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1 BENS 3a EDIÇÃO/2024 1. CONCEITO 2 2. PATRIMÔNIO JURÍDICO 3 3. PATRIMÔNIO MÍNIMO 3 4. CLASSIFICAÇÃO 4 4.1. BENS CONSIDERADOS EM SI MESMOS 4 4.1.1. BENS IMÓVEIS - Arts. 79 a 81, CC 4 4.1.2. BENS MÓVEIS - Arts. 82 a 84, CC 7 4.1.2.1. SITUAÇÃO DOS SEMOVENTES 9 4.1.3. BENS FUNGÍVEIS - Art. 85, CC 11 4.1.4. BENS INFUNGÍVEIS 11 4.1.5. BENS CONSUMÍVEIS - Arts. 86, CC 11 4.1.6. BENS INCONSUMÍVEIS 12 4.1.7. BENS DIVISÍVEIS - Arts. 87 e 88, CC 12 4.1.8. BENS COLETIVOS OU UNIVERSAIS 13 4.1.9. BENS SINGULARES 14 4.2. BENS DIGITAIS 15 4.2.1 BENS DIGITAIS PATRIMONIAIS 15 4.2.2 BENS DIGITAIS EXISTENCIAIS 16 4.2.3 BENS DIGITAIS PATRIMONIAIS-EXISTENCIAIS 17 4.3. BENS RECIPROCAMENTE CONSIDERADOS 17 4.3.1. BEM PRINCIPAL OU INDEPENDENTES 17 4.3.2. BEM ACESSÓRIO OU DEPENDENTES 18 4.4 BENS EM RELAÇÃO AO SEU TITULAR 22 4.4.1 BENS PARTICULARES OU PRIVADOS 22 4.4.2 BENS PÚBLICOS 22 4.4.1.1. JURISPRUDÊNCIAS SOBRE OS BENS PÚBLICOS 24 5. BENS EM RELAÇÃO À SUA SUSCETIBILIDADE DE ALIENAÇÃO 25 5.1. ALIENÁVEIS E INALIENÁVEIS 25 5.1.1 BEM DE FAMÍLIA 25 5.1.1.1 JURISPRUDÊNCIA SOBRE BENS DE FAMÍLIA 26 6. QUADRO RESUMO 27 2 1. CONCEITO Bens jurídicos podem ser definidos como toda utilidade física ou ideal, que seja objeto de um direito subjetivo. De acordo com a doutrina clássica, bem e coisa são objetos de direito distintos. Sendo que a coisa constitui o gênero e o bem, por sua vez, seria a espécie, a coisa que proporciona ao homem uma utilidade, sendo suscetível de apropriação. Todos os bens, portanto, são coisas; porém nem todas as coisas são bens1. Flávio Tartuce (2022, NP) resume bens e coisas da seguinte forma: 2 ● Coisas: Tudo que não é humano. ● Bens: Coisas com interesse econômico e/ou jurídico. No entanto, embora essa seja a posição adotada pelos civilistas Flávio Tartuce e Silvio Rodrigues, o professor Rubem Valente destaca que há duas posições sobre o conceito de bens e sua distinção com o termo “coisas”: CORRENTES3 1º CORRENTE “Define coisa como gênero, tudo o que está externo ao homem; que não é humano. Bem seria uma espécie de coisa. Em outras palavras, todas as coisas úteis e raras, com valor econômico, sendo, pois, suscetível de apropriação. Esta teoria é criticada por não poder se enquadrar os direitos não patrimoniais no conceito de bem (direito à vida, à integridade física etc.). 2ª CORRENTE (Flávio Tartuce e Silvio Rodrigues são adeptos) “Entende que bem é gênero, compreendendo tudo o que possa estar na relação jurídica como objeto, tendo ou não valor econômico. Coisa é espécie, abrangendo os bens que têm valor econômico. Em tese, a teoria falha por não contemplar as coisas 3 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Grupo GEN, 2022. p. 154. 2 Ilustração inspirada no livro Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022.. p. 210. 1Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. 3 fora de comércio, pois não têm valor econômico, e fala-se, mesmo assim, em coisa. A lua e as estrelas, por exemplo, são coisas, mas não são bens, porque são insuscetíveis de apropriação. Essa corrente nos parece que foi adotada pelo Código Civil, que traz somente o conceito de bens e as coisas como as dotadas de valor econômico. A posição de Washington de Barros Monteiro (2009) é a de que, adotada a terminologia única de bens, o Código acabou com a citada celeuma jurídica, superando a discussão. Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona (2012) defendem que o conceito de coisa fica restrito à materialidade, sendo que o termo “bem” tem significado mais amplo (de relação jurídica)”. 2. PATRIMÔNIO JURÍDICO É o conjunto de direitos e obrigações apreciáveis economicamente, ou a representação econômica da pessoa. São considerados uma unidade. Atualmente, tem-se trabalhado o patrimônio como toda uma gama de relações jurídicas (direitos e obrigações, de crédito e de débito). ⚠ ATENÇÃO A tendência é que se alargue o conceito de bem para que se inclua também o chamado patrimônio geral, ou seja, bens que não possuem índole econômica. 3. PATRIMÔNIO MÍNIMO4 Antes de passarmos para a classificação de bens, é interessante tecer algumas considerações sobre a tese do patrimônio mínimo, desenvolvida pelo Ministro do STF e Professor Luiz Edson Fachin, em obra em que é apontada a tendência de repersonalização do Direito Civil. Pela tese do patrimônio mínimo, deve-se assegurar à pessoa ummínimo de direitos patrimoniais, para que viva com dignidade. De acordo com o professor Tartuce,”a premissa do patrimônio mínimo pode ser retirada do art. 548 do Código Civil, pelo qual é nula a doação de todos os bens, sem a reserva do mínimo para a sobrevivência do doador (nulidade da doação universal5”. As principais aplicações da teoria do patrimônio mínimo se referem à do bem de família, 5 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. p. 213. 4 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. 4 especificamente pelas interpretações que se faz da Lei 8.009/1990 e foi com base nessa teoria que o STJ consolidou o entendimento de que o imóvel em que reside pessoa solteira, separada ou viúva constitui bem de família, sendo impenhorável (Súmula 364 do STJ). Inspirado ainda na mesma teoria, o Tribunal da Cidadania decidiu que "a impenhorabilidade do bem de família no qual reside o sócio devedor não é afastada pelo fato de o imóvel pertencer à sociedade empresária” (STJ, EDcl no AREsp 511.486/SC, Rel. Min. Raul Araújo, j. 03.03.2016, DJe 10.03.2016, publicado no seu Informativo n. 579). 4. CLASSIFICAÇÃO Existem diversas classificações de bens, a depender da doutrina adotada. No presente resumo, estudaremos a classificação apresentada pelo professor Rubem Valente6, com aprofundamento nos conceitos apresentados pelo professor Flávio Tartuce. 4.1. BENS CONSIDERADOS EM SI MESMOS Essa classificação analisa o bem em sua individualidade. São eles: a) Bens corpóreos e incorpóreos: Não possuem previsão legal. Os bens corpóreos são aqueles que possuem existência física. Os bens incorpóreos, por sua vez, não possuem existência física e não são percebidos pelos sentidos. b) Bens móveis e imóveis: serão detalhados nos tópicos abaixo (4.1.1 e 4,1,2). 4.1.1. BENS IMÓVEIS7 - Arts. 79 a 81, CC São aqueles que não podem ser removidos ou transportados de um lugar para outro sem que sua deterioração ou destruição. Exemplo: lote urbano etc. Os bens imóveis podem ainda ser classificados da seguinte forma: a) BENS IMÓVEIS POR NATUREZA OU POR ESSÊNCIA: “são aqueles formados pelo solo e tudo quanto se lhe incorporar de forma natural e abrangem o solo com sua superfície, o subsolo e o espaço aéreo. Tudo o que for incorporado será classificado como imóvel por acessão”8. Ex. Árvore que nasce naturalmente. Art. 79. São bens imóveis o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente. 8 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. p. 216. 7 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. 6 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Grupo GEN, 2022. 5 b) BENS IMÓVEIS POR ACESSÃO FÍSICA INDUSTRIAL OU ARTIFICIAL: “são aqueles bens formados por tudo o que o homem incorporar permanentemente ao solo, não podendo removê-lo sem a sua destruição ou deterioração. Tais bens imóveis têm origem em construções e plantações, situações em que ocorre a intervenção humana. Não perdem o caráter de imóveis, conforme o art. 81, CC”9: Art. 81. Não perdem o caráter de imóveis: I - as edificações que, separadas do solo, mas conservando a sua unidade, forem removidas para outro local;II - os materiais provisoriamente separados de um prédio, para nele se reempregarem. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Auditor Fiscal da Receita Estadual - SEF/MG (FGV - 2023), a banca apresentou a seguinte questão: “Tina, por ocasião da realização de uma grande reforma em sua casa, adquiriu novas portas para os quartos e banheiros, ainda não instaladas, e um completo sistema de refrigeração central que, para sua instalação, exigiu a remoção dos vitrais das janelas da sala, o que foi feito com todo o cuidado, visto que Tina fazia questão de que os vitrais fossem reempregados no local. Considerando que as antigas portas dos quartos estavam em bom estado, Tina colocou-as à venda em um brechó próximo.” sendo considerada CORRETA a seguinte assertiva: “Os vitrais da janela, mesmo após terem sido removidos para instalação do sistema de refrigeração, mantém sua qualidade de imóveis.”. Na prova para o cargo de Auditor de Controle Externo - TCE/ES (FGV - 2023), a banca apresentou a seguinte questão: “Celanda é dona de um casarão antigo, em que um dos salões foi construído com vitrais belíssimos e valiosos. Em fevereiro de 2023, ela resolve desmontar temporariamente esse cômodo para enviar os vitrais à restauração. Aproveitando a ausência momentânea daqueles materiais, instala um moderno sistema de segurança na casa, a fim de proteger as obras restauradas em seu entorno. Supondo que Celanda aliene todo o seu patrimônio imobiliário, o negócio jurídico irá contemplar” tendo sido considerada CORRETA a assertiva que trouxe a seguinte redação: “a casa, abrangendo os vitrais, que também são considerados bens imóveis, mas não os equipamentos de segurança, bens móveis que não seguem a sorte do bem principal em que estão instalados”. c) BENS IMÓVEIS POR ACESSÃO FÍSICA INTELECTUAL: “conceito relacionado com tudo o que foi empregado intencionalmente para a exploração industrial, aformoseamento e comodidade. São os bens móveis que foram imobilizados pelo proprietário, constituindo uma ficção jurídica, sendo tratados, via de regra, como pertenças10”. 10 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. p.216. 9 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. p. 216. 6 📌 OBSERVAÇÃO Existe uma grande discussão se essa modalidade de bens imóveis foi ou não banida pelo Código Civil de 2002, inclusive pelo teor do Enunciado 11 do CJF: Não persiste no novo sistema legislativo a categoria dos bens imóveis por acessão intelectual, não obstante a expressão "tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente", constante da parte final do art. 79 do Código Civil. d) BENS IMÓVEIS POR DISPOSIÇÃO LEGAL: são bens imóveis por determinação legal, nos termos do art. 80 do CC: Art. 80. Consideram-se imóveis para os efeitos legais: I - os direitos reais sobre imóveis e as ações que os asseguram; II - o direito à sucessão aberta. ⚠ ATENÇÃO: Direito à sucessão aberta A doutrina aponta que importantes efeitos derivam da natureza imobiliária do direito à sucessão aberta, a exemplo da necessidade de se exigir a autorização do cônjuge do renunciante, no processo de inventário, por se considerar que a renúncia, no caso, opera-se de forma semelhante à alienação de um imóvel, exigindo-se a vênia daqueles que não casaram no regime da separação absoluta de bens. 🚨 JÁ CAIU Na prova para Defensor Público do Estado de Rondônia (CESPE/CEBRASPE - 2023), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “Direitos à sucessão aberta são considerados bens imóveis para efeitos legais.”. Na prova para o cargo de Delegado de Polícia da PC-MG (FUMARC - 2018), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “Para os efeitos legais, considera-se bem imóvel o direito à sucessão aberta”. Na prova para o cargo de Delegado de Polícia da PC-AM (CESPE/CEBRASPE - 2018), a banca apresentou o seguinte caso concreto: “Determinado indivíduo tinha direito de usufruto de uma casa. Tal direito era transmissível a seus sucessores que com ele habitassem à época de sua morte. Além disso, ele era proprietário de um pequeno barco. Quando de seu falecimento, foi aberta a sucessão. De acordo com o Código Civil, os referidos bens — direito real de usufruto; direito real sobre o barco; direito à sucessão aberta — são classificados, respectivamente, como bens”, considerou CORRETA a seguinte assertiva: “imóvel, móvel e imóvel”. 7 4.1.2. BENS MÓVEIS - Arts. 82 a 84, CC São os passíveis de deslocamento sem quebra ou fratura. Os bens suscetíveis de movimento próprio, enquadráveis na noção de móveis, são chamados de semoventes (animais). Segundo Flávio Tartuce (2022, NP), os bens móveis podem ser transportados, por força própria ou de terceiro, sem deterioração, destruição ou alteração da substância ou da destinação econômico-social. Art. 82. São móveis os bens suscetíveis de movimento próprio (semoventes), ou de remoção por força alheia, sem alteração da substância ou da destinação econômico-social. Os bens móveis podem ser subclassificados: a) BENS MÓVEIS POR NATUREZA OU ESSÊNCIA: são os bens que podem ser transportados sem qualquer dano, por força própria ou alheia. Conforme art. 84 do CC, os materiais destinados a uma construção, enquanto não empregados, conservam a sua mobilidade sendo, por isso, denominados bens móveis propriamente ditos11. Art. 84. Os materiais destinados a alguma construção, enquanto não forem empregados, conservam sua qualidade de móveis; readquirem essa qualidade os provenientes da demolição de algum prédio. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Defensor Público da DPE-SE (CESPE/CEBRASPE - 2022), a banca considerou CORRETA, de acordo com a classificação dos bens móveis e imóveis disposta no Código Civil Brasileiro, que “Os materiais provenientes da demolição de algum prédio adquirem a condição de bens móveis”. Na prova para o cargo de Juiz de Direito do TJ-BA (CESPE/CEBRASPE - 2022), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “De acordo com o Código Civil, são bens móveis os materiais provenientes da demolição de um prédio.” Na prova para o cargo de Advogado - CRM/MG (QUADRIX - 2023), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “Os materiais destinados à construção, enquanto não forem empregados, conservam sua qualidade de móveis”. b) BENS MÓVEIS POR ANTECIPAÇÃO: “são os bens que eram imóveis, mas que foram mobilizados por uma atividade humana. Exemplo típico é a colheita de uma plantação ou a lenha cortada. Inclusive, o Superior Tribunal de Justiça já se pronunciou no sentido de que é possível, por convenção das partes, enquadrar o bem como móvel por antecipação”12. 12Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. 11Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022, p.216. 8 Na dação em pagamento de imóvel sem cláusula que disponha sobre a propriedade das árvores de reflorestamento, a transferência do imóvel inclui a plantação. STJ. 4ª Turma REsp 1567479-PR, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 11/06/2019 (Info 651). c) BENS MÓVEIS POR DETERMINAÇÃO LEGAL: situações em que a lei determina que o bem é móvel, como a previsão que consta do art. 83 do CC: Art. 83. Consideram-se móveis para os efeitos legais: I - as energias que tenham valor econômico; II - os direitos reais sobre objetos móveis e as ações correspondentes; III - os direitos pessoais de caráter patrimonial e respectivas ações. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Auditor do Estado - CGE/SC (FGV - 2023), a banca apresentou a seguinte questão: “No mês passado, ocorreu um enorme debate na COJUR (Consultoria Jurídica) da Secretaria de Fazenda de Santa Catarina a respeito da cobrança de ICMS sobre TUST e TUSD – sistema de compensação de energia elétrica no âmbito da mini e microgeração de energia (energiasolar). O debate centrou-se a respeito da natureza jurídica da energia. Em relação ao tema Bens, é correto afirmar que as energias que tenham valor econômico são consideradas”, tendo sido considerada CORRETA a assertiva que trouxe a seguinte redação: “bens móveis por força da lei.”. ⚠ ATENÇÃO Da mesma forma que a energia de valor econômico, os direitos autorais e os direitos de propriedade intelectual também são classificados como bens móveis, de acordo com o que estabelecem os seguintes artigos: Lei n° 9.610/1998: Art. 3º Os direitos autorais reputam-se, para os efeitos legais, bens móveis. Lei n° 9.279/1996: Art. 5º Consideram-se bens móveis, para os efeitos legais, os direitos de propriedade industrial. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Advogado da União (CESPE/CEBRASPE - 2023), a banca considerou CORRETA a assertiva que trouxe a seguinte redação: “Os direitos autorais, a energia elétrica e os direitos de propriedade intelectual são considerados bens móveis.”. ⚠ ATENÇÃO Os navios e aeronaves são bens móveis especiais ou sui generis. Apesar de serem móveis pela natureza 9 ou essência, são tratados pela lei como imóveis, necessitando de registro especial e admitindo hipoteca. 4.1.2.1. SITUAÇÃO DOS SEMOVENTES São aqueles capazes de se movimentar de um lugar a outro por força própria, como os animais. Hoje, há debate sobre atribuir aos animais um status diferenciado, próprio, separando-os das coisas. Isso envolve a questão da chamada “família multiespécie”. Segundo o professor Flávio Tartuce, os animais são enquadrados como coisas no Direito Privado Brasileiro. No entanto,“há uma tendência em se sustentar que seriam sujeitos de direito, tratados não como coisas, mas até como um terceiro gênero. Vale lembrar que o tratamento como terceiro gênero consta do BGB Alemão, estabelecendo o seu art. 90-A que os animais não são coisas (“Tiere sind keine Sachen”). O mesmo comando prevê, em continuidade, que os animais são protegidos por estatutos especiais. Todavia, na falta dessas normas, são regulados pelas regras aplicáveis às coisas, com as necessárias modificações”13. Exemplos na jurisprudência: “Na dissolução de entidade familiar, é possível o reconhecimento do direito de visita a animal de estimação adquirido na constância da união, demonstrada a relação de afeto com o animal. Na dissolução da entidade familiar em que haja algum conflito em relação ao animal de estimação, independentemente da qualificação jurídica a ser adotada, a resolução deverá buscar atender, sempre a depender do caso em concreto, aos fins sociais, atentando para a própria evolução da sociedade, com a proteção do ser humano e do seu vínculo afetivo com o animal. STJ. 4ª Turma. REsp 1713167-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 19/06/2018 (Info 634)14”. O professor Flávio Tartuce explica que o julgado acima expõe as três correntes sobre o tema na doutrina e na jurisprudência brasileira: 1ª CORRENTE (pretende elevar os animais ao status de pessoa) Trecho do julgado que explicita essa corrente: “haja vista que, biologicamente , o ser humano é animal, ser vivo com capacidade de locomoção e de resposta a estímulos, inclusive em relação aos grandes símios que, com base no DNA, seriam parentes muito próximos dos humanos. Em razão disso, ao animal deveria ser atribuídos direitos da personalidade, o próprio titular do direito vindicado, sob pena de a diferença de tratamento caracterizar 15“ 2ª CORRENTE “O melhor seria separar o conceito de pessoa e o de sujeito de 15 REsp 1713167-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 19/06/2018 (Info 634). 14 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Ao fim de um casamento ou união estável, é possível que o juiz reconheça o direito de visita a animal de estimação adquirido durante a constância do relacionamento. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: <https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/acc21473c4525b922286130ffbfe00b5>. Acesso em: 27/06/2022 13Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. p. 210. https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/acc21473c4525b922286130ffbfe00b5 10 (separa conceito de pessoa e o de sujeito de direito). direito, possibilitando a proteção dos animais na qualidade de sujeito de direito sem personalidade, dando-se proteção dos animais na qualidade de sujeito de direito sem personalidade, dando-se proteção em razão do próprio animal, e não apenas como objeto (na qualidade de patrimônio do seu proprietário) ou de direito difuso como forma de proteção ao meio ambiente sustentável16l”. 3ª CORRENTE (mais tradicional - é a posição do Flávio Tartuce). Segundo Flávio Tartuce, para a 3ª corrente, “Os animais, mesmo os de companhia ou de estimação, devem permanecer dentro da categoria das coisas e bens”17. Não é possível aplicar por analogia as disposições acerca da pensão alimentícia, baseada na filiação e regida pelo Direito de Família, aos animais de estimação adquiridos durante união estável. REsp 1.944.228-SP, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. para acórdão Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, por maioria, julgado em 18/10/2022, DJe 7/11/2022 (Edição Especial nº 9 - STJ). Sobre a referida decisão do STJ, ainda houve a seguinte afirmativa, “O fato de o animal de estimação ter sido adquirido na constância da união estável não pode representar a consolidação de um vínculo obrigacional indissolúvel entre os companheiros (com infindáveis litígios) ou entre um deles e o pet, sendo conferido às partes promover a acomodação da titularidade dos animais de estimação, da forma como melhor lhes for conveniente. A partir do fim da união estável, os bens hauridos durante a convivência são regidos pelo correlato regime de bens que, na ausência de contrato escrito entre os companheiros, como é o caso dos autos, segue o da comunhão parcial de bens (art. 1.725 do CC). Por fim, concluiu o STJ que “a obrigação de custear as despesas de subsistência dos animais de estimação tem regramento próprio e deve ser regido segundo o direito de propriedade (direito das coisas), com a repercussão no regime de bens regente do caso, atentando-se, em sua aplicação, ao afeto humano e à natureza particular dos animais, como seres dotados de sensibilidade.”. O Conselho Federal de Medicina Veterinária e diversas instituições de renome internacional têm defendido a importância da proteção do bem-estar dos animais enquanto seres sencientes, ou seja, capazes de sentir dor e prazer, e que, por isso, não podem ser tratados como coisas. Segundo o Min. Gilmar Mendes, “essa corrente doutrinária que defende a proteção autônoma do meio ambiente e dos animais já foi acolhida pelo STF” no julgamento da ADI 4983, no qual o Tribunal declarou a inconstitucionalidade da prática cultural da vaquejada, na época. 17 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. p. 211. 16 REsp 1713167-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 19/06/2018 (Info 634). 11 Destaca-se que hoje temos o PL 145/21, que altera o CPC, para permitir que animais não-humanos possam ser, individualmente, parte em processos judiciais, representados pelo MP, pela Defensoria, por associações de proteção dos animais ou por quem detenha sua tutela. 4.1.3. BENS FUNGÍVEIS - Art. 85, CC São aqueles que podem ser substituídos por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade. Art. 85. São fungíveis os móveis que podem substituir-se por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade. Conforme o professor Flávio Tartuce, “todos os bens imóveis são personalizados, eis que possuem registro, daí serem infungíveis. Já os bens móveis são, na maior parte das vezes, bens fungíveis. O empréstimo de bens fungíveis é o mútuo, caso do empréstimo de dinheiro18”. 4.1.4. BENS INFUNGÍVEIS São aqueles que possuem natureza insubstituível. Segundo Tartuce(2022, NP), os bens infungíveis também são denominados bens personalizados ou individualizados. Os bens imóveis são sempre infungíveis. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Juiz Leigo do TJ-RN (COMPERVE - 2018), a banca apresentou o seguinte enunciado: “Ubaldo, empresário, tem como sua principal atividade econômica a venda de livros clássicos em edições raras e únicas. Nesse caso, tendo como referencial o próprio Ubaldo, os livros são”, e considerou CORRETA a seguinte assertiva: "consumíveis e infungíveis”. ⚠ ATENÇÃO O bem fungível pode ser tornado infungível por vontade das partes. 4.1.5. BENS CONSUMÍVEIS - Arts. 86, CC São bens móveis cujo uso importa na destruição imediata da própria substância, bem como aqueles destinados à alienação. Art. 86. São consumíveis os bens móveis cujo uso importa destruição imediata da própria substância, sendo também considerados tais os destinados à alienação. 18 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. p. 217. 12 4.1.6. BENS INCONSUMÍVEIS São aqueles que suportam uso continuado, sem prejuízo do seu perecimento progressivo e natural, bem como aqueles que são inalienáveis. 📌 OBSERVAÇÕES ■ A lei determina que bens destinados à venda, como celular, são considerados consumíveis. Já um bem naturalmente consumível pode ser considerado inconsumível por vontade do titular. Art. 86 do CC: São consumíveis os bens móveis cujo uso importa destruição imediata da própria substância, sendo também considerados tais os destinados à alienação. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Delegado de Polícia (NUCEPE - 2018), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “Os veículos à venda em uma concessionária são considerados bens consumíveis”. ■ O Código de Defesa do Consumidor (CDC) adotou a classificação de bens duráveis e não-duráveis, para efeito de se exercer o direito potestativo de reclamar pelos vícios de qualidade do produto ou do serviço. 4.1.7. BENS DIVISÍVEIS - Arts. 87 e 88, CC São aqueles que podem ser repartidos em porções reais e distintas, formando cada uma delas um todo perfeito19. Art. 87. Bens divisíveis são os que se podem fracionar sem alteração na sua substância, diminuição considerável de valor, ou prejuízo do uso a que se destinam. Art. 88. Os bens naturalmente divisíveis podem tornar-se indivisíveis por determinação da lei ou por vontade das partes. A doutrina pontua que os bens divisíveis podem se tornarem indivisíveis por 3 questões básicas (art. 88, CC): a) indivisibilidade legal; b) indivisibilidade convencional; c) indivisibilidade natural. Pablo Stolze (apud Orlando Gomes, 2022, NP), a respeito do tema bens divisíveis e indivisíveis, pontua que: 19 STOLZE, Pablo. FILHO, Rodolfo Pamplona. Manual de Direito Civil. 6ª ed. São Paulo: SaraivaJur, 2022. NP 13 “A distinção entre bens divisíveis e indivisíveis aplica-se às obrigações e aos direitos. A regra dominante para as obrigações é que, mesmo quando a prestação é divisível, o credor não pode ser compelido a receber por partes, se assim não convencionou. Se a prestação for indivisível e houver pluralidade de devedores, cada qual será obrigado pela dívida toda.” 4.1.8. BENS COLETIVOS OU UNIVERSAIS20 Os bens coletivos são constituídos por várias coisas singulares, consideradas em conjunto e formando um todo individualizado. Os bens universais podem decorrer de uma união fática ou jurídica. As coisas coletivas formam universalidade de fato ou universalidade de direito. a) UNIVERSALIDADE DE FATO: é o conjunto de bens singulares, corpóreos e homogêneos, ligados entre si pela vontade humana e que tenham utilização unitária ou homogênea, sendo possível que tais bens sejam objeto de relações jurídicas próprias. Exemplo: biblioteca (livros). Art. 90. Constitui UNIVERSALIDADE DE FATO a pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária. Parágrafo único. Os bens que formam essa universalidade podem ser objeto de relações jurídicas próprias. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Delegado de Polícia da PC-PR (NC-UFPR - 2021), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “Constitui universalidade de fato a pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária”. Na prova para o cargo de Analista Judiciário TJ/ES (CESPE/CEBRASPE - 2023) a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “O fato de os bens constituírem uma universalidade de fato não obsta que eles sejam objeto de relações jurídicas próprias.” b) UNIVERSALIDADE DE DIREITO: é o conjunto de bens singulares, tangíveis ou não, e que, por uma ficção legal, com o objetivo de produzir certos efeitos, dá unidade individualizada. Exemplo: patrimônio. Art. 91. Constitui UNIVERSALIDADE DE DIREITO o complexo de relações jurídicas, de uma pessoa, dotadas de valor econômico. Caio Mário leciona que a grande utilidade prática é a chamada sub-rogação real. Explicando: Quando temos, por exemplo, bens particulares do cônjuge no regime da comunhão parcial. Se Maria possuía um apartamento, após o casamento, ele torna-se “bem particular” (uma universalidade de bens assim considerados 20 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. 14 por lei). Caso ela venda o apartamento e compre duas casas, haverá a sub-rogação real (substituição de vínculos). As características que pesavam sobre o apartamento recairão sobre as casas. Portanto, as duas casas continuam sendo bens particulares, pois integram uma universalidade de direito. Essa informação deve constar na escritura pública. 4.1.9. BENS SINGULARES21 São os que existem por si só (de per si). As coisas são consideradas em sua individualidade, representadas por uma unidade autônoma e, por isso, distinta de quaisquer outras. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Delegado de Polícia da PC-PR (NC-UFPR - 2021), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “São singulares os bens que, embora reunidos, se consideram de per si, independentemente dos demais”. Podem ser simples, quando as partes componentes encontram-se ligadas naturalmente, ou compostas, quando a coesão de seus componentes decorre do engenho humano. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Juiz de Direito do TJ-SC (FGV - 2022), a banca apresentou a seguinte questão sobre os bens considerados em si mesmos: “Tício decidiu modernizar sua fazenda. Seus planos consistem em: instalar energia elétrica; empenhar um relógio de família para obter um empréstimo; demolir o antigo celeiro, não mais utilizado, e doar aos empregados os materiais resultantes da demolição, que não serão reutilizados; e contratar uma equipe especializada para retirar os vitrais da capela construída há dois meses para limpeza e, posteriormente, os recolocar. Para passar as informações à sua advogada para providenciar as contratações, quer determinar a natureza jurídica de tais bens. Assim, no que concerne aos bens considerados em si mesmos, com relação à classificação quanto à mobilidade, a energia elétrica, o penhor, os materiais resultantes da demolição do antigo celeiro e os vitrais da capela são, respectivamente”. Em face desse enunciado, a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “bem móvel, bem móvel, bem móvel e bem imóvel”. 21 STOLZE, Pablo. FILHO, Rodolfo Pamplona. Manual de Direito Civil. 6ª ed. São Paulo: SaraivaJur, 2022. NP 15 4.2. BENS DIGITAIS22 Com o avanço tecnológico, observamos uma significativa mudança na sociedade, que, de maneira geral, tornou-se mais envolvida e presente no mundo digital. Esta transformação tem sido marcada por uma crescente interação com as tecnologias digitais e a incorporação do ambiente virtual em diversos aspectos da vida cotidiana. Ao longo dos anos, é natural que uma abundância de informações, expressões de personalidade e arquivos com teor econômico, vinculados a um indivíduo, sejam progressivamente armazenados na rede.Esse acúmulo de informações pessoais e digitais assume uma relevância crucial, assim como a proteção desse patrimônio torna-se uma necessidade premente. A evolução no ambiente virtual propicia o surgimento de um novo conceito de bens, os chamados bens digitais. Como estudado anteriormente, os bens, de maneira geral, podem ser classificados como corpóreos ou incorpóreos. No contexto dos bens digitais, eles se alinham mais à segunda categoria, uma vez que as informações compartilhadas na rede, armazenadas localmente em websites ou inseridas em espaços virtuais de armazenamento, como as chamadas "nuvens", são essencialmente intangíveis. Os bens digitais, são caracterizados por uma variedade de formas e localizações no ambiente virtual. Podem ser encontrados, por exemplo, em correios eletrônicos, redes sociais, sites de compras ou pagamentos, blogs, plataformas de compartilhamento de fotos ou vídeos, serviços de armazenamento em nuvem, entre outros. No nosso ordenamento jurídico, não existe um conceito legal para bens digitais. No entanto, com base no que foi mencionado, é viável definir os bens digitais como bens incorpóreos inseridos gradualmente na Internet por um usuário. Assim, os bens digitais consistem em informações pessoais que oferecem alguma utilidade ao indivíduo, independentemente de possuírem ou não valor econômico. 4.2.1 BENS DIGITAIS PATRIMONIAIS “Propriedade em sentido amplo abrange qualquer titularidade de bens corpóreos ou incorpóreos. Não se restringe ao direito das coisas. Alcança também propriedade sobre imateriais, como é o caso dos direitos de crédito, dos direitos autorais, da propriedade industrial, dos direitos decorrentes da posse etc. É esse sentido amplo que a Constituição Federal utiliza quando protege o direito de propriedade e o sujeita à função social no art. 5º, caput, XXII e XXIII.23” 23 Oliveira, Carlos E. Elias, D. e João Costa-Neto. Direito Civil. Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Grupo GEN, 2023. 22 ZAMPIER, Bruno. Bens Digitais. Ed. Foco. 16 Conforme se extrai do conceito de propriedade acima, os bens digitais, mesmo sendo definidos como incorpóreos, representam uma categoria distinta de propriedade, ou seja, refletem a evolução do conceito tradicional de propriedade para o ambiente virtual. Cada usuário, ao se tornar parte do universo online, contribui para a formação de um patrimônio digital único e multifacetado. Essa concepção reconhece a diversidade de bens intangíveis, como informações pessoais, conteúdos econômicos e outros elementos, que compõem o cenário complexo dos bens digitais. A propriedade desses bens, embora incorpórea, é reconhecida e possui faculdades jurídicas similares às propriedades tradicionais, garantindo ao titular os direitos de uso, gozo, disposição e reivindicação. A possibilidade de posse dos bens digitais é discutida à luz da teoria objetiva da posse, que dispensa o elemento volitivo tradicional, ou seja, afasta-se do tradicional conceito baseado no animus domini, permitindo uma visão mais ampla e contemporânea. Nessa perspectiva, a posse não é mais restrita ao mero contato físico ou controle direto sobre um objeto tangível. Dessa forma, o Código Civil confere ao possuidor dos bens digitais proteção contra lesões a seus direitos. Em caso de violação, o possuidor tem a prerrogativa de reivindicar a posse e buscar tutela judicial ou, em certos casos, recorrer à autotutela. Essa abordagem reconhece a natureza única dos bens digitais e destaca a importância de proteger os direitos de posse em um contexto digital interconectado, onde violações, como invasões a arquivos digitais, são frequentes. Diante da complexidade e singularidade dos bens digitais, torna-se imperativa uma abordagem jurídica que esteja alinhada com a dinâmica e as particularidades desses ativos na sociedade contemporânea. Essa abordagem é essencial para assegurar a efetiva proteção dos direitos dos usuários. 4.2.2 BENS DIGITAIS EXISTENCIAIS Ao ingressar na esfera digital como usuário da Internet, cada pessoa adquire a capacidade de ser titular de ativos digitais de natureza pessoal. Esse fenômeno é corriqueiro nos dias de hoje, refletindo a proliferação constante nas redes sociais. Os indivíduos compartilham fotos, vídeos, expressam emoções, pensamentos e ideias, alcançando um público ilimitado. Esse conjunto de elementos extrapatrimoniais, digitalizados ao longo do tempo, configura o conceito de bem digital existencial. Dentro desse contexto, arquivos como fotografias pessoais armazenadas em nuvens ou redes sociais, vídeos com imagem-voz e imagem-retrato do próprio sujeito, assim como correspondências trocadas por e-mail ou outros serviços de mensagens virtuais, exemplificam esses bens digitais existenciais. Assim, no mundo digital, a pessoa, sua dignidade e sua personalidade são projetadas de forma diversificada, conforme leciona Stefano Rodotà. A visão contemporânea do corpo, como apresentada por Rodotà, sugere uma coexistência entre o corpo físico e o eletrônico, o material e o virtual, o biológico e o político. Nesse contexto, o termo "identidade virtual" é preferido em substituição ao "corpo eletrônico". 17 Dessa forma, a clonagem eletrônica se tornou uma ameaça comum, trazendo consigo desafios substanciais ao possibilitar a criação de corpos eletrônicos falsos. A salvaguarda do corpo eletrônico, simbolizado pelas informações pessoais online, torna-se essencial. A recomposição ética e diretrizes para evitar a clonagem eletrônica devem ser asseguradas, juntamente com a importância do consentimento e uma proteção jurídica abrangente. 4.2.3 BENS DIGITAIS PATRIMONIAIS-EXISTENCIAIS Alguns bens digitais não se enquadram exclusivamente como patrimoniais ou existenciais, navegando por uma zona intermediária entre ambos. Dessa forma podem ser denominados como "bens digitais patrimoniais-existenciais", uma vez que abrangem questões econômicas e existenciais de forma simultânea. Com o progresso do mundo digital, a prevalência desses bens aumentará, principalmente considerando a crescente monetização das expressões intelectuais no ambiente virtual. Isso é evidente com o surgimento de novas profissões, como influenciadores digitais e youtubers, que desempenham atividades profissionais ao compartilhar informações na Internet, seja por meio de blogs ou do popular canal de vídeos YouTube. Nesse cenário, à medida que as pessoas se envolvem com esses conteúdos online, a audiência conquistada pode ser transformada em recursos financeiros, dando origem ao processo conhecido como "monetização". Dessa forma, o que inicialmente era apenas uma forma de expressão livre se converte em um empreendimento lucrativo. Os blogs e canais do YouTube, assim, se destacam como bens digitais de natureza híbrida: dependem da intelectualidade do administrador ao mesmo tempo em que geram recursos econômicos. 4.3. BENS RECIPROCAMENTE CONSIDERADOS Esse critério leva em consideração o vínculo existente entre o bem jurídico principal e o acessório. 4.3.1. BEM PRINCIPAL OU INDEPENDENTES É aquele que existe por si só, de maneira autônoma e independente, nos termos do art. 92, CC. Art. 92. Principal é o bem que existe sobre si, abstrata ou concretamente; acessório, aquele cuja existência supõe a do principal (princípio da gravitação jurídica). “O Princípio da gravitação jurídica estabelece que os bens acessórios devem ter o mesmo fim do que tiver o bem principal, ou seja, em uma relação jurídica a consequência final, por exemplo, a extinção, for atribuída ao bem principal, deverá obrigatoriamente também o ser sobre o bem acessório, salvo estipulação em contrário pela lei ou convenção das partes. Mas, o contrário não é verdadeiro, pois o bem principal tem 18 autonomia”24. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Promotor de Justiça do MPE-MS (Banca: própria; Ano: 2018), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “Quanto aos bens reciprocamente considerados, podemos afirmar que a pertençaé um acessório sobre o qual não incide o princípio da gravitação jurídica”. 4.3.2. BEM ACESSÓRIO OU DEPENDENTES25 Supõe a existência de um principal, ou seja, a existência e a finalidade dependem de outro bem, denominado de principal. Pelo princípio da gravitação jurídica o bem acessório segue o principal, salvo disposição especial em contrário (acessorium sequeatur principale). São bens acessórios: a) FRUTOS: Bens extraídos/extraíveis do bem principal de modo inesgotável. Tem sua origem no bem principal, mantendo a integralidade deste último, sem a diminuição da sua substância ou quantidade. Aqui temos 3 categorias: ● Frutos Naturais: Decorrem da natureza. Ex: Frutas produzidas por uma árvore. ● Frutos Industriais: Decorrem de força humana, a exemplo de caixas de leite produzidas por uma fábrica; lucros de uma empresa; ● Frutos Civis: Decorrem de uma relação civil, de uma utilização remunerada da coisa por terceiros (Exemplo: aluguel; juros remuneratórios). Quanto ao estado em que eventualmente se encontrarem, os frutos podem ser classificados da seguinte forma, categorização que remonta a Clóvis Beviláqua: ● Frutos pendentes: São aqueles que estão ligados à coisa principal, e que não foram colhidos. Exemplo: maçãs que ainda estão presas à macieira. ● Frutos percebidos: São os já colhidos do principal e separados. Exemplo: maçãs que foram colhidas pelo produtor. ● Frutos estantes: São aqueles frutos que foram colhidos e encontram-se armazenados. Exemplo: maçãs colhidas e colocadas em caixas em um armazém. ● Frutos percipiendos: São os frutos que deveriam ter sido colhidos, mas não foram. Exemplo: maçãs maduras que já deveriam ter sido colhidas e que estão apodrecendo. ● Frutos consumidos: São os frutos que já foram colhidos e já não existem mais. São as maçãs 25 Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil - Volume Único. Disponível em: Minha Biblioteca, (12th edição). Grupo GEN, 2022. 24 https://cadernodeprova.com.br/o-que-e-o-principio-da-gravitacao-juridica/ 19 que foram colhidas pelo produtor e já vendidas a terceiros. b) PRODUTOS: Bens extraídos/extraíveis do principal de modo esgotável. São os bens acessórios que saem da coisa principal, diminuindo a sua quantidade e substância. Exemplo: extrai pedras, petróleo, ouro, etc. ⚠ ATENÇÃO O professor Carlos Elias cita o seguinte exemplo para firmar a relevância prática desta classificação: João possuía uma fazenda que produzia pedras. Ele se casou com Maria pelo regime da comunhão parcial de bens, segundo o qual, os bens anteriores ao casamento são particulares do cônjuge. No curso do casamento, extraiu e vendeu as pedras, tendo ganhado 10 milhões de reais. Eles se divorciaram e Maria pediu metade desses 10 milhões. Ela teria direito? De acordo com o STJ, não, pois os produtos de bens particulares não se comunicam, tendo em vista que são a desintegração do bem principal. Ocorreu uma sub-rogação real, isto é, um bem tomou o lugar do outro. Os frutos dos bens particulares, por outro lado, comunicam-se. Sendo assim, se João tivesse ganhado 10 mil reais com aluguéis de apartamentos, esse valor seria bem comum, pois é fruto, e não uma desintegração do bem principal. 🚨 JÁ CAIU Na prova para Procurador do Município de São Paulo (CESPE/CEBRASPE - 2023) foi questionado sobre a classificação dos metais que se extrai das minas, sendo considerada CORRETA a seguinte assertiva: “produtos“. c) BENFEITORIAS: Alterações no bem principal. São acessórios introduzidos em um móvel ou imóvel, visando a conservação ou melhora da sua utilidade. Podem ser assim classificadas: ● Necessárias: Destinadas à conservação do bem. Tem a finalidade de conservar ou evitar que o bem se deteriore. Exemplo: conserto da janela. ● Úteis: Destinadas a facilitar o uso da coisa. Exemplo: reforma para transformar o apartamento em 3 quartos; ● Voluptuárias: Mero deleite ou ornamento. Não facilitam a utilidade da coisa, mas apenas tornam mais agradável o seu uso. Exemplo: piscina, obra de arte. 🚨 JÁ CAIU Na prova para Analista Ambiental - SEAD/GO (IBFC - 2023) foi considerada CORRETA a assertiva que trouxe a seguinte redação: “São benfeitorias voluptuárias as de mero deleite ou recreio, que não aumentam o uso 20 habitual do bem, ainda que o tornem mais agradável ou sejam de elevado valor“. A classificação das benfeitorias pode variar conforme a destinação, a utilidade ou a localização do bem principal. A título de exemplo, uma piscina na casa de alguém é, em regra, benfeitoria voluptuária. A piscina, na escola de natação, é benfeitoria necessária. Outrossim, não se pode confundir as benfeitorias com as acessões, pois as acessões são as incorporações introduzidas em um outro bem, imóvel, pelo proprietário, possuidor e detentor. Art. 97. Não se consideram benfeitorias os melhoramentos ou acréscimos sobrevindos ao bem sem a intervenção do proprietário, possuidor ou detentor. ⚠ ATENÇÃO No caso de posse de boa-fé, o indivíduo tem direito à indenização pelas benfeitorias necessárias e úteis, com direito de retenção, mas não receberá pelas benfeitorias voluptuárias. Poderá, apenas, levantá-las. d) PARTE INTEGRANTE: É o bem inútil sem o principal. De acordo com Maria Helena Diniz, as partes integrantes são os bens acessórios que estão unidos ao bem principal, formando com este último um todo independente. As partes integrantes são desprovidas de existência material própria, mesmo mantendo sua integridade. Exemplo: controle remoto sem televisão; lâmpada sem o bocal. e) PERTENÇAS: São bens com autonomia funcional (existem e possuem utilidade sem o bem principal), que são destinados ao serviço ou aformoseamento do bem principal de modo duradouro por vontade do titular. O conceito de pertença absorve o antigo conceito de bens imóveis por acessão intelectual. Exemplo: TV; Sofá; Mesa; Cadeira. Art. 93. São pertenças os bens que, não constituindo partes integrantes, se destinam, de modo duradouro, ao uso, ao serviço ou ao aformoseamento de outro. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Delegado de Polícia da PC-PR (NC-UFPR - 2021), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “São pertenças os bens que, não constituindo partes integrantes, destinam-se, de modo duradouro, ao uso, ao serviço ou ao aformoseamento de outro”. Na prova para o cargo de Juiz de Direito do TJ-PE (FGV - 2022), a banca apresentou o seguinte enunciado: “Lauro comprou um carro usado de seu vizinho para Marcos, seu filho que acabara de completar 18 anos. Ficou satisfeito com o modelo que escolheu, pois além de ser um carro versátil para um jovem, viu que possuía um rastreador, que pensou ser relevante para questões de segurança. Celebrado o negócio jurídico, Lauro ficou 21 surpreso quando o carro foi entregue sem o rastreador e, ao questionar o vendedor, ele o informou que a aquisição desse item não foi convencionada”. Em face do enunciado, a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “O vendedor não estava obrigado a entregar o rastreador, porque ele é considerado: pertença." Na prova para Juiz Estadual TJ/RJ (VUNESP - 2023) a banca questionou sobre o tema pertinente às pertenças, sendo considerada CORRETA a seguinte assertiva: “As pertenças podem ser destacadas do bem principal, podendo, portanto, figurarem como objeto de relações jurídicas próprias, sendo que, como regra, não seguem a sorte do bem principal.”. Conforme o Enunciado n. 535 do CJF/STJ, aprovado na VI Jornada de Direito Civil, para a existência da pertença, o art. 93 do Código Civil não exige elemento subjetivo como requisito para o ato de destinação. Lembre-se que, pelo princípio da gravitação jurídica, os bens acessórios seguem o principal. Assim, em caso de alienação do bem, os bens acessórios devem, em tese, ficar no bem. Regra que não se aplica às pertenças, acessórios sui generis, pois para estas vale a regra de que não acompanham o principal, salvo determinação legal, circunstâncias do caso concreto ou manifestação de vontade (art. 94 do Código Civil). Art.94. Os negócios jurídicos que dizem respeito ao bem principal NÃO ABRANGEM AS PERTENÇAS, salvo se o contrário resultar da lei, da manifestação de vontade, ou das circunstâncias do caso. O equipamento de monitoramento acoplado em caminhão é qualificado como pertença e pode ser retirado pelo devedor fiduciante que o colocou. CC/Art. 94. Os negócios jurídicos que dizem respeito ao bem principal não abrangem as pertenças, salvo se o contrário resultar da lei, da manifestação de vontade, ou das circunstâncias do caso. STJ. 3ª Turma REsp 1667227-RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 26/06/2018 (Info 629). 🚨 JÁ CAIU Na prova para Analista Ambiental - SEAD/GO (IBFC - 2023) foi considerada CORRETA a assertiva que trouxe a seguinte redação: “Os negócios jurídicos que dizem respeito ao bem principal não abrangem as pertenças, salvo se o contrário resultar da lei, da manifestação de vontade, ou das circunstâncias do caso.“ 📌 OBSERVAÇÃO O professor Carlos Elias cita um segundo exemplo cujo STJ já decidiu caso semelhante: João tinha um caminhão financiado pelo Banco do Brasil, mas não pagou as prestações, fazendo com que o banco entrasse com uma ação de busca e apreensão. No entanto, dentro do caminhão, havia uma máquina de rastreamento instalada por João. O STJ decidiu que essa máquina deveria ser devolvida, pois foi considerada como pertença. Segundo o Superior Tribunal de Justiça, os aparelhos de adaptação para direção por deficiente físico 22 são pertença: Devedor que perdeu o veículo tem direito de retirar aparelhos instalados no carro para permitir a direção por deficiente físico. Havendo adaptação de veículo, em momento posterior à celebração do pacto fiduciário, com aparelhos para direção por deficiente físico, o devedor fiduciante tem direito a retirá-los quando houver o descumprimento do pacto e a consequente busca e apreensão do bem. STJ. 4ª Turma. REsp 1.305.183-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 18/10/2016 (Info 594). 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Delegado de Polícia da PC-PR (NC-UFPR - 2021), a banca considerou CORRETA a seguinte assertiva: “Segundo o Superior Tribunal de Justiça, os aparelhos de adaptação para direção por deficiente físico são pertenças”. 4.4 BENS EM RELAÇÃO AO SEU TITULAR 4.4.1 BENS PARTICULARES OU PRIVADOS São os bens que pertencem às pessoas físicas ou jurídicas de Direito privado, atendendo aos interesses dos seus proprietários. O Código Civil trabalha com o critério da exclusão para definir se o bem é público ou particular. Vejamos: Art. 98. São públicos os bens do domínio nacional pertencentes às pessoas jurídicas de direito público interno; todos os outros são particulares, seja qual for a pessoa a que pertencerem. Segundo Pablo Stolze (2022, NP), os bens particulares se definem por exclusão, ou seja, são aqueles não pertencentes ao domínio público, mas sim à iniciativa privada. 4.4.2 BENS PÚBLICOS São todos os bens que pertencem a uma entidade de direito público interno, como no caso da União, Estados, Distrito Federal, Municípios, entre outros, sendo o rol do artigo 98 do CC meramente exemplificativo. Nesse sentido, prevê o Enunciado n. 287 do CJF/STJ que: O critério da classificação de bens indicado no art. 98 do Código Civil não exaure a enumeração dos bens públicos, podendo ainda ser classificado como tal o bem pertencente à pessoa jurídica de direito privado que esteja afetado à prestação de serviços públicos. 23 Por sua vez, o artigo 99 do Código Civil classifica os bens públicos da seguinte forma: a) BENS DE USO GERAL OU COMUM DO POVO - Art. 99, inc. I, CC: São os bens destinados à coletividade, como as praças, parques, praias, rios, não perdendo essa característica caso o Estado decida regulamentar sua utilização de forma onerosa. b) BENS DE USO ESPECIAL - Art. 99, inc. II, CC: São os bens destinados a uma execução de serviço público especial, havendo, portanto, uma destinação especial, denominada afetação. São bens de uso especial os prédios e as repartições públicas. c) BENS DOMINICAIS OU DOMINIAIS - Art. 99, inc. III, CC: São os bens, móveis ou imóveis, que constituem o patrimônio disponível e alienável da pessoa jurídica de Direito Público, como os terrenos de marinha, terras devolutas, mar territorial, etc. Art. 99. São bens públicos: I - os de uso comum do povo, tais como rios, mares, estradas, ruas e praças; II - os de uso especial, tais como edifícios ou terrenos destinados a serviço ou estabelecimento da administração federal, estadual, territorial ou municipal, inclusive os de suas autarquias; III - os dominicais, que constituem o patrimônio das pessoas jurídicas de direito público, como objeto de direito pessoal, ou real, de cada uma dessas entidades. Parágrafo único. Não dispondo a lei em contrário, consideram-se dominicais os bens pertencentes às pessoas jurídicas de direito público a que se tenha dado estrutura de direito privado. Ressalta-se que os bens de uso comum do povo e os de uso especial são inalienáveis, salvo se ocorrer a desafetação, situação em que esses bens podem passar à categoria dos bens dominicais e serem alienados. Do mesmo modo, os bens públicos dominicais podem, por determinação legal, ser convertidos em bens públicos de uso comum ou especial. ⚠ ATENÇÃO Os bens públicos, tanto os de uso comum, de uso especial e os dominicais, não são susceptíveis de usucapião, conforme preveem os arts. 183, § 3º e 191, parágrafo único, da CF/88 e o art. 102 do Código Civil. Inclusive, esse é o entendimento sumulado do STJ: Súmula 619-STJ: A ocupação indevida de bem público configura mera detenção, de natureza precária, insuscetível de retenção ou indenização por acessões e benfeitorias. Mas, se o particular invade imóvel público será possível o manejo de interditos possessórios em litígio 24 entre particulares sobre bem público dominical, pois entre ambos a disputa será relativa à posse. (STJ. 4ª Turma. REsp 1.296.964-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 18/10/2016 - Info 594). 4.4.1.1. JURISPRUDÊNCIAS SOBRE OS BENS PÚBLICOS Não é possível a manutenção de quiosques e trailers instalados sobre calçadas sem a regular aprovação estatal. Com efeito, se o apossamento do espaço urbano público ocorre ilegalmente, incumbe ao administrador, sob risco de cometimento de improbidade e infração disciplinar, proceder à imediata demolição de eventuais construções irregulares e à desocupação de bem turbado ou esbulhado. STJ. 2ª Turma. REsp 1.846.075-DF, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 03/03/2020 (Info 671). Imóvel da Caixa Econômica Federal vinculado ao SFH é insuscetível de usucapião O imóvel da Caixa Econômica Federal vinculado ao Sistema Financeiro de Habitação, como está afetado à prestação de um serviço público, deve ser tratado como bem público, sendo, pois, imprescritível (insuscetível de usucapião). STJ. 3ª Turma. REsp 1.448.026-PE, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 17/11/2016 (Info 594). Jurisprudência em Teses STJ, Ed. 133 7) A inexistência de registro imobiliário de imóvel objeto de ação de usucapião não induz presunção de que o bem seja público (terras devolutas), cabendo ao Estado provar a titularidade do terreno como óbice ao reconhecimento da prescrição aquisitiva. Súmula 103-STJ: Incluem-se entre os imóveis funcionais que podem ser vendidos os administrados pelas forças armadas e ocupados pelos servidores civis. A edificação particular está irregularmente situada em bem de uso comum pertencente à União, lesando o direito da população ao livre acesso à praia, fato que configura dano in re ipsa à coletividade, enseja o dever de indenização à União independentemente da verificação de boa-fé do particular, e impõe a reparação do ilícito às custas do Recorrido. STJ, REsp 1681210/RN, j. 05.02.2019. Jurisprudência em Teses. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Promotor de Justiça do MPE-SC (Banca: CESPE/CEBRASPE; Ano: 2021), a banca considerou errada a seguinte assertiva: “Construção irregular em praiacausa dano à coletividade, pois esse ambiente constitui bem público de uso especial”. O erro da assertiva consiste no fato de que a praia é bem de uso comum do povo. 25 STJ | JURISPRUDÊNCIA EM TESES | EDIÇÃO 124 : 1. Os bens integrantes do acervo patrimonial de sociedades de economia mista sujeitos a uma destinação pública equiparam-se a bens públicos, sendo, portanto, insuscetíveis de serem adquiridos por meio de usucapião. 🚨 JÁ CAIU Na prova para o cargo de Promotor de Justiça do MPE-SC (Banca: CESPE/CEBRASPE; Ano: 2021), a banca considerou errada a seguinte assertiva acerca dos bens públicos, julgue o item a seguir, à luz do Código Civil e da jurisprudência do STJ: “Os bens integrantes do acervo patrimonial das sociedades de economia mista cuja destinação seja de natureza pública são equiparados a bens públicos, sendo, portanto, sujeitos a usucapião”. O erro da assertiva consiste no fato de que, conforme a jurisprudência acima indicada, os referidos bens não são sujeitos a usucapião. 5. BENS EM RELAÇÃO À SUA SUSCETIBILIDADE DE ALIENAÇÃO 5.1. ALIENÁVEIS E INALIENÁVEIS Em relação à sua suscetibilidade de alienação, podem ser alienáveis ou inalienáveis. Os inalienáveis são subdivididos em: a) “Naturalmente inalienáveis: ou inapropriáveis por sua natureza; b) Juridicamente inalienáveis ou legalmente inalienáveis: impossibilidade que decorre da lei; c) Voluntariamente inalienáveis: decorre de um ato de vontade. Exemplo: cláusulas de inalienabilidade. Estas, usualmente, vêm acompanhadas da incomunicabilidade e da impenhorabilidade. No Brasil, as cláusulas de inalienabilidade estão adstritas a casos de liberalidade (doação). Não obstante, há quem sustente, de forma minoritária, a inconstitucionalidade dessas disposições, em decorrência da limitação à circulação de bens”26. 5.1.1 BEM DE FAMÍLIA Há dois tipos de bens de família: BENS DE FAMÍLIA VOLUNTÁRIO (Arts. 1.711 a 1.722) “Tratado como uma limitação patrimonial pelo Código. É constituído por ato de vontade do casal, da entidade familiar ou de terceiro, mediante registro no Cartório de Imóveis. Poderão integrar a instituição do bem de família voluntário valores mobiliários ou rendas. O valor do bem de família 26 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Grupo GEN, 2022. P.168. 26 voluntário não pode ultrapassar o teto de um terço do patrimônio líquido dos instituidores. O registro como bem de família possui os seguintes efeitos: impenhorabilidade (no tocante às dívidas posteriores ao registro, não abrangendo dívidas tributárias e condominiais relativas ao prédio); e inalienabilidade (pode ser relativizada pela manifestação de todos os interessados em sentido contrário)”27; BEM DE FAMÍLIA LEGAL (Lei n. 8.009 de 1990) “O ordenamento jurídico, ao consagrar o princípio da dignidade da pessoa humana, também protege um patrimônio mínimo para a pessoa, daí a necessidade da instituição do bem de família, que é impenhorável, independentemente de escritura ou registro cartorário. É uma proteção automática conferida pela lei ao imóvel residencial próprio do casal ou da entidade familiar, não respondendo por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, entre outras (art. 1º)28”. 5.1.1.1 JURISPRUDÊNCIA SOBRE BENS DE FAMÍLIA Súmula n. 364 do STJ: “O conceito de impenhorabilidade de bem de família abrange também o imóvel pertencente a pessoas solteiras, separadas e viúvas”. Súmula n. 449 do STJ: “A vaga de garagem que possui matrícula própria no registro de imóveis não constitui bem de família para efeito de penhora”. Outras questões sobre o bem de família (Elencadas pelo professor Rubem Valente): “a) quanto à vaga de garagem, o STJ já firmou entendimento no sentido de que a impenhorabilidade só é possível se a vaga não tiver registro e matrícula próprios; b) caso o indivíduo possua mais de uma residência, a proteção recairá sobre a de menor valor, como também é possível que haja desmembramento do único imóvel; c) o STF entende ser possível a penhora de bem de família de fiador em contrato de locação (AI-AgR 666879/SP); d) o STJ, no caso de indicação de bem a penhora, vem entendendo que a simples indicação não implicaria renúncia ao benefício da impenhorabilidade do bem de família. Isso não seria possível no caso de hipoteca, em virtude de expressa previsão legal; 28 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Grupo GEN, 2022. p.168. 27 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Grupo GEN, 2022. p.168. 27 e) o STJ entende que o devedor solteiro também goza da proteção do bem de família (Súmula n. 364); f) o STJ destaca que a exceção à impenhorabilidade do bem de família previsto em lei ordinária não pode afetar direito reconhecido pela Constituição, como no caso da pequena propriedade rural (art. 5º, XXVI, da CF), nem pode ser afastada por renúncia, por tratar-se de princípio de ordem pública que visa à proteção da entidade familiar (REsp 470.935/RS)”29. 6. QUADRO RESUMO BENS30 NOÇÕES GERAIS “Bem” é o interesse juridicamente tutelado pela norma. Patrimônio é o conjunto de todos os bens com conteúdo pecuniário. CLASSIFICAÇÃO DOS BENS a) Bens corpóreos e incorpóreos: distinguem-se pela existência física ou não. b) Bens móveis e imóveis: suscetíveis ou não de movimento próprio, ou de remoção por força alheia, sem alteração de sua substância ou da destinação econômico-social. c) Bens fungíveis e infungíveis: se podem ou não ser substituídos por outros de mesma qualidade, quantidade e espécies. 🚨 JÁ CAIU Na prova para Técnico Ministerial - MPE/PB (FCC - 2023) foi questionado o que são considerados bens fungíveis, tendo sido considerada CORRETA a assertiva que trouxe a seguinte redação: “ os móveis que podem substituir-se por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade“. d) Bens consumíveis e inconsumíveis:material ou juridicamente consumíveis. e) Bens divisíveis e indivisíveis: possibilidade ou não de fracionamento do bem sem a perda do seu valor econômico ou de sua finalidade. 30 Quadro do livro: Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Grupo GEN, 2022. 29 Valente, Rubem. Direito Civil Facilitado. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Grupo GEN, 2022. p. 169. 28 f) Bens singulares e coletivos: se considerados individualmente ou em sua coletividade. g) Bens principais e acessórios: se têm existência autônoma ou dependem do principal. h) Bens particulares e públicos: se pertencem aos particulares ou às pessoas jurídicas de direito público. i) Bens alienáveis e inalienáveis: se podem ser alienados. BENS DE FAMÍLIA a) Bem de família voluntário: constituído por ato de vontade do casal, da entidade familiar ou de terceiro, mediante registro no Cartório de Imóveis. b) Bem de família legal: proteção automática conferida pela lei ao imóvel residencial próprio do casal ou da entidade familiar, não respondendo por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, entre outras.