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Larissa Maciel Gonçalves Silva Diferenças, deficiências: implicações no ato educativo Catalogação elaborada pelo Setor de Referência da Biblioteca Central Uniube Silva, Larissa Maciel Gonçalves. S38d Diferenças, deficiências: implicações no ato educativo / Larissa Maciel Gonçalves Silva. – Uberaba: Universidade de Uberaba, 2020. 260 p. : il. Programa de Educação a Distância – Universidade de Uberaba. Inclui bibliografia. ISBN 1. Educação especial. 2. Educação inclusiva. I. Universidade de Uberaba. Programa de Educação a Distância. II. Título. CDD 371.9 © 2020 by Universidade de Uberaba Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Universidade de Uberaba. Universidade de Uberaba Reitor Marcelo Palmério Pró-Reitor de Educação a Distância Fernando César Marra e Silva Coordenação de Graduação a Distância Sílvia Denise dos Santos Bisinotto Editoração e Arte Produção de Materiais Didáticos-Uniube Editoração Márcia Regina Pires Raul Sérgio Reis Rezende Revisão textual Erika Fabiana Mendes Salvador Diagramação Andrezza de Cássia Santos Ilustrações Getty Images Projeto da capa Agência Experimental Portfólio Edição Universidade de Uberaba Av. Nenê Sabino, 1801 – Bairro Universitário Larissa Maciel Gonçalves Silva Mestre em Educação, com ênfase em Educação Especial e Deficiência Intelectual, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Graduada em Pedagogia por essa instituição. Docente na Universidade de Uberaba. Docente na Rede Municipal de Ensino de Uberlândia; professora formadora e compõe membro da equipe de Educação Especial nessa Rede Municipal de Ensino. Sobre a autora Sumário Apresentação ......................................................................................VII Capítulo 1 Educação Inclusiva e Educação Especial: saberes necessários .......................................................................... 1 1.1 Marcos históricos do movimento mundial pela Inclusão Escolar e sua repercussão no Brasil ..............................................................................................3 1.2 Educação Especial: aspectos conceituais e práticos ............................................10 1.3 Educação Especial: seus serviços e seus recursos ..............................................18 1.3.1 Atendimento Educacional Especializado – AEE ..........................................19 1.3.2 Demais serviços ............................................................................................23 1.4 Considerações finais...............................................................................................27 Capítulo 2 Educação em tempos de inclusão: processo formativo e avaliativo para os estudantes público da Educação Especial .............................................................................. 33 2.1 Educação Inclusiva: compromisso de todos e de cada um ...................................35 2.2 Adequações e flexibilizações: uma perspectiva inclusiva ......................................44 2.3 Acessibilidade e eliminação de barreiras ...............................................................50 2.4 Processo formativo e avaliativo do público da Educação Especial .......................57 2.5 Considerações finais...............................................................................................63 Capítulo 3 Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiências Sensoriais: Surdez ............................................................ 69 3.1 Saberes essenciais sobre a Deficiência Auditiva ...................................................70 3.2 Movimento Pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com surdez (Pessoa com surdez) – PS .....................................................................................................73 3.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com surdez – Pessoa com Surdez (PS) .........................................80 3.4 Considerações finais...............................................................................................86 Capítulo 4 Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiências Sensoriais: Deficiência Visual e Surdocegueira ................ 89 4.1 Saberes essenciais sobre a Deficiência Visual (cegueira e baixa visão) – DV .....90 4.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Visual: cegueira e baixa visão ......................................................................................................97 4.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Visual: cegueira e baixa visão .................................107 4.4 Saberes essenciais sobre a Surdocegueira .........................................................114 4.5 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Surdocegueira ..........................................................................................................................116 4.6 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com surdocegueira.............................................................................119 4.7 Considerações finais.............................................................................................127 Capítulo 5 Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiência Física e Deficiência Múltipla ....................................................... 133 5.1 Saberes essenciais sobre a Deficiência Física – DF ...........................................134 5.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Física – DF .........................................................................................137 5.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Física: estimulação, orientação e mobilidade .........143 5.4 Saberes essenciais sobre a Deficiência Múltipla – DMu .....................................148 5.5 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Múltipla ...............................................................................................150 5.6 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar, dos estudantes com Deficiência Múltipla: estimulação, orientação e mobilidade ......154 5.7 Considerações finais.............................................................................................158 Capítulo 6 Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual – DI ................................................................. 161 6.1 Saberes essenciais sobre a Deficiência Intelectual – DI .....................................163 6.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual – DI ...................................................................................171 6.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual – DI.........................................................181 6.4 Considerações finais.............................................................................................186 Capítulo 7 Inclusão Escolar dos estudantes com Altas Habilidades e/ou Superdotação .......................................................... 191 7.1 Saberes essenciais sobre Altas Habilidades/Superdotação – AH/SD ....................192 7.2 Movimento Pedagógico para inclusão escolar dos estudantescom Altas Habilidades/Superdotação – AH/SD .....................................................................198 7.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Altas Habilidades/Superdotação – AH/SD .................................205 7.4 Considerações finais.............................................................................................213 Capítulo 8 Inclusão Escolar dos estudantes com Transtorno do Espectro Autista – TEA ..................................................... 217 8.1 Saberes essenciais sobre Transtornos do Espectro Autista – TEA ....................219 8.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com TEA ..........228 8.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com TEA .............................................................................................238 8.4 Considerações finais.............................................................................................245 Prezado(a) aluno(a), é um prazer tê-lo(a) conosco. Atender às diferentes necessidades dos estudantes matriculados na escola regular, garantindo seu desenvolvimento e contribuindo de forma significativa para seu aprendizado, é, certamente, um dos maiores desafios enfrentados pela escola e por seus profissionais. O paradigma da Educação Inclusiva se apresenta no cenário da educação mundial, na defesa dos direitos humanos, pela democratização e universalização da educação. Nesse contexto, o presente livro aborda temas como Educação Inclusiva, Educação Especial e diferenças humanas de forma contextualizada, promovendo reflexões e conhecimentos necessários para ressignificar as formas de se conceber a diferença, os espaços e os saberes escolares, na defesa de uma escola para todos e cada um. No capítulo 1, “Educação Inclusiva e Educação Especial: saberes necessários”, contextualizamos o paradigma da Educação Inclusiva, com seus princípios orientadores, bem como apresentamos os fundamentos legais e sociais na defesa do direito de todos à educação. Aprofundamos, ainda, nossos conhecimentos a respeito da Educação Especial, como modalidade transversal na perspectiva da Educação Inclusiva. Oportunizamos conhecimentos que poderão auxiliar você a ultrapassar práticas educacionais hegemônicas e a compreender os conceitos interligados à concepção de diferença para além de práticas rotuladoras, classificatórias da aprendizagem e de preconceitos historicamente construídos em relação à pessoa com deficiência. No capítulo 2, “Educação em tempos de inclusão: processo formativo e avaliativo para os estudantes público da Educação Especial”, esclarecemos quem é o público da Educação Especial, segundo documentos oficiais. A Apresentação VIII UNIUBE partir do reconhecimento do público, apresentamos alguns conhecimentos e reflexões sobre o processo formativo e avaliativo desses estudantes. O capítulo demonstra a necessidade de se repensar a função da escola, as concepções de conhecimento, de ensino e de aprendizagem, uma vez que a Educação Especial, quando presente no ensino regular, demanda ressignificação da escola comum em seus fundamentos e práticas. No capítulo 3, denominado “Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiências Sensoriais: Surdez – PS (Pessoa com Surdez)”, esclarecemos que as deficiências sensoriais estão relacionadas à surdez (Pessoa com Surdez), à Deficiência Visual (cegueira ou baixa visão) ou à Surdocegueira (Pessoa com Surdez e alguma Deficiência Visual: baixa visão ou cegueira). Nesse capítulo, tratamos das especificidades, singularidades e necessidades dos estudantes com surdez, no contexto da escola regular. Abordamos temáticas que contribuem para a identificação e caracterização dos estudantes com surdez, apresentamos ainda os serviços da Educação Especial, que precisam estar presentes na escola regular. O capítulo apresenta ainda alguns apontamentos sobre como a escola precisa organizar o movimento pedagógico para garantir que esses estudantes tenham acesso ao conhecimento. No capítulo 4, “Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiências Sensoriais: Deficiência Visual – DV e Surdocegueira”, você continuará estudando sobre as deficiências sensoriais, mas, especificamente nesse capítulo, o foco é a deficiência visual (cegueira e baixa visão) e a surdocegueira. Nesse sentido, apresentaremos conhecimentos que irão auxiliá-lo(a) na conceituação e caracterização desses estudantes. Apresentamos, ainda, os serviços e recursos da Educação Especial a serem ofertados pela escola, para garantir o acesso ao conhecimento e aprendizado desse público. Estudaremos sobre a estimulação precoce, base fundamental para o desenvolvimento e a ampliação da funcionalidade dos sentidos remanescentes desses estudantes. Trataremos ainda dos conceitos e ações relacionadas à orientação e mobilidade para a inclusão escolar destes estudantes. UNIUBE IX No capítulo 5, “Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiência Física – DF e Deficiência Múltipla – DMu”, iremos estudar sobre os saberes necessários para inclusão escolar dos estudantes com deficiências físicas e daqueles com deficiência múltipla. Apresentaremos temas que auxiliarão você a conhecer sobre esses quadros de deficiência, a reconhecer suas especificidades, suas possibilidades de funcionalidade individual. O capítulo apresenta ainda saberes necessários à identificação e eliminação das barreiras do contexto, conhecimentos sobre estratégias e adequações necessárias para garantir acesso ao conhecimento e aos espaços escolares. No capítulo 6, estudaremos sobre a “Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual – DI”, demonstrando as relações históricas e sociais entre terminologia, discriminação, preconceito e violação dos direitos. O capítulo propõe reflexões a respeito de como a crença, na incapacidade desses estudantes aprenderem e se desenvolverem, produz atitudes discriminatórias em que eles mesmos são considerados dementes, idiotas e loucos etc. Estudaremos sobre a necessidade de desconstruir estereótipos e concepções equivocadas e apresentaremos conhecimentos que auxiliarão você na identificação, conceituação e caracterização desse público. Abordaremos saberes importantes para a proposição e organização de um movimento pedagógico necessário para garantir o acesso do estudante ao espaço escolar e ao conhecimento e o reconhecimento e utilização dos serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar desse público, com desenvolvimento e aprendizado. No capítulo 7, “Inclusão Escolar dos estudantes com Altas Habilidades e/ou Superdotação”, abordaremos os conceitos referentes às Altas Habilidades e/ou Superdotação para auxiliá-lo(a) na identificação e no reconhecimento desse quadro. Nesse capítulo, estudaremos suas especificidades e reais necessidades no contexto educacional. E, ainda, fatores que precisam ser considerados na organização e proposição do movimento pedagógico inclusivo no contexto escolar. Estudaremos, inclusive, sobre os serviços e recursos da Educação Especial destinados a esses estudantes. X UNIUBE No capítulo 8, a “Inclusão Escolar dos estudantes com Transtorno do Espectro Autista – TEA”, apresentamos uma revisão nos documentos oficiais que tratam das definições, conceituações e caracterizações desse público, até o reconhecimento do Transtorno do Espectro Autista como termo “guarda-chuva”, que dá sustentação científica e conceitual para identificação, caracterização e conceituação destas pessoas (a partir do ano de 2019). Estudaremos os aspectos relacionados ao movimento pedagógico necessário na organização do processo de inclusão escolar desse público e no reconhecimento e organização dos recursos e serviços da Educação Especial para esse público. Ao compreender o processo de inclusão escolar,reconhecer o direito de todos e de cada um à escolarização; ao identificar quem são os estudantes que necessitarão de recursos e serviços específicos da Educação Especial e mais, ao se instrumentalizar para identificação das características e especificidades de seu aluno, o professor se torna partícipe no processo de inclusão escolar e na defesa dos direitos de todos à educação. Esperamos que você possa articular os temas abordados neste material de estudos e aprofundar-se nos saberes necessários à sua realidade profissional para assim contribuir efetivamente para uma educação que valorize a diversidade e considere as diferenças. Ao identificar, organizar e implementar práticas educacionais inclusivas, você estará reconhecendo e garantindo o direito de todos à educação em um mesmo espaço escolar, sem discriminação de qualquer natureza. E além de estar promovendo o aprendizado e o desenvolvimento de todos e de cada um, estará contribuindo sobremaneira para sua autonomia e independência no contexto educacional, familiar, social e cultural. Bons estudos! Introdução Educação Inclusiva e Educação Especial: saberes necessários Capítulo 1 A necessidade de estudar, conhecer, refletir e aprofundar sobre o tema inclusão é fundamental uma vez que a exclusão existe e os excluídos estão entre nós e, em alguns casos, somos nós os excluídos ou os excludentes. Neste capítulo em específico, abordaremos questões e saberes relacionados aos processos inclusivos dentro do contexto educacional, a fim de contribuir para o desenvolvimento de sistemas educativos acessíveis, inclusivos e personalizados que considerem as diferenças, reconheçam as limitações e promovam a equidade no atendimento educacional a todos e a cada um. A Educação Inclusiva representa, portanto, um movimento mundial que presume ações políticas, culturais, sociais e pedagógicas, fundamentadas na concepção de direitos humanos. Isto é, um paradigma em que a democratização e a universalização do acesso e a flexibilização são princípios orientadores no compromisso com a garantia de direitos, equidade e acessibilidade. Paradigma É um conjunto de regras, princípios, valores, crenças, que norteiam nosso comportamento, em um dado período histórico. Uma mudança de paradigma ocorre quando os conceitos ou o modo de vida de uma sociedade não nos satisfaz mais. 2 UNIUBE Alinhado a esse paradigma, o Brasil, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, define em seu artigo 205 que a educação é um direito de todos, devendo contribuir para o pleno desenvolvimento da pessoa e garantir a igualdade de condições de acesso e permanência na escola como um princípio. Nesse sentido, estudaremos neste capítulo sobre o movimento histórico e legal que culminou mundialmente no paradigma da Inclusão Escolar. Aprofundaremos um pouco sobre os impactos, os avanços e desafios em nosso país, bem como a importância da Educação Especial e seus serviços na garantia da acessibilidade ao conhecimento. Ao final deste estudo, esperamos que você seja capaz de: • compreender o paradigma da Inclusão Escolar e sua repercussão no Brasil; • empregar os conceitos relacionados à Inclusão Escolar; • ressignificar práticas pedagógicas consoantes com o paradigma da Inclusão Escolar; • atuar com os serviços juntamente aos serviços da Educação Especial e contribuir para a proposição dos recursos necessários para acessibilidade deste público; 1.1 Marcos históricos do movimento mundial pela inclusão escolar e sua repercussão no Brasil 1.2 Educação Especial: aspectos conceituais e práticos 1.3 Educação Especial: seus serviços e recursos 1.4 Considerações finais Objetivos Esquema UNIUBE 3 1.1 Marcos históricos do movimento mundial pela Inclusão e sua repercussão no Brasil As diferenças humanas são constitutivas de cada ser humano, portanto sempre existiram. Porém, muitas destas diferenças foram excluídas da sociedade conforme a literatura apresenta, segundo concepções próprias de cada época, contexto histórico e social. Historicamente desde os primeiros registros sobre a educação é possível verificar a negação de direitos primordiais ao ser humano. Exemplos encontrados em textos da literatura que tratam do tema dão conta de que no século XVII os mendigos, prisioneiros, prostitutas e deficientes recebiam o mesmo tratamento: reclusão e isolamento. Segundo Kirk e Gallagher (1996), na era pré-cristã, tendia-se a negligenciar e a maltratar os deficientes. Na Antiguidade, por não corresponderem aos padrões estéticos, muitos foram abandonados ou eliminados; já com a difusão do Cristianismo, na Idade Média, a deficiência viveu momentos em que os deficientes eram considerados criaturas divinas que não poderiam ser desprezadas ou abandonadas por possuírem alma e em outros momentos representavam forças malignas, por isso deveriam ser eliminados. Esta época foi marcada por atitudes extremas da sociedade que variava entre a proteção e a eliminação, sobressaindo uma visão do aspecto sobrenatural. Segundo Ferreira e Guimarães (2003, p. 65), “os indivíduos epiléticos e psicóticos, por exemplo, eram considerados portadores de possessões demoníacas. Já os cegos eram muitas vezes tidos como profetas ou videntes”. Com a difusão do Cristianismo, passou-se a proteger os deficientes e a compadecer-se deles; e entre os séculos XVIII e XX, foram fundadas instituições para oferecer-lhes uma educação à parte. Nascem as primeiras escolas e classes especiais, sob a premissa da necessidade científica de separar os alunos normais dos anormais. Nesse sentido, no início do século XX ganham importância os testes de QI (Quociente de Inteligência) como parâmetros para determinar o melhor local de escolarização. 4 UNIUBE O caso mundialmente conhecido do “Selvagem de Aveyron” representou um importante registro e uma primeira iniciativa, apresentada em literatura, de tentativa de uma educação voltada para o deficiente, quando da elaboração, pelo médico francês Jean Itard (1774 – 1838), do primeiro programa sistemático de educação especial. Para saber mais, acesse: https://pt.wikipedia.org/wiki/Victor_de_Aveyron PESQUISANDO NA WEB Nesse mesmo período, no Brasil, de acordo com Mazzotta (2001), institucionaliza a Educação Especial com a criação, por parte de D. Pedro II, do Imperial Instituto dos Meninos Cegos (atual Instituto Benjamin Constant), em 1854, e do Imperial Instituto de surdos-mudos, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), em 1857, que funcionam até hoje no Rio de Janeiro. O início do século XX também foi marcado por movimentos de pais e parentes das pessoas com deficiência, reivindicando melhores condições de vida para aqueles que apresentavam alguma “anormalidade”. Porém, a defesa de sua participação na sociedade e a defesa do respeito à sua cidadania não foram suficientes na época para provocar mudanças efetivas na sociedade. 1854 Imperial Instituto dos Meninos Cegos Atual Instituto Benjamin Constant 1857 Imperial Instituto dos Surdos-mudos Atual Instituto Nacional de Educação de Surdos UNIUBE 5 As pessoas com deficiência somente passaram a fazer parte das preocupações dos governos após a Segunda Guerra. Na década de 1950, ocorreu uma considerável expansão das classes e escolas especiais, assim como a criação de instituições filantrópicas, como a Associação de Pais e Amigos do Excepcional – APAE (1954). A partir daí, com o surgimento das escolas e classes especiais, houve uma divisão no sistema educacional brasileiro em dois subsistemas que funcionavam paralelamente: ensino regular e ensino especial. (SILVA, 2009). O crescimento das instituições especiais fortaleceu a segregação dos alunos (Figura 1), assim como aumentou a resistência da sociedade em promover práticas inclusivas, uma vez que a inserção destes alunos em escolas ou classes especiais pouco exigia da sociedade em termos de mudanças em suas atitudese valores, cabendo exclusivamente à pessoa com deficiência adequar-se às exigências do meio social (PESSOTTI, 1984; MAZZOTTA, 2001; JANNUZZI, 2004). As classes especiais se constituíam solução que excluía das escolas comuns os alunos que fracassassem em seus estudos. (SILVA, 2009). Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Figura 1 – Representação da segregação de alunos com deficiência. 6 UNIUBE Somente a partir da década de 1970, alguns estudiosos, baseados na ideia da modificabilidade cognitiva, passaram a acreditar no potencial de aprendizagem da pessoa com deficiência, apontando para o início de uma mudança de paradigma, não mais baseado na segregação do aluno em instituição especializada, mas, sim, na ideia de uma educação fundamentada na possibilidade de que as escolas regulares inserissem todos os alunos, esses foram os primeiros passos rumo à inclusão (PESSOTTI, 1984). A década de 1980 é marcada por políticas públicas norteadas pelos princípios da normalização e da integração. Há um movimento pela inserção das pessoas com deficiência nos sistemas sociais como educação, trabalho, família e lazer, inserção fundamentada no princípio da normalização, ou seja, uma inserção condicionada, em que a pessoa com deficiência deveria se adequar às condições sociais, mais especificamente ao contexto. Um marco para as pessoas com deficiência de todo o mundo acontece em 1981, proclamado pela Organização das Nações Unidas o Ano Internacional das Pessoas Deficientes, tendo como lema “Participação Plena e Igualdade”. IMPORTANTE! Ainda nessa década, são promovidos muitos encontros internacionais em defesa dos direitos desse público e o Brasil passa a incorporar em seus dispositivos legais garantias para essas pessoas e/ou qualquer outra minoria em situação de desvantagem ou vulnerabilidade. Um marco no Brasil é a promulgação da Constituição de 1988 (Figura 2), que garante a democracia e os direitos dos cidadãos, inclusive o direito à educação, estabelecendo como um dos princípios para o ensino a igualdade de condições de acesso e permanência de todos na escola sem qualquer discriminação e garantindo o atendimento educacional às pessoas com UNIUBE 7 deficiência, preferencialmente, na rede regular de ensino. Assim, a partir da Constituição Federal de 1988, toda escola deve atender aos princípios constitucionais, não podendo, portanto, excluir nenhuma pessoa em razão de sua raça, cor, sexo, origem ou deficiência (BRASIL, 1988). Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Nessa perspectiva de que a escola atenda todos e cada um, em 1990 foi divulgada a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, resultado da Conferência Mundial de Educação para Todos, que aconteceu na Tailândia, no mesmo ano. O documento que estabeleceu princípios, diretrizes e normas que direcionaram as reformas educacionais em vários países, o documento defende entre outras coisas: a satisfação das necessidades básicas de aprendizagem; a expansão do enfoque da educação para todos; a universalização do acesso à educação; a oferta de um ambiente adequado para a aprendizagem (BRASIL, 1990a). A partir de então, iniciaram-se no Brasil as primeiras discussões em torno de um paradigma escolar denominado inclusão escolar, em uma reação contrária ao processo de integração. De acordo com Silva (2009), o conceito de inclusão refere-se a uma inserção total e incondicional, reconhece e valoriza as diferenças individuais e preconiza a adequação da escola e da sociedade para atender às necessidades educacionais de seus alunos. IMPORTANTE! Figura 2 – Constituição de 1988. 8 UNIUBE O movimento pela inclusão escolar no Brasil foi intensificado pela Conferência Mundial de Educação Especial, ocorrido em Salamanca, na Espanha, no ano de 1994 em que as discussões impactaram a formulação da Declaração de Salamanca, que reforça os propósitos da oferta educacional destinada a todos os grupos de pessoas, buscando assim “o compromisso de viabilização de uma educação de qualidade, como direito da população, e impõe aos sistemas escolares a organização de uma diversidade de recursos educacionais” (SOUSA; PRIETO, 2002, p.124-125). Propõe ainda a ressignificação da escola com a modificação de seus padrões homogêneos, para oportunizar a todas as pessoas as devidas condições de inserção no sistema Declaração de Salamanca Essa declaração não tem poder legal em si mesmo, mas oferece diretrizes para os Estados- membros das Nações Unidas que podem, ou não, incorporar em suas políticas públicas as orientações ali apresentadas. O Brasil é signatário e incorporou esse documento em suas legislações inclusive na LDB 9394/96. A Declaração de Salamanca é considerada “magna carta” da mudança de paradigma para uma educação inclusiva (Rodrigues, 2001), que deve abranger todos os estratos sociais. Por meio dela, é assegurado que todas as crianças tenham acesso à escola regular, em uma pedagogia centrada na criança. O documento reforça o direito a uma educação de qualidade que considere as características e os interesses únicos de cada educando, evitando-se, assim, discriminações e a exclusão escolar. Na Declaração de Salamanca as orientações e sugestões para ações em nível nacional são organizadas nos seguintes subitens: • Política e Organização. • Fatores Relativos à Escola. IMPORTANTE! UNIUBE 9 • Recrutamento e Treinamento de Educadores • Serviços Externos de Apoio. • Áreas Prioritárias. • Perspectivas Comunitárias e Requerimentos Relativos a Recursos. A partir de então, no Brasil, por parte de muitas escolas e de políticas públicas, iniciam-se ações em prol de uma sociedade mais inclusiva, em um movimento de ressignificação progressiva de paradigmas pedagógicos dentro dos sistemas de ensino. Há um fortalecimento de parcerias com organizações não governamentais, com setores de defesa dos direitos da criança, instituições de saúde e de assistência social. Outro aspecto a ser destacado nesse contexto é a importância que adquire as tecnologias da informação e comunicação (TICs), como ferramentas de acessibilidade para crianças com deficiências ou dificuldades escolares. Em se tratando de deficiência, a terminologia adequada para se referir a esse público é PESSOA com DEFICIÊNCIA (PcD), de acordo com a Portaria nº 2344, de 03 de novembro de 2010, da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, publicada no Diário Oficial da União em 05/11/2010 (nº 212, Seção 1, pág. 4). IMPORTANTE! Apesar de o paradigma da inclusão escolar ter surgido no centro dos debates pelos direitos das pessoas com deficiência, seu conceito é bem mais amplo, esse paradigma defende a inclusão de todos, e não somente das pessoas com deficiência – PcD. Não obstante os avanços legais, as escolas ainda enfrentam desafios importantes para incluir TODAS as crianças sendo para tanto imperiosa uma ressignificação dos conceitos e práticas educacionais, das concepções de aprendizagem e de ensino, uma sensibilização da sociedade, enfim, a eliminação de todas as barreiras. 10 UNIUBE Os princípios basilares da inclusão: a democratização do ensino, universalização da escolarização e flexibilização de seus princípios, métodos e técnicas visam assegurar que todas as crianças e jovens tenham direito ao pleno desenvolvimento humano por meio da educação e possam usufruir com equidade das oportunidades de acesso aos bens disponíveis na sociedade. A inclusão assume compromisso central com os direitos humanos, principalmente daqueles grupos e/ou pessoas que, por razões distintas, se encontram em situação de desvantagem e/ou vulnerabilidade em relação a seus direitos e garantias fundamentais. Educação Especial: aspectos conceituais e práticos 1.2 Como é possível observar no tópico anterior, a última década do século XX foi marcada pelo reconhecimento público e oficial das pessoas em situação de desvantageme/ou vulnerabilidade, o que provocou um movimento político e social por mudanças. A partir da compreensão do que foi o mundo passado e do que significaram todos os movimentos sociais e políticos que nos trouxeram ao movimento da Educação Para Todos, é inevitável perceber que se trata de uma crise de paradigmas, de uma ruptura com uma escola tradicional que adota métodos inflexíveis de ensino e aprendizagem para uma escola que deve aprender a receber e a ensinar de diferentes formas, para sujeitos diferentes e com diferentes especificidades. A inclusão escolar demanda um sistema de ensino que considera todos e cada um, reconhece as diferenças e se organiza para atender às especificidades de cada um, sejam estas diferenças relacionadas à cognição, ao comportamento, às crenças, aos aspectos emocionais, sociais, culturais, étnicos, físicos etc. IMPORTANTE! UNIUBE 11 Uma escola para todos, sem discriminação, assim o novo milênio começa com palavras fortes como justiça social, igualdade de direitos, combate à pobreza, equidade entre gêneros, educação para todos, educação inclusiva, educação digital, diversidade humana e respeito às diferenças, inter-relacionando campos de conhecimento e políticas públicas e se materializando na defesa da educação como um direito incondicional de todos (BRASIL, 1988; BRASIL, 1990a; BRASIL, 1990b; UNESCO, 1994; BRASIL, 1996; BRASIL, 2006b) e na promoção de uma escola como espaço de aprendizagens e convivência com as diferenças (UNESCO, 1994; BRASIL, 1996) e reconhecimento da educação como fundamental à formação humana. Portanto, o Brasil como signatário da Declaração de Salamanca assumiu o compromisso de incluir todas as crianças, independentemente de suas dificuldades. No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, publicada logo após a promulgação da Declaração de Salamanca, trouxe muitos avanços, entre eles destacamos uma nova compreensão da Educação Especial que deixa de ser compreendida como sistema de ensino, sendo assim, a partir da LDB 9394/96, o Brasil passa a ter somente o sistema de ensino regular. Nessa nova concepção, a Educação Especial passa a se configurar modalidade transversal de ensino, transversalizando todos os níveis de ensino, desde a Educação Básica até o Ensino Superior. A Educação Especial torna-se responsável pela oferta de serviços e recursos necessários para inclusão escolar de um público específico, definido pela Política Nacional de Educação Especial – PNEE (2008) como os alunos com deficiências, transtornos do espectro autista e altas habilidades/ superdotação. Nesse cenário, a Educação Especial passa ainda a se configurar como campo de conhecimento sobre as especificidades de seu público e sobre os recursos e adequações específicos para cada caso e tem seus conhecimentos incorporados em disciplinas e/ou módulos específicos nos cursos de formação inicial e continuada. 12 UNIUBE A LDB 9394/96 preconiza ainda que: • os sistemas de ensino deverão assegurar currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específica para atender às necessidades dos alunos; • a possibilidade de avanço dos alunos nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado, como responsabilidade da escola; • orienta para a necessidade da preparação dos professores e da organização e disponibilização de recursos adequados para atender à diversidade dos alunos. Em termos legais a Educação Especial no Brasil encontra-se de certa forma bem amparada, no entanto a efetivação das garantias legais ainda representa importante desafio uma vez que são poucos os alunos com deficiência que têm acesso à escola, e os poucos que nela estão encontram ainda grandes dificuldades para alcançar o sucesso escolar. O insucesso se deve a vários fatores sejam barreiras do contexto, falta de acessibilidade ao ambiente educacional ou ao currículo, o que ainda é agravado por atitudes e posicionamentos contraditórios em que a deficiência muitas vezes é compreendida como incapacidade de aprendizagem e desenvolvimento ou como culpada pelo insucesso escolar. Isso impacta o fato de esse público engrossar a fila dos que não se sobressaem na escola, situação que passa a ser rotineira e normal para a escola, que assim deixa de se questionar sobre seus procedimentos e métodos didático-pedagógicos, bem como sobre a atuação docente no processo de ensino e aprendizagem. Em contrapartida, as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, Resolução CNE/CEB nº. 2/2001, determinam no art. 2º que: UNIUBE 13 Os sistemas de ensino devem matricular todos os alunos, cabendo às escolas organizar-se para o atendimento aos educandos com necessidades educativas especiais, assegurando as condições necessárias para uma educação de qualidade para todos (BRASIL, 2001b). Essa Resolução compreende a Educação Especial como processo educacional definido por uma proposta pedagógica que assegura um conjunto de recursos e serviços educacionais especiais para garantir a inclusão escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos alunos, caracterizados como seu público. Acrescenta ainda que os sistemas de ensino são responsáveis por garantir a modalidade de Educação Especial em seus espaços escolares com a oferta de recursos humanos, materiais e financeiros para viabilizar e sustentar o processo de construção da educação inclusiva para esse público. Nesse sentido, a Convenção da Guatemala (BRASIL, 2001a), promulgada no Brasil pelo Decreto nº. 3.956/2001, reafirma que as pessoas com deficiência têm os mesmos direitos humanos e liberdades fundamentais que as demais pessoas e define discriminação como: [...]1 toda diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, antecedente de deficiência, consequência de deficiência anterior ou percepção de deficiência presente ou passada, que tenha o efeito ou o propósito de impedir ou anular o reconhecimento, o gozo ou exercício por parte das pessoas portadoras de deficiência de seus direitos humanos e suas liberdades fundamentais (BRASIL, 2001a,p. 3). Vale mencionar a repercussão, na educação, desse decreto ao reinterpretar a Educação Especial, compreendida como campo de conhecimentos e oferta de serviços e recursos para eliminação das barreiras que impeçam o acesso à escolarização. Ainda de acordo com este documento, qualquer impedimento do direito à sua escolarização nas turmas comuns do ensino regular se configura discriminação com base na deficiência (BRASIL, 2001a). Observe a Figura 3: 14 UNIUBE Em 2006, a ONU aprova a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário. Essa Convenção desloca a ideia da limitação até então presente na pessoa para a sua interação com o ambiente, ou seja, desloca a atenção para a relação/interação com a pessoa com deficiência, para atitudes e ambientes, os quais, ao produzirem barreiras, podem impedir sua plena participação cidadã. A Convenção define assim no artigo 1º que: Pessoas com deficiências são aquelas que têm impedimento de natureza física, intelectual ou sensorial, os quais em interação com diversas barreiras podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade com as demais pessoas (p. 3). Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Figura 3 – Inclusão escolar: direito de todos à escola regular. Limitação presente na PESSOA Limitação presente no AMBIENTE UNIUBE 15 Retomando os conceitos básicos: a Educação Especial perde sua condição de substitutiva do ensino comum e deve ser compreendida como campo de conhecimento e modalidade transversal de ensino que perpassa todos os níveis educacionais desde a Educação Infantil ao Ensino Superior com a oferta serviços, recursos e conhecimentos para assegurar aos estudantes com deficiência, TEA e altas habilidades a acessibilidade aos espaços educacionais e ao currículo escolar, comaprendizado e desenvolvimento. A Educação Especial deve, portanto, para garantir sua transversalidade no ensino, estar presente em todas as etapas do ensino básico e superior, com objetivo complementar e/ou suplementar na formação do seu público, desde a educação infantil até a educação superior. É imprescindível que a Educação Especial esteja assegurada no Projeto Político Pedagógico de todas as escolas, por meio de seus serviços e recursos, o PPP precisa ainda asseverar salas de recursos multifuncionais (SRM) para viabilizar o atendimento educacional especializado – AEE aos alunos. Desenvolvimento Inclusão escolar de estudantes com deficiência, TEA e altas habilidades Acessibilidade ao currículo escolar Acessibilidade aos espaços escolaresAprendizagem 16 UNIUBE As salas de recursos multifuncionais (SRM) são espaços que precisam ser organizados e disponibilizados em todas as instituições educacionais, com mobiliário, materiais didáticos e pedagógicos, recursos de acessibilidade e equipamentos específicos para o atendimento dos estudantes, público da Educação Especial e que necessita do Atendimento Educacional Especializado – AEE no contraturno escolar. A organização e a administração deste espaço são de responsabilidade da gestão escolar, conforme as legislações oficiais como as Diretrizes Nacionais da Educação Especial na Educação Básica (MEC, 2001b), PNEE (2008), entre outras. EXEMPLIFICANDO! A PNEE (2008) orienta aos sistemas de ensino a necessidade de, além de ofertar os serviços da Educação Especial, esses sistemas de ensino precisam ainda assegurar a continuidade dos estudos para o público da Educação Especial, garantir o acesso a níveis mais elevados de ensino, e promover a articulação intersetorial (saúde, assistência social, etc) na implementação das políticas públicas inclusivas conforme a especificidade desses estudantes. O documento propõe também um currículo flexível e dinâmico, e não uma adaptação curricular como nas leis anteriores. Reafirmando a luta por uma sociedade cada vez mais inclusiva com a garantia dos direitos humanos fundamentais, foi promulgada recentemente a Lei 13.146/2015 – Lei Brasileira de Inclusão, conhecida também como Estatuto da Pessoa com Deficiência, que reafirma o compromisso brasileiro com a defesa da inclusão, do direito à cidadania, da eliminação das barreiras e do acesso de todos aos direitos sociais. Essa lei reconhece em seu art. 2o a pessoa com deficiência como aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. (BRASIL, 2015). UNIUBE 17 Nesse contexto é necessário depreender que quando o direito do cidadão não está assegurado na cultura da sociedade deve estar garantido em lei, para ser efetivamente consolidado. Em termos legais muito se avançou. No Brasil, desde a promulgação da Constituição Federal muito se caminhou no sentido de promover a inclusão das pessoas e na defesa dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. Mas ainda é preciso repensarmos nossas ações e concepções. Analisarmos a necessidade de se elaborar e decretar leis que garantam direitos de pessoas e deveres de outras, leis que propagam a convivência com a diferença – diferença esta que é própria dos seres humanos – e com a qual se deveria aprender a lidar desde sempre, sem necessariamente precisarmos de uma lei para assegurar esta convivência. Assim, é preciso rever concepções e atitudes diante da diferença, do aluno real, da complexidade humana. A inclusão perpassa por mudança de perspectiva e de olhar, mudança interna, ressignificação do eu e do outro. Pelo respeito, pela cooperação, pela consideração, pela democracia, enfim, carece nos tornarmos mais humanos! A partir das leituras realizadas até aqui, você compreendeu os conceitos de Educação Inclusiva e de Educação Especial? AGORA É A SUA VEZ A inclusão é um paradigma que defende a garantia dos direitos e liberdades fundamentais de todos e de cada um, fundamentada na garantia dos direitos humanos. A inclusão escolar tem como princípios orientadores a universalização e a democratização da escolarização, a garantia ao acesso de todos e de cada um à escola regular. A inclusão escolar é para todos. 18 UNIUBE Educação Especial: seus serviços e recursos1.3 Primeiramente, é imperioso compreender que Educação Especial não é o Atendimento Educacional Especializado – AEE. Como já estudamos nos tópicos anteriores, a Educação Especial é um conjunto de conhecimentos, recursos e serviços que tem por objetivo viabilizar, auxiliar e promover a inclusão educacional do seu público. E nesse sentido, o AEE representa um dos vários serviços oferecidos por esta modalidade; estudaremos sobre cada um logo adiante. Para a efetivação e aplicação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva de 2008, os sistemas de ensino de todo o país precisam organizar “as condições de acesso aos espaços, aos recursos pedagógicos e à comunicação que favoreçam a promoção da aprendizagem e à valorização das diferenças, de forma a atender às necessidades educacionais de todos os alunos” (BRASIL, 2008, p.12). Assim, a Educação Especial oferta os seguintes serviços no contexto da escola regular: A oferta, a organização e a garantia destes serviços precisam ser apresentadas e descritas tanto no Regimento Escolar como no Projeto Político Pedagógico das escolas de ensino regular. Portanto, estes documentos devem prever em sua estrutura e organização os serviços da Educação Especial, sendo de responsabilidade dos gestores o acompanhamento sistemático no que se refere a funcionamento, profissionais, estudantes, pais e comunidade escolar etc. Atendimento Educacional Especializado Tradução e interpretação em Libras Profissional de apoio escolar Guia-intérprete UNIUBE 19 Deve ainda estar assegurada nestes documentos a sala de recursos multifuncionais com espaço físico, mobiliário, materiais didáticos, recursos pedagógicos e de acessibilidade e equipamentos específicos; conforme assevera a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) e as Diretrizes Operacionais da Educação Especial na Educação Básica (2009). 1.3.1 Atendimento Educacional Especializado – AEE O AEE é um dos serviços da Educação Especial e acontece nas Salas de Recursos Multifuncionais (SRMs) e nos demais ambientes escolares. Tem por objetivo complementar e/ou suplementar a formação dos alunos de modo a desenvolver suas potencialidades, sua autonomia e independência dentro e fora da escola e ainda é responsável por “identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos estudantes, considerando suas necessidades específicas” (BRASIL, 2009, p.10). Este atendimento não apresenta caráter substitutivo à escolarização e, portanto, é organizado e estruturado de forma diferente da sala de aula, com atividades diferentes em seu objetivo e estrutura daquelas ofertadas na classe comum. As atividades desenvolvidas pelo AEE diferenciam-se daquelas oferecidas e organizadas para sala de aula comum por priorizar o desenvolvimento das funções cognitivas, das funções executivas, da acessibilidade, da autonomia e da eliminação de barreiras ao espaço e ao conhecimento. Assim: Dentre as atividades de atendimento educacional especializado são disponibilizados programas de enriquecimento curricular, o ensino de linguagens e códigos específicos de comunicação e sinalização e tecnologia assistiva. (BRASIL, 2008, p.10). O Atendimento Educacional Especializado – AEE é responsável ainda por oferecer os recursos necessários para que o estudante tenha acesso aos conteúdos ministrados em sala de aula. De acordocom o Decreto nº 7611 de 2011, entre os objetivos do AEE estão: 20 UNIUBE • prover condições de acesso, participação e aprendizagem no ensino regular e garantir serviços de apoio especializados de acordo com as necessidades individuais dos estudantes; • fomentar o desenvolvimento de recursos didáticos e pedagógicos que eliminem as barreiras no processo de ensino e aprendizagem e • assegurar condições para a continuidade de estudos nos demais níveis, etapas e modalidades de ensino. (BRASIL, 2011, p. 1). O AEE, como já vimos, é um dos serviços da Educação Especial de caráter complementar e/ou suplementar, organizado e estruturado da seguinte maneira: Quanto ao espaço: as Salas de Recursos Multifuncionais – SRMs são ambientes organizados, de acordo com Ropoli (2010), com equipamentos, mobiliários e recursos pedagógicos e didáticos específicos ao atendimento dos estudantes público da Educação Especial. No que diz respeito ao quadro de profissionais que realizam Atendimento Pedagógico do AEE esse quadro é composto por professor de AEE e por instrutor/professor de Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS no caso de alunos com surdez. Sobre o atendimento, esse pode ser realizado individualmente ou em pequenos grupos, em turno inverso àquele que o aluno frequenta a classe comum. As atividades e/ou conteúdos precisam ser organizados e desenvolvidos de acordo com as necessidades específicas de cada aluno, abrangendo: Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, Língua Portuguesa como segunda língua para estudantes com surdez, informática acessível, sistema Braille, uso do Soroban, técnicas para a orientação e mobilidade (OM), Comunicação Aumentativa e Alternativa – CAA, Atividades de Vida Autônoma (AVA), alternativas de comunicação para estudantes surdocegos, orientação para o uso de recursos ópticos e não ópticos, uso dos recursos de Tecnologia Assistiva – TA, atividades de enriquecimento UNIUBE 21 curricular para as altas habilidades/superdotação e atividades para o desenvolvimento da tríade funcional da aprendizagem humana: funções cognitivas, funções executivas e conativas. Orientação e Mobilidade (OM): referem-se a um conjunto de técnicas e estratégias que auxiliam a pessoa na sua orientação e locomoção nos espaços de forma orientada e segura para conhecer o seu entorno e dele usufruir e com ele familiarizar-se e interagir (BRASIL, 2010). Definidas pelo MEC como: Orientação – Habilidade do indivíduo para perceber o ambiente que o cerca, estabelecendo as relações corporais, espaciais e temporais com esse espaço, através dos sentidos remanescentes. Mobilidade – capacidade do indivíduo de se mover, reagindo a estímulos internos ou externos, em equilíbrio estático ou dinâmico. (BRASIL, 2006c, p. 98 e 99). Tecnologia Assistiva (TA): termo utilizado para identificar uma variedade de equipamentos, estratégias, recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência. Definido pelo Comitê de Ajudas Técnicas (CAT, 2007) como: Área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (BRASIL, 2007, p.3). Os recursos podem ser desde uma bengala até um sistema computadorizado complexo, ou seja, recursos se referem a todo e qualquer item utilizado para aumentar, manter ou melhorar as capacidades funcionais de pessoas com deficiência. E serviços são prestados profissionalmente, auxiliando diretamente a pessoa com deficiência. AMPLIANDO O CONHECIMENTO 22 UNIUBE Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA): área da Tecnologia Assistiva, constituída por vários métodos que se destinam à ampliação de habilidade de comunicação destinada a pessoas sem fala ou sem escrita funcional ou em defasagem nas habilidades comunicacionais. Utiliza outros canais de comunicação diferentes da fala: gestos, sons, expressões faciais e corporais etc. Envolve habilidades de expressão e compreensão organizadas e construídas com auxílio externo: cartões e/ou pranchas de comunicação, pranchas alfabéticas e de palavras, vocalizadores ou o próprio computador que contribui por meio de software específico, construído de forma personalizada considerando as especificidades da pessoa. Atividades de Vida Autônoma (AVA): nomenclatura alterada e utilizada desde 2008 pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Refere-se ao conjunto de habilidades desempenhadas rotineiramente visando à independência, segurança, autonomia e convivência social da pessoa com deficiência em todos os ambientes relacionais, de maneira individual e coletiva. Para atender aos seus objetivos e efetivar sua função de complementaridade e/ou suplementaridade, o AEE ainda deve acontecer por meio do assessoramento do AEE à classe comum. Trata-se de um movimento do professor do AEE, realizado para o estudante e o professor, para/com o professor, referendado pelo Decreto nº 7.611/2011. Acontece por meio da articulação entre o professor do AEE com os gestores e professores da classe comum, contempla a organização e disponibilização de serviços, recursos pedagógicos e de acessibilidade e estratégias de flexibilização e adequação para participação dos estudantes nas atividades escolares. Para tanto, o professor do AEE precisa observar, orientar e acompanhar a funcionalidade e a aplicabilidade dos recursos pedagógicos e de acessibilidade na sala de aula comum do ensino regular, bem como em outros ambientes da escola, em parceria com os professores da sala regular e gestores. UNIUBE 23 1.3.2 Demais serviços: – Tradução e Interpretação de LIBRAS Nos capítulos adiante, ao estudarmos o tema referente à inclusão escolar do estudante com surdez, iremos aprofundar um pouco mais sobre este serviço de tradução e interpretação de LIBRAS, serviço que de acordo com as legislações brasileiras (PNEE 2008, Decreto nº 5.626/2005, LBI 13.146/2015, entre outras) deve ser disponibilizado a todos os alunos com surdez na rede regular de ensino. A Educação Especial prevê a oferta de 03 momentos didático-pedagógicos para o estudante com surdez, como parte integrante dos serviços do AEE e que, portanto, devem acontecer no contraturno do ensino regular, na sala de recursos multifuncionais (SRMs) quais sejam: AEE em LIBRAS, AEE de LIBRAS e AEE de Língua Portuguesa. Para conhecimento, o AEE em Língua Portuguesa e o AEE em LIBRAS são ofertados pelo professor do AEE com objetivo de ensinar ao aluno com surdez a Língua Portuguesa a partir da LIBRAS. Para oferta do AEE de LIBRAS há necessidade de um instrutor ou professor de LIBRAS, preferencialmente uma pessoa com surdez, com o objetivo de ensinar ao aluno essa língua. Além dos três movimentos pedagógicos que precisam ser ofertados pelo AEE, a Educação Especial oferta ainda outro serviço para os alunos com surdez, que é o Intérprete Educacional/Intérprete de LIBRAS. Trata-se de um profissional ouvinte que atua como intérprete do estudante com surdez em sala de aula e em todos os momentos no contexto escolar que demandem a interlocução entre ouvintes e a pessoa com surdez, de forma a promover e ampliar as habilidades comunicacionais funcionais dos alunos com surdez, no próprio turno de escolarização do aluno. 24 UNIUBE – Profissional de apoio escolar: Para contribuir para o apoio necessário ao estudante público da Educação Especial, a LBI assegura o profissional de apoio escolar, para exercer atividades de alimentação, higiene e locomoção do estudante com deficiência, bem como mediação durante a realização das atividades escolares, tanto em instituições públicas quanto privadas, em todos os níveis emodalidades de ensino, sempre que comprovada a necessidade, conforme Lei 12.764, de 27 de dezembro de 2012. A análise e comprovação da necessidade ou não do acompanhamento do profissional de apoio escolar ao estudantes é de caráter pedagógico e não clínico, ou seja, os profissionais do AEE, juntamente com a equipe de profissionais da escola, irão analisar cada caso para verificar a necessidade e a intensidade do apoio, conforme veremos nos capítulos a seguir quando tratarmos do público da Educação Especial. Esse apoio ocorrerá sempre em conformidade com as necessidades apresentadas pelo estudante e relacionadas à condição de funcionalidade e não à condição de deficiência. O mesmo profissional pode disponibilizar o apoio necessário a mais de um estudante segundo a estrutura e necessidades apresentadas pelos alunos no contexto educacional. – Guia-intérprete Profissional que atua na mediação da comunicação de pessoas surdocegas, interpretando de acordo com as modalidades de comunicação específicas utilizadas pela pessoa surdocega (Língua Oral Amplificada, Escrita na Palma da Mão, Alfabeto Manual Tátil, Língua de Sinais Tátil, Sistema Braile Tátil ou Manual, Língua de Sinais em Campo Reduzido, entre outras), facilitando sua mobilidade e promovendo o acesso nas situações de comunicação em que está atuando. O trabalho do guia-intérprete possibilita junto à pessoa surdocega interação, acesso ao lazer, trabalho, educação, conhecimento de objetos, pessoas, favorecendo suas tomadas de decisões de maneira autônoma e efetivando seu direito de cidadão pleno. Essa profissão foi recentemente reconhecida pela Lei 12.319 de 2010. UNIUBE 25 A Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-intérpretes de Língua de Sinais – FEBRAPILS e Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – FENEIS esclarecem que esse profissional atua nos processos de mediação e interação do surdocego com o meio, permitindo-lhe o acesso à informação, locomoção e comunicação, por meio de um sistema linguístico de acordo com as modalidades de comunicação específicas utilizadas pela pessoa surdocega (Língua Oral Amplificada, Escrita na Palma da Mão, Alfabeto Manual Tátil, Língua de Sinais Tátil, Sistema Braile Tátil ou Manual, Língua de Sinais em Campo Reduzido, entre outras). Nesse sentido, o guia-intérprete representa um elemento de mediação com o mundo e deve passar pelo processo de formação e de prática a fim de desenvolver o domínio das Técnicas de Interpretação e da função de Guia-Interpretação, para que o objetivo da sua atuação seja alcançado de forma efetiva. IMPORTANTE! Seguem, a seguir, alguns dos principais documentos oficiais que tratam do direito de todos à educação e que, ao longo do tempo, consolidam a inclusão escolar como paradigma mundial em defesa dos direitos de todos e de cada um. CONVENÇÕES E DECLARAÇÕES DA ONU SOBRE A PESSOA COM DEFICIÊNCIAS. Disponíveis em: http://www.ampid.org.br/ampid/Docs_PD/ Convencoes_ONU_PD.php. Acesso em: 29 jan. 2020. DECLARAÇÃO DE SALAMANCA. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ seesp/arquivos/pdf/salamanca.pdf. Acesso em: 29 jan. 2020. DECRETO nº. 3.956/2001. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/decreto/2001/D3956.htm Acesso em: 29 jan. 2020. PESQUISANDO NA WEB 26 UNIUBE DECRETO nº 5.626/ 2005. Disponível em: https://www2.camara.leg. br/legin/fed/decret/2005/decreto-5626-22-dezembro-2005-539842- publicacaooriginal-39399-pe.html. Acesso em: 29 jan. 2020. DECRETO LEGISLATIVO 186/2008. Disponível em: http://www.planalto.gov. br/ccivil_03/Congresso/DLG/DLG-186-2008.htm Acesso em: 29 jan. 2020. DECRETO nº 7611 de 2011. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7611.htm Acesso em: 29 jan. 2020. DIRETRIZES NACIONAIS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL NA EDUCAÇÃO BÁSICA, disponível em http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/diretrizes. pdf . Acesso em: 29 jan. 2020. Acesso em: 29 jan. 2020. LDB 9.394/96 – LDB: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&vi ew=article&id=12907:legislacoes&catid=70:legislacoes. Acesso em: 29 jan. 2020. LEI Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm Acesso em: 29 jan. 2020. LEI 10.098/00. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2000/ lei-10098-19-dezembro-2000-377651-publicacaooriginal-1-pl.html Acesso em: 29 jan. 2020. POLÍTICA NACIONAL DA EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA, disponível em http://portal.mec.gov.br/arquivos/ pdf/politicaeducespecial.pdf. Acesso em: 29 jan. 2020. UNIUBE 27 PORTARIA SEDH Nº 2.344, DE 3 DE NOVEMBRO DE 2010. Disponível em: https://www.udop.com.br/download/legislacao/trabalhista/pcd/port_2344_ pcd.pdf Acesso em: 29 jan. 2020. PORTARIA nº 3.284, de 7 de novembro de 2003. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/port3284.pdf Acesso em: 29 jan. 2020. RESOLUÇÃO CNE/CEB Nº 2, DE 11 DE SETEMBRO DE 2001. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CEB0201.pdf Acesso em: 29 jan. 2020. RESOLUÇÃO CNE/CEB nº 4/2009. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ dmdocuments/rceb004_09.pdf Acesso em: 29 jan. 2020. Conhecer as políticas públicas educacionais é fundamental para o profissional da educação, afinal, são elas que regulam, asseguram, consolidam e intervêm de maneira conceitual e prática na ação docente e na organização do trabalho no contexto das escolas. Considerações finais1.4 A inclusão representa um paradigma que considera a inclusão total e incondicional das diferenças na escola, apontando para a necessidade de adequação da escola e da sociedade. Atentando para a grande conquista que a inclusão representa e os inúmeros desafios que dela surgem, discutimos neste estudo os marcos históricos e legais da inclusão escolar e da Educação Especial. Consideramos a Educação Especial enquanto modalidade transversal de educação que, por meio da oferta de seus recursos e serviços, visa à complementaridade e suplementaridade para contribuir para com o desenvolvimento e aprendizado dos estudantes com deficiências, transtornos do espectro autista e daqueles superdotados/altas habilidades, objetivando tornar os espaços escolares e o currículo acessíveis. 28 UNIUBE A inclusão escolar prevê a ressignificação da escola, de tal modo que se conceba como prioridade a modificação de padrões considerados até então homogêneos, para atender à prerrogativa da educação para todos, oportunizando às pessoas com diferentes necessidades as devidas condições de inserção no sistema educacional. O que está em questão é o processo de transformação da escola regular, o que supõe confronto com valores há muito arraigados na organização do trabalho escolar. Uma transformação que necessita ultrapassar a lógica classificatória e seletiva como condição para a concretização do direito de todos à educação. A universalização do acesso à educação básica e a viabilização de uma trajetória escolar que possibilite o desenvolvimento de todos os alunos supõem uma escola capaz de acolher as diferenças, o que implica ressignificação de concepções e práticas usualmente dominantes na escola e nos sistemas de ensino (PRIETO; SOUSA, 2006). Sendo assim, desejamos que esses estudos sejam significativos à sua prática profissional. Resumo A Inclusão é um paradigma mundial em prol da garantia dos direitos e liberdades fundamentais de todos os seres humanos e de condições de acesso incondicional. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 já apresentava seus princípios muito antes do tema se tornar o centro de debates em nosso país. O princípio da inclusão é a defesa dos direitos humanos e o compromisso com grupos e/ou pessoasque, por razões distintas, encontram-se em situação de vulnerabilidade em relação a seus direitos e liberdades fundamentais. Já a inclusão escolar ganhou legitimidade no Brasil a partir da promulgação da LDB 9394/96, que consolida os preceitos de uma educação para TODOS em um único sistema de ensino. Além disso, ela avança ao considerar a Educação Especial como modalidade responsável pela UNIUBE 29 oferta de serviços, conhecimentos e recursos necessários à inclusão escolar de estudantes com deficiência, TEA e Altas Habilidades/Superdotação. A Educação Especial se configura importante iniciativa na promoção da inclusão desses estudantes, por contribuir para com seu desenvolvimento, aprendizado, acesso e permanência por meio de recursos, conhecimentos e serviços e por auxiliar a escola a romper com as barreiras do contexto. São princípios fundamentais da inclusão escolar a democratização do ensino, a universalização da escolarização e a flexibilização de seus princípios, métodos e técnicas, com vias a assegurar a todas as crianças e jovens o direito ao pleno desenvolvimento humano por meio da educação e a equidade nas oportunidades e no acesso aos bens disponíveis na sociedade A Educação Inclusiva representa, portanto, um movimento mundial que presume ações políticas, culturais, sociais e pedagógicas para a garantia dos direitos humanos e da democratização e a universalização do ensino para TODOS, sem distinção. Referências BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Presidência da República, 1988. BRASIL. Declaração Mundial sobre Educação para Todos: plano de ação para satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem. UNESCO, Jomtiem/ Tailândia, 1990a. BRASIL. Lei Federal nº 8069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília: Casa Civil, 1990b. BRASIL. Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Casa Civil, 1996. BRASIL. Decreto nº 3.956, de 8 de outubro de 2001. Promulga a Convenção Interamericana para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência. Brasília: DF, 2001a. 30 UNIUBE BRASIL. Diretrizes Nacionais da Educação Especial na Educação Básica, 2001b. Disponível em http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/diretrizes.pdf. Acesso em: 29 jan. 2020. BRASIL. Resolução nº 2, de 11 de setembro de 2001. Brasília: CNE/CEB, 2001c. BRASIL. ONU. Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência. Brasília: DF, 2006a. BRASIL. Sala de recursos multifuncionais: espaços para o Atendimento Educacional Especializado. Brasília: MEC/SEESP, 2006b. BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos cegos e de alunos com baixa visão. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2006c. BRASIL. Comitê de ajudas técnicas - CAT. Portaria n° 142, de 16 de novembro de 2007. Disponível em: http://www.galvaofilho.net/livro-tecnologia-assistiva_CAT.pdf. Acesso em: 29 jan. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, DF, jan. 2008. [Documento elaborado pelo Grupo de Trabalho nomeado pela portaria n. 555/ 2007, prorrogada pela portaria n. 948/2007, entregue ao ministro da Educação em 7 de janeiro de 2008]. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/ pdf/politicaeducespecial.pdf. Acesso em: 08 fev. 2020. BRASIL. RESOLUÇÃO Nº 4, DE 2 DE OUTUBRO DE 2009. 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Seus princípios são a democratização, a universalização e a flexibilização dos princípios, métodos e técnicas, o que é desafiador para as escolas, uma vez que desconstrói antigas e tradicionais práticas excludentes e rompe com paradigmas educacionais que marcaram a sociedade no passado. Nessa perspectiva, estudaremos sobre o processo de inclusão escolar dos estudantes, público da Educação Especial considerados na Política Nacional de Educação Especial (BRASIL, 2008), as pessoas com deficiências, Transtornos do Espectro Autista, Altas Habilidades e/ou Superdotação. Partimos da premissa que o direito à educação se refere não somente ao acesso e a permanência dos alunos no contexto das escolas, mas na promoção do aprendizado em um espaço que considere as diferenças individuais em suas práticas pedagógicas e que promova o desenvolvimento pleno 34 UNIUBE da pessoa, na defesa da garantia dos direitos assegurados na Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/1996 (LDBN). Neste capítulo estudaremos alguns aspectos a serem considerados, repensados, ressignificados e/ou reorganizados para que a escola não deixe ninguém de fora, para que todas as crianças aprendam, independentemente de quaisquerdiferenças que possam ter. Estudaremos ainda adequações e flexibilizações necessárias na estrutura, na organização, nas metodologias, nas estratégias de ensino e nas práticas avaliativas para que todos participem e se desenvolvam a partir de uma escola real, de um aluno real e de especificidades que são reais e complexas, tanto como complexo é o ser humano. Esperamos que, ao final deste estudo, você seja capaz de: • analisar e conhecer alguns aspectos relevantes do processo de escolarização que precisam ser repensados, ressignificados e/ou reorganizados, substituindo práticas segregativas por práticas inclusivas; • fomentar a reflexão, a pesquisa e os saberes em prol de uma educação inclusiva, com equidade no acesso na permanência e no aprendizado. 2.1 Educação Inclusiva: Compromisso de todos e de cada um 2.2 Adequações e flexibilizações: uma perspectiva inclusiva 2.3 Acessibilidade e eliminação de barreiras 2.4 Processo formativo e avaliativo do público da Educação Especial 2.5 Considerações finais Objetivos Esquema UNIUBE 35 Educação Inclusiva: compromisso de todos e de cada um2.1 O paradigma da inclusão pressupõe que a escola atenda a todos os estudantes, sem discriminação ou segregação, organize seus espaços e tempos educacionais para todos e cada um, flexibilize e disponha de metodologias e práticas inclusivas, considerando ante o processo educacional as diferenças individuais. O que representa importante desafio educacional, por demandar ressignificação dos conceitos e práticas educacionais, reflexão sobre os princípios e práticas educativas e repensar os objetivos educacionais. A inclusão é exatamente a mudança de paradigma da escola. A escola se entupiu do formalismo da racionalidade e cindiu-se em modalidades de ensino, tipos de serviço, grades curriculares, burocracia. Uma ruptura de base em sua estrutura organizacional, como propõe a inclusão, é uma saída para que a escola possa fluir, novamente, espalhando sua ação formadora por todos os que dela participam. (MANTOAN, 2003 p. 12). Tais mudanças perpassam pelo desafio pessoal, profissional, institucional, político e pedagógico e envolvem desde a reformulação do currículo escolar da educação básica até cursos de formação de professores, para que a educação seja capaz de atender às demandas e necessidades de todos. Para Mantoan (2003): Essa reviravolta exige, em nível institucional, a extinção das categorizações e das oposições excludentes (iguais X diferentes, normais X deficientes) e, em nível pessoal, que busquemos articulação, flexibilidade, interdependência entre as partes que se conflitavam nos nossos pensamentos, ações e sentimentos. Essas atitudes diferem muito das que são típicas das escolas tradicionais em que ainda atuamos e em que fomos formados para ensinar. Se o que pretendemos é que a escola seja inclusiva, é urgente que seus planos se redefinam para uma educação voltada para a cidadania global, plena, livre de preconceitos e que reconhece e valoriza as diferenças. (MANTOAN, 2003, p. 14). 36 UNIUBE São necessárias transformações subjetivas dos conceitos, das atitudes, das concepções, que se caracterizam como a principal barreira para a inclusão, barreiras atitudinais. Em uma filosofia transformadora, que considera as diferenças em um espaço real, organizado para um aluno real, com características, estilos e ritmos próprios de aprendizagem. Para tanto é necessário corrigir desigualdades próprias das sociedades de classe, aproximar grupos ou categorias marginalizadas, organizar a oferta dos serviços educacionais a todos. Nessa perspectiva, em nosso país, além da Constituição Federal, há muitos outros documentos legais com dispositivos relevantes a respeito do direito à educação: Decreto Legislativo n. 592/ 1992; Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n. 9.394/96), Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/90), Plano Nacional de Educação (Lei n. 10.172/2001), Lei 13.146/2015 – Lei Brasileira de Inclusão, entre outros, que juntamente com a Constituição Federal preveem uma sociedade com escolas abertas a todos, em qualquer etapa ou modalidade, bem como o acesso a níveis mais elevados de ensino. Quem é o público da Educação Especial, conforme PNEE (2008)? AGORA É A SUA VEZ Conforme estudamos no capítulo 1, a partir da promulgação da LDB (9.394/96), a Educação Especial deixa de ser reconhecida como sistema de ensino paralelo. Seguindo os preceitos da Declaração de Salamanca (1994), a Educação Especial passa a ser compreendida como campo de conhecimento e modalidade transversal de ensino para oferta de serviços e recursos de apoio à inclusão escolar para aqueles estudantes considerados público da Educação Especial conforme a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEE, 2008), quais sejam: estudantes com deficiências, Transtornos do Espectro Autista e aqueles com Altas Habilidades e/ou Superdotação. UNIUBE 37 Nessa vertente, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008) foi elaborada segundo os preceitos de uma escola em que cada estudante tenha possibilidade de aprender, a partir de suas aptidões e capacidades, por meio de práticas educacionais organizadas, considerando todos e cada um. Esse documento compreende a necessidade de uma ressignificação da dinâmica pedagógica, dos processos de ensino e aprendizado, dos currículos, das expectativas de aprendizagem, enfim, das dimensões que interferem direta ou indiretamente nos resultados educativos. Organizar a inclusão escolar para esse público requer a oferta de recursos e estratégias que garantam o acesso ao conhecimento (adequações de atividades, flexibilização de tempo, flexibilização curricular); a acessibilidade ao ambiente e às comunicações e o comprometimento e colaboração de todos os envolvidos para com o processo de ensino, aprendizagem e desenvolvimento do estudante. Garantindo os princípios da igualdade, equidade, autonomia, independência, equiparação de oportunidades, com o comprometimento de todos em atitude de parceria e colaboração em prol de garantir os direitos fundamentais de todos e de cada um. Autores como Werneck, Omote, Sassaki e Mantoan defendem a conscientização sobre a diferença humana, para atender às necessidades básicas de cada um, das maiorias às minorias, dos privilegiados aos marginalizados. Na sociedade inclusiva não há lugar para atitudes como “abrir espaço para deficientes” ou “aceitá-los”, num gesto de solidariedade, e depois bater no peito ou mesmo ir dormir com a sensação de ter sido muito bonzinho. (WERNECK, 1998, p.22). Sassaki (1997; 2006; 2007; 2009) fala em adequação da sociedade para que o processo de inclusão se realize, Mantoan (1989; 1997; 2003) destaca o conceito de autonomia como finalidade da educação. Essa autonomia é definida por Sassaki, como condição de domínio no ambiente físico e social, preservando ao máximo a privacidade e 38 UNIUBE a dignidade da pessoa que a exerce. Todos esses autores citados e outros tantos convergem para o fato de que a inclusão na vida escolar é fundamental para o desenvolvimento e a garantia dos direitos de qualquer cidadão comum. Parte do reconhecimento de que todos são diferentes uns dos outros, como são diferentes suas potencialidades, preferências e necessidades. Essas diferenças dependem e são produto da interação das características biológicas com que cada um de nós vem equipado (genéticas, hereditárias e adquiridas após o nascimento), do nível de desenvolvimento real em que cada um de nós se encontra e do significado que atribuímos às situações que vivemos em nosso cotidiano. (BRASIL, 1986, p. 30). Na perspectiva da Educação Inclusiva são considerados os ritmos, estilos e tempos de aprendizagem, é reconhecida a importância do desenvolvimento da autonomia dos estudantes, a aquisição de valores,o fortalecimento da identidade e a relevância na construção de conhecimentos relacionados e aplicáveis nas situações de vida diária. A educação inclusiva prima por desenvolver potencialidades e contribuir para com aquisição de habilidades interpessoais e intrapessoais que impulsionem a construção do conhecimento. A construção de um sistema educacional inclusivo é responsabilidade de todos e de cada um, para atender à realidade que se coloca e responder positivamente aos desafios que se apresentem. Desenvolvimento da autonomia Fortalecimento da identidade Aquisição de valores Construção de conhecimentos aplicáveis UNIUBE 39 Assim, a escola precisa constituir-se como um espaço de cooperação, diálogo e criatividade, traduzidos em estratégias pedagógicas adequadas por meio de seus planejamentos, recursos materiais, humanos e atitudinais, ações e intervenções dentro e fora da sala de aula. Para Mittler (2003), a escola inclusiva tem como desafio organizar um processo educativo para desenvolvimento e a formação de todos, em condições de igualdade de oportunidade, respeito à diferença e autonomia, com o compromisso de todos e de cada um na “garantia de acesso de todos a todas as oportunidades, independentemente das peculiaridades individuais ou do grupo social”. (ARANHA, 2001, p. 2). A organização de um trabalho colaborativo envolve a parceria entre todos os profissionais, desde o inspetor escolar, a gestão até a coordenação pedagógica. Estes profissionais atuam como articuladores, interlocutores e mediadores entre os diferentes segmentos da escola, orientando o trabalho pedagógico, acompanhando o desenvolvimento dos estudantes e ainda estreitando a relação com as famílias dos estudantes. A escola inclusiva envolve toda a comunidade educacional e, entre estes profissionais, está o professor, fundamental para que o acesso ao conhecimento seja de fato garantido. Tanto professores como coordenadores e demais gestores da instituição educacional precisam identificar e reconhecer as barreiras que limitam a participação do estudante, para então intervir. Nesse sentido, é importante que o professor tenha uma formação inicial e participe da formação continuada em serviço e, alinhado aos desafios de sua práxis, estabeleça parceria com os familiares dos estudantes e equipes multiprofissionais, para juntos atuarem em prol da resolução dos desafios da inclusão. A inclusão escolar dos estudantes, público da Educação Especial, perpassa por um movimento pedagógico planejado, organizado e estruturado para garantir e/ou ampliar a participação do estudante, com acesso ao conhecimento e aos ambientes educacionais. Assim, 40 UNIUBE ante o planejamento das ações e estratégias pedagógicas, é preciso considerar os aspectos emocionais, biológicos e cognitivos do indivíduo, organizar experiências significativas, com disponibilização de tempo e oportunidades para explorarem o conhecimento. De grande ajuda são os conceitos e estudos fundamentados no Desenho Universal para Aprendizagem (DUA), creditado a um grupo de professores da Universidade de Harvard, liderado por David Rose, que trata da relação entre diferentes contextos de aprendizagem e da transferência dessas aprendizagens para outros ambientes. Com objetivo de buscar respostas para as demandas sociais, garantir a plena participação de todos e ainda ampliar as oportunidades de desenvolvimento de cada um, esse conceito pretende atender turmas cada vez mais heterogêneas, para garantir acesso aos conteúdos curriculares a estudantes que se diferenciam em termos de habilidades motoras, intelectuais e sensoriais. Desenho Universal é um conceito que tem como objetivo definir projetos de produtos e ambientes que contemplem toda a diversidade humana: desde as crianças, adultos altos e baixos, anões, idosos, gestantes, obesos, pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida. Desenvolveu-se entre os profissionais dos EUA, com o objetivo de definir um projeto de produtos e ambientes para ser usado por todos, na sua máxima extensão possível, sem necessidade de adaptação ou projeto especializado para pessoas com deficiência. O Desenho Universal é direcionado para todas as pessoas. Seu objetivo é criar produtos acessíveis a todas as pessoas, independentemente de suas características pessoais, idade ou habilidades. A meta é que qualquer ambiente ou produto possa ser alcançado, manipulado e usado, independentemente do tamanho do corpo do indivíduo, sua postura ou sua mobilidade, assegurando que todos possam utilizar com segurança e autonomia os diversos espaços construídos e objetos. Para saber mais, acesse: https://www.maragabrilli.com.br/wp-content/ uploads/2016/01/universal_web-1.pdf AMPLIANDO O CONHECIMENTO UNIUBE 41 Os princípios do Desenho Universal para Aprendizagem (DUA), por se relacionarem ao conceito de Desenho Universal, podem auxiliar na organização e no planejamento das aulas (Figura 2), na sistematização da prática docente, por apresentar, como premissa, a busca pela eliminação das barreiras: seja na escolha do material didático, seja na definição das estratégias pedagógicas, seja na eventual falta de conexão entre os conteúdos curriculares e o cotidiano dos estudantes, seja na construção dos instrumentos de avaliação, etc. O Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) utiliza três princípios orientadores: Veja a explicação de cada um deles, a seguir. • Princípio de engajamento: elaboração de atividade acessível, com estratégias e adequações que contemplem níveis ajustáveis de desafio, que oportunizem interação em diferentes contextos de aprendizagem. A atividade precisa estar acessível para que o estudante possa realizá-la com maior autonomia e engajamento possível. Por exemplo: utilizar/disponibilizar materiais e recursos que favoreçam a motivação e o envolvimento dos alunos. • Princípio da representação: refere à adequação das estratégias pedagógicas, uma vez que a forma como as informações são apresentadas aos estudantes pode expandir ou limitar seus conhecimentos, impactando a aprendizagem ou não do conteúdo. Por exemplo: utilizar/disponibilizar materiais e recursos que possibilitem e/ou facilitem a compreensão dos conteúdos apresentados pelo professor ao aluno. Princípio de engajamento Princípio de representação Princípio de ação e expressão 42 UNIUBE • Princípio da Ação e Expressão: envolve a disponibilização de modelos flexíveis e a diversificação de estratégias para que o aluno tenha possibilidades diferenciadas de demonstrar os conhecimentos aprendidos. Por exemplo: utilizar/disponibilizar materiais e recursos que possibilitem a participação ativa dos alunos: (Figura 1). Figura 1 – Diferentes possibilidades para DUA. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Esses princípios estão em consonância com os pré-requisitos para a aprendizagem descritos por Vygotsky: o reconhecimento da informação a ser aprendida, a aplicação de estratégias para processar essa informação e o engajamento com a tarefa de aprendizagem. A organização e o planejamento didático e metodológico precisam considerar os estilos, ritmos e modos singulares de aprendizagem de cada um, com a proposição de estratégias de ensino que promovam a compreensão, em ascensão a partir de conhecimentos prévios até os conceitos mais abrangentes. É necessário ainda ampliar e diversificar as opções de comunicação com disponibilização e adequação de linguagens Vygotsky Defende a inclusão escolar, em uma época em que o tema não era tratado, ao afirmar, na década de 20 do século passado, que a escola especial cria uma separação sistemática do meio social, isola e situa a pessoa em um mundo estreito e fechado, onde tudo está adaptado ao “defeito”, e em que tudo recorda e reforça a deficiência, um meio artificial que nada tem em comum com o mundo real. A discussão sobre a inclusãoou escola inclusiva não emerge em sua centralidade em seus estudos, mas Vygotsky propõe soluções UNIUBE 43 verbais e não verbais, com informações auditivas, visuais e concretas por meio de recursos, mediações, modelos flexíveis e adequados e a diversificação de estratégias. E considerar que se “a forma de aprender de cada estudante não for respeitada, corre-se o risco de dar continuidade a um ensino tradicional, homogêneo e excludente, no qual o público da Educação Especial e muitos outros não têm vez” (ZERBATO; MENDES, 2018, p. 152). [...] Garantir o acesso à escola regular constitui a dimensão mais fácil de alcançar no processo de inclusão, pois depende sobretudo de decisões de natureza política. Já assegurar a aprendizagem e o sucesso na aprendizagem envolve mudanças significativas nas formas de conceber a função da escola e o papel do professor no processo de ensino e aprendizagem. Trata-se, portanto, de equacionar processos pedagógicos inclusivos que permitam o envolvimento efetivo de crianças e jovens [...] Tal necessidade está associada ao aparecimento do conceito Universal Design for Learning (UDL) nos anos 90 [...]. (NUNES; MADUREIRA, 2015, p. 7). Trata-se, portanto, de, não somente garantir o acesso à escola, sua matrícula e um lugar na sala de aula e no diário de classe, mas de se ressignificar práticas pedagógicas excludentes, considerar as diferenças e especificidades dos estudantes quando da escolha de estratégias e metodologias de ensino. Para tanto, é imprescindível refletirmos sobre conceitos como flexibilização, acessibilidade, para questões, ainda pendentes, na teoria e na prática da Educação Inclusiva. Vygotsky se dedicou aos campos que, à época, eram denominados de “pedologia” (estudo interdisciplinar da criança) e “defectologia” (estudo de pessoas com deficiência ou transtornos de desenvolvimento). Em sua obra “Obras Escogidas” ele se opõe eloquentemente à segregação escolar dos estudantes com deficiência. Ele considera que a pessoa com algum tipo de deficiência se isolada no âmbito familiar, escolar ou comunitário, muito mais que apenas um problema social ou ético, pode apresentar prejuízos psicossociais delicados na dinâmica sociogênica de seu desenvolvimento infantil sadio. Em seu livro Fundamentos de Defectologia reúne vários escritos acerca da criança com deficiência e a sua educação, com várias contribuições para a compreensão de seus processos de desenvolvimento, ensino e aprendizagem. Foi o primeiro, na história da literatura, a apresentar noções que denomina “caminhos alternativos” e “recursos especiais” necessários para o desenvolvimento e aprendizado das pessoas com deficiência e se posicionar na defesa da modificação da concepção existente na União Soviética sobre a deficiência. 44 UNIUBE aprendizagem e desenvolvimento. O Desenho Universal da Aprendizagem – DUA se refere à personalização do processo de ensino, para que o estudante tenha garantido o direito ao acesso não somente aos espaços escolares, mas também ao conhecimento. O conjunto de princípios educacionais baseados no conceito de Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) objetiva maximizar as oportunidades de aprendizagem para todos e auxiliar os profissionais no contexto escolar. Oportuniza a esses profissionais organizar e refletir a necessidade de disponibilizar e desenvolver materiais e métodos eficientes, mais justos e aprimorados, com recursos e estratégias capazes de promover o acesso ao conhecimento (adequações de atividades, flexibilização de tempo, flexibilização curricular); a acessibilidade ambiental e de comunicações. Adequações e flexibilizações: uma perspectiva inclusiva2.2 A inclusão escolar requer que as formas de ensinar e todo o contexto escolar estejam abertos a adequações dos espaços, organização do tempo de forma flexível, uso de tecnologias para a aprendizagem, adequação e disponibilização de recursos acessíveis, reflexão sobre práticas pedagógicas, concepções de ensino e de aprendizagem. Pensar a construção de práticas pedagógicas acessíveis para a escolarização de todos em sala de aula exige uma parceria colaborativa com o professor da sala comum, a disponibilização de serviços e recursos da Educação Especial e colaboração de outros profissionais especializados. Nesse aspecto, a Resolução CNE/CEB Nº 2/2001, em seu art. 17, preconiza que as escolas têm a responsabilidade de promover condições de acessibilidade, flexibilização e adequação do currículo, flexibilização da ação pedagógica nas diferentes áreas de conhecimento, adequação do ensino às necessidades de aprendizagem dos estudantes e implementação de estratégias para flexibilizar os procedimentos didáticos pedagógicos. UNIUBE 45 [...] o principal objetivo da educação é o de estabelecer um modelo operacional flexível com uma estrutura aberta que dê suporte a uma educação adequada ao momento do desenvolvimento em qualquer ambiente onde a criança esteja. (BRASIL, 2006, p. 14). A escola precisa se comprometer com propostas curriculares flexíveis e diversificadas, que sejam asseguradas no Projeto Político Pedagógico – PPP da escola. O Projeto Político Pedagógico constitui a identidade da escola e indica as concepções da comunidade escolar sobre ensino e aprendizagem e os caminhos para ensinar. (LOPES, 2015). Trata-se de um projeto por reunir propostas de ação concreta a executar em determinado período. É político por considerar a escola como espaço de formação de cidadãos que atuarão individual e coletivamente na sociedade. É pedagógico porque define as atividades e projetos educativos necessários ao processo de ensino e aprendizado. E em sua unicidade o Projeto Político Pedagógico representa um guia, um orientador que indica a direção que a escola irá seguir, não apenas gestores ou professores, mas toda a comunidade escolar e as famílias. Para tanto, esse documento precisa ser completo o suficiente e flexível o bastante para contemplar os desafios educacionais do contexto e atender às especificidades e necessidades de aprendizagem dos estudantes (LOPES, 2015). O PPP se configura ainda instrumento de planejamento e avaliação para o qual todos os membros da equipe precisam atentar e consultar na tomada É político É pedagógico É projeto Projeto Político Pedagógico – PPP 46 UNIUBE de decisão. Conforme Padilha (2001 apud LOPES, 2015) “o PPP se torna um documento vivo e eficiente na medida em que serve de parâmetro para discutir referências, experiências e ações de curto, médio e longo prazos”. A Conferência Nacional de Educação (CONAE) reforça a ideia de que o PPP é um dos pilares da educação, uma vez que é por meio dele que se concretiza a participação e o compromisso de todos na definição de metas e na implementação de ações. É fundamental que o PPP: • contemple e oriente a operacionalização de um currículo flexível, • possibilite a disponibilização de recursos e meios adequados para atingir os objetivos educacionais condizentes com o contexto e coerentes com as propostas educacionais, • assegure a presença dos serviços da Educação Especial no interior das escolas, para que os estudantes tenham acesso a ações e estratégias adequadas e que atendam a todos sem discriminação, e que • contemple possibilidades de complementar, adequar e suplementar o currículo, sempre que necessário. Para atender aos preceitos da educação inclusiva é preciso estruturar flexibilizações e adequações nos objetivos de aprendizagem; nos conteúdos; nas metodologias propostas; nos materiais; no processo de avaliação; no espaço físico e na organização do tempo. Ante a necessidade de flexibilização e adequação, é fundamental conhecer o estudante, suas capacidades, suas potencialidades e suas necessidades. Deve ser analisado cada caso, para que ações sejam estruturadas e organizadasde forma personalizada, ou seja, considerar cada um em sua singularidade, mesmo que os estudantes apresentem similaridades, por exemplo, mesmo quadro de deficiência, mesma idade, mesmo ano/turma de escolarização, entre outras, apresentamos inúmeras diferenças humanas individuais. IMPORTANTE! UNIUBE 47 A autora Lopes (2010) descreve algumas sugestões, possibilidades e necessidades de flexibilização e adequações, exposta no quadro a seguir: Quadro 1 – Flexibilizações e adequações necessárias e possíveis Flexibiliações e adequações Conceituações Ações necessárias Adaptações de objetivos de aprendizagem Ajustes e modificações realizadas pelo professor nos objetivos pedagógicos constantes de seu plano de ensino, de forma criteriosa e responsável para não ocorrer empobrecimento do currículo. – Priorização dos objetivos fundamentais para a aquisição de aprendizagens posteriores. – Introdução de objetivos ou conteúdos que não estejam no currículo, mas que possam complementá-lo. – Eliminação de determinados objetivos ou conteúdos, que não sejam aqueles considerados básicos. Adaptações de conteúdos Requer garantir que os conteúdos curriculares estejam intimamente relacionados aos objetivos de ensino. Com adequações significativas, a partir dos conteúdos, sem perder de vista os objetivos inicialmente estabelecidos. – Priorizar conteúdos, áreas ou unidades. – Reformular a sequência de conteúdo, ou a eliminação daqueles considerados secundários. – Acompanhar as adequações propostas para os objetivos educacionais. Adaptações de método de ensino e da organização didática Adequação do método de ensino às necessidades de cada aluno, considerando seus estilos e ritmos. Considerar que mesmo em casos de mesma deficiência, os estudantes necessitam de diferentes adequações e metodologias. – Buscar estratégias que melhor respondam às características e estilos de aprendizagem dos estudantes. – Organizar as adequações e flexibilizações em consonância com as especificidades dos estudantes. 48 UNIUBE Adaptações de materiais Visam garantir a interação, convivência, autonomia e independência nas ações; melhoria de autoestima e afetividade do estudante. Recursos didáticos e atividades pedagógicas acessíveis ao estudante, consideradas e respeitadas suas especificidades. – Os recursos e materiais são organizados e adequados às especificidades dos estudantes, garantindo o acesso ao conhecimento trabalhado. – Adequações dos procedimentos e atividades organizadas com objetivo de favorecer o aprendizado de conceitos. – Tais adequações e flexibilizações favorecem o aprendizado de toda a turma. Adaptações no processo de avaliação Referem-se a ajustes e flexibilizações, modificação nas técnicas e nos instrumentos utilizados, preservando sua relação com os objetivos e os conteúdos estabelecidos. – Utilizar diferentes procedimentos de avaliação, adaptando-os aos diferentes estilos e possibilidades de expressão dos estudantes. – Possibilitar que o estudante de acordo com suas necessidades e especificidades utilize recursos de CAA, tecnologia assistiva, entre outros, no lugar da escrita com lápis ou caneta, em papel. – Possibilitar a realização de suas avaliações adequadas ao seu sistema de comunicação: TA, Braille, LIBRAS, avaliação oral etc. – Nas avaliações considerar o momento e o percurso em que o estudante se encontra. Adaptações do espaço físico e da organização do tempo Ação cujo compromisso é garantir a todos os estudantes o acesso ao conhecimento. Ofertar um serviço que respeite os tempos, espaços, estilos e ritmos de cada um. – Flexibilizações que considerem as diferentes características dos estudantes como ritmos e estilos de aprendizagem diferenciados. – Considerar aqueles estudantes que apresentem sensibilidades diversas ou baixo limiar de tolerância seja ao barulho ou à iluminação, por exemplo, apego à rotina, dificuldade de concentração por período superior ao esperado, necessidade de tempo maior na realização das mesmas atividades ou necessidade de alternar entre espaços e/ou atividades, períodos de desorganização emocional. Considerar os tempos e espaços de aprendizagem de forma flexível. Fonte: Adaptado de Lopes (2008, p. 17 -19). UNIUBE 49 Então como você está? Compreendendo tudo? Escreva com suas palavras algumas das possibilidades de flexibilizações e adequações propostas pela autora. AGORA É A SUA VEZ Organizar e oportunizar adequações e flexibilizações da demanda, de acordo com Blanco (2004, p. 293), “romper com o esquema tradicional em que todas as crianças fazem a mesma coisa, na mesma hora, da mesma forma e com os mesmos materiais”. Nesse sentido, flexibilizar se trata de contemplar mudanças na estrutura do currículo e na prática pedagógica, em consonância com os princípios e as diretrizes do Projeto Político Pedagógico, na perspectiva de um ensino com equidade no acesso ao conhecimento e às informações para todos. O que corrobora Sanchez (2005) ao afirmar que as escolas devem acolher e educar todos os estudantes (Figura 2) e não somente os considerados “educáveis”. Figura 2 – Acolher e educar todos. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. A escola, em uma perspectiva inclusiva, além de cumprir seu compromisso com a aprendizagem de todos e de cada um, precisa considerar as especificidades de seus estudantes para contribuir efetivamente para o desenvolvimento da capacidade intelectual de todos. Defendemos a 50 UNIUBE realização de um trabalho que não enfatiza atividades mecânicas, e sim o desenvolvimento das funções mentais superiores com aprendizagens significativas, de acordo com Vygotsky (1991; 2001; 2007), uma vez que as estratégias pedagógicas adequadas são capazes de provocar avanços que não ocorreriam espontaneamente. Para tanto, o professor precisa perceber que toda e qualquer atividade realizada no dia a dia da sala de aula apresenta uma intencionalidade e compreende suas concepções de aluno, de ensino e de aprendizagem e que seus objetivos precisam estar em consonância com o objetivo maior, isto é, que a aprendizagem e o desenvolvimento ocorram nos aspectos cognitivos, socioafetivos e biopsicomotores. Acessibilidade e eliminação de barreiras2.3 Vimos que a compreensão de inclusão escolar está articulada a concepções mais amplas sobre o ser humano, o aprendizado, o desenvolvimento, o papel e a função da escola e preza pela promoção de mecanismos equitativos no acesso a bens e serviços. Rompe com práticas segregadoras e excludentes (essas ainda que disfarçadas de inclusivas), fazendo valer o direito da educação para todos, com justiça social. Tessaro (2005) e Omote (1990) dizem que as maiores limitações não estão relacionadas à deficiência em si, mas à credibilidade e às oportunidades que são oferecidas ou não a essas pessoas, configurando- se em barreiras atitudinais e do contexto. No contexto educacional, o acolhimento representa a primeira ação inclusiva. No dicionário, acolhimento significa o ato ou efeito de acolher, de receber e relaciona-se à consideração, à hospitalidade. No sentido pedagógico e educativo da palavra – acolhimento, esse é o primeiro passo a se observar para garantir o cumprimento da Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015). O acolhimento, inclusive, requer a eliminação UNIUBE 51 das barreiras ao acesso e permanência do estudante no contexto educacional e daquelas que constituam entrave ao seu aprendizado e desenvolvimento no percurso. O acolhimento se refere não apenas ao momento de ingresso do estudante, mas também durante todo o seu período de permanência neste espaço. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, em seu artigo 7º, estabelece o compromisso com a adoção de medidas necessárias a assegurar o pleno exercício de todos os direitos humanos, liberdades fundamentais e igualdade de oportunidadecom as demais pessoas, para tanto é necessária a eliminação de todos os tipos de barreiras. No contexto escolar, representam algumas das barreiras ao processo de inclusão escolar (SASSAKI, 1997): Barreiras físicas e arquitetônicas: trata-se de espaços físicos (Figura 3), recursos tecnológicos e pedagógicos de alta e baixa tecnologia, mobiliários e equipamentos, que não estejam adaptados e/ou adequados, que impossibilitem ou dificultem o acesso e/ou a mobilidade de forma autônoma e independente, a todos os espaços internos e de uso coletivo. Figura 3 – Barreiras arquitetônicas a um cadeirante. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. 52 UNIUBE Barreiras atitudinais: não são concretas, em essência, materializam-se nas atitudes nos comportamentos de cada pessoa, impossibilitam, de modo intencional ou não, a plena participação nos diversos contextos sociais e educacionais. Referem-se a ações de discriminação, preconceito, não reconhecimento da diferença e do potencial humano, ignorando as especificidades de cada um. A acessibilidade atitudinal exige mudança de atitude dos sujeitos envolvidos no contexto escolar e acadêmico, sejam eles: gestores, professores, alunos, família e funcionários. Trata-se de uma questão relacional, permeada pela alteridade. Dependem de reestruturações perceptivas e afetivo-emocionais que interfiram nas predisposições de cada um de nós com relação à alteridade, dispensando-se rótulos e examinando-se as relações entre as incapacidades das pessoas e as barreiras a elas interpostas pela conjuntura da sociedade em que vivemos (ALVES; SOUZA, 2004, p. 123). Barreiras comunicacionais: dificuldade gerada pela falta ou inadequação das informações comunicacionais presentes ou não nos ambientes. Sejam elas visuais (Braille, Libras, rotina, legendas, sinalizações, pranchas de comunicação, mapas e outras.); lumínicos e/ou auditivos (sinal da escola com apoio luminoso, baixo ou alto contraste, cores com fundos diferenciados, audiodescrição e outras.). A Lei n. 10.098 de 2000, conhecida como Lei da Acessibilidade, em seu artigo 17, estabelece que: O Poder Público promoverá a eliminação de barreiras na comunicação e estabelecerá mecanismos e alternativas técnicas que tornem acessíveis os sistemas de comunicação e sinalização às pessoas portadoras de deficiência sensorial e com dificuldades de comunicação, para garantir-lhes o direito de acesso à informação, à comunicação, ao trabalho, à Alteridade Prática de atenção e consideração ao outro, como alguém que pensa, age e entende o mundo e as circunstâncias de maneira própria. Trata-se de reconhecer a subjetividade de cada um. Desenvolver a alteridade é fundamental para a construção de uma sociedade justa e democrática em que todos, e cada um, tenham seus direitos e sua individualidade consideradas e respeitadas. UNIUBE 53 educação, ao transporte, à cultura, ao esporte e ao lazer. No cenário educacional, defende-se aqui que, no caso das pessoas com dificuldades na comunicação, é importante que esse respeito à diversidade se configure, principalmente, com uma prática pedagógica que possibilite o processo de aprendizagem e desenvolvimento para todos (com dificuldades de comunicação ou não). Barreiras sociais e procedimentais: relativas aos processos de inclusão/ exclusão de pequenos grupos e minorias. No contexto escolar, pode se apresentar como qualquer meio de segregação, seja em apresentações escolares, aulas-passeios, atividades em grupos, atividades físicas e recreativas, projetos pedagógicos, entre outros. Obstáculos no processo de ensino e aprendizagem, os quais segregam os educandos em várias categorias, entre elas: alunos sem deficiência e alunos com deficiência. Importante considerarmos que o acesso do público da Educação Especial às escolas regulares não representa por si só a inclusão destes e tampouco garante sua permanência e continuidade no processo de escolarização de maneira significativa e participativa. É necessário que a escola organize, promova e disponibilize recursos físicos, materiais e humanos, que possibilite o uso dos espaços com liberdade de movimento, segurança e autonomia, e sistemas de comunicação e tecnologias, estratégias e práticas pedagógicas, entre outros recursos. Nesse sentido, preconiza a BNCC, a necessidade não apenas do desenvolvimento intelectual, mas também do social, do físico, do emocional e do cultural, compreendidos como dimensões fundamentais para a perspectiva de uma educação integral. IMPORTANTE! 54 UNIUBE Importante considerar que a Lei n° 10.098, de dezembro de 2000, mais conhecida como Lei da Acessibilidade, assegura a importância de se considerar as especificidades e necessidades de cada um à fruição e ao exercício dos direitos, à participação social e ao conhecimento com autonomia e segurança. Para Sassaki (2002, 2006, 2007, 2009), o conceito de acessibilidade deve ser incorporado aos conteúdos programáticos ou curriculares das instituições. Para o autor, a acessibilidade não se restringe ao espaço físico, à dimensão arquitetônica, Sassaki (2005) classifica o conceito de acessibilidade em seis dimensões: arquitetônicas, comunicacionais, atitudinais, programáticas, metodológicas e instrumentais: Acessibilidade arquitetônica: sem barreiras ambientais físicas nos recintos internos e externos e nos transportes coletivos. Acessibilidade comunicacional: sem barreiras na comunicação interpessoal (face-a-face, língua de sinais, linguagem corporal, linguagem gestual etc.), na comunicação escrita (jornal, revista, livro, carta, apostila, etc., incluindo textos em braile, textos com letras ampliadas para quem tem baixa visão, notebook e outras tecnologias assistivas) e na comunicação virtual (acessibilidade digital). Acessibilidade metodológica: sem barreiras nos métodos e técnicas de estudo (adaptações curriculares, aulas baseadas nas inteligências múltiplas, uso de todos intelectual cultural social físico emocional UNIUBE 55 os estilos de aprendizagem, participação do todo de cada aluno, novo conceito de avaliação de aprendizagem, novo conceito de educação, novo conceito de logística didática etc.), de ação comunitária (metodologia social, cultural, artística etc. baseada em participação ativa) e de educação dos filhos (novos métodos e técnicas nas relações familiares, etc.). Acessibilidade instrumental: sem barreiras nos instrumentos e utensílios de estudo (lápis, caneta, transferidor, régua, teclado de computador, materiais pedagógicos), de atividades da vida diária (tecnologia assistiva para comunicar, fazer a higiene pessoal, vestir, comer, andar, tomar banho etc.) e de lazer, esporte e recreação (dispositivos que atendam às limitações sensoriais, físicas e mentais, etc.). Acessibilidade programática: sem barreiras invisíveis embutidas em políticas públicas (leis, decretos, portarias, resoluções, medidas provisórias etc.), em regulamentos (institucionais, escolares, empresariais, comunitários etc.) e em normas de um geral. Acessibilidade atitudinal: por meio de programas e práticas de sensibilização e de conscientização das pessoas em geral e da convivência na diversidade humana resultando em quebra de preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminações. (SASSAKI, 2005, p. 23). Elabore um pequeno texto sobre quais são as barreiras ao processo de inclusão escolar, apresentados por Sassaki, demonstrando sua compreensão. E observe, você reconhece algumas dessas barreiras? Já percebeu algumas delas no seu cotidiano. Reflita. AGORA É A SUA VEZ A acessibilidade no contexto da Educação Inclusiva requer a eliminação de todas as barreiras, a ressignificação dos espaços educacionais e a necessidade de constante reflexão sobre posturas e práticas pedagógicas e humanas que se configurem barreira à participação plenae integral de todos, para garantir a acessibilidade com vistas à autonomia, independência e emancipação. Necessidade de adequação dos procedimentos, métodos e técnicas utilizados pelo professor, adequação dos recursos materiais, efetivação de um trabalho colaborativo entre família e escola, planejamento de ações coerentes com as reais necessidades dos estudantes (Figura 4), proposição de ações para flexibilização do currículo. 56 UNIUBE Figura 4 – Atividade em Braille para estudante com cegueira Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Fica claro também que métodos, recursos e técnicas (Figura 5) podem favorecer e melhorar as condições de aprendizagem ou se configurar barreiras. Conforme Mitller (2003), “um currículo acessível proporciona para todos os alunos, sem exceção, oportunidades para participar totalmente das atividades e para experienciar o sucesso, sendo um fundamento essencial para a inclusão” (p.158). Figura 5 – Adequação de métodos, técnicas e recursos materiais Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. A inclusão escolar contribui sobremaneira para a construção de uma sociedade mais inclusiva ao se mobilizar em prol de transformações nos ambientes físicos (espaços externos e internos), equipamentos, aparelhos, utensílios, mobiliários, meios de transporte e, principalmente, na mentalidade das pessoas (SASSAKI, 1997). UNIUBE 57 Processo formativo e avaliativo do público da Educação Especial2.4 Por meio do Decreto nº 6949/2009, o Brasil assumiu o compromisso público de garantir o acesso dos alunos, público da Educação Especial, ao sistema de ensino regular inclusivo, em todos os níveis e de propiciar meios para a sua efetiva participação escolar. E já estudamos que a prática pedagógica inclusiva não se dá com a utilização da mesma estratégia sempre ou do mesmo recurso ou ainda do mesmo serviço para todos os alunos. Para incluir, é essencial considerar as especificidades do estudante e do quadro que ele apresenta e é indispensável refletir e avaliar continuamente o processo formativo e avaliativo, o ensino, a aprendizagem e a acessibilidade dos serviços necessários para cada estudante. Nesse sentido, o art. 5º, Inciso III, da Resolução CNE/CEB Nº 2/2001, defende que as flexibilizações e adequações curriculares considerem a funcionalidade dos conteúdos, a acessibilidade das metodologias e estratégias de ensino e dos recursos disponibilizados e ainda que os processos de avaliação sejam adequados às especificidades desse público e assegurados no PPP. Da mesma forma, a LDB (9394/96), destaca no art. 59, Inciso I, que “os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais: currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades”. Nos capítulos seguintes, aprofundaremos os estudos sobre a conceituação, caracterização, movimento pedagógico e sobre os serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar de cada um dos 07 quadros que representam o público da Educação Especial conforme PNEE (2018): Deficiências sensoriais (Surdez, Cegueira, Baixa visão, Surdocegueira, Deficiência Física, Deficiência Múltipla, Deficiência Intelectual). Altas Habilidades e/ou Superdotação e Transtorno do Espectro Autista. E você terá, nos capítulos subsequentes, a oportunidade de conhecer algumas possibilidades de recursos, tecnologias, procedimentos e estratégias mais adequadas em cada caso, considerando as especificidades dos estudantes e respeitando suas singularidades. 58 UNIUBE Em linhas gerais, a Educação Especial é responsável pela oferta de conhecimentos, recursos e serviços para promover, favorecer e assegurar a inclusão escolar desse público. Entre os serviços disponibilizados pela Educação Especial está o Atendimento Educacional Especializado – AEE. Esse atendimento precisa ser assegurado no Projeto Político Pedagógico das escolas. Conforme estudamos no capítulo anterior, o AEE deve ser ofertado no contraturno de escolarização, na modalidade complementar e/ou suplementar com objetivo de favorecer, garantir e ou possibilitar por meio de estratégias diferenciadas recursos de alta e baixa tecnologia e/ou adequações específicas e personalizadas, o acesso ao conhecimento e aos espaços de aprendizagem, para que a inclusão escolar aconteça com aprendizado e desenvolvimento. De acordo com Sartoretto e Sartoretto, esse serviço é responsável por: identificar as necessidades e possibilidades do aluno com deficiência, elaborar planos de atendimento, visando ao acesso e à participação no processo de escolarização em escolas comuns, atender o aluno com deficiências no turno oposto àquele em que ele frequenta a sala comum, produzir e/ou indicar materiais e recursos didáticos que garantam a acessibilidade do aluno com deficiência aos conteúdos curriculares, acompanhar o uso desses recursos em sala de aula, verificando sua funcionalidade, sua aplicabilidade e a necessidade de eventuais ajustes, e orientar as famílias e professores quanto aos recursos utilizados pelo aluno. (SARTORETTO; SARTORETTO. 2010, p. 2). Um processo formativo e avaliativo que considere todos e cada um necessita de um trabalho colaborativo entre os profissionais da educação. Assim o professor da classe comum e o professor do AEE precisam estabelecer diálogos, análises e reflexões conjuntas acerca dos objetivos das ações e das intervenções pedagógicas, para perceber se estas, de fato, estão acessíveis e se ampliam o desenvolvimento das funções cognitivas, socioafetivas e biopsicomotoras, contribuindo para a autonomia e a independência. Nesse sentido, a perspectiva sociocultural apresenta importante contribuição UNIUBE 59 para o trabalho pedagógico por se pautar na consideração da diferença humana, revelando conceitos extremamente relevantes: funções mentais superiores, zona de desenvolvimento proximal, neuroplasticidade, mediação, enfim, conceitos e seus estudos fundamentais para uma proposta educacional inclusiva. Nos percursos dessa abordagem, Vygotsky defende que o professor é que precisa compreender sua função no processo de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes e ainda compreender o conceito de mediação como um dos elementos fundamentais da aprendizagem. Para tanto, é importante que este profissional reconheça que o conhecimento é sempre mediado e que a aprendizagem é fundamentalmente social. Pelo conhecimento ser construído socialmente, o professor precisa considerar, em suas escolhas didáticas e em seus planejamentos, a interação social por meio da promoção de situações significativas de ensino e aprendizagem, coerentes com o contexto. E ainda, a proposição de ações e estratégias que permitam, impulsionem e/ ou favoreçam a participação ativa de todos, com possibilidades de busca, indagação, exploração, investigação e resolução de situações problemas. Em todas essas atividades está o “outro”. Parceiro de todas as horas, é ele que lhe diz o nome das coisas, a forma certa de se comportar; é ele que lhe explica o mundo, que lhe responde aos “porquês”, enfim, é o seu grande intérprete do mundo. Funções mentais superiores Vygotsky caracteriza as funções mentais superiores como aquelas funções cognitivas constituídas por meio das interações socioculturais dos indivíduos da mesma espécie. Esse conceito redimensiona o papel da escola, como espaço privilegiado de aprendizagens e desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Os estudos do autor têm como um dos aspectos centrais a constituição das funções mentais superiores vinculada aos conceitos de zona de desenvolvimento proximal – ZDP. Zona de desenvolvimento proximal Refere-se à distância entre o nível de desenvolvimento real ou efetivo, aquele que corresponde às conquistas da criança e a sua capacidade de solucionar problemas sozinha, e o nível de desenvolvimentopotencial/proximal caracterizado pela solução de problemas com auxílio e mediação de adultos ou de parceiros mais capazes. 60 UNIUBE A atividade externa se internaliza possibilitando o desenvolvimento das funções psíquicas superiores. A escola surgirá, então, como lugar privilegiado para esse desenvolvimento e/ou aprendizagem, é um processo essencialmente social que ocorre na interação com os adultos e com colegas como mediadores da cultura. (BOCK, et al. 1999, p. 124). Atender aos preceitos da educação inclusiva requer, além da proposição de condições adequadas de aprendizagem e de desenvolvimento o uso de estratégias e situações de mediação que impulsionem a construção ativa do conhecimento e o enriquecimento do potencial de seus estudantes. É necessário que os profissionais da educação conheçam e considerem as habilidades que formam a base do desenvolvimento das capacidades do estudante para que possam efetivamente contribuir para elementos educacionais que impulsionem o desenvolvimento e ampliem o seu repertório cognitivo. E o mais importante é perceber que se trata de uma pessoa em desenvolvimento e não apenas de uma pessoa com deficiência. Para Vygotsky é necessário considerar as manifestações provenientes de um quadro de deficiência na interação com o ambiente e com outras pessoas ou seus pares, bem como seu funcionamento cognitivo para então compreender os comprometimentos e as idiossincrasias da deficiência naquela pessoa. Assim, o autor afirma que a educação deve ser subordinada ao social; coordenada com o social e inclusive deve estar fundida organicamente com ele e adentrá-lo, deve ser contrária ao lamento e à compaixão e evitar todo e qualquer isolamento do meio social. Mediação A mediação é um conceito fundamental na teoria de Vygotsky. O autor aponta que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas uma relação mediada por sistemas simbólicos, entre o sujeito e o mundo. Essa concepção compreende o desenvolvimento da pessoa em sua relação com o ambiente sociocultural em que vive. Neuroplasticidade Também conhecida como plasticidade neuronal, refere-se à capacidade do sistema nervoso de adaptar-se e moldar- se a nível estrutural e funcional ao longo do desenvolvimento neuronal e quando sujeito a novas experiências. UNIUBE 61 A humanidade, sempre há sonhado como um milagre religioso: que os cegos vejam e os mudos falem. É provável, que a humanidade triunfe sobre a cegueira, a surdez e a deficiência mental. Porém a vencerá no plano social e pedagógico muito antes que no plano biológico e medicinal. É possível que não esteja longe o tempo em que a pedagogia se envergonhe do próprio conceito de “criança com defeito”. O surdo falante e o trabalhador cego participantes da vida geral em toda sua plenitude não sentirão sua deficiência e não darão motivo para que outros a sintam. Está “em nossas mãos” o desaparecimento das condições sociais de existência destes defeitos, ainda que o cego continue sendo cego e o surdo continue sendo surdo. (VYGOTSKY, 1997, p. 82). Como é possível perceber, o processo formativo e avaliativo desse público requer a ressignificação dos conceitos e dos espaços, transformações nos princípios, práticas e na estrutura educacional e depende do comprometimento de todos e de cada um com a formação do ser humano. Assim, o processo avaliativo tanto do ensino como da aprendizagem precisa ser compreendido como um ato contínuo, dinâmico, dialógico e conceitual. Sob essas dimensões, esse processo assume característica personalizada, cotidiana, cumulativa e diagnóstica, residindo sua apreciação quantitativa sobre a relevância do processo de ensino e aprendizagem, o que auxilia o professor a tomar decisões sobre o seu trabalho pedagógico. Contínuo DinâmicoConceitual Dialógico Processo avaliativo 62 UNIUBE O processo avaliativo precisa acompanhar todo o movimento pedagógico, com estratégias e atividades acessíveis que possibilitem ao professor conhecer e compreender os conhecimentos e habilidades dos estudantes, tendo como princípio a constante reflexão sobre as propostas pedagógicas implementadas, os objetivos adotados, a acessibilidade dos processos de ensino e das escolhas didáticas e metodológicas. Dessa forma, o processo avaliativo deve se configurar em instrumento pedagógico diagnóstico capaz de fornecer ao docente indicadores importantes para ações e estratégias educativas, sobre e para o trabalho em sala de aula e na escola como um todo. Para saber mais sobre como as políticas públicas têm estruturado, organizado e compreendido a inclusão escolar dos estudantes, público da Educação Especial, sugiro as leituras: BRASIL. Lei n 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Lei 10.098/00. Disponível em: https://www2.camara. leg.br/legin/fed/lei/2000/lei-10098-19-dezembro-2000-377651- publicacaooriginal-1-pl.html. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. LBI 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Ensaios pedagógicos: construindo escolas inclusivas. 1. ed. Brasília: MEC/SEESP, 2005. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ seesp/arquivos/pdf/ensaiospedagogicos.pdf. Acesso em: jan. 2020. PESQUISANDO NA WEB UNIUBE 63 É fundamental para o debate educacional e para a atuação na educação conhecer as concepções e estruturações provenientes das legislações e documentos oficiais. Precisamos, como educadores, conhecer os documentos que deliberam sobre o fazer pedagógico e a educação escolar. Considerações finais2.5 Um processo formativo e avaliativo inclusivo é aquele em que se verifica a correspondência entre os objetivos propostos e as práticas pedagógicas efetivadas, considera os estilos, os ritmos e as especificidades do estudante e que se constitui instrumento dialético do avanço, do desenvolvimento e da identificação de novos rumos para o ensino e a aprendizagem. O que defende Vygotsky (2007) ao afirmar que o aprendizado, quando adequadamente organizado, resulta em desenvolvimento mental, pondo em movimento processos que, sem ele, seriam impossíveis de acontecer. Nessa perspectiva, a educação é concebida como um processo social sistemático de construção da humanidade em que o professor representa figura fundamental, o planejamento das atividades torna-se tarefa essencial e a escola, o lugar de construção. Resumo O ato educativo envolve uma variedade de fatores implícitos na própria complexidade humana, assim, é indiscutível a urgência de ações que visem garantir os direitos humanos e as liberdades fundamentais. O paradigma da inclusão está posto e as ações em que se encontram ou se efetivam ainda demonstram muitos desencontros e acertos. À escola cabe a responsabilidade educacional, social e humana de considerar todos os estudantes em suas proposições pedagógicas e promover um processo educacional inclusivo. Os desafios precisam ser enfrentados desde a gestão do trabalho pedagógico, pela equipe da escola, com vias a implementar práticas inclusivas em todo o contexto educacional. 64 UNIUBE Em uma proposta de educação inclusiva é fundamental rever conceitos sempre, localizá-los historicamente, assim, na escola é imprescindível que o professor tenha acesso a uma formação contínua e em serviço para se apropriar de conhecimentos, atualizar os saberes de sua formação inicial e contribuir para a renovação e atualização de conceitos e das práticas pedagógicas. A apropriação de conceitos permite ao professor localizar as demandas, interferir profissionalmente de forma responsável no tempo e espaço, isto é, historicamente. Em um momento emque a sociedade requer da escola a inclusão de alunos público da Educação Especial no ensino regular, requer também que o professor esteja disposto a atender alunos com ou sem deficiências em seu processo de escolarização. O paradigma da inclusão nos mobiliza e impulsiona a refletir e ressignificar nossas práticas, comportamentos e percepções acerca de nós mesmos e do outro, conforme Mantoan (1997), a meta da inclusão é não deixar ninguém fora do sistema escolar e caminhar em direção a uma reforma educacional mais ampla, em que todos tenham suas necessidades educacionais satisfeitas dentro da educação regular. Valle e Maia (2010) pontuam que a inclusão consiste no processo de adequação da sociedade às necessidades de seus participantes, visando ao exercício da plena cidadania. Assim, assumir um compromisso com a educação inclusiva requer da escola o estabelecimento de parcerias produtivas com as famílias e com a comunidade escolar, a fim de informar, orientar, acolher e colaborar para a resolução proativa dos desafios educacionais. Referências ALVES, Márcia D; SOUZA, Carmem Rosane S. E. Rompendo barreiras atitudinais: um caminho de aproximação com o outro “diferente”. 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Ao final desses estudos, esperamos que você seja capaz de: • apresentar os conceitos e características dadeficiência auditiva; • atuar colaborando para o movimento pedagógico necessário à inclusão escolar destes estudantes – Pessoa com Surdez (PS); • fazer uso dos serviços e recursos disponibilizados pela Educação Especial ao estudante com surdez; Objetivos 70 UNIUBE 3.1. Saberes essenciais sobre a Deficiência Auditiva 3.2. Movimento Pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com surdez – Pessoa com Surdez (PS) 3.3. Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com surdez – Pessoa com Surdez (PS) 3.4 Considerações finais Esquema Saberes essenciais sobre a Deficiência Auditiva3.1 Conhecer as características e conceitos a respeito da deficiência auditiva nos permite além da identificação da surdez compreender esse fenômeno e assim aumentar as possibilidades de interação e atenção às necessidades específicas desse público. De acordo com o caderno Saberes e práticas da inclusão, surdez é: Qualquer alteração ou distúrbio no processamento normal da audição, seja qual for a causa, tipo ou grau de severidade, constitui uma alteração auditiva, determinando, para o indivíduo, uma diminuição da sua capacidade de ouvir e perceber os sons. Quanto ao período de aquisição, a surdez pode ser dividida em dois grandes grupos: Congênitas, quando o indivíduo já nasceu surdo. Nesse caso a surdez é pré-lingual, ou seja, ocorreu antes da aquisição da linguagem. Adquiridas, quando o indivíduo perde a audição no decorrer da sua vida. Nesse caso a surdez poderá ser pré ou pós-lingual, dependendo da sua ocorrência ter se dado antes ou depois da aquisição da linguagem. Quanto à etiologia (causas da surdez), elas se dividem em: Pré-natais – surdez provocada por fatores genéticos e hereditários, doenças adquiridas pela mãe na época da gestação (rubéola, toxoplasmose, citomegalovírus) e exposição da mãe a drogas ototóxicas (medicamentos que podem afetar a audição). Perinatais: surdez provocada mais frequentemente por parto prematuro, anóxia cerebral (falta de oxigenação no cérebro logo após o nascimento) e trauma de parto (uso inadequado de fórceps, parto excessivamente UNIUBE 71 rápido, parto demorado). Pós-natais: surdez provocada por doenças adquiridas pelo indivíduo ao longo da vida, como: meningite, caxumba, sarampo. Além do uso de medicamentos ototóxicos, outros fatores também têm relação com a surdez, como avanço da idade e acidentes.Com relação à localização (tipo de perda auditiva) da lesão, a alteração auditiva pode ser: Condutiva: quando está localizada no ouvido externo e/ou ouvido médio; as principais causas deste tipo são as otites, rolha de cera, acúmulo de secreção que vai da tuba auditiva para o interior do ouvido médio, prejudicando a vibração dos ossículos (geralmente aparece em crianças frequentemente resfriadas). Na maioria dos casos, essas perdas são reversíveis após tratamento. Neurossensorial: quando a alteração está localizada no ouvido interno (cóclea ou em fibras do nervo auditivo). Esse tipo de lesão é irreversível; a causa mais comum é a meningite e a rubéola materna. Mista: quando a alteração auditiva está localizada no ouvido externo e/ou médio e ouvido interno. Geralmente ocorre devido a fatores genéticos, determinantes de má formação. Central: A alteração pode se localizar desde o tronco cerebral até às regiões subcorticais e córtex cerebral. (BRASIL, 2006, p. 14-16). Considera-se uma pessoa com surdez quando sua audição não é funcional na vida comum (perdas acima de 71 decibéis) e, parcialmente com surdez, aquela cuja audição, ainda que “deficiente”, é funcional com ou sem prótese auditiva (perda parcial ou total de 41db até 70db). De acordo com o MEC, competência auditiva é classificada como: normal, perda leve, moderada, severa e profunda. Assim: Surdez leve: a criança é capaz de perceber os sons da fala; adquire e desenvolve a linguagem oral espontaneamente; o problema geralmente é tardiamente descoberto; dificilmente se coloca o aparelho de amplificação porque a audição é muito próxima do normal. Surdez moderada: a criança pode demorar um pouco para desenvolver a fala e linguagem; apresenta alterações articulatórias (trocas na fala) por não perceber todos os sons com clareza; tem dificuldade em perceber a fala em ambientes ruidosos; são crianças desatentas e com dificuldade no aprendizado da leitura e escrita. Surdez 72 UNIUBE severa: a criança terá dificuldades em adquirir a fala e linguagem espontaneamente; poderá adquirir vocabulário do contexto familiar; existe a necessidade do uso de aparelho de amplificação e acompanhamento especializado. Surdez profunda: a criança dificilmente desenvolverá a linguagem oral espontaneamente; só responde auditivamente a sons muito intensos como: bombas, trovão, motor de carro e avião; frequentemente utiliza a leitura orofacial; necessita fazer uso de aparelho de amplificação e/ou implante coclear, bem como de acompanhamento especializado. (BRASIL, 2006, p. 17). A surdez, dependendo do grau de perda auditiva, pode ocasionar sérias implicações para o desenvolvimento do estudante, por se tratar de uma privação sensorial interfere diretamente na comunicação, nas relações e interações deste com o meio. Nesse sentido, é importante compreendermos as variáveis na conceituação e caracterização da surdez para a organização e o planejamento das estratégias e escolhas didático pedagógicas, aumentando assim a possibilidade de atender às necessidades constatadas e potencializar as habilidades do estudante. De acordo com o Decreto nº 5626/2005: Considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras (BRASIL, 2005, p. 1) Assim, o processo de escolarização dos alunos com deficiência auditiva deve prever o desenvolvimento de competências tanto da Língua Portuguesa, no caso do Brasil, como da LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, conforme orienta os documentos oficiais do Ministério da Educação. A esse movimento damos o nome de Bilinguismo, como veremos a seguir. UNIUBE 73 No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (IBGE, 2010), aproximadamente sete milhões e quinhentos mil pessoas apresentam perda na capacidade auditiva e quatrocentos e setenta mil pessoas, aproximadamente, desse universo, são crianças com idade inferior a 15 anos. AMPLIANDO O CONHECIMENTO 3.2 Movimento Pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com surdez – PS Historicamente, os estudos sobre a educação de pessoas com surdez se dividem em três abordagens distintas: a oralista, a comunicação total, e o bilinguismo. A Oralista é uma abordagem que prioriza o uso da voz e da leitura labial para as pessoas com surdez (PS), na vida social e na escola. O oralismo foi considerado oficialmente o único método a ser utilizado na escolarização da pessoa com surdez, mundialmente desde 1880, tanto na escola comum ou especial para as Pessoas com Surdez. A partir do século XX, seu insucesso começa a ser observado, por priorizar a Educação de pessoas com surdez Abordagens Oralista BilinguismoComunicação total 74 UNIUBE utilização da língua da comunidade ouvinte, o método desconsidera a condição de surdez. Sendo assim, o método não atingiu seus objetivos uma vez que suas metodologias e estratégias estavam centradas na normalização da diferença, na não aceitação da utilização da língua de sinais pelas pessoas com surdez e por seus processos educacionais estarem centrados na reabilitação. Surge, então, a abordagem da Comunicação Total, que defendia o uso de qualquer recurso disponível para a comunicação, como a linguagem oral, leitura labial, gestos, amplificação sonora, leitura e escrita, com ênfase nas interações sociaisem que as pessoas com surdez deveriam se comunicar naturalmente, desvalorizando a língua de sinais. Essa abordagem também não alcançou seus objetivos uma vez que as pessoas com surdez continuaram segre- gadas e excluídas da sociedade. No final da década de 1970, surgiu a proposta bilíngue fundamentada no reconhecimento de que a pessoa com surdez vive numa condição bilíngue, isto é, convive no dia a dia com duas línguas, a língua gestual da comunidade surda e a língua oral da comunidade ouvinte de seu país. Essa concepção tem como objetivo capacitar para a utilização de duas línguas, LIBRAS e Língua Portuguesa (no caso do Brasil), com a finalidade de se comunicarem tanto na escola, como em todos os contextos sociais. Estudos realizados têm demonstrado que esta concepção se consolida por respeitar a língua natural e possibilitar a construção de um ambiente comunicacional propício. A comunicação se dá por meio da Língua de Sinais e da Língua Portuguesa na modalidade escrita, em momentos separados, de modo que não haja o bimodalismo, que é a mistura de Libras com a Língua Portuguesa; cada Língua deverá ter o seu tempo de aprendizagem na rotina do aluno. Na abordagem bilíngue, a Libras e a Língua Portuguesa, em suas variantes de uso padrão, quando ensinadas no âmbito escolar, são deslocadas de seus lugares UNIUBE 75 especificamente linguísticos e devem ser tomadas em seus componentes histórico-cultural, textual e pragmático, além de seus aspectos formais, envolvendo a fonologia, morfologia, sintaxe, léxico e semântica”. (DAMÁZIO, 2010, p. 8) O direito à educação bilíngue foi conquistado no Brasil por meio da Lei Federal nº 10.436, de 25/04/2002 e do Decreto Federal nº 5.626, de 23/12/2005, garantindo às pessoas com surdez o direito a uma educação fundamentada e organizada de modo que a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa, na modalidade escrita, constituam línguas de instrução, e que o acesso às duas línguas ocorra no ambiente escolar. Para tanto, no acompanhamento pedagógico e no processo de ensino e aprendizagem, devem ser observados os aspectos semânticos (conteúdo), em seguida a sequência lógica de ideias e, finalmente, seu modo de redigir, elaborar e estruturar os próprios textos e frases que serão semelhantes à estrutura da Libras. A Língua Portuguesa será apresentada e compreendida pelo estudante com surdez como uma segunda língua. As principais dificuldades com a Língua Portuguesa não decorrem da surdez em si, mas da falta de conhecimento da Língua Portuguesa falada. Nessa perspectiva, a Língua Brasileira de Sinais, considerada primeira língua desses estudantes, fornece o arcabouço para a construção do conhecimento da Língua Portuguesa. Assim, o conhecimento de mundo e de língua constituído na língua de sinais dá a base para o aprendizado da Língua Portuguesa pelos estudantes com surdez. A aprendizagem da Língua Portuguesa falada depende das experiências auditivas que são vivenciadas ao longo da infância, no caso das pessoas com surdez o aprendizado da Língua Portuguesa na modalidade oral não ocorrerá como o das demais crianças. Esse público necessita de de uma modalidade linguística que atenda a suas necessidades visuais e espaciais de aprendizagem, o que significa ter acesso à LIBRAS. 76 UNIUBE Esse é um dos motivos de se considerar a aprendizagem da língua de sinais, como primeira língua, seguida do aprendizado do português, na modalidade escrita, como segunda língua. A LIBRAS é um sistema linguístico que possui estrutura lexical (vocabulário), gramatical (regras de funcionamento) e funcional (regras de uso), como nas línguas orais. A flexão de tempo e pessoa dos verbos, a ordem das palavras na frase/oração e a concordância nominal ou verbal, entretanto, não correspondem às regras da língua portuguesa. O professor precisa ter esse conhecimento uma vez que a LIBRAS por sua modalidade visual- espacial de representação apresenta especificidades que a diferenciam do português, mas que, no entanto, possibilitam a expressão de qualquer conceito ou referência. Assim, os aspectos formais (gramaticais, morfologia e sintaxe) da Língua Portuguesa deverão ser cobrados à medida que esses forem sendo estudados, assimilados e compreendidos pelo estudante. Sempre concomitante ao aprendizado da LIBRAS para que o estudante possa ter o suporte necessário, dada a complexidade dos aspectos formais da Língua Portuguesa, o que demandará um nível maior de abstração e conhecimento e, portanto, tempo maior de contato e estudos da língua. Os autores Centeno e Nakamoto (2016) sugerem 03 eixos para o ensino da Língua Portuguesa na modalidade escrita para alunos surdos: ensino da Língua instrumental, uso de recursos imagéticos e das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). Assim: O ensino de LP para estudantes com surdez não deve percorrer os mesmos caminhos do ensino dessa língua para estudantes ouvintes, já que a língua materna dos estudantes com surdez é a LIBRAS. Partiu-se então do princípio de que a LP para esses estudantes deve ter o mesmo objetivo do ensino de uma língua estrangeira [...] atribuir e produzir significados e permitir acesso à informação, sua busca autônoma e seu compartilhamento com demais membros da sociedade. UNIUBE 77 Sugerimos então, um ensino pautado na função comunicativa ou instrumental, priorizando a escrita da LP em diferentes situações da vida cotidiana, por meio de imagens e do uso da tecnologia, respeitando a língua natural dos estudantes surdos, suas características e necessidades. (CENTENO; NAKAMOTO, 2016, p. 44). Nesse sentido, o ensino instrumental da Língua Portuguesa não se centra no estudo da gramática, mas em uma língua viva, funcional, real, produzida nas relações comunicacionais sociais, o que segundo Fonseca (2005) possibilita interação entre o estudante, o texto e o contexto. Nessa modalidade, o significado não está nas produções escritas, e sim no escritor que constrói esses significados. Assim, o ensino da Língua Portuguesa precisa estar contextualizado, com o apoio das TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) e a utilização de recursos imagéticos para auxiliar na compreensão. Assim, é possível, por meio de atividades e imagens adequadamente organizadas e selecionadas, a compreensão, o entendimento, a leitura, a decodificação para se chegar ao processo criativo, que para nós é a produção textual. Propomos atividades de LP na modalidade escrita a partir de recursos imagéticos. Para desenvolver as atividades, os estudantes com surdez precisam, com a ajuda do professor de LP, ler a imagem. Para a leitura de imagens, recorremos à Abordagem Triangular descrita por Barbosa (1991), que consiste em Contextualização, Apreciação e Fazer Artístico. (CENTENO; NAKAMOTO, 2016, p. 51). Abordagem Triangular é uma abordagem dialógica, advinda da teoria de interpretação do universo das Artes e Culturas Visuais. Essa abordagem, apresentada por Barbosa (1991), compreende um sistema metodológico que articula as ações Ler-Contextualizar-Fazer, tornando possível a leitura da imagem, como uma teoria de interpretação da imagem. Essa abordagem apresenta caminhos para o professor na sua prática docente fazer escolhas metodológicas, uma vez que não é um modelo fechado, mas permite mudanças e adequações. 78 UNIUBE Ao propor essa metodologia, Centeno e Nakamoto (2016) sugerem que ela seja organizada pelo professor de Língua Portuguesa e aconteça em momentos distintos, se possível, o que corrobora Damázio (2007), ao apresentar os três momentos didático-pedagógicos para o atendimento às especificidades do estudante com surdez. Esses momentos são disponibilizados e organizados por meio dos serviços da Educação Especial e acontecem no contraturno de escolarização do aluno no AEE (Atendimento Educacional Especializado): em Libras; de Libras e de Língua Portuguesa. Estudaremos sobre cadaum deles no próximo tópico. É preciso compreender que o processo formativo desse estudante requer que as atividades estejam adequadas ao seu conhecimento da Língua Portuguesa, apoiadas em recursos visuais de comunicação que sirvam de apoio à informação transmitida oralmente (desenho, leitura, vídeo, cartaz, etc.), além da flexibilização do tempo para cumprimento das atividades, da disponibilização e do acompanhamento de intérprete de LIBRAS em sala de aula e nas avaliações, como veremos ao longo do capítulo. Diante disso, a avaliação sobre os conhecimentos adquiridos pelo estudante em relação às disciplinas curriculares também precisa ser elaborada e organizada de forma acessível a partir do seu conhecimento da Língua Portuguesa na modalidade escrita. O professor deve considerar Imagem Contextualizar Fazer/praticar Ler/apreciar UNIUBE 79 que a avaliação do conhecimento se dará também em LIBRAS e, para finalização do processo avaliativo, faz-se necessário apoio e articulação com o Conselho de Classe para então valorar quantitativamente o resultado desses momentos avaliativos. Como pode ser observado, o processo formativo e avaliativo do estudante com surdez demanda o estabelecimento de parceria entre os professores da sala comum, professor de LIBRAS ou instrutor de LIBRAS, professor do AEE em Libras e em Língua Portuguesa. Essa parceria deve ser realizada desde a organização e adequação das atividades até a definição de melhor estratégia para auxiliar o estudante na construção de conceitos e/ou utilização de termos específicos do conteúdo curricular, na construção de um dicionário ilustrado e na adequação e flexibilização das atividades. Essa parceria garante a valorização das potencialidades da pessoa com surdez, promove o acesso ao conhecimento de forma personalizada, enfim, considera as especificidades do estudante no uso da língua e na compreensão dela. Etapas da avaliação do estudante com surdez Avaliação na classe comum Avaliação no AEE (em LIBRAS e em Língua Portuguesa Conselho de classe 80 UNIUBE Instrutor de LIBRAS: profissional com formação em nível médio e com certificação de curso de instrutor de LIBRAS por meio de cursos de educação profissional, de formação continuada, promovidos por instituições de ensino superior; e/ou cursos de formação continuada promovidos por instituições credenciadas por secretarias de educação. A formação do instrutor de Libras pode ser realizada também por organizações da sociedade civil representativa da comunidade surda. Professor de LIBRAS: formação em nível superior, em curso de graduação de licenciatura plena em Letras: Libras ou em Letras: Libras/ Língua Portuguesa como segunda língua. AMPLIANDO O CONHECIMENTO 3.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com surdez – Pessoa com Surdez (PS) Como estudamos no tópico anterior, para atender aos objetivos da educação bilíngue, é imprescindível que a organização do trabalho pedagógico contemple os três momentos didático-pedagógicos defendidos por Damázio (2007), garantindo assim o atendimento e mediação no desenvolvimento e na aprendizagem desses estudantes e a eliminação das barreiras no processo de escolarização. Quais sejam: Momento do Atendimento Educacional Especializado em Libras na escola comum, em que todos os conhecimentos dos diferentes conteúdos curriculares, são explicados nessa língua por um professor, sendo o mesmo preferencialmente surdo. Esse trabalho é realizado todos os dias e destina-se aos estudantes com surdez; Momento do Atendimento Educacional Especializado para o ensino de Libras na escola comum, no qual os estudantes com surdez terão aulas de Libras, favorecendo o conhecimento e a aquisição, principalmente de termos científicos. Este trabalhado é realizado pelo professor e/ou instrutor UNIUBE 81 de Libras (preferencialmente surdo), de acordo com o estágio de desenvolvimento da Língua de Sinais em que o estudante se encontra. O atendimento deve ser planejado a partir do diagnóstico do conhecimento que o estudante tem a respeito da Língua de Sinais; Momento do Atendimento Educacional Especializado para o ensino da Língua Portuguesa, no qual são trabalhadas as especificidades dessa língua para pessoas com surdez. Este trabalho é realizado todos os dias para os estudantes com surdez, à parte das aulas da turma comum, por uma professora de Língua Portuguesa, graduada nesta área, preferencialmente. O atendimento deve ser planejado a partir do diagnóstico do conhecimento que o estudante tem a respeito da Língua Portuguesa. (DAMÁZIO, 2007, p. 25). Assim, o AEE em Libras, segundo a autora, precisa ser ofertado todos os dias para que o estudante tenha acesso em LIBRAS a todos os conteúdos curriculares trabalhados, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo do estudante, com seu desenvolvimento na classe comum e possibilitando, por meio da Língua de Sinais, o acesso aos conceitos e conhecimentos curriculares. Para o planejamento desse atendimento, o professor do AEE precisa considerar inicialmente o acolhimento do estudante, a avaliação inicial. Do mesmo, a parceria com professores da classe comum, o estudo dos termos científicos próprios para LIBRAS, a organização dos espaços e dos recursos didáticos necessários. Em se tratando do AEE para o ensino de Língua de Sinais (AEE de LIBRAS), o objetivo é tornar o estudante com surdez um usuário da língua de sinais. O profissional responsável por este atendimento é o instrutor (formação em nível técnico ou médio com certificado em LIBRAS) e/ ou professor de LIBRAS (Figura 1), sendo preferencialmente uma PS (Pessoa com Surdez). Damázio (2010) ressalta que esse atendimento precisa ser organizado a partir de referenciais visuais, anotação em língua portuguesa, datilologia (alfabeto manual), parâmetros primários e secundários, classificadores e sinais e que, para tanto, o instrutor/ professor de LIBRAS precisa ter conhecimento e fluência na língua, para desenvolver os conceitos de forma vivencial. Esse atendimento assegura o direito ao aprendizado da LIBRAS, que é sua língua natural. 82 UNIUBE Figura 1 – Mediação para aprendizagem da LIBRAS. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Em se tratando do AEE para o ensino de Língua Portuguesa, esse atendimento acontece também no AEE, na sala de recursos multifuncionais, e é oferecido por professores que conheçam os pressupostos linguísticos e teóricos da língua portuguesa no nível de escolarização do estudante. A proposta didático-pedagógica para se ensinar português escrito para os estudantes com surdez orienta-se pela concepção bilíngue – Libras e português escrito, como línguas de instrução destes estudantes. A escola constitui o lócus da aprendizagem formal da Língua Portuguesa na modalidade escrita, em seus vários níveis de desenvolvimento. Na educação bilíngue, os estudantes e professores utilizam as duas línguas em diversas situações do cotidiano e das práticas discursivas. (DAMÁZIO, 2010, p. 18). Nesse contexto, o professor do AEE é o responsável pelo ensino de Língua Portuguesa (Figura 2) e precisa considerar o estágio de desenvolvimento e aprendizagem da leitura e da escrita em que o estudante com surdez se encontra para organizar e planejar seu atendimento, de modo a desenvolver a competência linguística e textual nos estudantes, capacitá-los para ler e escrever com compreensão. Isso requer sistematização e sequência do atendimento, pois o aprendizado de uma língua exige um exercício constante. UNIUBE 83 Figura 2 – Atendimento no contraturno – AEE. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Enfatizamos que os três momentos descritos pela autora precisam ocorrer diariamente, em horário contrário ao turno de escolarização do estudante. O professor do AEE definirá com os professores da sala comum e com o instrutor e/ou professor de Libras os conteúdos curricularese as adequações necessárias para que o estudante possa identificar e organizar seu conhecimento. É função do AEE promover: O acesso dos estudantes com surdez ao conhecimento escolar em duas línguas: em Libras e em Língua Portuguesa, a participação ativa nas aulas e o desenvolvimento do seu potencial cognitivo, afetivo, social e linguístico, com os demais colegas da escola comum. A prática pedagógica do AEE parte dos contextos de aprendizagem definidos pelo professor da sala comum, que realizando pesquisas sobre o assunto a ser estudado elabora um plano de trabalho envolvendo os conteúdos curriculares. O professor de AEE entra em contato com esse plano de trabalho para desenvolver as atividades complementares com os estudantes com surdez. (DAMÁZIO, 2010, p. 10). Para tanto, a escola precisa organizar serviços de apoio pedagógico especializado, com a disponibilização de espaço e recursos para a sala de recursos multifuncionais e profissionais para prestarem o atendimento. Os atendimentos no AEE realizados pelo professor de AEE e pelo professor/instrutor de LIBRAS ocorrerão no contraturno de escolarização. 84 UNIUBE Há também que se organizar a disponibilização do profissional intérprete de LIBRAS, para acompanhar o estudante em sala de aula e nos demais ambientes de aprendizagem em seu turno de escolarização, conforme preveem as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial (BRASIL, 2001). Explique o que você compreendeu sobre os três momentos pedagógicos para a pessoa com surdez (PS), propostos pela autora Damázio (2007). AGORA É A SUA VEZ A inclusão escolar do estudante com surdez prevê um trabalho de complementação curricular com o enriquecimento das atividades já desenvolvidas em sala de aula, nas quais esse estudante apresente maiores dificuldades e necessidade de um trabalho mais aprofundado, a ser realizado com apoio do Intérprete de LIBRAS (profissional bilíngue). Esse profissional atua na interpretação/tradução dos conteúdos curriculares e das atividades acadêmicas desenvolvidos na sala de aula e/ou nos demais contextos educacionais, com função de traduzir e interpretar a LIBRAS para a Língua Portuguesa e da Língua Portuguesa para LIBRAS. Ele pode ainda atuar no ensino da LIBRAS para toda a comunidade escolar, momento a ser organizado dentro da sua carga horária de trabalho, pela gestão da escola. A presença desse profissional representa um serviço da Educação Especial, ou seja, esse profissional não é do AEE, mas sim da Educação Especial a serviço da inclusão escolar dos estudantes com surdez, não podendo assumir nesse caso específico a função de professor, mas sim de tradutor da Língua Portuguesa para a Língua de Sinais e vice-versa. UNIUBE 85 Para aprofundar seus conhecimentos acerca dos temas abordados neste capítulo, sugiro que proceda às leituras abaixo. DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Atendimento educacional especializado: pessoa com surdez. Disponível em: http://portal.mec.gov. br/seesp/arquivos/pdf/aee_da.pdf . Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Decreto nº 5626, de 22 de dezembro de 2005. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/2005/decreto-5626-22-dezembro- 2005-539842-publicacaooriginal-39399-pe.html. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Lei nº 10436, de 25 de abril de 2002. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Resolução CNE/CEB nº 2, de 11 de setembro de 2001. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CEB0201.pdf. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos. 2. ed. Brasília: SEESP/MEC, 2006. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/alunossurdos.pdf. Acesso em: jan. 2020. Em uma proposta de trabalho inclusiva, precisamos estabelecer parcerias e aprender cada vez mais sobre nosso estudante e suas especificidades. Precisamos aprofundar conhecimentos, ressignificar saberes e conceitos para atender à diversidade humana. PESQUISANDO NA WEB 86 UNIUBE Considerações finais3.4 Diante do exposto neste capítulo há necessidade da organização do bilinguismo no espaço escolar, para oportunizar aos estudantes com surdez o acesso aos dois sistemas linguísticos convencionais. Propiciando um ambiente comunicacional para todos em um espaço institucional para que a educação linguística se concretize, sem prejuízos para os estudantes. Nesse processo, é necessário que a família, o sistema educacional e a comunidade desenvolvam ações articuladas para assegurar que a LIBRAS seja reconhecida e aprendida como a língua materna e para o acesso à língua portuguesa na modalidade escrita, como segunda língua. Essas ações possibilitarão a ampliação de suas relações sociais e a apropriação de elementos da cultura nacional, comuns a todos os brasileiros. Resumo O processo educacional dos alunos com surdez representa um desafio para a escola, não pela deficiência em si, mas pelas barreiras impostas pelo ambiente e pelas práticas educacionais tradicionalmente inflexíveis. A principal barreira encontrada por este público, as quais a escola precisa eliminar, dizem respeito à comunicação, uma vez que há uma supervalorização da Língua Portuguesa quando, para estes estudantes, a LIBRAS é sua língua natural. Essa supervalorização da Língua Portuguesa em todos os conteúdos curriculares, somada à inflexibilidade dos métodos e técnicas didático- pedagógicas utilizadas no seu processo de formação, reflete na perpetuação de um mito que equivocadamente associa a surdez com déficit cognitivo, erroneamente pressupondo que os estudantes com surdez tenham ainda dificuldades cognitivas e, portanto, de aprendizagem. Reforço que essa associação se trata de um equívoco conceitual. UNIUBE 87 Assim, as maiores barreiras encontradas por esses alunos se devem ao fato de sua língua natural ser a LIBRAS e não a Língua Portuguesa. Nesse sentido, é fundamental que os profissionais da educação conheçam suas características comunicacionais, as adequações e flexibilizações curriculares necessárias para seu bom desempenho escolar e ainda os serviços e recursos da Educação Especial disponibilizados para garantia do seu direito à escolarização com acesso, equidade e aprendizado. Referências BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte: anos oitenta e novos tempos. São Paulo: Perspectiva; Porto Alegre: IOCHPE, 1991. BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. 2005. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Decreto/D5626.htm. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. IBGE. Censo demográfico 2010: características gerais da população, religião e pessoa com deficiência. Brasília: IBGE, 2010. Disponível em: https://biblioteca. ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/94/cd_2010_religiao_deficiencia.pdf . Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Resolução CNE/CEB nº. 02, de 11 de setembro de 2001. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, 2001. BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos. 2. ed. Brasília: SEESP/MEC, 2006. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/ arquivos/pdf/alunossurdos.pdf. Acesso em: jan. 2020. CENTENO, Marianna; NAKAMOTO, Paula Teixeira. Ensino de Língua Portuguesa para alunos com surdez. Proposta de uma metodologia de ensino utilizando a tecnologia. Beau Bassin: Novas Edições Acadêmicas, 2016. 88 UNIUBE DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. A Educação Especial na perspectiva da inclusão escolar: abordagem bilíngue na escolarização de pessoas com surdez. Brasília: MEC/SEESP. Fortaleza: Universidade Federal doCeará, 2010. v. 9. (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar). DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Atendimento educacional especializado. Pessoa com Surdez. Brasília: MEC, 2007. FONSECA, Paulo. Inglês instrumental: desmistificando alguns recursos de leitura. Hórus – Revista de Humanidades e Ciências Sociais Aplicadas, v. 2 n. 3. Ourinhos: 2005. Introdução Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiências Sensoriais: Deficiência Visual e Surdocegueira Capítulo 4 As deficiências sensoriais estão relacionadas à surdez (pessoa com surdez), à deficiência visual (cegueira ou baixa visão) ou à surdocegueira (pessoa com surdez e alguma deficiência visual: baixa visão ou cegueira). Especificamente neste capítulo, estudaremos a deficiência visual (cegueira e baixa visão) e a surdocegueira. Abordaremos desde suas conceituação e caracterização, os serviços e recursos a serem ofertados pela Educação Especial para esse público no contexto da escola regular, aspectos relacionados à estimulação precoce, base fundamental para o desenvolvimento e ampliação da funcionalidade dos sentidos remanescentes. Também, aprofundaremos um pouco mais sobre as possibilidades e a importância da orientação e mobilidade desse público e, ainda, estudaremos sobre o movimento pedagógico necessário para a inclusão escolar destes estudantes. Ao final desses estudos, esperamos que você seja capaz de: • identificar e caracterizar a Deficiência Visual – DV e a Surdocegueira; Objetivos 90 UNIUBE • organizar e participar do movimento pedagógico necessário à inclusão escolar destes estudantes; • fazer uso dos serviços e recursos disponibilizados pela Educação Especial para esse público. 4.1 Saberes essenciais sobre a Deficiência Visual (cegueira e baixa visão) – DV 4.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Visual: cegueira e baixa visão 4.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Visual: cegueira e baixa visão 4.4 Saberes essenciais sobre a Surdocegueira 4.5 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Surdocegueira 4.6 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Surdocegueira 4.7 Considerações Finais Esquema 4.1 Saberes essenciais sobre a Deficiência Visual (cegueira e baixa visão) – DV De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (BRASIL, 2010), 23,9% da população brasileira apresenta alguma deficiência, desse total, 18,8% apresenta a deficiência visual. Desse percentual, 5,3% das pessoas com deficiência visual têm menos de 15 anos de idade, ou seja, estão em idade de escolarização. UNIUBE 91 Não dá para ignorar que a presença desse público no ambiente escolar os coloca em situação de desvantagem uma vez que a estruturação do processo de ensino e aprendizagem se dá predominantemente por meio de recursos e informações visuais. Inicialmente, precisamos conhecer o que vem a ser a deficiência visual, por meio de sua conceituação e de sua caracterização, para reconhecermos as especificidades desse público. Assim, poderemos avançar no sentido de perceber as demandas do contexto escolar, sua configuração e quais as reais necessidades de reorganização de seus procedimentos e técnicas, adequações e flexibilizações para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Visual, assegurando seu desenvolvimento, sua participação e seu aprendizado. A DV em um sentido amplo é definida como a perda total ou parcial, congênita ou adquirida, da visão e inclui dois grupos de condições distintas: cegueira e baixa visão, conforme aprofundaremos a seguir. Gráfico 1 – Demonstrativo das pessoas com deficiência e deficiência visual no Brasil Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2010). Demonstrativo das pessoas com deficiências e com deficiência visual no Brasil (2010) Apresenta deficiência 23%25% 20% 15% 10% 5% 0% 13% 5,30% Apresenta deficiência visual Apresenta deficiência visual e tem menos de 15 anos de idade 92 UNIUBE • Cegueira De acordo com Sa, Campos e Silva (2007, p. 15): A cegueira é uma alteração grave ou total de uma ou mais das funções elementares da visão que afeta de modo irremediável a capacidade de perceber cor, tamanho, distância, forma, posição ou movimento em um campo mais ou menos abrangente. Pode ocorrer desde o nascimento (cegueira congênita), ou posteriormente (cegueira adventícia, usualmente conhecida como adquirida) em decorrência de causas orgânicas ou acidentais. Em alguns casos, a cegueira pode associar-se à perda da audição (surdocegueira) ou a outras deficiências. Dessa forma, temos que a cegueira congênita pode ser causada por retinopatia da prematuridade, a catarata, o glaucoma congênito e a atrofia do nervo óptico e outras enfermidades ou lesões que comprometem as funções do globo ocular, como corioretinite, por toxoplasmose na gestação; degenerações retinianas (Síndrome de Leber, doenças hereditárias ou diabetes); deficiência visual cortical (encefalopatias, alterações do sistema nervoso central ou convulsões). Já a cegueira adquirida ou adventícia pode ser causada por doenças como diabetes, descolamento de retina, glaucoma, catarata, degeneração senil e traumas oculares. Importante considerar que, na cegueira congênita, a perda da visão já se apresenta na ocasião do nascimento ou nos primeiros anos de vida. Nesses casos, a pessoa não conserva imagens visuais e assim experimenta, percebe e interpreta o mundo, muitas vezes, de maneira diferente das pessoas que enxergam. Elas constroem imagens e representações mentais na interação com o mundo por intermédio dos sentidos remanescentes – audição, tato, paladar e olfato. Assim, apesar de terem seu potencial cognitivo preservado, bem como todas as funções mentais superiores – memória, atenção, imaginação, pensamento, linguagem, etc., devido ao quadro de cegueira congênita, não conservam imagens visuais armazenadas em sua memória para acessarem conforme os videntes (pessoas que enxergam). UNIUBE 93 Assim, a pessoa com Deficiência Visual precisa de estimulação das outras percepções sensoriais, como a audição para localização dos sons, escutar seletivamente. Precisa receber contínua estimulação dos sentidos remanescentes e da visão residual. Você sabe o que são sentidos remanescentes? Remanescente, de acordo com o dicionário, significa: aquilo que remanesce, sobeja, que sobra ou restante. No caso da cegueira, os sentidos remanescentes dizem respeito às percepções não visuais, como o tato (sistema háptico), a audição, a memória muscular, a cinestesia, o sentido vestibular. (MAZZARO, 2003). Você sabe o que é sentido vestibular? Sentido vestibular é o sentido que nos permite perceber informações sobre a posição do corpo e dos movimentos sobre o eixo de uma volta em graus, tendo o corpo como referência. Envolve a capacidade de perceber a posição do corpo no espaço e apresenta funções importantes para o equilíbrio. Além dos sentidos remanescentes, utiliza-se visão residual, pontos de referência, pistas no decorrer do trajeto, bengala longa, cão-guia, mapa braille, etc. SAIBA MAIS Já a cegueira é adquirida ou adventícia é aquela que foi adquirida pela pessoa mais tarde, permitindo o armazenamento das experiências vividas é adquiridas na memória, como imagens, luz, cores, formas, aspectos importantes e úteis no processo de desenvolvimento e aprendizagem nos contextos escolares. 94 UNIUBE Assim, é fundamental, antes de qualquer iniciativa de acolhimento, adequação e inclusão, conhecer em qual fase da vida o aluno se tornou deficiente visual, a fim de reconhecer os aspectos diferenciais a serem utilizados nas estratégias didático-pedagógicas, por exemplo, a existência ou não de imagens visuais acumuladas pela pessoa. Pois esse conhecimento auxiliaa definir as técnicas e estratégias de ensino a serem usadas para sua efetiva aprendizagem. Em 1428, no Brasil, D. Pedro II fundou o primeiro educandário para alunos cegos na América Latina, que constitui o marco inicial da Educação Especial no Brasil. Em meados do século XIX, em 1.854, foi criado no Rio de Janeiro o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant (IBC), que atendia e ainda atende crianças, adolescentes e adultos da educação básica e também um centro de reabilitação e capacitação profissional. AMPLIANDO O CONHECIMENTO Cegueira congênita Cegueira adquirida ou adventícia • A perda da visão se apresenta na ocasião do nascimento ou nos primeiros anos de vida. A pessoa não conserva na memória as imagens visuais, e, assim, experimenta, percebe e interpreta o mundo, muitas vezes, de maneira diferente das pessoas que enxergam. • É a cegueira que foi adquirida depois no nascimento. Quanto mais tarde , mais profundas e vívidas as experiênicas e imagens armazenadas na memória, como imagens, luz, cores, formas, aspectos importantes e úteis no processo de desenvolvimento e aprendizagem, nos contextos escolares. • Baixa Visão A Baixa Visão, segundo o Decreto Federal Nº. 5.296, de 02 de dezembro de 2004 corresponde à acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no olho de melhor visão e com a melhor correção óptica. Considera-se também UNIUBE 95 baixa visão quando a medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60° graus. E ainda, de acordo com o MEC (2010) essa condição caracteriza-se pelo comprometimento do funcionamento visual em ambos os olhos que não pode ser sanado com o uso de óculos convencionais, lentes de contato ou cirurgias oftalmológicas (p. 11). De acordo com o Domingues (2010): A baixa visão caracteriza-se pelo comprometimento do funcionamento visual em ambos os olhos que não pode ser sanado com o uso de óculos convencionais, lentes de contato ou cirurgias oftalmológicas. [...] Acarreta diminuição da acuidade visual, dificuldade para enxergar de perto e/ou de longe, campo visual reduzido, alterações na identificação de contraste, na percepção das cores, entre outras alterações visuais. [...] Corresponde à acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no olho de melhor visão e com a melhor correção óptica. Considera-se também baixa visão quando a medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60 graus ou ainda quando ocorrer simultaneamente quaisquer condições anteriores. (p.8) A baixa visão é, portanto, compreendida como alteração da capacidade funcional da visão, decorrente de fatores isolados ou associados tais como: baixa acuidade visual significativa, redução importante do campo visual, sendo também comum o nistagmo, movimento rápido e involuntário dos olhos, que causa uma redução da acuidade visual, a fadiga, durante a leitura. Conforme Sa, Campos e Silva: A definição de baixa visão (ambliopia, visão subnormal ou visão residual) é complexa devido à variedade e à intensidade de comprometimentos das funções visuais. Essas funções englobam desde a simples percepção de luz até a redução da acuidade e do campo visual que interferem ou limitam a execução de tarefas e o desempenho geral. Em muitos casos, observa-se o nistagmo, movimento rápido e involuntário dos olhos, que causa uma redução da acuidade visual e fadiga durante a leitura. É o que se verifica, por exemplo, no albinismo, falta de pigmentação congênita que afeta os olhos e limita a capacidade visual. (2007, p.16). 96 UNIUBE Mas como percebemos que nosso aluno pode estar com problemas visuais que merecem investigação clínica, a ser realizada por profissional da área médica? Você precisa proceder à orientação às famílias e encaminhamentos necessários a partir de alguns comportamentos do aluno como: • esfregar excessivamente os olhos, • franzir a testa, • fechar e cobrir um dos olhos, • balançar a cabeça ou movê-la para frente ao olhar para um objeto próximo ou distante, • levantar para ler o que está escrito no quadro (em cartazes ou mapas), • apresentar dificuldade na leitura ou em outro trabalho que exija o uso concentrado dos olhos, • piscar mais que o habitual, • tropeçar ou cambalear diante de pequenos objetos, • aproximar livros ou objetos para bem perto dos olhos, • apresentar desconforto ou intolerância à claridade. (SA; CAMPOS; SILVA, 2007). Uma pessoa com baixa visão pode apresentar importante oscilação de sua condição visual dependendo do seu estado emocional, das circunstâncias, da posição em que se encontra e das condições de iluminação natural ou artificial. PARADA PARA REFLEXÃO Como tanto a cegueira como a baixa visão podem ocorrer na infância, na adolescência, na fase adulta ou senil, sua identificação precoce auxilia no desenvolvimento global da pessoa, uma vez que quanto antes receber a estimulação necessária maior o desenvolvimento de suas potencialidades e dos sentidos remanescentes. Alguns sinais físicos característicos e condutas frequentes dos estudantes com baixa visão podem interferir diretamente no seu processo de desenvolvimento e aprendizagem no contexto escolar. UNIUBE 97 Diante disso, os profissionais da educação precisam estar atentos aos sinais, posturas e sintomas que sugiram deficiência visual para proceder ao encaminhamento clínico necessário, pois quanto mais cedo for feito o diagnóstico maior as chances de desenvolvimento no ambiente escolar. 4.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Visual: cegueira e baixa visão Uma das principais barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência visual é o desconhecimento de suas especificidades e reais implicações do seu quadro. Este desconhecimento é potencializado pelas baixas expectativas sociais em relação às suas capacidades e habilidades, muitas vezes por relacionar a DV à Deficiência Intelectual as pessoas acabam desvalorizando o potencial cognitivo da pessoa com deficiência visual. A potencialidade intelectual do indivíduo não é alterada pela deficiência visual. Importante considerar que seu potencial “funcional” pode estar reduzido devido à restrição de experiências, uma vez que a ausência de estimulação ou “restrição de experiências” impacta negativamente o desenvolvimento da criança privada de visão. Isso ocorre, principalmente, nos aspectos relacionados às habilidades que envolvem a utilização e funcionalidade dos canais sensoriais, como aquisição de conceitos, noções de orientação, de mobilidade e do controle do ambiente. Em contrapartida, experiências e estimulações adequadas às suas necessidades são capazes de minimizar os prejuízos decorrentes do quadro visual. Para o estudante se movimentar no espaço da sala de aula ou demais espaços educacionais, ele precisa ser orientado em relação ao seu destino, construindo um mapa mental do espaço, do percurso, podendo usar plantas EXEMPLIFICANDO! 98 UNIUBE táteis como forma de representação do espaço. O professor pode utilizar plantas táteis durante a orientação de seu aluno para a mobilidade. A planta tátil pode ser confeccionada no papelão, marcado por barbante, linhas, lãs, utilizando sucatas, materiais de diferentes texturas, cola e outros materiais que deem relevo. É fundamental marcar os pontos de referência (onde eu estou). Quando o aluno é mais jovem ou no caso daquele ambiente ser novo para ele, é importante que, além de utilizar tais materiais, o professor deve fazer com que ela vivencie o caminho para sua exploração e pedir que reconstrua o espaço. Dessa forma, poderá transferir as relações espaciais simples da sala de aula para uma maquete. É essencial oportunizar ao estudante vivenciar e explorar o espaço para compreendê-lo: caso a sala de aula seja quadrada, a base da maquete deve ter a mesma forma. Na sala de aula, o ponto mais importante é a porta, depois a mesa do professor, a carteira do aluno deficiente visual, asdemais carteiras e as janelas (MACHADO, 2003) Observe a Figura 1 e 2 a seguir. Figura 1 – Mapa marcado tatilmente e em braille. Figura 2 – Estudante utilizando o tato para reconhecimento de objetos. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Segundo a SEESP – Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. UNIUBE 99 A percepção do mundo, pela criança visualmente prejudicada, é obtida através dos seus sentidos remanescentes e as pistas por eles fornecidas podem levar a informações incompletas, originando, muitas vezes, conceitos diferentes daqueles obtidos e utilizados pelos que possuem uma visão normal. (MEC/ SEESP, 2006, p. 35). Em uma sociedade que privilegia a visão, as pessoas privadas desse sentido estarão em desvantagem em relação àqueles que enxergam. Embora mesmo com DV, essas pessoas têm interesses comuns aos interesses das pessoas visuais, têm, ainda, a capacidade para fazer quase tudo que os videntes (quem enxerga) fazem usando recursos mentais comuns a todos os sujeitos. Assim, conforme assinala Sa, Campos e Silva (2010, p. 16): Cada pessoa desenvolve processos particulares de codificação que formam imagens mentais. A habilidade para compreender, interpretar e assimilar a informação será ampliada de acordo com a pluralidade das experiências, a variedade e qualidade do material, a clareza, a simplicidade e a forma como o comportamento exploratório é estimulado e desenvolvido. Diante disso é incontestável que a estimulação para o estudante com DV configura importante estratégia que o auxiliarão a criar ou ampliar formas de comportamento exploratório, a ampliar seus sentidos remanescentes, a identificar referencial perceptivo não visual etc. Assim, no ambiente escolar é importante considerar que os estudantes com DV precisam ter acesso aos mesmos conteúdos que os demais, por meio de metodologias e recursos adequados às suas necessidades para aquisição dos conhecimentos. Nesse sentido, é fundamental que o professor perceba o estudante como um sujeito da aprendizagem, capaz de pensar, construir, discordar, que conheça sobre a deficiência apresentada por esse aluno, quando foi adquirida e se há resíduo visual. Essas informações são essenciais para organização, estruturação e planejamento pedagógico. 100 UNIUBE É necessário realizar adequações nas atividades e nas propostas pedagógicas. Como utilização de audiodescrição das imagens utilizadas e dos contextos vivenciados. A Audiodescrição pode ser realizada por um colega que se sente próximo ao estudante. Há ainda necessidade de utilizar recursos auditivos e materiais concretos que permitam ao estudante perceber e assimilar os conceitos estudados. O primordial é que o professor na elaboração e planejamento das aulas considere as especificidades desses estudantes e promovam sua participação, reconhecendo seu potencial cognitivo e garantindo seu direito à aprendizagem e ao acesso aso espaços e ao conhecimento. EXEMPLIFICANDO! Do ponto de vista educacional a cegueira por ser conceituada como: “desde ausência total de visão até a perda da projeção de luz” ((BRUNO; MOTA, 2001, p. 34-35) e seu processo de aprendizagem acontece por meio dos sentidos remanescentes (tato, audição, olfato, paladar) utilizando o Sistema Braille como principal meio de comunicação de leitura e escrita. Importante considerar que a criança com cegueira não apresenta o mesmo desenvolvimento das possibilidades de comunicação e interação de uma criança que enxerga, uma vez que, devido à falta de visão, ela restringe o movimento do corpo no espaço e diminui a possibilidade de controle do ambiente. Fato que causa maior dificuldade para estabelecer relações entre sons, vozes, ruídos, formas e outros estímulos de modo espontâneo e natural já que seu movimento de busca e exploração e autonomia e independência para brincar, correr, pular, participar de jogos, brincadeiras e demais atividades lúdicas ficam comprometidos. UNIUBE 101 Nesse sentido, faz-se necessário provocar o seu interesse, sua curiosidade e orientar suas atividades para que possa conhecer e perceber fontes sonoras, mover e localizar o corpo no espaço, reconhecer as vozes, aprender o uso e a função dos objetos, usar o tato para identificar forma, tamanho, textura, peso, consistência, temperatura, entre outras propriedades que precisam ser organizadas e planejadas por meio da estimulação precoce, que estudaremos mais adiante. IMPORTANTE! Assim, para a inclusão escolar do estudante com cegueira, é fundamental a utilização dos recursos tecnológicos (TICs) e do Braille nas adequações e proposições das atividades por se tratar de recursos fundamentais para que este aluno tenha acesso ao conhecimento (Figura 3). Você sabe o que é Braille? Sistema Braille As pessoas cegas utilizam o Sistema Braille na comunicação escrita. Esse sistema é reconhecido universalmente e foi criado por Louis Braille, na França, em 1825. O sistema é composto por 6 (seis) pontos em relevo distribuídos em duas colunas de três pontos, formando um retângulo de seis milímetros de altura por dois milímetros de largura. Esses pontos são chamados de “cela Braille”. Conforme combinados os pontos entre si, formar-se-ão as letras e números, sendo possível formar 63 combinações ou símbolos Braille. SAIBA MAIS 102 UNIUBE Figura 3 – Estimulação dos sentidos remanescentes com a mediação da professora. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Em relação às atividades, às tarefas e aos recursos didáticos e pedagógicos, alguns procedimentos precisam ser previamente adotados como: • disponibilizar os textos e atividades de forma digital ou em Braille, áudio, e-mails etc. Existem aplicativos para uso acessível de celulares e computadores. A grande maioria dos aparelhos já contam com a função acessibilidade (ledores de tela, ampliadores de tela, audiodescrição, etc), • as imagens devem ser descritas; • os conteúdos da aula devem ser gravados previamente e com autorização do professor. É importante que todo o conteúdo a ser trabalhado na turma seja devidamente adequado pelo professor, com auxílio do professor do AEE e do coordenador pedagógico com antecedência para que o estudante tenha o acesso em tempo hábil. É importante também criar um acervo na própria escola. Outra ação promotora e facilitadora do acesso dos estudantes com DV – cegueira, no ambiente escolar, é proceder com à apresentação das dependências do ambiente escolar. O estudante precisa perceber UNIUBE 103 os espaços e movimentar-se por eles com frequência e por tempo suficiente para construir uma projeção/imagem mental desses espaços. Isso é importante para se familiarizar com os espaços escolares e posteriormente conseguir se locomover com autonomia. Para tanto, é necessário considerar recursos como: • piso tátil obrigatório (Figura 4); • piso de alerta e identificação de escadas; • degraus, rampas com cores contrastantes; • inscrições em Braille e em relevo, ampliadas (em contraste) para descrever os ambientes; • salas de aula organizadas sem obstáculos e com iluminação de acordo com a necessidade do estudante (evitar muita iluminação para alunos fotofóbicos); • organizar previamente material em Braille e em áudio conforme a necessidade do estudante. Figura 4 – Piso tátil. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Nos casos de DV – baixa visão, é fundamental considerar o potencial visual útil para a execução de tarefas, mobilidade, autonomia e acesso. Para tanto, é preciso que a escola proceda inicialmente à avaliação funcional da visão nos variados ambientes escolares pelos quais o aluno irá interagir a fim de observar aspectos relacionados: 104 UNIUBE Essa avaliação revela o desenvolvimento visual da pessoa e a capacidade de uso funcional da visão residual para atividades educacionais, de vida diária, de orientação e mobilidade;auxilia, ainda, a escola a perceber quais são as necessidades de adaptação à luz e aos contrastes, de adequação e/ou adaptação de recursos óticos e não óticos. A avaliação funcional da visão revela dados quantitativos e qualitativos de observação sobre o nível da consciência visual, a recepção, assimilação, integração e elaboração dos estímulos visuais, bem como sobre o desempenho e o uso funcional do potencial da visão (SA; CAMPOS; SILVA, 2007, p. 17). As orientações Domingues et.al., sobre a avaliação funcional qualitativa da visão, reforçam ainda que esta: refere-se ao seu uso funcional no dia a dia e pode ser realizada por diferentes profissionais. Ela é obtida através da observação do comportamento visual com objetos do cotidiano conhecidos e usados na prática de atividades. Deve ser realizada após o conhecimento da história de vida do aluno, sua família e as expectativas dessa em relação às condições visuais do aluno. Nesse sentido, professores e familiares colaboram decisivamente para a avaliação funcional do uso da visão. (2010, p.10). No ambiente escolar é preciso ainda considerar algumas atitudes e comportamentos do estudante com baixa visão em relação à oscilação entre o ver e o não ver. Ou seja, este público pode apresentar dificuldades de percepção visual relacionadas à: à acuidade visual ao campo visual ao potencial de visão • distância de um ponto ao outro em uma linha reta por onde um objeto é visto. • amplitude e abrangência do ângulo da visão em que os objetos são focalizados. • qualidade e aproveitamento visual de acordo com as condições de estimulação e de ativação das funções visuais. UNIUBE 105 • objetos situados em ambientes mal iluminados, • ambiente muito claro ou ensolarado, • falta de contraste, • objetos e seres em movimento, • visão de profundidade, • percepção de formas complexas. Sendo assim, o planejamento precisa considerar em seus procedimentos e práticas que a ampliação das atividades, a representação de objetos, os tipos de impressos ou figuras precisam ser condizentes com o potencial da visão. É importante considerar que o estudante com baixa visão pode ainda apresentar conflitos emocionais, psicológicos e/ou sociais que influenciam o desempenho visual e a conduta dele mesmo e reflete em prejuízos na aprendizagem. O professor precisa, portanto, conhecer o desenvolvimento do aluno, seu diagnóstico, a avaliação funcional da visão, o contexto familiar e social, bem como quais as alternativas e os recursos disponíveis e necessários para que o aluno tenha acesso ao conteúdo e às atividades propostas. Nesse sentido, o professor tem importante função de estimular o máximo possível o resíduo visual desse público visto que seu desempenho visual pode ser desenvolvido e ampliado de forma gradativa e constante. Como vimos, o uso da visão residual está relacionado não somente aos fatores orgânicos, mas também aos aspectos objetivos, subjetivos e condições ambientais (iluminação, contraste, ampliação, acessibilidade, uso de recursos óticos e não óticos, materiais didáticos etc.). Assim, a inclusão escolar dos estudantes com deficiência visual, seja cegueira ou baixa visão, exige adequações didático-pedagógicas no conteúdo e no método de ensino, a flexibilização curricular, a disponibilização 106 UNIUBE e/ou adequação de recursos, enfim, tudo para possibilitar o acesso desse público ao currículo, ao ambiente e aos materiais de estudos, garantindo melhores condições de comunicação, interação, mobilidade, autonomia e participação. Da mesma forma, o processo avaliativo necessita estar adequado às especificidades deste público, acontecer de forma processual e contemplar as adequações e flexibilizações de que esse estudante necessite: • o uso de desenhos, gráficos, diagramas ou gravuras em relevo, • a avaliação oral e/ou transcrição de provas e exercícios de textos para o Sistema Braille, • a audiodescrição das atividades, do ambiente, das imagens etc.; dependendo do caso e das especificidades do estudante. Você sabe o que é audiodescrição? A audiodescrição é um recurso que traduz imagens em palavras, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão tenham acesso a conteúdos audiovisuais ou imagens estáticas, fi lmes, fotografi as, peças de teatro, entre outros. É normalmente utilizado em serviços e situações culturais, educacionais e de entretenimento, por meio da disponibilidade das descrições de diversas maneiras seja mixada ao áudio original em filmes, distribuída em fones receptores, acessada por meio de softwares leitores de tela em livros digitais, podendo ainda ser disponibilizados audioguias. O audioguia consiste em um narrador que fala durante a apresentação, descrevendo o que está acontecendo, a imagem que está sendo vista em detalhes, o texto que está lendo. Nesse caso, é fundamental que a descrição atente nos detalhes, usando as pausas naturais no diálogo ou entre elementos sonoros cruciais para inserir a narrativa e/ou traduzir a imagem visual de uma forma que a torná-la acessível. Pode-se utilizar ainda de uma variedade de palavras, sinônimos, metáforas e comparações etc. SAIBA MAIS UNIUBE 107 4.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Visual: cegueira e baixa visão A organização e a disponibilização de serviços e recursos da Educação Especial para os estudantes que apresentam DV consideram cada caso e suas especificidades. Assim, um dos serviços é o Atendimento Educacional Especializado – AEE, que, em relação ao estudante com cegueira, deve priorizar a estimulação de seus sentidos remanescentes e o uso do Braille como sistema de escrita. O ensino do Sistema Braille é função do professor do AEE e acontece no contraturno, na Sala de Recursos Multifuncionais – SRMs. Esse sistema consiste no código de leitura e escrita das pessoas cegas, conforme define Dos Santos e De Oliveira (2018): A Grafia Braille para a Língua Portuguesa consiste no conjunto do material signográfico e das /recomendações orientadoras da sua utilização na escrita. O conhecimento completo do respectivo código e a sua correta utilização devem constituir um objetivo permanente para todos, porque a boa qualidade gráfica dos textos exerce nos leitores uma saudável influência educativa, facilitando a assimilação de padrões propiciadores da melhoria do nível de desempenho, quer na leitura, quer na escrita (p.15). A escrita pode ser feita por meio de reglete (Figura 5) e punção ou pela máquina de escrever em Braille (Figura 6), um mecanismo em que a escrita se torna mais rápida, prática e eficiente, maximizando o tempo do estudante. O reglete é um instrumento usado para escrita manual do Braille. A palavra reglete tem origem na palavra francesa règle, que significa régua. A reglete é composta basicamente por uma régua-guia, entre cujas partes é colocada uma folha de papel. Acompanha uma punção, que corresponde a uma caneta, com o qual o papel é pressionado. A parte superior da reglete contém uma série de janelas (cada janela corresponde a um código em Braille). A quantidade de janelas e de linhas varia conforme o modelo da reglete. 108 UNIUBE Figura 5 – Reglete. Figura 6 – Máquina de escrever em Braille. Fonte: Getty Images. Acrevo Uniube. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Na inclusão escolar do estudante com cegueira, é importante a disponibilização de materiais didático- pedagógico em Braille, para tanto é necessário que a SRM conte com impressora Braille (pequeno porte), máquina de datilografia Braille, reglete de mesa, punção, soroban, guia de assinatura, kit de desenho geométrico, calculadora sonora, entre outros. Também são importantes os recursos tecnológicos, conforme orienta o MEC: Programas leitores de tela com síntese de voz, concebidos para usuários cegos, que possibilitam a navegação na internet, o uso do correio eletrônico, o processamentode textos, de planilhas e uma infinidade de aplicativos operados por meio de comandos de teclado que dispensam o uso do mouse. (SA; CAMPOS; SILVA, 2007, p. 33). Como exemplo desses recursos, temos: DOSVOX (um conjunto de ferramentas e aplicativos próprios além de agenda, chat e jogos interativos), VIRTUAL VISION (software brasileiro concebido para operar com utilitários e ferramentas do ambiente Windows), entre outros. O Atendimento Educacional Especializado – AEE para o estudante com cegueira além de atuar de modo a possibilitar o desenvolvimento e a ampliação de interação com o mundo possibilita a realização do processo Soroban ou Ábaco É um recurso pedagógico a ser disponibilizado pela escola, é adaptado para o aprendizado da Matemática, a partir da alfabetização. UNIUBE 109 de alfabetização e letramento linguístico (Braille) e da alfabetização matemática com auxílio do Soroban (Figura 7). Este é adotado nacionalmente pelos sistemas educacionais como parte integrante dos Currículos do Ensino Fundamental dos estudantes com cegueira. Figura 7 – Criança manuseando o Soroban. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. O professor do AEE ainda tem a função de garantir atendimento complementar nas áreas de Orientação e Mobilidade (OM) e Atividades para Vida Autônoma (AVA). Para os estudantes com DV, a Orientação e Mobilidade (OM) traz segurança e funciona como estímulo aos outros sentidos, potencializando a habilidade de exploração do ambiente que o cerca, favorecendo a independência, a autoconfiança, o domínio pessoal e a socialização, por meio da aprendizagem de técnicas e estratégias, as quais possibilitam a locomoção autônoma. E as Atividades para Vida Autônoma (AVA) envolvem desde seu autocuidado, tarefas nos contextos domésticos, sociais e escolares, primando por sua segurança e autonomia. Os conceitos de Orientação e Mobilidade (OM) e Atividades para Vida Autônoma (AVA) estão descritos de forma mais aprofundada no tópico 1.3.1, que trata do Atendimento Educacional Especializado no capítulo 1. Retome a leitura para ampliar seu conhecimento e relembrar esses conceitos. RELEMBRANDO 110 UNIUBE No que se refere à inclusão escolar dos estudantes com baixa visão, o AEE precisa auxiliar na organização e adequação dos materiais didáticos em caracteres ampliados, adequação e disponibilização de recursos específicos como recursos ópticos (lupas manuais e eletrônicas) e não ópticos, cadernos de pauta ampliada, iluminação, lápis e canetas adequadas, etc.), bem como na orientação no acompanhamento de seu uso. É função do AEE proceder à avaliação funcional da visão do estudante para identificar as estratégias, as adequações e/ou os recursos necessários como aqueles de Tecnologia Assistiva (TA): • computadores, • notebook, • gravadores, • lanterna, • tamanho da letra ampliada, • lápis 6B ou caneta hidrocor preta, entre outros. E desenvolver junto ao estudante técnicas e vivências de Orientação e Mobilidade (OM) e Atividades para Vida Autônoma (AVA); orientar a escola em relação à adequação ambiental e luminosidade da sala e outros espaços escolares frequentados pelo estudante e orientar os familiares. A indicação do uso de recursos ópticos, é realizada por profissional da área médica, por auxiliarem no uso da visão residual para longe e para perto. Sendo os indicados para perto: óculos com lentes especiais, lupas manuais (Figura 8) ou de apoio, lupas eletrônicas, que possibilitam o aumento do material de leitura. Já os recursos ópticos indicados para longe se referem a telescópios, binóculos ou monóculos utilizados para ver o que está escrito na lousa, identificar uma placa na porta ou na parede etc. Lápis 6B Lápis de grafite mais grosso, sextavado, permitindo um traçado mais espesso. UNIUBE 111 Figura 8 – Leitura com auxílio de lupas manuais. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Quanto aos recursos não ópticos, estes são adequações e/ou modificações nos materiais e em melhorias nas condições do ambiente como: • ampliações, • ajustes de luminosidade e contraste, • utilização de material escolar específico, • distância e posicionamento do estudante adequado à sua condição visual. Enfim, um profissional clínico é um parceiro importante para auxiliar a escola a identificar, escolher e/ou privilegiar estratégias e recursos mais adequados. De acordo com a conceituação de Domingues et al.: Os auxílios não ópticos referem-se às mudanças relacionadas ao ambiente, ao mobiliário, à iluminação e aos recursos para leitura e para escrita como contrastes e ampliações com a finalidade de melhorar o funcionamento visual, e ainda auxílios de ampliação eletrônica de informática (2010, p. 12). Nesse sentido, destaca-se ainda a iluminação do ambiente, contrastes nas cores, ampliação de materiais (textos, livros, jogos), móveis ou recursos para posicionamento do material como plano inclinado, guia de leitura ou tiposcópio, lápis 5B ou 6B, canetas com ponta porosa 112 UNIUBE azul ou preta, pauta ampliada, recursos de tecnologia de informação e comunicação (TICS). Dependendo do caso pode ainda ser necessário além de contar com o auxílio material, pode-se ainda, a depender da necessidade do estudante, contar o apoio humano que acontece por intermédio do profissional ledor que faz a audiodescrição. Você conhece esses recursos? Tiposcópio: um guia para leitura, confeccionado em cartão ou material plástico preto, com uma fenda com altura para duas linhas do texto a ser lido e com largura do texto, podendo ser modificado de acordo com a necessidade. Tem a função de diminuir a luz refletida sobre o papel branco, aumentar o contraste da linha a ser lida com o fundo e facilitar a localização e seguimento. Lápis 5B: lápis de grafite mais grosso, sextavado, permitindo um traçado mais espesso. Para saber mais sobre esses recursos e conhecer outros, acesse: http://www.acessibilidadenapratica.com.br/textos/auxilios-nao-opticos-para- baixa-visao/#:~:text=Tiposc%C3%B3pio%3A%20%C3%89%20um%20 guia%20para,de%20acordo%20com%20a%20necessidade. Vale a pena conferir! SAIBA MAIS A audiodescrição é um recurso de tecnologia assistiva que permite a inclusão de pessoas com deficiência visual junto ao público de produtos audiovisuais. Conforme explicado anteriormente, esse recurso consiste na tradução de imagens em palavras, em um conteúdo audiovisual formado pelo som e pela imagem, em que esses se completam (FRANCO, 2007) UNIUBE 113 O profissional ledor auxilia as pessoas com DV, lendo e/ou fazendo descrição de imagens, proporcionando acessibilidade ao conhecimento, podendo ainda atuar como escriba, transcrevendo o que é ditado pela pessoa com deficiência visual. Diante de tudo que estudamos até aqui, é importante considerar que no processo de inclusão escolar do estudante com deficiência visual (cegueira ou baixa visão) o professor de AEE precisa acompanhar, organizar e auxiliar na adequação dos recursos de acessibilidade necessários para diminuir as barreiras encontradas por estes estudantes e promover o acesso ao currículo e aos espaços escolares. Sendo necessário, portanto, acompanhar o desenvolvimento do estudante e a funcionalidade dos recursos disponibilizados, por meio da mediação e o assessoramento na classe regular junto com os professores, gestores e toda a comunidade escolar. O professor do AEE precisa ainda acompanhar e auxiliar a pessoa com deficiência visual no reconhecimento dos espaços escolares, no seu posicionamento na sala considerando a distância do quadro, a luminosidade do espaço e a adequação das atividades a serem realizadas, entre elas a avaliação. Ao definir o recurso e/ou estratégia, é importante colocar seu uso em prática inicialmente durante os atendimentos do AEE para que o professor do AEE tenha condições de orientar, avaliar e treinar o uso pelo estudante e só então empregá-lo em sala de aula e aindacom orientação do professor do AEE por meio de assessoramento prestado ao estudante. Para auxiliar a escola na proposição, identificação e/ou organização do melhor recurso para o estudante, é importante contar com parcerias do AEE, da família, de especialistas da área médica e dos profissionais da escola por meio de criteriosa análise e observação do estudante, de suas especificidades e das condições do contexto. 114 UNIUBE Saberes essenciais sobre a Surdocegueira4.4 A conceituação da Surdocegueira é historicamente envolvida em vários debates em torno de uma preocupação em explicitar que se trata de uma deficiência única e singular ocasionada pela perda dos sentidos da visão. A Surdocegueira é conceituada, portanto, como uma deficiência única e estritamente sensorial. A definição apresentada por McInnes e Treffy, ao referir-se à criança com Surdocegueira, pontua que: A criança surdocega não é uma criança surda que não pode ver e nem um cego que não pode ouvir. Não se trata de simples somatória de surdez e cegueira, nem é só um problema de comunicação e percepção, ainda que englobe todos esses fatores e alguns mais (1991 apud NASCIMENTO, 2006, p.11). De acordo com Maia (2004), o termo surdocego e surdocegueira sem hífen foram propostos por Salvatore Lagati, em 1991, na IX Conferência Mundial de Orebro – Suécia. A autora ressalta que essa terminologia se deve: A condição de que ser surdocego não é simplesmente a somatória da deficiência visual e da deficiência auditiva e sim de uma condição única que leva a pessoa a ter necessidades específicas para desenvolver comunicação, orientação e mobilidade e de acessar informações sobre o mundo para conquistar a autonomia pessoal e inserir-se no mundo (p. 101). A surdocegueira implica, portanto, a perda significativa dos sentidos da audição e da visão de uma forma que ocasione dificuldade no aspecto educacional, social, profissional e de lazer de quem a possui. A pessoa pode ser totalmente surda e cega ou possuir resíduos tanto auditivos quanto visuais. Conforme Nascimento (2006), essa deficiência pode ser congênita, ou seja, inata, ou adquirida, que acontece quando a pessoa já apresenta uma deficiência auditiva ou visual ao nascer e vem adquirir a outra no decorrer da vida. As pessoas com surdecegueira podem ainda ser consideradas pré-linguísticas quando a deficiência é UNIUBE 115 adquirida antes da aquisição de uma língua e pós-linguística, quando a deficiência é adquirida após a aquisição de uma língua, de acordo com Bosco, Mesquita e Maia (2010). Para a definição de propostas pedagógicas, elaboração e planejamento de intervenções pedagógicas, é importante considerar: • a ordem e o surgimento da surdocegueira, • a condição funcional e • se há comprometimento parcial ou total dos sentidos da audição e visão. Você conhece o filme “ O milagre de Anne Sullivan”? O filme conta a história real de Helen Keller e Anne Sullivan. A edição de 2000 é uma refilmagem da versão lançada em 1962. Helen foi uma criança surdocega que viveu no século XIX. Pela sua condição e pela falta de compreensão da família em relação à surdocegueira, ela vivia ora como um animal doméstico, ora como uma menina selvagem, haja vista que, ainda, não tinha passado por um processo de educação, até que a família contrata uma professora: Anne Sullivan. O filme aborda os desafios vividos por Anne para educar Hellen. Demonstra o cotidiano de uma criança surdocega, suas necessidades, seus conhecimentos, suas possibilidades e como a professora conseguiu estabelecer uma SAIBA MAIS Pré-linguística • quando a deficiência é adquirida antes da aquisição de uma língua Pós-linguística • quando a deficiência é adquirida após a aquisição de uma língua 116 UNIUBE relação de construção de conhecimento com ela. O filme mostra como uma professora pode fazer a diferença na vida de um(a) aprendiz. Você vai aprender e se emocionar!!! Para assistir, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=z3mCkggD6qg O filme lança luz acerca da relação entre educanda e educadora, em nessas condições tão singulares. Vale a pena assistir! 4.5 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com surdocegueira Na inclusão educacional desse público, é preciso considerar aspectos referentes: • à acessibilidade, • ao bem-estar, • à segurança, • à eliminação de barreiras comunicacionais e do contexto e • às necessidades posturais e de mobilidade. Conforme documentos legais, o espaço escolar precisa contar com: • pisos antiderrapantes, • paredes pintadas em cores claras, • lousa pintada na cor preta, • boa luminosidade, • condições de instalação elétrica para uso de equipamentos e recursos, UNIUBE 117 • identificações em Braille e letra ampliada bem como • objeto referencial do local e espaços com disponibilização de materiais de comunicação e • rotina diária em uma organização do espaço que favoreça sua mobilidade (BRASIL, 2006). Na inclusão escolar, deste estudante a instituição precisa considerar alguns aspectos fundamentais como: • compreender inicialmente e prioritariamente como se dá a comunicação do estudante para então organizar estratégias de ampliação do contexto comunicacional; • oferecer a educação bilíngue para aquele que é surdocego usuário da língua de sinais; • disponibilizar profissionais, serviços e recursos da Educação Especial para auxiliá-lo na comunicação e interação social, Orientação e Mobilidade (OM) e nas Atividades de Vida Autônoma (AVA), • proceder à organização espacial e estrutural de todos os espaços escolares, favorecendo sua livre circulação. Segundo Marra (2012, p. 171-172), no caso de o estudante apresentar resíduo visual ou auditivo, outras adequações e estratégias ainda precisam ser observadas, como: Os alunos sentem-se em posições fixas. Os alunos ou o professor devem estar à distância mínima de uns dois metros, ou outra posição mais adequada. Se a iluminação for fluorescente ou incandescente deve ser adequada e de intensidade ajustável; ter lâmpadas individuais na mesa sempre que possível e eliminar o reflexo se há iluminação natural. O professor fique sempre na mesma área durante as explicações e instruções para o grupo e que exista um fundo contínuo se possível. As janelas no fim da sala devem ser mais apropriadas do que as laterais. A lousa fique limpa para que tenha o máximo de contraste. As cores atrás do professor devem ser neutras, sem brilho e se possível com textura. Os móveis devem estar dispostos de modo que permitam uma considerável liberdade de 118 UNIUBE movimentos em espaços abertos; devem ser “estáveis” e não pontiagudos. Todos os materiais didáticos devem ter letras maiores que a média, de acordo com a necessidade. Os materiais visuais e a comunicação devem continuar enquanto o aluno tiver uma visão funcional. No que se refere aos conteúdos curriculares, adequações e flexibilizações curriculares precisam ser propostas sempre alinhadas aos conteúdos regulares com a disponibilização dos recursos e serviços necessários às especificidades do estudante. Marra (2012, p. 193-194) sugere ao professor: Dar oportunidades para o aluno se expressar. Dominar métodos utilizados com surdos e cegos (inclusive conversando com eles), que podem ser úteis em algum momento. Aproveitar e traduzir todos os momentos, acontecimentos e eventos da escola como cantos iniciais, orações, hino, etc. Sempre que tiver oportunidade prolongar o diálogo, mostrar interesse, complementando e diferenciando informações. Estimular a participação ativa, ser recíproco e parceiro na relação com a criança, ou seja, ser compromissado politicamente. Diversificar os recursos de comunicação. Utilizar caixa de memória como estratégia para evidenciar as atividades a serem realizadas no dia e durante a semana; também é essencial a construção de um calendário, que pode ser em alto relevo; e a utilizaçãode livros de referência, que pode ser dividido em categorias (amigos, alimentação, família, higiene) a partir de objetos de referência identificados por legendas. As sugestões apresentadas demonstram a necessidade de o professor conhecer o estudante e as especificidades do quadro de deficiência, considerar suas potencialidades e propor estratégias e atividades que possibilitem a utilização da visão e audição residuais com informações sensoriais. A escola precisa se ocupar não somente da aprendizagem dos conteúdos curriculares, mas também dos aspectos comunicacionais que precisam ser desenvolvidos e ampliados, da orientação e da mobilidade para maior segurança, autonomia e independência do estudante. UNIUBE 119 Para tanto é preciso uma organização escolar com currículo flexível e funcional que considere as necessidades individuais, elimine as barreiras do contexto e disponibilize recursos e estratégias adequados. Nessa perspectiva, as propostas e estratégias pedagógicas precisam ser organizadas e estruturadas com condições de acesso, permanência, aprendizado e desenvolvimento do estudante e precisam acontecer em um ambiente lúdico com proposição de atividades adequadas e funcionais. Sugerimos que assista ao vídeo “Surdocegueira: o sentido do mundo pelo tato”, produzido pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES/MEC). O vídeo apresenta a surdocegueira, mostrando casos reais, com depoimentos de profissionais com médicos, fonoaudiólogos e educadores e pais. https://www.youtube.com/watch?v=3413dCuo5Ic O vídeo mostra ainda como a interação entre família e profissionais pode acontecer e como é importante no desenvolvimento dos surdocegos. Vale a pena assistir! SAIBA MAIS 4.6 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com surdocegueira A Educação Especial no processo de inclusão escolar desse público oferta serviços e recursos como a disponibilização de diferentes recursos e profissionais conforme a necessidade e a especificidade do estudante. Além do Atendimento Educacional Especializado – AEE, deve ser disponibilizada a presença do guia-intérprete, professor de LIBRAS ou instrutor de LIBRAS, profissional de apoio escolar, a depender de cada caso, sempre em uma organização, para promover, possibilitar e ampliar o contexto comunicacional, a interação e a mobilidade. 120 UNIUBE Instrutor de LIBRAS: profissional com formação em nível médio e com certificação de curso de instrutor de LIBRAS por meio de cursos de educação profissional, de formação continuada, promovidos por instituições de ensino superior; e/ou cursos de formação continuada promovidos por instituições credenciadas por secretarias de educação. A formação do instrutor de Libras pode ser realizada também por organizações da sociedade civil representativa da comunidade surda. Professor de LIBRAS: formação em nível superior, em curso de graduação de licenciatura plena em Letras: Libras ou em Letras: Libras/ Língua Portuguesa como segunda língua. AMPLIANDO O CONHECIMENTO O AEE como um dos serviços da Educação Especial é responsável por organizar espaços, estratégias, recursos e utilização de diferentes formas de linguagem, modalidades da Tecnologia Assistiva (TA), entre outros, a depender da necessidade e especificidade do estudante. O professor do AEE é responsável pela adequação dos materiais didáticos pedagógicos às necessidades comunicacionais e posturais desses estudantes. E, ainda, por: Atendimento Educacional Especializado (AEE) Guia-intérprete Professor de LIBRAS ou instrutor de LIBRAS Profissional de apoio escolar UNIUBE 121 • planejar, criar, experimentar situações que favoreçam o desenvolvimento afetivo, cognitivo, social, motor e a comunicação; • promover experiências sensoriais e perceptivas (auditivas, olfativas, gustativas, visuais e cinestésicas) em atividades funcionais; • orientar a locomoção independentemente no ambiente escolar; • estimular as Atividades de Vida Autônoma (AVAs) e de Orientação e Mobilidade (OMs) em situações funcionais no contexto escolar; e • desempenhar o papel de guia-intérprete, entre outras.(ALMEIDA, 2015) Orientação e Mobilidade (OM): refere-se a um conjunto de técnicas e estratégias que auxiliam a pessoa na sua orientação e locomoção nos espaços, de forma orientada e segura para conhecer o seu entorno e dele usufruir e com ele familiarizar-se e interagir (BRASIL, 2010). Definidas pelo MEC como: Orientação – Habilidade do indivíduo para perceber o ambiente que o cerca, estabelecendo as relações corporais, espaciais e temporais com esse espaço, através dos sentidos remanescentes. Mobilidade – capacidade do indivíduo de se mover, reagindo a estímulos internos ou externos, em equilíbrio estático ou dinâmico. (BRASIL, 2006, p. 98-99). Tecnologia Assistiva (TA): termo utilizado para identificar uma variedade de equipamentos, estratégias, recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência. Definido pelo Comitê de Ajudas Técnicas (CAT) como: Área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando a sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (Comitê de Ajudas Técnicas – ATA VII). RELEMBRANDO 122 UNIUBE Os recursos podem ser desde uma bengala até um sistema computadorizado complexo, ou seja, recursos referem-se a todo e qualquer item utilizado para aumentar, manter ou melhorar as capacidades funcionais de pessoas com deficiência. E serviços são prestados profissionalmente, auxiliando diretamente a pessoa com deficiência. Atividades de Vida Autônoma (AVA): nomenclatura alterada e utilizada, desde 2008, pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Refere-se ao conjunto de habilidades desempenhadas rotineiramente, visando à independência, à segurança, à autonomia e à convivência social da pessoa com deficiência em todos os ambientes relacionais, de maneira individual e coletiva. A depender do resíduo visual e/ou auditivo, o estudante pode precisar do acompanhamento do professor de LIBRAS ou instrutor de LIBRAS, responsável por ensinar a LIBRAS e/ou LIBRAS Tátil ao estudante. Ou ainda da presença de um guia-intérprete, que pode ser o próprio professor do AEE ou outro profissional, dependendo da necessidade do aluno e da realidade e organização do contexto. O guia-intérprete é responsável pela mediação da comunicação de pessoas surdocegas, procedendo à a interpretação de acordo com as modalidades de comunicação específicas, utilizadas pela pessoa surdocega, e também auxiliam na orientação e mobilidade desse público. A saber, algumas das modalidades de comunicação específicas são: Língua Oral Amplificada, Escrita na Palma da Mão, Alfabeto Manual Tátil, Língua de Sinais Tátil, Sistema Braile Tátil ou Manual, Língua de Sinais em Campo Reduzido etc. UNIUBE 123 De acordo com a FEBRAPILS (Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-intérpretes de Língua de Sinais) e FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos), o guia-intérprete atua nos processos de mediação e interação do surdocego com o meio, permitindo-lhe o acesso à informação, à locomoção e à comunicação, e representando um elemento importante na interação com o mundo. Essas entidades orientam que esse profissional precisa passar por um processo de formação para desenvolver o domínio das Técnicas de Interpretação e da função de Guia-Interpretação. Para saber mais, acesse: http://febrapils.org.br/ Vale a pena conferir! SAIBA MAIS Diante da necessidade do profissional de apoio escolar, é importante considerar que esse profissionalatua amplamente no contexto escolar seja no auxílio durante alimentação, locomoção, higienização e/ou na realização das atividades pedagógicas. Assim, os profissionais do AEE, juntamente com a equipe de profissionais da escola, deverão analisar, verificar e avaliar a necessidade e em quais momentos esse apoio é necessário e sua intensidade. E a intensidade desse apoio. Sempre em conformidade com as necessidades apresentadas pelo estudante, relacionadas à sua condição de funcionalidade e não à condição de deficiência. Naqueles casos em que o estudante com surdocegueira não apresente resíduo visual ou auditivo, faz-se necessária a utilização de diferentes formas de linguagens como: LIBRAS Tátil, alfabeto datilológico ou alfabeto manual, Braille digital, Sistemas alfabéticos com retransmissão em Braille, Sistema Malossi e Método Tadoma. 124 UNIUBE Quadro 1 – Algumas formas de linguagem para os casos de surdocegueira Formas de linguagem Especificações LIBRAS Tátil Sistema não alfabético que corresponde à língua de sinais, utilizado tradicionalmente pelas pessoas surdas, mas adaptado ao tato, por meio do contato das mãos da pessoa surdocega com as mãos do interlocutor. Alfabeto Datilológico (alfabeto manual) Consiste em fazer, com a mão, um sistema de signos (letras ou números) ou o alfabeto em LIBRAS sobre a palma da mão do interlocutor. Braille digital Sistema alfabético baseado no sistema Braille de leitura e escrita, adaptado de maneira que possa ser percebido pela pessoa surdocega por meio do tato. É utilizado a partir de dois pontos que são digitados nas falanges dos dedos indicadores e médio, sendo que os dois dedos unidos formam uma coluna com três pontos. Sistemas alfabéticos com retransmissão em Braille Recursos de TICs: computadores e máquinas de escrever portáteis ou eletrônicas para transmissão da mensagem em Braille. Sistema Malossi Sistema de comunicação para surdocegos já alfabetizados, consiste na marcação das letras do alfabeto e dos algarismos de 0 a 9 nas falanges dos dedos e na palma de uma das mãos. Cada falange corresponde a uma letra do alfabeto. A formação de palavras se dá pelo toque no espaço destinado à letra, podendo-se usar uma luva com as letras e números impressos, indicando os lugares que devem ser tocados. Método Tadoma Método de linguagem que acontece também por meio do tato, porém na decodificação da fala do interlocutor. A pessoa com surdocegueira identifica a emissão de palavras por meio da vibração das cordas vocais e do movimento da mandíbula, posicionando a mão em “L”. Algumas vezes se utiliza o movimento da língua. Consiste em colocar a mão no rosto do locutor de tal forma que o polegar toque, suavemente, seu lábio inferior e os outros dedos pressionem, levemente, as cordas vocais. Esse procedimento possibilita a interpretação da emissão dos sons por meio do movimento dos lábios e da vibração das cordas vocais. Fonte: Da autora. Falange “Cada um dos pequenos ossos que compõe os dedos das mãos e dos pés”. (DICIO, 2020, p.1). UNIUBE 125 Podemos observar que, em todos os sistemas comunicacionais apresentados, o tato constitui a via mais promissora no estabelecimento das interações com o ambiente. Segundo o trabalho de O’Donnell (1991 apud NASCIMENTO, 2006, p. 23), os recursos de comunicação receptiva mais usados por surdocegos são: língua de sinais (83%), gestos e insinuações táteis (60%), alfabeto digitado na mão (40%), sistema braile (6%) e contexto (3%). Em se tratando de comunicação expressiva: língua de sinais (70%), gestos naturais (55%), linguagem oral com combinação de outro método (11%) e os que não possuem sistema de comunicação expressiva (7%). Podemos inferir que a LIBRAS, no caso do Brasil, constitui o recurso de comunicação mais promissor para as pessoas com surdocegueira. Gráfico 2 – Recursos de comunicação receptiva mais usados por surdocegos Fonte: Adaptado de O’Donnell (1991 apud NASCIMENTO, 2006, p. 23). Recursos de comunicação receptiva mais usados por sudocegos Língua de sinais Gestos e insinuações táteis Alfabeto digitado na mão Sistema Braille Contexto 90% 33% 60% 40% 6% 3% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% 126 UNIUBE Mediante o exposto, a inclusão escolar do estudante com surdocegueira requer um trabalho colaborativo entre os profissionais do AEE, a gestão escolar, a família e os professores da sala de aula do estudante a fim de organizar, adequar e promover condições favoráveis ao desenvolvimento de habilidades comunicacionais, de autonomia e independência com a disponibilização de estratégias e recursos de acessibilidade. O professor do AEE precisa ainda atuar na sensibilização e orientação de toda a comunidade escolar em relação às possibilidades e modalidades comunicacionais, a interação social, a locomoção, contribuindo para que o ambiente escolar promova sua autonomia e independência. Para aprofundar e ampliar o conhecimento sobre as necessidades educacionais desse público e sobre as políticas públicas direcionadas à sua inclusão escolar, leia os títulos sugeridos: Atendimento Educacional Especializado. Deficiência Visual. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/aee_dv.pdf. Acesso em: jan. 2020. PESQUISANDO NA WEB Gráfico 3 – Recursos de comunicação expressiva mais utilizados por pessoas com sudocegueira Fonte: Adaptado de O’Donnell (1991 apud NASCIMENTO, 2006, p. 23). Recursos de comunicação expressiva mais usados por pessoas com surdocegueira Língua de sinais Gestos naturais Linguagem oral com outro método Não possui comunicação expressiva 70% 55% 11% 7% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% UNIUBE 127 Saberes e práticas da inclusão: Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos cegos e de alunos com baixa visão. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/ arquivos/pdf/alunoscegos.pdf. Acesso em: jan. 2020.. Orientação e Mobilidade – Conhecimentos básicos para a inclusão da pessoa com deficiência visual. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/ arquivos/pdf/ori_mobi.pdf. Acesso em: jan. 2020.. É fundamental que os profissionais, envolvidos na escolarização desse público, conheçam suas características, especificidades assim como as legislações vigentes que impactaram diretamente a inclusão escolar desses estudantes. A inclusão se faz com parcerias, conhecimento e atitude. Considerações finais4.7 Pensar a inclusão dos estudantes com Deficiência Visual ou Surdocegueira requer dos profissionais que atuam em sua escolarização ressignificar a estrutura de seu trabalho e rever de forma profunda suas escolhas didático-metodológicas. Em um mundo em que as informações e conhecimentos se apresentam quase que via de regra, pelas vias visuais, planejar e adequar estratégias de ensino que sejam acessíveis às pessoas com limitações visuais se torna um desafio que precisa ser vencido desde seus princípios, metodologias e práticas educacionais. Resumo O processo educacional dos alunos com Deficiência Visual (cegueira ou baixa visão) e Surdocegueira representa importante desafio para a escola, uma vez que a estruturação do processo de ensino e aprendizagem se dá predominantemente por meio de recursos e informações visuais e auditivas. Assim, esses estudantes ao serem incluídos no ambiente escolar encontram-se em situação de desvantagem em relação aos demais. 128 UNIUBE Esse fator torna urgente a necessidade de a escola reorganizar seus princípios, metodologias e estratégias pedagógicas para atender esse público garantindo seu direito à educação com acesso ao conhecimento e aos ambientes escolares. Tais ações devem priorizar a eliminação das barreiras impostas pelo ambiente e pelas práticas educacionais tradicionalmente inflexíveis. Atender aos preceitos da educação inclusivae às especificidades das pessoas com deficiência visual, seja cegueira ou baixa visão e das pessoas com surdocegueira, exige das instituições educacionais e seus profissionais adequações didático-pedagógicas no conteúdo e no método de ensino. Isso visa promover o acesso desse público ao currículo e ainda a disponibilização de recursos físicos, ambientais e materiais, para melhores condições de comunicação, interação, mobilidade, autonomia e participação. Para tanto é imprescindível que os profissionais da educação conheçam as especificidades e as características desse público. Embora os quadros apresentados desse público tenham certa similaridade, são extremamente diferentes em sua funcionalidade, origem, dificuldades, barreiras. Enfim, em essência, trata-se de quadros muito diferentes. Os recursos e as estratégias de que um estudante com cegueira necessita são essencialmente diferentes daqueles adequados para estudantes com baixa visão ou surdocegueira. E o contrário também é verdadeiro: não dá para colocar todo mundo em uma mesma categoria. Na mesma medida, as flexibilizações e adequações precisam ser personalizadas, considerar o quadro de deficiência, os sentidos remanescentes, resíduos sensoriais, a funcionalidade do estudante. A eliminação das barreiras do contexto e comunicacionais, as adequações e as flexibilizações curriculares quando organizadas de forma personalizada contribuem para não somente o bom desempenho escolar, mas, sobretudo, promovem participação e o protagonismo do UNIUBE 129 estudante em seu processo educacional, o que auxilia sobremaneira na conquista da autonomia e independência. Tais ações demandam que os profissionais da educação se disponham a conhecer o aluno, as características da deficiência apresentada, a fase da vida em que esse quadro se apresentou, para então levantar pontos e aspectos diferenciais a serem utilizados nas estratégias didático-pedagógicas. Referências ALMEIDA, W. G. O guia-intérprete e a inclusão da pessoa com surdocegueira. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, 2015. BOSCO, Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra Regina Stanziani Higino; MAIA, Shirley Rodrigues. A Educação Especial na perspectiva da inclusão escolar: surdocegueira e deficiência múltipla. Brasília: MEC/SEESP; Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2010. v. 5. (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar). Disponível em: https://central3.to.gov.br/arquivo/299632/. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES. Surdocegueira: o sentido do mundo pelo tato. 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Disponível em: https://www.assistiva.com.br/Ata_VII_Reuni%C3%A3o_do_Comite_ de_Ajudas_T%C3%A9cnicas.pdf 130 UNIUBE DOS SANTOS, Fernanda Christina; DE OLIVEIRA, Regina Fátima Caldeira. Grafia Braille para a Língua Portuguesa. MEC/SEESP, Brasília-DF, 2018, 3ª edição. 95p. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/dezembro-2018-pdf/104041- anexo-grafia-braille-para-lingua-portguesa/file DICIO. Dicionário on-line. Falange. Disponível em: https://www.dicio.com.br/falange/. Acesso em: 05 jun. 2020. DOMINGUES, Celma dos Anjos et al. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar: os alunos com deficiência visual: baixa visão e cegueira Brasília: MEC/SEESP; Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2010. v. 5. (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar). Disponível em: http:// portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=7105- fasciculo-3-pdf&Itemid=30192. Acesso em: jan. 2020. FEBRAPILS – Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-intérpretes de Língua de Sinais. Disponível em: http://febrapils. org.br/. Acesso em: 21 jul. 2020. FRANCO, E. P. C. Em busca de um modelo de acessibilidade audiovisual para cegos no Brasil: um projeto piloto. Tradterm, Florianópolis, v. 13, p. 171-185, 2007. MACHADO, Edilene Vieira [et al.]. Orientação e Mobilidade: Conhecimentos básicos para a inclusão do deficiente visual. Brasília: MEC/SEESP, 2003. 167 p. http://bibliotecadigital.puc-campinas.edu.br/services/e-books-MS/ori_mobi.pdf MAIA, Shirley Rodrigues. Educação do surdocego: diretrizes básicas para pessoas não especializadas. Dissertação de mestrado apresentada a Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo. 2004. MARRA, S. Surdocegueira. In: FERREIRA, J. M.; DECHICHI, C.; SILVA, L. C. Curso básico: educação especial e atendimento educacional especializado. Uberlândia: EDUFU, v. 1, 2012. MAZZARO, José Luiz. Mas, afinal, o que orientação e mobilidade? In: MACHADO, Edileine Vieira et al. (Org.) Orientação e Mobilidade: Conhecimentos básicos para a inclusão do deficiente visual. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Brasília: MEC, SEESP, 2003. 167 p. MEC/SEESP. Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos cegos e de alunos com baixa visão. [2. ed.] / coordenação geral SEESP/MEC. – Brasília: MEC, Secretaria de Educação Especial, 2006. 208 p. (Série : Saberes e práticas da inclusão UNIUBE 131 NASCIMENTO, F. A. A. A. C. Saberes e práticas da inclusão: dificuldades de comunicação e sinalização: surdocegueira/múltipla deficiência sensorial. Brasília: MEC/SEESP, Universidade Federal de São Carlos: UFSCAR/SP – Associação Educacional para a Múltipla Deficiência (AHIMSA), 2006. Disponível em: http:// portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/surdosegueira.pdf. Acesso em: jan. 2020. SA, Elizabet Dias de; CAMPOS, Izilda Maria de; SILVA, Myriam Beatriz Campolina. Atendimento Educacional Especializado: deficiência visual. Brasília: MEC/SEESP, 2007. THE MIRACLE Worker. Produção de WALT Disney Pictures filmes. Estados Unidos. 2000. Vídeo. (1h28min). Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=z3mCkggD6qg. Acesso em: 05 jun. 2020. Introdução Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiência Física e Deficiência Múltipla Capítulo 5 A inclusão escolar dos estudantes com deficiências físicas e daqueles com deficiência múltipla têm em comum a necessidade não somente do conhecimento do quadro de deficiência apresentada e suas especificidades, mas também o conhecimento da funcionalidade e a consideração das exigências do meio, para assim eliminar as barreiras, promover avanços e garantir a acessibilidade. Demanda, portanto, trabalho colaborativo e parceria entre toda a equipe escolar para que as estratégias e adequações não sejam únicas e isoladas, mas permanentes, abrangendo todos os espaços e contextos educacionais. A Deficiência Física e a Deficiência Múltipla serão estudadas nesse capítulo, desde sua caracterização, conceituação, especificidades e singularidades, e, ainda, o movimento pedagógico necessário à inclusão destes estudantes e a garantia de acesso ao conhecimento e ao ambiente escolar, com aprendizado e desenvolvimento. Estudaremos também sobre os serviços e recursos da Educação Especial destinados a esse público. 134UNIUBE Ao final deste estudo, esperamos que seja capaz de: • caracterizar e explicar sobre a Deficiência Física e sobre a Deficiência Múltipla; • organizar o movimento pedagógico necessário à inclusão escolar deste público. • reconhecer e utilizar os serviços e recursos da Educação Especial para os estudantes com Deficiência Física (DF) e aqueles com Deficiência Múltipla (DMu); 5.1 Saberes essenciais sobre a Deficiência Física – DF 5.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Física – DF 5.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Física: estimulação, orientação e mobilidade 5.4 Saberes essenciais sobre a Deficiência Múltipla – DMu 5.5 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Múltipla 5.6 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Múltipla: estimulação, orientação e mobilidade 5.7 Considerações finais Objetivos Esquema Saberes essenciais sobre a Deficiência Física – DF5.1 De acordo com o Decreto n° 5.296 de 2 de dezembro de 2004, a Deficiência Física é definida como “diferentes condições motoras que acometem as pessoas comprometendo a mobilidade, a coordenação motora geral e da fala, em consequência de lesões neurológicas, neuromusculares, ortopédicas, ou más formações congênitas ou adquiridas”. UNIUBE 135 Figura 1 – Inclusão escolar do estudante com deficiência física. Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. De acordo com o Manual elaborado pela Comissão de Estudos para Inserção da Pessoa com Deficiência no Mercado de Trabalho (2007), a Deficiência Física (DF) pode ser categorizada da seguinte forma: Paraplegia: perda total das funções motoras dos membros inferiores; Paraparesia: perda parcial das funções motoras dos membros inferiores; Monoplegia: perda total das funções motoras de um só membro (inferior ou superior); Monoparesia: perda parcial das funções motoras de um só membro (inferior ou superior); Tetraplegia: perda total das funções motoras dos membros inferiores e superiores; Tetraparesia: perda parcial das funções motoras dos membros inferiores e superiores; Triplegia: perda total das funções motoras em três membros; Triparesia: perda parcial das funções motoras em três membros; Hemiplegia: perda total das funções motoras de um hemisfério do corpo (direito ou esquerdo); Hemiparesia: perda parcial das funções motoras de um hemisfério do corpo (direito ou esquerdo); Ostomia: intervenção cirúrgica que cria um ostoma na parede abdominal para adaptação de bolsa de fezes e urina; processo de operação para construção de um novo caminho para saída de fezes e urina para o exterior do corpo humano (colostomia: ostoma intestinal; urostomia: desvio urinário); Amputação: perda total ou parcial de um determinado membro ou segmento de membro; Nanismo: deficiência acentuada no crescimento. É importante ter em mente que o conceito 136 UNIUBE de deficiência inclui a incapacidade relativa, parcial ou total, para o desempenho da atividade dentro do padrão considerado normal para o ser humano. Esclarecemos que a pessoa com deficiência pode desenvolver atividades laborais desde que tenha condições e apoios adequados às suas características; Paralisia Cerebral: lesão de uma ou mais áreas do sistema nervoso central, tendo como consequência alterações psicomotoras, podendo ou não causar deficiência mental (BRASIL, 2007a, p. 23). De acordo com Silva (2006), a deficiência física pode ainda ocasionar diversos comprometimentos, a depender da sua origem e localização como: falta de coordenação, presença de movimentos involuntários, rigidez muscular impactando em prejuízos na locomoção, na permanência da posição sentada; na vitalidade e agilidade. Isso ocasiona menor rendimento e necessidade de maior tempo para realização das atividades escolares, e ainda há casos de DF associadas a doenças nos aparelhos circulatório, respiratório, digestivo e geniturinário. Para os casos exemplificados anteriormente, é necessário movimentar a pessoa com deficiência física, alterando sua posição, a fim de evitar escaras (feridas), e ainda realizar procedimentos de autocuidados, quanto à higiene quando há a ausência ou redução da mobilidade, dificuldade no controle de esfíncteres, e auxiliar na alimentação devido à dificuldade de deglutição. Controle de esfíncteres O esfíncter é um músculo que controla a abertura e o fechamento de um determinado orifício. Nesse caso, destacamos o uretral e o anal, responsáveis pela eliminação da urina e das fezes. Controlá- los é mais uma etapa no desenvolvimento da criança. UNIUBE 137 Existe uma associação frequente entre a deficiência física e dificuldades de comunicação. Por exemplo, há alguns casos de paralisia cerebral, em que uma alteração no tônus muscular dessas pessoas prejudicará, também, as funções fonoarticulatórias (causando prejuízos na emissão da fala). Neste caso, a fala poderá se apresentar alterada ou ausente, o que pode gerar avaliação diagnóstica equivocada para Deficiência Intelectual e Múltipla, por parte da equipe pedagógica. AMPLIANDO O CONHECIMENTO Funções Fonoarticulatórias o aparelho fonoarticulatório é formado por órgãos como: lábios, língua, palato mole, palato duro, dentes e protuberância alveolar. São responsáveis pela articulação dos fonemas, e pelo desempenho, percepção e produção da fala. Trata-se de um processo sensório- motor. 5.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Física – DF Na inclusão escolar do estudante com diagnóstico de DF, é primordial considerar que a funcionalidade é variável de uma pessoa para outra. Portanto, os profissionais da educação precisam se atentar a conhecer o estudante em si e o quadro apresentado pelo mesmo, bem como sua funcionalidade. É necessário perceber se o quadro é progressivo ou estável; se há alterações da sensibilidade tátil, térmica ou dolorosa; se está associado a outras limitações; se coexistem problemas de saúde que necessitam de cuidados e medicações como, por exemplo, dificuldades respiratórias ou cardiovasculares, quadros de convulsões, etc., essas informações irão auxiliar na disponibilização e organização de recursos e na eliminação de barreiras. Essas informações precisam ser pesquisadas, pelos profissionais da escola, juntamente às famílias e, nos relatórios clínicos sobre o estudante. É fundamental também que os profissionais da educação observem e analisem cada caso em particular e que tenham conhecimento sobre as deficiências e as comorbidades e comprometimentos associados. 138 UNIUBE Para a maioria desses estudantes, são necessários apenas pequenos ajustes em seu programa regular de ensino. Para outros, porém, há necessidade de recursos, adequações e flexibilizações importantes para o acesso ao espaço e/ou ao conhecimento com sucesso. Godói, Galasso e Miosso (2006) salientam que o desenvolvimento do estudante com Deficiência Física ocorre da mesma forma que os demais, mas demanda que a escola, por meio de sua equipe pedagógica, disponibilize e organize processos significativos de aprendizagem, com adequações, flexibilizações e modificações que assegurem as devidas oportunidades pedagógicas (BERNAL, 2010). A inclusão escolar deste estudante demanda: • a remoção de barreiras arquitetônicas, • a garantia da acessibilidade ao conhecimento, às informações e à comunicação, • a disponibilização de equipamentos, recursos e programas adequados como: Tecnologia Assistiva – TA. Como Tecnologia Assistiva – TA, temos a Comunicação Aumentativa e Alternativa – CAA: • pasta frasal, • prancha temática, • símbolos, • sistema PCS (Símbolos de Comunicação Pictórica) etc., para os casos em que os estudantes não conseguem articular ou produzir a fala. PCS (Símbolos de Comunicação Pictórica):idealizados, em 1980, pela fonoaudióloga norte americana Roxanna Mayer Johnson. Este sistema simbólico é formado por imagens, de preferência aquelas que tenham significado para o estudante. “Essa comunicação por imagens e/ou símbolos representa uma grande variedade de vocabulário e são de fácil reconhecimento para as pessoas que apresentam dificuldades em compreender representações mais abstratas. Ele é basicamente pictográfico e beneficia indivíduos de qualquer idade”. (BRASIL, 2007a., p. 62). Para saber mais, acesse: http:// portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/ pdf/aee_df.pdf Vale a pena conferir! UNIUBE 139 E, ainda: • jogos imantados, • separadores, • cadernos com elástico, • planos inclinados, • engrossador de lápis, • colmeia para teclado, • acionadores de pressão, • computador, • gravador etc. Os Recursos para Orientação e Mobilidade podem ser descritos como [...] carteira com possibilidade de graduar a altura e inclinação, bordas elevadas para impedir a queda de objetos; pratos inquebráveis com bordas altas e com possibilidade de fixação em mesa ou suporte; copo ou caneca de material leve, com uma ou duas alças, tampa e canudo nos quadros de déficit de força e mobilidade; copo e caneca de material pesado nos casos de falta de coordenação, recursos para Adequação Postural. (BRASIL, 2006a). Mediante as especificidades e a complexidade dos diferentes tipos de Deficiência Física o professor poderá propor e efetivar práticas pedagógicas e estratégias de ensino acessíveis, como algumas constantes no quadro a seguir, apresentadas em BRASIL (2006a): Orientamos que digite, no cursor de um site de busca, como o Google, o nome de cada um desses recursos. Selecione a opção “Imagens”, para que visualize suas figuras. Explore a Internet e conheça mais sobre cada um!!! PESQUISANDO NA WEB 140 UNIUBE Quadro 1 – Sugestões de Ações, recursos e adequações Comprometimentos Sugestões de Ações, Recursos e Adequações Comprometimento nos membros superiores: se relaciona diretamente à possibilidade de pegar diferentes objetos, movimentar as mãos e colocá-las nas posições apropriadas para qualquer atividade. Uso de carteira regulável; uso de papel fixado à mesa com fita adesiva, tachas ou régua imantada; ampliação do diâmetro de lápis, canetas, talheres e escovas de dente, para facilitar apreensão; uso de quadro com letras e números imantados; uso do computador com as devidas adequações; utilização do gravador substituindo o registro escrito; uso de pratos inquebráveis, com bordas altas e com possibilidade de fixação em suporte; copo ou caneca, de material leve, com uma ou duas alças, tampa e canudo, para os quadros de déficit de força e mobilidade; e copo e caneca de material pesado, para os casos de falta de coordenação; torneiras acessíveis; orientação a família sobre a importância de escolher roupas fáceis de vestir e despir, mais largas, com botões grandes, de preferência com elástico ou velcro e evitar sapatos com cadarço. Nos membros inferiores: interfere diretamente na capacidade de locomoção, exigindo, em muitos casos, o emprego de órteses e próteses. A cadeira e mesa em altura adequada, para que seus pés não fiquem pendurados; piso da sala de aula não pode ser escorregadio; espaço suficiente entre as carteiras para permitir melhor circulação de cadeira de rodas, andadores; salas de aula de preferência, devem ser no andar térreo; rampas e/ou elevadores de acesso; portas largas para a passagem de cadeiras de rodas; tapetes ou passadeiras de borracha ou superfície não escorregadia; bebedouro em altura e com torneira acessível; banheiro amplo para movimento de cadeira de rodas; barras nas paredes ao lado do vaso sanitário; o piso do box não pode ser escorregadio e deve ter barras para apoio. UNIUBE 141 Na linguagem: sua aquisição pode ser muito dificultada, sendo a fala da maior parte dos alunos rudimentar e com omissões de alguns fonemas. Substituição das atividades orais como a leitura de textos, por leitura silenciosa, com interpretação de textos por escrito e com auxílio de computador. Enrijecimento da musculatura em geral: dificultando a manutenção da postura na posição sentada e dificultando, também, a escrita. Tampo de mesa adaptado na cadeira de rodas; substituição da escrita com lápis por letras móveis e pranchas para escrita e computador. Quadro, letras e os numerais imantados, atividades digitadas e com opção de múltipla escolha para depreender apenas marcação etc. Dificuldade em realizar as articulações orofaciais: causando prejuízo na estruturação da linguagem oral, que é de difícil compreensão. Na leitura oral o professor deve ignorar as omissões fonológicas, e na escrita pode-se verificar se o aluno tem constituído o encontro consonantal ou não. Dificuldade na coordenação dos movimentos Sentar o aluno com os pés no chão, fazendo um ângulo de 90° e colocar sacos de areia para apoiar os pés. Para ajudar o aluno na escrita, podemos confeccionar pulseiras revestidas de chapinha de metal ou chumbo, uma vez que o peso nas extremidades (pés ou punhos) diminui por certo tempo, os movimentos involuntários. Apresenta um lado do corpo comprometido Verificar a dominância lateral do aluno; estimular o uso da mão comprometida. Enquanto a mão não comprometida estiver escrevendo, a outra deverá estar em cima da mesa apoiando o papel; estimular o lado não comprometido, descrevendo as funções do mesmo, para a utilização da escrita e atividades da vida autônoma (AVA). Fonte: BRASIL, 2006a. 142 UNIUBE O contexto escolar em uma perspectiva inclusiva precisa adotar uma abordagem flexível do currículo, do tempo e do espaço para promover o acesso ao ensino, às atividades escolares e com processos avaliativos adequados. Para tanto, é preciso possibilitar outras formas de registros além da escrita, seja por imagens, vídeos ou usando um dispositivo de gravação; que a sala de aula esteja organizada de modo a favorecer a mobilidade com o máximo de autonomia e independência, as informações no ambiente precisam estar claras, de fácil compreensão, com a disponibilização de recurso tecnológico nos diversos contextos educacionais. Para tanto, é necessário um trabalho colaborativo, da gestão junto ao professor regente e ao professor do AEE para procederem com análise, identificação e organização de recursos e estratégias. Esse procedimento irá favorecer o processo de formação e avaliação, sempre ponderando sobre a necessidade de ampliação ou diminuição da atividade descritivas e de registro, e/ou substituição destas por explanações orais ou ainda que explorem outros meios de comunicação. Faz-se necessário, ainda, a verificação da flexibilização do tempo para que o estudante execute a atividades proposta. Para adequação e flexibilização dos procedimentos, métodos, técnicas e materiais é importante considerar outros meios de expressão, como uso de recursos tecnológicos (TICs), tecnologias assistivas (TAs) ou pranchas de CAA, disponibilização de computadores, vocalizador, dentre outros. Estas possibilidades precisam ser previstas no PPP da escola. O processo de inclusão educacional deste público precisa ser acompanhado, ressignificado e revisto continuamente, respeitando o contexto, as individualidades, o desempenho e o processo de construção do conhecimento (BRASIL, 2006a). UNIUBE 143 É também essencial estabelecer uma rede de apoio, tecendo parcerias com os serviços da Saúde por meio de trabalho colaborativo com fisioterapeutas, médicos pediatras, neurologistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, dentre outros, bem como os serviços de Assistência Social, Trabalho, Justiça, Esporte e Ministério Público. Isso é importante para que, sempre que necessário, busque suporte e orientação, tanto para a escola, para o estudante ou seusfamiliares, podendo ser organizados tempos e espaços escolares para reuniões, palestras, assessorias ou cursos que atendam às demandas da escola e aos desafios da inclusão escolar. 5.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Física: estimulação, orientação e mobilidade Os serviços da Educação Especial destinados ao estudante com Deficiência Física precisam ser organizados a partir do conhecimento do aluno, do quadro apresentado, da sua funcionalidade e das exigências do meio. Isso é importante pois a pessoa com DF, como qualquer outra pessoa, desenvolve-se a partir da qualidade das vivências sociais que englobam o âmbito familiar, o espaço escolar ou até mesmo o ambiente terapêutico, afinal todos são espaços de ensino, conforme afirma Bernal (2010). Em relação ao aluno com DF, o Atendimento Educacional Especializado – AEE, como um dos serviços da Educação Especial, tem a função de proporcionar melhorias na sua participação, comunicação e mobilidade e, promover o acesso ao ambiente e ao conhecimento escolar. Para alcançar estes objetivos, o AEE: • utiliza recursos de Tecnologia Assistiva (TA) como a Comunicação Aumentativa e Alternativa – CAA; • promove a adequação dos materiais didático-pedagógicos às necessidades dos educandos; 144 UNIUBE • orienta, auxilia e promove o acesso aos recursos de informática acessível; • auxilia o estudante por meio de técnicas e recursos de orientação e mobilidade (OM); • desenvolve atividades de vida autônoma (AVA), em parceria com profissionais da arquitetura, engenharia, técnicos em edificações que contribui com a acessibilidade arquitetônica e • disponibiliza o mobiliário adequado para o estudante, atuando em parceria com a escola e com o setor de saúde, fisioterapia, terapeutas ocupacionais. O professor do AEE atua ainda na orientação, disponibilização de recursos de baixa tecnologia e pedagógicos como: • plano inclinado, • pauta ampliada, • engrossador, • ponteiras, • adaptador de escrita etc. bem como acompanha sua funcionalidade e uso na sala de aula por meio do assessoramento. Em se tratando do estudante com Deficiência Física, conforme Alves (2006) são atribuições do professor do AEE: Orientar o professor da classe comum sobre estratégias que favoreçam a autonomia e o envolvimento do aluno em todas as atividades propostas ao grupo; Orientar o professor quanto ao uso da metodologia da Educação Física Adaptada; Operacionalizar as complementações curriculares específicas necessárias à educação dos alunos com deficiência física no que se refere ao manejo de materiais adaptados e à escrita alternativa, (quando necessário), às vivências de mobilidade e acesso a todos os espaços da escola e atividades da vida diária, que envolvam a rotina escolar, dentre outras; Orientar os alunos para a adaptação ao uso de próteses, de membro superior ou inferior; Introduzir o aluno no aprendizado da informática UNIUBE 145 acessível, identificando qual o melhor recurso de tecnologia assistiva que atende às suas necessidades, considerando a sua habilidade física e sensorial atual, e capacitá-lo para o uso independente do computador; Promover a inserção dos recursos de tecnologias de informação e comunicação no espaço da sala de aula; Realizar adequação de material didático pedagógico para atender as necessidades dos alunos (ALVES, 2006, p. 28). A inclusão escolar do aluno público da Educação Especial precisa acontecer em parceria com toda a equipe escolar, para que não se torne estratégia única e isolada. Nesse sentido, é necessário um compromisso de toda a equipe pedagógica da instituição escolar para favorecer a plena participação, a autonomia e independência do estudante com Deficiência Física, objetivando seu sucesso na vida escolar e nos demais espaços sociais, com a garantia do acesso ao conhecimento e inclusão com aprendizado e desenvolvimento. Essa relação de colaboração acontece também por meio do assessoramento do professor do AEE à classe comum, ação que auxilia na garantia e organização da oferta de recursos e práticas pedagógicas adequados e condizentes com as especificidades do estudante e na promoção da acessibilidade. Para organizar os conceitos apresentados até aqui, sugerimos que escreva sobre quais são os serviços e recursos da Educação Especial essenciais para que o estudante com DF tenha acesso aos ambientes educacionais e ao currículo? Cite e explique cada um deles. AGORA É A SUA VEZ Na organização do assessoramento, o professor do AEE irá, no contexto da sala de aula analisar as necessidades do estudante com DF, identificar sua funcionalidade, suas potencialidades e a necessidade de recursos e serviços. 146 UNIUBE Por exemplo, o AEE irá observar a postura do aluno, se a altura da cadeira e mesa está adequada, se é necessário apoio para os pés, qual o melhor lugar para este estudante se sentar na sala comum, se as atividades didático- pedagógicas necessitam de adequações, como está a acessibilidade estrutural, etc. Faz-se necessário também, acompanhar a funcionalidade dos recursos disponibilizados em todos os demais espaços educativos. Cabe ao professor do AEE ainda, assessorar na flexibilização curricular, na adequação das atividades e das avaliações sempre em consonância com o projeto político pedagógico da escola, promovendo condições de acesso, participação e aprendizagem. EXEMPLIFICANDO! Esse público encontra diversas barreiras em seu dia a dia e nos diversos contextos com os quais interage. Na escola as barreiras dificultam e por vezes impossibilitam o acesso aos espaços e ao conhecimento, dentre as principais podemos citar: as arquitetônicas, as comunicacionais e as atitudinais, que englobam situações mais difíceis de serem transpostas por estes estudantes e/ou por nós em relação a eles. Vejamos cada uma delas. No que diz respeito às barreiras arquitetônicas, trata-se das mais fáceis de se identificar, porém deve-se considerar não somente a estrutura física, mas também a organização do espaço, disposição dos móveis e objetos que pode facilitar ou dificultar o deslocamento. Barreiras arquitetônicas Barreiras comunicacionais Barreiras atitudinais UNIUBE 147 As barreiras comunicacionais representam situações em que as informações não estão disponíveis para este público, seja porque não existem ou porque não são apresentadas de forma acessível. Já as barreiras atitudinais representam maior impacto para a vida das pessoas, são atitudes que podem reforçar as outras barreiras, caracterizadas pelos preconceitos e os estereótipos. Segundo Sassaki (2003), cabe à sociedade eliminar as barreiras para que as pessoas possam ter acesso aos serviços, lugares, informações e bens necessários ao seu desenvolvimento pessoal, social, educacional e profissional. Nesse sentido, é preciso que a escola se organize e remova as barreiras, promova adaptação de mobiliários e materiais didático-pedagógicos, disponha adequações e flexibilizações para acessibilidade ao conteúdo e às atividades propostas. Para proceder com adequações e adaptações de mobiliário, a equipe escolar precisa solicitar e consultar o parecer e o acompanhamento dos profissionais da área de reabilitação que acompanham o estudante (fisioterapeuta, ortopedista, terapeuta ocupacional, dentre outros). E, aos obter orientações, receituários e conhecimento técnico específico, o mobiliário pode ser adaptado de acordo com as necessidades específicas do estudante. A oferta e a organização dos serviços oferecidos pela Educação Especial, irá depender da complexidade do quadro do estudante, sua funcionalidade e os comprometimentos associados. Por exemplo, pode ser que o estudante precise do acompanhamento de um profissional de apoio escolar, para auxiliar na alimentação, higienização, locomoção e/ou na mediação das atividades escolares. Nesse sentido, aequipe escolar precisa analisar caso a caso, para verificar se há necessidade de 148 UNIUBE acompanhamento o tempo todo, em alguns momentos e/ou na realização de atividades específicas. Há casos ainda, em que os estudantes necessitam apenas de recursos adaptados e outros casos em que ele necessite apenas de acessibilidade aos espaços. Na inclusão escolar do estudante com Deficiência Física, é imprescindível que os profissionais da escola, juntamente aos professores do AEE, observem e analisem a necessidade do apoio escolar, verifiquem o tipo e a intensidade de apoios necessários, e em quais espaços e tempos esse apoio acontecerá. Para tanto é necessário analisar cada caso em particular uma vez que para alguns destes estudantes pode ser difícil, por exemplo: movimentar- se com segurança pelas salas de aula e no ambiente escolar mais amplo; manipular e usar algumas ferramentas e materiais de aprendizagem especialmente ferramentas de escrita; ter acesso a algumas atividades curriculares e à tecnologia; utilizar autonomamente o banheiro, se alimentar e trocar de roupa; ficar em posição de aprender; dentre outros. Saberes essenciais sobre a Deficiência Múltipla – DMu5.4 A conceituação da Deficiência Múltipla (DMu) é definida na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva como a associação de duas ou mais deficiências de ordem física, intelectual, sensorial, comportamental e /ou emocional (BRASIL, 2004). Essas deficiências podem variar quanto ao número, à natureza, o grau, à abrangência, consequentemente, mediante os efeitos dos comprometimentos na vida cotidiana das pessoas que a apresentam. Há ainda a consideração de que a deficiência múltipla: Não é o somatório dessas alterações que caracteriza a múltipla deficiência, mas sim o nível de desenvolvimento, as possibilidades funcionais, de comunicação, interação social e de aprendizagem que determinam as necessidades educacionais dessas pessoas (BRASIL, 2006b, p.11). UNIUBE 149 Além disso, o grau de comprometimento, as especificidades, a funcionalidade e as necessidades em cada caso precisam ser consideradas e observadas, uma vez que, para mensurar o desenvolvimento e as características da pessoa na ocorrência de determinadas deficiências, apenas os laudos médicos são insuficientes. Logo, é imprescindível considerar as potencialidades de cada um, pois o desempenho e as competências são heterogêneos e variáveis (BRASIL, 2006b, p.11), sendo extremamente relevantes para o desenvolvimento as influências do meio, as ações e as estimulações recebidas. Daí, entende-se que a educação exerce papel fundamental, uma vez que as estimulações e intervenções, quando iniciadas o mais cedo possível, resultam em melhores condições de desenvolvimento. Planejar propostas de estimulação, da ação pedagógica e organizar a inclusão de estudantes com deficiência requer que, os profissionais da escola considerem toda a complexidade presente em um quadro de deficiência, o que se agrava ao nos referirmos à Deficiência Múltipla. Vários são os aspectos, as especificidades e as condições individuais das pessoas afetadas. É imprescindível, portanto que se considere, como bem descreve Silva: A atitude de aceitação por parte da família; a intervenção adequada para atuar nas causas e nos efeitos das deficiências; a oportunidade de participação e integração da pessoa ao ambiente físico e social; o apoio adequado, com a duração necessária, para melhorar o funcionamento da pessoa no ambiente; o incentivo à autonomia e à criatividade; as atitudes favoráveis à formação do autoconceito e da autoimagem positivos. (SILVA, 2011, p. 2). Conhecer as características relacionadas às deficiências associadas na DMu em cada caso, considerar o processo de desenvolvimento e funcionalidade do estudante são atitudes essenciais para compreender suas reais necessidades dentro do contexto educacional, uma vez que essas variam conforme: grau de comprometimento, as vivências e mediações multidisciplinares ao longo da vida. 150 UNIUBE 5.5 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Múltipla No processo de inclusão educacional desse público, o movimento pedagógico precisa considerar aspectos referentes à acessibilidade, ao bem-estar, à segurança e à eliminação de barreiras. No que se refere à acessibilidade, é imprescindível ações que eliminem as barreiras comunicacionais, e atendam às necessidades posturais e de mobilidade, conforme orientam os documentos legais (BRASIL, 2006b), a instituição precisa contar com pisos antiderrapantes, com paredes pintadas em cores claras e lousa pintada na cor escura, boa luminosidade, condições de instalação elétrica para uso de equipamentos e recursos em um espaço organizado de modo favorável a mobilidade do estudante com o máximo de autonomia. Em relação aos aspectos comunicacionais, o MEC orienta que se deve considerar as necessidades, especificidades e as estratégias comunicacionais de cada estudante, para então organizar propostas de interação e comunicação que de fato sejam capazes de viabilizar o contato dele com o meio, o que pode demandar, em alguns casos da organização de códigos comunicativos e mediação. Nesse sentido, o documento parte do princípio de que “todas as pessoas se comunicam, ainda que em diferentes níveis de simbolização e com formas de comunicação diversas; assim, considera-se que qualquer comportamento poderá ser uma tentativa de comunicação” (BOSCO, 2010, p. 11). Os profissionais da escola precisam compreender e conhecer como se dá a comunicação desse estudante para então ofertar e organizar propostas e recursos que ampliem sua capacidade e seu conhecimento comunicativo. A disponibilização de diferentes serviços e recursos comunicacionais irão impactar diretamente na melhoria das condições de interação social, autonomia e independência, participação nas atividades UNIUBE 151 pedagógicas. No contexto educacional é importante proceder ainda com adequações e flexibilizações curriculares alinhadas aos conteúdos regulares, utilizar de recursos e serviços que atendam às especificidades do estudante como uso de Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA), Tecnologias Assistivas (TA) etc. Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA): área da Tecnologia Assistiva, constituída por vários métodos que se destinam à ampliação de habilidade de comunicação destinada a pessoas sem fala ou sem escrita funcional ou em defasagem nas habilidades comunicacionais. A comunicação alternativa utiliza diferentes canais de comunicação: verbais e não verbais (com auxílio de imagens). Dentre os recursos de CAA estão: pranchas de comunicação, pranchas de sinalização, vocalizadores, tecnologias assistivas, softwares específicos, a depender das especificidades em cada caso. Tecnologia Assistiva (TA): termo utilizado para identificar uma variedade de equipamentos, estratégias, recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência. Definido pelo Comitê de Ajudas Técnicas (CAT) como: Área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. (Comitê de Ajudas Técnicas – ATA VII). Atividades de Vida Autônoma (AVA): nomenclatura alterada e utilizada desde 2008 pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Refere-se ao conjunto de habilidades desempenhadas rotineiramente visando à independência, segurança, autonomia e convivência social da pessoa com deficiência em todos os ambientes relacionais, de maneira individual e coletiva. RELEMBRANDO 152UNIUBE No que se refere à postura e à mobilidade, é indispensável boa adequação e revezamento postural do estudante seja na posição sentado ou deitado, com utilização de recursos que possibilitem, facilitem e/ou ajustem a postura. Esse procedimento proporciona maior interação do educando com o contexto e promove seu acesso ao espaço e ao conhecimento. Tais adequações posturais e de mobilidade devem primar pelo conforto e pela segurança, considerando as possibilidades de uso de gestos ou movimentos, a acuidade e o resíduo visual, os movimentos da cabeça. Para tanto, é necessário conferir e reajustar constantemente essa postura, contribuindo assim para a autonomia, a independência e a comodidade do estudante. Os conceitos de Orientação e Mobilidade (OM) e Atividades para Vida Autônoma (AVA) estão descritos de forma mais aprofundada no tópico 1.3.1 que trata do Atendimento Educacional Especializado no capítulo 1. Retome a leitura para ampliar seu conhecimento e relembrar esses conceitos. Orientação e Mobilidade (OM): referem-se a um conjunto de técnicas e estratégias que auxiliam a pessoa na sua orientação e locomoção nos espaços de forma orientada e segura para conhecer o seu entorno e dele usufruir e com ele familiarizar-se e interagir (BRASIL, 2010). Definidas por Fellipe e Fellipe (1997), como: Orientação – Habilidade do indivíduo para perceber o ambiente que o cerca, estabelecendo as relações corporais, espaciais e temporais com esse espaço, através dos sentidos remanescentes. Mobilidade – capacidade do indivíduo de se mover, reagindo a estímulos internos ou externos, em equilíbrio estático ou dinâmico, (p.13). RELEMBRANDO Na organização dos recursos e técnicas de orientação e mobilidade, é importante identificar as necessidades individuais e os contextos em que elas se manifestam, para que as propostas pedagógicas estejam UNIUBE 153 organizadas e estruturadas garantindo condições de acesso, aprendizado e desenvolvimento dos estudantes. Assim, os objetivos educacionais precisam considerar, além das necessidades específicas do estudante, seus ritmos e estilos de aprendizagem. Desse modo, as escolhas e estratégias metodológicas, as flexibilizações curriculares, as adequações de recursos, espaços e critérios avaliativos precisam ser personalizados, valorizando as potencialidades e promovendo a participação efetiva do estudante em seu processo educacional. Em relação aos estudantes com Deficiência Múltipla (DMu), Cró Rossi (2012) sugere ainda algumas estratégias de trabalho como: identificar os parceiros com quem eles se comunicam por meio do nome, de um gesto ou de um objeto de referência; Estruturar as ações no tempo de forma sistemática, como lavar as mãos antes de comer, vestir o casaco antes de ir para casa; Criar várias maneiras para se comunicar com o aluno de acordo com a capacidade dele; Dar tempo para que a criança responda às iniciativas propostas; Organizar um calendário do tempo indicando as ações diárias e a sequência das mesmas; Diversificar os contextos e os parceiros de comunicação quando for levá-lo à sala de aula, ao recreio (CRÓ ROSSI, 2012, p. 213-214). Essas sugestões apontam para a necessidade de a instituição escolar oferecer um trabalho que considere, respeite e valorize as possibilidades destes estudantes, que reconheça a importância da comunicação em seus processos de interação e impulsione o desenvolvimento socioeducacional. A instituição escolar precisa ofertar, portanto, condições estruturais e organizacionais favoráveis ao estudante e à viabilização de uma proposta educacional flexível, personalizada e acessível, com um currículo escolar dinâmico e flexível que responda adequadamente e de forma eficaz às necessidades de cada um. Para tanto, de acordo com o MEC, é preciso haver: [...] colaboração entre educação, saúde e assistência social, ação complementar dos profissionais nas diferentes áreas do conhecimento, como neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia escolar, 154 UNIUBE quando necessário, fornecendo informações e orientações especificas para o atendimento às peculiaridades decorrentes de cada deficiência. Essas ações integradas de educação, saúde e assistência social são essenciais e imprescindíveis para que as necessidades educacionais específicas sejam atendidas, mas não justificam o afastamento ou o atendimento educacional segregado. (BRASIL, 2004, p. 12). O movimento pedagógico para inclusão escolar do estudante com Deficiência Múltipla (DMu) precisa acontecer considerando as potencialidades e as necessidades desse público, em um ambiente organizado de modo acessível em todos os sentidos. Deve haver oferta de práticas e atividades adequadas e funcionais que de fato favoreçam o desenvolvimento da comunicação e das interações sociais e que considere as especificidades, o ritmo e o tempo de cada um, contribuindo com o desenvolvimento pleno, com autonomia e participação. 5.6 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Múltipla: estimulação, orientação e mobilidade O estudante com DMu necessita de mediação no acesso ao ambiente educacional e ao conhecimento escolar. Neste sentido, a Educação Especial disponibiliza serviços e recursos responsáveis por promover, possibilitar e ampliar o contexto comunicacional e sua mobilidade. Dentre estes, o Atendimento Educacional Especializado – AEE, que é serviço responsável por organizar espaços e mobiliários, propor estratégias, adequações e recursos com utilização de diferentes formas de linguagem e da Tecnologia Assistiva, dentre outros. Cabe ao professor do AEE, a adequação dos materiais didáticos pedagógicos às necessidades comunicacionais e posturais desses estudantes, proceder orientações e promover parceria com profissionais da arquitetura, engenharia e técnicos em edificações para garantir a acessibilidade arquitetônica, adequação de recursos de informática, mobiliário e auxílio à mobilidade. UNIUBE 155 Ainda, precisa estabelecer parceria constante com o professor da sala comum, disponibilizando: • orientações, • adequações, • estratégias e ainda • recursos de acessibilidade, sempre avaliando sua funcionalidade. É fundamental ainda que esse profissional atue na sensibilização e orientação de toda a comunidade escolar, esclarecendo sobre: • forma de comunicação, • interação social, • locomoção, • necessidades específicas, • eliminação de barreiras, • flexibilizações e adequações necessárias e potencialidades do estudante. Nos casos de dificuldades importantes relacionadas à comunicação, disponibilizar e orientar o uso de sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), capazes de ampliar as habilidades para outras formas de comunicação, definida por Bersch e Schirmer (2005, p. 89), como “uma das áreas da TA que atende pessoas sem fala ou escrita funcional ou em defasagem entre sua necessidade comunicativa e sua habilidade em falar e/ou escrever.” Para organizar e promoção da inclusão escolar do estudante com Deficiência Múltipla, quais aspectos a instituição escolar deve considerar e como deve se organizar? AGORA É A SUA VEZ 156 UNIUBE Dentre os serviços da Educação Especial para o atendimento às especificidades comunicacionais, posturais, de mobilidade e demais cuidados junto a esse público, conta com a possibilidade de mediação do profissional de apoio escolar, sempre que comprovada a necessidade, assegurado nas legislações vigentes (Lei 12.764/2012, LBI 13.146/2015). Esse profissional atuará com apoio referente a alimentação, higiene, locomoção e na mediação das atividades escolares. A necessidade da presença deste profissional, bem como o tipo e a intensidade de apoio a ser oferecido, dependerá de uma análise pedagógica criteriosa e da avaliação prévia realizada pelos profissionais da escola junto ao professor do AEE,sobre as reais necessidades e a funcionalidade do estudante em todo o contexto escolar. Assim, cada caso precisa ser considerado e analisado em sua individualidade. Para ampliar seus conhecimentos sobre os documentos legais e sobre as concepções acerca das deficiências tratadas nesse capítulo, sugerimos as leituras: BRASIL. A inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. 2. ed. Brasília: MTE, SIT, 2007. Disponível em: http://inclusao. coppetec.coppe.ufrj.br/documentos/inclusao_pessoas_deficienia_mercado. pdf. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Casa Civil, 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 29 jan. 2020. BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a lei brasileira de Inclusão da pessoa com deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/ l13146.htm. Acesso em: 29 jan. 2020. AMPLIANDO O CONHECIMENTO UNIUBE 157 BRASIL. Lei nº 10.098 de 19 de dezembro de 200. Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2000/ lei-10098-19-dezembro-2000-377651-publicacaooriginal-1-pl.html. Acesso em: 29 jan. 2020. BRASIL. Política nacional da educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: MEC/SEESP. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf. Acesso em: 29 jan. 2020. BRASIL. Orientação e mobilidade. Conhecimentos básicos para a inclusão da pessoa com deficiência visual. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ seesp/arquivos/pdf/ori_mobi.pdf. Acesso em: jan. 2020. GIACOMINI, Lília. A educação especial na perspectiva da inclusão escolar: orientação e mobilidade, adequação postural e acessibilidade espacial. Brasília: MEC/SEEP; [Fortaleza]: Universidade Federal do Ceará, 2010. v. 7. (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar). Disponível em: http:// portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=7103- fasciculo-7-pdf&Itemid=30192. Acesso em: jan. 2020. MELO. Amanda Meincke. A educação especial na perspectiva da inclusão escolar: livro acessível e informática acessível. Brasília: MEC/ SEEP; [Fortaleza]: Universidade Federal do Ceará, 2010. v. 8. (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar). Disponível em: https://central3.to.gov.br/arquivo/299630/. Acesso em: jan. 2020. Para reconhecer as comorbidades presentes em um quadro de deficiência e para planejar ações de estimação e práticas e estratégias pedagógicas, é preciso aprofundar seus saberes sobre as deficiências e ainda conhecer o estudante e suas especificidades. 158 UNIUBE Considerações finais5.7 Organizar a inclusão dos estudantes com deficiência física e daqueles com deficiência múltipla requer conhecer o estudante, suas especificidades e os recursos e as adequações necessários para garantir o acesso aos espaços escolares e ao conhecimento. Portanto, faz-se necessário proporcionar os recursos físicos, materiais e humanos, para que ele usufrua dos espaços com liberdade de movimento, segurança e autonomia, e a disponibilização de sistemas de comunicação e tecnologias, estratégias e práticas pedagógicas, entre outros recursos, contribuindo para a potencialização de suas habilidades e seu desenvolvimento cognitivo. Resumo O processo de inclusão educacional dos alunos com deficiência física e daqueles com deficiência múltipla precisa ser pensado e organizado de forma coletiva e construtiva pela instituição escolar e por toda a comunidade educacional, possibilitando a utilização do espaço escolar como um todo. Demanda promover adequações no ambiente escolar, no Projeto Político Pedagógico, flexibilizações no currículo, enfim, uma organização educacional para eliminação dos obstáculos que impedem ou dificultam sua participação com autonomia e segurança. Uma vez que o ambiente escolar é espaço de aprendizagem para todos, a organização dele mesmo e as concepções e atitudes daqueles que ali atuam precisam visar ao “pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, de acordo com a Constituição Federal (1988, art.5º), e ainda promover, “a igualdade de condições e acesso e permanência na escola” (art.208), não podendo excluir nenhuma pessoa em razão de sua origem, sexo, idade, raça, deficiência ou ausência dela, ou seja, privar nenhum de usufruir desse espaço, o que configuraria impedimento para se desenvolverem de forma plena. UNIUBE 159 Assim, uma das formas de a escola promover a inclusão desses estudantes para além do acesso às turmas comuns é a disponibilização dos serviços e recursos da Educação Especial para garantir o acesso à escolarização, com aprendizado e desenvolvimento. Nesse sentido, um “pontapé” inicial é que os profissionais da educação conheçam as características, conceituações, serviços e recursos da Educação Especial e as adequações necessárias ao contexto educacional para garantir o direito à escolarização deste público, com acesso, equidade, permanência e aprendizado. Referências ALVES, Denise de Oliveira et al.. Sala de recursos multifuncionais: espaços para atendimento educacional especializado. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2006. Disponível em: http://www.oneesp.ufscar.br/ orientacoes_srm_2006.pdf. Acesso em: janeiro 2020. BERSCH, Rita; SCHIRMER, Carolina R. Tecnologia Assistiva no Processo Educacional. In: BLANCO, Rosa et al. Ensaios pedagógicos: construindo escolas inclusivas. Brasília: MEC/SEESP, 2005. BERNAL, Cíntia de Menezes Fernandes. Desenvolvimento e aprendizagem dos alunos com deficiência: subsídios da abordagem histórico-cultural. Polêmica, v. 9, n. 1, p. 81-91. Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: http://www.polemica.uerj.br/ ojs/index.php/polemica/article/viewFile/11/13. Acesso em: jan. 2020. BOSCO, Ismênia Carolina Mota Gomes et al.. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar: surdocegueira e deficiência múltipla. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial [Fortaleza] : Universidade Federal do Ceará, 2010. v. 5. (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar). Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/novembro-2010-pdf/ 7107-fasciculo-5-pdf/file. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. A inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais: deficiência física. Brasília: MEC/SEESP, 2006a. BRASIL. Atendimento educacional especializado: Deficiência Física, Brasília, 2007a. BRASIL. Deficiência Múltipla, BRASÍLIA: INEP, 2007b. Disponível em: http://www.inep. gov.br. Acesso em: jan. 2020. 160 UNIUBE BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: dificuldades acentuadas de aprendizagem – deficiência múltipla. Brasília: 2004. BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: educação infantil. Brasília: MEC, 2006b. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para assuntos jurídicos. Decreto N. 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5296.htm. Acesso em: 21 jul. 2020. CRO ROSSI, Fernanda Lima. Deficiência múltipla. In: DECHICHI, Claudia et al. (org.). Curso Básico: educação especial e atendimento educacional especializado. Uberlândia: EDUFU, 2012. CAT. SDHPR. Comitê de AjudasTécnicas, Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (CORDE/SEDH/PR). ATA VII. 2007. Disponível em: https://www.assistiva.com.br/Ata_VII_Reuni%C3%A3o_do_Comite_ de_Ajudas_T%C3%A9cnicas.pdf Acesso em jan. de 2020. FELIPPE, J.A. de M.; FELIPPE, V.L.R. Orientação e Mobilidade. São Paulo: Laramara, 1997. GODÓI, Ana Maria de; GALASSO, Roberta; MIOSSO, Sônia Maria Pinc. Saberes e Práticas da inclusão: Dificuldades de comunicações sinalização, Deficiência Física. 4 ed. Brasília. 2006. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/ pdf/deficienciafisica.pdf. Acesso em jan. 2020. SASSAKI, R. K. Vida Independente: história, movimento, liderança, conceito, filosofia e fundamentos. São Paulo: RNR, 2003. SILVA, Yara Cristina Romano. Deficiência Múltipla: conceito e caracterização. In: ENCONTRO INTERNACIONAL DE PRODUÇÃO CIENTÍFICA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ/PR, 7., 2011, Paraná. Anais [...]. Maringá: CESUMAR, 2011. Disponível em: http://www.conhecer.org.br/download/cp/inclusao/m3/ leitura%203.pdf. Acesso em: 29 jan. 2020. SILVA, Adilson Florentino da et al. A inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais: deficiência física. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2006. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/ arquivos/pdf/deffisica.pdf. Acesso em jan. 2020. Introdução Inclusão Escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual – DI Capítulo 6 Em uma perspectiva histórica, o percurso das pessoas com deficiência é permeado por de inúmeras situações de preconceito e de violação dos direitos à cidadania. E no caso da Deficiência Intelectual, estes ainda tiveram excluídas, ao longo da história, qualquer iniciativa que pudesse contribuir para sua aprendizagem, devido à crença em uma incapacidade geral para aprender e se desenvolver. Nesse contexto muitas dessas pessoas era tratadas como dementes, idiotas e loucas e consideradas estorvo para familiares e sociedade. Assim, a inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual representa importante desafio educacional, uma vez que exige desconstruir estereótipos e concepções equivocadas, compreender suas reais necessidades e especificidades. Nesse capítulo, estudaremos de que forma a construção social e cultural dos conceitos acerca da Deficiência Intelectual definiu as ações políticas, sociais e culturais em prol deles. E, ainda, iremos verificar os vestígios de conceitos equivocados ainda persistentes no cerne do senso comum. Dessa forma, a conceituação e caracterização desse público, o reconhecimento de suas especificidades e reais necessidades não pode ser concebido de forma abstrata ou descontextualizada 162 UNIUBE das práticas sociais. A inclusão escolar desse público demanda ainda reconhecer o papel da mediação circunscrita no contexto cultural, histórico e social como geradores de interpretações e significados que se efetivam por meio de ações inclusivas ou não. Analisaremos aspectos históricos, conceituais, políticos e educacionais da inclusão escolar da pessoa com Deficiência Intelectual e o movimento pedagógico necessário à garantia de acesso ao espaço escolar e ao conhecimento. Também abordaremos os serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar desse público, com desenvolvimento e aprendizado. Ao final deste estudo, esperamos que você seja capaz de: • explicar as relações históricas, sociais e culturais com as transformações concetiuais acerca da terminologia, identificação e conceituação da Deficiência Intelectual; • organizar e planejar ações pedagógicas que contribuam para o desenvolvimento e a aprendizagem e que promovam inclusão educacional desse público; • planejar e organizar serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar do estudante com Deficiência Intelectual. 6.1 Saberes essenciais sobre a Deficiência Intelectual – DI 6.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual – DI 6.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual – DI 6.4 Considerações finais Objetivos Esquema UNIUBE 163 Saberes essenciais sobre a Deficiência Intelectual – DI6.1 Para conhecer as características e conceituações a respeito da Deficiência Intelectual, é preciso refazer o seu percurso histórico, compreendendo de que forma as relações históricas, políticas, sociais e culturais se relacionam com as transformações conceituais, acerca da terminologia, da identificação e da conceituação da Deficiência Intelectual. Vale ressaltar que essas alterações não se limitaram à nomenclatura, mas às concepções teóricas, políticas, sociais e culturais que impactaram os princípios e as práticas da Educação. A Deficiência Intelectual até o século XVIII era considerada doença mental e tratada exclusivamente pela medicina, por meio da institucionalização dessas pessoas, tendo como parâmetro para definição dos casos a medida do coeficiente de inteligência (QI). Segundo a AAMR – American Association for Mental (Associação Americana de Retardo Mental) fundada em 1876: Retardo mental é o funcionamento intelectual significativamente abaixo da média, acompanhado de limitações significativas no funcionamento adaptativo, em pelo menos duas das seguintes áreas de habilidades: comunicação, autocuidado, vida doméstica, habilidades sociais/interpessoais, uso de recursos comunitários, autossuficiência, habilidades acadêmicas, trabalho, lazer, saúde e segurança. O início deve ocorrer antes dos dezoito anos de idade. (LUCKASSON et al., 1992, p. 5). Nessa época, na definição proposta pela AAMR, o “funcionamento intelectual” era entendido como uma habilidade mental geral, ou seja, o comprometimento da mente como um todo; e em manuais anteriores, revisados entre 1933 e 1992, ainda era recomendada a medida de QI para definir a deficiência mental. 164 UNIUBE De acordo com Silva (2009), tradicionalmente a sociedade percebeu e em alguns contextos ainda percebe a deficiência como uma doença crônica, e o deficiente como inválido e incapaz. Tal fato pode ser observado nas variações históricas do conceito de Deficiência intelectual conforme o contexto em que se encontra, a cultura na qual a pessoa está inserida e a época em questão, demonstradas por Pessotti (1984): Quadro 1 – Contextualização histórica dos conceitos referentes à deficiência PERÍODO CONCEITUAÇÃO Antiguidade Marcada por atitudes como: negligenciar, maltratar, abandonar ou eliminar, justificadas em nome da sobrevivência, da produtividade, da moral ou de Deus. Século XVI Passa da abordagem moral para abordagem médica, concepção de deficiência como doença. Surgimento do primeiro hospital psiquiátrico, perspectiva de cura. Século XVII Concepção de um ser inútil para a lavoura, artesanato e consumidor improdutivo da renda familiar, não tem outro destino além do asilo (PESSOTTI, 1984). Séculos XVIII e XIX Tratada exclusivamente pela medicina como doença mental, eram institucionalizados em localidades isoladas da família e da sociedade, a título de proteção, tratamento ou educação. Descritos na literatura como: idiotia, imbecilidade e debilidade. 1908 Considerada como estado de defeito mental devido ao desenvolvimento cerebral incompleto, incapacidade, com a indicação de segregação. Definições: idiota, imbecil, débil mental, mongoloide, oligofrênico. 1941 Define a DI como estado de incompetência social, incurável por meio de tratamento e irremediável por meio de treinamento. 1961 AAMR define e classifica a partir do funcionamento intelectual e comportamento adaptativo, utilizados no manual de 1961 da AAMR. Afasta-se o paradigma da institucionalização e cria-se o conceito da integração, fundamentado na ideologia da normalização. Ainda conhecidos como: excepcional, retardado. UNIUBE 165 1992 A Associação Americanade Retardo Mental desaconselha a utilização das categorias de retardo mental e recomenda concepção multifatorial com: limitações do funcionamento intelectual; nas habilidades adaptativas e idade de início das manifestações ou sinais da deficiência. 1995 O termo Deficiência Intelectual utilizado oficialmente no simpósio Deficiência Intelectual: Programas, Políticas e Planejamento para o futuro, realizado pela Organização das Nações Unidas em Nova York. 2002 A Associação Americana de Retardo Mental propôs uma concepção da deficiência, considerando a relação entre o funcionamento do indivíduo, os apoios de que este dispõe e as habilidades intelectuais, comportamento adaptativo, participação, interações e papéis sociais; e o contexto. 2004 A Organização Pan-Americana da Saúde e Organização Mundial da Saúde aprovaram, em 2004, na Convenção de Montreal, Canadá, com a participação do Brasil, a ‘Declaração de Montreal sobre Deficiência Intelectual’, um marco. 2007 A AAMR, “American Association for Mental Retardation”, fundada em 1876, em um gesto de renovação e sintonia com os novos tempos, alterou, em 2007, seu nome e sigla para “American Association on Intellectual and Developmental Disabilities”, AAIDD, uma tentativa de corrigir possíveis interpretações ultrapassadas sobre as verdadeiras condições destas pessoas. 2007 aos dias atuais Os documentos oficiais e literários vêm aos poucos substituindo o termo “deficiência mental e/ou retardo mental” por Deficiência Intelectual, por se compreender que eles não refletem seu conceito e não traduzem dignidade à pessoa, pelo contrário historicamente a desvaloriza. O termo Deficiência Intelectual reflete mudança na concepção da deficiência conforme descrita pela AAIDD e OMS, alinhada aos conceitos fundamentados nos comportamentos funcionais e fatores contextualizados sob a base teórica social e ecológica. Fonte: Pessotti (1984); ALMEIDA (2004) e AAMR (2006). Conforme o percurso histórico apresentado no Quadro 1, toda terminologia tem cunho conceitual e sua alteração é acompanhada de mudanças funcionais para uso e compreensão da pessoa em determinado contexto 166 UNIUBE e momento histórico. A alteração da nomenclatura para Deficiência Intelectual não trata apenas de uma alteração de termo, mas uma nova concepção, uma nova maneira de ver, identificar e considerar as pessoas com deficiência intelectual, em uma concepção multidimensional, funcional e bioecológica de percepção das pessoas. Conforme Aranha (1995), a deficiência intelectual deve ser encarada como uma construção social, não alheia à concepção de homem e de sociedade vigentes, e deve ser tratada como um fenômeno multideterminado. Explique com suas palavras o que representa nas esferas sociais, educacionais e culturais a alteração da terminologia para Deficiência Intelectual. AGORA É A SUA VEZ A alteração dessa terminologia reflete também ações importantes no sentido de diferenciá-la da doença mental (transtornos mentais que não necessariamente estão associados ao déficit intelectual), uma vez que distinguir uma condição da outra e compreender as diferenças entre elas é essencial para atender às suas especificidades. A terminologia “intelectual” objetiva ainda se referir às limitações do intelecto e as funções cognitivas especificamente, e não ao funcionamento da mente como um todo (como compreendida em épocas anteriores). Em suma, a Deficiência Intelectual – DI, embora codificada em uma classificação médica das doenças, não se trata de nenhum transtorno médico ou mental. Trata-se de alterações no funcionamento cognitivo, com início na infância, e que pode ter seus impactos minimizados a depender das estimulações e apoios adequados. (AAMR, 2006). E não deve, portanto, ser definida e/ou classificada apenas por testes de inteligência, devendo para tanto, de acordo com Diehl (2006), se considerar o contexto, o histórico de vida, os estímulos recebidos, atentando-se para o fato de que pessoas com o mesmo coeficiente de inteligência apresentam comportamentos e respostas cognitivas totalmente diversificados. UNIUBE 167 O conceito utilizado em épocas anteriores concebe a deficiência mental como análoga à doença mental e a crença de que essa pessoa deficiente possuía uma incapacidade localizada nos processos mentais típicos do ser humano. Isto é, no cérebro em geral, com uma inaptidão cognitiva e uma ausência de memória para apreensão e retenção de saberes de qualquer natureza, que a caracterizaria como uma pessoa que pouco ou nada aprende. Esse equívoco teórico ainda acompanha algumas pessoas, contextos e espaços, infelizmente. IMPORTANTE! A definição e conceituação de Deficiência Intelectual foi ressignificada e é, atualmente, definida e reconhecida no sistema de classificação da Associação Americana de Deficiência Intelectual e Desenvolvimento – AAIDD: Caracteriza-se por um funcionamento intelectual significativamente abaixo da média, ocorrendo juntamente com as limitações de duas ou mais áreas de habilidades adaptativas: comunicação, cuidados pessoais, vida no lar, habilidades sociais, utilização dos recursos da comunidade, autonomia, saúde e segurança, habilidades acadêmicas funcionais, lazer e trabalho. A deficiência intelectual deverá se manifestar antes dos 18 anos de idade. (AAMR, 2006, p. 11). Nessa concepção atualizada, destaca- se que as limitações no funcionamento se caracterizam pela dificuldade na aprendizagem e execução de determinadas atividades da vida relacionadas a limitações da inteligência conceitual, prática e social. Inteligência Palavra originária do latim intellectus. Refere-se à atividade mental humana na qual as reações psíquicas são atribuídas ao ato de raciocinar, pensar, aprender e apreender ideias. De acordo com Rodrigues (2015, p.4), inteligência significa “capacidade mental bastante geral que, entre outras coisas, envolve a habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de forma abstrata, compreender ideias complexas, aprender rápido e aprender com a experiência”. 168 UNIUBE Definidas por Alonso (1995) e Cidade (2002), como: Vejamos cada uma delas, a seguir. • Inteligência prática: refere-se à capacidade de uma pessoa se manter independente, com autonomia, nas tarefas e atividades da vida diária, habilidades sensório-motoras, de autocuidado, de segurança e proteção. • Inteligência social: a habilidade de se comportar de maneira adequada na sociedade. Envolve comunicação, vida familiar e utilização dos recursos da sociedade. • Inteligência conceitual: diz respeito à cognição e aprendizagem de coisas abstratas. Essas inteligências influenciam o desenvolvimento das habilidades adaptativas de que trata a conceituação de Deficiência Intelectual proposta pela AAMR (2006) e referem-se ao “conjunto de habilidades conceituais, sociais e práticas adquiridas pela pessoa para corresponder às demandas da vida cotidiana.” (LCKASSON et al., 2002, p. 14). Inteligêndia prática Inteligência social Inteligência conceitual UNIUBE 169 Assim definidas: (a) Habilidades conceituais – relacionadas aos aspectos acadêmicos, cognitivos e de comunicação. São exemplos dessas habilidades: a linguagem (receptiva e expressiva); a leitura e escrita; os conceitos relacionados ao exercício da autonomia. (b) Habilidades sociais – relacionadas à competência social. São exemplos dessas habilidades: a responsabilidade; a autoestima; as habilidades interpessoais; a credulidade e ingenuidade (probabilidade de ser enganado, manipulado e alvo de abuso ou violência etc.); a observância de regras, normas e leis; evitar vitimização. (c) Habilidades práticas – relacionadas ao exercício da autonomia. São exemplos: as atividades de vida diária: alimentar-se e preparar alimentos; arrumar a casa; deslocar-se de maneira independente; utilizar meios de transporte; tomarmedicação; manejar dinheiro; usar telefone; cuidar da higiene e do vestuário; as atividades ocupacionais – laborativas e relativas a emprego e trabalho; as atividades que promovem a segurança pessoal. (LCKASSON et al., 2002, p. 14). As limitações nessas habilidades prejudicam as relações da pessoa com o ambiente e dificultam seu convívio no dia a dia por se constituírem áreas do comportamento adaptativo, ou seja, habilidades adaptativas. A AAMR (2006) define 10 habilidades adaptativas conforme Quadro 2: Quadro 2 – Habilidades Adaptativas ÁREA Caracterização COMUNICAÇÃO Envolve habilidade/capacidade de entender certas informações e transmiti-las utilizando: palavras escritas, faladas, gestos, expressão facial, movimento corporal, sinais, toque etc. CUIDADOS PESSOAIS Diz respeito à capacidade de se alimentar, vestir-se, tomar banho, escovar os dentes, entre outras atividades que assegurem a higiene pessoal. VIDA NO LAR Relacionam-se à realização de tarefas que possibilitam o funcionamento de uma casa ou de um espaço: cuidado com objetos, roupas e bens, trabalhos domésticos, relação familiar, comunicação de preferências e necessidades, interação social e habilidades funcionais na casa ou no espaço. 170 UNIUBE HABILIDADES SOCIAIS Habilidades em relacionar-se socialmente, estabelecer trocas com a comunidade, reconhecer sentimentos, controlar impulsos, capacidade de escolhas, respeitar as relações com vizinhos, colegas, amigos e normas. UTILIZAÇÃO DOS RECURSOS DA COMUNIDADE Inclui o uso de todos os recursos oferecidos pela comunidade como utilizar meios de transportes, fazer compras (em lojas, supermercados, padarias, entre outros), frequentar igrejas, parques, clubes. AUTONOMIA Habilidades relacionadas à capacidade de se autossustentar, fazer escolhas, seguir horários, realizar as tarefas necessárias, pedir ajuda quando necessário, resolver problemas, aptidão para se defender. SAÚDE E SEGURANÇA Habilidade de conhecer, compreender e seguir regras e leis, manutenção da saúde, prevenção de acidentes, evitar perigos, hábitos pessoais saudáveis, comunicar necessidades e preferências, interagir com a sociedade. DESEMPENHO ACADÊMICO FUNCIONAL Relacionada à aprendizagem escolar e habilidade cognitiva, relação direta com a vida da cotidiana: ler, escrever, utilizar conceitos básicos da matemática, ciências e geografia e noções sobre saúde e sexualidade. Envolve não apenas o desempenho na escola, mas os conhecimentos que contribuem para a maior funcionalidade na vida do indivíduo. LAZER Refere-se ao interesse sobre o lazer e tempo livre, participar de atividades de entretenimento individual e coletivo, comunicar preferências e interesses pessoais. Utilizar recursos e espaços de lazer em casa e na comunidade, comportar-se adequadamente, comunicar e interagir com outras pessoas. TRABALHO Habilidades relacionadas à realização de atividades/trabalhos na comunidade, comportamento social apropriado, conhecer horários, cooperar com as pessoas, iniciar e concluir tarefas, cumprir prazos, lidar com críticas, manejar o dinheiro, respeitar hierarquias, conhecer as próprias limitações e a dos colegas de trabalho, entre outras. Fonte: AAMR, 2006. UNIUBE 171 Assim, a atual concepção de deficiência intelectual apresenta uma visão inovadora e global do ser humano, o que requer transformações na disponibilização dos serviços para esse público, na retirada da ênfase do critério quantitativo do Coeficiente de Inteligência (QI) e na necessidade de se considerar as limitações das habilidades adaptativas em interação com o meio. Nesse sentido, é necessário repensar o conceito de inadaptação, uma vez que, de acordo com Mantoan (1997), assim como o meio físico e a arquitetura das escolas estão sendo preparadas para atender os alunos em cadeiras de rodas, o ambiente cognitivo delas mesmas deve ser planejado para o atendimento às pessoas com deficiência intelectual. 6.2 Movimento pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual – DI Pensar a inclusão escolar do estudante com deficiência intelectual requer uma transformação mais profunda nas concepções de aluno, de conhecimento, de função da escola, em seus métodos, procedimentos e práticas, tendo em vista que as especificidades desse público se concentram nos processos de construção do conhecimento, não podendo, portanto, ser enquadrados como inaptos e sem possibilidades reais de aprendizagem. Dessa maneira, o laudo de deficiência intelectual não pode ser considerado condição de incapacidade da aprendizagem e de realização das atividades pedagógicas. Em contrapartida, o planejamento pedagógico precisa considerar habilidades, características individuais, adequação do material e do recurso utilizado no processo de ensino do estudante, garantindo seu acesso ao conhecimento. Para tanto, é urgente dirimir o estigma social da deficiência intelectual como alguém que possui 172 UNIUBE ausência de inteligência, concepção equivocada, “o deficiente intelectual aprende de acordo com suas características e em ritmo próprio” (RODRIGUES, 2019, p. 54), cabe à escola a responsabilidade por promover seu desenvolvimento e desconstruir equívocos que impedem ou dificultam sua inclusão. A pessoa com DI possui uma organização cognitiva funcionalmente diferente e é capaz de realizar aprendizagens e construir conceitos em ritmos e tempos diversos. Sendo assim, necessita de estratégias e procedimentos pedagógicos apropriados, flexíveis e adequados, por meio de processos didático-metodológicos, mediações e interferências planejadas, considerando os processos cognitivos intentados na sua relação com o mundo, na relação e assimilação do conhecimento, do pensamento e da sua intervenção no meio. Para tanto, faz-se necessário uma prática educativa em constante reflexão e ressignificação sobre a concepção de aluno, de ensino e de aprendizagem, de seus fundamentos e práticas, considerando que as respostas cognitivas mais ou menos eficientes dependem: • do contexto, • da situação vivenciada, • dos estímulos recebidos e/ou • dos conteúdos envolvidos na execução de uma tarefa. A desconsideração ou o desconhecimento desses aspectos leva, consequentemente, a práticas educativas excludentes e a organizações curriculares limitantes ou empobrecidas. É fundamental rejeitar a ideia de funções cognitivas fixas e imutáveis, ressaltar a capacidade de neuroplasticidade cerebral, cuja estrutura e modos de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do desenvolvimento individual, mediante a estimulação adequada. Neuroplasticidade cerebral Capacidade do sistema nervoso central de modificar sua organização estrutural própria e de funcionamento em resposta a condições mutantes, aprendizados e a estímulos repetidos” (FERREIRA, 2009, p.56), ou ainda “é uma propriedade inerente ao sistema nervoso com a capacidade de modificar o seu funcionamento e de se reorganizar” (WAJNSZTEJN, 2009, p. 30). UNIUBE 173 O ser humano altera e cria instrumentos e participa da criação do meio. As manifestações sociais e afetivas nas ações coletivas ativam as funções cognitivas, assim, pode-se concluir que o conhecimento é antes de tudo social e ao ser internalizado pelo sujeito passa para o plano individual. Vygotsky (1997) esclarece que o trabalho pedagógico não pode encontrar na deficiência um limitante nem uma justificativa para o insucesso, deve ao contrário se direcionar para as habilidades que os indivíduos com deficiência possuam e que configuram, segundo o autor, a base para o desenvolvimento integral de suas capacidades. Este novo posicionamento nos induz a afirmar, ainda, que de forma aparente, como pontua Vygotsky (1997, p. 76): “no lugar da mística foi posta a ciência, no lugar do preconceito, a experiência e o estudo”, ou seja, o conhecimento temdemonstrado que o olhar diferenciado focado na condição humana e não na deficiência, é o grande diferencial do processo inclusivo (LURIA; VIGOTSKI; LURIA; LEONTIEV, 2001). Vygotsky: Lev Semyonovich Vygotsky, (1896 – 1934). Foi um psicólogo russo, proponente da Psicologia cultural-histórica, pioneiro nos conceitos relacionados ao desenvolvimento intelectual das crianças, importância das interações sociais e condições de vida. Vygotsky se dedicou aos campos que, à época, eram denominados de “pedologia” (estudo interdisciplinar da criança) e “defectologia” (estudo de pessoas com deficiência ou transtornos de desenvolvimento). Em sua obra “Obras Escogidas” ele se opõe à segregação escolar dos estudantes com deficiência. Considera que a pessoa com algum tipo de deficiência, se isolada no âmbito familiar, escolar ou comunitário, muito mais que apenas um problema social ou ético, pode apresentar prejuízos psicossociais delicados na dinâmica sociogênica de seu desenvolvimento infantil sadio. RELEMBRANDO 174 UNIUBE Mediação: A mediação é um conceito fundamental na teoria de Vygotsky. O autor aponta que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas uma relação mediada por sistemas simbólicos, entre o sujeito e o mundo. Essa concepção compreende o desenvolvimento da pessoa em sua relação com o ambiente sociocultural em que vive. E ainda, por Vygotsky (2007) considerar que o desenvolvimento e a aprendizagem são interdependentes e fundamentalmente sociais, que ocorrem na interação dos sujeitos, o autor enfatiza a importância da mediação e a caracteriza na Zona de Desenvolvimento Proximal/ Potencial (ZDP), ou seja, na distância entre o que a criança pode fazer sozinha e o que pode realizar com a ajuda de outro, que não é a mesma para todas as pessoas e na qual a interação social tem papel central. O fato de as crianças não conseguirem realizar algumas tarefas sozinhas, mas conseguirem realizar com ajuda, para Vygotsky, é um indicativo de que elas poderão resolver autonomamente, no futuro, situações em que agora requer colaboração de outrem. [...] o que a criança pode fazer hoje com o auxílio de um adulto, poderá fazê-lo amanhã por si só. A área de desenvolvimento potencial permite-nos, pois, determinar os futuros passos da criança e a dinâmica de seu desenvolvimento e examinar não só o que o desenvolvimento já produziu, mas também o que produzirá no processo de maturação. (VYGOTSKY, 2007, p. 114). Zona de desenvolvimento real Zona de desenvolvimento potencial A criança é capaz de fazer algo sozinha. A criança é capaz de fazer algo com a ajuda de alguém (mediação). ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL UNIUBE 175 Em termos educacionais, a noção da Zona de Desenvolvimento Proximal/Potencial (ZDP) é essencial para o professor, tendo em vista que, para interferir no processo de desenvolvimento e aprendizagem dos estudantes, é preciso conhecer o nível de conhecimento real já adquirido, ou seja, aquilo que a criança já é capaz de fazer por si própria e o nível de conhecimento potencial, que é sua capacidade de realizar uma atividade com o auxílio de outra pessoa. A partir dessas informações, o professor poderá, então, oferecer condições concretas promotoras de desenvolvimento e aprendizado, por meio de caminhos alternativos e recursos especiais, procedimentos, ações, instrumentos, equipamentos, técnicas, recursos pedagógicos, adequações das atividades etc.; com o propósito de promover a participação, a aprendizagem e o desenvolvimento. Ainda de acordo com Vygotsky (1997, p. 198): [...] entre a criança com deficiência e a criança dita normal não há nenhuma diferença essencial, uns e outros seguem as mesmas leis de desenvolvimento, a diferença consiste somente no modo em que se desenvolve o desenvolvimento. Para o autor, a diferença se concentra no fato de que a deficiência modifica, antes de mais nada, a posição social da criança, sua aceitação no meio e envolve um fator biológico, frente ao qual o educador tem pouco ou nada a fazer. Sendo assim, ele deve direcionar seu trabalho para as consequências, para as barreiras do contexto e para os processos compensatórios em um trabalho centrado não na deficiência, mas nos desafios que dela surgem. Disserte sobre como o movimento pedagógico deve ser organizado para efetiva inclusão do estudante com DI. AGORA É A SUA VEZ 176 UNIUBE Nesse sentido, o trabalho pedagógico precisa priorizar e conferir esforços nas habilidades e potenciais do funcionamento cognitivo do estudante, de modo que as escolhas didáticas e pedagógicas percebam e eliminem as barreiras impostas pelo contexto para, assim, auxiliar no desenvolvimento desse público de modo geral, recusando a suposição de limites para o que pode ser alcançado baseados na deficiência em si. Assim, a prática educacional não pode restringir-se a adequações curriculares, redução dos conteúdos, simplificações e facilitações de métodos e técnicas. Incluir o estudante com deficiência intelectual demanda priorizar o acesso ao conhecimento por meio de recursos, flexibilizações e adequações que tornem os conteúdos e as atividades significativas e motivadoras e que disponibilizem tempo e oportunidade para exploração do conhecimento. Para tanto, o professor precisa conhecer o estudante, considerá-lo integralmente, compreender de que forma as mediações influenciam seu potencial intelectual, analisar e organizar recursos adequados, propor caminhos alternativos; considerar o educando como participante de outros espaços de seu cotidiano, sem se centrar no não na deficiência. É imprescindível nessa perspectiva a disponibilidade do professor para desempenhar o papel de mediador, propondo situações educacionais que estimulem sentidos, construam significados e promovam a apropriação do conhecimento. Esse processo deve perpassar pela flexibilização curricular, do tempo e dos espaços escolares, pela consideração dos diversos estilos e ritmos de aprendizagem, com foco nas potencialidades e não nos déficits, na dinamicidade própria da capacidade intelectual humana e sua constante evolução. UNIUBE 177 É importante que as mediações, intervenções e propostas pedagógicas mobilizem o estudante DI a colocar em prática estruturas mentais que auxiliem na organização do conhecimento atual, constituindo base para compreensão futura, impulsionando-o a criar meios de produzir, enfrentar desafios. Não se trata, portanto, de exercitar os estudantes, mas fornecer experiências capazes de favorecer a estruturação do conhecimento real e que não se reduzam a mero treinamento de habilidades perceptivo-motoras. Para tanto, é preciso considerar o estudante a partir do que ele é capaz de ser, de fazer, de enfrentar, de assumir como ser humano, estimulando e organizando estratégias e situações que propiciem revelar possibilidades até então escondidas e que por vezes não lhe eram creditadas por falta de oportunidades. A intervenção adequada do professor é capaz de promover o avanço na aprendizagem e no desenvolvimento dos estudantes. IMPORTANTE! Gil (2000, p.10) pontua que “capacitar uma criança não é condicioná-la, transformando-a num ser automatizado, com respostas previsíveis e resultados esperados. A capacitação ressaltada nasce da independência e do domínio de si mesmo”. A equiparação de condições nesse processo inclusivo passa pelo reconhecimento, pela valorização e pela consideração do estudante com deficiência intelectual como participante ativo de seu processo educacional. Para tal, a organização do movimento pedagógico inclusivo para o estudante com Deficiência Intelectual precisa atentar para conhecer as habilidades adaptativas dele e mesmo, e considerar a intensidade dos apoios necessários para que ele realize tarefas e transponha desafios e obstáculos (ALONSO, 1995; BRASIL, 1997). A intensidade de apoios é reconhecida e definida na literatura científicae legal, como: 178 UNIUBE • intermitente: necessário em algumas situações da vida podendo ser de alta e baixa intensidade; • limitado: necessário em período curto; • extensivo: necessário apoio constante/regular sem limitações de tempo; • generalizado necessário para a manutenção da vida, maior grau de instrução e número de intervenção. Em lugar de estabelecer um sistema de classificação baseado nos níveis de inteligência do sujeito (leve, moderado, severo e profundo), se propõe um sistema de classificação baseado na intensidade dos apoios que requerem as pessoas com deficiência intelectual (limitado, intermitente, extenso e generalizado). (ALONSO, 1995, p. 9-10). Dessa forma, diferentes recursos podem configurar apoios necessários para esse público, por exemplo: informações, outras pessoas (amigos, familiares, professores, colegas), tecnologia e adequações, flexibilizações e/ou serviços, enfim, estratégias que auxiliem no seu desenvolvimento, autonomia e acessibilidade. Nessa perspectiva, tanto o processo formativo como o processo avaliativo precisam ocorrer de forma personalizada. Segundo Fernandes (2008), com o uso de instrumentos diferenciados como: caderno de registros, pareceres pedagógicos, autoavaliação (sempre que possível), portfólios, relatórios de observação e desenvolvimento e ata do conselho de classe etc., até suporte de profissionais de apoio escolar, sempre que reconhecida a necessidade. Precisa contar ainda com possibilidades de flexibilização dos meios, espaços, tempo e recursos, com a utilização de materiais e/ou equipamentos que promovam a acessibilidade ao conhecimento, com a priorização de determinados conteúdos e a mediação necessária. UNIUBE 179 É importante considerar ainda a necessidade de atuação efetiva do Conselho de Classe, durante todo o processo de ensino. Cabe à gestão pedagógica a organização, a articulação e a garantia do acompanhamento concreto desse conselho na mediação das discussões em prol do desenvolvimento de propostas pedagógicas inclusivas. É necessário um acompanhamento ativo e que aconteça ao longo de todo o processo de ensino e aprendizagem que objetive a análise do desempenho educacional do estudante ao longo do período e dos encaminhamentos didáticos e metodológicos. Para então se definir coletivamente as proposições, as flexibilizações e os encaminhamentos possíveis para a aprendizagem, para o desenvolvimento e para a avaliação do processo educacional desse público, sempre que se fizerem necessárias. Importante salientar que tais decisões precisam ser definidas sempre respaldadas em critérios qualitativos. Como é possível observar, organizar um espaço educativo inclusivo demanda um trabalho articulado entre toda a comunidade escolar, o professor da classe comum, o professor do AEE, Conselho de Classe e demais parcerias produtivas com as famílias e/ou com equipes multiprofissionais que porventura acompanhem o estudante: terapeutas, neuropediatras, psicopedagogos, entre outros, com objetivo de trocar informações, experiências e socializar saberes, visando à resolução proativa dos desafios educacionais. O professor da classe comum O professor do AEE Conselho de classe Comunidade escolar Família Equipes multiprofissionais 180 UNIUBE É positivo, ainda, que na própria escola sejam organizados espaços e momentos para formação continuada em serviço, por esse modelo de formação representar a possibilidade de apropriação de conceitos e localização das demandas, para então nelas interferir profissionalmente de forma responsável no tempo e espaço. Para que esse movimento ocorra e para que as ações necessárias sejam implementadas, é preciso que as barreiras atitudinais sejam transpostas. É preciso ainda acreditar no potencial do estudante com deficiência intelectual, confiar na sua capacidade de desenvolvimento e aprendizagem, apresentar uma atitude positiva frente ao trabalho, ao aluno com deficiência, enfrentar as barreiras do processo com determinação, compromisso e responsabilidade. Organizar uma proposta pedagógica que potencialize suas capacidades e capacite-o em vez de condicioná-lo, automatizando-o com respostas previsíveis e resultados esperados, e que de fato contribuam para com a promoção da autonomia, independência e domínio de si mesmo. IMPORTANTE! Funções mentais superiores Vygotsky caracteriza as funções mentais superiores como aquelas funções cognitivas constituídas por meio das interações socioculturais dos indivíduos da mesma espécie. Esse conceito redimensiona o papel da escola, como espaço privilegiado de aprendizagens e desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Os estudos do autor têm como um dos aspectos centrais a constituição das funções mentais superiores vinculada aos conceitos de zona de desenvolvimento proximal – ZDP. A inclusão escolar do estudante com deficiência intelectual precisa priorizar seu desenvolvimento intelectual, sua autonomia e o desenvolvimento das funções mentais superiores com aprendizagens significativas, não privilegiando atividades mecânicas, uma vez que estratégias pedagógicas adequadas organizadas são capazes de promover avanços que não ocorreriam espontaneamente. (Vygotsky,1997). UNIUBE 181 6.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Deficiência Intelectual – DI Entre os serviços e recursos da Educação Especial, destinados ao estudante com Deficiência Intelectual, está o AEE. Especificamente para esse público, o professor do AEE precisa considerar os aspectos relacionados a limitações do funcionamento intelectual, das habilidades adaptativas e suas especificidades, para então definir os objetivos do trabalho, as áreas a serem estimuladas e ampliadas, as estratégias pedagógicas a serem utilizadas, os recursos as adequações necessários para o acesso ao conhecimento e construção do aprendizado. O AEE precisa, portanto, integrar a proposta pedagógica da escola, envolver a participação da família e ser realizado no contraturno, na sala de recurso multifuncional (SRM) em outros espaços escolares, com a proposição de atividades e estratégias que permitam eliminar barreiras na aprendizagem e otimizá-la e com o assessoramento ao estudante e ao professor no turno regular. Nesse sentido, o professor do AEE é responsável por organizar e promover situações de aprendizagem diversificadas, usando estratégias cognitivas diferenciadas, significativas e contextualizadas nas experiências e nos conhecimentos prévios do estudante. Para tanto, esse profissional precisa realizar um diagnóstico diferencial e relacional fundamentado, conforme a American Association On Mental Retardation (2006), nas habilidades adaptativas, funções executivas e funções mentais superiores. No que se refere às habilidades adaptativas, o objetivo primeiro é identificar em quais das 10 (dez) habilidades o estudante apresenta prejuízos (a conceituação de Deficiência Intelectual define que ele apresenta prejuízo em duas ou mais habilidades adaptativas). Portanto, 182 UNIUBE é preciso inicialmente identificar em quais das habilidades adaptativas há prejuízo, a natureza e as variáveis desse prejuízo, para posteriormente organizar as metodologias necessárias para o desenvolvimento dessas e/ou para minimizar os prejuízos observados. O professor do AEE precisa, ainda, considerar a análise das estratégias e estilos de aprendizagem do estudante, verificar em quais funções mentais superiores e executivas apresentam defasagem e aquelas que se apresentam como potenciais de aprendizagem para então propor, organizar, planejar, definir o tipo e recurso de mediação, a necessidade e intensidade de apoio e as escolhas por flexibilizações e adequações pedagógicas para minimização dos prejuízos e desenvolvimento das potencialidades. A atuação do professor do AEE junto ao estudante com DeficiênciaIntelectual precisa considerar a capacidade humana de plasticidade neuronal, a eliminação de barreiras e a promoção de acessibilidade ao contexto e ao conhecimento. E, em se tratando das barreiras a serem transpostas, as barreiras atitudinais aparecem muitas vezes de forma velada nas relações e nas ações, engessadas no conceito de incapacidade e materializadas em termos como coitadinho, doentinho, aquele que não dá conta, e por isso não é preciso estimular. Tais barreiras têm se constituído ponto nevrálgico para efetivação da inclusão escolar deste público, uma vez que se materializam em barreiras comunicacionais, sociais e procedimentais, na contramão desse processo é urgente que ações e estratégias sejam implementadas. As barreiras atitudinais não são concretas em essência, materializam-se nas atitudes e nos comportamentos de cada pessoa, impossibilitando, de modo intencional ou não, a plena participação de outros nos diversos contextos sociais e educacionais. Referem-se a ações de discriminação, UNIUBE 183 preconceito, não reconhecimento da diferença e do potencial humano, ignorando as especificidades de cada um. Exige mudança de atitude das pessoas no que se refere a questões relacionais. Demanda alteridade. As barreiras sociais e procedimentais referem-se aos processos de inclusão/exclusão social de pequenos grupos e minorias, no contexto escolar, e podem se apresentar como qualquer meio de segregação, seja em apresentações escolares, aulas-passeio, atividades em grupos, atividades físicas e recreativas, projetos pedagógicos, entre outros. Obstáculos no processo de ensino e aprendizagem, os quais segregam os educandos em várias categorias, entre elas: alunos sem deficiência e alunos com deficiência. Já as barreiras comunicacionais se materializam na dificuldade gerada pela falta ou inadequação das informações comunicacionais presentes ou não nos ambientes. (SASSAKI, 2005). Você sabe como deve ser a acessibilidade comunicacional e a acessibilidade metodológica e procedimental? Acessibilidade comunicacional: atividades pedagógicas disponibilizadas precisam ser claras, objetivas e coerentes com suas especificidades e necessidades. São necessários comandos, regras e orientações claras, compatíveis com o nível de compreensão, contemplando uso de recursos imagéticos, gestuais etc. Acessibilidade metodológica e procedimental: é importante que a organização, as escolhas e as estruturas se apoiem e se desenvolvam em abordagens de aprendizagem flexíveis, incorporando os diferentes estilos, modos de aprender e as múltiplas inteligências, considerando e reconhecendo o estudante em sua individualidade. SAIBA MAIS 184 UNIUBE Organizar um espaço educativo inclusivo, promotor de aprendizagem, acesso e desenvolvimento, requer um trabalho articulado e colaborativo entre o professor da classe comum e os profissionais do Atendimento Educacional Especializado, o que se dá por meio do assessoramento, da disponibilização de ações de sensibilização e orientação, da adequação de recursos de acessibilidade ao conhecimento sistematizado e da proposição de flexibilizações necessárias, seja no contexto da sala de aula ou em qualquer outro espaço educativo no âmbito escolar. Por meio do assessoramento, é possível se estabelecer articulação entre o professor do AEE e o professor da sala de aula, gestores e comunidade escolar. Esse movimento visa à interlocução, à orientação e ao acompanhamento das dificuldades encontradas e verificadas no contexto. Também é importante a articulação do professor do AEE com as equipes multiprofissionais que acompanham o aluno fora da escola, com disponibilização de orientações, socialização de saberes e fóruns entre profissionais para troca de experiências, sugestões de estratégias para, enfim, contribuir de forma efetiva para o processo de inclusão escolar destes estudantes. Igualmente importante é a parceria com a família para que se estabeleçam diálogos que contribuam para o processo de inclusão do estudante de modo que os recursos e as estratégias oferecidos e/ou elaborados pelo AEE tenham funcionalidade no âmbito familiar e não somente na escola. Tais parcerias são fundamentais para promoção da acessibilidade ao conhecimento e para o desenvolvimento do estudante. Seguem abaixo sugestões de alguns dos principais documentos oficiais que tratam do direito de todos à educação e que, ao longo do tempo, consolidam a inclusão escolar como paradigma mundial em defesa dos direitos de todos e de cada um. PESQUISANDO NA WEB UNIUBE 185 BRASIL. MEC. LEI Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em janeiro/2020. BRASIL. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, Brasília: MEC, 2008. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=16690- politica-nacional-de-educacao-especial-na-perspectiva-da-educacao- inclusiva-05122014&Itemid=30192. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. Nota Técnica – SEESP/GAB/Nº 11/2010. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=5294- notatecnica-n112010&category_slug=maio-2010-pdf&Itemid=30192. Acesso em: jan. 2020. BRASIL. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar: a escola comum inclusiva. Fascículo I, Brasília: SEESP/ SEED/ MEC, 2010. Disponível em: https://acervodigital.unesp.br/bitstream/123456789/25849/1/ A_Escola_Comum_Inclusiva.pdf Acesso em: jan. 2020. BRASIL. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar: Atendimento Educacional Especializado para alunos com Deficiência Intelectual. Fascículo II, Brasília: SEESP/ SEED/ MEC, 2010. Disponível em: https://central3.to.gov.br/arquivo/292572/. Acesso em: jan. 2020. É importante que todos os profissionais da educação tenham conhecimento sobre os aspectos legais, conceituais e administrativos relacionados ao seu contexto de trabalho. Preciso compreender, aprender e pesquisar sempre. 186 UNIUBE Considerações finais6.4 A inclusão escolar pressupõe respostas pedagógicas diversificadas para atender às especificidades dos estudantes, promover a acessibilidade ao conhecimento e aos espaços e ainda contribuir de forma significativa para o aprendizado e o desenvolvimento. Os profissionais da educação precisam assegurar o direito de todos à educação, oferecendo aos estudantes com deficiência intelectual uma organização escolar voltada para a perspectiva da inclusão, com flexibilização nos procedimentos e nas metodologias, adequações das atividades e estratégias, disponibilização de recursos e apoios necessários. Em se tratando dos estudantes com deficiência intelectual, a estrutura vigente da escola precisa retomar aspectos indispensáveis para sua organização/reorganização, rever seus conceitos e a práxis pedagógica. A inclusão é exatamente a mudança de paradigma da escola. Resumo Compreender o processo de inclusão escolar do estudante com deficiência intelectual requer revisitar a trajetória histórica às práticas e concepções culturais, políticas e sociais. O conceito de deficiência intelectual sucede no cerne das relações sociais, no contexto cultural, histórico e social, desta forma, também na escola, como centro gerador de interpretações e significações que se materializam em ações inclusivas ou não. Como vimos, a alteração da terminologia de deficiência mental para deficiência intelectual não se trata de mera substituição de termo, mas de ressignificação dos conceitos para além do rótulo e, por conseguinte, impacta uma mudança na percepção da pessoa com DI e de suas especificidades, o que representa indiscutível avanço social e histórico primordialmente, mas também cultural, político e humano. UNIUBE 187 A terminologia atual deixa claronão se tratar de um quadro de doença ou um transtorno psiquiátrico, e sim aspectos relacionados ao prejuízo das funções cognitivas, sendo, portanto, necessário um olhar diferenciado capaz de perceber potencialidades, habilidades e competências. Isso tudo aliado à atitude inclusiva na promoção de situações e ou recursos que equipararem às condições de acesso ao ensino e ao desenvolvimento da aprendizagem com os demais estudantes. Conforme pontua Vygotsky (2010, p. 140) “Se não houvesse nada para mudar, não haveria nada para educar”. Na mesma medida, é urgente o comprometimento político, social, cultural e humano para além da ressignificação, mas que torne uma prática cotidiana no interior das escolas e salas de aula a disponibilização de recursos adequados e de flexibilizações nos tempos, espaços, metodologias, currículos, etc, garantindo equidade nos processos, no acesso, nas oportunidades e nos resultados. A equidade em educação é instrumento fundamental da equidade social. Assim, somam-se os esforços para garantir não apenas a matrícula do estudante no âmbito escolar, mas sua permanência com acesso à aprendizagem e ao desenvolvimento. Referências ALMEIDA, Maria. Amélia. Apresentação e análise das definições de deficiência mental propostas pela AAMR - Associação Americana de Retardo Mental de 1908 e 2002. Revista de Educação, Campinas, n.6, p. 33-48, 2004. AAMR (AMERICAN ASSOCIATION ON MENTAL RETARDATION). Retardo mental: definição, classificação e sistemas de apoio. Tradução de Magda França Lopes. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. ALONSO, Miguel Angel Verdugo. El cambio de paradigma em la concepcion del retraso mental: la nueva deficion de la AAMR. Siglo Cero, vol. 25. p. 5-24. ARANHA, Maria Salete Fábio. Integração social do deficiente: Análise Conceitual e Metodológica. Temas em Psicologia, número 2, 1995, pp. 63-70. 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Brasília: MEC. Secretaria de Educação a Distância, 2000 LUCKASSON, R et al. Mental retardation: definition, classification, and systems of supports: workbook. 10. ed. Silver Spring: Amer Assn on Intellectual & Devel, 2002. LURIA, A.R.; VIGOTSKI, L.; LURIA, A.; LEONTIEV, A. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 2001. MANTOAN M. T. E. Ser ou estar: eis a questão. Rio de Janeiro: WVA, 1997. PESSOTTI, I. Deficiência mental: da superstição à ciência. São Paulo: EDUSP, 1984. RODRIGUES. L. A. Deficiência Intelectual. Disponível em: http://internas. netname. com.br/arquivos/telesala/129.pdf. Acesso em: 16 ago. 2019. RODRIGUES, L. Um estudo sobre a Teoria das Inteligências Múltiplas. (Psicologia da Educação II, Licenciatura em Ciências Exatas na Universidade de São Paulo). 2015. Disponível em: http://www.gradadm.ifsc.usp.br/dados/20152/ SLC0631- 1/Trabalho_tipos_inteligencia.pdf. Acesso em: 16 ago. 2019 UNIUBE 189 SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: o paradigma do século 21. Revista Inclusão. ano I, n.1, p.19-23, out., 2005. SILVA, Larissa Maciel Gonçalves. Deficiência mental: prática educativa e reflexões de uma professora alfabetizadora, 2009. VYGOTSKY, L. S. Psicologia Pedagógica. São Paulo: Martins Fontes, 2010. VYGOTSKY, L. S. Fundamentos de defectología. Madri: Visor, 1997. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007. WAJNSZTEJN, A.C.; WAJNSZTEJN, R. Dificuldades Escolares: Um Desafio Superável. 2ª ed. São Paulo: Artemis, 2009. Introdução Inclusão Escolar dos estudantes com Altas Habilidades e/ ou Superdotação Capítulo 7 Os conceitos referentes às Altas Habilidades e/ou Superdotação são recentes na literatura, por diversos fatores, entre eles pela impossibilidade de se quantificar atributos relacionados à inteligência, ficando tais atributos restritos a medidas quantitativas ligadas ao quoeficiente de inteligência (QI). A literatura trata, já no início do século XX, da propagação de mitos e equívocos conceituais em torno de termos como: gênios e superdotados e da disseminação de crenças ou mitos que privilegiam uma pessoa em detrimento de todas as demais. Esses equívocos conceituais ainda povoam o cerne do senso comum, por exemplo, ao conceber uma pessoa que se desenvolve sozinha como alguém que apresente AH/SD, como gênio, idealizando- a como sendo sempre a primeira da turma, expert em todas as áreas, ou como alguém que apresente um desenvolvimento integral superior aos demais da mesma idade. Em vista desses equívocos, muitos se perguntam por que o quadro de Altas Habilidades e/ou Superdotação (AH/SD) faz parte do público da Educação Especial? Para esclarecer esses aspectos e desmistificar alguns equívocos conceituais, neste capítulo estudaremos suas especificidades e reais necessidades 192 UNIUBE no contexto educacional. Esses fatores precisam ser considerados na organização e proposição do movimento pedagógico inclusivo no contexto escolar. Estudaremos ainda sobre os serviços e recursos da Educação Especial destinados a esses estudantes. Ao final destes estudos, esperamos que você seja capaz de: • identificar as Altas Habilidades e/ou Superdotação - AH/SD; • organizar e desenvolver o movimento pedagógico necessário à inclusão escolar deste público; • utilizar os serviços e recursos disponibilizados pela Educação Especial, para inclusão escolar destes estudantes. 7.1 Saberes essenciais sobre Altas Habilidades/Superdotação - AH/SD 7.2 Movimento Pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Altas Habilidades/Superdotação – AH/SD 7.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Altas Habilidades/Superdotação – AH/SD 7.4 Considerações finais Objetivos Esquema 7.1 Saberes essenciais sobre Altas Habilidades/Superdotação – AH/SD Pessoas com AH/SD representam “um grupo heterogêneo, com características diferentes e habilidades diversificadas; que diferem uns dos outros por seus interesses, estilos de aprendizagem, níveis de motivação e de autoconceito, características de personalidade e principalmente por suas necessidades educacionais” (VIRGOLIN, 2007, p. 11). Não se trata, portanto, de um grupo de pessoas sobrenaturais. UNIUBE 193 Algumas dificuldades relacionadas à conceituação e identificação desse público referem-se a como percebê-la nas pessoas, uma vez que se trata de um quadro complexo e amplo. Em 1911, Willian Stern propôs o uso do termo ‘quociente mental’, que fez o desempenho da criança receber um número conhecido até hoje como Quociente de Inteligência (QI), indicado como o grande responsável na determinação dos rótulos de ‘retardamento’ ou ‘superdotação’. (FLEITH; ALENCAR, 2007, p. 27). As dificuldades em relação aos conceitos se devem também às traduções de termos não conseguirem, por vezes, contemplar a essência dele. A exemplo disso, diversos termos foram utilizados para nomear o quadro de AH/SD, como “excepcional”, “prodígio”, “gênio”, “precoce”, “altas habilidades” e “talento”, entre outros, esses termos ainda circulamno meio social e no ideário popular. Alguns marcos históricos, em relação ao reconhecimento, à conceituação e à caraterização desse público, são: Quadro 1 – Marcos históricos conceituais – no Brasil Marcos históricos no Brasil 1938 Helena Antipoff chama a atenção, na Sociedade Pestalozzi, para os bem-dotados. 1950 Julieta Ormastroni cria o programa “Cientistas para o Futuro”. 1966 e 1967 Primeiros seminários sobre educação dos bem-dotados (Sociedade Pestalozzi). 1967 O MEC cria comissão para estabelecer critérios de identificação e de atendimento aos superdotados. 1972 Centro Educacional Objetivo – início do atendimento aos superdotados na rede privada. 1973 Criação da ADAV – Associação Milton Campos para Desenvolvimento e Assistência a Vocações de Bem-Dotados. 1975 Criação do NAS – Núcleo de Apoio à Aprendizagem do Superdotado e da Fundação José Carvalho – aulas de mineração, computação e administração para alunos de baixa renda. 194 UNIUBE 1978 ABSD – Associação Brasileira para Superdotados 1986 Solange Wechsler cria o “Clube de Talentos”. 1993 CEDET/ASPAT – Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento, em Lavras. Programas para superdotados na Universidade Federal Fluminense. 2003 Criação do ConBraSD – Conselho Brasileiro de Superdotação. 2006 Implantação dos NAAH/S (Núcleos de Atividades AH/SD). 2008 Publicação da Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Fonte: CUPERTINO e ARANTES (2012). No Brasil, o termo consagrado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a LDB 9394/96, é ‘Altas Habilidades ou Superdotação’. A Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva conceitua os estudantes com altas habilidades/superdotação como aqueles que demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de apresentar grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse. (BRASIL, 2008, p. 11). De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 3% a 5% da população brasileira possui altas habilidades e/ou superdotação, considerados aqueles que apresentam “grande facilidade de aprendizagem que os levem a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes.” (FLETIH, 2006, p. 12). UNIUBE 195 Entre os tipos de AH/SD existentes, apontam-se tradicionalmente de acordo com a conceituação adotada pela Política Nacional de Educação Especial (1994): AMPLIANDO O CONHECIMENTO A definição adotada no campo científico é apresentada por Renzulli (2004, p. 81), destacando fatores de personalidade e ambientais, fundamentados nos três anéis. Assim define a superdotação como a “interação entre três grupamentos básicos de traços humanos, sendo esses grupamentos as capacidades gerais acima da média, os elevados níveis de comprometimento com a tarefa e os elevados níveis de criatividade”. Essa conceituação é apresentada nos documentos legais brasileiros e adotada pela Resolução nº 4, de 02/10/2009. Tipo intelectual Tipo social • Demonstra importante flexibilidade e rapidez de pensamento. Habilidade acima da média de abstração, memória, e para resolução de problemas. • Importante capacidade de liderança, sensibilidade interpessoal, atitude cooperativa. Alta performance na persuasão e influência no grupo. Tipo criativo Tipo psicomotor/cinestésico • Originalidade e imaginação muito desenvolvidas. Capacidade de resoluções de problemas de forma inovadora. • Desempenho acima da média de seus pares em: agilidade dos movimentos, força e resistência, controle e coordenação motora. Tipo acadêmico Tipo talentos especiais • Importante capacidade de atenção, concentração, memória. Grande interesse e motivação para as tarefas. Capacidade de sintetizar, avaliar e organizar o conhecimento. Capacidade de produção acadêmica. • Destacam-se em atividades que envolvam: artes plásticas, musicais, literárias, cênicas etc. 196 UNIUBE Os três anéis são constituídos dos seguintes grupamentos: Por meio da teoria dos anéis, o autor concebe habilidades acima da média em alguma área do conhecimento (não necessariamente muito superior à média), muito valorizada no âmbito escolar, mas não se refere apenas à área acadêmica e a seus conteúdos curriculares. Pode ser percebida por meio do raciocínio verbal e numérico, das relações espaciais, da memória e da fluência do vocabulário. As habilidades específicas incluem a capacidade de adquirir conhecimento, destreza ou habilidade para realizar uma ou mais atividades de uma área especializada. (FLEITH, 2207, p. 22) O comprometimento com a tarefa, uma forma refinada de motivação, conforme Fleith (2007, p. 22), inclui atributos pessoais, como perseverança, dedicação, esforço, autoconfiança e crença na própria habilidade de desenvolver um importante trabalho. E a criatividade, que se refere à originalidade de pensamento; fluência; flexibilidade; abertura a experiências, ao novo e ao diferente, entre outros aspectos. Habilidade acima da média Comprometimento com a tarefa Criatividade UNIUBE 197 Explique com suas palavras, de forma coerente com o material de estudos, o que é a Teoria dos Três Anéis de Renzulli (2004). AGORA É A SUA VEZ Segundo Renzulli (1986, p. 17), “todos os três grupamentos devem estar presentes e interagir em algum grau para que possam surgir níveis elevados de produtividade”. a interação entre os três anéis originais é ainda a característica mais importante que leva a apresentar comportamentos de superdotação. Porém, há uma série de outros fatores que devem ser levados em consideração nos nossos esforços para explicar o que faz que certas pessoas apresentem comportamentos de superdotação em certos momentos e sob determinadas circunstâncias. (RENZULLI, 1986, p. 15) Assim, na definição do conceito de Altas Habilidades/Superdotação, Renzulli considera a necessidade de se compreender as inteligências, suas abrangências, especificidades e peculiaridades, na confluência dos anéis que englobam as características primordiais. Assim, é fundamental que a cada um dos três grupamentos seja dispensada a mesma atenção e importância, diferente do que ocorre nas escolas em que se privilegia o desempenho acadêmico. Habilidades acima da média Comprometimento com a tarefa Criatividade • raciocínio verbal e numérico; • relações espaciais; • memória; • fluência do vocabulário. • perseverança; • paciência; • dedicação; • autoconfiança; • concentração; • crença na própria capacidade para executar um trabalho importante. • originalidade de pensamento; • fluência; • flexibilidade; • abertura a experiências, ao novo e ao diferente. 198 UNIUBE Há ainda a possibilidade conhecida como “dupla excepcionalidade”. Trata-se de casos em que uma pessoa apresenta além do quadro de Altas Habilidades e/ou Superdotação, uma outra característica, acompanhada de outros diagnósticos, tais como: • AH/SD e Deficiência Física; • AH/SD e Deficiência Sensorial; • AH/SD e TEA. AMPLIANDO O CONHECIMENTO 7.2 Movimento Pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com Altas Habilidades/Superdotação – AH/SD A literatura aponta que as ações voltadas para o reconhecimento e inclusão escolar desse público AH/SD iniciaram em 1925, quando Ulisses Pernambuco conseguiu do Governo do Estado de Pernambuco a autorização para criar a primeira escola para crianças excepcionais do país (ANDRADE, 2009). Já em 1930, houve a publicação da obra “A educação dos Supernormais”, de Leoni Kaseff (CUPERTINO, 2012) e, em 1972, instalou-se, enfim, a Associação para Desenvolvimento e Assistência a Vocações de “Bem Dotados”, que fundamentou as bases teóricas do atual Centro para o Desenvolvimento do Potencial e Talento (CEDET), criado em 1993, em Lavras/MG (GUENTHER, 2011). A inclusão escolar desse público demandaa viabilização de estratégias de atendimento e o estabelecimento de parcerias, no intuito de perceber o desenvolvimento assincrônico ou dissincrônico desses estudantes, as características relacionadas às suas habilidades, dificuldades, seus comportamentos e atitudes no contexto educativo. UNIUBE 199 Você sabe o que é assincronia ou dissincronia? A assincronia ou dissincronia é uma característica apontada nos estudos sobre AH/SD, que é quando uma das capacidades humanas se desenvolve primeiro ou mais que as outras. Diz respeito ao desequilíbrio entre os ritmos de desenvolvimento intelectual, emocional ou motor em cada indivíduo. Esses desequilíbrios devem ser observados individualmente, não em comparação a seus pares (TERRASSIER, 1979 apud ALENCAR e VIRGOLIM, 2001). SAIBA MAIS As habilidades e potencialidades dos estudantes com AH/SD impactam sobremaneira seu entorno, suas emoções e seu desenvolvimento, com implicações positivas e negativas. Devendo se considerar que o fato de as implicações serem positivas ou negativas não têm a ver com o quadro de AH/SD em si, mas com as expectativas do contexto e o modo como este se organiza; as metodologias utilizadas, as flexibilizações curriculares e as concepções de avaliação e aprendizado. O quadro, a seguir, exibe algumas características comuns a serem observadas pelo professor em sala de aula e as implicações negativas e positivas advindas quando a elas [características] não estamos atentos. Quadro 2 – Altas Habilidades: características e implicações comportamentais Características Implicações negativas Implicações positivas Habilidade cognitiva avançada Sente-se entediado com as tarefas acadêmicas curriculares. Aprende mais rápido e com melhor compreensão da linguagem. Curiosidade intelectual Pode ser considerado exibido. Centra-se constantemente no “como” e “porquê”. Sensibilidade e criatividade Não conformismo, comportamento disruptivo. Tem habilidade para criar ideias e visualizar consequências. 200 UNIUBE Comportamento disruptivo Caracterizam-se por comportamentos antissociais e violação de regras básicas, sendo que aqueles que o possuem podem apresentar comportamentos de transgressão, desafiadores e antissociais. Intensa motivação Envolve-se em muitas atividades e ressente-se com interrupções. Apresenta motivação intrínseca para aprender, explorar e persistência. Demonstra emoções É vulnerável às críticas, reage com sentimento de rejeição e isolamento. Reage emocionalmente de forma intensa a questões morais e sociais. Processa informações rapidamente Não gosta de tarefas mecânicas e que envolvam reprodução do conhecimento. Adquire habilidades de aprendizagem mais rapidamente e com menos prática. Preocupações éticas e estéticas em tenra idade Apresenta dificuldades relacionais com pares de mesma idade e com aqueles com interesses diferentes dos seus. É cético, crítico e avaliador, rápido em detectar inconsistência e injustiça. Pensamento independente Ressente-se da rotina. Parece ser rebelde. Sente prazer na atividade intelectual e gosta de realizar tarefas de modos diferentes. Habilidade de Autoavaliação Busca a perfeição. Pode ser visto como compulsivo. Apresenta impulsos opostos como comportamento construtivo e destrutivo. Fonte: Santa Catarina/SEE/FCEE, 2016, p.24; ALENCAR, 2007, p.17; FINATO, 2014, p.95. Mediante o exposto, pode-se afirmar que um quadro de Altas Habilidades/ Superdotação apresenta apenas impactos positivos nas diversas áreas da vida da pessoa? AGORA É A SUA VEZ UNIUBE 201 Mediante os diferentes aspectos que caracterizam as Altas Habilidades/ Superdotação que remetem às conjunturas conflitantes, é preciso considerar: • o próprio contexto da escola, • o processo de construção de conhecimentos, • os estilos de aprendizagem e • o trabalho do estudante em uma visão sistêmica e global, abrangente e multidimensional. Necessário ainda considerar fatores ambientais e as interações existentes entre eles, a fim de planejar, organizar, conduzir e desenvolver ações educacionais promotoras do desenvolvimento de seu potencial. Antipoff (1999, p. 135-139), afirma: “Que lhes reserva muitas vezes a escola? Ambiente de tédio irrespirável transforma esses meninos bem-dotados em irrequietos, travessos, que mestres [...] são incapazes de manter, sem queixas, nas suas classes”. Para assumir uma proposta de inclusão escolar desse público, faz-se necessário, conforme apresenta Renzulli (2004), abranger todos os envolvidos a planejarem novas diretrizes, resgatar saberes e fazeres planejar organizar conduzir desenvolver ações educacionais 202 UNIUBE diferenciados e favorecer atitudes criativas na escola. Nesse sentido, a formação continuada dos professores na implantação de tais propostas é preponderante para o sucesso dos estudantes AH/SD e para garantia da acessibilidade aos saberes em condições favoráveis à participação ativa dos estudantes nas diversas situações educacionais, nos diferentes contextos escolares e para a eliminação das barreiras. O acesso ao conhecimento pode ser propiciado com atividades extras, desafiadoras, problematizadoras conforme metodologia ativa de aprendizagem e sistemas de monitoria (aulas invertidas); desenvolvimento de metodologias de ensino que priorizem a pesquisa e estudos autônomos com a valorização dos seus centros de interesses, otimizando e ampliando as habilidades em determinadas áreas. O ambiente pedagógico precisa ser flexível e problematizador, incluir materiais de consulta diversificado impresso e/ou eletrônico, proporcionando a manipulação e exploração de brinquedos, blocos, jogos pedagógicos, objetos com sons e formatos diferentes, equipamentos audiovisuais etc. IMPORTANTE! Não existe um modelo pronto, único e acabado a ser seguido, o que existem são sugestões e estratégias em que o mais importante é considerar as possibilidades de mediação em cada caso, o acesso a um atendimento personalizado adequado às suas condições pessoais e que garantam a equidade de acesso e oportunidades. A necessidade de um movimento pedagógico que priorize o desenvolvimento de habilidades interpessoais e de comunicação, autonomia, iniciativa, autoconceito positivo e compreensão do outro e de seu ponto de vista. Todas as implementações e estratégias inclusivas precisam estar asseguradas no Projeto Político Pedagógico – PPP da escola. UNIUBE 203 Há uma variedade de possibilidades pedagógicas passíveis de serem implementadas para contribuir e promover o desenvolvimento e a inclusão escolar do estudante com Altas Habilidades e/ou Superdotação, entre elas, Renzulli (2014) aponta a necessidade de planejar atividades e promover aos educandos: • a geração de argumentos, explicações, hipóteses e ideias razoáveis, utilizando fontes de informação, vocabulário e conceitos apropriados; • a identificação de padrões, relações e discrepâncias nas informações e o estabelecimento de comparações e analogias com outros problemas; • a busca de informação de uma forma seletiva; acessar rápida e eficientemente informações oportunas e extrair significado; • a extensão de seu próprio pensamento, além das informações dadas; • o estabelecimento de comparações, tirar conclusões e prever resultados; • a solução de problemas criativamente e produção de novas ideias; etc. Esse movimento precisa acontecer também em relação ao processo avaliativo, que deve acontecer a partir de uma flexibilização curricular, com proposição de questões mais complexas e desafiadoras, com formas e critérios avaliativos diferenciados, nos quais se verificam não só conteúdos, mas a criatividade, a autonomia, as habilidades relacionadas à liderança e às relações interpessoais. Renzulli (1986) acrescenta que, na avaliação, a ênfase precisa estar na observação e no acompanhamento do desempenho e das habilidades do estudante e na criatividade na resoluçãode desafios e nas problematizações. A inclusão escolar do estudante com Altas Habilidades e/ou Superdotação precisa considerar a possibilidade de aceleração dos estudos, assegurada pela LDB 9394/96, que no capítulo V, art.59, determina “a aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados”. Para Freeman e Guenter (2000), existem diferentes formas de acelerações que podem ser destinadas a esse público: 204 UNIUBE O autor explica cada uma dessas possibilidades: Entrada mais cedo na fase seguinte do processo educativo; saltar séries escolares(promoção para séries seguintes); aceleração por disciplina (frequentar séries mais adiantadas em determinadas disciplinas); agrupamento vertical (classes mistas, com ampla variedade de idades e séries, de modo que os mais novos possam trabalhar com os mais velhos e mais avançados); cursos especiais fora da escola que ofereçam mais conhecimento em áreas curriculares específicas; estudos paralelos (cursar o Ensino Fundamental e o Ensino Médio ao mesmo tempo, e assim por diante); estudos compactados (quando o currículo normal é completado em metade ou terça parte do tempo previsto); planos de estudo auto-organizados (estratégia em que os alunos desenvolvem atividades ou projetos de seu interesse enquanto esperam o resto da classe completar o que eles já fizeram ou aprenderam); trabalho com um mentor, na escola ou fora dela; cursos paralelos (por correspondência, televisionados ou outra forma de ensino a distância). (FREEMAN; GUENTER, 2000, p. 110). Esse movimento pedagógico de flexibilização e as escolhas para aceleração precisam ser discutidos coletivamente pelos profissionais da educação envolvidos no processo educacional do aluno, respaldados pelo Conselho de Classe, pela família e formalizado em ata. Entrar mais cedo na escola Agrupamento vertical Estudos compactados Saltar séries escolares Cursos especiais fora da escola Planos de estudo auto-organizados Cursos paralelos a distância Aceleração por disciplina Estudos paralelos Trabalho com um mentor UNIUBE 205 Dada a complexidade, desde a identificação desse público, sua caracterização até a proposição de estratégias escolares inclusivas, esse processo requer parcerias e um trabalho coletivo com a cooperação das famílias, com outras instituições, tais como núcleos de atividades para altas habilidades/superdotação existentes, universidades, centros de pesquisas e institutos superiores de estudos. Faz-se necessária a parceria com os professores do AEE, por meio do assessoramento, a fim de auxiliar no atendimento às necessidades dos estudantes com AH/SD por meio da estimulação de suas potencialidades e da disponibilização de recursos e estratégias que os apoiem nas áreas em que apresentem dificuldades. Concomitantemente é preciso proceder às orientações aos profissionais da escola, sensibilização dos estudantes para que as relações sociais ocorram de maneira tranquila e solidária, favorecendo o desenvolvimento biopsicossocial. 7.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com Altas Habilidades/Superdotação – AH/SD De acordo com o artigo 8, inciso IX da Resolução CNE/CEB Nº. 02/2001, as escolas precisam oferecer atividades que favoreçam o aprofundamento e enriquecimento de aspectos curriculares, mediante desafios suplementares nas classes comuns, em salas de recursos ou em outros espaços definidos pelos sistemas de ensino, inclusive para conclusão, em menor tempo, da série ou etapa escolar nos termos do Artigo 24, da Lei 9.394/96. (BRASIL, 2001b, p. 03), para os estudantes com Altas Habilidades/Superdotação. Para esse público, o Atendimento Educacional Especializado (AEE) tem como um de seus objetivos auxiliar e promover o desenvolvimento biopsicossocial e cognitivo por meio de aprendizagens diferenciadas e flexibilidade curricular necessárias para transpor as barreiras do contexto. 206 UNIUBE E, por isso, promover adequações e flexibilizações para favorecer e aprofundar seus conhecimentos, acionando a complexa cadeia das funções mentais superiores, em um ambiente favorável à expressão do pensamento imaginativo, criativo e corporal cinestésico, embasando-se nas várias inteligências propostas por Gardner. Howard Gardner (1995), durante todo o seu estudo sobre as múltiplas inteligências, identificou oito tipos, sendo elas: Gardner Formado no campo da psicologia e da neurologia, o cientista norte- americano Howard Gardner desenvolveu a teoria das inteligências múltiplas, divulgada no início da década de 1980. Ele revolucionou o conceito de inteligência ao afirmar que o conceito de inteligência, como tradicionalmente definido em psicometria e teste de QI, não é suficiente para descrever a grande variedade de habilidades cognitivas humanas. Para o autor, essas aptidões intelectuais são relativamente independentes e dispõem de processos cognitivos próprios, porém ele ressalta que, embora elas sejam, até certo ponto, independentes uma das outras, elas raramente funcionam de forma isolada. Você já leu sobre a teoria das inteligências múltiplas? Cite e explique cada uma delas. AGORA É A SUA VEZ 1.Inteligência linguística 3.Inteligência espacial 5.Inteligência corporal-cinestésica 7.Inteligência interpessoal 2.Inteligência lógico-matemática 4.Inteligência musical 6.Inteligência naturalística 8.Inteligência intrapessoal UNIUBE 207 Para uma melhor compreensão, vamos falar um pouco de cada uma dessas múltiplas inteligências. • Inteligência linguística: segundo Gardner, essa inteligência envolve a sensibilidade para a língua falada e escrita, a habilidade de aprender línguas e a capacidade de usar a língua para atingir certos objetivos. • Inteligência lógico-matemática: essa envolve a capacidade de analisar problemas com lógica, de realizar operações matemáticas e investigar questões cientificamente. • Inteligência espacial: as pessoas que mais desenvolvem esta inteligência têm o potencial de reconhecer e manipular os padrões do espaço, aqueles usados por navegadores e pilotos, bem como os padrões de áreas mais confinadas, como os que são importantes para escultores, cirurgiões, jogadores de xadrez etc. Geralmente, o indivíduo tem muita facilidade para montar quebra-cabeças, compreender quadros e gráficos, orientar-se no espaço etc. • Inteligência musical: acarreta habilidade na atuação, na composição e na apreciação de padrões musicais. • Inteligência corporal-cinestésica: as pessoas que desenvolvem esta inteligência se expressam pelo movimento, têm bom sentido de equilíbrio e coordenação motora e lembram e processam as informações por meio da interação com o entorno espacial. Costumam ser hábeis na dança, na coordenação física, nos esportes etc. • Inteligência naturalística: habilidades de perceber padrões complexos no ambiente natural. As pessoas que possuem inteligência naturalista bem desenvolvida pensam e preocupam- se com as consequências ecológicas de suas ações e dos outros; gostam de ter e cuidar de animais; de plantar e cuidar de plantas. • Inteligência interpessoal: esta inteligência denota a capacidade de entender as intenções, as motivações e os desejos do próximo e, consequentemente, de trabalhar de modo eficiente com terceiros. • Inteligência intrapessoal: a inteligência intrapessoal envolve a capacidade de a pessoa se conhecer, de ter um modelo individual de trabalho eficiente – incluindo aí os próprios desejos, medos e capacidade – e de usar estas informações com eficiência para regular a própria vida (GARDNER, 1995). 208 UNIUBE Ao identificar os tipos de inteligências predominantes no educando, o educador pode compreender melhor o aprendiz, criar estratégias e propor atividades que possam auxiliá-lo a desenvolver, de modo pleno, essas inteligências, ou até mesmo ajudá-loa desenvolver as inteligências que, nele, menos se destacam. [...] maximizar a participação do aluno na classe comum do ensino regular, beneficiando-se da interação no contexto escolar. Potencializar as habilidades demonstradas pelo aluno, por meio do enriquecimento curricular previsto no plano de atendimento individual. Expandir o acesso do aluno a recursos de tecnologia, materiais pedagógicos e bibliográficos de sua área de interesse. Promover a participação do aluno voltado à prática da pesquisa e desenvolvimento de produtos; e estimular a proposição e o desenvolvimento de projetos de trabalho no âmbito da escola, com temáticas diversificadas, como artes, esporte, ciências e outras. (DELPRETTO; ZARDO, 2010, p. 23). Nesse sentido, cabe ao professor do AEE definir ações com toda a equipe pedagógica que envolvam inovação didática, pedagógica e metodológica, por meio de saberes e práticas que considerem as potencialidades, talentos e criatividade desses estudantes. Para auxiliar o professor na identificação das ações pedagógicas mais adequadas, Renzulli (2004) propõe o Modelo Triádico de Enriquecimento do desenvolvimento, do conhecimento e das habilidades de pensamento. Esse pode ser modelo pode ser alcançado por meio de um ensino formal, com aplicação de conhecimentos e habilidades decorrentes de investigação feita pelo estudante, derivando no desenvolvimento de um produto criativo. Tal modelo expõe nova práxis pedagógica e amplia em todos os sentidos a proposta educacional. Para Alencar e Fleith (2001), o enriquecimento para alguns: [...] implica completar em menor tempo o conteúdo proposto, permitindo, assim, a inclusão de novas unidades de estudo. Para outros, ele implica uma investigação mais ampla a respeito dos tópicos que estão sendo ensinados, utilizando o aluno um maior número de fontes de informação para dominar e conhecer uma determinada matéria. Para outros, o enriquecimento consiste em solicitar ao aluno o UNIUBE 209 desenvolvimento de projetos originais em determinadas áreas de conhecimento. Ele pode ser levado a efeito tanto na própria sala de aula como através de atividades extracurriculares. (Apud SABATELLA; CUPERTINO, 2007, p.74) Para Virgolim (2007), esse modelo de enriquecimento curricular é a exposição do estudante com AH/SD a várias áreas de interesse e campos de estudo para aplicação de conhecimentos e conteúdos avançados, treinamento de habilidades e uso de metodologias para ampliação dessas áreas. Ela os apresenta em três níveis: Vejamos a explicação de cada um deles a seguir. Enriquecimento Tipo I: corresponde às atividades exploratórias, em que o aluno é exposto a uma série de experiências e atividades para descobrir seus interesses e programar as atividades do tipo II. Além disso, inicia na sala de aula regular e implica atividades destinadas a todos os estudantes da escola. Essa abordagem, de acordo com a autora, apresenta três importantes objetivos: (1) Dar oportunidade a todos os alunos de participar de alguma experiência de enriquecimento curricular que seja de seu real interesse, expondo os alunos a uma ampla variedade de procedimentos, tais como palestrantes convidados, excursões, demonstrações, desenvolvimento de centros de interesse e uso de diferentes e variados materiais audiovisuais. (2) Enriquecer a vida dos alunos através de experiências que usualmente não fazem parte do currículo da escola regular e (3) Estimular novos interesses que possam levar o aluno a aprofundá-los em atividades criativas e produtivas posteriores (Tipo III). (VIRGOLIM, 2007, p.63). Enriquecimento tipo I Enriquecimento tipo II Enriquecimento tipo III 210 UNIUBE Enriquecimento Tipo II: Pode acontecer tanto no contexto de sala de aula como nas Salas de Recursos Multifuncionais (SRMs), consiste em técnicas, materiais instrucionais e métodos direcionados ao desenvolvimento de habilidades e funções mentais superiores, contribuindo para a promoção do desenvolvimento e elevação dos processos de pensamento dos alunos, preparando o estudante para as atividades do tipo III. Aqui são trabalhadas as habilidades de saber fazer. Esse enriquecimento tem como objetivo: (1) Desenvolver nos alunos as habilidades gerais de pensamento crítico, resolução de problemas e pensamento criativo; (2) desenvolver os processos afetivos, sociais e morais, tais como sentir, apreciar, valorizar, respeitar; (3) desenvolver uma grande variedade de aprendizagens específicas de “como fazer”, tais como tomar notas, entrevistar, classificar e analisar dados, tirar conclusões etc., necessárias ao processo científico; (4) desenvolver habilidades avançadas para a aprendizagem de materiais de referência, tais como resumos, catálogos, registros, guias, programas de computador, Internet etc.; e (5) desenvolver habilidades de comunicação escrita, oral e visual, a fim de que a produção do aluno tenha maior impacto sobre determinadas audiências. (VIRGOLIM, 2007, p.63). Enriquecimento Tipo III – Para Virgolim tais atividades “ [...] são planejadas para o estudante que demonstra um grande interesse em estudar com maior profundidade uma área do conhecimento (...), pois esse, ao passar por tais experiências, deverá ser capaz de operar, conhecer e produzir como um profissional de um espaço peculiar de conhecimento” (VIRGOLIM, 2007, p. 64). Entre as metas, destaca-se a oportunidade para que o estudante possa: (1) Aplicar seus interesses, conhecimentos, ideias criativas e motivação em um problema ou área de estudo de sua escolha; (b) adquirir um conhecimento avançado a respeito do conteúdo e metodologia próprios a uma disciplina, área de expressão artística ou estudos interdisciplinares em particular; (c) desenvolver produtos autênticos, com o objetivo de produzir determinado impacto em uma audiência pré-selecionada; (d) desenvolver habilidades de planejamento, organização, UNIUBE 211 utilização de recursos, gerenciamento de tempo, tomada de decisões e autoavaliação; e (e) desenvolver motivação/ envolvimento com a tarefa, autoconfiança e sentimentos de realização criativa, e habilidade de interagir efetivamente com outros alunos, professores e pessoas com níveis avançados de interesse e conhecimento em uma área comum de envolvimento (VIRGOLIM, 2007, p.63). Segundo Renzulli & Reis 1997 apud Maia-Pinto e Fleith (2004): [...] o Modelo de Enriquecimento Escolar que propõe a inclusão, em cada unidade do currículo regular, de serviços instrucionais que ajustem o conteúdo e estratégias educacionais às características dos alunos, incrementam a quantidade e a qualidade das experiências deste aprendizado e oferecem vários tipos de enriquecimento às experiências escolares (PINTO e FLEITH, 2004, p. 57). Assim sendo, o professor do AEE auxiliará o professor da sala comum a identificar e planejar as atividades de enriquecimento do tipo I ou II, de forma a contemplar as especificidades do aluno e promover o desenvolvimento de suas habilidades. E as atividades de enriquecimento tipo III serão desenvolvidas no AEE, nas salas de recursos multifuncionais (SRMs) ou em outros espaços educacionais. Cabe ainda a este professor articular para que os serviços e recursos organizados na escola ecoem na comunidade, espaços e núcleos de atividades desses estudantes, ampliando suas possibilidades de participação, de atividade, de estimulação e de aprofundamento em um processo multidimensional. Para aprofundar seus conhecimentos, leia os títulos: BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: a educação é a base. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/. Acesso em: jan. 2020. PESQUISANDO NA WEB 212 UNIUBE CONBRASD. Conselho brasileiro para superdotação. Disponível em: http://www.conbrasd.org/. Acesso em: jan. 2020. DELPRETTO, B.M.de L; ZARDO, Sinara Pollom. Alunos com altashabilidades/superdotação no contexto da educação inclusiva. In: DELPRETTO, Bárbara Martins de Lima; GIFFONI, Francinette Alves; ZARDO, Sinara Pollom. A Educação Especial na perspectiva da inclusão escolar: altas habilidades/superdotação. Brasília: MEC/SEESP/ UFC, 2010. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=7122-fasciculo-10-pdf-1&category_ slug=novembro-2010-pdf&Itemid=30192. Acesso em: jan. 2020. SARTORETTO, Mara Lúcia; SARTORETTO Rui. Atendimento Educacional Especializado e laboratórios de aprendizagem: o que são e a quem se destinam. 2010. Disponível em: https://assistiva.com.br/AEE_ Laborat%c3%b3rios.pdf. Acesso em: jan. 2020. CUPERTINO, C. M. B.; ARANTES, Denise Rocha Belfort. Um olhar para as altas habilidades: construindo caminhos. 2. ed. São Paulo: SE, 2012. Disponível em: http://cape.edunet.sp.gov.br/cape_arquivos/Um_Olhar_Para_ As_Altas_habilidades_2%C2%B0_Edi%C3%A7%C3%A3o.pdf. Acesso em: jan. 2020. SIMONETTI, Dóra Cortat. Teorias sobre altas habilidades e superdotação. São Vicente, SP: ABAHSD. Disponível em: https://www.institutoinclusaobrasil. com.br/teorias-sobre-altas-habilidades-e-superdotacao. Acesso em: jan. 2020. Em uma proposta de trabalho inclusiva, precisamos estabelecer parcerias e aprender cada vez mais sobre nosso estudante e suas especificidades. Precisamos aprofundar conhecimentos e ressignificar saberes e conceitos para atender à diversidade humana. UNIUBE 213 Considerações finais7.4 A identificação dos estudantes com Altas habilidades/Superdotação precisa ser abrangente e multidimensional. É preciso considerar os fatores ambientais, sociais, emocionais e as interações existentes entre eles. A identificação das características e das habilidades predominantes nos casos de Altas Habilidades/Superdotação auxiliará o professor a orientar, conduzir e desenvolver ações capazes de fazer com que o estudante desenvolva o seu potencial. Imprescindível analisar as contribuições dos autores Howard Gardner e Joseph Renzulli ao demonstrarem em seus estudos que não se pode falar em AH/SD por uma linha de observação única/isolada. Tanto na Teoria de Renzulli (Teoria dos Anéis), quanto na de Gardner (Inteligências Múltiplas), as características e/ou habilidades não precisam estar presentes simultaneamente, havendo relativa autonomia, em graus e intensidades diferentes. Resumo No processo de inclusão educacional dos alunos com Altas Habilidade e/ ou Superdotação, o educador precisa considerar que o educando enfrenta várias situações quando não é reconhecido em sua individualidade e especificidade. Inclusive, o AH/SD pode desenvolver comportamentos considerados inadequados, problemas emocionais e de interação social. O aluno pode ser erroneamente concebido como gênio e daí não receber o acompanhamento especializado e o olhar sensível de que precisa. Assim, é essencial considerar a urgência de se desconstruir conceitos errôneos arraigados no cerne da sociedade e compreender a flexibilização do currículo e do tempo e as possibilidades de aceleração como garantia de acesso e desenvolvimento, e não como privilégio. Para tanto, o movimento pedagógico para inclusão deste público demanda a articulação entre o trabalho dos profissionais da educação da escola, do professor da classe comum e do professor do AEE. Todos 214 UNIUBE eles desempenham um papel significativo no processo de identificação e na implementação de estratégias promotoras do desenvolvimento desse público. É essencial que a equipe da escola acompanhe o desempenho destes estudantes registrando suas habilidades e interesses ao longo do processo de identificação, oferecendo de forma diversificada as oportunidades estimuladoras e enriquecedoras ao seu potencial. É fundamental que os profissionais da educação conheçam as características, as conceituações, os serviços e recursos da Educação Especial e as adequações necessárias para garantir o acesso, a permanência e o aprendizado com equidade. Referências ALENCAR, E. M. L. S.; FLEITH, D. S. Superdotados: determinantes, educação e ajustamento. São Paulo: EPU, 2001. ALENCAR, E. M. L. 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Diretrizes gerais para o atendimento educacional aos alunos portadores de altas habilidades/superdotação e talentos. Brasília: MEC/UNESCO, 1995. UNIUBE 215 BRASIL. Diretrizes nacionais para Educação Especial na Educação Básica. Brasília: MEC/SEESP, 2001a. BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília: Secretaria Geral, 2015. BRASIL. Política nacional de Educação Especial. Brasília: MEC/SEESP, 1994. BRASIL. Política nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Especial. Brasília: MEC/SEESP, 2008. BRASIL. Resolução CNE/CEB Nº 2, de 11 de setembro de 2001. Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Brasília: CNE/CEB, 2001b. CUPERTINO, C. M. B.; ARANTES, Denise Rocha Belfort. Um olhar para as altas habilidades: construindo caminhos. 2. ed. São Paulo: SE, 2012. 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Secretaria de Estado da Educação, Fundação Catarinense de Educação Especial. 2a . ed. rev. e amp. – Florianópolis: DIOESC, 2016. VIRGOLIM, Ângela M. R. Altas habilidades/superdotação: encorajando potenciais. Brasília: MEC/SEESP, 2007. RENZULLI, J. A case for a broadened conception of giftedness. In: RENZULLI, J. S.; REIS, S. M. The Triad Reader. Connecticut: Creative Learning Press, 1986. p. 20 – 22. Introdução Inclusão Escolar dos estudantes com Transtorno do Espectro Autista – TEA Capítulo 8 São muitos os desafios apresentados pelo paradigma da inclusão e estes se tornam ainda mais impactantes ao tratarmos da inclusão escolar do público da Educação Especial. Nesse sentido, um ponto de partida importante é conhecer o percurso histórico da inclusão a partir das políticas públicas e dos movimentos sociais que culminaram nesse paradigma. Igualmente importante é conhecer como as concepções influenciam e impactam o modo como a sociedade trata, percebe, inclui e promove políticas inclusivas para esse público. Neste capítulo de estudos, apresentaremos o caminho histórico legal, social e cultural que nos permitirá transitar desde a compreensão do Autismo como psicose infantil (até a década de 1980) até a compreensão do Transtorno do Espectro Autista como termo “guarda-chuva”, que dá sustentação científica e conceitual para identificação, caracterização e conceituação destas pessoas (a partir do ano de 2019). Também estudaremos sobre os aspectos relacionados ao movimento pedagógico necessário na organização do processo de inclusão escolar desse público, conhecido até o ano de 2019 como diagnosticado com Transtorno Global do Desenvolvimento 218 UNIUBE (TGD). O estudante com Transtorno do Espectro Autista – TEA, ao ingressar no ensino regular, demanda a ressignificação do espaço educacional e de seus objetivos, princípios e práticas pedagógicas em uma configuração direcionada a atender e reconhecer suas especificidades e promover o ensino com equidade, acesso e desenvolvimento. E ainda conheceremos um pouco mais sobre os recursos e serviços da Educação Especial para inclusão escolar destes estudantes. Ao final destes estudos, esperamos que você seja capaz de: • identificar e reconhecer o Transtorno do Espectro Autista – TEA; • desenvolver e planejar o movimento pedagógico necessário à inclusão escolar deste público; • utilizar e organizar os serviços e recursos disponibilizados pela Educação Especial, para inclusão escolar destes estudantes. 8.1 Saberes essenciais sobre Transtornos do Espectro Autista – TEA 8.2 Movimento Pedagógico para inclusão escolar dos estudantes com TEA 8.3 Serviços e recursos da Educação Especial para inclusão escolar dos estudantes com TEA 8.4 Considerações finais Objetivos Esquema UNIUBE 219 Saberes essenciais sobre Transtornos do Espectro Autista – TEA 8.1 Entre os séculos XVIII e XIX, na psiquiatria, o termo “idiotia” representava uma variedade de psicopatologia em crianças e adolescentes. Esse termo pode ser considerado o percursor não somente da concepção de retardo mental como também das psicoses infantis, esquizofrenia infantil e do Transtorno do Espectro do Autismo (BERCHERIE, 2000). A partir de 1943, os conceitos de Transtorno do Espectro do Autismo, psicose e esquizofrenia se confundiriam e eram utilizados como equivalentes. O termo “autismo” foi utilizado em 1943-1944 por Kanner (1943 apud RAPIN; TUCHMAN, 2009) e Asperger (1991 apud RAPIN; TUCHMAN, 2009), “de modo independente e quase simultâneo, para descrever crianças com incapacidades no desenvolvimento e com uma singularidade caracterizada por déficit de relacionamento interpessoal, sem, contudo, esgotar os estudos de suas muitas manifestações comportamentais” (p.29). No Brasil, esse conhecimento foi sendo gradualmente difundido pela psiquiatria e psicanálise. É somente a partir dos anos 1980 que o autismo deixa de ser incluído entre as “psicoses infantis”, passando a ser considerado um Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD) ou Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (TID), uma vez que as alterações surgem desde muito cedo na vida da criança (BOSA; CALLIAS, 2000). Somente em 2013, na última edição do DSM–V (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5.ª edição ou DSM-5), é utilizado o termo Transtorno do Espectro Autista (TEA) para definir a complexidade e heterogeneidade do quadro, enfatizando os prejuízos associados às habilidades verbais e ao nível linguístico e comportamental (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA, 2013). 220 UNIUBE Nas classificações mais difundidas, como a CID 10, da Organização Mundial da Saúde (1993), e o DSM-IV, da Associação Psiquiátrica Americana (1994), são descritos, além do autismo, a síndrome de Asperger, o transtorno desintegrativo, a síndrome de Rett e os quadros atípicos ou sem outra especificação. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM) ou Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, título no Brasil, é um manual para profissionais da área da saúde mental que lista diferentes categorias de transtornos mentais e critérios para diagnosticá-los, de acordo com a Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association – APA). É utilizado mundialmente por clínicos e pesquisadores bem como por companhias de seguro, indústria farmacêutica e parlamentos políticos. Existem cinco revisões para o DSM desde sua primeira publicação em 1952. A maior revisão foi a DSM-IV, publicada em 1994. A versão mais recente do DSM-5 ou DSM-V foi publicada em 18 de maio de 2013. Já a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde – CID (International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems – ICD) é outro guia comumente usado. AMPLIANDO O CONHECIMENTO A Resolução nº 4 de 2 de outubro de 2009 em seu Art. 4º detalha que crianças com Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD) são aqueles que apresentam um quadro de alterações no desenvolvimento neuropsicomotor, comprometimento nas relações sociais, na comunicação ou com a presença de estereotipias motoras. Incluem-se nessa definição o autismo clássico, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância e transtornos invasivos sem outra especificação. (BRASIL, 2009, p. 17). UNIUBE 221 Sendo as definições apresentadas: • Autismo De acordo com o Ministério da Educação (2005), o autismo pode ser compreendido como: um transtorno do desenvolvimento caracterizado, de maneira geral, por dificuldades nas áreas de comunicação e interação, bem como por padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades. (BRASIL, 2005, p. 15-16). Para a Classificação dos Transtornos Mentais, da Organização Mundial de Saúde, o autismo se constitui em transtorno global do desenvolvimento caracterizado por: a) um desenvolvimento anormal ou alterado, manifestadoantes da idade de três anos; b) uma perturbação característica do funcionamento em cada um dos três domínios: interações sociais, comunicação, comportamento focalizado e repetitivo. (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2003, p. 82). Em geral, as crianças com autismo apresentam dificuldades de comunicação, mostrando-se introspectivas, com comportamentos restritos e/ou repetitivos e com rígidos padrões de comportamento, resistência a mudanças e apego importante à rotina, o que não se relaciona a uma deficiência intelectual como o senso comum muitas vezes acredita. Ocorre que as crianças autistas levam um tempo maior do que as outras crianças para aprender as relações sociais. É comum os casos em que esses estudantes correspondam ao contato social e às normas sociais por condicionamento, ignorando ou não correspondendo ao significado do contato social ou de manifestações de afeto. Dessa forma um abraço ou um aperto de mão podem até ser correspondidos, mas ocorrerão ocorrer de forma reflexa, sem intencionalidade ou significado. 222 UNIUBE Ainda de acordo com Beerends (2007, p. 207-208), o autista “não manifesta prazer ou desagrado em situações cotidianas, porém possui comportamentos agressivos especialmente quando está em ambientes estranhos ou quando algo estranho invade o seu espaço pessoal”. É comum apresentarem reações e manifestações comportamentais recorrentes como: choro intenso, movimentos corporais repetitivos, indiferença em relação aos apelos e tentativas de ajuda, apego a determinados locais fixos na escola e recusa em deslocar-se conforme orientado; trata-se de reflexos de sua característica de inflexibilidade. Também podem ser observadas, em casos mais complexos, autoagressões ou reações abruptas envolvendo objetos ou mesmo alguma outra pessoa. Tais manifestações não devem ser interpretadas como o estado permanente por se tratar de reações a alguma alteração importante na sua rotina. O reconhecimento do transtorno autista, para Facion e Silva (2005, p. 135), perpassa por quatorze sintomas cardeais que frequentemente estão presentes neste transtorno: a criança não se mistura com outras crianças; age como se fosse surdo; resiste ao aprendizado; não demonstra medos de perigos reais; resiste a mudanças de rotina; usa as pessoas como ferramentas; risos e movimentos não apropriados; resiste ao contato físico; acentuada hiperatividade física; não mantém contato visual; apego não apropriado a objetos; gira objetos de maneira bizarra e peculiar; às vezes é agressivo e destrutivo; modo e comportamento indiferente e arredio. A criança diagnosticada com autismo pode ainda cheirar ou lamber objetos, ferir-se intencionalmente ou mostrar-se insensível a ferimentos. O autismo é um transtorno do desenvolvimento infantil, ainda sem determinantes e sem cura. Porém, existem terapias, medicamentos e instituições que podem ajudar a minimizar os impactos negativos desta condição na vida do autista, contribuindo para uma vida mais independente possível e ainda auxiliar na convivência com ele. UNIUBE 223 Os autores Facion e Silva (2005) apresentam 14 sintomas cardeais que frequentemente estão presentes no TEA. Quais são eles? AGORA É A SUA VEZ Na internet, você pode encontrar alguns vídeos com depoimentos de pais de autistas e também de profissionais da saúde que mostram o dia a dia de uma pessoa que apresenta esse transtorno de desenvolvimento. O vídeo, a seguir, disponibilizado no site “Segredos de Laurinha”, traz o depoimento da mãe de Laura. No vídeo, ela conta como começou a desconfiar de que sua filha tinha autismo. https://www.youtube.com/watch?v=4Xb4n7aINh8&t=170s É muito importante entender como é o cotidiano destas crianças e como os pais as veem, para compreendê-las melhor. PESQUISANDO NA WEB • Transtorno ou Síndrome de Asperger O Transtorno ou Síndrome de Asperger costuma ser diagnosticado mais tardiamente e tem como características, de acordo com o DSM - IV da Associação Americana de Psiquiatria, (2002, p. 107), “um prejuízo severo e persistente na interação social [...] e o desenvolvimento de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse e atividade” [...]. Características semelhantes ao autismo, porém se difere do autismo por não apresentar como característica o atraso no desenvolvimento da linguagem. 224 UNIUBE O Transtorno de Asperger é caracterizado por uma alteração qualitativa das interações sociais semelhantes ao autismo, mas não é acompanhada de um déficit de linguagem ou do desenvolvimento cognitivo. Além disso, não há atrasos significativos no desenvolvimento das habilidades cognitivas ou nas habilidades de autoajuda apropriadas à idade, no comportamento adaptativo (exceção da interação social) e na curiosidade pelo ambiente na infância. • Síndrome de Rett A Síndrome ou Transtorno de Rett é caracterizada essencialmente por uma desordem do desenvolvimento neurológico, segundo a Associação Americana de Psiquiatria, (2002, p. 104), pelo “desenvolvimento de múltiplos déficits específicos, após um período de funcionamento normal durante os primeiros meses de vida” da criança. Há um desenvolvimento inicial aparentemente normal, seguido de uma perda parcial ou completa de linguagem, da marcha e do uso das mãos, associado a um retrocesso no desenvolvimento craniano. Ocorre também, entre os 05 e os 30 meses de idade, segundo Facion e Silva (2005, p. 135), “uma perda das habilidades voluntárias anteriormente adquiridas das mãos, com o desenvolvimento subsequente de movimentos estereotipados característicos, que se assemelham a torcer ou lavar as mãos”. De acordo com Mello (2007), as causas desta síndrome são desconhecidas e podem estar associadas a anormalidades em alguma área do cérebro, não existindo uma explicação científica conclusiva. Estudos mostram que o interesse pelo ambiente social diminui nos primeiros anos após o início do transtorno, podendo ser reestabelecido mais tarde, surgem também dificuldades na coordenação da marcha ou movimentos do tronco com o enrijecimento do corpo, severo déficit psicomotor e prejuízo da linguagem expressiva ou receptiva. Esse transtorno leva quase sempre a um déficit intelectual. Acomete em sua maioria crianças do sexo feminino. UNIUBE 225 No vídeo, a seguir, disponibilizado no site da Apae de Anápolis (GO), a mãe da Rafaella fala sobre a síndrome de Rett, que acomete a menina. Expõe como desconfiou acerca da síndrome e como ela foi diagnosticada. Ela dá um depoimento de como se relaciona com a criança. https://www.youtube.com/watch?v=QRxaBtG2bFY O vídeo traz, também, a vivência da criança em família. Vale a pena conhecer! PESQUISANDO NA WEB • Transtorno Desintegrativo da Infância O Transtorno Desintegrativo da Infância foi por muito tempo conhecido “como síndrome de Heller, demência infantil ou psicose desintegrativa” (FACION; SILVA, 2005, p. 136). Em geral, diagnosticado a partir dos 24 meses, com predomínio no sexo masculino. Nesse transtorno, a criança nos dois primeiros anos de vida apresenta um desenvolvimento aparentemente normal, podendo apresentar comunicação verbal e não verbal, bons relacionamentos sociais, interações em jogos e ainda comportamentos adequados para a idade. Entretanto, antes dos dez anos de idade, observa-se uma perda clinicamente significativa das habilidades anteriormente adquiridas em pelo menos duas das seguintes áreas: “linguagem expressiva ou receptiva, habilidades sociais ou comportamento adaptativo, controle intestinal ou vesical, jogos e habilidades motoras” (FACION; SILVA, 2005, p. 136). É caracterizado como Transtorno Global do Desenvolvimento em função da perda de habilidades sociais com prejuízos qualitativos na interação social, na comunicação e ainda padrões repetitivos, restritos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades (incluindo estereotipias motoras). Porém após a regressão inicial, chega-se