot fluem da fonte infinita do Ein Sof (literalmente ”Sem Fim”), através de quatro planos (ou mundos) espirituais paralelos. Básica e principalmente, as suas manifestações humanas se realizam no plano final de Assiyá. A pessoa que você é é determinada pelas Sefirot no plano Assiyá. Olamot: Os Mundos Paralelos A palavra Olamot significa, em hebraico, “Mundos”. Embora o nosso diagrama exiba quatro planos básicos, na verdade esta quantidade é infinita.Imagine-as como dimensões que refratam a luz da criação. A ordem Sefirótica ilustrada no diagrama ao lado pode ser vista como um feixe de fonte energética, com dez diferentes comprimentos de onda. À medida que estas dez ondas de luz criativa atravessam cada um destes planos, as suas qualidades vão se tornando “criaturas” naquele plano (ou mundo), ocupando o espaço espiritual. Algumas vezes, elas são percebidas em formas angelicais, como os Serafim (“anjos de fogo”), chayot hacodesh (“animais sagrados”), ofanim (“rodas”), e anjos como Michael, Gabriel, Uriel e Rafael. Existem muitos outros, todos influenciando as atividades no finito mundo físico. O plano Atsilut é o mais próximo da Fonte Divina. Ele é indistinguível da luz do infinito, Or Ein Sof (literalmente “Luz do Infinito”). O Or Ein Sof é uma metáfora para representar D’us — a luz Daquele que é Infinito. Muito pouco pode ser dito acerca desta Fonte que é ininteligível às nossas mentes finitas. Beriyá (“Distinta Criação”) é o primeiro plano no qual é possível discernir identidades separadas, embora seja altamente espiritualizado. Beriyá é dominado pela inata natureza da Mente. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A ESTRELA DE DAVID Inspire. Tome consciência de seus sentidos. Reconheça o seu paladar esfregando a sua língua por seus dentes de cima e de baixo. Deixe que o cheiro do ambiente em que você está penetre em seu ser. Quais os sons que estão entrando em sua consciência? O que é que os seus dedos estão tocando? Em que estão focalizados os seus olhos? Feche os olhos. Deixe que os seus pensamentos o atravessem suavemente, sem pressa ou urgência. Você está seguro. Ainda com os olhos fechados, vislumbre um lindo gramado em formato de uma grande Estrela de David. Imagine-se caminhando por sobre a grama. Você pode sentir a sua suavidade e maciez. O mundo inteiro é verde, tranqüilo e pacífico. O ar é fresco e de suave aroma. Seja bem-vindo ao primeiro dia de sua nova vida. Abra os seus olhos. Nós voltaremos a visitar este maravilhoso lugar que existe somente para você, fora do tempo. Com o passar do tempo, nós estaremos adicionando outras imagens. Por ora, basta saber que este lugar existe, e que você pode retornar a ele sempre e quando quiser. Yetsirá (“Forma e Qualidade”) é o plano da Emoção. Assiyá (“Realização”) é onde vivemos. É o mundo do tempo, do espaço e da consciência terrena. Atsilut A Vontade Divina Beriyá A inata natureza da Mente Yetsirá O plano da Emoção Assiyá Tempo, espaço e consciência terrena A neshamá (Alma) A neshamá (“alma”) é algo como um cordão umbilical espiritual que transcende estes quatro planos, com uma das extremidades conectadas à Fonte Infinita e a outra, ao interior de seu ser espiritual e físico. A neshamá é o conduíte para o fluxo das dez Sefirot, que, então, individualizam-se como dez qualidades da personalidade — os fluxos de nossa Mente e Emoção. As dez Sefirot podem ser divididas em dois grupos: 1. Sechel representa os três fluxos Sefiróticos da Mente, conhecidos como: Chochmá, Biná, e Daat. Estes se expressam mais plenamente no plano de Beriyá. 2. Midot representa os sete fluxos Sefiróticos da Emoção: Chéssed, Guevurá, Tiféret, Netsach, Hod, Yessod e Malchut. Estes se expressam mais plenamente no plano de Yetsirá. Os planos superiores das Sefirot são, literalmente, Mente e Emoção desincorporadas. A alma incorporada, o humano, é o “curinga” da criação. Neste plano, os seres humanos assumem a consciência — com a capacidade de exercer a escolha. Cada um de nós canaliza diferentes quantidades de fluxos de Mente e Emoção, em função de nosso nível de sabedoria ou tolice. Sechel: Os Três Fluxos Sefiróticos da Mente CHOCHMÁ: Chochmá é o fluxo espiritual responsável pela inspiração e pela criatividade. A Cabalá nos ensina que Chochmá é o catalisador que arranca os poderes de nossa alma das profundas e insondáveis “águas” do subconsciente, trazendo-os à luz da consciência. Sempre que começamos a pensar, a Sefirá de Chochmá é a centelha que dá a partida no processo. Chochmá funciona quando você percebe que está prestes a resolver um espinhoso problema. Chochmá significa, literalmente, “Sabedoria”; porém, também pode ser a fonte de uma pobre “Inspiração”, que conduz a interpretações erradas ou falsas. BINÁ: A “centelha do pensamento consciente” inicial da Chochmá é tanto disforme quanto momentânea. É um “embrião da Mente”, que seria natimorto, não fosse o fluxo da segunda Sefirá da Mente — a Biná. A Biná é feminina em relação ao masculino Chochmá. Ela alimenta a centelha do pensamento consciente, torna-o tangível, e dá- lhe direção. A linha de pensamento está, agora, estabelecida. O pensamento torna-se analítico, desenvolvido, cristalizado. DAAT: Chochmá e Biná são atividades cerebrais da Mente. As informações foram interpretadas através da Chochmá e da Biná; porém, o clima emocional intrínseco ainda não foi estabelecido. Este hiato momentâneo, que antecede o estabelecimento de uma sensação ou sentimento, pode ter a duração de, apenas, frações de um segundo. Ou poderia ser o resultado de meses de luta, levando a um novo fluxo de Emoções pertencente ao mesmo grupo de pensamentos. A Sefirá de Daat permite que a Mente e as Emoções se conectem. O Daat funde as energias espirituais da Mente com as da Emoção. Daat significa, literalmente, “Saber”, “Cognição”. “Saber” algo é juntar-se àquele algo — tornar-se um com aquele algo. Consideremos, ainda, um outro aspecto do Daat. É ele quem proporciona a força de atração entre a Chochmá e a Biná, ensejando, assim, o pensamento, a criatividade e o processo de desenvolvimento do pensamento, fazendo com que ele se inclua numa seqüência coerente de pensamento. Midot: Os Sete Fluxos Sefiróticos da Emoção Nós possuímos sete Sefirot de Emoção, que estão divididas em dois grupos: emoções internalizadas e emoções externalizadas. Emoções Int ernal izadas CHÉSSED: Quando as Sefirot são incorporadas nas sete Emoções humanas, elas são chamadas de Midot — que significa “Fluxos Mensurados”. A Emoção mais básica e elementar, a de dar e repartir, é chamada de Chéssed. Quando estendemos a mão a uma pessoa necessitada, estamos canalizando o nosso fluxo de Chéssed. Ele aciona o desejo de repartir, tanto materialmente como emocionalmente. Ele também é o fluxo básico do Cosmos com o qual a criação está imbuída. Mas Chéssed é um “sentimento”, uma “sensação”; e sentimentos inatos não possuem direção. A direção é uma edificação da Mente, e é importante que o fluxo do Chéssed seja guiado com sabedoria e juízo, caso contrário, ele pode se tornar destrutivo. Por exemplo, uma pessoa generosa e benemérita, que não exerce um sensato controle, corre o risco de esgotar as suas reservas e recursos, tornando-se, emocionalmente (e, até, financeiramente) esgotada. O Chéssed deve ser guiado e orientado pelas Sefirot da Mente — isto é, da sabedoria. GUEVURÁ: O fluxo da dação do Chéssed é balanceado pela aparentemente oposta natureza da Guevurá. A característica da Guevurá é a retenção, a concentração e a limitação. Por exemplo, ela restringe o fluxo do Chéssed àquilo que é sensato e sábio naquele determinado momento. É importante notar que nem o Chéssed e nem a Guevurá são, por si, bons ou maus. A maneira pela qual a nossa Mente superior exerce a escolha determina se a emoção está corretamente equilibrada. Algumas vezes dar é bom. Outras vezes, reter é bom. Enquanto o Chéssed é expansivo, para fora, afastando-se do ego, a Guevurá é focalizada, orientada para dentro, e concentrada. Por exemplo, a Guevurá é indispensável à prática do karatê, onde a retenção da dissipação de energia e a focalização daquela energia num estreito “facho” proporcionam à concentração uma espantosa força e potência. Por outro lado, o Chéssed é essencial à prontidão e percepção de 360 graus com a qual um guerreiro samurai foi treinado, ou se manifesta na amplidão da compaixão. Ambos sentimentos podem tanto ser intensos como fracos, dependendo da quantidade de fluxo que é gerado. TIFÉRET: O Chéssed e a Guevurásão fluxos independentes. Eles devem ser integrados para que seja possível conseguir-se equilíbrio. O fluxo do Tiféret facilita esta união. Por exemplo, o que acontece quando queremos ajudar um amigo que está, cronicamente, no vermelho? O nosso impulso instintivo de preencher um cheque pode ser atenuado ao nos conscientizarmos que se, desta vez, abrirmos mão, poderemos, na verdade, estar perpetuando um problema que tem atormentado o nosso amigo já há algum tempo. Chegamos à conclusão de que seria melhor e de mais ajuda se sugeríssemos àquela pessoa que procurasse os serviços de um conselheiro financeiro e assumisse o controle da situação. A nossa resolução poderia ser a de exercer a compaixão e dar um pouco mais do que, inicialmente, tencionávamos, ao mesmo tempo em que também sugeriríamos uma solução a longo prazo. A compaixão se torna a força de integração entre Chéssed e Guevurá. A função do Tiféret é a de organizar a combinação, uma vez que a Mente tenha determinado como é que os sentimentos devem ser mesclados. Estas três Sefirot da Emoção são os sentimentos internalizados. Eles são experimentados internamente, antes que sejam expressos no mundo real. Para “externalizar” tais sentimentos, um outro conjunto de três Sefirot deve ser iniciado. Sem elas, os sentimentos ficariam para sempre emocionais; porém relacionamento algum resultaria devido ao fato de não virem à tona, de serem exteriorizados. Emoções Ext ernal izadas NETSACH: Quando o clima emocional interior se estabelece, as Emoções buscam realizar-se através dos relacionamentos. O primeiro destes fluxos expressivos é o Netsach. Este é a Sefirá responsável pelo desejo, pelo impulso de sair e entrar no mundo de uma outra pessoa. Isto pode acontecer entrando numa conversa com alguém, ou estendendo-lhe a mão, ou praticando ações que venham a tocar outrem numa infinidade de maneiras. O Netsach nos permite atravessar os limites e fronteiras interpessoais. Netsach significa, literalmente, “Vitória” — o sucesso de cruzar o limiar do ego e adentrar o espaço de outrem. HOD: Os relacionamentos bem-sucedidos não são somente o resultado da exteriorização. Eles também dependem da nossa capacidade de criar um espaço interior para aceitar o fluxo de Netsach oferecido pelos outros. Se nos entregarmos a outrem com grande entusiasmo e sentimos o clima emocional frio, é sinal de que nós não criamos um relacionamento. O fluxo de Hod detém a confiança do Netsach de forma que não venhamos a ser dominados, ou excessivamente efusivos, criando medo, temor ou sufocamento emocional. A maneira pela qual Hod restringe Netsach no mundo da expressão não é diferente da maneira que a Guevurá atua sobre o Chéssed no mundo das emoções interiores. YESSOD: A essência do Yessod consiste na nossa capacidade de nos concentrarmos na pessoa com a qual estamos nos comunicando. É o funil através do qual todas as Sefirot da Mente e da Emoção vertem num relacionamento. A palavra Yessod significa, literalmente, “Fundação”, “Alicerce”. E a Cabalá nos ensina que Yessod denota a intensidade, a fusão e a força da comunicação que existe entre duas pessoas. MALCHUT: Assim como um canto define o encontro de duas ou mais linhas, o Malchut torna-se o ponto de encontro de todos os fluxos Sefiróticos — sua expressão final. Porém, assim como um canto não é nada sem as linhas que o criam, Malchut é a junção onde as “linhas” das Sefirot Mentais e das Sefirot Emocionais se intersectam. Ele representa a coesão final num relacionamento. Ele é o terreno fértil no qual as Sefirot são plantadas, e é o ápice da feminilidade entre as Sefirot. As três ferramentas: Chochmá, Biná e Daat são básicas e imprescindíveis ao domínio dos processos da Mente. Passaremos agora a abordar, em separado, cada uma delas e a aprender como é que elas agem. 5 Chochmá: A Varinha Mágica Como é que você rastreia um pensamento até as suas origens subconscientes? Como é que você cria um fluxo mais positivo a partir do mesmo catalisador subconsciente? A Mente não grava ou registra de forma objetiva. Ela interpreta, e sempre possui uma propensão. Dentro de um raio de possíveis interpretações, nós devemos treinar a nossa Chochmá para sacar de nosso subconsciente interpretações positivas e benevolentes. Por exemplo, a flor que se desenvolve num jardim não é, meramente, uma coleção de moléculas configuradas numa complexa maneira e, sujeitas a uma descrição através de fórmulas matemáticas e químicas. A delicada flor que se aquece ao calor do sol é um jogo de luz e sombra. Ela evoca sensações e memórias. Ela pode transcender o tempo e nos remeter de volta à nossa infância. Ela pode inundar e preencher a nossa mente com a visão de uma pessoa querida. Ela pode nos crivar de assombro com a sua espantosa beleza. Mas esta interpretação é rara. A maioria das pessoas passa pela vida com as suas inspirações natimortas. Não seria maravilhoso cultivar um clima criativo que nos inspirasse com esta mágica? A Sefirá de Chochmá pode agir como uma varinha mágica. Ela nos permite invocar um pensamento e imbuí-lo com o multicolorido da consciência. “Você está onde os seus pensamentos estão”. — Mestre Chassídico Pescando Os Seus Pensamentos Imagine-se sendo um profundo lago alimentado pelas caudalosas águas das cachoeiras das Sefirot. Imagine, também, que você é um dos pescadores que pescam naquele lago. A sua disposição natural pode ser comparada a uma carretilha de pesca. As suas mais profundas querências e desejos são a isca. A maneira como você busca a alegria e o alívio à dor é representada pela área do lago onde você prefere pescar. Os seus pensamentos são os peixes a serem fisgados. A maioria de nós costuma pescar da mesma maneira, exatamente na mesma área do lago, e nós sempre pegamos o mesmo peixe. Geralmente, nós respondemos da mesma maneira aos mesmos estímulos. Se persistirmos em interpretar um evento da mesma forma negativa — carregada de medo e dor — então o nosso cérebro persistirá em destilar a sua característica carga de excessivo estresse, liberando hormônios que deflagram uma reação em cadeia de eventos bioquímicos. Os cientistas constataram que a memória que o corpo tem do medo é a emoção mais profundamente gravada nos bancos de memória do cérebro. Ou seja, quando você lembra de uma traumatizante entrevista para um emprego, na qual o seu entrevistador tentou desacreditá-lo ou diminuí-lo, aquela lembrança passará a fazer parte da informação gravada que o seu cérebro liberará ao seu corpo cada vez que você entrar numa sala para ser entrevistado. Só pelo simples fato de pensar naquele evento, você poderá sentir as suas mãos suando, o seu rosto refletindo aquele desconforto, e as batidas de seu coração mais fortes em seu peito. É possível reinterpretar, conscientemente, circunstâncias negativas como resultados positivos? Poderia a vida em negação invocar os seus próprios perigos? A verdade é que, na vida, muito pouco é, categoricamente, positivo ou negativo. A maioria das circunstâncias e situações que enfrentamos, mesmo aquelas que nos parecem obstáculos intransponíveis e insuportáveis, é produto de interpretações subjetivas. Será que podemos saber que aquele belo negócio que perdemos não acabaria sendo uma pedra no caminho de um outro negócio ainda melhor? Será que estamos em posição de determinar se por termos sido rejeitados por um amor não poderíamos ser finalmente levados a uma felicidade permanente com outra pessoa? Seria possível que uma enfermidade qualquer pudesse provar não ser a verdadeira provação que fortaleceria o nosso vigor e disposição numa outra área de nossa vida? Algumas pessoas acordam e saem do lado errado da cama, batendo com a cabeça na parede do medo e da dúvida, e, com ansiedade, tropeçam durante o dia todo. Outros enfrentam as mesmas atribulações e interpretam a mesma realidade como sendo uma oportunidade. Será que uns estão certos e os outros errados? Empiricamente, não; porém, se o critério for saúde e bem-estar, obviamente a segunda atitude está muito à frente. A Cabalásustenta que a tranqüilidade espiritual pode ser treinada e dominada. Você pode aprender a reinterpretar a realidade. Você pode extrair, e manter, uma disposição positiva fisgando um “peixe diferente” — mudando, metaforicamente, o seu estilo de pesca. Você pode se tornar uma pessoa mais feliz e mais amável, e, também, alterar profundamente a química de seu corpo. Você pode tampar as antigas ranhuras do medo e formar novas trilhas, com novas interpretações de antigas lembranças. A Cabalá vai, ainda, um passo adiante. A alegria e a felicidade são as expressões da alma acerca de sua navegação pelos mares do corpo. As terminações nervosas, as células receptoras, e os bilhões de microscópicos acontecimentos que ocorrem ao nível celular são os canais para a viagem da alma. UM EXERCÍCIO DO PENSAMENTO Você precisará de um relógio digital com alarme ou um pequeno relógio despertador. Você também precisará de um bloco de notas. No começo de uma semana que não esteja tão cheio de compromissos, ajuste o alarme do relógio para que dispare a cada duas horas. No decorrer da semana, sempre que o alarme disparar, resuma os seus pensamentos em algumas poucas palavras: Descrição do pensamento — Uma sentença será suficiente. Origem do pensamento — O que disparou o pensamento? Avaliação do pensamento — Ele foi bom, útil, doloroso, ou irritante? Substituição do pensamento — Se você estiver infeliz ou insatisfeito com o pensamento, como é que você poderia pensá-lo de forma diferente? Você se surpreenderá com o quão fascinante este exercício pode ser; e bastarão um ou dois minutos para que você rabisque as suas respostas. Ajuste os intervalos de tempo quando assim for necessário. Obviamente, se você estiver num importante compromisso, você poderá muito bem não querer, ou não poder, despender tempo algum para anotar os seus pensamentos. É mais importante que você conheça, com o tempo, os seus padrões de pensamento do que, de forma escrava ou cativa, observe a programação. No final daquela semana, estude as suas observações anotadas, e veja se você consegue identificar ou detectar alguma tendência. Como foi que você reagiu a uma situação estressante, ou a um acontecimento inesperado? Os seus pensamentos foram raivosos ou irados? Alegres? Desapontados ou frustrantes? Dolorosos? Rancorosos ou malévolos? Ou você pensou diretamente sobre as coisas e trabalhou para uma abordagem racional e equilibrada dos acontecimentos? Este exercício o ajudará a descobrir o seu perfil Chochmá — o seu “piloto automático”. Observar como você pode ter substituído pensamentos diferentes, fará com que aprenda, gradativamente, a modificar o seu ajuste. A Lâmpada Megawatt Imagine uma poderosa lâmpada megawatt. Acenda-a e você ficará cego pelo seu brilho radiante. Tente cobri-la com um protetor; porém, ela é forte demais. Coloque mais um protetor por cima; ainda de nada adianta. Continue sobrepondo sobre a lâmpada outros protetores, até chegar ao ponto de sentir-se confortável. Somente depois de ter encoberto a lâmpada diversas vezes com protetores translúcidos é que você foi capaz de ver e enxergar. Ora, isto não é irônico? Para que lhe fosse possível abrir os olhos de forma indolor, você teve que ocultar a fonte da luz. Os Cabalistas chamam a Sefirá de Chochmá de mochá setumá — o “cérebro oculto”. Trata-se de uma metáfora para o estado subconsciente. Os Rebes Chassídicos rearranjaram as letras Hebraicas da palavra Chochmá para ler koach má, que significa “potencial”. Ele representa os elementos básicos de nossa personalidade. Chochmá nos permite extrair de nosso subconsciente, sendo, também, a substância básica de nossos pensamentos e sentimentos. Chochmá é o alicerce sobre o qual nós construímos e edificamos. Cosmicamente, Chochmá se refere à inspiração espiritual primordial da qual evoluiu o Cosmos. É a raiz dos quatro elementos espirituais: fogo, água, terra e ar. A Natureza Efêmera do Chochmá A Sefirá de Chochmá, tal como as demais Sefirot, é uma luz espiritual imensamente brilhante. Se a sua luz tivesse que ficar sem atenuação, ela seria espiritualmente ofuscante. Simplesmente, o finito corpo seria incapaz de conter tamanho e tão intenso fluxo de energia. Assim, o seu brilho é atenuado através de tapas protetoras, “coberturas translúcidas” dos Olamot — os mundos paralelos. Uma vez que a Sefirá de Chochmá “viajou até cá em baixo”, atravessando os quatro mundos, ela já está suficientemente amortecida para nos permitir extrair uma só centelha de cada vez a partir do mundo subconsciente interior. Esta centelha de consciência não passa de uma minúscula faceta de nosso conjunto psico-espiritual. Através do “oculto semblante do Criador”, tal como a Cabalá descreve este fenômeno, nos é dada a consciência, um mundo físico, a escolha e, até mesmo, o exercício da escolha pobre, até o ponto em que o mal possa existir. A um nível Cabalístico, as cores são reflexos das Sefirot básicas da Emoção. Existem sete cores no arco-íris, e existem Sefirot da Emoção. O exercício a seguir utiliza um “biofeedback” para nos ajudar a monitorar as cores de nossos sentimentos para melhor controlar nossos fluxos de Emoção. A Emoção é um produto da interpretação da Mente, e, ao dominarmos este exercício, poderemos, efetivamente, dominar a maneira pela qual extraímos do lago do subconsciente — a Chochmá. UM EXERCÍCIO DE FLUXO DA CHOCHMÁ Inspire. Tome consciência de seus sentidos. Reconheça o seu paladar esfregando a sua língua por seus dentes de cima e de baixo. Deixe que o cheiro do ambiente em que você está penetre em seu ser. Quais os sons que estão entrando em sua consciência? Onde os seus dedos estão tocando? Em que estão focalizados os seus olhos? Feche os olhos. Deixe que os seus pensamentos o atravessem suavemente, sem pressa ou urgência. Você está seguro. Está muito escuro. Deixe que os olhos de sua mente se adaptem à condição ambiental. É uma escuridão cheia de paz e quietude. Você está envolto por uma grande calma. Você pode ver uma grande e cintilante tela de um monitor de televisão, a qual não parece muito sólida. Ela possui uma aparência fluida. Concentre-se na tela. Fixe o seu olhar na sua trêmula translucidez. Envolva-se em seu sereno brilho. Imagine cores que começam a fulgurar para fora da tela. Inicialmente, elas poderão amedrontá-lo. Porém, esteja consciente de que você tem absoluto controle sobre elas. Sinta a presença das cores na sala em que você se encontra. As primeiras cores são o vermelho, o laranja e o amarelo. Veja como elas fulguram. Elas são cores de retração — cores devidas ao medo. Lembre-se: você tem completo controle sobre as cores. Observe-as calmamente. Veja como elas se transformam em sombras esverdeadas e, a seguir, azuladas. Finalmente, quando você estiver completamente relaxado, elas tornam-se incolores. Medite sobre a “não-cor”. Pense num acontecimento que lhe ocorreu hoje e que lhe deixou uma forte impressão. Despenda alguns momentos sobre este acontecimento. Que cor este evento suscitou em você? Olhe para a tela. Observe as cores que dela fluem para dentro da sala. Se elas forem avermelhadas, volte a pensar naquele seu evento e veja-o de uma forma isolada. Encare-o como se fosse uma força estranha e objetiva. Quais são as três características mais distintas do evento? Como foi que você reagiu? A sua reação foi apropriada? Sua reação poderia ter sido mais bem elaborada? Volte a olhar para a tela. É possível que você veja as cores se transformando para tons esverdeados e azulados. Talvez elas fiquem ainda mais pálidos. Conscientize-se de seu clima interior. Ele já está mais sereno e calmo. Reflita em sua mente. Ele se desvaneceu. A “cor” está incolor. Repita este exercício tantas vezes quanto precisar para evocar sombras azuladas até torná-las incolores. A Dual idade Interior De tempos em tempos todos nós nos surpreendemos ao nos flagramos pensando: Não me parece ser eu que estou fazendo isto. Eu não sou assim. Por que eu estou me esforçando tanto para impressionar? Por que eu estou fazendo isto? Oque está acontecendo? Naquele momento de lucidez, uma parte mais verdadeira de nós assume, trazendo uma honestidade ímpar à nossa visão interior. O nosso ser interior olha para a nossa manifestação exterior. Mas, por que o nosso “interior” não pode ser o nosso “exterior” — todo o tempo? Por que todos nós somos tão distraídos e desatentos em relação aos nossos mais verdadeiros “eus”? O nosso objetivo é aprender a usar, sensata e sabiamente, a centelha da Chochmá. Se a centelha for retirada da sabedoria, ela funcionará verdadeiramente. Se, no entanto, permitirmos que o ego e a insegurança penetre na Chochmá, o fogo assim criado estará sendo alimentado por uma falsa imagem de nós mesmos. Esta dualidade interior do ego e do altruísmo é denominada, em termos Chassídicos, Nefesh Behamit e Nefesh Elokit. Estes termos, traduzidos, significam a “Alma Animal” e a “Alma Divina” — a fonte do desafio e do conflito interior. A natureza da motivação humana tem tudo a ver com a busca por tornar-se uno — tanto interiormente quanto com o outro. Nós somos sempre defrontados com um bifurcamento na estrada à medida que lutamos com duas inclinações espirituais competitivas. A primeira é a busca pela sobrevivência física, sustento e auto-importância. A segunda é a compreensão de que existem outras coisas na vida, além da subsistência e da autoglorificação — o significado mais profundo do relacionamento. O Nefesh Behamit, o lado “animal” da alma, é responsável pelo instinto da autopreservação. Inicialmente é a busca por alimento e abrigo. Uma vez que estas necessidades são atendidas, ele emprega uma perpétua busca de maiores confortos e de auto-enaltecimento. Por outro lado, o Nefesh Elokit, o lado “Divino” da alma, nos conecta a aspirações mais elevadas e nos une a uma outra alma. Os interesses competitivos destas duas tendências afloram em face de um desafio ou uma adversidade. Por exemplo, isto ocorre quando um amigo o acusa de insensibilidade. Você poderia se sentir ofendido, pois a acusação, de alguma maneira, o diminui. Você poderia querer negar o comentário lançando dúvidas acerca dos motivos de seu amigo. Uma outra possível reação seria o de levar em conta a afirmação feita e tentar imaginar como foi que aquela impressão pôde ocorrer ao seu amigo, e o quanto ela poderia ser considerada procedente. A primeira reação é típica e clássica do Nefesh Behamit. A centelha do pensamento, o Chochmá, conseguiu a sua força a partir do seu sentido de insegurança — uma diminuição do seu valor. De certa forma, a acusação de insensibilidade fez com que você se sentisse diminuído aos seus próprios olhos. A segunda reação obteve a sua força a partir do Nefesh Elokit. Ele busca uma verdadeira conexão aos outros e usa a empatia como sua luz-guia. O Nefesh Behamit não é de todo mau. Ele abastece os nossos instintos pela autopreservação e, sem eles, nós não nos engajaríamos em empenhos mais elevados. Porém, agindo sozinho, o Nefesh Behamit nos forçaria a permanecer fixo em nós mesmos por muito tempo depois que tivéssemos satisfeito as nossas necessidades básicas. Um equilíbrio interno se manifesta quando os nossos requisitos físicos são satisfeitos. O Nefesh Elokit neutraliza o Nefesh Behamit, e empenha a nossa atenção e nossa consciência superior em prol do trabalho do relacionamento. O Nefesh Behamit é egocêntrico. O Nefesh Elokit é altruísta. É desta arena interna desta dualidade interior que aparece a centelha de consciência do Chochmá. Quando o Nefesh Behamit continua em ascendência, a centelha do pensamento é colorida pelas considerações do ego. A seqüência de pensamentos resultante e a emoção seguem, igualmente, a orientação do ego. O resultado disto é a desarmonia com os outros, e uma fragmentação interior. A interação entre o Nefesh Elokit e o Nefesh Behamit será alvo de nossas considerações adicionais quando discutirmos a dinâmica da escolha e da tomada de decisão. A esta altura, é suficiente notar que a Chochmá não atua num vácuo. Podemos agora entender aquele momento em que nos flagramos agindo de uma forma que não nos é peculiar. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA ALEF O valor numérico da letra alef é “um”. Ela representa o D’us eterno. Sua energia independe do tempo e da medida; ela é infinita. O alef é composto de três elementos: o braço superior, o braço inferior e o conector diagonal. O alef é a letra da integração pessoal. Ela nos ensina que, quando somos verdadeiramente completos, ambas as dimensões existem em equilíbrio dentro de nosso ser. O transformador diagonal redireciona o egocentrismo a uma postura de positiva auto-estima — o reconhecimento de seus dotes, predicados e singularidade. O “eu” da ordem-superior direciona o seu comportamento de forma que o seu dote possa ser conferido a outrem, levando a relacionamentos próximos, de paz e harmonia. Olhe para o braço superior da letra. Este se refere ao seu “eu” da ordem-superior, denominado Nefesh Elokit (o componente Divino da alma). Sinta-se como se estivesse inalando o hálito de D’us. Sinta a sua conexão com a Presença Divina. Agora olhe para a parte inferior da letra. O braço inferior se refere ao seu “eu” da ordem-inferior, o Nefesh Behamit (a latente tendência “animal” da alma). Mais uma vez, inale o hálito de D’us. Medite durante um minuto inteiro acerca de como estes dois traços coexistem dentro de você. Agora olhe para o traço diagonal conector que equilibra os outros dois. Medite sobre o Nefesh Elokit e o Nefesh Behamit: o “eu” da ordem-inferior, e o “eu” da ordem-superior representando a generosidade, o altruísmo e a humildade. Quando você aborda esta meditação pela primeira vez, deseja, simplesmente, tomar conhecimento das questões colocadas. Você não está competindo com você mesmo. Você está procurando entender. As respostas surgirão com o tempo: - Os seus Nefesh Elokit (alma Divina) e Nefesh Behamit (alma animal) estão em equilíbrio? - Como é a manifestação do seu Nefesh Behamit? - Quais são os aspectos que o mantém fora de equilíbrio? - Se você estivesse em perfeito sincronismo com o universo, como seria o seu comportamento? O conhecimento interno foi a percepção do Nefesh Elokit — o “eu” da ordem-superior. O “mau comportamento” foi o fruto do domínio, naquele momento, do Nefesh Behamit. Dizem que, certa vez, Sócrates foi flagrado por seus discípulos num ato que destoava daquele grande filósofo. A sua resposta teria sido a seguinte: “Neste momento eu não sou Sócrates”. O desafio do autodomínio é sermos o nosso verdadeiro “eu” durante todo o tempo. As mudanças da Chochmá mudam a vida. Ele pega o momento em questão e transforma aquilo que poderia ser, inicialmente, interpretado como uma adversidade numa oportunidade — enxergar o momento através de uma nova lente e de uma nova verdade. 6 Biná: Mudando o Padrão do Pensamento De acordo com o reconhecido autor e doutor Deepak Chopra, nós temos cerca de cem mil pensamentos por dia. Porém, 95% destes são repetidos a cada dia. O clima de nossa mente parece ser enfadonho, invariável e inflexível. Não é de se admirar que nos sintamos como que ouvindo o mesmo disco de novo e de novo. Você reage da mesma forma cada vez que se defronta com uma pessoa de quem não gosta? Você sente a raiva subir por dentro de você quando vem à sua cabeça uma ocasião em que se sentiu humilhado? Quando assuntos ligados a orçamento e finanças aparecem, você fica sempre ansioso? Vemos, com freqüência, pessoas repetindo e reincidindo nos mesmos erros, no trabalho e em casa. Medo e insegurança vão esculpindo ranhuras de hábito. A chave para criar mudanças está em, primeiramente, reconhecer estes hábitos da mente. A função da Sefirá de Biná é a de pegar a centelha criativa da reinterpretação (Chochmá) e redirecioná-la segundo uma nova maneira de pensar. O processo de mudança de reações fixas, de erros repetitivos e reincidentes, e da inflexibilidade da mente, requer o nosso envolvimento consciente na transição da centelha do pensamento da Chochmá para a maturidade do fluxo da Biná. Se a Chochmá é o meiopelo qual extraímos de nossa fonte de inspiração e de criatividade mental, a Biná é o meio pelo qual aquela centelha de inspiração se torna uma coerente seqüência de idéias. A Chochmá “pescou” aquele pensamento, e a Biná é quem “assa” aquele “peixe”. Quando você aprende a imbuir o seu processo de pensamento da Chochmá com Biná, os pensamentos tornam-se analíticos, desenvolvidos e cristalizados, e o processo do auto-refinamento fica ainda mais poderoso. A compreensão substitui a impaciência. Estratégias energéticas para mudanças substituem a raiva. Ao invés de lutar para controlar a vida, você pratica a fé, a tolerância e a aceitação. A literatura da Cabalá chama estas realizações de re’iyat halêv — “a percepção do coração”. A Corda Multicolorida Isto poderá ser útil para um melhor entendimento da diferença entre Chochmá e Biná. Lembre-se de que dez fluxos espirituais expressam a nossa personalidade. Eles constituem a nossa Mente e Coração. A Chochmá e a Biná se referem à Mente. A Chochmá é criativa, e a Biná é desenvolvimentista. Ambas são expressões da alma e se manifestam através dos labirintos da Mente. Mesmo a mais sutil das atividades cerebrais, chegando aos níveis moleculares ou, até mesmo, subatômicos, são “roupagens” psicológicas com as quais a alma se “veste”. O processo de “vestir” é o que chamamos Mente. Todos os dez fluxos espirituais Sefiróticos se inter-relacionam e se entrelaçam. Na verdade, cada Sefirá tem as outras nove contidas em si. Imagine as Sefirot como cordas compostas de dez fios, cada um de uma cor diferente. A característica individual de cada Sefirá é determinada pela dominação de uma destas cores. Se fôssemos atribuir cores a cada Sefirá, daríamos a cor azul para Chochmá e a amarela para Biná; assim, a corda Chochmá poderia ter uma coloração azulada, porém, mantendo a presença, também, das outras nove cores, enquanto que a corda Biná teria uma coloração amarelada, com todas as outras nove cores também presentes. Permita-me, agora, agregar mais uma qualidade a esta metáfora. Cada um dos fios coloridos que compõem a corda tem a sua própria força magnética, atraindo o fio da mesma cor existente nas outras Sefirot. Se jogássemos estas dez cordas numa trouxa, cada cor atrairia as suas cores iguais das outras Sefirot. A forma resultante deste monte de dez cordas dependeria de como estas forças de atração se conectaram. A forma dependeria de como nós as jogamos juntas naquela trouxa. É exatamente isto o que acontece quando temos um pensamento que produz um sentimento. As dez cordas de Sefirot se “juntam”, resultando numa “forma” — os atributos da Mente/Emoção/Comportamento daquele momento. A “forma” da minha reação dependerá do equilíbrio e do direcionamento de minha Mente, e do grau de energia que canalizo a uma ou mais Emoções. Eu poderia fazer com que o fio azul atraísse todos os outros fios azuis mais intensamente do que a força dos amarelos, resultando, assim, numa maior inspiração e criatividade. Ou os amarelos poderiam estar mais fortemente relacionados com os outros amarelos, levando-me a me engajar numa atividade mais cognitiva. As pessoas são imbuídas com orientações específicas. Algumas pessoas, por natureza, são dotadas de uma inclinação mais criativa. Estas são os artistas, os arquitetos, os poetas. Outras têm uma inclinação mais tecnológica, tais como os engenheiros, os programadores de informática e os pedreiros. Isto não quer dizer que um artista não possa ser um pensador lúcido, ou que um pedreiro não seja criativo. Porém, cada um de nós possui uma certa constelação de fluxos Sefiróticos interiores que definem a nossa personalidade. Através da amplitude de forças de atração que canalizamos a cada um dos fios, podemos alterar, radicalmente, os reais resultados de nossa seqüência Mente/Emoção/Comportamento. Nós podemos, de fato, intervir conscientemente, alterando a direção e o empuxo dos fluxos Sefiróticos. Se formos conscientes e atentos num padrão de intervenção, isto acabará se tornando parte de nossa personalidade refinada. A quantidade correta de Chochmá (a criatividade, a inspiração, o afloramento do subconsciente) ou de Biná (o raciocínio desenvolvimentista, seqüenciado, ordenado e silogístico) dependerá de nossa disciplina e de nossa sabedoria. Macho e Fêmea A dualidade caracteriza o Cosmos. Até mesmo a forma humana reflete isto. Somos dotados de duas mãos, dois olhos, duas narinas e o nosso cérebro é composto de dois hemisférios. Existe o macho e a fêmea. O mesmo vale para a natureza do mundo. Existe a dualidade em cima/em baixo, direita/esquerda, positivo/negativo, próton/elétron, partícula/onda, certo/errado. A Cabalá reflete esta dualidade atribuindo qualidades masculinas e femininas a todas as coisas existentes. Até mesmo as Sefirot são dotadas de qualidades masculinas e femininas. Assim, embora a Chochmá seja masculina quando comparada à Biná feminina, ambas — Chochmá e Biná — são masculinas frente às sete Sefirot da Emoção. E as nove Sefirot, desde Chochmá até Yessod, são masculinas em relação à décima Sefirá — Malchut. A Cabalá também utiliza a imagem sexual para descrever estes relacionamentos. O Zohar estabelece que a Chochmá deposita as suas sementes no ventre da Biná, engravidando-a. Esta união cria a concepção, o trabalho de parto e, finalmente, o nascimento de sete filhos — as Sefirot da Emoção. Desta forma, a Cabalá representa a característica da Chochmá como masculino em relação a Biná. A dualidade também é refletida nas características destas duas Sefirot. Da mesma maneira que o homem é tido como aquele que procura e que conquista, também a Chochmá “procura” dentro do subconsciente e “conquista”, ao aflorar o que “encontra” em nossa consciência. Por outro lado, a Biná, através de sua natureza feminina, nutre a centelha Chochmá, a semente, até que ela amadureça. A Biná alimenta o ponto de inspiração e faz com que ele amadureça, tornando-se uma expressão adequada no mundo da consciência. A idéia seminal da “concepção” se torna uma seqüência de pensamento desenvolvida. Sem estereotipar a dicotomia masculina/feminina, a Cabalá atribui a “alimentação” à natureza feminina, e a “conquista” à natureza masculina. Isto não quer dizer que todas as mulheres são “nutridoras”, e que todos os homens são “conquistadores”. A Cabalá também ensina que ambos — homens e mulheres — possuem as propriedades uns dos outros; os homens possuindo características femininas latentes, e vice- versa. Esta dualidade dentro de ambos — homens e mulheres — são atribuídas à primeira Pessoa, Adão, que, inerentemente, possuía ambos conjuntos de características. Tal como já vimos na primeira parte deste livro, Adão era um composto de homem e mulher, até que foi dividido em Adão e Eva. Porém, os primeiros homem e mulher retiveram, cada um, características um do outro; é por isso que você e eu possuímos tanto traços masculinos como femininos. Um homem pode utilizar os seus traços femininos quando nutre o seu filho. Igualmente, uma mãe pode expressar uma certa vocação, firmeza e agressividade no mundo dos negócios. A Chochmá é, por natureza, um procurador, direcionado para fora, enquanto que a Biná é direcionada para dentro. A Chochmá é um iniciador, e a Biná é uma nutriz. A Chochmá é o “pensamento-feto” que se desenvolve no ventre da Biná. Ele amadurece até chegar num fluxo de pensamento, e fica pronto para deixar o ventre, chegando a uma realidade concreta composta de palavras e ações. Quando a Chochmá não é consciente e cuidadosamente alimentada no jardim da Biná, o mato dos pensamentos doentios e as ervas daninhas da inveja, da cobiça e do ego grassarão. O resultado disto tudo é uma selvageria espiritual que leva à incerteza e, assim, a um comportamento egocêntrico e defensivo. Estabelece-se, então, um padrão, e a liberdade de escolher o caminho certo fica comprometida. Perde-se o significado de vida; e tudo isto porque a transição da Chochmá para a Biná não foi nem entendida, nem praticada. Atividade do Cérebro Direito e do Cérebro EsquerdoÉ interessante comparar Chochmá e Biná com os resultados que advêm das buscas dos lados direito e esquerdo do cérebro. O Dr. Elmer Green, da Clínica Menninger em Topeka, Kansas, é um destacado cientista nesta área. Ele notou que a criatividade está associada com o cérebro direito. A atividade do cérebro esquerdo deve ser silenciada se quisermos encorajar e estimular a criatividade. O cérebro esquerdo é o córtex racional, do desenvolvimento lógico, do raciocínio, da dedução e do julgamento. É parecido e associado com a atividade da Biná. O cérebro direito tende a “ver a situação como um todo”. Ele produz uma reação “intuitiva”, proporcionando inspiração e criatividade, o que parece ser algo muito próximo da natureza do Chochmá. De fato, Green desenvolveu um processo de bio-informação no treinamento de pessoas para invocar e estimular ondas “tetas” — sinais de que o lado esquerdo do cérebro está em relaxamento –, permitindo que aqueles processos menos definidos do cérebro esquerdo trabalhem num determinado problema. É possível que técnicas parecidas com esta possam ser usadas para a identificação dos fluxos espirituais da Chochmá e da Biná. No interior da Chochmá está a “alma” da idéia. Daí, as pessoas “cérebro direito” tendem a ver um problema de forma geral, ao invés de esmiuçar os seus componentes individualmente. Alguns cientistas e artistas empregam processos não-analíticos para resolver problemas. Eles andam, ou meditam, ou divagam, ou até mesmo “dormem sobre eles”. Isto enseja que a atividade do cérebro direito emirja — a infusão de um fluxo Chochmá. Embora tenha se tornado possível estimular a atividade do cérebro direito como uma solução para todos os problemas, a verdade é que ambos os hemisférios do cérebro são absolutamente necessários para as suas respectivas capacidades. Mesmo aquelas pessoas mais criativas precisam de disciplina e de dedicação se quiserem produzir algo valioso. Isto deriva da atividade do cérebro esquerdo. Usando um ponto de referência Cabalístico, as centelhas da Chochmá devem ser subordinadas à qualidade de formação da Biná, que dosa a energia da Chochmá e a põe em condição de uso certo e adequado. Enquanto Biná é disciplina e orientação definida, ela é, contudo, um caminho para a liberdade criativa. Muito freqüentemente gênios da criatividade ficam sem ser descobertos por faltar-lhes a capacidade de canalizar a criatividade de uma forma significativa e expressiva. Pablo Picasso dominava o fluxo mente-corpo a ponto de que as formas cúbicas e a justaposição de cores capturavam uma dimensão do objeto que, de outra forma, teria ficado oculto. Para o célebre violinista Yehudi Menuhin, a madeira inanimada e as cordas tornaram-se extensões de seus próprios membros, coração e alma. Esta síntese entre pintor e tela, entre maestro e instrumento, é o resultado de práticas repetitivas e autodisciplinadas. Cada um destes gênios criativos subordinou a centelha criativa da Chochmá e nutriram-na através da disciplina e da prática, através do fluxo Biná. Biná e Plasticidade da Mente Cada uma das Sefirot utiliza várias partes do corpo para manifestar as expressões da alma. Na verdade, a tradição Cabalística assinala 613 “extremidades e tendões” que correspondem às 613 atividades da mente-corpo. Por sua vez, este número corresponde ao sistema judaico das mitsvot (mandamentos e leis). A intenção é a de infundir a experiência humana com as 613 capacidades exibidas pela alma. A alma emprega o cérebro para, principalmente, distribuir as suas capacidades e os seus atributos. O estímulo do fluxo da alma através do cérebro fortalece sua perícia psicológica. Ele exercita os “músculos cerebrais”. Tal como decorre de todos o exercício, estes “músculos” do cérebro se desenvolvem, produzindo um maior “poder cerebral”. Eis que chegamos a uma importante interface entre o espiritual e o físico. Há muito já suspeita-se que as pessoas que exercitam, regularmente, o seu cérebro, conseguem, de fato, alterar as suas capacidades mentais. Isto foi verificado, cientificamente, através de experiências feitas sob os auspícios do Instituto Nacional de Saúde Mental — o “National Institute of Mental Health”. Os Drs. Karni e Underleider pediram para que voluntários realizassem determinada tarefa de forma repetitiva. Os seus cérebros foram escaneados por meio de aparelhagem de ressonância magnética (MRI — Magnetic Resonance Imaging), possibilitando aos pesquisadores identificar as partes do cérebro que estavam sendo usadas. Os cientistas descobriram que quanto maior era o tempo empregado na “prática” e na repetição daquela atividade, mais freqüente era o acionamento das células nervosas do cérebro ligadas à mente, e mais pronunciadas e ampliadas ficavam as conexões neurais. Ou seja, em outras palavras, a capacidade cerebral parecia aumentar. O fluxo aumentado de Biná criou reais mudanças no cérebro através do aumento daquelas conexões neurais. Parece não haver dúvida de que nós temos a capacidade de aumentar o nosso poder cerebral. A prática da Biná é capital para este propósito; pois a Biná é o fluxo espiritual que, conscientemente, pega os pensamentos e dá-lhes a direção através dos objetivos, o alcance através da elasticidade, e o vigor através da energia emocional. A Capacidade Para Mudanças Nós podemos perceber o nosso potencial e, até mesmo, aumentá- lo, ao permitirmos que a centelha inicial da criatividade desabroche através do fluxo da Biná. O Rebe de Lubavitch insistia que, tanto você como eu, temos a capacidade de mudar as nossas naturezas. Isto requer uma introspecção sistemática, auto-análise e coragem. Os humanos são uma expressão artística do Artista Divino; porém, nós também desfrutamos de uma parceria com D’us em completar o trabalho de arte da criação. Colorindo a Sua Paisagem Interna — Sinestesia Espiritual Os cientistas vêem as sete cores do arco-íris como comprimento de ondas. A Cabalá vê as cores do arco-íris como reflexos das sete Sefirot básicas da Emoção. Já temos disponíveis, agora, muitos dados neurológicos de como o cérebro “rotula” as percepções. Um pequeno grupo de pessoas experimenta um fenômeno conhecido como sinestesia. Estas pessoas, que, estimativamente, são algo em torno de dez a cada dez milhões de indivíduos, identificam sensações de forma diferente dos demais. Elas conseguem descrever gostos como, por exemplo, sendo redondos ou amarelos; ou descrever visões como altas ou rosadas, e assim por diante. Um neurologista Americano, Dr. Richard E. Cytowic, descreve este fenômeno em seu livro The Man Who Tasted Shapes: A Bizarre Medical Mystery Offers Revolutionary Insights Into Emotions, Reasoning and Consciousness. Pesquisas têm demonstrado que os sinestésicos, aqueles que têm a capacidade de perceber as suas sensações de uma maneira indexada, são, na verdade, conscientes dos processos normais de seus cérebros e, até mesmo, dos seus sistemas de processamento pré-conscientes. Eles são capazes de acompanhar a seqüência do processo de escolha que ocorrem, naturalmente, no cérebro, enquanto que a maioria de nós somente tem consciência do sinal dominante que a mente escolhe para ser identificado — o som é ouvido, ou a visão é vista, e assim por diante. Enquanto a ciência está decodificando os processos da mente, a psicologia Chassídica tomou a dianteira e nos ensinou a como fazer uso deste fenômeno. A Torá nos informa que há três mil e quinhentos anos, no Monte Sinai, alguns milhões de pessoas experimentaram uma modalidade de sinestesia em grupo. Em Êxodo (20:15), o versículo assinala que “as pessoas viram os sons”. A psicologia Chassídica explica que, num estado elevado, as capacidades da alma fluem através do corpo com extraordinário poder, resultando numa maior percepção interior. O estado elevado da alma no corpo produz o efeito em massa da sinestesia. Nós devemos tirar proveito de nossa capacidade de mudar, redirecionando o nosso fluxo de Biná, de forma que nos seja possível experimentar a verdadeira liberdade criativa e pessoal. O exercício seguinteserve para nos ajudar a ter acesso aos nossos estados emocionais, traduzindo, sinestesicamente, sensações em outros sentidos. Você começará a identificar emoções e pensamentos como cores e formas. Diferentemente dos sentimentos ou dos pensamentos, que são amorfos e de difícil controle, estes objetos sensoriais não carregam julgamento algum. Ao, conscientemente, alterar as formas e as cores, os pensamentos e as sensações também podem ser mudados. UM EXERCÍCIO DE FLUXO DA BINÁ Escolha um momento de quietude e um ambiente confortável. Concentre-se. Relaxe. Suavemente feche seus olhos e concentre-se, por alguns minutos, em sua respiração. Deixe que o seu olho interior escaneie, lenta e detalhadamente, o seu corpo, da cabeça aos pés — seus pés, joelhos, abdome, peito, ombros, pescoço, rosto e cabeça. Concentre-se em seus sentidos, um a um. Ouça os sons ao seu redor, identificando cada um deles. Sinta a textura do material sobre o qual as suas mãos repousam. Passeie com a sua língua por seus dentes. Sinta qualquer cheiro ou olor ao seu redor. Agora, relaxe ainda mais e deixe que pensamentos entrem e saiam à vontade. Deixe que o fluxo da consciência interna venha para frente. Permita que a sua mente divague livremente. Da forma mais casual possível, tome consciência de sua seqüência e de suas possíveis conexões. Agora, mude o seu foco para as suas sensações e sentimentos. Recrie as imagens de sua mente, sem esquecer de notar a sensação que cada imagem produz. Não é necessário descrever ou verbalizar mentalmente. Experimente as várias sensações. Não se envolva; apenas sinta-se como um visitante. Permita que um pensamento aflore. Não julgue. Apenas observe. Sinta-se confortável com ele. Atribua àquele pensamento uma forma qualquer. Ele tem a forma circular ou oblonga? Ele tem cantos e aresta, ou é arredondado? Este seu pensamento tem um formato amorfo? Quando você já tiver fixado a sua forma em sua mente, atribua-lhe uma cor. Não importa qual seja a cor — é o seu pensamento, e, assim, pode ser da cor que você quiser. O importante é que seja uma representação honesta. Leve o tempo que quiser. O seu pensamento, agora expressado por uma forma colorida, é leve como uma pluma. Ele se move lenta e suavemente pelo espaço, um pouco acima do chão. Imagine uma paisagem. De alguma forma a paisagem criada está relacionada ao pensamento. Continue junto ao pensamento. Deixe que ele viaje sobre variadas paisagens de formas, cores e formatos. Não analise as formas da paisagem. Apenas deixe que elas existam. Quando você tiver concluído a viagem para aquele pensamento, traga-o de volta para a terra. Relaxe. Agora, deixe que um outro pensamento inicie a sua viagem. Repita o exercício. Apenas acompanhe-o. Deixe que a paisagem apareça organicamente, sem ser forçada. Volte ao primeiro pensamento. Desta vez, conscientemente, elimine uma parte da paisagem e substitua-a por uma paisagem que você ache ser mais apropriada. É possível que você descubra que determinados símbolos lhe trazem algum desconforto, e que você pode trocá-los por outros com os quais você se sente mais confortável. No decorrer do tempo, volte ao pensamento. Direcione o seu destino. Tenha mais orientação em suas viagens. Crie ambientes paisagísticos e atalhos que tornem a viagem mais direta e menos desviadas. Cada vez que você completar este exercício, registre, sucintamente, as viagens, as paisagens, a sua duração e as suas sensações — especialmente os símbolos repetitivos. Mantenha um registro de suas viagens. Repita este exercício diariamente, durante uma semana. À medida que você despende mais tempo e freqüência praticando este exercício, você irá se tornando cada vez mais consciente de seus fluxos de pensamento, quais são os seus objetivos ocultos, e as energias associadas a cada um deles. O objetivo do exercício é fazer com que você fique cada vez mais experiente em direcionar seu pensamento e dotá-lo de flexibilidade e conforto. Por exemplo, você poderia achar que um determinado pensamento sempre o deixa ansioso. Fazendo este pensamento viajar, e observando o cenário que você criou, você poderá encontrar meios de redirecionar o pensamento, fazendo com que as paisagens se tornem mais fáceis de manipular. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA BET O bet é a segunda letra do alfabeto hebraico. O seu significado, literalmente, em hebraico é “casa”. É o aspecto feminino, em comparação ao alef, que é masculino. O bet é a primeira letra da primeira palavra da Torá — Bereshit (No princípio...). Note a forma desta letra; ela se parece a uma casa. Medite acerca de seu significado. Imagine o mundo todo numa casa. Note que um dos lados está aberto para D’us, e os outros três são fechados. Da mesma forma, o conhecimento do princípio é fechado para nós — ele nos é inconcebível. Bet é a segunda letra, correspondente ao segundo dia da criação, quando D’us dividiu as águas em dois reinos. Pense sobre os dois reinos da consciência — o superior e o inferior. A palavra hebraica para “bênção” começa com a letra bet — Brachá. Medite acerca de como o mundo está construído sobre o benéfico fluxo da bênção, apesar de seus muitos desafios e adversidades. O domínio sobre a Biná é uma habilidade técnica da Mente. Este último exercício, bem como os que seguem abaixo, traduzir-se-ão numa maior consciência de seus processos pensantes nas circunstancias triviais e cotidianas de sua vida, fazendo com que os seus pensamentos sejam mais construtivos, objetivos, positivos e confortáveis. Os dois exercícios seguintes mostrar-lhe-ão como dosar e canalizar o seu potencial para a concentração da Mente — um importante elemento do fluxo Biná. Tente praticar um deles todos os dias, durante uma semana. EXERCÍCIOS DE VISUALIZAÇÃO: TORNANDO-SE UM BOM “NUTRIDOR DE CENTELHA” EXERCÍCIO 1. Sente-se numa confortável cadeira ou poltrona e feche seus olhos. Profundamente inspire algumas vezes e visualize alguém que você ama. Começando pelo topo da cabeça, concentre-se, sistematicamente, em cada uma das características, descendo do cabelo para a testa, o resto da face, pescoço, ombros, braços e mãos. Depois, faça o caminho inverso, seguindo o mesmo trajeto, das suas mãos para a sua face, até chegar ao topo de sua cabeça. Repita todo o processo. Caso alguma das características não esteja clara e nítida, ou seja difícil de imaginar, volte à característica imediatamente anterior e, quando a tiver perfeitamente nítida na mente, prossiga à característica seguinte. EXERCÍCIO 2. Imagine o sol nascendo sobre um lago. Primeiramente, concentre- se na superfície da água conforme a luz vai mudando; daí, observe o sol nascendo na linha do horizonte, movendo-se lentamente para um ângulo de quarenta e cinco graus, e, depois, até chegar a pino, sobre a sua cabeça. Depois, leve o sol para trás, até que ele mergulhe nas águas do lago, num maravilhoso pôr-do-sol. A verdadeira integração da Chochmá e da Biná é o trabalho da Sefirá de Daat, a terceira Sefirá, e aquela que completa a tríade das Sefirot da Mente. O Daat não somente ocasiona a união masculino- feminina da Chochmá e da Biná, permitindo-lhes que se “apaixonem”; ele também permite que o empuxo de energia conhecido por Emoção ative e dê energia aos processos da Mente, possibilitando que as suas traduções venham a ser expressões ativas. 7 Daat: A Mente Crente Madre Teresa e Joseph Stalin tinham, ambos, fortes propensões. Madre Teresa salvou vidas; Stalin assassinou milhões de inocentes. Obviamente, é muito melhor para o mundo quando as propensões, tendências e impulsos da pessoa são acompanhados e combinados de uma disposição generosa e altruísta. No entanto, uma propensão é neutra. O arbítrio (a escolha) humano a impregna de significado, seja ele bom ou mau. Nós precisamos de propensão para projetarmos os nossos dons ao Cosmos. Porém, a sabedoria é quem assegura que o nosso legado possua direção e valor. As propensões positivas precisam tanto da sabedoria da Mente como do poder das Emoções. Somente, então, é que a nossa propensão pode serusada para objetivos válidos. Este equilíbrio entre sabedoria e sentimento é conseguido através da Sefirá de Daat. Daat é a Sefirá que cria o saber. Uma propensão é neutra. O arbítrio humano a impregna de valor. Dois Tipos de Daat Em seu clássico trabalho sobre o Chassidismo, o Tanya, Rabi Shneur Zalman de Liadi nota a existência de dois aspectos do Daat. O Daat Tachton cria a ligação entre a Mente e a Emoção. O Daat Elyon une Chochmá e Biná. Já lhe aconteceu de entrar numa sala e, então, perguntar-se o que é que você fazia ali? Durante um breve momento de perplexidade, o fluxo Biná perdeu sua centelha — sua alma de Chochmá. Paira uma ausência momentânea. No entanto, quando você retoma a sua seqüência de pensamentos, você se lembra porque estava ali, naquele lugar. Em outras palavras, você reintegra a Chochmá e a Biná. O Daat Elyon volta a juntá-las. De fato, o Daat Elyon é superior tanto à Chochmá quanto à Biná, isoladamente. Nos ensinamentos Cabalísticos, este nível do Daat extrai sua força da Sefirá de Keter. Nós não discutiremos esta Sefirá agora, pois ela é tão efêmera que muito pouco nos ajudará a conseguir uma mudança consciente. Ela está associada com a nossa vontade mais elevada, mas o Daat Elyon, o Daat superior, extrai daquela Sefirá e, assim, é possuidor das propriedades superiores de ambos: criatividade e entendimento, e mais. O processo é dinâmico. Daat é uma aptidão que flui da alma. As capacidades da alma incluem o potencial intelectual, sendo que ambos, criatividade e entendimento, são expressos através dos processos da Mente. O Daat reúne as informações e refina as pessoas-Mente que somos. Quando nos conscientizamos de seus processos, podemos realizar as nossas percepções e virtudes positivas em nossa vida cotidiana. Vejamos, agora, a forma inferior do Daat, conhecido como Daat Tachton. Este fluxo do Daat permite que a Mente seja impregnada com a energia do Coração. Ele advém do entusiasmo no aprendizado e da alegria na descoberta. Além disso, ele também alarga, aprofunda e integra o saber com o “eu”. Quanto maior a impregnação da Emoção na Mente, mais integrado será o saber com aquilo que é conhecido, e com o processo do conhecimento. Por exemplo, algumas crianças conhecem as suas tabuadas tão bem que as respostas, quando a elas solicitadas, saem sem maiores dificuldades. A informação está totalmente integrada em seu ser, e elas nem sequer têm que pensar antes de dar a resposta correta. Por outro lado, outras crianças lutam para encontrar a resposta. Se lhes pedíssemos estatísticas sobre os seus times esportivos prediletos, elas poderiam, facilmente, matraquear com grande alarido e descrever em detalhe quantos gols foram marcados por seu time em vários campeonatos. Estas crianças também são dotadas de aptidão matemática. Qual seria, então, a diferença entre aquelas crianças que acham fácil a operação de multiplicação, e aquelas para quem isto é uma tarefa desagradável? Isto se deve à presença da Sefirá do Daat. O Daat é o adesivo que combina a alegria do objetivo com o pensamento que acompanha a lembrança. Ele une a inspiração (Chochmá) e o entendimento (Biná) com as nossas emoções (as Sefirot da Emoção). Assim, as crianças que apreciam o significado existente por trás dos números são capazes de assimilar melhor a matemática, enquanto que para aquelas para quem isto é uma tarefa mecânica tendem a ter maior dificuldade. Quando eu era veterano no colégio, a minha professora de matemática nos ensinou que a única maneira para, realmente, se conhecer um determinado assunto, é escrevendo um texto sobre ele. Aquilo soou-me como uma tarefa terrível; porém, eu segui a sua sugestão e acabei descobrindo que aquilo realmente funcionava. Embora eu já tivesse compreendido a matéria antes, foi somente após trabalhar na composição de um livro inteiro sobre aquele assunto que senti que ele fazia, de fato, parte de meu ser. Eu sabia tão bem matemática que era como se ela tivesse se fundido comigo, e eu com ela. O “saber” acontece quando vemos uma propaganda que nos envolve num nível emocional. Nós achamos aquela publicidade engraçada, excitante, ou provocante. Nós sabemos em nossas entranhas o que aquele anúncio está nos dizendo. Igualmente, um bom livro cativará o leitor num nível emocional quando as palavras nele grafadas saltarem por sobre o abismo existente entre a compreensão intelectual passiva e chegar em seu coração. Nós não entendemos, simplesmente, o livro ou a propaganda. Nós sabemos que ele se dirige a nós de uma maneira pessoal, e nós nos sentimos tocados. Conhecer (Daat) e entender (Biná) são processos distintos. Tal como diz o grande mágico Michael Moschen no livro de Joan Ame, Mastery — Interviews with 30 Remarkable People: “Quando você realmente se aplica numa técnica ou numa disciplina, e você consegue algo, aquilo não será algo separado de quem você é!” Um Eufemismo Para o Amor O Tanya nos diz que o verbo hebraico “conhecer” é, também, um eufemismo para união sexual. O Rabi Shneur Zalman explica que a união entre um homem e uma mulher é um dos mais profundos atos de união na criação — são dois unindo-se como se fossem um. De fato, quando a Torá fala do primeiro acasalamento entre Adão e Eva, a frase é: “... e Adão conheceu Eva”. Todo “conhecimento” é um estado de intimidade. “Conhecer” algo é unir-se, fundir-se a ele. Quando você conhece profundamente algo, aquele algo acaba fazendo parte de você, e você faz parte dele. Não existe uma união maior. Rabi Shneur Zalman chama isto de “prodigiosa união”, incomparável a qualquer outra experiência. E ele continua, aplicando este estado de união a um indivisível com o Todo — o estado místico da perda do distintivo “eu”, fundindo-se com o estado experiencial do Divino. No Tanya, o conceito de Daat é aplicado à tarefa da humanidade da singularidade mística. No entanto, isto também se aplica, igualmente, a todas as áreas do aprendizado. O Tanya assinala que quanto mais profunda for a percepção, mais profundo será o sentimento concomitante. Quando conhecemos algo numa forma meramente superficial, estamos menos propensos a nos entusiasmar por aquilo. O Daat permite que a Mente seja revigorada pelo Coração. Certamente, como veremos, há ocasiões em que o Coração “captura” a Mente, e ficamos imprudentemente revigorados. O resultado é o que, geralmente, chamamos de racionalização. No entanto, quanto mais profundamente entendermos, maior será o fluxo emocional, mais fundamentados estaremos, e mais forte será a nossa crença. Conhecimento Interior A crença é um acúmulo de informações, somado a uma disposição inata que cria um conhecimento interior. Quando dizemos que cremos em algo, geralmente queremos dizer que integramos “conhecedor”, “conhecimento” e “conhecido” a um ponto tal que chegam a ser inseparáveis. Os “conhecedor”, “conhecimento” e “conhecido” tornam- se uno. Nós apenas “conhecemos”. A informação é “colada” pelo Daat superior na unidade da Chochmá e Biná. O Daat fica impregnado com a essência de ambas, Biná e Chochmá, tornado a união mais poderosa do que cada uma delas, em separado. Trata-se de algo supra-racional e, portanto, não sujeito a desvios ordinários ou racionais. Quando isto ocorre, tão forte é a união interna que temos entre Mente e Emoção, que a Mente de qualquer outro, por si, não nos pode influenciar. Se você tentasse, no Século XII, convencer uma pessoa de que o mundo é redondo, ela, certamente, haveria de dar gargalhadas na sua cara. A sua experiência cotidiana gravara nela a crença de que o mundo era plano. Ela simplesmente “sabia” que o mundo era plano, tal como a maioria dos outros carolas daqueles dias. Foi somente quando a informação mudou, graças às primeiras circunavegações do mundo, e continuou sendo repetida, que a nova informação pode deslocar a anterior e, com o passar do tempo, criar uma nova crença acerca da natureza da terra. A nova informação criou um conhecimento interior maior, e uma crença mais poderosa. Hoje em dia você pode perguntar a qualquer um se é a terra quegira ao redor do sol, ou vice versa; você receberá a resposta de que, desde Copérnico, a informação é clara — o sol está ao centro do sistema solar. Mesmo que você tentasse explicar que, uma vez que a Teoria da Relatividade de Einstein provou ser impossível determinar, com certeza, num sistema composto por dois ou mais corpos, num movimento relativo entre eles, qual deles é o foco e o fulcro, e qual é o “seguidor”, é muito provável que aquela mesma pessoa não conseguirá entendê-lo. A crença na centralidade do sol é por demais forte para a nova informação da relatividade para que possa sobrepujá-la. As crenças são fortes e poderosas. Em nosso mundo, serão necessárias mais informações e experiências mais elevadas para que seja possível deslocar a crença na centralidade do sol. Assim, vemos que existem dois processos distintos no “conhecimento”: * A reunião das informações pela Mente. * A integração das informações com o “eu”, através da fusão entre Mente e Coração. Enquanto a simples reunião de informações pode não afetar a expressão e o comportamento, a crença pode exercer um profundo efeito. De fato, a crença é uma poderosíssima ferramenta que molda não apenas as nossas escolhas, a nossa expressão, e o nosso comportamento; mas pode afetar a nossa saúde e o nosso bem-estar. O Poder da Crença Em seu livro, Timeless Healing: The Power and Biology of Belief, o Dr. Herbert Benson assinala que, durante muito tempo o tratamento padrão para angina incluía injeções de veneno de cobras, ou a remoção cirúrgica da tireóide ou de partes do pâncreas. Porquanto não temos razões para acreditar que nenhum destes remédios tivesse funcionado, nós sabemos que, contrariando qualquer lógica científica, eles tinham entre 70% e 90% de sucesso. É interessante destacar que, quando a profissão médica começou a pôr em dúvida a validade destes tratamentos, a sua eficácia caiu para 30% ou 40%. Ou seja, em outras palavras, o poder do efeito do placebo provou ser duas vezes mais eficiente “sob condições de expectativa elevada”. Em 1950, o Dr. Stewart Wolf estudou mulheres que sofriam de persistentes e recorrentes náuseas e vômitos durante a gravidez. Ele administrou às mulheres uma certa substância que induz o vômito, xarope de ipecacuanha (Cephaelis Ipecacuanha), porém, dizendo àquelas pacientes que se tratava de um medicamento que curaria o seu problema. Surpreendentemente, ele funcionou. Um estudo, publicado em 1995 na conceituada revista médica Annals of Internal Medicine, mostrou que pacientes portadores de artrite reumatóide experimentaram um declínio de 50% em suas inchações pela simples administração de placebos. Outros estudos mostram que falsos tratamentos por ultra-som na odontologia reduziram a dor e produziram 30% menos inflamações; e que os sintomas da asma, do herpes simplex, das úlceras duodenais, e uma porção de outros males, foram aliviados através de tratamentos com placebo. A forma como a informação é dada aos pacientes tem um efeito substancial em sua recuperação. O Dr. K. B. Thomas escreveu, num conhecido jornal médico da Inglaterra, que 64% dos pacientes que tiveram “boas-novas” foram curados num espaço de duas semanas após a consulta, comparados aos 39% que receberam informações negativas. As pessoas que receberam informações de uma forma neutra tiveram uma média de 53% de recuperação. Eu me lembro dos aborígines australianos, que puniam os seus piores criminosos através de um ritual tribal chamado “apontamento do osso”. Administrado por um ancião da tribo, ao apontar um osso para o acusado, causava-lhe uma morte quase que imediata. Alguns médicos também tendem a “apontar o osso”. Uma quantidade de outros estudos médicos relatados demonstra o incrível poder que a crença exerce sobre as funções do corpo: * Mulheres que acreditam estar grávidas freqüentemente sentem sintomas pseudo-gestacionais. * Placebos ministrados para reduzir as taxas de colesterol mudaram a saúde de um grupo de homens que tinham sofrido ataques cardíacos. * O gosto, a cor e a quantidade de cápsulas afetam o sucesso de determinados tratamentos. * O placebo pode ter a capacidade de reduzir a subjetiva sensação de dor. * A surdez pode ser auto-induzida em função de uma tragédia associada com barulho, tal como foi descoberto em Kobe, Japão, após o terremoto de 1995. Estes exemplos contradizem a antiga separação Cartesiana de mente e corpo. A conclusão de Descartes, apontando que corpo e mente têm uma “fiação” independente, certamente, foi deixada de lado quando reconhecemos o poder que a mente possui para moldar as funções do corpo. UM EXERCÍCIO DE CONSCIÊNCIA Repita este exercícios diariamente por uns dois minutos. Encontre um lugar tranqüilo. Desligue o telefone. Pergunte-se: O que eu sei? O que, de fato, eu sei? Eu sei voar? Eu sei com o que se parece nadar? Eu sei com o que se parece sorrir? Eu sei com o que se parece respirar? Certamente você sabe. Mas você, realmente, sabe? Respire. O que você sabe sobre a respiração? Você sabe como o ar entra? O ar passando por sua traquéia, chegando a seus pulmões? Você sabe sobre a consciência resultante de sua respiração? Você sabe a inconsciência que resulta da sua não-respiração? Você conhece a respiração Cósmica que mantém o Cosmos vivo? Você sabe quem respira aquela respiração? Você respira em ritmo com a respiração da vida? Agora pergunte-se novamente: O que eu sei? O que, de fato, eu sei? Viva com mais profundidade. Deixe que o Daat flua para fazer a conexão, a fusão, o conhecimento. O conhecimento e a crença interiores da Sefirá de Daat tornam-se uma poderosa ferramenta com a qual podemos expandir a mente e obter boa saúde e bem-estar. Através da Cabalá nós aprendemos como é que podemos usar o nosso poder de crença para mudar não apenas a química de nosso corpo, mas, mais significativamente, as conexões e ligamentos espirituais de nosso “eu” superior. Quando dominamos as Sefirot do Daat, podemos desenvolver novos meios de interpretar a natureza da realidade. Podemos aprender a equilibrar a nossa mente- corpo, e, ainda, conseguir também uma boa saúde. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA GUIMEL O guimel é a terceira letra do alfabeto, e seu valor numérico é três. Assim como o Daat estabiliza e equilibra a Chochmá e a Biná, o guimel proporciona uma “terceira perna” às letras que a precedem. Veja a base da letra guimel e perceba como ela proporciona uma fundação firme para uma haste delicada. Medite acerca da natureza essencial do guímel como sendo a ponte entre o indivíduo e a casa. O nome desta letra deriva da palavra aramaica gamia, que significa “ponte”. O Daat é uma aptidão espiritual que flui da alma. As capacidades da alma incluem os potenciais intelectuais. Estes são expressos através da psicologia do cérebro, através dos processos da Mente. O processo do Daat reúne informações e continua refinando o tipo de Mente- pessoa que você é. Se pudermos nos conscientizar de seus processos, então estaremos aptos a acelerar a nossa autoconsciência e deixar que as nossas percepções pessoais e as nossas virtudes positivas se realizem na arena da vida cotidiana. Através de nossas análises da Chochmá, da Biná e do Daat chegamos a uma compreensão do que se passa em nossa cabeça. Agora voltemos para o entendimento do que acontece no coração. Como é que você aprende a modular as emoções? Na verdade, o que são as emoções? O “fluxo das sensações” será o assunto da próxima seção. 8 Chéssed: Destrancando o Fluxo do Amor Mente e Emoção Mente e Emoção são as vias pelas quais nós tocamos o Cosmos. Enquanto que as palavras são veículos da expressão da Mente, elas não expressam, tão facilmente, o fluxo da Emoção. Eis porque eu não consigo “dizer”, exatamente, para você como eu me “sinto”. Eu somente posso usar metáforas e analogias para transferir os meus sentimentos e sensações. Enquanto os pensamentos proporcionam uma estrutura que torna o universo inteligível, os sentimentos expressam a amplitude, a freqüência e a profundidade de nossos relacionamentos com o ambienteespiritual e físico. Os sentimentos não “falam” conosco — eles emocionam dentro de nós. Eles nos proporcionam uma estrutura dentro da qual vivenciamos a nossa realidade. Tanto as palavras quanto os sentimentos são expressões da alma. Quando nós tocamos o Cosmos através da Emoção, estamos estabelecendo uma conexão numa maneira pessoal. Ninguém, além de você mesmo, experimenta os prazeres e dores da vida exatamente da mesma maneira que você. Os nossos sentimentos e sensações são completamente nossos. A nossa singularidade individual garante que cada um de nós tenha uma leitura diferente da vida. Eis porque é tão estimulante encontrar alguém cujas experiências se coadunam com as nossas. Isto não é corriqueiro, e é um indício de que estamos próximos através de meios que são espirituais. * MENTE é o meio de a ALMA se expressar através da psicologia do CÉREBRO. * EMOÇÃO é o meio de a ALMA se expressar através do CORAÇÃO metafórico. O que queremos dizer com “Coração metafórico”, e por que a alma tem uma necessidade de se expressar de alguma forma? A Natureza das Emoções Pense na alma como o cordão umbilical espiritual que canaliza as forças criativas naturais do Cosmos através de cada um de nós. Agora pense no corpo físico como o “recipiente” e um “conduíte” para a expressão daquelas forças no plano do tempo e espaço. A alma possui as capacidades espirituais de comunicação que você e eu usamos quando pensamos, falamos e agimos. Mas é somente por intermédio do corpo que estas capacidades são expressas. De forma latente, dentro destes três processos de expressão está o potencial da Mente e Emoção. A Mente consciente expressa a capacidade da alma para a inteligência. Ela o faz através de um específico meio psicológico, conhecido por cérebro. Independentemente do quão requintado, complexo e sutil seja a composição e configuração do cérebro, ele continua sendo um maquinário finito, no qual acontecem as transferências de energia. As suas funções podem até ser observadas com o auxílio de um microscópio ou um escaner. O trabalho de nossa Emoção é algo muito mais difícil de ser detectado. Ela não tem nenhum órgão convenientemente localizado tal como o cérebro. Trata-se de uma expressão geral da alma e não está localizada em nenhum lugar determinado — por isso, denominamos este “lugar” como um metafórico “Coração”. A Emoção está espalhada por todo o nosso corpo. Ela reflete um fluxo generalizado da alma, em comparação com o fluxo particular da Mente. Quando você se sente alegre ou triste, você não tem este sentimento no dedão do pé ou nos seus dentes — você o sente de forma generalizada e espalhada em todo o seu ser. Referimo-nos aqui às emoções, e não às sensações táteis. Por serem mais difusas, as emoções são mais difíceis de serem definidas, localizadas, ou de serem mudadas através de intervenções conscientes. A Ciência da Emoção Embora tenhamos uma boa idéia de como a alma se manifesta através do cérebro, a maneira como a alma se manifesta através da Emoção desafia uma fácil definição. A ciência da Emoção está apenas começando a aflorar. Nos recentes anos, a ciência começou a examinar e investigar com mais profundidade a interação que existe entre a Mente, a Emoção e o corpo. É interessante notar que a natureza descentralizada das Emoções, descrita pela psicologia Chassídica, se correlaciona muito bem com a pesquisa moderna. A Professora Candace Pert é uma das líderes entre os pesquisadores no campo da natureza psicológica da Emoção. Em seu livro Molecules of Emotion: Why You Feel the Way You Feel, ela apresenta uma base científica para a psicologia da Emoção, e as razões pelas quais ela se irradia por todo o corpo. É possível que você já esteja familiarizado com o modelo de “sistema de comunicação” do cérebro, como sendo uma gigantesca rede, formada por trilhões de quilômetros de “fiação” do sistema nervoso central. Sem contradizer este modelo, ela o ressalta criando, de forma hipotética, um modelo químico de agregados moleculares e receptores, com cada célula possuindo uma enorme leque de receptores com “convites quimicamente projetados” em sua superfície. Ela sugere que as imaginemos como “painéis químicos” que atraem “clientes químicos”, viajantes carregados de proteína — os agregados moleculares. Cada receptor atrai o seu cliente particular. Esta comunicação celular ocorre através dos sistemas endócrino, neurológico, gastrintestinal e imunológico. Em outras palavras, cada célula “conversa” com todo o corpo numa linguagem química. Pressupõe-se, até, que cada célula possui uma “mente” de todo o ser. É interessante notar que a área do cérebro que acreditamos conter a maior parte das funções da Emoção, o sistema límbico, contém 95% dos receptores neuropeptídeos. Assim, as Emoções são produto não apenas de estimulação elétrica, mas, também, de estimulação química. Mente e Emoções podem ser imaginadas como os fluxos de informações movendo-se por entre as células. Atualmente, acredita-se que cada célula do corpo tem uma lembrança, e que estas memórias são armazenadas em todo o corpo. Em suma, o corpo se lembra de sensações e sentimentos passados! Quando experimentamos uma sensação que já tínhamos sentido, um circuito neural é ativado. Ele gera uma reação do corpo inteiro, aflorando todo um conjunto de mudanças e alterações corpóreas, inclusive no aspecto das expressões faciais. Uma simples mudança num pensamento pode induzir tais mudanças. Um interessante experimento foi, recentemente, relatado no British Psychological Society Journal, informando que o mero pensar em exercício físico já exerce um fortalecimento muscular. As implicações para a recuperação de músculos machucados são enormes e podem, geralmente, melhorar também o seu desempenho. Enquanto que o cérebro evita que sejamos bombardeados por estímulos sensoriais, filtrando tudo aquilo que experimentamos conscientemente, o nosso corpo, como um todo, continua reagindo e respondendo subconscientemente às sutilezas das Emoções não- filtradas. Assim, a intervenção consciente através da meditação é capaz de redirecionar as reações do corpo. Por exemplo, se a profundamente arraigada raiva de uma pessoa está lhe causando um estresse que afeta o seu sistema imunológico, cuidar daquela raiva, pode desestressar o seu corpo e impedir que ela fique “emperrada” numa ranhura psicológica. A Dra. Margaret Kemeny, da Universidade da Califórnia, fez um estudo dos atores “MetHod”. Ela descobriu que, quando um ator estimulava a tristeza, isto fazia aumentar o número das células “matadoras” que caçam as anormalidades celulares de seu corpo. A quiroprática chama esta consciência global do corpo de “inteligência inata”, e outros a denominam de “sabedoria do corpo”. A Cabalá a chama de “expressão unificada da alma”. A Cabalá explica que quando você pratica uma mitsvá (uma boa ação), é um comportamento Mente-Emoção-Corpo que, por definição, cria um ótimo caminho para a expressão da alma. Não somente passamos a ficar mais fundidos com o fluxo Cósmico, mas, de fato, melhoramos o Cosmos existente. Ainda mais especificamente, os nossos atos de bondade podem fluir para difusas Emoções e reorientá-las, fazendo com que o resultado seja o bem-estar e a boa saúde. Quando praticamos uma mitsvá, nós desempenhamos um importante papel na complementação do inacabado ato da criação. Encarando isto sob um outro ponto de vista — o do crescimento espiritual –, podemos projetar que os nossos sentimentos podem alterar, fisicamente, os caminhos através dos quais os nossos fluxos espirituais ganham expressão. Na verdade, nós somos um “caldeirão fervente” de fluxos Sefiróticos espirituais, que são influenciados pelos processos conscientes e inconscientes do corpo. A maneira que escolhemos para interpretar o momento (Mente), deflagra um conjunto de sentimentos ou sensações (Emoção), o qual pode, eventualmente, resultar num dano ao corpo, ou no seu conserto e bem-estar. A Sua Natureza de Dar O Chéssed é a emoção de dar e de repartir. Quando estendemos a mão a umapessoa necessitada, estamos abordando o fluxo de Chéssed. Trata-se do fluxo básico com o qual a criação está imbuída. De fato, podemos dizer que a Sefirá de Chéssed está no âmago do desejo da humanidade de fazer uma significativa contribuição ao mundo. Na Cabalá, o Chéssed está descrito através da metáfora da água. Assim como a água flui de lugares mais altos, o Chéssed flui a partir da união da Chochmá e da Biná, através do ato do Daat. Tal como a água, o Chéssed é associado com a pureza e o prazer. Banhamo-nos e ficamos limpos. Bebemos água e nos refrescamos. Subjacente a todas as alegrias espirituais está a qualidade de dar, contribuir e servir. Eis porque muitos caminhos espirituais possuem como um princípio central de seu ensinamento o conceito do serviço. Rabi Shlomo Yitschaki de Troyes (conhecido pelo acrônimo de Rashi) destaca que o Chéssed está por detrás da motivação de D’us para a criação do mundo. A Cabalá ensina que o ser humano é um microcosmo do universo. Mesmo quando nós não o imaginamos conscientemente, cada um de nós é motivado a contribuir para o aprimoramento do mundo. Isto é central à natureza da criação, sendo a nossa própria natureza humana. Muitas vezes temos aprendido comportamentos que frustram um fluxo saudável do Chéssed. Eu tenho três amigos que chamarei, aqui, de David, Sara e Greg. Cada um deles encara a vida de uma maneira diferente. DAVID David leva sua vida a “todo vapor”. A vida é por demais curta, e parece não haver nada suficiente. Ele tem que avançar, vencer prazos e barreiras, superar objetivos pessoais e conseguir mais manifestações físicas do valor pessoal. Ele não tem tempo para cultivar e desenvolver os seus relacionamentos. Conseqüentemente, o seu fluxo de Chéssed fica represado. SARA Muitas vezes Sara colore o momento presente com as tonalidades de suas experiências passadas. Ela perde o frescor do “agora” ao reviver, constantemente, os seus momentos perdidos. Sara sofre de ataques de culpa, acordando para a repetitiva ladainha do “e se...”. O que está acontecendo com o seu Chéssed? Ele foi redirecionado pelo prisma de seu ego. O Chéssed flui, mas fica preso. Sara precisa desenvolver interesses que a tirem de si mesma. GREG Já vimos como David reprime o seu fluxo de Chéssed. E como Sara o aprisiona. Por outro lado, Greg despertou o seu fluxo de Chéssed direcionando-o somente para grandes assuntos sociais. Ele se apresenta como voluntário para uma agência internacional sem fins lucrativos, por estar comprometido com a justiça social. Porquanto seja este um louvável objetivo, ele exauriu tanto o seu fluxo de Chéssed que sofre de esgotamento. Está claro que cada um destes meus três amigos precisa redirecionar o fluxo de Chéssed para que este possa nutri-lo. Quando repartimos o nosso fluxo de Chéssed com outrem, seja ele um parente, um amigo ou membro da comunidade, estamos restabelecendo o adequado equilíbrio de energias. Por exemplo, David poderia se beneficiar com a intimidade do casamento. Os compromissos e o dar/receber de um relacionamento estável e duradouro expressariam a sua energia Chéssed. Por outro lado, Sara precisa sair ao mundo e dar aos outros, sem, para tanto, envolver o seu ego. Se ela dispusesse de seu tempo para assistir a um doente terminal internado num hospital, ou a uma mulher que estivesse num abrigo, ela conseguiria libertar o seu Chéssed. Greg deveria afastar-se temporariamente de suas atividades como voluntário e curtir os seus amigos e familiares. Por exemplo, se ele se comprometesse a cuidar de seu sobrinho predileto uma noite por semana, ele poderia descobrir as alegrias do fluxo de Chéssed concentrado e direcionado. Por eu gostar de meus amigos, eu tento influenciá-los a mudar as suas vidas. Mas eu devo policiar-me para não correr o risco de me impor sobre eles, ainda que isto fosse em seu próprio benefício. Em outras palavras, eu devo administrar o meu próprio fluxo de Chéssed. A negação do ego é o que distingue o desejo de controlar e dominar do genuíno fluxo do Chéssed. Um genuíno fluxo de Chéssed é sempre “exocentrado”, jamais “egocentrado”; e isto inclui dar aconselhamento a nossos amigos e parentes. Uma das maneira pela qual podemos nos testar é perguntar: “Com o que eu estou mais preocupado neste momento: com o meu orgulho, afetado por meu conselho não ter sido aceito, ou com o bem- estar de meu amigo?” Um fluxo de Chéssed genuíno evoca o mesmo nos outros. A Cabalá nos ensina a identificar o fluxo de Chéssed repartindo- nos com os outros através de um processo natural de auto-revelação. Apesar disso, nos sentimos temerosos de nos revelarmos. Mas, do que temos medo? Dor, rejeição e humilhação. Nós devemos nos lembrar que o Criador Se revelou no processo da criação. O fluxo espiritual de Chéssed é o fator oculto básico da criação. Ou seja, em outras palavras, D’us não estava Se contendo quando criou o universo, e, conseqüentemente, o nosso impulso primordial é o de nos conectarmos e nos relacionarmos. Quando tocamos o mundo através de um contato verbal, através de nossa capacidade de ver e de ouvir, e através de nossa capacidade de contato físico, estamos manifestando o nosso fluxo de Chéssed natural. Parece que todos os aspectos de nossas vidas são exemplos do potencial para a conexão espiritual. Chéssed é o fluxo dominante que nos impulsiona a um estado de unicidade e união. A solidão é um alto preço a ser pago por retermos a nossa qualidade natural de Chéssed. O que os meus três amigos mais procuravam era a alegria da conexão. Quando eles chegarem a entender a natureza do fluxo de Chéssed, os seus bens e dons poderão criar uniões e conexões. Eles têm ao seu alcance os meios para criar uma realização pessoal e uma proximidade com os outros. UM EXERCÍCIO DE CHÉSSED Antes de iniciar este exercício, familiarize-se com a ilustração apresentada a seguir. Sente-se numa cadeira confortável, ou numa poltrona. Feche seus olhos e tranqüilize-se. Fique calmo. Você está seguro. Abra a porta para uma sala em penumbra. Sinta uma porção de emoções juntas num espaço. Não tente entender como é possível que sentimentos e sensações possam ser acomodadas numa sala. Apenas sinta-se confortável com a sensação e aproxime-se. Sinta a emoção do amor. Dê alguns passos e sinta ela dar lugar a uma intensa e concentrada retenção de sentimentos. Deixe-se experimentar quaisquer sensações que você for encontrando enquanto caminha. Enquanto você vai em direção à parede da direita da sala, perceba como as suas sensações vão se transformando em dação, amor, contribuição, compartilhamento e serviço. Fique neste lado da sala. Este é o lado do Chéssed. Agora, olhe para esta parede da direita. Ela tem uma cor impecável e cintilantemente clara. A rigor, é difícil de descrever a cor por ser ela clara como a água. Apesar disso, ela é opaca. Você não pode ver através dela. Fixe sua visão atentamente à parede e você poderá vislumbrar as letras do tetragrama que denota o nome de D’us. O nome atribuído ao amor do Criador e à auto-revelação. Os formatos das letras sugerem uma seqüência. A primeira letra, o pequeno “ponto”, chamado de “yud”, é a impenetrável Vontade Divina interna. Ela é a alma existente em cada uma das letras Hebraicas. A segunda letra, o “hei”, a letra do sopro, da respiração, pode ser ouvida como o som do ar sendo exalado dos pulmões. Diferentemente do “ponto”, esta letra possui forma e dimensão definidas. É a letra que dá existência à sua forma. É o sopro da existência. A terceira letra é o “vav”. Ela tem o formato de um gancho, e nos permite “enganchar” na impenetrável Vontade Divina e ganhar direção. Ela permite que o fluxo da criação flua para o plano da dimensão, a forma espiritual, o paralelo espiritual para o mundo físico e finito. Ela funciona como um funil para a Vontade Divina. A letra final é, novamente, a letra “hei”. Desta vez, ela descreve o dimensionado mundo físico. Ela representa a energia que mantém a integridade de todos os estados físicos. Concentre-se na palavra e em suas quatro letras.À medida que você vai se aproximando desta parede, sinta um profundo amor e um desejo de dar e de dividir. Deixe que a seqüência das letras direcione o seu fluxo de dação. Perceba a fonte de seu amor. Pode ser um sentido interno abstrato. Sinta a fonte em seu cerne. Concentre-se nela — em seu yud. Agora concentre-se em seu hei. Deixe que o seu amor e dação se tornem discerníveis. Pergunte-se como é que o seu amor se sente. Reflita como é que você expressa a dação incondicional. Pense em quão maravilhosa é a sensação de ter alguém ou algo com quem repartir a sua natureza de dar. Agora, concentre-se no vav — enganche o fluxo numa pessoa, alguém que você ame, trazendo esta pessoa sob nítido foco e vendo a sua natureza de dação no mundo real. Como é que você pode realizar o seu amor? Quais são as ações e meios verbais com os quais você pode expressar o seu amor? Veja-se colocando tudo isto em prática, e observando as reações do outro. Lentamente, afaste- se da parede à direita. Sinta o irresistível poder de seu amor começar a diminuir em intensidade. Pare de se concentrar nas letras na parede e deixe que elas se dissolvam na clara translucidez da parede. Conscientize-se de si mesmo movimentando as suas mãos e os seus pés. Volte para este mundo. O mundo tem um coração. Os sentimentos fluem do coração cósmico e tornam-se os sentimentos e sensações que você e eu sentimos no mundo terreno. O Criador usou o atributo de Chéssed como “ferramenta” primordial no processo da criação. Assim, a mais normal abordagem à qual podemos dar vida é sermos indivíduos doadores. Quando facilitamos o fluxo de Chéssed, nós nos alinhamos com o coração do Cosmos. Os fluxos Chéssed dos meus amigos David, Sara e Greg não estão alinhados com os fluxos do Cosmos. Ainda assim, os três têm a capacidade de corrigir o seu “registro” emocional. Todos nós temos. Mas precisamos descobrir um caminho, precisamos de um professor que nos ajude. Eu espero que, ao ler este livro, você possa encontrar este caminho. A Cabalá ensina que através do ato de dar, o doador e o receptor são unidos. As mãos se tocam e os corações se unem. Chéssed e Guevurá são as chaves para a autoconsciência emocional. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A ESTRELA DE DAVID Inspire. Tome consciência de seus sentidos. Reconheça o seu paladar esfregando a sua língua por seus dentes de cima e de baixo. Deixe que o cheiro do ambiente em que você está penetre em seu ser. Quais os sons que estão entrando em sua consciência? O que os seus dedos estão tocando? Em que estão focalizados os seus olhos? Feche os olhos. Deixe que os seus pensamentos o atravessem suavemente, sem pressa ou urgência. Você está seguro. Ainda com os olhos fechados, vislumbre um lindo gramado em formato de uma grande Estrela de David. Imagine-se caminhando por sobre a grama. Você pode sentir a sua suavidade e maciez. Veja-se caminhando sobre um quebra-mar, admirando o profundo oceano azul. Identifique-se com as turbulências do oceano, respirando em conjunto com a respiração de suas grossas ondas. Deixe sentir sua imensa profundidade e força. Identifique- se com aquele poder de propósito. Tome algum tempo para contemplar a imagem do oceano. Respire a sua fresca, pura e forte essência. Abraão Como um Paradigma de Chéssed Abraão, o primeiro hebreu, era um indivíduo dotado de enorme amor e dação. Ele expressava o seu amor a D’us desafiando e enfrentando os líderes e a comunidade da poderosa Mesopotâmia. Ele se manteve em guerra contra um exército muito mais forte para salvar o seu sobrinho Lot, que, segundo nos relata a Bíblia, não era merecedor de seu amor. Ele fundou um grande acampamento, uma cidade de tendas e barracas, em pleno deserto, que ficou famosa pela sua hospitalidade. Os viajantes do deserto sabiam que seriam sempre bem- vindos. Sabemos que Abraão tinha um enorme prazer quando compartilhava a sua casa com estranhos e cobria-os com a sua generosidade. Tudo o que pedia em troca era o reconhecimento de que a fonte de toda aquela sua bondade era o Cosmos doador — um Criador beneficente. Três dias depois que Abraão foi circuncidado, ele se postou à entrada de sua tenda, procurando no horizonte a chegada de visitantes. Era um dia particularmente quente, e os viajantes ficavam no interior de suas tendas para evitar o sol do meio-dia, que tornava o deserto um verdadeiro forno. Não obstante o calor e a sua grande dor física, Abraão estava desolado por não ter convidados com quem pudesse repartir sua generosidade. Ele fitava o horizonte como se aquilo fizesse com que os seus hóspedes chegassem. D’us apiedou-Se dele e enviou anjos disfarçados de viajantes do deserto. Abraão alimentou-os e sentiu- se confortado. A grande força de Abraão era o seu coração amoroso, o qual buscava expressão através de atos de bondade. Assim, o seu grande teste foi quando D’us pediu-lhe que oferecesse em sacrifício aquilo que estava mais perto de seu coração — o seu amado filho Isaac. Nós todos sabemos que aquele sacrifício não chegou a acontecer; D’us enviou um anjo para, no último instante, deter o seu braço. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA HEI O mais profundo ato de dação realizado por D’us foi quando Ele soprou a vida nas narinas das criaturas por Ele criadas. A letra hei significa sopro. Pronuncie suavemente o nome desta letra. O som que você ouve é o som do sopro, do hálito. Medite sobre este som. Pense na profunda beleza que existe no simples ato de respirar. Agora olhe para o pequeno intervalo na haste lateral esquerda da letra. Ele representa o espaço através do qual a luz de D’us pode entrar, não importando o quão escura a vida pode parecer. Medite sobre a luz do Criador chegando aos lugares escuros interiores. Foi uma provação; porém, o fato tem muito a nos dizer acerca da disciplina e do autodomínio de Abraão. Ele obedeceu ao mandamento de D’us, apesar de que aquilo contrariava o seu próprio fluxo de Chéssed de bondade e generosidade. Os nossos Patriarcas e Matriarcas bíblicos não estavam acima das emoções humanas. Não se trata de serem eles e elas perfeitos; longe disto. Eles lutavam com as suas emoções, compreendiam as suas fraquezas e as sobrepujavam ao comando de D’us. Os Patriarcas Abraão, Isaac e Jacob personificam as emoções interiores do Chéssed, Guevurá e Tiféret. Um genuíno fluxo de Chéssed é “exocentrado” (centrado em direção aos outros), jamais egocentrado (centrado em direção ao próprio “eu”). No entanto, sem a capacidade de equilibrar uma natureza doadora com uma sensata auto-retenção, a capacidade de dar pode se esgotar ou ficar distorcida. A Sefirá de Guevurá é o contraponto da Chéssed. Este será o tema de nosso próximo capítulo. 9 Guevurá: Aumentando a Força Interior A força assume variadas formas. Alguns de nós somos fisicamente fortes; ou a nossa força pode estar em nossa força de vontade. Podemos ser fortes mentalmente, ou podemos deixar que os nossos sentimentos e sensações fluam fortemente. É possível que tenhamos fortes convicções. A nossa fé pode ser inabalável. A Cabalá nos dá conta de que cada uma destas modalidades de força é conectada a um fluxo comum — o fluxo de Guevurá. Quando erguemos uma carga do porta-malas de um carro, a mente se concentra e os músculos se contraem. Porém, além do empenho da mente e do corpo, está a capacidade de subordinar os nossos recursos interiores. Este é o domínio da Guevurá, o contraponto do Chéssed. A Sefirá de Guevurá direciona a energia espiritual para uma forma definida, para que possa, assim, alcançar um objetivo. Ela atrela e molda energias dispersas, aplicando-as num acurado relevo. As suas propriedades incluem: concentração, disciplina e foco. A concentração limita o fluxo de idéias. Por exemplo, bons professores limitam o fluxo de informações para adequá-lo à capacidade de seus alunos. A Guevurá subordina uma tendência natural do professor a dar e repartir, adaptando-a à capacidade do aluno de entender e absorver. Quando nos restringimos para que outros tenham a oportunidade de se expressar, nós estamos utilizando o nosso fluxode Guevurá. Nestas ocasiões, nós peneiramos a informação ou, até mesmo, retemos todo o seu fluxo. O fluxo peneira entradas estranhas e cria o estreito canal através do qual a força interior pode fluir e disciplinar temporariamente os limites de alcance da atividade. Todos nós já vimos a força direcionada pela Mente. Quando uma mãe, repentinamente, descobre que tem a força suficiente para erguer um carro que mantém imobilizado o seu filho sob suas rodas; ou quando um soldado consegue carregar em seus ombros um companheiro ferido, por muitos quilômetros, para somente descobrir muito tempo depois que ele próprio está seriamente ferido; quando um hábil praticante de caratê quebra um sólido bloco com um único golpe de sua mão; ou quando um tenista iniciante consegue vencer um campeão, pouco se lembrando de como conseguiu a façanha — estamos vendo, nestes casos, o fluxo de Guevurá em ação. Ocultando Para Poder Revelar A Cabalá descreve a Sefirá de Guevurá como uma tela que mascara a realidade superior: No princípio, o Criador Se contraiu num Não-Espaço para poder criar o espaço para a criação. Nós denominamos este processo de tsimtsum, que significa “autocontração” ou “encobrimento”. Em seu sentido místico, isto se refere ao processo do Criador em limitar e contrair de forma tal que a existência pudesse ser realizada. Esta contração é conhecida como o “tsimtsum original”. No entanto, uma pequena quantidade de luz criativa filtrou-se através do véu, e o Criador tomou esta ofuscante luz, chamada kav, e enviou-a através de um outro plano de filtragem, conhecido como “tsimtsum menor”, até que somente um estreitíssimo feixe de luz pudesse ser visto. A partir desta luz, o Criador formou uma criação finita. Estes processos de tsimtsum eram a expressão original e cósmica da Guevurá Divina. Da mesma forma que D’us reteve tudo, exceto o mais pálido e tênue brilho da energia criativa, para que a criação finita pudesse existir, igualmente, ao mascararmos a informação com uma analogia ou metáfora, nós podemos, ironicamente, estar é revelando a sua essência. Isto faz com que o cerne de um conceito se esgueire, tornando-se aparente. O tsimtsum cósmico fez o mesmo. Tivesse D’us preenchido todo o espaço e tempo, o universo não poderia ter sido criado. Foi necessário que, primeiramente, o Criador Se ocultasse num Não- Espaço espiritual. Igualmente, quando o fluxo da Guevurá retém um excesso de informação, ela faz com que o fluxo de Chéssed de dar seja mais apropriado — numa forma que seja aceitável. Sem o equilíbrio do Chéssed, a Guevurá pode ser negativa e dolorosa. Ela pode ser a base da mesquinhez, do egotismo, do medo e da continência emocional. Se somos medrosos, a nossa Guevurá pode ser dolorosa. A mágoa e a dor precoce na vida pode atrofiar ou tolher o fluxo de Chéssed. Em seu lugar, o ego inseguro adota uma postura ávida e cobiçosa — tomando em vez de dar, retendo em vez de repartir. Mesmo a “dação” se torna ”tomar” — uma estratégia manipulativa. A Guevurá destas pessoas flui através do “eu” inferior — o Nefesh Behamit; no entanto, no serviço do “eu” superior, o Nefesh Elokit, isto representa um apropriado contraponto ao irrestrito e implacável fluxo de Chéssed. Como em todo o nosso comportamento, o equilíbrio é a chave. Equil íbrio Entre Chéssed e Guevurá A nossa tendência natural é termos uma orientação para Chéssed; mas, algumas vezes, é necessário sermos altamente objetivos, com idéias fixas, e autocontidos para que consigamos atingir um determinado objetivo. Nestas ocasiões, o equilíbrio deve tender preferencialmente para o lado da Guevurá ao invés de tender para o lado do Chéssed. As pessoas bem-sucedidas sabem como regular isto. Elas sabem que o muito “muito”, o muito “freqüente”, pode resultar num esgotamento. Elas sabem que o sucesso não significa, necessariamente, velocidade. Significa reter quando apropriado e incrementar o ritmo, apertar o passo quando for mais necessário. A sua Guevurá e o seu Chéssed estão em harmonia. A sua habilidade e perícia de equilíbrio são primordiais ao autodomínio emocional. A Sefirá de Chéssed, o nosso “eu” doador, deve ser equilibrada e temperada por uma capacidade de conter e dosar o seu fluxo. Deixar que os nossos sentimentos fluam de forma inadvertida acabará por exauri-los; a retenção constante é insalubre e anormal. O Chéssed deve ser balanceado pela Guevurá, e esta deve ser liberada através do Chéssed. Nós devemos dosar o nosso fluxo de emoções. Guevurá, Discipl ina e o Obstáculo do Ego A Sefirá de Guevurá é a fonte da disciplina da mente e do corpo, envolvendo autocontenção, autocontrole, e autodomínio. O objetivo é uma verdadeira liberdade de expressão. Janos Starker, um renomado músico do Século XX, atribui o seu domínio à disciplina e ao autocontrole. “Você deve disciplinar-se a aprender, estudar e praticar, praticar, praticar”, enfatiza ele no livro de Joan Ame, Mastery — Interviews with 30 Remarkable People. Como é que podemos discernir entre um domínio que se origina na humildade — um saudável fluxo da Guevurá — e um que se origina no ego? Uma das maneiras para entender esta diferença, é olhar para um artesão. Um artesão bem-sucedido sempre diz ter um grande respeito pelos materiais. Isto está em marcante contraste com a percepção de que, para dominar uma determinada arte, nós devemos ter o “poder” sobre os materiais que utilizamos. A diferença está em nosso foco. Estamos focados na conquista, ou na obtenção de uma união com o Cosmos através de nossos feitos? Para que a Guevurá possua o atributo da generosidade, ela tem que ser “exocentrada”, dirigida aos outros. Um empenho espiritual puro deve ter a mesma qualidade. Pesquisadores espirituais podem passar anos à procura de esclarecimento e, ainda assim, continuarem intocados. Eles se preocupam com o “eu”, e o trabalho espiritual acaba se tornando uma ferramenta com a qual inflam a si próprios. Todos nós já encontramos pessoas que são proficientes numa determinada disciplina, que conseguiram domínio de algumas das ferramentas do esclarecimento, mas que não conseguiram domínio sobre si mesmas. Podemos ver aqui o Nefesh Behamit, o “eu” da ordem inferior, em ação, onde, infelizmente, a disciplina da Guevurá se torna um fim em si mesma. Como é que podemos saber se a nossa Guevurá provém da elevada dimensão do Nefesh Elokit? O indício está em nosso foco. Devemos nos perguntar: “Estou me concentrando no quão bom eu sou? Estou preocupado com o que eu pareço ao mundo?” Se estes forem os objetivos principais, então isto será um sinal de que a Guevurá está manchada. Se procuramos conseguir a autoconsciência e pôr em prática uma transformação que não seja baseada no ego, mas que se origine na alegria e na felicidade de dar e de contribuir, então a Guevurá filtra através do “eu” da ordem superior — o Nefesh Elokit — e é pura. Não existe nada intrinsecamente egoístico em ser feliz, alegre e realizado — quando isto for um meio, e não uma finalidade. O Valor e a Dor da Contenção Nós todos já aprendemos a sabedoria da contenção seletiva. O fluxo da Guevurá é sadio quando ele nos protege de cair de costas no lado mais fundo da piscina, ou quando nos protege de pôr a nossa mão no fogo, ou de atravessar por entre o perigoso tráfego de uma movimentada rua. Igualmente, nós contemos os nossos sentimentos quando há uma falta de confiança, ou quando sentimos a dor ou a mágoa de termos sido alvo de deboche, ou quando alguém tira vantagem ou se aproveita de nós. Nos afastamos das transações comerciais obscuras, dos negócios perigosos e das práticas duvidosas porque sabemos que, em algum lugar ao longo da linha, o resultado poderá ser uma dor espiritual ou emocional. Porém, algumas vezes, a dor é demasiadamente grande, donde passamos a desconfiar e temer o mundo. Nós deixamos que a nossa Guevurá flua muito rapidamente, muito intensamente, muito habitualmente. Passamos a sentir, constantemente, a necessidade de nos sentir seguros e de exercer controle sobre os outros. Podemos tentar dominar e bajular. Abordamosa vida já antecipando dor, mágoa e sofrimento a cada encontro. Este desencaminhado fluxo de Guevurá pode nos aprisionar e nos isolar da possibilidade da auto-realização. A Cabalá nos ensina que o medo é o oposto do amor. Assim como o amor é o produto do Chéssed, o medo é fruto da Guevurá. Tanto o amor como o medo podem ser expressos de uma maneira sensata ou insensata. Um amor desequilibrado pode sufocar. Um medo doentio produz preocupação e incerteza. Isto cria uma necessidade de controle e uma perceptível vulnerabilidade. Isto pode, ainda, infligir dor, sofrimento e mágoa. Não devemos confundir o medo com a raiva. A raiva pode ser uma forma corrompida da conexão. Ter raiva equivale a estar ligado a uma pessoa da pior maneira possível. No entanto, o medo sempre desconecta. Quando sentimos medo, nós fugimos ou buscamos segurança através do controle e da dominação. As pessoas que são, costumeiramente, medrosas podem se tornar controladoras para, assim, assegurar-se que têm acesso, em todas as instâncias, a uma rota de escape. Podemos ver que o fluxo de Guevurá pode ser complicado e enganoso. Devemos nos sentir confortáveis com ele, tanto intelectual como experimentalmente, para poder conseguir o equilíbrio interior e manter saudáveis relacionamentos. O Trabalho da Avodá — o Domínio Espiritual É ensinado a todo jovem Chassid em desenvolvimento que o mundo de nada serve sem a Avodá. “Avodá” significa, literalmente, “trabalho”. Consiste no trabalho de mudar a pessoa. O mestre Chassídico é a personificação da pessoa realizada. A Avodá é o meio pelo qual o estudante treina os fluxos e os comportamentos da Mente e da Emoção para incorporar os atributos que o mestre demonstra em sua vida. A base da Avodá é a autocontenção (auto-suficiência) e a modéstia. Isto requer um forte fluxo de Guevurá — contenção. Nascidos com um leque de inclinações, impulsos, necessidades, naturezas, desejos, querências e anseios, nós, como crianças, buscamos, naturalmente, meios de expressão que, normalmente, são autogratificações básicas. É por isso que uma criança quer, e quer, e quer. Nós denominamos esta tendência infantil “mochin dekatnut” — ou seja, “cérebro-pequeno”. A alma já está completa por ocasião do nascimento; porém o corpo — e mais especificamente o cérebro — ainda não está totalmente desenvolvido. Eis porque a alma é imperfeitamente expressa através do cérebro. As aptidões espirituais da Mente e da Emoção não podem ainda funcionar com perfeição. À medida que vamos amadurecendo, nós aprendemos a parar de querer indiscriminadamente. Aprendemos a controlar os nossos apetites e a transformar as nossas necessidades primitivas em uma postura doadora. Na tradição Cabalista nos é ensinado que o corpo completa o seu crescimento orgânico por ocasião do bar-mitsvá (13º aniversário) do menino, ou bat-mitsvá (12º aniversário) da menina. É então que a maturidade e o equilíbrio interior se estabelecem. Neste estágio da vida, meninos e meninas assumem plena responsabilidade por seus atos e comportamentos. Neste estágio, a Avodá pode começar a ser praticada, pois, aí, a psicologia chegou à plenitude da alma. Esta é a idade quando a gratificação atrasada e os demais comportamentos que assinalam a maturidade podem começar a funcionar. Porém, nada disto pode funcionar se nós assim não o permitirmos — se nós não “crescermos” e ficarmos mais “sábios”. E a ferramenta principal para a maturidade através da Guevurá é a contenção, a criação de espaço para que a sabedoria e a sensatez aflorem, contendo e refreando querências e vontades egoístas, domando-as e orientando-as em direção a fins mais elevados. O principal trabalho básico, a Avodá, é o do domínio do fluxo de Guevurá. O Rebe, o mestre Chassídico, que pode enxergar dentro da dinâmica da alma no corpo, pode aconselhar, a quem o procura, que práticas da Avodá são as mais adequadas para o total desenvolvimento do autodomínio. Ele poderia enfatizar o treinamento mental através do estudo da Torá, ou o treinamento emocional através da prática da doação. Ao aceitar o conselho do mestre, e o resultante treinamento disciplinar, cria-se um vínculo que leva a abnegação do ego. Isto, uma vez mais, é conseguido através do dominante fluxo da Guevurá. Isaac, Um Paradigma da Guevurá Se Abraão é o paradigma do Chéssed, o seu filho Isaac é, certamente, o paradigma da Guevurá. A Bíblia nos dá conta de que, tal como o seu pai, Isaac era um habitante do deserto; porém, diferentemente de seu pai, Abraão, ele não se Rebelou contra os usos e costumes da sociedade, não deflagrou guerras, ou anexou novos territórios. A Torá o descreve como um “poceiro” (um cavador de poços). Esta descrição contradiz a sua verdadeira contribuição. Isaac foi o grande fortalecedor. Ele recuperou os poços que o seu pai havia descoberto e que os Filisteus tinham, neste ínterim, coberto. Ele trabalhava à sombra de seu carismático pai, silenciosamente consolidando aquilo que Abraão tinha iniciado. Podemos tão somente imaginar o seu nível de autocontenção, dedicação e disciplina — marca patente da Sefirá de Guevurá. Conta-se uma história que bem ilustra o poderoso equilíbrio entre Chéssed e Guevurá. As noras de Isaac eram idólatras. Ele decidiu ignorar esta condição para poder manter a paz em sua casa, embora isto lhe causasse uma enorme mágoa. D’us apiedou- se de Isaac e cegou-o para que não pudesse testemunhar aquelas práticas hereges. A sua força interior fez com que ele adquirisse uma visão de maior alcance e que tolerasse o intolerável, ao invés de usar a sua autoridade como patriarca e expulsar as suas noras de sua casa. EXERCÍCIO DE VISUALIZAÇÃO DE GUEVURÁ Sente-se numa cadeira confortável ou numa poltrona. Feche os seus olhos e tranqüilize-se. Fique calmo. Você está seguro. Entre naquela sala onde você experimentou e praticou o fluxo de Chéssed. Agora dirija-se à parede do lado esquerdo da sala. Sinta-se contrito. Você sentirá uma sensação de continência — uma contenção. Enquanto você vai se aproximando da parede, a sensação se torna cada vez mais intensa. Não chega a ser algo assustador ou desagradável. É curioso. Na parede, você verá um outro nome do Criador — Elokim. Em hebraico, o valor numérico das letras que compõem esta palavra somam oitenta e seis, que é o mesmo total aritmético da palavra que, em hebraico, significa “natureza”. Este nome de D’us ilustra a mais elevada realidade da criação e cria a ilusão de um mundo material finito. Este mundo, tal como você o vê, é a “pele exterior”. Tudo que existe no mundo tem uma pele — uma camada exterior que oculta e protege a fruta viva em seu interior. Dentro de você também existe uma fruta viva — a centelha da alma. Porém, a alma está envolta pela “pele” da Mente e da Emoção. Agora, toque a parede esquerda e você sentirá a contração interna da alma, restringindo, limitando, segurando, contendo. Em seu olho mental, segure-se na parede esquerda e sinta o poder do nome de Elokim. Recorde uma ocasião em que você tenha falado algo, ao invés de ter guardado um sensato silêncio. Volte àquele momento. Reviva-o, porém deixe que a sua continência interior discipline a sua língua. Ao reviver aquele momento, veja-se praticando o sensato e sábio silêncio, mesmo diante da provocação. Deixe que aquele momento do passado volte a transcorrer; mas, desta vez, incluindo a prática da Guevurá. Detenha. Crie espaço para que a sabedoria e a sensatez fluam. Deixe a sua Guevurá formar um fluxo de Chéssed curador. Cuidadosa e atentamente analise o resultado. Perceba as virtudes da retenção quando a sabedoria dita o silêncio. Toque, novamente, a parede esquerda da sala e sinta fluir o poder da Guevurá. Lembre-se de alguma outra ocasião em que você poderia ter se contido, e que por não ter assim feito, sentiu-se magoado. Novamente, recrie a situação; porém, desta vez, deixando que a sua sabedoria dirija o seu fluxo de Guevurá. Veja o novo resultado. Lentamente, afaste-se da parede esquerda da sala. Você já pode sentir o poder do fluxo de Guevurá desvanecer-se. Vocênão sente algo parecido com um vazio. Isto apenas provê um espaço para que outras emoções entrem. Mexa os dedos de suas mãos e pés, e volte ao mundo “real”. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA MEM SOFIT O mem sofit representa a perfeição e a conclusão. O seu formato é fechado e, tal como a Guevurá, ele é contenedor. Medite sobre os aspectos positivos da continência, aquela da força interior e da auto- retenção. O mem sofit produz um murmurante som de “m”. Ele retém o sopro, a respiração. Medite acerca do som silencioso. Quando Chéssed e Guevurá estão em equilíbrio, o resultado é uma beleza espiritual que resplandece como uma realização interior e uma harmonia interna — uma harmonia descrita na próxima Sefirá, a Sefirá de Tiféret — a beleza do equilíbrio. 10 Tiféret: Desenvolvendo um Coração Sábio O grande médico e filósofo do Século XII, Moshé Maimônides, aconselhava os seus discípulos a procurarem sempre o caminho do meio. O interessante é que ele aconselhava as pessoas raivosas e mesquinhas a ir a extremos. Ele dizia a uma pessoa irada para se tornar um pacifista, mesmo quando isto parecia contradizer a lógica; e ele aconselhava um miserável a combater os seus instintos e dar mais do que o quanto poderia suportar normalmente. Como já vimos nos dois capítulos anteriores, a raiva e a mesquinhez são as verdadeiras antíteses da natureza doadora do Cosmos. O conto Chassídico relatado a seguir ilustra este preceito: Era uma vez um rei que tinha dois bons amigos que se Rebelaram contra o reino. Neste caso, não restava outra opção ao rei senão a de aplicar a lei — a pena de morte. Mas ele não se sentia em condições de executar os seus amigos. Assim, ao invés disto, ele erigiu uma corda bamba por sobre o pátio, estendida a uma altura razoável. Cada prisioneiro deveria atravessar para o outro lado da corda bamba para alcançar a liberdade. As chances eram escassas, mas, miraculosamente, o primeiro prisioneiro conseguiu atravessar e ganhar a sua liberdade. O segundo prisioneiro pedia orientação ao companheiro agora livre e grato. Este respondeu-lhe à distância: “Todas as vezes que eu me sentia desequilibrado, começando a pender para um lado, eu não esperava até que todo o meu peso pendesse para aquele lado; eu imediatamente compensava com o oposto!” Este é o conselho de Maimônides. Não espere até que as suas palavras e comportamento revelem um desequilíbrio emocional. Compense, mesmo antes de as expressões se tornarem visíveis. Este é o caminho indicado para o equilíbrio da emoção conseguido através da Sefirá de Tiféret. Equil íbrio Interior Para o Bem-estar Todos os caminhos espirituais intimam o equilíbrio interior. Também é a postura subjacente da abordagem médica da Ayurvéda Oriental que Deepak Chopra tornou acessível. A abordagem Ayurvéda do bem-estar vê a nossa natureza básica em termos de três tipos corporais principais, chamados de “doshas”, que se combinam de dez diferentes maneiras. As combinações resultam em dez subconjuntos tipológicos pelos quais, individualmente, podemos ser acessados. Estas tipologias são herdadas, resultando num “pacote de assinaturas” da mente, do corpo e do comportamento. Generalizações podem ser feitas sobre cada tipologia. Por exemplo, os do tipo “vata” tendem a ser esbeltos, lépidos, com sono leve, irritáveis, preocupantes, e propensos a repentinas explosões energéticas. Os do tipo “pitta” tendem a ter um porte corporal médio, são portadores de um aguçado juízo e intelecto, são mais facilmente enraivecidos, articulados, e são ordenados quanto às refeições. Já os do tipo “kapha” tendem a ter uma constituição física mais forte, são mais relaxados, têm uma compreensão mais vagarosa, são mais tolerantes, e dormem por períodos mais longos. Uma grande parte do tratamento Ayurvéda centraliza-se na restauração de cada dosha ao seu “eu”. Mais ênfase é dada ao restabelecimento de um saudável equilíbrio naquele indivíduo, cujo equilíbrio natural foi perturbado em decorrência de um deslocamento no seu estilo de vida e em sua Mente-Emoção. Um excelente livro, que faz uma apresentação destes conceitos kapha Ayurvéda, é o Perfect Health: The Complete Mind/Body Guide, de Deepak Chopra. O interessante paralelo existente com a psicologia Chassídica e com a Cabalá é a idéia de que todos nós temos o poder de conscientemente intervir e alterar o estado de equilíbrio. Ambos ensinam que a Mente tem uma poderosa influência em nosso equilíbrio espiritual e físico. A tradição Ayurvéda chama o equilíbrio natural original da pessoa de “prakriti” — aquele existente por ocasião do nascimento. A tradição Cabalística fala de um complexo critério onde o equilíbrio original remonta ao momento da concepção. Em ambas tradições, entende-se que a condição própria da vida pode alterar este equilíbrio natural, requerendo práticas e abordagens reparadoras. O Chassidismo ensina que tudo aquilo que se refere à nossa dinâmica interior e ao comportamento exterior pode ser mudado através da intervenção consciente da Mente — através da reinterpretação dos momentos da vida. Uma pessoa criativa, um chacham, pode expressar a característica da impulsividade e pode precisar equilibrar o fluxo de criatividade da Chochmá com a prática reparadora da meditação (Biná). Um convincente pensador, um mevin, pode se tornar frio e calculista, e precisar de um re-equilíbrio do fluxo de Biná através de maiores expressões emocionais — que podem ser obtidas através da prática do Daat. Um indivíduo prático, um Daatan, corre o perigo de se tornar um desalmado tecnocrata e, neste caso, precisaria de um reequilíbrio do fluxo de Daat através da atividade de dação — o fluxo de Chéssed. Maimônides nos ensina que, muitas vezes, um equilíbrio pede um deliberado comportamento em direção ao seu oposto. Moshé Maimônides foi um brilhante médico da época medieval. Dentre as suas medicações estava a hidroterapia, específicas combinações de alimentos, exercícios, ambientes agradáveis, meditação, frutas da estação, e, até mesmo, a direção em que deve estar a cabeceira da cama (um toque de feng shui?). O Fluxo da Compaixão Se nós não pudéssemos conseguir a harmonia entre as nossas naturezas de dar e de reter, o nosso clima emocional interior seria, simplesmente, caótico. Estaríamos, constantemente, num estado de guerra interna. Sem o equilíbrio, nós acharíamos o nosso fluxo de Chéssed sobrepujando a nossa Guevurá, e vice-versa. Certamente, todos nós já sentimos um certo nível de indecisão emocional e a exaustão física que a acompanha. A grande maioria de nós é capaz de resolver este dilema através do fluxo de Tiféret. Nos indivíduos que carecem do fluxo do Tiféret, ou que não têm este fluxo bem treinado, esta questão acaba se tornando um verdadeiro problema emocional que requer orientação e aconselhamento. A Sefirá de Tiféret proporciona uma influência harmonizadora. Ela mescla o Chéssed e a Guevurá, tal como o Daat o faz com a Chochmá e a Biná. O Daat resulta na harmonia e na criatividade do desenvolvimento do pensamento. O Tiféret resulta na compaixão. A compaixão não é um sentimento simples; é um composto de muitos elementos. A compaixão aflora quando escolhemos “dar”, apesar das circunstâncias que poderiam não justificá-lo. Por exemplo, um juiz pode ponderar as circunstâncias e escolher a compaixão em vez de um severo julgamento. Pais que compreendem que o comportamento inadequado de seu filho é resultado de um desarranjo emocional podem preferir ser compassivos em vez de punitivos. Um benfeitor pode demonstrar a sua compaixão através de sua contribuição a alguém que não tem grandes dotes em lidar com finanças, mas que luta para sobrepujar as suas limitações. Em cada um destes casos, podemos perceber um elemento de contenção. O juiz entende que um crime foi cometido; o pai entende que o filho tem sido rude ou grosseiro; e o benfeitor entende que uma má administração de fundos ocorreu. Porém, ao mesmo tempo, esta continência de Guevurá do comportamento inaceitável encontra uma compensação através da união do Chéssed daconexão e da empatia. O Tiféret funde os dois fluxos. Idealmente, ele favorece o Chéssed e a bondade, resultando num novo amálgama. Assim como um pintor combina as cores primárias do azul e do amarelo para obter uma nova cor, o verde, também a compaixão é um resultado da necessidade e do gerenciamento, suavizado e dosado pela bondade e pelo coração aberto. Se tirássemos a Guevurá da mistura, nos restaria a “doação” que foi mal-direcionada ou indisciplinada, fazendo-nos “dar” sem o sentido de equilíbrio. Por outro lado, se eliminássemos o Chéssed, nos restaria uma mistura amarga de severa disciplina e uma rígida contenção. Compaixão não significa fraqueza; ao contrário, significa força. O Tiféret proporciona a oportunidade de criar um equilíbrio emocional no momento. UM EXERCÍCIO DE TIFÉRET Entre novamente na sala. Dirija-se à parede da direita e sinta o fluxo da “dação” — o Chéssed. Deixe que, durante algum tempo, você sinta, novamente, este fluxo livre. Vá agora em direção à parede da esquerda e sinta a sensação da contenção, da retenção, da continência em seu âmago emocional. Permita-se a oportunidade de familiarizar-se com uma sensação voltada para dentro em vez de voltada para fora. Dirija-se, agora, para o centro da sala. Ali, no meio, você tem a percepção dos dois fluxos, o vindo da direita e o vindo da esquerda. Sinta o fluxo de Chéssed que vem de sua direita, através de uma força angelical que suavemente o empurra — o anjo Michael. Observe o seu fluxo “doador” sendo adulado por Michael. Sinta o poder de Michael com a suavidade da água e associe-o com a cor azul. Sinta, agora, o fluxo de Guevurá que vem do seu lado esquerdo, através de uma força angelical que suavemente o puxa — o anjo Gabriel. Sinta a força de Gabriel como um fogo e associe-o com a cor amarelo-alaranjada. Você acolhe ambos em seu interior. Agora, deixe que a água e o fogo se encontrem dentro de você. O fogo da Guevurá vai se amainando, e a água do Chéssed vai se aquecendo. Você pode, a partir daí, sentir um estado geral de ameno calor em todo o seu corpo. Sinta esta candura se espalhando a partir de seu centro, o seu coração, e irradiando-se por seu torso, seus membros, até as suas extremidades. O calor suave faz você sentir-se confiante e aconchegado. Aprecie durante alguns momentos o prazer do calor do Tiféret. Invoque em sua mente alguém a quem você tenha censurado ou repreendido recentemente. Pode ser que tenha sido um parente, ou algum colega de trabalho, ou, quem sabe, um amigo. Ao fazê-lo, você sentirá, momentaneamente, o fogo da Guevurá. Porém, volte imediatamente ao seu centro — o prazeroso calor do Tiféret. Tente encontrar uma razão plausível para o comportamento ou postura inadequada daquela pessoa. Deixe que a razão se aloje em seu coração. Enquanto você focaliza a pessoa em sua mente, veja-se projetando o seu calor como ondas de compaixão. Deixe que o calor da compaixão subjugue a dor egocêntrica que você sentiu. Veja a pessoa sentindo o seu compassivo calor. Permita que um sorriso surja no semblante daquela pessoa. Deixe que um sorriso também apareça em seu próprio interior. Repita o exercício com um outro incidente, uma outra pessoa — uma outra ocasião. Agora olhe para o seu coração espiritual. Aprecie a beleza de sua cor — o verde suave e claro da grama recém-plantada. A inocente beleza de suas tenras folhas pode ser sentida por quase todo o seu ser. Deixe-se alimentar pela suavidade do toque e da cor. Prepare-se para deixar a sala. Comece a mexer os seus dedos das mãos e dos pés. Volte para o aqui e agora. Descobrindo a Suavidade do Coração A palavra “rachamim” significa, literalmente, “compaixão”. rachamim está relacionado com a palavra que, em hebraico, é empregada para “ventre” — “rechem”. Apesar das dores do parto, uma mãe estabelece uma invencível ligação com sua cria, que supera o desencanto e raiva que a criação de um filho freqüentemente traz. (Certamente, respostas relacionadas ao sexo vêm se tornando cada vez menos significantes, a medida que os homens aprendem a honrar o seu lado feminino). Como sabemos, a compaixão é o mais belo sentimento, e Tiféret significa, literalmente, “beleza”. Em seu livro, Kitchen Table Wisdom, Rachel Naomi Remen recorda o trabalho de cura que fez com um sobrevivente do Holocausto, cuja reação à enormidade da dor espiritual com a qual ele convivera foi a de encarcerar os sentimentos em relação a outrem e de ser “cauteloso com o seu coração”. A Dra. Remen relata que ele a procurou numa fuga, depois de ter sido diagnosticado com câncer. Inicialmente, ele era beligerante, agressivo e refratário a estranhos; porém, através de exercícios de paz interior e de introspecção, ele passou por uma experiência transformacional. Certo dia, enquanto meditava, ele sentiu uma profunda luz rosada emanando de seu peito. Ele se sentiu como que envolvido por uma belíssima rosa. Tocado por aquela experiência, ele foi fazer uma caminhada pela praia e iniciou um silencioso diálogo com D’us. Ele perguntava ao Criador se estava certo amar estranhos. A resposta de D’us sacudiu-o: “É você quem faz os estranhos, não Eu!” Naquele instante, o sentimento de distanciamento das pessoas daquele sobrevivente do Holocausto começou a se desvanecer. Os estranhos deixaram de ser estranhos. Estava tudo bem em amar um estranho. A Cabalá nos diz que o fluxo de Chéssed é branco e que o fluxo da Guevurá é vermelho. Ambas as cores produzem a cor rosa. Talvez tenha sido a cor rosa do Tiféret que brilhou a partir do coração daquele homem. Estendendo esta imagem, notamos que a rosa tem treze pétalas. Na Cabalá, a compaixão de D’us é expressa por uma seqüência de treze palavras, a qual faz parte da prece judaica recitada nos dias santificados. As treze pétalas envolveram o enfermo sobrevivente do Holocausto num casulo rosa. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A ESTRELA DE DAVID Inspire. Tome consciência de seus sentidos. Reconheça o seu paladar esfregando a sua língua por seus dentes de cima e de baixo. Deixe que o cheiro do ambiente em que você está penetre em seu ser. Quais os sons que estão entrando em sua consciência? Em que os seus dedos estão tocando? Em que estão focalizados os seus olhos? Feche os olhos. Deixe que os seus pensamentos o atravessem suavemente, sem pressa ou urgência. Você está seguro. Ainda com os olhos fechados, vislumbre um lindo gramado em formato de uma grande Estrela de David. Imagine-se caminhando por sobre a grama. Você pode sentir a sua suavidade e maciez. Você está sendo alçado por uma suave brisa. Veja-se pousado numa enorme pétala de rosa. Sinta a sua suavidade e maciez. A brisa balança levemente a pétala, e você pode sentir a sensação de sua vida interior — a sua simbólica relação com a natureza. Sinta o seu poder de crescer, de desabrochar e de se fechar. Perceba o seu próprio poder de desenvolvimento, de crescimento e de amadurecimento espiritual. Identifique-se com a flor. Você é a flor. Dançando um “pas-de-deux” da Emoção Qual é a sua percepção da beleza? Uma pintura de Matisse, com a sua vívida mescla de cores profundas e curtas pinceladas, mexe com você? Ou será um brilhante ocaso num deserto que o toca? Pode ser que você conheça alguém, maior do que a vida, cuja fé face a uma adversidade e cuja dedicação ao bem-estar de seu semelhante o inspire. Ou, talvez, ainda, seja a elegância de uma simples fórmula científica. As nossas emoções procuram o equilíbrio. Nós aspiramos à bondade, à pose e à graça, a uma beleza interior e exterior — uma fluida Sefirá de Tiféret. Os mestres Chassídicos nos ensinam que qualquer coisa que os nossos olhos vêem é uma deliberada ferramenta de ensino do Cosmos. Eis, a seguir, um ensinamento: O ocaso é o momento final em que o sol se põe em reverência, curvando-se em homenagem ao seu Criador. A passagem do sol no firmamento ao longo do dia é uma imagem de sua genuflexão. Os últimos momentos de sua expressão de humildade são simbólicos de toda a natureza. Os insetos começam a entoar em canto as suas preces de alegria. Os pássaros alegrementeesvoaçam de uma árvore para outra, gorjeando em uníssono. Um ar de expectativa permeia aquele momento. A brisa pára. Enquanto isto, o azul de um céu de verão mescla-se de tons de rosa que, de forma mágica, se transformam num intenso púrpura. Tão logo o sol mergulha no oceano, os púrpuras e negros começam a anunciar a saída real. Tal como o ego do sol deixa de existir, é-lhe garantido o renascimento. Trilhões de suas filhas-estrelas, cintilando por toda a aveludada abóbada azul-escura, envolvem a nossa visão. O dia e a noite fluem, um para o outro, da mesma maneira como o Chéssed e a Guevurá se misturam na beleza do Tiféret — tudo na alma da humanidade. Quando nos pomos a meditar sobre como é que a natureza presta a sua homenagem ao Criador, nós criamos a mesma beleza interior. O “pas-de-deux” do Chéssed e da Guevurá, dançando em perfeita harmonia, transforma-se no novo equilíbrio do Tiféret. A sensata e sábia escolha de ações e palavras também expressa a beleza do fluxo de Tiféret. A nossa inclinação de amar a “dação” deve ser equilibrada pela força da contenção, para ajustá-la à capacidade do receptor. Palavras por demais efusivas, fortes e prolixas podem criar um desconforto, ao invés de aproximação. O entusiasmo deve ser combinado com a cautela, ou poderemos afugentar os passarinhos que estamos tentando alimentar. Quando o equilíbrio ideal é atingido, passamos a ter uma expressão da beleza por meio do Tiféret. O equilíbrio interior se reflete em nossa beleza física exterior. O nariz pode ser um pouco mais comprido, os olhos um pouco pequenos demais, e as orelhas maiores do que gostaríamos, mas a aparência geral pode ser de marcante beleza. A beleza não está nos componentes individuais, mas em seu somatório geral. E a percepção de quem vê é apenas parte da verdade. Conexão (Chéssed) e objetividade ( Guevurá) resultam numa nova percepção. Eis aí a beleza do Tiféret. Beleza e Verdade O Chassidismo também explica o Tiféret como sendo a qualidade da verdade. Conforme nos é ensinado, a “verdade” é a imagem que emerge quando todas as peças que a compõe são juntadas. Nós olhamos para uma pessoa e, algumas vezes, notamos dissonâncias complicadas e desconcertantes. A pessoa é boa, gentil e atenciosa na vida profissional, enquanto que, por outro lado, é vil, explosiva e insensível em sua vida privada. Por que será que isto acontece? É quando descobrimos aquela verdade da pessoa, a razão para a dissonância, que a cura pode ser iniciada. Lembro-me de alguém me dizendo que todo comportamento é, sem exceção, razoável, no sentido de que uma razão se esconde por trás de todos eles. Todas as combinações de comportamento e expressão revelam a verdade interior. De fato, a palavra “emet”, em hebraico, significa “verdade”. A primeira letra da palavra é “alef”, que também é a primeira letra do alfabeto hebraico. A letra final desta palavra é “tav”, a última letra do alfabeto. A letra central da palavra, a que está bem no meio, é o “mem”. Nós aprendemos a partir dos ensinamentos Chassídicos que, porquanto nem todas as coisas são, separadamente, verdadeiras, a verdade pode estar na integração de todos os seus componentes do começo ao fim, incluindo-se os elementos do meio. A natureza possui muitas verdades. Os doutos se empenham em tarefas científicas, especulações filosóficas e estudos históricos — tudo em busca das verdades eternas. O Criador oculta estas verdades, mantendo-as fora do alcance da compreensão humana, tirando de nós a eterna busca — o jogo Cósmico do esconde-esconde. Quando nós brincamos de esconde-esconde, gostamos do jogo somente porque sabemos que existe alguém que está à nossa procura. Não faria sentido esconder-se se soubéssemos que ninguém está à nossa procura. Quanto mais esperto for o nosso esconderijo, maior será o desafio. O Cosmos joga este mesmo jogo. Quanto mais procuramos a beleza da vida, maior é a alegria da descoberta. Quanto mais profunda a verdade, maior a alegria do Criador ao ser encontrado. O momento da descoberta é o mais doce e belo de todos. Uma união é conseguida, e uma nova face da verdade é revelada. Chéssed procura. Guevurá esconde. Tiféret encontra. O Paradigma do Tiféret O Patriarca Jacob é associado com o paradigma do Tiféret. Lembre-se de que foi Jacob quem enganou o seu pai, Isaac, que era cego, ao obter a sua bênção como primogênito em lugar de seu irmão mais velho, Esaú. A Bíblia nos dá conta de que ele compareceu perante seu pai envergando uma roupa especial, que vinha sendo passada ao longo do tempo, de geração em geração, desde o seu portador original, um caçador, Caim. Quem quer que envergasse aquela roupa tinha o domínio do reino animal. As vestes eram incrivelmente belas e cobertas de vívidas ilustrações das feras criadas por D’us. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA VAV A letra vav representa o número 6. Note como ela parece um anzol. Medite sobre como Tiféret pode fisgar você para que revele seu ser interior para o mundo exterior. Medite sobre como esta abertura em cima o torna completo. Perceba como a letra vav parece como um pilar. Do mesmo modo, Tiféret é chamada de o “Pilar da Verdade”. Vemos que Jacob, um homem ligado ao estudo e à contemplação, usou uma roupa de caçador — representando a sua antítese — com intuito de atingir o seu objetivo. Jacob combinava as qualidades de seu pai, pessoa prática e amante da paz, Isaac, com as qualidades de seu carismático avô, Abraão, fazendo com que possuísse o espírito criativo de Abraão e a dedicação de Isaac. Foi Jacob quem criou as Doze Tribos de Israel e se tornou o progenitor do Povo de Israel. Da mesma maneira, o Tiféret transpõe as Emoções interiores em reais relacionamentos. O Tanya observa que Jacob personaliza a natureza da verdade — isto é, a transposição daquilo que é “potencial” em “realidade”. Como vimos, o Tiféret também representa a “verdade”. Jacob é o ponto focal da linhagem judaica. Precederam-no os pioneiros formativos, seu pai e seu avô. Sucederam-no as Doze Tribos. Os sábios da tradição mística chamam Jacob de “eixo do meio”. Na expressão da tábua Sefirótica de três pilares, Tiféret está ao centro, alinhado com Keter, Yessod e Malchut — “o eixo do meio”. Até aqui, temos analisado as disposições emocionais. Chéssed, Guevurá e Tiféret não “estendem a mão”. São todas Emoções internas. Elas somente podem ser manifestadas no mundo real através dos relacionamentos, e com a ajuda da tríade de fluxos Sefiróticos seguintes: Netsach, Hod e Yessod. Os três próximos capítulos exploram a natureza dos relacionamentos e a clara e evidente manifestação da combinação Mente/Coração. Comecemos com Netsach e exploremos a busca pelo início de um relacionamento com outro. 11 Netsach: Iniciando Relacionamentos Significativos Real izando Sentimentos Certa vez, um jovem abordou Albert Einstein e pediu que o cientista lhe explicasse a Teoria da Relatividade. Em resposta, Einstein perguntou-lhe se ele tinha noções de Matemática. A resposta foi não. Einstein perguntou-lhe, então, se ele sabia algo sobre Física. Novamente a resposta foi não. Destemidamente, Einstein reduziu toda a teoria à seguinte sentença: “Se você estiver sentado num sofá com a sua namorada, durante uma hora inteira, este tempo poderá parecer-lhe não mais do que alguns minutos; porém, se você sentar-se sobre um forno quente durante poucos minutos, este tempo lhe parecerá como uma hora inteira!” Para que possamos nos comunicar efetivamente, a informação deve ser transmitida de uma forma acessível. Devemos negociar ao longo de diferenças de experiências, culturas e valores. Como é que eu posso fazer alguém entender e sentir a minha perspectiva? Por que certas pessoas conseguem deixar maiores impactos do que outras? Como é que podemos proteger a compaixão do Tiféret para que não seja mal-interpretado? As repostas para estas perguntas podem ser encontradas no fluxo Sefirótico de Netsach. Netsach representa o nosso sincero desejo de vencer as barreiras existentes entre os indivíduos. As Ferramentas dos Relacionamentos Já estamosfamiliarizados com seis ferramentas espirituais. Chochmá se refere à nossa criatividade e à nossa inspiração. Biná permite que elas sejam configuradas em modelos convincentes e racionais de pensamento. Daat combina os dois, mas permite-lhes dar à luz a Emoção. Estas três, Chochmá, Biná e Daat, são as ferramentas da Mente. Já vimos, também, as ferramentas da Emoção. Chéssed promove o poderoso sentimento do “dar” e do “repartir”. Guevurá contém e dosa este fluxo. Tiféret mistura ambos num sentimento total e coerente que, daí, pode ser expresso sem a tensão da dualidade interior. Em suma, nós temos fluxos de Mente e fluxos de Emoção. Os fluxos de Mente podem afetar, diretamente, os fluxos de Emoção. Pense de uma determinada maneira, e você se sentirá daquela maneira. Isto também pode acontecer no sentido inverso — sinta-se de uma certa maneira, e os seus pensamentos o seguirão, tal como com a racionalização. Quatro fluxos Sefiróticos expressam o equilíbrio Mente/Emoção como comportamento e ação. A Cabalá, freqüentemente, utiliza a metáfora da forma humanóide para ilustrar os centros Sefiróticos. Diferentemente dos Chakras Orientais, estes não são verdadeiros centros psicológicos; eles são centros simbólicos, e o corpo é apenas uma metáfora. Chochmá-Biná-Daat (que, abreviado, resulta em Chabad) são, respectivamente, o cérebro direito, esquerdo e central — a Mente. Chéssed, Guevurá e Tiféret são, respectivamente, o braço direito, o braço esquerdo e o torso — as Emoções. Na metáfora Cabalística, a coxa direita, a coxa esquerda, os genitais e a boca representam, respectivamente, as quatro Sefirot seguintes: Netsach, Hod, Yessod e Malchut. Reunidas, estas quatro representam “Expressão”. Tal como os pés carregam a cabeça e os sentimentos ao seus lugares de destino, as coxas, Netsach e Hod, levam a Mente e as Emoções a seus objetivos. Netsach e Hod são os criadores do relacionamento. Estas Sefirot não beneficiam tão diretamente um relacionamento com a Mente como acontece com as Sefirot da Emoção interna. Elas são mais automáticas, sendo baseadas no equilíbrio Mente-Emoção localizado no Tiféret. Por exemplo, os pés levam a cabeça para onde a cabeça quer ir. Sendo automáticas, estas Sefirot são um pouco mais difíceis de serem dominadas. Por exemplo, é mais difícil controlar e mudar um comportamento não-verbal do que os pensamentos ou sentimentos conscientes, e, como você já deve ter experimentado, os hábitos do corpo são, notoriamente, difíceis de serem alterados. Um outro ponto interessante é que o Netsach, o Hod e o Yessod também se relacionam com o Chéssed, a Guevurá e o Tiféret. Tal como o Chéssed é a Sefirá da “doação”, o Netsach é a Sefirá do “estender a mão”, do “oferecer”. Tal como a Guevurá é o fluxo que “contém” e “disciplina”, o Hod é o fluxo que limita o processo de “estender a mão”. Da mesma forma que o Tiféret cria um equilíbrio entre o Chéssed e a Guevurá, o Yessod cria um equilíbrio entre o Netsach e o Hod. Embora fosse incorreto ver Netsach como um conduinte direto para o Chéssed, ou como uma extensão daquele, eles possuem algumas semelhanças, e, na coluna das Sefirot, o Netsach situa-se abaixo do Chéssed, e Hod situa-se abaixo da Guevurá. A palavra “Netsach”, traduzida do hebraico, significa “Vitória” ou “Duradouro” — a idéia de ser vitorioso na travessia das fronteiras interpessoais, estendendo a mão e dando início a um novo relacionamento. É “duradouro” no sentido de que ele, com sucesso, vence a nossa resistência natural a abrirmo-nos a outrem. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A ESTRELA DE DAVID Inspire. Tome consciência de seus sentidos. Reconheça o seu paladar esfregando a sua língua por seus dentes de cima e de baixo. Deixe que o cheiro do ambiente em que você está penetre em seu ser. Quais os sons que estão entrando em sua consciência? Onde os seus dedos estão tocando? Em que estão focalizados os seus olhos? Feche os olhos. Deixe que os seus pensamentos o atravessem suavemente, sem pressa ou urgência. Você está seguro. Ainda com os olhos fechados, vislumbre um lindo gramado em formato de uma grande Estrela de David. Imagine-se caminhando por sobre a grama. À distância, você pode vislumbrar um leão. Veja a sua majestade e porte real. Ele anda languidamente, sem dar-lhe atenção alguma. Reconheça a coragem que ele possui. Identifique-se com o leão. Conscientize-se de sua própria majestade, sua própria realeza no domínio do reino de sua Mente e Coração. Você também pode ser o rei de sua selva espiritual. Medite sobre isto por alguns momentos. O “Estender a Mão” Requer Confiança Espiritual Quando acordamos numa fria manhã, nos é exigida força de vontade para que consigamos sair de debaixo das cobertas e pôr os pés no chão. Mas, uma vez que conseguimos sair da cama, o resto fica muito mais fácil. Da mesma forma, estender a mão e estabelecer uma conexão é algo que requer esforço e coragem. Nós nos sentimos seguros em nosso casulo emocional, e a decisão de abri-lo e compartilhá-lo requer uma boa dose de coragem. É algo que pode ser trabalhoso, árduo, cansativo, aterrador e, algumas vezes, até doloroso. Porém, tal como acontece quando deixamos o conforto de uma cama quente e segura, uma vez feito o esforço, mundos se abrem para nós. Muitos relacionamentos fracassam simplesmente porque nós não nos conscientizamos de nossa dinâmica interna. Por exemplo, a velocidade e o crescimento de um relacionamento depende do quão aberto é o nosso comportamento em relação ao outro. Nós devemos aprender como iniciar o fluxo de sentimentos. Devemos aprender como negociar as fronteiras e os limites de nossas diferenças. Isto exige que abordemos a natureza da Sefirá de Netsach. O principal é não ter medo — REB NACHMAN DE BRESLAV A Ansiedade do Medo O mestre Chassídico Reb Nachman de Breslav costumava comparar a vida a uma ponte estreita. Para que seja possível cruzar a ponte com sucesso, devemos deixar de lado os nossos medos e receios. Devemos manter os nossos olhos firmemente fixos no outro lado da ponte e devemos continuar andando, sem parar. O Netsach é a nossa capacidade de vencer as barreiras que existem entre nós. Netsach é a nossa capacidade de aceitar desafios. O Netsach permite que os sentimentos continuem a se mover. O Netsach leva em conta as condições para um dueto, uma sociedade, uma parceria, uma amizade e uma expressão de amor. Algumas vezes, nós temos medo de fazer uma transição dos nossos sentimentos internos para uma expressão externa. Talvez tivéssemos, no passado, experimentado uma rejeição em resposta a nossa confissão de sentimentos íntimos. A dor e a mágoa fizeram com que contivéssemos os nossos sentimentos e aprisionássemos o nosso Netsach potencial. Todos nós já vimos crianças naturalmente exuberantes se transformarem em adolescentes retraídos e em adultos incomunicáveis. O medo deprime o fluxo de Netsach. Os relacionamentos não podem florescer em sua ausência. Eu e Tu Martin Buber era um judeu assimilado que ficou encantado e cativado pelas histórias dos mestres Chassídicos e seus seguidores espirituais. A filosofia do Chassidismo se tornou sua busca vitalícia e, depois de imigrar para Israel, vindo da Europa pós-guerra, ele se tornou um professor na Universidade Hebraica de Jerusalém. Buber baseou a sua filosofia nos mestres Chassídicos, e os seus livros atraíram uma audiência mundial de leitores judeus e não-judeus. Em um de seus principais trabalhos, intitulado “I and Thou” (“Eu e Tu”), ele discute dois tipos de relacionamentos. Ele chama um deles de relacionamento “Eu-Ele”, representando um relacionamento no qual uma pessoa vê a outra como um meio para chegar a um fim. O relacionamento pode ser amigável, mas também é orientado ao “usuário”. Buber denomina um segundo tipo de relacionamento “Eu-Tu”. Este relacionamento é um de aceitação e respeito mútuos. Neste tipo de relacionamento, vemos o outro como um todo infinitamente valioso. O relacionamento “Eu-Tu” trata de fazer o leigo ficar sacro, e de santificar os nossos relacionamentos. O meio de relacionar-seotimamente com uma pessoa é “também como um fim, mas nunca como um meio”. — EMMANUEL KANT A percepção “Eu-Tu” nos informa que, para atravessar os limites e fronteiras interpessoais, nós temos que aceitar “onde” aquela pessoa está, e “como” aquela pessoa é. Devemos atribuir o respeito individual através da humildade. Buber conseguiu captar a essência do fluxo de Netsach através de sua filosofia “Eu-Tu”. O Netsach procura tocar o ser do outro, através de um relacionamento de profundo respeito e de mútuo envolvimento. É um relacionamento de “compartilhamento”, de “repartição”, ao invés de “conseguir”, de “obter”, às custas do outro. A Cabalá pode traduzir a idéia de “Eu-Tu” como sendo o reconhecimento de que cada pessoa é possuidora de uma centelha Divina — uma alma. Quando reconhecemos a essencial santidade e o infinito valor que todos nós possuímos, somos naturalmente impelidos a um profundo respeito. Usar uma outra pessoa para os nossos próprios fins torna-se algo não somente desprezível e desrespeitoso, mas também sacrílego. Assim, enquanto o Netsach representa envolvimento com o espaço do outro, ele deve ser canalizado através do “eu” da ordem superior, o Nefesh Elokit, para que possa ser do tipo “Eu-Tu”, em vez de ser o da ordem inferior, uma manipulativa expressão do “Eu-Ele”. Além dos Limites do Ego A psicologia nos fala muito a respeito da natureza dos relacionamentos. Aprendemos que, ao nascer, nós não distinguimos o “eu” e o “outro”. O quarto, o rosto de nossa mãe, o lençol do berço — tudo isto é percebido como uma extensão de nós mesmos. Mas, ao chegarmos à idade de um ano, começamos a descobrir os nossos primeiros limites e fronteiras. Somos uma entidade em separado. O conhecimento do “onde começamos” e do “onde terminamos” é denominado “os limites do ego”. Mas, alguns aspectos ainda continuam embaralhados. E obscuros. Mesmo aos dois anos de idade, ainda não temos consciência de limites. Fazemos constantes exigências e procuramos controlar tudo — o “terrível dois”. A partir dos três anos de idade, passamos a desenvolver uma compreensão de nossos incapacidades e limitações no mundo real, embora continuemos a fantasiar em nossos jogos e brincadeiras a nossa condição de todo- poderosos. Em seu livro The Road Less Traveled, M. Scott Peck destaca que somos solitários por detrás dos limites e fronteiras do nosso ego. Ansiamos por escapar e explorar o mundo dos outros. Queremos sair de nossos limites pessoais. Aí está a busca por relacionamentos. Todos os relacionamentos expressam o impulso do Netsach de sair à procura de um mundo além de nossas cercanias. Mesmo em nossas primeiras experiências, o nosso sentido de ansiedade ou conforto varia. Se as tentativas iniciais se mostrarem dolorosas, o fluxo de Netsach pode ser inibido, o que nos fará engajar em fantasias. Quando o Netsach flui com força e energia através do funil de um Tiféret equilibrado, o Netsach valida o fluxo estendendo as cercanias do ego para envolver o outro. Em outras palavras, você sente pela outra pessoa o mesmo quanto você sente por você mesmo. A isto chamamos de verdadeiro amor. Este amor, o relacionamento “Eu-Tu”, pode ser expresso de várias maneiras. Por exemplo, nós podemos amar um jardim com um cuidado e devoção palpáveis e reais. Podemos tratar as semeaduras com a ternura e a delicadeza que são, normalmente, dedicadas a recém- nascidos, e alimentar o solo com a mesma meiguice e mansidão que um pai ou mãe tem ao alimentar uma criança. Nós podemos nos sentir tão protetores das pequenas e tenras árvores como seríamos em relação aos nossos próprios filhos. O Netsach flui livremente quando carpimos, aparamos e podamos. O amor fará com que o jardineiro e o jardim se unam. Os limites e fronteiras abrangerão a ambos. Quando o objetivo da jardinagem for o de simplesmente criar um lugar para impressionar os outros, haverá de existir uma menor ternura e ligação. Sob tais circunstância, os limites e as fronteiras do ego não se estenderam para abranger o jardim, e aí estará representado o relacionamento “Eu-Ele” de Buber — o uso do jardim como uma ferramenta para motivos ulteriores. Neste caso, o Netsach flui, porém é um fluxo que é direcionado àqueles que devem ser impressionados — e não ao próprio jardim. Este também flui através do “eu” da ordem inferior, o Nefesh Behamit, buscando escorar alguma inadequação ou uma perceptível deficiência que resulta na necessidade de impressionar a outrem. O fluxo de Netsach é a chave espiritual para o sucesso de nossas explorações além dos limites e fronteiras do ego; porém, como qualquer ferramenta, ela pode ser usada para o bem e para o mal. Um professor pode, inadvertidamente, dominar a classe em resultado a um exacerbado entusiasmo. Um parceiro pode ser tão efusivo que o seu relacionamento se deteriora por uma incapacidade de ouvir. O Netsach é como uma faca de dois gumes. Ele proporciona o impulso de tornar real um sentimento. No entanto, numa pessoa menos equilibrada, ele pode também levar à dominação e à busca do controle e do poder. Por que será que o poder e o controle são tão atraentes para muitas pessoas? Com uma carência de auto-estima e de autovaloração, algumas pessoas tentam preencher este seu “buraco negro” de inadequação através de um auto-enaltecimento artificial. Elas têm medo de suas perceptíveis deficiências e sentem uma profunda falta de integridade. O potencial do Tiféret (um sentimento de contribuição equilibrada) não está sendo utilizado e, daí, o fluxo de Netsach perverte- se em sua pressa de compensar. Em seu desejo de conectar e unir, o Netsach flui com muita intensidade e vigor, de forma inexorável, insensível ao outro, lutando para preencher o vazio interior. Este comportamento se torna subjugante e dominante. O Paradigma do Netsach A Cabalá ensina que Moisés representa a Sefirá de Netsach. Moisés foi o intermediário no relacionamento dos hebreus com D’us. De fato, o relacionamento foi o cerne de sua liderança espiritual e de seu próprio ser. Quando ainda era um príncipe no Egito, Moisés chegou a acorrer em defesa de um hebreu que estava sendo atacado por seu algoz egípcio. Mais tarde, ele superou o poder do Faraó e, agressivamente, liderou a população de mais de quatro milhões de pessoas durante quarenta anos. Ao observarmos a trajetória de sua vida, podemos ver que Moisés era a energia do Netsach personificada. EXERCÍCIOS DE NETSACH EXERCÍCIO 1: Saia para um lugar por onde você possa caminhar livremente. Ache um objeto inanimado a, pelo menos, uns vinte metros e que tenha atraído a sua atenção. Comece a caminhar, lentamente, em sua direção — levando de quatro a cinco segundos entre um passo e outro. À medida que você vai assim caminhando, conscientize-se de seus pensamentos e de seus sentimentos à medida que eles vão se relacionando com os movimentos de suas coxas, pernas e pés, e: * Focalize-se em seus pensamentos. Para onde você está indo? Por que você está indo? Qual é a fonte da atração? O que isto diz sobre você mesmo? * Focalize-se em seus sentimentos: Como você se sente em relação ao objeto? Quando foi que este sentimento veio-lhe pela primeira vez? Você pode fortalecer e intensificar este sentimento? * Focalize-se em seus pés: O que faz os seus pés se moverem tal como se movem? Por que os seus pés o estão levando em direção àquele objeto em particular? Você é capaz de mudar o seu jeito de andar, fazendo com que o seu passo seja um reflexo do caráter daquele determinado objeto? * Enquanto segue caminhando lentamente, conscientize-se de como uma parte de você está se estendendo ao objeto. Esta parte de você está, de alguma forma, intrinsecamente entrelaçada com a sua Mente e com as suas Emoções. Enquanto isto, os seus pés continuam se movendo sem ter uma óbvia consciência deste processo de “estender a mão”. * Deixe que a sua consciência penetre, se infiltre em seu modo de se mover. Exagere-a um pouco apenas para que a sua percepção consciente fique discernível no caminho que você segue. * Assim, você começa a dominar oseu fluxo de Netsach. Repita o exercício tendo em mente um outro objeto, e com uma outra parte, diferente, de seu corpo — as suas mãos. Identifique algo que você gostaria de tocar, de segurar ou de sentir. Muito lentamente, não mais do que um ou dois centímetros por segundo, comece a estender a sua mão para tocar ou para segurar aquele objeto. Enquanto faz isto, repita os três conjuntos de perguntas que você formulou enquanto movia os seus pés; porém, desta vez, aplique-os ao movimento de suas mãos. Quando você alcançar o seu objeto, permita- se alguns momentos para reconhecer algo acerca do seu fluxo de Netsach — a maneira como você estendeu a mão. Faço o exercício duas ou três vezes por dia, durante uns quinze minutos a cada dia, por uma semana. Você fará algumas importantíssimas descobertas sobre o fluxo de Netsach: você descobrirá como você alcança os seus objetivos, como você se oferece às pessoas, e como você se inter-relaciona, em geral, com a vida. Outras variações com este tema incluem: como é que você vê com os seus olhos; como é que você sente o gosto com o seu paladar; ou como é que você ouve com os seus ouvidos. Sinta-se à vontade para criar exercícios parecidos para eles. Depois de algumas sessões, você descobrirá que está se familiarizando muito bem com o seu fluxo de Netsach, a ponto de poder, de fato, mudar o mecanismo de seu fluxo para algo com o qual se sinta mais confortável, ou que mais deseje. EXERCÍCIO 2: Sente-se numa cadeira confortável ou numa poltrona e relaxe. Você está seguro. Feche os seus olhos e visualize uma sala que acomoda muitas emoções. Ao entrar, sinta aquelas emoções espirituais fluírem livremente. Dirija-se para o lado direito da sala. Você sentirá um profundo desejo de alcançar, de dizer, ou de fazer algo com uma outra pessoa, ou com uma outra coisa. Relaxe. Lembre-se do exercício que você fez lá fora. Sinta um forte fluxo de Netsach que existe do lado direito desta sala, e reviva, lentamente, cada exercício em sua mente. Tente recordar cada simples nuance do movimento de seus pés ou de suas mãos. Tente reviver tudo aquilo que você experimentou lá fora, porém, desta vez, do lado direito da sala onde o seu Netsach flui livremente. Deixe que as mais sutis das sensações sejam notadas. Observe a sua Mente e as suas Emoções à medida que elas interagem em cada um dos momentos do processo de “estender-se”. Passe uns dez minutos em tranqüila contemplação. Depois, comece a movimentar os dedos de suas mãos e de seus pés. A seguir, volte para o aqui e agora. Nós devemos aprender a guiar o fluxo de Netsach, ou ele poderá ser direcionado erradamente. O resultado, então, será um desequilíbrio em nossos relacionamentos, ou pior ainda, não existirão relacionamentos. A nossa disposição para nos revelarmos e repartir com os outros deve ser temperada e bem dosada. Devemos saber quando falar e quando calar. Devemos arranjar tempo e espaço para nós para que seja possível avaliar, exatamente, como é que devemos temperar e dosar o fluxo de Netsach. A próxima Sefirá — a Sefirá de Hod, a Sefirá da empatia e da “exocentralização” (centralização dirigida aos outros) —, é o contraponto de equilíbrio do Netsach. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA ZAYIN O zayin representa o número sete. Sete é o número da conclusão, do acabamento, e também é o número da união — os sete dias da semana, as sete luzes da menorá, o ano Sabático. Medite sobre a idéia de conclusão, de acabamento. A palavra zayin, literalmente, significa “arma”. Tal como o Netsach proporciona a coragem para estender a mão e iniciar um relacionamento, a letra zayin representa o conceito de expandir-se para fora, além da sua zona de conforto. Medite sobre a sua coragem de estender- se além de si mesmo. Pense no zayin e no Netsach como parte de sua armadura espiritual. 12 Hod: Criando Empatia Que Tamanho de Sapatos Você Usa? A Mishná nos diz para não julgar os outros até que tenhamos calçado os seus sapatos. Porém, uma vez que cada um de nós nasce com diferentes “sapatos” espirituais, genéticos e ambientais, nos é impossível calçá-los. O fluxo da Sefirá de Hod é responsável pela criação de espaço nos relacionamentos. Ele proporciona a oportunidade para que o ouvinte pause e enfatize. Ele proporciona a oportunidade para que o ouvinte e o iniciante do relacionamento se encontrem num território “seguro” e isento de julgamentos. Tal espaço facilita a fé e a confiança, fazendo com que um cliente, um amigo, um cônjuge ou uma criança se revelem de uma maneira amorosa. Praticar o Hod é ser magnânimo, altruísta (centrado em direção aos outros) e humilde num relacionamento. Significa resistir a todas as tentações humanas para forçar que os sapatos do outro calcem, confortavelmente, os nossos pés. O Hod é o contraponto do Netsach. Enquanto o Netsach se esforça para conectar, o Hod assegura que o poder e a energia daquele esforço seja apropriado e aceitável. Como já dissemos anteriormente, não faz sentido forçar um aluno se a informação é por demais difícil de ser assimilada. O Hod monta a informação para ajustá-la à capacidade do receptor. O Hod tempera e dosa a força do Netsach, a qual, caso não seja verificada, pode criar uma distância ao invés de uma aproximação. Todos nós já passamos pela experiência de ter um colega tão efusivo acerca de uma proposta sua, que as pessoas, simplesmente, já não lhe dão ouvidos. Já vimos, muitas vezes, boas idéias sendo ignoradas porque um empático coração deixou de equilibrar a exuberância do Netsach. A empatia está no cerne de um relacionamento querido. Um Bom Comunicador O Hod é chave para a boa comunicação. Um eficiente comunicador não tem apenas o dom da boa oratória e da boa dicção ele deve ter, também, habilidades de empatia. Um espirituoso e divertido animador pode ser, em sua vida privada, uma pessoa chata e enfadonha. A pessoa pode ter um bom desempenho enquanto faz um monólogo, porém, em sua vida pessoal, o dom do verdadeiro diálogo pode estar ausente. Um bom orador público está sempre ciente de que está, de fato, se envolvendo com a sua audiência, e ao longo de toda a sua apresentação demonstra uma empatia pelas pessoas a quem está se dirigindo. Eu aprendi esta lição durante uma viagem de palestras. Eu havia feito uma reserva para um vôo matinal que ia de New Jersey para a Flórida, onde eu deveria dar uma palestra naquela noite. Eu havia programado um razoável tempo de folga entre o vôo e o compromisso assumido, de forma que, quando a neblina fechou o aeroporto, eu não fiquei muito preocupado. Mesmo quando eu tomei conhecimento de que o vôo vindo de Chicago também havia sido cancelado, resignei-me a permanecer na sala de espera do aeroporto um pouco mais. Mas, as horas iam se passando, e eu sabia que estava começando a ter problemas. Finalmente, consegui tomar um vôo depois das seis da tarde, chegando ao auditório onde prestaria a minha palestra com uma hora e meia de atraso. Os organizadores do evento tinham sido suficientemente perspicazes para improvisar uma atividade que mantivesse a audiência em seus lugares. Assim, quando eu cheguei ao auditório, a minha audiência estava ali — mas eles não estavam felizes. Eu lhes disse o quão maravilhosos eram por terem ficado ali, sentados em seus respectivos lugares, e que, se fosse eu, já teria ido para casa. Ainda assim, eles não acharam graça alguma. Eu tentei cumprimentá-los e fazer uma pequena anedota — mas de nada adiantou. Eis que, de repente, recebi um clarão de inspiração Divina. Eu parei de continuar tentando ganhá-los, e comecei a repartir-me com eles. Eu contei-lhes o quão desconfortável eu me sentia. Reparti com eles os pensamentos que me tinham acometido durante aquele longo dia — a minha ansiedade ao pensar que eu poderia falhar em meu compromisso com aquela platéia. Eu até consegui um sorriso quando mencionei que, por ter vivido na Austrália, encontro dificuldades em consertar as coisas com rapidez. Os rostos na audiência começaram a mudar. Eu pude sentir como as pessoas, paulatinamente, começavam a bandear-separa o meu lado. Finalmente, a noite acabou sendo um grande sucesso. Em retrospecto, o ponto de virada veio no momento em que eu parei de tentar, tão vigorosamente, me conectar (Netsach) e ganhar a sua aprovação. Ao invés, me reparti (Hod) com aquelas pessoas. A empatia que eu pude, finalmente, receber da audiência foi o mesmo fluxo de Hod que eu estava enviando para aquelas mesmas pessoas. O Hod é a chave para as comunicações empáticas. Em seu livro The Seven Habits of Highly Effective People, Stephen Covey chama esta experiência de “a habilidade da escuta empática”. Ele aponta a importante contradição observada naquela pessoa que quer ser entendida, enquanto ignora o que vai dentro de seu interlocutor. A maioria das pessoas avalia, testa, aconselha e interpreta, mas com o único fim de atingir os seus próprios propósitos. Falta-lhes a empatia do Hod. Falta um verdadeiro diálogo. Covey discute a filosofia Grega do Ethos, Pathos e Logos. Logos representa a lógica, Pathos, os sentimentos, e Ethos, o caráter e o relacionamento. Nas comunicações, todos estes três têm um papel importante. Os três termos levantam algumas intrínsecas perguntas. O orador faz sentido (Logos)? Como é que aquilo que está sendo dito faz o ouvinte se sentir (Pathos)? Qual é a credibilidade que o orador tem comigo (Ethos)? O Ethos é o de maior peso na comunicação, é o fator da credibilidade. Quando acreditamos na pessoa, nós a escutamos com mais atenção. Daí vêm os sentimentos (Pathos). Se sentirmos algo por aquilo que o orador diz, o nosso envolvimento na comunicação é elevado. Se aquilo faz ou não sentido, isto será surpreendentemente sem importância (Logos). O nosso modelo Chassídico tem óbvios paralelos. Os fluxos Sefiróticos da Mente são inerentes em Logos. Os fluxos da Emoção interna são o Pathos. E a tríade dos fluxos Sefiróticos que facilitam os relacionamentos confluem para se tornar o Ethos. Assim, Netsach, Hod e Yessod, o fator Ethos, são centrais à comunicação eficiente. O Hod se torna o mais importante fluxo Sefirótico isolado que nós possuímos para a audição empática. Eu consegui cativar aquela minha audiência não pela minha razão (Logos); nem por mexer com os seus sentimentos (Pathos). Nós finalmente conseguimos nos comunicar por causa do fluxo empático que eu iniciei ao ser honesto e aberto sobre mim mesmo — Ethos. A maneira mais eficiente de demonstrar o Ethos do Hod é criar um espaço seguro no qual o outro possa entrar. Quando ficamos quietos e silenciosos, estamos permitindo que o outro seja ouvido, demonstrando- lhe, assim, que nos importamos com ele. Naturalmente, o comportamento não-verbalizado deve acompanhar os sinais verbais. Os olhos devem se encontrar e a postura permanecer aberta e receptiva. Um bom ouvinte faz mais do que, simplesmente, permanecer calado, limitando-se a murmurar algumas banalidades nos lugares apropriados. O verdadeiro Hod é tanto não-verbal quanto comportamental. Apenas Dizer “Obrigado” Como é possível aprender a criar espaço para o Hod? Quando tive a oportunidade de me encontrar com o Dalai Lama, ele me presenteou com uma porção de livros, entre os quais um intitulado Kindness, Clarity, and Insight: The Fourteenth Dalai Lama, traduzido e editado por Jeffrey Hopkins. Naquele livro, ele fala sobre as pré-condições e pré-requisitos práticos para a empatia — assunto, este, que discutimos durante todo o nosso encontro. Assim escreve ele: “Para que seja possível sentir uma forte consideração e respeito pela felicidade e pelo bem-estar do outro, é necessário adotar uma postura e uma atitude especialmente altruísta, na qual você assume o fardo de ajudar os outros”. Este altruísmo forma a base de uma afirmação que se inicia a cada dia na tradição judaica. É a base de uma prática que imbui o praticante com humildade e com abnegação do ego. A Cabalá explica que esta afirmação matinal, conhecida como “Modé Ani”, proporciona o espaço para entrar naqueles mágicos momentos caracterizados pela transição do sono inconsciente na luz do dia. As palavras “Modé Ani” são pronunciadas como a primeira coisa pela manhã. Elas significam: “eu aceito”, “eu submeto-me”, “eu reconheço”, “curvo-me em reverência”. Os termos estão etimologicamente ligados à palavra “obrigado”, que, em hebraico, é “todá”. Esta afirmação contemplativa reconhece a admiração e o assombro por ter retornado ao estado da consciência, do aqui e agora. Ela afirma a oportunidade que o novo dia oferece para elevar aquilo que é terreno, e para elevar a consciência Cósmica. Ela se rende à responsabilidade que o despertar nos confere. Ela convida o Criador para dentro do nosso espaço. A raiz do verbo tem ambos os sentidos: o de submeter e o de agradecer; e também é a raiz da palavra “Hod”. A qualidade espiritual do Hod sublinha os atributos da humildade e do reconhecimento. Apropriadamente direcionado, o Hod flui através de nós e despe as nossas fachadas e projeções. O Hod remove as nossas camuflagens de postura e promove a empatia. Ele tempera o nosso ego e facilita a descoberta de nosso verdadeiro valor. Ele nos permite externar o nosso agradecimento e dizer “obrigado” — uma expressão de humildade. Quando dizemos “obrigado”, estamos resgatando e criando uma zona de conforto para outra pessoa. Tocamos a sua essência e a atraímos para nós. O “obrigado” é uma verbalização do fluxo de Hod. Eis porque é tão importante ensinar os jovens a agradecer e a dizer “obrigado”, mesmo que o seu significado mais profundo ainda não esteja totalmente entendido por eles. Isto treina os jovens a expressar a humildade e um reconhecimento dos outros. As pessoas que mostram humildade ensejam mais relacionamentos em suas vidas. Tudo começa com um “obrigado”. Auto-Estima e Auto-Respeito Não existem duas pessoas que sejam idênticas, assim como dois flocos de neve jamais caem com a mesma estrutura geométrica. Cada pessoa é uma trama distinta na tapeçaria da vida. Cada um de nós tem uma função e um propósito verdadeiramente individual, e que complementa, plenamente, a natureza da sociedade e da vida. A maior parte das dificuldades que uma pessoa experimenta vem de uma cegueira quanto à sua própria beleza individual. Cada um de nós é um componente indispensável da criação. Cada um de nós é plenamente merecedor de viver neste momento e neste lugar. Por que será que tantas pessoas se consideram tão pouco importantes, desinteressantes e sem valor? Elas acreditam que a dor é o preço por não se ocultarem suficientemente bem. Elas não reconhecem a sua verdadeira condição de serem indispensáveis no Cosmos. Honestamente, eu acredito que se a Sefirá de Hod fosse conscientemente adotada na sociedade, se cada um de nós praticasse o nosso fluxo interior de Hod, o comportamento anti-social poderia ser atenuado. O Hod nos permite dar um passo atrás e reconhecer a essencial e distintiva beleza que existe dentro de nós e dentro dos outros. Eu acredito que a raiva e a dor de não sermos reconhecidos ou queridos são coisas que estão no coração de todos os males sociais. O fluxo de Hod da efetiva audição pode produzir um crescimento saudável e uma autodescoberta em todos nós. Tratando da Adversidade Algumas pessoas parecem planar suavemente através das adversidades, enquanto que outras se afundam nelas e se afogam. Por quê? Todos nós sentimos dor e mágoa, apesar de que duas pessoas podem sentir a mesma dor de maneira bastante diferente. É muito mais um produto da expectativa do que da realidade objetiva. As pessoas que passam a vida esperando a dor não ficarão desapontadas. Quando somos otimistas, o quociente de dor é atenuado. Quando a dor da vida é filtrada através do prisma da fé, ela é sentida de uma maneira mais equilibrada. A aceitação da adversidade ou da dor é um aspecto de retenção — um traço característico do Hod. Ao invés de sentir raiva, ou de nos sentirmos ludibriados, enganados e trapaceados, chafurdando em nossa angústia e aflição, o Hod nos permite recuar e moldar a experiência, transformando-a numa essência mais positiva e significativa.Submetendo-se ao Fluxo O Chassidismo nos ensina que duas diretrizes básicas afetam o curso de nossas vidas. A primeira diz respeito aos nossos dotes — aquelas qualidades especiais que distinguem cada um de nós dos demais. A segunda é a constelação de eventos que nos cerca, sobre os quais não temos nenhum controle. O Baal Shem Tov, o fundador do Chassidismo, nos ensina que estes eventos são Divinamente ordenados de forma a nos proporcionar o melhor palco sobre o qual desempenhamos o nosso papel na vida. No entanto, nós combatemos estes eventos. Procuramos controlá-los através de nossa limitada sabedoria, embora possamos estar, de fato, fazendo um grave desserviço para nós mesmos. Ao combatermos as nossas aparentes adversidades, o processo Cósmico de reequilíbrio resulta, invariavelmente, no aparecimento de circunstâncias ainda mais influentes que são, na verdade, um mecanismo corretivo do Criador. E eis que então o conflito eclode numa outra frente — até que aprendamos a lição da aceitação. É muito mais importante para as nossas vidas que submetamos a nossa vontade, não através de uma resignação passiva, mas de uma humilde aceitação das oportunidades à medida que elas vão surgindo. O Hod molda uma aceitação significativa. O Hod nos abre para as oportunidades trazidas pelas adversidades. Isto não deve ser confundido com a passividade. Será que nós sabemos o que está ali na esquina? Podemos decidir em antecipação se uma determinada ocorrência haverá de nos trazer benefício ou nos causar dor? A nossa única alternativa real é ficarmos curiosos e abertos, aceitando o momento à medida que for surgindo, e acompanhando o seu desenvolvimento. Adotar uma postura de natural curiosidade e visualizar um resultado positivo são aspectos que despertam a nossa tolerância ao desconforto. A base do Hod permite a criação de uma postura neutra e receptiva, bem como a manifestação de uma disposição mais positiva. Render-se à exigências da vida não significa que a pessoa deva, mansamente e de forma submissa, oferecer o outro lado da face. Ao contrário, isto significa que devemos nos engajar plenamente na vida, assumindo os ritmos da vida e cantando aos ventos Cósmicos. Ao escolhermos, cuidadosa e criteriosamente, as nossas batalhas, nós conseguiremos ver tanto a floresta como as árvores. Tornamo-nos abertos às pistas que direcionam os nossos próprios hesitantes passos. O segredo da Sefirá de Hod está na aceitação. Ela compreende um sincero obrigado e uma rendição ao Outro, ativando uma submissão à sabedoria maior do Criador. Isto também exige coragem. UM EXERCÍCIO DE HOD Pegue um livro com o qual esteja familiarizado. Abra a página inicial do primeiro capítulo e leia para si mesmo alguns parágrafos. Agora repita a leitura, desta vez em voz alta e lentamente, levando em média cinco segundos para ler cada palavra. Na primeira vez que você fizer a leitura em voz alta, concentre-se, principalmente, nos sons produzidos pela leitura destes poucos parágrafos. Repita o exercício, porém, desta vez, concentrando-se no significado da palavra — somente daquela palavra que você está lendo, uma de cada vez. Repita mais uma vez o exercício, concentrando-se, agora, no sentido de toda a passagem, à medida que você vai lendo as palavras. Se você fizer este exercício uma vez por dia, durante dez ou quinze minutos, você poderá encontrar surpreendentes aspectos, tanto em termos de conteúdo como dentro de si mesmo. Detendo-se na inclinação natural de “adiantar-se”, você permite que a porta ao profundo significado se abra. Usando a capacidade do Hod, este caminho pode ajudar a mudar também o seu estilo de comunicação interpessoal. Depois de fazer este exercício por uma semana, é possível que você queira continuá-lo com um outro. Faça com que um parceiro ou um amigo passe dez minutos por dia conversando com você. Escolha um assunto qualquer e, simplesmente, conversem sobre ele. Porém, detenha-se numa pausa de três segundos antes de iniciar qualquer conversação ou de responder a qualquer comentário. Mas esta restrição deve ser observada por você apenas e não pelo seu parceiro. Você descobrirá um novo nível de percepção através da audiência empática. Reviva a experiência da leitura do livro. Tente recordar os três estágios da leitura e as experiências e percepções obtidas através do exercício. Concentre-se no valor dos mecanismos de retardo das respostas, e no quanto isto aprofundou a sua apreciação das coisas. Mais uma vez, tente gravar em sua mente a importância de deter-se como um meio de aprofundar o seu entendimento sobre outras pessoas. Ponha em foco a oportunidade que você criou para que o seu Hod flua com mais liberdade. Comprometa-se consigo mesmo a deixar que o espaço de oportunidade que você criou continue por toda a sua vida. Meu Próprio Mestre e a Prática do Hod O Rebe de Lubavitch foi a personificação da humildade e da audiência empática. Ao longo de todos os seus cinqüenta anos de liderança espiritual, ele devotou um espantoso período de vinte horas diárias de serviço à humanidade. Ele não observava nenhum relógio externo — somente a bússola cósmica interna é que o orientava. Freqüentemente, ele dava audiências pessoais durante a noite toda. Certa ocasião, minha família e eu tivemos a honra de sermos recebidos pelo Rebe às duas horas da madrugada, e, em outras ocasiões, quase ao alvorecer. Em seus últimos anos, o Rebe estava fragilizado; havia sofrido dois ataques cardíacos, além de outras doenças. Apesar disso, ele ficava de pé durante seis horas todos os domingos, sem se mover da sacada que era montada do lado de fora de sua sala. Milhares de pessoas se aproximavam dele, uma a uma, para aliviarem-se, para buscar uma bênção ou a solução de algum problema. Ele respondia pessoalmente a cada indivíduo, e, naquele momento de profunda conexão, a pessoa sentia como se o tempo tivesse parado. Eu me lembrarei para sempre do momento em que os seus olhos encontraram os meus, bem como a empatia e carinho que tocaram a minha mente e o meu coração. O fluxo de Hod era petrificante. Fazia- me sentir como se, no universo inteiro, houvesse apenas, e tão- somente, ele e eu. O Rebe absorveu a essência e a importância de meu assunto particular e, com uma extraordinária percepção, respondeu imediatamente. Eu sabia que os meus mais profundos e recônditos pensamentos tinham sido esmiuçados através da própria Mente e Emoções do Rebe. Aprendemos que um Rebe pode aconselhar em virtude de, no processo de escutar o seu interlocutor, ele consegue assumir, sobre si mesmo, a sua dor e experiências. Está registrado que muitos Rebes realmente sofreram problemas de saúde — que reconheceram ser oriundos deste supremo nível de empatia. Pode ser que nós não sejamos dotados a tal ponto. Porém, nós temos a capacidade de treinar o nosso Hod para que flua livremente em cada encontro, em cada relacionamento, em cada conversa. O Paradigma do Hod O irmão de Moisés, Aarão, é o grande mediador da história judaica. A palavra “paz”, em hebraico, é “shalom”, e significa, literalmente, “o estado de plenitude através do perfeito equilíbrio”. O tradicional cumprimento em hebraico “shalom Aleichem” significa, de fato, “Que entre num estado de completo equilíbrio interior”. Trata-se de um singular cumprimento, que fortalece e reforça o maior e principal ápice da tradição espiritual da Cabalá — o autodomínio. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A ESTRELA DE DAVID Inspire. Tome consciência de seus sentidos. Reconheça o seu paladar esfregando a sua língua por seus dentes de cima e de baixo. Deixe que o cheiro do ambiente em que você está penetre em seu ser. Quais os sons que estão entrando em sua consciência? O que os seus dedos estão tocando? Em que estão focalizados os seus olhos? Feche os olhos. Deixe que os seus pensamentos o atravessem suavemente, sem pressa ou urgência. Você está seguro. Ainda com os olhos fechados, vislumbre um lindo gramado em formato de uma grande Estrela de David. Imagine-se caminhando por sobre a grama. Enquanto caminha, pense nos arcanjos.Você pode sentir Michael andando à sua direita, cobrindo-o de compaixão. Gabriel caminha ao seu lado esquerdo, proporcionando-lhe direção e propósito. O arcanjo Uriel caminha à sua frente, trazendo-lhe um esclarecimento interior. Rafael caminha atrás de você, fortalecendo suas próprias capacidades saneadoras. Passe um minuto sentindo as forças angelicais imbuindo-o com suas benesses e dádivas. A chave para a meditação é a empatia — aquilo que Stephen Covey chama de “audição empática”. É impossível criar a paz entre as pessoas sem ser capaz de realmente escutar e ouvir o que cada uma das partes está dizendo. Paz significa equilíbrio; e era equilíbrio o que Aarão mais procurava nos relacionamentos interpessoais. Diz-se que Moisés era afligido de uma limitação da fala, o que dificultava bastante uma clara dicção. O seu irmão, no entanto, não apenas tinha a capacidade de ouvir com o seu coração aquilo que as pessoas falavam, mas também era um experiente comunicador. Por tudo isso, Aarão é considerado a personificação da Sefirá de Hod. A aceitação mútua é um princípio básico em qualquer relacionamento. Se as partes não se aceitarem mutuamente, elas não podem se unir. No entanto, também deve existir o “desejo” de se unir. A Mente e as Emoções devem penetrar a máscara que cada um de nós veste. Tal união é conseguida através da Sefirá seguinte, conhecida como o fluxo de Yessod. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA NUN O nun é a décima quarta letra do alfabeto hebraico. O seu significado duplo é o da regeneração e o da desintegração. A mediação dos eternos ciclos da vida: nascimento, crescimento, florescimento, auge e declínio. Pense sobre a sua verdadeira identidade. O nun nos ensina que a nossa verdadeira identidade está além dos ciclos. Ele está na Divindade interior. 13 Yessod: Encontrando Uma Verdadeira União A palavra “Yessod” significa, literalmente, “fundação”, “alicerce”. A Cabalá nos ensina que o Yessod denota a intensidade, a união e a força da comunicação entre duas pessoas. Eu me lembro de ter ficado entusiasmado com uma aula que seria dada no colégio. Não somente por abordar um cativante assunto, mas também porque seria administrada por um especialista no assunto. Imaginem como fiquei desapontado ao descobrir que aquele apreciado especialista era um orador pouco inspirado, que afundava o seu nariz em suas anotações, matraqueando durante uma hora. Talvez você possa lembrar de uma ocasião em que ficou gratamente surpreso ao descobrir que um palestrante pouco dotado e falando de improviso conseguiu inspirar uma audiência inteira. No primeiro caso, faltava o fluxo de Yessod — independentemente da erudição do professor. No outro, o Yessod fluiu livremente, apesar de faltar-lhe a fama acadêmica. Somente este segundo orador foi o que deixou uma impressão duradoura. É esta Sefirá que cria as fundações sobre as quais repousa a união humana. Quantos dentre nós podem realmente dizer que se unem com profundidade a outras pessoas? A maioria de nós continua a dedicar-se a assuntos inacabados e raivas não resolvidas. Fugimos da insegurança e dos traumas deixados por relacionamentos passados. O foco e a dedicação que precisamos para buscar os relacionamentos mais profundos e mais significativos se dissipam. A mente é inundada por uma miríade de preocupações, angústias, inquietações e outros interesses, deixando pouco espaço para o Yessod. Ao invés, nós nos afastamos, levamos vidas separadas e perdemos contato uns com os outros. A chave está em estreitarmos o nosso cerne de plenitude e de bem-estar. Daí, então, poderemos nos focalizar em outrem — no amigo, no parceiro, no cônjuge e em nossos filhos. Os indivíduos que mais profundamente nos influenciam são aqueles que estabelecem uma união Yessod conosco. Quando nos comunicamos com tais pessoas, sentimos que somos a pessoa mais importante em seu universo. Sentimos uma proximidade, uma reciprocidade e o poder da verdadeira comunicação. Ao mesmo tempo, estas fundações do Yessod também formam o princípio que une Netsach e Hod. Quando o poderoso impulso do Netsach sai de uma solidão e se transforma num relacionamento temperado pela retenção do Hod, impedindo o domínio e a dependência, então, a profundidade do Yessod pode fluir livremente. É a procura pelo fundamento e pela dedicação num relacionamento que proporciona as propriedades de equilíbrio do Netsach e do Hod. No entanto, nem toda comunicação é visível ou expressa verbalmente. As palavras nem sempre manifestam Yessod. As qualidades não-verbais também criam a união. Qual é a natureza desta qualidade? Em seu cerne está a Mente e a nossa capacidade de nos focalizarmos na pessoa com quem estamos nos comunicando. Quando pensamos em focalizar, naturalmente estamos pensando em nosso sentido de visão. No entanto, o foco com o qual nos empreendemos na criação de relacionamentos significativos vai além do visual. Ele inclui a nossa intenção — o que o Chassidismo chama de “cavaná”. Na realidade, cavaná representa mais do que “intenção”. Ela inclui qualidades de dedicação, resolução, propósito, orientação quanto aos objetivos e conexão. Adjacente a esta qualidade da Mente em Yessod, existe, ainda, uma outra qualidade emocional. Trata-se da nossa capacidade de dar e de contribuir, sentir e experimentar empatia, e equilibrar. Assim, o Yessod é um funil para todas as Sefirot da Mente e da Emoção que já vimos anteriormente. Podemos transmitir este foco sem o uso de palavras. Os mestres de Lubavitch, os Rebes, falam muito sobre o poder do pensamento. Eles observaram que os pensamentos profundamente focalizados podem, literalmente, alcançar os outros. Quando pensamos bem sobre uma pessoa, nós exercemos um efeito terapêutico. Infelizmente, quando pensamos doentiamente sobre uma pessoa, igualmente nós deixamos a nossa marca. Na literatura Cabalística e Chassídica isto é conhecido como “áyin hará” — o “mau-olhado”. Até pouco tempo atrás, era moda entre os intelectuais zombar da capacidade da mente humana de fazer mudanças sem usar a palavra. O médico Larry Dossey descreve em seu livro Be Careful What You Pray For ... You Might Just Get It, uma série de interessantes experiências, entre elas, uma que foi realizada por Jacobo Grinberg-Zylberbaum, na Universidade Nacional Autônoma do México. Este grupo examinou eletroencefalogramas (mapeamento das ondas cerebrais) de pessoas afastadas, umas das outras, a grandes distâncias. Eles descobriram que quando as pessoas deixavam que um sentimento de proximidade e consciência fluísse entre elas, os traçados do EEG sobrepunham-se, registrando notáveis correlações. Desafiando as leis da redução de efeitos conforme o aumento da distância, eles descobriram que estes padrões não sofreram alteração com o incremento da distância. Alguns cientistas denominaram este efeito de “correlação remota”. Anos antes, Einstein foi quem primeiro propôs a noção de que partículas subatômicas se co-relacionam entre si, independentemente da distância que as separa. Experiências provaram que a hipótese proposta por Einstein é verdadeira, e está agora sendo estendida aos seres humanos. As experiências com seres humanos mostraram que os EEG se correlacionavam somente quando havia uma tentativa deliberada entre as partes para que tivessem uma percepção consciente um do outro — eles deviam se focalizar uns nos outros. As conexões remotas ocorriam somente quando havia a concentração, o foco — quando uma determinada tentativa era feita para se comunicar com o outro através da mente. Yessod também é a qualidade da comunicação profundamente carinhosa. Não é de se admirar que o principal exemplo deste fluxo, aquele entre pais e filhos, deixe um efeito tão poderoso na criança, mesmo quando eles estão separados geograficamente. Os fenômenos remotos têm sido estudados cientificamente através das observações de mestres qijong, que podem fazer com que seus oponentes, a vários metros de distância, recuem rapidamente sem, sequer, tocá-los. Numa das experiências, o oponente era colocado numa sala distantee isolada, observando-se a sincronização das ondas cerebrais do emissor e do receptor quando o mestre exercia a sua concentração mental. Dossey também destaca os resultados de experiências realizadas na McGill University, os quais mostraram que o estado de depressão mental de um jardineiro pode ter um efeito negativo sobre o crescimento das plantas. Um outro conjunto de experiências, conduzido pelo médico ginecologista Leonard Laskow, demonstrou a sua capacidade de retardar o crescimento de células cancerosas através da concentração mental. Numa outra experiência, Gene Barry, um médico-pesquisador em Bordeaux, França, obteve sucesso ao mensurar o retardamento de um destrutivo fungo, simplesmente através da intenção negativa que era focalizada sobre o fungo a uma distância de um metro e meio. Está claro que a nossa intenção — cavaná — é um fator bastante real em nossos relacionamentos com as pessoas e com o Cosmos em geral. A maneira como nos concentramos através do fluxo de Yessod pode ter uma influência substancial sobre aqueles que estão em nossa mente ou sobre aqueles com quem estamos nos comunicando naquele momento. Um pensamento negativo pode redirecionar o fluxo de Yessod, tornando-o um meio potencialmente destrutivo (tanto quanto, também, autodestrutivo). Sabedores disto, nós devemos procurar exercer ambos: força e sensibilidade, de forma a podermos navegar através das fronteiras interpessoais. Devemos aspirar a uma disposição positiva para a vida, para as pessoas e para a adversidade. O Laço de União do Amor O amor tornou-se um clichê. A linguagem Ocidental abusa, distorce e faz um mau uso do termo. Isto faz com que seja passado um conceito de banalização, de ser o mais fácil dos relacionamentos — promíscuo e abusivo. A mídia nos incentiva a aceitar as “relações amorosas” como as ligações emocionais mais superficiais e mutuamente destrutivas. Somos encorajados a aceitar os atributos menos atraentes do Nefesh Behamit como sendo a realidade do amor humano, em vez de sua distorção. Devido ao verdadeiro terror que sentimos em assumir compromissos, nós preferimos nos concentrar inteiramente nos prazeres passageiros, em vez de nos comprometermos às fundações Yessod do amor. O cadinho que forja o verdadeiro amor é o compromisso e a dedicação ao bem-estar espiritual, intelectual, emocional e material do outro. O amor induz a união. O Yessod produz a união. A Sefirá de Yessod flui através de todas as pessoas. Não importa o quão reprimida ela possa vir a ser, um relacionamento amoroso deixará que o processo de união surja e se solidifique. O fluxo de Yessod abrange tanto amigos quanto pessoas estranhas. A maneira como tratamos uma garçonete, um motorista de ônibus ou um mecânico de carros não é uma declaração de nossa capacidade de relacionamento menor do que a maneira como expressamos o nosso amor por nossa família, por nosso cônjuge ou por um amigo íntimo. A Cabalá nos ensina que devemos nos dirigir às pessoas com todo o nosso ser — a nossa total cavaná. É uma indicação de para onde está sendo direcionado o nosso fluxo de Yessod. É importante notar que, enquanto o amor é derivado do nosso “eu” doador, o Chéssed, ele se torna manifesto na maneira com que nos dedicamos aos outros — o trabalho do compromisso do Yessod. Em seu maravilhoso livro Beyond the Best Interests os the Child, Joseph Goldstein mostra a diferença entre a paternidade biológica e a paternidade psicológica. A diferença está no elemento do compromisso, do comprometimento. O mesmo é verdadeiro no que se refere ao amor. A diferença entre o amor biológico — a atração sexual — e o amor psicológico, que provém do comprometimento profundo, é o fluxo de Yessod. Quando nos comprometemos ao verdadeiro ser daquele a quem amamos, nós realizamos as nossas naturezas de doação e de compaixão. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A ESTRELA DE DAVID Inspire. Tome consciência de seus sentidos. Reconheça o seu paladar esfregando a sua língua por seus dentes de cima e de baixo. Deixe que o cheiro do ambiente em que você está penetre em seu ser. Quais os sons que estão entrando em sua consciência? O que os seus dedos estão tocando? Em que estão focalizados os seus olhos? Feche os olhos. Deixe que os seus pensamentos o atravessem suavemente, sem pressa ou urgência. Você está seguro. Ainda com os olhos fechados, vislumbre um lindo gramado em formato de uma grande Estrela de David. Imagine-se caminhando por sobre a grama. Você vê o seu melhor amigo sorrindo e acenando-lhe. Imediatamente você sente uma grande empatia com a abertura e o calor de seu amigo. Comece a refletir sobre as suas próprias capacidades de ser um amigo que dá e que gosta. Reconheça as suas capacidades humanas de fundir a sua compaixão com a sabedoria da Mente e a energia da Emoção. Passe alguns segundos contemplando isto. UM EXERCÍCIO DE YESSOD 1. Quando realizar uma tarefa cotidiana, conscientize-se de seus cinco sentidos. Por exemplo, lavar os pratos: Qual é o som produzido pelos pratos quando você os coloca sob a torneira? Com que se parece o cheiro do detergente limpador de pratos? 2. Conscientize-se de seu corpo enquanto realiza aquela determinada tarefa. O seu corpo está tenso? Você sente alguma dor? Como se sentem os dedos de suas mãos? Faça um levantamento de seu corpo e tome conhecimento de como é que você está vivendo este momento da vida. 3. Conscientize-se das distrações. Pergunte-se: “Por que estou me distraindo? Como é que eu estou interpretando um momento essencialmente neutro? Como é que eu estou filtrando este momento?” 4. Pergunte-se: “Qual é a minha reação emocional à distração? Sinto algum ressentimento? Algum aborrecimento ou irritação? Sinto- me cansado?” 5. Pergunte-se: “Como posso reverter este subjetivo momento?” Por exemplo: “Estarei distraído por causa do vizinho que está tocando música em alto volume? Como posso reverter esta situação para evitar que isto afete a minha concentração e minha apreciação do momento? O que posso fazer para aprimorar o meu momento de Yessod?”. O Laço de União da Atenção Estamos familiarizados com a idéia de viver o momento conforme os ensinamentos de filósofos como Thich Nhat Hanh. Existem infinitos momentos no espectro do tempo. Nós corremos, tentando agarrar uma experiência cá e um momento acolá. Em nosso frenesi de experimentar tudo aquilo que a vida nos oferece, experimentamos, na verdade, pouquíssimas preciosidades dentre a diversidade e riqueza do universo. Quando aprendemos a viver no momento, nós nos fundimos com aquele momento. Pense nisto. Em qualquer dado momento, nós ocupamos algum espaço. O nosso corpo, mente e emoções jamais estão num “não-espaço”. Porém, estamos desatentos ao momento. Quando conseguimos ter consciência da maneira como nos conectamos com aquele momento, naquele espaço, podemos apreciar a sua singularidade. O momento jamais se repetirá. Temos uma oportunidade de criar uma ocasião única deste momento único. Quando estamos presentes no “agora”, nos tornamos espiritualmente engrandecidos e enriquecidos. Nos tornamos cônscios da absoluta santidade que aquele momento possui. Nós devemos nos treinar para sermos conscientes, pois, na realidade, nós estamos onde está a nossa mente. Mais uma vez, é a faculdade do Yessod, a dedicação, que nos permite tocar a singularidade do momento e abrir perspectivas de oportunidade que, de outra forma, teriam nos fugido. O Chassidismo nos ensina que todos os momentos são especiais. No momento presente está o segredo de ambos: passado e futuro. Este momento singular é tanto uma expressão da maneira que vivemos no passado, como uma indicação do futuro. A maneira como nos engajamos no presente determina o resultado no futuro. O Paradigma do Yessod Os fluxos Sefiróticos se combinam e se fundem numa realidade consciente por meio do Yessod. Da mesma forma, os legados de Abraão, Isaac, Jacob, Moisés e Aarão são direcionados através da qualidade espiritual do filho de Jacob, José. José é chamado de “mestre perfeito” — o tsadic. O Tanya ensina que, num determinadomomento, somente existe um único tsadic especial no mundo — o alicerce espiritual do mundo. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA LAMED O lamed é a décima segunda letra do alfabeto Hebraico, e a mais alta de todas as letras. O lamed representa o estudo, o ensinamento, o propósito. A sua energia traz exaltados valores à nossa vida cotidiana. Pense em seu significado. A Bíblia nos diz que Jacob deu a seu amado filho um casaco multicolorido. Este casaco representa a Sefirótica gama de cores que José estava destinado a canalizar para o mundo. A Bíblia também revela que José salvou seu pai e seus irmãos da fome. A Cabalá nos diz que isto é uma alusão à manifestação de outras Sefirot por meio do Yessod. José era um interpretador de sonhos, e um sonho é uma conexão entre o consciente e o subconsciente. Yessod é o ponto de conexão entre Mente-Emoções interiores e a sua principal expressão através da Sefirá de Malchut. José, o paradigma de Yessod, tornou-se o alicerce da sobrevivência dos Hebreus. Da mesma forma, Yessod permite que o fluxo Sefirótico sobreviva na realidade consciente. 14 Malchut: Dentro do Mundo Completando o Ciclo Malchut completa o ciclo. É o último elemento numa cadeia de eventos que se inicia com um momento de inspiração e encontra a sua realização no mundo real — o mundo do finito. Sem o fluxo de Malchut, nós possuiríamos pensamentos e sentimentos, porém, jamais os materializaríamos. Imagine-se planejando uma viagem de férias de verão. Você faz a reserva de passagens aéreas, compra as roupas necessárias e transpira num intenso programa de condicionamento físico. Então, quando está prestes a partir para a viagem, você descobre que os controladores de tráfego aéreo entraram em greve. Da mesma maneira, o Cosmos experimenta o nosso comportamento quando falhamos em nossas boas intenções. O Criador deve, então, re-equilibrar o Cosmos para proporcionar novas oportunidades para o nosso prosseguimento. Alguns chamam isto de “karma” ou “kismet”. A Cabalá chama isto de “hashgachá pratit” — a oportunidade designada para se combinar às nossas necessidades espirituais. A Natureza de Malchut A Malchut é uma Sefirá incomum. Ela tem dois aspectos espirituais. Tal como Biná, a Malchut é feminina na natureza. Ela carrega em seu ventre todas as Sefirot, inclusive Biná, durante todo o tempo. Malchut é o fim que aparece no começo. É o ventre no qual os fluxos espirituais, de Chochmá a Yessod, se aninham antes de nascerem no mundo real. A Cabalá chama Malchut de “Ima Tata’á” — a “Mãe Inferior”. Malchut nutre as nove Sefirot superiores até o momento de sua manifestação — sob a forma de uma palavra ou comportamento. É a Mãe Inferior em contraste à Biná, a “Ima Ila’á” — a “Mãe Superior” —, em cujo ventre as Sefirot superiores de Chochmá e Biná foram nutridas. Malchut também é “Alma De’Itgália” — o “Mundo Revelado”. Aqui, o nosso potencial latente é materializado através do comportamento e da expressão. Por outro lado, a Biná é chamada de “Alma De’Itkássia” — o “Mundo Oculto” —, pois a união de Chochmá e Biná produzem apenas um comportamento “potencial”, um estado da Mente. Na metáfora da forma humanóide, Malchut representa a boca; uma vez que a boca fala, ela revela o que está dentro. Até aqui, nós temos explorado as Sefirot em termos de comportamento humano para que nos seja possível compreender estas complexas noções com maior facilidade. Porém, as Sefirot fluem através de todo o Cosmos; portanto, a idéia de Malchut materializando pensamentos e emoções inspiradas é, também, numa escala Cósmica, descritiva. De fato, Malchut é sinônimo de Shechiná, a feminina presença de D’us no mundo. É a Shechiná que canaliza as ondas da criatividade potencial para um mundo finito, revelado. Note o relato antropomórfico da criação; ele começa com as palavras: “E disse D’us: ‘Haja luz’!” A Shechiná é uma manifestação através de um mundo criado. Malchut é a mais elevada fonte espiritual das almas e dos anjos. Embora os anjos e as almas humanas sejam diferentes entre si, eles evoluem do processo criativo que flui através da Sefirá de Malchut no mundo superior de Atsilut. Aqui na Terra A Cabalá ensina à Humanidade como se envolver nos detalhes da vida. Aprendemos a não permanecermos distantes e indiferentes. Uma vida passada em profunda contemplação, afastada dos aspectos materiais, representará um mau uso de nossa existência. Os mestres Chassídicos nos ensinam que a mais simples das palavras, ou atos, pode criar uma mudança de imensas proporções nos Mundos Superiores (Olamot). Assim sendo, cada um de nós tem uma real responsabilidade de pensar, falar e se comportar de uma maneira ética. As mitsvot universais, as Sete Leis de Noé, são princípios de guia para uma sociedade moral e justa. Nós fazemos mudanças no mundo através de ação, e não simplesmente de pensamentos gentis. O Judaísmo tem uma completa disciplina, composta de 613 mitsvot — boas ações —, para nos guiar através dos desafios da vida. O mundo tem um complexo sistema de 7 mitsvot — boas ações — para realizar o potencial Divino. Malchut — O Estado Soberano A tradução literal de Malchut significa “soberania”, “supremacia”. A palavra Malchut deriva da palavra Hebraica usada para “rei” — “melech”. Muitas pessoas podem jamais vir a ter, na vida real, algo mais do que um vislumbre de seu rei; porém, elas podem sentir a presença real através das leis e da maneira como a ele se faz referência, e como é obedecido. Da mesma forma, Malchut é um passivo, porém poderoso, estado de existência, bem como um ativo e final estado de realização. A Cabalá ensina que Malchut nos permite vislumbrar a soberania Divina no mundo. Muitas metáforas são usadas para descrever Malchut. Ela é vista como o receptáculo no interior do qual fluem todas as demais Sefirot. É a integração final de nossa atividade Mente-Emoção. Malchut é o estado soberano que existe dentro de cada um de nós. Através de nossas palavras e comportamentos, os outros podem vislumbrar o poder soberano que nos governa. Quem somos está revelado naquilo que fazemos. A Real ização Custa Menos do que Você Pensa Um dos verdadeiramente maiores mestres Chassídicos de Chabad, Rebe Yossef Yitschak (conhecido na escola Chassídica Lubavitch como o “Rebe Anterior”), destacou que as coisas realmente necessárias na vida são inversamente proporcionais ao seu custo. Segundo ele, uma jóia pode ser imensamente cara; o seu valor pode ser equivalente ao de várias casas. Eis porque as jóias não são essenciais à manutenção da vida. Por outro lado, uma morada é algo muito mais necessário e, assim sendo, consideravelmente mais barato do que as melhores jóias. As roupas, sendo ainda mais necessárias, são mais acessíveis. A comida, sendo algo essencial, é mais barata ainda do que as roupas. A água é ainda mais básica à vida e, portanto, custa ainda mais barato do que a comida. E aquilo que vem de forma totalmente gratuita é, de tudo, o mais essencial — o ar que respiramos. Esta simples orientação nos proporciona um importante instrumento. Muitas pessoas passam anos vagando pelo mundo em busca da felicidade e realização. Porém, é possível que elas estejam procurando nos lugares errados. A gratificante recompensa está no simples e no barato: alguém a quem amar, alguém com quem compartilhar a vida, alguém a quem cuidar, alguém a quem ajudar a suportar os dolorosos momentos da vida, e alguém em quem podemos confiar e acreditar. Quando dominamos a Malchut, nós conseguimos nos realizar. Stephen Covey assim diz: “Nós tratamos daquilo que nos parece ser urgente, porém nunca conseguimos alcançar aquilo que é verdadeiramente importante”. A Cabalá nos diz para deixar que a mistura correta flua para dentro de nosso receptáculo de Malchut. PERGUNTAS A SEREM FORMULADAS AO FINAL DE CADA DIA 1. Fiz hoje aquilo que eu acreditava ser realmente importante? 2. Trabalhei hoje para a realização de meus objetivos? 3. Estou realizando minhas verdadeiras aspirações? 4. (Caso a resposta a qualquer uma destas perguntas seja “não”) Por que eunão o fiz? Vivendo na Área Recentemente, muitos livros têm explorado o fenômeno conhecido como “jogar na área”. Os jogadores de tênis descrevem jogos em que o seu corpo reage perfeitamente em sintonia com suas intenções. Escritores mencionam ter trabalhado por horas a fio em eufórico esquecimento e abstinência. Cientistas contam terem estado tão profundamente envolvidos com as suas experiências que chegaram a perder seu sentido de tempo, perdendo os horários de refeição, alheios ao barulho e interrupções. Estes representam extraordinários estados nos quais o fluxo da vontade configura as Sefirot — de forma a que se manifestem através da Malchut numa consciência superior. Uma vez experimentado, este fenômeno jamais é esquecido. Alguns de nós podem experimentar isto, interpretando-o como um sentimento místico de unicidade e união, quando tudo e todos parecem parte de um todo orgânico. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A ESTRELA DE DAVID Inspire. Tome consciência de seus sentidos. Reconheça o seu paladar esfregando a sua língua por seus dentes de cima e de baixo. Deixe que o cheiro do ambiente em que você está penetre em seu ser. Quais os sons que estão entrando em sua consciência? O que os seus dedos estão tocando? Em que estão focalizados os seus olhos? Feche os olhos. Deixe que os seus pensamentos o atravessem suavemente, sem pressa ou urgência. Você está seguro. Ainda com os olhos fechados, vislumbre um lindo gramado em formato de uma grande Estrela de David. Imagine-se caminhando por sobre a grama. Sinta a sua suavidade e maciez. Veja-se caminhando sobre um quebra-mar, admirando o profundo oceano azul. Identifique-se com as turbulências do oceano, respirando em conjunto com a respiração de suas grossas ondas. Sinta sua imensa profundidade e força. Identifique-se com aquele poder de propósito. Tome algum tempo para contemplar a imagem do oceano. Respire a sua fresca, pura e forte essência. Você está sendo alçado por uma suave brisa. Veja-se pousado numa enorme pétala de rosa. Sinta a sua suavidade e maciez. A brisa balança levemente a pétala, e você pode sentir a sensação de sua vida interior — a sua simbólica relação com a natureza. Sinta o seu poder de crescer, de desabrochar e de se fechar. Perceba o seu próprio poder de desenvolvimento, de crescimento e de amadurecimento espiritual. Identifique-se com a flor. Você é a flor. Continue a sua caminhada. À distância, você pode vislumbrar um leão. Veja a sua majestade e porte real. Ele anda languidamente, sem dar-lhe atenção alguma. Reconheça a coragem que ele possui. Identifique-se com o leão. Conscientize-se de sua própria majestade, sua própria realeza no domínio do reino de sua Mente e Emoções. Você também pode ser o rei de sua selva espiritual. Medite sobre isto por alguns momentos. Enquanto anda pelo lindo gramado, você vê o seu melhor amigo sorrindo e acenando-lhe. Imediatamente, você sente uma grande empatia com a abertura e o calor de seu amigo. Comece a refletir sobre as suas próprias capacidades de ser um amigo que dá e que gosta. Reconheça as suas capacidades humanas de fundir a sua compaixão com a sabedoria da Mente e a energia da Emoção. Passe alguns segundos contemplando isto. Enquanto caminha, pense nos arcanjos. Você pode sentir Michael andando à sua direita, cobrindo-o de compaixão. Gabriel caminha ao seu lado esquerdo, proporcionando-lhe direção e propósito. O arcanjo Uriel caminha à sua frente, trazendo-lhe um esclarecimento interior. Rafael caminha atrás de você, fortalecendo suas pró- prias capacidades saneadoras. Passe um minuto sentindo as forças angelicais imbuindo-o com suas benesses e dádivas. Agora comece a se dirigir para o último canto — o canto da Shechiná. Deixe você unir-se com a Estrela de David. Você percebe que é a Estrela, e ela também é você. Reconheça a sua alma como o cordão umbilical espiritual que conecta você ao coração da Estrela — ao seu núcleo e essência — uma projeção do valor infinito dentro da tela do tempo e do espaço. Você é um com o Todo. Passe alguns segundos conectando-se com o Todo. Quando Chegarmos ao Fim, Descobriremos o Começo Gandhi dizia que nós devemos “nos tornar” a mudança que buscamos no mundo. Isto ecoa o ensinamento Cabalístico de que cada um de nós é um reflexo de todo o Cosmos. Iniciamos cada vida onde terminamos; e terminamos onde iniciaremos. A Sefirá de Malchut é o término. É também o início. As dez Sefirot fluem em cada um dos quatro mundos paralelos de Atsilut, Beriyá, Yetsirá e Assiyá. A Sefirá mais inferior em Atsilut é Malchut; mas Malchut se torna Keter, o nível mais elevado das Sefirot no mundo seguinte de Beriyá, e assim por diante. Imagine quatro escadas, uma colocada em cima da outra; o pé de cada uma apoiado no alto da outra. A base da escada de cima se torna o topo da escada que está abaixo dela. O principal propósito do engajamento no crescimento e desenvolvimento pessoal é o de nos possibilitar dizer a palavra certa no lugar certo, e de nos envolvermos na ação apropriada quando somos convocados. O nosso sangue, suor e lágrimas; as nossas horas de introspecção; a manutenção de nosso diário, nossa meditação, nossas técnicas respiratórias, nossos exercícios — tudo isso para que possamos pronunciar corretamente o som e fazer o gesto certo. Este delicado procedimento requer uma vida inteira de melhoramentos e a prática do autodomínio. Desta forma, nós mudamos o mundo. O círculo está completo. A nossa razão de ser, a nossa busca de união é completada em Malchut — o ato final da conexão. Porém, o nosso sentido de união dá lugar à vida física da separação e à realidade da existência cotidiana e diária. Esta maré e fluxo de vida, conhecidos no pensamento Chassídico por “ratso” e “shuv”, é inevitável. Os elementos de um momento de união alcançada se tornam uma dádiva no momento seguinte de separação. As sementes do fim são plantadas no começo; e no começo está o germe do fim. UMA MEDITAÇÃO SOBRE A LETRA TAV O tav é a vigésima segunda letra do alfabeto Hebraico. É o arquétipo da existência física projetada no Cosmos. O tav representa o resultado final. Medite sobre o tav ao contemplar o significado do término, da conclusão, do acabamento, da realização, da integridade e da plenitude. Conclusão Eu me propus a escreve um livro que serviria de ponte entre a antiga e mística sabedoria da Cabalá e a investigação contemporânea. Uma ponte só tem utilidade quando ela liga dois lados. Quanto a isto, estou ciente de que estas antigas percepções devem transcender o tempo e lugar, estendendo-se às Emoções e à Mente do leitor de hoje. O resultado, espero, é um “caminho central” que não é nem demasiado técnico, e nem simplista demais. Este livro não foi escrito para os doutos ou aspirantes a sábios; a obra se destina a pessoas como eu mesmo, que procuram melhorar a sua experiência cotidiana de viver verdadeira e honestamente. Diariamente, cada um de nós deve se comprometer a um padrão de palavras e ações. Num nível, a nossa escolha tem um impacto sobre o Cosmos. Num outro nível, mais próximo e imediato, as nossas decisões determinam os padrões de nossas vidas. Antes de encerrar este trabalho, eu gostaria de partilhar com você um ensinamento da Cabalá que pode nos ajudar de uma forma prática e terrena. Refiro-me ao ensinamento concernente à raiva. Os conselheiros freqüentemente orientam os seus clientes a “liberar” a sua raiva, como se isto fosse um animal enjaulado que precisa ser exorcizado. Por outro lado, eles também destacam que a raiva é um sentimento perfeitamente natural. As explicações Chassídicas da Cabalá ensinam que a raiva não é algo nem “trancado”, nem natural. Liberá-la somente a torna ainda mais forte e intensa. De fato, os sábios ensinam que a raiva não possui quaisquer qualidades redentoras. As antigas tradições espirituais do Hinduísmo, do Budismo e do Judaísmo encaram a raiva como algo destrutivo e condenável. Ora, se estamos preparados para absorver destas tradições tantos e tantos outros caminhos, por que haveríamos de ignorar os ensinamentos referentesà raiva? Maimônides nos aconselha a sempre escolhermos o “caminho do meio” e evitar os extremos; uma das exceções que ele cita é no que diz respeito à raiva. Neste caso, ele aconselha aos raivosos praticar o oposto virtual — a passividade face à provocação. Em seu Código da Lei Judaica, chamado Mishnê Torá (Hilchot Deot, cap. 3), ele assim escreve: “A raiva é um sentimento extremamente ruim, e a pessoa deveria evitá-la a todo custo. A pessoa deveria treinar-se a não sentir raiva, mesmo quando esta fosse justificada”. O Tanya vai mais longe ainda e afirma que qualquer pessoa que expresse uma forte raiva, estará praticamente cometendo idolatria, pois no momento da raiva, da ira, a sua fé o abandona completamente. Na parte 2 deste livro, nós exploramos as Emoções em termos de sete Sefirot básicas e sucintas. A raiva não está nesta lista. A Cabalá vê a raiva como um “híbrido” — é um produto, não uma matéria-prima espiritual. Para que a raiva seja expressa, os fluxos da Mente de Chochmá e Biná devem interpretar uma situação através da atividade do ego — o Nefesh Behamit. O fator Daat tem que evocar as emoções, com o predomínio de uma emoção controladora de Guevurá, resultando numa postura defensiva ou ofensiva. O fluxo de Yessod deve comprometer um Netsach dominante para conter a ameaça detectada. Finalmente, Malchut deve expressar as palavras ou atos de raiva. Nós podemos controlar a nossa raiva se entendermos a sua base de ego e medo, se aprendermos a intervir, e se praticarmos para compensar as suas manifestações. Porém, devemos, primeiramente, entender o quão indesejável ela realmente é. Psicologicamente, a expressão da raiva está correlacionada com insalubres efeitos colaterais. Pessoas raivosas são associadas com um comportamento do tipo “A”, que pode resultar em problemas cardíacos. A raiva aumenta a pulsação e os batimentos cardíacos. Os órgãos de nosso corpo funcionam mal sob um contínuo clima de raiva. A raiva inibe o sistema imunológico, aumentando a suscetibilidade às infecções e doenças. A raiva também é socialmente destrutiva. Ela deteriora uniões e ligações interpessoais, além de desgastar os relacionamentos. Ela é usada como uma arma de controle e domínio. Ela precipita o distanciamento e os medos. As pessoas raivosas perdem os amigos e têm apenas uma pequena influência sobre as pessoas. Freqüentemente você ouvirá pessoas dizendo que a raiva é motivacional. Elas contarão a sua história preferida sobre alguém que conhecem e que estava tão motivado pela ira, que esta acabou estimulando-os a grandes conquistas. Porém, o ódio também é motivacional. Igualmente motivacionais são: a inveja, a desconfiança, a inferioridade e os sacrifícios tribais para satisfazer os deuses. A motivação, por si, não é um valor. Isto nos deixa com o argumento de que a expressão da raiva permite-nos “desabafar” insalubres emoções “reprimidas”. Mas, será que a raiva alguma vez é “reprimida” e, de alguma forma, “enclausurada” em nosso corpo? Já vimos que as Emoções são sete fluxos espirituais dirigidos pelos três fluxos da Mente. Nada fica reprimido ou encarcerado — trata-se, simplesmente, de um mau gerenciamento pessoal, onde existe uma carência de sabedoria e de autodomínio. Ainda assim, algumas pessoas poderão jurar que bater cem vezes na cama com uma vassoura lhes traz um grande alívio — ou, melhor ainda, dar um soco na boca de alguém. Estas pessoas lhe dirão que foram “tiradas do sério”. Nós temos a capacidade de criar as nossas próprias realidades. Já vimos alguns estudos sobre mente-corpo que bem ilustram como o nosso sistema de fé e convicção produz reais alterações na química de nosso corpo, chegando a ponto de afetar até o nosso sistema imunológico. Convicções também formam imagens mentais. Se acreditarmos que a raiva está “trancada” no receptáculo do corpo, então isto haverá de criar um sentimento de pressão interna. Bater cem vezes numa cama com uma vassoura pode “aliviar” aquela pressão porque nós, em nossa imaginação, acreditamos e, assim, criamos aquela realidade. Da mesma forma, socar a cara de alguém que tenha sido inconveniente também trará algum “alívio”. Porém, o preço será, socialmente, exorbitante. E é baseado numa convicção sem fundamento — que a pessoa se livra da raiva. As pessoas raivosas continuam a externar a sua ira ainda durante muito tempo depois de terem se “aliviado”. Decorrido pouco tempo de seu alívio, a única realidade que resta é que aquela vassoura deverá ser substituída, depois de ter sido quebrada ao bater na cama, ou que aquele sujeito que apanhou com um soco na cara está tentando pôr o agressor na cadeia. Aliviar a raiva reprimida é uma crença baseada na ficção. O alívio é uma miragem temporária, que já a próxima situação de raiva haverá de prontamente atestar. A única maneira de erradicar a raiva é entender a sua dinâmica espiritual e aprender, pacientemente e com a prática, a mudar esta dinâmica, fazendo com que o resultado seja mais apropriado, mais pacífico e mais pertinente ao espírito de união e de conexão. Isto resultará numa mudança interior verdadeira e permanente, pois os fluxos Sefiróticos assumirão novos e melhores padrões. Um clima interior pode ser criado quando a Mente guia as Emoções. Para conseguir este resultado, as crenças sobre a raiva devem ser mudadas. Não podemos imaginar um “inimigo” encarcerado em nosso interior. Isto deve ser transformado numa imagem dos fluxos da Mente e da Emoção. Devemos nos tornar tão familiarizados com a natureza destes fluxos Sefiróticos, a ponto de construir uma imagem de Chochmá reformulando o fluxo de Biná, e Chéssed se mesclando mais intensamente com Guevurá. Estas imagens haverão de criar poderosas mudanças na Emoção, neutralizando as reações de raiva. O Chassidismo define este processo segundo o princípio de “Moach shalit al halêv” — “a Mente molda e define o Coração”. Para compreender totalmente como praticar este princípio, é necessário um outro livro. Esperemos para ver. A Cabalá é prática, e a sua sabedoria é universal. As percepções proporcionam um modelo que é tanto confortável na psicologia Ocidental e no misticismo Oriental, quanto o é na prática espiritual judaica. A Cabalá não exclui ninguém pela religião, pelo caminho religioso ou pela crença. Ela fala à alma, e cada alma reagirá em conformidade à sua orientação apropriada. Sinceramente, espero que este livro seja de alguma ajuda em sua vida cotidiana. Com muita alegria eu apreciaria receber os seus comentários e sugestões. Sinta-se à vontade para contatar-me. Eu gostei desta viagem que acabo de fazer com você. Você foi um excelente companheiro. Glossário Um asterisco indica referências cruzadas neste glossário. A Ahavá: A Emoção do amor, um subconjunto da Sefirá* de Chéssed*. Alma De’Itgália (literalmente: o “Mundo Revelado”): Um sinônimo Cabalístico para a Sefirá* de Malchut*, onde o potencial latente nas Sefirot* superiores é ativado em Malchut*. Alma De’Itkássia (lit.: o “Mundo Oculto”): Um sinônimo Cabalístico para a Sefirá* de Biná*, assim chamado porque as Sefirot* de Chochmá* e Biná* produzem um sentimento e uma expressão apenas potencial, que não é ativado até que Malchut* comece a atuar. Anivut: A qualidade da humildade. Assiyá (lit.: “Fazer”): O quarto plano, ou Olam*; o reino do tempo, do espaço e da consciência humana. Atsilut (lit.: “Emanação”): O primeiro dos quatro planos, ou Olamot*, o qual, para todos os efeitos práticos, é indistinguível da Fonte, da luz do Ein Sof*. Avodá (lit.: “trabalho”): Esforço e prática do refinamento espiritual. B Baal Shem Tov (lit.: “Mestre do Bom Nome”): Fundador do Chassidismo* (1698-1760, Europa Central); avô “espiritual” do fundador do Movimento Chassídico Chabad* Lubavitch*. Baal teshuvá (lit.: “possuidor do caminho” ou retorno): Uma pessoa que tenha retornado ao caminho da prática da Torá*. Bar-mitsvá (lit.: “o Filho dos Sagrados Mandamentos da Torá*): A idade da potencial maturidade espiritual para um menino com treze anos de idade; um ano a mais do que a idade da maturidadeespiritual (doze anos) para uma menina, chamado Bat-mitsvá*. Beinoni (lit.: “no meio”): Uma pessoa que domina as suas ações e expressões exteriores, enquanto consciente de distúrbios ou tentações internas ocasionais; espiritualmente posicionada entre um mestre e um perverso. Beriyá (lit.: “Criação”): O segundo dos quatro planos, ou Olamot*; o reino da individualidade e distinção espiritual. Biná (lit.: “Compreensão”): A segunda das dez Sefirot*; a aptidão espiritual para desenvolver a fonte de pensamento num convincente fluxo de pensamento. Bitul (lit.: “anulação”): O processo de abnegação do ego. C Cabalá (lit.: “Receber”): O corpo dos ensinamentos da mística judaica; o quarto nível de compreensão da Torá*. Casher: Alimentos que são assimiláveis pelo sistema da alma judaica, tal como definido na Torá* e no Talmud*. Cavaná (lit.: “intenção direcionada”): Intenção focalizada associada com o foco dos poderes da Mente e da Emoção. Chabad: Acrônimo formado pelas letras iniciais das três primeiras Sefirot*, através das quais realiza-se a atividade intelectual; o nome do Movimento Chassídico*, também conhecido por Movimento Lubavitch*. Chassid (lit.: “aquele que é pio”): Um seguidor do Chassidismo. Chassidismo (lit.: “Devoção”): Movimento da Torá*, fundado pelo Baal Shem Tov*, que popularizou os ensinamentos da Cabalá, bem como da mescla da devoção com a alegria e o fervor; abordagem comportamental da Cabalá Chéssed (lit.: “bondade”): O primeiro dos sete fluxos Sefiróticos da Emoção; Chéssed representa a doação empática. Chochmá (lit.: “Sabedoria”): Primeira das dez Sefirot*; a aptidão espiritual de canalizar o pensamento seminal a partir do subconsciente. D Daat (lit.: “Conhecimento”): Terceira das dez Sefirot*; a aptidão espiritual de canalizar Emoção no fluxo da Mente — chamado Daat Tachton; a aptidão espiritual que permite que o pensamento criativo e a seqüência de pensamentos se unam e se equilibrem — chamado Daat Elyon. Derush: O terceiro nível de entendimento da Torá*; o nível derivativo do entendimento dos textos da Torá*. E Ein Sof (lit.: “Sem Fim, Infinito”): A infinita fonte da criação; D’us. Elokim: O Nome de D’us que está associado com o atributo Divino da autocontenção na natureza e no mundo corpóreo. Emuná: Fé na beneficência e propósito da criação; fé em D’us. G Guevurá (lit.: “Força, Heroísmo”): A quinta das dez Sefirot*; o atributo espiritual da restrição e da autocontenção. Guilgul (lit.: “ciclo”): O processo de reencarnação da alma. H hashgachá pratit (lit.: “supervisão personalizada”): O ensinamento espiritual de que o Criador está especificamente ciente e envolvido em cada evento finito e em cada vida, criando situações sempre em prol do benefício maior. Hitbonenut (lit.: “autocompreensão”): Meditação contemplativa muito usada pelos membros do Movimento Chassídico Chabad-Lubavitch*. Hod (lit.: “Glória, Eco”): A oitava das dez Sefirot*; o atributo espiritual da empatia e da provisão de conforto. I Ima Ila’á (lit.: “a Mãe Superior”): O nome Cabalista para a Sefirá* de Biná*, em cujo ventre amadurecem as Sefirot* subseqüentes. Ima Tata’á (lit.: “a Mãe Inferior”): O nome Cabalista para a Sefirá* de Malchut*, em cujo ventre são nutridas as nove Sefirot* superiores. Ivri (lit.: “Hebreu”): Nome dado aos descendentes de Abraão; o “do outro lado”. K kav (lit.: “Linha”): A entrada inicial de um raio de energia Divina, após a inicial contração Divina, conhecida por tsimtsum*. kelí (plural: keilim); (lit.: “utensílio”): O receptáculo espiritual que contém o Or* - a energia espiritual ou “luz”. Keter (lit.: “Coroa”): O antecedente a todos os fluxos Sefiróticos; também referido como a mais alta de todas as Sefirot*; fonte dos fluxos da vontade e do prazer. L le’chaim (lit.: “à vida”): Brinde à saúde e ao bem-estar de outrem; normalmente pronunciada em alto e bom tom durante o processo de ingestão de bebida alcoólica. Levushim (lit.: “roupas”): As “vestimentas” exteriores das emanações Divinas, através das quais a emanação pode se tornar manifesta no reino (plano)*, ou Olam*, pelo qual passa. Lubavitch (lit.: “Cidade do Amor”; Rússia): Cidadezinha na Rússia que foi o centro do Movimento Chassídico* Chabad*, de 1813 a 1915; nome alternativo do Movimento Chassídico* Chabad*. M Malchut (lit.: “Soberania”): A décima e última Sefirá*, a qual concretiza, no plano de Assiyá, os processos de interação das nove anteriores na expressão humana. Mazal: O fluxo de específica energia espiritual que anima a alma de toda matéria, vegetação, animais e gênero humano; muito usado como uma expressão de congratulação, tal como em mazal tov (lit. “bom mazal”). mekubal (plural: mekubalim); (lit.: “aquele que foi recebido”). memale (lit.: “enchimento”): A descrição da energia espiritual ocupando o “espaço” de seu recipiente espiritual, tal como o pensamento ocupa a palavra pronunciada. Merirut (lit.: “amargor”): Prática Chassídica de auto-reflexão, focalizando-se nas próprias falhas, mas com a intenção de automelhoria. mezuzá: O pergaminho manuscrito e enrolado, que contém um trecho de uma passagem da Torá*, normalmente acondicionado numa caixinha enfeitada, a qual é afixada nas soleiras de todas as portas de uma casa judaica. Midot (lit.: “Medidas, Traços de Personalidade”): As sete Sefirot* da Emoção. Midrash: Literatura do terceiro nível, Derush*, dos quatro níveis de entendimento da Torá*. Mishná (lit.: “aprendizado, repetição”): A primeira transcrição da Lei Oral antes de sua elucidação nas desenvolvidas discussões conhecidas como Guemará, e que, juntamente com a Mishná, é conhecida como Talmud*. mitsvá (lit.: “mandamento”): Um preceito da Torá* que, quando praticado, conecta a alma ao Criador de uma forma mais profunda. mochin dekatnut (lit.: “pequenez cerebral”): Ter a mente pequena ou ser imaturo na maneira de exercer a escolha. Moshé Rabeinu (lit.: “Moisés, Nosso Professor”): Moisés, que aceitou e ensinou a Torá* no Monte Sinai, diante de milhões de judeus e outros exilados da escravidão no Egito. Mashiach (lit.: “o Ungido”): O Messias que trará a paz e a harmonia ao mundo, reconstruirá o Templo e conduzirá todos os judeus no exílio de volta a Israel. N Nefesh (veja também: Nefesh Elokit e Nefesh Behamit): O nível da alma que está mais integrado ao corpo físico, e o último nível a partir após a morte. Nefesh Behamit (lit.: “a Alma Animal”): A dimensão da alma que busca a realização do corpo físico e deflagra os impulsos e instintos em prol dos prazeres físicos. Nefesh Elokit (lit.: “a Alma Divina”): A dimensão do sistema da alma que está total e completamente unida com a “cabeça” de D’us. neshamá: Termo genérico para “alma”; o terceiro nível da alma*, a fonte espiritual para a atividade da Mente. Netsach (lit.: “Permanência, Vitória): A sétima das dez Sefirot*; o atributo espiritual de estender-se a outrem e estabelecer um relacionamento. Nigun: Canção Chassídica*, normalmente uma melodia sem palavras, utilizada pelos Chassidim* para o crescimento e fortalecimento intelectual, emocional e espiritual. O Or (lit.: “Luz”): Uma metáfora para o fluxo de energia ou emanação vinda do Criador ou Fonte. Olam: singular de Olamot. Olamot (lit.: “Mundos”): Os quatro principais planos, dotados de crescente tsimtsum*, nos quais as emanações Divinas tornam-se crescentemente ocultas em mais externamente definidos formatos, ou levushim*. Oneg (lit.: “prazer”): A mais elevada fonte da motivação humana, expressa como o fluxo primário do relacionamento. P Pardes (lit.: “Pomar”): Termo usado para o misticismo Judaico e, mais especificamente, para a Cabalá; os quatro níveis de entendimento da Torá*. Peshat: O significado literal de uma palavra ou de uma passagem de texto; o primeiro nível de entendimento da Torá*. R rachamim: A qualidade da misericórdia e da compaixão; identificada com a Sefirá* de Tif’eret*. Rambam (acrônimo de Rabi Moshé ben Maimon; 1135-1204): Maimônides; um estudioso, filósofo, médico, matemático e Talmudista do estilo Renascentista; autor da mais completa e definitiva codificaçãoda Lei Judaica, conhecida como Mishnê Torá. Ratso v’shuv (lit.: “correr para” e “voltar”): O padrão cíclico da Mente e Emoções humanas, que oscila entre intensidade e relaxamento, normalmente aplicada à intensa atividade da consciente conexão com D’us e, daí, precisando retornar a uma norma mais relaxada antes de novamente se aproximar. Reino(s): Os quatro Olamot*, ou mundos, que crescentemente se contraem e condensam as emanações Divinas, ocultando seus verdadeiros aspectos. Rebe: Mestre Chassídico; líder espiritual da dinastia Chassídica; em nossos tempos o Rebe de Lubavitch, Rabi Menachem M. Schneerson, era normalmente chamado de, simplesmente, “o Rebe”. Remez (lit.: “Pista”, “dica”): O segundo nível de entendimento da Torá*; o nível alusivo. Ruach (lit.: “vento, espírito”): O segundo nível do sistema da alma; o nível manifestado através da Emoção humana. S Sefirá (singular de Sefirot): Vide Sefirot*. Sefirot (lit.: “Emanações”): Os dez atributos Divinos que se manifestam através dos quatro “mundos”, ou “reinos”, chamados Olamot*, e que se realizam no Olam inferior como os dez aspectos da personalidade, compostos de Mente e Emoção. Sechel: A tríade das Sefirot* da Mente: Chochmá*, Biná*, e Daat*; a natureza da Mente. Shechiná (lit.: “restituição”): O nível da Presença Divina que é manifestada no plano corporal; a qualidade feminina da “cabeça” de D’us. Sod (lit.: “Segredo”): O quarto nível de entendimento da Torá*, associado ao nível da Cabalá*. T Talmud (lit.: “o Aprendizado”): Os ensinamentos da Torá* no Monte Sinai que foram mantidos sob a forma de tradição oral, até a sua redação sob a forma escrita, conhecida como Talmud, entre os anos 200 a.e.c. e 300 a.e.c., nas grandes academias Talmúdicas do Oriente Médio. Tanya (lit.: “Foi Ensinado”, em Aramaico): O nome do principal e mais sistemático texto Chassídico que explica as naturezas do Cosmos e do ser humano, conforme a Cabalá de autoria do fundador da Chassidismo* Chabad-Lubavitch*, conhecido como o Alter Rebe; o Tanya também é conhecido como Sêfer Shel Beinonim (o Livro dos Aspirantes Intermediários) e como Likutei Amarim (Coleção de Discursos). tefilin: Filactérios que são, diariamente, usados na cabeça e no braço, por um homem judeu adulto, durante as preces matinais; composto de duas “caixinhas” pretas que acondicionam um pergaminho manuscrito com determinados trechos da Torá*. Teshuvá (lit.: “retorno”): O processo de retornar às normas da Torá*; veja, também, Baal teshuvá*. Tiféret (lit.: “Beleza”): A sexta das dez Sefirot* que mescla a Emoção espiritual de dar — Chéssed* — com o atributo da contenção — Guevurá* —, culminando com um equilíbrio de ambas. Torá (lit.: “o Ensinamento da Luz”): O modo de vida judaico, governado pelos Cinco Livros de Moisés e a Lei Oral que os esclarece; o corpo da lei dada e ensinada por Moshé Rabeinu* no Monte Sinai; as plantas espirituais da criação. Tumá: Estado espiritual de negatividade e impureza. Tsadic (lit.: “o Justo”): O mestre Chassídico; uma pessoa muito justa. tsimtsum (lit.: “contração, ocultação”): O processo Divino de progressiva autolimitação, tornando possível que os vários estágios de entidades independentes se realizem; auge nas variadas existências do ser humano no mundo finito. Y Yessod (lit.: “Base”): A nona Sefirá*; o atributo espiritual da determinação e dedicação. Yetsirá (lit.: “Formação”): O terceiro Olam*, ou “plano”, ou “mundo”, ou “reino”, no qual a forma espiritual do quarto mundo de Assiyá* é determinado; nome do mais antigo trabalho da Cabalá* ainda existente — Sefer HaYetsirá, escrito por Abraão. Z Zohar (lit.: “o Brilho”): O principal texto da Cabalá*, redigido na forma escrita pelo Rabi Shimon bar Yochai, no Século II. Sobre o Autor LAIBL WOLF (Rabino), Bacharel em Psicologia, é um palestrante de fama internacional em assuntos ligados às áreas do domínio da mente e das emoções e do crescimento pessoal. Foi convidado a proferir palestras em 165 cidades, somente nos últimos cinco anos, o que indica a sua reputação e a sua rica experiência — isto sem nada dizer da força e vigor que possui. Ele fundou o Human Development Institute, uma Fundação dedicada ao progresso da humanidade através de percepções, introspecções e domínio pessoal. Rabi Laibl Wolf é um dos poucos expoentes tradicionais dos ensinamentos Cabalísticos; tendo estudado, também, Direito e Psicologia, ele consegue combinar a sabedoria do passado com uma moderna e progressista visão do presente. Tem aparecido bastante na mídia e tem sido o principal orador em conferências internacionais, entre as quais se incluem as realizadas na International Psychological Association, na International Transpersonal Association, na International Mind/Body/Immunity Conference e na American Ortodox Union of Rabbis. Ele produziu inúmeros conjuntos de materiais audiovisuais destinados ao autodomínio e à meditação, os quais estão disponíveis nos quatro continentes. Estes materiais exploram os ensinamentos de uma maneira mais experimental, e têm, também, a vantagem das ênfases do autor. Rabi Laibl Wolf reside em Melbourne, Austrália, com sua esposa, Leah, e seus três jovens filhos. Folha de rosto Créditos Índice Agradecimentos Prefácio da Edição Brasileira Introdução Primeira Parte: O MOVIMENTO DO ESPÍRITO 1. Abraão — O Místico Rebelde 2. A Planta do Cosmos 3. Quem São os Cabalistas? Segunda Parte: OS FLUXOS DA MENTE E EMOÇÃO 4. As Dez Sefirot 5. Chochmá: A Varinha Mágica 6. Biná: Mudando o Padrão do Pensamento 7. Daat: A Mente Crente 8. Chéssed: Destrancando o Fluxo do Amor 9. Guevurá: Aumentando a Força Interior 10. Tiféret: Desenvolvendo um Coração Sábio 11. Netsach: Iniciando Relacionamentos Significativos 12. Hod: Criando Empatia 13. Yessod: Encontrando Uma Verdadeira União 14. Malchut: Dentro do Mundo Conclusão Glossário Sobre o Autor