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André Viana Custódio Cristiano Lange dos Santos Organizadores Direitos de Juventude A N D R É V I A N A C U S T Ó D I O C R I S T I A N O L A N G E D O S S A N T O S O R G A N I Z A D O R E S DIREITOS DE JUVENTUDE Direitos de Juventude 2022 Conselho Editorial Rafael Bueno da Rosa Moreira (Urcamp) Juliano Bitencourt Campos (Unesc) Rogério Portanova (UFSC) Levi Hulse (Uniarp) Luiz Osteberk (UTAD) Mônica Duarte (Uniavan) Newton Cesar Pilau (Univali) Jairo José Zoche (Unesc) André Viana Custodio (Unisc) Andrea Marocco (Unochapeco) Cristiano Lange dos Santos (Unisc) Daniel Ribeiro Preve (Unesc) Daniela Lippstein (URI) Fernando da Silva Mattos (MP/PR) Helena Nastassya Paschoal Pitsica (Univali) Ismael Francisco de Souza (Unesc) Jadir Zaro (Fapas) 21-88778 CDU-34:502.7(81) Diagramador: Nicolas Takumi Lara Haida Capa e Revisão: Camila Milioli Casagrande Preve Proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma e por qualquer meio mecânico ou eletrônico, inclusive através de fotocópias e de gravações, sem a expressa permissão dos autores. Os dados e a completude das referências são de inteira e única responsabilidade dos autores. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Preve, Daniel Ribeiro Ensaio sobre o estado de direito ambiental [livro eletrônico] : conceito, mecanismo e desafios / Daniel Ribeiro Preve, Maurício da Cunha Savino Filó, Newton Cesar Pilau. -- 2. ed. -- Criciúma, SC : Editora Belcanto, 2021. PDF Bibliografia ISBN 978-65-996472-0-8 1. Direito ambiental 2. Direito ambiental - Brasil 3. Ecologia I. Filó, Maurício da Cunha Savino. II. Pilau, Newton Cesar. III. Título. Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : Direito ambiental 34:502.7(81) Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964 21-90481 CDD-305.235 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Direitos de juventude [livro eletrônico] / André Viana Custódio, Cristiano Lange dos Santos organizadores. -- Criciúma, SC : Editora Belcanto, 2022. Vários autores. ISBN 978-65-996472-2-2 1. Direito 2. Direitos humanos 3. Jovens - Condições sociais 4. Juventude - Política governamental 5. Políticas públicas 6. Proteção integral I. Custódio, André Viana. II. Santos, Cristiano Lange dos. Índices para catálogo sistemático: 1. Jovens : Direitos : Sociologia 305.235 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964 Editora Belcanto Avenida Gílio Búrigo, 702 Jardim Maristela - Criciúma/SC CEP 88815-300 www.editorabelcanto.com.br Apresentação A proteção integral aos direitos de juventude no Brasil consiste em desafios históricos e políticos demandando a ressignificação de olhares sobre a multidimensionalidade das expressões juvenis, das quais a participação política e o acesso universal aos serviços de atendimento são tarefas primordiais. Esta obra é resultado do conjunto de pesquisas e estudos realizados por reconhecidos pesquisadores de instituições que concentram seus esforços para produção e difusão de conhecimento sobre infância, adolescência e juventude, em especial: o Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens do Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado – da Universidade de Santa Cruz (UNISC); o Grupo de Pesquisa em Direito da Criança e do Adolescente e Políticas Públicas do Programa de Mestrado em Direito da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) e do Grupo de Pesquisas sobre Direitos Humanos e Políticas Públicas para Crianças e Adolescentes do Centro Universitário da Região da Campanha (URCAMP). Os estudos apresentam analises sobre a participação e o ativismo juvenil, a crise ecológica, as condições de trabalho e profissionalização e olhares singulares sobre juventude como a gravidez na adolescência no contexto mais geral das políticas públicas e proteção aos direitos fundamentais do jovens brasileiros. Visa contribuir com a ampliação e reflexão do conhecimento científico sobre a matéria que, indiscutivelmente, deve ultrapassar os muros e barreiras da academia proporcionamento ferramentas para a transformação política e social. Prof. Dr. André Viana Custódio Prof. Dr. Cristiano Lange dos Santos Organizadores Autores Adrieli Albertti Mestranda em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC. Membro do Grupo de Pesquisa: Direito da Criança e do Adolescente e Políticas Públicas e do Núcleo de pesquisa em Política, Estado e Direito (NUPED). Amanda Geisler Aires Bispar Acadêmica do Curso de Graduação em Direito do Centro Universitário da Região da Campanha – URCAMP/Bagé. Integrante do Grupo de Pesquisas sobre Direitos Humanos e Políticas Públicas para Crianças e Adolescentes (GEDIHCA/ URCAMP) e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PROBIC da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul – FAPERGS, integrando o Projeto de Pesquisa Direito, Inovação e Novas Tecnologias: o direito ao trabalho no cenário de novas tecnologias e o enfrentamento da violência sexual de crianças e adolescentes diante do isolamento social vinculado ao curso de Direito da URCAMP. Andréa Silva Albas Cassionato Doutoranda em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC na área de concentração “Direitos sociais e políticas públicas”, na linha de pesquisa “Diversidade e Políticas Públicas” e integrante do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social e do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens do PPGD/UNISC. Atua como Registradora Substituta do Ofício Extrajudicial de Registro de Imóveis e Registro Civil de Pessoas Naturais de Sobradinho/RS. Andrei da Rosa Sauzem Machado Mestrando em Direito, na linha de Políticas Públicas de Inclusão Social do Programa de Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC. Bolsista PROSUC CAPES Modalidade II. Pós-Graduado em Direito Processual Previdenciário (Administrativo e Judicial) pelo Instituto de Estudos Previdenciários IEPREV. Integrante do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social e do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens (GRUPECA) do PPGD/UNISC. Sócio do Escritório Rosa e Sauzem Advogados Associados. Sócio na empresa Éthica Gestão e Consultoria. André Viana Custódio Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com Pós- Doutorado em Direito pela Universidade de Sevilha - Espanha, Coordenador Adjunto e Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Coordenador do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens (GRUPECA/UNISC) e Líder do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC). Cristiano Lange dos Santos Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) com doutorado sanduíche na Universidade de Burgos (UBU) na Espanha financiado pela CAPES. Colaborador Externo do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC. Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel Mestranda em Direitos Humanos pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Pós Graduada em Direito pela Escola Superior da Magistratura de Santa Catarina - ESMESC. Graduada em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Integrante do Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens do PPGD/UNESC. Membro do Grupo de Estudos Intersetorial - GTI do Conselho Tutelar, Coordenado pelo Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude – CIJ MPSC. Professora conteudista na Universidade de Brasília – UNB. Coordenadora Institucional do Fórum Colegiado Nacional de ConselheirosTutelares – FCNCT. Presidente da Associação Catarinense de Conselheiros Tutelares – ACCT. Membro do Comitê Gestor da Escola de Conselhos de SC. Membro do Comitê Gestor do Sistema de Informação para Infância e Adolescência – SIPIA Conselho Tutelar. Conselheira Estadual de Direitos de Crianças e Adolescentes – CEDCA SC. Conselheira Municipal de Direitos de Crianças e Adolescentes – CMDCA Criciúma/SC. Coordenadora do Centro de Referência da Assistência Social – CRAS Criciúma/SC. Ismael Francisco de Souza Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul - RS (UNISC); Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, graduado em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense. Professor e pesquisador Permanente do Programa de Pós-Graduação - Mestrado em Direito e da graduação em Direito. Coordenador do Grupo de Pesquisa: Direito da Criança e do Adolescente e Políticas Públicas e do Núcleo de pesquisa em Política, Estado e Direito (NUPED). Juliana Toralles dos Santos Braga Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande, Doutoranda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul. Integrante do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC. Advogada. Júlian Marcelino Araújo Doutoranda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – PPGD/UNISC, Integrante do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/ UNISC. Advogada. Maria Victória Pasquoto de Freitas Mestra em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), integrante do Grupo de Estudos Direito, Cidadania e Políticas Públicas da UNISC e do Grupo de pesquisas sobre Direitos Humanos e Políticas Públicas para crianças e adolescentes (GEDIHCA) da URCAMP. Advogada. CAPÍTULO 01 Ativismo juvenil a partir do #ocupa tudo! o movimento de ocupação das escolas públicas no rio grande do sul 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................11 2 Juventude e o ativismo: algumas aproximações entre a “Revolta dos Pinguins” no Chile e as ocupações secundaristas no Brasil (2016) ...............................................................................13 3 O direito à educação pública de qualidade e o movimento #Ocupa Tudo! a ocupação de escolas o Rio Grande do Sul como reivindicação primária do movimento juvenil .............18 4 Características do movimento #Ocupa Tudo! Uma percepção inconclusa .........................24 CONCLUSÃO .........................................................................................................................................31 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................33 CAPÍTULO 02 Eco-ansiedade: reflexões sobre a angústia da juventude relacionada à crise ecológica 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 36 2 A crise ambiental: o meio ambiente como patrimônio público .............................................. 38 3 Jovens: consumidores ou mercadoria? ........................................................................................44 CONCLUSÃO ......................................................................................................................................... 51 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 53 CAPÍTULO 03 Jovens trabalhadores autônomos: o reconhecimento de vínculo da relação de emprego nas plataformas digitais 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 56 2 Juventude trabalhadora por meio aplicativo no Brasil ........................................................... 59 3 O Enquadranento das relações de enprego nas contratações do trabalhdor na prestação de serviços sob platfornas digitais ................................................................. CONCLUSÃO ........................................................................................................................................ 72 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 73 SUMÁRIO ............ 69 CAPÍTULO 04 Aprendizagem e estágio esportivo de adolescentes e jovens 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 76 2 Diferenças e semelhanças entre aprendizagem e estágio................................................... 78 3 A aprendizagem e o estágio no âmbito esportivo: conflito normativo ............................. 86 CONCLUSÃO ...................................................................................................................................... 91 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 94 CAPÍTULO 05 Os conselhos de juventudes como ferramenta de participação social 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 96 2 A participação social e os conselhos gestores de políticas públicas de juventudes........ 98 CONCLUSÃO ...................................................................................................................................... 113 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 115 CAPÍTULO 06 A gravidez na adolescência como um problema cultural 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 121 2 O contexto da gravidez na adolescência no Brasil ................................................................ 122 3 As causas e consequências para ocorrência da gravidez na adolescência sob a perspectiva social e cultural da maternidade 4 A relação entre a vivência da sexualidade na adolescência e a gravidez precoce à luz da teoria das representações sociais CONCLUSÃO ...................................................................................................................................... 137 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 139 ........................................................................... 128 ............................................................................................134 CAPÍTULO 07 Olhares sobre as juventudes no brasil 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 143 2 Perspectivas sobre a juventude ................................................................................................. 144 3 Adolescência e juventude: delimitando conceitos ................................................................. 148 4 Constituir-se jovem na sociedade contemporânea: paradigmas das políticas de juventude 5 Caminhos trilhados para o reconhecimento dos/das jovens como sujeitos de direitos ................................................................................................................ 162 CONCLUSÃO ......................................................................................................................................166 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 167 CAPÍTULO 08 A proteção integral e o racismo estrutural: uma análise sobre a naturalização do genocídio da juventude negra e a garantia do direito à vida 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................. 171 2 O racismo no brasil: um problema contemporâneo ............................................................... 172 2.1 Aspectos históricos relevantes do racismo no brasil ............................................................ 174 2.2 O racismo estrutural e suas formas de manifestações....................................................... 178 2.3 A democracia racial e suas manifestações na formação cultural no brasil ..............................................................................................................................180 3.0 O contexto da violação de direitos da juventude negra no brasil ................................. 182 3.1 A violação de direitos e violência contra a juventude negra ........................................... 183 3.2 A marginalização, as desigualdades e exclusão social da juventude negra .................188 3.3 A naturalização do genocídio da população negra a partir dos indicadores e a consequente banalização de direitos fundamentais 4. O direito fundamental à vida de jovens negros no marco teórico da proteção integral 4.1 Contextualização da proteção integral ............................................................................... 200 4.2. A proteção jurídica nacional e internacional ao direito à vida de jovens negros ........ 4.3. A necessidade do estabelecimento de ações estratégicas de políticas públicas de promoção do direito à vida de jovens negros, bem como do enfretamento ao racismo estrutural CONCLUSÃO ......................................................................................................................................209 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................................214 ............................................................................................................................................207 ........................................................................................................................................... 153 .............................................................. 192 203 ............................................................................................................................................... 195 CAPÍTULO 01 - Ativismo juvenil a partir do #ocupa tudo! o movimento de ocupação das escolas públicas no rio grande do sul André Viana Custódio1 Cristiano Lange dos Santos2 1 INTRODUÇÃO O presente artigo investiga a emergência dos processos de mobilização juvenil, com um recorte focado no ativismo, caracterizando-os como sujeitos de direitos capazes de intervir no processo histórico. Para tanto, a proposta é ter como recorte de pesquisa sobre o ativismo juvenil, o movimento #Ocupa Tudo!, com o objetivo de descrever as recentes ocupações de escolas públicas realizadas pelos estudantes secundaristas no Rio Grande do Sul, em 2016, que reclamavam melhores condições na rede 1 Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com Pós-Doutorado em Direito pela Universidade de Sevilha - Espanha, Coordenador Adjunto e Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Coordenador do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens (GRUPECA/UNISC) e Líder do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC). 2 Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) com doutorado sanduíche na Universidade de Burgos (UBU) na Espanha financiado pela CAPES. Colaborador Externo do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC. 11 12 Direitos de Juventude pública de educação. Destaque-se que o ativismo juvenil deve ser compreendido como um processo de construção de conhecimento, especialmente como prática de cidadania e experiências de politização do processo formativo, podendo ser organizados em mobilizações virtuais, ocupações de ruas, escolas, espaços públicos com a finalidade de contestar questões frente a contextos de insatisfação e, possivelmente, na tentativa de serem ouvidos e reconhecidos como sujeitos de direitos. É importante enfatizar que a visão predominante que se tem sobre a juventude é de que ela é individualista, despolitizada, desinteressada e romântica. A realidade é outra. A juventude está sedenta por participação, mas sua construção se faz de diferentes formas, seja no ativismo pelas redes sociais, compartilhando documentos, imagens ou simplesmente dividindo sua insatisfação com projetos contrários às causas mobilizadoras (ambientalismo, direito à cidade, racismo, homofobia, discriminação, preconceito, democracia direta). Nesse contexto, posteriormente, pretende-se apresentar algumas considerações sobre o movimento #Ocupa Tudo! à partir de percepções da vivência junto a algumas ocupações em escolas de Porto Alegre. O método de abordagem será dedutivo e o método de procedimento monográfico com técnicas de pesquisa bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica será realizada nas bases de dados das investigações publicadas em revistas e livros especializados sobre o tema do ativismo juvenil, e, a pesquisa documental examina-se os dados extraídos a partir de entrevistas junto a jornais considerados mais progressistas e de informações das páginas de redes sociais das escolas ocupadas, de maneira a apresentar algumas considerações iniciais sobre a importância dos eventos. O artigo está dividido em três momentos. No primeiro, apresenta-se as modalidades de mobilização e organização juvenil, examinando-se a “Revolta dos Pinguins” no Chile e as ocupações secundaristas no Brasil (2016) como sinônimos de ativismo juvenil. No segundo, explica o surgimento do movimento #Ocupa Tudo! que ocorreu no Rio Grande do Sul (2016), a fim de problematizar algumas pautas relacionadas ao direito à educação. No terceiro, expõe algumas observações sobre o movimento #Ocupa Tudo!, enquanto categoria dos novíssimos movimentos sociais, caracterizados pelo uso massivo das Tecnologias de Comunicação e Informação (TIC’S) em redes para organização, comunicação e mobilização das ações coletivas juvenis. 2 Juventude e o ativismo: algumas aproximações entre a “Revolta dos Pinguins” no Chile e as ocupações secundaristas no Brasil (2016) Pretende-se aqui desenvolver algumas considerações entre a juventude e o ativismo, de forma a inter-relacioná-lo à capacidade de mobilização e organização de alguns fenômenos recentes em termos de explosão participativa de transformação 13 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos reivindicativa social. É interessante destacar o enorme problema em definir essa concepção, até pela complexidade que a juventude representa para a sociedade. Adota-se aqui a perspectiva da juventude como uma categoria social, não se restringindo a faixas etárias nem a categorias específicas, mas sim como uma construção social fabricada pelos adultos. Por tal motivo que é sustentado não haver uma juventude apenas caracterizada de forma homogênea, mas as diversas formas de juventudes, de acordo com o espaço-tempo. Há a juventude do hip-hop, a juventude do skate, a juventude negra, a juventude indígena, enfim, cada juventude tem suas próprias características, demandas, culturas e, por essa razão, não seria adequado falar em juventude,mas sim, “juventudes” no plural. Uma abordagem dessa natureza permite identificar não uma única juventude, homogênea, mas juventudes no plural, além de possibilitar uma discussão a respeito das representações sociais a respeito dos jovens nestes tempos. Afinal, é preciso considerar que há diferentes formas de considerar os jovens, assim como há diferentes maneiras de eles se afirmarem como sujeitos, considerando, historicamente, a dependência à organização social e a instituições vigentes [...]. (ABRAMOVAY, CASTRO, 2006, p. 11) As “juventudes” têm sido atores estratégicos de transformação contemporânea. Para tanto, o texto parte de outras experiências como a “Revolta dos Pinguins”, até se chegar ao local, que é o #Ocupa 14 Direitos de Juventude Tudo! de modo a exemplificar essa característica contestatória dos jovens. Para Melucci (1996, p. 10) a juventude apresentou diversas práticas políticas nas últimas décadas, tendo sido um dos principais atores na onda de mobilização coletiva, permitindo-lhes reconhecimento e visibilidade nos conflitos contemporâneos. Em âmbito global as experiências da Primavera Árabe, Praça Tahrir, Ocupy Wall Street, e 15M, compostos pela sua maioria de jovens, são as expressões mais recentes do ativismo juvenil contra o capitalismo e a crise de representação política e econômica. (HERREROS, 2012, p. 139) No tocante à reivindicação de direitos, é interessante destacar o forte movimento pela educação pública ocorrida no Chile, em pleno auge da onda de protestos pelo mundo. Os estudantes chilenos demandavam soluções aos problemas relativos ao transporte e à alimentação escolar, à seleção universitária e a conteúdos curriculares. Requeriam também mudar a Lei Orgânica Constitucional da Educação – criada na ditadura militar - a erradicação do lucro na educação e o asseguramento de educação de qualidade por parte do Estado em todos os níveis curriculares e extratos socioeconómicos. (VALDERRAMA, 2013, p. 124) Tratava-se de uma pauta “antimercado”, tendo como centralidade a defesa da educação pública de qualidade, movimento que já havia sido iniciado em 2006 pelos estudantes secundaristas contra o modelo neoliberal e os profundos impactos causados pelo processo de privatização da educação a partir de 1981, 15 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos na época da ditadura civil militar de Pinochet. Esse movimento ficou conhecido como a Revolta dos Pinguins (“Pingüinazo”, “Revolución de los Pingüinos” ou “Rebelión de los Pingüinos”), intitulado pelos próprios estudantes que se autodenominavam de “pinguins”, em razão do seu tradicional uniforme escolar composto do azul escuro e branco. O movimento estudantil altamente organizado, o que fez com que resistisse por aproximadamente seis meses, repertórios como greves, ocupações físicas de instituições educacionais, marchas e protestos, foram algumas das estratégias utilizadas pelos estudantes chilenos para dar visibilidade ao movimento. Para Toso (2012), o movimento estudantil em termos de resultado não alcançou o êxito desejado, no plano reivindicativo para barrar as reformas educacionais que queriam entregar os serviços ao mercado privado da educação no Chile. Mas, em contrapartida, obteve enorme êxito de maneira a gerar a agenda pública necessária para recolocar o tema da educação pública como prioridade no debate nacional. Mas o mais interessante sobre o movimento foi Su alto nivel de organización, la aparente horizontalidad y falta de tutelaje político, la rapidez en la toma de decisiones, la organización en comisiones de trabajo local y las grandes asambleas a nivel nacional, fueron elementos que dejaron pasmada a una institucionalidad política que se había acostumbrado a negociar con una estructura más tradicional. (VALDERRAMA, 2013, p. 125) 16 Direitos de Juventude Denota-se tratar de estratégias muito semelhantes às utilizadas nas ocupações em São Paulo (2016) e reproduzida nos demais estados, sobretudo no Rio Grande do Sul. Aliás, tanto que, segundo os próprios estudantes secundaristas, foi o movimento estudantil chileno que os inspiraram para ocupar as escolas em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Da mesma forma, cabe ressaltar que as mobilizações foram desenvolvidas a partir das redes sociais, permitindo uma atuação política nos espaços da internet, agrupando e reunindo pessoas que se identificavam e se interessavam com as causas em jogo. Por tal razão, os novíssimos movimentos sociais compostos na sua maioria por jovens da geração Y, preferem a informação e a participação mais diretas, interativas e acessíveis, eliminando a intermediação. Essas formas são imediatas e convertem cada receptor em emissor potencial, salvando a unidirecionalidade da informação e os desníveis de poder dos meios tradicionais. Pretendem, portanto, “transformar o Estado, mas não se apoderar dele”. (CASTELLS, 2013, p. 165) E de fato, a “Revolta dos Pinguins” foi um levante paradigmático para a América Latina, como se perceberá posteriormente a sua importância enquanto gênese que serviu de inspiração para os movimentos do Ocupa Escola e Ocupa Tudo no Brasil (2016). 17 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos 3 O direito à educação pública de qualidade e o movimento #Ocupa Tudo! a ocupação de escolas no Rio Grande do Sul como reivindicação primária do movimento juvenil Pretende-se, nesse tópico, apresentar algumas observações sobre o movimento #Ocupa Tudo! conjugando esses elementos com base em entrevistas a jornais de jovens secundaristas que participaram do movimento, assim como das percepções encontradas nos momentos com os quais se acompanhou o cotidiano do movimento junto a vivências em dois finais de semana nas escolas ocupadas. Vale registrar também o uso de matérias jornalísticas como fonte de pesquisa para complementar as percepções e exemplificar as vivências dos jovens envolvidos nas ocupações, que é o objeto de análise no artigo. Depois da enorme repercussão que as ocupações promovidas pelos estudantes secundaristas das escolas públicas de São Paulo tiveram sobre as relações da juventude com a escola, e a reivindicação pelo direito à educação de qualidade, percebeu-se a enorme capacidade de mobilização e organização que esse segmento apresentou. As ocupações duraram 41 dias no Rio Grande do Sul. Foram ocupadas mais de 160 instituições em todo o estado, números que foram contestados pela Secretaria de Educação (SEDUC), que teria contabilizado em torno de 120 instituições. Aliás, a relação entre o movimento e o governo foi complexa, desde o princípio da ocupação, tentando desconstituí- 18 Direitos de Juventude lo da legitimidade necessária, além de tratar os estudantes como “massa de manobra” de “grupos políticos e sindicais” nas ocupações das escolas públicas. (SARTORI, 2016) Após a ocupação, o Sindicato dos Professores, em assembleia geral, decide decretar estado de greve, o que agrava ainda mais a situação de precarização da educação pública no estado. Destaque-se que a relação entre o movimento #Ocupa Tudo! e o governo sempre foi conflituosa, uma vez que os jovens acusaram o governo de não querer dialogar, enquanto o governo alegava “estar negociando”, mas sempre cogitando recorrer à justiça para a desocupação das escolas. Nesse período, o episódio mais marcante foi a desocupação policial de estudantes que se encontravam na Secretaria da Fazenda do Estado (SEFAZ), sem decisão judicial que a autorizasse, excedendo ao direito legítimo e fazendo o uso da força de forma desproporcional contra os jovens, professores e jornalistas que cobriam o fato. Ou seja, a Brigada Militar “retirou” à força os jovens que ocupavam a Secretaria da Fazenda, tratando-os como se fossem objetos tuteláveis e não como sujeitos de direitos. (APÓS, 2016) Mais uma vez, houve um esforço por parte do governo e da mídia conservadora, na tentativade criminalizar esse movimento juvenil ao tratá-los como caso de polícia, ao ponto extremo de encaminhar trinta e três adolescentes à Delegacia Especializada da Criança e Adolescente (DECA) para averiguações, quando na realidade tratava-se de uma questão de política (políticas públicas educacionais). 19 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos Vale dizer que nesse processo de ocupação, resta claro a reivindicação dos estudantes quanto ao direito à palavra, à expressão (falar e ser ouvido), no que diz respeito às políticas com as quais estão envolvidos. Mais uma vez, percebe-se haver a percepção de uma visão “adultocêntrica” sobre a juventude, na medida em que ela sequer é consultada sobre temas do seu próprio interesse e, quando são convidados a participar, suas opiniões são, na maioria das vezes, desconsideradas ou simplesmente tuteladas por adultos. Por tal motivo, a ocupação foi uma espécie de resposta a essas situações. É interessante frisar que as ocupações se tornaram uma das práticas mais recorrentes dos movimentos sociais como forma de ganhar visibilidade nos últimos anos. Ocupar significa representar física ou simbolicamente uma forma de protesto. Harvey (2012, p. 61) refere a importância do ocupar, a quem “ela mostra como o poder coletivo de corpos no espaço público continua sendo o instrumento mais efetivo de oposição quando o acesso a todos os outros meios está bloqueado”. A ocupação como forma de ação disruptiva é considerada ilegal, ilegítima e radical pela opinião pública, fazendo com que o movimento sofra um processo de criminalização e desqualificação em decorrência desse ato. Ainda assim, trata-se de uma estratégia eficaz em termos de visibilidade no debate público e inserção na agenda política. Nesse sentido, é importante ressaltar que foi somente com as ocupações de terras, realizado de forma coordenada e articulada, que o Movimento Sem-Terra (MST) ganhou 20 Direitos de Juventude notoriedade, vindo a se tornar o maior movimento popular do Brasil nos anos 1990 com relação ao projeto de luta pela reforma agrária. (GOHN, 1997, p. 315) Desse modo, o movimento #Ocupa Tudo! foi uma rede de solidariedade às ocupações no RS. Os atos se multiplicaram, de maneira que essa juventude teve de criar o Centro de Escolas Independentes (CEI) para servir de ferramenta articuladora entre as ocupações. Esse grupo foi responsável pela organização de diversos atos presenciais em locais estratégicos de Porto Alegre, com a finalidade de ganhar visibilidade às lutas do Comitê Independente. Trata-se de um processo inédito em termos de auto-organização juvenil, sem parâmetros de análise, considerando que a maioria das iniciativas de ocupar as escolas partiu dos próprios estudantes. As ocupações tinham como pautas principais: i) melhores condições de infraestrutura; ii) garantia da qualidade e gratuidade do ensino público e a valorização do trabalho docente; iii) contrariedade ao PL n. 44/2016, que dispõe sobre a qualificação de entidades como organizações sociais, ao permitir repassar parte dos serviços públicos, até mesmo a educação, às organizações sociais e instituições privadas sem fins lucrativos; iv) contrariedade ao PL n. 190/2015 (Escola sem Partido). Isso denota que a ação do movimento juvenil reivindicava o direito à educação pública de qualidade, exigindo tais demandas por parte do Estado como um todo, sem esquecer a individualização de problemas específicos enfrentados por algumas escolas. Está, portanto, a se falar de uma ação legítima 21 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos protagonizada exclusivamente pela juventude, com recorte de estudantes secundaristas de instituições de ensino público, que são os beneficiários desse direito, o que, por sua vez, precisam ser sujeitos participantes do processo de construção das políticas públicas. A fragilidade dos investimentos na área educacional vem a confirmar a falta de compromisso político em políticas públicas que garantam uma educação de qualidade a fim de efetivamente realizar a transformação social. Logo, as pautas reivindicatórias apresentadas pelos estudantes secundaristas são legítimas e perfeitamente passíveis de reconhecimento, uma vez que estão garantidas em âmbito constitucional, razão pela qual devem ser prestadas com o básico de atenção e qualidade por parte do Estado. Do mesmo modo, é importante mencionar o reconhecimento referendado pelo Conselho Estadual de Direitos da Criança e Adolescentes (CEDICA), por meio de nota pública, como um movimento pacífico e legítimo que reivindica um direito assegurado constitucionalmente. Para o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do Rio Grande do Sul, a criança e o adolescente tem assegurado seu direito à participação e a exercerem sua cidadania de forma a protagonizar, com liberdade e respeito; e também que as reivindicações dos/as alunos/as nas ocupações das escolas são justas porque se insurgem contra o sucateamento das escolas, a precarização da infraestrutura, a falta e a qualidade da merenda escolar, a falta de professores/as, a inadequação 22 Direitos de Juventude por vezes presente do sistema educacional que não encontra sintonia com os fins a que se destina. Por outro lado, as ocupações se transmudaram em um ato político que gerou novas sociabilidades àqueles jovens, alterando suas percepções e compreensões sobre a importância do fazer político na transformação da sociedade. Percebe-se, ao longo do processo de ocupação, que houve uma crescente politização por parte desses atores juvenis, reconhecendo-se como efetivos sujeitos de direitos, com poderes de reivindicar demandas por participação, reconhecimento e por direitos garantidos constitucionalmente. Houve também um enorme amadurecimento nesse período que compreendeu a ocupação. Algumas experiências demonstram claramente esse processo, como por exemplo, a ocupação da escola Adelino Simões em Passo Fundo, com a promoção das rodas de conversa sobre relacionamentos abusivos e possessivos, perpassando por questões envolvendo o conteúdo escolar, mas também abordando temas controversos enfrentados no seu dia a dia. (WEISSHEIMER...,2016) Percebe-se que o movimento #Ocupa Tudo! transformou o ambiente escolar em um espaço de identidade entre os jovens, ao promover o diálogo entre eles e com outras pessoas, conforme a sua própria linguagem e expressões, enfrentando temas que lhes interessam no cotidiano, mas que não são normalmente abordados na escola. 23 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos 4 Características do movimento #Ocupa Tudo! Uma percepção inconclusa Para além das características já apresentadas pelos novíssimos movimentos sociais, como a horizontalidade, autonomia e autorreflexão (CASTELLS, 2013), frente às complexidades de análise desses movimentos, vale depreender outras características específicas que foram reveladas pelo movimento #Ocupa Tudo! no período que compreendeu as ocupações das instituições públicas no Estado do Rio Grande do Sul. As ocupações tinham pautas comuns, o que demonstra a organização interna entre elas, como forma de delimitação da ação coletiva, mas também pautas específicas, individualizadas, o que expressa o reconhecimento à individualização das necessidades de cada escola. Havia pautas gerais, ainda que bem definidas, como: a) melhores condições de infraestrutura; b) garantia da qualidade e gratuidade do ensino público e a valorização do trabalho docente; c) contrariedade ao PL n. 44/2016, que dispõe sobre a qualificação de entidades como organizações sociais, ao permitir repassar parte dos serviços públicos, até mesmo a educação, às organizações sociais e instituições privadas sem fins lucrativos; d) contrariedade ao PL n. 190/2015 (Escola sem Partido). Mas também havia pautas específicas de acordo com as necessidades de cada instituição ocupada, comose percebe: No Julinho, (são pautas específicas) o fechamento de turmas, a falta de 24 Direitos de Juventude professores, a elétrica da escola, a recuperação de partes da escola que foram fechadas por causa das chuvas, pelo fato de que podia, a qualquer momento, despencar, então o pessoal não podia transitar por ali. (HAUBRICH, 2016) A completa autonomia de cada escola sobre o movimento #Ocupa Tudo! vem desmontar qualquer possibilidade sobre a intervenção de estruturas burocratizadas (partidos políticos, sindicatos ou entidades governamentais), que influenciasse ou impusesse um direcionamento nas tomadas de decisão dos rumos da ação coletiva promovida por esses jovens. O que também não significa, por outro lado, a existência do apoio de entidades formais representativas de estudantes como a UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), UNE (União Nacional de Estudantes) e UMESPA (União Metropolitana de Estudantes Secundaristas de Porto Alegre) para fortalecer o movimento. Nesse sentido, “vínhamos pensando em uma ocupação desde o início do ano, não tínhamos porque esperar um movimento da UBES ou de qualquer outra entidade”. (FARINA; SCIREA, 2016). E corroborado pela entrevista de que “O movimento de cada escola é independente, mas os grêmios se uniram para trocar experiências e ampliar o movimento”. (FARINA; SCIREA, 2016) Vale dizer que houve uma completa independência interna do movimento, uma vez que promoveram a ocupação autonomamente, auto-organizando-se com o fim específico de reivindicar o direito à educação pública de qualidade. 25 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos A auto-organização, inclusive com a definição de tarefas definidas a cada jovem participante da ocupação, é realizada localmente, de forma que cada escola ocupada tenha independência no seu cronograma de atividades, mas sempre conectada com as demais no sentido do acompanhamento da definição das lutas. Como tu disse, é pelas comissões. Tem a comissão da comida, tem a comissão da segurança, tem a comissão das atividades, tem a comissão da comunicação e tem a comissão do cartaz. São essas. A das atividades é a que marca as atividades que vão ocorrer dentro da ocupação. Tudo o que a gente decide aqui é por assembleia, todo mundo junto. Então vai marcar uma atividade, aí pergunta “pessoal, vocês querem?”. Aí a segurança…é dividido por horários na comissão, de três em três horas. De noite, de madrugada, a gente faz ronda pelo prédio, pela escola toda. Comida, tem horário para almoço, tem horário para tudo. Aí sempre nesse horário estabelecido o pessoal da comissão de comida vai lá, faz a comida e no tal horário já tem que estar pronto. O pessoal do cartaz, tudo o que é cartaz eles fazem. Ou a gente também, se tem vontade de fazer algum cartaz, faz, ou dá alguma ideia para eles. O pessoal da comunicação: evento que a gente cria, notas, a nossa página, tudo é o pessoal da comunicação que mexe. (HAUBRICH, 2016) Participação de pais é considerado um elemento positivo e essa característica foi fundamental para o sucesso das ocupações, uma vez que estabeleceu uma aprovação à ação desses jovens, ampliando a correlação de parceria entre eles, seus pais e professores em nome do direito à educação. 26 Direitos de Juventude Tive orgulho. Quando ela se envolve com alguma coisa ela vai de cabeça. E aí, me restou a preocupação normal de um pai. Busquei me informar como seria a ocupação, a segurança dos alunos e alimentação no tempo em que ficariam lá. Acho que está fazendo bem para ela. É uma maneira de crescer. (FARINA; SCIREA, 2016) Tem pais que apoiam, e tem pais que não apoiam. Do mesmo jeito os professores, tem professores que não apoiam e tem professores que apoiam. Tem pais e professores que dormem aqui com a gente, sabe? Como tem pais e professores que também não deixam os filhos virem. (HAUBRICH, 2016) O apoio e mobilização da comunidade, de forma a participar com aulas, encontros, doações de alimentos e colchões e representativo do reconhecimento da sociedade pela causa, com demonstração de apoio e participação ativa, oferecendo aulas e promovendo atividades nas instituições ocupadas, além de doações de alimentos, colchões e outros utensílios necessários à permanência dos jovens na escola. Criou-se até um sistema virtual chamado “Doe uma aula” para apoiar os estudantes das escolas ocupadas, oferecendo-se aulas, cursos ou atividade culturais que pudessem complementar as atividades nas instituições ocupadas. De outro modo, é importante deixar claro que também houve reprovação, por parte das mídias convencionais e da sociedade, com o discurso de aproveitamento da juventude para desgastar o governo do estado. No começo, quando explodiu isso, a gente 27 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos recebeu muito, muito, muito apoio. Eu consigo perceber isso pela quantidade de gente que vem pra cá, a quantidade de gente que se disponibiliza para nos ajudar. Agora eu acho que vem se desgastando mais por causa do tempo em que a gente tá ocupando. Menos gente, menos doação, mas também tem os ataques que a gente tá recebendo do governo. Diversos ataques que estão bem fortes. (HAUBRICH, 2016) O uso recorrente das Tecnologias de Comunicação e Informação (TIC’S) em redes para organização, comunicação e mobilização das ações coletivas juvenis, resultado de um mundo altamente conectado em rede e assim os movimentos se organizam de forma rápida e instantânea, por meio de estratégias e práticas. Diferentemente do que se pregou sobre o ciberespaço há alguns anos, hoje a internet não é uma esfera separada da vida; ao contrário, ela está diretamente relacionada à cultura da nova geração, que não sabe identificar onde começa o real e termina o virtual, na medida em que ambas se confundem. (SHIRKY, 2011, p. 37) A internet é a própria vida real, uma vez que os smartphones conectados a uma rede 4G são uma realidade. Isso permitiu revolucionar a informação, já que os usuários deixaram de ser apenas consumidores para se transformar em produtores de informação, de modo que cada ator interligado à rede pode ser um canal informativo independente. (SHIRKY, 2011, p. 37) O rompimento da unidirecionalidade da informação fornece a cada sujeito o poder de comunicação, não mais separando o emissor do 28 Direitos de Juventude receptor, mas permitindo que cada um possa ser um canal independente da informação, o que potencializa ainda mais o ativismo dos jovens na medida que eles cada vez mais dominam a linguagem tecnológica. A internet tem nos ajudado muito. A gente faz grupos […] Nos ajuda muito, muito mesmo. Por exemplo, escolas metropolitanas, que a gente não tem acesso fácil aqui, se a gente consegue contato com eles a gente já consegue chamar eles para um ato. A gente coloca eles no grupo, a gente faz grupos, conversa, passa contato para os outros, Whatsapp principalmente. (HAUBRICH, 2016) Esses dados são fundamentais para entender como as ocupações foram, em curtíssimo espaço de tempo, mobilizadas e organizadas pelos jovens. A ampliação da correlação de solidariedade entre as escolas ocupadas, com interação constante das questões afetas à organização, manutenção e estrutura da programação das ocupações demonstra a enorme capacidade de socialização entre os jovens, derrubando a perspectiva de que são sujeitos individualistas. A sempre mantém contato. A gente tem assembleias, a gente faz votação do que a gente quer ou não, a gente tem contato de todo mundo, a gente tem contato com muita escola, muita, a maioria, principalmente as centrais, sempre mantêm contato. Qualquer decisão que a gente vá ter, de sair pra rua, a gente consegue esses contatos, conversa, convoca uma assembleia, e aí decide todo mundo junto. (HAUBRICH, 2016) 29 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos O Movimento#Ocupa Tudo! é resultado de outras mobilizações,conquanto alguns dos seus atores participaram das “jornadas de junho” em 2013, vindo a se inspirar também em movimentos recentes, como o Ocupa Sampa e a Revolta dos Pinguins no Chile. Ou seja, participaram ou acompanharam o desenvolvimento desse fenômeno que ganhou as ruas. Tanto que, embora sejam em territórios locais distintos, há inúmeros pontos em comum entre as manifestações. Logo, eles não desaparecem da cena, mas, ao contrário, aparecem e evoluem sempre que se apresentem as oportunidades e as identidades coletivas. Mesmo que as “Jornadas de Junho” não tenham deixado um saldo positivo concreto em termos de resultados práticos como a aprovação do Passe Livre, da Reforma Política e melhoria nas políticas educacionais e de saúde, ele deixou o legado simbólico de que o ativismo e a mobilização social passam a confiança de que a transformação social é possível. Sim, com certeza, inspirou bastante. A gente achou um movimento muito lindo o que eles fizeram lá pra fora, a gente até conversou com um guri que estava ocupando uma escola lá de São Paulo. Ele conversou bastante com a gente e deu até algumas ideias pra nós e alguns toques pra nós, pra nos articularmos melhor. (HAUBRICH, 2016) Para Melucci (2001, p. 27) “a ação coletiva, pelo fato de existir com sua própria forma e os próprios modelos de organização, representa uma mensagem enviada para o resto da sociedade”. E de fato, a mensagem 30 Direitos de Juventude enviada pela juventude secundarista que ocupou as escolas designa a importância com que ela tratou a escola, enquanto coisa pública de responsabilidade de todos, mas principalmente a preocupação que eles tiveram em cuidar desse espaço, demonstrando o valor em prestar uma educação pública de qualidade para a sociedade. Os atores juvenis se apresentam, portanto, como fundamentais, na medida em que inovam nos repertórios abusando de uma linguagem tecnológica, criativa e, sobretudo, que dialoga com os outros jovens, de maneira a assumir a mensagem de que o engajamento coletivo pode trazer resultados. CONCLUSÃO A ocupação de mais de 160 escolas da rede pública de ensino no Estado do Rio Grande do Sul em 2016 pela juventude, reivindicando pautas bem definidas, é um feito memorável em termos de ativismo. Trata-se de um momento histórico, na medida em que a mobilização foi protagonizada por jovens entre 13 e 18 anos. O movimento #Ocupa Tudo! demonstrou a potência de articulação em redes por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s), o que representa uma nova forma de mobilização e organização. A juventude que ocupou as escolas se fortaleceu enquanto sujeitos de direitos, para garantir o direito à participação (falar e ser ouvido), reivindicando o direito à educação pública de qualidade. O movimento #Ocupa Tudo! vem reforçar o pleito 31 André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos dos estudantes secundaristas à participação que envolve a sua escola, desde a organização das suas funções até a escolha do núcleo de coordenação. Enfim, ele acaba por trazer o direito à participação, como expressão significativa da dimensão democrática. Para além dos problemas com relação à gestão democrática das escolas, as ocupações demonstraram o quanto os estudantes estão dispostos a discutir outro modelo escolar, no qual o diálogo aberto, franco e livre sobre temas como machismo, racismo, transfobia, homofobia, liberdade sexual e de gênero, assim como qualquer outra forma de opressão, sejam realidade. Ou seja, querem uma educação de qualidade, mas também escolas libertadoras, razão pela qual são contrários ao PL n. 190/2015 (Escola sem Partido), com a consciência de que a pluralidade é resultado da diferença e diversidade. É, portanto, possível pensar em duas perspectivas: a subjetiva, tendo a juventude que ocupou as escolas da rede pública firmado sua identidade com o ativismo; e a objetiva, na medida em que é passado a mensagem de que é possível lutar pelas causas que acreditam. E mais, transcendem valores importantes aos demais, como a solidariedade, a democracia direta sem intermediários, cuidado intergeracional, já que a luta perpassa ao momento presente, vindo a se projetar para as próximas gerações. E mais do que isso, as ocupações desconstruíram a falsa ideia de que a juventude é apática, consumista e individualista, demonstrando-se exatamente o contrário: que essas juventudes estão cada vez 32 Direitos de Juventude mais participativas e atuantes no cenário das transformações sociais. Nesse sentido, o #Ocupa Tudo! é em parte resultado dos movimentos anteriores, independentemente de onde eles se localizaram, como a “Revolta dos Pinguins”, “Jornadas de Junho” e a “Ocupação de São Paulo”, apenas para constar os mais recentes, ficando a mensagem de que a luta para as juventudes sempre vale a pena. REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, Miriam; CASTRO, Mary Garcia (Orgs.). Juventude, Juventudes: o que une e o que separa. Brasília: Unesco, 2006. 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O objetivo geral é refletir sobre os motivos que conduzem os jovens à eco ansiedade, levando em conta que a lógica do capital reafirma uma ideologia dominante e direciona as discussões sobre meio ambiente para a continuação da produção de mercadorias, de forma que os interesses econômicos são priorizados em detrimento das pessoas, o que impede importantes processos de socialização, 1 Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) com doutorado sanduíche na Universidade de Burgos (UBU) na Espanha financiado pela CAPES. Colaborador Externo do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC. 2 Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande, Doutoranda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul. Integrante do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC. Advogada. 36 Direitos de Juventude especialmente os relacionados aos jovens. O problema definido é: de que forma a juventude brasileira é influenciada a construir seu modo de vida, relacionado com o seu sentimento de envolvimento nos processos de apreensão da realidade e de percepção da capacidade de nela intervir para transformá-la, com relação à questão ambiental? A hipótese suscitada para responder ao problema é a de que é necessário trazer o tema das ambientais e das mudanças climáticas para o cotidiano dos jovens, através do engajamento de escolas, universidades, coletivos, Estado e de toda a sociedade baseado na solidariedade humana, já que a juventude constitui importante ator para a mudança da realidade. Dessa maneira, a investigação foi dividida em duas partes. Primeiramente é realizado um breve panorama da atual crise ambiental, mediante análise das normas que reconhecem o meio ambiente como patrimônio público e do cenário de degradação ambiental que se apresenta. E, posteriormente, é analisado o papel desempenhado pela ansiedade climática ou eco ansiedade na realidade da juventude brasileira e as suas consequências. O método de abordagem será dedutivo e o método de procedimento monográfico, com técnicas de pesquisa bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica será realizada nas bases de dados das investigações publicadas em revistas e livros especializados sobre o tema, e, a pesquisa documental examina os dados extraídos nos portais da Secretaria Nacional de Juventude, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Nacional 37 Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga de Pesquisas Espaciais (INPE). 2 A crise ambiental: o meio ambiente como patrimônio público A produção e a reprodução do espaço possuem uma dimensão socializadora para os jovens, na medida em que o território é normalmente aceito como um destino na efetivação do desenvolvimento sustentável, que se dá do local ao global e diante de uma delicada relação entre ações individuais e coletivas. No Brasil, a Política Nacional do Meio Ambiente, criada em 1981 através da Lei nº. 6.938 de 31 de agosto de 1981 visa a harmonizar e compatibilizar meio ambiente e desenvolvimento econômico através da preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando a assegurar condições ao desenvolvimento socioeconômico e à proteção da dignidade da vida humana no Brasil (BRASIL, 1981). Assim, o meio ambiente é um patrimônio público, que gera direitos e deveres para todos. A Constituição Federal, de 5 de outubro de 1988, dedicou o sexto capítulo ao meio ambiente e prevê no art. 225 o dever do Poder Público e da coletividade de preservá-lo para as presentes e futuras gerações: Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações. (BRASIL, 1988) 38 Direitos de Juventude No entanto, a lógica do capital reafirma uma ideologia dominante que direciona as discussões sobre meio ambiente para a continuação da produção de mercadorias, os interesses econômicos são priorizados em detrimento das pessoas, o que impede importantes processos de socialização, especialmente os relacionados aos jovens, tendo em vista o recorte temático do presente estudo. Assim, as relações entre a sociedade e a natureza implicam o estudo da produção e da reprodução do espaço em sua complexidade, de forma que Rodrigues sugere uma mudança paradigmática que [...] permitiria entender que a crise ambiental decorre do sucesso do modo de produção que prova, contraditoriamente, problemas sociais e ambientais. Auxiliaria compreender o processo de produção de mercadorias e desvendar causas e agentes da poluição do ar, do solo, das águas, bem como desmatamentos e da perda da bio e da sociodiversidades. Instrumentais analíticos adequados contribuiriam para a compreensão de que a crise não é do modo de produção, mas sim provocada por ele. A manutenção do paradigma implica atribuir a origem dos problemas ao consumo e aos consumidores, sem apontar o sucesso do modo de produção, que continua a produzir mais e mais mercadorias e a obsolescência programada. (2020, p. 210) Chesnais e Serfati defendem que a crise ambiental representa uma crise para a humanidade, para a civilização humana, e que os efeitos dessa crise são produto do capitalismo, ou seja, é uma crise decorrente do modo de produção capitalista (2003, 39 Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga p. 04), sendo assim, o meio ambiente passa a ser o tema que “obscurece a realidade da crise. O saber competente está sendo guiado pelos organismos internacionais de financiamento e a colonização do inconsciente atinge a academia e não apenas os não letrados” (RODRIGUES, 2020, p. 211). Tomemos o exemplo da transformação das devastações da natureza em campos de valorização do capital portador de rendimentos para os acionistas. A denúncia dos desastres pelos relatórios dos peritos científicos, as associações ecológicas, os movimentos de resistência das populações diretamente concernidas levaram os governos e as organizações internacionais a se preocupar com essa questão. Eles o fizeram com a preocupação de permitir que a acumulação do capital rentista e o modo de consumo fundado na destruição ecológica prosseguissem. Assim, as políticas neoliberais enfatizaram a criação de mercados financeiros especializados, cujo objeto é a imposição de direitos de propriedade sobre elementos vitais como o ar, mas tambéma biosfera enquanto tal. Eles devem deixar de ser “bens livres” e tornar-se “esferas de valorização” fundadas pela instauração de direitos de propriedade de um tipo novo (os “direitos de poluir”) e de “mercados ad hoc. [...] A natureza adquire o estatuto de um “fator de produção”, ela se torna um “capital natural” cuja combinação com os outros fatores, o trabalho e o capital físico, permite o crescimento. (CHESNAIS; SERFATI, 2003, p. 21) Ao adquirir o status de fator de produção, a natureza acaba proporcionando um novo campo de acumulação de riqueza, o qual é abastecido pela destruição acelerada dos recursos naturais. Exemplo disso é a empresa Amazon, multinacinal 40 Direitos de Juventude de tecnlogocia norte-americana com sede em Seattle, Washington, que cresceu consideravelmente nas últimas décadas e é uma das grandes empresas de tecnologia do mundo, entretanto, no século em que a questão ambiental se mostra uma preocupação real e urgente, produz sozinha uma quantidade extravagante de lixo plástico. Um relatório publicado em dezembro de 2020 pela Oceana, organização sem fins lucrativos destinada à conservação oceânica, estima que apenas no ano 2019, a Amazon gerou resíduos de embalagens plásticas suficientes para circundar o planeta terra 500 vezes, além disso o equivalente a uma van de entrega de sua embalagem de plástico polui os ecossistemas de água doce e marinho do mundo a cada 70 minutos (OCEANA, 2020). Esse modelo de desenvolvimento se choca com a capacidade limitada do espaço planetário e dos recursos disponíveis, de maneira que se revelam os efeitos devastadores da presença predatória da espécie humana. E, embora haja constatação e compreensão praticamente unânime da necessidade de novas atitudes, medidas realmente efetivas têm sido relegadas. Em 1992, o Rio de Janeiro sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, popularmente conhecida como ECO-92. Foi a segunda grande reunião das Nações Unidas sobre o meio ambiente e reuniu 178 Estados- nação. A conferência teve como resultado a Convenção sobre Mudanças Climáticas, a Convenção sobre a Diversidade Biológica, a Declaração do Rio, a Declaração sobre Florestas e a Agenda XXI. Contudo, 41 Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga desde então o Brasil vem aumentando a emissão de carbono ano a ano, nos últimos 10 anos, embora realmente tenha reduzido em 2020 em razão da pandemia (SANTOS, 2021, p. 176). Vinte anos após, o Protocolo de Kyoto, primeiro tratado internacional para controle da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, assinado durante a 3ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em Kyoto, no Japão, em 1997, não se obteve o resultado prometido, e, a despeito de todo proselitismo climático, da legislação e do progresso na produção de energia verde, foram geradas mais emissões do que nos vinte anos anteriores. Em 2016, os acordos de Paris estabeleceram 2ºC como uma meta global, sendo que esse nível de aquecimento presenta um cenário assustador, entretanto cinco anos depois nenhuma nação industrial parece a caminho de cumprir as promessas feitas em Paris (WALLACE-WELLS, 2019, p. 13-15). O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) das Nações Unidas apresenta avaliações sobre o estado do planeta e a trajetória provável da mudança climática: Um novo relatório é esperado para 2022, mas o mais recente afirma que tomando logo uma atitude sobre as emissões de carbono e instituindo imediatamente os compromissos feitos, mas ainda não implementados, nos acordos de Paris, é provável que cheguemos a 3,2ºC de aquecimento, ou cerca de três vezes o aquecimento do planeta desde o início da industrialização — trazendo o impensável colapso das calotas polares não só ao plano 42 Direitos de Juventude da realidade, mas à realidade presente. Com isso ficariam inundadas não só Miami e Daca, como também Xangai e Hong Kong, além de uma centena de outras cidades pelo mundo todo. Acredita-se que o ponto de virada desse colapso sejam os 2ºC, mais ou menos; segundo diversos estudos recentes, mesmo a rápida interrupção das emissões de carbono ocasionaria um aquecimento nesse patamar até o fim do século. (WALLACE-WELLS, 2019, p. 15) As mudanças climáticas e os impactos ambientais estão também relacionadas com uma possível recorrência de pandemias e sua crescente virulência, sendo assim, a Covid-19 pode ser um elo de sequências e contingências em uma cadeia que se estenderá para o futuro se as condições até aqui abordadas persistirem, como destaca Santos ao abordar a pandemia atual, “quando eventualmente conseguirmos vencer ou aprender a conviver com este surto, teremos de nos preocupar com o próximo. E nada nos garante que não se sobreponham. A não ser que consigamos mudar algo no nosso ‘normal’ (2021, p. 177). No Brasil, em que pese tenha ocorrido a redução da emissão de carbono em 2020 em razão das medidas de restrição decorrentes da pandemia de Covid-19, a qual, em contrapartida, resultou em 1.202km² da Amazônia deflorestados apenas nos primeiros meses do mesmo ano, sendo que, entre 2018 e 2019, despareceram 9.761 km² de cobertura florestal da Amazônia – dado que já alarmava em razão do crescimento considerável da taxa de destruição da Floresta Amazônica nos últimos anos (INPE, 2021). 43 Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga Assim, a crise ambiental está muito mais próxima do imaginado nas últimas décadas, não é algo atingirá diretamente apenas as próximas gerações, é uma questão que urge no presente. A vida social das pessoas e o desenvolvimento econômico devem ser pensados sob a perspectiva da emergência climática. Os jovens latino-americanos merecem especial atenção, afinal constituem 37% da população da região, consistindo em os maiores agentes de mudanças em potencial, pois “têm uma disposição maior do que qualquer outro setor social para se comprometer com causas nobres, com ideias, com desafios coletivos” (SEN; KLIKSBERG, 2010, p. 212). De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2021, os jovens entre 15 e 29 anos correspondem a 23% da população brasileira, somando mais de 47 milhões de pessoas (IBGE, 2021). E, se os jovens representam a esperança de um futuro melhor e se constituem em importantes atores para isso, bem como se o meio ambiente é considerado bem comum da humanidade, devendo ser preservado para as gerações futuras, é relevante a abordagem da ansiedade climática ou eco ansiedade verificada entre aqueles. 3 Jovens: consumidores ou mercadoria? Certamente essas suscetibilidades ambientais, políticas e sociais abarcam os jovens, os quais são peças importantes para a construção de um futuro melhor diante da citada crise. Os fatos têm colocado a sociedade diante 44 Direitos de Juventude da gravidade da questão climática e a desafiado a repensar a vida social e a economia, de forma a ajustá-las ao ambiente natural. Bem-estar humano e sustentabilidade ambiental estão entrelaçados: E aqui está o problema. A jornada da humanidade através do século XXI será conduzida pelos responsáveis por políticas, empreendedores, professores, jornalistas, líderes comunitários, ativistas e eleitores que estão sendo educados hoje. Mas a esses cidadãos de 2050 está sendo ensinada uma mentalidade econômica enraizada nos manuais de 1950, que por sua vez têm suas raízes nas teorias de 1850. Dada a natureza rapidamente mutável do século XXI, isso está tomando a forma de um desastre. (...) O contexto do século XXI exige que explicitemos esses pressupostos e tornemos esses pontos cegos visíveis, para que possamos, mais uma vez, repensar a economia. (RAWORTH, 2019, p. 15) No entanto, a abordagem da realidade tem sido feita de forma distorcida, uma vez que ao mesmo tempo em que oculta os verdadeirosresponsáveis pelos problemas (aqueles que se apropriam e são proprietários dos meios de produção, da terra e das riquezas, como o exemplo da empresa Amazon), atribui a responsabilidade aos consumidores, individualmente considerados, ofuscando a essência da desigualdade e permitindo a continuidade da produção de mercadorias que garante a apropriação de riquezas – ratificando a ideologia dominante (RODRIGUES, 2020, p. 211). O deslocamento discursivo da produção para o consumo oculta as classes sociais, que passam a ser distinguidas como “classes de rendas” e “classes de 45 Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga consumidores”. Enquanto a produção é concretizada no espaço geográfico, o “consumo” é remetido ao indivíduo. Não há referências ao comércio, ao lugar de troca, mas ao consumidor. Como pode ser ele o responsável pela dilapidação ambiental, se não é quem escolhe o que produzir? Como compreender a totalidade, quando se excluem o espaço geográfico, a produção, a circulação, o comércio, as classes sociais, o mundo do trabalho, as relações societárias e, principalmente, os agentes formuladores e promotores dos deslocamentos discursivos? (RODRIGUES, 2020, p. 212) O desafio ambiental está relacionado à alocação de recursos envolvendo bens públicos, afinal o meio ambiente é patrimônio público. As consequências da crise climática são e serão vivenciadas em comum e não separadamente por um só consumidor. O predomínio da sociedade de consumo torna os seus membros as próprias mercadorias de consumo, como ensina e alerta Bauman, no sentido de que “a sociedade dos consumidores concentra seu treinamento assim como pressões coercitivas sobre seus membros desde a sua infância e ao longo das vidas, na administração do espírito.” (2008, p. 63-76). O alerta para a questão climática tem mobilizado parte da juventude, afinal, a exemplo da marcante atuação da sueca Greta Thunberg – hoje com 18 anos de idade – que, com apenas 11 anos iniciou o movimento Fridays for Future (Sextas pelo Futuro), protestando contra os incêndios, fortes ondas de calor e para que os governantes adotassem medidas para salvar o clima do planeta. No Brasil, esse movimento gerou o engajamento de jovens nos últimos anos: em 46 Direitos de Juventude 15 de março de 2019, houve protestos nos estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul; já em 20 de setembro, houve manifestações em São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, além de outras capitais; em 24 de janeiro de 2020, a Aliança Pela Amazônia no Brasil realizou protesto no Pará; e em 2021 foi lançada a campanha Ajuda Pantanal, com foco em conter diversos desastres no bioma pantaneiro. Diversas organizações têm engajado adolescentes, como, por exemplo, a organização Engajamundo, que surgiu em 2012, após a participação de um grupo de jovens na Conferência da ONU em Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, com o intuito de aumentar a participação e incidência da juventude brasileira nas conferências internacionais. Dessa forma, na medida em que os jovens se tornam cada vez mais conscientes das ameaças globais atuais e futuras, a crise climática apresenta implicações significativas de longo prazo para o seu sistema físico e para a sua saúde mental como resultado de mudanças ambientais agudas e crônicas, de tempestades e incêndios florestais, da mudança de paisagens e aumento das temperaturas: O papel desempenhado pela ansiedade climática é complexo, com reconhecimento de que isso se baseia fundamentalmente na ansiedade construtiva. Embora doloroso e angustiante, a ansiedade climática é racional e não implica em doença mental. Pode ser vista como uma “ansiedade prática” o que às vezes leva as pessoas a reavaliarem seu comportamento para responder adequadamente às ameaças incluindo incerteza. (MARKS; HICKMAN; 47 Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga PIHKALA; CLAYTON; LEWANDOWSKI; MAYALL; WRAY; MELLOR; VAN SUSTEREN, 2021, p. 03 – tradução livre dos autores) A ansiedade climática e a eco ansiedade pode ser conceituada como a angústia relacionada às crises ecológicas. O Estatuto da Juventude, instituído pela Lei nº. 12.852, de 5 de agosto de 2013, reconhece os jovens como detentores de direitos geracionais e é regido por diversos princípios, entre eles: a promoção da autonomia e emancipação dos jovens; a promoção do bem-estar, da experimentação e do desenvolvimento integral do jovem; a promoção da vida segura, da cultura da paz, da solidariedade e da não discriminação; e valorização do diálogo e convívio do jovem com as demais gerações. Ademais, esse diploma legal dedica uma seção para o Direito à Sustentabilidade e ao Meio Ambiente, determinando: Art. 34. O jovem tem direito à sustentabilidade e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida, e o dever de defendê-lo e preservá-lo para a presente e as futuras gerações. Art. 35. O Estado promoverá, em todos os níveis de ensino, a educação ambiental voltada para a preservação do meio ambiente e a sustentabilidade, de acordo com a Política Nacional do Meio Ambiente. Art. 36. Na elaboração, na execução e na avaliação de políticas públicas que incorporem a dimensão ambiental, o poder público deverá considerar: I - o estímulo e o fortalecimento de organizações, movimentos, redes e outros coletivos de juventude que atuem no 48 Direitos de Juventude âmbito das questões ambientais e em prol do desenvolvimento sustentável; II - o incentivo à participação dos jovens na elaboração das políticas públicas de meio ambiente; III - a criação de programas de educação ambiental destinados aos jovens; e IV - o incentivo à participação dos jovens em projetos de geração de trabalho e renda que visem ao desenvolvimento sustentável nos âmbitos rural e urbano. (BRASIL, 2013) De acordo com Dardot e Laval a depressão generalizada é uma das características do sujeito neoliberal em formação, cuja vida é norteada pela economia financeira e que deve ser previdente em todos os domínios e escolhas: O discurso da “realização de si mesmo” e do “sucesso de vida” leva a uma estigmatização dos “fracassados”, dos “perdidos” e dos infelizes, isto é, incapazes de aquiescer à norma social da felicidade. O “fracasso social” é visto, em última instância, como uma patologia. [...] O remédio mais propalado para essa “doença da responsabilidade”, essa usura provocada pela escolha permanente, é uma dopagem generalizada. O medicamento faz as vezes da instituição que não apoia mais, não reconhece mais, não protege mais os indivíduos isolados. Vícios diversos e dependências às mídias visuais são alguns desses estados artificiais. O consumo de mercadorias também faria parte dessa medicação social, como suplemento de instituições debilitadas. (2016. p. 367) Ocorre que a forma como os jovens irão construir seu modo de vida está intimamente relacionada com o seu sentimento de envolvimento nos processos 49 Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga de apreensão da realidade e de percepção da capacidade de nela intervir para transformá-la, por isso o compromisso socioambiental tem relação fundamental com esses aspectos (LEMOS; HIGUCHI, 2011). As consequências sociais do cenário atual, de uma verdadeira crise civilizatória, são amplas: A rapidez na transformação de estilos de vida, tecnologias e expectativas sociais faz com que se multipliquem as inseguranças sociais e aumentem as tensões sociais entre gerações, assim como entre grupos sociais cada vez mais diversificados. Todos parecem mais interessados em consultar seus smartphones ou tablets do que em conversar uns com os outros. O enraizamento dos significados culturais torna-se mais precário e aberto às reconstruções casuais, conforme as fantasias contemporâneas. Identidades flutuam emum mar de vínculos transitórios e efêmeros. Pessoas e produtos que correspondam a isso são necessários para que o capital cumpra a exigência de crescimento exponencial infindável. (HARVEY, 2019, p. 275) Comparato desenvolve dois fatores de solidariedade humana: “um de ordem técnica, transformador dos meios ou instrumentos de convivência, mas indiferente aos fins; e outro de natureza ética, procurando submeter a vida social ao valor supremo da justiça.” (2005, p. 38). O autor explica que as duas formas são complementares e indispensáveis para o movimento de unificação da humanidade, sendo que se a vida em sociedade não for baseada em uma harmonização ética, fundada 50 Direitos de Juventude nos direitos humanos, a tendência é a desagregação social: Ambas essas formas de solidariedade são, na verdade, complementares e indispensáveis para que o movimento de unificação da humanidade não sofra interrupção ou desvio. A concentração do gênero humano sobre si mesmo, como resultado da evolução tecnológica no limitado espaço terrestre, se não for completada pela harmonização ética, fundada nos direitos humanos, tende à desagregação social, em razão da fatal prevalência dos mais fortes sobre os mais fracos. (COMPARATO, 2005, p. 38) Em um mundo como esse, os jovens cidadãos são compelidos a “assumir a vida pouco a pouco, tal como ela nos vem, esperando que casa fragmento seja diferente dos anteriores, exigindo novos conhecimentos e habilidades” (BAUMAN, 2013, p. 24), por isso, é necessário trazer o tema das ambientais e das mudanças climáticas para o cotidiano dos jovens, através do engajamento de escolas, universidades, coletivos, Estado e de toda a sociedade. CONCLUSÃO A ideologia dominante, norteada pela lógica do capital, direciona as discussões sobre meio ambiente para a continuação da produção de mercadorias, os interesses econômicos são priorizados em detrimento das pessoas, mesmo diante dos dados alarmantes e urgentes relativos às questões climáticas. Enquanto entendida como fato de produção, a natureza acaba proporcionando um novo campo de acumulação de 51 Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga riqueza, o qual é abastecido pela destruição acelerada dos recursos naturais. Isso tem influência sobre importantes processos de socialização, especialmente os relacionados aos jovens, de forma que as relações entre a sociedade e a natureza implicam o estudo da produção e da reprodução do espaço em sua complexidade. Obviamente, o atual modelo de desenvolvimento esbarra capacidade limitada dos recursos naturais disponíveis, e embora haja constatação científica da premência de novas atitudes, de novo estilo de vida social e econômica, medidas realmente efetivas têm sido relegadas. A abordagem dessa realidade tem sido feita de forma distorcida, ocultando os verdadeiros responsáveis pelos problemas (aqueles que se apropriam e são proprietários dos meios de produção, da terra e das riquezas, como o exemplo da empresa Amazon) e atribuindo a responsabilidade aos consumidores, individualmente considerados. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2021, os jovens entre 15 e 29 anos correspondem a 23% da população brasileira, somando mais de 47 milhões de pessoas (IBGE, 2021). Esses jovens representam a esperança de um futuro melhor e se constituem em importantes atores para isso. O meio ambiente, por sua vez, é considerado bem comum da humanidade, devendo ser preservado para as gerações presentes e futuras. Os jovens estão cada vez mais conscientes e alertas para a questão climática, o que tem mobilizado parte da juventude brasileira. 52 Direitos de Juventude Entretanto, na medida em que os jovens se tornam cada vez mais conscientes das ameaças globais atuais e futuras, a ansiedade climática e a eco ansiedade ganham espaço na forma de angústia relacionada às crises ecológicas. Tais inseguranças sociais aumentam as tensões sociais entre gerações, enquanto as pessoas e os produtos acabam sendo necessários para que o capital cumpra a exigência de crescimento exponencial infindável. Dessa maneira, a forma como os jovens irão construir seu modo de vida está intimamente relacionada com o seu sentimento de envolvimento nos processos de compreensão da realidade e da sua capacidade de influência, de mudança. Daí a importância trazer o tema das ambientais e das mudanças climáticas para o cotidiano dos jovens, através do engajamento de escolas, universidades, coletivos, Estado e de toda a sociedade. REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. São Paulo: Zahar, 2008. BAUMAN, Zygmunt. Sobre educação e juventude: conversas com Ricardo Mazzeo. São Paulo: Zahar, 2013. BRASIL. Constituição Federativa da República do Brasil. Brasília: Presidência da República, de 5 de outubro de 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ Constituicao.htm Acesso em: 25 de setembro de 2021. BRASIL. Lei nº. 6.938 de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6938.htm> Acesso 53 Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga em 22 de outubro de 2021. BRASIL. 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Júlian Marcelino Araújo1 1 INTRODUÇÃO O estudo propõe investigar se os jovens trabalhadores autônomos que laboram por plataformas podem ser reconhecidos como uma relação de emprego nos moldes da Consolidação das Leis Trabalhistas - CLT. Justifica-se na sequência de fatos que as plataformas digitais estão crescendo no mercado de consumo, algumas com o propósito de trazer renda mediando trabalhos e consumo, no qual passam a ser, por vezes, a única opção para jovens sem experiência ou sem um emprego formal conquistar sua renda em um país com altos índices de desemprego e com poucas políticas públicas de trabalhos decentes para a juventude trabalhadora. 1 Doutoranda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – PPGD/UNISC, Integrante do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC. Advogada. 56 Direitos de Juventude Assim, o estudo pretende fazer um olhar crítico da gig economy - que é um conceito que atrai trabalhadores autônomos ou freelancers - na perspectiva das normas trabalhistas e da Constituição Federal de 1988. Alguns aplicativos estão se destacando e conseguindo grandes lucros com base nesse modelo - UBER, Airbnb, ifood, Amazon, Lojas Americanas, entre outros - que prestam serviço ao consumidor por meio de trabalhadores, atuando como intermediárias para a realização dos negócios, se isentando dos compromissos da legislação trabalhistas desses. Tais aplicativos fazem uso do discurso que os trabalhadores que operam por meio deles são pessoas em busca de flexibilidade e de valorização de seus serviços, como que se fosse um meio de empreendedorismo de seu próprio negócio, afastando os encargos de uma relação de emprego junto a CLT - como férias, 13°, pagamento de um salário fixo, reflexos previdenciários e de fundo de garantia (FGTS), prevenção da saúde e segurança do trabalhador Observe-se que a maioria dos trabalhadores que estão trabalha, tendo sua renda por meio da intermediação dos aplicativos são jovens de 18 a 29 anos, que desejam sobreviver ao desemprego. O modelo formal de emprego presente na época que foi criada a CLT - o modelo fordista, rígido, com jornadas programadas, funções específicas - foi substituído por novos modos de produção em todo o mundo devido aos altos avanços da tecnologia - um novo sistema flexível que busca a eficiência da produção. Todavia, estes novos modelos não podem burlar a garantia das leis de proteção aos 57 Júlian Marcelino Araújo trabalhadores. No estudo busca-se debater a questão do enquadramento do vínculo de emprego dos aplicativos aos trabalhadores vinculados, já que muitas vezes os autônomos que trabalham por meio de seus aplicativos recebem menos, têm jornadas de trabalho mais longas, correm mais perigos em termos de segurança e saúde do que em comparação com profissionais que prestam o mesmo serviço dentro de um vínculo de emprego. Neste sentido, a presente proposta quer discutir em uma visão social do trabalho, zelando pelo princípio da proteção ao trabalhador, a tentativa de enquadramento na relação de emprego aos moldes na CLT as formas de contratação do trabalhador na prestação de serviços sob plataformas digitais. No objetivo geral, o estudo pretende analisar a possibilidade de enquadramento da relação de emprego na contratação do trabalhador na prestação de serviços sob plataformas digitais. Como objetivos específicos o estudo requer descrever um breve contexto histórico do mundo do trabalho pós surgimento do trabalho por meio de aplicativo e Impactos da pandemia no ordenamento jurídico brasileiro, analisar o levantamento de alguns dados que identificam os trabalhadores jovens que operam serviços por meio de aplicativos, e por fim, analisar a possibilidade de enquadramento da relação de emprego nas contratações do trabalhador na prestação de serviços sob plataformas digitais. A fim de responder o problema sobre se há a possibilidade de enquadramento da relação de emprego nas contratações do trabalhador na prestação de 58 Direitos de Juventude serviços sob plataformas digitais? Já tendo a hipótese que, há possibilidade de enquadramento da relação de emprego nas contratações do trabalhador na prestação de serviços sob plataformas digitais, sendo que as plataformas lucram com essas intermediações e os trabalhadores estão à margem da relação de trabalho, sem proteção trabalhista, precarizados, trabalhando em maiores jornadas de trabalho e tenho menores rendas em comparação ao trabalho por meio de uma relação de emprego regulada pela CLT. O presente estudo utilizou o método de procedimento dedutivo e o método de procedimento monográfico com técnicas de pesquisa bibliográfica e documental. 2 Juventude trabalhadora por meio aplicativo no brasil O mundo do trabalho vem alterando seus modelos e formas de contratação ao passo que acompanha as transformações da sociedade, atualmente as transformações tecnológicas vem revolucionando o modo de produção, trocando o modelo fordista para o toyotismo ou acumulação flexível. Antunes (2015, p. 35) explica como funcionava a produção fordista: Iniciamos, reiterando que entendemos o fordismo fundamentalmente como a forma pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram-se ao longo deste século, cujos elementos constitutivos básicos eram dados pela produção em massa, através 59 Júlian Marcelino Araújo da linha de montagem e de produtos mais homogêneos; através do controle dos tempos e movimentos pelo cronômetro taylorista e da produção em série fordista; pela existência do trabalho parcelar e pela fragmentação das funções; pela separação entre elaboração e execução no processo de trabalho; pela existência de unidades fabris concentradas e verticalizadas e pela constituição / consolidação do operário massa, do trabalhador coletivo fabril, entre outras dimensões. A nova forma de trabalhar se transformou com ajuda do avanço da tecnologia, sendo a grande responsável pela possibilidade de flexibilizar a produção que anteriormente era injetada em um modelo que o trabalhador tinha que estar presente na fábrica operando de forma especializada e sabendo para quem estava trabalhando. Ao passar do tempo, diante na nova era digital que está se formando, as dinâmicas do trabalho humano foram se reajustando, principalmente os fenômenos da inteligência artificial que deve ser estudado com mais cuidado já que empatou bruscamente as relações de trabalho. (CUESTA, 2017, p. 75.) Diante deste novo cenário em uma era digital destaca-sefenômenos do surgimento das plataformas digitais mudando o modo de comunicação das relações humanas, impactando inclusive nas vias econômicas e do trabalho humano. Com o surgimento dessas novas demandas virtuais, aplicativos em um formado de economia colaborativa, no qual o acesso/informação aos bens ou serviços são mais importantes de que tem a propriedade ou posse, transformando atualmente os 60 Direitos de Juventude aplicativos os maiores impulsionadores da economia e influências mundiais. A Crescente demanda por trabalhos remotos vieram com o avanço da tecnologia, intensificada pela pandemia do coronavírus em 2019 COVID-19 - que impactou o mundo inteiro trazendo mudanças significativas de aspectos mundiais, inclusive no mundo do trabalho: devido ao fato do ser humano ter que ficar isolado de seus iguais na finalidade de não proliferar a doença, o trabalho remoto e o serviço de entregas por aplicativos se expandiram rapidamente. Assim, o trabalho nas plataformas, que já estavam em uma demanda crescente de adeptos - por outras circunstâncias que rodam nossa sociedade brasileira como a precarização no trabalho, desigualdade social, desemprego, ideologia neoliberal expandido, desenvolvimento tecnológico, entre outros - foi impulsionada no cenário atual, trazendo novas premissas para o mundo laboral analisar e classificar esses novos tipos de vínculos trabalhistas. As plataformas digitais podem ser utilizadas no mundo virtual para interação social, fazendo, inclusive, conexão com pessoas de diferentes países do mundo. O trabalho humano, que também é uma forma de relação social, pode ser intermediada por plataformas virtuais específicas que oferecem prestação de serviço humano, podendo conectar pessoas que necessitam de serviço com pessoas que ofertam esse serviço. Neste sentido, considera Rosenfield e Mossi (2020, p. 744) que as plataformas digitais, ao realizar o micro trabalho, “devem ser consideradas como um tipo de organização produtiva, cujo mercado de trabalho 61 Júlian Marcelino Araújo conecta clientes, operadores de plataformas e micro trabalhadores”. Ocorre que este mecanismo de trabalho virtual tende a ser problematizado em algumas questões ao se olhar para as máximas Constitucionais Brasileiras da dignidade da pessoa humana e valorização do trabalho humano, já que o micro trabalhador cadastrado em um tipo de plataforma não é caracterizado como “trabalhador”/ “empregado”, mas sim é vendido a ideia de cliente da plataforma ou um comerciante empreendedor que pode vender seus serviços do ambiente virtual da plataforma. Neste sentido, não se tem uma organização atuante na defesa dos direitos trabalhistas dos micros trabalhadores, seus os pagamentos são valores baixos e precarizados ao comprar suas tarefas em um vínculo de emprego comum. Os micro trabalhadores, que operam por meio dos aplicativos, geralmente são contratados para efetuar tarefas de trabalhos instantâneos contratados por pequenos prestações de serviços sem nenhuma proteção trabalhista. Rosenfield e Mossi (2020, p. 748) entende que “uma nova organização produtiva que embaralha atores sociais e características de muitas outras formas de organização, no sentido de guardar o máximo de flexibilidade, ausência de vínculos, independência e autorregulação”. Além disso, como as plataformas se afastam da imagem de empregadores - ou empresas terceirizadoras de trabalho - para se vinculam à definição de serem apenas ambientes virtuais para os micro trabalhadores autônomos acharem seu cliente, 62 Direitos de Juventude por isso, acabam, por sua maioria, cobrando taxas ou comissões de seus trabalhos de direito por usarem seu ambiente. Realmente nesta nova demanda de classes na relação de trabalho criada no mundo atual tecnológico é diferente da composição de empregado e empregador nos moldes da década de 1940, época formadora da Consolidação das Leis Trabalhista - CLT, a conhecida por seu referencial no mundo do trabalho, no qual presenciava uma lógica de produção majoritariamente sob o sistema fordista, em que todos trabalhadores - os que vendiam sua mão-de-obra - operam presencialmente na fábrica sabendo para quem se trabalha - os empresários que detinham a matéria prima / a propriedade. Casilli (2020, p. 18) explica que no mercado das plataformas não se espera mais que os fornecedores estão enquadrados no antigo modelo de fornecerem detenham um bem ou habilidade específica, é uma nova lógica de vendas. As plataformas digitais conseguiram com muito eficácia e aderência dos próprios trabalhadores burlar o rígido vínculo empregatício, isso porque colocam os trabalhadores como donos de si em seus ambientes que apenas auxiliam o pequeno empreendedorismo, além disso, mesmo que essa nova formula de relação custe mais tempo-dinheiro dos trabalhadores, teve certa aderência por poderem executar funções com flexibilidade e auto se organizarem com as tarefas, pontos que todos aspiram. Outro ponto apontado por Casilli (2020, p 18) é a dificuldade dos micros trabalhadores em detectar 63 Júlian Marcelino Araújo o lugar de subordinação, a relação de vínculo, o empregador principal, sendo que o trabalhador é mais um usuário perdido nas tarefas demandadas pela plataforma a serem cumpridas. Nesse cenário, observa-se as facilidades do mundo tecnológico, de conexão, de instantaneidade, de fácil acesso à informação está se tornando prejudicial, sendo que eu de vez facilitar e igualar as desigualdades sociais, pode estar se estimulando ainda mais. Presente a ideologia neoliberal focado na retomada do capitalismo feroz que não tem cuidado com a valorização do trabalho humano, o avanço da tecnologia pode estar sugando ainda mais o trabalho humano de vez de fazer o seu trabalho para deixá-lo mais livre. De Masi (1999, p. 62-63), indagou se a Terceira Revolução Industrial levaria à sociedade no caminho do desemprego ou ao tempo livre. Se libertaria os homens dos trabalhos alienados ou os alienaria ainda mais com a inatividade forçada? Se seria uma nova idade de ouro por trabalharmos menos ou uma massa de riquezas sempre maior que acabará por coordenar alguns ao desemprego e outros a improdutividade? Pode-se presumir, no atual período de alta tecnologia, que a humanidade não caminhou para o bem social de todos e todas trabalhadores, mas sim em prol de mais e mais produção e lucro dos capitalistas. Aos micros trabalhadores é passado as vantagens de ser um trabalhador autônomo em meio a essas plataformas: a disponibilidade de trabalharem em seus próprios horas - mesmo que ao final possam ser mais intensos e de maior duração -, ter seu 64 Direitos de Juventude próprio controle de execução de tarefas, comandar suas próprias estratégias, não estar diretamente subordinado a ninguém. Ocorre que se o micro trabalhador ao não executar uma tarefa deixa de receber sua renda, partindo da constatação que em tais plataformas as tarefas/ trabalhos são desvalorizadas monetariamente, por vezes os trabalhadores têm que executar mais tarefas para manter uma renda razoável, além de que, tem- se a problemática que ao ganhar apenas por tarefas, o tempo normal humano de não oficio - como ir ao banheiro, descansar após uma demanda, comer, entre outros - não são contáveis a títulos de remunerados, diferente do que ocorre um vínculo de trabalho nos termos de um trabalho presencial nos tempos fordistas. Pontua-se também, mais um das problemáticas mais questionáveis deste trabalho, é o poder que as plataformas dão aos clientes - já que os clientes que usam a plataforma fazem diretamente a plataforma expandir a título de mídia e de financeiros, sem uma regulamentação legal para os prestadores de serviços é mais rentável a plataforma digital agradar seus clientes - sendo que, muitas vezes o cliente pode não pagar aos serviços sem o trabalhador poder reclamar desta situação. Assim, verifica-se que essa tãobuscada autonomia dos trabalhadores pregada pelas interessadas na desvalorização do trabalho não é de fato tão concreta, já que não têm condições iguais às outras partes da relação trilateral: trabalhador, plataforma e cliente. 65 Júlian Marcelino Araújo Um trabalho flexível para um trabalhador que tem poder de negociação pessoal em igualdade de condições com o seu principal empregador. Um trabalhador que pode dizer não, que não está sujeito à disciplina que se aplica à massa de assalariados. (CASILLI, 2020, p. 14-15) Vendendo essa imagem que de falso controle que os micros trabalhadores têm, fazem crer que é uma opção boa e inquestionável, em meio ao desemprego e trabalhos formais nos moldes da CLT cada vez menos valorizados, todavia essa flexibilidade não tem igual condição de trabalho dos que realmente estão por trás dessa ideologia: as milionárias empresas por trás das plataformas. A classificação de juventude por faixa etária em questão do trabalho no Brasil pode ser definida em várias conceções - a utilizada no presente estudo é a definição legal - encontrada na legislação brasileira no Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema Nacional de Juventude - SINAJUVE, no qual são considerados jovens as pessoas com idade entre quinze e vinte e nove anos de idade. (BRASIL, 2013). Já na Constituição Federal a idade mínima fixada para o ingresso formal do trabalho no qual prevê o artigo 7º, XXXIII é de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz a partir dos catorze anos de idade. (BRASIL, 1998) Delimitando o presente estudo aos jovens de 16 aos 29 anos. Atualmente a juventude trabalhadora está em sua maioria na Geração Y ou millennial, que se 66 Direitos de Juventude caracterizam por crescer em contato com as tecnologias de informação e por serem mais individualistas, por poderem captar os acontecimentos em tempo real, se conectando com uma variedade de pessoas, desenvolvendo uma visão mais sistêmica, aceitando a diversidade (COMAZZETTO et al., 2016). O atual jovem ativo no mercado de trabalho faz parte de geração mais propensa a se familiarizar com o trabalho remoto, facilidades em operar com plataformas, bem como, devido ao mundo da informação rápida tende a ter menos dificuldades com a troca de informações em outras línguas, podendo operar de forma mundial. Abilio at al. (2020, p. 6) estudaram 298 trabalhadores nas condições de trabalho dos entregadores via plataforma digital em 29 cidades, que responderam questionário, assim, mapearam o perfil que se corresponde, a 94,6% dos entrevistados do sexo masculino; quanto à cor ou raça, 39,9% se identificaram como branco, 44% como pardo, 14,8% como negro e 1% como indígena; sobre a idade, 18,1% dos entrevistados tinham até 24 anos, 47% encontravam-se entre 25 e 34, 31,2% entre 35 e 44 anos e 3,7% possuíam mais de 44 anos. Rosenfield e Mossi, (2020) mapearam um grupo de microtrabalhadores em plataforma em todo o mundo, no qual se concluiu que o perfil majoritário é do jovem que em geral há um pouco mais de homens que possuem nível de escolaridade elevado, e mais ainda em países menos desenvolvidos. O grupo etário predominante é de jovens adultos de até 40 anos, sendo que uma parte dos jovens (21%) trabalha e 67 Júlian Marcelino Araújo estuda, também há uma rotatividade é alta, atestando que se trata de uma opção em meio à falta de opções. Observa-se que com a pandemia, e o desemprego causado pela quebra de alguns setores econômicos que envolvia aglomeração - entretenimento, turismo, transporte público, entre outros - houve um aumento dos índices de desemprego, consequentemente deu-se o crescimento dos trabalhadores autônomos/informais pelos aplicativos, principalmente dos trabalhadores jovens que veem na entrega por aplicativo uma possibilidade de geração de renda. Os jovens de até 29 anos compuseram 37% da amostra (101 entregadores). Analisando a evolução de sua remuneração, vê-se um movimento bastante semelhante ao do total dos trabalhadores entrevistados: antes da pandemia, 16% tinham rendimento de até um salário mínimo/mês; na pandemia, essa faixa mais que dobra de tamanho (34%). Antes da pandemia, 45% dos entregadores jovens ganhavam até dois salários mínimos; durante a pandemia, são 71%. Na faixa dos que ganham entre três e quatro salários mínimos, há uma redução de 18% para 6%. (ABÍLIO, 2020, p. 593) Observa-se que o trabalho por meio de aplicativos é um trabalho que vem crescendo na juventude que não consegue um vínculo de emprego formal, assim, como fonte de renda única expõe a precarização dos trabalhos intermediados por plataformas. 68 Direitos de Juventude 3 O enquadramento das relações de emprego nas contratações do trabalhador na prestação de serviços sob plataformas digitais O Direito do Trabalho estabelece normas e princípios que regulam a relação de emprego, protegem o trabalhador de uma série de fatores: da precarização, da desvalorização, da sua segurança e saúde no trabalho, da prevenção social para passar um período da sua vida sem ter de trabalhar, entre outros direitos conquistados e consolidados da CLT por luta dos próprios obreiros. Nota-se que a expressão relação de trabalho é um gênero maior que englobaria: a relação de emprego, a relação de trabalho autônomo, a relação de trabalho eventual, de trabalho avulso, estágio e outras modalidades de pactuação de prestação de labor (DELGADO, 2009, pág. 270). A relação com melhores condições regulamentadas é a relação de emprego, no qual a CLT cuida, bem como, há uma Justiça especializada para tal relação. No ordenamento do código trabalhista - CLT - o reconhecimento de uma relação de emprego está condicionada a requisitos exigidos há o reconhecimento desta relação empregatícia, conforme narra o artigo 2º e 3º da CLT. Os artigos legais apresentados definem empregado e empregador, sendo que os requisitos se separam por: a) deve ser esta relação laboral não ser eventual; b) deve haver a subordinação jurídica do empregador ao empregado; c) deve saber quem é o empregado, não podendo o empregado mudar 69 Júlian Marcelino Araújo para outra pessoa; e d) o trabalha deve ser oneroso, o empregado deve ganhar rendo por meio de seus serviços. Verifica-se na presente pesquisa que o maior problema apontado pela Justiça é a questão da subordinação jurídica, pois ora, os trabalhadores de plataforma não trabalham de forma eventual, geralmente depende da renda, sem alternativa de emprego mais rentável fazem da plataforma seu trabalho oficial, bem como, geralmente são autônomos que trabalham filiados em uma plataforma apenas, tendo presente o requisito da personalidade, e por fim, há uma remuneração, preenchendo o elemento da onerosidade. A questão de controvérsia apontada é que o trabalhador pode escolher fazer aquela tarefa ou não, pegar tarefa que melhor lhe supra, no horário que escolher, assim a plataforma prevê milhares de tarefas, todavia não obriga ninguém a fazer uma específica, o trabalhador por livre vontade ou por necessidade escolhe uma tarefa, por isso não se consegue preencher o requisito da subordinação. No entanto, deve-se olhar em uma perspectiva de massacre do direito do trabalho, que é a proteção do trabalhador, não apenas em um preenchimento de um requisito formal para a caracterização da relação de emprego nos moldes da relação antiga empregado e empregador com jornada e funções estabelecidas. A razão de ser do direito do trabalho nada mais é do que proteger o trabalhador, não só em uma fórmula engessada de requisitos formais para que tenha essa proteção, deve-se buscar em todos os contratos e 70 Direitos de Juventude novas fórmulas de trabalho a valorização e a proteção do obreiro. Neste sentido, a nova plataforma não precisa se encaixar nos moldesexatos pelos requisitos formais da relação de emprego entendida pelos artigos 2° e 3° da CLT, basta saber que é um trabalho humano, e a razão de ser do direito do trabalho é a proteção do ser humano, valorizando seu trabalho, sua renda, sua saúde, nos quais as plataformas digitais não estão cumprindo seu papel social, muito pelo contrário, verifica se que atualmente são as empresas que têm mais lucros. Srnicek (2020, p. 135-136) aponta que as plataformas só serão freadas em seu enriquecimento feroz sem contraposição ao cuidado com os trabalhadores se haver uma lei regulamentadora que projeta os trabalhadores e os mesmo se unirem cada vez mais discutindo em justiça. Em contrapartida os trabalhadores que operam por meio de aplicativo têm longos tempos de trabalho, há uma queda da remuneração e arriscam mais sua saúde, além disso que se refere às medidas de proteção, os trabalhadores as vêm tomando e as custeando por conta própria. (ABÍLIO et al., 2020, p. 16). Por isso, o ideal é se repensar uma nova regulamentação para esta forma de trabalho e outras mais surgindo com o avanço da tecnologia, para que independentemente da forma ou sistema se esteja inserido permanece a proteção aos trabalhadores conforme prega os fundamentos da Carta Magna Brasileira. As leis devem acompanhar as mudanças da 71 Júlian Marcelino Araújo sociedade, sempre reforçando os fundamentos e princípios do Estado firmados na Constituição. Assim, também deve-se ocorrer com as novas formas de contrato de trabalho que não se encaixam mais na relação de emprego típica, ampliando a legislação para todas as formas estejam de acordo com a valorização do trabalho humano. CONCLUSÃO Ao descrever um breve contexto histórico do mundo do trabalho pós surgimento dos trabalhos por meio de aplicativo, verifica-se que houve grandes transformações na sociedade em geral da forma de trabalhar, que foi intensificada por questões de isolamento social no período pandemia COVID 19, gerando desempregos e trabalhos precários, alterando assim, o ordenamento jurídico brasileiro. Os novos trabalhos na era digital, como os ofícios por meio de aplicativos mostra-se presente principalmente na atual juventude trabalhadora, no qual já é identificada como uma classe que já tem seus desafios para conseguir a valorização de sua renda mensal, assim, com a opção do trabalho autônomos meio aplicativos, os jovens tendem a precarizar mais os seus trabalhos e rendas, por isso, a discussão de enquadrar em uma relação de trabalho torna-se importante a fim de conter tal precarização. Neste passo, ao analisar a possibilidade de enquadramento da relação de emprego nas contratação do trabalhador na prestação de serviços sob plataformas digitais restou-se conclusiva que não 72 Direitos de Juventude há como enquadrar na antiga fórmula e infestada fórmula, todavia a valorização do trabalho buscada deve ser mantida, assim, entende-se que a fórmula ideal é a regularização de novo tipo de contrata, mantendo na maneira que couber as vantagens e conquistas da CLT para os trabalhadores que operam na relação de emprego. O estudo vem na linha que reafirma o Constitucionalismo e Produção do Direito de uma forma específica valorizando os novos modelos de trabalho e reforçando a valorização do trabalho humano pregado pela Constituição Federal Brasileira de 1988, trazendo uma reflexão sobre as premissas filosóficas que sustentam as escolhas valorativas insculpidas na Constituição nas aplicações cotidianas dos princípios constitucionais na argumentação jurídica utilizada na produção e aplicação do direito. REFERÊNCIAS ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho.16. ed. São Paulo: Cortez, 2015. ABÍLIO, Ludmila Costhek. Uberização e juventude periférica: Desigualdades, autogerenciamento e novas formas de controle do trabalho. Novos estudos CEBRAP [online]. 2020, v. 39, n. 3 [Acessado 30 Julho 2021] , pp. 579-597. Disponível em: <https://doi.org/10.25091/s01013300202000030008>. Epub 15 Jan 2021. ISSN 1980-5403. https://doi.org/10.25091/ s01013300202000030008. ABÍLIO, Ludmila Costhek et al. Condições de trabalho de entregadores via plataforma digital durante a Covid-19. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, v. 3, 2020. Disponível em: http://www.revistatdh.org/index.php/Revista- TDH/article/view/74. 73 Júlian Marcelino Araújo BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 23 jun. 2021. BRASIL. Decreto-lei n.º 5.452, de 1º de maio de 1943. Consolidação das Leis Trabalhistas. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm. Acesso em: 30 jun. 2021. BRASIL. Lei nº 12.852, de 05 de agosto de 2013. Institui o Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema Nacional de Juventude - SINAJUVE. [S. l.], 2013. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011- 2014/2013/lei/l12852.htm. Acesso em: 19 abr. 2021. CASILLI, A. A. Da classe virtual aos trabalhadores do clique: a transformação do trabalho em serviço na era das plataformas digitais. MATRIZ, [S. l.], v. 14, n. 1, p. 13-21, 2020. DOI: 10.11606/ issn.1982-8160.v14i1p13-21. Disponível em: https://www.revistas. usp.br/matrizes/article/view/169579. Acesso em: 23 jul. 2021. COMAZZETTO, Letícia Reghelin et al. A geração Y no mercado de trabalho: um estudo comparativo entre gerações. Psicologia: ciência e profissão, v. 36, n. 1, p. 145- 157, 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/ sMTpRhKxjvNjr7wQV9wFksH/?lang=pt. Acesso em 28 jun. 21. CUESTA, Hernar Álvarez. 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Às entidades esportivas interessam esses contratos para que tenham acesso a adolescentes já a partir dos 14 anos de idade, bem 1 Doutoranda em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC na área de concentração “Direitos sociais e políticas públicas”, na linha de pesquisa“Diversidade e Políticas Públicas” e integrante do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social e do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens do PPGD/UNISC. Atua como Registradora Substituta do Ofício Extrajudicial de Registro de Imóveis e Registro Civil de Pessoas Naturais de Sobradinho/RS. 2 Mestrando em Direito, na linha de Políticas Públicas de Inclusão Social do Programa de Pós- Graduação, Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC. Bolsista PROSUC CAPES Modalidade II. Pós-Graduado em Direito Processual Previdenciário (Administrativo e Judicial) pelo Instituto de Estudos Previdenciários IEPREV. Integrante do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social e do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens (GRUPECA) do PPGD/UNISC. Sócio do Escritório Rosa e Sauzem Advogados Associados. Sócio na empresa Éthica Gestão e Consultoria. 76 Direitos de Juventude como para se esquivar de obrigações trabalhistas no que diz respeito aos atletas com idade a partir dos 16 anos. Ocorre que tanto o Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, quanto a Lei de Aprendizagem – Lei nº 10.097, de 19 de dezembro de 2000 e a Lei do Estágio – Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008, estabelecem direitos que deixam de ser reconhecidos pela Lei Pelé – Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998. Diante disso, o presente capítulo teve como tema o estudo dos institutos da aprendizagem e do estágio no âmbito esportivo. O objetivo geral foi estudar a aprendizagem e o estágio tanto nas legislações específicas, quanto na Lei Pelé, responsável por instituir normas gerais sobre o desporto. Para tanto, teve-se como objetivos específicos estudar as diferenças e semelhanças desses institutos, bem como analisar a aprendizagem e o estágio no âmbito esportivo e, mais especificamente, na Lei Pelé. O problema de pesquisa que se coloca é: o aparente conflito entre normas de mesma hierarquia implica no desrespeito à direitos fundamentais já conquistados? A hipótese é de que sim, uma vez que a interpretação equivocada dos dispositivos legais implicam no reconhecimento de que o atleta-aprendiz não possui direitos trabalhistas e previdenciários já previstos no artigo 65 do Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como que o atleta-estagiário está sujeito a um contrato firmado por período superior há 02 anos. 77 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado Para desenvolvimento do tema foi utilizado o método de abordagem dedutivo, e de procedimento o monográfico, com técnicas de pesquisa bibliográfica e documental. 2 Diferenças e semelhanças entre aprendizagem e estágio Para efetivação do direito fundamental à profissionalização de adolescentes e jovens há a aprendizagem e o estágio. É através desses institutos que pessoas com pouca ou sem qualquer experiência laborativa profissionalizam-se através da observação e/ou da prática laborativa. A profissionalização é um direito fundamental social ao trabalho, que atrelado à educação e às condições dignas de trabalho, proporciona a aquisição de conhecimentos e habilidades para o desenvolvimento de uma atividade laboral lícita e permite o desenvolvimento de capacidades – em sentido técnico, teórico e social – com o objetivo de formar o indivíduo para o exercício qualificado de uma profissão. (SANTANA, 2018, p. 63) As políticas públicas voltadas a profissionalização do adolescente e do jovem estão fundamentadas no direito à educação e à profissionalização previstas tanto na Constituição Federal quanto no Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, e no Estatuto da Juventude – Lei nº 12.852, de 05 de agosto de 2013. O direito à profissionalização é um dos direitos fundamentais de crianças, adolescentes e jovens 78 Direitos de Juventude conforme previsto no artigo 227 da Constituição Federal, que prevê: Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá- los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Do mesmo modo, o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê o direito à profissionalização como um direito fundamental previsto no artigo 4º, caput, que basicamente reproduz o artigo 227 da Constituição Federal, e no Capítulo V, juntamente com o direito à proteção no trabalho, que abrange os artigos 60 a 69, sendo este o mais específico. Art. 69. O adolescente tem direito à profissionalização e à proteção no trabalho, observados os seguintes aspectos, entre outros: I - respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento; II - capacitação profissional adequada ao mercado de trabalho. O Estatuto da Juventude, por sua vez, prevê o direito à profissionalização na Seção III do Capítulo II responsável por estabelecer os direitos os jovens. Dos artigos 14 a 16 o Estatuto da Juventude regulamenta o direito do jovem à profissionalização, ao trabalho e à renda. 79 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado Art. 14. O jovem tem direito à profissionalização, ao trabalho e à renda, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, adequadamente remunerado e com proteção social. Art. 15. A ação do poder público na efetivação do direito do jovem à profissionalização, ao trabalho e à renda contempla a adoção das seguintes medidas: I - promoção de formas coletivas de organização para o trabalho, de redes de economia solidária e da livre associação; II - oferta de condições especiais de jornada de trabalho por meio de: a) compatibilização entre os horários de trabalho e de estudo; b) oferta dos níveis, formas e modalidades de ensino em horários que permitam a compatibilização da frequência escolar com o trabalho regular; III - criação de linha de crédito especial destinada aos jovens empreendedores; IV - atuação estatal preventiva e repressiva quanto à exploração e precarização do trabalho juvenil; V - adoção de políticas públicas voltadas para a promoção do estágio, aprendizagem e trabalho para a juventude; VI - apoio ao jovem trabalhador rural na organização da produção da agricultura familiar e dos empreendimentos familiares rurais, por meio das seguintes ações: a) estímulo à produção e à diversificação de produtos; b) fomento à produção sustentável baseada na agroecologia, nas agroindústrias familiares, na integração entre lavoura, pecuária e floresta e no extrativismo sustentável; c) investimento em pesquisa de tecnologias apropriadas à agricultura familiar e aos empreendimentos familiares rurais; d) estímulo à comercialização direta da produção da agricultura familiar, aos empreendimentos familiares rurais e à formação de cooperativas; e) garantia de projetos de infraestrutura 80 Direitos de Juventude básica de acesso e escoamento de produção, priorizando a melhoria das estradas e do transporte; f) promoção de programas que favoreçam o acesso ao crédito, à terra e à assistência técnica rural; VII - apoio ao jovem trabalhador com deficiência, por meio das seguintes ações: a) estímulo à formação e à qualificação profissional em ambiente inclusivo; b) oferta de condições especiais de jornada de trabalho; c) estímulo à inserção no mercado de trabalho por meio da condição de aprendiz. Art. 16. O direito à profissionalização e à proteção no trabalho dos adolescentes com idade entre 15 (quinze) e 18 (dezoito) anos de idade será regido pelo disposto na Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, e em leis específicas, não se aplicando o previsto nesta Seção. Assim, a busca pelaprofissionalização encontra- se diretamente associada ao direito à educação, bem como a atividades práticas da profissão que se pretende exercer. Diante disso, foram criadas políticas públicas voltadas à profissionalização e a inserção de adolescentes e jovens no mercado de trabalho, sendo os institutos da aprendizagem e do estágio as principais delas. Para tanto é permitido o trabalho do adolescente a partir dos 14 anos de idade na condição de aprendiz, nos termos do artigo 7º, inciso XXXIII, da Constituição Federal. Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: [...] XXXIII - proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de 81 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos; A regulamentação da aprendizagem se dá pela Lei nº 10.097, de 19 de dezembro de 2000, responsável por alterar os dispositivos legais correspondentes ao tema na Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, por defini-la como um trabalho especial destinado à formação técnico-profissional metódica do adolescente. Trata-se de um compromisso do empregador de proporcionar essa formação de maneira adequada ao desenvolvimento físico, moral e psicológico do aprendiz através de um contrato firmado por escrito e com prazo determinado. Por outro lado, no mesmo contrato o aprendiz compromete-se a executar as tarefas necessárias à sua formação com zelo e diligência (art. 428, caput, CLT). O contrato de aprendizagem estará presente se existente na relação firmada entre empregador e aprendiz os requisitos previstos em lei. Quanto ao aprendiz é necessário que possua a idade entre 14 e 18 anos, e que esteja inscrito em um programa de aprendizagem desenvolvido sob a orientação de entidade qualificada em formação técnico-profissional metódica (art. 428, caput e § 1º, CLT), que consiste em “atividades teóricas e práticas, metodicamente organizadas em tarefas de complexidade progressiva desenvolvidas no ambiente de trabalho” (art. 428, § 4º, CLT). Ainda no que diz respeito ao adolescente aprendiz, é necessário que esteja matriculado e frequentando a escola, se ainda cursar o ensino 82 Direitos de Juventude fundamental. É, ainda, imprescindível o zelo pela condição peculiar do adolescente de ser uma pessoa ainda em desenvolvimento, motivo pelo qual a atividade por ele desempenhada deve ser compatível com seu estágio de desenvolvimento. Outra característica importante da aprendizagem é a necessidade de o empregador proceder ao registro do contrato na Carteira de Trabalho e Previdência Social – CTPS, do adolescente aprendiz (artigo 428, § 1º, CLT), além de ser lhe garantido um salário-mínimo hora, salvo condição mais favorável (artigo 428, § 2º, CLT). Quanto a jornada de trabalho na aprendizagem, esta deverá ser de, no máximo, 06 horas diárias, salvo se o aprendiz já tiver completado o ensino fundamental, situação na qual a jornada poderá ser de até 08 horas diárias computadas juntamente com a aprendizagem teórica. São vedadas a prorrogação e a compensação de jornada (art. 432, caput e § 1º, CLT). O estágio, por sua vez, é um ato educativo regulamentado pela Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008, conhecida como Lei de Estágio, legislação essa responsável por definir o instituto. Art. 1º Estágio é ato educativo escolar supervisionado, desenvolvido no ambiente de trabalho, que visa à preparação para o trabalho produtivo de educandos que estejam frequentando o ensino regular em instituições de educação superior, de educação profissional, de ensino médio, da educação especial e dos anos finais do ensino fundamental, na modalidade profissional da educação de jovens e adultos. 83 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado Assim, o estágio faz parte do projeto pedagógico de um curso e poderá ser ou não de execução obrigatória. Tal como ocorre na aprendizagem, para que o contrato de estágio seja legitimo é necessária a observância de alguns requisitos básicos. O primeiro deles diz respeito ao estagiário, que não tem limites de idade estipulada na lei. Contudo, deve estar matriculado e frequentando regulamente curso de educação superior ou profissional, de ensino médio, da educação especial e nos anos finais do ensino fundamental na modalidade profissional da educação de jovens e adultos, desde que assim atestados pela instituição de ensino (art. 3º, I, Lei de Estágio). Em uma relação de estágio, aquele que recebe o estudante não é denominado empregador, e sim parte concedente, uma vez que não haverá qualquer vínculo empregatício entre as partes. Para isso, não basta firmar um contrato por escrito entre estagiário e parte concedente. É necessário que haja um termo de compromisso firmado entre o educando, a parte concedente do estágio e a instituição de ensino (art. 3º, II, Lei de Estágio). Além disso, as atividades desempenhadas pelo estagiário devem ser compatíveis com as previstas no termo de compromisso (art. 3º, III, Lei de Estágio). A jornada de atividade em estágio não poderá ultrapassar o limite de 04 horas diárias se o estagiário estiver vinculado à educação especial e dos anos finais do ensino fundamental, na modalidade profissional de educação de jovens e adultos. Se o estagiário for estudante de ensino superior, da educação profissional 84 Direitos de Juventude de nível médio e do ensino médio regular, a jornada possui limite de 06 horas diárias (art. 10, I e II, da Lei de Estágio). Uma característica importante do contrato de estágio é de que o estudante não recebe salário, e sim uma bolsa ou outra forma de contraprestação que venha a ser acordada. No entanto, essa contraprestação é obrigatória, bem como a do auxílio-transporte, na hipótese de estágio não obrigatório (art. 12). É importante destacar que o desrespeito a qualquer desses requisitos implicará no reconhecimento de vínculo empregatício entre a parte concedente e o estagiário (art. 3º, § 2º, da Lei do Estágio). O estagiário possui o direito à férias proporcional à duração do contrato de estágio (art. 13 da Lei de Estágio), e a possibilidade facultativa de contribuir ao Regime Geral de Previdência Social (artigo 12, § 2º, Lei do Estágio). As características comuns do contrato de aprendizagem e do contrato de estágio dizem respeito ao limite de 02 anos para duração do contrato (artigo 428, § 3º, CLT e art. 11 da Lei do Estágio), e quanto a jornada de trabalho/estágio que não pode prejudicar a frequência escolar, quer seja o ensino fundamental, quer seja o curso ao qual o estagiário está vinculado. Apesar de serem institutos próximos, ambos com a intenção de promover a profissionalização de adolescentes e jovens, bem como facilitar seu ingresso no mercado de trabalho, possuem características importantes que os distinguem. Diante disso, uma vez estabelecidas as diferenças e semelhanças entre ambos os institutos, 85 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado faz-se necessário observá-los no âmbito da atividade esportiva. 3 A aprendizagem e o estágio no âmbito esportivo: conflito normativo As atividades esportivas no Brasil são regulamentadas pela Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998, conhecida como Lei Pelé, legislação responsável por definir as modalidades de desporto e por regulamentar a prática esportiva profissional. As modalidades de desporto encontram-se previstas no art. 3º, e são descritas como o desporto educacional, de participação, de rendimento, subdividido em profissional e não profissional, e de formação. Tendo em vista o objetivo do presente trabalho, de tratar da aprendizagem e do estágio no âmbito esportivo, destaca-se o desporto de rendimento profissional. Nessa modalidade, o atleta treina com a intenção de obter resultados positivosmediante a conquista de vitórias e boas classificações em competições diversas. No entanto, para que o atleta seja considerado profissional a Lei Pelé exige a existência de um contrato formal firmado entre atleta e entidade esportiva (art. 3º, § 1º, inciso I, da Lei Pelé). Do mesmo modo, para que o contrato tenha validade a mesma lei estabelece limites mínimos de idade ao atleta profissional em consonância com a Constituição Federal (art. 7º, inciso XXXIII, da CF). O limite geral da lei é a idade de 16 anos. Ainda 86 Direitos de Juventude que o art. 27-C, inciso IV, reconheça a nulidade de contratos firmados entre atleta que contar com idade inferior a 18 anos de idade, ou seu representante legal, o art. 28-A, caput, reconhece que o atleta a partir dos 16 anos de idade pode ser considerado profissional autônomo e o art. 29, § 4º prevê a possibilidade de assinatura em contrato especial com atleta da mesma idade, além da possibilidade de se firmar contrato de aprendizagem com adolescentes a partir dos 14 anos de idade. Art. 29. A entidade de prática desportiva formadora do atleta terá o direito de assinar com ele, a partir de 16 (dezesseis) anos de idade, o primeiro contrato especial de trabalho desportivo, cujo prazo não poderá ser superior a 5 (cinco) anos. [...] § 4o O atleta não profissional em formação, maior de quatorze e menor de vinte anos de idade, poderá receber auxílio financeiro da entidade de prática desportiva formadora, sob a forma de bolsa de aprendizagem livremente pactuada mediante contrato formal, sem que seja gerado vínculo empregatício entre as partes. É, ainda, importante destacar que o art. 44, inciso III, da mesma lei proíbe a prática de profissionalismo, em qualquer modalidade, quando atleta for pessoa com até 16 anos de idade. Não obstante a isso, nota-se que durante todo o texto legal não há menção a figura do estágio como meio de profissionalização, mas prevê expressamente a possibilidade de se firmar contrato de aprendizagem quando o atleta contar com idade entre 14 e 20 anos mediante o pagamento opcional de uma bolsa de aprendizagem e sem a criação de um vínculo 87 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado empregatício. Há notadamente uma confusão entre os institutos da aprendizagem e do estágio. No que diz respeito a aprendizagem, a Lei Pelé entra em conflito direto com o Estatuto da Criança e do Adolescente e com a Lei de Aprendizagem. O artigo 65 do Estatuto assegura ao adolescente aprendiz todos os direitos trabalhistas e previdenciários. Além disso, o artigo 428 da CLT, alterado pela Lei de Aprendizagem, também prevê direitos trabalhistas e previdenciários básicos ao aprendiz, tais como o registro do contrato na CTPS e a garantia de um salário-mínimo hora. O adolescente aprendiz tem os mesmos direitos trabalhistas e previdenciários de todos os demais empregados, ou seja: remuneração mínima prevista em lei, férias, décimo terceiro salário, FGTS, aviso prévio, aposentadoria. Além disso, deverá ter sua Carteira de Trabalho e Previdência Social anotada quanto a seu contrato de trabalho, num prazo máximo de 48 horas. Também seu direito de acesso à escola é garantido. Por esse motivo, seu horário de trabalho é especial, de forma a não prejudicar seus estudos. (CRUZ NETO e MOREIRA, 1998, p. 440) Para solução desse conflito entre normas da mesma hierarquia deve ser aplicado o princípio da progressividade ou do não retrocesso dos direitos humanos, segundo o qual em um Estado Democrático jamais os direitos humanos fundamentais já conquistados e reconhecidos poderão ser restringidos. A importância do princípio da proibição de retrocesso para a defesa dos direitos fundamentais, nessa linha, reside no fato 88 Direitos de Juventude de que não poderá o legislador brasileiro restringir ou suprimir, mesmo que de forma indireta, direito fundamental consagrado explícita ou implicitamente no ordenamento jurídico, ainda que com regulamentações relevantes postas em patamar infraconstitucional ou com implementações de políticas compensatórias e alternativas ou, ainda, se está presente no país grave crise derivada exclusivamente de ordem econômica. (MACHADO, 2018, p. 363) Diante disso, qualquer interpretação que deixe de reconhecer os direitos trabalhistas e previdenciários já conquistados pelo aprendiz afronta diretamente o princípio da proibição de retrocesso e, consequentemente, todos os princípios que regem um Estado Democrático de Direito. No entanto, o Tribunal Superior do Trabalho já deixou de reconhecer os direitos conquistados pelo atleta-aprendiz, utilizando o princípio da especialidade legislativa em detrimento do princípio da proibição de retrocesso. Trata-se de uma ação civil pública na qual o Ministério Público do Trabalho da 3ª Região pleiteou o pagamento de bolsa auxílio aos atletas em formação com idade a partir de 14 anos de idade, e a formalização da aprendizagem mediante contrato formal pelo prazo limite de 02 anos conforme estabelecido pelo artigo 428, § 3º, da CLT. RECURSO DE REVISTA DO AMÉRICA FUTEBOL CLUBE. ATLETA EM FORMAÇÃO. BOLSA AUXÍLIO. CONTRATO ESPECIAL DE APRENDIZAGEM. ART. 29, § 4º, DA LEI Nº 9.615/98. A formação psíquica e corporal do adolescente mereceu atenção especial na Constituição de 1988, que no art. 227 89 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado adotou a teoria da proteção integral. Com isso, impôs critérios rígidos para a utilização da mão-de-obra nessa fase com o fim de garantir formação intelectual e social do jovem em formação. O art. 7º, XXXIII, da Constituição Federal e o art.29, § 4º, da Lei 9.615/1998 permitem o trabalho do maior de quatorze anos, desde que na condição de aprendiz. O acesso do menor ao esporte é fundamental para sua formação psíquica e social. A sua prática traz benefícios nos âmbitos da saúde, do lazer e social, uma vez que impõe regra de convivência e frequentemente pode abrir espaço para profissionalização com o amadurecimento do adolescente. Por outro lado, a ordem jurídica impõe, como regra, a remuneração de todas as atividades. Conjugando-se o preceito da exigência de contraprestação com o princípio da proteção integral que rege as relações com adolescentes, conclui-se que o § 4º do art. 29 da Lei 9.615/98, ao afirmar que “poderá receber auxílio financeiro da entidade de prática desportiva formadora, sob a forma de bolsa de aprendizagem livremente pactuada mediante contrato formal” apenas possibilitou a remuneração do atleta não profissional em formação por bolsa de aprendizagem estabelecida por contrato formal, sem que gere vínculo empregatício. Ao dizer que “poderá”, não permitiu o contrato sem contraprestação, mas admitiu que seja por meio de bolsa. Quanto à alegada violação do art. 29, § 4º, da Lei 9.615/98 em razão da tabela de valores fixada pelo Regional de acordo com a idade, também não tem razão o recorrente. O dispositivo não permite a contratação de atleta em formação sem contraprestação. Porém, ele também não fixa critérios de pagamento. Portanto, inviável o reconhecimento de violação literal de dispositivo de lei federal nos moldes exigidos pelo art. 896, “c”, da CLT. Recurso de revista não conhecido. (TST – ARR: 166400-29.2009.5.03.0018, Data de Julgamento: 28/04/2015, Data de 90 Direitos de Juventude Publicação: DEJT, 21/08/2015). No caso transcrito o Tribunal Superior do Trabalho reconheceu tanto a possibilidade de o contrato de aprendizagem ter prazo superior à 02 anos, quanto a legalidade de uma tabela criada pelo Tribunal Regional do Trabalho de origem para estabelecer os valores das bolsas de aprendizagem a serem pagas aos adolescentes. Tomando essa baliza, fixo o valor da bolsa auxílio em: a) mínimo de R$ 250,00 mensais para os atletas maiores de 14 anos; b) mínimo de R$ 300,00 mensais para os atletas maiores de 15 anos; c) mínimo de R$ 350,00 mensaispara os atletas maiores de 16 anos; d) mínimo de R$ 800,00 mensais para os atletas maiores de 17 anos. Nestes termos, dou provimento parcial ao recurso.” (fls. 1.259- 1.262) Ou seja, garantias fundamentais foram ignoradas e foram restringidos direitos já conquistados, o que demonstra a necessidade de se aprimorar a legislação no que diz respeito à aprendizagem a ao estágio no desporto, até mesmo porque esta última sequer encontra-se prevista na Lei Pelé, apesar de sua descrição constar no texto legal como no que se refere ao contrato de aprendizagem. CONCLUSÃO A pesquisa elaborada confirma a hipótese de que o conflito de normas de mesma hierarquia, quais 91 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado sejam, entre o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Aprendizagem, a Lei de Estágio e a Lei Pelé, implica no desrespeito à direitos trabalhistas e previdenciários já conquistados no que se refere à aprendizagem. Para se chegar a essa conclusão foram estudados os institutos da aprendizagem e do estágio como políticas públicas voltadas para a profissionalização e inserção no mercado de trabalho de adolescentes e jovens a partir dos 14 anos de idade, além de se estabelecer suas diferenças e semelhanças. As diferenças consistem basicamente no fato de que o contrato de aprendizagem implica no registro na CTPS do aprendiz, ao pagamento de um salário- mínimo hora, além do reconhecimento expresso de direitos trabalhistas e previdenciários no artigo 65 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Já no contrato de estágio não há registro em CTPS e não há mínimo a ser pago. As obrigações restringem-se ao auxílio transporte em caso de estágio não obrigatório e ao pagamento de um seguro de vida. Outra diferença é de que na aprendizagem a relação se dá entre empregador e aprendiz, enquanto no estágio a relação ocorrerá entre estagiário, parte concedente e instituição de ensino. As semelhanças, por sua vez, dizem respeito ao prazo limite de 02 anos do contrato, ao respeito aos horários escolares, bem como a uma jornada de trabalho ou de atividade de estágio reduzida. Dessa forma os adolescentes e jovens não têm sua formação teórica ou seu ensino regular prejudicados. Posteriormente, foram analisadas a 92 Direitos de Juventude aprendizagem e o estágio na Lei Pelé, quando se constatou que referida lei prevê expressamente a possibilidade de se firmar contrato de aprendizagem com atleta a partir dos 14 anos de idade apesar de descrever as características típicas do contrato de estágio. Tanto que na lei não há regulamentação quanto ao pagamento, ao registro em CTPS ou a qualquer outro direito trabalhista. A lei também não faz menção expressa quanto a possibilidade de firmar contrato de estágio, apesar de ser possível legalmente, desde que atendidos os requisitos legais, nem ao limite de duração do contrato de aprendizagem. Esse conflito de normas deve ser solucionado através da aplicação do princípio da proibição de retrocesso, segundo o qual não se pode retroceder à direitos já reconhecidos. No entanto, o Tribunal Superior do Trabalho demonstrou que existe a possibilidade de interpretação equivocada da legislação através do julgamento do ARR 166400-29.2009.5.03.0018, na qual deixou de reconhecer os direitos trabalhistas e previdenciários já garantidos legalmente aos aprendizes, bem como o limite de duração de contrato tanto aos aprendizes quanto aos estagiários. Diante disso, é urgente a necessidade de aprimoramento da legislação esportiva no que diz respeito à aprendizagem e ao estágio para que o direito à profissionalização seja garantido sem causar prejuízos aos adolescentes e aos jovens que desejam apenas exercer seu direito fundamental à profissionalização. 93 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 29 jun. 2021. BRASIL. Lei 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 13 jul. 1990, b. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ Leis/L8069.htm. Acesso em: 29 jun. 2021. BRASIL. Lei 9.6015, de 24 de março de 1998. Institui normas gerais sobre desporto e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9615consol.htm. Acesso em: 29 jun. 2021. BRASIL. Lei 10.097, de 19 de dezembro de 2000. Altera dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l10097. htm. Acesso em: 10 set. 2021. BRASIL. Lei 11.788, de 25 de setembro de 2008. Dispõe sobre o estágio de estudantes; altera a redação do art. 428 da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, e a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996; revoga as Leis nos 6.494, de 7 de dezembro de 1977, e 8.859, de 23 de março de 1994, o parágrafo único do art. 82 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e o art. 6o da Medida Provisória no 2.164-41, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11788.htm. Acesso em: 10 set. 2021. BRASIL. Lei 12.852, de 05 de agosto de 2013. Institui o Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema Nacional de Juventude - SINAJUVE. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12852.htm. Acesso em: 10 set. 2021. 94 Direitos de Juventude CRUZ NETO, Otávio; MOREIRA, Marcelo Rasga. Trabalho infanto-juvenil: motivações, aspectos legais e repercussão social. Cadernos de Saúde Pública [online]. 1998, v. 14, n. 2, pp. 437-441. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102- 311X1998000200021. Acesso em: 21 set. 2021. LÉPORE, Paulo Eduardo. Profissionalização e acesso ao trabalho para os jovens: elementos sociojurídicos. Tese (Doutorado em Serviço Social), Universidade Estadual Paulista. Franca, 2014. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/ handle/11449/123354/000825859.pdf?sequence=1isAllowed=y. Acesso em: 10 set. 2021. MACHADO, Vitor Gonçalves. O incipiente princípio da proibição de retrocesso e sua função protetiva dos direitos fundamentais. Revista da Faculdade de Direito da UERJ, n. 34, dez. 2018, pp. 345-366. Disponível em: https:// www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/rfduerj/article/ 95 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado viewFile/32074/27688#::text=Concretamente%2C% 20o%20princ%C3%ADpio%20da%20 %E2%80%9Cproibi%C3%A7%C3%A3o,las%20sem%20 alternativas%20ou%20compensa%C3%A7%C3%B5es. Acesso em : 20 set 2020 SANTANA, João Victor Pinto. O direito à profissionalização do jovem aprendiz à luz do garantismo jurídico. Dissertação (Mestrado em Direito), Universidade de Sergipe. São Cristóvão/ SE, 2018. Disponível em: https://ri.ufs.br/handle/riufs/10885. Acesso em: 10 set. 2021. TST.ARR-166400-29.2009.5.03.0018, Redator: Augusto Cesar Leite de Carvalho. RECURSO DE REVISTA DO AMÉRICA FUTEBOL CLUBE. ATLETA EM FORMAÇÃO. BOLSA AUXÍLIO. CONTRATO ESPECIAL DE APRENDIZAGEM. ART. 29, § 4º, DA LEI Nº 9.615/98. Órgão Judicante: 6ª Turma. Data de Julgamento: 28/04/2015. Data de Publicação: DEJT, 21/08/2015. Disponível em: https:// jurisprudencia.tst.jus.br/#7cb6ebbcff1dafec91a17a5aebcb03d5. Acesso em: 08 ago. 2021. 96 CAPÍTULO 05 - Os conselhos de juventudes como ferramenta de participação social Adrieli Albertti1 Ismael Francisco de Souza2 Graziela Cristina Luiz Damacena Gabrie3l 1 INTRODUÇÃO Os conselhos de juventudes são ferramentasde grande relevância para a participação social plena dos jovens nos processos de criação e fiscalização de 1 Mestranda em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC. Membro do Grupo de Pesquisa: Direito da Criança e do Adolescente e Políticas Públicas e do Núcleo de pesquisa em Política, Estado e Direito (NUPED). 2 Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul - RS (UNISC); Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, graduado em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense. Professor e pesquisador Permanente do Programa de Pós- Graduação - Mestrado em Direito e da graduação em Direito. Coordenador do Grupo de Pesquisa: Direito da Criança e do Adolescente e Políticas Públicas e do Núcleo de pesquisa em Política, Estado e Direito (NUPED). 3 Mestranda em Direitos Humanos pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Pós Graduada em Direito pela Escola Superior da Magistratura de Santa Catarina - ESMESC. Graduada em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Integrante do Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens do PPGD/ UNESC. Membro do Grupo de Estudos Intersetorial - GTI do Conselho Tutelar, Coordenado pelo Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude – CIJ MPSC. Professora conteudista na Universidade de Brasília – UNB. Coordenadora Institucional do Fórum Colegiado Nacional de Conselheiros Tutelares – FCNCT. Presidente da Associação Catarinense de Conselheiros Tutelares – ACCT. Membro do Comitê Gestor da Escola de Conselhos de SC. Membro do Comitê Gestor do Sistema de Informação para Infância e Adolescência – SIPIA Conselho Tutelar. Conselheira Estadual de Direitos de Crianças e Adolescentes – CEDCA SC. Conselheira Municipal de Direitos de Crianças e Adolescentes – CMDCA Criciúma/SC. Coordenadora do Centro de Referência da Assistência Social – CRAS Criciúma/SC. Direitos de Juventude 97 Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado políticas públicas, no controle social e de efetivação da democracia participativa. Desde a redemocratização, os conselhos gestores de políticas públicas ganharam força e foram criados nos âmbitos federais, estaduais, distrital e municipais. Os conselhos de juventudes, assim como as políticas públicas de juventudes, são mais recentes no ordenamento jurídico e nas demandas da sociedade civil organizada, porém com a chegada do novo milênio ganharam força e a partir da criação do Conselho Nacional da Juventude em 2005 muitos estados e municípios criaram também seus conselhos. A participação social dos jovens, garantida pelo Estatuto da Juventude, promulgado em 2013 e resultado da II Conferência Nacional da Juventude, demonstra as lutas dos movimentos juvenis e organizações envolvidas com a agenda das juventudes com a garantia da presença no texto da lei da necessidade de proteger ao jovem o direito de participar ativamente do processo de construção da democracia. Democracia essa que não figura apenas como democracia representativa - com o direito ao voto e a candidatura e envolvimento político partidário -, mas também como democracia participativa, para se ter o direito a ter voz como cidadão brasileiro. A partir dessa perspectiva, questionou-se se seriam os conselhos de juventudes ferramentas pertinentes para a participação social dos jovens? Assim, analisou-se as evidências acerca das construções dos debates produzidos em conferências de juventudes sobre o tema e a presença desses conselhos nos estados para entender o potencial dos conselhos de juventudes como mecanismos de participação social 98 imprescindíveis para a sociedade contemporânea que possui o maior número de jovens da história. Com base em uma abordagem bibliográfica e metodologicamente dedutiva, a exploração perpassou a conceitualização de participação social, conselhos gestores e juventudes para compreender como essas categorias teóricas se entrelaçam para construir as políticas públicas de juventudes brasileiras. 2 A participação social e os conselhos gestores de políticas públicas de juventudes A construção coletiva da sociedade por meio da participação social dentro da esfera pública possui relação intrínseca com a democracia, que com a combinação com os princípios da igualdade e da liberdade, moldam o ideal estado democrático. No Brasil dos anos 1980, as organizações da sociedade civil organizada e os movimentos sociais compreendiam que além da democracia representativa era necessária a implementação de uma democracia que contemplasse a participação social essencialmente, ou seja, a democracia participativa. Nessa visão, acreditava-se necessário que a participação social ocorresse interligada com um processo educativo de cidadania, com ligações público-privadas amplas, que permitissem decisões coletivas em temas de relevância coletiva, criando integração social e o sentimento de conexão à comunidade e pertencimento ao território (CICONELLO, 2008). Durante o período ditatorial restringiram-se as liberdades individuais e de organização coletiva, mesmo Direitos de Juventude 99 assim, grupos de resistência criaram movimentos e ideias revolucionárias que buscavam pela educação a amplitude da consciência de classe, desigualdades e opressões sofridas, como o movimento freiriano da Educação Popular e a Teologia da Libertação. A organização social pela base, nas comunidades e territórios, trouxe uma pressão social que culminou com a abertura gradual do regime militar que resultou no processo de redemocratização com a promulgação da Constituição Federal de 1988 (CICONELLO, 2008). A redemocratização marca a democracia no Brasil e os direitos sociais do povo brasileiro. Assim, retoma os ideais de democracia representativa extirpados pela ditadura militar, ao mesmo passo que consagra a democracia participativa idealizada pelos movimentos sociais anos antes. Assim, a participação social é chancelada pelo Estado e representa mecanismo fundamental na garantia e proteção dos direitos sociais (SILVA et al, 2005). Silva, Jaccoud e Beghin (2005, p. 375) destacam que a participação relacionada aos direitos sociais correspondem a três premissas: a) a participação social promove transparência na deliberação e visibilidade das ações, democratizando o sistema decisório; b) a participação social permite maior expressão e visibilidade das demandas sociais, provocando um avanço na promoção da igualdade e da equidade nas políticas públicas; e c) a sociedade, por meio de inúmeros movimentos e formas de associativismo, permeia as ações estatais na defesa e alargamento de direitos, demanda ações e é capaz de executá-las no interesse público. Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel 100 A participação social se relaciona com a expressão popular das demandas, assim como, com a democratização das políticas sociais em sua gestão e execução. O objetivo dessa participação é que por intermédio do fortalecimento da sociedade civil seja possível construir uma realidade social menos desigual. Dessa forma, só é possível a participação social de maneira coletiva, não existindo indivíduos participando de maneira isolada, mas sim sujeitos sociais, que em suas pluralidades, exercem a cidadania (GOHN, 2019). Milani (2008, p. 560) destaca que: A participação social cidadã é aquela que configura formas de intervenção individual e coletiva, que supõem redes de interação variadas e complexas determinadas (provenientes da “qualidade” da cidadania) por relações entre pessoas, grupos e instituições como o Estado. A participação social deriva de uma concepção de cidadania ativa. A cidadania define os que pertencem (inclusão) e os que não se integram à comunidade política (exclusão); logo, a participação se desenvolve em esferas sempre marcadas, também, por relações de conflito e pode comportar manipulação.A Constituição Federal de 1988 estabelece o Estado Democrático de Direito no país, derivada da pluralidade de sujeitos sociais. Com a cidadania enraizada em seu texto, explicitou princípios e diretrizes sobre a participação social. Um desses mecanismos são os conselhos gestores de políticas públicas, que, surgem das demandas da sociedade pela democratização das políticas sociais com o objetivo de instrumentalizar os Direitos de Juventude 101 ideais participativos presentes na carta magna, onde as decisões que antes eram restritas aos agendes do governo, agora são compartilhadas com a sociedade civil (SILVA et al, 2005). Segundo Tatagiba (2005, p. 209): Os conselhos gestores de políticas públicas constituem uma das principais experiências de democracia participativa no Brasil contemporâneo. Presentes na maioria dos municípios brasileiros, articulados desde o nível federal, cobrindo uma ampla gama de temas como saúde, educação, moradia, meio ambiente, transporte, cultura, dentre outros, representam uma conquista inegável do ponto de vista da construção de uma institucionalidade democrática entre nós. Sua novidade histórica consiste em apostar na intensificação e na institucionalização do diálogo entre governo e sociedade - em canais públicos e plurais - como condição para uma alocação mais justa e eficiente dos recursos públicos. Nos conselhos gestores de políticas públicas os cidadãos exercem a democracia de forma semidireta, onde há o debate e decisões sobre elaboração, execução e fiscalização de políticas públicas, agenda e programas governamentais. A horizontalização e descentralização do poder são características inatas, visto que a concentração deixa de focar na gestão pública e passa a ser exercida democraticamente por entidades e cidadãos (EGITO, 2012). Os conselhos estão presentes nas esferas municipais, estaduais, distritais e federais e podem ser classificados em três categorias, sendo elas, a) conselhos de programas: vinculados diretamente a programas governamentais para fiscalizar a execução Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel 102 das atividades propostas e a correta aplicação dos recursos destinados, como por exemplo os Conselhos de Alimentação Escolar; b) conselhos de políticas: relacionados a políticas públicas que já estão concretizadas no sistema nacional - são municipais, estaduais ou federais -, como exemplo temos o Conselho da Criança e do Adolescente e c) conselhos temáticos: não são vinculados especificamente com uma legislação, sistema ou programa governamental, mas são associados a uma agenda, como por exemplo O Conselho da Mulher (TATAGIBA, 2002). As representações dentro dos conselhos gestores são preenchidas por vagas da sociedade civil e do Estado. Os representantes da sociedade civil são eleitos por suas respectivas entidades em fóruns eletivos da sociedade civil, já as entidade públicas têm suas representações definidas por lei. Os conselhos gestores são regidos pelo princípio da paridade, mas a paridade numérica não é garantia de paridade real, sendo necessária uma diversidade e constância dos membros envolvidos no processo. É da estreita conexão entre representantes e as entidades as quais pertencem com a comunidade que legitima e traz paridade para o espaço dos conselhos (EGITO, 2012). A sociedade como um todo vem clamando efusivamente para que o Estado garanta qualidade mínima de vida aos seus cidadãos, especialmente na América Latina. Os conselhos são ferramentas amplas de participação social onde se pode exigir esse olhar para as camadas que mais sentem os efeitos da desigualdade social. Um exemplo de camada vulnerável são as juventudes. Entretanto, as juventudes Direitos de Juventude 103 como categoria objeto de políticas públicas surgiu faz poucas décadas no mundo e também no Brasil, logo os conselhos de juventudes são menos articulados do que outros conselhos mais tradicionais (SANTOS, 2017). Os Conselhos de Juventudes têm surgido com mais expressão nas últimas duas décadas. Igualmente, a agenda de políticas públicas de juventudes só ganhou espaço de maneira ampla recentemente, antes ficando restrita aos adolescentes, protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente promulgado nos anos 1990. A resistência da destinação de atenção para essa parcela vulnerável da população se relaciona com a pouca compreensão sobre o que é “juventudes” e de quem são as “juventudes” (OLIVEIRA, 2017). As conceitualizações tradicionais acerca das juventudes as entendem como uma faixa etária, cabendo a essa fase da vida a tarefa de transição entre a infância e a vida adulta apenas. A ideia de que é nesse período que podem acontecer desvios das normas sociais, com um comportamento diverso do esperado, por isso há destaque para a “delinquência juvenil” nas visões conservadoras de juventudes (PARSONS, 1968). O conceito de juventude é fluído e amplo, mas, os fatores biológicos de jovialidade e envelhecimento são importantes ao debate. Incluindo esses fatores, o Estatuto da Juventude determinou que a legislação brasileira entende por jovens as pessoas com idade entre 15 e 29 anos e que são à essas pessoas que as políticas públicas de juventude são destinadas no país (BRASIL, 2013). Logo, sobre juventudes não há um consenso. Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel 104 O conceito está em constante mutação e aperfeiçoamento, atrelado a mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais contemporâneas. Por isso, superou-se o entendimento de Bourdieu que considerava que juventude é só uma palavra, um conceito construído, um simbolismo, uma representação (BOURDIEU, 1989). No Brasil, o olhar para as juventudes como sujeitos de direitos surge a partir da redemocratização com a promulgação da Constituição Federal. De início, os adolescentes (13-18 anos) são reconhecidos como sujeitos de direitos dignos de proteção jurídica, conjuntamente com a infância. As juventudes começam a ser reconhecidas pelo ordenamento jurídico brasileiro apenas em 2005, com a Lei 11.129/05, que instituiu o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem), a Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) e o Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE). Em 2010, a Emenda Constitucional 65 foi promulgada e acrescentando a proteção integral aos jovens ao artigo 227 da Constituição Federal. Em 2013 a Lei n° 12.852/2013 instituiu o Estatuto da Juventude, o Sistema Nacional de Juventude (SINAJUVE) e definiu os princípios e diretrizes para as políticas públicas de juventudes (RUGGIERI NETO, 2015). As políticas públicas de juventude precisam de uma grande atenção por parte dos governantes e que, na atualidade, não conseguem atender as demandas. Os conselhos de juventudes atuam fortemente na proteção dos direitos das juventudes, sejam civis, políticos ou sociais, demandando e fiscalizando as ações governamentais. A não garantia de direitos Direitos de Juventude 105 básicos e de uma mínima condição digna aos jovens excluem sua cidadania, gerando prejuízos de difícil reparação e os conselhos são ferramentas de relevância no combate as exclusões e na ampliação da participação social que é direito das juventudes (SANTOS, 2017). Na atualidade vivemos a maior concentração de jovens no país, com aproximadamente 50 milhões de pessoas com idades entre 15 e 29 anos, ou seja, ¼ da população brasileira é jovem. Essas juventudes são plurais e têm o potencial de protagonismo em agendas de desenvolvimento social globais e locais, porém, a participação social e o suporte do governo e do Estado são fundamentais nesse processo (ATLAS DA JUVENTUDE, 2021). A participação social é direito dos jovens, previsto no estatuto da juventude (Lei n° 12.852/203). Esse direito é um dos princípios que regem o Estatuto, através da “valorização e promoção da participação social e política,de forma direta e por meio de suas representações”. Também presente nas diretrizes de incentivo à “ampla participação juvenil em sua formulação, implementação e avaliação” das políticas públicas de juventude e também para “ampliar as alternativas de inserção social do jovem, promovendo programas que priorizem o seu desenvolvimento integral e participação ativa nos espaços decisórios”. Isso posto, permite afirmar que a participação social das juventudes é condição para a realização integral dos demais direitos das juventudes brasileiras (BRASIL, 2013). Essa participação social dos jovens pode Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel 106 capacitar e os empoderar. O bom funcionamento das instituições, a elaboração de políticas públicas e legislações voltadas para as juventudes e, a ampliação e fortalecimento dos espaços de democracia participativa, como os conselhos, são essenciais para permitir a participação plena das juventudes, respeitando suas pluralidades de vivências e diversidades (SOUZA, 2004). Com a criação do Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE) em 2005 pela Lei n° 11.129/05 e regulamentando pelo Decreto n° 10.069/2019, é órgão consultivo e propositivo. O CONJUVE é plataforma oficial de representação e participação social juvenil do Brasil. Compreende-se que suas competências abrangem: 1. Propor estratégias de acompanhamento e avaliação da política nacional de juventude. 2. Apoiar a Secretaria Nacional da Juventude da Secretaria de Governo da Presidência da República na articulação com outros órgãos da administração pública federal, governos estaduais, municipais e do Distrito Federal. 3. Promover a realização de estudos, debates e pesquisas sobre a realidade da situação juvenil, com vistas a contribuir na elaboração de propostas de políticas públicas. 4. Apresentar propostas de políticas públicas e outras iniciativas que visem assegurar e ampliar os direitos da juventude. 5. Articular-se com os conselhos estaduais e municipais de juventude e outros conselhos setoriais, para ampliar a cooperação mútua e o estabelecimento de estratégias comuns de implementação de políticas públicas de juventude. 6. Fomentar o intercâmbio entre organizações juvenis nacionais e internacionais (BRASIL, 2018). Direitos de Juventude 107 Atualmente, o conselho é composto por 30 conselheiros: 10 representantes do poder público e 20 representantes da sociedade civil. O poder público, além da Secretaria Nacional da Juventude, possui representantes dos ministérios que possuem programas voltados para os jovens; da Frente Parlamentar de Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputados; do Fórum Nacional de Gestores Estaduais de Juventude; assim como das associações de prefeitos. A sociedade civil, que é maioria numérica no CONJUVE, objetiva refletir diversidade para o enriquecimento do diálogo. Os representantes vêm de movimentos juvenis, organizações não governamentais, especialistas e personalidades com notório saber. O mandato tem duração de dois anos mediante eleição direta, já os cargos de presidente e vice-presidente são alternados, a cada ano, entre governo e sociedade, com eleição da mesa diretora pelos membros do conselho (BRASIL, 2021). O Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE) também é responsável pela coordenação da Conferência Nacional de Juventude. As conferências são espaços de participação amplos, onde o debate entre os diversos atores das políticas públicas de juventudes contribui para o fortalecimento da Política Nacional de Juventude. No Brasil, já foram realizados 3 processos de conferências: em 2008, 2010 e 2015. A conferência de deveria acontecer em 2020 fora adiada e acontecerá em 2022 entre 10 a 12 de agosto (BRASIL, 2021). O tema da participação social das juventudes pelos conselhos de juventude é recorrente dentro das Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel 108 Conferências Nacionais. Na I Conferência Nacional de Juventude que acontecer m 2008, extrai-se as recomendações, dentre outras, de: Criar o Sistema Nacional de Juventude, composto por órgãos de juventude (secretarias/coordenadorias e outros) nas três esferas do governo, com dotação orçamentária específica; conselhos de juventude eleitos democraticamente, com caráter deliberativo, com a garantia de recursos financeiros, físicos e humanos; fundos nacional, estaduais e municipais de juventude, com acompanhamento e controle social, ficando condicionado o repasse de verbas federais de programas e projetos de juventude à adesão dos estados e municípios a esse Sistema (ATLAS DA JUVENTUDE, 2021, p. 310). Especialmente na II Conferência Nacional de Juventude, que aconteceu no ano de 2010 a participação social fora tema recorrente e, dentre outras deliberações, recorta-se: Para reafirmarmos o Conselho Nacional de Juventude, quanto à sua diversidade e representatividade, é necessário incorporar o maior número de movimentos e entidades que tenham suas ações nacionalmente voltadas para a juventude. Os membros da sociedade civil no Conselho Nacional de Juventude serão representantes de entidades e movimentos de caráter nacional, escolhidos em processo seletivo [...]. Os conselhos de Juventude no Brasil devem se constituir considerando as seguintes características/atribuições: - representar a juventude no sentido de promover melhorias, qualidade de vida e acesso a ações e projetos diversificados; - com caráter deliberativo e fiscalizador, com cotas de 3/5 de jovens; - com entidades Direitos de Juventude 109 que atuem no segmento de juventude; - com obrigatoriedade de inserção juvenil; - com alternância de sociedade civil e poder público na presidência; - com garantia de espaço de participação nos conselhos de juventude para os estudantes, LGBTQIA+, mulheres, negros, pessoas com deficiência, entidade de bairro, trabalhadores, jovens do campo e de comunidades indígenas, quilombolas, de terreiros e povos tradicionais, entre diversos outros segmentos juvenis; com sede própria; - acompanhados de fóruns municipais e/ ou territoriais e demais organização de suporte/apoio ao conselho; - subdivididos por conselhos regionais, de acordo com o porte do município, cujos membros da sociedade civil sejam eleitos em fóruns, assembleias e outros coletivos específicos de juventude, e não indicados, salvo quando não houver um fórum específico de juventude; - com dotação orçamentária específica prevista em LDO/LOA e no PPA; - com prazo de mandato definido por lei, e, onde ainda não houver conselhos, que seja fomentada e incentivada a sua criação; - com 3/4 de participação da sociedade civil, contemplando a participação dos povos tradicionais e comunidades indígenas (ATLAS DA JUVENTUDE, 2021, p. 312) Ante os resultados dos debates da II Conferência Nacional da Juventude que teve grande foco pelo incentivo e fomento de criação e manutenção de conselhos em âmbitos estaduais e municipais, o CONJUVE mapeou, em 2010, que existiam no país 105 conselhos federais de municipais de juventude, onde quase metade desses ficava situado no Sudeste (Costa, 2014). Considerando que o Brasil possui 5.570 (IBGE, 2021), se fosse ignorado a existência de conselhos estaduais nesse número e se considerasse que 105 seriam conselhos municipais, em 2010 haveria 1,88% de Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel 110 municípios com conselhos de juventude. Esse número é irrisório ante o potencial de participação social das juventudes. Nesse sentido, Castro e Abramovay ensinam que: É diagnosticado em diversas pesquisas sobre juventude no Brasil, que o interesse e a participação dos jovens na vida pública não se esvaziou [...] ainda que os contextos sociais e econômicos estejam cada vez mais cedo encurralando jovens para o precário mercado de trabalho, tomando otempo livre para agrupações; ainda que a mídia comercial tenda a manipular as muitas formas de resistência num disfarçado teatro de felicidade obtida simplesmente pelo consumo de apetrechos, os jovens vêm se mostrando bastante adaptáveis e adaptadores dessas condições. Ou seja, novas são as motivações objetivas que inibem o processo de participação juvenil, porém, muitas são as adaptações e mutações, engendradas pelos jovens, que favorecem os processos de participação (CASTRO; ABRAMOVAY, 2009, p. 39). Na III Conferência Nacional de Juventude de 2015, com os resultados do mapeamento realizado em 2010, percebeu-se a baixa mobilização e concluiu- se a necessidade da educação para a cidadania para aumentar a participação social, assim como a divulgação ampla dos espaços, especialmente na internet. Dentre as discussões permeadas, se destacam: Criar um grupo de trabalho (GT), dentro das coordenadorias da juventude nas esferas municipais e estaduais, formado pela sociedade civil e poder público, que desenvolva trabalhos de formação voltados à cidadania e à participação social de forma contínua; e, pelos meios Direitos de Juventude 111 de comunicação, incentivar a juventude a participar da Conferência e das atividades que são desenvolvidas no município e no estado. - Garantir a realização de projeto de cidadania nas escolas em parceria com os conselhos de juventude e movimentos sociais, a partir de atividades de discussão sobre direitos, deveres, cidadania e ciência política que estimule a participação social da juventude. A partir do projeto de cidadania, será elaborado uma cartilha sobre participação social, que aborde como funcionam os conselhos de juventude e as conferências, que explique como é o processo de construção de entidades estudantis e que seja amplamente divulgada, principalmente na internet (ATLAS DA JUVENTUDE, 2021, p. 313). No momento, não há uma pesquisa ou mapeamento atualizado de quantos conselhos de juventudes existem no país, mas há um consenso que o incentivo a criação e efetivação dos conselhos de juventudes são relevantes para que a participação social das juventudes sejam efetivadas, com o exercício pleno da cidadania dos jovens. A participação popular da juventude é benéfica para as comunidades e os territórios e influência na qualidade dos serviços e das políticas públicas (ATLAS DA JUVENTUDE, 2021). Por parâmetro podemos perceber que dentre os estados brasileiros que possuem legislações que criam os conselhos estaduais de juventudes estão o Acre (Lei n° 2144/2009), Amapá (Lei n° 832/2004), Bahia (Lei n° 13452/2015), Ceará (Lei n° 34181/2021), Distrito Federal (Lei n° 5020/2013), Espírito Santo (Decreto n° 4122/2017), Goiás (Decreto n° 8768/2016), Maranhão (Lei n° 8647/2007), Minas Gerais (Lei n° 24414/2016), Mato Grosso do Sul (Decreto n° 15688/2021), Mato Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel 112 Grosso (Lei n° 20364/2016), Pará (Lei n° 6936/2006), Paraíba (Lei n° 10981/2017), Pernambuco (Lei n° 18273/2021), Piauí (Lei n° 5618/2006), Paraná (Decreto n° 6755/2017), Rio de Janeiro (Lei n° 3480/2000), Rio Grande do Norte (Lei n° 574/2016), Roraima (Lei n° 792/2010), Santa Catarina (Lei n° 16865/2016), Sergipe (Lei n° 7815/2014), São Paulo (Decreto n° 25588/1986) e o Rio Grande do Sul (Lei n° 14246/2013). Ou seja, os estados de Alagoas, Amazonas, Rondônia e Tocantins sequer possuem leis criando conselhos estaduais de juventudes. Porém, embora 23 estados disponham de leis vigentes, nem todos esses estados possuem os conselhos com membros nomeados e com reuniões acontecendo mensalmente, o que naturalmente prejudica a participação social nesses territórios. A questão que paira é como estados com conselhos desestruturados poderiam fomentar conselhos municipais? E se as participações nos conselhos estaduais estão prejudicadas como estariam as participações dos conselhos municipais? São questões que talvez a IV Conferência Nacional da Juventude possa responder. Com esse horizonte, sabe-se que tanto por fragilidades institucionais quanto pela localização periférica nas políticas governamentais, os conselhos de juventudes não possuem o reconhecimento necessário para se efetivarem como ferramenta fundamental da participação social das juventudes na democracia brasileira. Todavia, as experiências e legados construídos, sejam pelo Conselho Nacional de Juventudes, pelas 3 Conferências Nacionais de Juventudes e pelos Conselhos Estaduais de Juventudes Direitos de Juventude 113 que já estão regulamentados na maioria dos estados – passo que facilita muito a efetiva implementação das políticas públicas de juventudes nos territórios-, se apresentam como promissores marcos na conquista dos direitos das juventudes e na construção das políticas públicas de juventudes. É necessário que a sociedade civil organizada se fortaleça dentro da agenda das juventudes e construa diálogos estreitos com o poder público para a expansão dos conselhos de juventudes, que possuem poder transformador de realidades locais e nacional no fortalecimento da pauta das juventudes. CONCLUSÃO A participação social dos jovens dentro dos conselhos possui muitos desafios, como a necessidade de vencer a desmobilização da sociedade civil organizada frente aos ideais de individualismos acima da coletividade, presentes no capitalismo contemporâneo, assim como, o desinteresse dos gestores públicos em dedicar pautas específicas para as juventudes e criar legislações instituindo conselhos de juventudes. Da mesma forma, o Conselho Nacional de Juventude possui papel fundamental da mobilização dos estados, para a construção e efetivação de conselhos estaduais. Esses, por sua vez, podem criar e efetivar os conselhos de juventudes nos municípios. Assim, em cadeia, os conselhos de juventudes são descentralizados e as pautas podem se tornar mais conectadas com as realidades locais e ampliar a força da participação social dos jovens, especialmente dos Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel 114 mais vulneráveis. A oportunidade frente a realização da nova Conferência Nacional de Juventude e a realização das conferências nos municípios, estados e distrito, quilombos e comunidades tradicionais, tendo a Resolução n° 02 de 2021 expedida pela Comissão Organizadora da 4ª Conferência Nacional de Juventude previsto inclusive a realização dessas convenções de forma virtual para ampliar as possibilidades de participação dos jovens e garantir que o processo ocorra mesmo frente a uma possível nova onda da pandemia de COVID-19. Essas conferências, que devem ser realizadas no primeiro semestre de 2022, tem a possibilidade de ouvir as pautas das juventudes brasileiras, ampliar o exercício da cidadania e fortalecer a militância e ativismo juvenil e assim, quem sabe, resultar na criação e ampliação dos conselhos de juventudes locais e no possível mapeamento e fortalecimento dos conselhos já existentes. Conclui-se que não há dúvidas que a participação social dos jovens pelos conselhos de juventudes possui grande efetividade na garantia do exercício da cidadania e na efetivação plena da democracia participativa prevista na Carta Magna brasileira. Os desafios na construção das políticas de juventude e no fortalecimento dos conselhos são grandes, ainda mais com as desmobilizações que ocorreram frente as políticas conservadoras que assolaram o país e o mundo nos últimos anos e também devido a pandemia do novo corona vírus. Mas, com a construção ampla do debate coletivo sobre como devem ser as políticas públicas de juventudes da nova década, especialmente Direitos de Juventude 115 no processo de conferências por todo o país, poderá se desenhas o modo como se irá trabalhar para construí- las possibilitando visualizar um avanço significativo dos espaços de participação social das juventudese do crescimento das mobilizações acerca dos conselhos de juventudes. 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Com tal finalidade, propôs-se como objetivos específicos: contextualizar a gravidez na adolescência no Brasil; apontar as causas e consequências da ocorrência da gravidez na adolescência sob a perspectiva social e 1 Mestra em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), integrante do Grupo de Estudos Direito, Cidadania e Políticas Públicas da UNISC e do Grupo de pesquisas sobre Direitos Humanos e Políticas Públicas para crianças e adolescentes (GEDIHCA) da URCAMP Advogada 2 Acadêmica do Curso de Graduação em Direito do Centro Universitário da Região da Campanha – URCAMP/Bagé. Integrante do Grupo de Pesquisas sobre Direitos Humanos e Políticas Públicas para Crianças e Adolescentes (GEDIHCA/ URCAMP) e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PROBIC da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul – FAPERGS, integrando o Projeto de Pesquisa Direito, Inovação e Novas Tecnologias: o direito ao trabalho no cenário de novas tecnologias e o enfrentamento da violência sexual de crianças e adolescentes diante do isolamento social vinculado ao curso de Direito da URCAMP Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 122 cultural da maternidade; e descrever a relação entre a vivência da sexualidade na adolescência e a gravidez precoce à luz da teoria das representações sociais. Assim, como problema de pesquisa, questiona-se: qual a influência da cultura na gravidez na adolescência? Tem-se por hipótese inicial que a influência da cultura é evidenciada quando se trata de gravidez na adolescência, uma vez que, representada pelas ações reiteradas por várias gerações, encontra diversos aliados para sua reprodução, criando assim um ciclo intergeracional de reproduções. O método de abordagem empregado é o dedutivo, a partir da análise geral da temática, especificando-se no decorrer do seu desdobramento. Como métodos de procedimento tem-se o monográfico. A técnica de pesquisa utilizada foi a bibliográfica, mediante a investigação em artigos científicos, teses e livros. 2 O contexto da gravidez na adolescência no Brasil A gravidez na adolescência, considerada um fato social até o século XX, sofreu alterações nas últimas décadas. O reconhecimento da infância e da adolescência como períodos de peculiar desenvolvimento físico-psíquico e a criação de métodos contraceptivos auxiliaram na quebra paradigmática, tornando a gravidez na adolescência em um problema de saúde pública. Além disso, essa quebra de paradigmas fez com que surgissem novos valores sociais e que a reprodução se tornasse uma Direitos de Juventude 123 opção e um projeto racional. A naturalização da gravidez precoce se deu por diversos fatores socioculturais e econômicos, nos séculos XVIII e XIX, por exemplo, onde o casamento infantil era amplamente admitido socialmente, meninas com cerca de 12 anos de idade celebravam união com homens mais velhos e iniciavam a vida reprodutiva, dando um salto da fase infantil para a vida adulta. A união precoce também ocorria em famílias pertencentes a classe pobre, que viam na união uma oportunidade de melhoria de vida. A gravidez, assim como a adolescência, é considerada uma construção social, “ela é uma das possibilidades de ocorrência na trajetória de meninas e meninos, tendo significados diferenciados, a depender do lugar que a sociedade atribui ao adolescente em dado momento histórico.” (SANTOS, et al, 2017, P. 17) A gravidez na adolescência, além de ser uma construção social e um acontecimento visto sob o olhar de desrespeito, submissão e violação de direitos, é também considerada uma reprodução familiar, isto é, meninas grávidas que tem mães que engravidaram na adolescência. A gravidez na adolescência vem ocorrendo desde os primórdios da civilização. Na Idade Média quando as meninas apresentavam os primeiros sinais da menarca e da puberdade, casavam-se com homens mais velhos (com 30 anos ou mais) a fim de iniciar a reprodução e só paravam de reproduzir por alguma complicação de saúde ou se viessem à óbito. No Brasil, no século XX, as “sinhazinhas” casavam-se com maridos escolhidos pelos pais e seu dever era gerar Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 124 filhos para seus maridos. (SANTOS; NOGUEIRA, 2009) A realidade permaneceu até o final do século XX. Com a Revolução Industrial e o ingresso feminino no mercado de trabalho, para realizar tarefas exercidas por homens, o papel da mulher sofreu alterações. Contudo, essa mudança não foi acompanhada por políticas que permitissem a ressignificação da mulher em sua vida pessoal, “surgia então uma nova concepção: a da adolescente que se lançava no mercado de trabalho” (SANTOS; NOGUEIRA, 2009, p. 50). E a gravidezera considerada um impeditivo da evolução profissional, afetando também a renda familiar, que agora já contava com a contribuição financeira da mulher para custear as despesas da casa. (SANTOS; NOGUEIRA, 2009) Com o fim da II Guerra Mundial, em 1945, os valores sociais tiveram uma quebra paradigmática e os jovens passaram a viver num mundo de liberdade sexual e convivência em grupos. Os anos de 1950 foram considerados um marco na mudança de vida e do papel social da mulher, a pílula anticoncepcional significou a liberdade sexual feminina, até então não reconhecida. (SANTOS; NOGUEIRA, 2009) Assim, no momento em que a gravidez se tornou um planejamento racional, a adolescente grávida começa a se mostrar como um problema “[...] por estar na contramão das expectativas sociais em relação às jovens contemporâneas”. (NUNES, 2010) A pílula anticoncepcional e a posterior libertação sexual feminina representou também sua emancipação, contudo trouxe a problemática da gravidez na adolescência como um descuido feminino, anulando o Direitos de Juventude 125 papel do homem na concepção. Na década de 1980 começaram os estudos problematizando a gravidez na adolescência no Brasil, e os discursos de médicos e psicólogos passaram a apontar a gravidez precoce como um problema de saúde pública, por motivar distúrbios psíquicos e riscos físicos para mãe e para o bebê. O debate se intensificou no Brasil a partir do aumento de nascimentos de bebês com mães com menos de 20 anos de idade. É interessante observar que no século XX ter filhos antes dos 20 anos não era considerado um tema para debate, se a menina estivesse casada, a gravidez era vista como natural e positiva pela família e pela sociedade (NUNES, 2010). A gravidez na adolescência como um “problema social” é fruto do século XXI. Décadas atrás, parir antes dos 19 anos não era objeto de debate público, somente a partir das alterações do padrão de fecundidade e da reformulação da posição social da mulher na sociedade, foi possível para as mulheres a escolarização e a profissionalização, o que propiciou que mulheres gerassem filhos fora da entidade do casamento. (BRANDÃO; HEILBORN, 2006) Nas sociedades ocidentais, antes do século XVIII, nem a mulher, nem a maternidade e tampouco os filhos eram socialmente valorizados. Discursos políticos e religiosos da época reforçavam essa insignificância. Isso se modificou no final desse mesmo século, com a necessidade crescente de mão de obra para as indústrias em expansão. (ARAUJO; MANDÚ, 2017, p. 1143) A gravidez precoce apresenta-se como uma Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 126 ruptura no período da adolescência e ocorre com mais frequência em camadas sociais populares, onde os adolescentes são desinformados, tem dificuldade em acessar os métodos contraceptivos e vivem em situação de marginalidade social. A gravidez na adolescência também propicia a formação de mais lares monoparentais, que contam somente com a presença da mãe, a constituição de uma prole mais numerosa, a esterilização precoce, o abandono escolar e, consequentemente, a precarização de ingresso no mercado de trabalho. O que vem a afetar o processo de inserção social de mulheres que foram mães adolescentes. (BRANDÃO; HEILBORN, 2006) A nova perspectiva sobre a gravidez na adolescência, que ressalta principalmente a vulnerabilidade social, representa um reordenamento da fase adolescente e a transposição de uma das fases mais importantes da vida, podendo, em alguns casos, resultar num adulto patológico e imaturo para lidar com os problemas da vida cotidiana. A menina se vê, de repente, como mãe e não raras vezes também como esposa e dona de casa ou como única responsável pelo/a filho/a, abrindo mão de todos os sonhos e objetivos. A gravidez na adolescência também vem se mostrando como uma repetição de papéis, isto é, muitas adolescentes grávidas possuem mães que também engravidaram na adolescência. Ademais, a ausência de uma perspectiva emancipadora, faz com que adolescentes acreditem que a constituição de uma família é o melhor a se fazer, não pensando na possibilidade de se tornarem mães-solo ou ter que Direitos de Juventude 127 abandonar a escola e o trabalho. Por isso, a gravidez na adolescência também se mostra um produto do costume, dos valores, da cultura e das regras morais e sociais da família da adolescente. Renepontes e Einsenstein (2005, p.11) afirmam que para compreender a grávida adolescente é preciso observar seu mundo interno, sua história prévia e o contexto externo e a história atual em que se vive, “[...] pois o indivíduo influencia o seu contexto e é por ele influenciado em sequência de ação constantemente recorrente”. Percebe-se que as meninas, não obstante vivam em uma sociedade que prega os valores da educação e do trabalho, vão no sentido contrário das expectativas sociais. A gravidez na adolescência que antes era fruto de casamento infantil e propiciava a assunção de uma vida adulta, hoje possui características distintas. Araujo e Mandú (2017), em uma pesquisa de campo, apontaram que a maioria das meninas mães são solteiras e dependentes de seus pais, diferenciando-se das meninas grávidas do século XIX, por exemplo, onde a gravidez era naturalizada dentro do matrimônio. A cultura, fruto de uma série de elementos sociais, culturais, econômicos e educacionais, faz com que a reprodução na adolescência ainda seja um fato natural para muitas famílias. Um dos grandes motivadores para a gravidez na adolescência é a união precoce, como um sentimento de esperança da adolescente e de sua família, quanto a condições econômicas e valorização social. Em contextos de pobreza e baixa escolaridade, é comum que meninas vejam na maternidade um Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 128 rumo para suas vidas e muitos desses desejos tem apoio familiar, mesmo com as ondas de informação e disseminação da utilização de contraceptivos, ainda há uma parcela social que segue a cultura da gravidez precoce, indo contra a nova cultura introjetada atualmente. 3 As causas e consequências para ocorrência da gravidez na adolescência sob a perspectiva social e cultural da maternidade A gravidez precoce implica em diversas questões que transpõem o papel de mãe, vindo acompanhada, inúmeras vezes, de abandono escolar e afastamento do trabalho, fazendo com que as meninas sejam inteiramente dependentes de seus companheiros, pais ou vivam em situação de miserabilidade. O papel cultural de submissão ocupado pelas mulheres ao longo dos anos, também reforça os estigmas de gênero, construindo um mercado de trabalho majoritariamente masculino, corroborando para a exclusão feminina da economia, da política, do ambiente educacional e de posições de destaque social. A partir disto, a análise da gravidez precoce associada ao papel social e a dificuldades econômicas demonstra sua relevância, quando se observa que a maioria das meninas grávidas pertencem a classes baixas e tem uma tendência a reproduzir o modo de vida de seus antepassados. As desigualdades de gênero também são legitimadas pelo baixo ou inexistente poder econômico da menina na família, uma vez que inúmeras meninas antes ou após a gravidez Direitos de Juventude 129 não conseguem concluir o ensino fundamental e/ou médio, implicando diretamente nas oportunidades de trabalho; fazendo com que o homem domine emocional e economicamente a relação, reduzindo ainda mais a possibilidade de emancipação das meninas e mulheres. A escola é considerada um dos grandes pilares de crescimento e desenvolvimento para crianças e adolescentes. Contudo, esse ambiente reforça, por vezes, a segregação de classes e raças, privilegiando os brancos e ricos e corroborando com o sentimento de fracasso dos pretos/pardos e pobres. Segundo Hernandéz (2014, p. 17), “las experiencias de fracaso escolar les confirmansus limitaciones, a la vez que el contexto de pobreza les muestra que, si bien estudiar es importante y socialmente valorado, no es un proyecto al que ellas puedan aspirar.” A condição de exclusão do ambiente educacional se dá desde muito antes da gravidez, não raras vezes, as meninas já haviam reprovado e/ou trocado de escola por dificuldades em aprendizagem ou sentimento de não pertencimento, ou seja, os fatores que afastam as meninas do estudo, como a necessidade de trabalhar para contribuir com a renda familiar ou a necessidade de cuidado de familiares. A exclusão escolar constitui apenas um dos aspectos da exclusão social amplamente vivenciada pelas meninas. (HERNANDÉZ, 2014) Essa realidade também é apontada por Heilborn et al (2009) no Brasil, onde inúmeras meninas que vivem em contexto de pobreza e marginalização, abandonam a escola antes de engravidarem. A Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 130 pesquisa também aponta que meninas entre 15 e 18 anos possuem responsabilidades domésticas, o que também acaba prejudicando a dedicação aos estudos. A pesquisa qualitativa realizada por Hernández (2014), apontou fatores de vulnerabilidade como relações familiares ruins, alcoolismo na família, violência intrafamiliar, abandono escolar antes da gravidez, ingresso no mercado de trabalho antes da gravidez, responsabilidade pelos afazeres domésticos, dentre outros; como elementos de risco para a adolescente e que somente podem ter sido asseverados com a gravidez, afirmando não haver impactos socioeconômicos provocados diretamente pela gravidez precoce. A análise de características facilitadoras da reprodução precoce, das consequências e das expectativas das adolescentes, Sierra-Macías et al (2016) expõe que os principais facilitadores da gravidez na adolescência são as práticas sexuais de risco e a falta de maturidade; dentre as principais consequências observadas, foram apontadas a má saúde mental, mudança nos planos para o futuro, abandono do companheiro e conflitos familiares. Já as expectativas das adolescentes são fazer com que a gravidez se torne algo positivo e, para as que ainda estão grávidas, a possibilidade de aborto. Os impactos de uma gravidez precoce na vida de uma adolescente aumentam consideravelmente quando o pai da criança decide se eximir de qualquer responsabilidade. A corresponsabilidade na maternidade é um dos pontos principais para a reinclusão da menina no âmbito educacional e laboral, Direitos de Juventude 131 uma vez que se o pai e/ou companheiro compartilhar as tarefas de cuidado com a criança e do lar, a mulher tem a oportunidade de se dedicar a objetivos pessoais. A conjugalidade também é uma característica da gravidez precoce, mães adolescentes tem maior probabilidade de conviver com seus companheiros, se comparadas a meninas que não engravidaram na adolescência. Santos (2013), faz um estudo com adolescentes que tiveram filhos num período igual ou inferior a dois anos e adolescentes que foram mães a mais de dois anos, e aponta que grande parte das meninas que compõem o primeiro grupo (mães com filhos em período inferior a dois anos) vivem em união conjugal com o pai do bebê, mesmo que não haja preparação para os cuidados com o filho. Os impactos socioeconômicos de curto prazo na vida de mães adolescentes, envolvem o agravamento das violações de direito, o que a longo prazo intensifica as diferenças sociais, raciais e de gênero. A baixa escolaridade está intrinsicamente associada a gravidez precoce, Santos (2013) observou que a maioria das meninas mães, interromperam seus estudos no ensino fundamental e não retornaram mais. Em relação ao ingresso no ensino superior, a proporção de mulheres mães na adolescência é cerca de três vezes menor em comparação a grupos de mulheres que não engravidaram precocemente. A gravidez precoce e a condição social também devem ser associadas a cor de pele, uma vez que a maior parcela de pessoas que compõem as classes sociais e concentram o maior número de gravidezes na adolescência são pessoas negras e pardas, o que Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 132 permite constatar que a gravidez na adolescência é uma característica de pessoas negras/pardas e pobres. (SANTOS, 2013) As dificuldades de inclusão educacional e laboral, por vezes é superada, quando a adolescente encontra apoio na família e no companheiro. Na pesquisa realizada com mães adolescentes, Santos (2013) constatou que, apesar do abandono escolar durante a gravidez ou depois que o bebê nasce, as meninas conseguem se reintegrar à escola posteriormente. Contudo, o desenvolvimento dessas adolescentes mães depende de uma rede de apoio que auxilie nos cuidados com o filho e incentive a menina a progredir. A feminização da pobreza cresce em contextos latino-americanos, uma vez que além da pobreza, há fatores sociais, culturais e de gênero que corroboram com a submissão da mulher ao âmbito estritamente familiar e doméstico. Reyes e Almontes (2014), ressaltam que as mulheres latino-americanas são as que possuem os níveis mais altos de atraso e abandono escolar, seja pela situação de precariedade socioeconômica, como também pelo padrão cultural que valoriza mais a escolaridade masculina e considera que o papel das mulheres deve se limitar a reprodução humana e ao ambiente doméstico. Apesar da gravidez precoce representar a interrupção nos planejamentos de adolescentes e na expectativa da família por um futuro melhor, pesquisas apontam que a mulher, independentemente de engravidar durante a adolescência ou na vida adulta, ficará prejudicada no mercado de trabalho. O que demonstra a existência de desigualdades de Direitos de Juventude 133 gênero no mercado de trabalho, favorecendo a figura masculina, pois a mulher com filhos, possuindo ou não uma relação marital, é vista como menos capaz do que um homem, solteiro ou casado, com filhos ou sem filhos. (SOUZA; RIOS-NETO; QUEIROZ, 2011) Ademais, o Brasil é um dos países com maior desemprego no mundo na faixa etária de jovens de 18 a 24 anos de idade, e também o segundo país com mais jovens que não trabalham e nem estudam. (INEP, 2019) Esses dados demonstram as limitadas oportunidades disponíveis para adolescentes e jovens, refletindo na vida adulta e gerando, inúmeras vezes, um ciclo de pobreza e privações. Das adolescentes que se tornam mães, as de classes mais pobres são as que sofrem mais impactos com a gravidez. Na pesquisa realizada por Taborda e outros (2014), com mães adolescentes pertencentes a diversos estratos sociais, as meninas das classes mais pobres, são as que mais relataram dificuldades a partir da chegada do bebê, quanto ao abandono escolar, uma das meninas relata: “Tenho até vontade de voltar a estudar, mas agora não tem como, mas assim que a minha filha crescer um pouco mais eu volto (C3 classe C)” (TABORDA et al, 2014, P. 19), o discurso altera-se completamente quando se trata de uma adolescente da classe A. Os principais impactos sociais e econômicos da gravidez precoce, a partir da visão das mães adolescentes e dos pesquisadores, foi o abandono escolar e a perda de oportunidades educacionais e profissionais. As desigualdades de classes e gênero, também são fatores que influenciam demasiadamente Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 134 nas trajetórias de vida das adolescentes mães, sendo que meninas pertencentes a classes pobres e de pele negra sofrem impactos diretamente, uma vez que reduzem as já limitadas oportunidades de mobilidade social. 4 A relação entre a vivência da sexualidade na adolescência e a gravidez precoce à luz da teoria das representações sociais A adolescência é um papel social, visto que tal período é considerado como uma atitude ou postura do ser humano durante uma etapa de seu desenvolvimento, permitindo a reflexão e a visualizaçãodas expectativas da sociedade sobre as características deste grupo (SILVA, 2011). Não se pode descrever a adolescência como uma simples adaptação às mudanças corporais, mas como uma importante fase no ciclo existencial da pessoa, uma tomada de posição social, familiar, sexual e entre o grupo que se constitui num período de transformações físicas e emocionais, sendo considerada desta forma, como um momento de inúmeros conflitos e de crises (SILVA, 2011). Iniciada de forma cada vez mais precoce, a sexualidade, elemento primordial da vida humana, e ainda considerada um tabu no presente contexto social, representa um dos grandes problemas na atualidade. Em consequência, jovens e adolescentes que buscam informações acerca do assunto acabam por experienciar opressão e censura, o que resulta, inúmeras vezes, em relações sexuais imprudentes e Direitos de Juventude 135 possível gravidez indesejada (COSTA; FREITAS, 2020). A gravidez precoce prejudica a emancipação feminina, ocasionando a evasão escolar, ingresso precoce no mercado de trabalho, desqualificação, violência e diminuição de oportunidades, sendo um resultado multifatorial que envolve questões familiares, sociais, culturais e educacionais. Esse problema perpassa o âmbito familiar, figurando um problema social e de Estado, uma vez que ocorre por uma série de elementos, não devendo ser atribuído única e exclusivamente a imprudência de adolescentes e ao descuido dos responsáveis (DIAS; TEIXEIRA, 2010). São altos os índices de gravidez precoce no Brasil, uma vez que 28 a 30% dos recém-nascidos são filhos de mães com idade inferior a 19 anos. O número de adolescentes com idade entre 10 a 14 anos que esperavam um filho ou estavam no pós-parto, segundo a pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase dobrou entre 2000 e 2002 (PIEVE, 2009). A concepção da liberação do comportamento social, em específico o da sexualidade, contribui consideravelmente para o elevado aumento da gravidez no período da adolescência, tendo em vista o desconhecimento do próprio corpo enquanto função reprodutora, derivada da ausência de uma educação esclarecedora tanto no âmbito familiar como no escolar e social. A liberação dos costumes, entretanto, não é sempre acompanhada de informação necessária sobre as consequências da atividade sexual sem proteção e precocemente iniciada (PIEVE, 2009). A sexualidade, bem como os demais Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 136 acontecimentos dela decorrentes, permite analisar a primazia do pensamento social em relação ao pensamento individual, buscando evidenciar o modo como os adolescentes definem e vivenciam tais situações. Neste viés, Durkheim (1956) foi um dos primeiros estudiosos que propôs e introduziu o termo “representação social”, ou “representação coletiva’’, sendo a teoria importante para a compreensão da interferência social e cultural durante a adolescência e para fornecer suporte à família, comunidade, escola e serviços de saúde na abordagem acerca da temática. A representação social pode ser entendida como um conjunto de ideias, imagens, concepções e visões de mundo que os sujeitos possuem sobre a realidade, as quais estão vinculadas às práticas sociais. Ao mesmo tempo, cada grupo social elabora as suas representações de acordo com a sua posição na sociedade, apresentando correlação com os seus interesses específicos e com a própria dinâmica da vida cotidiana. Durkheim considerava a representação individual como um fenômeno psíquico autônomo não redutível à atividade cerebral que a fundamenta, enfatizando a especificidade e a primazia do pensamento social em relação ao pensamento individual. Assim, sugere-se que os comportamentos são influenciados pela representação social, seja ela de um objeto ou de uma situação, uma vez que a representação coletiva não se reduz à soma das representações dos indivíduos que compõem a sociedade, mas é também uma realidade que é imposta ao indivíduo, ou seja, as formas coletivas de agir ou Direitos de Juventude 137 pensar têm uma realidade fora dos indivíduos que, em cada momento, conformam-se a elas. O indivíduo as encontra formadas e nada pode fazer para que sejam ou não diferentes do que são (DURKHEIM, 1956). A adolescência é o período em que experiências se aceleram em decorrência da familiarização com representações, valores, papéis, gênero, rituais de interação e de práticas presentes na noção de cultura, sendo o aprendizado da sexualidade constituído de experimentação pessoal e de impregnação pela visão cultural e social do grupo onde o indivíduo está inserido. Por conseguinte, quando na adolescência, a gravidez tem sido tradicionalmente caracterizada no campo da saúde pública como um “problema” ou como de “risco” para a adolescente e seu filho. No entanto, estudos têm apontado controvérsias nestas concepções, principalmente, em relação aos processos de significação destas experiências pelos sujeitos que as vivenciam. Nestes estudos, a adolescência, a maternidade e a paternidade são caracterizadas como experiências marcadas por intensas transformações e que assumem contornos específicos de acordo com o contexto histórico, cultural e social no qual se inserem (GOTIJO; MEDEIROS, 2009). CONCLUSÃO Apesar da consolidação dos direitos de crianças e adolescentes e da redução da natalidade em geral, pesquisas vêm demonstrando que os índices de gravidez precoce se mantêm, evidenciando a Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 138 imprescindibilidade de estratégias novas que foquem na prevenção e possível erradicação da gravidez na adolescência, a qual traz diversos prejuízos ao crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes e, principalmente, de meninas que de modo repentino tem de superar o período infanto- juvenil e ocupar o papel de mãe e, diversas vezes, o de esposa e dona de casa, tendo em vista que a causa principal para ocorrência do casamento precoce é a gravidez inesperada. Cada vez mais dependentes de padrões culturais, os papéis sexuais podem ser definidos como sendo o conjunto de comportamentos e condutas esperadas do indivíduo, conforme seu gênero. Esses papéis modificam de acordo com a época, local e grupo. Sendo assim, o comportamento sexual do adolescente pode ser visualizado como sendo mais resultado de condições do ambiente do que meramente um efeito derivado de transformações hormonais, pois é no ambiente que se podem encontrar as condições que favorecem a sua manifestação. Diante disto, foi possível concluir que, na análise da influência cultural, evidencia-se a gravidez na adolescência na contramão da onda de informações e da universalização de métodos contraceptivos, demonstrando que a reprodução precoce é uma questão cultural e, na maioria das vezes, uma espécie de reprodução de vida familiar. Direitos de Juventude 139 REFERÊNCIAS ARAUJO, Nayara Bueno de; MANDÚ, Edir Nei Teixeira. Construção social de sentidos sobre a gravidez-maternidade entre adolescentes. Texto contexto Enferm., Florianópolis, v. 24, n. 4, p. 1139-1147, dez. 2015 . DOI: https://doi. org/10.1590/0104-0707201500000450015. 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Direitos de Juventude 143 CAPÍTULO 07 - Olhares sobre as juventudes no brasil André Viana Custodio1 Ismael Francisco de Souza2 1 INTRODUÇÃO A condição do jovem no Brasil reflete uma série de práticas históricas de políticas substancialmente marcadas por fatores autoritários, relacionados à vigilância constante, controle e ações repressivas. Assim, a imagem da juventude, constantemente é relacionada a aspectos negativos, ocupando pouco espaço na agenda política no campo da gestão pública, quando se fala em reconhecimento de direito. Ao pensar em direitos e ações destinados às juventudes, é preciso a situação enfrentada por 1 Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com Pós-Doutorado em Direito pela Universidade de Sevilha - Espanha, Coordenador Adjunto e Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Coordenador do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens (GRUPECA/UNISC) e Líder do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC). 2 Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul - RS (UNISC); Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, graduado em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense. Professor e pesquisador Permanente do Programa de Pós- Graduação - Mestrado em Direito e da graduação em Direito. Coordenador do Grupo de Pesquisa: Direito da Criança e do Adolescente e Políticas Públicas e do Núcleo de pesquisa em Política, Estado e Direito (NUPED). Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar 144 esses sujeitos, que ocupam uma condição social que tem como parâmetro, no Brasil, a faixa etária que compreende pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Este trabalho tem por objetivo refletir os modos como a juventude contemporânea se insere na sociedade e de que forma os processos de construção dos direitos destinados à esta população são desenvolvidos ao longo dos anos, identificando os paradigmas das políticas de juventude e os caminhos trilhados até o momento para o reconhecimento dos/das jovens como sujeitos de direitos, amparados pelo ordenamento jurídico brasileiro. Para construção do texto, utilizou- se do método dedutivo, compreendendo uma abordagem histórico crítica do tema juventude. 2 Perspectivas sobre a juventude. A inserção das discussões acerca das juventudes no âmbito dos discursos sociais se deu, até meados do século XX, essencialmente a partir de duas ideias centrais: por um lado, se considerava a juventude como a fase preparatória da vida, ou seja, como uma etapa de transição da infância para a vida adulta, o que exigia esforços especialmente da família e da escola para que a/o jovem ingressasse na vida adulta de forma ‘ajustada’ e ‘produtiva’, isto é, que fosse útil ao corpo social (AQUINO, 2009, p. 25). Seguindo essa lógica, tal transição seria representada por etapas rígidas que direcionariam o/a jovem aos papéis típicos do mundoadulto – estudar, ingressar no mercado de trabalho, casar e ter filhos/as – e quando essas etapas não eram devidamente seguidas, tal comportamento Direitos de Juventude 145 era considerado um desvio ou disfunção do processo de socialização. Quaisquer desvios e disfunções representavam a etapa problemática da juventude, quando era apontada a necessidade do enfrentamento pela sociedade dos problemas sociais geralmente associados às/aos jovens, sendo direcionadas à essa população as ações de controle social repressivo (AQUINO, 2009, p. 26). No mesmo sentido, na América Latina, historicamente o desenvolvimento das políticas de juventude tem sido determinado pelos problemas de exclusão dos/das jovens e pelas formas de lhes facilitar a transição ao mundo adulto (ABAD, 2002). No entanto, embora de fato contribuam para que as/os jovens tenham trajetórias menos complicadas em direção à vida adulta, esses tipos de política pressupõem que os problemas de inserção são inerentes à juventude; constrói-se, dessa forma, uma visão adultocêntrica, a qual posiciona o status adulto como o único meio de plena incorporação social (ABAD, 2002). A partir dessa visão, os/as jovens não seriam por si só considerados/ das sujeitos de direitos, sendo a juventude entendida somente como um meio de atingir a idade adulta. Embora essas concepções de juventude tenham sido consolidadas em contextos ideológicos anteriores, é possível identificá-las rotineiramente quando suscitadas as questões dos/das jovens (AQUINO, 2009, p. 26), ou seja, “as representações correntes ora investem nos atributos positivos dos segmentos juvenis, responsáveis pela mudança social, ora acentuam a dimensão negativa dos “problemas sociais” e do desvio” (CARRANO; SPOSITO, 2003, p. 19). André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 146 Por outro lado, partindo de uma concepção ampliada de direitos, “alguns setores da sociedade brasileira têm se voltado para a discussão da situação dos adolescentes e dos jovens” (CARRANO; SPOSITO, 2003, p. 19), principalmente a partir do ano de 1985, instituído pela ONU como o Ano Internacional da Juventude: Participação, Desenvolvimento e Paz, impulsionando discussões e inserindo o tema juventude na agenda internacional. A partir daí, “delineia-se nova perspectiva sobre a juventude, em que perde força a conotação problemática do/da jovem e ganha relevo um enfoque completamente inovador: a juventude torna-se ator estratégico do desenvolvimento” (AQUINO, 2009, p. 26) Em um contexto em que a juventude surge de forma múltipla como questão social relevante – seja pelos problemas que vivencia, seja pelas potencialidades de realizações futuras, seja ainda pelo que há de genuinamente rico neste momento do ciclo da vida –, cabe pensar os desafios que se apresentam para a sociedade brasileira em termos de atenção aos jovens (AQUINO, 2009, p. 26). Atualmente, ao pensar em direitos e ações destinados às juventudes, é preciso considerar a situação enfrentada por esses sujeitos, que ocupam uma condição social que tem como parâmetro, no Brasil, a faixa etária que compreende pessoas com idade entre 15 e 29 anos. No entanto, essa classificação serve apenas como um recorte para referenciar a elaboração de políticas públicas destinadas à Direitos de Juventude 147 juventude, pois “ser jovem no Brasil contemporâneo é estar imerso – por opção ou por origem – em uma multiplicidade de identidades, posições e vivências” (BRASIL, 2006, p. 05). Um dos principais desafios para alcançar o pleno reconhecimento dos direitos dessa população reside no fato de que, no âmbito da juventude, existem várias juventudes, ou seja, é preciso reconhecer a existência de uma diversidade de identidades juvenis e dimensões de identificação, tais como gênero, cor da pele, situação econômica, local de moradia, cotidiano, etc., de forma que para afirmar os direitos dos e das jovens se faz necessário articular a busca pela igualdade individual de condições com a valorização da diferença (BRASIL, 2006, p. 06). Destaca-se que as necessidades decorrentes da pobreza e dos processos de exclusão social, em conjunto com as necessidades inerentes ao desenvolvimento dos e das jovens, exigem ações que perpassam a necessidade de transferência de renda e bens materiais. Reconhecer os direitos da juventude significa associar serviços e benefícios que contribuam para o reforço da autoestima dos jovens, o desenvolvimento de sua autonomia e capacidade de sobrevivência futura (BRASIL, 2009). Nesse sentido, e a grosso modo, considerando o fato dos jovens comporem o contingente populacional mais vitimizado pelas distintas formas de violência presentes no Brasil; enfrentarem enormes dificuldades de ingresso e permanência no mercado de trabalho; sofrerem impedimentos no acesso a bens culturais; não terem assegurado o direito a uma educação de qualidade e André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 148 não receberem tratamento adequado no tocante as políticas públicas de saúde e lazer, o reconhecimento de seus direitos deve estar alicerçado em uma perspectiva ampla de garantia de uma vida social plena e de promoção de sua autonomia. Portanto, seu desenvolvimento integral é legítimo e de interesse de todo o conjunto da sociedade (BRASIL, 2006, p.07). O olhar sobre a juventude deve ter como foco principal a emancipação das/dos jovens, titulares de direitos que devem ser exercidos não como um meio de transição para a vida adulta, mas como forma de inserção integral e participação ativa na sociedade, para que se tornem protagonistas de suas próprias histórias. 3 Adolescência e juventude: delimitando conceitos As confusões conceituais acerca dos termos ‘adolescente’ e ‘jovem’, muitas vezes entendidos como sinônimos, é utilizado para representar uma mesma fase do desenvolvimento humano demarcada por transformações físicas, biológicas, fisiológicas e psicológicas; a partir dessa concepção, a adolescência/ juventude seria a etapa responsável pela conexão do período da infância com a idade adulta. Essas terminologias [...] ora se superpõem, ora constituem campos distintos, mas complementares, ora traduzem uma disputa por distintas abordagens. Contudo, as diferenças e as conexões entre os dois termos não são claras, e, muitas vezes, as disputas Direitos de Juventude 149 existentes restam escondidas na imprecisão dos termos (FREITAS, 2005, p. 06) Diferentes abordagens e enfoques são dados à adolescência e à juventude a partir de diferentes áreas do conhecimento; neste trabalho, a necessidade de delimitação desses termos se dá, pois, para construir programas e políticas direcionados, é preciso ter clara noção de quem são os sujeitos a quem se destinam e quais as suas problemáticas específicas. No campo político, a partir da década de 1980, ambiente de abertura democrática, a terminologia “adolescência” ( juntamente com a “infância”) ocupou o foco dos debates, da mídia e das ações sociais e estatais no Brasil, resultado de importantes movimentos da sociedade civil em defesa dos direitos da criança e do adolescente. Com esses movimentos, se delineou na sociedade um novo olhar para a criança e o adolescente, fundamentado na Teoria da Proteção Integral: infância e adolescência passaram a ser reconhecidas como etapas do desenvolvimento humano que exigem cuidado e proteção especiais da família, do Estado e da sociedade (SOUZA; SOUZA, 2008). Com a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, em 1988, foi incorporada no ordenamento jurídico brasileiro a Teoria da Proteção Integral, e em 1990 foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), que contempla de forma específica e detalhada os direitos e garantias relativos à infância e adolescência estabelecidos na Constituição Federal e protegidos André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 150 pela legislação internacional (SOUZA;SOUZA, 2008). O Estatuto da Criança e do Adolescente compreende como adolescente a pessoa com idade entre doze e dezoito anos. Essa definição de adolescência se tornou “uma ampla referência para a sociedade, desencadeando uma série de ações, programas e políticas para estes segmentos” (FREITAS, 2005, p. 07). O Estatuto da Criança e do Adolescente representou um marco para o estabelecimento de uma nova noção de cidadania para essas pessoas, que passaram a ser público-alvo de ações públicas e privadas como “programas desenvolvidos tanto pelo Estado como por ONGs, no campo da saúde, do lazer, da defesa de direitos, da prevenção de violência, de educação complementar e alternativa” (FREITAS, 2005, p. 07). A importância e urgência deste tema polarizaram o debate no que diz respeito à juventude, fazendo com que este termo, por muito tempo, se referisse ao período da adolescência e com que praticamente todos os serviços e programas montados, tanto pelo Estado como por entidades da sociedade civil, tivessem como limite máximo os 18 anos de idade. Os jovens para além dessa idade ficaram fora do escopo das ações e do debate sobre direitos e cidadania (ABRAMO, 2005, p. 24). Embora a legislação específica determine que a etapa especial do desenvolvimento humano se encerra aos dezoito anos – quando a pessoa atinge a maioridade – os processos e dificuldades de inserção, adequação e atuação na sociedade não são necessariamente resolvidos com o fim da adolescência. Direitos de Juventude 151 Nesse ponto emergem no cenário político assuntos relacionados à juventude para além da adolescência, demandando novas respostas e ações no plano das políticas (FREITAS, 2005). Novos temas relacionados à juventude com idade superior a dezoito anos adquiriram visibilidade a partir da década de 1990: desemprego, gravidez precoce, uso abusivo de drogas, doenças sexualmente transmissíveis e envolvimento com a violência são algumas das questões que fizeram com que as/os jovens emergissem como foco grave de problemas, para si próprios e para a sociedade. Essa visibilidade está relacionada ao paradigma da juventude como etapa problemática, já mencionado anteriormente, e gerou ações de contenção e prevenção, desenvolvidas, em geral, como uma extensão – em termos de faixa etária – por ONGs que já militavam na área da infância e adolescência, sem aprofundamento ou compreensão da singularidade e diversidade dos/das jovens (ABRAMO, 2005). Embora inicialmente vista como uma questão negativa, tal visibilidade gerou consequências positivas para a juventude, pois foi um passo inicial para a compreensão do/da jovem como sujeito de direitos e, consequentemente, para o desenvolvimento de ações e políticas para essa população, como será estudado posteriormente. Percebe-se que o marco etário é a principal forma de diferenciar adolescência e juventude, o que se justifica pelo fato de que esses sujeitos vivenciam um período do ciclo vital entre a infância e a maturidade. Nesse sentido, considerando as diferentes concepções acerca da/do adolescente e do/da jovem, em termos André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 152 de faixa etária é possível delimitar a adolescência como o período entre os doze e dezoito anos; além disso, existem questões biofisiológicas que são universais e se estendem da puberdade até o desenvolvimento completo da maturidade reprodutiva. Existem ainda características intelectuais, cognitivas e de identidade, além de elementos sociais, culturais, morais e de valor que também são constitutivos da adolescência e variam com o tempo e de uma sociedade para outra, de um grupo para outro (LEÓN, 2005, p. 12). A juventude, por sua vez, compreende pessoas com idade entre 15 e 29 anos, e é concebida – de forma breve e sintética, pois será vista com mais detalhes posteriormente – “como uma categoria etária (categoria sociodemográfica), como etapa de amadurecimento (sexual, afetiva, social, intelectual e físico/motora) e como subcultura” (LEÓN, 2005, p. 12). Atualmente, uma das tendências, no interior do debate sobre políticas públicas, é distinguir como dois momentos do período de vida amplamente denominado juventude, sendo que a adolescência corresponde à primeira fase (tomando como referência a faixa etária que vai dos 12 aos 17 anos, como estabelecido pelo ECA), caracterizada principalmente pelas mudanças que marcam esta fase como um período específico de desenvolvimento, de preparação para uma inserção futura; e juventude (ao que alguns agregam o qualificativo propriamente dito, ou então denominam como jovens adultos, ou ainda pós adolescência) para se referir à fase posterior, de construção de trajetórias de entrada na vida social (FREITAS, 2005, p. 08). Direitos de Juventude 153 O cuidado com a delimitação dos termos se justifica, pois, sua similaridade pode levar a ambiguidades que, como consequência, correm o risco de resultar em invisibilidades de situações específicas, gerando a exclusão de múltiplos sujeitos do debate e do processo político. 4 Constituir-se jovem na sociedade contemporânea: paradigmas das políticas de juventude Na contemporaneidade, houve uma diluição dos papéis sociais que competem a cada faixa etária; “tudo se coloca ao alcance de todos; todos estão susceptíveis a tudo: a formação, o trabalho, o início da vida sexual, a maternidade/paternidade, a aposentadoria, o desemprego, entre outros” (SILVA, 2006). Esse deslocamento de espaços e de experiências que podem acessar gera indefinições e ambiguidades acerca do que é ser jovem, bem como dos papéis que lhes cabem exercer na sociedade. As ações e políticas dirigidas aos/às jovens são pautadas por diferentes paradigmas e concepções que ao longo da história inscreveram a juventude como questão social, que ora coexistem, ora competem entre si. A juventude pode ser entendida ao mesmo tempo como uma condição social e como um tipo de representação: por um lado, existe a ideia generalizada de juventude como uma etapa da vida que compreende determinada faixa etária, em que os sujeitos invariavelmente passam por transformações físicas, biológicas, fisiológicas e psicológicas: é a partir André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 154 da puberdade que se desencadeiam mudanças em razão das atividades hormonais, o que gera um processo de perda do corpo infantil; por outro lado, existe a construção social da juventude que ocorre de formas diferentes em cada sociedade, sendo representada de forma diversa de acordo com determinados fatores, tais como classe social, espaço geográfico, condição cultural, gênero, etnia, entre outras. A definição de juventude pode ser desenvolvida por uma série de pontos de partida: como uma faixa etária, um período da vida, um contingente populacional, uma categoria social, uma geração. Mas todas essas definições se vinculam, de algum modo, à dimensão de fase do ciclo vital entre a infância e a maturidade. Há, portanto, uma correspondência com a faixa de idade, mesmo que os limites etários não possam ser definidos rigidamente; é a partir dessa dimensão também que ganha sentido a proposição de um recorte de referências etárias no conjunto da população, para análises demográficas (FREITAS, 2005, p. 06). Existem recortes etários que determinam a juventude como uma etapa (dos 15 aos 24 anos de acordo com as Nações Unidas e dos 15 aos 29 anos no Brasil, de acordo com a Política Nacional da Juventude), no entanto, tal critério não é suficiente para definir esse grupo de pessoas. “A idade, como critério para agrupar as pessoas, traz implícito o caráter da transitoriedade. Neste caso, a juventude representaria uma transição, e ser jovem seria estar numa condição provisória” (SOUZA, 2013). Tendo como referência central o conceito Direitos de Juventude 155 de socialização, esta abordagem sugere que a transição é demarcada por etapas sucessivamente organizadasque garantem a incorporação pelo jovem dos elementos socioculturais que caracterizam os papéis típicos do mundo adulto – trabalhador, chefe de família, pai e mãe, entre outros: à frequência escolar somar-se-ia, em primeiro lugar, a experimentação afetivo-sexual, que seria sucedida progressivamente pela entrada no mercado de trabalho, pela saída da casa dos pais, pela constituição de domicílio próprio, pelo casamento e pela parentalidade. Ao fim deste processo, o jovem-adulto adentraria uma nova fase do ciclo da vida, cuja marca distintiva seria a estabilidade (AQUINO, 2009, p. 25). Esse ‘período de capacitação’, atribuído aos/ às jovens pela família e pela sociedade, é conhecido como moratória social, constituída por essa fase de postergação de responsabilidades perante o mundo adulto em que é disponibilizado ao/à jovem tempo livre para o lazer, para a diversão, para o desenvolvimento da criatividade; “é uma fase de ensaio e erro, onde a juventude pode contar com maior condescendência familiar e social para com as suas práticas, visto serem entendidas como parte do exercício de amadurecimento” (SILVA, 2006, p. 60). De acordo com a autora, é por meio da moratória social que se torna possível identificar e diferenciar aqueles que vivenciam a juventude de outros que não conseguem, social e culturalmente, realizá-lo, pois Pela sua própria natureza, a moratória social realiza-se de modo variado dentre as demais classes e setores sociais. Certamente, para os jovens de setores populares a possibilidade de dispor da André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 156 moratória social é bem mais restrita, uma vez que a inserção sócio-político- econômica das famílias e deles próprios reforça a exclusão a que, no mais das vezes, vivem submetidos. Esse fato produz um encurtamento do período de juventude desses setores (SILVA, 2006, p. 61). Outra abordagem que fez com que a juventude se inscrevesse como questão social foi a associação de jovens a problemas sociais, entendendo esse período como etapa problemática. Essa associação impõe “a identificação dos jovens como grupo prioritário sobre o qual deveriam recair as ações de controle social tutelar e repressivo, promovidos pela sociedade e pelo poder público” (AQUINO, 2009, p. 25). No Brasil, este foi o enfoque que praticamente dominou as ações dos anos 80 aos 90; foi uma das principais matrizes por onde o tema da juventude, principalmente a “emergente” juventude dos setores populares, voltou a ser problematizado pela opinião pública e que tencionou para a criação de ações tanto por parte do Estado como da sociedade civil. E ainda é predominante na fundamentação da necessidade de gerar ações dirigidas a jovens: quase todas as justificativas de programas e políticas para jovens, quaisquer que sejam elas, enfatizam o quanto tal ação pode incidir na diminuição do envolvimento dos jovens com a violência (ABRAMO, 2005, p. 21). Luseni Aquino (2009, p. 26) destaca que nos últimos anos as pesquisas sobre juventude têm se voltado para novas fenômenos sociais, que possibilitam compreensões diferentes acerca desse grupo. Primeiramente, a autora relata que a partir do Direitos de Juventude 157 final do século XX ocorreram mudanças estruturais na distribuição etária da população mundial; “em termos práticos, esta “onda jovem” significa o aumento relativo da população em idade ativa, o que pode ter efeito positivo sobre a dinâmica do desenvolvimento socioeconômico e, por isso, tem sido qualificado como bônus demográfico” (AQUINO, 2009, p. 26). Com essas mudanças, a juventude passa a ser compreendida a partir de uma nova perspectiva: a ideia de juventude como etapa preparatória da vida, ou associada a problemas sociais, é substituída pela abordagem do/ da jovem como ator estratégico do desenvolvimento, enfoque difundido e apoiado por organismos multilaterais e agências internacionais principalmente a partir do início da década de 1990 (AQUINO, 2009). Partindo desse ponto de vista, o peso populacional dos jovens é identificado como um bônus demográfico, e as/os jovens passam a ser percebidos como meio para resolução dos problemas de desenvolvimento do país, postulados/as como “protagonistas do desenvolvimento local” (ABRAMO, 2005, p. 21). Por um lado, essa concepção é positiva, pois [...] avança no reconhecimento dos jovens como atores dinâmicos da sociedade e com potencialidades para responder aos desafios colocados pelas inovações tecnológicas e transformações produtivas. Traz, assim, a possibilidade de incorporar os jovens em situação de exclusão não pela ótica do risco e da vulnerabilidade, mas numa perspectiva includente, centrada principalmente na incorporação à formação educacional e de competências no mundo do trabalho, mas também na aposta da André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 158 contribuição dos jovens para a resolução dos problemas de suas comunidades e sociedades, através do seu engajamento em projetos de ação social, voluntariado etc. (ABRAMO, 2005, p. 21) Por outro lado, em muitos momentos são atribuídas aos/às jovens responsabilidades na resolução de conflitos sem que de fato sejam consideradas suas dificuldades e necessidades. Outro ponto negativo é que “poucas vezes se faz a contextualização (e a discussão) do modelo de desenvolvimento no qual os jovens se inserem como atores, ou até que ponto eles também devem discutir a decisão a respeito desse modelo” (ABRAMO, 2005, p. 21). O aumento da população jovem também teve como consequência certa dificuldade de absorção desse grande número de pessoas no mercado de trabalho, ocasionando a crise do emprego, que por sua vez gera bloqueios à emancipação econômica dos/das jovens. Neste cenário de restrição das oportunidades de emprego – que afeta inclusive os trabalhadores já inseridos, desacreditando a estabilidade como marca fundamental da vida adulta –, duas grandes tendências configuram-se entre os jovens. Aqueles de origem social privilegiada adiam a procura por colocação profissional e seguem dependendo financeiramente de suas famílias; com isso, ampliam a moratória social que lhes foi concedida, podendo, entre outras coisas, estender sua formação educacional, na perspectiva de conseguir inserção econômica mais favorável no futuro. Os demais, que se veem constrangidos a trabalhar e, em grande parte das vezes, acabam se Direitos de Juventude 159 submetendo a empregos de qualidade ruim e mal remunerados, o que, em algum grau, também os mantém dependentes de suas famílias, ainda que estas lidem com isto de forma precária (AQUINO, 2009, p. 27). Foi ao longo da década de 1990 que se iniciou a mobilização política e social de jovens, instituindo um novo paradigma que identifica as/os jovens como sujeitos de direitos. Nesse novo contexto, “o foco em um ponto de chegada que se projeta no futuro transfere- se para o momento presente, para a juventude em si, que ganha importância como etapa genuína do ciclo da vida” (AQUINO, 2009, p. 28). A partir dessa ideologia, os olhares sobre as/os jovens deixam de ter como foco suas incompletudes ou desvios, sendo a juventude compreendida como etapa singular do desenvolvimento pessoal e social (ABRAMO, 2005). Medidas decorrentes deste novo enfoque, no geral, reatualizam a visão preparatória da juventude, exigindo, por um lado, investimentos massivos na área de educação em prol do acúmulo de “capital humano” pelos jovens; por outro, exigindo também a adoção do corte geracional nos vários campos da atuação pública – saúde, qualificação profissional, uso do tempo livre etc. – e o incentivo à participação política juvenil, com recurso à noção de protagonismo jovem (AQUINO, 2009, p. 26). Paralelamente a esse movimento que reconhece as/os jovens como sujeito de direitos, são criados espaços de construção da identidade e de exercício da sociabilidade que fortalecem os grupos juvenis,tais como grupos de estilo e movimentos sociais e políticos. André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 160 A criação e ocupação desses espaços acontecem porque as referências que circulam nesses ambientes de interação e convivência preenchem o vazio deixado pela ambiguidade na definição do papel social do jovem e pela incapacidade das instituições tradicionais de corresponder aos interesses e demandas juvenis. De acordo com a autora, se institui assim um paradoxo: ao mesmo tempo em que o acesso às oportunidades de trabalho se torna limitado, ameaçando a redefinição da identidade do jovem que ocorreria conforme os padrões da vida adulta, surgem novas possibilidades de identificação decorrentes da pluralidade de subculturas juvenis, que “comportam maneiras criativas de reivindicar reconhecimento e resistir aos padrões estabelecidos, bem como formas inovadoras de inserção nas esferas da vida social” (AQUINO, 2009, p. 29). Nesse sentido, as subculturas juvenis assumem presença marcante nas sociedades contemporâneas, e [...] contribuem decisivamente para a produção e a renovação do repertório de valores e práticas sociais. O amplo reconhecimento deste fato reforça a valorização positiva do jovem e tem como expressão extrema a conversão da juventude em “modelo cultural” em vários níveis – comportamento, gostos, beleza, práticas, insígnia da indústria cultural etc. (AQUINO, 2009, p. 29). As formas como os/as jovens se constituem na sociedade contemporânea e os modos como são compreendidos/as apresentam múltiplas faces e nuances, que se inserem como questões sociais. Mais Direitos de Juventude 161 que um período transitório, como problema social ou como promessa para o futuro, a juventude é aqui entendida como categoria socialmente constituída e observada como momento presente, considerando “as dimensões materiais, históricas, políticas e simbólicas nas quais o social se produz” (SILVA, 2006, p. 60). Devemos entender a juventude como parte de um processo mais amplo de constituição de sujeitos, mas que tem suas especificidades que marcam a vida de cada um. A juventude constitui um momento determinado, mas que não se reduz a uma passagem, assumindo uma importância em si mesma. Todo esse processo é influenciado pelo meio social concreto no qual se desenvolve e pela qualidade das trocas que este proporciona (DAYRELL; GOMES, 2013, p. 04) A juventude, portanto, envolve um conjunto de elementos vigentes ao mesmo tempo – faixa etária, processos de amadurecimento corporal e de socialização, contexto sócio-político-econômico- cultural, entre outros –, com expressões e intensidades diferentes na trajetória de cada indivíduo ou grupo (SILVA, 2006, p. 60). Todos esses elementos devem ser considerados para que a juventude seja reconhecida como um segmento da sociedade que exige demandas próprias por parte do Estado, e para que a esse grupo sejam direcionadas ações e políticas específicas que abranjam suas características peculiares e plurais: que compreendam as juventudes, em suas várias dimensões e complexas diversidades. André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 162 5 Caminhos trilhados para o reconhecimento dos/das jovens como sujeitos de direitos São recentes as discussões mais efetivas acerca da importância de políticas públicas de caráter geracional para a juventude, partindo da concepção de adolescentes e jovens como sujeitos de direitos. No Brasil e nos demais países da América Latina, a participação dos/das jovens no processo de redemocratização do final da década de 1980 se relaciona diretamente com a presença da questão juvenil na agenda pública. No entanto, “é na década de 2000, início de um novo século, que são propostas ações com pretensão de comporem instâncias coordenadoras de políticas de juventude” (COSTA, 2009, p. 67). Existe atualmente um novo movimento no que se refere aos direitos e políticas destinados à juventude; esse processo de reflexão sobre a ampliação da perspectiva dos direitos juvenis para além dos direitos do/da adolescente “pode ser atribuído a um reordenamento institucional que afirma novos espaços na estrutura de Estado e também no campo de formulação de políticas públicas” (CUSTÓDIO, 2008, p. 206). Para compreender esse processo, necessário se faz estudar os caminhos trilhados para a promoção dos direitos e garantias da população jovem, visando sua inserção integral e participação ativa na sociedade de forma emancipatória. No que se refere à proteção legal da juventude, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.090 de 1990) – que especifica os direitos previstos no art. Direitos de Juventude 163 227 da Constituição Federal de 1998 – representa o marco de uma nova abordagem dos direitos dessa população no Brasil, tendo em vista que estabelece um rol de garantias destinadas às crianças e adolescentes (pessoas com até dezoito anos incompletos). Conforme exposto anteriormente, a adolescência é compreendida como a primeira etapa da juventude; sendo assim, essa parcela da população jovem, desde a promulgação do ECA, é considerada como uma etapa peculiar do desenvolvimento e amparada por dispositivos legais que conferem à família, à sociedade e ao poder público a responsabilidade pela sua proteção e desenvolvimento integral, devendo ser assegurada, com prioridade absoluta, a efetivação dos seus direitos fundamentais (BRASIL, 1990). No entanto, essas garantias foram destinadas somente aos adolescentes, ficando a parcela da juventude com idade superior a dezoito anos sem respaldo legal específico, o que consequentemente gerou a invisibilidade dessa população na formulação de políticas públicas, sendo atendidos pelas ações do poder público direcionadas para o público em geral. Diante do cenário de invisibilidade juvenil na legislação e na elaboração de políticas públicas – aqui entendidas como o conjunto de diretrizes e ações implementadas pelo poder público visando atender às demandas, interesses e necessidades coletivas – em 2004 foi instituído pelo governo federal um grupo interministerial, do qual fizeram parte dezenove Ministérios e Secretarias Especiais, com a finalidade de criar bases para a criação de uma Política Nacional da Juventude. Como resultado, foram criados em André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 164 2005 por meio da Lei 11.129: a Secretaria Nacional da Juventude (SNJ), responsável por coordenar e articular a política nacional; o Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) – composto por sessenta membros, sendo um terço representantes do poder público e dois terços da sociedade civil –, para propor, acompanhar e avaliar programas e ações destinados à juventude. (BRASIL, 2013, p. 09). No ano de 2006 foi lançada a Política Nacional de Juventude (PNJ), elaborada pelo Conjuve, que apresenta um panorama da situação da juventude no Brasil e sistematiza concepções, diretrizes e estratégias para elaboração das políticas públicas de juventude. A PNJ tem como principal finalidade servir como ponto de partida para a abertura do debate acerca das políticas para juventude em diferentes espaços institucionais (BRASIL, 2006). Com o processo de discussão da Política Nacional de Juventude, vislumbrasse uma ressignificação e redimensionamento conceitual e metodológico dos programas e projetos na área da juventude. Não obstante, levanta-se a indagação de que os programas, projetos e ações continuam sendo desenvolvidos de forma desarticulada, e apresentando superposição, fragmentação e focalização de ações. (BRASIL, 2006) A partir do reconhecimento das limitações do Estatuto da Criança e do Adolescente no que se refere às necessidades dos/das jovens com idade superior a dezoito anos, no ano de 2010 foi aprovada a Proposta de Emenda Constitucional 042/2008, conhecida como PEC da Juventude, que foi transformada na Emenda Direitos de Juventude 165 Constitucional n° 65. Por meio dessaemenda, houve a inclusão do termo “jovem” no art. 227 da Constituição Federal, que passou a ter a seguinte redação: Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá- los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988). Por meio da mesma emenda, o termo ‘jovem’ foi acrescentado também em todos os parágrafos e incisos do artigo 227 que antes especificavam direitos apenas destinados às crianças e/ou adolescentes. Além disso, foi incluído o parágrafo 8º, que determina o estabelecimento, por lei, do Estatuto da Juventude e do Plano Nacional da Juventude: [...] § 8º A lei estabelecerá: I - O Estatuto da Juventude, destinado a regular os direitos dos jovens; (Incluído Pela Emenda Constitucional n. 65, de 2010). II - O Plano Nacional de Juventude, de duração decenal, visando à articulação das várias esferas do poder público para a execução de políticas públicas (BRASIL, 1988). A Emenda Constitucional n° 65 inaugura um novo paradigma dos direitos da juventude no Brasil, pois a partir da inserção do termo ‘jovem’ na Constituição Federal esse segmento da população passa a ser André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 166 protegido pelos princípios e regras constitucionais. Diante desse contexto, para garantia plena dos direitos dos/das jovens, se apresenta como necessidade urgente a regulamentação, por meio de legislação infraconstitucional, do disposto no parágrafo 8°, artigo 227 da Constituição Federal. Em 2013, foi aprovado o Estatuto da Juventude que dispõe sobre os direitos dos/das jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o estabelecimento do Sistema Nacional de Juventude. Na perspectiva de Fernandes a ideia do Estatuto era a “superação das práticas jurídicas tradicionais no ordenamento jurídico brasileiro, fato semelhante ao que ocorreu com os direitos de crianças e adolescentes quando da entrada em vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente” (FERNANDES, 2013, p. 56). Contudo, apesar da aprovação da normativa a agenda política das juventudes brasileiras tem um longo caminho a percorrer para reconhecimento dos direitos dos/as jovens. Os desafios para juventudes brasileiras são imensos e complexos e será no redesenho das políticas públicas que se constituirá novos processos e dinâmicas das visibilidades. CONCLUSÃO A ampliação do rol de sujeitos de direitos amparados pelo artigo 227 da Constituição Federal trouxe um marco normativo importante para os direitos da juventude. Este marco inicial, considerou a diversidade e particularidade da juventude, em seus diversos contextos e o abandono definitivo dos rótulos Direitos de Juventude 167 propagadores e reprodutores de desigualdades e discriminações. Apesar da normativa vigente, muitas das lutas para garantia e reconhecimento dos direitos de juventudes não foram trazidos para plano real, a exemplo dos Conselhos de Juventude como órgãos deliberativos, a criação de fundos especiais a com Fundo da Infância e Adolescência, para que pudessem planejar e financiar políticas públicas para juventude. De igual modo, a governança local não assumiu compromisso com uma agenda política para juventude brasileira, O Conselho Nacional de Juventude fez um levantamento em 2010 e na época havia 105 conselhos municipais e estaduais no país, mesmo passado 10 anos, ainda é inexpressivo no número de conselhos, considerando que há mais de 5 mil municípios. Para isto, é preciso reafirmar o compromisso do marco normativo e da própria prática dos gestores de políticas públicas, no sentido de aplicar a teoria da proteção integral e seus princípios orientadores, garantindo à juventude a exemplo do que ocorre com crianças e adolescentes, a prioridade absoluta na formulação, implementação, promoção e defesa de políticas públicas, uma vez que a juventude foi incorporada no artigo 227 pela Emenda Constitucional nº 65. REFERÊNCIAS ABAD, Miguel. Las políticas de juventud desde la perspectiva de la relación entre convivencia, ciudadanía y nueva condición juvenil. Santiago: Última década, v. 10, nº. 16, mar. 2002. Disponível em: <http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_ André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 168 arttext&pid=S0718-22362002000100005&lng=es&nrm=i so>.10.4067/S0718-22362002000100005. Acesso em: 14 out. 2021. ABRAMO, Helena Wendel. O uso das noções de adolescência e juventude no contexto brasileiro. 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André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza 170 Direitos de Juventude 171 André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza CAPÍTULO 08 - A proteção integral e o racismo estrutural: uma análise sobre a naturalização do genocídio da juventude negra e a garantia do direito à vida André Viana Custódio1 Júlia dos Santos Severo2 1. INTRODUÇÃO Ante a crescente nos indicadores que demonstram extrema desigualdade e inúmeras formas de discriminação da população jovem negrano Brasil, é possível afirmar que o racismo estrutural tem contribuído para exclusão social e a naturalização para banalização dos direitos fundamentais inerentes a população negra. Deste modo, indaga-se, de que forma tem sido promovida a garantia ao direito à vida 1 Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com Pós-Doutorado em Direito pela Universidade de Sevilha - Espanha, Coordenador Adjunto e Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC/ Santa Cruz do Sul/RS/Brasil), Coordenador do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens (GRUPECA/UNISC) e Líder do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC) 2 Graduada em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul, Especialista em Direito Previdenciário pela Faculdade Dom Alberto, Integrante do Grupo de Estudos Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 172 do genocídio decorrente do racismo estrutural? A abordagem teórica sobre o tema se justifica em decorrência da necessidade de demonstrar como o racismo estrutural e subsidiariamente o racismo institucional que atinge de forma direta a juventude negra no Brasil. Surge, para tanto a necessidade de discutir e igualmente desnaturalizar a desigualdade latente entre jovens negros e brancos, de modo a reconhecer a existência do racismo, do preconceito e da discriminação racial e que estes estão impregnados na sociedade, de modo que ela passou a justificar e naturalizar a crescente onda de mortes da juventude negra. Portanto, a partir da leitura dos indicadores sociais, que por ora expõe, ainda que não declarado o genocídio da juventude negra, constata-se que estes sujeitos encontram inúmeras dificuldades, que acabam por obstar o seu acesso a direitos fundamentais e igualmente políticas sociais de caráter universal. Pensar na juventude negra e no genocídio que ela vem sofrendo pressupõe reconfigurar as perspectivas que envolvem a proteção integral, uma vez que a aplicação desta vem sendo tolhida quando se depara com o recorte racial. 2. O racismo no brasil: um problema contemporâneo. É necessário, que antes de compreender de que modo ocorreu o aprisionamento de uma parcela Direitos de Juventude 173 da população a estereótipos racistas que suscitam a marginalização de negros até os dias atuais, compreender de que modo à escravidão é um elemento central na formação da sociedade brasileira, haja vista é parte fundamental no processo de construção social, política e socioeconômica do país. É possível averiguar que os efeitos da escravidão não se restringem tão somente ao período em que esta esteve vigente, de modo que a herança advinda deste sistema segue mediando às relações sociais e interpessoais quando estabelece distinções hierárquicas entre trabalho manual e intelectual, quando determina habilidades especificas entre negros e brancos, quando alimenta o preconceito e a discriminação racial. (PINSKY, 2016) O Brasil foi o último país a abolir legalmente a escravidão, o período marcado por este sistema, foi extremamente violador aos negros, uma vez que lhes negava sua condição de ser humano. Portanto, compreender, a atual situação que parcela da população do país encontra-se inserida, depende da compreensão do que foi este período, ora que a situação de desigualdade e exclusão social vivenciada pelos grupos raciais negros no Brasil, incluindo as crianças e adolescentes negros guarda consigo resquícios de preconceitos de uma sociedade que em algum momento fora regida por um sistema escravocrata. (LIMA, 2018) Deste modo é necessário analisar o contexto histórico do país para perceber de que forma os resquícios advindos do sistema escravista atuam até hoje no contexto social por intermédio de estereótipos André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 174 solidificados na contemporaneidade, e que por ora acarretam a naturalização das desigualdades. 2.1 Aspectos históricos relevantes do racismo no brasil. A escravidão fora uma prática interligada com a desumanização, coisificação e comercialização de pessoas, de modo que a atividade visava à lucratividade e tão somente isso. O sistema escravocrata acabou por legitimar o tratamento desumano aos milhares de negros africanos que ao Brasil chegaram, uma vez que lhes atribuiu à função de objetos de produção que tinham como foco principal o desenvolvimento do País e das suas riquezas. (LIMA, 2018) Durante o período em que o sistema escravocrata vigeu, é cabível afirmar que o povo negro era visto como propriedade e unidade de trabalho lucrativo, bem como era tratado como objeto desprovido de sentimentos e principalmente desprovido de liberdade. A escravidão acabou por transformar o ser humano em propriedade do outro, a ponto da sua humanidade ser anulada, assim como o seu próprio poder deliberativo. (PINSKY, 2016) A fase expansionista do capitalismo europeu contribuiu para que portugueses, espanhóis e outros povos, empreendem-se o projeto de exploração de novas terras e de novos povos, visando lucros cada vez mais rápidos, o tráfico de africanos transformou-se na atividade mais rentável e mais lucrativa para o Estado português e para elites agrárias e escravocratas do Direitos de Juventude 175 Brasil na época. (LEITE, 2017) O Brasil foi o último país da América a abolir o sistema escravista. Ainda que a Lei Áurea, tenha revogado a iniquidade que fora os mais de 300 anos de escravidão, é importante destacar que a abolição não pode ser reduzida a um ato de brancos, vez que incessantemente escravos travaram lutas afim desfrutarem de sua liberdade. A abolição da escravidão, não pode ser vista em sua materialização plena, pois os efeitos anunciados por esta inexistiram, ou seja, a população negra não desfrutou de fato de liberdade, igual dade e não discriminação. (FERNANDES, 2007) O dia seguinte ao dia da liberdade, é 14 de maio de 1888, no entanto, resta evidente que o mesmo segue vivo, e se perpetua na contemporaneidade, uma vez que ainda que a liberdade tenha sido conquistada, através de muita luta, os ex-escravizados, bem como seus descendentes continuam submetidos a um Estado despreocupado com a implementação de políticas públicas que venham a afastar e acabar com as condicionantes que foram resultantes do processo escravocrata, entre elas o racismo e a marginalização do povo negro. O que se viu com a abolição, fora novos métodos de exclusão sociais, cuja consequências estão ainda presentes, para tanto após a abolição, não restou dúvidas que os ex-escravos foram abandonados à própria sorte, de modo que recaiu sobre os mesmos a responsabilidade de converter sua emancipação em liberdade efetiva. Controverte-se que a Lei Áurea aboliu tão André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 176 somente o sistema escravista, e não seu legado, portanto, a abolição fora o primeiro passo dos que ainda estavam por vir, para que de fato ocorresse a emancipação do povo negro. (COSTA, 2008) O período pós abolição pode ser observado a partir da tamanha dificuldade para reconhecer ex- escravos como sujeito de direitos, tal fato constata- se e por ora mantém-se, uma vez que a resistência e a luta por parte dos descendentes de ex-escravos continua viva, e tem como escopo o reconhecimento da população negra como sujeitos detentores de direito. É possível dispor, sobre a necessidade de uma segunda abolição, haja vista que a primeira, até hoje ainda não se concretizou, ou seja, para além da garantia de liberdade, a população negra só viverá plenamente a partir da segunda abolição, que encontra-se condicionada a sua integração na sociedade, não obstante tal fato está interligado com a conquista de direitos, como o acesso igualitárioaos serviços e às políticas públicas de combate ao racismo, assim como o acesso de direitos fundamentais e sociais. (FERNANDES, 2007) O final da escravidão foi perpetuado, igualmente pela disseminação de teses racistas no Brasil, de modo que sua construção ocorre de forma ideológica no período final da escravidão, ou seja, enquanto ocorria o processo de adaptação da sociedade à mudança do status jurídico dos negros, surge a ideia de raça. A noção de raça, esta interligada com ideia de distintas categorias de seres humanos, visto que a classificação é um fenômeno da modernidade. Deste Direitos de Juventude 177 modo, a raça surge como categoria, que passa a organizar um sistema de poder socioeconômico, de exploração e exclusão, observa-se, portanto, a partir desta surge uma nova ferramenta de disseminar a discriminar, mais precisamente de perpetuar o racismo. (HALL, 2003) O término do sistema escravista não significou o início da desconstrução dos valores associados a população negra. Os estereótipos ligados à raça e o ideal do branqueamento operaram ativamente enquanto vigorou a escravidão, assim como observou- se a continuidade dos preconceitos e da discriminação racial após o fim desta, de modo que estes estereótipos foram fortalecidos pela difusão de teses do também conhecido racismo científico. (HOFBAUER, 2006) O início do Brasil República não foi marcado por uma construção de ideais de igualdade, de modo a garantir uma homogeneidade do corpo social, ao contrário, foi a vertente do branqueamento a partir do fator migração que sustentou por algumas décadas, a justificativa de que a mistura de raças, acabaria por contribuir para o branqueamento da população, haja vista que acreditava-se a raça branca como superior e que iria preponderar sobre as demais, e consequentemente ocasionaria o embranquecimento da população como símbolo de modernidade e civilização. (AZEVEDO, 2007) Diversas foram às decisões políticas que afetaram de forma direta o aprofundamento das desigualdades no país, sobretudo aquela que restringiam os negros a possibilidades de integração. O projeto de um país bem-sucedido estava interligado com o pensamento André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 178 de uma nação progressivamente mais branca o ideal do branqueamento, passou se a considerado de forma positiva para elite. Em vista do fracasso no que diz respeito ao embraquecimento surge o fenômeno da miscigenação que permitiria alcançar a ideia de convivência harmoniosa entre as diferentes raças que compunham a sociedade, é a partir da mestiçagem que se sustenta até hoje o ideal do da democracia racial, uma vez que se compreende que não há práticas envolvendo discriminação fundada na cor da pele, pois o país tem uma composição racial mestiça, que inviabiliza práticas racistas. (LIMA, 2018) Demonstrado em parte, as complexidades e algumas das variantes do racismo ao longo da história do País, é igualmente necessário observar o contexto social atual, vez que a sociedade ainda carrega consigo heranças do sistema escravocrata, tal como o Estado ainda se utiliza-se de meios repressivos contra esta população, ainda que de forma sútil, ou seja, uma análise para a compreensão de como o racismo faz parte do contexto social brasileiro e igualmente atua nas relações individuais e institucionais. 2.2 O racismo estrutural e suas formas de manifestações. É possível compreender o racismo como uma manifestação normal da sociedade brasileira, visualiza-se o racismo como parte intrínseca da sociedade, tendo em vista as construções da estrutura social a qual o país foi submetido, a partir do processo Direitos de Juventude 179 escravocrata que deixou resquícios e igualmente com o seu fim oportunizou novas idealizações de como perpetuar ferramentas de opressão. Identifica-se, portanto, que o racismo é uma decorrência da própria estrutura social. Em síntese, o racismo é uma decorrência peculiar da estrutura social, ou seja, do modo normal no qual se constroem as relações políticas, econômicas, jurídicas. Desta maneira, não seria o racismo uma patologia social e nem um desarranjo institucional, na verdade o racismo faz parte da estrutura social, faz parte da sociedade como um todo, o racismo é estrutural. (ALMEIDA, 2018) Para além das manifestações individuais que decorrem de ações discriminatórias, bem como para além das instituições que propagam o racismo de modo sutil, o racismo é parte intrínseca da sociedade, e por óbvio este rege a estrutura social, ou seja, o racismo não é tão somente resultado de comportamento individuais, mas sim do funcionamento das instituições, que atuam ainda que sutilmente a partir de desvantagem e privilégios a partir da raça. A concepção institucional do racismo esta interligada com o poder, elemento central da relação racial, detêm este poder os grupos que exercem o domínio sobre a organização política e econômica da sociedade. No entanto, para a sustentação deste sistema, depende da capacidade do grupo dominante, fazer a institucionalização de seus interesses, impondo desta maneira a toda sociedade regras, que naturalizem o seu domínio. (ALMEIDA, 2018) Esse domínio pode ser explicado a partir da André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 180 visualização de homens brancos em instituições públicas, como o legislativo, o judiciário, o ministério público, e igualmente a sua presença em instituições privadas como diretorias de empresas, é a partir destes espaços que ocorre a imposição de regras que direta ou indiretamente acabam por dificultar a entrada e a ascensão de pessoas negras, e por conseguinte verifica-se que estes mesmos espaços não encontram- se abertos para a discussão no que diz respeito a desigualdade racial, operando deste modo, para a naturalização do domínio do grupo formado em sua maioria por homens brancos. (ALMEIDA, 2018) O racismo propagado por instituições, faz parte de uma estrutura. Para tanto as instituições são a materialização da estrutura social. Dito de modo mais direto e especifico as instituições são racistas porque a sociedade igualmente é. O racismo é parte intrínseca da sociedade, e por óbvio este rege a estrutura social, ou seja, de um modo ou de outro o mesmo ocorrerá e continuará atingindo diretamente a população negra. É imperioso, perceber a capacidade de uma sociedade racista desenvolver meios diversos para propagar as barreiras que limitam ou bloqueiam as condições de mobilidade social para a população negra, de modo que o racismo acaba por banalizar a violação de direitos que levam à alienação, e por vezes a morte da população negra. 2.3 A democracia racial e suas manifestações na formação cultural no brasil. A propagação do discurso com base teórica no Direitos de Juventude 181 mito da democracia racial, permite que dados que demonstram a vulnerabilidade da população negra frente ao Estado e o restante da sociedade sejam combatidos com a máxima, de que as desigualdades ocorrem em razão de fatores socioeconômicos, afastando deste modo a segregação racial que se perpetua entre negros e brancos desde a abolição do sistema escravista no país. A democracia racial tem como escopo negar o preconceito racial, dado que, intenta-se apagar os fatos historicamente construídos e que ocasionaram na disparidade exacerbada, entre negros e brancos. Entre os marcos de maior expressão do mito da democracia da racial, é possível averiguar a ocultação dos conflitos inter-raciais, assim como a omissão quanto as desigualdades sociais entre negros e brancos. O mito da democracia racial é responsável por encobrir conflitos resultantes da raça, vez que consegue atingir a sociedade do modo mais profundo, ora que perpetua desigualdades nos diferentes campos sociais, de modo que vem a facilitar a exclusão dos “não brancos”. (MUNANGA, 2004) A democracia racial faz com que o país transpareça uma imagem deuma sociedade sem barreiras, ou seja, que não haveria qualquer empecilho real para a ascensão social de pessoas de cor negra a grandes cargos ou posição de riquezas. (GUIMARÃES, 2002) Ainda que, com a denunciação constante do falso discurso da democracia racial, o mesmo já tomou proporções tamanhas, a julgar pela sua internalização na população brasileira, de modo a justificar a André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 182 baixa posição de negros, resultado este criado e objetivado pela ótica da democracia racial, visto que o preconceito aqui jamais seria atribuído à diferenças raciais e sociais, de modo que a baixa posição desta população era justificada pela sua falta de esforço, trabalho, vontade, já que as oportunidades, eram e ainda são a mesma para todos. (ALMEIDA, 2018) A utilização reiterada da afirmativa de que não há no Brasil racismo, e de que é possível observar que há no país uma democracia racial, faz com que milhares de pessoas negras passem cada vez mais por situações derivadas de uma construção histórica e social, ou seja, venham a sofrer com a inviabilização do racismo. 3.0 O contexto da violação de direitos da juventude negra no brasil. As diferenças raciais, surgem ao longo da história como pano de fundo para a estruturação e hierarquização das relações de poder e dominação. No que tange, no contexto brasileiro essas relações de dominação também foram forjadas a partir do conceito de raça, passando a servir como elemento estruturante da relação social e de poder. Ocorre que esse conceito, manifesta-se das mais variadas formas, vez que segue mantendo privilégios da população branca em consonância com um verdadeiro projeto de eliminação, física e simbólica, da juventude negra. Os indicadores sociais revelam tamanha disparidade entre brancos e negros no país, que é Direitos de Juventude 183 particularmente expressiva quando tratamos de uma população que para além de todas as desigualdades, é submetida ao controle social punitivo, que por vezes se dá através da execução pelas forças policiais. A taxa de homicídio contra população negra no Brasil tem se tornado a cada ano assustadoramente alta e desproporcional em relação a população branca. Trata-se de um genocídio que está em andamento desde o processo histórico iniciado na colonização e que se atualiza a partir do controle punitivo estatal sobre a população negra. Os preceitos anunciados ao longo da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, não são observados em sua materialidade no contexto social a qual a juventude negra está inserida, deste modo, é imperioso de que modo tem ocorrido a violação dos direitos fundamentais inerentes a população negra. 3.1 A violação de direitos e violência contra a juventude negra. O grande número de homicídios contra pessoas negras é proveniente das discriminações raciais, que a todo instante marginalizam as possibilidades vitais da presença negra no mercado de trabalho, no sistema educacional, político, social e cultural. (DOMINGUES, 2008) A crescente onda de violência contra os jovens negros pode ser identificada como um genocídio contra esta parcela da população. Em 1952 o Brasil ratificou a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, por intermédio do Decreto André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 184 n° 30.822 definiu como genocídio “qualquer ato de violência cometido com a intenção de destruir todo ou em parte um grupo nacional, étnico, racial ou religioso” (BRASIL,1952). Ao adotar o termo genocídio parte-se da análise da violação dos direitos da pessoa negra, não tão somente a partir da violência letal, ou seja, aquela que mata a partir de atos materiais, mas também a partir da compreensão das formas não visíveis do racismo no cotidiano, analisado de que maneira a sociedade e o Estado impossibilitam e/ou dificultam as condições de uma vida digna da população negra. A partir dos índices apresentados pelo Atlas da Violência em 2019, decorrente dos dados da pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) responsável por informar os índices de violência no país, observa-se que a violência letal no Brasil, no ano de 2017, contou com 65.602 homicídios, o que equivale a aproximadamente 31,6 mortes para cada cem mil habitantes. (BRASIL,2019) No que se refere a violência contra a população negra, verificou-se o aprofundamento de desigualdades raciais nos indicadores de violência letal no Brasil, em 2017, 75,5% das vítimas de homicídio foram negros, é importante destacar que os indivíduos denominados nestas classes são a partir da classificação dada pelo IBGE, ou seja, esta constante neste grupo indivíduos negros ou pardos. (BRASIL, 2019) Haja vista que a taxa de homicídio quanto a não negros foi de 16,0%, neste aspecto repara-se que proporcionalmente para cada indivíduo não negro que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente 2,7 Direitos de Juventude 185 indivíduos negros foram mortos. (BRASIL, 2019) A piora na desigualdade racial, no período de uma década, demonstra o quanto a marginalização da população negra cresceu, tendo em conta que de 2007 a 2017, letalidade racial contra indivíduos negros cresceu 33,1%, enquanto a taxa de indivíduos não negros teve um pequeno crescimento de 3,3%. Em análise do ano de 2018 para o ano corrente a taxa de mortes de não negros apresentou relativa estabilidade, com uma redução de 0,3%, enquanto a de negros cresceu 7,2%. (BRASIL, 2019) O IPEA, divulgou no último mês de agosto do ano corrente, a atualização dos dados no Atlas da Violência 2020. O debate acerca da conjuntura da violência letal no Brasil, acaba por apresentar as desigualdades raciais existentes no Brasil, uma vez que se observa a forte concentração dos índices de violência letal contra a população negra. Os jovens negros figuram como as principais vítimas de homicídios, do mesmo modo que as taxas de mortes de negros apresentam perceptível crescimento ao longo dos anos, contudo, entre os brancos os índices de mortalidade são muito menores quando comparados aos da população negra, uma vez que por vezes chegam a apresentar redução (BRASIL, 2020) No que tange, a violência, os números tornam-se ainda mais assustadores, e por ora evidenciam ainda mais o racismo vigente no país quando se constata que apenas em 2018, a população negra representou 75,7% das vítimas de homicídio, observando deste modo uma taxa de homicídios por 100 mil habitantes de 37,8. No que tange, os índices entre os não negros André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 186 a taxa foi de 13,9, cumpre observar, novamente, deste modo que a cada um indivíduo não negro morto em 2018, 2,7 negros foram mortos. (BRASIL, 2020) Não obstante, o relatório aponta também para os índices de homicídios contra a população jovem, ao todo cerca de 30.873 jovens na faixa etária entre 15 e 29 anos foram mortos, o que equivale a 53,3% dos registros. (BRASIL, 2020) Para além dos homicídios contra a população negra é preciso elencar igualmente outros fatores que são diretamente atingidos pela condicionante raça na vida de indivíduos como o desemprego, visualiza- se que o racismo é um componente na estruturação do mercado de trabalho. É imperioso observar, que quando não se encontram em situação de desemprego, negros continuam sendo atingido pela condicionante raça no que diz respeito a sua remuneração, uma vez que enquanto brancos percebem um salário em cerca de R$ 2.814, negros podem vir a receber no máximo R$ 1.570 como renda média. (BRASIL, 2018) Não diferentemente na educação o fator raça é condicionante também, uma vez que a taxa de analfabetismo é mais que o dobro entre pretos e pardos (9,9%) do que entre brancos (4,2%) de acordo com a Pesquisa Nacional por Domicílio (PNAD) de 2016. Quando se analisa os índices da PNAD de 2017, percebe-se que a porcentagem de brancos com 25 anos ou maisque possuem o ensino superior completo é de 22,9%, percentual que corresponde a mais do que o dobro quando comparado ao percentual de negros e pardos com diploma, que somam um equivalente de 9,3 (BRASIL, 2018). Direitos de Juventude 187 No que diz respeito a moradia pessoas negras em sua vasta maioria são moradoras de zonas afetadas pela precariedade, criminalidade e violência, exemplo disso seriam as periferias, que constantemente encontram-se em guerra em razão do combate travado contra as drogas. Quanto ao encarceramento, cumpre destacar que o Brasil abriga a quarta maior população carcerária do mundo, ficando atrás somente de Estados Unidos, China e Rússia. Trata-se de 622 mil brasileiros que tiveram sua liberdade privada. Mais da metade desta população prisional são pretos e pardos, correspondem num total de 61,1%, segundo revela o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (INFOPEN). Diferentemente dos demais países apontados, o Brasil teve crescimento no índice de aprisionamento, constatou-se que entre 2004 e 2014 o índice de encarceramento cresceu 67%. (BRASIL, 2016) Fica evidente a partir da análise alguns tópicos, que por ora não são exaustivos, que a desigualdade racial pode ser observada no mais variados setores da sociedade, deixando exposto que a população negra faz parte da população vulnerável, e que a mesma vem sofrendo um o genocídio que pode se contextualizado para além das mortes violentas, ou seja, a violência perpetrada transgredi o patamar da violência letal, uma vez que verifica-se os diversos locais onde o racismo se faz vencer e acaba por excluir uma parcela da população, mais precisamente a população negra. André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 188 3.2 A marginalização, as desigualdades e exclusão social da juventude negra. A desigualdade proveniente da condicionante raça tornou-se uma marca da sociedade brasileira, que dia após dia segue alimentando estratégias de subordinação e invisibilidade da população negra. Em um olhar atento percebe-se para tanto que vigora ainda no Brasil os mais perversos traços da iniquidade, de modo que na amplitude dos avanços da política social, muito pouco foi usufruído equitativamente pela população negra. A população negra, de modo geral, é vista na sociedade como seres humanos de segunda ou terceira categoria. De modo que a desumanização do negro implica em sempre colocá-lo na sociedade como um sujeito inferior ou incapaz, haja vista conjuntamente com esta hierarquização decorre rótulos que lhe acompanham desde o período da escravidão. (LIMA, 2018) Os estereótipos que marcam a população negra são igualmente condicionantes que resultam na sua morte. É mera ilusão a condição da população negra como detentora de direitos fundamentais, haja vista que se constata a sua permanência na situação de marginalização e exclusão social. Entre os fatores causadores do homicídio contra população negra, é a associação da cor negra a periculosidade, ou seja, é a partir de um senso comum que vige e é compartilhado pela sociedade, que se passou a identificar pessoas negras como potenciais criminosos e consequentemente perturbadores da Direitos de Juventude 189 ordem social. Os estereótipos que perpassam a população negra assumem diversas feições, mas significativamente se confirmam nas antíteses feio-belo, mau-bom. Desta maneira, os negros, no Brasil, ainda que pertencente aos país, não detém a condição de detentores de direitos fundamentais, e por ora se reproduz a situação como grupo marginal e excluído (LIMA, 2018). É a partir da perpetuação de estereótipos, desde o sistema escravista, que atribuem a população negra a característica de sujeitos perigosos ou criminosos, que consequentemente observa-se um aumento na probabilidade destas mesmas pessoas serem vítimas do braço armado do Estado, ou seja, as principais vítimas durante ações policiais, tendo em vista que são observadas como possíveis inimigos. Outrora, é passível observar que a construção dos estereótipos que recaem sobre a população negra, é fruto da estruturação da sociedade, mais precisamente são fruto do racismo estrutural. Compreende-se como braço armado do Estado, o funcionamento da polícia no Estado Brasileiro, que inegavelmente encontra-se contaminado pelo racismo institucional, que por ora já fora citado, a polícia constitui a ponta do sistema de justiça criminal, que encontra-se mais próximo ao cidadão, sendo esta instituição a que primeiro deveria resguardar e proteger os direitos civis de todo e qualquer brasileiro, contudo, não é difícil apontar situações em que as abordagens policias e o uso exacerbado da força ocorreu para com a juventude negra. (CERQUEIRA; MOURA 2013) A operacionalidade dos sistemas penais é André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 190 extremamente violenta, sendo para tanto o Estado responsável direto por um número expressivo de mortes, a atuação não ocorre tão somente de forma repressiva, mas também configurando a vida social, por meio do controle social militarizado e verticalizado no cotidiano realizado pelos órgãos executivos do sistema penal sobre a grande maioria da população. O sistema criminal intervém em todos os casos de violação da legislação penal, ele é estruturalmente seletivo, bem como exerce seu poder com alto grau de arbitrariedade aos setores mais vulneráveis, principalmente contra os habitantes das favelas, que estão expostos a violência policial cotidiana, ora que se verifica o predomínio de negros e mestiço entre os presos e mortos. (ZAFFARONI, 1991) A legitimação das ações letais por parte das forças policiais, não representa tão somente decisões isoladas, mas sim o reflexo de uma política institucional, que legitima um estado de exceção permanente, limitado a algumas áreas e pessoas específicas, no caso aos negros moradores de favelas, de modo a provocar um verdadeiro genocídio dentro de um suposto Estado democrático de Direito. O combate ao crime tem servido como justificativa para normalizar as ações policiais cada vez mais violentas, principalmente em comunidades que se tornaram territórios em que se observa um estado de exceção permanente, principalmente contra determinada pessoas, que possuem determinada cor de pele, e que por ora em razão da condicionante racial, visualizam seus direitos e garantias suspensos por ocasião das diversas incursões policiais. Direitos de Juventude 191 A atuação policial decorre de um monopólio legitimo de violência, aos agentes públicos de segurança é autorizado o uso da força, de modo que a ordem seja mantida a qualquer custo, portanto, é possível visualizar a partir dos programas de treinamento das Academias de Polícia Militar ou civil, ensinamentos que estabelecem o combate ao crime e a violência, bem como quem é o suspeito a ser combatido. O Estado aparece como promotor da violência institucional, visto que a qualificação racial surge como determinante das condições de vida e de acesso aos direitos sociais da população negra, de modo que esta parcela da população se encontra a mercê da sociedade, e em um estado de total insegurança pública. O fato é que o Estado Brasileiro, tem se posicionado como um Estado genocida, ora que resta claro e evidente que as políticas voltadas para segurança pública em sua vasta maioria visam proteger um grupo em específico. Observa-se no Brasil, portanto, um cenário equiparado a um estado de exceção, conforme elucida Mbembe (2018, p.38): “O estado de exceção e a relação de inimizade tornaram- se a base normativa do direito de matar”. Observa-se, portanto, que o inimigo principal do Estado brasileiro, nesta guerra é o indivíduo que possui como condicionante a cor negra, tal constatação se materializa, quando se visualiza que as vítimas de homicídio doloso possuem um perfil pré-estabelecido, e que os alvos principais em sua maioria são: jovens enegros, tal fato ainda vai de encontro com os dados que apontam que a cada 23 minutos um jovem negro André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 192 é vítima de homicídio no país (BRASIL, 2016). O Estado Brasileiro, ainda que indiretamente, deixa transparecer que os jovens negros são os seus principais alvos, de modo que se implementa ainda que sutilmente uma política que naturalize os homicídios que tenham como vítimas a população negra, constata-se, portanto, um processo de genocídio umbilicalmente marcado pelo racismo estrutural e institucional. 3.3 A naturalização do genocídio da população negra a partir dos indicadores e a consequente banalização de direitos fundamentais. O genocídio da população negra no Brasil, ainda que não componha uma política oficial de aniquilamento deliberado, demonstra uma realidade que pode ser verificada por meio dos dados oficiais sobre homicídios. As diferenças raciais, surgem ao longo da história como base para a estruturação e hierarquização das relações de poder e dominação. A associação do conceito de inimigo com o racismo possibilitou compreender como o poder punitivo permite que dentro do Estado de Direito, alguns indivíduos tenham os seus direitos individuais negados, de modo a possibilitar o uso irrestrito da violência contra estes mesmos, reduzindo-os a uma impotência total. A morte de indivíduos negros passou a ser normalizada e legitimadas a partir de um discurso que reforça continuamente quem é o inimigo, ou seja, a personificação do inimigo na figura de Direitos de Juventude 193 homens, negros, e jovens, que são corriqueiramente associados à imagem de bandidos, e que para tanto são os principais alvos das incursões militares, e que consequentemente acabam por ser tornar as maiores vítimas de homicídio no país. O combate ao crime tem servido como justificativa para normalizar as ações policiais cada vez mais violentas principalmente em comunidades que se tornaram territórios em que há um estado de exceção permanente, e que consequentemente acaba por naturalizar a morte da juventude negra. Observa-se como principal ferramenta de legitimação dessas ações a utilização dos autos de resistência, que é a forma como são registradas os homicídios decorrentes de intervenção policial, os homicídio registrados nos autos de resistência, pressupõe que foram cometidos em legitimar defesa ou com o objetivo de vencer a resistência dos suspeito de um crime. Os autos de resistência, acabam por legitimar para todos os efeitos, o resultado das ações policiais arbitrárias e que por vezes tem como fator basilar o racismo. Do ponto de vista jurídico, a utilização força policial é um instrumento que deve ser utilizado para alcançar determinados fins, no entanto, o que de fato se vê na realidade é uma utilização da força letal injustificada, que acaba sendo justificada a partir dos autos de resistência como forma de encobrir e legitimar as ações de execuções feitas por policiais civis e militares. Identifica-se a recorrente promoção de arquivamento realizada pelo Ministério Público nos André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 194 casos enquadrados como autos de resistência, as circunstâncias as quais se autoriza a legitima defesa e que materialmente deveriam estar comprovadas nos autos, não existem, ou quando trazidas são incompatíveis com as provas existentes. A injusta agressão autoriza a legitima defesa dos policiais numa ação de resistência, no entanto, o que se encontra é uma condição de vida em territórios pobres, que justificaria deste modo a morte dos indignos. (D’ELIA, 2015) Portanto, observa-se que a legitimação das ações letais a partir das forças policiais, não representa tão somente decisões isoladas, mas sim o reflexo de uma política institucional, que legitima e naturaliza um estado de exceção permanente, limitado a algumas áreas e a pessoas específicas, no caso a população negra que em sua vasta maioria é moradora dos locais onde ocorrem estas incursões, mais precisamente são moradores de localidades pobres. Há uma naturalização das desigualdades, assim como nas ações intervencionarias por parte do Estado e da sociedade na vida da população negra, o processo de ‘naturalização’ encontra-se presente em todas as hierarquias sociais, sendo um traço constitutivo das relações de dominação. (GUIMARÃES, 2005) A associação da cor negra a criminalidade é prática reiterada, e revela o senso comum partilhado pela sociedade, sobretudo pela polícia, de que cidadãos negros são percebidos como potenciais perturbadores da ordem social e para tanto são potencialmente bandidos. A naturalização e a associação do homem negro como potencial criminoso Direitos de Juventude 195 contém caráter discriminatório e se faz presente nas agências encarregadas de conter a criminalidade, que consequentemente utilizam-se do estereótipo para executar suas ações. A Comissão Parlamentar de Inquérito de Violência Contra Jovens negros e pobres, comunicou através da sua pesquisa de que ocorre no Brasil um genocídio simbólico, vez que o Estado Brasileiro vem negando a população negras os mais básicos serviços públicos a demasiado tempo. O relatório final, destacou que os índices se demonstram extremamente graves no que diz respeito a violência no país, e que atualmente os números são verdadeiramente alarmantes, haja vista que o país “vive em guerra civil não declarada”. (BRASIL, 2015) Vigora no Brasil, uma característica peculiar, quanto ao preconceito, uma vez que enquanto em outros países, as práticas racistas são facilmente identificadas e reconhecidas, toma-se como exemplo os Estados Unidos, no Brasil, tem-se para cada prática, uma negativa. É para tanto incomum que pessoas ou instituições assumam o racismo que aqui vige. O preconceito racial é uma prática moralmente criticada, todavia, esta culturalmente aceita e naturalizada. 4. O direito fundamental à vida de jovens negros no marco teórico da proteção integral. Os dados oficiais no que diz respeito à população negra apontam que esta é a parcela mais afetada pela violência da sociedade, bem como a mais sujeita à violação de direitos. A realidade vivenciada por esta André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 196 população acaba por violar o direito fundamental à vida, previsto na Constituição da República Federativa de 1988. Deste modo os indicadores e dados oficiais apontados, sinalizam uma realidade de que aponta para o genocídio da população negra, uma dinâmica social de negação do direito à vida, ancorada, sobretudo, no racismo. Ao observar o texto da constitucional vigente, o direito à vida encontra-se previsto no Art. 5º: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...]” (BRASIL, 1998) Ao analisar o contexto histórico das constituições brasileiras, constata-se que o constituinte originário da Constituição Federal de 1988, tratou de garantir a imparcialidade do ordenamento jurídico, uma vez que os ordenamentos anteriores em sua vasta maioria, acabavam por excluir ou tratar de modo distinto alguns grupos específicos de pessoas, como escravos, analfabetos, mulheres e/ou pobres, ocorrendo desta forma uma individualização clara do sujeito de direitos e obrigações. O direito à vida prevista no artigo 5° da Constituição Federal, tem de ser encarado para além do direito de não ser morto, deve ser compreendido igualmente ao direito de ter uma vida digna, contudo, ele acaba por ser banalizado e violado quando se observa o contexto o qual a juventude negra encontra- se inserida. Cumpre destacar, que o direito à vida, volta a Direitos de Juventude 197 ter atenção, no artigo 227 da Constituição Federal, que o contempla sobre um novo formato de proteção, que éa proteção compartilhada entre a família, Estado e sociedade, tal proteção encontra-se direcionada a criança, ao adolescente e ao jovem, nos seguintes termos: Art. 227 É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá- los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (BRASIL, 1988). A proteção compartilhada prevista no artigo acima mencionado inicia-se a partir do marco teórico da proteção integral, compreende-se como marco teórico as mudanças estruturais no universo político consolidadas ao final do século XX, observa-se neste período o contraste entre duas doutrinas de relevante importância, mais precisamente a situação irregular e da proteção integral. (CUSTÓDIO, 2008). Cumpre destacar, que ao longo deste período, o Estado exercia a tutela sobre as crianças e adolescentes por intermédio do Poder Judiciário, que solucionava questões que por ora se referiam à assistência social de modo repressivo, institucionalizante e discricionário, sendo que os “interesses e necessidade de crianças e adolescentes perdeu-se nos caminhos tortuosos da burocratização, do clientelismo, do populismo, da corrupção e malversação de recursos públicos” (LIMA, André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 198 2001, p. 269). A visualização de crianças e adolescentes como sujeitos de direito nasce em meio a um processo demorado e difícil que contou com um marco fundante na Constituição Federal, que tinha como escopo alterar as linguagens em relação a temática e “expressões relacionadas à doutrina da situação irregular, a partir da superação da menoridade, que condicionava a condição de infância a submissão dos adultos, dando tratamento de objeto” (MOREIRA; CUSTÓDIO, 2018, p. 298). Portanto, para além das suas possibilidades de garantir a efetivação dos direitos fundamentais, seu maior significado está na superação da posição predominante no século XX, que reduziu a criança a objeto de tutela, incapaz ou menor. O reconhecimento como sujeito de direitos implica um desenlace libertário da criança das amarras institucionais que cultivavam as obrigações de obediência e submissão. Nesse contexto, não interessa mais o estigma justificativo da intervenção estatal imposto à criança, mas sim, a possibilidade concreta e objetiva de a criança e o adolescente exigirem a efetivação de seus direitos (VERONESE; CUSTÓDIO, 2013, p. 124). A população jovem encontra-se englobada pela teoria da proteção integral, compreende-se como população jovem as pessoas que possuem entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos, o artigo 1°, parágrafo 2° do Estatuto da Juventude dispõe que: “Aos adolescentes com idade entre 15 (quinze) e 18 (dezoito) anos aplica-se a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, e, excepcionalmente, este Estatuto, quando não conflitar Direitos de Juventude 199 com as normas de proteção integral do adolescente. ” (BRASIL, 2013) A garantia dos direitos fundamentais comum aos jovens, em âmbito nacional, fora outorgada pela Emenda Constitucional 65, de 13.07.2010, ela fora responsável por dar nova redação ao art. 227 da Constituição Federal de 1988, e que acabou determinando a edição de Estatuto próprio, que ocasionalmente é o Estatuto da Juventude. O Estatuto da Juventude é composto por 48 artigos, contudo, merece destaque o artigo 2° que delimita sobre os princípios, Art. 2º O disposto nesta Lei e as políticas públicas de juventude são regidos pelos seguintes princípios: I - promoção da autonomia e emancipação dos jovens; II - valorização e promoção da participação social e política, de forma direta e por meio de suas representações; III - promoção da criatividade e da participação no desenvolvimento do País; IV - reconhecimento do jovem como sujeito de direitos universais, geracionais e singulares; V - promoção do bem-estar, da experimentação e do desenvolvimento integral do jovem; VI - respeito à identidade e à diversidade individual e coletiva da juventude; VII - promoção da vida segura, da cultura da paz, da solidariedade e da não discriminação; e VIII - valorização do diálogo e convívio do jovem com as demais gerações. (BRASIL, 2013). Após o estabelecimento do marco teórico da proteção integral, passou-se a garantir a criança e ao adolescente o status de sujeitos de direito em condição peculiar em desenvolvimento de modo que tal responsabilidade acabasse por ser compartilhada André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 200 entre a família, a sociedade e o Estado (FREITAS; RAMOS, 2019). É partir do marco teórico da proteção integral, que ocorre a visualização da criança, do adolescente, bem como do jovem como sujeitos de direitos, e não meros objetos, de modo que se observa a partir deste a necessidade da proteção especial em razão da sua condição peculiar de desenvolvimento e igualmente da necessidade de desfrutarem da concretização de direitos fundamentais, como o direito à vida. 4.1 Contextualização da proteção integral. A teoria da proteção integral pode ser analisada como princípio fundamental ao ordenamento jurídico brasileiro, ora que é mecanismo de proteção e concretização de direitos. A base teórica da proteção integral reconheceu crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, que fazem jus a proteção especial em decorrência da sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. (CUSTÓDIO; VERONESE, 2013) O principal artigo que trata sobre a garantia de direitos fundamentais da criança e adolescente atualmente no ordenamento jurídico é o artigo 227 da Constituição da república Federativa do Brasil, a partir da análise deste, que encontra-se inserido o marco teórico da proteção integral de direitos de crianças e adolescente, o princípio da prioridade absoluta e o princípio da tríplice responsabilidade compartilhada de forma expressa, para além de estar em consonância com o princípio da dignidade humana, que é preceito Direitos de Juventude 201 fundamental constitucional. (MOREIRA, 2019) Em consonância com o direito à vida, e com o marco teórico da proteção integral é inconcebível não dispor sobre o princípio da igualdade previsto na Constituição Federal de 1988, o princípio constitucional da igualdade é observado como uma das mais importantes ferramentas para eficácia do direito, uma vez que é por intermédio deste que se dá a concretização de direitos e garantias fundamentais. É partir deste que se estabelecerá meios de reduzir ou mesmo neutralizar situações de segregação racial, social, econômica, cultural, sexual, etária, entre outras. Observa-se, que constitui pressuposto primordial para o respeito da dignidade da pessoa humana a garantia da igualdade entre todos os seres humanos, portanto, de modo que não podem estes serem submetidos a tratamento discriminatório e arbitrário, razão pela qual é inadmissível e intolerável todo e qualquer ato de escravidão, discriminação racial, perseguições por motivos de religião, gênero, orientação sexual, entre outros, compreende-se portanto que é inaceitável qualquer ofensa ao princípio igualdade na sua dupla dimensão formal e material. (SARLET, 2015) Ainda que continuamente, afirme-se que negros e brancos são iguais perante a lei, na mesma frequência em que essas afirmações são realizadas, visualiza-se a violação dos direitos da população negra, em decorrência do racismo. Ainda que constitucionalmente tenha-se entabulado que todos são iguais perante a lei, bem como frequentemente argumenta-se que há de fato uma democracia racial na sociedade brasileira, pessoa negra e pobre, em André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 202 especiala juventude, que segue sendo vítima dos efeitos do racismo que consequentemente acaba por acarretar a violação de direitos fundamentais, entre eles o direito à vida, a partir da visualização do genocídio da população negra, conforme apontado ao longo deste artigo. Cumpre observar, que a proteção integral, que se encontra recepcionada para a garantia dos direitos fundamentais, está igualmente amparada pelos princípios da não discriminação, da universalização e da prioridade absoluta. O princípio da não discriminação deverá atuar em consonância com a universalidade, de modo a impedir que crianças e adolescentes venham a ser discriminados por várias razões, entre elas o pertencimento racial, classe racial, crença, ou outras situações que acabem por frustrar o reconhecimento de direitos fundamentais. (LIMA, 2018) Ao adentrar o campo das relações raciais, a universalização no atendimento aos direitos de crianças, adolescentes e igualmente da juventude, não se materializa de forma equitativa como preveem os instrumentos normativos, quando há o recorte racial. Observa-se, para tanto, que não basta apenas normatizar, vedando a discriminação fundada na raça ou na cor, é necessário o investimento em políticas públicas que verdadeiramente venham a satisfazer esses novos direitos. (LIMA, 2018) Visualiza-se, a partir do cenário atual, tamanha disparidade na concretização de direitos fundamentais, no que diz respeito a crianças, adolescentes e jovens negros de modo que estes encontram-se condenados a falta de políticas públicas que de fato promovam Direitos de Juventude 203 uma igualdade material e cumpra com o que fora estipulado ao longo Constituição da República Federativa do Brasil, da teoria da proteção integral, do Estatuto da Juventude, bem como nos demais ordenamentos jurídicos. 4.2. A proteção jurídica nacional e internacional ao direito à vida de jovens negros. Após a aprovação da Constituição da República Federativa de 1988, observou-se um efetivo efeito do texto constitucional, que acabou por resultar em projetos de lei tipificando o crime de racismo e suas respectivas penas, de modo que é possível constatar que o período pós constituição é caracterizado como a segunda fase de iniciativa, pela emergência de um conjunto aprofundado em projetos para o tratamento legal como instrumento para a concretização de direitos e consequentemente da igualdade de fato. A Constituição Federal tem como fundamento o respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana, encontrando-se assim em harmonia com o direito internacional dos direitos humanos conforme previsto no artigo 1°, inciso III da Constituição. Neste mesmo sentido seguindo para tanto a proteção contra as desigualdades e discriminações a mesma estabelece um conjunto de dispositivos que abominam fatos decorrentes do racismo, e passa a buscar a construção de uma sociedade justa e solidária, até que se conquiste a igualdade de todos perante a lei, sem que haja desta forma quaisquer forma de discriminação ou preconceitos fundados na raça, sexo, cor, idade e outras André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 204 formas de discriminações, conforme demonstrado nos artigos 3°, 4° e 5°. (LIMA, 2016) No que diz respeito a avanços na proteção jurídica, bem como na busca da promoção da igualdade racial, cumpre destacar o Estatuto da Igualdade Racial, que nasce partir da promulgação da Lei n° 12.288 de 2010. O Estatuto da Igualdade Racial tornou-se um instrumento importante para correção das desigualdades, bem como para correção de disparidades históricas, de modo, que é a partir deste Estatuto que se observa uma forma democrática e legal para o acesso da população negra nas diferentes áreas da sociedade, haja vista que ele prevê inclusive o investimento estatal em políticas públicas de ação afirmativa, conforme o art. 1°: Art. 1º Esta Lei institui o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica. Parágrafo único. Para efeito deste Estatuto, considera-se: [...] V - políticas públicas: as ações, iniciativas e programas adotados pelo Estado no cumprimento de suas atribuições institucionais; VI - ações afirmativas: os programas e medidas especiais adotados pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das desigualdades raciais e para a promoção da igualdade de oportunidades. (BRASIL, 2013) No que diz respeito a proteção jurídica em âmbito internacional, merece destaque a Declaração Direitos de Juventude 205 Universal dos Direitos Humanos de 1948 da ONU, legislação a qual compõe a base de todas as leis contemporâneas que defendem direitos essenciais inerente a toda e qualquer pessoa, direitos estes que por ora são o direito à vida, à integridade física, à livre expressão e à associação sem qualquer distinção de raça, cor, sexo, religião ou visão política. Cabe destacar, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, assim como as demais leis aqui elencadas, expressa ao longo do seu texto o direito de igualdade e de não discriminação em seus artigos I e II. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, confere o direito à igualdade como meio de assegurar a todos igual proteção, de modo que estes estejam livre de qualquer forma de discriminação e contra qualquer incitamento a discriminação. Intenta- se, ainda no que diz respeito ao âmbito da ONU, observa-se igualmente a vigência da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1968, sendo o Brasil signatário desta através do Decreto n° 68.810, de 8 de dezembro de 1969 (LIMA, 2016). A Convenção de 1968, possui força vinculante e cumprimento obrigatório de seus preceitos pelos Estados-signatários, ela define no artigo 1° o significado de discriminação racial, vedando a prática desta a todos os Estados signatários. Não obstante o rol de artigos da primeira parte da Convenção traz consigo um complexo de medidas a serem tomada pelos Estados, afim de coibir a prática de discriminação racial, o rol de elementos vai desde políticas proibicionista de tal prática, e que muitas vezes os André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 206 países resolvem no campo da criminalização, toma-se como exemplo a tipificação do crime de injúria racial, que é definido pelo artigo 140, §3°, do Código Penal, para além o rol de elementos observa-se igualmente a criação de políticas públicas de ação afirmativa, ou ainda a criação de políticas no campo do ensino que visem promover uma cultura de respeito pelos direitos humanos e pela igualdade racial. (LIMA, 2016) Merece igualmente atenção a Convenção Interamericana de Direitos Humanos de 1969 da OEA, também conhecida como Pacto de San José da Costa Risca, que estabelece o direito de igualdade e não discriminação. No mesmo sentido o sistema interamericano, aprovou duas novas convenções em 2013, são elas: a Convenção Interamericana contra o Racismo, Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância e a Convenção Interamericana contra Toda a Forma de Discriminação e Intolerância. Destaca-se que a aprovação de ambas tem relação com a preocupação no que diz respeito a temática da Comissão Interamericana de Direitos Humanos que tem como intuito fortalecer o princípio da não discriminação. (ANNONI; LIMA, 2014) Ainda que se visualize, em diversos textos normativos a proteção a população negra, esta restringe-se por vezes ao plano formal, haja vista que diariamente a população negra tem os seus direitos violados e banalizados em razão do racismo É por existirem inúmeras desigualdades que se anseia pela igualdade material. Direitos de Juventude 207 4.3. A necessidade do estabelecimento de ações estratégicas de políticas públicas de promoção do direito à vida dejovens negros, bem como do enfretamento ao racismo estrutural. É por intermédio da adoção de políticas públicas que o princípio da igualdade transcenderá do seu plano formal para o plano material. Portanto, para que de fato a democracia faça-se valer atualmente, esta necessita da superação de uma concepção mecânica, estratificada, da igualdade, que em momento anterior, fora definida tão somente como um direito, sem qualquer cogitação de que este viesse a ser convertido em uma possibilidade. (DALLARI, 2005) O conceito de política pública, contém em si elementos variáveis na medida dos fins que busca alcançar, de maneira que estes são mutáveis, pois se dão em conformidade com os anseios sociais, contudo, devem estes elementos manter coerência. Controverte-se que estas ações devem ser um espaço de permanente de interlocução de maneira que envolva e beneficie o maior número de agentes, almejando uma construção comunicativa com a coletividade (BITTENCOURT, 2013). Observando todos os aspectos quanto ao quadro de injustiças e desigualdades que se apresentam no Brasil em razão da raça, vislumbra-se como saída inicial a defesa de um amplo programa de ações afirmativas para ao final reverter o quadro para um plano de igualdade de oportunidade para todos. Essas ações devem ser desenvolvidas em áreas André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 208 como a da educação, saúde, mercado de trabalho, cargos políticos, entre outros setores que se visualiza a evidente discriminação, de modo que este quadro venha a ser superado. (MUNANGA, 2006) As políticas de igualdade racial têm como base três dimensões. Inicialmente requer uma ampliação dos investimentos estatais em políticas socioeconômicas de caráter universal e geral, por meio de programas em que se busque reduzir a pobreza. Por conseguinte, uma incorporação de perspectivas raciais em políticas setoriais para a população negra, como por exemplo, o Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana. A terceira e última dimensão comtempla ações afirmativas para garantir uma igualdade substantiva, exemplo disso, seria o Programa Universidade Para Todos (PROUNI) (LIMA; SALEH, 2016). Não diferentemente, cumpre observar que todos os jovens gozam do direito de viver em um ambiente seguro, sem violência, de modo que lhe reste assegurado a igualdade de oportunidades e facilidades para o seu aperfeiçoamento intelectual, cultural e social. Não obstante, deverão as políticas de segurança pública voltada aos jovens articular ações entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios e ações não governamentais, que possuam como diretrizes a integração com a demais políticas voltadas à juventude, a prevenção, bem como o enfretamento da violência. (BRASIL, 2013) A transversalidade nas políticas tem como escopo a redução da desigualdade, tendo em vista que a população negra se encontra em situação Direitos de Juventude 209 de exclusão e marginalização social, decorrente do preconceito, da discriminação racial e do racismo, que consequentemente resultam em diversas violações de direitos. Intenta-se que a transversalidade, oportuniza a readequação das políticas aos novos temas da agenda governamental, tornando, deste modo, importante a incorporação de temáticas específicas em alinhamento as estruturas setoriais. (LIMA; SALEH, 2016) Atenta-se, que o Estado tem papel atuante nesta sistemática que decorre no genocídio da população negra, ora que para além de ser parte atuante neste cenário, ele não tem sido capaz de traçar estratégias e políticas públicas que promovam a igualdade racial, de modo que a omissão acaba por contribuir, para a naturalização e na banalização das violações de direitos fundamentais que atingem diretamente a população negra. O enfretamento ao racismo e os resultados decorrentes deste devem constar como temática central, assim como devem ser pauta na agenda do Governo, haja vista que ele perpassa o tecido das relações sociais no país. Compreende-se para tanto a necessidade de que as desigualdades raciais sejam incorporadas e compreendidas como desafios, sinalizando deste modo a necessidade de diretrizes e metas que busquem a igualdade racial. CONCLUSÃO Ainda que, a abolição tenha ocorrido, en 14 de maio de 1888, é como se os defeitos desta ainda André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 210 estivessem presente na vida de cada afrodescendente deste país, uma vez que ardilosamente a população negra segue sendo submetida a obstáculos que lhe impedem de alcançar um patamar de igualdade com a população branca. A segregação entre brancos e negros ultrapassou as barreiras da escravidão, ora que indivíduos negros seguem segregados quando se visualiza segmentos como a educação, empregabilidade e outras oportunidades. Mesmo observando a igualdade como direito fundamental ao longo da carta magna, a mesma para com a população negra ocorre tão somente no plano formal, ora que no plano material a população negra está sendo vítima de um genocídio em sua forma violenta e simbólica. Quando se observa a ausência dos serviços básicos que o Estado tem de prestar a sua população em um todo e percebe-se que a população negra não tem acesso a estes remetemo-nos há um exemplo claro do que é o genocídio simbólico, ora que ele está correlacionado com a ideia da retirada dos direitos básicos e inerentes a toda e qualquer pessoa do povo, independente de raça. A partir dá análise e da compreensão de como se dá a propagação do racismo, resta evidente e claro de que modo ocorre a crescente onda de violência contra indivíduos negros, tal constatação visualiza-se a partir dos dados apresentados a partir de pesquisas produzidas e, que apontam o crescente índice de homicídios contra a população negra no Brasil. Contudo, ainda que os índices anunciem um Direitos de Juventude 211 genocídio não declarado o Estado continua ignorando- os sobre o aparato repressor que segue criminalizando e marginalizando a população negra, de modo que desacredita e anula suas reinvindicações em um todo, garantido e mantendo desta forma, somente parte da sociedade com privilégios e segurança de fato. Ainda que se vislumbre-se, ordenamentos jurídicos voltados para a proteção de direitos fundamentais, tal proteção ocorre tão somente no plano formal, haja vista que no plano material, a população negra não desfruta desta dos direitos anunciados. É evidente que para além da normativa e dos preceitos é necessário que o Estado, os ponha em prática através de ações que de fato venham a promover a igualdade entre negros brancos. O Brasil e a sociedade brasileira necessitam se compreender e se colocar como agentes que propagam o racismo, bem como precisam assimilar a consequências dessas, para além de traçar diretrizes que permitam o combate dos males advindos do racismo, é preciso que a questão seja ponto central no debate, ora que torna-se imprescindível a oitiva das reinvindicações desta população para parem de lhes matar e lhes submeter a situações de marginalização, de maneira que a partir deste contexto possa se visualizar o efetivo e real combate do racismo. É necessário para tanto que o Estado trace diretrizes para combater os efeitos decorrentes do racismo estrutural e institucional, deste modo é correto adotar diretrizes que são compostas um conjunto de instruções que buscam procedimentos nas áreas das políticas sociais para a organização, André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 212 articulação, desenvolvimento e avaliação em programas desenvolvidos por órgão governamentais e pela sociedade civil. Intenta-se que a diretrizes possuem como marco os direitos humanos, para uma construção de planos e metas com vistas a realização de políticas de promoção e garantia dos direitos. Frente às desigualdades acarretadas em razão do fator raça, que historicamentemarca a trajetória da população negra, faz-se necessário que progressivamente e constantemente sejam discutidas iniciativas necessárias em termos de ação para o enfretamento do racismo estrutural e institucional. Para além da propagação de ideais que normatizem o racismo, é preciso visualizar o mesmo, em sua manifestação estrutural e institucional. É por óbvio que a sociedade brasileira tem como parte constitutiva de sua história base racistas, de modo que segue o propagando-o incessantemente. A normatização das desigualdades ocorre de tal maneira, que indivíduos brancos não reconhecem seus privilégios em razão de não serem não brancos e acreditam que o contexto se encontra normal, ora que não reconhecem incessante desigualdade entre brancos e negros, ora que a estruturação da sociedade sempre fora desta maneira. O racismo é parte de um fenômeno social o qual apresenta uma sistemática opressora e discriminatória, que tem por motivação a diferença entre raças. Os discursos racistas perpassam décadas, haja vista que se encontram impregnados na prática de instituições públicas e privadas que acabam por reproduzir um imaginário social pautado na hierarquização entre Direitos de Juventude 213 negros e brancos. Diante do cenário, torna-se necessário e inevitável a promoção de políticas públicas destinadas para a igualdade racial, de modo a romper com as alegações de que não existe racismo em solo brasileiro, passando combater igualmente a difusão da ideologia da democracia racial, que faz com que o racismo se torne ainda mais resistente no seu combate A partir deste contexto que aponta a vulnerabilidade da população negra, torna-se imprescindível questionar-se quais são as diretrizes necessárias para desencadearem discussões sobre as causas e as consequências da situação de violência e extermínio que vem sendo perpetuado no cotidiano dos jovens negros. São diversos os fatores que integram a produção da violência letal, mas inegável a cor é uma condicionante de expressão, prova disso são os índices que demonstram negros como vítimas de mortes violenta. É necessário para tanto que o Estado trace diretrizes para combater os efeitos decorrentes do racismo, deste modo é correto adotar diretrizes que são compostas um conjunto de instruções que buscam procedimentos nas áreas das políticas sociais para a organização, articulação, desenvolvimento e avaliação em programas desenvolvidos por órgão governamentais e pela sociedade civil. Intenta-se que a diretrizes possuem como marco os direitos humanos, para uma construção de planos e metas com vistas a realização de políticas de promoção e garantia dos direitos. André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo 214 Portanto, pressupõe-se que o Estado e a sociedade brasileira, necessitam se compreender e se colocar como agentes que propagam o racismo, bem como precisam assimilar a consequências deste, para além de traçar diretrizes que permitam o combate dos males advindos do racismo, é preciso que a questão seja ponto central no debate, ora que se torna imprescindível a oitiva das reinvindicações desta população, para que fato se possa visualizar o efetivo e real combate ao racismo. REFERÊNCIAS ANNONI, Danielle. LIMA, Fernanda da Silva. Como evitara discriminação racial no continente americano? Um estudo a partir do relatório da CIDH sobre a situação das pessoas afrodescendentes nas Américas em 2011. In: CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto; LEAL, César Barros (Orgs.). Igualdade e não discriminação. Fortaleza: IBDH/IIDH/SLADI, 2014. ALMEIDA, Silvio Luiz. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018. AZEVEDO, Damião Alves de. 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