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Anemia - pediatria A anemia é a condição na qual a concentração sanguínea de hemoglobina (Hb) se encontra abaixo dos valores esperados, tornando-se insuficiente para atender as necessidades fisiológicas exigidas de acordo com idade, sexo, gestação e altitude. De origem multifatorial, pode ser ocasionada pela deficiência de ferro e/ou diversos outros micronutrientes, por perdas sanguíneas, processos infecciosos e patológicos concomitantes, uso de medicações específicas que impeçam ou prejudiquem a absorção do ferro. A principal causa de anemia é a deficiência de ferro, estando associada a mais de 60% dos casos em todo o mundo. Calcula-se que quase dois bilhões de pessoas em todo o mundo apresentam anemia e que de 27% a 50% da população seja afetada pela deficiência de ferro. Mesmo acometendo todos os grupos etários e níveis sociais, com ampla distribuição geográfica, a anemia ferropriva ainda é uma doença que atinge prioritariamente as camadas socialmente menos favorecidas, de menor renda e desenvolvimento. Classificação As anemias podem ser classificadas do ponto de vista fisiológico e morfológico. Muitas vezes mais de um mecanismo pode estar envolvido. A anemia pode ser categorizada do ponto de vista fisiológico em: • Alterações na produção efetiva dos eritrócitos: a taxa de produção está diminuída ou a produção é inefetiva; • Distúrbios em que há destruição ou perda de eritrócitos. Já a classificação morfológica baseia-se no volume corpuscular médio (VCM), segundo o qual as anemias podem ser divididas em: • Microcíticas: VCM abaixo do normal para sexo e idade; • Macrocíticas: VCM acima do valor esperado para sexo e idade; • Normocítica: VCM dentro dos valores da normalidade. Características dos pacientes As causas de anemia em crianças variam com base na idade do paciente, sexo, raça e etnia. Idade Nascimento aos 3 meses: A causa mais comum é a “anemia fisiológica”, que ocorre aproximadamente entre 6-9 semanas de idade. A eritropoiese diminui drasticamente após o nascimento como resultado do aumento da oxigenação tecidual e da produção reduzida de eritropoietina. Em bebês saudáveis, os níveis de hemoglobina são altos (> 14 g/dL) ao nascer e diminuem rapidamente, atingindo um nadir de aproximadamente 11 g/dL entre 6-9 semanas de idade, o que é chamado de “anemia fisiológica da infância. A anemia patológica em recém-nascidos e bebês jovens é diferenciada da anemia fisiológica por qualquer um dos seguintes critérios: • Anemia no 1º mês de vida; • Anemia com nível mais baixo de Hb do que é normalmente observado com anemia fisiológica, ou seja, Hb < 9 g / dL; • Sinais de hemólise (ex: icterícia ou urina escura) ou sintomas de anemia (ex: irritabilidade ou má alimentação). As causas comuns de anemia patológica em recém- nascidos incluem perda de sangue, doença hemolítica (incompatibilidade Rh ou ABO), infecção congênita, transfusão gemelo-gemelar e anemia hemolítica congênita. 3 a 6 meses: A anemia detectada entre os 3 e 6 meses de idade sugere uma hemoglobinopatia. A deficiência nutricional de ferro é uma causa improvável de anemia antes dos 6 meses de idade em bebês a termo. Bebês maiores de 6 meses, crianças e adolescentes: Em bebês, crianças mais velhas e adolescentes, as causas adquiridas de anemia são mais prováveis, principalmente a anemia por deficiência de ferro. Sexo Algumas causas hereditárias de anemia estão ligadas ao X e ocorrem mais comumente em homens. Nas meninas após a menarca, o sangramento menstrual excessivo é uma causa importante de anemia. Raça e etnia • Hemoglobina S e C: populações negras e hispânicas • Síndromes talassêmicas: Mediterrâneo e sudeste asiático • Deficiência de G6PD: judeus, filipinos, gregos, sardos, curdos e negros Diagnóstico Anamnese + exame físico + exames laboratoriais A presença das manifestações clínicas está relacionada à velocidade e à intensidade de instalação da anemia, à idade em que a anemia ocorre e à curva de dissociação do oxigênio da hemoglobina. A maioria das crianças com anemia leve não apresenta sinais ou sintomas. Algumas crianças podem apresentar sinais/sintomas gerais, como palidez das mucosas, fadiga, cansaço, anorexia e irritabilidade. Dependendo da intensidade e da velocidade de instalação da anemia, ocorre hipercinese circulatória, com taquicardia, pulso amplo, cardiomegalia e presença de sopro sistólico. Anamnese A avaliação de uma criança com anemia começa com uma história completa. O grau de sintomas, o histórico médico pregresso, o histórico familiar, o histórico alimentar e o histórico de desenvolvimento podem fornecer pistas importantes para a causa da anemia. - Avaliar início e gravidade dos sintomas. - Alterações na cor da urina ou icterícia podem indicar a presença de distúrbio hemolítico. - Perguntar sobre possível sangramento. - Histórico médico pregresso; história do nascimento; histórico de anemia. - Exposição a drogas e toxinas. - História familiar. - História alimentar (focar na avaliação da ingestão de ferro, folato e vitamina B12). Introdução de leite de vaca antes do 1º ano de vida sugere anemia por deficiência de ferro. Pica (particularmente pagofagia) pode sugerir envenenamento por chumbo e/ou deficiência de ferro. - História do desenvolvimento. Exame físico Um foco particular deve ser direcionado ao exame da pele, olhos, boca, fácies, tórax, mãos e abdome. A palidez é avaliada examinando os locais onde os leitos capilares são visíveis ex: conjuntiva, palma e unha). PELE • Hiperpigmentação: anemia de Fanconi; • Púrpura, petéquia: anemia hemolítica autoimune com trombocitopenia, síndrome hemolítico-urêmica, aplasia de medula óssea e infiltração da medula óssea; • Carotenemia (coloração amaerelada da pele): suspeita de deficiência de ferro em bebês; • Icterícia: anemia hemolítica, hepatite e anemia aplásica; • Hemangioma cavernoso: anemia hemolítica microangiopática; • Úlceras em membros inferiores: hemoglobinopatia S, hemoglobinopatia C e talassemia; FACE Fronte, malar e maxilar proeminentes: anemias hemolíticas congênitas, talassemia maior, deficiência grave de ferro. OLHOS • Micrognatia (tamanho reduzido do queixo): anemia de Fanconi • Tortuosidade da conjuntiva e tortuosidade ou microaneurismas dos vasos retinianos: hemoglobinopatias S e C • Catarata: deficiência de G6PD, galactosemia com anemia hemolítica no período neonatal • Hemorragia vítrea: hemoglobinopatia S • Hemorragia retiniana: anemia crônica e grave • Edema palpebral: mononucleose infecciosa, enteropatia exsudativa com deficiência de • ferro, insuficiência renal • Cegueira: osteopetrose BOCA • Glossite (infecção ou inflamação da língua): deficiência de vitamina B12 e deficiência de ferro • Estomatite angular TÓRAX • Ausência unilateral da musculatura peitoral: síndrome de Poland (incidência aumentada de leucemia) • Tórax em escudo: síndrome de Diamond- Blackfan MÃO • Polegar trifalângico: aplasia de série vermelha • Hipoplasia da eminência tenar: anemia de Fanconi • Unhas em forma de colher: deficiência de ferro BAÇO Esplenomegalia: anemia hemolítica congênita, leucemia, linfoma, infecção aguda e hipertensão portal. Avaliação laboratorial • Hemograma • Esfregaço de sangue periférico • Contagem de reticulócitos Anemia ferropriva A anemia ferropriva ou por deficiência de ferro tem efeito no crescimento e desenvolvimento de populações em risco, por afetar grupos em idade de crescimento e comprometer o desenvolvimento cerebral. A carência de ferro na infância também predispõe a cáries dentárias, menor discriminação e identificação de odores, alterações na imunidade não específica, paladar e apetite (com associação a quadros de pica- alterações do sabor e apetite); resposta alterada ao estresse metabólico e desenvolvimento audiovisual. Fatores de risco Os principais fatores de risco de anemia ferropriva para crianças e adolescentes são: 1. Baixa reserva materna • Gestações múltiplas com pouco intervalo • entre elas • Dieta materna deficiente em ferro • Perdas sanguíneas • Não suplementação de ferro na gravidez e • lactação 2. Aumento da demanda metabólica: • Prematuridade e baixo peso ao nascer • (< 2.500g) • Lactentes em crescimento rápido (velocidade de crescimento > p90) • Meninas com grandes perdas menstruais • Atletas de competição 3. Diminuição do fornecimento: • Clampeamento do cordão umbilical antes de • um minuto de vida • Aleitamento materno exclusivo prolongado (superior a seis meses); • Alimentação complementar com alimentos • pobres em ferro ou de baixa biodisponibilidade • Consumo de leite de vaca antes de um ano • de vida • Consumo de fórmula infantil com baixo teor • de ferro ou quantidade insuficiente • Dietas vegetarianas sem orientação de médico/nutricionista • Ausência ou baixa adesão à suplementação • profilática com ferro medicamentoso, quando recomendada 4. Perda sanguínea: • Traumática ou cirúrgica • Hemorragia gastrintestinal (ex: doença inflamatória intestinal, polipose colônica, drogas • anti-inflamatórias não esteroides, infecção • por Helicobacter pylori, verminose – estrongiloides, necatur, ancilostoma – enteropatias/colites alérgicas, esquistossomose) • Hemorragia ginecológica (menorragia, dispositivos intrauterinos) • Hemorragia urológica (esquistossomose, • glomerulonefrite, trauma renal) • Hemorragia pulmonar (tuberculose, mal formação pulmonar, hemossiderose pulmonar • idiopática, síndrome Goodpasture, etc) • Discrasias sanguíneas • Malária 5. Má absorção do ferro: • Síndromes de má-absorção (doença celíaca, • doença inflamatória intestinal) • Gastrite atrófica, cirurgia gástrica (bariátrica, • ressecção gástrica) • Redução da acidez gástrica (antiácidos, bloqueadores H2, inibidores de bomba de prótons) Manifestações clínicas As manifestações clínicas da deficiência de ferro são determinadas pelos estágios de depleção, deficiência de ferro e anemia propriamente dita, quando as repercussões clínicas e fisiológicas são aparentes, como apatia, cansaço, irritabilidade, taquicardia e outros. Exames laboratoriais específicos oferecem diagnóstico em cada um destes períodos. • Palidez de mucosas • Fadiga • Anorexia • Irritabilidade • Hipercinese circulatória Para o diagnóstico da anemia ferropriva também é necessário considerar os sinais clínicos da deficiência de ferro, que podem ser utilizados em conjunto com parâmetros bioquímicos e laboratoriais, tais como: redução da acidez gástrica, gastrite atrófica, sangramento da mucosa intestinal, irritabilidade, distúrbios de conduta e percepção, distúrbio psicomotor, inibição da capacidade bactericida dos neutrófilos, diminuição de linfócitos T, diminuição da capacidade de trabalho e da tolerância a exercícios, palidez da face, das palmas das mãos e das mucosas conjuntival e oral, respiração ofegante, astenia e algia em membros inferiores, unhas quebradiças e rugosas e estomatite angular Diagnóstico É recomendado, no mínimo, os seguintes exames: 1. Hemograma: para avaliação da Hb, dos índices hematimétricos (VCM, HCM, RDW) e da morfologia dos glóbulos vermelhos. 2. Ferritina sérica: como marcador da fase de depleção dos estoques. 3. Proteína C reativa: para identificar processo infeccioso. A depleção de ferro, primeiro estágio, é caracterizada por diminuição dos depósitos de ferro no fígado, baço e medula óssea e pode ser diagnosticada a partir da ferritina sérica, principal parâmetro utilizado para avaliar as reservas de ferro, por apresentar forte correlação com o ferro armazenado nos tecidos. FERRITINA Valores inferiores a 12μg/L são fortes indicadores de depleção das reservas corporais de ferro em crianças menores de 5 anos, e inferiores a 15μg/L para crianças entre 5 e 12 anos. No segundo estágio (deficiência de ferro), são utilizados para diagnóstico a própria redução do ferro sérico, aumento da capacidade total de ligação da transferrina (> 250-390 μg/dl) e a diminuição da saturação da transferrina (< 16%). FERRO SÉRICO O ferro sérico é relevante no diagnóstico quando seus valores se encontram menores que 30mg/dl. A anemia ferropriva (diminuição sanguínea da hemoglobina e hematócrito e alterações hematimétricas) é o estágio final da deficiência de ferro. HEMATÓCRITO Para o hematócrito, consideram-se inadequados valores abaixo de 33% e 34% para crianças de 6 a 60 meses e crianças de 5 a 11 anos de idade, respectivamente. A contagem dos reticulócitos se relaciona à eritropoiese, uma vez que o volume de hemoglobina presente nos reticulócitos representa o volume de ferro disponível para a eritropoiese e é um indicador precoce da anemia ferropriva e déficit de hemoglobinização. A referência para crianças do seu valor relativo é de 0,5% a 2%, e do valor absoluto de 25000-85000/ mm3, devendo este último ser utilizado por ser mais fidedigno. Prevenção e tratamento Ações de educação alimentar e nutricional voltadas para a prevenção da anemia ferropriva preveem o estímulo ao acesso universal à alimentação adequada, ao aleitamento materno exclusivo e prolongado, de forma a aumentar o consumo de alimentos fontes de ferro, bem como de alimentos que aumentam a biodisponibilidade e a absorção do ferro na introdução de alimentos complementares. A contraindicação de uso de leite de vaca in natura, não processado, em pó ou fluido antes dos 12 meses (limitação de consumo de 500ml/dia após os 12 meses) também é uma estratégia reconhecidamente protetora contra a deficiência de ferro e o desenvolvimento de anemia ferropriva, devendo ser continuamente incentivada. Suplementação de ferro: crianças de 6 a 24 meses de idade, gestantes e lactantes até o 3º mês pós- parto com suplementação profilática com sulfato ferroso via oral. Para crianças de 6 a 24 meses: Sulfato ferroso na dosagem de 1mg/kg peso/dia. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta a suplementação dos 3 aos 24 meses de idade, independentemente do regime de aleitamento. Tratamento O tratamento da anemia ferropriva é pautado na orientação nutricional para o consumo de alimentos fonte, e reposição de ferro - por via oral - com dose terapêutica de 3 a 5 mg/kg/dia de ferro elementar para crianças por mínimo de 8 semanas (em média 3 a 6 meses). A suplementação deve ser continuada visando a reposição dos estoques de ferro, o que varia entre dois a seis meses ou até obtenção de ferritina sérica maior que 15μg/dL (ressalvando a importância de que o valor alcance os valores esperados entre 30 e 300μg/dL). Dentre os diversos tipos de sais de ferro disponíveis para a suplementação destacam-se o sulfato ferroso, o fumarato ferroso e o gluconato ferroso. Os sais de ferro são eficazes na correção da hemoglobina e reposição dos estoques de ferro, apresentam baixo custo e a rápida absorção. Por sofrer influência dos componentes dietéticos, devem ser realizados longe das refeições, recomendando-se a tomada em jejum, 1h antes das refeições ou antes de dormir. Apesar da eficácia, a adesão ao tratamento com sais ferrosos é geralmente baixa devido aos sintomas adversos frequentes (35% a 55%) e típicos da suplementação, como náuseas, vômitos, gosto metálico, pirose, dispepsia, plenitude ou desconforto abdominal, diarreia e obstipação. Assim, a dose ideal torna-se a dose tolerada pelo paciente. Além dos sais ferrosos, os sais férricos e aminoquelatos - ferro polimaltosado, ferro aminoquelado, EDTA e ferro carbonila -também podem ser utilizados com melhor perfil de adesão, por padrão de absorção mais lento e fisiologicamente controlado, por não sofrerem alterações com a dieta, e por provocarem menos efeitos adversos (10% a 15%). Apesar da absorção lenta e controlada, todas as alternativas mencionadas requerem maior tempo de tratamento e apresentam custo para o paciente, uma vez que ainda não são distribuídos gratuitamente na rede pública. Assim, a família deve ser educada quanto à importância da adesão ao tratamento. Além da suplementação de ferro via oral, a reposição parenteral de ferro é recomendada em casos excepcionais como os de hospitalização por anemia grave após falha terapêutica do tratamento oral, necessidade de reposição de ferro por perdas sanguíneas, doenças inflamatórias intestinais, quimioterapia ou diálise ou após cirurgias gástricas com acometimento do intestino delgado, devendo sempre ser solicitada avaliação de especialista experiente para uso prévio. Monitorização A monitorização do quadro deve ser realizada pelos parâmetros laboratoriais de reticulócitos, hemograma completo a cada 30 a 60 dias, e dosagem de marcadores do estoque de ferro- ferritina, com 30 e 90 dias; sendo que o tratamento deve durar até a reposição dos estoques de ferro, quase sempre por volta dos 6 meses de tratamento.