Logo Passei Direto
Buscar

Direitos de Juventude: Desafios e Políticas

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

André Viana Custódio
Cristiano Lange dos Santos
Organizadores
Direitos de Juventude
A N D R É V I A N A C U S T Ó D I O
C R I S T I A N O L A N G E D O S S A N T O S
O R G A N I Z A D O R E S
DIREITOS
DE
JUVENTUDE
Direitos de Juventude
 
2022
 
Conselho Editorial
Rafael Bueno da Rosa Moreira (Urcamp)
Juliano Bitencourt Campos (Unesc)
Rogério Portanova (UFSC) 
Levi Hulse (Uniarp)
Luiz Osteberk (UTAD)
Mônica Duarte (Uniavan)
Newton Cesar Pilau (Univali)
Jairo José Zoche (Unesc)
André Viana Custodio (Unisc)
Andrea Marocco (Unochapeco)
Cristiano Lange dos Santos (Unisc)
Daniel Ribeiro Preve (Unesc)
Daniela Lippstein (URI)
Fernando da Silva Mattos (MP/PR)
Helena Nastassya Paschoal Pitsica (Univali)
Ismael Francisco de Souza (Unesc)
Jadir Zaro (Fapas)
21-88778 CDU-34:502.7(81)
Diagramador: Nicolas Takumi Lara Haida
Capa e Revisão: Camila Milioli Casagrande Preve
Proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma e por qualquer 
meio mecânico ou eletrônico, inclusive através de fotocópias e de gravações, 
sem a expressa permissão dos autores. Os dados e a completude das 
referências são de inteira e única responsabilidade dos autores.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Preve, Daniel Ribeiro
 Ensaio sobre o estado de direito ambiental [livro
eletrônico] : conceito, mecanismo e desafios / Daniel
Ribeiro Preve, Maurício da Cunha Savino Filó, Newton
Cesar Pilau. -- 2. ed. -- Criciúma, SC : Editora
Belcanto, 2021.
 PDF 
 Bibliografia
 ISBN 978-65-996472-0-8
1. Direito ambiental 2. Direito ambiental -
Brasil 3. Ecologia I. Filó, Maurício da Cunha Savino.
II. Pilau, Newton Cesar. III. Título.
Índices para catálogo sistemático:
1. Brasil : Direito ambiental 34:502.7(81)
Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
21-90481 CDD-305.235
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Direitos de juventude [livro eletrônico] / 
 André Viana Custódio, Cristiano Lange dos 
 Santos organizadores. -- Criciúma, SC : 
 Editora Belcanto, 2022.
 Vários autores.
 ISBN 978-65-996472-2-2
 1. Direito 2. Direitos humanos 3. Jovens -
Condições sociais 4. Juventude - Política
governamental 5. Políticas públicas 6. Proteção
integral I. Custódio, André Viana. II. Santos,
Cristiano Lange dos.
Índices para catálogo sistemático:
1. Jovens : Direitos : Sociologia 305.235
Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
Editora Belcanto 
Avenida Gílio Búrigo, 702 
Jardim Maristela - Criciúma/SC 
CEP 88815-300 
www.editorabelcanto.com.br
Apresentação
 A proteção integral aos direitos de juventude no Brasil 
consiste em desafios históricos e políticos demandando a 
ressignificação de olhares sobre a multidimensionalidade das 
expressões juvenis, das quais a participação política e o acesso 
universal aos serviços de atendimento são tarefas primordiais. 
 Esta obra é resultado do conjunto de pesquisas e estudos 
realizados por reconhecidos pesquisadores de instituições 
que concentram seus esforços para produção e difusão de 
conhecimento sobre infância, adolescência e juventude, em 
especial: o Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, 
Adolescentes e Jovens do Programa de Pós-Graduação em 
Direito – Mestrado e Doutorado – da Universidade de Santa 
Cruz (UNISC); o Grupo de Pesquisa em Direito da Criança e do 
Adolescente e Políticas Públicas do Programa de Mestrado em 
Direito da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) e do 
Grupo de Pesquisas sobre Direitos Humanos e Políticas Públicas 
para Crianças e Adolescentes do Centro Universitário da Região 
da Campanha (URCAMP). 
Os estudos apresentam analises sobre a participação e 
o ativismo juvenil, a crise ecológica, as condições de trabalho e 
profissionalização e olhares singulares sobre juventude como a 
gravidez na adolescência no contexto mais geral das políticas 
públicas e proteção aos direitos fundamentais do jovens brasileiros. 
Visa contribuir com a ampliação e reflexão do conhecimento 
científico sobre a matéria que, indiscutivelmente, deve ultrapassar 
os muros e barreiras da academia proporcionamento ferramentas 
para a transformação política e social. 
Prof. Dr. André Viana Custódio
Prof. Dr. Cristiano Lange dos Santos 
Organizadores
Autores 
Adrieli Albertti
Mestranda em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC. 
Membro do Grupo de Pesquisa: Direito da Criança e do Adolescente e Políticas 
Públicas e do Núcleo de pesquisa em Política, Estado e Direito (NUPED).
Amanda Geisler Aires Bispar 
Acadêmica do Curso de Graduação em Direito do Centro Universitário da Região 
da Campanha – URCAMP/Bagé. Integrante do Grupo de Pesquisas sobre Direitos 
Humanos e Políticas Públicas para Crianças e Adolescentes (GEDIHCA/ URCAMP) 
e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PROBIC 
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul – FAPERGS, 
integrando o Projeto de Pesquisa Direito, Inovação e Novas Tecnologias: o direito 
ao trabalho no cenário de novas tecnologias e o enfrentamento da violência 
sexual de crianças e adolescentes diante do isolamento social vinculado ao curso 
de Direito da URCAMP. 
Andréa Silva Albas Cassionato
Doutoranda em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC na área 
de concentração “Direitos sociais e políticas públicas”, na linha de pesquisa 
“Diversidade e Políticas Públicas” e integrante do Grupo de Pesquisa Políticas 
Públicas de Inclusão Social e do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de 
Crianças, Adolescentes e Jovens do PPGD/UNISC. Atua como Registradora 
Substituta do Ofício Extrajudicial de Registro de Imóveis e Registro Civil de Pessoas 
Naturais de Sobradinho/RS.
Andrei da Rosa Sauzem Machado 
Mestrando em Direito, na linha de Políticas Públicas de Inclusão Social do Programa 
de Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa 
Cruz do Sul - UNISC. Bolsista PROSUC CAPES Modalidade II. Pós-Graduado em 
Direito Processual Previdenciário (Administrativo e Judicial) pelo Instituto de 
Estudos Previdenciários IEPREV. Integrante do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas 
de Inclusão Social e do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, 
Adolescentes e Jovens (GRUPECA) do PPGD/UNISC. Sócio do Escritório Rosa e 
Sauzem Advogados Associados. Sócio na empresa Éthica Gestão e Consultoria.
André Viana Custódio
Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com Pós-
Doutorado em Direito pela Universidade de Sevilha - Espanha, Coordenador 
Adjunto e Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da 
Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Coordenador do Grupo de Estudos em 
Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens (GRUPECA/UNISC) e Líder 
do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC).
Cristiano Lange dos Santos
Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) com doutorado 
sanduíche na Universidade de Burgos (UBU) na Espanha financiado pela CAPES. 
Colaborador Externo do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, 
Adolescentes e Jovens e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão 
Social do PPGD/UNISC.
Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
Mestranda em Direitos Humanos pela Universidade do Extremo Sul Catarinense 
– UNESC. Pós Graduada em Direito pela Escola Superior da Magistratura de 
Santa Catarina - ESMESC. Graduada em Direito pela Universidade do Extremo 
Sul Catarinense – UNESC. Integrante do Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos 
de Crianças, Adolescentes e Jovens do PPGD/UNESC. Membro do Grupo de 
Estudos Intersetorial - GTI do Conselho Tutelar, Coordenado pelo Centro de 
Apoio Operacional da Infância e Juventude – CIJ MPSC. Professora conteudista 
na Universidade de Brasília – UNB. Coordenadora Institucional do Fórum 
Colegiado Nacional de ConselheirosTutelares – FCNCT. Presidente da Associação 
Catarinense de Conselheiros Tutelares – ACCT. Membro do Comitê Gestor da 
Escola de Conselhos de SC. Membro do Comitê Gestor do Sistema de Informação 
para Infância e Adolescência – SIPIA Conselho Tutelar. Conselheira Estadual de 
Direitos de Crianças e Adolescentes – CEDCA SC. Conselheira Municipal de Direitos 
de Crianças e Adolescentes – CMDCA Criciúma/SC. Coordenadora do Centro de 
Referência da Assistência Social – CRAS Criciúma/SC.
Ismael Francisco de Souza
Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul - RS (UNISC); Mestre 
em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, graduado em 
Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense. Professor e pesquisador 
Permanente do Programa de Pós-Graduação - Mestrado em Direito e da 
graduação em Direito. Coordenador do Grupo de Pesquisa: Direito da Criança e 
do Adolescente e Políticas Públicas e do Núcleo de pesquisa em Política, Estado e 
Direito (NUPED).
Juliana Toralles dos Santos Braga
Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande, Doutoranda em 
Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul. Integrante do Grupo de Estudos 
em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de Pesquisa 
Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC. Advogada.
Júlian Marcelino Araújo
Doutoranda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – PPGD/UNISC, 
Integrante do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes 
e Jovens e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/
UNISC. Advogada.
Maria Victória Pasquoto de Freitas
Mestra em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), integrante do 
Grupo de Estudos Direito, Cidadania e Políticas Públicas da UNISC e do Grupo de 
pesquisas sobre Direitos Humanos e Políticas Públicas para crianças e adolescentes 
(GEDIHCA) da URCAMP. Advogada.
CAPÍTULO 01 
 Ativismo juvenil a partir do #ocupa tudo!
 o movimento de ocupação das escolas públicas
 no rio grande do sul
1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................11
2 Juventude e o ativismo: algumas aproximações entre a “Revolta dos Pinguins” no Chile
e as ocupações secundaristas no Brasil (2016) ...............................................................................13
3 O direito à educação pública de qualidade e o movimento #Ocupa Tudo! a ocupação
de escolas o Rio Grande do Sul como reivindicação primária do movimento juvenil .............18
4 Características do movimento #Ocupa Tudo! Uma percepção inconclusa .........................24
CONCLUSÃO .........................................................................................................................................31
REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................33
CAPÍTULO 02
Eco-ansiedade: reflexões sobre a angústia da juventude relacionada à crise 
ecológica
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 36
2 A crise ambiental: o meio ambiente como patrimônio público .............................................. 38
3 Jovens: consumidores ou mercadoria? ........................................................................................44
CONCLUSÃO ......................................................................................................................................... 51
REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 53
CAPÍTULO 03
Jovens trabalhadores autônomos: 
o reconhecimento de vínculo da relação de emprego nas plataformas digitais
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 56
2 Juventude trabalhadora por meio aplicativo no Brasil ........................................................... 59
3 O Enquadranento das relações de enprego nas contratações do trabalhdor na 
prestação de serviços sob platfornas digitais .................................................................
CONCLUSÃO ........................................................................................................................................ 72
REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 73
SUMÁRIO
............ 69
 CAPÍTULO 04
 Aprendizagem e estágio esportivo de adolescentes e jovens
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 76
2 Diferenças e semelhanças entre aprendizagem e estágio................................................... 78
3 A aprendizagem e o estágio no âmbito esportivo: conflito normativo ............................. 86
CONCLUSÃO ...................................................................................................................................... 91
REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 94
CAPÍTULO 05
Os conselhos de juventudes como ferramenta de participação social
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 96
2 A participação social e os conselhos gestores de políticas públicas de juventudes........ 98
CONCLUSÃO ...................................................................................................................................... 113
REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 115
CAPÍTULO 06
A gravidez na adolescência como um problema cultural
 
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 121
2 O contexto da gravidez na adolescência no Brasil ................................................................ 122
3 As causas e consequências para ocorrência da gravidez na adolescência sob a 
perspectiva social e cultural da maternidade
4 A relação entre a vivência da sexualidade na adolescência e a gravidez precoce à luz 
da teoria das representações sociais 
CONCLUSÃO ...................................................................................................................................... 137
REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 139
........................................................................... 128
 ............................................................................................134
 CAPÍTULO 07
Olhares sobre as juventudes no brasil
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 143
2 Perspectivas sobre a juventude ................................................................................................. 144
3 Adolescência e juventude: delimitando conceitos ................................................................. 148
4 Constituir-se jovem na sociedade contemporânea: paradigmas das políticas de 
juventude
5 Caminhos trilhados para o reconhecimento dos/das jovens
como sujeitos de direitos ................................................................................................................ 162
CONCLUSÃO ......................................................................................................................................166
REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 167
 CAPÍTULO 08 
A proteção integral e o racismo estrutural: 
uma análise sobre a naturalização do genocídio da juventude negra e a 
garantia do direito à vida
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................. 171
2 O racismo no brasil: um problema contemporâneo ............................................................... 172
2.1 Aspectos históricos relevantes do racismo no brasil ............................................................ 174
2.2 O racismo estrutural e suas formas de manifestações....................................................... 178
2.3 A democracia racial e suas manifestações na formação
cultural no brasil ..............................................................................................................................180
3.0 O contexto da violação de direitos da juventude negra no brasil ................................. 182
3.1 A violação de direitos e violência contra a juventude negra ........................................... 183
3.2 A marginalização, as desigualdades e exclusão social da juventude negra .................188
3.3 A naturalização do genocídio da população negra a partir dos indicadores e a 
consequente banalização de direitos fundamentais
4. O direito fundamental à vida de jovens negros no marco teórico da proteção
integral
4.1 Contextualização da proteção integral ............................................................................... 200
4.2. A proteção jurídica nacional e internacional ao direito à vida de jovens negros ........
4.3. A necessidade do estabelecimento de ações estratégicas de políticas públicas de 
promoção do direito à vida de jovens negros, bem como do enfretamento ao racismo 
estrutural 
CONCLUSÃO ......................................................................................................................................209
REFERÊNCIAS ....................................................................................................................................214
............................................................................................................................................207
........................................................................................................................................... 153
 .............................................................. 192
203
 ............................................................................................................................................... 195
CAPÍTULO 01 - Ativismo juvenil a partir 
do #ocupa tudo! o movimento de 
ocupação das escolas públicas no rio 
grande do sul
André Viana Custódio1
Cristiano Lange dos Santos2
1 INTRODUÇÃO
O presente artigo investiga a emergência dos 
processos de mobilização juvenil, com um recorte 
focado no ativismo, caracterizando-os como sujeitos 
de direitos capazes de intervir no processo histórico. 
Para tanto, a proposta é ter como recorte de 
pesquisa sobre o ativismo juvenil, o movimento 
#Ocupa Tudo!, com o objetivo de descrever as recentes 
ocupações de escolas públicas realizadas pelos 
estudantes secundaristas no Rio Grande do Sul, em 
2016, que reclamavam melhores condições na rede 
1 Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com Pós-Doutorado 
em Direito pela Universidade de Sevilha - Espanha, Coordenador Adjunto e Professor do 
Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), 
Coordenador do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens
(GRUPECA/UNISC) e Líder do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC).
2 Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) com doutorado sanduíche 
na Universidade de Burgos (UBU) na Espanha financiado pela CAPES. Colaborador Externo do 
Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do do Grupo de 
Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC.
 
11
12
Direitos de Juventude
pública de educação.
Destaque-se que o ativismo juvenil deve ser 
compreendido como um processo de construção 
de conhecimento, especialmente como prática de 
cidadania e experiências de politização do processo 
formativo, podendo ser organizados em mobilizações 
virtuais, ocupações de ruas, escolas, espaços públicos 
com a finalidade de contestar questões frente a 
contextos de insatisfação e, possivelmente, na 
tentativa de serem ouvidos e reconhecidos como 
sujeitos de direitos. 
É importante enfatizar que a visão predominante 
que se tem sobre a juventude é de que ela é 
individualista, despolitizada, desinteressada e 
romântica. A realidade é outra. A juventude está 
sedenta por participação, mas sua construção se faz 
de diferentes formas, seja no ativismo pelas redes 
sociais, compartilhando documentos, imagens ou 
simplesmente dividindo sua insatisfação com projetos 
contrários às causas mobilizadoras (ambientalismo, 
direito à cidade, racismo, homofobia, discriminação, 
preconceito, democracia direta). 
Nesse contexto, posteriormente, pretende-se 
apresentar algumas considerações sobre o movimento 
#Ocupa Tudo! à partir de percepções da vivência junto 
a algumas ocupações em escolas de Porto Alegre. 
O método de abordagem será dedutivo e o 
método de procedimento monográfico com técnicas 
de pesquisa bibliográfica e documental. A pesquisa 
bibliográfica será realizada nas bases de dados 
das investigações publicadas em revistas e livros 
especializados sobre o tema do ativismo juvenil, e, a 
pesquisa documental examina-se os dados extraídos 
a partir de entrevistas junto a jornais considerados mais 
progressistas e de informações das páginas de redes 
sociais das escolas ocupadas, de maneira a apresentar 
algumas considerações iniciais sobre a importância 
dos eventos. 
O artigo está dividido em três momentos. No 
primeiro, apresenta-se as modalidades de mobilização 
e organização juvenil, examinando-se a “Revolta dos 
Pinguins” no Chile e as ocupações secundaristas no 
Brasil (2016) como sinônimos de ativismo juvenil. 
No segundo, explica o surgimento do movimento 
#Ocupa Tudo! que ocorreu no Rio Grande do Sul (2016), 
a fim de problematizar algumas pautas relacionadas 
ao direito à educação. 
No terceiro, expõe algumas observações sobre 
o movimento #Ocupa Tudo!, enquanto categoria dos 
novíssimos movimentos sociais, caracterizados pelo uso 
massivo das Tecnologias de Comunicação e Informação 
(TIC’S) em redes para organização, comunicação e 
mobilização das ações coletivas juvenis.
2 Juventude e o ativismo: algumas 
aproximações entre a “Revolta dos Pinguins” 
no Chile e as ocupações secundaristas no 
Brasil (2016)
Pretende-se aqui desenvolver algumas 
considerações entre a juventude e o ativismo, de forma 
a inter-relacioná-lo à capacidade de mobilização 
e organização de alguns fenômenos recentes em 
termos de explosão participativa de transformação 
13
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
reivindicativa social. É interessante destacar o enorme 
problema em definir essa concepção, até pela 
complexidade que a juventude representa para a 
sociedade. 
Adota-se aqui a perspectiva da juventude como 
uma categoria social, não se restringindo a faixas 
etárias nem a categorias específicas, mas sim como 
uma construção social fabricada pelos adultos. Por tal 
motivo que é sustentado não haver uma juventude 
apenas caracterizada de forma homogênea, mas 
as diversas formas de juventudes, de acordo com 
o espaço-tempo. Há a juventude do hip-hop, a 
juventude do skate, a juventude negra, a juventude 
indígena, enfim, cada juventude tem suas próprias 
características, demandas, culturas e, por essa razão, 
não seria adequado falar em juventude,mas sim, 
“juventudes” no plural.
Uma abordagem dessa natureza permite 
identificar não uma única juventude, 
homogênea, mas juventudes no plural, além 
de possibilitar uma discussão a respeito das 
representações sociais a respeito dos jovens 
nestes tempos. Afinal, é preciso considerar 
que há diferentes formas de considerar 
os jovens, assim como há diferentes 
maneiras de eles se afirmarem como 
sujeitos, considerando, historicamente, 
a dependência à organização social e a 
instituições vigentes [...]. (ABRAMOVAY, 
CASTRO, 2006, p. 11)
 
As “juventudes” têm sido atores estratégicos de 
transformação contemporânea. Para tanto, o texto 
parte de outras experiências como a “Revolta dos 
Pinguins”, até se chegar ao local, que é o #Ocupa 
14
Direitos de Juventude
Tudo! de modo a exemplificar essa característica 
contestatória dos jovens. 
Para Melucci (1996, p. 10) a juventude apresentou 
diversas práticas políticas nas últimas décadas, tendo 
sido um dos principais atores na onda de mobilização 
coletiva, permitindo-lhes reconhecimento e visibilidade 
nos conflitos contemporâneos. 
Em âmbito global as experiências da Primavera 
Árabe, Praça Tahrir, Ocupy Wall Street, e 15M, compostos 
pela sua maioria de jovens, são as expressões mais 
recentes do ativismo juvenil contra o capitalismo 
e a crise de representação política e econômica. 
(HERREROS, 2012, p. 139) 
No tocante à reivindicação de direitos, é 
interessante destacar o forte movimento pela 
educação pública ocorrida no Chile, em pleno auge da 
onda de protestos pelo mundo. Os estudantes chilenos 
demandavam soluções aos problemas relativos 
ao transporte e à alimentação escolar, à seleção 
universitária e a conteúdos curriculares. Requeriam 
também mudar a Lei Orgânica Constitucional da 
Educação – criada na ditadura militar - a erradicação 
do lucro na educação e o asseguramento de 
educação de qualidade por parte do Estado em todos 
os níveis curriculares e extratos socioeconómicos. 
(VALDERRAMA, 2013, p. 124)
Tratava-se de uma pauta “antimercado”, tendo 
como centralidade a defesa da educação pública de 
qualidade, movimento que já havia sido iniciado em 
2006 pelos estudantes secundaristas contra o modelo 
neoliberal e os profundos impactos causados pelo 
processo de privatização da educação a partir de 1981, 
15
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
na época da ditadura civil militar de Pinochet. 
Esse movimento ficou conhecido como a 
Revolta dos Pinguins (“Pingüinazo”, “Revolución de los 
Pingüinos” ou “Rebelión de los Pingüinos”), intitulado 
pelos próprios estudantes que se autodenominavam 
de “pinguins”, em razão do seu tradicional uniforme 
escolar composto do azul escuro e branco. O 
movimento estudantil altamente organizado, o que 
fez com que resistisse por aproximadamente seis 
meses, repertórios como greves, ocupações físicas de 
instituições educacionais, marchas e protestos, foram 
algumas das estratégias utilizadas pelos estudantes 
chilenos para dar visibilidade ao movimento.
Para Toso (2012), o movimento estudantil em 
termos de resultado não alcançou o êxito desejado, 
no plano reivindicativo para barrar as reformas 
educacionais que queriam entregar os serviços ao 
mercado privado da educação no Chile. Mas, em 
contrapartida, obteve enorme êxito de maneira a 
gerar a agenda pública necessária para recolocar o 
tema da educação pública como prioridade no debate 
nacional. 
Mas o mais interessante sobre o movimento foi 
Su alto nivel de organización, la aparente 
horizontalidad y falta de tutelaje político, 
la rapidez en la toma de decisiones, la 
organización en comisiones de trabajo local 
y las grandes asambleas a nivel nacional, 
fueron elementos que dejaron pasmada 
a una institucionalidad política que se 
había acostumbrado a negociar con una 
estructura más tradicional. (VALDERRAMA, 
2013, p. 125)
16
Direitos de Juventude
Denota-se tratar de estratégias muito semelhantes 
às utilizadas nas ocupações em São Paulo (2016) e 
reproduzida nos demais estados, sobretudo no Rio 
Grande do Sul. Aliás, tanto que, segundo os próprios 
estudantes secundaristas, foi o movimento estudantil 
chileno que os inspiraram para ocupar as escolas em 
São Paulo e no Rio Grande do Sul.
Da mesma forma, cabe ressaltar que as 
mobilizações foram desenvolvidas a partir das redes 
sociais, permitindo uma atuação política nos espaços 
da internet, agrupando e reunindo pessoas que se 
identificavam e se interessavam com as causas em 
jogo.
Por tal razão, os novíssimos movimentos sociais 
compostos na sua maioria por jovens da geração Y, 
preferem a informação e a participação mais diretas, 
interativas e acessíveis, eliminando a intermediação. 
Essas formas são imediatas e convertem cada receptor 
em emissor potencial, salvando a unidirecionalidade 
da informação e os desníveis de poder dos meios 
tradicionais. Pretendem, portanto, “transformar o 
Estado, mas não se apoderar dele”. (CASTELLS, 2013, 
p. 165)
E de fato, a “Revolta dos Pinguins” foi um levante 
paradigmático para a América Latina, como se 
perceberá posteriormente a sua importância enquanto 
gênese que serviu de inspiração para os movimentos 
do Ocupa Escola e Ocupa Tudo no Brasil (2016). 
17
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
3 O direito à educação pública de qualidade 
e o movimento #Ocupa Tudo! a ocupação 
de escolas no Rio Grande do Sul como 
reivindicação primária do movimento juvenil
Pretende-se, nesse tópico, apresentar algumas 
observações sobre o movimento #Ocupa Tudo! 
conjugando esses elementos com base em entrevistas 
a jornais de jovens secundaristas que participaram do 
movimento, assim como das percepções encontradas 
nos momentos com os quais se acompanhou o 
cotidiano do movimento junto a vivências em dois 
finais de semana nas escolas ocupadas. 
Vale registrar também o uso de matérias 
jornalísticas como fonte de pesquisa para complementar 
as percepções e exemplificar as vivências dos jovens 
envolvidos nas ocupações, que é o objeto de análise 
no artigo.
Depois da enorme repercussão que as ocupações 
promovidas pelos estudantes secundaristas das escolas 
públicas de São Paulo tiveram sobre as relações da 
juventude com a escola, e a reivindicação pelo direito 
à educação de qualidade, percebeu-se a enorme 
capacidade de mobilização e organização que esse 
segmento apresentou.
As ocupações duraram 41 dias no Rio Grande 
do Sul. Foram ocupadas mais de 160 instituições 
em todo o estado, números que foram contestados 
pela Secretaria de Educação (SEDUC), que teria 
contabilizado em torno de 120 instituições. Aliás, a 
relação entre o movimento e o governo foi complexa, 
desde o princípio da ocupação, tentando desconstituí-
18
Direitos de Juventude
lo da legitimidade necessária, além de tratar os 
estudantes como “massa de manobra” de “grupos 
políticos e sindicais” nas ocupações das escolas 
públicas. (SARTORI, 2016) 
Após a ocupação, o Sindicato dos Professores, em 
assembleia geral, decide decretar estado de greve, o 
que agrava ainda mais a situação de precarização 
da educação pública no estado. Destaque-se que a 
relação entre o movimento #Ocupa Tudo! e o governo 
sempre foi conflituosa, uma vez que os jovens acusaram 
o governo de não querer dialogar, enquanto o governo 
alegava “estar negociando”, mas sempre cogitando 
recorrer à justiça para a desocupação das escolas.
Nesse período, o episódio mais marcante 
foi a desocupação policial de estudantes que se 
encontravam na Secretaria da Fazenda do Estado 
(SEFAZ), sem decisão judicial que a autorizasse, 
excedendo ao direito legítimo e fazendo o uso da força 
de forma desproporcional contra os jovens, professores 
e jornalistas que cobriam o fato. Ou seja, a Brigada 
Militar “retirou” à força os jovens que ocupavam a 
Secretaria da Fazenda, tratando-os como se fossem 
objetos tuteláveis e não como sujeitos de direitos. 
(APÓS, 2016) 
Mais uma vez, houve um esforço por parte do 
governo e da mídia conservadora, na tentativade 
criminalizar esse movimento juvenil ao tratá-los como 
caso de polícia, ao ponto extremo de encaminhar 
trinta e três adolescentes à Delegacia Especializada 
da Criança e Adolescente (DECA) para averiguações, 
quando na realidade tratava-se de uma questão de 
política (políticas públicas educacionais). 
19
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
Vale dizer que nesse processo de ocupação, resta 
claro a reivindicação dos estudantes quanto ao direito 
à palavra, à expressão (falar e ser ouvido), no que diz 
respeito às políticas com as quais estão envolvidos. Mais 
uma vez, percebe-se haver a percepção de uma visão 
“adultocêntrica” sobre a juventude, na medida em que 
ela sequer é consultada sobre temas do seu próprio 
interesse e, quando são convidados a participar, suas 
opiniões são, na maioria das vezes, desconsideradas 
ou simplesmente tuteladas por adultos. 
Por tal motivo, a ocupação foi uma espécie de 
resposta a essas situações. É interessante frisar que 
as ocupações se tornaram uma das práticas mais 
recorrentes dos movimentos sociais como forma de 
ganhar visibilidade nos últimos anos. 
Ocupar significa representar física ou 
simbolicamente uma forma de protesto. Harvey (2012, 
p. 61) refere a importância do ocupar, a quem “ela 
mostra como o poder coletivo de corpos no espaço 
público continua sendo o instrumento mais efetivo de 
oposição quando o acesso a todos os outros meios 
está bloqueado”. 
A ocupação como forma de ação disruptiva é 
considerada ilegal, ilegítima e radical pela opinião 
pública, fazendo com que o movimento sofra um 
processo de criminalização e desqualificação em 
decorrência desse ato. Ainda assim, trata-se de 
uma estratégia eficaz em termos de visibilidade no 
debate público e inserção na agenda política. Nesse 
sentido, é importante ressaltar que foi somente com as 
ocupações de terras, realizado de forma coordenada e 
articulada, que o Movimento Sem-Terra (MST) ganhou 
20
Direitos de Juventude
notoriedade, vindo a se tornar o maior movimento 
popular do Brasil nos anos 1990 com relação ao projeto 
de luta pela reforma agrária. (GOHN, 1997, p. 315)
Desse modo, o movimento #Ocupa Tudo! foi uma 
rede de solidariedade às ocupações no RS. Os atos se 
multiplicaram, de maneira que essa juventude teve 
de criar o Centro de Escolas Independentes (CEI) para 
servir de ferramenta articuladora entre as ocupações.
Esse grupo foi responsável pela organização de 
diversos atos presenciais em locais estratégicos de 
Porto Alegre, com a finalidade de ganhar visibilidade 
às lutas do Comitê Independente. Trata-se de um 
processo inédito em termos de auto-organização 
juvenil, sem parâmetros de análise, considerando que 
a maioria das iniciativas de ocupar as escolas partiu 
dos próprios estudantes. 
As ocupações tinham como pautas principais: 
i) melhores condições de infraestrutura; ii) garantia 
da qualidade e gratuidade do ensino público e a 
valorização do trabalho docente; iii) contrariedade 
ao PL n. 44/2016, que dispõe sobre a qualificação 
de entidades como organizações sociais, ao permitir 
repassar parte dos serviços públicos, até mesmo 
a educação, às organizações sociais e instituições 
privadas sem fins lucrativos; iv) contrariedade ao PL n. 
190/2015 (Escola sem Partido).
Isso denota que a ação do movimento juvenil 
reivindicava o direito à educação pública de qualidade, 
exigindo tais demandas por parte do Estado como um 
todo, sem esquecer a individualização de problemas 
específicos enfrentados por algumas escolas. 
Está, portanto, a se falar de uma ação legítima 
21
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
protagonizada exclusivamente pela juventude, com 
recorte de estudantes secundaristas de instituições de 
ensino público, que são os beneficiários desse direito, o 
que, por sua vez, precisam ser sujeitos participantes do 
processo de construção das políticas públicas. 
A fragilidade dos investimentos na área 
educacional vem a confirmar a falta de compromisso 
político em políticas públicas que garantam uma 
educação de qualidade a fim de efetivamente realizar 
a transformação social. 
Logo, as pautas reivindicatórias apresentadas 
pelos estudantes secundaristas são legítimas e 
perfeitamente passíveis de reconhecimento, uma 
vez que estão garantidas em âmbito constitucional, 
razão pela qual devem ser prestadas com o básico de 
atenção e qualidade por parte do Estado. 
Do mesmo modo, é importante mencionar o 
reconhecimento referendado pelo Conselho Estadual 
de Direitos da Criança e Adolescentes (CEDICA), por 
meio de nota pública, como um movimento pacífico 
e legítimo que reivindica um direito assegurado 
constitucionalmente.
Para o Conselho Estadual dos Direitos da 
Criança e do Adolescente do Rio Grande do Sul, a 
criança e o adolescente tem assegurado seu direito 
à participação e a exercerem sua cidadania de 
forma a protagonizar, com liberdade e respeito; e 
também que as reivindicações dos/as alunos/as nas 
ocupações das escolas são justas porque se insurgem 
contra o sucateamento das escolas, a precarização 
da infraestrutura, a falta e a qualidade da merenda 
escolar, a falta de professores/as, a inadequação 
22
Direitos de Juventude
por vezes presente do sistema educacional que não 
encontra sintonia com os fins a que se destina. 
Por outro lado, as ocupações se transmudaram em 
um ato político que gerou novas sociabilidades àqueles 
jovens, alterando suas percepções e compreensões 
sobre a importância do fazer político na transformação 
da sociedade. Percebe-se, ao longo do processo de 
ocupação, que houve uma crescente politização por 
parte desses atores juvenis, reconhecendo-se como 
efetivos sujeitos de direitos, com poderes de reivindicar 
demandas por participação, reconhecimento e por 
direitos garantidos constitucionalmente. 
Houve também um enorme amadurecimento 
nesse período que compreendeu a ocupação. Algumas 
experiências demonstram claramente esse processo, 
como por exemplo, a ocupação da escola Adelino 
Simões em Passo Fundo, com a promoção das rodas de 
conversa sobre relacionamentos abusivos e possessivos, 
perpassando por questões envolvendo o conteúdo 
escolar, mas também abordando temas controversos 
enfrentados no seu dia a dia. (WEISSHEIMER...,2016)
Percebe-se que o movimento #Ocupa Tudo! 
transformou o ambiente escolar em um espaço de 
identidade entre os jovens, ao promover o diálogo 
entre eles e com outras pessoas, conforme a sua 
própria linguagem e expressões, enfrentando temas 
que lhes interessam no cotidiano, mas que não são 
normalmente abordados na escola. 
 
23
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
4 Características do movimento #Ocupa 
Tudo! Uma percepção inconclusa
Para além das características já apresentadas 
pelos novíssimos movimentos sociais, como a 
horizontalidade, autonomia e autorreflexão (CASTELLS, 
2013), frente às complexidades de análise desses 
movimentos, vale depreender outras características 
específicas que foram reveladas pelo movimento 
#Ocupa Tudo! no período que compreendeu as 
ocupações das instituições públicas no Estado do Rio 
Grande do Sul.
As ocupações tinham pautas comuns, o que 
demonstra a organização interna entre elas, como 
forma de delimitação da ação coletiva, mas também 
pautas específicas, individualizadas, o que expressa o 
reconhecimento à individualização das necessidades 
de cada escola. Havia pautas gerais, ainda que 
bem definidas, como: a) melhores condições de 
infraestrutura; b) garantia da qualidade e gratuidade 
do ensino público e a valorização do trabalho docente; 
c) contrariedade ao PL n. 44/2016, que dispõe sobre 
a qualificação de entidades como organizações 
sociais, ao permitir repassar parte dos serviços 
públicos, até mesmo a educação, às organizações 
sociais e instituições privadas sem fins lucrativos; d) 
contrariedade ao PL n. 190/2015 (Escola sem Partido). 
Mas também havia pautas específicas de acordo com 
as necessidades de cada instituição ocupada, comose 
percebe:
No Julinho, (são pautas específicas) 
o fechamento de turmas, a falta de 
24
Direitos de Juventude
professores, a elétrica da escola, a 
recuperação de partes da escola que 
foram fechadas por causa das chuvas, pelo 
fato de que podia, a qualquer momento, 
despencar, então o pessoal não podia 
transitar por ali. (HAUBRICH, 2016)
A completa autonomia de cada escola sobre o 
movimento #Ocupa Tudo! vem desmontar qualquer 
possibilidade sobre a intervenção de estruturas 
burocratizadas (partidos políticos, sindicatos ou 
entidades governamentais), que influenciasse ou 
impusesse um direcionamento nas tomadas de 
decisão dos rumos da ação coletiva promovida por 
esses jovens.
O que também não significa, por outro 
lado, a existência do apoio de entidades formais 
representativas de estudantes como a UBES (União 
Brasileira de Estudantes Secundaristas), UNE 
(União Nacional de Estudantes) e UMESPA (União 
Metropolitana de Estudantes Secundaristas de Porto 
Alegre) para fortalecer o movimento. Nesse sentido, 
“vínhamos pensando em uma ocupação desde o início 
do ano, não tínhamos porque esperar um movimento 
da UBES ou de qualquer outra entidade”. (FARINA; 
SCIREA, 2016). E corroborado pela entrevista de que 
“O movimento de cada escola é independente, mas os 
grêmios se uniram para trocar experiências e ampliar 
o movimento”. (FARINA; SCIREA, 2016)
Vale dizer que houve uma completa independência 
interna do movimento, uma vez que promoveram a 
ocupação autonomamente, auto-organizando-se 
com o fim específico de reivindicar o direito à educação 
pública de qualidade. 
25
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
A auto-organização, inclusive com a definição 
de tarefas definidas a cada jovem participante da 
ocupação, é realizada localmente, de forma que 
cada escola ocupada tenha independência no seu 
cronograma de atividades, mas sempre conectada 
com as demais no sentido do acompanhamento da 
definição das lutas.
 
Como tu disse, é pelas comissões. Tem a 
comissão da comida, tem a comissão da 
segurança, tem a comissão das atividades, 
tem a comissão da comunicação e tem 
a comissão do cartaz. São essas. A das 
atividades é a que marca as atividades que 
vão ocorrer dentro da ocupação. Tudo o 
que a gente decide aqui é por assembleia, 
todo mundo junto. Então vai marcar uma 
atividade, aí pergunta “pessoal, vocês 
querem?”. Aí a segurança…é dividido por 
horários na comissão, de três em três horas. 
De noite, de madrugada, a gente faz ronda 
pelo prédio, pela escola toda. Comida, tem 
horário para almoço, tem horário para 
tudo. Aí sempre nesse horário estabelecido 
o pessoal da comissão de comida vai lá, faz 
a comida e no tal horário já tem que estar 
pronto. O pessoal do cartaz, tudo o que é 
cartaz eles fazem. Ou a gente também, se 
tem vontade de fazer algum cartaz, faz, 
ou dá alguma ideia para eles. O pessoal 
da comunicação: evento que a gente cria, 
notas, a nossa página, tudo é o pessoal da 
comunicação que mexe. (HAUBRICH, 2016)
Participação de pais é considerado um elemento 
positivo e essa característica foi fundamental para 
o sucesso das ocupações, uma vez que estabeleceu 
uma aprovação à ação desses jovens, ampliando a 
correlação de parceria entre eles, seus pais e professores 
em nome do direito à educação.
26
Direitos de Juventude
Tive orgulho. Quando ela se envolve 
com alguma coisa ela vai de cabeça. E 
aí, me restou a preocupação normal de 
um pai. Busquei me informar como seria 
a ocupação, a segurança dos alunos e 
alimentação no tempo em que ficariam 
lá. Acho que está fazendo bem para ela. É 
uma maneira de crescer. (FARINA; SCIREA, 
2016)
Tem pais que apoiam, e tem pais que não 
apoiam. Do mesmo jeito os professores, 
tem professores que não apoiam e tem 
professores que apoiam. Tem pais e 
professores que dormem aqui com a 
gente, sabe? Como tem pais e professores 
que também não deixam os filhos virem. 
(HAUBRICH, 2016)
O apoio e mobilização da comunidade, de forma a 
participar com aulas, encontros, doações de alimentos 
e colchões e representativo do reconhecimento da 
sociedade pela causa, com demonstração de apoio 
e participação ativa, oferecendo aulas e promovendo 
atividades nas instituições ocupadas, além de doações 
de alimentos, colchões e outros utensílios necessários 
à permanência dos jovens na escola. Criou-se até um 
sistema virtual chamado “Doe uma aula” para apoiar 
os estudantes das escolas ocupadas, oferecendo-se 
aulas, cursos ou atividade culturais que pudessem 
complementar as atividades nas instituições ocupadas.
De outro modo, é importante deixar claro que 
também houve reprovação, por parte das mídias 
convencionais e da sociedade, com o discurso de 
aproveitamento da juventude para desgastar o 
governo do estado. 
 
No começo, quando explodiu isso, a gente 
27
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
recebeu muito, muito, muito apoio. Eu 
consigo perceber isso pela quantidade de 
gente que vem pra cá, a quantidade de 
gente que se disponibiliza para nos ajudar. 
Agora eu acho que vem se desgastando 
mais por causa do tempo em que a gente 
tá ocupando. Menos gente, menos doação, 
mas também tem os ataques que a gente 
tá recebendo do governo. Diversos ataques 
que estão bem fortes. (HAUBRICH, 2016)
O uso recorrente das Tecnologias de Comunicação 
e Informação (TIC’S) em redes para organização, 
comunicação e mobilização das ações coletivas 
juvenis, resultado de um mundo altamente conectado 
em rede e assim os movimentos se organizam de 
forma rápida e instantânea, por meio de estratégias 
e práticas. 
Diferentemente do que se pregou sobre o 
ciberespaço há alguns anos, hoje a internet não é 
uma esfera separada da vida; ao contrário, ela está 
diretamente relacionada à cultura da nova geração, 
que não sabe identificar onde começa o real e termina 
o virtual, na medida em que ambas se confundem. 
(SHIRKY, 2011, p. 37)
A internet é a própria vida real, uma vez que os 
smartphones conectados a uma rede 4G são uma 
realidade. Isso permitiu revolucionar a informação, já 
que os usuários deixaram de ser apenas consumidores 
para se transformar em produtores de informação, de 
modo que cada ator interligado à rede pode ser um 
canal informativo independente. (SHIRKY, 2011, p. 37) 
O rompimento da unidirecionalidade da 
informação fornece a cada sujeito o poder de 
comunicação, não mais separando o emissor do 
28
Direitos de Juventude
receptor, mas permitindo que cada um possa ser um 
canal independente da informação, o que potencializa 
ainda mais o ativismo dos jovens na medida que eles 
cada vez mais dominam a linguagem tecnológica. 
 
A internet tem nos ajudado muito. A 
gente faz grupos […] Nos ajuda muito, 
muito mesmo. Por exemplo, escolas 
metropolitanas, que a gente não tem 
acesso fácil aqui, se a gente consegue 
contato com eles a gente já consegue 
chamar eles para um ato. A gente coloca 
eles no grupo, a gente faz grupos, conversa, 
passa contato para os outros, Whatsapp 
principalmente. (HAUBRICH, 2016)
Esses dados são fundamentais para entender 
como as ocupações foram, em curtíssimo espaço de 
tempo, mobilizadas e organizadas pelos jovens. 
A ampliação da correlação de solidariedade 
entre as escolas ocupadas, com interação constante 
das questões afetas à organização, manutenção e 
estrutura da programação das ocupações demonstra 
a enorme capacidade de socialização entre os 
jovens, derrubando a perspectiva de que são sujeitos 
individualistas. 
A sempre mantém contato. A gente tem 
assembleias, a gente faz votação do que 
a gente quer ou não, a gente tem contato 
de todo mundo, a gente tem contato 
com muita escola, muita, a maioria, 
principalmente as centrais, sempre mantêm 
contato. Qualquer decisão que a gente 
vá ter, de sair pra rua, a gente consegue 
esses contatos, conversa, convoca uma 
assembleia, e aí decide todo mundo junto. 
(HAUBRICH, 2016)
29
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
O Movimento#Ocupa Tudo! é resultado de 
outras mobilizações,conquanto alguns dos seus 
atores participaram das “jornadas de junho” em 2013, 
vindo a se inspirar também em movimentos recentes, 
como o Ocupa Sampa e a Revolta dos Pinguins no 
Chile. Ou seja, participaram ou acompanharam o 
desenvolvimento desse fenômeno que ganhou as 
ruas. Tanto que, embora sejam em territórios locais 
distintos, há inúmeros pontos em comum entre as 
manifestações. Logo, eles não desaparecem da cena, 
mas, ao contrário, aparecem e evoluem sempre que 
se apresentem as oportunidades e as identidades 
coletivas. 
Mesmo que as “Jornadas de Junho” não tenham 
deixado um saldo positivo concreto em termos de 
resultados práticos como a aprovação do Passe Livre, da 
Reforma Política e melhoria nas políticas educacionais 
e de saúde, ele deixou o legado simbólico de que o 
ativismo e a mobilização social passam a confiança 
de que a transformação social é possível.
Sim, com certeza, inspirou bastante. A 
gente achou um movimento muito lindo 
o que eles fizeram lá pra fora, a gente 
até conversou com um guri que estava 
ocupando uma escola lá de São Paulo. Ele 
conversou bastante com a gente e deu até 
algumas ideias pra nós e alguns toques 
pra  nós, pra nos articularmos melhor. 
(HAUBRICH, 2016)
Para Melucci (2001, p. 27) “a ação coletiva, pelo fato 
de existir com sua própria forma e os próprios modelos 
de organização, representa uma mensagem enviada 
para o resto da sociedade”. E de fato, a mensagem 
30
Direitos de Juventude
enviada pela juventude secundarista que ocupou as 
escolas designa a importância com que ela tratou a 
escola, enquanto coisa pública de responsabilidade 
de todos, mas principalmente a preocupação que 
eles tiveram em cuidar desse espaço, demonstrando o 
valor em prestar uma educação pública de qualidade 
para a sociedade.
Os atores juvenis se apresentam, portanto, 
como fundamentais, na medida em que inovam nos 
repertórios abusando de uma linguagem tecnológica, 
criativa e, sobretudo, que dialoga com os outros 
jovens, de maneira a assumir a mensagem de que o 
engajamento coletivo pode trazer resultados. 
CONCLUSÃO
A ocupação de mais de 160 escolas da rede pública 
de ensino no Estado do Rio Grande do Sul em 2016 
pela juventude, reivindicando pautas bem definidas, é 
um feito memorável em termos de ativismo. 
Trata-se de um momento histórico, na medida em 
que a mobilização foi protagonizada por jovens entre 
13 e 18 anos. O movimento #Ocupa Tudo! demonstrou 
a potência de articulação em redes por meio das 
Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s), 
o que representa uma nova forma de mobilização e 
organização. 
A juventude que ocupou as escolas se fortaleceu 
enquanto sujeitos de direitos, para garantir o direito à 
participação (falar e ser ouvido), reivindicando o direito 
à educação pública de qualidade.
O movimento #Ocupa Tudo! vem reforçar o pleito 
31
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
dos estudantes secundaristas à participação que 
envolve a sua escola, desde a organização das suas 
funções até a escolha do núcleo de coordenação. Enfim, 
ele acaba por trazer o direito à participação, como 
expressão significativa da dimensão democrática.
Para além dos problemas com relação à gestão 
democrática das escolas, as ocupações demonstraram 
o quanto os estudantes estão dispostos a discutir outro 
modelo escolar, no qual o diálogo aberto, franco e 
livre sobre temas como machismo, racismo, transfobia, 
homofobia, liberdade sexual e de gênero, assim como 
qualquer outra forma de opressão, sejam realidade. 
Ou seja, querem uma educação de qualidade, mas 
também escolas libertadoras, razão pela qual são 
contrários ao PL n. 190/2015 (Escola sem Partido), com 
a consciência de que a pluralidade é resultado da 
diferença e diversidade. 
É, portanto, possível pensar em duas perspectivas: 
a subjetiva, tendo a juventude que ocupou as escolas 
da rede pública firmado sua identidade com o 
ativismo; e a objetiva, na medida em que é passado 
a mensagem de que é possível lutar pelas causas que 
acreditam. 
E mais, transcendem valores importantes aos 
demais, como a solidariedade, a democracia direta 
sem intermediários, cuidado intergeracional, já que 
a luta perpassa ao momento presente, vindo a se 
projetar para as próximas gerações.
E mais do que isso, as ocupações desconstruíram 
a falsa ideia de que a juventude é apática, consumista 
e individualista, demonstrando-se exatamente o 
contrário: que essas juventudes estão cada vez 
32
Direitos de Juventude
mais participativas e atuantes no cenário das 
transformações sociais. Nesse sentido, o #Ocupa Tudo! 
é em parte resultado dos movimentos anteriores, 
independentemente de onde eles se localizaram, 
como a “Revolta dos Pinguins”, “Jornadas de Junho” 
e a “Ocupação de São Paulo”, apenas para constar 
os mais recentes, ficando a mensagem de que a luta 
para as juventudes sempre vale a pena.
REFERÊNCIAS
ABRAMOVAY, Miriam; CASTRO, Mary Garcia (Orgs.). Juventude, 
Juventudes: o que une e o que separa. Brasília: Unesco, 2006.
APÓS ocupação alunos são retirados da Secretaria da Fazenda. 
G1/RS, 15 jun 2016. Disponível em: http://g1.globo.com/rs/rio-
grande-do-sul/noticia/2016/06/apos-ocupacao-alunos-sao-
retirados-da-secretaria-da-fazenda-do-rs.html Acesso em 09 de 
jul 2018.
BRASIL. Secretaria Nacional da Juventude. Agenda Juventude 
Brasil – 2013. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/
participacao/destaques/163-noticias-destaques-pequeno/775-
pesquisa-juventude Acesso em 04 jun 2018.
CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança. 
Movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar, 
2013.
CUSTODIO, André Viana. Teoria da Proteção Integral: 
pressuposto para compreensão do Direito da Criança e do 
Adolescente. Revista da UNISC, v.29, p. 22-43, 2008.
FARINA, Erik; SCIREA, Bruna. O que move as ocupações de 
escolas no Estado. Zero Hora. 19 mai 2016. Disponível em: http://
zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2016/05/o-que-move-
as-ocupacoes-de-escolas-no-estado-5804779.html Acesso em 
19 jul 2016. 
FARINA, Erik; SCIREA, Bruna. Teorias dos Movimentos Sociais: 
paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo: Edições 
33
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
Loyola, 1997.
HARVEY, David. Os rebeldes na rua: o partido de wall street 
encontra sua nêmesis. In: Ocuppy. Movimentos de protesto que 
tomaram as ruas. São Paulo: Carta Maior/Boitempo Editorial, 
2012.
HAUBRICH, Alexandre. As ocupações foram uma maneira de dar 
um grito, de dar um basta. Entrevista com Andresa Lameirão, 
do Grêmio do Julinho. Jornalismo B, Porto Alegre, 22 jun 
2016. Disponível em: http://jornalismob.com/2016/06/22/as-
ocupacoes-foram-uma-maneira-de-dar-um-grito-de-dar-um-
basta-entrevista-com-andresa-lameirao-do-gremio-do-julinho/ 
Acesso em: 03 jul. 2018.
HERREROS, Tomás; RODRÍGUEZ; Adrià. Revolución 2.0: derechos 
emergentes y reinvención de la democracia. In: Democracia 
Distribuida. Miradas de la universidade nómada al 15 m. p. 123-
147, 2012.
MELUCCI, Alberto. A invenção do presente: movimentos sociais 
nas sociedades complexas. Petrópolis: Vozes, 2001.
MELUCCI, Alberto. Juventude, tempo e movimentos sociais. 
Trad. Angelina Teixeira Peralva, Revista Young, Estocolmo, v. 
4, n. 2, 1996, p. 3-14. Disponível em: http://proex.pucminas.br/
sociedadeinclusiva/Blog:%20Direito%20de%20se%20Diferente/
Juventude,%20Tempo%20e%20Movimentos%20Sociais.pdf 
Acesso em 12 mar 2018. 
VALDERRAMA, Lorena. Jóvenes, Ciudadanía y Tecnologías 
de Información y Comunicación. El movimiento estudiantil 
chileno. Revista Latinoamericana De Ciencias Sociales, Niñez 
Y Juventud , 11(1), 2013. Disponível em: http://ns520666.ip-158-
69-118.net/rlcsnj/index.php/Revista-Latinoamericana/article/
view/837 Acesso em 15 nov. 2016.
SARTORI critica ocupação de escolas estaduais no RS, e 
sindicato reage. Governador apontou suposta atuação 
de ‘grupos políticos e sindicais’. Para o CPERS, declaração 
demonstra ‘desconhecimento’ e ‘desrespeito’. G1/RS. Disponível 
em:http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2016/06/
sartori-critica-ocupacao-de-escolas-estaduais-no-rs-e-
sindicato-reage.html Acesso em 09 de jul 2018.
34
Direitos de Juventude
SHIRKY. Clay. A cultura da participação. Criatividade e 
generosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
TOSO, SÉRGIO. Chile 2012: el movimiento estudiantil en la 
encrucijada. Le Monde Diplomatiche. Jan 2012. Disponível em: 
http://www.lemondediplomatique.cl/Chile-2012-el-movimiento.
html Acesso em 05 jul 2018.
WEISSHEIMER, Marco Aurélio. Em Passo Fundo, estudantes 
ocupam escola para debater problemas da educação e da vida. 
Blog RS Urgente. Disponível em: https://rsurgente.wordpress.
com/2016/05/24/em-passo-fundo-escolas-ocupadas-
debatem-problemas-da-educacao-e-da-vida/ Acesso em 09 
de jul 2018.
 
35
André Viana Custódio & Cristiano Lange dos Santos
CAPÍTULO 02 - Eco-ansiedade: 
reflexões sobre a angústia da juventude 
relacionada à crise ecológica
Cristiano Lange dos Santos1
Juliana Toralles dos Santos Braga2
1 INTRODUÇÃO
O tema do presente estudo é a ansiedade 
climática e a eco ansiedade da juventude brasileira, 
que pode ser conceituada como a angústia relacionada 
às crises ecológicas.
O objetivo geral é refletir sobre os motivos 
que conduzem os jovens à eco ansiedade, levando 
em conta que a lógica do capital reafirma uma 
ideologia dominante e direciona as discussões sobre 
meio ambiente para a continuação da produção de 
mercadorias, de forma que os interesses econômicos 
são priorizados em detrimento das pessoas, o que 
impede importantes processos de socialização, 
1 Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) com doutorado sanduíche 
na Universidade de Burgos (UBU) na Espanha financiado pela CAPES. Colaborador Externo do 
Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de 
Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC.
2 Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande, Doutoranda em Direito pela 
Universidade de Santa Cruz do Sul. Integrante do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de 
Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social 
do PPGD/UNISC. Advogada.
36
Direitos de Juventude
especialmente os relacionados aos jovens. 
O problema definido é: de que forma a juventude 
brasileira é influenciada a construir seu modo de vida, 
relacionado com o seu sentimento de envolvimento nos 
processos de apreensão da realidade e de percepção 
da capacidade de nela intervir para transformá-la, 
com relação à questão ambiental? 
A hipótese suscitada para responder ao problema 
é a de que é necessário trazer o tema das ambientais e 
das mudanças climáticas para o cotidiano dos jovens, 
através do engajamento de escolas, universidades, 
coletivos, Estado e de toda a sociedade baseado na 
solidariedade humana, já que a juventude constitui 
importante ator para a mudança da realidade. 
Dessa maneira, a investigação foi dividida em 
duas partes. Primeiramente é realizado um breve 
panorama da atual crise ambiental, mediante análise 
das normas que reconhecem o meio ambiente como 
patrimônio público e do cenário de degradação 
ambiental que se apresenta. E, posteriormente, é 
analisado o papel desempenhado pela ansiedade 
climática ou eco ansiedade na realidade da juventude 
brasileira e as suas consequências. 
O método de abordagem será dedutivo e o 
método de procedimento monográfico, com técnicas 
de pesquisa bibliográfica e documental. A pesquisa 
bibliográfica será realizada nas bases de dados 
das investigações publicadas em revistas e livros 
especializados sobre o tema, e, a pesquisa documental 
examina os dados extraídos nos portais da Secretaria 
Nacional de Juventude, Instituto Brasileiro de 
Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Nacional 
37
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
de Pesquisas Espaciais (INPE).
2 A crise ambiental: o meio ambiente como 
patrimônio público
A produção e a reprodução do espaço possuem 
uma dimensão socializadora para os jovens, na medida 
em que o território é normalmente aceito como um 
destino na efetivação do desenvolvimento sustentável, 
que se dá do local ao global e diante de uma delicada 
relação entre ações individuais e coletivas. 
No Brasil, a Política Nacional do Meio Ambiente, 
criada em 1981 através da Lei nº. 6.938 de 31 de 
agosto de 1981 visa a harmonizar e compatibilizar 
meio ambiente e desenvolvimento econômico através 
da preservação, melhoria e recuperação da qualidade 
ambiental propícia à vida, visando a assegurar 
condições ao desenvolvimento socioeconômico e à 
proteção da dignidade da vida humana no Brasil 
(BRASIL, 1981). 
Assim, o meio ambiente é um patrimônio público, 
que gera direitos e deveres para todos. 
A Constituição Federal, de 5 de outubro de 1988, 
dedicou o sexto capítulo ao meio ambiente e prevê no 
art. 225 o dever do Poder Público e da coletividade de 
preservá-lo para as presentes e futuras gerações: 
Art. 225. Todos têm direito ao meio 
ambiente ecologicamente equilibrado, 
bem de uso comum do povo e essencial à 
sadia qualidade de vida, impondo-se ao 
Poder Público e à coletividade o dever de 
defendê-lo e preservá- lo para as presentes 
e futuras gerações. (BRASIL, 1988)
38
Direitos de Juventude
No entanto, a lógica do capital reafirma uma 
ideologia dominante que direciona as discussões 
sobre meio ambiente para a continuação da produção 
de mercadorias, os interesses econômicos são 
priorizados em detrimento das pessoas, o que impede 
importantes processos de socialização, especialmente 
os relacionados aos jovens, tendo em vista o recorte 
temático do presente estudo. 
Assim, as relações entre a sociedade e a natureza 
implicam o estudo da produção e da reprodução do 
espaço em sua complexidade, de forma que Rodrigues 
sugere uma mudança paradigmática que
[...] permitiria entender que a crise 
ambiental decorre do sucesso do modo de 
produção que prova, contraditoriamente, 
problemas sociais e ambientais. Auxiliaria 
compreender o processo de produção de 
mercadorias e desvendar causas e agentes 
da poluição do ar, do solo, das águas, bem 
como desmatamentos e da perda da bio 
e da sociodiversidades. Instrumentais 
analíticos adequados contribuiriam para a 
compreensão de que a crise não é do modo 
de produção, mas sim provocada por ele. A 
manutenção do paradigma implica atribuir 
a origem dos problemas ao consumo e aos 
consumidores, sem apontar o sucesso do 
modo de produção, que continua a produzir 
mais e mais mercadorias e a obsolescência 
programada. (2020, p. 210)
Chesnais e Serfati defendem que a crise 
ambiental representa uma crise para a humanidade, 
para a civilização humana, e que os efeitos dessa 
crise são produto do capitalismo, ou seja, é uma crise 
decorrente do modo de produção capitalista (2003, 
39
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
p. 04), sendo assim, o meio ambiente passa a ser o 
tema que “obscurece a realidade da crise. O saber 
competente está sendo guiado pelos organismos 
internacionais de financiamento e a colonização do 
inconsciente atinge a academia e não apenas os não 
letrados” (RODRIGUES, 2020, p. 211). 
Tomemos o exemplo da transformação 
das devastações da natureza em campos 
de valorização do capital portador de 
rendimentos para os acionistas. A denúncia 
dos desastres pelos relatórios dos peritos 
científicos, as associações ecológicas, os 
movimentos de resistência das populações 
diretamente concernidas levaram os 
governos e as organizações internacionais 
a se preocupar com essa questão. Eles o 
fizeram com a preocupação de permitir 
que a acumulação do capital rentista e o 
modo de consumo fundado na destruição 
ecológica prosseguissem. Assim, as 
políticas neoliberais enfatizaram a criação 
de mercados financeiros especializados, 
cujo objeto é a imposição de direitos de 
propriedade sobre elementos vitais como 
o ar, mas tambéma biosfera enquanto 
tal. Eles devem deixar de ser “bens livres” e 
tornar-se “esferas de valorização” fundadas 
pela instauração de direitos de propriedade 
de um tipo novo (os “direitos de poluir”) e de 
“mercados ad hoc. [...] A natureza adquire o 
estatuto de um “fator de produção”, ela se 
torna um “capital natural” cuja combinação 
com os outros fatores, o trabalho e o capital 
físico, permite o crescimento. (CHESNAIS; 
SERFATI, 2003, p. 21)
Ao adquirir o status de fator de produção, a 
natureza acaba proporcionando um novo campo de 
acumulação de riqueza, o qual é abastecido pela 
destruição acelerada dos recursos naturais. 
Exemplo disso é a empresa Amazon, multinacinal 
40
Direitos de Juventude
de tecnlogocia norte-americana com sede em Seattle, 
Washington, que cresceu consideravelmente nas 
últimas décadas e é uma das grandes empresas de 
tecnologia do mundo, entretanto, no século em que a 
questão ambiental se mostra uma preocupação real e 
urgente, produz sozinha uma quantidade extravagante 
de lixo plástico. Um relatório publicado em dezembro 
de 2020 pela Oceana, organização sem fins lucrativos 
destinada à conservação oceânica, estima que apenas 
no ano 2019, a Amazon gerou resíduos de embalagens 
plásticas suficientes para circundar o planeta terra 500 
vezes, além disso o equivalente a uma van de entrega 
de sua embalagem de plástico polui os ecossistemas 
de água doce e marinho do mundo a cada 70 minutos 
(OCEANA, 2020). 
Esse modelo de desenvolvimento se choca 
com a capacidade limitada do espaço planetário e 
dos recursos disponíveis, de maneira que se revelam 
os efeitos devastadores da presença predatória da 
espécie humana. E, embora haja constatação e 
compreensão praticamente unânime da necessidade 
de novas atitudes, medidas realmente efetivas têm 
sido relegadas. 
Em 1992, o Rio de Janeiro sediou a Conferência 
das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e 
Desenvolvimento, popularmente conhecida como 
ECO-92. Foi a segunda grande reunião das Nações 
Unidas sobre o meio ambiente e reuniu 178 Estados-
nação. A conferência teve como resultado a 
Convenção sobre Mudanças Climáticas, a Convenção 
sobre a Diversidade Biológica, a Declaração do Rio, a 
Declaração sobre Florestas e a Agenda XXI. Contudo, 
41
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
desde então o Brasil vem aumentando a emissão 
de carbono ano a ano, nos últimos 10 anos, embora 
realmente tenha reduzido em 2020 em razão da 
pandemia (SANTOS, 2021, p. 176). 
Vinte anos após, o Protocolo de Kyoto, primeiro 
tratado internacional para controle da emissão de 
gases de efeito estufa na atmosfera, assinado durante 
a 3ª Conferência das Partes da Convenção das Nações 
Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em 
Kyoto, no Japão, em 1997, não se obteve o resultado 
prometido, e, a despeito de todo proselitismo climático, 
da legislação e do progresso na produção de energia 
verde, foram geradas mais emissões do que nos 
vinte anos anteriores. Em 2016, os acordos de Paris 
estabeleceram 2ºC como uma meta global, sendo 
que esse nível de aquecimento presenta um cenário 
assustador, entretanto cinco anos depois nenhuma 
nação industrial parece a caminho de cumprir as 
promessas feitas em Paris (WALLACE-WELLS, 2019, p. 
13-15). 
O Painel Intergovernamental sobre Mudança 
Climática (IPCC) das Nações Unidas apresenta 
avaliações sobre o estado do planeta e a trajetória 
provável da mudança climática: 
Um novo relatório é esperado para 2022, 
mas o mais recente afirma que tomando 
logo uma atitude sobre as emissões de 
carbono e instituindo imediatamente 
os compromissos feitos, mas ainda não 
implementados, nos acordos de Paris, 
é provável que cheguemos a 3,2ºC de 
aquecimento, ou cerca de três vezes o 
aquecimento do planeta desde o início da 
industrialização — trazendo o impensável 
colapso das calotas polares não só ao plano 
42
Direitos de Juventude
da realidade, mas à realidade presente. 
Com isso ficariam inundadas não só Miami e 
Daca, como também Xangai e Hong Kong, 
além de uma centena de outras cidades 
pelo mundo todo. Acredita-se que o ponto 
de virada desse colapso sejam os 2ºC, 
mais ou menos; segundo diversos estudos 
recentes, mesmo a rápida interrupção 
das emissões de carbono ocasionaria um 
aquecimento nesse patamar até o fim do 
século. (WALLACE-WELLS, 2019, p. 15)
As mudanças climáticas e os impactos 
ambientais estão também relacionadas com uma 
possível recorrência de pandemias e sua crescente 
virulência, sendo assim, a Covid-19 pode ser um elo 
de sequências e contingências em uma cadeia que 
se estenderá para o futuro se as condições até aqui 
abordadas persistirem, como destaca Santos ao 
abordar a pandemia atual, “quando eventualmente 
conseguirmos vencer ou aprender a conviver com este 
surto, teremos de nos preocupar com o próximo. E 
nada nos garante que não se sobreponham. A não ser 
que consigamos mudar algo no nosso ‘normal’ (2021, 
p. 177).
No Brasil, em que pese tenha ocorrido a 
redução da emissão de carbono em 2020 em razão 
das medidas de restrição decorrentes da pandemia 
de Covid-19, a qual, em contrapartida, resultou em 
1.202km² da Amazônia deflorestados apenas nos 
primeiros meses do mesmo ano, sendo que, entre 2018 
e 2019, despareceram 9.761 km² de cobertura florestal 
da Amazônia – dado que já alarmava em razão do 
crescimento considerável da taxa de destruição da 
Floresta Amazônica nos últimos anos (INPE, 2021). 
43
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
 Assim, a crise ambiental está muito mais 
próxima do imaginado nas últimas décadas, não é algo 
atingirá diretamente apenas as próximas gerações, é 
uma questão que urge no presente. A vida social das 
pessoas e o desenvolvimento econômico devem ser 
pensados sob a perspectiva da emergência climática.
Os jovens latino-americanos merecem especial 
atenção, afinal constituem 37% da população da 
região, consistindo em os maiores agentes de mudanças 
em potencial, pois “têm uma disposição maior do que 
qualquer outro setor social para se comprometer com 
causas nobres, com ideias, com desafios coletivos” 
(SEN; KLIKSBERG, 2010, p. 212). De acordo com o 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 
em 2021, os jovens entre 15 e 29 anos correspondem 
a 23% da população brasileira, somando mais de 47 
milhões de pessoas (IBGE, 2021). 
E, se os jovens representam a esperança de um 
futuro melhor e se constituem em importantes atores 
para isso, bem como se o meio ambiente é considerado 
bem comum da humanidade, devendo ser preservado 
para as gerações futuras, é relevante a abordagem 
da ansiedade climática ou eco ansiedade verificada 
entre aqueles. 
3 Jovens: consumidores ou mercadoria?
Certamente essas suscetibilidades ambientais, 
políticas e sociais abarcam os jovens, os quais são 
peças importantes para a construção de um futuro 
melhor diante da citada crise. 
Os fatos têm colocado a sociedade diante 
44
Direitos de Juventude
da gravidade da questão climática e a desafiado 
a repensar a vida social e a economia, de forma a 
ajustá-las ao ambiente natural. Bem-estar humano e 
sustentabilidade ambiental estão entrelaçados:
E aqui está o problema. A jornada da 
humanidade através do século XXI será 
conduzida pelos responsáveis por políticas, 
empreendedores, professores, jornalistas, 
líderes comunitários, ativistas e eleitores 
que estão sendo educados hoje. Mas 
a esses cidadãos de 2050 está sendo 
ensinada uma mentalidade econômica 
enraizada nos manuais de 1950, que por 
sua vez têm suas raízes nas teorias de 1850. 
Dada a natureza rapidamente mutável do 
século XXI, isso está tomando a forma de 
um desastre. (...) O contexto do século XXI 
exige que explicitemos esses pressupostos 
e tornemos esses pontos cegos visíveis, para 
que possamos, mais uma vez, repensar a 
economia. (RAWORTH, 2019, p. 15)
No entanto, a abordagem da realidade tem 
sido feita de forma distorcida, uma vez que ao mesmo 
tempo em que oculta os verdadeirosresponsáveis 
pelos problemas (aqueles que se apropriam e são 
proprietários dos meios de produção, da terra e das 
riquezas, como o exemplo da empresa Amazon), atribui 
a responsabilidade aos consumidores, individualmente 
considerados, ofuscando a essência da desigualdade 
e permitindo a continuidade da produção de 
mercadorias que garante a apropriação de riquezas – 
ratificando a ideologia dominante (RODRIGUES, 2020, 
p. 211). 
O deslocamento discursivo da produção 
para o consumo oculta as classes 
sociais, que passam a ser distinguidas 
como “classes de rendas” e “classes de 
45
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
consumidores”. Enquanto a produção é 
concretizada no espaço geográfico, o 
“consumo” é remetido ao indivíduo. Não 
há referências ao comércio, ao lugar de 
troca, mas ao consumidor. Como pode 
ser ele o responsável pela dilapidação 
ambiental, se não é quem escolhe o que 
produzir? Como compreender a totalidade, 
quando se excluem o espaço geográfico, 
a produção, a circulação, o comércio, as 
classes sociais, o mundo do trabalho, as 
relações societárias e, principalmente, os 
agentes formuladores e promotores dos 
deslocamentos discursivos? (RODRIGUES, 
2020, p. 212)
O desafio ambiental está relacionado à alocação 
de recursos envolvendo bens públicos, afinal o meio 
ambiente é patrimônio público. As consequências da 
crise climática são e serão vivenciadas em comum e 
não separadamente por um só consumidor. 
O predomínio da sociedade de consumo 
torna os seus membros as próprias mercadorias de 
consumo, como ensina e alerta Bauman, no sentido 
de que “a sociedade dos consumidores concentra seu 
treinamento assim como pressões coercitivas sobre 
seus membros desde a sua infância e ao longo das 
vidas, na administração do espírito.” (2008, p. 63-76). 
O alerta para a questão climática tem 
mobilizado parte da juventude, afinal, a exemplo da 
marcante atuação da sueca Greta Thunberg – hoje 
com 18 anos de idade – que, com apenas 11 anos iniciou 
o movimento Fridays for Future (Sextas pelo Futuro), 
protestando contra os incêndios, fortes ondas de calor 
e para que os governantes adotassem medidas para 
salvar o clima do planeta. No Brasil, esse movimento 
gerou o engajamento de jovens nos últimos anos: em 
46
Direitos de Juventude
15 de março de 2019, houve protestos nos estados de 
São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do 
Sul; já em 20 de setembro, houve manifestações em 
São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, 
Brasília, além de outras capitais; em 24 de janeiro 
de 2020, a Aliança Pela Amazônia no Brasil realizou 
protesto no Pará; e em 2021 foi lançada a campanha 
Ajuda Pantanal, com foco em conter diversos desastres 
no bioma pantaneiro.
Diversas organizações têm engajado 
adolescentes, como, por exemplo, a organização 
Engajamundo, que surgiu em 2012, após a participação 
de um grupo de jovens na Conferência da ONU em 
Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, com o intuito 
de aumentar a participação e incidência da juventude 
brasileira nas conferências internacionais.
Dessa forma, na medida em que os jovens se 
tornam cada vez mais conscientes das ameaças 
globais atuais e futuras, a crise climática apresenta 
implicações significativas de longo prazo para o 
seu sistema físico e para a sua saúde mental como 
resultado de mudanças ambientais agudas e crônicas, 
de tempestades e incêndios florestais, da mudança de 
paisagens e aumento das temperaturas:
O papel desempenhado pela ansiedade 
climática é complexo, com reconhecimento 
de que isso se baseia fundamentalmente 
na ansiedade construtiva. Embora doloroso 
e angustiante, a ansiedade climática é 
racional e não implica em doença mental. 
Pode ser vista como uma “ansiedade 
prática” o que às vezes leva as pessoas 
a reavaliarem seu comportamento para 
responder adequadamente às ameaças 
incluindo incerteza. (MARKS; HICKMAN; 
47
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
PIHKALA; CLAYTON; LEWANDOWSKI; 
MAYALL; WRAY; MELLOR; VAN SUSTEREN, 
2021, p. 03 – tradução livre dos autores)
A ansiedade climática e a eco ansiedade pode 
ser conceituada como a angústia relacionada às crises 
ecológicas.
O Estatuto da Juventude, instituído pela Lei nº. 
12.852, de 5 de agosto de 2013, reconhece os jovens 
como detentores de direitos geracionais e é regido 
por diversos princípios, entre eles: a promoção da 
autonomia e emancipação dos jovens; a promoção do 
bem-estar, da experimentação e do desenvolvimento 
integral do jovem; a promoção da vida segura, da 
cultura da paz, da solidariedade e da não discriminação; 
e valorização do diálogo e convívio do jovem com as 
demais gerações. Ademais, esse diploma legal dedica 
uma seção para o Direito à Sustentabilidade e ao Meio 
Ambiente, determinando:
Art. 34. O jovem tem direito à 
sustentabilidade e ao meio ambiente 
ecologicamente equilibrado, bem de 
uso comum do povo, essencial à sadia 
qualidade de vida, e o dever de defendê-lo 
e preservá-lo para a presente e as futuras 
gerações.
Art. 35. O Estado promoverá, em todos os 
níveis de ensino, a educação ambiental 
voltada para a preservação do meio 
ambiente e a sustentabilidade, de acordo 
com a Política Nacional do Meio Ambiente.
Art. 36. Na elaboração, na execução e 
na avaliação de políticas públicas que 
incorporem a dimensão ambiental, o poder 
público deverá considerar:
I - o estímulo e o fortalecimento de 
organizações, movimentos, redes e outros 
coletivos de juventude que atuem no 
48
Direitos de Juventude
âmbito das questões ambientais e em prol 
do desenvolvimento sustentável;
II - o incentivo à participação dos jovens na 
elaboração das políticas públicas de meio 
ambiente;
III - a criação de programas de educação 
ambiental destinados aos jovens; e
IV - o incentivo à participação dos jovens em 
projetos de geração de trabalho e renda 
que visem ao desenvolvimento sustentável 
nos âmbitos rural e urbano. (BRASIL, 2013)
De acordo com Dardot e Laval a depressão 
generalizada é uma das características do sujeito 
neoliberal em formação, cuja vida é norteada pela 
economia financeira e que deve ser previdente em 
todos os domínios e escolhas:
O discurso da “realização de si mesmo” 
e do “sucesso de vida” leva a uma 
estigmatização dos “fracassados”, dos 
“perdidos” e dos infelizes, isto é, incapazes 
de aquiescer à norma social da felicidade. 
O “fracasso social” é visto, em última 
instância, como uma patologia. 
[...] O remédio mais propalado para essa 
“doença da responsabilidade”, essa usura 
provocada pela escolha permanente, é uma 
dopagem generalizada. O medicamento 
faz as vezes da instituição que não apoia 
mais, não reconhece mais, não protege 
mais os indivíduos isolados. Vícios diversos e 
dependências às mídias visuais são alguns 
desses estados artificiais. O consumo de 
mercadorias também faria parte dessa 
medicação social, como suplemento de 
instituições debilitadas. (2016. p. 367)
Ocorre que a forma como os jovens irão construir 
seu modo de vida está intimamente relacionada com 
o seu sentimento de envolvimento nos processos 
49
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
de apreensão da realidade e de percepção da 
capacidade de nela intervir para transformá-la, por 
isso o compromisso socioambiental tem relação 
fundamental com esses aspectos (LEMOS; HIGUCHI, 
2011). 
As consequências sociais do cenário atual, de 
uma verdadeira crise civilizatória, são amplas: 
A rapidez na transformação de estilos de 
vida, tecnologias e expectativas sociais faz 
com que se multipliquem as inseguranças 
sociais e aumentem as tensões sociais 
entre gerações, assim como entre grupos 
sociais cada vez mais diversificados. Todos 
parecem mais interessados em consultar 
seus smartphones ou tablets do que em 
conversar uns com os outros. O enraizamento 
dos significados culturais torna-se mais 
precário e aberto às reconstruções casuais, 
conforme as fantasias contemporâneas. 
Identidades flutuam emum mar de vínculos 
transitórios e efêmeros. Pessoas e produtos 
que correspondam a isso são necessários 
para que o capital cumpra a exigência 
de crescimento exponencial infindável. 
(HARVEY, 2019, p. 275)
Comparato desenvolve dois fatores de 
solidariedade humana: “um de ordem técnica, 
transformador dos meios ou instrumentos de 
convivência, mas indiferente aos fins; e outro de 
natureza ética, procurando submeter a vida social 
ao valor supremo da justiça.” (2005, p. 38). O autor 
explica que as duas formas são complementares e 
indispensáveis para o movimento de unificação da 
humanidade, sendo que se a vida em sociedade não 
for baseada em uma harmonização ética, fundada 
50
Direitos de Juventude
nos direitos humanos, a tendência é a desagregação 
social:
Ambas essas formas de solidariedade 
são, na verdade, complementares e 
indispensáveis para que o movimento 
de unificação da humanidade não sofra 
interrupção ou desvio. A concentração 
do gênero humano sobre si mesmo, 
como resultado da evolução tecnológica 
no limitado espaço terrestre, se não for 
completada pela harmonização ética, 
fundada nos direitos humanos, tende à 
desagregação social, em razão da fatal 
prevalência dos mais fortes sobre os mais 
fracos. (COMPARATO, 2005, p. 38)
Em um mundo como esse, os jovens cidadãos 
são compelidos a “assumir a vida pouco a pouco, tal 
como ela nos vem, esperando que casa fragmento 
seja diferente dos anteriores, exigindo novos 
conhecimentos e habilidades” (BAUMAN, 2013, p. 24), 
por isso, é necessário trazer o tema das ambientais e 
das mudanças climáticas para o cotidiano dos jovens, 
através do engajamento de escolas, universidades, 
coletivos, Estado e de toda a sociedade. 
CONCLUSÃO
A ideologia dominante, norteada pela lógica do 
capital, direciona as discussões sobre meio ambiente 
para a continuação da produção de mercadorias, os 
interesses econômicos são priorizados em detrimento 
das pessoas, mesmo diante dos dados alarmantes e 
urgentes relativos às questões climáticas. Enquanto 
entendida como fato de produção, a natureza acaba 
proporcionando um novo campo de acumulação de 
51
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
riqueza, o qual é abastecido pela destruição acelerada 
dos recursos naturais. 
Isso tem influência sobre importantes processos 
de socialização, especialmente os relacionados aos 
jovens, de forma que as relações entre a sociedade 
e a natureza implicam o estudo da produção e da 
reprodução do espaço em sua complexidade.
Obviamente, o atual modelo de desenvolvimento 
esbarra capacidade limitada dos recursos naturais 
disponíveis, e embora haja constatação científica 
da premência de novas atitudes, de novo estilo de 
vida social e econômica, medidas realmente efetivas 
têm sido relegadas. A abordagem dessa realidade 
tem sido feita de forma distorcida, ocultando os 
verdadeiros responsáveis pelos problemas (aqueles 
que se apropriam e são proprietários dos meios de 
produção, da terra e das riquezas, como o exemplo 
da empresa Amazon) e atribuindo a responsabilidade 
aos consumidores, individualmente considerados.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia 
e Estatística (IBGE), em 2021, os jovens entre 15 e 29 
anos correspondem a 23% da população brasileira, 
somando mais de 47 milhões de pessoas (IBGE, 2021). 
Esses jovens representam a esperança de um futuro 
melhor e se constituem em importantes atores para 
isso.
O meio ambiente, por sua vez, é considerado 
bem comum da humanidade, devendo ser preservado 
para as gerações presentes e futuras. 
Os jovens estão cada vez mais conscientes e 
alertas para a questão climática, o que tem mobilizado 
parte da juventude brasileira. 
52
Direitos de Juventude
Entretanto, na medida em que os jovens se 
tornam cada vez mais conscientes das ameaças 
globais atuais e futuras, a ansiedade climática e a 
eco ansiedade ganham espaço na forma de angústia 
relacionada às crises ecológicas.
Tais inseguranças sociais aumentam as tensões 
sociais entre gerações, enquanto as pessoas e os 
produtos acabam sendo necessários para que o capital 
cumpra a exigência de crescimento exponencial 
infindável. Dessa maneira, a forma como os jovens 
irão construir seu modo de vida está intimamente 
relacionada com o seu sentimento de envolvimento 
nos processos de compreensão da realidade e da sua 
capacidade de influência, de mudança.
Daí a importância trazer o tema das ambientais 
e das mudanças climáticas para o cotidiano dos jovens, 
através do engajamento de escolas, universidades, 
coletivos, Estado e de toda a sociedade. 
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transformação das 
pessoas em mercadorias. São Paulo: Zahar, 2008.
BAUMAN, Zygmunt. Sobre educação e juventude: conversas com 
Ricardo Mazzeo. São Paulo: Zahar, 2013.
BRASIL. Constituição Federativa da República do Brasil. Brasília: 
Presidência da República, de 5 de outubro de 1988. Disponível 
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/
Constituicao.htm Acesso em: 25 de setembro de 2021.
BRASIL. Lei nº. 6.938 de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a 
Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de 
formulação e aplicação, e dá outras providências. Disponível em: 
< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6938.htm> Acesso 
53
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
em 22 de outubro de 2021.
BRASIL. Lei nº. 12.852, de 5 de agosto de 2013. Institui o Estatuto 
da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios 
e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema 
Nacional de Juventude - SINAJUVE. Disponível em: < http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12852.
htm> Acesso em 02 de novembro de 2021.
CHESNAIS, Françóis; SERFATI, Claude. Ecologia e as condições 
físicas da reprodução social: alguns fios condutores marxistas. 
Revista Crítica Marxista, São Paulo, n 16, 2003. Disponível 
em:https://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_
biblioteca/16chesnais.pdf Acesso em 23 de outubro de 2021.
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos 
humanos. 4. ed., rev., e atual. São Paulo: Saraiva, 2005.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: 
ensaio sobre a sociedade neoliberal. Tradução Mariana Echalar. 
1.ed. São Paulo: Boitempo, 2016.
HARVEY, David. A loucura da razão econômica: Marx e o capital 
no século XXI. São Paulo: Boitempo, 2019.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA 
(IBGE). Projeção da população do Brasil e das Unidades 
da Federação. Disponível em < https://www.ibge.gov.br/
apps/populacao/projecao/index.html?utm_source=portal 
“https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/index.
html?utm_source=portal&utm_medium=popclock&utm_
campaign=novo_popclock”utm_medium=popclock“https://
www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/index.html?utm_
source=portal&utm_medium=popclock&utm_campaign=novo_
popclock”utm_campaign=novo_popclock> Acesso em 07 de 
novembro de 2021.
INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). 
Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica 
Brasileira por Satélite (PRODES). Disponível em: < http://www.obt.
inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/prodes> Acesso em 
07 de novembro de 2021.
LEMOS, Sônia Maria; HIGUCHI, Maria Inês Gasparetto. 
54
Direitos de Juventude
Compromisso socioambiental e vulnerabilidade. Ambiente & 
Sociedade [online]. 2011, v. 14, n. 2. Acesso em  7 Novembro 2021. 
pp. 123-138. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S1414-
753X2011000200009>. Epub 22 Nov 2012. ISSN 1809-4422. 
https://doi.org/10.1590/S1414-753X2011000200009.
MARKS, Elizabeth; HICKMAN, Caroline; PIHKALA, Panu; 
CLAYTON, Susan; LEWANDOWSKI, Eric R.; MAYALL, Elouise E.; 
WRAY, Britt; MELLOR, Catriona; VAN SUSTEREN, Lise. Young 
People’s Voices on Climate Anxiety, Government Betrayal and 
Moral Injury: A Global Phenomenon. Available at SSRN: https://
ssrn.com/abstract=3918955 or http://dx.doi.org/10.2139/
ssrn.3918955.
OCEANA. Amazon’sPlastic Problem Revealed. December 15, 
2020. DOI: 10.5281/zenodo.4341751. Disponível em: < https://
plastics.oceana.org/wp-content/uploads/2020/12/Amazons-
Plastic-Problem-Revealed-December-15-2020-Oceana-DOI.
pdf> Acesso em 31 de outubro de 2021.
RAWORTH, Kate. Economia donut: uma alternativa ao 
crescimento a qualquer custo. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.
RODRIGUES, Arlete Moysés. A matriz discursiva sobre o “meio 
ambiente”: produção do espaço urbano – agentes. escalas e 
conflitos. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri; SOUZA, Marcelo Lopes 
de; SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão (org.). A produção do 
espaço urbano: agentes e processos, escalas e desafios. 1.ed. 8 
reimp. São Paulo: Contexto, 2020.
SANTOS, Boaventura de Souza. O futuro começa agora: da 
pandemia à utopia. 1.ed. São Paulo: Boitempo, 2021.
SEN, Amartya; KLIKSBERG, Bernardo. As pessoas em primeiro 
lugar: a ética do desenvolvimento e os problemas do mundo 
globalizado. Tradução de Bernardo Ajzemberg e Carlos Eduardo 
Lins da Silva. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
WALLACE-WELLS, David. A terra inabitável: uma história do 
futuro. São Paulo: Cia das Letras, 2019. 
55
Cristiano Lange dos Santos & Juliana Toralles dos Santos Braga
CAPÍTULO 03 - Jovens trabalhadores 
autônomos: o reconhecimento de 
vínculoda relação de emprego nas 
plataformas digitais.
Júlian Marcelino Araújo1
1 INTRODUÇÃO
O estudo propõe investigar se os jovens 
trabalhadores autônomos que laboram por 
plataformas podem ser reconhecidos como uma 
relação de emprego nos moldes da Consolidação das 
Leis Trabalhistas - CLT.
Justifica-se na sequência de fatos que as 
plataformas digitais estão crescendo no mercado de 
consumo, algumas com o propósito de trazer renda 
mediando trabalhos e consumo, no qual passam a ser, 
por vezes, a única opção para jovens sem experiência 
ou sem um emprego formal conquistar sua renda 
em um país com altos índices de desemprego e com 
poucas políticas públicas de trabalhos decentes para 
a juventude trabalhadora.
1 Doutoranda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – PPGD/UNISC, Integrante 
do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens e do Grupo de 
Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social do PPGD/UNISC. Advogada.
56
Direitos de Juventude
Assim, o estudo pretende fazer um olhar 
crítico da gig economy - que é um conceito que 
atrai trabalhadores autônomos ou freelancers - na 
perspectiva das normas trabalhistas e da Constituição 
Federal de 1988. Alguns aplicativos estão se destacando 
e conseguindo grandes lucros com base nesse modelo 
- UBER, Airbnb, ifood, Amazon, Lojas Americanas, 
entre outros - que prestam serviço ao consumidor por 
meio de trabalhadores, atuando como intermediárias 
para a realização dos negócios, se isentando dos 
compromissos da legislação trabalhistas desses. 
Tais aplicativos fazem uso do discurso que 
os trabalhadores que operam por meio deles são 
pessoas em busca de flexibilidade e de valorização 
de seus serviços, como que se fosse um meio de 
empreendedorismo de seu próprio negócio, afastando 
os encargos de uma relação de emprego junto a CLT 
- como férias, 13°, pagamento de um salário fixo, 
reflexos previdenciários e de fundo de garantia (FGTS), 
prevenção da saúde e segurança do trabalhador
Observe-se que a maioria dos trabalhadores 
que estão trabalha, tendo sua renda por meio da 
intermediação dos aplicativos são jovens de 18 a 29 
anos, que desejam sobreviver ao desemprego.
O modelo formal de emprego presente na 
época que foi criada a CLT - o modelo fordista, rígido, 
com jornadas programadas, funções específicas - foi 
substituído por novos modos de produção em todo 
o mundo devido aos altos avanços da tecnologia 
- um novo sistema flexível que busca a eficiência 
da produção. Todavia, estes novos modelos não 
podem burlar a garantia das leis de proteção aos 
57
Júlian Marcelino Araújo
trabalhadores.
No estudo busca-se debater a questão do 
enquadramento do vínculo de emprego dos aplicativos 
aos trabalhadores vinculados, já que muitas vezes os 
autônomos que trabalham por meio de seus aplicativos 
recebem menos, têm jornadas de trabalho mais longas, 
correm mais perigos em termos de segurança e saúde 
do que em comparação com profissionais que prestam 
o mesmo serviço dentro de um vínculo de emprego.
Neste sentido, a presente proposta quer discutir 
em uma visão social do trabalho, zelando pelo 
princípio da proteção ao trabalhador, a tentativa de 
enquadramento na relação de emprego aos moldes 
na CLT as formas de contratação do trabalhador na 
prestação de serviços sob plataformas digitais.
No objetivo geral, o estudo pretende analisar 
a possibilidade de enquadramento da relação de 
emprego na contratação do trabalhador na prestação 
de serviços sob plataformas digitais.
Como objetivos específicos o estudo requer 
descrever um breve contexto histórico do mundo do 
trabalho pós surgimento do trabalho por meio de 
aplicativo e Impactos da pandemia no ordenamento 
jurídico brasileiro, analisar o levantamento de alguns 
dados que identificam os trabalhadores jovens que 
operam serviços por meio de aplicativos, e por fim, 
analisar a possibilidade de enquadramento da relação 
de emprego nas contratações do trabalhador na 
prestação de serviços sob plataformas digitais.
A fim de responder o problema sobre se há a 
possibilidade de enquadramento da relação de emprego 
nas contratações do trabalhador na prestação de 
58
Direitos de Juventude
serviços sob plataformas digitais? Já tendo a hipótese 
que, há possibilidade de enquadramento da relação 
de emprego nas contratações do trabalhador na 
prestação de serviços sob plataformas digitais, sendo 
que as plataformas lucram com essas intermediações 
e os trabalhadores estão à margem da relação de 
trabalho, sem proteção trabalhista, precarizados, 
trabalhando em maiores jornadas de trabalho e tenho 
menores rendas em comparação ao trabalho por meio 
de uma relação de emprego regulada pela CLT.
O presente estudo utilizou o método de 
procedimento dedutivo e o método de procedimento 
monográfico com técnicas de pesquisa bibliográfica e 
documental.
2 Juventude trabalhadora por meio aplicativo 
no brasil
O mundo do trabalho vem alterando seus 
modelos e formas de contratação ao passo que 
acompanha as transformações da sociedade, 
atualmente as transformações tecnológicas vem 
revolucionando o modo de produção, trocando o 
modelo fordista para o toyotismo ou acumulação 
flexível.
Antunes (2015, p. 35) explica como funcionava a 
produção fordista:
Iniciamos, reiterando que entendemos o 
fordismo fundamentalmente como a forma 
pela qual a indústria e o processo de trabalho 
consolidaram-se ao longo deste século, 
cujos elementos constitutivos básicos eram 
dados pela produção em massa, através 
59
Júlian Marcelino Araújo
da linha de montagem e de produtos 
mais homogêneos; através do controle dos 
tempos e movimentos pelo cronômetro 
taylorista e da produção em série fordista; 
pela existência do trabalho parcelar e pela 
fragmentação das funções; pela separação 
entre elaboração e execução no processo 
de trabalho; pela existência de unidades 
fabris concentradas e verticalizadas e pela 
constituição / consolidação do operário 
massa, do trabalhador coletivo fabril, entre 
outras dimensões.
A nova forma de trabalhar se transformou com 
ajuda do avanço da tecnologia, sendo a grande 
responsável pela possibilidade de flexibilizar a 
produção que anteriormente era injetada em um 
modelo que o trabalhador tinha que estar presente na 
fábrica operando de forma especializada e sabendo 
para quem estava trabalhando.
Ao passar do tempo, diante na nova era digital 
que está se formando, as dinâmicas do trabalho humano 
foram se reajustando, principalmente os fenômenos da 
inteligência artificial que deve ser estudado com mais 
cuidado já que empatou bruscamente as relações de 
trabalho. (CUESTA, 2017, p. 75.)
Diante deste novo cenário em uma era digital 
destaca-sefenômenos do surgimento das plataformas 
digitais mudando o modo de comunicação das relações 
humanas, impactando inclusive nas vias econômicas e 
do trabalho humano. 
Com o surgimento dessas novas demandas 
virtuais, aplicativos em um formado de economia 
colaborativa, no qual o acesso/informação aos bens 
ou serviços são mais importantes de que tem a 
propriedade ou posse, transformando atualmente os 
60
Direitos de Juventude
aplicativos os maiores impulsionadores da economia e 
influências mundiais.
A Crescente demanda por trabalhos remotos 
vieram com o avanço da tecnologia, intensificada 
pela pandemia do coronavírus em 2019 COVID-19 - 
que impactou o mundo inteiro trazendo mudanças 
significativas de aspectos mundiais, inclusive no 
mundo do trabalho: devido ao fato do ser humano ter 
que ficar isolado de seus iguais na finalidade de não 
proliferar a doença, o trabalho remoto e o serviço de 
entregas por aplicativos se expandiram rapidamente.
Assim, o trabalho nas plataformas, que já 
estavam em uma demanda crescente de adeptos 
- por outras circunstâncias que rodam nossa 
sociedade brasileira como a precarização no trabalho, 
desigualdade social, desemprego, ideologia neoliberal 
expandido, desenvolvimento tecnológico, entre outros 
- foi impulsionada no cenário atual, trazendo novas 
premissas para o mundo laboral analisar e classificar 
esses novos tipos de vínculos trabalhistas.
As plataformas digitais podem ser utilizadas no 
mundo virtual para interação social, fazendo, inclusive, 
conexão com pessoas de diferentes países do mundo. 
O trabalho humano, que também é uma forma de 
relação social, pode ser intermediada por plataformas 
virtuais específicas que oferecem prestação de serviço 
humano, podendo conectar pessoas que necessitam 
de serviço com pessoas que ofertam esse serviço.
Neste sentido, considera Rosenfield e Mossi 
(2020, p. 744) que as plataformas digitais, ao realizar o 
micro trabalho, “devem ser consideradas como um tipo 
de organização produtiva, cujo mercado de trabalho 
61
Júlian Marcelino Araújo
conecta clientes, operadores de plataformas e micro 
trabalhadores”.
Ocorre que este mecanismo de trabalho virtual 
tende a ser problematizado em algumas questões ao 
se olhar para as máximas Constitucionais Brasileiras da 
dignidade da pessoa humana e valorização do trabalho 
humano, já que o micro trabalhador cadastrado em 
um tipo de plataforma não é caracterizado como 
“trabalhador”/ “empregado”, mas sim é vendido a 
ideia de cliente da plataforma ou um comerciante 
empreendedor que pode vender seus serviços do 
ambiente virtual da plataforma.
Neste sentido, não se tem uma organização 
atuante na defesa dos direitos trabalhistas dos micros 
trabalhadores, seus os pagamentos são valores baixos 
e precarizados ao comprar suas tarefas em um vínculo 
de emprego comum.
Os micro trabalhadores, que operam por meio 
dos aplicativos, geralmente são contratados para 
efetuar tarefas de trabalhos instantâneos contratados 
por pequenos prestações de serviços sem nenhuma 
proteção trabalhista. Rosenfield e Mossi (2020, p. 748) 
entende que “uma nova organização produtiva que 
embaralha atores sociais e características de muitas 
outras formas de organização, no sentido de guardar 
o máximo de flexibilidade, ausência de vínculos, 
independência e autorregulação”.
Além disso, como as plataformas se afastam 
da imagem de empregadores - ou empresas 
terceirizadoras de trabalho - para se vinculam à 
definição de serem apenas ambientes virtuais para os 
micro trabalhadores autônomos acharem seu cliente, 
62
Direitos de Juventude
por isso, acabam, por sua maioria, cobrando taxas ou 
comissões de seus trabalhos de direito por usarem seu 
ambiente.
Realmente nesta nova demanda de classes 
na relação de trabalho criada no mundo atual 
tecnológico é diferente da composição de empregado 
e empregador nos moldes da década de 1940, época 
formadora da Consolidação das Leis Trabalhista 
- CLT, a conhecida por seu referencial no mundo do 
trabalho, no qual presenciava uma lógica de produção 
majoritariamente sob o sistema fordista, em que todos 
trabalhadores - os que vendiam sua mão-de-obra - 
operam presencialmente na fábrica sabendo para 
quem se trabalha - os empresários que detinham a 
matéria prima / a propriedade.
Casilli (2020, p. 18) explica que no mercado das 
plataformas não se espera mais que os fornecedores 
estão enquadrados no antigo modelo de fornecerem 
detenham um bem ou habilidade específica, é uma 
nova lógica de vendas.
As plataformas digitais conseguiram com muito 
eficácia e aderência dos próprios trabalhadores burlar 
o rígido vínculo empregatício, isso porque colocam os 
trabalhadores como donos de si em seus ambientes 
que apenas auxiliam o pequeno empreendedorismo, 
além disso, mesmo que essa nova formula de relação 
custe mais tempo-dinheiro dos trabalhadores, teve 
certa aderência por poderem executar funções com 
flexibilidade e auto se organizarem com as tarefas, 
pontos que todos aspiram.
Outro ponto apontado por Casilli (2020, p 18) é 
a dificuldade dos micros trabalhadores em detectar 
63
Júlian Marcelino Araújo
o lugar de subordinação, a relação de vínculo, o 
empregador principal, sendo que o trabalhador é mais 
um usuário perdido nas tarefas demandadas pela 
plataforma a serem cumpridas.
Nesse cenário, observa-se as facilidades do 
mundo tecnológico, de conexão, de instantaneidade, 
de fácil acesso à informação está se tornando 
prejudicial, sendo que eu de vez facilitar e igualar 
as desigualdades sociais, pode estar se estimulando 
ainda mais. Presente a ideologia neoliberal focado na 
retomada do capitalismo feroz que não tem cuidado 
com a valorização do trabalho humano, o avanço da 
tecnologia pode estar sugando ainda mais o trabalho 
humano de vez de fazer o seu trabalho para deixá-lo 
mais livre.
De Masi (1999, p. 62-63), indagou se a Terceira 
Revolução Industrial levaria à sociedade no caminho 
do desemprego ou ao tempo livre. Se libertaria os 
homens dos trabalhos alienados ou os alienaria ainda 
mais com a inatividade forçada? Se seria uma nova 
idade de ouro por trabalharmos menos ou uma massa 
de riquezas sempre maior que acabará por coordenar 
alguns ao desemprego e outros a improdutividade? 
Pode-se presumir, no atual período de alta tecnologia, 
que a humanidade não caminhou para o bem social 
de todos e todas trabalhadores, mas sim em prol de 
mais e mais produção e lucro dos capitalistas.
Aos micros trabalhadores é passado as 
vantagens de ser um trabalhador autônomo em meio 
a essas plataformas: a disponibilidade de trabalharem 
em seus próprios horas - mesmo que ao final possam 
ser mais intensos e de maior duração -, ter seu 
64
Direitos de Juventude
próprio controle de execução de tarefas, comandar 
suas próprias estratégias, não estar diretamente 
subordinado a ninguém.
Ocorre que se o micro trabalhador ao não executar 
uma tarefa deixa de receber sua renda, partindo da 
constatação que em tais plataformas as tarefas/
trabalhos são desvalorizadas monetariamente, por 
vezes os trabalhadores têm que executar mais tarefas 
para manter uma renda razoável, além de que, tem-
se a problemática que ao ganhar apenas por tarefas, 
o tempo normal humano de não oficio - como ir ao 
banheiro, descansar após uma demanda, comer, entre 
outros - não são contáveis a títulos de remunerados, 
diferente do que ocorre um vínculo de trabalho nos 
termos de um trabalho presencial nos tempos fordistas.
Pontua-se também, mais um das problemáticas 
mais questionáveis deste trabalho, é o poder que as 
plataformas dão aos clientes - já que os clientes que 
usam a plataforma fazem diretamente a plataforma 
expandir a título de mídia e de financeiros, sem uma 
regulamentação legal para os prestadores de serviços 
é mais rentável a plataforma digital agradar seus 
clientes - sendo que, muitas vezes o cliente pode não 
pagar aos serviços sem o trabalhador poder reclamar 
desta situação.
Assim, verifica-se que essa tãobuscada 
autonomia dos trabalhadores pregada pelas 
interessadas na desvalorização do trabalho não é de 
fato tão concreta, já que não têm condições iguais 
às outras partes da relação trilateral: trabalhador, 
plataforma e cliente. 
65
Júlian Marcelino Araújo
Um trabalho flexível para um trabalhador 
que tem poder de negociação pessoal em 
igualdade de condições com o seu principal 
empregador. Um trabalhador que pode 
dizer não, que não está sujeito à disciplina 
que se aplica à massa de assalariados. 
(CASILLI, 2020, p. 14-15)
Vendendo essa imagem que de falso controle 
que os micros trabalhadores têm, fazem crer que é uma 
opção boa e inquestionável, em meio ao desemprego 
e trabalhos formais nos moldes da CLT cada vez menos 
valorizados, todavia essa flexibilidade não tem igual 
condição de trabalho dos que realmente estão por 
trás dessa ideologia: as milionárias empresas por trás 
das plataformas. 
A classificação de juventude por faixa etária em 
questão do trabalho no Brasil pode ser definida em 
várias conceções - a utilizada no presente estudo é a 
definição legal - encontrada na legislação brasileira no 
Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos 
jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas 
de juventude e o Sistema Nacional de Juventude - 
SINAJUVE, no qual são considerados jovens as pessoas 
com idade entre quinze e vinte e nove anos de idade. 
(BRASIL, 2013). 
Já na Constituição Federal a idade mínima 
fixada para o ingresso formal do trabalho no qual 
prevê o artigo 7º, XXXIII é de dezesseis anos, salvo na 
condição de aprendiz a partir dos catorze anos de 
idade. (BRASIL, 1998) Delimitando o presente estudo 
aos jovens de 16 aos 29 anos.
Atualmente a juventude trabalhadora está 
em sua maioria na Geração Y ou millennial, que se 
66
Direitos de Juventude
caracterizam por crescer em contato com as tecnologias 
de informação e por serem mais individualistas, por 
poderem captar os acontecimentos em tempo real, 
se conectando com uma variedade de pessoas, 
desenvolvendo uma visão mais sistêmica, aceitando a 
diversidade (COMAZZETTO et al., 2016).
O atual jovem ativo no mercado de trabalho 
faz parte de geração mais propensa a se familiarizar 
com o trabalho remoto, facilidades em operar 
com plataformas, bem como, devido ao mundo da 
informação rápida tende a ter menos dificuldades com 
a troca de informações em outras línguas, podendo 
operar de forma mundial.
Abilio at al. (2020, p. 6) estudaram 298 
trabalhadores nas condições de trabalho dos 
entregadores via plataforma digital em 29 cidades, 
que responderam questionário, assim, mapearam o 
perfil que se corresponde, a 94,6% dos entrevistados 
do sexo masculino; quanto à cor ou raça, 39,9% se 
identificaram como branco, 44% como pardo, 14,8% 
como negro e 1% como indígena; sobre a idade, 
18,1% dos entrevistados tinham até 24 anos, 47% 
encontravam-se entre 25 e 34, 31,2% entre 35 e 44 
anos e 3,7% possuíam mais de 44 anos. 
Rosenfield e Mossi, (2020) mapearam um grupo 
de microtrabalhadores em plataforma em todo o 
mundo, no qual se concluiu que o perfil majoritário é 
do jovem que em geral há um pouco mais de homens 
que possuem nível de escolaridade elevado, e mais 
ainda em países menos desenvolvidos. O grupo etário 
predominante é de jovens adultos de até 40 anos, 
sendo que uma parte dos jovens (21%) trabalha e 
67
Júlian Marcelino Araújo
estuda, também há uma rotatividade é alta, atestando 
que se trata de uma opção em meio à falta de opções.
Observa-se que com a pandemia, e o desemprego 
causado pela quebra de alguns setores econômicos 
que envolvia aglomeração - entretenimento, turismo, 
transporte público, entre outros - houve um aumento 
dos índices de desemprego, consequentemente deu-se 
o crescimento dos trabalhadores autônomos/informais 
pelos aplicativos, principalmente dos trabalhadores 
jovens que veem na entrega por aplicativo uma 
possibilidade de geração de renda.
Os jovens de até 29 anos compuseram 37% 
da amostra (101 entregadores). Analisando 
a evolução de sua remuneração, vê-se um 
movimento bastante semelhante ao do 
total dos trabalhadores entrevistados: antes 
da pandemia, 16% tinham rendimento de 
até um salário mínimo/mês; na pandemia, 
essa faixa mais que dobra de tamanho 
(34%). Antes da pandemia, 45% dos 
entregadores jovens ganhavam até dois 
salários mínimos; durante a pandemia, são 
71%. Na faixa dos que ganham entre três 
e quatro salários mínimos, há uma redução 
de 18% para 6%. (ABÍLIO, 2020, p. 593)
Observa-se que o trabalho por meio de aplicativos 
é um trabalho que vem crescendo na juventude que 
não consegue um vínculo de emprego formal, assim, 
como fonte de renda única expõe a precarização dos 
trabalhos intermediados por plataformas.
68
Direitos de Juventude
3 O enquadramento das relações de emprego 
nas contratações do trabalhador na prestação 
de serviços sob plataformas digitais
O Direito do Trabalho estabelece normas 
e princípios que regulam a relação de emprego, 
protegem o trabalhador de uma série de fatores: da 
precarização, da desvalorização, da sua segurança e 
saúde no trabalho, da prevenção social para passar 
um período da sua vida sem ter de trabalhar, entre 
outros direitos conquistados e consolidados da CLT por 
luta dos próprios obreiros. 
 Nota-se que a expressão relação de trabalho 
é um gênero maior que englobaria: a relação de 
emprego, a relação de trabalho autônomo, a relação 
de trabalho eventual, de trabalho avulso, estágio 
e outras modalidades de pactuação de prestação 
de labor (DELGADO, 2009, pág. 270). A relação com 
melhores condições regulamentadas é a relação de 
emprego, no qual a CLT cuida, bem como, há uma 
Justiça especializada para tal relação.
No ordenamento do código trabalhista - CLT - 
o reconhecimento de uma relação de emprego está 
condicionada a requisitos exigidos há o reconhecimento 
desta relação empregatícia, conforme narra o artigo 
2º e 3º da CLT.
Os artigos legais apresentados definem 
empregado e empregador, sendo que os requisitos 
se separam por: a) deve ser esta relação laboral não 
ser eventual; b) deve haver a subordinação jurídica 
do empregador ao empregado; c) deve saber quem 
é o empregado, não podendo o empregado mudar 
69
Júlian Marcelino Araújo
para outra pessoa; e d) o trabalha deve ser oneroso, 
o empregado deve ganhar rendo por meio de seus 
serviços.
Verifica-se na presente pesquisa que o maior 
problema apontado pela Justiça é a questão da 
subordinação jurídica, pois ora, os trabalhadores 
de plataforma não trabalham de forma eventual, 
geralmente depende da renda, sem alternativa de 
emprego mais rentável fazem da plataforma seu 
trabalho oficial, bem como, geralmente são autônomos 
que trabalham filiados em uma plataforma apenas, 
tendo presente o requisito da personalidade, e por 
fim, há uma remuneração, preenchendo o elemento 
da onerosidade.
A questão de controvérsia apontada é que o 
trabalhador pode escolher fazer aquela tarefa ou não, 
pegar tarefa que melhor lhe supra, no horário que 
escolher, assim a plataforma prevê milhares de tarefas, 
todavia não obriga ninguém a fazer uma específica, 
o trabalhador por livre vontade ou por necessidade 
escolhe uma tarefa, por isso não se consegue preencher 
o requisito da subordinação.
No entanto, deve-se olhar em uma perspectiva 
de massacre do direito do trabalho, que é a proteção 
do trabalhador, não apenas em um preenchimento de 
um requisito formal para a caracterização da relação 
de emprego nos moldes da relação antiga empregado 
e empregador com jornada e funções estabelecidas.
A razão de ser do direito do trabalho nada mais é 
do que proteger o trabalhador, não só em uma fórmula 
engessada de requisitos formais para que tenha essa 
proteção, deve-se buscar em todos os contratos e 
70
Direitos de Juventude
novas fórmulas de trabalho a valorização e a proteção 
do obreiro.
Neste sentido, a nova plataforma não precisa se 
encaixar nos moldesexatos pelos requisitos formais da 
relação de emprego entendida pelos artigos 2° e 3° 
da CLT, basta saber que é um trabalho humano, e a 
razão de ser do direito do trabalho é a proteção do 
ser humano, valorizando seu trabalho, sua renda, sua 
saúde, nos quais as plataformas digitais não estão 
cumprindo seu papel social, muito pelo contrário, 
verifica se que atualmente são as empresas que têm 
mais lucros.
Srnicek (2020, p. 135-136) aponta que as 
plataformas só serão freadas em seu enriquecimento 
feroz sem contraposição ao cuidado com os 
trabalhadores se haver uma lei regulamentadora que 
projeta os trabalhadores e os mesmo se unirem cada 
vez mais discutindo em justiça.
Em contrapartida os trabalhadores que operam 
por meio de aplicativo têm longos tempos de trabalho, 
há uma queda da remuneração e arriscam mais sua 
saúde, além disso que se refere às medidas de proteção, 
os trabalhadores as vêm tomando e as custeando por 
conta própria. (ABÍLIO et al., 2020, p. 16).
Por isso, o ideal é se repensar uma nova 
regulamentação para esta forma de trabalho e outras 
mais surgindo com o avanço da tecnologia, para que 
independentemente da forma ou sistema se esteja 
inserido permanece a proteção aos trabalhadores 
conforme prega os fundamentos da Carta Magna 
Brasileira.
As leis devem acompanhar as mudanças da 
71
Júlian Marcelino Araújo
sociedade, sempre reforçando os fundamentos e 
princípios do Estado firmados na Constituição. Assim, 
também deve-se ocorrer com as novas formas de 
contrato de trabalho que não se encaixam mais na 
relação de emprego típica, ampliando a legislação 
para todas as formas estejam de acordo com a 
valorização do trabalho humano.
CONCLUSÃO 
Ao descrever um breve contexto histórico do 
mundo do trabalho pós surgimento dos trabalhos 
por meio de aplicativo, verifica-se que houve grandes 
transformações na sociedade em geral da forma 
de trabalhar, que foi intensificada por questões de 
isolamento social no período pandemia COVID 19, 
gerando desempregos e trabalhos precários, alterando 
assim, o ordenamento jurídico brasileiro.
Os novos trabalhos na era digital, como os 
ofícios por meio de aplicativos mostra-se presente 
principalmente na atual juventude trabalhadora, no 
qual já é identificada como uma classe que já tem seus 
desafios para conseguir a valorização de sua renda 
mensal, assim, com a opção do trabalho autônomos 
meio aplicativos, os jovens tendem a precarizar mais 
os seus trabalhos e rendas, por isso, a discussão de 
enquadrar em uma relação de trabalho torna-se 
importante a fim de conter tal precarização.
Neste passo, ao analisar a possibilidade 
de enquadramento da relação de emprego nas 
contratação do trabalhador na prestação de serviços 
sob plataformas digitais restou-se conclusiva que não 
72
Direitos de Juventude
há como enquadrar na antiga fórmula e infestada 
fórmula, todavia a valorização do trabalho buscada 
deve ser mantida, assim, entende-se que a fórmula 
ideal é a regularização de novo tipo de contrata, 
mantendo na maneira que couber as vantagens e 
conquistas da CLT para os trabalhadores que operam 
na relação de emprego.
O estudo vem na linha que reafirma o 
Constitucionalismo e Produção do Direito de uma forma 
específica valorizando os novos modelos de trabalho 
e reforçando a valorização do trabalho humano 
pregado pela Constituição Federal Brasileira de 1988, 
trazendo uma reflexão sobre as premissas filosóficas 
que sustentam as escolhas valorativas insculpidas na 
Constituição nas aplicações cotidianas dos princípios 
constitucionais na argumentação jurídica utilizada na 
produção e aplicação do direito.
REFERÊNCIAS
 
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as 
metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho.16. ed. 
São Paulo: Cortez, 2015.
ABÍLIO, Ludmila Costhek. Uberização e juventude periférica: 
Desigualdades, autogerenciamento e novas formas de 
controle do trabalho. Novos estudos CEBRAP [online]. 2020, 
v. 39, n. 3 [Acessado 30 Julho 2021] , pp. 579-597. Disponível 
em: <https://doi.org/10.25091/s01013300202000030008>. 
Epub 15 Jan 2021. ISSN 1980-5403. https://doi.org/10.25091/
s01013300202000030008.
ABÍLIO, Ludmila Costhek et al. Condições de trabalho de 
entregadores via plataforma digital durante a Covid-19. Revista 
Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, v. 3, 2020. 
Disponível em: http://www.revistatdh.org/index.php/Revista-
TDH/article/view/74. 
73
Júlian Marcelino Araújo
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República 
Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. 
Disponível: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 23 jun. 2021.
BRASIL. Decreto-lei n.º 5.452, de 1º de maio de 1943. 
Consolidação das Leis Trabalhistas. Disponível em: http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm. Acesso em: 
30 jun. 2021.
BRASIL. Lei nº 12.852, de 05 de agosto de 2013. Institui o 
Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, 
os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude 
e o Sistema Nacional de Juventude - SINAJUVE. [S. l.], 2013. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2013/lei/l12852.htm. Acesso em: 19 abr. 2021.
CASILLI, A. A. Da classe virtual aos trabalhadores do clique: a 
transformação do trabalho em serviço na era das plataformas 
digitais. MATRIZ, [S. l.], v. 14, n. 1, p. 13-21, 2020. DOI: 10.11606/
issn.1982-8160.v14i1p13-21. Disponível em: https://www.revistas.
usp.br/matrizes/article/view/169579. Acesso em: 23 jul. 2021.
COMAZZETTO, Letícia Reghelin et al. A geração Y no 
mercado de trabalho: um estudo comparativo entre 
gerações. Psicologia: ciência e profissão, v. 36, n. 1, p. 145-
157, 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/
sMTpRhKxjvNjr7wQV9wFksH/?lang=pt. Acesso em 28 jun. 21.
CUESTA, Hernar Álvarez. El futuro del trabajo vs. el trabajo del 
futuro: Implicaciones laborales de la industria 4.0. Coruña: Colex, 
2017
DE MASI, Luca. Desenvolvimento sem Trabalho. São Paulo: 
Esfera, 1999.
DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 8 
edição. São Paulo: LTR, 2009.
NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho: 
história e teoria geral do direito do trabalho: relações individuais 
e coletivas do trabalho – 26. ed. – São Paulo: Saraiva, 2011.
PRAUN, Luci. A Espiral da Destruição: legado neoliberal, 
74
Direitos de Juventude
pandemia e precarização do trabalho. Trabalho, Educação e 
Saúde, v. 18, n. 3, 2020, e00297129. DOI: 10.1590/1981-7746-
sol00297. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/tes/a/
xLpYsdjK4xWDWHkmkSVLFyf/abstract/?lang=pt#. Acesso em 30 
jul. 2021.
ROSENFIELD, Dosenfield Cinara e MOSSIi, Thays Wolfarth. 
Trabalho decente no capitalismo contemporâneo: dignidade e 
reconhecimento no microtrabalho por plataformas. Sociedade e 
Estado [online]. 2020, v. 35, n. 03 [Acessado 19 Julho 2021] , pp. 
741-764. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/s0102-6992-
202035030004>. Epub 27 nov 2020. ISSN 1980-5462. https://
doi.org/10.1590/s0102-6992-202035030004
SRNICEK, Nick. Two Myths About the Future of the Economy. 
In: SKIDELSKY, Robert; CRAIG, Nan. Work in the Future: The 
automation revolution, London: Palgrave macmillan, 2020. 
75
Júlian Marcelino Araújo
CAPÍTULO 04 - Aprendizagem e estágio 
esportivo de adolescentes e jovens
Andréa Silva Albas Cassionato1
Andrei da Rosa Sauzem Machado2
 
1 INTRODUÇÃO
A busca de adolescentes e jovens por uma 
profissionalização abrange as profissões relacionadas 
ao desporto de rendimento na modalidade profissional, 
um sonho para milhares deles. Uma maneira de 
alcançar esse objetivo é através da aprendizagem 
e do estágio esportivo. Às entidades esportivas 
interessam esses contratos para que tenham acesso 
a adolescentes já a partir dos 14 anos de idade, bem 
1 Doutoranda em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC na área de 
concentração “Direitos sociais e políticas públicas”, na linha de pesquisa“Diversidade e Políticas 
Públicas” e integrante do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social e do Grupo 
de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens do PPGD/UNISC. Atua 
como Registradora Substituta do Ofício Extrajudicial de Registro de Imóveis e Registro Civil de 
Pessoas Naturais de Sobradinho/RS.
2 Mestrando em Direito, na linha de Políticas Públicas de Inclusão Social do Programa de Pós-
Graduação, Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC. 
Bolsista PROSUC CAPES Modalidade II. Pós-Graduado em Direito Processual Previdenciário 
(Administrativo e Judicial) pelo Instituto de Estudos Previdenciários IEPREV. Integrante do 
Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social e do Grupo de Estudos em Direitos 
Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens (GRUPECA) do PPGD/UNISC. Sócio do Escritório 
Rosa e Sauzem Advogados Associados. Sócio na empresa Éthica Gestão e Consultoria.
 
76
Direitos de Juventude
como para se esquivar de obrigações trabalhistas no 
que diz respeito aos atletas com idade a partir dos 16 
anos.
Ocorre que tanto o Estatuto da Criança e do 
Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, 
quanto a Lei de Aprendizagem – Lei nº 10.097, de 19 de 
dezembro de 2000 e a Lei do Estágio – Lei nº 11.788, 
de 25 de setembro de 2008, estabelecem direitos que 
deixam de ser reconhecidos pela Lei Pelé – Lei nº 9.615, 
de 24 de março de 1998.
Diante disso, o presente capítulo teve como tema 
o estudo dos institutos da aprendizagem e do estágio 
no âmbito esportivo. O objetivo geral foi estudar 
a aprendizagem e o estágio tanto nas legislações 
específicas, quanto na Lei Pelé, responsável por instituir 
normas gerais sobre o desporto. Para tanto, teve-se 
como objetivos específicos estudar as diferenças e 
semelhanças desses institutos, bem como analisar a 
aprendizagem e o estágio no âmbito esportivo e, mais 
especificamente, na Lei Pelé.
O problema de pesquisa que se coloca é: o 
aparente conflito entre normas de mesma hierarquia 
implica no desrespeito à direitos fundamentais já 
conquistados?
A hipótese é de que sim, uma vez que a 
interpretação equivocada dos dispositivos legais 
implicam no reconhecimento de que o atleta-aprendiz 
não possui direitos trabalhistas e previdenciários já 
previstos no artigo 65 do Estatuto da Criança e do 
Adolescente, bem como que o atleta-estagiário está 
sujeito a um contrato firmado por período superior há 
02 anos.
77
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
Para desenvolvimento do tema foi utilizado o 
método de abordagem dedutivo, e de procedimento 
o monográfico, com técnicas de pesquisa bibliográfica 
e documental.
2 Diferenças e semelhanças entre 
aprendizagem e estágio
Para efetivação do direito fundamental à 
profissionalização de adolescentes e jovens há a 
aprendizagem e o estágio. É através desses institutos 
que pessoas com pouca ou sem qualquer experiência 
laborativa profissionalizam-se através da observação 
e/ou da prática laborativa. 
A profissionalização é um direito 
fundamental social ao trabalho, que 
atrelado à educação e às condições dignas 
de trabalho, proporciona a aquisição 
de conhecimentos e habilidades para o 
desenvolvimento de uma atividade laboral 
lícita e permite o desenvolvimento de 
capacidades – em sentido técnico, teórico 
e social – com o objetivo de formar o 
indivíduo para o exercício qualificado de 
uma profissão. (SANTANA, 2018, p. 63)
As políticas públicas voltadas a profissionalização 
do adolescente e do jovem estão fundamentadas no 
direito à educação e à profissionalização previstas 
tanto na Constituição Federal quanto no Estatuto da 
Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 de julho 
de 1990, e no Estatuto da Juventude – Lei nº 12.852, 
de 05 de agosto de 2013.
O direito à profissionalização é um dos direitos 
fundamentais de crianças, adolescentes e jovens 
78
Direitos de Juventude
conforme previsto no artigo 227 da Constituição 
Federal, que prevê:
Art. 227. É dever da família, da sociedade 
e do Estado assegurar à criança, ao 
adolescente e ao jovem, com absoluta 
prioridade, o direito à vida, à saúde, à 
alimentação, à educação, ao lazer, à 
profissionalização, à cultura, à dignidade, 
ao respeito, à liberdade e à convivência 
familiar e comunitária, além de colocá-
los a salvo de toda forma de negligência, 
discriminação, exploração, violência, 
crueldade e opressão.
Do mesmo modo, o Estatuto da Criança e do 
Adolescente prevê o direito à profissionalização como 
um direito fundamental previsto no artigo 4º, caput, 
que basicamente reproduz o artigo 227 da Constituição 
Federal, e no Capítulo V, juntamente com o direito à 
proteção no trabalho, que abrange os artigos 60 a 69, 
sendo este o mais específico.
Art. 69. O adolescente tem direito à 
profissionalização e à proteção no trabalho, 
observados os seguintes aspectos, entre 
outros:
I - respeito à condição peculiar de pessoa 
em desenvolvimento;
II - capacitação profissional adequada ao 
mercado de trabalho.
O Estatuto da Juventude, por sua vez, prevê o 
direito à profissionalização na Seção III do Capítulo II 
responsável por estabelecer os direitos os jovens. Dos 
artigos 14 a 16 o Estatuto da Juventude regulamenta 
o direito do jovem à profissionalização, ao trabalho e 
à renda.
79
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
Art. 14. O jovem tem direito à 
profissionalização, ao trabalho e à renda, 
exercido em condições de liberdade, 
equidade e segurança, adequadamente 
remunerado e com proteção social.
Art. 15. A ação do poder público na efetivação 
do direito do jovem à profissionalização, ao 
trabalho e à renda contempla a adoção 
das seguintes medidas:
I - promoção de formas coletivas de 
organização para o trabalho, de redes de 
economia solidária e da livre associação;
II - oferta de condições especiais de jornada 
de trabalho por meio de:
a) compatibilização entre os horários de 
trabalho e de estudo;
b) oferta dos níveis, formas e modalidades 
de ensino em horários que permitam a 
compatibilização da frequência escolar 
com o trabalho regular;
III - criação de linha de crédito especial 
destinada aos jovens empreendedores;
IV - atuação estatal preventiva e repressiva 
quanto à exploração e precarização do 
trabalho juvenil;
V - adoção de políticas públicas voltadas 
para a promoção do estágio, aprendizagem 
e trabalho para a juventude;
VI - apoio ao jovem trabalhador rural na 
organização da produção da agricultura 
familiar e dos empreendimentos familiares 
rurais, por meio das seguintes ações:
a) estímulo à produção e à diversificação 
de produtos;
b) fomento à produção sustentável baseada 
na agroecologia, nas agroindústrias 
familiares, na integração entre lavoura, 
pecuária e floresta e no extrativismo 
sustentável;
c) investimento em pesquisa de tecnologias 
apropriadas à agricultura familiar e aos 
empreendimentos familiares rurais;
d) estímulo à comercialização direta da 
produção da agricultura familiar, aos 
empreendimentos familiares rurais e à 
formação de cooperativas;
e) garantia de projetos de infraestrutura 
80
Direitos de Juventude
básica de acesso e escoamento de 
produção, priorizando a melhoria das 
estradas e do transporte;
f) promoção de programas que favoreçam 
o acesso ao crédito, à terra e à assistência 
técnica rural;
VII - apoio ao jovem trabalhador com 
deficiência, por meio das seguintes ações:
a) estímulo à formação e à qualificação 
profissional em ambiente inclusivo;
b) oferta de condições especiais de jornada 
de trabalho;
c) estímulo à inserção no mercado de 
trabalho por meio da condição de aprendiz.
Art. 16. O direito à profissionalização e à 
proteção no trabalho dos adolescentes 
com idade entre 15 (quinze) e 18 (dezoito) 
anos de idade será regido pelo disposto 
na  Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 - 
Estatuto da Criança e do Adolescente, e em 
leis específicas, não se aplicando o previsto 
nesta Seção.
Assim, a busca pelaprofissionalização encontra-
se diretamente associada ao direito à educação, 
bem como a atividades práticas da profissão que se 
pretende exercer. Diante disso, foram criadas políticas 
públicas voltadas à profissionalização e a inserção 
de adolescentes e jovens no mercado de trabalho, 
sendo os institutos da aprendizagem e do estágio as 
principais delas.
Para tanto é permitido o trabalho do adolescente 
a partir dos 14 anos de idade na condição de aprendiz, 
nos termos do artigo 7º, inciso XXXIII, da Constituição 
Federal.
Art. 7º São direitos dos trabalhadores 
urbanos e rurais, além de outros que visem 
à melhoria de sua condição social: [...]
XXXIII - proibição de trabalho noturno, 
perigoso ou insalubre a menores de 
81
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
dezoito e de qualquer trabalho a menores 
de dezesseis anos, salvo na condição de 
aprendiz, a partir de quatorze anos;
A regulamentação da aprendizagem se dá pela 
Lei nº 10.097, de 19 de dezembro de 2000, responsável 
por alterar os dispositivos legais correspondentes 
ao tema na Consolidação das Leis do Trabalho 
– CLT, por defini-la como um trabalho especial 
destinado à formação técnico-profissional metódica 
do adolescente. Trata-se de um compromisso do 
empregador de proporcionar essa formação de 
maneira adequada ao desenvolvimento físico, moral 
e psicológico do aprendiz através de um contrato 
firmado por escrito e com prazo determinado. Por outro 
lado, no mesmo contrato o aprendiz compromete-se a 
executar as tarefas necessárias à sua formação com 
zelo e diligência (art. 428, caput, CLT).
O contrato de aprendizagem estará presente 
se existente na relação firmada entre empregador e 
aprendiz os requisitos previstos em lei.
Quanto ao aprendiz é necessário que possua 
a idade entre 14 e 18 anos, e que esteja inscrito em 
um programa de aprendizagem desenvolvido sob 
a orientação de entidade qualificada em formação 
técnico-profissional metódica (art. 428, caput e 
§ 1º, CLT), que consiste em  “atividades teóricas e 
práticas, metodicamente organizadas em tarefas de 
complexidade progressiva desenvolvidas no ambiente 
de trabalho” (art. 428, § 4º, CLT).
Ainda no que diz respeito ao adolescente 
aprendiz, é necessário que esteja matriculado e 
frequentando a escola, se ainda cursar o ensino 
82
Direitos de Juventude
fundamental.
É, ainda, imprescindível o zelo pela condição 
peculiar do adolescente de ser uma pessoa ainda em 
desenvolvimento, motivo pelo qual a atividade por ele 
desempenhada deve ser compatível com seu estágio 
de desenvolvimento.
Outra característica importante da 
aprendizagem é a necessidade de o empregador 
proceder ao registro do contrato na Carteira de Trabalho 
e Previdência Social – CTPS, do adolescente aprendiz 
(artigo 428, § 1º, CLT), além de ser lhe garantido um 
salário-mínimo hora, salvo condição mais favorável 
(artigo 428, § 2º, CLT).
Quanto a jornada de trabalho na aprendizagem, 
esta deverá ser de, no máximo, 06 horas diárias, salvo se 
o aprendiz já tiver completado o ensino fundamental, 
situação na qual a jornada poderá ser de até 08 horas 
diárias computadas juntamente com a aprendizagem 
teórica. São vedadas a prorrogação e a compensação 
de jornada (art. 432, caput e § 1º, CLT).
O estágio, por sua vez, é um ato educativo 
regulamentado pela Lei nº 11.788, de 25 de setembro 
de 2008, conhecida como Lei de Estágio, legislação 
essa responsável por definir o instituto.
Art. 1º Estágio é ato educativo escolar 
supervisionado, desenvolvido no ambiente 
de trabalho, que visa à preparação para 
o trabalho produtivo de educandos que 
estejam frequentando o ensino regular 
em instituições de educação superior, de 
educação profissional, de ensino médio, 
da educação especial e dos anos finais 
do ensino fundamental, na modalidade 
profissional da educação de jovens e 
adultos.
83
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
Assim, o estágio faz parte do projeto pedagógico 
de um curso e poderá ser ou não de execução 
obrigatória. Tal como ocorre na aprendizagem, para 
que o contrato de estágio seja legitimo é necessária a 
observância de alguns requisitos básicos. 
O primeiro deles diz respeito ao estagiário, que 
não tem limites de idade estipulada na lei. Contudo, 
deve estar matriculado e frequentando regulamente 
curso de educação superior ou profissional, de ensino 
médio, da educação especial e nos anos finais do ensino 
fundamental na modalidade profissional da educação 
de jovens e adultos, desde que assim atestados pela 
instituição de ensino (art. 3º, I, Lei de Estágio).
Em uma relação de estágio, aquele que recebe 
o estudante não é denominado empregador, e sim 
parte concedente, uma vez que não haverá qualquer 
vínculo empregatício entre as partes. Para isso, não 
basta firmar um contrato por escrito entre estagiário 
e parte concedente. É necessário que haja um termo 
de compromisso firmado entre o educando, a parte 
concedente do estágio e a instituição de ensino (art. 
3º, II, Lei de Estágio).
Além disso, as atividades desempenhadas pelo 
estagiário devem ser compatíveis com as previstas no 
termo de compromisso (art. 3º, III, Lei de Estágio).
A jornada de atividade em estágio não poderá 
ultrapassar o limite de 04 horas diárias se o estagiário 
estiver vinculado à educação especial e dos anos finais 
do ensino fundamental, na modalidade profissional 
de educação de jovens e adultos. Se o estagiário for 
estudante de ensino superior, da educação profissional 
84
Direitos de Juventude
de nível médio e do ensino médio regular, a jornada 
possui limite de 06 horas diárias (art. 10, I e II, da Lei de 
Estágio).
Uma característica importante do contrato de 
estágio é de que o estudante não recebe salário, e sim 
uma bolsa ou outra forma de contraprestação que 
venha a ser acordada. No entanto, essa contraprestação 
é obrigatória, bem como a do auxílio-transporte, na 
hipótese de estágio não obrigatório (art. 12).
É importante destacar que o desrespeito a 
qualquer desses requisitos implicará no reconhecimento 
de vínculo empregatício entre a parte concedente e o 
estagiário (art. 3º, § 2º, da Lei do Estágio).
O estagiário possui o direito à férias proporcional 
à duração do contrato de estágio (art. 13 da Lei de 
Estágio), e a possibilidade facultativa de contribuir ao 
Regime Geral de Previdência Social (artigo 12, § 2º, Lei 
do Estágio).
As características comuns do contrato de 
aprendizagem e do contrato de estágio dizem respeito 
ao limite de 02 anos para duração do contrato (artigo 
428, § 3º, CLT e art. 11 da Lei do Estágio), e quanto a 
jornada de trabalho/estágio que não pode prejudicar 
a frequência escolar, quer seja o ensino fundamental, 
quer seja o curso ao qual o estagiário está vinculado.
Apesar de serem institutos próximos, ambos 
com a intenção de promover a profissionalização de 
adolescentes e jovens, bem como facilitar seu ingresso 
no mercado de trabalho, possuem características 
importantes que os distinguem.
Diante disso, uma vez estabelecidas as 
diferenças e semelhanças entre ambos os institutos, 
85
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
faz-se necessário observá-los no âmbito da atividade 
esportiva.
3 A aprendizagem e o estágio no âmbito 
esportivo: conflito normativo
As atividades esportivas no Brasil são 
regulamentadas pela Lei nº 9.615, de 24 de março de 
1998, conhecida como Lei Pelé, legislação responsável 
por definir as modalidades de desporto e por 
regulamentar a prática esportiva profissional.
As modalidades de desporto encontram-se 
previstas no art. 3º, e são descritas como o desporto 
educacional, de participação, de rendimento, 
subdividido em profissional e não profissional, e de 
formação.
Tendo em vista o objetivo do presente trabalho, 
de tratar da aprendizagem e do estágio no âmbito 
esportivo, destaca-se o desporto de rendimento 
profissional. Nessa modalidade, o atleta treina com 
a intenção de obter resultados positivosmediante 
a conquista de vitórias e boas classificações em 
competições diversas.
No entanto, para que o atleta seja considerado 
profissional a Lei Pelé exige a existência de um contrato 
formal firmado entre atleta e entidade esportiva (art. 
3º, § 1º, inciso I, da Lei Pelé). Do mesmo modo, para 
que o contrato tenha validade a mesma lei estabelece 
limites mínimos de idade ao atleta profissional em 
consonância com a Constituição Federal (art. 7º, inciso 
XXXIII, da CF). 
O limite geral da lei é a idade de 16 anos. Ainda 
86
Direitos de Juventude
que o art. 27-C, inciso IV, reconheça a nulidade de 
contratos firmados entre atleta que contar com idade 
inferior a 18 anos de idade, ou seu representante legal, 
o art. 28-A, caput, reconhece que o atleta a partir dos 
16 anos de idade pode ser considerado profissional 
autônomo e o art. 29, § 4º prevê a possibilidade de 
assinatura em contrato especial com atleta da mesma 
idade, além da possibilidade de se firmar contrato de 
aprendizagem com adolescentes a partir dos 14 anos 
de idade.
 Art. 29.  A entidade de prática desportiva 
formadora do atleta terá o direito de 
assinar com ele, a partir de 16 (dezesseis) 
anos de idade, o primeiro contrato especial 
de trabalho desportivo, cujo prazo não 
poderá ser superior a 5 (cinco) anos.  [...]
§ 4o O atleta não profissional em formação, 
maior de quatorze e menor de vinte anos de 
idade, poderá receber auxílio financeiro da 
entidade de prática desportiva formadora, 
sob a forma de bolsa de aprendizagem 
livremente pactuada mediante contrato 
formal, sem que seja gerado vínculo 
empregatício entre as partes.
É, ainda, importante destacar que o art. 44, inciso 
III, da mesma lei proíbe a prática de profissionalismo, 
em qualquer modalidade, quando atleta for pessoa 
com até 16 anos de idade.
Não obstante a isso, nota-se que durante todo 
o texto legal não há menção a figura do estágio como 
meio de profissionalização, mas prevê expressamente 
a possibilidade de se firmar contrato de aprendizagem 
quando o atleta contar com idade entre 14 e 20 
anos mediante o pagamento opcional de uma bolsa 
de aprendizagem e sem a criação de um vínculo 
87
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
empregatício. Há notadamente uma confusão entre 
os institutos da aprendizagem e do estágio.
No que diz respeito a aprendizagem, a Lei Pelé 
entra em conflito direto com o Estatuto da Criança e 
do Adolescente e com a Lei de Aprendizagem.
O artigo 65 do Estatuto assegura ao adolescente 
aprendiz todos os direitos trabalhistas e previdenciários. 
Além disso, o artigo 428 da CLT, alterado pela Lei de 
Aprendizagem, também prevê direitos trabalhistas 
e previdenciários básicos ao aprendiz, tais como o 
registro do contrato na CTPS e a garantia de um 
salário-mínimo hora.
O adolescente aprendiz tem os mesmos 
direitos trabalhistas e previdenciários de 
todos os demais empregados, ou seja: 
remuneração mínima prevista em lei, férias, 
décimo terceiro salário, FGTS, aviso prévio, 
aposentadoria. Além disso, deverá ter sua 
Carteira de Trabalho e Previdência Social 
anotada quanto a seu contrato de trabalho, 
num prazo máximo de 48 horas. Também 
seu direito de acesso à escola é garantido. 
Por esse motivo, seu horário de trabalho é 
especial, de forma a não prejudicar seus 
estudos. (CRUZ NETO e MOREIRA, 1998, p. 
440)
Para solução desse conflito entre normas da 
mesma hierarquia deve ser aplicado o princípio da 
progressividade ou do não retrocesso dos direitos 
humanos, segundo o qual em um Estado Democrático 
jamais os direitos humanos fundamentais já 
conquistados e reconhecidos poderão ser restringidos.
A importância do princípio da proibição 
de retrocesso para a defesa dos direitos 
fundamentais, nessa linha, reside no fato 
88
Direitos de Juventude
de que não poderá o legislador brasileiro 
restringir ou suprimir, mesmo que de 
forma indireta, direito fundamental 
consagrado explícita ou implicitamente 
no ordenamento jurídico, ainda que 
com regulamentações relevantes 
postas em patamar infraconstitucional 
ou com implementações de políticas 
compensatórias e alternativas ou, ainda, se 
está presente no país grave crise derivada 
exclusivamente de ordem econômica. 
(MACHADO, 2018, p. 363)
Diante disso, qualquer interpretação que 
deixe de reconhecer os direitos trabalhistas e 
previdenciários já conquistados pelo aprendiz afronta 
diretamente o princípio da proibição de retrocesso e, 
consequentemente, todos os princípios que regem um 
Estado Democrático de Direito.
No entanto, o Tribunal Superior do Trabalho 
já deixou de reconhecer os direitos conquistados 
pelo atleta-aprendiz, utilizando o princípio da 
especialidade legislativa em detrimento do princípio 
da proibição de retrocesso. Trata-se de uma ação civil 
pública na qual o Ministério Público do Trabalho da 
3ª Região pleiteou o pagamento de bolsa auxílio aos 
atletas em formação com idade a partir de 14 anos de 
idade, e a formalização da aprendizagem mediante 
contrato formal pelo prazo limite de 02 anos conforme 
estabelecido pelo artigo 428, § 3º, da CLT.
RECURSO DE REVISTA DO AMÉRICA 
FUTEBOL CLUBE. ATLETA EM FORMAÇÃO. 
BOLSA AUXÍLIO. CONTRATO ESPECIAL DE 
APRENDIZAGEM. ART. 29, § 4º, DA LEI Nº 
9.615/98. A formação psíquica e corporal 
do adolescente mereceu atenção especial 
na Constituição de 1988, que no art. 227 
89
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
adotou a teoria da proteção integral. Com 
isso, impôs critérios rígidos para a utilização 
da mão-de-obra nessa fase com o fim 
de garantir formação intelectual e social 
do jovem em formação. O art. 7º, XXXIII, 
da Constituição Federal e o art.29, § 4º, 
da Lei 9.615/1998 permitem o trabalho 
do maior de quatorze anos, desde que 
na condição de aprendiz. O acesso do 
menor ao esporte é fundamental para sua 
formação psíquica e social. A sua prática 
traz benefícios nos âmbitos da saúde, do 
lazer e social, uma vez que impõe regra 
de convivência e frequentemente pode 
abrir espaço para profissionalização com o 
amadurecimento do adolescente. Por outro 
lado, a ordem jurídica impõe, como regra, 
a remuneração de todas as atividades. 
Conjugando-se o preceito da exigência 
de contraprestação com o princípio da 
proteção integral que rege as relações 
com adolescentes, conclui-se que o § 4º 
do art. 29 da Lei 9.615/98, ao afirmar 
que “poderá receber auxílio financeiro da 
entidade de prática desportiva formadora, 
sob a forma de bolsa de aprendizagem 
livremente pactuada mediante contrato 
formal” apenas possibilitou a remuneração 
do atleta não profissional em formação 
por bolsa de aprendizagem estabelecida 
por contrato formal, sem que gere vínculo 
empregatício. Ao dizer que “poderá”, não 
permitiu o contrato sem contraprestação, 
mas admitiu que seja por meio de bolsa. 
Quanto à alegada violação do art. 29, § 
4º, da Lei 9.615/98 em razão da tabela 
de valores fixada pelo Regional de acordo 
com a idade, também não tem razão o 
recorrente. O dispositivo não permite a 
contratação de atleta em formação sem 
contraprestação. Porém, ele também não 
fixa critérios de pagamento. Portanto, 
inviável o reconhecimento de violação 
literal de dispositivo de lei federal nos 
moldes exigidos pelo art. 896, “c”, da CLT. 
Recurso de revista não conhecido. (TST – 
ARR: 166400-29.2009.5.03.0018, Data 
de Julgamento: 28/04/2015, Data de 
90
Direitos de Juventude
Publicação: DEJT, 21/08/2015).
No caso transcrito o Tribunal Superior do Trabalho 
reconheceu tanto a possibilidade de o contrato de 
aprendizagem ter prazo superior à 02 anos, quanto 
a legalidade de uma tabela criada pelo Tribunal 
Regional do Trabalho de origem para estabelecer os 
valores das bolsas de aprendizagem a serem pagas 
aos adolescentes.
Tomando essa baliza, fixo o valor da bolsa 
auxílio em:
a) mínimo de R$ 250,00 mensais para os 
atletas maiores de 14 anos;
b) mínimo de R$ 300,00 mensais para os 
atletas maiores de 15 anos;
c) mínimo de R$ 350,00 mensaispara os 
atletas maiores de 16 anos;
d) mínimo de R$ 800,00 mensais para os 
atletas maiores de 17 anos.
Nestes termos, dou provimento parcial ao 
recurso.” (fls. 1.259- 1.262)
Ou seja, garantias fundamentais foram 
ignoradas e foram restringidos direitos já conquistados, 
o que demonstra a necessidade de se aprimorar a 
legislação no que diz respeito à aprendizagem a ao 
estágio no desporto, até mesmo porque esta última 
sequer encontra-se prevista na Lei Pelé, apesar de sua 
descrição constar no texto legal como no que se refere 
ao contrato de aprendizagem.
CONCLUSÃO
A pesquisa elaborada confirma a hipótese de 
que o conflito de normas de mesma hierarquia, quais 
91
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
sejam, entre o Estatuto da Criança e do Adolescente, 
a Lei de Aprendizagem, a Lei de Estágio e a Lei 
Pelé, implica no desrespeito à direitos trabalhistas 
e previdenciários já conquistados no que se refere à 
aprendizagem.
Para se chegar a essa conclusão foram estudados 
os institutos da aprendizagem e do estágio como 
políticas públicas voltadas para a profissionalização 
e inserção no mercado de trabalho de adolescentes 
e jovens a partir dos 14 anos de idade, além de se 
estabelecer suas diferenças e semelhanças.
As diferenças consistem basicamente no fato de 
que o contrato de aprendizagem implica no registro 
na CTPS do aprendiz, ao pagamento de um salário-
mínimo hora, além do reconhecimento expresso de 
direitos trabalhistas e previdenciários no artigo 65 do 
Estatuto da Criança e do Adolescente. Já no contrato 
de estágio não há registro em CTPS e não há mínimo 
a ser pago. As obrigações restringem-se ao auxílio 
transporte em caso de estágio não obrigatório e ao 
pagamento de um seguro de vida.
Outra diferença é de que na aprendizagem a 
relação se dá entre empregador e aprendiz, enquanto 
no estágio a relação ocorrerá entre estagiário, parte 
concedente e instituição de ensino.
As semelhanças, por sua vez, dizem respeito 
ao prazo limite de 02 anos do contrato, ao respeito 
aos horários escolares, bem como a uma jornada de 
trabalho ou de atividade de estágio reduzida. Dessa 
forma os adolescentes e jovens não têm sua formação 
teórica ou seu ensino regular prejudicados.
Posteriormente, foram analisadas a 
92
Direitos de Juventude
aprendizagem e o estágio na Lei Pelé, quando se 
constatou que referida lei prevê expressamente a 
possibilidade de se firmar contrato de aprendizagem 
com atleta a partir dos 14 anos de idade apesar de 
descrever as características típicas do contrato de 
estágio. Tanto que na lei não há regulamentação 
quanto ao pagamento, ao registro em CTPS ou a 
qualquer outro direito trabalhista. A lei também não 
faz menção expressa quanto a possibilidade de firmar 
contrato de estágio, apesar de ser possível legalmente, 
desde que atendidos os requisitos legais, nem ao limite 
de duração do contrato de aprendizagem.
Esse conflito de normas deve ser solucionado 
através da aplicação do princípio da proibição de 
retrocesso, segundo o qual não se pode retroceder à 
direitos já reconhecidos. No entanto, o Tribunal Superior 
do Trabalho demonstrou que existe a possibilidade 
de interpretação equivocada da legislação através 
do julgamento do ARR 166400-29.2009.5.03.0018, 
na qual deixou de reconhecer os direitos trabalhistas 
e previdenciários já garantidos legalmente aos 
aprendizes, bem como o limite de duração de contrato 
tanto aos aprendizes quanto aos estagiários.
Diante disso, é urgente a necessidade de 
aprimoramento da legislação esportiva no que diz 
respeito à aprendizagem e ao estágio para que 
o direito à profissionalização seja garantido sem 
causar prejuízos aos adolescentes e aos jovens que 
desejam apenas exercer seu direito fundamental à 
profissionalização.
93
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República 
Federativa do Brasil. Diário Oficial [da] República Federativa 
do Brasil, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso 
em: 29 jun. 2021.
BRASIL. Lei 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o 
Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. 
Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 13 
jul. 1990, b. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
Leis/L8069.htm. Acesso em: 29 jun. 2021.
BRASIL. Lei 9.6015, de 24 de março de 1998. Institui normas 
gerais sobre desporto e dá outras providências. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9615consol.htm. 
Acesso em: 29 jun. 2021.
BRASIL. Lei 10.097, de 19 de dezembro de 2000. Altera 
dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, 
aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l10097.
htm. Acesso em: 10 set. 2021.
BRASIL. Lei 11.788, de 25 de setembro de 2008. Dispõe sobre 
o estágio de estudantes; altera a redação do art. 428 da 
Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo 
Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, e a Lei no 9.394, 
de 20 de dezembro de 1996; revoga as Leis nos 6.494, de 7 de 
dezembro de 1977, e 8.859, de 23 de março de 1994, o parágrafo 
único do art. 82 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, 
e o art. 6o da Medida Provisória no 2.164-41, de 24 de agosto 
de 2001; e dá outras providências. Disponível em: http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11788.htm. 
Acesso em: 10 set. 2021.
BRASIL. Lei 12.852, de 05 de agosto de 2013. Institui o Estatuto 
da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios 
e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema 
Nacional de Juventude - SINAJUVE. Disponível em: http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12852.htm. 
Acesso em: 10 set. 2021.
94
Direitos de Juventude
CRUZ NETO, Otávio; MOREIRA, Marcelo Rasga. Trabalho 
infanto-juvenil: motivações, aspectos legais e repercussão 
social. Cadernos de Saúde Pública [online]. 1998, v. 14, n. 2, 
pp. 437-441. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-
311X1998000200021. Acesso em: 21 set. 2021.
LÉPORE, Paulo Eduardo. Profissionalização e acesso ao trabalho 
para os jovens: elementos sociojurídicos. Tese (Doutorado 
em Serviço Social), Universidade Estadual Paulista. Franca, 
2014. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/
handle/11449/123354/000825859.pdf?sequence=1isAllowed=y. 
Acesso em: 10 set. 2021.
MACHADO, Vitor Gonçalves. O incipiente princípio da 
proibição de retrocesso e sua função protetiva dos direitos 
fundamentais. Revista da Faculdade de Direito da UERJ, 
n. 34, dez. 2018, pp. 345-366. Disponível em: https://
www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/rfduerj/article/
95
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
viewFile/32074/27688#::text=Concretamente%2C%
20o%20princ%C3%ADpio%20da%20
%E2%80%9Cproibi%C3%A7%C3%A3o,las%20sem%20
alternativas%20ou%20compensa%C3%A7%C3%B5es. Acesso 
em : 20 set 2020
SANTANA, João Victor Pinto. O direito à profissionalização 
do jovem aprendiz à luz do garantismo jurídico. Dissertação 
(Mestrado em Direito), Universidade de Sergipe. São Cristóvão/
SE, 2018. Disponível em: https://ri.ufs.br/handle/riufs/10885. 
Acesso em: 10 set. 2021.
TST.ARR-166400-29.2009.5.03.0018, Redator: Augusto Cesar 
Leite de Carvalho. RECURSO DE REVISTA DO AMÉRICA FUTEBOL 
CLUBE. ATLETA EM FORMAÇÃO. BOLSA AUXÍLIO. CONTRATO 
ESPECIAL DE APRENDIZAGEM. ART. 29, § 4º, DA LEI Nº 9.615/98. 
Órgão Judicante: 6ª Turma. Data de Julgamento: 28/04/2015. 
Data de Publicação: DEJT, 21/08/2015. Disponível em: https://
jurisprudencia.tst.jus.br/#7cb6ebbcff1dafec91a17a5aebcb03d5. 
Acesso em: 08 ago. 2021. 
96
CAPÍTULO 05 - Os conselhos de 
juventudes como ferramenta de 
participação social
Adrieli Albertti1
Ismael Francisco de Souza2
Graziela Cristina Luiz Damacena Gabrie3l
1 INTRODUÇÃO
Os conselhos de juventudes são ferramentasde 
grande relevância para a participação social plena 
dos jovens nos processos de criação e fiscalização de 
1 Mestranda em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC. Membro do 
Grupo de Pesquisa: Direito da Criança e do Adolescente e Políticas Públicas e do Núcleo de 
pesquisa em Política, Estado e Direito (NUPED). 
2 Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul - RS (UNISC); Mestre em Serviço 
Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, graduado em Direito pela Universidade 
do Extremo Sul Catarinense. Professor e pesquisador Permanente do Programa de Pós-
Graduação - Mestrado em Direito e da graduação em Direito. Coordenador do Grupo de 
Pesquisa: Direito da Criança e do Adolescente e Políticas Públicas e do Núcleo de pesquisa em 
Política, Estado e Direito (NUPED).
3 Mestranda em Direitos Humanos pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. 
Pós Graduada em Direito pela Escola Superior da Magistratura de Santa Catarina - ESMESC. 
Graduada em Direito pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Integrante 
do Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens do PPGD/
UNESC. Membro do Grupo de Estudos Intersetorial - GTI do Conselho Tutelar, Coordenado pelo 
Centro de Apoio Operacional da Infância e Juventude – CIJ MPSC. Professora conteudista 
na Universidade de Brasília – UNB. Coordenadora Institucional do Fórum Colegiado Nacional 
de Conselheiros Tutelares – FCNCT. Presidente da Associação Catarinense de Conselheiros 
Tutelares – ACCT. Membro do Comitê Gestor da Escola de Conselhos de SC. Membro do 
Comitê Gestor do Sistema de Informação para Infância e Adolescência – SIPIA Conselho 
Tutelar. Conselheira Estadual de Direitos de Crianças e Adolescentes – CEDCA SC. Conselheira 
Municipal de Direitos de Crianças e Adolescentes – CMDCA Criciúma/SC. Coordenadora do 
Centro de Referência da Assistência Social – CRAS Criciúma/SC.
Direitos de Juventude
97
Andréa Silva Albas Cassionato & Andrei da Rosa Sauzem Machado
políticas públicas, no controle social e de efetivação da 
democracia participativa. Desde a redemocratização, 
os conselhos gestores de políticas públicas ganharam 
força e foram criados nos âmbitos federais, estaduais, 
distrital e municipais. Os conselhos de juventudes, assim 
como as políticas públicas de juventudes, são mais 
recentes no ordenamento jurídico e nas demandas 
da sociedade civil organizada, porém com a chegada 
do novo milênio ganharam força e a partir da criação 
do Conselho Nacional da Juventude em 2005 muitos 
estados e municípios criaram também seus conselhos. 
A participação social dos jovens, garantida 
pelo Estatuto da Juventude, promulgado em 
2013 e resultado da II Conferência Nacional da 
Juventude, demonstra as lutas dos movimentos 
juvenis e organizações envolvidas com a agenda das 
juventudes com a garantia da presença no texto da 
lei da necessidade de proteger ao jovem o direito de 
participar ativamente do processo de construção da 
democracia. Democracia essa que não figura apenas 
como democracia representativa - com o direito ao 
voto e a candidatura e envolvimento político partidário 
-, mas também como democracia participativa, para 
se ter o direito a ter voz como cidadão brasileiro. 
A partir dessa perspectiva, questionou-se 
se seriam os conselhos de juventudes ferramentas 
pertinentes para a participação social dos jovens? 
Assim, analisou-se as evidências acerca das construções 
dos debates produzidos em conferências de juventudes 
sobre o tema e a presença desses conselhos nos 
estados para entender o potencial dos conselhos de 
juventudes como mecanismos de participação social 
98
imprescindíveis para a sociedade contemporânea 
que possui o maior número de jovens da história. 
Com base em uma abordagem bibliográfica e 
metodologicamente dedutiva, a exploração perpassou 
a conceitualização de participação social, conselhos 
gestores e juventudes para compreender como essas 
categorias teóricas se entrelaçam para construir as 
políticas públicas de juventudes brasileiras.
2 A participação social e os conselhos gestores 
de políticas públicas de juventudes
A construção coletiva da sociedade por meio 
da participação social dentro da esfera pública possui 
relação intrínseca com a democracia, que com a 
combinação com os princípios da igualdade e da 
liberdade, moldam o ideal estado democrático. No 
Brasil dos anos 1980, as organizações da sociedade civil 
organizada e os movimentos sociais compreendiam 
que além da democracia representativa era 
necessária a implementação de uma democracia que 
contemplasse a participação social essencialmente, 
ou seja, a democracia participativa. Nessa visão, 
acreditava-se necessário que a participação social 
ocorresse interligada com um processo educativo de 
cidadania, com ligações público-privadas amplas, que 
permitissem decisões coletivas em temas de relevância 
coletiva, criando integração social e o sentimento de 
conexão à comunidade e pertencimento ao território 
(CICONELLO, 2008).
Durante o período ditatorial restringiram-se as 
liberdades individuais e de organização coletiva, mesmo 
Direitos de Juventude
99
assim, grupos de resistência criaram movimentos e 
ideias revolucionárias que buscavam pela educação 
a amplitude da consciência de classe, desigualdades 
e opressões sofridas, como o movimento freiriano 
da Educação Popular e a Teologia da Libertação. A 
organização social pela base, nas comunidades e 
territórios, trouxe uma pressão social que culminou 
com a abertura gradual do regime militar que resultou 
no processo de redemocratização com a promulgação 
da Constituição Federal de 1988 (CICONELLO, 2008).
A redemocratização marca a democracia no 
Brasil e os direitos sociais do povo brasileiro. Assim, 
retoma os ideais de democracia representativa 
extirpados pela ditadura militar, ao mesmo passo que 
consagra a democracia participativa idealizada pelos 
movimentos sociais anos antes. Assim, a participação 
social é chancelada pelo Estado e representa 
mecanismo fundamental na garantia e proteção dos 
direitos sociais (SILVA et al, 2005).
Silva, Jaccoud e Beghin (2005, p. 375) destacam 
que a participação relacionada aos direitos sociais 
correspondem a três premissas: 
a) a participação social promove 
transparência na deliberação e visibilidade 
das ações, democratizando o sistema 
decisório; b) a participação social permite 
maior expressão e visibilidade das 
demandas sociais, provocando um avanço 
na promoção da igualdade e da equidade 
nas políticas públicas; e c) a sociedade, por 
meio de inúmeros movimentos e formas de 
associativismo, permeia as ações estatais 
na defesa e alargamento de direitos, 
demanda ações e é capaz de executá-las 
no interesse público.
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
100
A participação social se relaciona com a 
expressão popular das demandas, assim como, com 
a democratização das políticas sociais em sua gestão 
e execução. O objetivo dessa participação é que por 
intermédio do fortalecimento da sociedade civil seja 
possível construir uma realidade social menos desigual. 
Dessa forma, só é possível a participação social de 
maneira coletiva, não existindo indivíduos participando 
de maneira isolada, mas sim sujeitos sociais, que em 
suas pluralidades, exercem a cidadania (GOHN, 2019). 
Milani (2008, p. 560) destaca que: 
A participação social cidadã é aquela que 
configura formas de intervenção individual 
e coletiva, que supõem redes de interação 
variadas e complexas determinadas 
(provenientes da “qualidade” da cidadania) 
por relações entre pessoas, grupos e 
instituições como o Estado. A participação 
social deriva de uma concepção de 
cidadania ativa. A cidadania define os 
que pertencem (inclusão) e os que não se 
integram à comunidade política (exclusão); 
logo, a participação se desenvolve em 
esferas sempre marcadas, também, por 
relações de conflito e pode comportar 
manipulação.A Constituição Federal de 1988 estabelece 
o Estado Democrático de Direito no país, derivada 
da pluralidade de sujeitos sociais. Com a cidadania 
enraizada em seu texto, explicitou princípios e diretrizes 
sobre a participação social. Um desses mecanismos são 
os conselhos gestores de políticas públicas, que, surgem 
das demandas da sociedade pela democratização das 
políticas sociais com o objetivo de instrumentalizar os 
Direitos de Juventude
101
ideais participativos presentes na carta magna, onde 
as decisões que antes eram restritas aos agendes do 
governo, agora são compartilhadas com a sociedade 
civil (SILVA et al, 2005). Segundo Tatagiba (2005, p. 
209):
Os conselhos gestores de políticas públicas 
constituem uma das principais experiências 
de democracia participativa no Brasil 
contemporâneo. Presentes na maioria dos 
municípios brasileiros, articulados desde o 
nível federal, cobrindo uma ampla gama 
de temas como saúde, educação, moradia, 
meio ambiente, transporte, cultura, dentre 
outros, representam uma conquista inegável 
do ponto de vista da construção de uma 
institucionalidade democrática entre nós. 
Sua novidade histórica consiste em apostar 
na intensificação e na institucionalização 
do diálogo entre governo e sociedade - em 
canais públicos e plurais - como condição 
para uma alocação mais justa e eficiente 
dos recursos públicos.
 
Nos conselhos gestores de políticas públicas os 
cidadãos exercem a democracia de forma semidireta, 
onde há o debate e decisões sobre elaboração, 
execução e fiscalização de políticas públicas, agenda 
e programas governamentais. A horizontalização e 
descentralização do poder são características inatas, 
visto que a concentração deixa de focar na gestão 
pública e passa a ser exercida democraticamente por 
entidades e cidadãos (EGITO, 2012). 
Os conselhos estão presentes nas esferas 
municipais, estaduais, distritais e federais e podem 
ser classificados em três categorias, sendo elas, a) 
conselhos de programas: vinculados diretamente a 
programas governamentais para fiscalizar a execução 
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
102
das atividades propostas e a correta aplicação dos 
recursos destinados, como por exemplo os Conselhos 
de Alimentação Escolar; b) conselhos de políticas: 
relacionados a políticas públicas que já estão 
concretizadas no sistema nacional - são municipais, 
estaduais ou federais -, como exemplo temos o 
Conselho da Criança e do Adolescente e c) conselhos 
temáticos: não são vinculados especificamente com 
uma legislação, sistema ou programa governamental, 
mas são associados a uma agenda, como por exemplo 
O Conselho da Mulher (TATAGIBA, 2002).
As representações dentro dos conselhos 
gestores são preenchidas por vagas da sociedade 
civil e do Estado. Os representantes da sociedade civil 
são eleitos por suas respectivas entidades em fóruns 
eletivos da sociedade civil, já as entidade públicas têm 
suas representações definidas por lei. Os conselhos 
gestores são regidos pelo princípio da paridade, mas 
a paridade numérica não é garantia de paridade 
real, sendo necessária uma diversidade e constância 
dos membros envolvidos no processo. É da estreita 
conexão entre representantes e as entidades as quais 
pertencem com a comunidade que legitima e traz 
paridade para o espaço dos conselhos (EGITO, 2012).
A sociedade como um todo vem clamando 
efusivamente para que o Estado garanta qualidade 
mínima de vida aos seus cidadãos, especialmente na 
América Latina. Os conselhos são ferramentas amplas 
de participação social onde se pode exigir esse 
olhar para as camadas que mais sentem os efeitos 
da desigualdade social. Um exemplo de camada 
vulnerável são as juventudes. Entretanto, as juventudes 
Direitos de Juventude
103
como categoria objeto de políticas públicas surgiu faz 
poucas décadas no mundo e também no Brasil, logo 
os conselhos de juventudes são menos articulados do 
que outros conselhos mais tradicionais (SANTOS, 2017).
Os Conselhos de Juventudes têm surgido com 
mais expressão nas últimas duas décadas. Igualmente, 
a agenda de políticas públicas de juventudes só ganhou 
espaço de maneira ampla recentemente, antes ficando 
restrita aos adolescentes, protegidos pelo Estatuto da 
Criança e do Adolescente promulgado nos anos 1990. 
A resistência da destinação de atenção para essa 
parcela vulnerável da população se relaciona com a 
pouca compreensão sobre o que é “juventudes” e de 
quem são as “juventudes” (OLIVEIRA, 2017). 
As conceitualizações tradicionais acerca das 
juventudes as entendem como uma faixa etária, 
cabendo a essa fase da vida a tarefa de transição 
entre a infância e a vida adulta apenas. A ideia de 
que é nesse período que podem acontecer desvios das 
normas sociais, com um comportamento diverso do 
esperado, por isso há destaque para a “delinquência 
juvenil” nas visões conservadoras de juventudes 
(PARSONS, 1968). 
O conceito de juventude é fluído e amplo, mas, 
os fatores biológicos de jovialidade e envelhecimento 
são importantes ao debate. Incluindo esses fatores, o 
Estatuto da Juventude determinou que a legislação 
brasileira entende por jovens as pessoas com idade 
entre 15 e 29 anos e que são à essas pessoas que as 
políticas públicas de juventude são destinadas no país 
(BRASIL, 2013). 
Logo, sobre juventudes não há um consenso. 
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
104
O conceito está em constante mutação e 
aperfeiçoamento, atrelado a mudanças sociais, 
políticas, econômicas e culturais contemporâneas. 
Por isso, superou-se o entendimento de Bourdieu 
que considerava que juventude é só uma palavra, 
um conceito construído, um simbolismo, uma 
representação (BOURDIEU, 1989).
No Brasil, o olhar para as juventudes como 
sujeitos de direitos surge a partir da redemocratização 
com a promulgação da Constituição Federal. De 
início, os adolescentes (13-18 anos) são reconhecidos 
como sujeitos de direitos dignos de proteção jurídica, 
conjuntamente com a infância. As juventudes 
começam a ser reconhecidas pelo ordenamento jurídico 
brasileiro apenas em 2005, com a Lei 11.129/05, que 
instituiu o Programa Nacional de Inclusão de Jovens 
(Projovem), a Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) 
e o Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE). Em 
2010, a Emenda Constitucional 65 foi promulgada 
e acrescentando a proteção integral aos jovens ao 
artigo 227 da Constituição Federal. Em 2013 a Lei 
n° 12.852/2013 instituiu o Estatuto da Juventude, o 
Sistema Nacional de Juventude (SINAJUVE) e definiu 
os princípios e diretrizes para as políticas públicas de 
juventudes (RUGGIERI NETO, 2015).
As políticas públicas de juventude precisam de 
uma grande atenção por parte dos governantes e que, 
na atualidade, não conseguem atender as demandas. 
Os conselhos de juventudes atuam fortemente na 
proteção dos direitos das juventudes, sejam civis, 
políticos ou sociais, demandando e fiscalizando as 
ações governamentais. A não garantia de direitos 
Direitos de Juventude
105
básicos e de uma mínima condição digna aos 
jovens excluem sua cidadania, gerando prejuízos de 
difícil reparação e os conselhos são ferramentas de 
relevância no combate as exclusões e na ampliação 
da participação social que é direito das juventudes 
(SANTOS, 2017).
Na atualidade vivemos a maior concentração 
de jovens no país, com aproximadamente 50 milhões 
de pessoas com idades entre 15 e 29 anos, ou seja, 
¼ da população brasileira é jovem. Essas juventudes 
são plurais e têm o potencial de protagonismo em 
agendas de desenvolvimento social globais e locais, 
porém, a participação social e o suporte do governo e 
do Estado são fundamentais nesse processo (ATLAS DA 
JUVENTUDE, 2021). 
A participação social é direito dos jovens, 
previsto no estatuto da juventude (Lei n° 12.852/203). 
Esse direito é um dos princípios que regem o Estatuto, 
através da “valorização e promoção da participação 
social e política,de forma direta e por meio de suas 
representações”. Também presente nas diretrizes 
de incentivo à “ampla participação juvenil em sua 
formulação, implementação e avaliação” das políticas 
públicas de juventude e também para “ampliar as 
alternativas de inserção social do jovem, promovendo 
programas que priorizem o seu desenvolvimento 
integral e participação ativa nos espaços decisórios”. 
Isso posto, permite afirmar que a participação social 
das juventudes é condição para a realização integral 
dos demais direitos das juventudes brasileiras (BRASIL, 
2013).
Essa participação social dos jovens pode 
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
106
capacitar e os empoderar. O bom funcionamento 
das instituições, a elaboração de políticas públicas 
e legislações voltadas para as juventudes e, a 
ampliação e fortalecimento dos espaços de 
democracia participativa, como os conselhos, são 
essenciais para permitir a participação plena das 
juventudes, respeitando suas pluralidades de vivências 
e diversidades (SOUZA, 2004). 
Com a criação do Conselho Nacional da 
Juventude (CONJUVE) em 2005 pela Lei n° 11.129/05 e 
regulamentando pelo Decreto n° 10.069/2019, é órgão 
consultivo e propositivo. O CONJUVE é plataforma 
oficial de representação e participação social juvenil 
do Brasil. Compreende-se que suas competências 
abrangem: 
1. Propor estratégias de acompanhamento 
e avaliação da política nacional de 
juventude. 2. Apoiar a Secretaria Nacional 
da Juventude da Secretaria de Governo da 
Presidência da República na articulação 
com outros órgãos da administração pública 
federal, governos estaduais, municipais e 
do Distrito Federal. 3. Promover a realização 
de estudos, debates e pesquisas sobre a 
realidade da situação juvenil, com vistas a 
contribuir na elaboração de propostas de 
políticas públicas. 4. Apresentar propostas 
de políticas públicas e outras iniciativas que 
visem assegurar e ampliar os direitos da 
juventude. 5. Articular-se com os conselhos 
estaduais e municipais de juventude e 
outros conselhos setoriais, para ampliar a 
cooperação mútua e o estabelecimento de 
estratégias comuns de implementação de 
políticas públicas de juventude. 6. Fomentar 
o intercâmbio entre organizações juvenis 
nacionais e internacionais (BRASIL, 2018).
Direitos de Juventude
107
Atualmente, o conselho é composto por 30 
conselheiros: 10 representantes do poder público e 20 
representantes da sociedade civil. O poder público, 
além da Secretaria Nacional da Juventude, possui 
representantes dos ministérios que possuem programas 
voltados para os jovens; da Frente Parlamentar de 
Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputados; 
do Fórum Nacional de Gestores Estaduais de 
Juventude; assim como das associações de prefeitos. A 
sociedade civil, que é maioria numérica no CONJUVE, 
objetiva refletir diversidade para o enriquecimento do 
diálogo. Os representantes vêm de movimentos juvenis, 
organizações não governamentais, especialistas e 
personalidades com notório saber. O mandato tem 
duração de dois anos mediante eleição direta, já os 
cargos de presidente e vice-presidente são alternados, 
a cada ano, entre governo e sociedade, com eleição 
da mesa diretora pelos membros do conselho (BRASIL, 
2021).
O Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE) 
também é responsável pela coordenação da 
Conferência Nacional de Juventude. As conferências 
são espaços de participação amplos, onde o debate 
entre os diversos atores das políticas públicas de 
juventudes contribui para o fortalecimento da Política 
Nacional de Juventude. No Brasil, já foram realizados 
3 processos de conferências: em 2008, 2010 e 2015. 
A conferência de deveria acontecer em 2020 fora 
adiada e acontecerá em 2022 entre 10 a 12 de agosto 
(BRASIL, 2021).
O tema da participação social das juventudes 
pelos conselhos de juventude é recorrente dentro das 
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
108
Conferências Nacionais. Na I Conferência Nacional 
de Juventude que acontecer m 2008, extrai-se as 
recomendações, dentre outras, de: 
Criar o Sistema Nacional de Juventude, 
composto por órgãos de juventude 
(secretarias/coordenadorias e outros) nas 
três esferas do governo, com dotação 
orçamentária específica; conselhos de 
juventude eleitos democraticamente, com 
caráter deliberativo, com a garantia de 
recursos financeiros, físicos e humanos; 
fundos nacional, estaduais e municipais 
de juventude, com acompanhamento e 
controle social, ficando condicionado o 
repasse de verbas federais de programas 
e projetos de juventude à adesão dos 
estados e municípios a esse Sistema (ATLAS 
DA JUVENTUDE, 2021, p. 310).
Especialmente na II Conferência Nacional 
de Juventude, que aconteceu no ano de 2010 a 
participação social fora tema recorrente e, dentre 
outras deliberações, recorta-se: 
Para reafirmarmos o Conselho Nacional 
de Juventude, quanto à sua diversidade e 
representatividade, é necessário incorporar 
o maior número de movimentos e entidades 
que tenham suas ações nacionalmente 
voltadas para a juventude. Os membros 
da sociedade civil no Conselho Nacional 
de Juventude serão representantes de 
entidades e movimentos de caráter 
nacional, escolhidos em processo seletivo 
[...]. Os conselhos de Juventude no Brasil 
devem se constituir considerando as 
seguintes características/atribuições: - 
representar a juventude no sentido de 
promover melhorias, qualidade de vida e 
acesso a ações e projetos diversificados; - 
com caráter deliberativo e fiscalizador, com 
cotas de 3/5 de jovens; - com entidades 
Direitos de Juventude
109
que atuem no segmento de juventude; - 
com obrigatoriedade de inserção juvenil; - 
com alternância de sociedade civil e poder 
público na presidência; - com garantia de 
espaço de participação nos conselhos de 
juventude para os estudantes, LGBTQIA+, 
mulheres, negros, pessoas com deficiência, 
entidade de bairro, trabalhadores, 
jovens do campo e de comunidades 
indígenas, quilombolas, de terreiros e 
povos tradicionais, entre diversos outros 
segmentos juvenis; com sede própria; - 
acompanhados de fóruns municipais e/
ou territoriais e demais organização de 
suporte/apoio ao conselho; - subdivididos 
por conselhos regionais, de acordo com 
o porte do município, cujos membros da 
sociedade civil sejam eleitos em fóruns, 
assembleias e outros coletivos específicos 
de juventude, e não indicados, salvo 
quando não houver um fórum específico 
de juventude; - com dotação orçamentária 
específica prevista em LDO/LOA e no PPA; 
- com prazo de mandato definido por lei, e, 
onde ainda não houver conselhos, que seja 
fomentada e incentivada a sua criação; - 
com 3/4 de participação da sociedade civil, 
contemplando a participação dos povos 
tradicionais e comunidades indígenas 
(ATLAS DA JUVENTUDE, 2021, p. 312)
Ante os resultados dos debates da II Conferência 
Nacional da Juventude que teve grande foco pelo 
incentivo e fomento de criação e manutenção de 
conselhos em âmbitos estaduais e municipais, o 
CONJUVE mapeou, em 2010, que existiam no país 105 
conselhos federais de municipais de juventude, onde 
quase metade desses ficava situado no Sudeste (Costa, 
2014). Considerando que o Brasil possui 5.570 (IBGE, 
2021), se fosse ignorado a existência de conselhos 
estaduais nesse número e se considerasse que 105 
seriam conselhos municipais, em 2010 haveria 1,88% de 
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
110
municípios com conselhos de juventude. Esse número 
é irrisório ante o potencial de participação social 
das juventudes. Nesse sentido, Castro e Abramovay 
ensinam que: 
É diagnosticado em diversas pesquisas 
sobre juventude no Brasil, que o interesse 
e a participação dos jovens na vida pública 
não se esvaziou [...] ainda que os contextos 
sociais e econômicos estejam cada vez mais 
cedo encurralando jovens para o precário 
mercado de trabalho, tomando otempo 
livre para agrupações; ainda que a mídia 
comercial tenda a manipular as muitas 
formas de resistência num disfarçado 
teatro de felicidade obtida simplesmente 
pelo consumo de apetrechos, os jovens 
vêm se mostrando bastante adaptáveis 
e adaptadores dessas condições. Ou 
seja, novas são as motivações objetivas 
que inibem o processo de participação 
juvenil, porém, muitas são as adaptações e 
mutações, engendradas pelos jovens, que 
favorecem os processos de participação 
(CASTRO; ABRAMOVAY, 2009, p. 39).
Na III Conferência Nacional de Juventude de 
2015, com os resultados do mapeamento realizado 
em 2010, percebeu-se a baixa mobilização e concluiu-
se a necessidade da educação para a cidadania 
para aumentar a participação social, assim como a 
divulgação ampla dos espaços, especialmente na 
internet. Dentre as discussões permeadas, se destacam:
Criar um grupo de trabalho (GT), dentro 
das coordenadorias da juventude nas 
esferas municipais e estaduais, formado 
pela sociedade civil e poder público, 
que desenvolva trabalhos de formação 
voltados à cidadania e à participação 
social de forma contínua; e, pelos meios 
Direitos de Juventude
111
de comunicação, incentivar a juventude a 
participar da Conferência e das atividades 
que são desenvolvidas no município e no 
estado. - Garantir a realização de projeto 
de cidadania nas escolas em parceria com 
os conselhos de juventude e movimentos 
sociais, a partir de atividades de discussão 
sobre direitos, deveres, cidadania e ciência 
política que estimule a participação 
social da juventude. A partir do projeto de 
cidadania, será elaborado uma cartilha 
sobre participação social, que aborde 
como funcionam os conselhos de juventude 
e as conferências, que explique como é 
o processo de construção de entidades 
estudantis e que seja amplamente 
divulgada, principalmente na internet 
(ATLAS DA JUVENTUDE, 2021, p. 313).
No momento, não há uma pesquisa ou 
mapeamento atualizado de quantos conselhos de 
juventudes existem no país, mas há um consenso que 
o incentivo a criação e efetivação dos conselhos de 
juventudes são relevantes para que a participação 
social das juventudes sejam efetivadas, com o exercício 
pleno da cidadania dos jovens. A participação popular 
da juventude é benéfica para as comunidades e os 
territórios e influência na qualidade dos serviços e das 
políticas públicas (ATLAS DA JUVENTUDE, 2021).
Por parâmetro podemos perceber que dentre os 
estados brasileiros que possuem legislações que criam 
os conselhos estaduais de juventudes estão o Acre 
(Lei n° 2144/2009), Amapá (Lei n° 832/2004), Bahia 
(Lei n° 13452/2015), Ceará (Lei n° 34181/2021), Distrito 
Federal (Lei n° 5020/2013), Espírito Santo (Decreto n° 
4122/2017), Goiás (Decreto n° 8768/2016), Maranhão 
(Lei n° 8647/2007), Minas Gerais (Lei n° 24414/2016), 
Mato Grosso do Sul (Decreto n° 15688/2021), Mato 
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
112
Grosso (Lei n° 20364/2016), Pará (Lei n° 6936/2006), 
Paraíba (Lei n° 10981/2017), Pernambuco (Lei n° 
18273/2021), Piauí (Lei n° 5618/2006), Paraná (Decreto 
n° 6755/2017), Rio de Janeiro (Lei n° 3480/2000), Rio 
Grande do Norte (Lei n° 574/2016), Roraima (Lei n° 
792/2010), Santa Catarina (Lei n° 16865/2016), Sergipe 
(Lei n° 7815/2014), São Paulo (Decreto n° 25588/1986) 
e o Rio Grande do Sul (Lei n° 14246/2013). Ou seja, os 
estados de Alagoas, Amazonas, Rondônia e Tocantins 
sequer possuem leis criando conselhos estaduais de 
juventudes. Porém, embora 23 estados disponham 
de leis vigentes, nem todos esses estados possuem os 
conselhos com membros nomeados e com reuniões 
acontecendo mensalmente, o que naturalmente 
prejudica a participação social nesses territórios. A 
questão que paira é como estados com conselhos 
desestruturados poderiam fomentar conselhos 
municipais? E se as participações nos conselhos 
estaduais estão prejudicadas como estariam as 
participações dos conselhos municipais? São questões 
que talvez a IV Conferência Nacional da Juventude 
possa responder. 
Com esse horizonte, sabe-se que tanto por 
fragilidades institucionais quanto pela localização 
periférica nas políticas governamentais, os conselhos 
de juventudes não possuem o reconhecimento 
necessário para se efetivarem como ferramenta 
fundamental da participação social das juventudes 
na democracia brasileira. Todavia, as experiências e 
legados construídos, sejam pelo Conselho Nacional 
de Juventudes, pelas 3 Conferências Nacionais de 
Juventudes e pelos Conselhos Estaduais de Juventudes 
Direitos de Juventude
113
que já estão regulamentados na maioria dos estados 
– passo que facilita muito a efetiva implementação 
das políticas públicas de juventudes nos territórios-, se 
apresentam como promissores marcos na conquista 
dos direitos das juventudes e na construção das 
políticas públicas de juventudes. É necessário que a 
sociedade civil organizada se fortaleça dentro da 
agenda das juventudes e construa diálogos estreitos 
com o poder público para a expansão dos conselhos 
de juventudes, que possuem poder transformador 
de realidades locais e nacional no fortalecimento da 
pauta das juventudes. 
CONCLUSÃO
A participação social dos jovens dentro dos 
conselhos possui muitos desafios, como a necessidade 
de vencer a desmobilização da sociedade civil 
organizada frente aos ideais de individualismos 
acima da coletividade, presentes no capitalismo 
contemporâneo, assim como, o desinteresse dos 
gestores públicos em dedicar pautas específicas para 
as juventudes e criar legislações instituindo conselhos de 
juventudes. Da mesma forma, o Conselho Nacional de 
Juventude possui papel fundamental da mobilização 
dos estados, para a construção e efetivação de 
conselhos estaduais. Esses, por sua vez, podem criar 
e efetivar os conselhos de juventudes nos municípios. 
Assim, em cadeia, os conselhos de juventudes são 
descentralizados e as pautas podem se tornar mais 
conectadas com as realidades locais e ampliar a força 
da participação social dos jovens, especialmente dos 
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
114
mais vulneráveis. 
A oportunidade frente a realização da nova 
Conferência Nacional de Juventude e a realização das 
conferências nos municípios, estados e distrito, quilombos 
e comunidades tradicionais, tendo a Resolução n° 02 
de 2021 expedida pela Comissão Organizadora da 4ª 
Conferência Nacional de Juventude previsto inclusive 
a realização dessas convenções de forma virtual para 
ampliar as possibilidades de participação dos jovens 
e garantir que o processo ocorra mesmo frente a uma 
possível nova onda da pandemia de COVID-19. Essas 
conferências, que devem ser realizadas no primeiro 
semestre de 2022, tem a possibilidade de ouvir as 
pautas das juventudes brasileiras, ampliar o exercício 
da cidadania e fortalecer a militância e ativismo 
juvenil e assim, quem sabe, resultar na criação e 
ampliação dos conselhos de juventudes locais e no 
possível mapeamento e fortalecimento dos conselhos 
já existentes.
Conclui-se que não há dúvidas que a participação 
social dos jovens pelos conselhos de juventudes 
possui grande efetividade na garantia do exercício 
da cidadania e na efetivação plena da democracia 
participativa prevista na Carta Magna brasileira. Os 
desafios na construção das políticas de juventude e 
no fortalecimento dos conselhos são grandes, ainda 
mais com as desmobilizações que ocorreram frente 
as políticas conservadoras que assolaram o país e o 
mundo nos últimos anos e também devido a pandemia 
do novo corona vírus. Mas, com a construção ampla 
do debate coletivo sobre como devem ser as políticas 
públicas de juventudes da nova década, especialmente 
Direitos de Juventude
115
no processo de conferências por todo o país, poderá se 
desenhas o modo como se irá trabalhar para construí-
las possibilitando visualizar um avanço significativo 
dos espaços de participação social das juventudese 
do crescimento das mobilizações acerca dos conselhos 
de juventudes. 
REFERÊNCIAS
ACRE, Lei n° 2144 de 27 de agosto de 2009: Institui o Conselho 
de Juventude. 2009. Disponível em: https://leisestaduais.com.br/
ac/lei-ordinaria-n-2144-2009-acre--altera-dispositivos-da-lei-
no-1-600-de-27-de-dezembro-de-2004-que-cria-o-conselho-
estadual-da-juventude-do-acre-cejac-e-dispoe-sobre-a-
conferencia-estadual-da-juventude. Acesso em 13 nov 2021. 
AMAPÁ. Lei n. 832, de 24 de maio de 2004: Institui o Conselho 
de Juventude. 2004. Disponível em: https://leisestaduais.com.br/
ap/lei-ordinaria-n-832-2004-amapa-cria-o-conselho-estadual-
da-juventude-e-da-outras-providencias?q=conselho%20de%20
juventude. Acesso em: 13 nov 2021.
ATLAS DA JUVENTUDE. Atlas da Juventude, 2021.Disponível 
em: https://atlasdasjuventudes.com.br/wp-content/
uploads/2021/06/ATLAS-DAS-JUVENTUDES-COMPLETO-1.pdf. 
Acesso em 10 nov 2021. 
BAHIA. Lei n° 13.452 de 06 de novembro de 2015: Institui 
o Conselho de Juventude. 2015. Disponível em: https://
leisestaduais.com.br/ba/lei-ordinaria-n-13452-2015-bahia-
dispoe-sobre-a-criacao-do-conselho-estadual-de-juventude-
cejuve-e-da-outras-providencias?q=conselho%20de%20juven-
tude. Acesso em: 12 nov 2021.
BRASIL. Conjuve. 2021. Conselho Nacional da Juventude. 
Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-
temas/juventude/conjuve. Acesso em: 13 nov 2013.
BRASIL. Lei n. 12.852, de 5 de agosto de 2013: Estatuto 
da Juventude. 2013. Disponível em: www.planalto.gov.br/
CCIVIL_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12852.htm. Acesso em: 10 
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
116
nov 2021.
BRASIL. Secretaria Nacional de Juventude. Guia de conselhos de 
juventude: fortalecendo diálogos, promovendo direitos. Brasília, 
DF: Conjuve, 2018. Disponível em: https://bibliotecadigital.mdh.
gov.br/jspui/. Acesso em: 10 nov 2021.
BOURDIEU, Pierre. A “juventude” é apenas uma palavra. In: 
Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.
CASTRO, Mary Garcia & ABRAMOVAY, Miriam. Quebrando 
Mitos: juventude, participação e políticas: Perfil, percepção e 
recomendações dos participantes da 1ª Conferência Nacional de 
Políticas Públicas de Juventude. 2009. Brasília: Ritla.
CEARÁ, Lei n° 34181 de 02 de agosto de 2021: Institui o Conselho 
de Juventude. 2021. Disponível em: https://leisestaduais.com.br/
ce/decreto-n-34181-2021-ceara-dispoe-sobre-a-composicao-
a-estruturacao-as-competencias-e-o-funcionamento-do-
conselho-estadual-de-juventude-do-estado-do-ceara-conjuce-
e-da-outras-providencias. Acesso em 13 nov 2021. 
CICONELLO, Alexandre. A participação social como processo de 
consolidação da democracia no Brasil. From poverty to power, 
2008.
DISTRITO FEDERAL, Lei n° 5020 de 22 de janeiro de 2013: Institui 
o Conselho de Juventude. 2013. Disponível em: https://legislacao.
cl.df.gov.br/Legislacao/consultaTextoLeiParaNormaJuridicaN
JUR-274049!buscarTextoLeiParaNormaJuridicaNJUR.action. 
Acesso em 13 nov 2021. 
EGITO, Melissa Barbosa Tabosa do. Conselhos Sociais Gestores 
de Políticas Públicas: natureza de suas decisões e controle 
jurisdicional. Dissertação (Mestrado em Direito) – Pontifícia 
Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, p. 149. 2012.
ESPÍRITO SANTO, Decreto n° 4122 de 29 de junho de 2017: 
Institui o Conselho de Juventude. 2017. Disponível em: https://
leisestaduais.com.br/es/decreto-n-4122-2017-espirito-santo-
aprova-o-novo-regulamento-do-conselho-estadual-da-
juventude-cejuve?q=conselho%20de%20juventude. Acesso em 
13 nov 2021. 
Direitos de Juventude
117
GOHN, Maria da Glória. Teorias sobre a participação 
social: desafios para a compreensão das desigualdades 
sociais. Caderno CRH, v. 32, p. 63-81, 2019.
GOIÁS, Decreto n° 8768 de 03 de outubro de 2016: Institui 
o Conselho de Juventude. 2016. Disponível em: https://
leisestaduais.com.br/go/decreto-n-8768-2016-goias-altera-
o-decreto-no-7-558-de-23-de-fevereiro-de-2012-que-dispoe-
sobre-o-conselho-estadual-da-juventude-conjuv-e-da-outras-
providencias. Acesso em 13 nov 2021. 
IBGE, Cidades.2021. Cidades brasileiras. Disponível em: https://
cidades.ibge.gov.br/brasil/panorama. Acesso em: 13 nov 2021.
MATO GROSSO, Lei n° 10364 de 02 de fevereiro de 2016: Institui 
o Conselho de Juventude. 2016. Disponível em: https://www.
al.mt.gov.br/legislacao/13961/visualizar. Acesso em 13 nov 2021. 
MATO GROSSO DO SUL, Decreto n° 15688 de 16 de maio de 
2021: Institui o Conselho de Juventude. 2021. Disponível em: 
https://leisestaduais.com.br/ms/decreto-n-15688-2021-mato-
grosso-do-sul-publica-o-regimento-interno-do-conselho-
estadual-da-juventude-do-estado-de-mato-grosso-do-sul-
conjuv-ms?q=conselho%20de%20juventude. Acesso em 13 nov 
2021. 
MARANHÃO, Lei n° 8647 de 10 de agosto de 2007: Institui 
o Conselho de Juventude. 2007. Disponível em: https://
leisestaduais.com.br/ma/lei-ordinaria-n-8647-2007-maranhao-
dispoe-sobre-a-alteracao-da-lei-no-8-451-de-5-de-setembro-
de-2006-que-criou-o-conselho-estadual-de-juventude-c-
ejovem-e-da-outras-providencias?q=conselho%20de%20
juventude. Acesso em 13 nov 2021. 
MINAS GERAIS, Lei n° 24414 de 16 de dezembro de 2016: 
Institui o Conselho de Juventude. 2016. Disponível em: https://
leisestaduais.com.br/mg/lei-ordinaria-n-22414-2016-minas-
gerais-cria-o-conselho-estadual-da-juventude-cejuve-mg-e-
da-outras-providencias. Acesso em 13 nov 2021. 
OLIVEIRA, Geziane do Nascimento. Estratégias e Trajetórias 
Políticas de Mobilização da Juventude: Um estudo sobre 
participação no Conselho Municipal de Juventude de João 
Pessoa/PB. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade 
Federal da Paraíba. João Pessoa: 2017. 
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
118
PARÁ, Lei n° 6936 de 22 de dezembro de 2006: Institui o 
Conselho de Juventude. 2006. Disponível em: http://www.
legispara.pa.gov.br/estado?q=node/157. Acesso em 13 nov 2021. 
PARAÍBA, Lei n° 10981 de 25 de setembro de 2017: Institui o 
Conselho de Juventude. 2017. Disponível em: http://www.al.pb.
leg.br/leis-estaduais. Acesso em 13 nov 2021. 
PARANÁ, Decreto n° 6755 de 25 de abril de 2017: Institui 
o Conselho de Juventude. 2017. Disponível em: https://
www.legislacao.pr.gov.br/legislacao/pesquisarAto.
do?action=dt=13.10.2021.11.26.13.443. Acesso em 13 nov 2021. 
PARSONS, Talcott. A classe como sistema social. In: BRITTO, S. 
(Org.). Sociologia da juventude. Volume III. Rio de Janeiro: Zahar, 
1968, p. 47-76.
PERNAMBUCO, Lei n° 17273 de 21 de maio de 2021: Institui 
o Conselho de Juventude. 2021. Disponível em: https://
leisestaduais.com.br/pe/lei-ordinaria-n-17273-2021-
pernambuco-altera-a-lei-no-13-607-de-31-de-outubro-
de-2008-que-institui-o-conselho-estadual-de-politicas-
publicas-de-juventude-e-da-providencias-correlatas-
a-fim-de-incluir-a-atencao-especial-aos-jovens-em-
situacao-de-acolhimento-em-abrigos-casas-lares-
residencias-inclusivas-e-estabelecimentos- HYPERLINK 
“about:blank”congeneres-em-virtude-da-condicao-de-
orfandade-abandono-e-ou-negligencia-familiar-e-que-
estejam-em-situacao-de-vivencia-de-rua. Acesso em 13 nov 
2021. 
PIAUÍ, Lei n° 5618 de 27 de dezembro de 2006: Institui o 
Conselho de Juventude. 2006. Disponível em: http://legislacao.
pi.gov.br/legislacao/default/detalhe/12839. Acesso em 13 nov 
2021. 
RIO DE JANEIRO, Lei n° 3480 de 23 de outubro de 2000: 
Institui o Conselho de Juventude. 2000. Disponível em: https://
leisestaduais.com.br/rj/lei-ordinaria-n-3480-2000-rio-de-
janeiro-autoriza-o-poder-executivo-a-criar-o-conselho-
estadual-de-juventude-e-da-outras-providencias?q=conselho%-
20de%20juventude. Acesso em 13 nov 2021. 
RIO GRANDE DO NORTE, Lei n° 574 de 21 de julho de 2016: 
Institui o Conselho de Juventude. 2016. Disponível em: https://
Direitos de Juventude
119
leisestaduais.com.br/rn/lei-complementar-n-574-2016-rio-
grande-do-norte-cria-o-conselho-estadual-de-juventude-do-
rio-grande-do-norte-cejuv-rn-e-da-outras-providencias. Acesso 
em 13 nov 2021. 
RIO GRANDE DO SUL, Lei n° 14246de 11 de junho de 2013: Institui 
o Conselho de Juventude. 2013. Disponível em: http://www.
al.rs.gov.br/filerepository/repLegis/arquivos/LEI%2014.246.pdf. 
Acesso em 13 nov 2021. 
RORAIMA, Lei n° 792 de 19 de novembro de 2010: Institui o 
Conselho de Juventude. 2010. Disponível em: https://www.tjrr.
jus.br/legislacao/phocadownload/leisOrdinarias/2010/Lei%20
Estadual%20792-2010.pdf. Acesso em 13 nov 2021. 
RUGGIERI NETO, Mário Thiago. O dispositivo de juventude e as 
políticas públicas no Brasil. Dissertação (Mestrado em Ciências 
Sociais) – Universidade Estadual Paulista. Marília, 2015.
SANTA CATARINA, Lei n° 16865 de 16 de janeiro de 2016: Institui 
o Conselho de Juventude. 2016. Disponível em: http://leis.alesc.
sc.gov.br/html/2016/16865_2016_Lei.html. Acesso em 13 nov 
2021. 
SANTOS, Priscilla Ribeiro dos. Capacidades Estatais, participação 
e políticas de juventude no Brasil. Tese (Doutorado em Ciências 
Políticas) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto 
Alegre, 2017.
SÃO PAULO, Decreto n° 25588 de 29 de julho de 1986: Institui o 
Conselho de Juventude. 1986. Disponível em: https://www.al.sp.
gov.br/norma/50965. Acesso em 13 nov 2021. 
SERGIPE, Lei n° 7815 de 10 de janeiro de 2014: Institui o Conselho 
de Juventude. 2014. Disponível em: https://leisestaduais.
com.br/se/lei-ordinaria-n-7815-2014-sergipe-institui-o-
conselho-estadual-de-politicas-publicas-de-juventude-e-da-
providencias-correlatas?q=7815. Acesso em 13 nov 2021. 
SILVA, Frederico Barbosa da; JACCOUD, Luciana; BEGHIN, 
Nathalie. Políticas sociais no Brasil: participação social, 
conselhos e parcerias. Questão social e políticas sociais no Brasil 
contemporâneo. Brasília: IPEA, 2005.
Adrieli Alberti; Ismael Franciso de Souza & Graziela Cristina Luiz Damacena Gabriel
120
SOUZA, Carmen Zeli Vargas Gil. Juventude e 
contemporaneidade: possibilidades e limites. Última década, v. 
12, n. 20, p. 47-69, jun., 2004. Disponível em: https://www.scielo.
cl/scielo.php?script=sci_arttext HYPERLINK “about:blank”& 
HYPERLINK “about:blank”pid=S0718-22362004000100003. 
Acesso em: 10 nov. 2021.
SOUZA, Celina. Estado da arte da pesquisa em políticas 
públicas. p. 65-86. In: HOCHMAN, Gilberto; ARRETCHE. Marta; 
MARQUES, Eduardo (Org.). Políticas públicas no Brasil. Rio de 
Janeiro: Fiocruz, 2007.
TATAGIBA, Luciana. Os Conselhos Gestores e a democratização 
das Políticas Públicas no Brasil. In: DAGNINO, Evelina, Sociedade 
civil e espaços públicos no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 2002, p. 
47-103.
TATAGIBA, Luciana. Conselhos gestores de políticas públicas e 
democracia participativa: aprofundando o debate. Revista de 
Sociologia e Política, n. 25, p. 209-213, 2005.
 
Direitos de Juventude
121
CAPÍTULO 06 - A gravidez na 
adolescência como um problema 
cultural
Maria Victória Pasquoto de Freitas1
Amanda Geisler Aires Bispar2
 
1 INTRODUÇÃO
A gravidez na adolescência, problema social 
contemporâneo, acarreta diversos prejuízos ao 
desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, 
principalmente do sexo feminino, ocasionando uma 
transposição da fase infanto-juvenil para a adulta. 
O presente artigo objetiva analisar a gravidez 
na adolescência como um problema cultural. Com 
tal finalidade, propôs-se como objetivos específicos: 
contextualizar a gravidez na adolescência no Brasil; 
apontar as causas e consequências da ocorrência da 
gravidez na adolescência sob a perspectiva social e 
1 Mestra em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), integrante do Grupo de 
Estudos Direito, Cidadania e Políticas Públicas da UNISC e do Grupo de pesquisas sobre Direitos 
Humanos e Políticas Públicas para crianças e adolescentes (GEDIHCA) da URCAMP Advogada
2 Acadêmica do Curso de Graduação em Direito do Centro Universitário da Região da 
Campanha – URCAMP/Bagé. Integrante do Grupo de Pesquisas sobre Direitos Humanos e 
Políticas Públicas para Crianças e Adolescentes (GEDIHCA/ URCAMP) e bolsista do Programa 
Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PROBIC da Fundação de Amparo à Pesquisa 
do Estado do Rio Grande do Sul – FAPERGS, integrando o Projeto de Pesquisa Direito, Inovação 
e Novas Tecnologias: o direito ao trabalho no cenário de novas tecnologias e o enfrentamento 
da violência sexual de crianças e adolescentes diante do isolamento social vinculado ao curso 
de Direito da URCAMP 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
122
cultural da maternidade; e descrever a relação entre a 
vivência da sexualidade na adolescência e a gravidez 
precoce à luz da teoria das representações sociais. 
Assim, como problema de pesquisa, questiona-se: qual 
a influência da cultura na gravidez na adolescência?
Tem-se por hipótese inicial que a influência da 
cultura é evidenciada quando se trata de gravidez na 
adolescência, uma vez que, representada pelas ações 
reiteradas por várias gerações, encontra diversos 
aliados para sua reprodução, criando assim um ciclo 
intergeracional de reproduções.
O método de abordagem empregado é o 
dedutivo, a partir da análise geral da temática, 
especificando-se no decorrer do seu desdobramento. 
Como métodos de procedimento tem-se o monográfico. 
A técnica de pesquisa utilizada foi a bibliográfica, 
mediante a investigação em artigos científicos, teses 
e livros.
2 O contexto da gravidez na adolescência no 
Brasil
A gravidez na adolescência, considerada um 
fato social até o século XX, sofreu alterações nas 
últimas décadas. O reconhecimento da infância 
e da adolescência como períodos de peculiar 
desenvolvimento físico-psíquico e a criação de 
métodos contraceptivos auxiliaram na quebra 
paradigmática, tornando a gravidez na adolescência 
em um problema de saúde pública. Além disso, essa 
quebra de paradigmas fez com que surgissem novos 
valores sociais e que a reprodução se tornasse uma 
Direitos de Juventude
123
opção e um projeto racional. 
A naturalização da gravidez precoce se deu 
por diversos fatores socioculturais e econômicos, nos 
séculos XVIII e XIX, por exemplo, onde o casamento 
infantil era amplamente admitido socialmente, 
meninas com cerca de 12 anos de idade celebravam 
união com homens mais velhos e iniciavam a vida 
reprodutiva, dando um salto da fase infantil para a vida 
adulta. A união precoce também ocorria em famílias 
pertencentes a classe pobre, que viam na união uma 
oportunidade de melhoria de vida.
A gravidez, assim como a adolescência, é 
considerada uma construção social, “ela é uma das 
possibilidades de ocorrência na trajetória de meninas e 
meninos, tendo significados diferenciados, a depender 
do lugar que a sociedade atribui ao adolescente 
em dado momento histórico.” (SANTOS, et al, 2017, 
P. 17) A gravidez na adolescência, além de ser uma 
construção social e um acontecimento visto sob o 
olhar de desrespeito, submissão e violação de direitos, 
é também considerada uma reprodução familiar, isto 
é, meninas grávidas que tem mães que engravidaram 
na adolescência. 
A gravidez na adolescência vem ocorrendo desde 
os primórdios da civilização. Na Idade Média quando 
as meninas apresentavam os primeiros sinais da 
menarca e da puberdade, casavam-se com homens 
mais velhos (com 30 anos ou mais) a fim de iniciar a 
reprodução e só paravam de reproduzir por alguma 
complicação de saúde ou se viessem à óbito. No 
Brasil, no século XX, as “sinhazinhas” casavam-se com 
maridos escolhidos pelos pais e seu dever era gerar 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
124
filhos para seus maridos. (SANTOS; NOGUEIRA, 2009)
A realidade permaneceu até o final do século XX. 
Com a Revolução Industrial e o ingresso feminino no 
mercado de trabalho, para realizar tarefas exercidas 
por homens, o papel da mulher sofreu alterações. 
Contudo, essa mudança não foi acompanhada 
por políticas que permitissem a ressignificação da 
mulher em sua vida pessoal, “surgia então uma nova 
concepção: a da adolescente que se lançava no 
mercado de trabalho” (SANTOS; NOGUEIRA, 2009, 
p. 50). E a gravidezera considerada um impeditivo 
da evolução profissional, afetando também a renda 
familiar, que agora já contava com a contribuição 
financeira da mulher para custear as despesas da 
casa. (SANTOS; NOGUEIRA, 2009)
Com o fim da II Guerra Mundial, em 1945, os 
valores sociais tiveram uma quebra paradigmática e 
os jovens passaram a viver num mundo de liberdade 
sexual e convivência em grupos. Os anos de 1950 
foram considerados um marco na mudança de vida e 
do papel social da mulher, a pílula anticoncepcional 
significou a liberdade sexual feminina, até então não 
reconhecida. (SANTOS; NOGUEIRA, 2009)
Assim, no momento em que a gravidez se tornou 
um planejamento racional, a adolescente grávida 
começa a se mostrar como um problema “[...] por 
estar na contramão das expectativas sociais em 
relação às jovens contemporâneas”. (NUNES, 2010) A 
pílula anticoncepcional e a posterior libertação sexual 
feminina representou também sua emancipação, 
contudo trouxe a problemática da gravidez na 
adolescência como um descuido feminino, anulando o 
Direitos de Juventude
125
papel do homem na concepção. 
Na década de 1980 começaram os estudos 
problematizando a gravidez na adolescência no Brasil, 
e os discursos de médicos e psicólogos passaram a 
apontar a gravidez precoce como um problema de 
saúde pública, por motivar distúrbios psíquicos e riscos 
físicos para mãe e para o bebê. O debate se intensificou 
no Brasil a partir do aumento de nascimentos de 
bebês com mães com menos de 20 anos de idade. 
É interessante observar que no século XX ter filhos 
antes dos 20 anos não era considerado um tema para 
debate, se a menina estivesse casada, a gravidez 
era vista como natural e positiva pela família e pela 
sociedade (NUNES, 2010).
A gravidez na adolescência como um “problema 
social” é fruto do século XXI. Décadas atrás, parir 
antes dos 19 anos não era objeto de debate público, 
somente a partir das alterações do padrão de 
fecundidade e da reformulação da posição social da 
mulher na sociedade, foi possível para as mulheres a 
escolarização e a profissionalização, o que propiciou 
que mulheres gerassem filhos fora da entidade do 
casamento. (BRANDÃO; HEILBORN, 2006)
Nas sociedades ocidentais, antes do século 
XVIII, nem a mulher, nem a maternidade 
e tampouco os filhos eram socialmente 
valorizados. Discursos políticos e religiosos 
da época reforçavam essa insignificância. 
Isso se modificou no final desse mesmo 
século, com a necessidade crescente 
de mão de obra para as indústrias em 
expansão. (ARAUJO; MANDÚ, 2017, p. 1143)
A gravidez precoce apresenta-se como uma 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
126
ruptura no período da adolescência e ocorre com 
mais frequência em camadas sociais populares, onde 
os adolescentes são desinformados, tem dificuldade 
em acessar os métodos contraceptivos e vivem em 
situação de marginalidade social. A gravidez na 
adolescência também propicia a formação de mais 
lares monoparentais, que contam somente com a 
presença da mãe, a constituição de uma prole mais 
numerosa, a esterilização precoce, o abandono escolar 
e, consequentemente, a precarização de ingresso no 
mercado de trabalho. O que vem a afetar o processo 
de inserção social de mulheres que foram mães 
adolescentes. (BRANDÃO; HEILBORN, 2006)
A nova perspectiva sobre a gravidez na 
adolescência, que ressalta principalmente a 
vulnerabilidade social, representa um reordenamento 
da fase adolescente e a transposição de uma das 
fases mais importantes da vida, podendo, em alguns 
casos, resultar num adulto patológico e imaturo para 
lidar com os problemas da vida cotidiana. A menina 
se vê, de repente, como mãe e não raras vezes 
também como esposa e dona de casa ou como única 
responsável pelo/a filho/a, abrindo mão de todos os 
sonhos e objetivos. 
A gravidez na adolescência também vem se 
mostrando como uma repetição de papéis, isto é, 
muitas adolescentes grávidas possuem mães que 
também engravidaram na adolescência. Ademais, 
a ausência de uma perspectiva emancipadora, faz 
com que adolescentes acreditem que a constituição 
de uma família é o melhor a se fazer, não pensando 
na possibilidade de se tornarem mães-solo ou ter que 
Direitos de Juventude
127
abandonar a escola e o trabalho. 
Por isso, a gravidez na adolescência também se 
mostra um produto do costume, dos valores, da cultura 
e das regras morais e sociais da família da adolescente. 
Renepontes e Einsenstein (2005, p.11) afirmam que 
para compreender a grávida adolescente é preciso 
observar seu mundo interno, sua história prévia e o 
contexto externo e a história atual em que se vive, “[...] 
pois o indivíduo influencia o seu contexto e é por ele 
influenciado em sequência de ação constantemente 
recorrente”.
Percebe-se que as meninas, não obstante vivam 
em uma sociedade que prega os valores da educação e 
do trabalho, vão no sentido contrário das expectativas 
sociais. A gravidez na adolescência que antes era fruto 
de casamento infantil e propiciava a assunção de 
uma vida adulta, hoje possui características distintas. 
Araujo e Mandú (2017), em uma pesquisa de campo, 
apontaram que a maioria das meninas mães são 
solteiras e dependentes de seus pais, diferenciando-se 
das meninas grávidas do século XIX, por exemplo, onde 
a gravidez era naturalizada dentro do matrimônio. 
A cultura, fruto de uma série de elementos sociais, 
culturais, econômicos e educacionais, faz com que a 
reprodução na adolescência ainda seja um fato natural 
para muitas famílias. Um dos grandes motivadores 
para a gravidez na adolescência é a união precoce, 
como um sentimento de esperança da adolescente 
e de sua família, quanto a condições econômicas e 
valorização social. 
Em contextos de pobreza e baixa escolaridade, 
é comum que meninas vejam na maternidade um 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
128
rumo para suas vidas e muitos desses desejos tem 
apoio familiar, mesmo com as ondas de informação e 
disseminação da utilização de contraceptivos, ainda 
há uma parcela social que segue a cultura da gravidez 
precoce, indo contra a nova cultura introjetada 
atualmente. 
3 As causas e consequências para ocorrência 
da gravidez na adolescência sob a perspectiva 
social e cultural da maternidade
A gravidez precoce implica em diversas questões 
que transpõem o papel de mãe, vindo acompanhada, 
inúmeras vezes, de abandono escolar e afastamento 
do trabalho, fazendo com que as meninas sejam 
inteiramente dependentes de seus companheiros, 
pais ou vivam em situação de miserabilidade. O papel 
cultural de submissão ocupado pelas mulheres ao 
longo dos anos, também reforça os estigmas de gênero, 
construindo um mercado de trabalho majoritariamente 
masculino, corroborando para a exclusão feminina da 
economia, da política, do ambiente educacional e de 
posições de destaque social.
A partir disto, a análise da gravidez precoce 
associada ao papel social e a dificuldades econômicas 
demonstra sua relevância, quando se observa que a 
maioria das meninas grávidas pertencem a classes 
baixas e tem uma tendência a reproduzir o modo de 
vida de seus antepassados. As desigualdades de gênero 
também são legitimadas pelo baixo ou inexistente 
poder econômico da menina na família, uma vez 
que inúmeras meninas antes ou após a gravidez 
Direitos de Juventude
129
não conseguem concluir o ensino fundamental e/ou 
médio, implicando diretamente nas oportunidades 
de trabalho; fazendo com que o homem domine 
emocional e economicamente a relação, reduzindo 
ainda mais a possibilidade de emancipação das 
meninas e mulheres. 
A escola é considerada um dos grandes pilares 
de crescimento e desenvolvimento para crianças e 
adolescentes. Contudo, esse ambiente reforça, por 
vezes, a segregação de classes e raças, privilegiando 
os brancos e ricos e corroborando com o sentimento 
de fracasso dos pretos/pardos e pobres. Segundo 
Hernandéz (2014, p. 17), “las experiencias de fracaso 
escolar les confirmansus limitaciones, a la vez que el 
contexto de pobreza les muestra que, si bien estudiar es 
importante y socialmente valorado, no es un proyecto 
al que ellas puedan aspirar.”
A condição de exclusão do ambiente educacional 
se dá desde muito antes da gravidez, não raras vezes, 
as meninas já haviam reprovado e/ou trocado de escola 
por dificuldades em aprendizagem ou sentimento de 
não pertencimento, ou seja, os fatores que afastam as 
meninas do estudo, como a necessidade de trabalhar 
para contribuir com a renda familiar ou a necessidade 
de cuidado de familiares. A exclusão escolar 
constitui apenas um dos aspectos da exclusão social 
amplamente vivenciada pelas meninas. (HERNANDÉZ, 
2014)
Essa realidade também é apontada por Heilborn 
et al (2009) no Brasil, onde inúmeras meninas que 
vivem em contexto de pobreza e marginalização, 
abandonam a escola antes de engravidarem. A 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
130
pesquisa também aponta que meninas entre 15 e 18 
anos possuem responsabilidades domésticas, o que 
também acaba prejudicando a dedicação aos estudos. 
A pesquisa qualitativa realizada por Hernández 
(2014), apontou fatores de vulnerabilidade como 
relações familiares ruins, alcoolismo na família, 
violência intrafamiliar, abandono escolar antes da 
gravidez, ingresso no mercado de trabalho antes 
da gravidez, responsabilidade pelos afazeres 
domésticos, dentre outros; como elementos de risco 
para a adolescente e que somente podem ter sido 
asseverados com a gravidez, afirmando não haver 
impactos socioeconômicos provocados diretamente 
pela gravidez precoce.
A análise de características facilitadoras da 
reprodução precoce, das consequências e das 
expectativas das adolescentes, Sierra-Macías et 
al (2016) expõe que os principais facilitadores da 
gravidez na adolescência são as práticas sexuais de 
risco e a falta de maturidade; dentre as principais 
consequências observadas, foram apontadas a má 
saúde mental, mudança nos planos para o futuro, 
abandono do companheiro e conflitos familiares. Já 
as expectativas das adolescentes são fazer com que 
a gravidez se torne algo positivo e, para as que ainda 
estão grávidas, a possibilidade de aborto. 
Os impactos de uma gravidez precoce na vida 
de uma adolescente aumentam consideravelmente 
quando o pai da criança decide se eximir de 
qualquer responsabilidade. A corresponsabilidade 
na maternidade é um dos pontos principais para a 
reinclusão da menina no âmbito educacional e laboral, 
Direitos de Juventude
131
uma vez que se o pai e/ou companheiro compartilhar 
as tarefas de cuidado com a criança e do lar, a mulher 
tem a oportunidade de se dedicar a objetivos pessoais. 
A conjugalidade também é uma característica 
da gravidez precoce, mães adolescentes tem maior 
probabilidade de conviver com seus companheiros, 
se comparadas a meninas que não engravidaram 
na adolescência. Santos (2013), faz um estudo com 
adolescentes que tiveram filhos num período igual ou 
inferior a dois anos e adolescentes que foram mães 
a mais de dois anos, e aponta que grande parte das 
meninas que compõem o primeiro grupo (mães com 
filhos em período inferior a dois anos) vivem em união 
conjugal com o pai do bebê, mesmo que não haja 
preparação para os cuidados com o filho. 
Os impactos socioeconômicos de curto prazo na 
vida de mães adolescentes, envolvem o agravamento 
das violações de direito, o que a longo prazo intensifica 
as diferenças sociais, raciais e de gênero. A baixa 
escolaridade está intrinsicamente associada a gravidez 
precoce, Santos (2013) observou que a maioria das 
meninas mães, interromperam seus estudos no ensino 
fundamental e não retornaram mais. Em relação ao 
ingresso no ensino superior, a proporção de mulheres 
mães na adolescência é cerca de três vezes menor 
em comparação a grupos de mulheres que não 
engravidaram precocemente. 
A gravidez precoce e a condição social também 
devem ser associadas a cor de pele, uma vez que a 
maior parcela de pessoas que compõem as classes 
sociais e concentram o maior número de gravidezes 
na adolescência são pessoas negras e pardas, o que 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
132
permite constatar que a gravidez na adolescência é 
uma característica de pessoas negras/pardas e pobres. 
(SANTOS, 2013)
As dificuldades de inclusão educacional e laboral, 
por vezes é superada, quando a adolescente encontra 
apoio na família e no companheiro. Na pesquisa 
realizada com mães adolescentes, Santos (2013) 
constatou que, apesar do abandono escolar durante 
a gravidez ou depois que o bebê nasce, as meninas 
conseguem se reintegrar à escola posteriormente. 
Contudo, o desenvolvimento dessas adolescentes 
mães depende de uma rede de apoio que auxilie nos 
cuidados com o filho e incentive a menina a progredir. 
A feminização da pobreza cresce em contextos 
latino-americanos, uma vez que além da pobreza, há 
fatores sociais, culturais e de gênero que corroboram 
com a submissão da mulher ao âmbito estritamente 
familiar e doméstico. Reyes e Almontes (2014), ressaltam 
que as mulheres latino-americanas são as que possuem 
os níveis mais altos de atraso e abandono escolar, seja 
pela situação de precariedade socioeconômica, como 
também pelo padrão cultural que valoriza mais a 
escolaridade masculina e considera que o papel das 
mulheres deve se limitar a reprodução humana e ao 
ambiente doméstico.
Apesar da gravidez precoce representar a 
interrupção nos planejamentos de adolescentes e 
na expectativa da família por um futuro melhor, 
pesquisas apontam que a mulher, independentemente 
de engravidar durante a adolescência ou na vida 
adulta, ficará prejudicada no mercado de trabalho. 
O que demonstra a existência de desigualdades de 
Direitos de Juventude
133
gênero no mercado de trabalho, favorecendo a figura 
masculina, pois a mulher com filhos, possuindo ou não 
uma relação marital, é vista como menos capaz do 
que um homem, solteiro ou casado, com filhos ou sem 
filhos. (SOUZA; RIOS-NETO; QUEIROZ, 2011)
Ademais, o Brasil é um dos países com maior 
desemprego no mundo na faixa etária de jovens de 
18 a 24 anos de idade, e também o segundo país 
com mais jovens que não trabalham e nem estudam. 
(INEP, 2019) Esses dados demonstram as limitadas 
oportunidades disponíveis para adolescentes e jovens, 
refletindo na vida adulta e gerando, inúmeras vezes, 
um ciclo de pobreza e privações. 
Das adolescentes que se tornam mães, as de 
classes mais pobres são as que sofrem mais impactos 
com a gravidez. Na pesquisa realizada por Taborda e 
outros (2014), com mães adolescentes pertencentes a 
diversos estratos sociais, as meninas das classes mais 
pobres, são as que mais relataram dificuldades a partir 
da chegada do bebê, quanto ao abandono escolar, 
uma das meninas relata: “Tenho até vontade de voltar 
a estudar, mas agora não tem como, mas assim que a 
minha filha crescer um pouco mais eu volto (C3 classe 
C)” (TABORDA et al, 2014, P. 19), o discurso altera-se 
completamente quando se trata de uma adolescente 
da classe A. 
Os principais impactos sociais e econômicos 
da gravidez precoce, a partir da visão das mães 
adolescentes e dos pesquisadores, foi o abandono 
escolar e a perda de oportunidades educacionais e 
profissionais. As desigualdades de classes e gênero, 
também são fatores que influenciam demasiadamente 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
134
nas trajetórias de vida das adolescentes mães, sendo 
que meninas pertencentes a classes pobres e de pele 
negra sofrem impactos diretamente, uma vez que 
reduzem as já limitadas oportunidades de mobilidade 
social. 
4 A relação entre a vivência da sexualidade 
na adolescência e a gravidez precoce à luz da 
teoria das representações sociais
A adolescência é um papel social, visto 
que tal período é considerado como uma atitude 
ou postura do ser humano durante uma etapa de 
seu desenvolvimento, permitindo a reflexão e a 
visualizaçãodas expectativas da sociedade sobre as 
características deste grupo (SILVA, 2011).
Não se pode descrever a adolescência como 
uma simples adaptação às mudanças corporais, 
mas como uma importante fase no ciclo existencial 
da pessoa, uma tomada de posição social, familiar, 
sexual e entre o grupo que se constitui num período de 
transformações físicas e emocionais, sendo considerada 
desta forma, como um momento de inúmeros conflitos 
e de crises (SILVA, 2011). 
Iniciada de forma cada vez mais precoce, a 
sexualidade, elemento primordial da vida humana, 
e ainda considerada um tabu no presente contexto 
social, representa um dos grandes problemas na 
atualidade. Em consequência, jovens e adolescentes 
que buscam informações acerca do assunto acabam 
por experienciar opressão e censura, o que resulta, 
inúmeras vezes, em relações sexuais imprudentes e 
Direitos de Juventude
135
possível gravidez indesejada (COSTA; FREITAS, 2020). 
A gravidez precoce prejudica a emancipação 
feminina, ocasionando a evasão escolar, ingresso 
precoce no mercado de trabalho, desqualificação, 
violência e diminuição de oportunidades, sendo um 
resultado multifatorial que envolve questões familiares, 
sociais, culturais e educacionais. Esse problema 
perpassa o âmbito familiar, figurando um problema 
social e de Estado, uma vez que ocorre por uma série 
de elementos, não devendo ser atribuído única e 
exclusivamente a imprudência de adolescentes e ao 
descuido dos responsáveis (DIAS; TEIXEIRA, 2010).
São altos os índices de gravidez precoce no 
Brasil, uma vez que 28 a 30% dos recém-nascidos 
são filhos de mães com idade inferior a 19 anos. O 
número de adolescentes com idade entre 10 a 14 anos 
que esperavam um filho ou estavam no pós-parto, 
segundo a pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro 
de Geografia e Estatística (IBGE), quase dobrou entre 
2000 e 2002 (PIEVE, 2009).
A concepção da liberação do comportamento 
social, em específico o da sexualidade, contribui 
consideravelmente para o elevado aumento da 
gravidez no período da adolescência, tendo em vista 
o desconhecimento do próprio corpo enquanto função 
reprodutora, derivada da ausência de uma educação 
esclarecedora tanto no âmbito familiar como no escolar 
e social. A liberação dos costumes, entretanto, não é 
sempre acompanhada de informação necessária sobre 
as consequências da atividade sexual sem proteção e 
precocemente iniciada (PIEVE, 2009).
A sexualidade, bem como os demais 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
136
acontecimentos dela decorrentes, permite analisar 
a primazia do pensamento social em relação ao 
pensamento individual, buscando evidenciar o modo 
como os adolescentes definem e vivenciam tais 
situações. Neste viés, Durkheim (1956) foi um dos 
primeiros estudiosos que propôs e introduziu o termo 
“representação social”, ou “representação coletiva’’, 
sendo a teoria importante para a compreensão da 
interferência social e cultural durante a adolescência e 
para fornecer suporte à família, comunidade, escola e 
serviços de saúde na abordagem acerca da temática.
A representação social pode ser entendida 
como um conjunto de ideias, imagens, concepções 
e visões de mundo que os sujeitos possuem sobre 
a realidade, as quais estão vinculadas às práticas 
sociais. Ao mesmo tempo, cada grupo social elabora 
as suas representações de acordo com a sua posição 
na sociedade, apresentando correlação com os seus 
interesses específicos e com a própria dinâmica da 
vida cotidiana.
Durkheim considerava a representação 
individual como um fenômeno psíquico autônomo 
não redutível à atividade cerebral que a fundamenta, 
enfatizando a especificidade e a primazia do 
pensamento social em relação ao pensamento 
individual. Assim, sugere-se que os comportamentos 
são influenciados pela representação social, seja 
ela de um objeto ou de uma situação, uma vez que 
a representação coletiva não se reduz à soma das 
representações dos indivíduos que compõem a 
sociedade, mas é também uma realidade que é imposta 
ao indivíduo, ou seja, as formas coletivas de agir ou 
Direitos de Juventude
137
pensar têm uma realidade fora dos indivíduos que, em 
cada momento, conformam-se a elas. O indivíduo as 
encontra formadas e nada pode fazer para que sejam 
ou não diferentes do que são (DURKHEIM, 1956).
A adolescência é o período em que experiências 
se aceleram em decorrência da familiarização com 
representações, valores, papéis, gênero, rituais de 
interação e de práticas presentes na noção de cultura, 
sendo o aprendizado da sexualidade constituído 
de experimentação pessoal e de impregnação pela 
visão cultural e social do grupo onde o indivíduo está 
inserido.
Por conseguinte, quando na adolescência, a 
gravidez tem sido tradicionalmente caracterizada 
no campo da saúde pública como um “problema” 
ou como de “risco” para a adolescente e seu filho. No 
entanto, estudos têm apontado controvérsias nestas 
concepções, principalmente, em relação aos processos 
de significação destas experiências pelos sujeitos 
que as vivenciam. Nestes estudos, a adolescência, a 
maternidade e a paternidade são caracterizadas como 
experiências marcadas por intensas transformações e 
que assumem contornos específicos de acordo com o 
contexto histórico, cultural e social no qual se inserem 
(GOTIJO; MEDEIROS, 2009).
CONCLUSÃO
Apesar da consolidação dos direitos de 
crianças e adolescentes e da redução da natalidade 
em geral, pesquisas vêm demonstrando que os índices 
de gravidez precoce se mantêm, evidenciando a 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
138
imprescindibilidade de estratégias novas que foquem 
na prevenção e possível erradicação da gravidez 
na adolescência, a qual traz diversos prejuízos 
ao crescimento e desenvolvimento de crianças e 
adolescentes e, principalmente, de meninas que de 
modo repentino tem de superar o período infanto-
juvenil e ocupar o papel de mãe e, diversas vezes, o 
de esposa e dona de casa, tendo em vista que a causa 
principal para ocorrência do casamento precoce é a 
gravidez inesperada. 
Cada vez mais dependentes de padrões 
culturais, os papéis sexuais podem ser definidos como 
sendo o conjunto de comportamentos e condutas 
esperadas do indivíduo, conforme seu gênero. Esses 
papéis modificam de acordo com a época, local e grupo. 
Sendo assim, o comportamento sexual do adolescente 
pode ser visualizado como sendo mais resultado de 
condições do ambiente do que meramente um efeito 
derivado de transformações hormonais, pois é no 
ambiente que se podem encontrar as condições que 
favorecem a sua manifestação.
Diante disto, foi possível concluir que, na análise 
da influência cultural, evidencia-se a gravidez na 
adolescência na contramão da onda de informações 
e da universalização de métodos contraceptivos, 
demonstrando que a reprodução precoce é uma 
questão cultural e, na maioria das vezes, uma espécie 
de reprodução de vida familiar.
Direitos de Juventude
139
REFERÊNCIAS
ARAUJO, Nayara Bueno de; MANDÚ, Edir Nei Teixeira. 
Construção social de sentidos sobre a gravidez-maternidade 
entre adolescentes. Texto contexto Enferm., Florianópolis, 
v. 24, n. 4, p. 1139-1147, dez. 2015 . DOI: https://doi.
org/10.1590/0104-0707201500000450015. Disponível em: 
ttp://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
07072015000401139&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 18 set. 2020. 
BRANDÃO, Elaine Reis; HEILBORN, Maria Luiza. Sexualidade e 
gravidez na adolescência entre jovens de camadas médias do 
Rio de Janeiro, Brasil. Caderno de Saúde Pública. Rio de Janeiro, 
v. 22, n. 7, p. 1421-1430, 2006. DOI: https://doi.org/10.1590/
S0102-311X2006000700007. Disponível em: http://www.scielo.
br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X20060007000
07&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 26 abr. 2020. 
COSTA, Marli Marlene Moraes da; FREITAS, Maria Victória 
Pasquoto de. Gravidez na adolescência: quem são os 
verdadeiros culpados? Revista sobre la infancia y la 
adolescência,Universitat Politècnica de València, 2020. 
DIAS, Ana Cristina Garcia; TEIXEIRA, Marco Antônio Pereira. 
Gravidez na adolescência: um olhar sobre um fenômeno 
complexo. 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X2010000100015. 
Acesso em 10 out. 2021.
DURKHEIM, Émile. Les règles de la méthode sociologique. Paris: 
PUF, 1956. 
GONTIJO, Daniela Tavares; MEDEIROS, Marcelo. Adolescência, 
gênero e processo de vulnerabilidade/desfiliação social: 
compreendendo as relações de gênero para adolescentes em 
situação de rua. Revista Baiana de Saúde Pública, Salvador, n.4, 
v.33, out./dez., 2009.
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
140
HEILBORN, Maria Luiza. et al. Gênero e diversidade na escola: 
formação de professoras/es em Gênero, Orientação Sexual e 
Relações Étnico-Raciais. Livro de conteúdo. Rio de Janeiro : 
CEPESC, 2009. v.2.98 p. Disponível em: <http://www.e-clam.
org/downloads/GDE_VOL2_final.pdf>. Acesso em: 16 jun. 2020. 
ISBN 978-85-89737-12-8
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS 
EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA - INEP. Panorama da Educação: 
destaques do Education at a Glance 2019. Brasília: Instituto 
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 
2019. ISBN 978-65-81041-06-9.
NUNES, Silvia Alexim. Problematizando a gravidez na 
adolescência. Revista Epos. Rio de Janeiro. v. 1, n. 1. jan. 2010. 
Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S2178-700X2010000100004&lng=pt&nrm=iso. 
Acesso em: 25 abr. 2020.
PIEVE, Maria Alice Andrade de Azevedo. Gravidez na 
adolescência: um problema sociocultural. Universidade Federal 
de Minas Gerais. Faculdade de Medicina. Núcleo de Educação 
em Saúde Coletiva. Campos Gerais, 2009. 45f. Monografia 
(Especialização em Atenção Básica em Saúde da Família).
RENEPONTES, Patrícia; EISENSTEIN, Evelyn. Gravidez na 
adolescência: a história se repete. Adolescência & Saúde. v.2. 
n.3.jul/set 2005. p. 11-15. Disponível em: https://s3-sa-east-1.
amazonaws.com/publisher.gn1.com.br/adolescenciaesaude.
com/pdf/v2n3a03.pdf. Acesso em 27 abr. 2020. 
REYES, David De Jesus; ALMONTES, Esmeralda González. 
Elementos teóricos para el análisis del embarazo adolescente. 
Sexualidad, Salud y Sociedad. Rio de Janeiro. n. 17, p. 98-
123, ago. 2014. DOI: https://doi.org/10.1590/1984-6487.
sess.2014.17.07.a. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S1984-64872014000200098&lng=
pt&nrm=iso. Acesso em: 27 jun. 2020. 
Direitos de Juventude
141
SANTOS, Cristiane Albuquerque C. dos; NOGUEIRA, Kátia 
Telles. Gravidez na adolescência: falta de informação?. 
Adolescência & Saúde. v. 6. n. 1. Abr. 2009. p. 48-56. Disponível 
em: https://s3-sa-east-1.amazonaws.com/publisher.gn1.com.br/
adolescenciaesaude.com/pdf/v6n1a11.pdf. Acesso em: 25 abr. 
2020. 
SANTOS, Benedito Rodrigues dos. et al. Gravidez na 
adolescência no Brasil: Vozes de meninas e de especialistas. 
Brasília: Athalaia, 2017. Disponível em: http://unfpa.org.br/
Arquivos/br_gravidez_adolescencia_2017.pdf. Acesso em 20 jun 
2019.
SANTOS, Felícia Mariana. Os impactos da maternidade 
precoce sobre os resultados socioeconômicos de curto prazo 
das adolescentes brasileiras. 2013. Dissertação (Mestrado em 
Economia Aplicada) - Faculdade de Economia, Administração 
e Contabilidade de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 
Ribeirão Preto, 2013. doi:10.11606/D.96.2013.tde-24042013-
110617. Acesso em: 22 jun. 2020.
SIERRA-MACÍAS, Alejandra; et al. Representações sociais da 
gravidez não planejada e não desejada em mulheres jovens 
da Área Metropolitana de Guadalajara, Jalisco, México. 
Adolescência & Saúde. 2017, 14, 3, p. 30-37. Disponível em: 
adolescenciaesaude.com/detalhe_artigo.asp?id=669. Acesso 
em: 20 set. 2020. 
SILVA, Marli de Fátima. Sexualidade e gravidez na adolescência. 
Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Medicina. 
Núcleo de Educação em Saúde Coletiva. Campos Gerais, 2011. 
36f. Monografia (Especialização em Atenção Básica em Saúde 
da Família).
SOUZA, Laetícia Rodrigues de; RIOS-NETO, Eduardo Luiz 
Gonçalves; QUEIROZ, Bernardo Lanza. A relação entre 
parturição e trabalho feminino no Brasil. Rev. bras. estud. 
popul., São Paulo, v. 28, n. 1, p. 57-79, Jun/2011 . DOI: https://
doi.org/10.1590/S0102-30982011000100004. Disponível em: 
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
142
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
30982011000100004&lng=en&nrm=iso. Acesso em 29 jun. 
2020. 
TABORDA, Joseane Adriana; et al. Consequências da gravidez 
na adolescência para as meninas considerando-se as diferenças 
socioeconômicas entre elas. Cadernos de saúde coletiva. [online]. 
2014, vol.22, n.1. p.16-24. DOI: https://doi.org/10.1590/1414-
462X201400010004. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S1414-462X2014000100016&lng=p
t&nrm=iso. Acesso em 2 jul. 2020.
 
Direitos de Juventude
143
CAPÍTULO 07 - Olhares sobre as 
juventudes no brasil
André Viana Custodio1
Ismael Francisco de Souza2
1 INTRODUÇÃO
A condição do jovem no Brasil reflete uma série 
de práticas históricas de políticas substancialmente 
marcadas por fatores autoritários, relacionados à 
vigilância constante, controle e ações repressivas. 
Assim, a imagem da juventude, constantemente é 
relacionada a aspectos negativos, ocupando pouco 
espaço na agenda política no campo da gestão 
pública, quando se fala em reconhecimento de direito. 
Ao pensar em direitos e ações destinados às 
juventudes, é preciso a situação enfrentada por 
1 Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com Pós-Doutorado 
em Direito pela Universidade de Sevilha - Espanha, Coordenador Adjunto e Professor do 
Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), 
Coordenador do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens 
(GRUPECA/UNISC) e Líder do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC).
2 Doutor em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul - RS (UNISC); Mestre em Serviço 
Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, graduado em Direito pela Universidade 
do Extremo Sul Catarinense. Professor e pesquisador Permanente do Programa de Pós-
Graduação - Mestrado em Direito e da graduação em Direito. Coordenador do Grupo de 
Pesquisa: Direito da Criança e do Adolescente e Políticas Públicas e do Núcleo de pesquisa em 
Política, Estado e Direito (NUPED).
Maria Victória Pasquoto de Freitas & Amanda Geisler Aires Bispar
144
esses sujeitos, que ocupam uma condição social que 
tem como parâmetro, no Brasil, a faixa etária que 
compreende pessoas com idade entre 15 e 29 anos. 
Este trabalho tem por objetivo refletir os modos como 
a juventude contemporânea se insere na sociedade e 
de que forma os processos de construção dos direitos 
destinados à esta população são desenvolvidos ao 
longo dos anos, identificando os paradigmas das 
políticas de juventude e os caminhos trilhados até o 
momento para o reconhecimento dos/das jovens como 
sujeitos de direitos, amparados pelo ordenamento 
jurídico brasileiro. Para construção do texto, utilizou-
se do método dedutivo, compreendendo uma 
abordagem histórico crítica do tema juventude. 
2 Perspectivas sobre a juventude.
A inserção das discussões acerca das juventudes 
no âmbito dos discursos sociais se deu, até meados 
do século XX, essencialmente a partir de duas ideias 
centrais: por um lado, se considerava a juventude 
como a fase preparatória da vida, ou seja, como uma 
etapa de transição da infância para a vida adulta, 
o que exigia esforços especialmente da família e da 
escola para que a/o jovem ingressasse na vida adulta 
de forma ‘ajustada’ e ‘produtiva’, isto é, que fosse útil 
ao corpo social (AQUINO, 2009, p. 25). Seguindo essa 
lógica, tal transição seria representada por etapas 
rígidas que direcionariam o/a jovem aos papéis típicos 
do mundoadulto – estudar, ingressar no mercado de 
trabalho, casar e ter filhos/as – e quando essas etapas 
não eram devidamente seguidas, tal comportamento 
Direitos de Juventude
145
era considerado um desvio ou disfunção do processo 
de socialização. Quaisquer desvios e disfunções 
representavam a etapa problemática da juventude, 
quando era apontada a necessidade do enfrentamento 
pela sociedade dos problemas sociais geralmente 
associados às/aos jovens, sendo direcionadas à essa 
população as ações de controle social repressivo 
(AQUINO, 2009, p. 26).
No mesmo sentido, na América Latina, 
historicamente o desenvolvimento das políticas de 
juventude tem sido determinado pelos problemas de 
exclusão dos/das jovens e pelas formas de lhes facilitar 
a transição ao mundo adulto (ABAD, 2002). No entanto, 
embora de fato contribuam para que as/os jovens 
tenham trajetórias menos complicadas em direção à 
vida adulta, esses tipos de política pressupõem que 
os problemas de inserção são inerentes à juventude; 
constrói-se, dessa forma, uma visão adultocêntrica, a 
qual posiciona o status adulto como o único meio de 
plena incorporação social (ABAD, 2002). A partir dessa 
visão, os/as jovens não seriam por si só considerados/
das sujeitos de direitos, sendo a juventude entendida 
somente como um meio de atingir a idade adulta.
Embora essas concepções de juventude tenham 
sido consolidadas em contextos ideológicos anteriores, 
é possível identificá-las rotineiramente quando 
suscitadas as questões dos/das jovens (AQUINO, 
2009, p. 26), ou seja, “as representações correntes ora 
investem nos atributos positivos dos segmentos juvenis, 
responsáveis pela mudança social, ora acentuam 
a dimensão negativa dos “problemas sociais” e do 
desvio” (CARRANO; SPOSITO, 2003, p. 19).
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
146
Por outro lado, partindo de uma concepção 
ampliada de direitos, “alguns setores da sociedade 
brasileira têm se voltado para a discussão da situação 
dos adolescentes e dos jovens” (CARRANO; SPOSITO, 
2003, p. 19), principalmente a partir do ano de 1985, 
instituído pela ONU como o Ano Internacional da 
Juventude: Participação, Desenvolvimento e Paz, 
impulsionando discussões e inserindo o tema juventude 
na agenda internacional. 
A partir daí, “delineia-se nova perspectiva 
sobre a juventude, em que perde força a conotação 
problemática do/da jovem e ganha relevo um enfoque 
completamente inovador: a juventude torna-se ator 
estratégico do desenvolvimento” (AQUINO, 2009, p. 
26)
Em um contexto em que a juventude surge 
de forma múltipla como questão social 
relevante – seja pelos problemas que 
vivencia, seja pelas potencialidades de 
realizações futuras, seja ainda pelo que há 
de genuinamente rico neste momento do 
ciclo da vida –, cabe pensar os desafios que 
se apresentam para a sociedade brasileira 
em termos de atenção aos jovens (AQUINO, 
2009, p. 26).
Atualmente, ao pensar em direitos e ações 
destinados às juventudes, é preciso considerar a 
situação enfrentada por esses sujeitos, que ocupam 
uma condição social que tem como parâmetro, no 
Brasil, a faixa etária que compreende pessoas com 
idade entre 15 e 29 anos. No entanto, essa classificação 
serve apenas como um recorte para referenciar 
a elaboração de políticas públicas destinadas à 
Direitos de Juventude
147
juventude, pois “ser jovem no Brasil contemporâneo 
é estar imerso – por opção ou por origem – em uma 
multiplicidade de identidades, posições e vivências” 
(BRASIL, 2006, p. 05). 
Um dos principais desafios para alcançar o pleno 
reconhecimento dos direitos dessa população reside 
no fato de que, no âmbito da juventude, existem 
várias juventudes, ou seja, é preciso reconhecer a 
existência de uma diversidade de identidades juvenis 
e dimensões de identificação, tais como gênero, cor da 
pele, situação econômica, local de moradia, cotidiano, 
etc., de forma que para afirmar os direitos dos e 
das jovens se faz necessário articular a busca pela 
igualdade individual de condições com a valorização 
da diferença (BRASIL, 2006, p. 06).
Destaca-se que as necessidades decorrentes 
da pobreza e dos processos de exclusão social, 
em conjunto com as necessidades inerentes ao 
desenvolvimento dos e das jovens, exigem ações 
que perpassam a necessidade de transferência de 
renda e bens materiais. Reconhecer os direitos da 
juventude significa associar serviços e benefícios que 
contribuam para o reforço da autoestima dos jovens, o 
desenvolvimento de sua autonomia e capacidade de 
sobrevivência futura (BRASIL, 2009).
Nesse sentido, e a grosso modo, 
considerando o fato dos jovens comporem 
o contingente populacional mais vitimizado 
pelas distintas formas de violência presentes 
no Brasil; enfrentarem enormes dificuldades 
de ingresso e permanência no mercado de 
trabalho; sofrerem impedimentos no acesso 
a bens culturais; não terem assegurado o 
direito a uma educação de qualidade e 
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
148
não receberem tratamento adequado no 
tocante as políticas públicas de saúde e 
lazer, o reconhecimento de seus direitos 
deve estar alicerçado em uma perspectiva 
ampla de garantia de uma vida social 
plena e de promoção de sua autonomia. 
Portanto, seu desenvolvimento integral é 
legítimo e de interesse de todo o conjunto 
da sociedade (BRASIL, 2006, p.07).
O olhar sobre a juventude deve ter como foco 
principal a emancipação das/dos jovens, titulares de 
direitos que devem ser exercidos não como um meio 
de transição para a vida adulta, mas como forma de 
inserção integral e participação ativa na sociedade, 
para que se tornem protagonistas de suas próprias 
histórias. 
3 Adolescência e juventude: delimitando 
conceitos
As confusões conceituais acerca dos termos 
‘adolescente’ e ‘jovem’, muitas vezes entendidos 
como sinônimos, é utilizado para representar uma 
mesma fase do desenvolvimento humano demarcada 
por transformações físicas, biológicas, fisiológicas e 
psicológicas; a partir dessa concepção, a adolescência/
juventude seria a etapa responsável pela conexão 
do período da infância com a idade adulta. Essas 
terminologias
[...] ora se superpõem, ora constituem 
campos distintos, mas complementares, 
ora traduzem uma disputa por distintas 
abordagens. Contudo, as diferenças e 
as conexões entre os dois termos não 
são claras, e, muitas vezes, as disputas 
Direitos de Juventude
149
existentes restam escondidas na imprecisão 
dos termos (FREITAS, 2005, p. 06)
Diferentes abordagens e enfoques são dados à 
adolescência e à juventude a partir de diferentes áreas 
do conhecimento; neste trabalho, a necessidade de 
delimitação desses termos se dá, pois, para construir 
programas e políticas direcionados, é preciso ter clara 
noção de quem são os sujeitos a quem se destinam e 
quais as suas problemáticas específicas.
No campo político, a partir da década de 1980, 
ambiente de abertura democrática, a terminologia 
“adolescência” ( juntamente com a “infância”) 
ocupou o foco dos debates, da mídia e das ações 
sociais e estatais no Brasil, resultado de importantes 
movimentos da sociedade civil em defesa dos direitos 
da criança e do adolescente. Com esses movimentos, 
se delineou na sociedade um novo olhar para a 
criança e o adolescente, fundamentado na Teoria da 
Proteção Integral: infância e adolescência passaram 
a ser reconhecidas como etapas do desenvolvimento 
humano que exigem cuidado e proteção especiais da 
família, do Estado e da sociedade (SOUZA; SOUZA, 
2008).
Com a promulgação da Constituição da 
República Federativa do Brasil, em 1988, foi 
incorporada no ordenamento jurídico brasileiro a 
Teoria da Proteção Integral, e em 1990 foi promulgado 
o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), 
que contempla de forma específica e detalhada os 
direitos e garantias relativos à infância e adolescência 
estabelecidos na Constituição Federal e protegidos 
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
150
pela legislação internacional (SOUZA;SOUZA, 2008).
O Estatuto da Criança e do Adolescente 
compreende como adolescente a pessoa com 
idade entre doze e dezoito anos. Essa definição de 
adolescência se tornou “uma ampla referência para 
a sociedade, desencadeando uma série de ações, 
programas e políticas para estes segmentos” (FREITAS, 
2005, p. 07). O Estatuto da Criança e do Adolescente 
representou um marco para o estabelecimento de 
uma nova noção de cidadania para essas pessoas, 
que passaram a ser público-alvo de ações públicas e 
privadas como “programas desenvolvidos tanto pelo 
Estado como por ONGs, no campo da saúde, do lazer, 
da defesa de direitos, da prevenção de violência, de 
educação complementar e alternativa” (FREITAS, 
2005, p. 07).
A importância e urgência deste tema 
polarizaram o debate no que diz respeito 
à juventude, fazendo com que este termo, 
por muito tempo, se referisse ao período 
da adolescência e com que praticamente 
todos os serviços e programas montados, 
tanto pelo Estado como por entidades 
da sociedade civil, tivessem como limite 
máximo os 18 anos de idade. Os jovens para 
além dessa idade ficaram fora do escopo 
das ações e do debate sobre direitos e 
cidadania (ABRAMO, 2005, p. 24).
Embora a legislação específica determine 
que a etapa especial do desenvolvimento humano 
se encerra aos dezoito anos – quando a pessoa 
atinge a maioridade – os processos e dificuldades de 
inserção, adequação e atuação na sociedade não são 
necessariamente resolvidos com o fim da adolescência. 
Direitos de Juventude
151
Nesse ponto emergem no cenário político assuntos 
relacionados à juventude para além da adolescência, 
demandando novas respostas e ações no plano das 
políticas (FREITAS, 2005).
Novos temas relacionados à juventude com 
idade superior a dezoito anos adquiriram visibilidade 
a partir da década de 1990: desemprego, gravidez 
precoce, uso abusivo de drogas, doenças sexualmente 
transmissíveis e envolvimento com a violência são 
algumas das questões que fizeram com que as/os 
jovens emergissem como foco grave de problemas, 
para si próprios e para a sociedade. Essa visibilidade 
está relacionada ao paradigma da juventude como 
etapa problemática, já mencionado anteriormente, e 
gerou ações de contenção e prevenção, desenvolvidas, 
em geral, como uma extensão – em termos de faixa 
etária – por ONGs que já militavam na área da 
infância e adolescência, sem aprofundamento ou 
compreensão da singularidade e diversidade dos/das 
jovens (ABRAMO, 2005). Embora inicialmente vista 
como uma questão negativa, tal visibilidade gerou 
consequências positivas para a juventude, pois foi 
um passo inicial para a compreensão do/da jovem 
como sujeito de direitos e, consequentemente, para 
o desenvolvimento de ações e políticas para essa 
população, como será estudado posteriormente.
Percebe-se que o marco etário é a principal 
forma de diferenciar adolescência e juventude, o que 
se justifica pelo fato de que esses sujeitos vivenciam um 
período do ciclo vital entre a infância e a maturidade. 
Nesse sentido, considerando as diferentes concepções 
acerca da/do adolescente e do/da jovem, em termos 
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
152
de faixa etária é possível delimitar a adolescência como 
o período entre os doze e dezoito anos; além disso, 
existem questões biofisiológicas que são universais e 
se estendem da puberdade até o desenvolvimento 
completo da maturidade reprodutiva. Existem ainda 
características intelectuais, cognitivas e de identidade, 
além de elementos sociais, culturais, morais e de valor 
que também são constitutivos da adolescência e 
variam com o tempo e de uma sociedade para outra, 
de um grupo para outro (LEÓN, 2005, p. 12).
A juventude, por sua vez, compreende pessoas 
com idade entre 15 e 29 anos, e é concebida – de 
forma breve e sintética, pois será vista com mais 
detalhes posteriormente – “como uma categoria 
etária (categoria sociodemográfica), como etapa de 
amadurecimento (sexual, afetiva, social, intelectual e 
físico/motora) e como subcultura” (LEÓN, 2005, p. 12).
Atualmente, uma das tendências, no 
interior do debate sobre políticas públicas, 
é distinguir como dois momentos do 
período de vida amplamente denominado 
juventude, sendo que a adolescência 
corresponde à primeira fase (tomando 
como referência a faixa etária que vai dos 
12 aos 17 anos, como estabelecido pelo 
ECA), caracterizada principalmente pelas 
mudanças que marcam esta fase como 
um período específico de desenvolvimento, 
de preparação para uma inserção futura; 
e juventude (ao que alguns agregam o 
qualificativo propriamente dito, ou então 
denominam como jovens adultos, ou ainda 
pós adolescência) para se referir à fase 
posterior, de construção de trajetórias de 
entrada na vida social (FREITAS, 2005, p. 
08).
Direitos de Juventude
153
O cuidado com a delimitação dos termos 
se justifica, pois, sua similaridade pode levar a 
ambiguidades que, como consequência, correm o risco 
de resultar em invisibilidades de situações específicas, 
gerando a exclusão de múltiplos sujeitos do debate e 
do processo político.
4 Constituir-se jovem na sociedade 
contemporânea: paradigmas das políticas de 
juventude
Na contemporaneidade, houve uma diluição 
dos papéis sociais que competem a cada faixa 
etária; “tudo se coloca ao alcance de todos; todos 
estão susceptíveis a tudo: a formação, o trabalho, o 
início da vida sexual, a maternidade/paternidade, a 
aposentadoria, o desemprego, entre outros” (SILVA, 
2006). Esse deslocamento de espaços e de experiências 
que podem acessar gera indefinições e ambiguidades 
acerca do que é ser jovem, bem como dos papéis que 
lhes cabem exercer na sociedade.
As ações e políticas dirigidas aos/às jovens são 
pautadas por diferentes paradigmas e concepções 
que ao longo da história inscreveram a juventude 
como questão social, que ora coexistem, ora 
competem entre si. A juventude pode ser entendida 
ao mesmo tempo como uma condição social e como 
um tipo de representação: por um lado, existe a ideia 
generalizada de juventude como uma etapa da vida 
que compreende determinada faixa etária, em que os 
sujeitos invariavelmente passam por transformações 
físicas, biológicas, fisiológicas e psicológicas: é a partir 
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
154
da puberdade que se desencadeiam mudanças em 
razão das atividades hormonais, o que gera um processo 
de perda do corpo infantil; por outro lado, existe a 
construção social da juventude que ocorre de formas 
diferentes em cada sociedade, sendo representada de 
forma diversa de acordo com determinados fatores, 
tais como classe social, espaço geográfico, condição 
cultural, gênero, etnia, entre outras.
A definição de juventude pode ser 
desenvolvida por uma série de pontos de 
partida: como uma faixa etária, um período 
da vida, um contingente populacional, 
uma categoria social, uma geração. Mas 
todas essas definições se vinculam, de 
algum modo, à dimensão de fase do ciclo 
vital entre a infância e a maturidade. Há, 
portanto, uma correspondência com a faixa 
de idade, mesmo que os limites etários 
não possam ser definidos rigidamente; 
é a partir dessa dimensão também que 
ganha sentido a proposição de um recorte 
de referências etárias no conjunto da 
população, para análises demográficas 
(FREITAS, 2005, p. 06).
Existem recortes etários que determinam a 
juventude como uma etapa (dos 15 aos 24 anos de 
acordo com as Nações Unidas e dos 15 aos 29 anos 
no Brasil, de acordo com a Política Nacional da 
Juventude), no entanto, tal critério não é suficiente 
para definir esse grupo de pessoas. “A idade, como 
critério para agrupar as pessoas, traz implícito o 
caráter da transitoriedade. Neste caso, a juventude 
representaria uma transição, e ser jovem seria estar 
numa condição provisória” (SOUZA, 2013).
Tendo como referência central o conceito 
Direitos de Juventude
155
de socialização, esta abordagem sugere 
que a transição é demarcada por etapas 
sucessivamente organizadasque garantem 
a incorporação pelo jovem dos elementos 
socioculturais que caracterizam os papéis 
típicos do mundo adulto – trabalhador, 
chefe de família, pai e mãe, entre outros: à 
frequência escolar somar-se-ia, em primeiro 
lugar, a experimentação afetivo-sexual, 
que seria sucedida progressivamente pela 
entrada no mercado de trabalho, pela 
saída da casa dos pais, pela constituição 
de domicílio próprio, pelo casamento e 
pela parentalidade. Ao fim deste processo, 
o jovem-adulto adentraria uma nova fase 
do ciclo da vida, cuja marca distintiva seria 
a estabilidade (AQUINO, 2009, p. 25).
Esse ‘período de capacitação’, atribuído aos/
às jovens pela família e pela sociedade, é conhecido 
como moratória social, constituída por essa fase de 
postergação de responsabilidades perante o mundo 
adulto em que é disponibilizado ao/à jovem tempo livre 
para o lazer, para a diversão, para o desenvolvimento 
da criatividade; “é uma fase de ensaio e erro, onde a 
juventude pode contar com maior condescendência 
familiar e social para com as suas práticas, visto 
serem entendidas como parte do exercício de 
amadurecimento” (SILVA, 2006, p. 60). De acordo com 
a autora, é por meio da moratória social que se torna 
possível identificar e diferenciar aqueles que vivenciam 
a juventude de outros que não conseguem, social e 
culturalmente, realizá-lo, pois
Pela sua própria natureza, a moratória 
social realiza-se de modo variado dentre 
as demais classes e setores sociais. 
Certamente, para os jovens de setores 
populares a possibilidade de dispor da 
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
156
moratória social é bem mais restrita, 
uma vez que a inserção sócio-político-
econômica das famílias e deles próprios 
reforça a exclusão a que, no mais das 
vezes, vivem submetidos. Esse fato produz 
um encurtamento do período de juventude 
desses setores (SILVA, 2006, p. 61).
Outra abordagem que fez com que a juventude 
se inscrevesse como questão social foi a associação de 
jovens a problemas sociais, entendendo esse período 
como etapa problemática. Essa associação impõe “a 
identificação dos jovens como grupo prioritário sobre o 
qual deveriam recair as ações de controle social tutelar 
e repressivo, promovidos pela sociedade e pelo poder 
público” (AQUINO, 2009, p. 25).
No Brasil, este foi o enfoque que 
praticamente dominou as ações dos 
anos 80 aos 90; foi uma das principais 
matrizes por onde o tema da juventude, 
principalmente a “emergente” juventude 
dos setores populares, voltou a ser 
problematizado pela opinião pública e 
que tencionou para a criação de ações 
tanto por parte do Estado como da 
sociedade civil. E ainda é predominante 
na fundamentação da necessidade de 
gerar ações dirigidas a jovens: quase todas 
as justificativas de programas e políticas 
para jovens, quaisquer que sejam elas, 
enfatizam o quanto tal ação pode incidir 
na diminuição do envolvimento dos jovens 
com a violência (ABRAMO, 2005, p. 21).
Luseni Aquino (2009, p. 26) destaca que 
nos últimos anos as pesquisas sobre juventude 
têm se voltado para novas fenômenos sociais, que 
possibilitam compreensões diferentes acerca desse 
grupo. Primeiramente, a autora relata que a partir do 
Direitos de Juventude
157
final do século XX ocorreram mudanças estruturais na 
distribuição etária da população mundial; “em termos 
práticos, esta “onda jovem” significa o aumento 
relativo da população em idade ativa, o que pode ter 
efeito positivo sobre a dinâmica do desenvolvimento 
socioeconômico e, por isso, tem sido qualificado como 
bônus demográfico” (AQUINO, 2009, p. 26). Com essas 
mudanças, a juventude passa a ser compreendida a 
partir de uma nova perspectiva: a ideia de juventude 
como etapa preparatória da vida, ou associada a 
problemas sociais, é substituída pela abordagem do/
da jovem como ator estratégico do desenvolvimento, 
enfoque difundido e apoiado por organismos 
multilaterais e agências internacionais principalmente 
a partir do início da década de 1990 (AQUINO, 2009). 
Partindo desse ponto de vista, o peso 
populacional dos jovens é identificado como um 
bônus demográfico, e as/os jovens passam a ser 
percebidos como meio para resolução dos problemas 
de desenvolvimento do país, postulados/as como 
“protagonistas do desenvolvimento local” (ABRAMO, 
2005, p. 21). Por um lado, essa concepção é positiva, 
pois
[...] avança no reconhecimento dos jovens 
como atores dinâmicos da sociedade 
e com potencialidades para responder 
aos desafios colocados pelas inovações 
tecnológicas e transformações produtivas. 
Traz, assim, a possibilidade de incorporar 
os jovens em situação de exclusão não pela 
ótica do risco e da vulnerabilidade, mas 
numa perspectiva includente, centrada 
principalmente na incorporação à formação 
educacional e de competências no mundo 
do trabalho, mas também na aposta da 
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
158
contribuição dos jovens para a resolução 
dos problemas de suas comunidades e 
sociedades, através do seu engajamento 
em projetos de ação social, voluntariado 
etc. (ABRAMO, 2005, p. 21)
Por outro lado, em muitos momentos são 
atribuídas aos/às jovens responsabilidades na resolução 
de conflitos sem que de fato sejam consideradas suas 
dificuldades e necessidades. Outro ponto negativo 
é que “poucas vezes se faz a contextualização (e a 
discussão) do modelo de desenvolvimento no qual os 
jovens se inserem como atores, ou até que ponto eles 
também devem discutir a decisão a respeito desse 
modelo” (ABRAMO, 2005, p. 21).
O aumento da população jovem também teve 
como consequência certa dificuldade de absorção 
desse grande número de pessoas no mercado de 
trabalho, ocasionando a crise do emprego, que por 
sua vez gera bloqueios à emancipação econômica 
dos/das jovens.
Neste cenário de restrição das 
oportunidades de emprego – que afeta 
inclusive os trabalhadores já inseridos, 
desacreditando a estabilidade como 
marca fundamental da vida adulta –, duas 
grandes tendências configuram-se entre os 
jovens. Aqueles de origem social privilegiada 
adiam a procura por colocação profissional 
e seguem dependendo financeiramente 
de suas famílias; com isso, ampliam a 
moratória social que lhes foi concedida, 
podendo, entre outras coisas, estender 
sua formação educacional, na perspectiva 
de conseguir inserção econômica mais 
favorável no futuro. Os demais, que se 
veem constrangidos a trabalhar e, em 
grande parte das vezes, acabam se 
Direitos de Juventude
159
submetendo a empregos de qualidade 
ruim e mal remunerados, o que, em algum 
grau, também os mantém dependentes de 
suas famílias, ainda que estas lidem com 
isto de forma precária (AQUINO, 2009, p. 
27).
Foi ao longo da década de 1990 que se iniciou 
a mobilização política e social de jovens, instituindo 
um novo paradigma que identifica as/os jovens como 
sujeitos de direitos. Nesse novo contexto, “o foco em um 
ponto de chegada que se projeta no futuro transfere-
se para o momento presente, para a juventude em 
si, que ganha importância como etapa genuína do 
ciclo da vida” (AQUINO, 2009, p. 28). A partir dessa 
ideologia, os olhares sobre as/os jovens deixam de 
ter como foco suas incompletudes ou desvios, sendo 
a juventude compreendida como etapa singular do 
desenvolvimento pessoal e social (ABRAMO, 2005).
Medidas decorrentes deste novo enfoque, 
no geral, reatualizam a visão preparatória 
da juventude, exigindo, por um lado, 
investimentos massivos na área de 
educação em prol do acúmulo de “capital 
humano” pelos jovens; por outro, exigindo 
também a adoção do corte geracional nos 
vários campos da atuação pública – saúde, 
qualificação profissional, uso do tempo 
livre etc. – e o incentivo à participação 
política juvenil, com recurso à noção de 
protagonismo jovem (AQUINO, 2009, p. 26).
Paralelamente a esse movimento que reconhece 
as/os jovens como sujeito de direitos, são criados 
espaços de construção da identidade e de exercício 
da sociabilidade que fortalecem os grupos juvenis,tais 
como grupos de estilo e movimentos sociais e políticos. 
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
160
A criação e ocupação desses espaços acontecem 
porque as referências que circulam nesses ambientes 
de interação e convivência preenchem o vazio deixado 
pela ambiguidade na definição do papel social do 
jovem e pela incapacidade das instituições tradicionais 
de corresponder aos interesses e demandas juvenis. De 
acordo com a autora, se institui assim um paradoxo: ao 
mesmo tempo em que o acesso às oportunidades de 
trabalho se torna limitado, ameaçando a redefinição 
da identidade do jovem que ocorreria conforme os 
padrões da vida adulta, surgem novas possibilidades 
de identificação decorrentes da pluralidade de 
subculturas juvenis, que “comportam maneiras 
criativas de reivindicar reconhecimento e resistir aos 
padrões estabelecidos, bem como formas inovadoras 
de inserção nas esferas da vida social” (AQUINO, 2009, 
p. 29). Nesse sentido, as subculturas juvenis assumem 
presença marcante nas sociedades contemporâneas, 
e
[...] contribuem decisivamente para a 
produção e a renovação do repertório 
de valores e práticas sociais. O amplo 
reconhecimento deste fato reforça a 
valorização positiva do jovem e tem 
como expressão extrema a conversão da 
juventude em “modelo cultural” em vários 
níveis – comportamento, gostos, beleza, 
práticas, insígnia da indústria cultural etc. 
(AQUINO, 2009, p. 29).
As formas como os/as jovens se constituem 
na sociedade contemporânea e os modos como são 
compreendidos/as apresentam múltiplas faces e 
nuances, que se inserem como questões sociais. Mais 
Direitos de Juventude
161
que um período transitório, como problema social 
ou como promessa para o futuro, a juventude é aqui 
entendida como categoria socialmente constituída e 
observada como momento presente, considerando “as 
dimensões materiais, históricas, políticas e simbólicas 
nas quais o social se produz” (SILVA, 2006, p. 60).
Devemos entender a juventude como 
parte de um processo mais amplo de 
constituição de sujeitos, mas que tem 
suas especificidades que marcam a vida 
de cada um. A juventude constitui um 
momento determinado, mas que não se 
reduz a uma passagem, assumindo uma 
importância em si mesma. Todo esse 
processo é influenciado pelo meio social 
concreto no qual se desenvolve e pela 
qualidade das trocas que este proporciona 
(DAYRELL; GOMES, 2013, p. 04)
A juventude, portanto, envolve um conjunto de 
elementos vigentes ao mesmo tempo – faixa 
etária, processos de amadurecimento corporal e de 
socialização, contexto sócio-político-econômico-
cultural, entre outros –, com expressões e intensidades 
diferentes na trajetória de cada indivíduo ou grupo 
(SILVA, 2006, p. 60). Todos esses elementos devem ser 
considerados para que a juventude seja reconhecida 
como um segmento da sociedade que exige demandas 
próprias por parte do Estado, e para que a esse grupo 
sejam direcionadas ações e políticas específicas que 
abranjam suas características peculiares e plurais: 
que compreendam as juventudes, em suas várias 
dimensões e complexas diversidades.
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
162
5 Caminhos trilhados para o reconhecimento 
dos/das jovens como sujeitos de direitos
São recentes as discussões mais efetivas acerca 
da importância de políticas públicas de caráter 
geracional para a juventude, partindo da concepção de 
adolescentes e jovens como sujeitos de direitos. No Brasil 
e nos demais países da América Latina, a participação 
dos/das jovens no processo de redemocratização do 
final da década de 1980 se relaciona diretamente com 
a presença da questão juvenil na agenda pública. No 
entanto, “é na década de 2000, início de um novo 
século, que são propostas ações com pretensão de 
comporem instâncias coordenadoras de políticas de 
juventude” (COSTA, 2009, p. 67).
Existe atualmente um novo movimento no 
que se refere aos direitos e políticas destinados à 
juventude; esse processo de reflexão sobre a ampliação 
da perspectiva dos direitos juvenis para além dos 
direitos do/da adolescente “pode ser atribuído a um 
reordenamento institucional que afirma novos espaços 
na estrutura de Estado e também no campo de 
formulação de políticas públicas” (CUSTÓDIO, 2008, p. 
206). Para compreender esse processo, necessário se 
faz estudar os caminhos trilhados para a promoção dos 
direitos e garantias da população jovem, visando sua 
inserção integral e participação ativa na sociedade de 
forma emancipatória.
No que se refere à proteção legal da juventude, 
o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.090 
de 1990) – que especifica os direitos previstos no art. 
Direitos de Juventude
163
227 da Constituição Federal de 1998 – representa o 
marco de uma nova abordagem dos direitos dessa 
população no Brasil, tendo em vista que estabelece um 
rol de garantias destinadas às crianças e adolescentes 
(pessoas com até dezoito anos incompletos). 
Conforme exposto anteriormente, a adolescência é 
compreendida como a primeira etapa da juventude; 
sendo assim, essa parcela da população jovem, desde 
a promulgação do ECA, é considerada como uma 
etapa peculiar do desenvolvimento e amparada por 
dispositivos legais que conferem à família, à sociedade 
e ao poder público a responsabilidade pela sua 
proteção e desenvolvimento integral, devendo ser 
assegurada, com prioridade absoluta, a efetivação 
dos seus direitos fundamentais (BRASIL, 1990). No 
entanto, essas garantias foram destinadas somente 
aos adolescentes, ficando a parcela da juventude 
com idade superior a dezoito anos sem respaldo 
legal específico, o que consequentemente gerou a 
invisibilidade dessa população na formulação de 
políticas públicas, sendo atendidos pelas ações do 
poder público direcionadas para o público em geral.
Diante do cenário de invisibilidade juvenil na 
legislação e na elaboração de políticas públicas – aqui 
entendidas como o conjunto de diretrizes e ações 
implementadas pelo poder público visando atender 
às demandas, interesses e necessidades coletivas – 
em 2004 foi instituído pelo governo federal um grupo 
interministerial, do qual fizeram parte dezenove 
Ministérios e Secretarias Especiais, com a finalidade 
de criar bases para a criação de uma Política Nacional 
da Juventude. Como resultado, foram criados em 
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
164
2005 por meio da Lei 11.129: a Secretaria Nacional da 
Juventude (SNJ), responsável por coordenar e articular 
a política nacional; o Conselho Nacional da Juventude 
(Conjuve) – composto por sessenta membros, sendo um 
terço representantes do poder público e dois terços da 
sociedade civil –, para propor, acompanhar e avaliar 
programas e ações destinados à juventude. (BRASIL, 
2013, p. 09).
No ano de 2006 foi lançada a Política Nacional 
de Juventude (PNJ), elaborada pelo Conjuve, que 
apresenta um panorama da situação da juventude no 
Brasil e sistematiza concepções, diretrizes e estratégias 
para elaboração das políticas públicas de juventude. 
A PNJ tem como principal finalidade servir como 
ponto de partida para a abertura do debate acerca 
das políticas para juventude em diferentes espaços 
institucionais (BRASIL, 2006).
Com o processo de discussão da Política 
Nacional de Juventude, vislumbrasse uma
ressignificação e redimensionamento 
conceitual e metodológico dos programas 
e projetos na área da juventude. Não 
obstante, levanta-se a indagação de 
que os programas, projetos e ações 
continuam sendo desenvolvidos de 
forma desarticulada, e apresentando 
superposição, fragmentação e focalização 
de ações. (BRASIL, 2006)
A partir do reconhecimento das limitações do 
Estatuto da Criança e do Adolescente no que se refere 
às necessidades dos/das jovens com idade superior a 
dezoito anos, no ano de 2010 foi aprovada a Proposta 
de Emenda Constitucional 042/2008, conhecida como 
PEC da Juventude, que foi transformada na Emenda 
Direitos de Juventude
165
Constitucional n° 65. Por meio dessaemenda, houve a 
inclusão do termo “jovem” no art. 227 da Constituição 
Federal, que passou a ter a seguinte redação:
Art. 227. É dever da família, da sociedade 
e do Estado assegurar à criança, ao 
adolescente e ao jovem, com absoluta 
prioridade, o direito à vida, à saúde, à 
alimentação, à educação, ao lazer, à 
profissionalização, à cultura, à dignidade, 
ao respeito, à liberdade e à convivência 
familiar e comunitária, além de colocá-
los a salvo de toda forma de negligência, 
discriminação, exploração, violência, 
crueldade e opressão (BRASIL, 1988).
Por meio da mesma emenda, o termo ‘jovem’ 
foi acrescentado também em todos os parágrafos e 
incisos do artigo 227 que antes especificavam direitos 
apenas destinados às crianças e/ou adolescentes. 
Além disso, foi incluído o parágrafo 8º, que determina 
o estabelecimento, por lei, do Estatuto da Juventude 
e do Plano Nacional da Juventude:
[...]
§ 8º A lei estabelecerá:
I - O Estatuto da Juventude, destinado a 
regular os direitos dos jovens; (Incluído Pela 
Emenda Constitucional n. 65, de 2010).
II - O Plano Nacional de Juventude, de 
duração decenal, visando à articulação 
das várias esferas do poder público para 
a execução de políticas públicas (BRASIL, 
1988).
A Emenda Constitucional n° 65 inaugura um novo 
paradigma dos direitos da juventude no Brasil, pois a 
partir da inserção do termo ‘jovem’ na Constituição 
Federal esse segmento da população passa a ser 
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
166
protegido pelos princípios e regras constitucionais. 
Diante desse contexto, para garantia plena dos direitos 
dos/das jovens, se apresenta como necessidade 
urgente a regulamentação, por meio de legislação 
infraconstitucional, do disposto no parágrafo 8°, artigo 
227 da Constituição Federal.
Em 2013, foi aprovado o Estatuto da Juventude 
que dispõe sobre os direitos dos/das jovens, os princípios 
e diretrizes das políticas públicas de juventude e o 
estabelecimento do Sistema Nacional de Juventude. 
Na perspectiva de Fernandes a ideia do Estatuto era 
a “superação das práticas jurídicas tradicionais no 
ordenamento jurídico brasileiro, fato semelhante ao 
que ocorreu com os direitos de crianças e adolescentes 
quando da entrada em vigor do Estatuto da Criança e 
do Adolescente” (FERNANDES, 2013, p. 56).
Contudo, apesar da aprovação da normativa 
a agenda política das juventudes brasileiras tem um 
longo caminho a percorrer para reconhecimento dos 
direitos dos/as jovens. Os desafios para juventudes 
brasileiras são imensos e complexos e será no 
redesenho das políticas públicas que se constituirá 
novos processos e dinâmicas das visibilidades. 
CONCLUSÃO
A ampliação do rol de sujeitos de direitos 
amparados pelo artigo 227 da Constituição Federal 
trouxe um marco normativo importante para os 
direitos da juventude. Este marco inicial, considerou a 
diversidade e particularidade da juventude, em seus 
diversos contextos e o abandono definitivo dos rótulos 
Direitos de Juventude
167
propagadores e reprodutores de desigualdades e 
discriminações.
Apesar da normativa vigente, muitas das 
lutas para garantia e reconhecimento dos direitos 
de juventudes não foram trazidos para plano real, a 
exemplo dos Conselhos de Juventude como órgãos 
deliberativos, a criação de fundos especiais a com 
Fundo da Infância e Adolescência, para que pudessem 
planejar e financiar políticas públicas para juventude. 
De igual modo, a governança local não assumiu 
compromisso com uma agenda política para juventude 
brasileira, O Conselho Nacional de Juventude fez um 
levantamento em 2010 e na época havia 105 conselhos 
municipais e estaduais no país, mesmo passado 10 
anos, ainda é inexpressivo no número de conselhos, 
considerando que há mais de 5 mil municípios. 
Para isto, é preciso reafirmar o compromisso do 
marco normativo e da própria prática dos gestores 
de políticas públicas, no sentido de aplicar a teoria 
da proteção integral e seus princípios orientadores, 
garantindo à juventude a exemplo do que ocorre 
com crianças e adolescentes, a prioridade absoluta 
na formulação, implementação, promoção e defesa 
de políticas públicas, uma vez que a juventude foi 
incorporada no artigo 227 pela Emenda Constitucional 
nº 65. 
REFERÊNCIAS
ABAD, Miguel. Las políticas de juventud desde la perspectiva 
de la relación entre convivencia, ciudadanía y nueva condición 
juvenil. Santiago: Última década, v. 10, nº. 16, mar. 2002. 
Disponível em: <http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
168
arttext&pid=S0718-22362002000100005&lng=es&nrm=i
so>.10.4067/S0718-22362002000100005. Acesso em: 14 out. 
2021.
ABRAMO, Helena Wendel. O uso das noções de adolescência 
e juventude no contexto brasileiro. In: FREITAS Maria Virgínia 
de (Coord.) Juventude e adolescência no Brasil: referências 
conceituais. São Paulo: Ação Educativa, 2005.
AQUINO, Luseni. A juventude como foco das políticas públicas. In: 
CASTRO, Jorge Abrahão de. et. al. (org.). Juventude e Políticas 
Sociais no Brasil. Brasília: Ipea, 2009.
BRASIL. Conselho Nacional da Juventude - CONJUVE. Política 
nacional de juventude: diretrizes e perspectivas. Brasília, 2006. 
Disponível em: <http://www.conjuve.gov.br>. Acesso em: 10 jul. 
2012.
BRASIL. Secretaria Nacional da Juventude – SNJ. Políticas 
Públicas de Juventude. Brasília, 2013.
BRASIL. Lei 8.069, de 13 de julho de 1990, Estatuto da Criança e 
do Adolescente. Senado Federal: Brasília, 1990.
BRASIL. Constituição da República de 1988. Disponível 
em: http://www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/
CON1988_05.10.1988/art_227_.shtm. Acesso em 15 out 2021.
CARRANO, Paulo César Rodrigues; SPOSITO, Marília Pontes. 
Juventude e políticas públicas no Brasil. In: Rev. Brasileira de 
Educação. Rio de Janeiro: Autores Associados, nº 24, set./Out./
Nov./Dez. 2003.
COSTA, Ozanira Ferreira da. Políticas públicas de juventude: 
uma construção possível? [Tese] Doutorado em Política Social 
- Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, 
Departamento de Serviço Social, Programa de Pós-Graduação 
em Política Social, 2009.
Direitos de Juventude
169
CUSTÓDIO, André Viana. Direitos de juventude no Brasil 
contemporâneo: perspectivas para afirmação histórica de novos 
direitos fundamentais. In: WOLKMER, Antonio Carlos; VIEIRA, 
Reginaldo de Souza. (Orgs.). Estado, Política e Direito: relações 
de poder e políticas públicas. UNESC, 2008.
DAYRELL, Juarez Tarcísio; GOMES, Nilma Lino. A juventude no 
Brasil. Disponível em: < http://www.cmjbh.com.br/arq_Artigos/
SESI%20JUVENTUDE%20NO%20BRASIL.pdf> Acesso em: 09 
out. 2021
FERNANDES, Rodrigo das Flores. Direitos de Juventude: Análise 
das políticas públicas no Brasil contemporâneo. Dissertação. 
Universidade de Santa Cruz do Sul. Santa Cruz do Sul/RS, 2013.
FREITAS, Maria Virgínia. Juventude e adolescência no Brasil: 
referências conceituais. São Paulo: Ação Educativa, 2005.
LEÓN, Oscar Dávila. Adolescência e juventude: das noções às 
abordagens. In: FREITAS Maria Virgínia de (Coord.) Juventude e 
adolescência no Brasil: referências conceituais. São Paulo: Ação 
Educativa, 2005.
SILVA, Marlúcia Valéria da. Identidade Juvenil na Modernidade 
Brasileira: sobre o construir-se entre tempos, espaços e 
possibilidades múltiplas. 2006. [Tese] Universidade Federal de 
Santa Catarina. Florianópolis/SC: janeiro de 2006.
SOUZA, Ismael Francisco de; SOUZA, Marli Palma. O conselho 
tutelar e a erradicação do trabalho infantil. Criciúma, Unesc, 
2010.
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
170
Direitos de Juventude
171
André Viana Custodio & Ismael Francisco de Souza
CAPÍTULO 08 - A proteção integral 
e o racismo estrutural: uma análise 
sobre a naturalização do genocídio da 
juventude negra e a garantia do direito 
à vida
André Viana Custódio1
Júlia dos Santos Severo2
1. INTRODUÇÃO
Ante a crescente nos indicadores que demonstram 
extrema desigualdade e inúmeras formas de 
discriminação da população jovem negrano Brasil, 
é possível afirmar que o racismo estrutural tem 
contribuído para exclusão social e a naturalização 
para banalização dos direitos fundamentais inerentes 
a população negra. Deste modo, indaga-se, de que 
forma tem sido promovida a garantia ao direito à vida 
1 Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com Pós-Doutorado 
em Direito pela Universidade de Sevilha - Espanha, Coordenador Adjunto e Professor do 
Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC/
Santa Cruz do Sul/RS/Brasil), Coordenador do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de 
Crianças, Adolescentes e Jovens (GRUPECA/UNISC) e Líder do Grupo de Pesquisa Políticas 
Públicas de Inclusão Social (UNISC)
2 Graduada em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul, Especialista em Direito 
Previdenciário pela Faculdade Dom Alberto, Integrante do Grupo de Estudos Direitos 
Humanos de Crianças, Adolescentes e Jovens do Programa de Pós-Graduação em Direito da 
Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC).
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
172
do genocídio decorrente do racismo estrutural?
 A abordagem teórica sobre o tema se justifica 
em decorrência da necessidade de demonstrar como 
o racismo estrutural e subsidiariamente o racismo 
institucional que atinge de forma direta a juventude 
negra no Brasil. 
 Surge, para tanto a necessidade de discutir e 
igualmente desnaturalizar a desigualdade latente 
entre jovens negros e brancos, de modo a reconhecer 
a existência do racismo, do preconceito e da 
discriminação racial e que estes estão impregnados 
na sociedade, de modo que ela passou a justificar e 
naturalizar a crescente onda de mortes da juventude 
negra. 
 Portanto, a partir da leitura dos indicadores 
sociais, que por ora expõe, ainda que não declarado o 
genocídio da juventude negra, constata-se que estes 
sujeitos encontram inúmeras dificuldades, que acabam 
por obstar o seu acesso a direitos fundamentais e 
igualmente políticas sociais de caráter universal. 
Pensar na juventude negra e no genocídio que ela 
vem sofrendo pressupõe reconfigurar as perspectivas 
que envolvem a proteção integral, uma vez que a 
aplicação desta vem sendo tolhida quando se depara 
com o recorte racial.
 
2. O racismo no brasil: um problema 
contemporâneo.
É necessário, que antes de compreender de 
que modo ocorreu o aprisionamento de uma parcela 
Direitos de Juventude
173
da população a estereótipos racistas que suscitam 
a marginalização de negros até os dias atuais, 
compreender de que modo à escravidão é um elemento 
central na formação da sociedade brasileira, haja vista 
é parte fundamental no processo de construção social, 
política e socioeconômica do país. 
É possível averiguar que os efeitos da escravidão 
não se restringem tão somente ao período em 
que esta esteve vigente, de modo que a herança 
advinda deste sistema segue mediando às relações 
sociais e interpessoais quando estabelece distinções 
hierárquicas entre trabalho manual e intelectual, 
quando determina habilidades especificas entre 
negros e brancos, quando alimenta o preconceito e a 
discriminação racial. (PINSKY, 2016)
O Brasil foi o último país a abolir legalmente 
a escravidão, o período marcado por este sistema, 
foi extremamente violador aos negros, uma vez que 
lhes negava sua condição de ser humano. Portanto, 
compreender, a atual situação que parcela da 
população do país encontra-se inserida, depende da 
compreensão do que foi este período, ora que a situação 
de desigualdade e exclusão social vivenciada pelos 
grupos raciais negros no Brasil, incluindo as crianças 
e adolescentes negros guarda consigo resquícios 
de preconceitos de uma sociedade que em algum 
momento fora regida por um sistema escravocrata. 
(LIMA, 2018)
Deste modo é necessário analisar o contexto 
histórico do país para perceber de que forma os 
resquícios advindos do sistema escravista atuam até 
hoje no contexto social por intermédio de estereótipos 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
174
solidificados na contemporaneidade, e que por ora 
acarretam a naturalização das desigualdades. 
2.1 Aspectos históricos relevantes do racismo 
no brasil.
A escravidão fora uma prática interligada com 
a desumanização, coisificação e comercialização 
de pessoas, de modo que a atividade visava à 
lucratividade e tão somente isso. 
O sistema escravocrata acabou por legitimar 
o tratamento desumano aos milhares de negros 
africanos que ao Brasil chegaram, uma vez que lhes 
atribuiu à função de objetos de produção que tinham 
como foco principal o desenvolvimento do País e das 
suas riquezas. (LIMA, 2018)
Durante o período em que o sistema escravocrata 
vigeu, é cabível afirmar que o povo negro era visto 
como propriedade e unidade de trabalho lucrativo, 
bem como era tratado como objeto desprovido de 
sentimentos e principalmente desprovido de liberdade. 
A escravidão acabou por transformar o ser humano em 
propriedade do outro, a ponto da sua humanidade ser 
anulada, assim como o seu próprio poder deliberativo. 
(PINSKY, 2016)
A fase expansionista do capitalismo europeu 
contribuiu para que portugueses, espanhóis e outros 
povos, empreendem-se o projeto de exploração de 
novas terras e de novos povos, visando lucros cada vez 
mais rápidos, o tráfico de africanos transformou-se na 
atividade mais rentável e mais lucrativa para o Estado 
português e para elites agrárias e escravocratas do 
Direitos de Juventude
175
Brasil na época. (LEITE, 2017)
O Brasil foi o último país da América a abolir 
o sistema escravista. Ainda que a Lei Áurea, tenha 
revogado a iniquidade que fora os mais de 300 anos 
de escravidão, é importante destacar que a abolição 
não pode ser reduzida a um ato de brancos, vez 
que incessantemente escravos travaram lutas afim 
desfrutarem de sua liberdade. 
A abolição da escravidão, não pode ser vista em 
sua materialização plena, pois os efeitos anunciados 
por esta inexistiram, ou seja, a população negra não 
desfrutou de fato de liberdade, igual dade e não 
discriminação. (FERNANDES, 2007) 
 O dia seguinte ao dia da liberdade, é 14 de 
maio de 1888, no entanto, resta evidente que o mesmo 
segue vivo, e se perpetua na contemporaneidade, uma 
vez que ainda que a liberdade tenha sido conquistada, 
através de muita luta, os ex-escravizados, bem como 
seus descendentes continuam submetidos a um 
Estado despreocupado com a implementação de 
políticas públicas que venham a afastar e acabar com 
as condicionantes que foram resultantes do processo 
escravocrata, entre elas o racismo e a marginalização 
do povo negro. 
O que se viu com a abolição, fora novos métodos 
de exclusão sociais, cuja consequências estão ainda 
presentes, para tanto após a abolição, não restou 
dúvidas que os ex-escravos foram abandonados à 
própria sorte, de modo que recaiu sobre os mesmos 
a responsabilidade de converter sua emancipação em 
liberdade efetiva. 
Controverte-se que a Lei Áurea aboliu tão 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
176
somente o sistema escravista, e não seu legado, 
portanto, a abolição fora o primeiro passo dos que 
ainda estavam por vir, para que de fato ocorresse a 
emancipação do povo negro. (COSTA, 2008)
O período pós abolição pode ser observado a 
partir da tamanha dificuldade para reconhecer ex-
escravos como sujeito de direitos, tal fato constata-
se e por ora mantém-se, uma vez que a resistência 
e a luta por parte dos descendentes de ex-escravos 
continua viva, e tem como escopo o reconhecimento 
da população negra como sujeitos detentores de 
direito.
É possível dispor, sobre a necessidade de uma 
segunda abolição, haja vista que a primeira, até 
hoje ainda não se concretizou, ou seja, para além 
da garantia de liberdade, a população negra só 
viverá plenamente a partir da segunda abolição, 
que encontra-se condicionada a sua integração na 
sociedade, não obstante tal fato está interligado com 
a conquista de direitos, como o acesso igualitárioaos 
serviços e às políticas públicas de combate ao racismo, 
assim como o acesso de direitos fundamentais e sociais. 
(FERNANDES, 2007) 
O final da escravidão foi perpetuado, igualmente 
pela disseminação de teses racistas no Brasil, de modo 
que sua construção ocorre de forma ideológica no 
período final da escravidão, ou seja, enquanto ocorria 
o processo de adaptação da sociedade à mudança do 
status jurídico dos negros, surge a ideia de raça. 
A noção de raça, esta interligada com ideia de 
distintas categorias de seres humanos, visto que a 
classificação é um fenômeno da modernidade. Deste 
Direitos de Juventude
177
modo, a raça surge como categoria, que passa a 
organizar um sistema de poder socioeconômico, de 
exploração e exclusão, observa-se, portanto, a partir 
desta surge uma nova ferramenta de disseminar a 
discriminar, mais precisamente de perpetuar o racismo. 
(HALL, 2003) 
O término do sistema escravista não significou 
o início da desconstrução dos valores associados a 
população negra. Os estereótipos ligados à raça e 
o ideal do branqueamento operaram ativamente 
enquanto vigorou a escravidão, assim como observou-
se a continuidade dos preconceitos e da discriminação 
racial após o fim desta, de modo que estes estereótipos 
foram fortalecidos pela difusão de teses do também 
conhecido racismo científico. (HOFBAUER, 2006)
O início do Brasil República não foi marcado 
por uma construção de ideais de igualdade, de modo 
a garantir uma homogeneidade do corpo social, ao 
contrário, foi a vertente do branqueamento a partir do 
fator migração que sustentou por algumas décadas, 
a justificativa de que a mistura de raças, acabaria 
por contribuir para o branqueamento da população, 
haja vista que acreditava-se a raça branca como 
superior e que iria preponderar sobre as demais, e 
consequentemente ocasionaria o embranquecimento 
da população como símbolo de modernidade e 
civilização. (AZEVEDO, 2007)
Diversas foram às decisões políticas que afetaram 
de forma direta o aprofundamento das desigualdades 
no país, sobretudo aquela que restringiam os negros 
a possibilidades de integração. O projeto de um país 
bem-sucedido estava interligado com o pensamento 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
178
de uma nação progressivamente mais branca o ideal 
do branqueamento, passou se a considerado de forma 
positiva para elite. 
Em vista do fracasso no que diz respeito ao 
embraquecimento surge o fenômeno da miscigenação 
que permitiria alcançar a ideia de convivência 
harmoniosa entre as diferentes raças que compunham 
a sociedade, é a partir da mestiçagem que se sustenta 
até hoje o ideal do da democracia racial, uma vez 
que se compreende que não há práticas envolvendo 
discriminação fundada na cor da pele, pois o país 
tem uma composição racial mestiça, que inviabiliza 
práticas racistas. (LIMA, 2018)
Demonstrado em parte, as complexidades e 
algumas das variantes do racismo ao longo da história 
do País, é igualmente necessário observar o contexto 
social atual, vez que a sociedade ainda carrega 
consigo heranças do sistema escravocrata, tal como o 
Estado ainda se utiliza-se de meios repressivos contra 
esta população, ainda que de forma sútil, ou seja, uma 
análise para a compreensão de como o racismo faz 
parte do contexto social brasileiro e igualmente atua 
nas relações individuais e institucionais.
2.2 O racismo estrutural e suas formas de 
manifestações.
É possível compreender o racismo como 
uma manifestação normal da sociedade brasileira, 
visualiza-se o racismo como parte intrínseca da 
sociedade, tendo em vista as construções da estrutura 
social a qual o país foi submetido, a partir do processo 
Direitos de Juventude
179
escravocrata que deixou resquícios e igualmente com 
o seu fim oportunizou novas idealizações de como 
perpetuar ferramentas de opressão. Identifica-se, 
portanto, que o racismo é uma decorrência da própria 
estrutura social. 
Em síntese, o racismo é uma decorrência peculiar 
da estrutura social, ou seja, do modo normal no qual se 
constroem as relações políticas, econômicas, jurídicas. 
Desta maneira, não seria o racismo uma patologia 
social e nem um desarranjo institucional, na verdade 
o racismo faz parte da estrutura social, faz parte 
da sociedade como um todo, o racismo é estrutural. 
(ALMEIDA, 2018)
Para além das manifestações individuais que 
decorrem de ações discriminatórias, bem como para 
além das instituições que propagam o racismo de modo 
sutil, o racismo é parte intrínseca da sociedade, e por 
óbvio este rege a estrutura social, ou seja, o racismo 
não é tão somente resultado de comportamento 
individuais, mas sim do funcionamento das 
instituições, que atuam ainda que sutilmente a partir 
de desvantagem e privilégios a partir da raça. 
A concepção institucional do racismo esta 
interligada com o poder, elemento central da relação 
racial, detêm este poder os grupos que exercem o 
domínio sobre a organização política e econômica 
da sociedade. No entanto, para a sustentação deste 
sistema, depende da capacidade do grupo dominante, 
fazer a institucionalização de seus interesses, 
impondo desta maneira a toda sociedade regras, que 
naturalizem o seu domínio. (ALMEIDA, 2018)
Esse domínio pode ser explicado a partir da 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
180
visualização de homens brancos em instituições 
públicas, como o legislativo, o judiciário, o ministério 
público, e igualmente a sua presença em instituições 
privadas como diretorias de empresas, é a partir destes 
espaços que ocorre a imposição de regras que direta 
ou indiretamente acabam por dificultar a entrada 
e a ascensão de pessoas negras, e por conseguinte 
verifica-se que estes mesmos espaços não encontram-
se abertos para a discussão no que diz respeito a 
desigualdade racial, operando deste modo, para a 
naturalização do domínio do grupo formado em sua 
maioria por homens brancos. (ALMEIDA, 2018)
O racismo propagado por instituições, faz parte 
de uma estrutura. Para tanto as instituições são a 
materialização da estrutura social. Dito de modo mais 
direto e especifico as instituições são racistas porque a 
sociedade igualmente é. O racismo é parte intrínseca 
da sociedade, e por óbvio este rege a estrutura social, 
ou seja, de um modo ou de outro o mesmo ocorrerá e 
continuará atingindo diretamente a população negra.
É imperioso, perceber a capacidade de uma 
sociedade racista desenvolver meios diversos para 
propagar as barreiras que limitam ou bloqueiam as 
condições de mobilidade social para a população 
negra, de modo que o racismo acaba por banalizar a 
violação de direitos que levam à alienação, e por vezes 
a morte da população negra. 
2.3 A democracia racial e suas manifestações 
na formação cultural no brasil.
A propagação do discurso com base teórica no 
Direitos de Juventude
181
mito da democracia racial, permite que dados que 
demonstram a vulnerabilidade da população negra 
frente ao Estado e o restante da sociedade sejam 
combatidos com a máxima, de que as desigualdades 
ocorrem em razão de fatores socioeconômicos, 
afastando deste modo a segregação racial que se 
perpetua entre negros e brancos desde a abolição do 
sistema escravista no país. 
A democracia racial tem como escopo negar 
o preconceito racial, dado que, intenta-se apagar os 
fatos historicamente construídos e que ocasionaram 
na disparidade exacerbada, entre negros e brancos. 
Entre os marcos de maior expressão do mito da 
democracia da racial, é possível averiguar a ocultação 
dos conflitos inter-raciais, assim como a omissão quanto 
as desigualdades sociais entre negros e brancos. 
 O mito da democracia racial é responsável 
por encobrir conflitos resultantes da raça, vez que 
consegue atingir a sociedade do modo mais profundo, 
ora que perpetua desigualdades nos diferentes campos 
sociais, de modo que vem a facilitar a exclusão dos 
“não brancos”. (MUNANGA, 2004)
 A democracia racial faz com que o país 
transpareça uma imagem deuma sociedade sem 
barreiras, ou seja, que não haveria qualquer empecilho 
real para a ascensão social de pessoas de cor negra a 
grandes cargos ou posição de riquezas. (GUIMARÃES, 
2002)
Ainda que, com a denunciação constante do 
falso discurso da democracia racial, o mesmo já tomou 
proporções tamanhas, a julgar pela sua internalização 
na população brasileira, de modo a justificar a 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
182
baixa posição de negros, resultado este criado e 
objetivado pela ótica da democracia racial, visto que 
o preconceito aqui jamais seria atribuído à diferenças 
raciais e sociais, de modo que a baixa posição desta 
população era justificada pela sua falta de esforço, 
trabalho, vontade, já que as oportunidades, eram e 
ainda são a mesma para todos. (ALMEIDA, 2018)
A utilização reiterada da afirmativa de que 
não há no Brasil racismo, e de que é possível observar 
que há no país uma democracia racial, faz com que 
milhares de pessoas negras passem cada vez mais 
por situações derivadas de uma construção histórica 
e social, ou seja, venham a sofrer com a inviabilização 
do racismo.
3.0 O contexto da violação de direitos da 
juventude negra no brasil.
As diferenças raciais, surgem ao longo da 
história como pano de fundo para a estruturação e 
hierarquização das relações de poder e dominação. 
No que tange, no contexto brasileiro essas relações 
de dominação também foram forjadas a partir do 
conceito de raça, passando a servir como elemento 
estruturante da relação social e de poder. 
Ocorre que esse conceito, manifesta-se das mais 
variadas formas, vez que segue mantendo privilégios 
da população branca em consonância com um 
verdadeiro projeto de eliminação, física e simbólica, 
da juventude negra. 
Os indicadores sociais revelam tamanha 
disparidade entre brancos e negros no país, que é 
Direitos de Juventude
183
particularmente expressiva quando tratamos de uma 
população que para além de todas as desigualdades, 
é submetida ao controle social punitivo, que por vezes 
se dá através da execução pelas forças policiais.
 A taxa de homicídio contra população negra no 
Brasil tem se tornado a cada ano assustadoramente 
alta e desproporcional em relação a população branca. 
Trata-se de um genocídio que está em andamento 
desde o processo histórico iniciado na colonização e 
que se atualiza a partir do controle punitivo estatal 
sobre a população negra. 
 Os preceitos anunciados ao longo da Constituição 
da República Federativa do Brasil de 1988, não são 
observados em sua materialidade no contexto social 
a qual a juventude negra está inserida, deste modo, 
é imperioso de que modo tem ocorrido a violação dos 
direitos fundamentais inerentes a população negra. 
3.1 A violação de direitos e violência contra a 
juventude negra.
O grande número de homicídios contra pessoas 
negras é proveniente das discriminações raciais, que a 
todo instante marginalizam as possibilidades vitais da 
presença negra no mercado de trabalho, no sistema 
educacional, político, social e cultural. (DOMINGUES, 
2008)
A crescente onda de violência contra os jovens 
negros pode ser identificada como um genocídio 
contra esta parcela da população. Em 1952 o Brasil 
ratificou a Convenção para a Prevenção e Repressão 
do Crime de Genocídio, por intermédio do Decreto 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
184
n° 30.822 definiu como genocídio “qualquer ato de 
violência cometido com a intenção de destruir todo ou 
em parte um grupo nacional, étnico, racial ou religioso” 
(BRASIL,1952). 
Ao adotar o termo genocídio parte-se da análise 
da violação dos direitos da pessoa negra, não tão 
somente a partir da violência letal, ou seja, aquela que 
mata a partir de atos materiais, mas também a partir 
da compreensão das formas não visíveis do racismo no 
cotidiano, analisado de que maneira a sociedade e o 
Estado impossibilitam e/ou dificultam as condições de 
uma vida digna da população negra.
A partir dos índices apresentados pelo Atlas da 
Violência em 2019, decorrente dos dados da pesquisa 
realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica 
Aplicada (IPEA) responsável por informar os índices de 
violência no país, observa-se que a violência letal no 
Brasil, no ano de 2017, contou com 65.602 homicídios, 
o que equivale a aproximadamente 31,6 mortes para 
cada cem mil habitantes. (BRASIL,2019) 
No que se refere a violência contra a população 
negra, verificou-se o aprofundamento de desigualdades 
raciais nos indicadores de violência letal no Brasil, em 
2017, 75,5% das vítimas de homicídio foram negros, é 
importante destacar que os indivíduos denominados 
nestas classes são a partir da classificação dada pelo 
IBGE, ou seja, esta constante neste grupo indivíduos 
negros ou pardos. (BRASIL, 2019)
 Haja vista que a taxa de homicídio quanto a 
não negros foi de 16,0%, neste aspecto repara-se que 
proporcionalmente para cada indivíduo não negro 
que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente 2,7 
Direitos de Juventude
185
indivíduos negros foram mortos. (BRASIL, 2019)
A piora na desigualdade racial, no período de 
uma década, demonstra o quanto a marginalização 
da população negra cresceu, tendo em conta que 
de 2007 a 2017, letalidade racial contra indivíduos 
negros cresceu 33,1%, enquanto a taxa de indivíduos 
não negros teve um pequeno crescimento de 3,3%. 
Em análise do ano de 2018 para o ano corrente a 
taxa de mortes de não negros apresentou relativa 
estabilidade, com uma redução de 0,3%, enquanto a 
de negros cresceu 7,2%. (BRASIL, 2019)
O IPEA, divulgou no último mês de agosto do ano 
corrente, a atualização dos dados no Atlas da Violência 
2020. O debate acerca da conjuntura da violência 
letal no Brasil, acaba por apresentar as desigualdades 
raciais existentes no Brasil, uma vez que se observa a 
forte concentração dos índices de violência letal contra 
a população negra. 
Os jovens negros figuram como as principais 
vítimas de homicídios, do mesmo modo que as taxas de 
mortes de negros apresentam perceptível crescimento 
ao longo dos anos, contudo, entre os brancos os 
índices de mortalidade são muito menores quando 
comparados aos da população negra, uma vez que por 
vezes chegam a apresentar redução (BRASIL, 2020)
No que tange, a violência, os números tornam-se 
ainda mais assustadores, e por ora evidenciam ainda 
mais o racismo vigente no país quando se constata 
que apenas em 2018, a população negra representou 
75,7% das vítimas de homicídio, observando deste 
modo uma taxa de homicídios por 100 mil habitantes 
de 37,8. No que tange, os índices entre os não negros 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
186
a taxa foi de 13,9, cumpre observar, novamente, deste 
modo que a cada um indivíduo não negro morto em 
2018, 2,7 negros foram mortos. (BRASIL, 2020)
 Não obstante, o relatório aponta também para 
os índices de homicídios contra a população jovem, ao 
todo cerca de 30.873 jovens na faixa etária entre 15 
e 29 anos foram mortos, o que equivale a 53,3% dos 
registros. (BRASIL, 2020)
Para além dos homicídios contra a população 
negra é preciso elencar igualmente outros fatores que 
são diretamente atingidos pela condicionante raça 
na vida de indivíduos como o desemprego, visualiza-
se que o racismo é um componente na estruturação 
do mercado de trabalho. É imperioso observar, que 
quando não se encontram em situação de desemprego, 
negros continuam sendo atingido pela condicionante 
raça no que diz respeito a sua remuneração, uma vez 
que enquanto brancos percebem um salário em cerca 
de R$ 2.814, negros podem vir a receber no máximo R$ 
1.570 como renda média. (BRASIL, 2018)
Não diferentemente na educação o fator raça 
é condicionante também, uma vez que a taxa de 
analfabetismo é mais que o dobro entre pretos e 
pardos (9,9%) do que entre brancos (4,2%) de acordo 
com a Pesquisa Nacional por Domicílio (PNAD) de 
2016. Quando se analisa os índices da PNAD de 2017, 
percebe-se que a porcentagem de brancos com 25 
anos ou maisque possuem o ensino superior completo 
é de 22,9%, percentual que corresponde a mais do que 
o dobro quando comparado ao percentual de negros 
e pardos com diploma, que somam um equivalente de 
9,3 (BRASIL, 2018). 
Direitos de Juventude
187
No que diz respeito a moradia pessoas negras em 
sua vasta maioria são moradoras de zonas afetadas 
pela precariedade, criminalidade e violência, exemplo 
disso seriam as periferias, que constantemente 
encontram-se em guerra em razão do combate 
travado contra as drogas.
Quanto ao encarceramento, cumpre destacar 
que o Brasil abriga a quarta maior população carcerária 
do mundo, ficando atrás somente de Estados Unidos, 
China e Rússia. Trata-se de 622 mil brasileiros que 
tiveram sua liberdade privada. Mais da metade desta 
população prisional são pretos e pardos, correspondem 
num total de 61,1%, segundo revela o Levantamento 
Nacional de Informações Penitenciárias (INFOPEN). 
Diferentemente dos demais países apontados, o 
Brasil teve crescimento no índice de aprisionamento, 
constatou-se que entre 2004 e 2014 o índice de 
encarceramento cresceu 67%. (BRASIL, 2016) 
 Fica evidente a partir da análise alguns tópicos, 
que por ora não são exaustivos, que a desigualdade 
racial pode ser observada no mais variados setores da 
sociedade, deixando exposto que a população negra 
faz parte da população vulnerável, e que a mesma vem 
sofrendo um o genocídio que pode se contextualizado 
para além das mortes violentas, ou seja, a violência 
perpetrada transgredi o patamar da violência letal, 
uma vez que verifica-se os diversos locais onde o 
racismo se faz vencer e acaba por excluir uma parcela 
da população, mais precisamente a população negra. 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
188
3.2 A marginalização, as desigualdades e 
exclusão social da juventude negra.
A desigualdade proveniente da condicionante 
raça tornou-se uma marca da sociedade brasileira, 
que dia após dia segue alimentando estratégias de 
subordinação e invisibilidade da população negra. 
Em um olhar atento percebe-se para tanto 
que vigora ainda no Brasil os mais perversos traços 
da iniquidade, de modo que na amplitude dos 
avanços da política social, muito pouco foi usufruído 
equitativamente pela população negra. 
A população negra, de modo geral, é vista na 
sociedade como seres humanos de segunda ou terceira 
categoria. De modo que a desumanização do negro 
implica em sempre colocá-lo na sociedade como um 
sujeito inferior ou incapaz, haja vista conjuntamente 
com esta hierarquização decorre rótulos que lhe 
acompanham desde o período da escravidão. (LIMA, 
2018)
Os estereótipos que marcam a população negra 
são igualmente condicionantes que resultam na sua 
morte. É mera ilusão a condição da população negra 
como detentora de direitos fundamentais, haja vista 
que se constata a sua permanência na situação de 
marginalização e exclusão social. 
Entre os fatores causadores do homicídio contra 
população negra, é a associação da cor negra a 
periculosidade, ou seja, é a partir de um senso comum 
que vige e é compartilhado pela sociedade, que se 
passou a identificar pessoas negras como potenciais 
criminosos e consequentemente perturbadores da 
Direitos de Juventude
189
ordem social. 
Os estereótipos que perpassam a população 
negra assumem diversas feições, mas significativamente 
se confirmam nas antíteses feio-belo, mau-bom. Desta 
maneira, os negros, no Brasil, ainda que pertencente 
aos país, não detém a condição de detentores de 
direitos fundamentais, e por ora se reproduz a situação 
como grupo marginal e excluído (LIMA, 2018).
 É a partir da perpetuação de estereótipos, desde 
o sistema escravista, que atribuem a população negra 
a característica de sujeitos perigosos ou criminosos, 
que consequentemente observa-se um aumento na 
probabilidade destas mesmas pessoas serem vítimas 
do braço armado do Estado, ou seja, as principais 
vítimas durante ações policiais, tendo em vista que 
são observadas como possíveis inimigos. Outrora, é 
passível observar que a construção dos estereótipos 
que recaem sobre a população negra, é fruto da 
estruturação da sociedade, mais precisamente são 
fruto do racismo estrutural. 
Compreende-se como braço armado do Estado, 
o funcionamento da polícia no Estado Brasileiro, 
que inegavelmente encontra-se contaminado pelo 
racismo institucional, que por ora já fora citado, a 
polícia constitui a ponta do sistema de justiça criminal, 
que encontra-se mais próximo ao cidadão, sendo esta 
instituição a que primeiro deveria resguardar e proteger 
os direitos civis de todo e qualquer brasileiro, contudo, 
não é difícil apontar situações em que as abordagens 
policias e o uso exacerbado da força ocorreu para com 
a juventude negra. (CERQUEIRA; MOURA 2013)
A operacionalidade dos sistemas penais é 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
190
extremamente violenta, sendo para tanto o Estado 
responsável direto por um número expressivo de 
mortes, a atuação não ocorre tão somente de forma 
repressiva, mas também configurando a vida social, 
por meio do controle social militarizado e verticalizado 
no cotidiano realizado pelos órgãos executivos do 
sistema penal sobre a grande maioria da população. 
O sistema criminal intervém em todos os casos 
de violação da legislação penal, ele é estruturalmente 
seletivo, bem como exerce seu poder com alto grau 
de arbitrariedade aos setores mais vulneráveis, 
principalmente contra os habitantes das favelas, que 
estão expostos a violência policial cotidiana, ora que 
se verifica o predomínio de negros e mestiço entre os 
presos e mortos. (ZAFFARONI, 1991)
A legitimação das ações letais por parte das 
forças policiais, não representa tão somente decisões 
isoladas, mas sim o reflexo de uma política institucional, 
que legitima um estado de exceção permanente, 
limitado a algumas áreas e pessoas específicas, no caso 
aos negros moradores de favelas, de modo a provocar 
um verdadeiro genocídio dentro de um suposto Estado 
democrático de Direito. 
O combate ao crime tem servido como 
justificativa para normalizar as ações policiais cada 
vez mais violentas, principalmente em comunidades 
que se tornaram territórios em que se observa um 
estado de exceção permanente, principalmente contra 
determinada pessoas, que possuem determinada cor 
de pele, e que por ora em razão da condicionante 
racial, visualizam seus direitos e garantias suspensos 
por ocasião das diversas incursões policiais. 
Direitos de Juventude
191
 A atuação policial decorre de um monopólio 
legitimo de violência, aos agentes públicos de segurança 
é autorizado o uso da força, de modo que a ordem 
seja mantida a qualquer custo, portanto, é possível 
visualizar a partir dos programas de treinamento das 
Academias de Polícia Militar ou civil, ensinamentos 
que estabelecem o combate ao crime e a violência, 
bem como quem é o suspeito a ser combatido. 
 O Estado aparece como promotor da violência 
institucional, visto que a qualificação racial surge 
como determinante das condições de vida e de acesso 
aos direitos sociais da população negra, de modo 
que esta parcela da população se encontra a mercê 
da sociedade, e em um estado de total insegurança 
pública.
O fato é que o Estado Brasileiro, tem se 
posicionado como um Estado genocida, ora que 
resta claro e evidente que as políticas voltadas 
para segurança pública em sua vasta maioria visam 
proteger um grupo em específico. Observa-se no 
Brasil, portanto, um cenário equiparado a um estado 
de exceção, conforme elucida Mbembe (2018, p.38): “O 
estado de exceção e a relação de inimizade tornaram-
se a base normativa do direito de matar”. 
Observa-se, portanto, que o inimigo principal do 
Estado brasileiro, nesta guerra é o indivíduo que possui 
como condicionante a cor negra, tal constatação se 
materializa, quando se visualiza que as vítimas de 
homicídio doloso possuem um perfil pré-estabelecido, 
e que os alvos principais em sua maioria são: jovens enegros, tal fato ainda vai de encontro com os dados 
que apontam que a cada 23 minutos um jovem negro 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
192
é vítima de homicídio no país (BRASIL, 2016). 
O Estado Brasileiro, ainda que indiretamente, 
deixa transparecer que os jovens negros são os seus 
principais alvos, de modo que se implementa ainda que 
sutilmente uma política que naturalize os homicídios 
que tenham como vítimas a população negra, 
constata-se, portanto, um processo de genocídio 
umbilicalmente marcado pelo racismo estrutural e 
institucional. 
3.3 A naturalização do genocídio da população 
negra a partir dos indicadores e a consequente 
banalização de direitos fundamentais.
O genocídio da população negra no Brasil, 
ainda que não componha uma política oficial de 
aniquilamento deliberado, demonstra uma realidade 
que pode ser verificada por meio dos dados oficiais 
sobre homicídios. As diferenças raciais, surgem ao 
longo da história como base para a estruturação e 
hierarquização das relações de poder e dominação. 
A associação do conceito de inimigo com 
o racismo possibilitou compreender como o poder 
punitivo permite que dentro do Estado de Direito, 
alguns indivíduos tenham os seus direitos individuais 
negados, de modo a possibilitar o uso irrestrito da 
violência contra estes mesmos, reduzindo-os a uma 
impotência total. 
A morte de indivíduos negros passou a ser 
normalizada e legitimadas a partir de um discurso 
que reforça continuamente quem é o inimigo, 
ou seja, a personificação do inimigo na figura de 
Direitos de Juventude
193
homens, negros, e jovens, que são corriqueiramente 
associados à imagem de bandidos, e que para tanto 
são os principais alvos das incursões militares, e que 
consequentemente acabam por ser tornar as maiores 
vítimas de homicídio no país. 
O combate ao crime tem servido como 
justificativa para normalizar as ações policiais cada 
vez mais violentas principalmente em comunidades 
que se tornaram territórios em que há um estado de 
exceção permanente, e que consequentemente acaba 
por naturalizar a morte da juventude negra.
 Observa-se como principal ferramenta de 
legitimação dessas ações a utilização dos autos 
de resistência, que é a forma como são registradas 
os homicídios decorrentes de intervenção policial, 
os homicídio registrados nos autos de resistência, 
pressupõe que foram cometidos em legitimar defesa 
ou com o objetivo de vencer a resistência dos suspeito 
de um crime.
Os autos de resistência, acabam por legitimar 
para todos os efeitos, o resultado das ações policiais 
arbitrárias e que por vezes tem como fator basilar o 
racismo. Do ponto de vista jurídico, a utilização força 
policial é um instrumento que deve ser utilizado para 
alcançar determinados fins, no entanto, o que de fato 
se vê na realidade é uma utilização da força letal 
injustificada, que acaba sendo justificada a partir 
dos autos de resistência como forma de encobrir e 
legitimar as ações de execuções feitas por policiais 
civis e militares.
Identifica-se a recorrente promoção de 
arquivamento realizada pelo Ministério Público nos 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
194
casos enquadrados como autos de resistência, as 
circunstâncias as quais se autoriza a legitima defesa 
e que materialmente deveriam estar comprovadas 
nos autos, não existem, ou quando trazidas são 
incompatíveis com as provas existentes. A injusta 
agressão autoriza a legitima defesa dos policiais numa 
ação de resistência, no entanto, o que se encontra 
é uma condição de vida em territórios pobres, que 
justificaria deste modo a morte dos indignos. (D’ELIA, 
2015)
Portanto, observa-se que a legitimação das 
ações letais a partir das forças policiais, não representa 
tão somente decisões isoladas, mas sim o reflexo de 
uma política institucional, que legitima e naturaliza um 
estado de exceção permanente, limitado a algumas 
áreas e a pessoas específicas, no caso a população 
negra que em sua vasta maioria é moradora dos locais 
onde ocorrem estas incursões, mais precisamente são 
moradores de localidades pobres. 
Há uma naturalização das desigualdades, assim 
como nas ações intervencionarias por parte do Estado 
e da sociedade na vida da população negra, o processo 
de ‘naturalização’ encontra-se presente em todas as 
hierarquias sociais, sendo um traço constitutivo das 
relações de dominação. (GUIMARÃES, 2005)
A associação da cor negra a criminalidade é 
prática reiterada, e revela o senso comum partilhado 
pela sociedade, sobretudo pela polícia, de que 
cidadãos negros são percebidos como potenciais 
perturbadores da ordem social e para tanto são 
potencialmente bandidos. A naturalização e a 
associação do homem negro como potencial criminoso 
Direitos de Juventude
195
contém caráter discriminatório e se faz presente nas 
agências encarregadas de conter a criminalidade, que 
consequentemente utilizam-se do estereótipo para 
executar suas ações. 
A Comissão Parlamentar de Inquérito de Violência 
Contra Jovens negros e pobres, comunicou através da 
sua pesquisa de que ocorre no Brasil um genocídio 
simbólico, vez que o Estado Brasileiro vem negando 
a população negras os mais básicos serviços públicos 
a demasiado tempo. O relatório final, destacou que 
os índices se demonstram extremamente graves no 
que diz respeito a violência no país, e que atualmente 
os números são verdadeiramente alarmantes, haja 
vista que o país “vive em guerra civil não declarada”. 
(BRASIL, 2015)
Vigora no Brasil, uma característica peculiar, 
quanto ao preconceito, uma vez que enquanto em 
outros países, as práticas racistas são facilmente 
identificadas e reconhecidas, toma-se como exemplo 
os Estados Unidos, no Brasil, tem-se para cada prática, 
uma negativa. É para tanto incomum que pessoas 
ou instituições assumam o racismo que aqui vige. O 
preconceito racial é uma prática moralmente criticada, 
todavia, esta culturalmente aceita e naturalizada. 
4. O direito fundamental à vida de jovens 
negros no marco teórico da proteção integral.
Os dados oficiais no que diz respeito à população 
negra apontam que esta é a parcela mais afetada 
pela violência da sociedade, bem como a mais sujeita 
à violação de direitos. A realidade vivenciada por esta 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
196
população acaba por violar o direito fundamental à 
vida, previsto na Constituição da República Federativa 
de 1988. Deste modo os indicadores e dados oficiais 
apontados, sinalizam uma realidade de que aponta 
para o genocídio da população negra, uma dinâmica 
social de negação do direito à vida, ancorada, 
sobretudo, no racismo.
Ao observar o texto da constitucional vigente, 
o direito à vida encontra-se previsto no Art. 5º: 
“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de 
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos 
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do 
direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e 
à propriedade [...]” (BRASIL, 1998)
Ao analisar o contexto histórico das constituições 
brasileiras, constata-se que o constituinte originário 
da Constituição Federal de 1988, tratou de garantir a 
imparcialidade do ordenamento jurídico, uma vez que 
os ordenamentos anteriores em sua vasta maioria, 
acabavam por excluir ou tratar de modo distinto 
alguns grupos específicos de pessoas, como escravos, 
analfabetos, mulheres e/ou pobres, ocorrendo desta 
forma uma individualização clara do sujeito de direitos 
e obrigações.
O direito à vida prevista no artigo 5° da 
Constituição Federal, tem de ser encarado para além 
do direito de não ser morto, deve ser compreendido 
igualmente ao direito de ter uma vida digna, contudo, 
ele acaba por ser banalizado e violado quando se 
observa o contexto o qual a juventude negra encontra-
se inserida. 
Cumpre destacar, que o direito à vida, volta a 
Direitos de Juventude
197
ter atenção, no artigo 227 da Constituição Federal, que 
o contempla sobre um novo formato de proteção, que 
éa proteção compartilhada entre a família, Estado 
e sociedade, tal proteção encontra-se direcionada 
a criança, ao adolescente e ao jovem, nos seguintes 
termos: 
Art. 227 É dever da família, da sociedade 
e do Estado assegurar à criança, ao 
adolescente e ao jovem, com absoluta 
prioridade, o direito à vida, à saúde, à 
alimentação, à educação, ao lazer, à 
profissionalização, à cultura, à dignidade, 
ao respeito, à liberdade e à convivência 
familiar e comunitária, além de colocá-
los a salvo de toda forma de negligência, 
discriminação, exploração, violência, 
crueldade e opressão. (BRASIL, 1988).
A proteção compartilhada prevista no artigo 
acima mencionado inicia-se a partir do marco teórico 
da proteção integral, compreende-se como marco 
teórico as mudanças estruturais no universo político 
consolidadas ao final do século XX, observa-se neste 
período o contraste entre duas doutrinas de relevante 
importância, mais precisamente a situação irregular e 
da proteção integral. (CUSTÓDIO, 2008). 
Cumpre destacar, que ao longo deste período, o 
Estado exercia a tutela sobre as crianças e adolescentes 
por intermédio do Poder Judiciário, que solucionava 
questões que por ora se referiam à assistência social 
de modo repressivo, institucionalizante e discricionário, 
sendo que os “interesses e necessidade de crianças e 
adolescentes perdeu-se nos caminhos tortuosos da 
burocratização, do clientelismo, do populismo, da 
corrupção e malversação de recursos públicos” (LIMA, 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
198
2001, p. 269). 
A visualização de crianças e adolescentes 
como sujeitos de direito nasce em meio a um processo 
demorado e difícil que contou com um marco fundante 
na Constituição Federal, que tinha como escopo alterar 
as linguagens em relação a temática e “expressões 
relacionadas à doutrina da situação irregular, a partir 
da superação da menoridade, que condicionava a 
condição de infância a submissão dos adultos, dando 
tratamento de objeto” (MOREIRA; CUSTÓDIO, 2018, p. 
298).
Portanto, para além das suas possibilidades 
de garantir a efetivação dos direitos 
fundamentais, seu maior significado está 
na superação da posição predominante 
no século XX, que reduziu a criança a 
objeto de tutela, incapaz ou menor. O 
reconhecimento como sujeito de direitos 
implica um desenlace libertário da criança 
das amarras institucionais que cultivavam 
as obrigações de obediência e submissão. 
Nesse contexto, não interessa mais o 
estigma justificativo da intervenção estatal 
imposto à criança, mas sim, a possibilidade 
concreta e objetiva de a criança e o 
adolescente exigirem a efetivação de seus 
direitos (VERONESE; CUSTÓDIO, 2013, p. 
124).
A população jovem encontra-se englobada 
pela teoria da proteção integral, compreende-se 
como população jovem as pessoas que possuem 
entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos, o artigo 1°, 
parágrafo 2° do Estatuto da Juventude dispõe que: 
“Aos adolescentes com idade entre 15 (quinze) e 18 
(dezoito) anos aplica-se a Lei nº 8.069, de 13 de julho 
de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, e, 
excepcionalmente, este Estatuto, quando não conflitar 
Direitos de Juventude
199
com as normas de proteção integral do adolescente. ” 
(BRASIL, 2013)
A garantia dos direitos fundamentais comum 
aos jovens, em âmbito nacional, fora outorgada 
pela Emenda Constitucional 65, de 13.07.2010, ela 
fora responsável por dar nova redação ao art. 227 
da Constituição Federal de 1988, e que acabou 
determinando a edição de Estatuto próprio, que 
ocasionalmente é o Estatuto da Juventude. 
O Estatuto da Juventude é composto por 48 
artigos, contudo, merece destaque o artigo 2° que 
delimita sobre os princípios, 
Art. 2º O disposto nesta Lei e as políticas 
públicas de juventude são regidos 
pelos seguintes princípios: I - promoção 
da autonomia e emancipação dos 
jovens; II - valorização e promoção da 
participação social e política, de forma 
direta e por meio de suas representações; 
III - promoção da criatividade e da 
participação no desenvolvimento do 
País; IV - reconhecimento do jovem como 
sujeito de direitos universais, geracionais 
e singulares; V - promoção do bem-estar, 
da experimentação e do desenvolvimento 
integral do jovem; VI - respeito à identidade 
e à diversidade individual e coletiva da 
juventude; VII - promoção da vida segura, 
da cultura da paz, da solidariedade e da 
não discriminação; e VIII - valorização do 
diálogo e convívio do jovem com as demais 
gerações. (BRASIL, 2013).
Após o estabelecimento do marco teórico 
da proteção integral, passou-se a garantir a criança 
e ao adolescente o status de sujeitos de direito em 
condição peculiar em desenvolvimento de modo que 
tal responsabilidade acabasse por ser compartilhada 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
200
entre a família, a sociedade e o Estado (FREITAS; 
RAMOS, 2019).
É partir do marco teórico da proteção integral, 
que ocorre a visualização da criança, do adolescente, 
bem como do jovem como sujeitos de direitos, e não 
meros objetos, de modo que se observa a partir deste 
a necessidade da proteção especial em razão da sua 
condição peculiar de desenvolvimento e igualmente 
da necessidade de desfrutarem da concretização de 
direitos fundamentais, como o direito à vida. 
4.1 Contextualização da proteção integral.
A teoria da proteção integral pode ser analisada 
como princípio fundamental ao ordenamento jurídico 
brasileiro, ora que é mecanismo de proteção e 
concretização de direitos. 
A base teórica da proteção integral reconheceu 
crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, que 
fazem jus a proteção especial em decorrência da sua 
condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. 
(CUSTÓDIO; VERONESE, 2013) 
O principal artigo que trata sobre a garantia 
de direitos fundamentais da criança e adolescente 
atualmente no ordenamento jurídico é o artigo 227 da 
Constituição da república Federativa do Brasil, a partir 
da análise deste, que encontra-se inserido o marco 
teórico da proteção integral de direitos de crianças 
e adolescente, o princípio da prioridade absoluta e o 
princípio da tríplice responsabilidade compartilhada 
de forma expressa, para além de estar em consonância 
com o princípio da dignidade humana, que é preceito 
Direitos de Juventude
201
fundamental constitucional. (MOREIRA, 2019)
Em consonância com o direito à vida, e com o 
marco teórico da proteção integral é inconcebível 
não dispor sobre o princípio da igualdade previsto na 
Constituição Federal de 1988, o princípio constitucional 
da igualdade é observado como uma das mais 
importantes ferramentas para eficácia do direito, 
uma vez que é por intermédio deste que se dá a 
concretização de direitos e garantias fundamentais. 
É partir deste que se estabelecerá meios de reduzir 
ou mesmo neutralizar situações de segregação racial, 
social, econômica, cultural, sexual, etária, entre outras. 
Observa-se, que constitui pressuposto primordial 
para o respeito da dignidade da pessoa humana a 
garantia da igualdade entre todos os seres humanos, 
portanto, de modo que não podem estes serem 
submetidos a tratamento discriminatório e arbitrário, 
razão pela qual é inadmissível e intolerável todo e 
qualquer ato de escravidão, discriminação racial, 
perseguições por motivos de religião, gênero, orientação 
sexual, entre outros, compreende-se portanto que é 
inaceitável qualquer ofensa ao princípio igualdade na 
sua dupla dimensão formal e material. (SARLET, 2015)
Ainda que continuamente, afirme-se que 
negros e brancos são iguais perante a lei, na mesma 
frequência em que essas afirmações são realizadas, 
visualiza-se a violação dos direitos da população 
negra, em decorrência do racismo. Ainda que 
constitucionalmente tenha-se entabulado que todos 
são iguais perante a lei, bem como frequentemente 
argumenta-se que há de fato uma democracia racial 
na sociedade brasileira, pessoa negra e pobre, em 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
202
especiala juventude, que segue sendo vítima dos 
efeitos do racismo que consequentemente acaba 
por acarretar a violação de direitos fundamentais, 
entre eles o direito à vida, a partir da visualização do 
genocídio da população negra, conforme apontado 
ao longo deste artigo. 
Cumpre observar, que a proteção integral, que 
se encontra recepcionada para a garantia dos direitos 
fundamentais, está igualmente amparada pelos 
princípios da não discriminação, da universalização e da 
prioridade absoluta. O princípio da não discriminação 
deverá atuar em consonância com a universalidade, de 
modo a impedir que crianças e adolescentes venham 
a ser discriminados por várias razões, entre elas o 
pertencimento racial, classe racial, crença, ou outras 
situações que acabem por frustrar o reconhecimento 
de direitos fundamentais. (LIMA, 2018)
Ao adentrar o campo das relações raciais, 
a universalização no atendimento aos direitos de 
crianças, adolescentes e igualmente da juventude, 
não se materializa de forma equitativa como preveem 
os instrumentos normativos, quando há o recorte 
racial. Observa-se, para tanto, que não basta apenas 
normatizar, vedando a discriminação fundada na raça 
ou na cor, é necessário o investimento em políticas 
públicas que verdadeiramente venham a satisfazer 
esses novos direitos. (LIMA, 2018)
 Visualiza-se, a partir do cenário atual, tamanha 
disparidade na concretização de direitos fundamentais, 
no que diz respeito a crianças, adolescentes e jovens 
negros de modo que estes encontram-se condenados 
a falta de políticas públicas que de fato promovam 
Direitos de Juventude
203
uma igualdade material e cumpra com o que fora 
estipulado ao longo Constituição da República 
Federativa do Brasil, da teoria da proteção integral, 
do Estatuto da Juventude, bem como nos demais 
ordenamentos jurídicos. 
4.2. A proteção jurídica nacional e internacional 
ao direito à vida de jovens negros.
Após a aprovação da Constituição da República 
Federativa de 1988, observou-se um efetivo efeito 
do texto constitucional, que acabou por resultar em 
projetos de lei tipificando o crime de racismo e suas 
respectivas penas, de modo que é possível constatar 
que o período pós constituição é caracterizado como 
a segunda fase de iniciativa, pela emergência de um 
conjunto aprofundado em projetos para o tratamento 
legal como instrumento para a concretização de 
direitos e consequentemente da igualdade de fato. 
A Constituição Federal tem como fundamento o 
respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana, 
encontrando-se assim em harmonia com o direito 
internacional dos direitos humanos conforme previsto 
no artigo 1°, inciso III da Constituição. Neste mesmo 
sentido seguindo para tanto a proteção contra as 
desigualdades e discriminações a mesma estabelece 
um conjunto de dispositivos que abominam fatos 
decorrentes do racismo, e passa a buscar a construção 
de uma sociedade justa e solidária, até que se 
conquiste a igualdade de todos perante a lei, sem que 
haja desta forma quaisquer forma de discriminação ou 
preconceitos fundados na raça, sexo, cor, idade e outras 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
204
formas de discriminações, conforme demonstrado nos 
artigos 3°, 4° e 5°. (LIMA, 2016) 
No que diz respeito a avanços na proteção 
jurídica, bem como na busca da promoção da 
igualdade racial, cumpre destacar o Estatuto da 
Igualdade Racial, que nasce partir da promulgação da 
Lei n° 12.288 de 2010. O Estatuto da Igualdade Racial 
tornou-se um instrumento importante para correção 
das desigualdades, bem como para correção de 
disparidades históricas, de modo, que é a partir deste 
Estatuto que se observa uma forma democrática e 
legal para o acesso da população negra nas diferentes 
áreas da sociedade, haja vista que ele prevê inclusive 
o investimento estatal em políticas públicas de ação 
afirmativa, conforme o art. 1°:
Art. 1º Esta Lei institui o Estatuto da 
Igualdade Racial, destinado a garantir 
à população negra a efetivação da 
igualdade de oportunidades, a defesa 
dos direitos étnicos individuais, coletivos e 
difusos e o combate à discriminação e às 
demais formas de intolerância étnica.
Parágrafo único. Para efeito deste Estatuto, 
considera-se:
[...]
V - políticas públicas: as ações, iniciativas 
e programas adotados pelo Estado 
no cumprimento de suas atribuições 
institucionais;
VI - ações afirmativas: os programas e 
medidas especiais adotados pelo Estado e 
pela iniciativa privada para a correção das 
desigualdades raciais e para a promoção 
da igualdade de oportunidades. (BRASIL, 
2013)
No que diz respeito a proteção jurídica em 
âmbito internacional, merece destaque a Declaração 
Direitos de Juventude
205
Universal dos Direitos Humanos de 1948 da ONU, 
legislação a qual compõe a base de todas as leis 
contemporâneas que defendem direitos essenciais 
inerente a toda e qualquer pessoa, direitos estes que 
por ora são o direito à vida, à integridade física, à livre 
expressão e à associação sem qualquer distinção de 
raça, cor, sexo, religião ou visão política. Cabe destacar, 
que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, 
assim como as demais leis aqui elencadas, expressa 
ao longo do seu texto o direito de igualdade e de não 
discriminação em seus artigos I e II.
 A Declaração Universal dos Direitos Humanos, 
confere o direito à igualdade como meio de assegurar 
a todos igual proteção, de modo que estes estejam 
livre de qualquer forma de discriminação e contra 
qualquer incitamento a discriminação. Intenta-
se, ainda no que diz respeito ao âmbito da ONU, 
observa-se igualmente a vigência da Convenção 
Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas 
de Discriminação Racial de 1968, sendo o Brasil 
signatário desta através do Decreto n° 68.810, de 8 de 
dezembro de 1969 (LIMA, 2016).
A Convenção de 1968, possui força vinculante 
e cumprimento obrigatório de seus preceitos pelos 
Estados-signatários, ela define no artigo 1° o significado 
de discriminação racial, vedando a prática desta a 
todos os Estados signatários. Não obstante o rol de 
artigos da primeira parte da Convenção traz consigo 
um complexo de medidas a serem tomada pelos 
Estados, afim de coibir a prática de discriminação 
racial, o rol de elementos vai desde políticas 
proibicionista de tal prática, e que muitas vezes os 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
206
países resolvem no campo da criminalização, toma-se 
como exemplo a tipificação do crime de injúria racial, 
que é definido pelo artigo 140, §3°, do Código Penal, 
para além o rol de elementos observa-se igualmente 
a criação de políticas públicas de ação afirmativa, ou 
ainda a criação de políticas no campo do ensino que 
visem promover uma cultura de respeito pelos direitos 
humanos e pela igualdade racial. (LIMA, 2016)
Merece igualmente atenção a Convenção 
Interamericana de Direitos Humanos de 1969 da 
OEA, também conhecida como Pacto de San José da 
Costa Risca, que estabelece o direito de igualdade 
e não discriminação. No mesmo sentido o sistema 
interamericano, aprovou duas novas convenções em 
2013, são elas: a Convenção Interamericana contra 
o Racismo, Discriminação Racial e Formas Correlatas 
de Intolerância e a Convenção Interamericana 
contra Toda a Forma de Discriminação e Intolerância. 
Destaca-se que a aprovação de ambas tem relação 
com a preocupação no que diz respeito a temática 
da Comissão Interamericana de Direitos Humanos 
que tem como intuito fortalecer o princípio da não 
discriminação. (ANNONI; LIMA, 2014)
Ainda que se visualize, em diversos textos 
normativos a proteção a população negra, esta 
restringe-se por vezes ao plano formal, haja vista que 
diariamente a população negra tem os seus direitos 
violados e banalizados em razão do racismo É por 
existirem inúmeras desigualdades que se anseia pela 
igualdade material. 
Direitos de Juventude
207
4.3. A necessidade do estabelecimento de 
ações estratégicas de políticas públicas de 
promoção do direito à vida dejovens negros, 
bem como do enfretamento ao racismo 
estrutural.
 É por intermédio da adoção de políticas públicas 
que o princípio da igualdade transcenderá do seu 
plano formal para o plano material. Portanto, para que 
de fato a democracia faça-se valer atualmente, esta 
necessita da superação de uma concepção mecânica, 
estratificada, da igualdade, que em momento anterior, 
fora definida tão somente como um direito, sem 
qualquer cogitação de que este viesse a ser convertido 
em uma possibilidade. (DALLARI, 2005)
 O conceito de política pública, contém em si 
elementos variáveis na medida dos fins que busca 
alcançar, de maneira que estes são mutáveis, pois 
se dão em conformidade com os anseios sociais, 
contudo, devem estes elementos manter coerência. 
Controverte-se que estas ações devem ser um 
espaço de permanente de interlocução de maneira 
que envolva e beneficie o maior número de agentes, 
almejando uma construção comunicativa com a 
coletividade (BITTENCOURT, 2013). 
Observando todos os aspectos quanto 
ao quadro de injustiças e desigualdades que se 
apresentam no Brasil em razão da raça, vislumbra-se 
como saída inicial a defesa de um amplo programa 
de ações afirmativas para ao final reverter o quadro 
para um plano de igualdade de oportunidade para 
todos. Essas ações devem ser desenvolvidas em áreas 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
208
como a da educação, saúde, mercado de trabalho, 
cargos políticos, entre outros setores que se visualiza 
a evidente discriminação, de modo que este quadro 
venha a ser superado. (MUNANGA, 2006)
As políticas de igualdade racial têm como base 
três dimensões. Inicialmente requer uma ampliação dos 
investimentos estatais em políticas socioeconômicas 
de caráter universal e geral, por meio de programas 
em que se busque reduzir a pobreza. Por conseguinte, 
uma incorporação de perspectivas raciais em políticas 
setoriais para a população negra, como por exemplo, 
o Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos 
Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana. 
A terceira e última dimensão comtempla ações 
afirmativas para garantir uma igualdade substantiva, 
exemplo disso, seria o Programa Universidade Para 
Todos (PROUNI) (LIMA; SALEH, 2016).
 Não diferentemente, cumpre observar que 
todos os jovens gozam do direito de viver em um 
ambiente seguro, sem violência, de modo que lhe 
reste assegurado a igualdade de oportunidades e 
facilidades para o seu aperfeiçoamento intelectual, 
cultural e social. Não obstante, deverão as políticas 
de segurança pública voltada aos jovens articular 
ações entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os 
Municípios e ações não governamentais, que possuam 
como diretrizes a integração com a demais políticas 
voltadas à juventude, a prevenção, bem como o 
enfretamento da violência. (BRASIL, 2013)
 A transversalidade nas políticas tem como 
escopo a redução da desigualdade, tendo em vista 
que a população negra se encontra em situação 
Direitos de Juventude
209
de exclusão e marginalização social, decorrente do 
preconceito, da discriminação racial e do racismo, que 
consequentemente resultam em diversas violações de 
direitos. Intenta-se que a transversalidade, oportuniza 
a readequação das políticas aos novos temas da 
agenda governamental, tornando, deste modo, 
importante a incorporação de temáticas específicas 
em alinhamento as estruturas setoriais. (LIMA; SALEH, 
2016)
 Atenta-se, que o Estado tem papel atuante nesta 
sistemática que decorre no genocídio da população 
negra, ora que para além de ser parte atuante neste 
cenário, ele não tem sido capaz de traçar estratégias 
e políticas públicas que promovam a igualdade racial, 
de modo que a omissão acaba por contribuir, para 
a naturalização e na banalização das violações de 
direitos fundamentais que atingem diretamente a 
população negra. 
 O enfretamento ao racismo e os resultados 
decorrentes deste devem constar como temática 
central, assim como devem ser pauta na agenda 
do Governo, haja vista que ele perpassa o tecido 
das relações sociais no país. Compreende-se para 
tanto a necessidade de que as desigualdades raciais 
sejam incorporadas e compreendidas como desafios, 
sinalizando deste modo a necessidade de diretrizes e 
metas que busquem a igualdade racial.
 
CONCLUSÃO
Ainda que, a abolição tenha ocorrido, en 14 
de maio de 1888, é como se os defeitos desta ainda 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
210
estivessem presente na vida de cada afrodescendente 
deste país, uma vez que ardilosamente a população 
negra segue sendo submetida a obstáculos que lhe 
impedem de alcançar um patamar de igualdade com 
a população branca.
A segregação entre brancos e negros 
ultrapassou as barreiras da escravidão, 
ora que indivíduos negros seguem segregados 
quando se visualiza segmentos como a educação, 
empregabilidade e outras oportunidades.
Mesmo observando a igualdade como direito 
fundamental ao longo da carta magna, a mesma para 
com a população negra ocorre tão somente no plano 
formal, ora que no plano material a população negra 
está sendo vítima de um genocídio em sua forma 
violenta e simbólica. 
Quando se observa a ausência dos serviços 
básicos que o Estado tem de prestar a sua população 
em um todo e percebe-se que a população negra não 
tem acesso a estes remetemo-nos há um exemplo 
claro do que é o genocídio simbólico, ora que ele está 
correlacionado com a ideia da retirada dos direitos 
básicos e inerentes a toda e qualquer pessoa do povo, 
independente de raça.
A partir dá análise e da compreensão de como 
se dá a propagação do racismo, resta evidente e claro 
de que modo ocorre a crescente onda de violência 
contra indivíduos negros, tal constatação visualiza-se 
a partir dos dados apresentados a partir de pesquisas 
produzidas e, que apontam o crescente índice de 
homicídios contra a população negra no Brasil. 
Contudo, ainda que os índices anunciem um 
Direitos de Juventude
211
genocídio não declarado o Estado continua ignorando-
os sobre o aparato repressor que segue criminalizando 
e marginalizando a população negra, de modo que 
desacredita e anula suas reinvindicações em um todo, 
garantido e mantendo desta forma, somente parte da 
sociedade com privilégios e segurança de fato. 
 Ainda que se vislumbre-se, ordenamentos 
jurídicos voltados para a proteção de direitos 
fundamentais, tal proteção ocorre tão somente no 
plano formal, haja vista que no plano material, a 
população negra não desfruta desta dos direitos 
anunciados. É evidente que para além da normativa 
e dos preceitos é necessário que o Estado, os ponha 
em prática através de ações que de fato venham a 
promover a igualdade entre negros brancos.
O Brasil e a sociedade brasileira necessitam 
se compreender e se colocar como agentes que 
propagam o racismo, bem como precisam assimilar a 
consequências dessas, para além de traçar diretrizes 
que permitam o combate dos males advindos do 
racismo, é preciso que a questão seja ponto central no 
debate, ora que torna-se imprescindível a oitiva das 
reinvindicações desta população para parem de lhes 
matar e lhes submeter a situações de marginalização, 
de maneira que a partir deste contexto possa se 
visualizar o efetivo e real combate do racismo. 
É necessário para tanto que o Estado trace 
diretrizes para combater os efeitos decorrentes 
do racismo estrutural e institucional, deste modo 
é correto adotar diretrizes que são compostas um 
conjunto de instruções que buscam procedimentos 
nas áreas das políticas sociais para a organização, 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
212
articulação, desenvolvimento e avaliação em 
programas desenvolvidos por órgão governamentais 
e pela sociedade civil. Intenta-se que a diretrizes 
possuem como marco os direitos humanos, para uma 
construção de planos e metas com vistas a realização 
de políticas de promoção e garantia dos direitos.
Frente às desigualdades acarretadas em 
razão do fator raça, que historicamentemarca a 
trajetória da população negra, faz-se necessário que 
progressivamente e constantemente sejam discutidas 
iniciativas necessárias em termos de ação para o 
enfretamento do racismo estrutural e institucional.
 Para além da propagação de ideais 
que normatizem o racismo, é preciso 
visualizar o mesmo, em sua manifestação estrutural e 
institucional. É por óbvio que a sociedade brasileira tem 
como parte constitutiva de sua história base racistas, de 
modo que segue o propagando-o incessantemente. 
 A normatização das desigualdades ocorre de 
tal maneira, que indivíduos brancos não reconhecem 
seus privilégios em razão de não serem não brancos 
e acreditam que o contexto se encontra normal, ora 
que não reconhecem incessante desigualdade entre 
brancos e negros, ora que a estruturação da sociedade 
sempre fora desta maneira.
 O racismo é parte de um fenômeno social o qual 
apresenta uma sistemática opressora e discriminatória, 
que tem por motivação a diferença entre raças. Os 
discursos racistas perpassam décadas, haja vista que 
se encontram impregnados na prática de instituições 
públicas e privadas que acabam por reproduzir um 
imaginário social pautado na hierarquização entre 
Direitos de Juventude
213
negros e brancos.
Diante do cenário, torna-se necessário e 
inevitável a promoção de políticas públicas destinadas 
para a igualdade racial, de modo a romper com as 
alegações de que não existe racismo em solo brasileiro, 
passando combater igualmente a difusão da ideologia 
da democracia racial, que faz com que o racismo se 
torne ainda mais resistente no seu combate
A partir deste contexto que aponta a 
vulnerabilidade da população negra, torna-se 
imprescindível questionar-se quais são as diretrizes 
necessárias para desencadearem discussões sobre as 
causas e as consequências da situação de violência e 
extermínio que vem sendo perpetuado no cotidiano 
dos jovens negros. São diversos os fatores que integram 
a produção da violência letal, mas inegável a cor é 
uma condicionante de expressão, prova disso são 
os índices que demonstram negros como vítimas de 
mortes violenta.
É necessário para tanto que o Estado trace 
diretrizes para combater os efeitos decorrentes do 
racismo, deste modo é correto adotar diretrizes 
que são compostas um conjunto de instruções que 
buscam procedimentos nas áreas das políticas sociais 
para a organização, articulação, desenvolvimento 
e avaliação em programas desenvolvidos por órgão 
governamentais e pela sociedade civil. Intenta-se que 
a diretrizes possuem como marco os direitos humanos, 
para uma construção de planos e metas com vistas a 
realização de políticas de promoção e garantia dos 
direitos.
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
214
Portanto, pressupõe-se que o Estado e a 
sociedade brasileira, necessitam se compreender e se 
colocar como agentes que propagam o racismo, bem 
como precisam assimilar a consequências deste, para 
além de traçar diretrizes que permitam o combate 
dos males advindos do racismo, é preciso que a 
questão seja ponto central no debate, ora que se 
torna imprescindível a oitiva das reinvindicações desta 
população, para que fato se possa visualizar o efetivo 
e real combate ao racismo.
REFERÊNCIAS
ANNONI, Danielle. LIMA, Fernanda da Silva. Como evitara 
discriminação racial no continente americano? Um estudo 
a partir do relatório da CIDH sobre a situação das pessoas 
afrodescendentes nas Américas em 2011. In: CANÇADO 
TRINDADE, Antônio Augusto; LEAL, César Barros (Orgs.). 
Igualdade e não discriminação. Fortaleza: IBDH/IIDH/SLADI, 
2014.
ALMEIDA, Silvio Luiz. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: 
Letramento, 2018.
AZEVEDO, Damião Alves de. Justiça e as cores: a adequação 
constitucional das políticas públicas afirmativas voltadas 
para negros e indígenas no ensino superior a partir da teoria 
discursiva do direito. Dissertação (Mestrado em Direito) – 
Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da 
Universidade de Brasília, Brasília, 2007. BRASIL. Constituição 
da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível 
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
constituicaocompilado.htm. Acesso em 10 jun. 2020
BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. 1990. Disponível 
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069compilado.
htm. Acesso em 10 jun. 2020 
BRASIL. Lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013. Estatuto da 
Direitos de Juventude
215
Juventude. Brasília: Diário Oficial da União, 2013. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/
L12852.htm. Acesso em 10 jun. 2020 
BRASIL. Decreto Nº. 30.822, de 6 de maio de 1952. Promulga 
a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de 
Genocídio, concluída em Paris, a 11 de dezembro de 1948, por 
ocasião da III Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. 
Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 
9 maio 1952.Disponível em <http://www2.camara.leg.br/legin/
fed/decret/1950-1959/decreto-30822-6-maio-1952-339476-
publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 10 jun. 2019. 
BRASIL. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e 
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atlas da violência 
2019. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/images/
stories/PDFs/relatorio_institucional/190605_atlas_da_
violencia_2019.pdf. Acesso em 10 jun. 2020 
BRASIL. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e Fórum 
Brasileiro de Segurança Pública. Atlas da violência 2020. 
Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/
download/24/atlas-da-violencia-2020. Acesso em 1 set. 2020 
BRASIL. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA 
(IBGE).
Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil. Rio de Janeiro: 
IBGE, 2019. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/
visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf. Acesso em 10 ago. 
2020 
BITENCOURT, Caroline. Muller. Controle jurisdicional de políticas 
públicas. Porto Alegre: Fabris, 2013.
CERQUEIRA, Daniel; MOURA, Rodrigo Leandro. Vidas perdidas 
e racismo no Brasil. Nota técnica (IPEA). Brasília, n. 10, p. 
1-25, nov. 2013. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/
bitstream/11058/5977/1/NT_n10_vidas.pdf
CUSTÓDIO, André Viana. Teoria da proteção integral: 
pressupostos para a
compreensão do direito da criança e do adolescente. Revista do 
Direito: Revista do programa de pós-graduação do mestrado e 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
216
doutorado, Santa Cruz do Sul, n. 29, p.22-43, jan./jun. 2008.
CUSTÓDIO, André Viana; VERONESE, Joseane Rose Petry. 
Trabalho Infantil Doméstico. São Paulo: Saraiva, 2013.
CUSTÓDIO, André Viana; MOREIRA, Rafael Bueno da Rosa 
Moreira Estratégias Municipais para o Enfrentamento da 
Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes. In: 
XXVII Encontro Nacional do CONPEDI, 27, 2018, Salvador. Anais 
eletrônicos. Salvador: UFBA, 2018.
DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos da Teoria Geral do Estado. 
25 ed. São Paulo: Saraiva 2005.
FILHO, ORLANDO ZACCONE D ELIA. Indignos de vida: a forma 
jurídica da política de extermínio de inimigos na cidade do 
Rio de Janeiro’. Doutorado em CIÊNCIA POLÍTICA Instituição 
de Ensino: UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE, Niterói 
Biblioteca Depositária: Central do Gragoatá. Disponível em: 
https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/
trabalhoConclusao/viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_
trabalho=3519356. Acesso em 10 jul. 2020 
FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. 
Apresentação de Lilia Moritz Schwarcz. 2. ed. rev. São Paulo: 
Global, 2007.
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège 
de France. Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: 
Martins Fontes, 1999.
FREITAS, Higor Neves de ; RAMOS, F. M. . A proteção jurídica 
contra a exploração do trabalho infantil. Revista Jurídica em 
pauta , v. 1, p. 109-121, 2019.
GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Classes, raças e 
democracia. São Paulo: 34, 2002.
HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e mediações culturais.Tradução de Adelaine la Guardia Resende et al. Belo Horizonte: 
UFMG Editora, 2003.
HOFBAUER, Andréas. Uma história de branqueamento ou o 
Direitos de Juventude
217
negro em questão. São Paulo: Unesp, 2006.
MOREIRA, Rafael Bueno da Rosa. As estratégias e ações de 
políticas públicas para a erradicação da exploração sexual 
comercial nos municípios brasileiros no contexto jurídico e 
político da teoria da proteção integral dos direitos da criança 
e do adolescente. 2020. 292f. Tese de Doutorado. Programa de 
Pós-Graduação em Direito, Universidade de Santa Cruz do Sul, 
Santa Cruz do Sul, 2020. Disponível em: https://repositorio.unisc.
br/jspui/bitstream/11624/2707/1/Rafael%20Bueno%20Da%20
Rosa%20Moreira.pdf. Acesso em 03 ago. 2020.
LIMA, Fernanda da Silva. A Proteção Integral de Crianças e 
Adolescentes Negros: Um Estudo do Sistema de Garantia de 
Direitos para a Promoção da Igualdade Racial no Brasil. 2010. 
320 f. Dissertação (Mestrado em Direito), Programa de Pós-
graduação em Direito, Universidade Federal de Santa Catarina, 
Florianópolis, 2010.
LIMA, Fernanda da Silva. Os direitos humanos e fundamentais 
de crianças e adolescentes negros à luz da proteção integral: 
limites e perspectivas das políticas públicas para a garantia 
de igualdade racial no Brasil. Tese (Doutorado em Direito) - 
Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências 
Jurídicas. Programa de Pós-Graduação em Direito. Florianópolis, 
2015.
LIMA, Fernanda da Silva. Racismo e antirracismo no Brasil: 
temas emergentes nocenário sócio jurídico. Santa Cruz do Sul: 
Essere nel Mondo, 2018. 
LIMA, Fernanda da Silva; SALEH, Nicole Martignago. A 
transversalidade nas políticas públicas de igualdade racial no 
município de Criciúma/SC e a garantia de direitos de crianças e 
adolescentes negros. Seminário Internacional Demandas Sociais 
e Políticas Públicas na Sociedade Contemporânea, 2016.
LIMA, Miguel Moacyr Alves. O direito da criança e do 
adolescente: fundamentos para uma abordagem 
principiológica. 2001. 478 f. Tese (Doutorado em Direito), 
Programa de Pós-graduação em Direito, Universidade Federal 
de Santa Catarina, Florianópolis.
LEITE, Maria. Tráfico atlântico, escravidão e resistência no brasil. 
André Viana Custódio & Júlia dos Santos Severo
218
Sankofa, São Paulo, v. 10, n. 19. 2017. Disponível em: https://
www.revistas.usp.br/sankofa/article/download/137196/132982/. 
Acesso em 25 de jun. 2020
MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. São Paulo: n-1, 2018a.
SARLET, Ingo Wolfang. Dignidade (da pessoa) Humana e Direita 
Fundamentais na Constituição Federal de 1988, 10 ed. Porto 
Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2015.
Editora Belcanto 
Avenida Gílio Búrigo, 702 
Jardim Maristela - Criciúma/SC 
CEP 88815-300 
www.editorabelcanto.com.br

Mais conteúdos dessa disciplina