Prévia do material em texto
1 PARA CONCURSOS Profa. Dra. Silvânia Q. e Silva MANAUS 2022 MÓDULO : FUNDAMENTOS HISTÓRICOS TEÓRICOS E METODOLOGICOS DO SERVIÇO SOCIAL I Unidade 01: Acumulação e Sociedade Capitalista 2 APRESENTAÇÃO Seja bem-vindo (a) à primeira unidade do módulo de Fundamentos Históricos Teóricos e Metodológicos do Serviço Social do Curso Preparatório para Concursos Públicos na especialidade Serviço Social. Nesta unidade faz-se uma abordagem sobre a constituição da Sociedade Capitalista seus fundamentos, processo sócio-histórico, dimensões teóricos metodológicas no decorrer do desenvolvimento capitalista e, especialmente, sua reinvenção nos momentos de crises cíclicas do capital. As produções de Tavares (2009) e Proni (1997) são fundamentais no que diz respeito ao conhecimento das principais fases do capitalismo e sua analise critica na constituição e legitimação da sociedade de classes, a qual tem como elemento constituidor, a desigualdade. Conhecer as estratégias objetivas e ideológicas com as quais esta sociedade vem se construindo historicamente é essencial para compreender a profissão na perspectiva critica de totalidade, pois o capitalismo em suas fases mercantilista, concorrencial, monopolista e globalizado nos apresenta as bases fundamentais da reprodução da sociedade. Este conteúdo é relevante para provas de qualquer Concurso Público na área de Serviço Social, sendo assim, ressaltamos que seu esforço e dedicação são essenciais, no sentido da ampliação de seus conhecimentos e horizontes profissionais. Assim sendo, requer que invista em uma rotina de estudos compatível com a quantidade de conteúdo que precisa se apropriar, bem como coloque em prática a leitura na fonte, revisão e ampliar a resolução de questões sobre este tema. Desse modo você se aproxima cada vez mais do alcance do seu objetivo, a APROVAÇÃO. Enfatiza-se que este material foi produzido com dedicação e exclusivamente para você, que se dispôs a investir em seus estudos e preparação, fica então resguardados os direitos autorais e de reprodução, não sendo permitido sem a expressa autorização das autoras. Vamos então dar continuidade à nossa caminhada! Profa. Dra. Silvânia Queiroz e Silva 3 SUMÁRIO OBJETIVOS DA UNIDADE................................................................................... 4 1. Sociedade Acumulação e capital ................................................................... 2. Fase 1: do feudalismo ao capitalismo mercantilista .................................... 3. Fase 2: Capitalismo concorrencial ............................................................... 4. Fase 3: Capitalismo monopolista e imperialismo ........................................ 5. Fase 4: Capitalismo financeiro globalizado .................................................. 4 6 7 8 10 QUESTÕES DE CONCURSOS............................................................................. REFERÊNCIAS..................................................................................................... AUTORA............................................................................................................... 12 15 15 4 OBJETIVOS DA UNIDADE: Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: ✓ Compreender o processo sócio-histórico e os fundamentos das principais fases cíclicas da sociedade capitalista; ✓ Apreender os fundamentos da analise histórico dialética proposta pelo Serviço Social das relações capitalistas de reprodução social. 1. Sociedade, acumulação e capital Tavares (2009) destaca que o modo como, mundialmente, se organiza a produção traduz uma longa história de exploração do homem pelo homem, cujas relações sociais são determinadas pelo ESCRAVISMO, PELO FEUDALISMO E, CONTEMPORANEAMENTE, PELO CAPITALISMO. Todas têm em comum a DESIGUALDADE, mas isso não é argumento suficiente para afirmar que a divisão da sociedade em classes seja algo natural. “A Natureza não produz de um lado possuidores de dinheiro e de mercadorias e, de outro, meros possuidores das próprias forças de trabalho”. a cada nova etapa de seu desenvolvimento o CAPITALISMO, dá repostas de modo amplificado suas leis imanentes: tendência a aumentar o grau de concentração e centralização do capital, a induzir o progresso técnico e revolucionar a produção, a poupar o trabalho vivo socialmente necessário, a ampliar a capacidade produtiva instalada além das possibilidades do mercado, a englobar novas áreas de valorização e expandir seus domínios para além das fronteiras dadas, a espraiar sua lógica de reprodução por todas as esferas de sociabilidade (MAZZUCCHELLI, 1985). Alguns pensadores tentam explicar a divisão de classes a partir da afirmação de que o homem é naturalmente egoísta. Entre outros, Adam Smith observa que há nos homens uma incapacidade natural de cada um individualmente se bastar, o que desperta neles uma disposição para a troca, motivada pelos seus interesses particulares, daí se originando a divisão do trabalho. Parte-se do pressuposto de que, historicamente, os homens sempre aproveitaram as oportunidades de maximizar os seus ganhos, sobretudo por meio de atos de troca. Essa inclinação natural do homem teria sido materializada através do aprimoramento da organização da produção e dos instrumentos de trabalho, tendo em vista o aumento da produtividade, o que teria dado origem ao capitalismo, como se este, potencialmente, tivesse existido sempre, precisando apenas ser libertado do atraso. Para Tavares (2009) essa concepção sobre a origem do capitalismo tem implicações teórico-práticas que devem ser desveladas, uma vez que enfatiza a continuidade entre sociedades não capitalistas e capitalistas, numa tentativa de disfarçar as particularidades do capitalismo, além de tratar o mercado tão- somente como o lugar onde são oferecidas oportunidades de comprar e vender, portanto, espaço representativo da liberdade entre os homens. E, ainda, 5 tende a tratar o atraso como exterior ao capitalismo, uma vez que esse deixaria de existir a partir de um determinado nível de desenvolvimento. PRESSUPÕE A AUTORA QUE A DESIGUALDADE NÃO É UM FENÔMENO ENDÓGENO AO CAPITAL, MAS UMA DECORRÊNCIA DA AUSÊNCIA DE DESENVOLVIMENTO. A lógica do capital não é a de que todos ganhem, ao contrário, é preciso que muitos percam para que alguns ganhem. A desigualdade é, na opinião de Hayek ― expressivo representante do neoliberalismo ―, propulsora da liberdade geral. Como Smith, ele também ignora que possibilidades não implicam realizações. Isto é, o fato de ser livre para tornar-se proprietário não é suficiente para que todos o sejam, dado que, trata-se de uma possibilidade cuja realização é mediada pelo dinheiro. Para Marx e Engels, “a propriedade privada está suprimida para nove décimos de seus membros; ela existe precisamente pelo fato de não existir para nove décimos” . O processo de produção capitalista não é simplesmente produção de mercadorias, mas um processo que absorve trabalho não pago. “O processo de produção é a unidade imediata entre o processo de trabalho e o processo de valorização, do mesmo modo por que seu resultado imediato, a mercadoria, é a unidade imediata entre o valor de uso e o de troca”. Ao vender a força de trabalho ao capitalista, por um dia, semana, quinzena, mês ou ano, tudo o que for produzido pelo trabalhador, no período determinado, pertence ao capitalista, embora essa produção seja sempre superior ao valor pago pela venda de sua força de trabalho. O que o capitalista recebe em troca do salário é o valor de uso dessa força de trabalho, é todo o trabalho vivo que ela pode fornecer. “O processo de trabalho é um processo entre coisas que o capitalista comprou, entre coisas que lhe pertencem”. O trabalhadornão para de trabalhar quando produz o valor correspondente ao pagamento da sua força de trabalho. Se fosse assim, tratava-se de um processo simples de formação de valor. Esse processo é prolongado, tornando-se PROCESSO DE VALORIZAÇÃO, isto é, processo de extração da mais-valia. É um processo que se realiza sob a direção do capitalista com o fim de fazer de dinheiro mais dinheiro. Ou melhor, de transformar dinheiro em capital. As operações econômicas ocorridas na pequena produção mercantil, constitutiva da chamada acumulação primitiva, pela qual foi possível a geração de um volume de recursos suficientes para separar os meios de produção dos produtores e transformá-los em trabalhadores assalariados, sob o domínio do capital. No começo, trocava-se mercadoria por mercadoria (M – M). Depois, tornou-se necessário introduzir o dinheiro para facilitar as trocas (M – D – M) À medida que agem no sentido de desobstruir as barreiras que limitam a máxima acumulação de riqueza, essas leis gerais do capitalismo produzem resultados contraditórios, gerando crises que provocam mudanças importantes na organização econômica e na própria organização social. Entretanto, tais mudanças só ganham significado quando apreendidas sob uma perspectiva histórica. 6 2. Fase 1 - do Feudalismo ao Capitalismo Mercantilista, séc. XVIII O capitalismo só emergiria como um sistema econômico plenamente constituído e, o que é indissociável, como um sistema social no qual estão presentes uma burguesia industrial e um proletariado urbano, ao final do século XVIII. A sociedade capitalista, prima pela defesa do direito à igualdade e à liberdade (mesmo que formais). A reprodução da vida material não mais se assenta na ética religiosa/militar e sim NUMA NOVA ÉTICA, A DO TRABALHO livre e do progresso material. A universalidade passa a ser garantida pelo direito positivo e pela afirmação de valores gestados no interior de uma das criaturas mais mitológicas da nova civilização: O MERCADO. Este confere substrato à valorização do livre- arbítrio e ao reinado de uma outra mentalidade, baseada no “racionalismo econômico” (WEBER, 1987, cap. 2), o qual implica a adoção de uma racionalidade “científica” pela organização empresarial. Finalmente, predomina uma nova ideologia, segundo a qual a livre concorrência, princípio inspirador dos mercados capitalistas, aparece associada a uma aspirada mobilidade social e a uma saudável concorrência entre “iguais”. Dois grandes movimentos revolucionários modernos neste momento: a Revolução Francesa (1789) e a Revolução Industrial (1780-1830) e suas implicações na Inglaterra caracterizaram o processo de transição de um sistema a outro que ficou conhecido como da “acumulação primitiva de capital” (MARX, 1985, cap. 24). A acumulação primitiva foi um período que englobou uma série de processos interdependentes, quais sejam: a) a valorização do capital no comércio e na usura; b) a expansão da produção de mercadorias e o posterior surgimento da manufatura; c) a formação paulatina de um mercado transcontinental e o estabelecimento do sistema colonial; d) o aparelhamento administrativo-financeiro do Estado e a adoção de políticas “mercantilistas”; e) e a proletarização dos camponeses e aprendizes, o que exigiu a disciplinarização dos trabalhadores livres e a regulação dos salários como tarefas do Poder Público. A chamada “revolução agrícola” propiciou uma oferta de alimentos e matérias-primas em quantidade e preços adequados à reprodução do nascente proletariado e ao desenvolvimento da manufatura. Além disso, o assalariamento dos trabalhadores rurais (jornaleiros ou diaristas) contribuiu para ampliar os mercados consumidores de manufaturados, criando uma nova dinâmica entre cidade e campo. A partir de 1694 com a criação do Banco da Inglaterra e, ao longo do século XVIII, o sistema bancário britânico desenvolveu-se impulsionado pelo crescimento do comércio exterior, o que lhe permitiu desempenhar um papel 7 importante no financiamento da grande indústria, já nas últimas décadas dos anos setecentos, fazendo ascender o processo de industrialização na produção de mercadorias, ou seja, o financiamento da I Revolução Industrial. 3. Fase 2 – Capitalismo Concorrencial, séc. XIX Por definição, a conformação do capitalismo só se completa com o surgimento da produção mecanizada, organizada como GRANDE INDÚSTRIA, e com a generalização do trabalho assalariado e a reprodução de uma classe operária. Assim, a Revolução Industrial representa a constituição/generalização de relações capitalistas de produção, o que é fundamental para o pleno domínio do capital sobre as condições de sua valorização. As máquinas passaram a ditar o ritmo do processo de trabalho e a homogeneizar a qualidade do produto, o que desvalorizou o preço da força de trabalho e reduziu os custos unitários de produção. A maquinaria representou, do ponto de vista da valorização do capital, um poderoso instrumento de subordinação do trabalhador às condições impostas pelos detentores dos meios de produção e um poderoso impulso ao ritmo da acumulação. A partir de 1780, a acumulação na indústria têxtil estimulou a rápida urbanização dos principais centros regionais, impulsionando a construção civil e a demanda de carvão para o consumo doméstico. No século XIX, por volta de 1830, a estrutura industrial já estava plenamente constituída e a Inglaterra já podia ser considerada a “oficina mecânica do mundo” (HOBSBAWM, 1977, cap. 2). Paralelo, A TRANSFORMAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO EM MERCADORIA a ser consumida no processo de produção e as condições desumanas do mercado de trabalho são um exemplo de como a mercantilização das relações sociais, promovida pelo avanço do capitalismo, triturou as bases morais da sociedade e impôs uma nova ordem social assentada na concorrência individual (POLANYI, 1980, parte 2). A difusão do capitalismo no século XIX, portanto, significou o surgimento de novas potências industriais, que viriam competir com a economia inglesa e transformar as relações econômicas internacionais. A peculiaridade desses processos seria ocorrerem num período em que a Inglaterra era hegemônica no cenário econômico internacional, a ideologia dominante era o liberalismo econômico, e ainda não existiam sérios obstáculos à industrialização. Os capitalismos atrasados se diferenciam do originário também porque a implantação da indústria têxtil seria incapaz, por si só, de desencadear a industrialização (a necessidade de importar máquinas e insumos restringia a expansão da demanda interna), tendo sido exigido um esforço maior para internalizar a indústria de bens de produção, única forma de garantir a criação de um mercado interno capitalista e alavancar a acumulação industrial. Para um melhor entendimento, pode-se distinguir os processos de industrialização do século XIX em duas “ondas”: 8 1) As industrializações da França, EUA e Alemanha são classificadas como da “primeira onda” (1840-1870); 2) As da Rússia, Japão e Itália fazem parte da “segunda onda” (1870- 1890. Entre 1830 e 1890, o capitalismo britânico imprimiu o tom do padrão de acumulação e das relações internacionais. Predominavam relações econômicas internacionais baseadas no livre-cambismo e consolidavam-se estruturas produtivas nas quais se encontravam diversas empresas operando em cada ramo econômico, com plantas industriais de dimensões modestas e tecnologias simples (comparativamente ao que viria a seguir). Nesse período, ainda não havia mecanismos de proteção à propriedade das inovações, e os avanços tecnológicos difundiam-se com relativa facilidade pelo aparelho produtivo, tendendo a equiparar o nível de produtividade entre as empresas. Ao mesmo tempo, predominava a empresa organizada familiarmente, que dispunha de crédito fácil e barato no sistema bancário. Dessa forma, principalmente na Inglaterra, o padrão de concorrência capitalistapermitia o surgimento “espontâneo” de novos capitais industriais. A esse padrão de acumulação baseado no livre funcionamento das forças do mercado, e que teria sua vigência histórica circunscrita ao período inicial de difusão e consolidação das relações capitalistas, a esse sistema dinâmico no qual ciclos de crescimento e depressão decorrem da competição e da mobilidade de capitais individuais, pode-se chamar CAPITALISMO CONCORRENCIAL (OLIVEIRA, 1985, cap. 3). É importante considerar que, por volta de 1867, quando Karl Marx publicou os primeiros volumes de O Capital, o capitalismo inglês ainda era a referência principal para a compreensão das leis gerais de funcionamento da economia. Mas, à medida que a primeira onda de industrialização retardatária se completava, o capitalismo entrava numa etapa de profundas transformações. 4. Fase 3 – Capitalismo Monopolista e Imperialismo, séc. XIX e XX A partir de 1870, conforme a Inglaterra ia perdendo o monopólio da produção industrial e o livre comércio dava lugar ao protecionismo, intensificou- se o processo de centralização e de concentração de capitais, com a fusão de empresas e a união de bancos e indústrias. Simultaneamente, foram sendo gestados um novo padrão tecnológico e uma outra racionalidade empresarial, com novos produtos e revolucionários métodos de gestão da produção e do trabalho (o “taylorismo”), caracterizando a emergência de uma SEGUNDA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL. Aproximadamente entre 1780 e 1870, teriam se operado as transformações que assinalam o estabelecimento da sociedade capitalista burguesa, constituindo a era do capitalismo industrial ou concorrencial, fase do estabelecimento das formas capitalistas da sociedade liberal. Inicialmente, ainda não havia muito capital acumulado, o que explica que as empresas fossem 9 pequenas e administradas pelos próprios donos. Esse período é marcado pela Revolução Industrial e, óbvio, pelo advento da máquina. Três formas de produção de mercadorias traduzem essa trajetória: A COOPERAÇÃO SIMPLES, A MANUFATURA E A GRANDE INDÚSTRIA. Essa forma de produção ainda não era suficiente para o propósito da acumulação e expansão. Para que o capital se impusesse como força social dominante, era preciso inverter os papéis entre os trabalhadores e os meios de produção. Em lugar de os trabalhadores usarem os meios de produção, estes é que deveriam usar a força de trabalho. Esse processo se desenvolve na manufatura e se completa na grande indústria, “que separa do trabalho a ciência como potência autônoma de produção e a força a servir ao capital”. A partir de 1870, o capital entra na sua fase DE EXPANSÃO E AMADURECIMENTO, A FASE DOS MONOPÓLIOS. Isso não significa que a concorrência é inteiramente cancelada, contudo, livre concorrência, no sentido preciso de franco liberalismo, só foi permitida à Inglaterra, por ter ido a primeira a industrializar-se. Na fase monopolista, toma forma a estrutura da indústria moderna e das finanças capitalistas. O surgimento das empresas de sociedade anônima, os cartéis e outras formas de combinação são expressões da concentração e centralização do capital. O capitalismo monopolista abrange o aumento de organizações monopolistas, a internacionalização do capital, a divisão internacional do trabalho, o imperialismo, o mercado mundial do capital, as mudanças na estrutura do poder estatal. HÁ UMA REORGANIZAÇÃO DA VIDA SOCIAL, alterando papéis femininos e transferindo-se para o mercado quase todas as atividades tradicionalmente a cargo da família. Com isso, aumenta a necessidade de instituições, como escolas, hospitais, prisões, manicômios e, também, de assistência social. Não é por acaso que o surgimento do Serviço Social como profissão coincide com esse momento. Nos anos 1970, quando este entra em crise, sendo sucedido por outro modelo, também oriundo do mesmo ramo da economia. Referimo-nos ao Fordismo e ao Toyotismo. No início do século XX, o capitalismo atingiu uma configuração mais madura e deu nitidez ao que tem sido chamado, nos países mais avançados, de sociedade urbano-industrial. Entretanto, como aquele desenvolvimento estava assentado no poder do capital financeiro (no caso inglês, eminentemente parasitário) e trazia consigo inúmeras contradições, tanto no plano das relações entre capital e trabalho como no das relações políticas internacionais, foram surgindo sérias dúvidas a respeito do futuro do capitalismo, principalmente depois da Primeira Guerra. Depois da guerra, não se conseguiu restabelecer o equilíbrio do poder político/militar, e as assimetrias entre as principais economias capitalistas se tornaram um fator agravante para a instabilidade do mercado mundial. Fracassaram as tentativas de restaurar o sistema monetário internacional, que tinha sido tão fundamental para o comércio e paz mundiais. 10 Compreender os motivos da crise de 1929 e da severidade da Grande Depressão que a sucedeu foi uma preocupação generalizada dos economistas. A Grande Depressão do início da década de 30 solapou a confiança no futuro, lançou milhares de desempregados às ruas e acabou exigindo que se forjassem novas políticas econômicas – de fato, respostas não-convencionais, em certo sentido revolucionárias, aos desafios colocados pela gravidade da crise (HOBSBAWM, 1995, cap. 3). Diante do colapso dos mercados e da febre social do desemprego em massa, a ineficácia das soluções propostas pelo receituário liberal tornou ainda mais precária a situação dos principais governos. E, para tentar salvar o mercado interno e a moeda nacional dos furacões que arrasavam os mercados e as finanças internacionais, os estados capitalistas tiveram que isolar suas economias, sacrificar o sistema de comércio multilateral e abandonar definitivamente o padrão-ouro. Depois de 1945 e da “economia de guerra”, um retorno ao laissez- faire (ou ao livre mercado) estava fora de questão. Tornou-se consensual que uma economia de mercado precisava de parâmetros seguros e de mecanismos de proteção para não derivar rumo às crises e às catástrofes sociais. Em decorrência, as economias capitalistas seriam marcadas por um traço comum: a necessidade crescente do planejamento público e da regulação estatal sobre as variáveis-chave do mercado (juros, câmbio, salários). Assim que a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, publicada por John M. Keynes em 1936, se tornaria o novo referencial teórico dos economistas formuladores de políticas, também a crença de que o capitalismo podia ser mantido sob controle através da regulação estatal da concorrência capitalista (e da regulamentação dos mercados) se converteria na principal propaganda política dos governos social-democratas, configurando os anos dourados do Welfare State e o domínio dos EUA na economia mundial. Esta perspectiva política econômica entrou em crise a partir dos anos 60, mudanças importantes ocorreram, também, no mundo do trabalho. As formas de contratação, utilização, remuneração e demissão de trabalhadores deixaram de refletir apenas o livre jogo do mercado e o livre-arbítrio das empresas. 5. Fase 4 – Capitalismo financeiro globalizado, séc. XX e XXI A queda da rentabilidade esperada dos novos investimentos produtivos e a intensificação da competição internacional levaram os detentores do grande capital – seguindo a irrefutável lógica da máxima valorização – a buscar de se libertar dos controles impostos pelas fronteiras nacionais. Na verdade, a transnacionalização do capital é a raiz do processo atualmente conhecido como “GLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA”, que envolve tanto uma dimensão produtiva como financeira. A globalização produtiva refere-se ao fato de componentes de um bem industrial serem produzidos em distintos países, enquanto a globalização financeira refere-se à possibilidade de 11 movimentar livremente excedentes de capital (aplicados especialmente em títulos secundários e ações) entre asprincipais praças financeiras do planeta. A partir de meados dos anos 70, com a recessão que afetou a maioria dos países desenvolvidos, fortaleceram-se as TESES NEOLIBERAIS que condenam a ingerência do Estado no funcionamento da economia, suposta responsável pelas distorções nas decisões de investimento e nas expectativas dos agentes – distorções que precisariam ser corrigidas, a começar por um enxugamento do setor público e por uma liberalização dos mercados (internos e externos). A liberalização implicaria a desregulamentação de mercados, ou seja, o abandono de regras que cerceavam o livre funcionamento da economia. Esse processo já havia se iniciado na esfera financeira (com a autonomia dos fluxos de capitais especulativos) e, posteriormente, atingiria o comércio internacional (aumentam as pressões para a eliminação das barreiras alfandegárias) e finalmente o mercado de trabalho (flexibilização dos contratos de trabalho). A reestruturação produtiva e organizacional foi (ou tem sido) uma resposta das grandes empresas às novas condições da concorrência capitalista. Na busca de maior produtividade e de redução dos custos operacionais, foram efetivadas mudanças de grande impacto: a) incorporação da informática e da robótica ao processo de produção, aumentando a eficiência e o controle dos produtos; b) reorganização do processo produtivo, visando maior flexibilidade e ajuste da produção às vendas; c) reformulação da gestão da mão-de-obra, com redução do quadro funcional e simplificação das hierarquias; d) terceirização de atividades de suporte e focalização da empresa em atividades essenciais. Alguns analistas vão além, destacando não só a introdução de novas técnicas produtivas e organizacionais, mas também o aparecimento de novos setores industriais e o desenvolvimento das telecomunicações, fenômenos que caracterizariam a gestação de uma Terceira Revolução Industrial (COUTINHO, 1992) – revolução que certamente ainda não se completou e poderá trazer muitas novidades nas próximas décadas (possíveis mudanças na matriz energética e no sistema de transporte). Em suma, A MODERNIZAÇÃO CONSERVADORA, o desmonte do Estado de Bem-Estar e a desregulamentação dos mercados, promovidos pela adoção de políticas de cunho neoliberal, podem ser considerados fatores que contribuíram para o aprofundamento e o prolongamento da crise contemporânea. Ao mesmo tempo, o acirramento da concorrência internacional propiciou a reinvenção de políticas imperialistas, o que se expressa mais claramente na forma como se deu a retomada da hegemonia norte-americana. Mas é na perda de controle sobre as moedas nacionais, ou melhor, na ameaçadora instabilidade monetária e financeira, que reside a causa principal da atual perda de dinamismo do processo de acumulação de capital. 12 Para Tavares (2009), o novo sistema de produção ― o toyotismo ― se opõe “rigidez fordista”, assumindo as características do regime que fora progressivamente implantado na Toyota ― empresa japonesa de automóvel ― entre 1950 e 1970, na tentativa de encontrar um método produtivo adaptado à situação do Japão. O toyotismo ― também denominado métodos flexíveis, método kanban ou just-in-time ―, em lugar de aprofundar a integração vertical da indústria fordista, que controlava diretamente o processo de produção do automóvel, de cima a baixo, desenvolve relações de subcontratação, pelas quais a empresa nuclear aproveita-se dos custos salariais mais baixos das subcontratadas. Esse sistema de organização da produção, baseado na flexibilidade do trabalho e dos trabalhadores, vai ser imposto a todos os países capitalistas, a partir dos anos 1980 e, para os mais tardios, nos anos 1990. A globalização iguala a todos. Argumenta-se que as mudanças técnico- organizacionais são imprescindíveis à inserção dos países periféricos à economia internacional, ignorando - se as especificidades de cada um. Ao igualar todos os países, sugere-se que há viabilidade para todos, que todos podem ser igualmente desenvolvidos, o que contraria a lógica do capital. Os países com maior capacidade de centralização e concentração exploram as desigualdades nacionais e aproveitam todas as vantagens oferecidas pela reestruturação produtiva do capital, enquanto os demais se submetem a uma hierarquia econômica e política e sofrem os efeitos dessa dominação. Em nome da flexibilidade, funções nucleares já se inscrevem nas atividades terceirizadas, seja nas empresas privadas ou nos serviços públicos. Mas, em lugar da pretensa igualdade, que permeia o discurso da globalização, acentua-se o caráter excludente do padrão de acumulação, sobretudo nos países periféricos, como o Brasil constituindo a lei do desenvolvimento desigual e combinado. Em síntese, podemos identificar nesse processo sócio-histórico os seguintes projetos políticos econômicos: PROJETO REFORMISTA PROJETO REVOLUCIONÁRIO PROJETO NEOLIBERAL tanto em sua vertente liberal- keynesiana como social- democrata, representando o expansionismo do capitalismo produtivo/comercial conjuntamente com algum grau de desenvolvimento dos direitos civis, políticos, sociais e trabalhistas fundamentalmente de inspiração marxista que busca, gradual ou abruptamente, a substituição da ordem capitalista por uma sociedade sem classes, sem exploração e regida pelo trabalho emancipado. De inspiração monetarista, sob o comando do capital financeiro, que procura, no atual contexto de crise, desmontar os direitos trabalhistas, políticos e sociais historicamente conquistados pelos trabalhadores, acentuando a exploração de quem vive do trabalho e sugando os pequenos e os médios capitais; 13 VAMOS AGORA TREINAR ESSE CONHECIMENTO, QUESTÕES DE CONCURSOS 1.(UNIFIL/PREFDETUPÃSSI-PR/AS/2019) Segundo José Paulo Netto (2011, p. 19), “na tradição teórica que vem de Marx, está consensualmente aceite que o capitalismo, no último quartel do século XIX, experimenta profundas modificações no seu ordenamento e na sua dinâmica econômicos, com incidências necessárias na estrutura social e nas instâncias políticas das sociedades nacionais que envolvia”. Assinale a alternativa que apresenta corretamente o período a que o autor se refere. A) Trata-se do período histórico em que ao capitalismo monopolista sucede o capitalismo concorrencial. B) Trata-se do período histórico em que ao modelo manufatureiro sucede o capitalismo imperialista. C) Trata-se do período histórico em que ao capitalismo concorrencial sucede o modelo manufatureiro. D) Trata-se do período histórico em que ao capitalismo concorrencial sucede o capitalismo dos monopólios. 2.(FGV/PREFDEOSASCO-SP/AS/2014) A doutrina neoliberal, que marca as sociedades capitalistas contemporâneas, tem como uma de suas diretrizes: A) a diminuição generalizada de tributos com vistas ao aperfeiçoamento do Estado Social; B) a separação das esferas social e econômica para aumentar o dinamismo das empresas; C) a redução do papel do Estado na esfera econômica, com a perda do seu papel de coordenador do desenvolvimento econômico; D) o enfrentamento da crise fiscal do Estado para permitir maiores investimentos sociais; E) a elevação da produtividade, generalizando a produção em massa. 3.(UNIFIL/PREFDEMANDAQUAÇU-PR/AS/2019) Por volta de 1780 e 1870 teriam se operado as transformações que assinalam o estabelecimento da sociedade capitalista burguesa. Inicialmente, ainda não havia muito capital acumulado e as empresas eram pequenas e administradas pelos próprios donos. Esse período é marcado pela Revolução Industrial e pelo advento da máquina. (TAVARES, 2004). Assinale a alternativa que apresenta a fase do capitalismo descrita no trecho acima. A) Capitalismo maduro. B) Capitalismo monopólico. C) Capitalismo inicial. D) Capitalismo burguês. 4.(FADESP/PREFDEMONTEALEGRE-EM/AS/2015) O antagonismo entre produtores e usurpadores de riqueza, existenteem toda sociedade de classes e que se consolida na sociedade capitalista, gera tal contradição de interesses que faz com que as lutas que travam as classes antagônicas se constituam em verdadeiro(a) A) motor da história. 14 B) vanguarda da história. C) totalidade histórica. D) identidade histórica. 5.(UFBA/UNILAB/AS/2014) Ao longo do processo de produção e reprodução do capitalismo, na sociedade brasileira, observa-se um modelo de desenvolvimento periférico, desigual e combinado. ( ) CERTO ( ) ERRADO 6.(IDHTEC/PREFDEMACAPARANA-PE/AS/2019) Representando o expansionismo do capitalismo produtivo comercial conjuntamente com algum grau de desenvolvimento dos direitos civis, políticos, sociais e trabalhistas. Esta é a descrição de qual projeto de sociedade: A) Projeto neoliberal B) Projeto reformista C) Projeto revolucionário D) Projeto fundamentalista E) Projeto neomarxista 7.(UFRR/UFRR/AS/2018) Pode-se considerar de acordo com (Behring, 2009) que os impactos da crise do capital, iniciada no final do século XX, incidem nas relações entre Estado e sociedade, com tendências antidemocráticas. Sendo assim, para essa autora, um aspecto central pode ser apontado como aquele que engendra tais modificações no âmbito do Estado e da sociedade civil, denominado de: A) Nepotismo. B) Corrupção. C) Desemprego. D) Neoliberalismo. E) Corporativismo. 8.(CS-UFG/CÂMARAGOIANIA-GO/AS/2018) Iamamoto (2007) evidencia que as transformações nas formas de produção e de gestão do trabalho, perante as exigências do mercado mundial sob o comando do capital financeiro, alteram as relações entre Estado e sociedade, decorrendo em A) novas expressões da questão social que atinge não só a economia e a política, mas afetam todas as formas de sociabilidade humana. B) novas mediações históricas que reconfiguram a questão social na cena brasileira contemporânea no contexto da mundialização do capital. C) formas diferenciadas e antagônicas da acumulação do capital, que tende a provocar crises que se projetam no mundo, gerando recessão. D) formas radicais na intervenção estatal a serviço dos interesses privados, sob a inspiração liberal, metamorfoseando a nova questão social. 9.(FUNDATEC/PREFDESANTAROSA-RS/AS/2019) Sobre o tema capitalismo e acumulação de capital, analise as assertivas abaixo e assinale V, se verdadeiras, ou F, se falsas. ( ) A política capitalista almeja buscar a acumulação e o aumento das taxas de lucro, mas, para isso, precisa manter e até aprofundar a exploração da classe trabalhadora. ( ) O papel civilizador do capitalismo se atrofia e se converte no seu antípoda, a barbarização da vida social. 15 ( ) O entendimento dos movimentos específicos que se manifestaram sobretudo a partir da década de 1990 no Brasil, período de consolidação da política liberal e keynesiana, da regressão dos direitos sociais e trabalhistas, da intensificação das políticas de austeridade, dentre outros, são reflexos da dinâmica atrofiada da acumulação capitalista. ( ) A sociedade brasileira, na qual as relações típicas de nosso passado colonial se combinam com as relações propriamente capitalistas, produz um padrão de acumulação de capital dominante e independente. A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: A) V – V – V – F. B) V – V – F – F. C) F – F – V – V. D) F – V – F – V. E) F – F – V – F. 10.(UFMT/UFMT/AS/2021) Na vinculação e disputa entre o Estado e todo o complexo social, fundam-se as relações políticas e econômicas de uma dada sociedade. Sendo funcional ao capitalismo monopolista, o Estado deve alargar sua base de sustentação e legitimação sociopolítica, mediante A) a negação ou o não reconhecimento da classe operária como sujeito político coletivo que exige seu reconhecimento pelo empresariado e pelo Estado. B) a independência das funções econômicas e políticas das instituições burguesas. C) a não intervenção das atividades do Estado na economia e na regulação da vida social. D) a generalização e a institucionalização de direitos e garantias cívicas e sociais, que permitam organizar um consenso que assegure o seu desempenho. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA TAVARES, Maria Augusta. Acumulação, trabalho e desigualdade social. IN: CFESS. Direitos Sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009. PRONI, Marcelo W. História do Capitalismo: uma visão panorâmica. Artigo publicado pelo Centro de Estudos Sindicais e economia do trabalho. Campinas -SP, 1997. Disponível em : https://www.cesit.net.br/cesit/images/stories/25CadernosdoCESIT.pdf AUTORA: Silvânia Queiroz e Silva- Assistente Social do TJ/AM CRESS/AM n° 3886. Doutora em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia (UFAM). 07 Aprovações em Concursos Públicos de Serviço Social: SEMAD; SEDUC; SEC; Ministério da Saúde; TJ/ RR; TJ/SP; TJ/AM. Lattes:http://lattes.cnpq.br/9732500357767397. E-mail: silvania.social@hotmail.com GABARITO: 1 – D, 2 – C, 3 – E, 4 – A, 5 – CERTO, 6 – B, 7 – D, 8 – B, 9 – B, 10 – D http://lattes.cnpq.br/9732500357767397 mailto:silvania.social@hotmail.com