Prévia do material em texto
PARTO VAGINAL PARTE 1 HORMÔNIOS E SUBSTÂNCIAS - Prostaglandinas - Os tecidos do útero humano são seletivamente ricos em ácido araquidônico, precursor fundamental para a biossíntese das PGs; - Há aumento das concentrações de PGs durante o parto no líquido amniótico, plasma e urina maternos; - A administração vaginal, intravenosa e intra-amniótica de PG exógena pode iniciar o parto em qualquer época da gravidez e em qualquer espécie animal. Estão envolvidas em três importantes eventos: sincronização das contrações, esvaecimento cervical e aumento da responsividade uterina à ação da ocitocina, devido ao aumento da produção das GAP e da concentração dos receptores da ocitocina. Inibidores de síntese das PGs, como os anti-inflamatórios não hormonais (AINH), podem suprimir a contratilidade uterina in vivo e in vitro e prolongar a duração da gestação. - Progesterona A administração de um antagonista desse hormônio, ou a remoção precoce do corpo lúteo, inicialmente o principal produtor de progesterona, antes de sete semanas, induz o aborto, sugerindo sua importância no processo de manutenção da gravidez. Se administrada após a luteotectomia nesta fase, previne o abortamento, comprovando-se sua importância no processo inicial de manutenção da gravidez, em quantidades crescentes pelos ovários, substituídos após algumas semanas pela produção placentária, que passa a ser dominante. Os dados sugerem que sua redução não é pré-requisito para o parto em humanos, ao menos na circulação sanguínea, embora não se possa afirmar que não ocorra em nível dos tecidos uterinos. Sabe-se, por outro lado, que sua administração reduz o risco de parto pré-termo em mulheres de risco para esse evento. - Estrogênios Sua principal fonte de produção na gestação é a placenta. Não são primariamente causa de contrações miometriais, porém são reconhecidos como atuantes na regulação das junções GAP e receptores uterotônicos, incluindo os de ocitocina, criando condições para o miométrio gerar contrações. - Ocitocina A ocitocina é um hormônio peptídeo produzido no hipotálamo e liberado pela neuro-hipófise, com meia-vida curta de 3 ou 4 minutos, que parece se encurtar ainda mais quando doses grandes são infundidas. - É o mais potente agente uterotônico de produção endógena; - A frequência e amplitude de suas contrações induzidas são idênticas às do TP; - Contrações uterinas podem ser provocadas pela estimulação elétrica da hipófise posterior ou por estimulação dos mamilos (o controverso reflexo de Fergunson), com aumento de sua circulação no sangue; - Os análogos de ocitocina que competem por seus receptores, bloqueando-os, inibem o TP; - O número de seus receptores aumenta ao final da gestação nos tecidos deciduais e no miométrio; - A ocitocina age na decídua para promover a liberação de PGs; - Há dados abundantes para sustentar seu papel no segundo estágio do TP, no puerpério imediato e durante o aleitamento. CONTRAÇÕES UTERINAS - Gestação Até 28 semanas de gestação, a atividade uterina é muito baixa. São diminutas contrações que se restringem a pequenas áreas uterinas, são indolores e se confundem com os movimentos fetais. Após 30 semanas, as contrações uterinas se tornam mais frequentes e perceptíveis, até que quatro semanas antes do parto, chamado de período pré-parto, ganham intensidade e se difundem por área maior no globo uterino. Essas contrações denominam-se contrações de Braxton-Hicks. Sua intensidade chega a 8 mmHg em média, com frequência de três contrações por hora. No período pré-parto, as contrações têm a função de encurtar o corpo uterino e tracionar longitudinalmente o segmento e o colo uterino, que progressivamente se apaga e gradativamente se dilata. As contrações do pré-parto adaptam e insinuam a apresentação fetal na bacia. As contrações só passam a ser percebidas à palpação abdominal depois que sua intensidade ultrapassa o valor de 10 mmHg. As contrações são habitualmente indolores até que a sua intensidade ultrapasse 15 mmHg. Essa (15 mmHg) é a pressão mínima para se iniciar a distensão do segmento inferior e da cérvice na fase de dilatação, ou da vagina e do períneo, na fase expulsiva. - Trabalho de parto No trabalho de parto, as contrações uterinas são frequentes, intensas e dolorosas. Ocorre transição gradativa com acréscimo da intensidade e da frequência, de forma a passar do período pré-parto para o franco trabalho de parto. Em média, as contrações atingem 30 mmHg, com frequência de duas a três em 10 minutos e duração média de 30 segundos, durante o período inicial da dilatação (2 a 3 cm), até atingir 40 mmHg de intensidade com frequência de quatro a cinco contrações em 10 minutos no período final da dilatação. Durante o período expulsivo, as contrações chegam a 5 em 10 minutos, com duração média de 50 segundos e intensidade de 50 mmHg. Os ligamentos redondos se contraem como o útero, tracionando o fundo para diante, colocando o eixo longitudinal da matriz na direção do eixo da escavação pélvica, facilitando a progressão do feto. Também no período expulsivo, somam-se às contrações uterinas movimentos involuntários de fechamento da glote com retesamento dos músculos abdominais, como uma vontade incontrolável de fazer força como nas evacuações: esse fenômeno se denomina “puxo”. A postura assumida pela paciente tem importância expressiva na contratilidade uterina. O decúbito lateral, em 90% dos casos, aumenta a intensidade e diminui a frequência. A atividade contrátil exibida na posição lateral sugere sua maior eficiência para a progressão do parto. - Secundamento Após a expulsão do feto, as contrações uterinas se mantêm, a fim de promover o desprendimento da placenta da sua área de inserção, para que ocorra a dequitação. Geralmente as três primeiras contrações desinserem a placenta da sua topografia, e demora em média 6 minutos até que ela atinja o segmento inferior, chamado de tempo corporal. - Puerpério Após 12 horas de ocorrido o parto, as contrações uterinas diminuem até a frequência de 1 a cada 10 minutos. A atividade uterina nessa fase é indispensável para inibir a hemorragia pós-parto, sendo as contrações uterinas que selam os vasos sangrantes da zona de inserção placentária, sem as quais, a mulher sangraria até a morte. - Repercussões hemodinâmicas A contração uterina provoca aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca materna. A pressão arterial sistólica se eleva de 30 a 40 mmHg, enquanto a diastólica sobe de 20 a 25 mmHg. A frequência cardíaca oscila de 145 a 155 batimentos por minuto. A contração leva grande quantidade de sangue (+/- 300 mL) da placenta e do miométrio para a veia cava inferior, causando aumento do retorno venoso ao coração materno. O efeito do aumento desse retorno é a elevação da frequência cardíaca, podendo causar taquicardia e aumento da pressão arterial sistólica. A posição que assume a gestante condiciona esses efeitos circulatórios. Com o decúbito dorsal, ou a posição supina, o útero relaxa, repousa sobre a parede posterior do abdome e comprime a veia cava inferior contra a coluna vertebral. O retorno venoso ao coração diminui e, com isso, ocorre a queda da pressão arterial, particularmente a sistólica. Durante a contração, com o levantamento do eixo uterino que ocorre durante o trabalho de parto e o endurecimento do útero, este se afasta da coluna vertebral, deixa de comprimir a veia cava inferior e o sangue acumulado nos membros inferiores e na pelve retorna subitamente ao coração, o que acaba elevando a pressão arterial. Na posição lateral esquerda, não há compressão da veia cava inferior como no decúbito dorsal. Portanto, quando a gestante em trabalho de parto sofre hipotensão arterial, síndrome da hipotensão supina, a melhor conduta é pedir que ela permaneça em decúbito lateral esquerdo; isso levará à recuperação hemodinâmica. ESTÁTICA FETAL - Características gerais O feto atinge seu desenvolvimento completo quando chega na 40ª semana. Nessa idade gestacional, ele mede cerca de 50 cm de comprimento e pesa entre 3.000ge 3.500g. Durante a segunda metade da gestação, o ganho ponderal do feto aumenta linearmente até a 37ª semana, quando, então, o ganho passa a ser menor. Dependendo do peso ao nascimento, os fetos podem ser classificados em pequenos para a idade gestacional (PIG), adequados à idade gestacional (AIG) ou grandes para a idade gestacional (GIG). Esses últimos, quando nascem com 4.000g ou mais, são chamados de macrossômicos. O crânio fetal é constituído por sete ossos: dois ossos frontais, dois temporais, dois parietais, um occipital, um esfenoide e um etmoide. No feto esses ossos estão apenas justapostos e separados por espaços membranosos (suturas), cuja união limita alguns pequenos espaços (fontanelas). - Estática - Atitude Em condições habituais, o feto se aloja na cavidade uterina em atitude de flexão generalizada, apresenta encurvamento da coluna vertebral, produzindo concavidade voltada para sua face anterior, com a cabeça levemente fletida, de maneira que o mento se aproxima do esterno. Os membros se apresentam flexionados e anteriorizados; nos membros inferiores, as coxas ficam fletidas sobre o abdome e as pernas fletidas sobre as coxas. Nos membros superiores, com os antebraços fletidos sobre os braços e aconchegados ao tórax. Nesse modo, o eixo fetal (distância entre o lambda ao cóccix) mede 25 cm, metade do seu comprimento total. - Situação Situação é a relação entre o maior eixo uterino com o maior eixo fetal. Essa relação dá origem a três possibilidades de situação fetal: Longitudinal: maior eixo uterino e fetal coincidem. Ocorre em 99,5% das vezes; Transversa: o feto se dispõe perpendicularmente ao maior eixo uterino; Oblíqua: fase de transição da situação fetal, que no momento do parto se definirá em longitudinal ou transversa. - Apresentação A apresentação é definida como a região fetal que ocupa o estreito superior e nele vai se insinuar. Na situação longitudinal, a apresentação pode ser cefálica ou pélvica, de acordo com a região que ocupa a área do estreito superior. Na situação transversa, a apresentação é denominada córmica. - Fletida ou de vértice ou de occipício: o mento fetal se encontra aconchegado ao esterno; - Defletida de 1º grau ou bregmática: no centro da área do estreito superior surge, como ponto de referência fetal, o bregma; - Defletida de 2º grau ou de fronte: a glabela é o ponto de referência que surge no centro do estreito superior; - Defletida de 3º grau ou de face: surge o mento como ponto de referência. - - Modo de nádegas ou agripina: membros inferiores estendidos e rebatidos sobre a parede ventral do feto; - Modo de joelhos completa: as coxas se encontram estendidas e as pernas fletidas sobre as coxas; - Modo de joelhos incompleta: apenas um joelho é acessado pelo toque vaginal. - Modo de pés completa: ambas as pernas estão estendidas; - Modo de pés incompleta: apenas um pé se encontra em extensão. A apresentação córmica pode se distinguir em dorsoanterior (mais frequente), dorsoposterior, dorso superior e dorso inferior, sendo as duas últimas formas as mais raras. - Posição Refere ao dorso; relação entre os pontos de referência da apresentação fetal e os pontos de referência maternos (direito e esquerdo). Logo, só existem dois tipos de posições fetais: esquerda (ou primeira posição) e direita (ou segunda posição), denominadas assim pelo fato de o dorso fetal se encontrar na maior parte das vezes voltado para o lado esquerdo da mãe. O propósito da posição fetal é encontrar a melhor localização para se realizar a ausculta dos batimentos cardíacos fetais que, na maioria das vezes, será homolateral ao dorso fetal, com ressalva às apresentações cefálicas defletidas de terceiro grau, em que a ausculta é mais bem realizada na face anterior do tórax do feto. - Mutação e evolução fetal A mudança de posição devida à rotação axial do concepto chama-se mutação e ocorre na dependência de mobilidade fetal e quantidade de líquido amniótico. Portanto, ocorre antes da insinuação fetal e da rotura das membranas. O movimento que altera a situação fetal por meio da circundução da coluna é chamada evolução e geralmente é espontânea, quando o feto passa da apresentação córmica ou pélvica para a apresentação cefálica. A versão externa é um conjunto de manobras intencionais para provocar a mudança da apresentação fetal. - Nomenclatura obstétrica Para nomear as variedades de posição, utilizamos três letras maiúsculas, sendo a primeira letra em referência ao feto e a segunda e a terceira, ao ponto de referência materno. A primeira letra se refere à apresentação fetal (identificado na palpação e toque): O (occipício), B (bregma), N (naso), M (mento), S (sacro) e A (acrômio). A segunda letra se refere à posição (lado materno para o qual está direcionado o ponto de referência fetal): D (direita) e E (esquerda). As posições esquerdas são mais frequentes. A terceira letra se refere à variedade de posição, em que o feto está voltado para o ponto de referência da bacia materna: A (anterior – eminência ileopectínea), T (transversa – extremidade do diâmetro transverso), P (posterior – sinostose sacroilíaca ou púbis), S (sacro). RESUMO DA ESTÁTICA Apresentação: definida como a região fetal que ocupa o estreito superior e nele vai se insinuar; (CEFÁLICA, PÉLVICA, CÓRMICA) Atitude: diz respeito às relações das diversas partes do feto entre si; (FLETIDO OU DEFLETIDO) Situação: relação entre o maior eixo uterino com o maior eixo fetal (LONGITUDINAL, TRANSVERSO E OBLIQUO) Posição: relação entre os pontos de referência da apresentação fetal e os pontos de referência maternos (DIREITO OU ESQUERDO).