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REMIT - RESPOSTA ENDOCRINO,METABÓLICA E IMUNOLÓGICA AO TRAUMA • Sempre que ocorre uma agressão ao organismo humano, qualquer que seja a causa ou mecanismo, desencadeia-se um complexo conjunto de respostas que são iniciadas imediatamente, necessárias para manter a homeostase e a vida. Não importa se a agressão foi provocada por trauma cirúrgico, hemorragia, ação de endotoxinas, anestesia ou lesão traumática por acidente. A resposta será a mesma, variando a intensidade. • A extensão e a magnitude da resposta dependem da intensidade do trauma, como pode ser observado quando se trata de paciente submetido a operação eletiva, em comparação com o paciente vítima de lesão por trauma acidental. Neste último caso, tudo ocorre de maneira não planejada e descontrolada. O organismo frente a um trauma se mobiliza para formação de glicose, fonte primordial de energia. • Glicogenólise: degradação do glicogênio. A glicose é armazenada no fígado em forma de glicogênio hepático, sob influência hormonal é consumido em 12 – 24 horas. Quando acaba o glicogênio, a forma de gerar glicose é por meio da gliconeogênese. • Gliconeogênese: produção de glicose a partir de extratos não glicídicos → aminoácidos (músculo), glicerol (tecido adiposo) e lactato. • A resposta hormonal tem o objetivo de estimular a gliconeogênese. DEFINIÇÕES • Catabolismo: destruição tecidual, especialmente a degradação de proteínas da massa corporal magra (interfere na cicatrização, infecções e imunidade). • Anabolismo: síntese tecidual, em particular a síntese de proteína da massa magra, que é essencial para a cicatrização das feridas e para os mecanismos de defesa pós-trauma. • O ser humano é constituído de massa magra e massa gorda. O estoque de proteína não é normalmente disponível para utilização como fonte de energia principal, uma vez que as moléculas proteicas têm um papel na manutenção da homeostase. Qualquer perda de proteína é prejudicial. As proteínas entram na composição da estrutura das células do músculo, das vísceras, hemácias, tecido conjuntivo, das enzimas, dos anticorpos e de muitas outras estruturas essenciais à vida. TRAUMA → RESPOSTA NEUROENDÓCRINA → COMPONENTE INFLAMATÓRIO + HORMONAL. RESPOSTA NEUROENDÓCRINA • Principais hormônios envolvidos: catecolaminas, corticosteroides e o glucagon. • Componente inflamatório: liberação local de citocinas e a ativação sistêmica de cascatas humorais envolvendo complemento, eicosanoides (mediadores inflamatórios como os leucotrienos) e fatores ativadores de plaquetas. Esses mediadores promovem a cicatrização das feridas pela estimulação da angiogênese, migração de leucócitos e de fibroblastos. • Após uma lesão acidental envolvendo grande destruição tecidual, substâncias são produzidas localmente e ganham a circulação sistêmica. Células de outros tecidos são ativadas para produzir esses mediadores gerando uma resposta sistêmica intensa e provocando disfunções orgânicas à distância. CATECOLAMIAS – NORADRENALINA E ADRENALINA • São produzidas na adrenal e quando aumentadas estimulam glicólise hepática, a glicogenólise e a gliconeogênese. • Aumentam a produção de lactato a partir dos tecidos periféricos (músculo esquelético): liberação de aminoácidos pelo tecido muscular. • Estimulam a lipólise e a liberação de ácidos graxos. • Deprimem a secreção de insulina. Estimulam a hipófise a produzir ACTH. • Hemodinâmico: estimulação cardíaca e a vasoconstricção na tentativa de preservar a perfusão sanguínea. ACTH • Produzido na hipófise anterior. Aumentado na REMIT. Age no córtex da adrenal estimulando à produção de cortisol. CORTISOL • É liberado pelo córtex da adrenal. Está aumentado na REMIT. Em traumas importantes, permanece elevado por semanas ou meses. Mobiliza aminoácidos do músculo esquelético: estimula a gliconeogênese hepática, inibe a captação de aminoácidos e síntese proteica do músculo esquelético. GLUCAGON • É liberado pelo pâncreas. Está aumentado na REMIT. Promove a glicogenólise e gliconeogênese hepática. Estimula os hepatócitos para produzirem glicose a partir dos estoques de glicogênio hepático e de outros precursores. Também estimula a lipólise. ALDOSTERONA • É liberada pelo córtex da adrenal. Está aumentada na REMIT. • Diminui o potássio sérico. • Retém sódio eliminando algumas veze potássio, e algumas vezes hidrogênio (alcalose metabólica), que contribui para retenção da água e reabsorção de bicabornato, aumentando a volemia. ADH – HORMÔNIO ANTIDIURÉTICO (VASOPRESSINA) • É produzido na hipófise posterior. Está aumentado na REMIT. • Provoca a reabsorção de água livre dos túbulos distais e coletores dos rins → causa edema no pós-operatório com oligúria. • Promove vasoconstricção esplâncnica. • Age estimulando a glicogenólise e gliconeogênese hepática. GH – HORMÔNIO DO CRESCIMENTO • Produzido na hipófise anterior. Está aumentado na REMIT. Atua de forma catabólica nas fases iniciais da resposta ao trauma. • Causa elevação de ácidos graxos no plasma devido a lipólise. • Inibe a insulina. • Potencializa as catecolaminas. OBS: mas esse hormônio não é anabólico? Sim, se estiver na presença de IGF-1 (fator de crescimento insulina – símile tipo 1) que está inibido na fase inicial do trauma. INSULINA • É liberada pelo pâncreas. Está diminuída na REMIT. • Por ser anabólico, não tem espaço na REMIT que é catabólica, pois ela é responsável pelo armazenamento de glicose e ácidos graxos, assim como deposição de aminoácidos nas proteínas musculares. • É inibida na fase aguda pós-trauma pela ação das catecolaminas. • Hipoinsulinemia → aumenta os níveis de glicose na circulação. CITOCINAS • São pequenas proteínas produzidas tanto pelas células endoteliais do local da lesão (diferente dos hormônios não são secretadas por glândulas) como neutrófilos, macrófagos e linfócitos, quanto por diversas células imunes do organismo. • As principais são: TNF-alfa, IL-1, IL-6. PROTEÍNAS DE FASE AGUDA • Os aminoácidos disponibilizados para o fígado na fase de trauma também servirão para a formação de proteínas de fase aguda. • A IL-6 induz a formação dessas proteínas no fígado. • Aumento do PCR e fibrinogênio auxiliam no reparo das lesões teciduais. • IL-1 provoca aumento da temperatura corporal. • TNF-alfa gera anorexia. OPIÓIDES ENDÓGENOS • Atuam nos mesmo receptores cerebrais e medulares da morfina. • São liberados pela hipófise anterior em resposta à estímulos provenientes da região do trauma. • Em níveis elevados promovem atonia intestinal. FASES DA RESPOSTA AO TRAUMA • Catabólica: o Período inicial na ocorrência do trauma/cirurgia e logo após o trauma//procedimento cirúrgico. o Alterações intensas promovidas pelas catecolaminas e pelo cortisol. o Alta detecção de mediadores pró-inflamatórios. o Aumento da gliconeogênese. o Síntese de proteínas de fase aguda, a atividade imune das células de defesa e o balanço negativo de nitrogênio também atingem níveis insuperáveis. o A lipólise exacerbada para neoglicogênese. o Esta fase dura cerca de 6 – 8 dias em cirurgias eletivas não complicadas. Na presença de complicações pós- operatórias ou de trauma acidental, o período catabólico pode durar semanas. o Consumo de proteínas: ▪ Esse consumo das proteínas é causado por estímulo hormonal do estresse e resulta em gliconeogênese com produção de glicose e as fontes de produção são aminoácidos que são convertidos no fígado. ▪ Quando os aminoácidos são usados para formação de glicose são degradados e o nitrogênio deles não é utilizado, sendo eliminado na urina. Dessa forma, aumenta a excreção de ureia, gerando balanço nitrogenado negativo. o Balanço nitrogenado negativo: fase inicial da resposta ao trauma com proteólise intensa para formação de glicose no fígado ou seja mais proteínas estão sendo consumidas do que sintetizadas. • Anabólica precoce: o Volta à normalidade dos hormôniosaumentados na fase catabólica. o Declínio na excreção de nitrogênio, com balanço nitrogenado tendendo ao equilíbrio. o Restauração do balanço de potássio, uma vez que este era inicialmente positivo (destruição tecidual), e depois tendia a negatividade no decorrer de horas a dias (efeito da aldosterona). o A diminuição dos teores de ADH promove diurese de água retida. o O paciente manifesta desejo de se alimentar devido redução dos níveis de TNF-alfa. o Balanço nitrogenado positivo: síntese proteica e ganho de massa corporal magra. • Anabólica tardia: o O paciente apresenta um ganho ponderal mais lento principalmente à custa de tecido adiposo, fenômeno conhecido como balanço positivo de carbono → pode durar meses e anos. RESUMO DAS PRINCIPAIS RESPOSTAS HORMONAIS AO TRAUMA CASO CLÍNICO 1 Com relação às resposta fisiológicas ao estresse cirúrgico, se pode afirmar que: a- Em geral, ocorre aumento (diminuição) da secreção de insulina e diminuição das concentrações de glucagon e hormônio do crescimento. b- Aldosterona é um potente estimulador para a retenção de cloro e potássio (sódio) nos túbulos renais. c- Ocorre aumento dos níveis de cortisol circulante devido a uma maior secreção de ACTH a partir da hipófise posterior (anterior). d- A vasopressina estimula a reabsorção de água nos túbulos renais. CASO CLÍNICO 2 Em relação às alterações metabólicas em resposta ao trauma, assinale a alternativa ERRADA: a- A destruição tecidual promove perdas significativas de nitrogênio. b- A insulina, principal hormônio anabolizante, tem ação limitada no período pós-trauma. c- A maior produção de adrenalina inibe a produção de insulina, promovendo ações catabólicas. d- A massa muscular de reserva do paciente minimiza os efeitos do catabolismo.