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Autores: Profa. Ivy Judensnaider Prof. Marcos Paulo de Oliveira Prof. Maurício Felippe Manzalli Técnicas de Pesquisa em Economia Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Professores conteudistas: Ivy Judensnaider / Marcos Paulo de Oliveira / Maurício Felippe Manzalli Ivy Judensnaider é economista pela Fundação Armando Álvares Penteado e mestra em História da Ciência e da Tecnologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC‑SP. Atualmente é professora da Universidade Paulista – UNIP, onde coordena o curso de Ciências Econômicas no Campus Marquês (SP). Também atua no setor de publicações e é autora de inúmeros textos de divulgação científica publicados na web. Nos últimos dez anos, tem trabalhado na elaboração de textos e de livros para educação a distância. Marcos Paulo de Oliveira é graduado em Ciências Econômicas pela UNIP, com mestrado em Economia Política pela PUC‑SP. Leciona na Universidade Paulista – UNIP desde o ano de 2002, nas disciplinas de Contabilidade Social, Elementos de Economia, Economia Brasileira, Economia e Gestão do Setor Público, Macroeconomia Fechada, Macroeconomia Aberta, Macroeconomia Aplicada, Desenvolvimento Econômico, dentre outras. Trabalhou, no setor privado, na área de importação e exportação, e, no setor público, com políticas públicas de geração de trabalho, emprego e renda. Nessa área, atuou no planejamento e na gestão pública como gerente de indicadores econômicos e sociais, e como gerente de acompanhamento das receitas e dos gastos públicos. Seu principal campo de pesquisa em Economia é a macroeconomia. Maurício Felippe Manzalli é bacharel em economia pela UNIP e mestre em Economia Política pela PUC‑SP. Atualmente é professor da UNIP nos cursos de Ciências Econômicas e Administração e também é coordenador do curso de Ciências Econômicas na mesma universidade, tanto na modalidade presencial quanto na modalidade a distância. Tem experiência em administração e finanças, notadamente aquelas ligadas ao setor de transporte de passageiros, tendo atuado por mais de vinte anos no ramo. Atualmente, dedica‑se à educação. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) J95t Judensnaider, Ivy Técnicas de Pesquisa em Economia. / Ivy Judensnaider, Marcos Paulo de Oliveira, Maurício Felippe Manzalli. – São Paulo: Editora Sol, 2016. 148 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XVII, n. 2‑123/16, ISSN 1517‑9230. 1. Técnicas de Pesquisa. 2. Economia. 3. Método Científico. I. Oliveira, Marcos Paulo de. II. Manzalli, Maurício Felippe. III. Título. CDU 33 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona‑Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Marcilia Brito Giovanna Oliveira Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Sumário Técnicas de Pesquisa em Economia APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................7 Unidade I 1 MÉTODO CIENTÍFICO E TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA: A CIÊNCIA, A FILOSOFIA DA CIÊNCIA E O MÉTODO CIENTÍFICO ..........................................................9 2 METODOLOGIA DA ECONOMIA .................................................................................................................. 14 3 POSITIVISMO E FALSEACIONISMO ............................................................................................................ 35 3.1 O positivismo .......................................................................................................................................... 35 3.2 O falseacionismo .................................................................................................................................. 45 4 PARADIGMAS E PROGRAMAS DE PESQUISA ....................................................................................... 55 Unidade II 5 ESPECIFICIDADES DA PESQUISA CIENTÍFICA EM ECONOMIA ....................................................... 65 5.1 Campos da pesquisa econômica .................................................................................................... 65 5.2 Correntes e escolas do pensamento econômico ..................................................................... 71 6 FONTES ELETRÔNICAS DE PESQUISA ECONÔMICA ........................................................................... 86 6.1 Coleta de materiais .............................................................................................................................. 88 6.1.1 Pesquisa bibliográfica ............................................................................................................................ 88 6.1.2 Pesquisa em bases de dados em economia .................................................................................. 90 7 DO PROJETO E DO RELATÓRIO DE MONOGRAFIA: CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES ......103 7.1 Quanto ao projeto ..............................................................................................................................107 7.1.1 Referencial teórico ............................................................................................................................... 115 7.1.2 Métodos de pesquisa ...........................................................................................................................116 7.2 O Relatório de TC na modalidade monografia .......................................................................119 8 A PESQUISA EM ECONOMIA: ALGUMAS QUESTÕES IMPORTANTES ........................................121 8.1 A organização e a pesquisa ............................................................................................................121 8.2 A questão do plágio ..........................................................................................................................126 7 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 APRESENTAÇÃO A disciplina de Técnicas de Pesquisa em Economia, cujo livro‑texto agora apresentamos, tem como objetivo introduzir elementos conceituais relacionados à atividade científica, especialmente no campo das Ciências Econômicas, bem como elementos práticos para a confecção de um projeto e um relatório de pesquisa segundo as exigências do curso de Ciências Econômicas, os quais serão retomados na ocasião da elaboração da monografia de graduação. Sendo assim, os conteúdos aqui tratados pretendem apresentar e discutir os cortes metodológicos fundamentais do pensamento econômico, enfocaras principais tarefas lógicas a serem executadas numa pesquisa científica, habilitando o aluno a elaborar um projeto de pesquisa e familiarizar o aluno com a pesquisa em fontes eletrônicas de pesquisa bibliográfica e em bases de dados. Temos ainda como objetivos específicos: • Enfatizar as especificidades, potencialidades e limitações do conhecimento científico. • Destacar o papel da metodologia nas Ciências Sociais e, particularmente, na Ciência Econômica. • Ressaltar as etapas de produção científica em Economia. • Mostrar de forma concreta como esses vários elementos se articulam na elaboração de uma pesquisa econômica, através da formulação de um projeto de pesquisa a ser desenvolvido, posteriormente, na forma de monografia. O material discutirá o método científico e as técnicas de pesquisa em Economia e ainda detalhará as especificidades da pesquisa científica em Economia, especialmente em relação ao projeto de monografia e ao Relatório de Monografia. Bom estudo! INTRODUÇÃO Primeiramente, vamos identificar os limites entre a ciência e o conhecimento não científico, apontando algumas etapas importantes no tocante ao desenvolvimento da Filosofia da Ciência. Essas etapas foram responsáveis pela delimitação dos métodos científicos utilizados pelas Ciências Econômicas, assim como o fizeram em relação a outras áreas de saber. Em seguida, vamos realizar um breve panorama histórico dos desenvolvimentos relativos à metodologia do pensamento econômico, detalhando quais heranças foram deixadas em termos dos principais métodos atualmente utilizados para o fazer científico. Finalmente, trataremos das discussões referentes ao positivismo e ao falseacionismo, e identificaremos os principais paradigmas e programas de pesquisa existentes no campo da pesquisa acadêmica em Ciências Econômicas. Em seguida, vamos discutir questões específicas da pesquisa em Ciências Econômicas. Em função disso, inicialmente, detalharemos os campos da pesquisa econômica, as correntes e as escolas do 8 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 pensamento econômico, as fontes eletrônicas para pesquisa e as formas de pesquisa bibliográfica e em bases de dados. Posteriormente, apresentaremos algumas considerações quanto aos manuais para a elaboração do Projeto de Trabalho de Conclusão (Projeto de TC) e do Relatório do Trabalho de Conclusão na modalidade monografia (Relatório de TC). Finalmente, vamos debater dois temas extremamente importantes para o aluno nesta etapa de seu desenvolvimento acadêmico: a organização necessária para a realização de pesquisa e do trabalho autoral e a questão do plágio. 9 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Unidade I 1 MÉTODO CIENTÍFICO E TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA: A CIÊNCIA, A FILOSOFIA DA CIÊNCIA E O MÉTODO CIENTÍFICO A Filosofia, cujos desenvolvimentos nos legaram os conceitos básicos que utilizamos para delimitar o que é o que não é ciência, surgiu em torno de IV a.C., na Grécia, como resultado da tentativa de explicar racionalmente a origem do mundo. Para que se possa entender como ela teve surgimento naquele local e período histórico, temos que considerar certas condições específicas, quais sejam, a transformação da sociedade grega numa sociedade citadina e urbana, os investimentos de comerciantes nas artes e a dedicação à vida contemplativa por parte da elite econômica e social (ficando reservadas aos escravos todas as tarefas pesadas e insalubres). Figura 1 – A Filosofia surge, aproximadamente, no século IV a.C., na Grécia, local de intensa atividade econômica e comércio: nesse momento, as explicações religiosas cedem lugar ao racionalismo, com o abandono gradual do referencial religioso Alguns historiadores da Filosofia consideram que o grande movimento de ruptura que o modelo grego representou diz respeito à passagem da visão teogônica (que narra o nascimento de todas as coisas por meio das relações sexuais entre os deuses) para a visão cosmogônica (por meio da qual se narra a geração da ordem do mundo pela ação entre forças vitais concretas e divinas), e desta para a visão cosmológica, que explica, ou procura explicar, a origem do mundo por meio da determinação de um princípio originário racional. Em suma, a contribuição maior do pensamento grego teria sido justamente a de marcar o desaparecimento gradual das figuras do adivinho, dos magos e das seitas de mistério, trazendo para o centro a racionalidade e os pensadores. Segundo Chauí (2000), o “milagre grego”, assim compreendido não no sentido religioso, mas como resultado de especificidades históricas, resultou em heranças relacionadas às formas de organização social e política e à cristalização do que chamamos atualmente de “cultura”. Essa filosofia se baseava na racionalidade, no discurso como forma de buscar respostas, na organização do pensamento, na rejeição às explicações preestabelecidas e nas tentativas de generalização como objetivo maior. Nesse 10 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I contexto, eram fundamentais os conceitos de dóxa (espaço político da discussão e persuasão) e alétheia (pensamento verdadeiro para todos). Sócrates é um marco significativo nesse processo de descoberta dos critérios da verdade e das formas de acesso ao conhecimento: por meio das ideias por ele discutidas, o centro da reflexão filosófica transferiu‑se da investigação da natureza e da cosmologia para a formação do cidadão, com a política, a ética e a teoria do conhecimento. A democracia ateniense e a valorização das artes e ofícios pediam essa reflexão: Atenas passara a ser o centro do mundo, com sua intensa atividade econômica; além disso, os sofistas ganhavam espaço, fazendo valer o poder da arte da retórica, da argumentação e da persuasão. A proposta de Sócrates era simples: ele queria que fosse percebida a distância entre a ideia de uma coisa e a imagem que dela se fazia, entre o conceito de algo e a nossa opinião sobre esse objeto. Sua lógica envolvia o raciocínio indutivo (que parte do particular para o geral) e a elaboração de conceitos, usando para isso a reunião de traços comuns entre os casos particulares (CHAUÍ, 1994). Platão, seu discípulo e quem se encarregaria de transmitir as principais ideias do mestre, teria outras preocupações: Platão pretendeu entender a distinção do mundo sensível das aparências e o mundo inteligível das essências. Sua preocupação central estava na compreensão do bem como ser uno, como meta inatingível pelo ser humano. Seu trabalho político também merece atenção. Segundo Chauí (1994), para Platão, os males apenas poderiam cessar quando os filósofos chegassem ao poder, pois a violência e a justiça ocorriam especialmente por conta de dois instrumentos: a força física e a palavra. Nesse sentido, o combate se dava por meio do isolamento da mentira e das dissimilações que ocorriam com o uso da linguagem. Se a retórica era a arte do engano, sendo o sofista um perito em imitações, a dialética era o instrumento do filósofo para combater a falta de conhecimento e a inverdade. A pharmakon (linguagem) era usada como filtro, poção, remédio, enfeito, veneno e máscara; em contrapartida, com a dialética, não se usava a palavra para lutar e vencer aquele que tinha o maior poder de argumentação. Ao contrário, a discussão tinha como objetivo a produção de contradições para que, através delas, fosse possível reconhecer a própria ignorância. Discípulo de Platão, Aristóteles, tornar‑se‑ia o pensador clássico mais discutido e comentado nos séculos seguintes. Segundo Alfonso‑Goldfarb (2001, p. 9): [...] um número impressionante de leitores conhecidos (e até famosos), além de incontáveis anônimos, falaram sobre e em nome de Aristóteles, em variados períodos, lugares e línguas. Como resultado, ainda hoje (e talvez para sempre), quem quiserentender minimamente a história da filosofia ou da Ciência não poderá se furtar ao denso toque do Corpus Aristotelicum. Como os primeiros filósofos, Aristóteles propôs discutir a existência ou não da possibilidade do conhecimento; para ele, só haveria conhecimento se soubéssemos as causas das mudanças dos seres. Por meio da anamnese (recordação), ele buscou elaborar um histórico do progresso e das mudanças da linha de pensamento em relação a algumas das questões mais relevantes do seu tempo e que, aliás, continuam a merecer discussão e atenção nos dias atuais. O que Aristóteles fez foi apresentar a sua aporia e a história das aporias. 11 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Observação A aporia é uma incerteza diante de uma questão filosófica. Ela representa dúvida e hesitação em relação a um questionamento de ordem filosófica. Para Aristóteles, todos os homens tinham, por natureza, o desejo de conhecer. A filosofia representava esse desejo de conhecer e o prazer alcançado com a busca do conhecimento. Esse espanto admirativo, a contemplação e o saber especulativo representavam o conhecimento almejado, não pela sua utilidade ou pela ação que inspirava, mas pelo prazer de aproximar‑se do saber relacionado aos princípios e às causas e naturezas dos seres. Para isso, Aristóteles buscou classificar e indagar como podiam ser adquiridos e ensinados os saberes, que ele dividiu em três grandes grupos: a Física – englobando a Biologia, a botânica, a zoologia, a Psicologia e a cosmologia – que estudava os seres que possuíam em si mesmos o princípio do movimento, do repouso, da geração e da corrupção; a Matemática, que estudava os seres imóveis; e a filosofia teológica, que estudava o ser imóvel, não sujeito a mudanças e ao devir. Aristóteles também distinguiu a práxis (prática, representada pelo estudo da Economia, da Ética e da política) da poiesis (arte ou técnica, englobando a agricultura, a pintura, a poesia e a retórica). Assim, o pensamento aristotélico era composto de um conjunto enciclopédico de saberes, sobre os mais diversos assuntos. Para Aristóteles, o inteligível encontrava‑se no mundo sensível, sendo possível o conhecimento da realidade e das coisas. Se Platão procurava explicar o porquê do mundo sensível, Aristóteles foi procurar compreender por que esse mundo sensível era como era e como funcionava. A filosofia aristotélica trabalhava com a organon (a lógica), que indicava a forma correta de se pensar. Tornada uma disciplina essencial para a formação intelectual, era ela quem forneceria as normas para a condução correta do pensamento na busca do conhecimento e que permitiria a verificação da falsidade ou da veracidade dos argumentos. Por meio dos silogismos – discursos em que, apresentados certos pressupostos, outras coisas derivam deles necessariamente – Aristóteles mostrou o caminho do raciocínio dedutivo, que parte de uma afirmação universal verdadeira para casos particulares que dela dependem. Em outras palavras, Aristóteles preocupava‑se com a demarcação da verdade. Para ele, a explicação racional, ou as proposições, deveriam submeter‑se aos fatos para validação. Sua estratégia era, portanto, a de submeter os dados à experiência, dotando a racionalidade de um necessário empirismo, quer dizer, unindo o uso da razão com o resultado da apreensão da realidade por meio das sensações e da experiência. Segundo Barbieri e Feijó (2013, p. 52), há que se dizer que o empirismo aristotélico se reveste de características próprias e que, mesmo avançado em relação às concepções essencialmente fantasiosas da época antiga, ele não pôde desvencilhar‑se de elementos místicos, especialmente no que diz respeito às influências de Platão, seu mestre. 12 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Como é possível perceber, os filósofos gregos estabeleceram uma marca revolucionária na forma de pensar o mundo. Não que eles tivessem alcançado a verdade absoluta, mas haviam mostrado que valia a pena ir além da explicação mítica que até então servira de base para a compreensão da realidade. E, dada a sua importância, a filosofia aristotélica seria retomada pela Escolástica, durante a Idade Média. Vale aqui uma ressalva: longe da escuridão imaginada, a Idade Média criou as universidades, locais onde se estudavam Geometria Euclidiana, Lógica, Metafísica, Ética, Medicina, Física e Direito. A Escolástica, escola de pensamento filosófico desse período, recebeu influência determinante dos clássicos e foi marcada pela tentativa de conciliação entre fé e razão. Nos monastérios, monges trataram de recepcionar, traduzir e preservar obras gregas, romanas, árabes e judaicas. Claro que esses textos passaram por um curioso processo de “cristianização”: tratava‑se, afinal, de adequá‑los à teologia cristã. No entanto, distante do mundo escuro, árido e retrógrado que o imaginário ocidental construiu, a Idade Média foi o momento em que a nossa civilização passou a ser construída. E mais: foi o momento em que o debate sobre a verdade e as formas para seu acesso estiveram presentes em todas as obras e ideias discutidas. Figura 2 – Copistas trabalhando em três línguas: grego, latim e árabe, Palermo, Itália Saiba mais Sugerimos, sobre o assunto, o filme: O NOME da rosa. Dir. Jean‑Jacques Annaud. Itália: Neue Constantin Film; Cristaldifilm; Les Films Ariane, 1986. 130 minutos. A degradação do sistema feudal, a perda de poder de Roma e o surgimento de uma classe de mercadores ávidos pelo conhecimento e pelo poder provocariam mudanças profundas. Do ponto de vista filosófico e científico, paulatinamente, a Escolástica cedeu espaço para o espírito renascentista. Com o apoio da autoridade dos textos clássicos, os filósofos naturais renascentistas buscaram a matemática e os métodos de observação 13 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA como formas de obter maiores níveis de certeza nas abstrações sobre o homem e a natureza: o texto bíblico já não dava conta de responder a todas as perguntas feitas. Para isso, era necessário que a razão fosse utilizada como antídoto para as superstições, as paixões e a imaginação. Havia respeito e reverência ao conhecimento antigo e às antigas tradições, mas havia também a necessidade e a coragem de ir além. Assim, o típico pensador da Renascença buscou conhecer o Homem e entender as relações entre o humano e o divino. Na medicina, mais do que em qualquer outra área do conhecimento, houve sofisticação dos métodos de investigação através da dissecação, vivisseção, estudos de anatomia e tentativas de observação acurada e detalhada, embora se buscasse preservar a antiguidade por meio dos textos e ensinamentos de Aristóteles e Galeno. Kepler saiu em busca da compreensão dos mecanismos da visão. Os céus e as estrelas, símbolos da crença medieval de perfeição e equilíbrio, passaram a ser observados por meio de instrumentos guiados por homens incrédulos. A Terra foi colocada, finalmente, em movimento e, posteriormente, deixou de ser o centro do Universo. Tycho Brahe descobriu uma nova estrela, e essa descoberta colidiu com a ideia de imutabilidade dos céus. Os renascentistas empurraram as fronteiras do saber, reverenciando os antigos, mas libertando‑se das amarras que formas ultrapassadas de pensar representavam. A Revolução Industrial acrescentou combustível ao processo de cisão entre o saber e o poder eclesiástico. O surgimento de fábricas, a urbanização, o comércio internacional cada vez mais intenso e a tecnologia que mudava a vida de todos haviam provocado transformações significativas: naquele momento, o desenvolvimento científico era notável e surgiam sociedades destinadas ao culto e à transmissão do saber por toda a Europa. Já distante da Escolástica medieval, o contexto era o do Renascimento,que disseminou por toda a Europa os ventos do racionalismo cartesiano, da filosofia de Kant e de Spinoza, da dialética hegeliana e da pintura holandesa. Embora durante muito tempo tenha prevalecido na história geral certa “leitura” que manteve a indústria e a universidade em esferas distintas, algumas evidências apontam para a existência de uma estreita relação entre elas, em especial na Inglaterra, “local de um entusiasmo peculiar pela ciência e engenharia” (HEILBRONER; MILBERG, 2008, p. 83). Lá surgiram, por exemplo, a Royal Society (presidida por Isaac Newton) e a Philosophical Society of Edinburgh, inaugurada em 1737 e que tinha, entre seus mantenedores e membros, vários grandes proprietários de terra. Assim, os industriais, empresários e donos de terra eram os grandes mecenas das ciências, apostando e investindo em pesquisas que pudessem dar origem a novas tecnologias e, portanto, mais lucro. Nesse contexto, nasceria a primeira obra tendo como objeto de estudo específico a questão da riqueza das nações e das atividades econômicas: A Riqueza das Nações, de Adam Smith (1723 – 1790). Adam Smith seria, assim, o legítimo representante de nossa ciência nascente dentro do espírito do Iluminismo. Segundo Falcon (2009), temos como traço marcante dos setecentos essa associação entre a busca de governos mais populares e as ideias de uma série de pensadores e filósofos que defendiam uma postura intelectual madura, moderna e autônoma: Locke, Voltaire, Montesquieu e Rousseau surgiram como os arautos de um movimento filosófico que assumiu uma crítica implacável ao absolutismo. Afinal, naquele momento, o capitalismo se disseminava e o absolutismo político esbarrava nos anseios da burguesia em relação à liberdade de agir e à maturidade concreta; essa análise explica, inclusive, a herança que o “iluminismo” nos deixou em termos de uma proposta individualista da cidadania com base na liberdade e na propriedade privada, e de uma proposta filosófica racionalista e otimista quanto ao valor da ciência. Aliás, o próprio termo Iluminismo iria 14 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I disputar espaço com outro, a Ilustração, dependendo do lugar em que se disseminou. Na França, correspondeu ao sentido de uma filosofia de história e a um ato de fé, sentido esse resumido na palavra “luzes”. Na Alemanha, o Iluminismo significará esclarecimento, descobrimento, e estará fortemente vinculado ao despotismo esclarecido de Frederico II e José II. Na Escócia, o Iluminismo ganhará contornos mais definidos em termos de questões de natureza moral e econômica (e Adam Smith será o grande representante dessa vertente a partir das suas considerações sobre a natureza da riqueza das nações e da moral centrada no individualismo, no autointeresse e no egoísmo que, a partir de um movimento natural, acabariam gerando o bem‑estar de todos). A metáfora das luzes reforçou as ideias de verdade, de conhecimento verdadeiro e de saída da escuridão. As luzes representavam o oposto da ignorância, dos erros, das superstições, o que impregnava o Iluminismo de um sentido místico (da iluminação interior) do qual, aparentemente, ele buscava se distanciar. Afinal, iluministas eram os filósofos morais ingleses e, também, os místicos espanhóis (FALCON, 2009). A partir desse instante, as práticas capitalistas ocupariam cada vez mais espaço na Europa e no restante do mundo; ainda, esse seria o início da publicação de uma série de obras de pensadores que se preocupariam em entender as relações de troca entre os homens e o funcionamento dos mercados. Em suas obras, eles – embora não tratassem da questão de forma explícita – revelariam os caminhos escolhidos para a descoberta da verdade a respeito da realidade econômica. 2 METODOLOGIA DA ECONOMIA Vejamos, então, como se dá o processo de conhecimento. Conhecer algo ou estudar algum fenômeno requer que usemos nossa capacidade intelectual, nossa razão. A razão é, portanto, o ponto de partida para a aquisição do conhecimento. Segundo Chauí (2000, p. 70‑1): A consciência é a razão. Coração e razão, paixão e consciência intelectual ou moral são diferentes. Se alguém “perde a razão” é porque está sendo arrastado pelas “razões do coração”. Se alguém “recupera a razão” é porque o conhecimento intelectual e a consciência moral se tornaram mais fortes do que as paixões. A razão, enquanto consciência moral, é a vontade racional livre que não se deixa dominar pelos impulsos passionais, mas realiza as ações morais como atos de virtude e de dever, ditados pela inteligência ou pelo intelecto. [...] Nós a consideramos [a razão] a consciência moral que observa as paixões, orienta a vontade e oferece finalidades éticas para a ação. Nós a vemos como atividade intelectual de conhecimento da realidade natural, social, psicológica, histórica. Nós a concebemos segundo o ideal da clareza, da ordenação e do rigor e precisão dos pensamentos e das palavras. Supõe‑se, assim, que a realidade seja dotada de uma racionalidade passível de ser percebida e apreendida pela nossa atividade intelectual. Por sua vez, a atividade racional, essa capacidade humana de apreender a realidade, pode ocorrer de duas formas: pela intuição (que está associada ao “ver” imediato, sem qualquer necessidade de prova ou demonstração, como se houvesse ocorrido um “estalo” ou uma “revelação”) ou pelo raciocínio. Para efeito da nossa disciplina, interessa‑nos especialmente esta segunda forma, que se configura como razão discursiva, e que ocorre sob as formas de dedução e indução. 15 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Segundo Chauí (2000, p. 82): Dedução e indução são procedimentos racionais que nos levam do já conhecido ao ainda não conhecido, isto é, permitem que adquiramos conhecimentos novos graças a conhecimentos já adquiridos. Por isso se costuma dizer que, no raciocínio, o intelecto opera seguindo cadeias de razões ou os nexos e conexões internos e necessários entre as ideias ou entre os fatos. Alguns exemplos clássicos podem nos ajudar a compreender melhor esses conceitos. No caso da dedução: parte‑se de uma premissa inicial e, com base nela, explicam‑se os casos particulares. Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Portanto, Sócrates é mortal. No caso da indução: partimos de casos particulares para, em função deles, estabelecer uma regra geral. João é homem e é mortal. Pedro é homem e é mortal. Paulo é homem e é mortal. Portanto, todos os homens são mortais. Em se tratando de raciocínios dedutivos ou indutivos, precisamos distinguir a validade do argumento e a verdade da conclusão do argumento. Por exemplo: Todos os homens têm mais de 1,80 m de altura. João é homem. Logo, João tem mais de 1,80 m de altura. Esse argumento é válido? Sua conclusão é falsa ou verdadeira? E em relação aos exemplos a seguir? 16 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Exemplo 1 Todos os homens têm mais de 50 metros de altura. João é homem. Logo, João tem mais de 50 metros de altura. Exemplo 2 As janelas do apartamento 1 deste edifício são brancas. As janelas do apartamento 2 deste edifício são brancas. As janelas do apartamento 3 deste edifício são brancas. As janelas do apartamento 4 deste edifício são brancas. (Esse edifício tem apenas 4 apartamentos). Logo, todas as janelas de apartamento deste edifício são brancas. Exemplo 3 As janelas do apartamento 1 deste edifício são brancas. As janelas do apartamento 2 deste edifício são brancas. As janelas do apartamento 3 deste edifício são brancas. As janelas do apartamento 4 deste edifício são brancas. (Esse edifício tem apenas 5 apartamentos) Logo, todas as janelas de apartamento deste edifício são brancas. Fonte: Indução ([s.d.]). Adaptado. De forma resumida, o método dedutivo parte de um princípio geralpara explicar os casos particulares. Por exemplo: caso alguém queira traçar um perfil dos alunos que cursam Ciências Econômicas por meio da educação a distância, poderá levantar algumas hipóteses: são alunos que não têm tempo para assistir aulas presenciais; são alunos que moram distantes de demais universidades; são alunos que preferem estudar segundo um ritmo diferente daquele utilizado nos cursos presenciais. Essas são hipóteses: quem reflete sobre o tema, assume como prováveis essas características dos alunos de cursos a distância, sendo capaz de criar algumas regras explicativas. 17 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Em contrapartida, o método indutivo parte do particular para o geral. Usando o mesmo exemplo, conversar‑se‑ia com cada aluno do curso de Ciências Econômicas a distância, questionando‑o sobre os motivos para a escolha dessa modalidade. Após conversar com todos, poder‑se‑ia, então, formular uma explicação geral: o estudo dos casos particulares permitiria a construção de uma explicação geral. Você já deve ter percebido o quão importante é a discussão a respeito das vias de acesso ao conhecimento. Portanto, o debate sobre as condições epistêmicas da geração do saber é fundamental, e não apenas uma discussão semântica sem qualquer utilidade. Apesar disso, o mainstream das Ciências Econômicas preferiu ignorar a fragilidade das nossas formas de acessar o conhecimento sobre fenômenos como consumo e poupança, pobreza e riqueza. Certos de terem conseguido alcançar um conhecimento seguro sobre a realidade, os economistas fecharam os olhos para a fragilidade de pressupostos como a racionalidade e a motivação humana no sentido de otimizar a utilidade, princípios basilares das escolas clássicas e neoclássicas de pensamento econômico. Observação O mainstream caracteriza a corrente principal de uma área do saber. Essa corrente principal reúne as ideias que formam um conjunto consensual de opiniões a respeito de determinado objeto ou assunto. Assim, ele está associado à tendência majoritária e hegemônica existente numa comunidade de cientistas ou pensadores. Voltemos à questão da Filosofia da Ciência e, mais especificamente, da nossa ciência. Como vimos anteriormente, toda área do saber tem – e é isso que a diferencia das demais – um objeto específico de estudo e um método peculiar de investigação desse objeto. De fato, cada área do saber tem como base determinados pressupostos epistemológicos, quer dizer, princípios basilares nos quais repousam alguns critérios a partir dos quais será gerado o conhecimento a respeito do seu objeto específico; em outras palavras, deve explicitar como se dá o conhecimento no seu campo de saber e qual o processo de sua aquisição. Adicionalmente, deve esclarecer quais os métodos consagrados para a investigação e para o estudo dos fenômenos pertinentes à sua área. Os pressupostos epistemológicos de uma ciência dizem respeito aos processos cognitivos (relacionados ao conhecimento). Esses princípios definem o quanto podemos conhecer da realidade, ou seja, quais são os limites que o nosso conhecimento sobre o objeto pode atingir. Além dos fatores biológicos que determinam nossa cognição (nossa capacidade de ver, de ouvir, de sentir, de compreender ideias e de estabelecer relações entre fatos e ideias), são fundamentais as influências sociais e culturais. De forma resumida, portanto, o conhecimento é um fenômeno social que possui uma história e que é resultado de determinados contextos históricos. A questão do embate entre as sensações (a experiência) e a racionalização (a racionalidade a serviço da dedução) foi uma constante nos períodos posteriores: discutida ao tempo da Escolástica, foi alvo de calorosos embates durante a Renascença e o Iluminismo, e, ainda nos dias atuais, é frequentemente lembrada quando do estudo e da investigação epistemológica sobre determinada área do saber. 18 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Francis Bacon, no século XVII, questionou a verdade obtida por meio da experiência. Afinal, a experiência requeria uma extrema e excessiva confiança nos sentidos: e se os sentidos falhassem? E se os sentidos captassem algo que fosse mera distorção da realidade? E nossos hábitos mentais e de linguagem que nos faziam perceber a realidade de forma errônea? E o peso das opiniões das autoridades? Não seriam essas autoridades capazes de moldar a nossa própria experiência sensorial? René Descartes, no mesmo período, resolveu o problema do acesso ao verdadeiro conhecimento de outra forma. Para ele: [...] a certeza do conhecimento não pode ser alcançada fazendo‑se a natureza confessar, simplesmente porque ela não fala por si mesma. Onde então encontrar a âncora do conhecimento certo sem um pressuposto metafísico? [...] Usar bem a razão é seguir o único método seguro: a assim chamada “dúvida metódica”. Consiste em refutar como falso tudo o que é apenas provável (BARBIERI; FEIJÓ, 2013, p. 57). Isaac Newton, na Física, trouxe os ventos da Revolução Científica. Ainda com uma visão de mundo impregnada de misticismo (sabe‑se que Newton era obcecado por alquimia e Cabala, por exemplo), Newton procurou construir seus principais fundamentos a partir da formulação de alguns princípios e da observação de alguns fatos da realidade. Para Newton, o fundamental era a elaboração de leis explicativas. Por isso, e pelo fato de ele ter revolucionado a Física, foi visto como exemplo a ser seguido. Lembrete Isaac Newton se tornaria uma grande influência para Adam Smith: para este, a Riqueza das Nações (SMITH, 1996) tinha como objetivo alcançar o que a obra newtoniana havia feito pela Física: a explicação das leis naturais do funcionamento do sistema econômico. Figura 3 – Da mesma forma como fizera Newton, Smith considerava que os fatos mobilizam nossos sentimentos; estes últimos seriam, por sua vez, os responsáveis pela causa e pelo efeito das explicações científicas 19 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Ou por força da estatística, ou por meio do indutivismo (e da experiência) ou por meio do uso da racionalidade, os cientistas – e economistas, inclusive – buscaram sempre se aproximar da verdade, escolhendo um ou outro método em função do consenso da comunidade científica ao seu tempo ou em função dos problemas para os quais deveriam dar respostas. [...] negar o indutivismo em ciência não implica “deixar de fora toda a esperança”, cair no inferno dantesco da subjetividade no qual tudo vale. Descartes e Newton de forma nenhuma abandonam o papel dos fatos empíricos na construção da teoria. No entanto, julgam eles que a mente do investigador joga papel mais ativo na elaboração de teorias, movida pelas faculdades da razão e da capacidade de descrever os princípios da explicação, respectivamente. O que estimula a ação dessas faculdades, entretanto, são eventos externos observados. Eles são a causa e o feito das explicações científicas (BARBIERI; FEIJÓ, 2013, p. 60). Mas, afinal, como é que são realizadas as pesquisas nas Ciências Econômicas? No caso da economia, os cientistas passaram a dar mais importância à construção teórica que considera o indivíduo otimizador racional na representação abstrata dos agentes. Assim, modelos com um agente estilizado proliferam nos trabalhos teóricos dos economistas, a ponto de constituírem um elemento central do paradigma da análise econômica (BARBIERI; FEIJÓ, 2013, p. 8). Outra variável importante na análise econômica é aquela que considera que os agentes econômicos estabelecem suas relações em mercados perfeitos. No entanto, é importante salientar que ambas as variáveis (o agente otimizador e o mercado perfeito) são apenas simplificações que servem como ponto de partida para estudos relacionados à racionalidadelimitada, informação imperfeita, mercados imperfeitos. Podemos afirmar que o campo de investigação e os métodos e as técnicas utilizadas nas pesquisas das Ciências Econômicas encontram‑se suficientemente aceitos dentre a comunidade científica. Assim: [...] no cenário internacional, ao menos nos países ocidentais desenvolvidos, nenhum estudante será aceito como um verdadeiro economista se não tiver tido um bom contato com os cursos tradicionais de microeconomia, de macroeconomia, de econometria e de outras disciplinas que compõem o núcleo do paradigma da economia científica (BARBIERI; FEIJÓ, 2013, p. 12). Observação Um paradigma descreve as convicções, na maioria das vezes implícitas, com base nas quais os investigadores elaboram as suas hipóteses, as suas teorias e mais geralmente definem os seus métodos. Apenas para dar um 20 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I exemplo: durante séculos, o paradigma predominante era o de que a Terra, imóvel, era o centro do universo. A mudança de paradigma ocorreu quando o geocentrismo foi substituído pelo heliocentrismo. É possível resumir o paradigma das Ciências Econômicas da seguinte forma: considerando mainstream a escola representada pela economia matemático‑estatística do equilíbrio maximizador, as influências e as contribuições são oriundas: • da escola da economia heterodoxa da organização industrial; • da escola heterodoxa da econometria (incluída, aí, a estatística bayesiana); • do historicismo econômico; • da escola austríaca de economia; • da escola da nova economia institucional; • da escola marxista; • da escola keynesiana; • de outras escolas paradigmáticas. De maneira geral e sistemática, grande parte dos economistas acomodou‑se com o uso de dois métodos: o hipotético‑dedutivo e o histórico‑dedutivo. De Smith aos dias atuais, esses têm sido os instrumentos preferenciais dos economistas no estudo dos atos e fenômenos econômicos. O problema teórico central enfrentado pela economia e pelas outras ciências sociais é a escolha do método ou abordagem preferidos de investigação. Economistas clássicos como Smith, Malthus e Marx usaram essencialmente o método histórico‑dedutivo: tentaram generalizar a partir da observação da realidade econômica que os cercava. Ricardo desenvolveu modelos altamente dedutivos, mas os fatos básicos em que baseou seu raciocínio, como as maiores rendas recebidas pelos proprietários das terras mais produtivas, vieram de sua observação da realidade econômica. [...] A redução da teoria econômica a modelos matemáticos possibilitada pela abordagem hipotético‑dedutiva aconteceria nos anos 1930, quando um grande número de engenheiros e físicos se juntaram à profissão (Mirowski, 1991). Keynes representou uma reação à primazia do método hipotético‑dedutivo na teoria econômica e a sua consequência, a tendência à “matematização” do pensamento econômico (BRESSER‑PEREIRA, 2009, p. 163‑164). 21 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA O método dedutivo (histórico ou hipotético) consagrou‑se como instrumento preferencial nos estudos econômicos. Se houve alguma aproximação com o método indutivo (quer dizer, com o estudo de casos particulares para a formulação de regras gerais), isso ocorreu por meio de abordagens mais empíricas, especialmente as relacionadas às análises históricas e estatísticas: melhor dizendo, as relacionadas às análises de dados históricos submetidos ao rigor matemático. Observação É importante ressaltar que estamos falando de aproximação, e não do uso do método indutivo como prática usual no campo das Ciências Econômicas. Esse método está ainda restrito aos estudos que têm como áreas de fronteira a Psicologia Econômica e a Sociologia. Na verdade, tanto as críticas passíveis de serem feitas ao método dedutivo quanto as relacionadas ao método indutivo foram – e ainda são, em grande parte – ignoradas pelos economistas. A despeito da segurança dos cientistas econômicos, o fato é que há problemas imensos com a qualidade de conhecimento que acessamos. Com a dedução, temos que lidar com as limitações provenientes dos sistemas lógicos de pensamento. Se a dedução parte da razão e da formulação de princípios gerais que explicam casos particulares, podemos ter que lidar com falhas lógicas (paradoxos e contradições, por exemplo) ou com erros na própria formulação dos princípios gerais. Supostamente, esses problemas poderiam ser controlados a partir do rigor com que os silogismos fossem formulados e a partir da consistência dos argumentos utilizados; no entanto, esse controle é relativo. Nossa capacidade de abstração e a nossa linguagem inserem vieses que, por sua vez, ocultam partes da realidade. E mesmo que utilizemos a História como base para nossas reflexões dedutivas, não podemos esquecer o fato de que eventos novos, fora do comum, podem ocorrer. Imagine alguém fazendo uma análise histórica antes da Revolução Industrial ou da Revolução Francesa. Teria sido possível prever esses eventos? E, no entanto, eles ocorreram e passaram a ser admitidos em todas as análises históricas posteriores. Em relação à indução, temos que lidar com a possibilidade de erros na coleta de dados estatísticos, erros esses que podem inviabilizar os modelos que abstraímos dos dados. Além disso, temos que conviver com o número limitado de observações e de casos particulares, e não há como ultrapassar essa dificuldade. Podemos identificar cem casos iguais e, na centésima primeira vez, termos que lidar com alguma anomalia. Em outras palavras, sempre será possível surgir um evento que seja completamente diferente dos anteriores. Assim, os métodos indutivos costumam chegar a resultados que estão associados a graus de probabilidade. Finalmente, é importante salientar que a nossa capacidade de apreender a realidade por meio dos sentidos, das sensações e da experiência é limitada. Levando em consideração essas possíveis e diferentes abordagens, é possível dizer que a metodologia da Economia resulta não apenas das técnicas do trabalho acadêmico, mas também da investigação filosófica do fazer ciência. Em outras palavras, a questão metodológica não se encerra nas receitas simplificadas de como realizar uma pesquisa científica, mas deve conter, também, a reflexão sobre o 22 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I processo de construção das teorias científicas e a posterior confrontação desses constructos teóricos com a realidade e com as evidências empíricas. É claro que o processo de descarte de teorias não é simples; ao contrário, ele costuma ser acompanhado de verdadeiras revoluções no modo de se pensar e de se fazer ciência. E, mais importante ainda: a História das Ciências e das ideias, bem como a História do Pensamento Econômico, estão repletas de exemplos nos quais o descarte de velhas teorias e a formulação de novas explicações ocorreram justamente em função de novas regras que foram criadas, ou do desrespeito à velhas regras já consagradas. Então, a própria denominação de metodologia do pensamento econômico traz consigo o pressuposto de que a tarefa do economista como cientista é dirigida por um ou mais métodos. Mas devemos estar abertos inclusive para práticas sem método no interior da economia científica. Então, definitivamente, metodologia, nesse contexto, não se limita apenas ao estudo do método ou dos métodos, mas de toda forma de atuação do cientista econômico (BARBIERI; FEIJÓ, 2013, p. 25). Assim, é importante salientarmos: o consenso será encontrado dentro de cada escola e os pressupostos metodológicos aceitos pelos membros de cada escola; em contrapartida, encontraremos conflitos quando compararmos esses pressupostos entre membros de diferentes escolas. Um fator torna esse contexto mais claro: estamos nos referindo ao fato de asCiências Humanas pertencerem ao campo das ciências sociais aplicadas. Além de todas as dificuldades que qualquer ciência percorre no seu desenvolvimento – e, em particular, em relação aos seus pressupostos epistemológicos – as Ciências Econômicas ainda devem lidar com os problemas comuns às outras Ciências Sociais. Assim, em comparação com as Ciências Exatas e da Natureza, nas Ciências Econômicas: • É mais difícil identificar os paradigmas vigentes. • Não é possível realizar experimentos controlados. • O objeto do conhecimento muda ao longo do tempo (por exemplo, o surgimento do capitalismo mudou a forma a partir da qual o comportamento econômico passou a ser investigado; a crise de 1929 também mudou o cenário sobre o qual se debruçaram os economistas àquele tempo; a questão ambiental e de sustentabilidade da espécie humana também provocou mudanças na forma como o objeto das Ciências Econômicas é percebido pelos economistas). • Os agentes não se comportam de forma determinista, sendo impossível realizar qualquer previsão. • Os cientistas que estudam seus fenômenos são, por sua vez, agentes econômicos que possuem crenças, valores e normas em referência ao objeto de estudo (o que pode contribuir para o difícil acesso à objetividade por parte de quem estuda os fenômenos econômicos). 23 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Figura 4 – Há diferenças significativas entre os modos de acessar o conhecimento das Ciências Naturais e das ciências sociais aplicadas. Por exemplo, nestas últimas, não é possível realizar experimentos controlados, procedimentos que são comuns na Física e na Biologia Segundo Barbieri e Feijó (2013, p. 39), outros obstáculos se somam aos já citados. No campo da economia, há um número muito grande de condições iniciais, nem todas elas passíveis de serem especificadas. As leis econômicas não são bem estabelecidas e, na maioria das vezes, elas indicam mais uma tendência do que propriamente uma lei geral. Não existem leis universais bem testadas na economia e as leis gerais que existem são leis estatísticas às quais faltam constantes universais, como na física. Certas condições assumidas pela teoria econômica, tais como gostos, expectativas e grau de informação, não são facilmente avaliadas. Qualquer hipótese em economia está sujeita a outras coisas que são mantidas constantes (ceteris paribus) e tais coisas são numerosas e nem sempre bem especificadas. [...] Os dados empregados em qualquer teste empírico correspondem de forma superficial às concepções existentes na teoria sob teste. Outra variável precisa ser acrescentada a essa análise, e ela trará mais complexidade ao debate sobre os métodos a serem utilizados em Economia: nossa área de saber, como outras ciências, possui um objeto que vem se transformando ao longo do tempo. Assim, a investigação sobre os atos econômicos do século XXI pode requerer instrumentos diferentes daqueles que foram utilizados no século XVIII; afinal, do ponto de vista histórico, novas perguntas e novos fenômenos surgiram desde a publicação do texto fundador de Adam Smith, e esses desenvolvimentos criaram tensões que obrigaram os economistas – ou deveriam ter obrigado – a refletir sobre os modos de aquisição do conhecimento e os métodos utilizados para alcançá‑lo. Apenas para dar um exemplo: no século XIX, sequer se discutia a questão da finitude de um recurso importante como a água. Atualmente, o debate sobre as condições de sustentabilidade de nosso ritmo de produção e consumo está no centro de qualquer discussão sobre modelos econômicos. Parece claro, 24 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I portanto, que as formas de acessar o conhecimento modificam‑se simultaneamente à transformação do nosso próprio objeto de estudo. Figura 5 – As Ciências Econômicas e seu objeto de estudo em transformação: a questão da sustentabilidade econômica, dada a escassez de recursos, é recente e vem exigindo novas posturas para a solução dos problemas ambientais Até o século XIX, no entanto, as grandes escolas de pensamento das Ciências Econômicas foram se desenvolvendo sem se preocupar demasiadamente a respeito dos pressupostos epistemológicos adotados; ou melhor, sem refletir sobre as diferenças entre o processo de conhecimento do saber em geral e o processo específico de aquisição do conhecimento dos fenômenos econômicos. Entre os séculos XVIII e XIX, quer dizer, entre o período que cobre a publicação dos textos fundadores das Ciências Econômicas e o momento em que a Ciência surge tal como a conhecemos nos dias atuais, o que era bom para as outras Filosofias Políticas e Morais (áreas das quais as Ciências Econômicas derivaram), também era bom para o estudo dos fenômenos econômicos. Até o final do século XIX quando, inclusive, a Epistemologia – a ciência que estuda os processos do conhecimento – passou a se desenvolver de forma significativa, a grande preocupação dos pensadores que refletiam a respeito dos atos econômicos não estava relacionada às formas de aquisição do conhecimento, mas ao objeto desse conhecimento. Para eles, o requisito necessário para fundar e fortalecer uma nova categoria do saber era diferenciá‑la em termos do objeto de estudo, deixando a preocupação com as formas do conhecimento para outro momento. Portanto, um dos fatos mais marcantes da história da Epistemologia da Economia está no fato de esses processos de aquisição do saber terem sido pouco discutidos. A evidência clara dessa situação pode ser demonstrada da seguinte forma: os temas centrais da pesquisa econômica modificaram‑se ao longo do tempo. Na década de 1970, por exemplo, surgiram questões referentes ao processo inflacionário que atingia grande parte das economias desenvolvidas e em desenvolvimento; nas décadas de 1980 e 1990, intensificaram‑se o debate sobre o papel do Estado na promoção do desenvolvimento e o debate sobre as diferenças entre o Welfare State (o Estado que se preocupa com a promoção do bem‑estar social) e o Estado Mínimo (o Estado que intervém pouco na economia). No entanto, o corpus das teorias 25 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA econômicas ficou à salvo de qualquer dúvida ou questionamento em termos dos métodos utilizados para desenvolvê‑lo. Claro que isso não ocorria sem exceções, mas o mainstream do pensamento econômico era pródigo em afirmar que nada de novo havia sob o sol: os métodos dedutivos e históricos eram mais do que suficientes para dar conta do recado. Se houvesse algum espaço vazio, ele seria certamente ocupado pela Matemática, Estatística e Econometria. Esse status quo fortaleceu‑se ao longo da primeira metade do século XX: o pluralismo metodológico e sua consequente disponibilidade para o debate de ideias ou correntes de pensamento diversas das já estabelecidas, ao menos no plano metodológico, não ocuparam qualquer espaço significativo nos debates sobre os métodos utilizados para a investigação dos atos e fenômenos econômicos. Em outras palavras: era mais importante estudar a realidade do que discutir as formas a partir das quais essa realidade deveria ser estudada, como se uma coisa não estivesse irremediavelmente associada à outra. Ao invés de refletir sobre as limitações das formas utilizadas para alcançar o conhecimento econômico, os economistas preferiram continuar olhando os fenômenos com as mesmas lentes utilizadas pelos economistas clássicos do século XVIII. Mas, afinal, qual a importância de discutir os caminhos utilizados para se chegar ao conhecimento? A pergunta não é descabida, muito pelo contrário. Sugerimos que você reflita a respeito: a realidade é o que conseguimos dela compreender? Todas as pessoas percebem a realidade da mesma forma? Todas as áreas de conhecimento – ou melhor, todos os aspectosda realidade – exigem que utilizemos as mesmas vias de acesso? Pois bem: propomos que você pense nos seguintes termos: a realidade “é” (ela tem uma existência concreta), mas o que apreendemos dela depende das formas como a vemos e a interpretamos. A realidade “é”, mas o nosso conhecimento apenas pode dela se aproximar, jamais alcançando‑a na sua totalidade. Aliás, é necessário enfatizar: enxergamos aquilo que podemos compreender e aquilo que conseguimos acomodar no conjunto de coisas que supomos saber. Os quadros mentais sobre os quais repousam nossas crenças, bem como nossas características biológicas, possibilitam‑nos ou nos impossibilitam de perceber a realidade. De fato, aquilo que vemos (ou imaginamos ver) é fruto de construções mentais elaboradas em função do que aprendemos, das experiências que já tivemos, daquilo que acreditamos ser possível. Na belíssima série Cosmos (1980), temos um exemplo interessante a respeito das limitações da nossa capacidade de enxergar a realidade. Enxergamos aquilo que entendemos, aquilo que nossa cognição nos indica ser possível ou provável. Há quase duzentos anos, no golfo do Alaska, [...] duas culturas que não se conheciam tiveram um primeiro encontro. O povo Tlingit vivia mais ou menos como seus ancestrais viviam há milhares de anos. Eles eram nômades, viajando sempre de canoa entre inúmeros locais de acampamento, onde pegavam peixes abundantes e ostras do mar e os trocavam com as tribos vizinhas. O criador que eles veneravam era o Deus Corvo, a quem representavam como uma enorme ave preta de asas brancas. E em um dia de julho de 1786, o Deus Corvo apareceu. Os Tlingit ficaram apavorados. Eles sabiam que quem olhasse diretamente para o Deus viraria pedra. Do 26 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I outro lado do planeta, uma expedição liderada pelo explorador francês La Pérouse foi, na verdade, a viagem científica mais planejada do século XVIII que foi enviada para circundar o mundo e para reunir conhecimentos sobre geografia, história natural e povos de terras distantes. Mas, para os Tlingit, cujo mundo estava confinado às ilhas do sul do Alaska, esse grande navio só poderia ter vindo dos deuses. Houve um entre eles que ousou olhar mais profundamente. Era um velho guerreiro e estava quase cego. Disse que sua vida estava quase no fim. Para o bem comum, ele se aproximaria do Corvo para ver se o Deus iria realmente transformar seu corpo em pedra. Ele partiu para a sua própria viagem de descoberta para confrontar o fim do mundo. O velho olhou fixamente para o Corvo e viu que ele não era um grande pássaro do céu, mas trabalho de homens, como ele mesmo (COSMOS, 1980, episódio 13). Saiba mais Sugerimos que você assista ao 13º episódio de Cosmos: COSMOS. Produção de Carl Sagan; Ann Druyan. EUA; Reino Unido: KCET; Carl Sagan Productions, 1980, 60 min. (13 episódios). Há, inclusive, algumas restrições biológicas que determinam as nossas formas de perceber a realidade. Por exemplo: os daltônicos reconhecem matizes de cores de formas diferentes dos não daltônicos. Imagine, portanto, as leituras distintas que um daltônico e um não daltônico poderiam fazer de um quadro de Mondrian. Figura 6 – Quadro do pintor holandês Piet Mondrian. Conforme pode ser observado, o uso das cores é fundamental na construção da obra de Mondrian Mesmo que tomemos como base indivíduos com capacidades similares de visão ou de outras competências físicas, também perceberemos diferenças significativas nas formas como cada um é capaz 27 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA de enxergar a realidade. São clássicas as figuras que nos revelam várias e diferentes visões, de acordo com a perspectiva que adotamos. Saiba mais Sobre a ilusão de ótica, veja: ILUSÕES de ótica: é verdade ou são apenas meus olhos? Em diálogo, 2014. Disponível em: <http://www.emdialogo.uff.br/content/ ilusoes‑de‑otica‑e‑verdade‑ou‑sao‑apenas‑meus‑olhos>. Acesso em: 8 ago. 2016. Será interessante também assistir ao filme O Enigma de Kaspar Hauser, que conta a história de um jovem preso num cativeiro durante toda a vida, e que é posteriormente exposto ao mundo real, cujas reações podem nos conduzir a interessantes reflexões a respeito da nossa capacidade de compreensão do mundo. O ENIGMA de Kaspar Hauser. dir. Werner Herzog. Alemanha: Filmverlag der Autoren; Werner Herzog Filmproduktion; Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF), 1974. 110 min. Caso você queira ler mais sobre o tema, sugerimos: SABOYA, M. C. L. O enigma de Kaspar Hauser (1812?‑1833): uma abordagem psicossocial. Psicologia USP, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 105‑117, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext &pid=S0103‑65642001000200007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 8 ago. 2016. Nosso processo de aquisição do conhecimento ocorre por vias extremamente particulares. Na maior parte das vezes, e ao longo das nossas vidas, enxergamos aquilo que queremos enxergar ou que estamos preparados para enxergar. Isso não acontece apenas quando estamos diante de um conhecimento novo, ou fora do padrão: ocorre no nosso dia a dia. Às vezes, convivemos com uma pessoa durante anos e não percebemos qualidades que, para outros, são extremamente óbvias. Em outras ocasiões, estabelecemos metas profissionais que, décadas depois, nos parecem absurdas e infantis. Vemos o que queremos ver, e vemos no momento em que estamos preparados para lidar com o que vemos: o nosso olhar indaga à realidade, mas não é sempre que ele tem condições de lidar com as respostas que o mundo nos oferece. Acreditamos nas explicações que desenvolvemos para compreender o mundo enquanto essas explicações derem conta de resolver os problemas que enfrentamos e aos quais devemos oferecer respostas. 28 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Assim, outra questão fundamental diz respeito à perenidade das certezas que desenvolvemos a respeito das condições seguras para a aquisição do conhecimento. Dessa forma, para os estudiosos da Epistemologia, é fundamental o estudo das condições que possibilitam as revoluções científicas, as mudanças de paradigmas que nos sustentam e nos auxiliam na construção da realidade. As grandes transformações científicas ocorreram quando antigas crenças e antigos quadros mentais foram substituídos por novas maneiras de pensar o mundo. Tal fenômeno não é muito diferente nos casos que envolvem o conhecimento novo que se coloca diante de nós diariamente, porque nosso apego ao que já sabemos (ou ao que pensamos saber) cria uma série de bloqueios difíceis de serem transpostos. Em geral, são esses bloqueios que nos impedem de aprender o novo ou de perceber o mundo de uma forma diferente. Bachelard (1996) chamou esses bloqueios de obstáculos epistemológicos, verdadeiras armadilhas que tornam o processo de aquisição de conhecimento mais lento (às vezes, tendendo à regressão) e que causam até espanto quando, finalmente, deparamos com o real. O real nunca é “o que se poderia achar” mas é sempre o que se deveria ter pensado. O pensamento empírico torna‑se claro depois, quando o conjunto de argumentos fica estabelecido. Ao retomar um passado cheio de erros, encontra‑se a verdade num autêntico arrependimento intelectual. No fundo, o ato de conhecer dá‑se contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos, superando o que, no próprio espírito, é obstáculo à espiritualização (BACHELARD, 1996, p. 17). Os obstáculos ao novo conhecimento podem muitas vezes surgir sob a forma de hábitos intelectuais (que um dia até foram saudáveis) ou de antigos valores. “Chega o momento em que o espírito prefere o que confirma seu saber àquilo que o contradiz, em que gosta mais de respostas do que de perguntas. O instinto conservativo passa então a dominar,e cessa o crescimento espiritual” (BACHELARD, 1996, p. 19). Segundo Bachelard (1996), até mesmo a experiência primeira costuma funcionar como barreira à aquisição do conhecimento. Aquilo que aprendemos sobre um objeto pela primeira vez, para nós, permanece como indicativo de um porto seguro, de onde devem desembarcar todos os nossos navios em direção ao mar e onde devem atracar todos os navios que para nós chegam carregados de novas mercadorias e novas ideias. Retornemos ao exemplo sobre Galileu: há muito, os cientistas discutem o papel da experimentação e da observação na concepção de Galileu sobre o movimento da Terra. Nossa posição, aqui, é que independentemente da importância da experiência, Galileu jamais teria concluído pelo movimento da Terra se a isso não estivesse “mentalmente” aberto. Ele poderia ter visto a Lua por meio do seu telescópio e, mesmo assim, não ter enxergado as montanhas lunares. O fato de ele ter apontado o telescópio para a Lua já demonstrava a existência de uma concepção interior a respeito do que poderia ser visto. Entre a percepção que imaginamos exata e a abstração construída pela nossa razão, há um caminho imenso que se coloca entre nós e um novo conhecimento. 29 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Koyre (2006, p. 9) afirma que: Não podemos esquecer, ademais, de que a “influência” não é uma relação simples; pelo contrário, é bilateral e muito complexa. Não somos influenciados por tudo aquilo que lemos ou aprendemos. Em certo sentido, talvez o mais profundo, somos nós que determinamos as influências a que nos submetemos; nossos ancestrais intelectuais não são de modo algum dados a nós; nós é que os escolhemos livremente. Pelo menos, em grande parte. Exemplo de aplicação Reflita sobre o seguinte: se estamos sempre em busca de reforço para aquelas ideias com as quais concordamos, de que maneira podemos entrar em contato com posições diferentes das nossas? Nas Ciências Econômicas, é clássico o exemplo de mudança de paradigma em relação à capacidade de a oferta criar a sua própria demanda. Assim, durante alguns séculos, acreditou‑se ser suficiente oferecer, ou seja, produzir e colocar à disposição do consumidor, bens e serviços: os consumidores surgiriam naturalmente. Essa concepção – chamada de Lei de Say – sofreu um abalo definitivo quando, embora houvessem produtos em excesso no mercado, não havia consumidores dispostos a comprá‑los. O que permitiu que a Lei de Say perdurasse por tanto tempo? Não podemos imaginar que os economistas fossem todos equivocados e incapazes de reconhecer a realidade. A resposta mais adequada para isso é que construções mentais satisfatórias – e que nos chegam sob a forma da Ciência ou do senso comum – resistem às mudanças. Isso evidencia, mais uma vez, que as condições dadas para o acesso ao conhecimento devem ser investigadas, especialmente quando nos propomos à especialização dentro de uma área de saber. Figura 7 – A Lei de Say propõe que a oferta cria a sua própria demanda. Atualmente, os economistas consideram que essa proposição não tem validade, já que ela não explicaria as situações em que há oferta de bens e serviços sem que haja procura correspondente 30 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Após ultrapassar os obstáculos que o debate sobre as condições do conhecimento instaurou no século XIX – aqui é fundamental o papel desempenhado por John Stuart Mill –, as Ciências Econômicas se acomodaram em relação aos seus pressupostos epistemológicos: tal como havia sido até então, pareciam soberanos os métodos da reflexão dedutiva e da abordagem histórica como formas seguras de se atingir o conhecimento sobre o mundo econômico. O confronto com a realidade aconteceria por meio da validação estatístico‑matemática dos dados coletados, e esse procedimento garantia a validade dos modelos teóricos. Especialmente a partir do final do século XIX e do início do século XX, um manto de suave conforto cobriu os trabalhos dos pensadores econômicos: o consenso sobre as bases epistemológicas da Economia já estava estabelecido, acima de qualquer discussão. Estavam dadas as condições necessárias para a matematização da teoria econômica, e o crescente uso da matemática para a investigação das relações econômicas coroou essa certeza: alguns economistas chegavam a dizer que, dentre as Ciências Sociais, a Economia era a ciência “mais exata” e, portanto, “mais próxima” da certeza. Não apenas as formas que utilizávamos para acessar o conhecimento eram excelentes, como o resultado que obtínhamos era extremamente eficaz. Mas, afinal, quais eram as vias de acesso por meio das quais os economistas julgavam ser possível conhecer os atos e fenômenos econômicos, ou seja, como os economistas pretendiam investigar as formas adotadas pela sociedade para a solução do problema da produção e do consumo de bens e serviços, dadas duas condições: a escassez de recursos e as necessidades ilimitadas? Figura 8 – As Ciências Econômicas estudam como os seres humanos resolvem os problemas da produção e consumo de bens e serviços, dadas a escassez de recursos e as necessidades ilimitadas Toda essa discussão ganhou, no máximo, um espaço diminuto nas notas de rodapé dos estudos econômicos. Para efeito da nossa disciplina, entretanto, precisamos nos aprofundar um pouco mais a respeito dessa questão. Tomemos Adam Smith: o método usado por Smith (e por outros tantos depois dele) foi o histórico‑dedutivo. A partir do conhecimento histórico, e em função de esse material permitir a criação de categorias generalizadoras, Smith acabou formulando alguns conceitos fundamentais sobre o ser humano enquanto agente econômico. Refletindo sobre a História, Smith foi capaz de deduzir 31 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA algumas regras gerais que poderiam perfeitamente dar conta de explicar a natureza humana e suas manifestações quando da troca, compra e venda de bens e serviços. Numa sociedade civilizada, o homem a todo momento necessita da ajuda e cooperação de grandes multidões, e sua vida inteira mal seria suficiente para conquistar a amizade de algumas pessoas. No caso de quase todas as outras raças de animais, cada indivíduo, ao atingir a maturidade, é totalmente independente e, em seu estado natural, não tem necessidade da ajuda de nenhuma outra criatura vivente. O homem, entretanto, tem necessidade quase constante da ajuda dos semelhantes, e é inútil esperar esta ajuda simplesmente da benevolência alheia. Ele terá maior probabilidade de obter o que quer, se conseguir interessar a seu favor a autoestima dos outros, mostrando‑lhes que é vantajoso para eles fazer‑lhe ou dar‑lhe aquilo de que ele precisa. É isto o que faz toda pessoa que propõe um negócio a outra (SMITH, 1996, p. 74). Observação Essas ideias de Smith permearam o pensamento clássico e deram origem à caracterização do Homo economicus como egoísta e movido pelo autointeresse, como veremos adiante. O que permitiu a Smith a elaboração desses conceitos foi o seu profundo conhecimento histórico e a observação da realidade. Esse material, objeto de reflexão racional e crítica, possibilitou a construção dos conceitos explanados em sua principal obra. Smith elaborou sua teoria a partir da dedução e com base no do conhecimento histórico. Mais um exemplo do uso primoroso do método dedutivo vem de David Ricardo (1772‑1823), outro economista clássico. Por exemplo, ao discutir a questão do valor comparado entre dois bens, Ricardo (1996, p. 30) afirma: Se uma peça de lã valer hoje duas peças de linho, e se, dentro de dez anos, o valor de uma peça de lã alcançar quatro peças de linho, poderemos com certeza concluir que será necessário mais trabalho para fabricar o pano, ou menos para fabricar as peças delinho, ou ainda que ambas as causas influíram. Ricardo supõe, ou seja, ele reflete sobre a realidade que se apresenta aos seus olhos e deduz, de forma similar ao método realizado por Smith a partir do material histórico. O método utilizado por Ricardo e Smith se repete na maioria dos trabalhos sobre sistemas econômicos. Bresser‑Pereira (2009) resume o contexto metodológico no qual estão inseridos a maioria das investigações dos atos e fenômenos econômicos: alguns economistas preferem o método 32 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I hipotético‑dedutivo; a partir da adoção de uma premissa lógica, chega‑se a uma teoria suficientemente robusta. Se completada com alguma demonstração matemática, melhor ainda. Outros economistas, no entanto, preferem o método histórico‑dedutivo: por meio do estudo da história e da observação da realidade, formulam‑se pressupostos gerais que apresentam bastante segurança na sua utilização. “Ambos são dedutivos, mas enquanto um é hipotético – partindo de um pressuposto – o outro é histórico – partindo de sequências observadas de fatos e mantendo‑se próximo a eles durante o processo dedutivo” (BRESSER‑PEREIRA, 2009, p. 165). Ainda para Bresser‑Pereira (2009, p. 167). [...] dado que a economia [...], cujo objeto é aberto e complexo – os sistemas econômicos –, argumento que a economia deve usar principalmente o método histórico‑dedutivo. Ela só deve recorrer secundariamente ao método hipotético‑dedutivo, aqui entendido como o processo de raciocínio que parte do pressuposto da racionalidade econômica e deriva a teoria desse pressuposto básico. O uso do método hipotético‑dedutivo é legítimo, porque se presume que todas as ciências desenvolvam seus próprios conceitos e modelos heurísticos. Além disso, se entendermos que o objetivo da economia é explicar os sistemas econômicos e desenvolver ferramentas para entender os mercados, ela terá de usar o método hipotético‑dedutivo para desempenhar esse segundo papel. Mas o método histórico‑dedutivo deve ter precedência, porque a complexidade e o caráter de mudança dos sistemas econômicos tornam impossível derivar modelos relevantes apenas de algumas hipóteses. Vejamos agora um exemplo de aproximação com a modalidade empírica. O economista neozelandês William Phillips (1914‑1975) analisou alguns dados econômicos do Reino Unido referentes ao período de 1861 e 1957. A partir dos dados da realidade e da submissão desses dados ao tratamento matemático, Phillips identificou uma correlação negativa entre inflação e desemprego: quanto menor o desemprego, maior a inflação; em contrapartida, quanto maior o desemprego, menor seria a inflação. A hipótese explicativa para tal relação é a seguinte: quanto menor o desemprego, mais pessoas com recursos financeiros sairiam ao mercado em busca de bens e serviços. Caso a oferta desses bens e serviços não aumentasse, era provável que os preços aos consumidores aumentassem: haveria mais procura do que oferta de produtos, e a taxa de inflação aumentaria também. Em contrapartida, com uma maior taxa de desemprego, menos pressão haveria para aumento dos preços, já que menos pessoas estariam em condições de adquirir bens e serviços. 33 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Taxa de inflação Taxa de desemprego Figura 9 – A Curva de Phillips resulta da representação matemática da correlação negativa entre inflação e desemprego Observação Essa relação também foi demonstrada, posteriormente, por economistas americanos; sua aplicabilidade, entretanto, foi questionada quando da ocorrência, em várias economias, de altas taxas de inflação combinadas com elevadas taxas de desemprego. O que Phillips fez foi coletar dados secundários (estatísticos) e, por meio da matemática, deduzir uma lei geral explicativa da relação entre inflação e desemprego. Como podemos caracterizar este método, qual seja, o de usar o material histórico para a coleta de dados secundários a serem submetidos ao tratamento matemático e, posteriormente, à análise dedutiva? Para Bresser‑Pereira (2009), aqui está configurado um método empírico‑dedutivo, similar ao histórico‑dedutivo. Assim, ele afirma que: [...] o método histórico‑dedutivo é “histórico” porque parte da observação da realidade empírica e procura generalizar a partir dela; [...] e, finalmente, é indutivo porque testa as hipóteses sempre que possível, com ferramentas econométricas que são intrinsecamente indutivas (BRESSER‑PEREIRA, 2009, p. 171). Na concepção de Bresser‑Pereira (2009), o empirismo estaria relacionado à observação da realidade, ou seja, a dados da realidade sob a forma estatística. O fato de as conclusões terem como base dados reais, portanto, configuraria essa forma de conhecimento como próxima a outros métodos indutivos. Na nossa percepção, e isso poderá ser visto adiante, a utilização do método indutivo difere do que é aqui proposto por Bresser‑Pereira; de qualquer forma, é inegável que existe uma tentativa de os economistas se aproximarem da realidade e do estudo de casos particulares, mesmo que apenas para efeito de validação matemática. É importante salientar que essa hegemonia em relação à discussão epistemológica referente às Ciências Econômicas encontrou algumas exceções, sendo John Stuart Mill (1806‑1873) a mais notável. 34 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Inglês dos oitocentos, Stuart Mill, como típico homem de seu tempo, viveu o apogeu da Revolução Industrial e as grandes transformações científicas que marcaram a História, não ficando imune às ideias então disseminadas. A burguesia, a grande vitoriosa da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, pretendia conhecer o mundo que a cercava. Os ideais iluministas – justamente os que pregavam o uso da razão – influenciaram uma geração inteira de pensadores, todos eles dedicados ao estudo do conhecimento e dos critérios de cientificidade de suas respectivas áreas. Discutia‑se, acima de qualquer coisa, qual seria o melhor modelo de ciência, e a influência de Newton e Darwin era notável. As pesquisas à época buscavam descobrir a “mecânica” dos fenômenos para, por meio da formulação de leis explicativas, dar sentido aos fatos da natureza e da própria sociedade (SANTOS; JUDENSNAIDER, 2015). O raciocínio lógico‑matemático pretendia conhecer a realidade e interpretá‑la, utilizando um método científico infalível e livre de visões parciais. O pano de fundo de tal pensamento alinhava‑se com os desenvolvimentos técnicos que melhoravam as condições de vida dos homens, não havendo espaço, portanto, para sistemas metafísicos ou crenças supersticiosas – afinal de contas, a razão deveria ser enfatizada por meio da experiência e do empirismo (SANTOS; JUDENSNAIDER, 2015, p. 63). Acima de tudo, preconizava‑se que as verdadeiras ciências deveriam ter como base metodológica a observação e a experiência. Os métodos aplicados nas ciências físicas, químicas e biológicas poderiam e deveriam ser utilizados também nas Ciências Sociais. Assim, foi notável a influência do empirismo nos desenvolvimentos teóricos das Ciências Econômicas. Locke, Berkeley e Hume – conhecidos como empiristas ingleses – rejeitaram a razão como fonte última do conhecimento. “Ideias, como formas e cores, são conceitos oriundos da observação e são compostos na mente para formar, por exemplo, a ideia de um cubo verde“ (BARBIERI; FEIJÓ, 2013, p. 66). Essa vertente encontraria seu aluno mais dedicado em John Stuart Mill. Aliás, o grande dilema de Mill foi exatamente esse: o de conciliar a tradição dedutiva do que até então havia se caracterizado como pensamento econômico com aquilo que ele considerava o verdadeiro método para alcançar o conhecimento (o empirismo) e, acima de tudo, com o que pudesse obedecer aos parâmetros de ciência ao seu tempo,parâmetros esses representados pelo positivismo. John Stuart Mill aproximou‑se bastante dos pensadores positivistas, inclusive do seu principal formulador, Auguste Comte. Já é possível imaginar o conflito que o contato entre o pensamento econômico e o positivismo faria surgir: como atribuir estatuto científico às Ciências Econômicas se elas não tinham como base o método indutivo, se elas não partiam da experiência como fonte do conhecimento, se elas majoritariamente utilizavam a dedução como pressuposto epistemológico? O Universo era um grande organismo e haveria uma grande lei que pudesse explicar todo o seu funcionamento: para os estudiosos da Economia Política, isso significava a busca da demonstração da superioridade da ordem burguesa por meio da matemática. Talvez isso explique a busca por um modelo metodológico que permitisse à Economia apresentar um rigor científico semelhante à Física clássica, inclusive por meio do uso constante de metáforas derivadas da Física e da Biologia nos textos econômicos. 35 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Sob influência do positivismo comteano, Mill tentava sintetizar o conhecimento econômico até então gerado com os desenvolvimentos metodológicos e epistêmicos da Física, da Química e da Biologia. A tarefa não era fácil: tratava‑se, afinal, de propor a indução como método para uma área que até então havia se desenvolvido por meio de abordagens dedutivas e históricas. Mill acabou não resolvendo o dilema que para si mesmo havia proposto. No entanto, o debate que ele fez surgir mostrou o quanto ainda havia a ser discutido em relação aos pressupostos epistemológicos da investigação econômica. E, finalmente, de maneira até paradoxal, Mill acabou lançando as bases para que a dedução se tornasse o grande instrumento de análise dos economistas. De fato, Mill acabou se tornando um marco no panorama da discussão a respeito dos pressupostos epistemológicos das Ciências Econômicas. Por isso, vamos nos aprofundar mais no positivismo e no que essa escola de pensamento representou para todos os campos do saber. 3 POSITIVISMO E FALSEACIONISMO No desenvolvimento das ciências, há que se considerar dois métodos importantíssimos: o positivismo e o falseacionismo. É deles que passamos a tratar. 3.1 O positivismo Para que se possa entender o positivismo, é importante ter em mente que o século XIX, além de marcar o triunfo do liberalismo europeu ao considerar a natureza humana como base da própria lei natural em que a única realidade é a liberdade do homem, marca também a ascensão do cientificismo na busca da explicação do mundo e seus valores além, é claro, do mundo dos fatos. Para que se possa entender o momento em que o conhecimento procura encontrar respostas ou mesmo sentido aos fenômenos, é necessária uma demarcação temporal. Estamos, portanto, na época moderna, período em que há grande transformação no que diz respeito à posição do homem no mundo, o que não acontecerá por acaso, certamente, devido aos séculos XVI e XVII apresentarem a transição do modo de produção feudal para o modo capitalista de produção em que terão lugar a produção e circulação de mercadorias manufaturadas. O homem agora é o da livre iniciativa que, liberto dos laços da religião que prendiam seus antepassados medievais, encontra nele mesmo o fundamento da verdade e da liberdade. O homem agora deve decidir o que pode ser conhecido por ele, o que é o conhecimento e o que é a certeza. Em outras palavras, modifica‑se a própria base do relacionamento homem‑mundo: o homem é subjectum, o fundamento de tudo o que existe quanto ao seu aparecer e a sua verdade. A sociedade, a cultura e a história passam a ser compreendidas como obra humana (SIMON, 1986, p. 74). É nessa época que a forma que o homem encontrará de conhecer o mundo será a separação entre o sujeito e o objeto a ser desvendado. Sujeito e objeto serão, a partir daí, tomados como duas entidades diferentes por natureza e intrinsecamente separadas. 36 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I O liberalismo afirmava que o desenvolvimento moral, cultural, econômico e político da sociedade só seria alcançado pelo livre desenvolvimento do espírito e das faculdades do indivíduo e, nesse sentido, diversas instituições do Estado Liberal, a exemplo do “sistema de partidos políticos, a divisão dos poderes do Estado, as liberdades públicas, garantias individuais assim como o próprio conceito de democracia”, passam a ser reavaliados criticamente (RIBEIRO JUNIOR, 1996, p. 7). Com Kant, pelos idos do século XVIII, já é possível verificar importantes reflexões sobre as possibilidades e os limites da razão devido ao surgimento de diferentes linhas filosóficas com novas interpretações do pensamento kantiano, dentre elas, o positivismo, que dominará o pensamento científico. É interessante abrir um debate acerca da palavra positivismo, pois seu sentido é demasiado amplo. Enquanto palavra, pode remeter a alguma teoria que exclua qualquer tipo de negação ou mesmo contradição na tentativa de afirmar aquilo que seja positivo. Pode remeter também a uma doutrina em que se considere apenas como objeto do conhecimento somente algo que faça sentido (SIMON, 1986). Como doutrina, por sua aparição como revelação da própria ciência, não seria uma simples regra a ser utilizada pela ciência para o “descobrir” e o “prever”, mas algo natural, como se fosse uma ordem geral que se avista juntamente aos fatos particulares. Nesse sentido, assumirá uma espécie de caráter universal da realidade, sua mecânica e dinâmica. Como método, estará fundamentado nos fatos para a construção teórica e, conforme explica Ribeiro Junior (1996, p. 9): O positivismo é, portanto, uma filosofia determinista que professa, de um lado, o experimentalismo sistemático e, de outro, considera anticientífico todo estudo das causas finais. Assim, admite que o espírito humano é capaz de atingir verdades positivas ou da ordem experimental, mas não resolve as questões metafísicas, não verificadas pela observação e pela experiência. Pode‑se ainda entender o positivismo dentro de um sistema filosófico em que se busca estabelecer a máxima unidade na explicação de todos os fenômenos universais pelo emprego exclusivo do método empírico, ou, se assim desejar, da verificação experimental. Mas a quem se deve o surgimento do positivismo e sua importância para o desenvolvimento da ciência? Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (1798‑1857) é o nome que surge como aquele que teria iniciado o pensamento positivista, influenciado fortemente pelas ideias de Condorcet e Saint‑Simon. A influência oferecida por Antoine Nicolas de Condorcet (1666‑1790) foi a crença de que as ciências da sociedade precisam se identificar com o que ele chamava de matemática social, isto é, necessitam de um estudo preciso, rigoroso e numérico dos fenômenos sociais. Por qual motivo Condorcet pensa dessa forma? Porque, para ele, a ciência era controlada conforme os interesses da aristocracia e do clero e, assim, impregnada de subjetividade. Havia a urgente necessidade de tirar o controle das ciências dessas classes para que uma ciência natural pudesse se impor. Por outro lado, Claude Henri de Saint‑Simon (1760‑1852) também influenciará Comte por ter sido o primeiro a utilizar o termo “positivo” na ciência. O que preconizava Saint‑Simon era que o raciocínio deveria se basear nos fatos observados e discutidos e negar a questão da metafísica. Assim, a direção da descoberta e dos interesses deveria ser guiada pelo poder da ciência positiva. Nesse sentido, percebe‑se a tendência de negação da metafísica (ISKANDAR; LEAL, 2002). 37 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Assim, opondo‑se à concepção do direito natural e do pacto social e àsdoutrinas teológicas, Auguste Comte preconiza o emprego de novos métodos no exame científico dos problemas sociais substituindo as interpretações metafísicas e estabelecendo a autoridade e a ordem pública contra os abusos do individualismo da Escola Liberal (RIBEIRO JUNIOR, 1996, p. 8). Comte adota a concepção de Condorcet e Saint‑Simon, segundo a qual a espécie humana descreve um movimento histórico que atravessa um estágio teológico e um estágio metafísico, antes de chegar ao estágio definitivo do espírito positivo. Em suas palavras: Estudando, assim, o desenvolvimento total da inteligência humana em suas diversas esferas de atividade, desde seu primeiro voo mais simples até nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei fundamental, a que se sujeita por uma necessidade invariável... Essa lei consiste em que cada uma de nossas concepções principais, cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessivamente por três estados históricos diferentes: estado teológico ou fictício, estado metafísico ou abstrato, estado científico ou positivo (COMTE, 1978a, p. 35). Ao formalizar as ideias positivistas na importância do desenvolvimento do conhecimento científico Comte vai além das questões epistemológicas: apresenta uma nova maneira de pensar e de realizar as transformações sociais. Para Iskandar e Leal (2002), as ideias de Comte estão impregnadas de preocupações, sendo uma delas a filosofia da história, que sustenta sua filosofia positivista seguida das três fases da evolução do pensamento humano, quais sejam, o teológico, o metafísico e o positivo, sendo que, quando a mente humana chega à última fase, há o abandono do que não seja observável. A fim de libertar a teoria social da teologia e da metafísica, Comte apoia‑se no que ele chama de “espírito autêntico” do positivismo, ou seja, a invariabilidade das leis físicas, pois: [...] a filosofia teológica e a filosofia metafísica nada mais dominam hoje em dia senão o sistema do estudo social. Elas devem ser expulsas deste último refúgio. Isto será feito principalmente pela interpretação básica do movimento social como necessariamente sujeito a leis físicas invariáveis, em lugar de ser governado por qualquer espécie de vontade (COMTE, 1978a, p. 16). Ainda, é necessário destacar que: Auguste Comte usa o termo filosofia na acepção geral que lhe davam os antigos filósofos, particularmente Aristóteles, como definição do sistema geral do conhecimento humano; e o termo positiva designa, segundo ele o real frente ao quimérico, o útil frente ao inútil, o certo frente ao incerto, o preciso frente ao vago, o relativo frente ao absoluto, o orgânico frente ao inorgânico, e o simpático frente à intolerância (RIBEIRO JUNIOR, 1996, p. 9). O método de estudo do positivismo é aquele que também pode ser chamado de histórico genérico indutivo: apoiado na observação dos fatos, busca as leis da coexistência e da sucessão e, via indução, 38 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I deduz dessas leis, utilizando a consequência e a correlação, fatos novos que escaparam da observação direta, mas que a experiência verificou. Para Comte esse é o método objetivo, pois descende de todos os outros métodos particulares, a exemplo da dedução, da indução, da observação, da experiência, da nomenclatura, da comparação, da analogia e da filiação histórica. Observação Mesmo que o método de Comte esteja apoiado em questões objetivas, também utiliza o que chama de método subjetivo, que resulta da combinação lógica dos sentimentos, das imagens e dos sinais. Será somente com o emprego do método de Comte que o espírito humano conseguirá reconhecer a impossibilidade de se obter noções absolutas e deixar de procurar a origem e o destino do universo. Tal manifestação, contrária ao idealismo, encontrará nesse método duas formas de desenvolvimento do conhecimento humano: uma parte geral e uma especial, como bem explana Ribeiro Junior (1996, p. 10): Na geral, ocorrem a teoria dos três estados mentais e a classificação hierárquica dos conhecimentos humanos. No desenvolvimento do espírito humano, Comte admite uma lei fundamental que recebe o nome de lei dos três estados, ou modo de pensar, que é a base de sua explicação da História: o estado teológico‑fictício, que tem diferentes fases (fetichismo, politeísmo e monoteísmo) e em que o espírito humano explica os fenômenos por meio de vontades transcendentes ou agentes sobrenaturais; o estado metafísico‑abstrato, onde os fenômenos são explicados por meio de forças ou entidades ocultas e abstratas, como o princípio vital [...]; e o estado positivo‑científico, no qual se explicam os fenômenos, subordinando‑os às leis experimentalmente demonstradas. [...] O Estado Positivo é, pois, o termo fixo e definitivo em que o espírito humano descansa e encontra a ciência. Saiba mais Acerca de uma crítica ao positivismo de Comte, indicamos o filme: MEU tio. Dir. Jacques Tati. França; Itália: Specta Films, 1958. 110 min. Tal obra retrata o contraste entre o tradicional e o moderno como forma de obtenção de conhecimento. É no estado teológico‑fictício que o espírito humano explica os fenômenos como tendo sido produzidos pela ação de seres sobrenaturais, pelas divindades que fornecem o quadro de compreensão dos fenômenos que ocorrem a seu redor. É aqui que o espírito humano passa pela fase chamada de 39 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA fetichista em que se atribui vida espiritual a qualquer ser natural da mesma forma que foi atribuída aos homens. Nesse mesmo estado, há outras duas fases pelas quais passa o espírito humano: uma delas é a denominada “politeísta”, em que os seres tidos como naturais são despidos de qualquer tipo de espiritualidade humana reconhecidamente atribuída a seres de um mundo superior, a outra, denominada “monoteísta” justifica a transição para a fase metafísica, pois todas as divindades foram reduzidas a apenas uma. Aqui, as relações sociais serão as militares e o fim único da existência das sociedades será a conquista (SIMON, 1986). Quanto ao estado metafísico‑abstrato, de forma análoga ao anterior, o espírito humano passa a procurar explicações da natureza íntima dos seres, bem como a origem e o destino de todas as coisas. Porém, a compreensão dos fenômenos não será mais advinda de seres sobrenaturais. A explicação estará em uma única força, chamada de natureza. Pode‑se entender o estado metafísico‑abstrato como um estado de transição cuja característica principal seja a da dissolução do estado teológico. É nesse estado que a argumentação se colocará no lugar da imaginação, destruindo a afirmação da subordinação do homem e da natureza ao sobrenatural. No que diz respeito às relações sociais, questões abstratas como soberania popular, sufrágio universal, liberdade e pacto social tornam‑se pontos de discussão (SIMON, 1986). Observação Por ser um tempo de transição, abre‑se aí o espaço para que a observação própria do estado positivo progressivamente se imponha e rompa os limites a ela impostos. É chegada a hora, então, do estado positivo‑científico em que todo o pensamento teórico particular se torna positivo e a imaginação e a argumentação são substituídas pela observação, concebida como única base do conhecimento que é tomado como acessível, bem como adaptável, às necessidades reais da comunidade científica. Conforme destaca Comte (1978b, p. 45): [...] numa palavra, a revolução fundamental, que caracteriza a virilidade de nossa inteligência, consiste essencialmente em substituir em toda parte a inacessível determinação das causas propriamente ditas pela simples pesquisa das leis, isto é, relações constantes que existem entre os fenômenos observados. Comte, em seu curso de filosofia positiva, destaca que foi pela matemática que a filosofia positiva tomou forma e que, portanto, é dela quesurge o método. No entanto, na medida em que cada ciência se desenvolve impregnada pelo método positivo, ocorrem modificações determinadas e específicas dos fenômenos que lhe são próprios, donde resulta sua natureza especial. Assim, em diferentes áreas do saber, surgirão diferentes formas de emprego do método: podemos destacar que na astronomia temos a observação, na Física a experimentação, na Química a classificação, na fisiologia a comparação e na física social a filiação histórica (SIMON, 1986). 40 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Por mais que as ciências tenham passado pelos estados anteriormente descritos por Simon (1986), as sociedades apenas conseguirão evoluir do ponto de vista científico quando perceberem que o objeto de estudo da ciência é aquilo que se pode denominar “positivo”, aquilo que está sujeito à observação e experimentação. Somente assim será possível distinguir uma ciência entre as abstratas e as concretas. Ao adotarem o método das ciências naturais como a forma de enxergar a realidade, os teóricos positivistas entendiam haver uma relação clara e evidente entre as ciências da sociedade e as ciências da natureza (SANTANA, 2008). Conforme esclarece Simon (1986, p. 72): Uma vez atingido o estado positivo, cada uma delas [as ciências] se constitui em base teórica da ciência subsequente em função da dependência prévia dos fenômenos respectivos. Aliás, como diz Habermas, com essa última [a física social] Comte renova o conceito enciclopédico das ciências, na medida em que a física social se beneficia de toda a metodologia utilizada pelas ciências anteriores (observação, experimentação, comparação) até o método que lhe é próprio, a filiação histórica. A física social era para Comte a própria história ou a própria filosofia da história. História evolutiva da humanidade, cuja herança cultural veio se acumulando como uma bola de neve. Admitindo que o objetivo central do positivismo seja o de descobrir as leis que regem os fenômenos pode‑se, a partir deles, prever os comportamentos sociais, o que será permitido, do ponto de vista da ciência, no momento que a descrição dos fenômenos ocorrer a partir da observação. Assim, pela observação contínua dos fatos, pela experimentação e mensuração, o cientista poderá ter uma compreensão correta e bastante ampliada da realidade. Nesse sentido, Comte, ao desenvolver o método positivista e que pode ser aplicado a todos os ramos do conhecimento, está pensando em uma unidade científica em que: [...] o alvo, o proceder e o como‑fazer positivistas estão imiscuídos, devendo formar um todo unificado. Por isso pode‑se entender como unidade do método a aplicação de procedimentos que levem à descoberta e descrição das leis que regem os fenômenos, a partir dos fatos e do raciocínio que permitem relacioná‑los segundo essas leis, a fim de alcançar um conhecimento positivo que [...] deve ser: real, útil, certo, preciso, que busca organizar e não destruir e que é relativo (SANTANA, 2008, p. 28). Lembrete A partir do que foi, então, apresentado, é possível compreender que a metodologia positivista está impregnada de empirismo, de objetividade metódica que permite neutralidade ao pesquisador, assim como a experimentação como forma de ciência. 41 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA De que forma ainda podemos entender as bases que caracterizam o positivismo comteano? Primeiramente, podemos entendê‑las como uma filosofia da história proposta a fundamentar a importância da filosofia positiva que deve reinar no futuro do desenvolvimento da humanidade. Em um segundo momento, como uma proposta preocupada em fundamentar e classificar as ciências assentadas na filosofia positiva, sinalizando o fim da problemática da teoria do conhecimento. Nesse sentido, a teoria do conhecimento daria lugar à teoria da ciência em que o positivismo confirmará uma das preocupações do cientificismo do século XIX. Por fim, uma espécie de sociologia demarcada como doutrina da sociedade, que, ao determinar a sua estrutura essencial, permite a proposta de realização de uma reforma prática da sociedade como um todo e, finalmente, uma reforma religiosa, a criação da religião da humanidade (SIMON, 1986). Ainda quanto às influências no desenvolvimento do método, Comte buscará no inglês Francis Bacon as ideias do empirismo, no escocês David Hume a determinação dos fatos e suas relações, e, no que diz respeito ao conhecimento dos fatos pela experiência dos sentidos, aa contribuições tanto do inglês John Locke quanto do francês Étienne Bonnot de Condillac. Mas devemos também lembrar que é com Habermas (1982), filósofo e sociólogo alemão, que teremos a explicação sobre o que significa a substituição feita pelo positivismo de uma teoria do conhecimento por uma teoria da ciência tipicamente positivista no sentido dos fatos e a redução da filosofia, enquanto análise das possibilidades do conhecimento humano, à metodologia da ciência. Para Habermas (1982), somente teria sentido investigar as relações entre os fatos na busca de um conhecimento exato e objetivo, descartando a ideia de que o conhecimento seria capaz de descrever a realidade como numa espécie de cópia da verdade. Dessa forma, os fatos revelariam a realidade. Assim que foi possível delimitar o campo do conhecimento de acordo com o processo científico, Habermas (1982) destacou alguns critérios científicos que são estabelecidos pelo positivismo: são eles o da certeza do conhecimento, o do método, o da importância da teoria e, por fim, o da utilidade do conhecimento. Numa clara inspiração empirista, o primeiro desses critérios, o da exigência da certeza do conhecimento, implica certeza empírica e metódica de um procedimento. O que isso significa? Que, do ponto de vista do positivismo, o conhecimento deve ter sua validade certificada pela observação, o que depende de método. Daí, a importância do método enquanto segundo critério destacado por Habermas (1982). “O método possui, dessa forma, precedência frente à coisa a ser investigada, na medida em que, somente com as formas científicas do conhecimento, a coisa pode ser conhecida” (SIMON, 1986, p. 76). O terceiro critério, o da importância da teoria, está enraizado na tradição racionalista. O entendimento, aqui, reside em que todo conhecimento real repousa em fatos observados e que, portanto, para que o ser humano possa utiliza a observação como busca do conhecimento, é necessária alguma teoria. Esse critério explica que, na visão de Comte, somente existe ciência quando se conhecem as leis que regem os fenômenos, pois, a partir delas, será possível efetuar algum tipo de previsão. 42 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Observação Quando Comte utiliza a expressão lei, remete à noção de teoria. Nas leis dos fenômenos consiste realmente a ciência, à qual os fatos propriamente ditos, em que pese a sua exatidão e a seu número, não fornecem mais do que os materiais indispensáveis. Ora, considerando a destinação constante dessas leis, pode‑se dizer, sem exagero algum, que a verdadeira ciência, longe de ser formada por simples observações, tende sempre a dispensar, quanto possível, a exploração direta, substituindo‑a por essa previsão racional que constitui, sob todos os aspectos, o principal caráter do espírito positivo, como o conjunto dos estudos astronômicos nos fará sentir claramente. Tal previsão, consequência necessária das relações constantes descobertas entre os fenômenos, não permitirá nunca confundir a ciência real com essa vã erudição, que acumula maquinalmente fatos sem aspirar a deduzi‑los uns dos outros. Esse grande atributo de todas as nossas especulações sadias não interessa menos à sua utilidade efetiva do que à sua própria dignidade; pois a exploração direta dosfenômenos acontecidos não bastará para nos permitir modificar‑lhes o acontecimento, se não nos conduzisse a prevê‑los convenientemente. Assim, o verdadeiro espírito positivo consiste sobretudo em ver para prever, em estudar o que é, a fim de concluir disso o que será, segundo o dogma geral da invariabilidade das leis naturais (COMTE, 1978b, p. 131). Nesse sentido, é possível identificar que a utilidade do conhecimento como outro critério estabelecido pelo positivismo apresenta‑se como consequência natural das demais. Ele aparece na previsão e no controle dos fenômenos conforme destacado na passagem anterior. É reunindo tais critérios que Comte deduz que nosso conhecimento é, em princípio, incompleto e relativo, que o saber positivo é relativo na medida em que não pode pretender conhecer o ente em sua essência, nem pode chegar, seja à origem das coisas, seja às suas causas finais. Ao contrário, deve permanecer relativo à nossa situação, reconhecendo apenas o sensível, o fenomenal e o útil (SIMON, 1986, p. 77‑78). A partir de então, a comunidade científica passa a entender que é necessária a busca da generalidade quando se trata de teorizar sobre o objeto de estudo e a abstração como processo busca das diferenças entre os particulares como essencial ao conhecimento científico. Mesmo assim, e como salienta Teixeira ([s.d.]), não há consenso, nas ciências humanas, quanto ao nível de abstração necessário para que uma determinada teoria possa ser construída. Podemos dizer que as ciências sociais procuram se distanciar da abstração pelo fato de a sociedade ser seu principal objeto de estudo e, nesse sentido, o objeto de estudo dessas ciências não é estático e sim dinâmico. Mesmo assim, as ciências sociais são impregnadas 43 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA pela abstração, o que não será diferente com a Ciência Econômica, notadamente, com o pensamento neoclássico que sofreu grande influência da visão positivista de se fazer ciência. Löwy (1994, p. 4) destaca os principais pilares do conhecimento positivista: 1) a sociedade é regida por leis naturais, invariáveis; 2) a sociedade pode ser assimilada epistemologicamente pela natureza, de modo que pode ser estudada segundo os mesmos métodos empregados nas ciências naturais (monismo metodológico); 3) tal como nas ciências da natureza, o cientista deve observar fenômenos e buscar relações causais para explicá‑los, de forma objetiva, ou seja, afastando todas as prenoções tal como ideologias e julgamentos de valor. E de que forma tais pilares auxiliaram a penetração do positivismo no pensamento econômico neoclássico? Primeiramente, pela própria noção de abstração contida nos conceitos utilizados pela Ciência Econômica. Tais conceitos são tomados como abstrações puras, recursos do pensar independentes do momento em que o pesquisador analisa os fatos. Depois, por aquilo que se convencionou chamar de individualismo metodológico, em que as teorias são construídas a partir da observação do comportamento individual dos agentes. Tal comportamento individual reporta ao comportamento racional do agente econômico representativo para, depois, prever o comportamento humano generalizado, a partir das observações individuais. Será, portanto, partindo da análise do particular que se explicará o todo. Quando a teoria neoclássica faz a separação entre sujeito e objeto e trata os conceitos de forma puramente abstrata, sem qualquer raiz espacial ou temporal, é em Immanuel Kant que devemos pensar. Para o filósofo prussiano, o cientista conhece o mundo apenas por meio dos fenômenos, não conhece as coisas em si, mas apenas suas manifestações. O que Kant defende em sua obra Crítica da Razão Pura é o caráter subjetivo do conhecimento e que o pensamento não se faz por existência objetiva, o que é uma característica da coisa em si (KANT, 1979). Como bem destacam Barbieri e Feijó (2014, p. 68), para Kant: O conhecimento científico não seria composto nem pelo acúmulo na tábula rasa de nossas mentes de dados que fidedignamente representam a realidade exterior, nem seria fruto de um processo puro do raciocínio. O conhecimento, sem dúvida, seria baseado na experiência, mas a natureza de nossas mentes influencia a maneira como percebemos o mundo: a nossa percepção é moldada por categorias mentais que são anteriores à observação. Criaturas diferentes observariam o mesmo mundo de forma diferente, conforme muda a forma como as mesmas percebem o mundo, como se possuíssem óculos de tipos diferentes. Em seu desenvolvimento histórico, vê‑se que o positivismo pode ser entendido como uma filosofia do século XIX, que identifica a ciência com a verdade ou como uma corrente filosófica do século XX, 44 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I que reitera e radicaliza a posição empirista já característica do positivismo originário, apresentando uma ideia de ciência mais agressiva do que no positivismo comtiano (ALMEIDA, OLIVEIRA; GARCIA, 1996). As ideias positivistas se farão presentes no século XX ainda por intervenção de um grupo de cientistas e filósofos capitaneados pelo filósofo alemão Moritz Schlick, que se lançam a esmiuçar problemas relacionados ao método científico, à lógica e à teoria do conhecimento. Observação Dentre os membros estavam o matemático Karl Menger, filho do economista Carl Menger, o lógico Kurt Gödel, o economista Otto Neurath e o filósofo Rudolf Carnap. Tal grupo fica conhecido como Círculo de Viena é conhecido por ter uma posição filosófica antiespeculativa e antimetafísica na busca de uma teoria e metodologia da ciência com bases empiristas, com ênfase na experimentação e na verificação, além do uso da lógica matemática como instrumento de análise da linguagem humana. Como sua visão de ciência é aquela resultante de um conjunto de enunciados válidos, não tardarão a serem chamados de neopositivistas ou, como preferem Barbieri e Feijó (2013), positivistas lógicos. Para os positivistas lógicos, o que compõe o objeto das ciências empíricas e positivas são elementos empíricos que possam ser tratados a partir da análise lógica. Nesse âmbito, os positivistas lógicos reconhecem três tipos de proposições: aquelas chamadas de analíticas, que utilizam tautologia, a exemplo de “todas as mulheres solteiras são mulheres não casadas”, as sintéticas, que podem ser verificadas empiricamente e de que pode ser exemplo “a boneca de pano está debaixo da mesa” e ainda as proposições metafísicas, que não se podem verificar empiricamente, pois não possuem significado cognitivo e exprimem juízo de valor, a exemplo da afirmação “mentir é pecado” estando, assim, na esfera normativa. Uma vez que para os positivistas lógicos somente as proposições com significado cognitivo devem ser consideradas científicas, interessante seria compreender como se dá a separação das proposições analíticas e sintéticas, que apresentam significado cognitivo, daquelas que não o apresentam. Um dos primeiros critérios utilizados para tanto foi o da verificação que parte do princípio de que as proposições deveriam ser testadas empiricamente e somente seriam consideradas científicas uma vez validadas. Por outro lado, uma proposição seria considerada metafísica em caso de não validada. Para Cavalcante (2007, p. 4). Todavia, o critério da verificação possuía uma séria limitação, a saber, requeria um número infinito de testes empíricos para que uma proposição fosse verificada conclusivamente e a ela pudesse ser atribuído, com segurança, o estatuto científico, não metafísico. Como a realização de testes infinitos é uma tarefa impossível, adotou‑se o critério da confirmação, que demandava um número finito de testes, em que uma proposição ganharia mais confiança na medida em que fosse confirmada em um número crescente de testes empíricos. 45 Re vi sã o: M ar ci lia - D iagr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Certamente a questão da demarcação, devido ao problema da testabilidade infinita em que não se faz possível verificar com razoável certeza se uma proposição será sempre científica, trará um problema para o positivismo lógico. Não há como afirmar se uma proposição até então confirmada como científica assim estará noutro teste, o que pode transformá‑la em não científica. Outro problema encontrado pelos positivistas lógicos estará no emprego de termos teóricos que também são requeridos pela ciência, pois, para esses, termos teóricos são metafísicos. É nesse âmbito que surge o modelo hipotético‑dedutivo. Para o modelo hipotético‑dedutivo, as teorias passam a ser entendidas como modelos estruturados constituídos de leis gerais e de proposições quer sejam metafísicas ou não. Ainda: o objeto do teste empírico não mais são as proposições particulares, mas sim as teorias de que tais proposições fazem parte (CAVALCANTE, 2007). Deve‑se ao filósofo austríaco Karl Popper uma das maiores críticas do positivismo lógico. Para Popper, enquanto os positivistas lógicos pretendiam distanciar‑se da metafísica conseguiram também distanciarem‑se da ciência natural. Ele acredita, assim, que as teorias podem ser empiricamente testadas e, a partir disso, classificadas em científicas ou não científicas: se científicas, ainda podem sofrer falsificação. Nesse novo método, não há que se discutir significado cognitivo relacionado à cientificidade, mas a “cientificidade com falseabilismo” (CAVALCANTE, 2007, p. 5). Acreditamos ser importante destacar que o que Popper traz para o debate não é o fato de os cientistas procurarem por teorias falsas, mas o fato de a busca da verdade ser a fonte inspiradora do conhecimento científico. A verdade deve ser buscada mesmo que não se saiba se foi realmente encontrada. Não se trata de construir teorias falsas, mas de não ter em qualquer teoria a verdade absoluta. Vejamos, mais detidamente, como Popper trata do falseacionismo. 3.2 O falseacionismo Devemos entender a ciência como um projeto humano e não como algo totalmente natural. São os seres humanos, no caso os cientistas, que determinam seu campo de estudo, que procuram os fundamentos da ciência, que desenvolvem seus métodos, suas técnicas que delimitam o problema de sua pesquisa e que, portanto, colocam‑se à disposição do conhecimento. No mundo moderno, a discussão acerca da filosofia da ciência se faz presente, pois há várias formas de se fazer ciência, algumas aceitas por uns e refutadas por outros, mas o fato é que paira na comunidade científica a dúvida do que ainda está por ser estudado, descoberto em termos de interesses coletivos, sociais. Se na comunidade científica paira a dúvida do que ainda está para ser descoberto, há que se considerar que, com o passar do tempo, as formas de se fazer ciência, as formas até então consagradas, também passam a ser questionadas e, por que não dizer, criticadas. É aqui que encontramos caminho para tratar de outro método de se fazer ciência que fará oposição ao método indutivo consagrado pelo positivismo. Karl Raimund Popper é considerado um dos mais importantes críticos dos positivistas lógicos e, portanto, daqueles pertencentes ao Círculo de Viena, pois não vê possibilidade de justificar o conhecimento científico pelo emprego do método indutivo. Sua principal crítica reside em que há problemas filosóficos 46 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I bastante importantes e que são passíveis de uma crítica racional que vai além da simples observação de fatos. A ciência, para ele, surge da formulação de problemas que oferecem melhores condições de observar o mundo, bem como de selecionar o que deve ser observado e como deve ser observado. Ele considera ingênuo aquele que acredita na máxima “tal resultado foi provado cientificamente”: se não é possível gerar conhecimento baseado apenas em fatos, considera todo conhecimento como falível (BARBIERI; FEIJÓ, 2013). Caso uma teoria não seja possível de ser refutada, carregará consigo o caráter de simples conjectura, uma vez que não há teorias com status de verdadeiras. Aquelas teorias que resistem ao tempo, e tomadas como verdadeiras, apenas adquiriram certo grau de corroboração e maior confiança dos cientistas. Observação Não se deve confundir corroboração com confirmação. Por mais que alguém diga que todo cisne é branco, não há como aceitar a afirmação como verdadeira a menos que todos os cisnes existentes sejam observados para, verdadeiramente, verificar‑se que são brancos. Se, na observação, algum não for branco, a afirmação é falsa. Vejamos o que Popper (1977, p. 86) tem a dizer sobre a indução: Compreendi por que se havia enraizado fortemente, desde Bacon, uma errônea teoria da ciência – a de que as ciências naturais eram ciências indutivas e que a indução era um processo de estabelecimento ou justificação de teorias, mediante observação ou experimentos repetidos. O motivo que levava essa concepção a dominar estava em que os cientistas procuravam demarcar suas atividades, separando‑as da pseudociência, bem como da teologia e da metafísica, e usando como critério de demarcação o método indutivo proposto por Bacon [...]. Entretanto, eu tinha em mãos, havia vários anos, um critério de demarcação mais satisfatório: testabilidade ou falseamento. Podemos, assim, dizer que este é o falseacionismo de Popper: a substituição do que se convencionou chamar de racionalismo justificacionista pelo racionalismo crítico. Por mais que evidências sejam percebidas na ocorrência dos fenômenos, não se pode afirmar que assim estarão no futuro. A crença desse filósofo está em que o cientista deve buscar sempre a verdade e, acompanhada dessa busca, deverá estar a crítica. Os cientistas devem ser humildes o bastante para se permitirem aprender com os próprios erros. A ciência somente terá condições de progredir quando as teorias deixarem as amarras que as protegem da crítica (BARBIERI; FEIJÓ, 2013). Assim, pregando nova forma de se fazer ciência por meio da eliminação de erros, o racionalismo crítico, proposto pelo austríaco, procuraria conciliar a crença na racionalidade da ciência com o reconhecimento de que o conhecimento científico seja falível e de que uma teoria científica não seja 47 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA capaz de explicar tudo. É em sua obra intitulada A Lógica da Pesquisa Científica que Popper (1974) desfila o falseacionismo em que uma teoria somente seria científica se fosse, em princípio, refutável e até rejeitada diante críticas. Assim, acreditando na máxima “quanto mais uma teoria proíbe, mas ela diz”, afirma que o problema da demarcação poderia ser resolvido a partir do momento em que a metodologia indutiva deixar espaço para a inferência dedutiva apoiada no modus tollens. É bastante difícil saber quanto uma teoria se aproxima da verdade, por outro lado, pode‑se chegar a conclusões acerca da falsidade de enunciados testados com o emprego do modus tollens. O modus tollens é uma forma válida de argumento (BRZOZOWSKI, 2011). Nesse tipo de argumento, há uma negação do consequente na segunda premissa, ou seja, afirma‑se que o consequente é falso. Podemos verificar um de seus exemplos: P1: Se alguém tirar este fio da tomada, o computador será desligado. P2: O computador não desligou. Eu não tirei o fio da tomada. E aqui está a forma geral dos argumentos modus tollens: P1 Se P, então Q. P2 Não Q. Não P. Ou, na lógica simbólica: P1 P → Q P2 ¬ Q ¬P Para Barbieri e Feijó (2013, p. 104): [...] é possível perceber que a lógica nos ensina que a negação do consequente é válida: afirma‑se que “se A é certo, então B é certo”, logo afirmar não B implica logicamente em estabelecer não A. É possível falsear uma hipótese a partirdos fatos, mas não podemos afirmar que a hipótese é verdadeira por estar de acordo com os fatos. O verificacionismo é criticado por incorrer na falácia de afirmar o A (o antecedente) a partir da afirmação de B (o consequente). 48 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Ainda para os autores, para que seja possível provar uma teoria do ponto de vista dedutivo, ela deveria ser submetida a um rigoroso teste de averiguação composto de quatro procedimentos, a saber: teste de coerência interna da teoria, exame do conteúdo empírico da teoria, avaliação de avanço teórico, teste empírico das conclusões da teoria. O primeiro desses procedimentos, o teste de coerência interna da teoria, consiste num tipo de comparação lógica das diferentes conclusões anteriores a que se pode chegar. É como se o pesquisador estivesse buscando a lógica da teoria, não no sentido exterior, mas no interior da teoria. O próximo passo seria o exame do conteúdo da teoria. Aqui a preocupação estaria em verificar se a lógica apresentada pela teoria é capaz de ser testada empiricamente. O próximo procedimento procura buscar se, do ponto de vista histórico, a aplicação empírica da nova teoria avança em relação às demais que já estão consagradas, ou que estão sendo agora rejeitadas também como uma forma de avanço. Por fim, mas não menos importante, temos o último procedimento que é o do teste empírico das conclusões da teoria em que se procura avaliar os experimentos empíricos no sentido de procurar falsear as conclusões teóricas a que se chegou. Não se deve entender o falseacionismo de Popper como algo dogmático, mas algo que esteja ligado a uma miríade de decisões que devem ser tomadas por parte do cientista. Entendendo ser a teoria a unidade básica de uma análise metodológica, seu método também não pode ser considerado ingênuo, pois a escolha envolve riscos e não se pode admitir total racionalidade na aceitação de determinada teoria: ao se escolher uma teoria abre‑se mão de outra e assim por diante. Mesmo que se admita que a ciência somente apresente progresso diante da crítica teórica, ainda a escolha de teorias se dá baseada em normas metodológicas. O que o modelo de Popper pretende é propor um conjunto de regras que a prática científica deve seguir e, nesse sentido: [...] os cientistas devem observar essas regras simplesmente porque isto é proveitoso para o avanço da ciência, porque assim a ciência pode precaver‑se de caminhar em sentido contrário à verdade. Entretanto, a obediência às regras metodológicas ainda pode levar a falhas no sentido de se aceitar, mesmo que provisoriamente, o falso e recusar o verdadeiro. [...]. Há que se ressaltar que o método proposto por Popper não é o de procurar salvar teorias que se tornaram insustentáveis à luz dos fatos. Pelo contrário, o trabalho do cientista é o de submetê‑las a uma luta constante pela sobrevivência, imaginando em quais situações as mais ousadas das predições teóricas poderiam ser testadas em experimentos (BARBIERI; FEIJÓ, 2013, p 107‑108). Se estamos tratando das regras, ou dos procedimentos que devem ser adotados pelo cientista para que seja possível produzir ciência, o método científico de Popper parte de um problema ao qual se oferece inicialmente uma solução provisória, a hipótese. Apresentados então o problema, o que de fato deve ser investigado, e sua possível resposta em termos de teoria‑tentativa, o cientista deve seguir no caminho de rejeitar o que não é o verdadeiro e daí surgiriam novos problemas ou mesmo novas hipóteses, soluções (MARCONI; LAKATOS, 2007). No modelo de Popper, a ciência começa e termina com problemas e o método científico consiste na escolha de problemas que sejam interessantes e passíveis de crítica daquilo que o cientista carrega consigo de conhecimento prévio, ou achismo, se preferir. Vamos exemplificar: 49 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Imagine que você esteja em um grupo de amigos e um deles levante um problema que surge na forma de pergunta: por qual motivo podemos dizer que São Paulo é o estado mais desenvolvido do Brasil? Diante da pergunta, quais as possíveis respostas? Um dos amigos pode dizer que se deve a um fato histórico de construção do estado; outro pode dizer que foi nesse estado que surgiram as primeiras indústrias; outro, ainda, pode dizer tratar‑se de uma questão demográfica; outro optaria pelo grau de escolaridade da população; outro, pelo potencial de geração de renda etc. Qualquer uma dessas respostas, que no modelo podemos chamar de hipóteses, são as possíveis respostas ao problema levantado. De forma intuitiva e sem qualquer tipo de embasamento teórico, cada um dos amigos apenas ofereceu uma sugestão de solução ao problema, uma espécie de especulação inicialmente sem qualquer fundamento. Daí, para que se possa produzir ciência, a investigação será imprescindível. Podemos admitir que aquele amigo que disse ser uma questão demográfica, quando se debruçar em investigações, poderá continuar afirmando o mesmo ou poderá passar sua hipótese para a negativa: inicialmente acreditava que o que faz de São Paulo o estado mais desenvolvido do Brasil não é explicado pela demografia, como achava inicialmente, mas por outras condições que não havia levado em consideração quando de sua sugestão inicial. Do ponto de vista da ciência, não há mal algum na negação de uma hipótese. Muito pelo contrário: oferece condições para que o cientista possa assumir que estava equivocado em seu intento. Assim, partindo de um problema e da possível solução, podemos afirmar ou negar a hipótese previamente levantada. Ainda acerca do exemplo, pode ser que cada um dos participantes se dedique a buscar informações a respeito do que achavam correto e que, por fim, todos cheguem à conclusão de que estavam errados quanto as suas hipóteses, bem como quanto à condição do estado de São Paulo perante os demais. Podem chegar à conclusão, individual ou coletivamente, de que outro estado é o mais desenvolvido e de que partiram de uma premissa completamente errada em relação à realidade. Daí partem para a investigação de outro problema caso haja interesse. Podemos então esquematizar o método hipotético‑dedutivo de Popper. Expectativas ou conhecimento prévio Problema Conjecturas Falseamento Figura 10 – Etapas do método dedutivo‑hipotético 50 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I O método proposto por Popper inicia‑se com o problema, pois é ele quem traz a dúvida, a indagação, a inquietação ao cientista. Se não houver interesse no objeto a ser estudado, será demasiado difícil o levantamento de algo que seja passível de investigação. O problema, que pode ser de ordem teórica ou prática, surge de conflitos que pairam na mente do cientista, na comunidade científica ou mesmo na sociedade. O problema pode surgir das expectativas que o cientista apresenta sobre o objeto a ser investigado ou mesmo da necessidade de uma reformulação de teorias já existentes que não mais conseguem explicar o fenômeno investigado. Estabelecido o problema, o processo científico requer a propositura de uma solução prévia, uma espécie de conjectura tomada como teoria explicativa da questão norteadora. Podemos dizer que a hipótese funciona como dedução das consequências do problema que aparece na forma de proposição passível de teste. Observação O problema de uma pesquisa se apresenta como único. Porém, a conjectura não, pois pode haver mais do que uma. Há a possibilidade de se estabelecer mais de uma hipótese para uma mesma pergunta. Nas palavras de Marconi e Lakatos (2007, p. 98): Conjectura é uma solução proposta em forma de proposição passível de teste, direto ou indireto, nas suas consequências, sempre dedutivamente: “Se ... então”. Verificando‑se que o antecedente (“se”) é verdadeiro,também o será forçosamente o consequente (“então”), isto porque o antecedente consiste numa lei geral e o consequente é deduzido dela. Exemplo: se – sempre que – um fio é levado a suportar um peso que excede àquele que caracteriza a sua resistência à ruptura, ele se romperá (lei universal); o peso para esse fio é de um quilo e a ele foram presos dois quilos (condições iniciais). Deduzimos: este fio se romperá (enunciado singular). Portanto, a conjectura serve para explicar ou mesmo prever aquilo que despertou uma curiosidade intelectual, teórica ou prática e apresenta duas condições essenciais: a compatibilidade com o conhecimento existente e a falseabilidade. Aqui vale mais um exemplo: Dissemos em algumas linhas anteriores que o problema a ser investigado deve ser relevante, inteligente e instigante. Quando o método aqui tratado diz que o problema deve ser inteligente é que a forma como é apresentado dá sequência à discussão. Voltemos ao exemplo anterior: de que forma apresentamos a pergunta? E se fosse apresentada assim: Será que o Estado de São Paulo é o mais desenvolvido do Brasil? Que tipo de resposta poderíamos apresentar a uma pergunta como essa? Restam‑nos apenas três opções: afirmativa, negativa ou dúvida. Se a pergunta fosse efetuada dessa forma, as respostas seriam diferentes. Se a resposta surgir na forma de “sim”, já houve afirmação. Não há o que argumentar. O mesmo ocorre se a resposta surgir na forma de “não”: já houve negação; não há o que sequenciar em termos de argumentação. Se a 51 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA resposta surgir na forma do “depende” ou “pode ser”, aí significa que geramos dúvida e a partir desta, conjecturas. Portanto, o problema inteligente não é aquele grandioso, mas aquele que, da forma como foi formulado, oferece condições ao surgimento de conjecturas. Portanto, é importante comparar as formas de apresentar a pergunta. Voltando ao método, se a hipótese não superar os testes a que foi submetida, estará falseada, refutada, e exigirá agora nova reformulação a respeito do problema e, portanto, da hipótese que, e se superar os testes rigorosos, estará corroborada, ou seja, confirmada provisoriamente, não definitivamente, como já dissemos. Para Popper, na medida em que um enunciado científico se refere à realidade, ele tem que ser falseável; na medida em que não é falseável, não se refere à realidade (MARCONI; LAKATOS, 2007, p. 99). E quanto ao falseamento? Dar‑se‑á por tentativas de refutação ou pela observação ou pela experimentação daquilo que se estabeleceu como previamente verdadeiro. Esta terceira etapa do método hipotético‑dedutivo consiste em tornar falsas as consequências deduzidas da hipótese, mediante o modus tollens. Lembrete O modus tollens é aquele que se p, então q, ora não q, então não p, ou seja, se q é deduzível de p, mas q é falso, logicamente, p é falso. Quanto mais falseável for uma conjectura, mais científica será, e será mais falseável quanto mais informativa e maior conteúdo empírico tiver. Exemplo: “amanhã choverá” é uma conjectura que informa muito pouco (quando, como, onde etc.) e, por conseguinte, difícil de falsear, mas também sem maior importância. Não é facilmente falseável porque em algum lugar do mundo choverá. “Amanhã, em tal lugar, a tal hora, minuto e segundo, choverá torrencialmente” é facilmente falseável porque tem grande conteúdo empírico, informativo. Bastará esperar naquele lugar, hora e minuto, e constatar a verdade ou falsidade da conjectura. Estas conjecturas altamente informativas são as que interessam à ciência. “É verificando a falsidade de nossas suposições que de fato estamos em contato com a realidade” (MARCONI; LAKATOS, 2007, p. 98). A escolha racional de uma teoria é possível desde que a decisão recaia sobre aquela com maior conteúdo empírico, com maior testabilidade, com maior conteúdo corroborado, para usar o termo proposto pelo modelo. Assim, o cientista poderia ter maior aproximação da verdade, e a própria ideia de verdade funcionaria como uma espécie de regulador em termos de progresso da ciência. É importante salientar que essa busca de critérios está, na filosofia da ciência de Popper, diretamente ligada à preocupação com as possibilidades 52 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I de escolhas e debates racionais. Se não há critérios a respeito dos quais se estabeleça uma concordância (mesmo que limitada temporalmente), as definições a respeito de qual explicação deve ser adotada recaem sobre fatores não objetivos, ou seja, não havendo critérios previamente acordados, cada um poderia utilizar os critérios que considerasse mais adequado, o que inviabilizaria qualquer debate racional, pois os próprios critérios de definição seriam variáveis, sujeitos a preferências de ordem pessoal: em síntese, critérios subjetivos (RUFATTO; CARNEIRO, 2009, p. 277). Em se tratando de uma ciência social aplicada, como a Ciência Econômica, o falseamento será permitido pela observação que emprega à ciência papel decisivo. A observação, longe de ser algo sem sentido, somente se faz na medida em que vem precedida por algo que seja, de certa forma, teórico, tenha vindo acompanhada de um problema ou não. A própria palavra observação designa ação, atividade relacionada a um objeto que está no horizonte de nossas expectativas. Pelas considerações de Popper (1972, p. 15): [...] a crença de que podemos começar exclusivamente com observações, sem qualquer teoria, é um absurdo, que poderia ser ilustrado pela estória absurda do homem que se dedicou durante toda a vida à ciência natural anotando todas as observações que pôde fazer, legou‑as a uma sociedade científica para que as usasse como evidência indutiva. Uma anedota que nos deveria mostrar que podemos colecionar com vantagem insetos, por exemplo, mas não observações. Imagine que você esteja em uma praia qualquer, um calor escaldante e há horas não passa nenhum comerciante vendendo sorvetes e água. Qual o comportamento do agente representativo nessa situação? Nesse tipo de ambiente, é comum o consumo de sorvetes e de água? A história nos mostra que sim. Como? Ou pela vivência, pela experiência e observação, ou pelas estatísticas. Não importa. O que importa é que temos uma resposta de que, nesse ambiente, pessoas têm o hábito de consumir sorvetes e água ou somente um dos dois produtos. Pois bem. Você está interessado em entrar nesse mercado, mas não sabe se apostará na venda dos dois produtos ou somente de um. Mesmo que a opção seja pela oferta dos dois produtos, qual vende mais em comparação ao outro. O que fazer, então? Observar por algum tempo o comportamento dos agentes para verificar se o que estava em nossa imaginação, em nossa imagem da realidade, em nossas expectativas é passível de confirmação ou não. Daí, por um exemplo simples, o destaque para a observação como um recurso que auxilia o fazer científico. Conforme destacam Marconi e Lakatos (2007, p. 97): [...] nascemos com expectativas e, no contexto dessas expectativas, é que se dá a observação, quando alguma coisa inesperada acontece, quando alguma expectativa é frustrada, quando alguma teoria cai em dificuldades. Portanto, a observação não é o ponto de partida da pesquisa, mas um problema. O crescimento do conhecimento marcha de velhos problemas para novos por intermédio de conjecturas e refutações. No simples caso da praia, quando assumimos que o comportamento do agente econômico representativo o consumo de algum dos produtos ali comercializados, ou dois, estamos utilizando a indução de que, pela busca de todos os casos concretos afirmativos (ou pela vivência, pela experiência 53 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA e observação, ou pelas estatísticas) procuram confirmara hipótese. O que Popper propõe, e que assume como mais fácil, é que resultados empíricos sejam capazes de negar o que se previa. Confirmar uma hipótese é utópico, pois teríamos de acumular todos os casos positivos presentes, passados e futuros. Coisa impossível. No entanto, diremos que a não descoberta de caso concreto negativo corroborará a hipótese, o que, como afirma Popper, não excede o nível da provisoriedade: é válida, porquanto superou todos os testes, porém, não definitivamente confirmada, pois poderá surgir um fato que a invalide, como tem acontecido com muitas leis e teorias na história da ciência (MARCONI; LAKATOS, 2007, p. 99). Efetuadas as considerações acerca da importância do problema, das conjecturas e de sua falseabilidade, podemos vislumbrar a proposição de Popper numa esquematização mais completa do que a anteriormente apresentada. Conhecimento prévio; teorias existentes Conjecturas, soluções ou hipóteses Técnicas de falseabilidade Análise de resultados Lacuna, contradição ou problema Consequências falseáveis; enunciados deduzidos Testagem Avaliação das conjecturas, solução ou hipóteses Refutação (rejeição) Nova lacuna, contradição ou problema Corroboração (não rejeição) Nova teoria Figura 11 – Esquema de Popper ampliado 54 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Podemos citar aqui o próprio Popper (1972, p. 4) para esclarecer as conclusões que seu modelo esquematizado refletem. (1) É fácil obter confirmações ou verificações para quase toda teoria – desde que as procuremos. (2) As confirmações só devem ser consideradas se resultarem de predições arriscadas; isto é, se, não esclarecidos pela teoria em questão, esperarmos um acontecimento incompatível com a teoria e que a teria refutado. (3) Toda teoria científica “boa” é uma proibição: ela proíbe certas coisas de acontecer. Quanto mais uma teoria proíbe, melhor ela é. (4) A teoria que não for refutada por qualquer acontecimento concebível não é científica. A irrefutabilidade não é uma virtude, como frequentemente se pensa, mas um vício. (5) Todo teste genuíno de uma teoria é uma tentativa de refutá‑la. A possibilidade de testar uma teoria implica igual possibilidade de demonstrar que é falsa. Há, porém, diferentes graus na capacidade de se testar uma teoria: algumas são mais “testáveis”, mais expostas à refutação do que outras; correm, por assim dizer, maiores riscos. (6) A evidência confirmadora não deve ser considerada se não resultar de um teste genuíno da teoria; o teste pode‑se apresentar como uma tentativa séria, porém malograda de refutar a teoria. (7) Algumas teorias genuinamente “testáveis”, quando se revelam falsas, continuam a ser sustentadas por admiradores, que introduzem, por exemplo, alguma suposição auxiliar ad hoc, ou reinterpretam a teoria ad hoc de tal maneira que ela escapa à refutação. Tal procedimento é sempre possível, mas salva a teoria da refutação apenas ao preço de destruir (ou pelo menos aviltar) seu padrão científico. As ideias colocadas por Popper geraram vários seguidores, dentre eles o físico e filósofo estadunidense Thomas Kuhn e o húngaro, filósofo da matemática, Imre Lakatos. Ele influenciou as ciências econômicas e administrativas, por meio de sua postura em defesa da formalização, colocando a filosofia da ciência em debate na busca de qual o método mais apropriado e verdadeiro de se fazer ciência. As teorias econômicas e administrativas tratam as análises científicas por diversos caminhos metodológicos: por vezes utilizam menos a formalidade, empregando uma visão mais empírica da realidade, ou mais formal e com visão puramente técnica abrindo mão do que seja real. A contribuição oferecida por Popper é a de que se pode percorrer caminhos menos tortuosos para salvaguardar uma verdade científica (CORREIA et al., 2012). 55 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Para Rufatto e Carneiro (2009, 275‑276): [...] a contribuição de Popper deve ser encarada, portanto, não só como uma tentativa de descrição fiel de como se faz ciência, mas sobretudo como uma proposta que se destina a preservar, para a ciência, as características que ele avalia como fundamentais na tradição do pensamento ocidental. A tentativa de preservar características como o debate livre e crítico, a avaliação atenta e cuidadosa das ideias alheias, a definição de critérios de avaliação, a busca de aperfeiçoamento das ideias e a possibilidade de escolha racional entre conjecturas disponíveis é um projeto com repercussões não só na ciência, mas também no plano social. Todas essas características têm relação com os receios e expectativas de Popper para a ciência e a sociedade. Se o fazer ciência não estiver de acordo com as características metodológicas colocadas pelo modelo hipotético‑dedutivo enraizados em escolhas racionais, a ciência estará se distanciando de tudo o que a distingue de outras formas de conhecimento e, assim, colocará em risco sua própria identidade. 4 PARADIGMAS E PROGRAMAS DE PESQUISA Tratar dos paradigmas e dos programas de pesquisa em Ciência Econômica nada mais é do que entender a evolução de nosso quadro teórico de referência ao longo do tempo. Nesse aspecto, vemos que a Ciência Econômica evolui em termos de desenvolvimento de escolas de pensamento, em que cada uma delas olha a realidade econômica, e, portanto, a sociedade, de acordo com seu tempo evolutivo. A evolução das escolas de estudo da economia em termos de história do pensamento econômico oferece uma visão panorâmica dos desenvolvimentos teóricos das Ciências Econômicas, desde o pré‑capitalismo industrial até os dias atuais. Resta‑nos entender as circunstâncias factuais e culturais do surgimento, desenvolvimento e consolidação de algumas das principais teorias econômicas surgidas ao longo do período que corresponde ao intervalo entre os séculos XVI e o XXI. Buscar compreender os paradigmas e programas de pesquisa nas Ciências Econômicas requer do pesquisador o desenvolvimento de um quadro cronológico das principais construções teóricas explicativas do funcionamento da sociedade capitalista e, assim, proceder à revisão da estrutura teórico‑analítica dessas construções teóricas, revivendo a relação entre o contexto histórico‑cultural de diferentes etapas da evolução do capitalismo e o surgimento dessas interpretações/teorias a respeito de seu funcionamento. É importante ainda contrastar, nas diferentes escolas, bem como em seus expoentes, o sentido de observar semelhanças e diferenças, os fundamentos valorativos, metodológicos e conceituais das principais teorias abordadas no curso de Ciências Econômicas, bem como as implicações socioeconômicas de sua aplicação. Podemos entender por paradigma o consenso entre uma classe de cientistas em relação a determinado objeto, consenso este que pode ser abalado quando não se pode mais responder a novas perguntas com o uso daquilo que foi consensual anteriormente. Aqui, haverá uma ruptura com o paradigma anterior e, em seu lugar, outro surgirá para dar respostas aos novos tempos. Na Ciência Econômica, isso não será diferente. Vários foram os paradigmas que surgiram, fizeram‑se imperativos em seu tempo e, depois, 56 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I passaram a ser reformulados por outros. Isso é natural, pois se o tempo evolui, a sociedade econômica também e, portanto, seus observadores e teóricos devem acompanhar tal evolução. Afora a problemática da Ciência Econômica que surge quando da passagem do feudalismo ao capitalismo, somada aos efeitos da Revolução Industrial, do ponto de vista de seu estudo, pode‑se dizer que a Ciência Econômica inicia com o mercantilismo e suas implicações em termos de relações internacionais, que serão aprofundadas tempos mais tarde quando da globalização daseconomias e com as teorias desenvolvidas pela economia internacional. As estratégias mercantilistas constituíam o mecanismo necessário para a obtenção de uma balança comercial favorável, sinal de saúde e vitalidade do sistema econômico da nação. Para tanto, apoiavam‑se basicamente em três premissas: a de que o país deveria apenas importar aquilo que não podia ser vantajosamente produzido em seu território; a de que o saldo favorável da balança comercial (resultante de um volume maior de exportações em comparação às importações) significava um maior estoque de ouro e de metais; por fim, que o Estado deveria chamar para si a tarefa de estimular as exportações e encontrar novas fontes de extração de metais preciosos. Tanto de uma forma quanto de outra, aumentar‑se‑ia o estoque nacional de ouro e prata, desde que também fossem criados mecanismos que impedissem a saída desse metal do país. Quando as teorias mercantilistas não mais conseguem explicar a razão econômica das sociedades, conheceremos uma mudança de paradigma que estará agora centrado em Adam Smith, David Ricardo, Jeremy Bentham, Jean‑Baptist Say, Nassau William Sênior e John Stuart Mill, os economistas clássicos, responsáveis pelos primeiros desenvolvimentos teóricos da Economia. Há que se destacar também a contribuição dos fisiocratas para a Ciência Econômica quando do desenvolvimento do quadro econômico retratando, por analogia, o fluxo circular da renda. Para os economistas liberais clássicos, as bases de seu pensamento estão na liberdade pessoal, na propriedade privada, na iniciativa individual e no repúdio ao excesso de regulamentações e normas expedidas pelo Estado. O que encontramos em seus escritos? A interferência mínima do Estado na economia, o comportamento econômico individual baseado no autointeresse e a busca por leis explicativas dos fatos econômicos. Além do mais, a refutação da ideia fisiocrática de que não é apenas a agricultura que cria riqueza: a origem da riqueza encontra‑se em todos os ramos da atividade econômica. Considerado o precursor dos estudos em economia, como ciência, Smith elaborou um modelo abstrato completo e relativamente coerente da natureza, da estrutura e do funcionamento do sistema capitalista (HUNT, 2005, p. 37). Influenciado não apenas pelo movimento intelectual iluminista da época, como também pelas ideias da escola fisiocrata, Smith reconheceu a importância da eficiência da economia e da sociedade, ao tentar investigar as razões que contribuem para a riqueza de uma nação. Em uma época tumultuada e repleta de conflitos sociais, Thomas Robert Malthus passou por dois grandes marcos históricos: o primeiro deles diz respeito à Revolução Industrial que só foi possível com imensos sacrifícios e grande sofrimento da classe operária em geral. O segundo momento ocorre no fim do século XVIII e início do século XIX, com a presença da antiga classe proprietária de terras que ainda detinha o controle efetivo do parlamento inglês, registrando um intenso conflito entre essa classe e a nova classe capitalista industrial (HUNT, 2005, p. 61). 57 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Embora Smith tenha inaugurado a escola clássica, Ricardo foi o grande responsável pela promoção do maior desenvolvimento das ideias do classicismo além de ser um exímio pensador dedutivo. Ricardo pôde tirar proveito de sua capacidade analítica por meio de duas vantagens importantes. Primeiramente, passadas quatro décadas, Ricardo testemunhou o desenvolvimento de um capitalismo que avançava rapidamente, em que as forças da revolução industrial já tinham se desencadeado de forma incontrolável, dando à nova formação social uma fisionomia muito mais definida. Em segundo lugar, Ricardo contava com um ponto de partida privilegiado para suas próprias investigações: A Riqueza das Nações de Smith, que serviu como referência para contrapor e para dialogar com as teorias expostas (KICILLOF, 2010). A questão da maximização da utilidade surgirá com Bentham e com seus seguidores, e não tardará para surgir a escola marginalista utilitarista, oferecendo meios para que a Ciência Econômica encontre condições de inserir a matemática em suas explicações e se distancie das questões filosóficas de até então. Aqui também, o positivismo de Comte influenciará Stuart Mill na análise das leis de funcionamento da produção e da distribuição da riqueza. O intuito de Stuart Mill era abordar questões de justiça social em bases diferentes da eficiência produtiva. Com a economia política clássica foi possível perceber o desenvolvimento dos estudos da economia capitalista com base na filosofia e na abstração, bem como nos efeitos da nova sociedade, industrial, que estava surgindo em função da revolução. Ainda sob um enfoque de metodologia e filosofia econômica, a visão marxista abordará os efeitos da Revolução Industrial sobre o capital. Karl Marx dizia em suas obras que o capitalismo, com suas contradições, chegaria inevitavelmente à sua destruição. Inspirados pela visão dos sucessivos levantes operários e envolvidos no trabalho de entender e resolver os problemas oriundos da acumulação capitalista, Marx e Friedrich Engels buscaram a análise do capitalismo. Baseando seu estudo da sociedade capitalista numa abordagem metodológica conhecida como materialismo histórico e focalizando sua atenção nas relações que determinavam a direção geral dos movimentos dos sistemas sociais, em O Capital, de 1867, Marx procurou simplificar as complexas relações de causa e efeito que interligavam as múltiplas facetas dos sistemas sociais, isto é, a teia de ideias, leis crenças religiosas, costumes, códigos morais, instituições econômicas e sociais presentes em todos os sistemas sociais (HUNT; SHERMAN, 1992, p. 91‑92). Por mais que a economia clássica e a economia política tenham contribuído para as novas descobertas acerca do funcionamento das economias capitalistas, no final da década de 1860, tais teorias passaram a sofrer ataques fervorosos daqueles que acreditavam que as explicações do mundo econômico deveriam distanciar‑se das questões filosóficas e abstratas. Assim, a teoria do valor trabalho passa a ser cada vez mais contestada. Em seu lugar, estaria a teoria do valor utilidade, que seria desenvolvida pelos expoentes do marginalismo, a saber, William Stanley Jevons, Carl Menger e Léon Walras. Em suas obras, a crítica principal está nos desdobramentos teóricos oferecidos por Ricardo. Como estão à frente do tempo de Smith e Ricardo, bem como do de Mill, os marginalistas encontram outra economia, revolucionária em termos de produção, transportes e comunicação, além de efervescente concentração industrial, agigantamento de empresas e desenvolvimento do mercado financeiro. Porém, nessa mesma economia, existem muitos consumidores e muitos produtores que não conseguem influenciar preços de mercado devido a seu tamanho diminuto, se tomados isoladamente. 58 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Aos produtores, como não exercem poder de influência sobre o preço, caberia controlar a quantidade de mercadorias levadas ao mercado, bem como o processo de produção de tais mercadorias. Conforme salientam Hunt e Sherman (1992, p. 114), “as mercadorias constituíam, segundo os neoclássicos, a fonte última de prazer ou de utilidade que supunham quantificável”. O princípio da utilidade foi extremamente importante para novos desenvolvimentos acerca do individualismo maximizador do agente econômico racional. Assim, as teorias neoclássicas aprofundarão o debate com as contribuições de Alfred Marshall, Böhm‑Bawerk e Piero Sraffa. A escola neoclássica ou marginalista do pensamento econômico está fundamentada na questão da utilidade e contribui para o desenvolvimento de importante esfera da Ciência Econômica chamada de microeconomia. Nessa esfera, a atenção está voltada parao agente racional e maximizador de lucros por meio do qual, pelo emprego de testes matemáticos, pode‑se apresentar noções de equilíbrio econômico. Com os desdobramentos da economia capitalista e a necessidade de expansão de mercados na busca de maior lucratividade e poder, estão os imperialistas explicando suas visões. Seus principais expoentes serão John Hobson, Rosa Luxemburgo, Vladimir Ilitch Lenin e Paul Marlor Sweezy. Retornando às noções utilitaristas e marginalistas e procurando continuar a teoria do equilíbrio geral de Walras está Vilfredo Pareto, economista italiano. Recorrendo ao positivismo lógico e considerando as questões de escolha do agente econômico racional que procura maximizar sua função utilidade diante das restrições que se apresentam para tal fim, o que se coloca é se essa noção também pode ser elevada ao nível de uma economia como um todo, ou seja, em vez de pensar em maximização da utilidade do agente econômico tomado individualmente, há possibilidade de considerar condição maximizadora para um sistema econômico tomado como um todo (NAPOLEONI, 1963). De forma diferente daqueles imperialistas, na economia de Pareto prevalece o conservadorismo em que qualquer situação de conflito sequer é considerada, motivo pelo qual deve ser aceita a eficiência, bem como a racionalidade da existência de livre mercado em que são solucionados os problemas da alocação de recursos. Apesar de ampla aceitação das teorias marginalistas e da grande extensão do domínio de sua influência durante o início do século XX, as principais ideias marginalistas também sofrem críticas, iniciadas pela escola institucionalista representada por Thorstein Veblen e continuadas pela escola da economia de bem‑estar capitaneada por Arthur Pigou. Para Pinho (2004, p. 39‑40): As críticas [...] às teorias neoclássicas, a partir de 1920, atingiram seu ponto culminante no decênio de 1930, que se caracterizou por ser um período de grande fermentação teórica. Na maioria dos casos, os debates provocaram novas análises e novos estudos em ambos os oponentes, de que são exemplos os trabalhos sobre o comportamento dos preços das empresas situadas entre o monopólio puro e a concorrência perfeita; o comportamento ótimo do produtor e do consumidor; a teoria do monopólio e da concorrência imperfeita; os problemas da grande empresa resultantes da concentração do poder econômico e outros. 59 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Mais: Parecia muito distante da realidade a imagem de funcionamento de um sistema econômico apresentada pelos clássicos e neoclássicos: o pleno emprego seria o nível normal de operação da economia, e as distorções que surgissem teriam correção oriunda de remédios gerados pelo próprio sistema econômico. Em vez disso, entretanto, o desemprego havia atingido proporções alarmantes e não havia indicações de que tal situação estava se autocorrigindo (PINHO, 2004, p. 40). A crise de 1929 traria outros ingredientes para a análise do pensamento econômico, e a escola neoclássica teria que proporcionar soluções antes não cotejadas no seu desenvolvimento teórico. A revolução keynesiana é assim denominada em função do economista britânico que se proporia a traduzir essa nova situação dentro dos rigores do pensamento econômico: John Maynard Keynes. A obra maior de Keynes, editada originalmente em 1936, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, foi tão brilhante que ainda hoje ele adjetiva parcela considerável dos economistas do mainstream. Considerando questões relacionadas a seu tempo histórico, estrutura institucional e industrial da época, bem como fenômenos do mundo a exemplo da incerteza dos ciclos dos negócios, pretendeu produzir um novo pensamento em termos de teoria econômica, o que lhe permitiu ver sua teoria como uma total ruptura com a ortodoxia clássica, ou seja, com os marginalistas seguidores de Marshall. Nesse sentido, a teoria de Keynes fornecia um quadro de referência que auxiliaria os formuladores de política econômica. Há que se lembrar, também, das teorias vindas da Escola de Chicago, a exemplo do monetarismo de Milton Friedman, que por tempos também influenciaram a adoção de políticas econômicas, dessa vez, contrárias àquelas preconizadas pelo keynesianismo. Depois das bem‑sucedidas políticas keynesianas de geração de emprego via gasto público e política fiscal expansionista, o capitalismo consegue resolver, em curto prazo, um de seus maiores problemas, qual seja, o do desemprego. Porém a resolução do problema do emprego e da renda gerou outra crise no capitalismo, a da inflação. Para o monetarismo, não valeria mais a pena analisar a economia e seu sucesso pela via da política fiscal, pois seus efeitos e consequências já eram conhecidos. O monetarismo, portanto, analisará a importância econômica da moeda, assim como Keynes, porém agora pelo lado da política monetária. Quando nem o keynesianismo com sua política fiscal expansionista nem o monetarismo com sua política monetária expansionista conseguem mais explicar as flutuações do mundo capitalista, novas visões acerca das flutuações serão necessárias e, nesse aspecto, vê‑se o desenvolver da aplicabilidade das teorias defendidas por economistas austríacos em que a vertente central está na não interferência do Estado na economia. A tese do Estado mínimo, da liberdade do mercado e das ações individuais que promovem o bem coletivo são resgatadas, agora, diante as imperfeições que as teorias intervencionistas vêm apresentando. A Ciência Econômica passa então a contar com contribuições de três economistas extremamente influentes no desenvolvimento da história do pensamento econômico do século XX e XXI. Estes serão Joseph Alois Schumpeter, Ludwig von Mises e Frederich August von Hayek. 60 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Enquanto para Keynes o capitalismo estava ameaçado pela possibilidade de estagnação em que o futuro dependeria dos gastos governamentais, outro teórico acreditava no dinamismo do capitalismo, sempre orientado para o crescimento e que não via a necessidade dos gastos governamentais a não ser que em correções de rota da economia em épocas de flutuações de curto prazo. Assim, tomando por base e contrariando o argumento do estado estacionário de Walras, em sua principal obra lançada originalmente em 1912, a Teoria do Desenvolvimento Econômico, Joseph Alois Schumpeter enfatiza o lado da oferta, negligenciando a demanda e, nesse aspecto, discute a nova combinação dos meios de produção como fenômeno fundamental do desenvolvimento econômico. O estado estacionário seria o ponto de repetição das mesmas coisas, desde que atingido o ponto de equilíbrio e de rendimento máximo, proporcionado pelo processo de concorrência (NAPOLEONI, 1963). Mises e Hayek, dois importantes expoentes da escola austríaca, desenvolvem suas teorias como reação à tradição historicista do conhecimento social. Influenciados por Max Weber, os principais pontos de ataque tanto de Mises quanto de Hayek serão a crença de que os fenômenos econômicos não estão dissociados dos demais aspectos sociais que condicionam a conduta humana, bem como a noção de que fatos históricos podem se reproduzir ao longo da história. Mises tornou‑se conhecido por sua teoria monetária na explicação do ciclo econômico e também se destacou como defensor da economia de mercado, apoiando suas teses liberais na construção de uma nova epistemologia econômica. Hayek, por sua vez, tornou‑se, de início, um nome conhecido por suas contribuições acerca de aspectos monetários do ciclo de investimento. As controvérsias teóricas em torno das questões de ciclo econômico, capital, investimento e poupança, tornaram‑se célebres na história do pensamento econômico. Hayek propunha uma explicação dos ciclos econômicos em que a crise era ocasionada por oferta desproporcional decapitais. A expansão da oferta monetária, ao reduzir as taxas de juros, induz os agentes a investirem em excesso na obtenção de bens de produção. A crise é provocada pela desproporção entre bens de consumo e bens de produção. Isso levaria ao declínio dos investimentos e a uma perda de parte do capital produtivo; capital este que havia sido superdimensionado em função de taxas de investimento excessivamente altas (FEIJÓ, 2001). E assim a Ciência Econômica evolui. Claro que, ao apresentar aqui alguns dos paradigmas da evolução da Ciência diversos teóricos não foram lembrados. Nosso intento era efetuar uma descrição sumária da evolução da Ciência em termos de sua linha dorsal de desenvolvimento. Obviamente, no momento em que estamos escrevendo essas linhas, novas teorias estão surgindo. Saiba mais Para que você tenha noção da amplitude de estudos que a Ciência Econômica oferece, convidamos a ver a lista de ganhadores de prêmio Nobel em Economia. Ali poderá ter contato com grandes nomes dessa área, saber de que forma contribuíram para o desenvolvimento da ciência e da sociedade. PRÊMIO Nobel de Economia. UFCG, [s.d.]. Disponível em: <http://www. dec.ufcg.edu.br/biografias/RolNobE1.html>. Acesso em: 8 ago. 2016. 61 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA Resumo Toda área do saber tem – e é isso que a diferencia das demais – um objeto específico de estudo e um método peculiar de investigação desse objeto. De fato, cada área do saber tem como base determinados pressupostos epistemológicos, quer dizer, princípios basilares nos quais repousam alguns critérios a partir dos quais será gerado o conhecimento a respeito do seu objeto específico. Nosso processo de aquisição do conhecimento ocorre por vias extremamente particulares. Na maior parte das vezes, e ao longo das nossas vidas, enxergamos aquilo que queremos enxergar ou que estamos preparados para enxergar. Vemos o que queremos ver, e vemos no momento em que estamos preparados para lidar com o que vemos: o nosso olhar indaga à realidade, mas não é sempre que ele tem condições de lidar com as respostas que o mundo nos oferece. Acreditamos nas explicações que desenvolvemos para compreender o mundo enquanto essas explicações derem conta de resolver os problemas que enfrentamos e aos quais devemos oferecer respostas. De forma resumida, podemos utilizar a nossa intuição e o nosso raciocínio (dedutivo, quando parte de um princípio geral para explicar os casos particulares; indutivo, quando parte do particular para o geral). Um dos fatos mais marcantes da história da epistemologia da Economia está no fato de esses processos de aquisição do saber terem sido pouco discutidos. De maneira geral e sistemática, grande parte dos economistas acomodou‑se com o uso de dois métodos: o hipotético‑dedutivo e o histórico‑dedutivo. De Smith aos dias atuais, esses têm sido os instrumentos preferenciais dos economistas no estudo dos atos e fenômenos econômicos. O método dedutivo (histórico ou hipotético) consagrou‑se como instrumento preferencial nos estudos econômicos. Se houve alguma aproximação com o método indutivo (quer dizer, com o estudo de casos particulares para a formulação de regras gerais), isso ocorreu por meio de abordagens mais empíricas, especialmente, as relacionadas às análises históricas e estatísticas: melhor dizendo, as relacionadas às análises de dados históricos submetidos ao rigor matemático. Procuramos apresentar, nesta unidade, os diferentes métodos e as diferentes formas de se fazer ciência e, mais especificamente, como se faz Ciência Econômica. Seja pelas ideias iluministas, pelo positivismo, pelo 62 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I positivismo lógico ou mesmo pelo falseacionismo, o fato é que a Ciência Econômica evolui porque a sociedade também evolui e é isso que a ciência analisa, estuda, retrata e teoriza. Não importa a corrente de pensamento econômico: se clássica, marginalista, marxista, macroeconômica ou monetarista, cada uma oferece condições ao cientista econômico para encontrar seu espaço: como microeconomista, como macroeconomista, como econometrista, mais teórico ou mais prático. Seja aquele economista que contribuirá com o setor público ou com o setor privado, lá estarão teorias e métodos científicos para auxiliar na compreensão do mundo econômico, bem como no enfrentamento de problemas. O fato é que com o que aqui apresentamos, gostaríamos que você percebesse a importância dos métodos científicos na formação do economista. Afinal, o economista também é um cientista. Exercícios Questão 1. O debate sobre as condições epistêmicas da geração do saber é fundamental, e não apenas uma discussão semântica sem qualquer utilidade! Apesar disso, o mainstream das Ciências Econômicas preferiu ignorar a fragilidade das nossas formas de acessar o conhecimento sobre fenômenos como consumo e poupança, pobreza e riqueza... Certos de terem conseguido alcançar um conhecimento seguro sobre a realidade, os economistas fecharam os olhos para a fragilidade de pressupostos como a racionalidade e a motivação humana no sentido de otimizar a utilidade, princípios basilares das escolas clássicas e neoclássicas de pensamento econômico. Também fecharam os olhos às limitações dos métodos utilizados para a investigação econômica. A respeito disso, considere as seguintes afirmativas: I – O método indutivo é, por excelência, o método consagrado pelo mainstream para o estudo dos fenômenos econômicos. Tal tradição teve início com Adam Smith e se fortaleceu por meio da abstração matemática realizada pelos economistas contemporâneos. II – Em relação à dedução, temos que lidar com as limitações provenientes dos sistemas lógicos de pensamento. Se a dedução parte da razão e da formulação de princípios gerais que explicam casos particulares, podemos ter que lidar com falhas lógicas (paradoxos e contradições, por exemplo) ou com erros na própria formulação dos princípios gerais. III – Em relação à indução, temos que lidar com a possibilidade de erros na coleta de dados estatísticos, erros esses que podem inviabilizar os modelos que abstraímos dos dados. Ainda, temos que conviver com o número limitado de observações e de casos particulares. Assinale a alternativa que apresenta a(s) afirmativa(s) correta(s): 63 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 TÉCNICAS DE PESQUISA EM ECONOMIA A) I. B) II. C) III. D) I e II. E) II e III. Resposta correta: alternativa E. Análise das afirmativas I – Afirmativa incorreta. Justificativa: o método consagrado pelo mainstream para o estudo dos fenômenos econômicos é o dedutivo. Adam Smith fez uso deste método a partir de dados históricos, e os seguintes fizeram uso da dedução com o auxílio, em especial, da matemática. II – Afirmativa correta. Justificativa: a dedução pode incorrer em falhas: por exemplo, podemos elaborar premissas que não tenham correspondência com a realidade. Ainda, podemos cometer falhas no desenvolvimento do nosso raciocínio. III – Afirmativa correta. Justificativa: podemos cometer erros quando do uso de dados particulares para generalizar a respeito da realidade. Por exemplo, é possível que a indução tenha deixado de investigar um número suficiente de dados; também é possível que, ao coletar dados, cometamos erros na sua apreensão e análise. Questão 2. (Enade 2008 adaptada) Neste ensaio, ‘ciência normal’ significa a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior. (...) Suponhamos que as crises são uma pré‑condição necessária para a emergência de novas teorias e perguntemos, então, como os cientistas respondem à suaexistência. (...) De modo especial, a discussão precedente indicou que consideraremos revoluções científicas aqueles episódios de desenvolvimento não cumulativo nos quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior. KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. Editora Perspectiva, 1998. 64 Re vi sã o: M ar ci lia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 1/ 08 /1 6 Unidade I Tendo o texto apresentado como referência inicial e considerando a filosofia da ciência de Thomas Kuhn, considere as afirmativas a seguir: I – O abandono de um paradigma ocorre depois que o fracasso persistente na resolução de um problema dá origem a uma crise. II – A atividade científica madura desenvolve‑se por meio de fases de ciência normal (paradigma), crise, revolução e novo paradigma. III – A ciência normal é o período em que se desenvolve uma atividade científica com base em um determinado paradigma aceito por consenso entre os membros de uma comunidade científica. Está correto o que se afirma em: A) I. B) I e II. C) II e III. D) III. E) I, II e III. Resolução desta questão na plataforma.