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Júlia Camargos FACULDADE DE MEDICINA DE BARBACENA CLÍNICA CIRÚRGICA I AULA 2 - RESPOSTA ENDÓCRINO-METABÓLICA AO TRAUMA PARTE 1 - SANARFLIX: Pontos abordados: tema importante para entender a resposta do pós-operatório, trauma e processo inflamatório ● Resposta endócrino e metabólica ● Mediadores hormonais ● Fases da resposta INTRODUÇÃO: ● O objetivo da resposta endócrina é trazer o indivíduos que saiu do seu estado de equilíbrio para o estado de homeostasia ● Após o estresse (trauma, cirurgia, jejum prolongado, patologia cirúrgica ou clínica) o paciente sai do seu estado de equilíbrio. Para retornar a esse estado acontece uma resposta regulada pelo organismo → Resposta Endócrino-Metabólica e Imunológica. ● Objetivos: ○ Manter o fluxo sanguíneo ○ Aumentar aporte de nutrientes para a cicatrização ○ Restabelecer o equilíbrio endógeno ● Estímulos muito intensos: uma resposta muito exagerada devido a estímulos muito intensos pode gerar uma resposta maléfica, trazendo condições ruins ao paciente (do ponto de vista clínico) podendo evoluir para a disfunção de múltiplos órgãos. COMPOSIÇÃO CORPORAL: É necessário que ocorra o aumento do aporte de nutrientes, tanto de energia quanto de matéria prima na região acometida. ● Lipídios: conseguem fornecer cerca de 9 kcal através da lipólise → liberando ácido graxo (fonte de energia direta para alguma células) ou glicerol (metabolizado pelo fígado para a produção de nova glicose - gliconeogênese) ● Proteína: liberam cerca de 4 kcal através da proteólise das proteínas musculares → liberando aminoácidos (utilizados na produção de glicose - gliconeogênese hepática) ● Glicogênio: reserva primária de energia mais imediata, libera 4 kcal com a glicogenólise (quebra do glicogênio no fígado) → liberando glicose. Dura em torno de 12 a 24 horas, por isso, processos inflamatórios muito prolongados, recuperação de pós-operatório de grandes cirurgias é necessário a produção de nova glicose através do glicerol e de aminoácidos GLICOSE: fonte principal de energia para o reparo tecidual e para a manutenção da homeostasia interna ● Principal fonte inicial: quebra do glicogênio hepático → duração de 12 a 24 horas 1 Júlia Camargos ● Gliconeogênese (produção de nova glicose): metabolismo hepático com os aminoácidos (alanina e glutamina), glicerol e lactato ESTÍMULO AFERENTE: A resposta se inicia através do estímulo aferente: ● Nervo vago ● Fibras nociceptivas: estímulo de dor no local da cirurgia, da inflamação ● Citocinas: ponte de interação entre resposta metabólica e imunológica HORMÔNIOS: CORTISOL: liberado pelo córtex da adrenal ● Efeito catabólico: estimula a produção de glicose nova e liberação de nutrientes para o reparo tecidual ● Proteólise muscular: liberação de aminoácidos → utilizados na gliconeogênese e da produção de proteínas de fase aguda (fibrinogênio e PCR) ● Lipólise: liberação de ácido graxo (fonte de energia direta) e de glicerol (utilizado na gliconeogênese) CATECOLAMINAS: a principal representante é a adrenalina ● Liberadas pela medula da glândula suprarrenal em situações de alteração de volemia (fazendo uma vasoconstrição) e por estímulo local ● Preserva o volume intravascular através da vasoconstrição (fase inicial do reparo tecidual) ● Efeito metabólico do ponto de vista metabólico, estimulando a glicogenólise, gliconeogênese e lipólise ● Precisam dos glicocorticóides (cortisol) para que elas tenham um efeito metabólico adequado → atuam de forma sinérgica com o cortisol ● Catecolaminas + opióides endógenos: responsáveis pela atonia intestinal (íleo funcional, íleo paralítico pós operatório → pode levar a uma obstrução intestinal funcional) HORMÔNIO ANTIDIURÉTICO ou ARGININA VASOPRESSINA (ADH): ● Produzida no hipotálamo (nos núcleos supraóticos) e é armazenada na neuro-hipófise (parte posterior) ● Liberada a partir do estímulo de perda de água para estimular a absorção renal de água para manter a volemia ● Preserva o volume intravascular: participa das fases iniciais do reparo tecidual ● Oligúria funcional transitória: quando a resposta metabólica diminuir e entrar na fase anabólica, o reequilíbrio do balanço hídrico é restabelecido com diminuição do ADH e assim, aumento da diurese → restabelecer balanço hídrico ● Vasoconstrição esplâncnica: direciona o fluxo sanguíneo para os órgãos principais (cérebro, coração e rim) ● Efeito metabólico (catabólico): estimula a glicogenñolise e a gliconeogênese para disponibilizar glicose para o reparo tecidual 2 Júlia Camargos ALDOSTERONA: ● Produzida na zona glomerulosa da suprarrenal; é um mineralocorticóide, ● Participa do SRAA e participa do balanço hídrico (reabsorção de sódio e água) e de potássio (excreção junto com íons H+ → podendo evoluir para uma alcalose mista) ○ Alcalose mista: perda de H+ por via alta (sonda nasogástrica, vómitos) e por via baixa ● Paciente tem perda de CO2 devido hiperventilação por anestesia e dor → alcalose mista ● A alcalose é transitória e ao longo dos dias o paciente vai restabelecendo seu equilíbrio ácido-base GLUCAGON: ● estímulo neuro-hormonal, produzido nas células alfa do pâncreas ● Hormônio contrarregulador de insulina estimulando a gliconeogênese hepática para a produção de nova glicose INSULINA: ● Hormônio anabólico que vai estar suprimido durante a fase catabólica, pois nessa fase o organismo precisa de muitos nutrientes disponíveis para fazer o reparo tecidual ● Hormônios contra-insulínicos: glucagon, epinefrina e cortisol HORMÔNIO DE CRESCIMENTO (GH): ● Produzido pelas células da hipófise anterior ● Responsável pela lipólise (liberação de glicerol e de ácido graxos) ● Tem a sua função anabólica a partir do estímulo de IGF-1 → durante a fase catabólica esse estímulo fica inibido pelas citocinas de fase aguda (TNF-a e IL-6) TSH E TIROXINA: ● Fase inicial: Síndrome do eutireoidiano doente → TSH normal ou discretamente diminuído + T4 diminuído (mas a sua fração livre está normal - fração funcionante) + T3 diminuído (T4, que está diminuído, é convertido em T3) ○ do ponto de vista metabólico o paciente não tem alteração FASES DA RESPOSTA ENDÓCRINO E METABÓLICA: 1. Fase catabólica (adrenérgica-corticoide) 2. Fase anabólica precoce 3. Fase anabólica tardia Fase Catabólica/adrenérgica-corticoide: ● Fase inicial, pró-inflamatória, tem íntima relação com as citocinas e seu objetivo é o controle do dano tecidual, hemostasia e o início do reparo ● Ocorre uma readequação do metabolismo do paciente para disponibilizar nutrientes necessários para esse reparo e manutenção da atividade metabólica mais aumentada no sítio acometido Eventos: ● Intensa gliconeogênese: a partir de 12-24 horas, 3 Júlia Camargos ● Proteólise e lipólise: para fornecer nutrientes para o reparo tecidual e para a produção de glicose (na gliconeogênese) ● Produção de proteínas de fase aguda: auxiliam no equilíbrio dessa resposta imunológica e hormonal ○ Produzidas no fígado, marcadores de lesão tecidual (podemos dosar para acompanhar se a resposta inflamatória diminui) ○ IL-6: estimula a produção de proteínas de fase aguda ○ Mecanismos de proteção: algumas possuem um efeito contrarregulador para diminuir o efeito destruidor ■ Antiproteases (alfa-1-antitripsina e alfa-2-macroglobulina) ■ Ceruloplasmina: ação antioxidante ■ Fibrinogênio e Proteína C reativa: auxiliam no reparo tecidual ● Atividade imune de defesa: produção de radicais livre, hemostasia, destruição de tecido desvitalizado e de patógenos invasores ● Balanço nitrogenado negativo: ○ Intensa proteólise: devido ao estímulo hormonal catabólico → para que aumente a disponibilizaçao de aminoácidos ■ Aminoácidos participam do metabolismo de reparo tecidual e de produção de glicose → excreção de bases nitrogenadas ○ Aumento da eliminação de bases nitrogenadas: excreção através de ureia ○ Maior destruição de proteínas (músculo): perda de massa magra ■ Se essa resposta for muito intensa, outras proteínas de outros órgãos também vão ser mobilizados, podendo causar danos permanentes no indivíduo● Quando ocorre o estímulo anabólico, ou seja, o crescimento da musculatura e absorção de bases → balanço energético positivo (fase anabólica) Fase anabólica precoce: ● Início do processo de anabolismo: diminuição dos hormônios catabólicos + aumento dos hormônios anabólicos (principalmente a insulina e o GH , estimulando o IGF-1) ● Balanço nitrogenado positivo: diminuição da destruição de proteínas e aumento da massa magra, devido à síntese de proteínas ● Balanço de potássio em equilíbrio ● Aumento da diurese: devido a diminuição do ADH → importante para o reequilíbrio hídrico ● Restabelecimento do apetite e da dinâmica do trato gastrointestinal por diminuição do TNF-a Fase anabólica tardia: ● Manutenção do balanço nitrogenado em equilíbrio ● Ganho de peso e aumento do tecido adiposo ● Balanço positivo de carbono (lipídios): processo que demora de meses a anos para ser restabelecido em relação ao ganho de massa magra proteico 4 Júlia Camargos PARTE 2 - AULA: CONCEITO: ● É uma resposta fisiológica do organismo à um insulto (cirúrgico, traumas) e que tem como objetivo final restaurar o homeostasia → É a tentativa do organismo manter a vida (homeostase). ● O grau de resposta está ligado ao grau do trauma ○ quanto mais lesão, maior a resposta A resposta metabólica envolve: ● Ação do eixo hipotálamo hipofisário ● Ação do SNA ● Ação do sistema hormonal geral ● Ação dos mediadores de ação locais e sistêmicos ● Ação dos produtos de células endoteliais vasculares ● Ação dos produtos intra-celulares de células distintas COMPONENTES BIOLÓGICOS DA RESPOSTA METABÓLICA: ● Primários (amarelo): ocorrem por ação das forças físicas que vão lesar os tecidos (ex: lesão dos tecidos, de órgãos específicos ou vasculares). ● Secundários (cinza): são reações de adaptação dos tecidos, uma resposta do organismo tentando manter a homeostase. (Ex.:Alterações endócrinas, Alterações hemodinâmicas, Infecções, Falências orgânicas) ● Fatores Associados (verde): influenciam nas reações porém não são devidas ao trauma diretamente. São as comorbidades, como HAS, DM... 5 Júlia Camargos A seguir os eixos estão apresentados em “primeiro”, “segundo”, etc, mas eles acontecem todos juntos, não tem uma ordem: 1º EIXO: Dor, emoções → fibras aferentes → SNA simpático (Adrenalina e Noradrenalina) ● Eixo das catecolaminas: ao tomar um susto, por exemplo, quem age são as catecolaminas (vasoconstrição, taquicardia, efeito inotrópico) ● Síndrome do Coração Partido: ocorre uma liberação muito grande de estresse afetando esse eixo ○ ex.: mãe esperando um filho para o almoço e ele sofre um acidente → “meio que infarta” 2º EIXO: barorreceptores, quimiorreceptores → SNC → resposta neuroendócrina no EHHA e no SNA (simpático) ● É o principal eixo ● sofre ação da inflamação Cronotropia (+ rápido) inotropismo (+ forte) ● A finalidade desse esquema é a reação de fuga ou luta, onde se tem ao final uma reserva de água e os efeitos da adrenalina ● ADH (hormônio antidiurético, vasopressina) ● Um paciente com uso de IECA vai ter alteração nessa cascata → isso seria um exemplo de fator terciário (fator associado) 6 Júlia Camargos 3º EIXO: Processo inflamatório (trauma) → Inflamação aguda → ativa SNC e os outros eixos e também, o EHHA (liberando ACTH, ADH, GH, aldosterona e cortisol) ● Mediadores de Inflamação (proteínas da fase aguda) ○ Proteína C reativa ○ Seroamilóide A ○ Glicoproteína-alfa ácida ○ Alfa-1-antitripsina ○ Fibrinogênio ○ Haptoglobulina ○ Alfa-1-quimotripsina ● Componentes secundários: hormônio corticotrófico (ACTH) e cortisol Metabolismo das proteínas ● O metabolismo do trauma tem como objetivo manter a homeostase (equilíbrio) ● Todas essas reações representadas acima precisam estar em equilíbrio → qualquer alteração nesse ciclo leva a uma compensação em outro lado (ex.: trauma) ○ Ex.: pacientes sem fazer ingestão de proteína, com sonda, politraumatizado → ele começa a degradar a proteína do próprio organismo ■ se o organismo liberar aminoácidos e alanina, eles caem no fígado e participam do ciclo de Felig e assim, percorre todo esse ciclo representado acima ● Outro componentes secundários: ○ Renina Angiotensina ○ glucagon: faz o papel inverso ao da insulina ○ GH: liberados durante ou após exercícios ○ Esteróides gonadais: atletas de ponta que participam de competições muito acirradas costumam ter uma diminuição desses esteróides. Por isso, alguma delas nem menstruam (isso é uma resposta ao estresse físico e mental) 7 Júlia Camargos ○ Hormônios tireóideos: participam sistematicamente de várias funções e no trauma, geralmente eles não se alteram ou alteram pouco ○ Insulina: possui efeitos metabólicos fazendo com que a glicose saia da circulação e entre no fígado, no músculo e nas células de gordura. Precisa estar em equilíbrio e bem funcionante. ■ Os remédios hipoglicemiantes agem nessa via facilitando a internalização da glicose INFLAMAÇÃO AGUDA: Temos componentes primários + componentes secundários + componentes associados → precisamos então, de um grau de processo inflamatório para manter o equilíbrio. O nosso organismo tem alguns mecanismos (eixos) para manter o equilíbrio (homeostase). A resposta endócrino metabólica geralmente é uma inflamação aguda e provoca: ● Vasodilatação ● Aumento de permeabilidade / edema ● Migração e ativação de leucócitos ● Microtromboses ❖ Se caminha para a resolução: é BOA e leva à reparação e proteção ❖ Se caminha para a persistência ou amplificação: é RUIM e leva à Sindrome inflamatoria de resistecia sistemica (SIRS) ou a Desfunçao de Múltiplos Orgaos e Sistemas (DMOS) → geralmente culminam em morte ➢ SIRS (presença de dois ou mais desses sinais): ■ Leucócitos > 12.000 ou < 4.000 células/mm3 ■ Temperatura > 38º ou < 36º C ■ Frequência cardíaca > 90 bpm ■ Frequência respiratória > 20 ipm ou PaCO2 < 32 mmHg ou ventilaçao mecanica ➢ Se esse quadro de SIRS for associado a uma infecção → sepse CITOQUINAS: possuem uma finalidade de amplificar ou regular o processo inflamatório (1ª fase) ● TNF: ○ Principalmente TNF-α ○ Atua amplificando a resposta inflamatória ● IL-1: ○ Induz proteólise muscular 8 Júlia Camargos ○ Aumenta cortisol, glucagon, insulina e ACTH ○ Aumenta resposta imune: aumenta a liberação dos Anticorpos e a ativação dos linfócitos T ● IL-6: ○ Regula síntese de FAP (fator de ativação palquetária) E outras proteínas da fase aguda no fígado ALTERAÇÕES IMUNOLÓGICAS: ● Decorrentes da ação dos glicocorticóides: ○ diminuição dos linfócitos e da sua ativação ○ diminuição dos monócitos e de fator ativador de macrófagos ○ diminuição de eosinófilos ○ diminuição de basófilos ○ diminuição de neutrófilos ● O uso de medicamentos (corticóides) podem alterar o processo de homeostase FASES DA RESPOSTA METABÓLICA: ● Fase inicial (horas) ● Fase hipermetabólica (dias) ● Fase anabólica (semanas) Ex.: ferida com processo inflamatório avermelhada → ferida com fibrina → retirada dos pontos (coalescência) A quantidade de trauma pode falar a favor de uma demora do processo, visando uma tentativa de equilíbrio (trauma grande) FATORES ASSOCIADOS À RESPOSTA METABÓLICA AO TRAUMA: ● Fatores primários: dor, estresse, trauma cirúrgico … ● Fatores secundários: cascata com adrenalina, insulina, glucagon, hormônios (cortisol é o principal) ● Fatores associados: ○ Uso de medicações (IECA, glicocorticóides, anti-inflamatórios, insulina) ○ Infecções: aumenta o consumo de células de defesa, processo inflamtório aumentado ○ Falências orgânicas: um paciente com IRC nao tem o SRAA funcionando adequadamente, por exemplo ○ Alterações no ritmo alimentar: pessoa em jejum por muito tempo começa a afetar seu metabolismo ○ Imobilização prolongada: ruim, diminui massa muscular ○ Perdas hidro-eletrolíticas: paciente com febre por exemplo - único hormônio do trauma que está diminuído: insulina 9