Prévia do material em texto
Natalia Quintino Dias Hiponatremia A hiponatremia é definida como sódio sérico < 135 mEq/L. Ocorre mais frequentemente em pacientes hospitalizados e/ou idosos. A hiponatremia está relacionada à ingesta de água associada a níveis elevados do hormônio antidiurético (ADH - vasopressina). O ADH é produzido no hipotálamo e secretado pela hipófise posterior nas seguintes condições: - Osmolaridade sérica elevada. - Volemia ou pressão arterial reduzidas. O ADH se liga aos receptores de vasopressina nos túbulos coletores e promove a reabsorção de água livre por meio das aquaporinas, restabelecendo a osmolaridade sérica e/ou volemia. Em condições fisiológicas, quando a osmolaridade sérica cai abaixo de 280 mOsm/L, o ADH é suprimido, fazendo com que o rim excrete água livre na tentativa de evitar maiores quedas da osmolaridade sérica. Consequentemente, a osmolaridade urinária aumenta em razão da menor quantidade de água livre na urina. Dessa forma, se por algum motivo o ADH continuar agindo com osmolaridade sérica baixa e o indivíduo ingerir líquidos hipotônicos, ocorrerá hiponatremia. Existem doenças em que o volume circulante efetivo é baixo, tais como insuficiência cardíaca e cirrose. - Nessas condições, existe liberação de ADH na tentativa de reter água livre e aumentar a volemia. Dessa forma, existe liberação de ADH mesmo com osmolaridade sérica reduzida. A hiponatremia é classificada quanto à osmolaridade sérica: - Hiponatremia hipertônica (> 295 mOsm/L). • Hiperglicemia (a cada aumento de 100 mg/dL na glicemia, o sódio sérico cai aproximadamente 2 mEq/L). • Infusão de soluções hipertônicas (manitol e glicose). • Intoxicação por álcool. - Hiponatremia isotônica (Osm 280-295 mOsm/L). • Pseudo-hiponatremia: artefatos na medição do sódio. Proteínas séricas (paraproteinemias, hiperbilirrubinemia, imunoglobulinas). Hipertrigliceridemia. - Hiponatremia hipotônica (Osm < 280 mOsm/L): possui maior significado clínico e costuma ser subdividida quanto ao status volêmico do paciente. Natalia Quintino Dias Medicações que estão comumente associadas a hiponatremia: • Diuréticos tiazídicos. Fenotiazinas (p. ex., cloprormazina). • Antidepressivos tricíclicos. Inibidores seletivos da recaptação de serotonina. Outras medicações que podem causar hiponatremia: Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), nicotina, opiáceos, clopropramida, fibratos, carbamazepina, ciclofosfamida, vincristina, desmopresina e ocitocina. Diagnóstico da causa Baseado em história medicamentosa, exame físico e exames laboratoriais tanto séricos quanto urinários. 1- Assim que for detectada hiponatremia, deve-se solicitar aferição da glicemia capilar, a fim de se excluir hiponatremia hipertônica induzida por hiperglicemia. Deve-se corrigir o sódio sérico para o efeito da glicemia. • Aumentar em 2 mEq/L de sódio sérico para cada aumento de 100 mg/dL da glicemia. Caso o paciente se mantenha hiponatrêmico após correção da glicemia, prossiga a investigação. 2- O próximo passo é procurar na anamnese evidências de que o paciente possa ter outras causas de hiponatremia hipertônica ou isotônica: - Perguntar sobre cirurgias recentes com uso de irrigação com soluções hipotônicas (p. ex., procedimentos de próstata e útero). - Tratamentos recentes com manitol, glicerol, ou imunoglobulina IV. - Icterícia decorrente da síndrome colestática. - Discrasia de células plasmocitárias conhecida ou suspeita. - Aspecto lipêmico do soro na coleta sanguínea. 3- Excluídos os fatores citados acima, o paciente é provavelmente portador de hiponatremia hipotônica. Nesse momento, duas causas muito importantes de hiponatremia devem ser lembradas: - Uso de diuréticos tiazídicos: • O paciente pode desenvolver hiponatremia a qualquer momento do tratamento e ela pode ser grave. • O diagnóstico é dado quando a suspensão da medicação acarreta retorno do sódio sérico a níveis normais (pode demorar uma semana ou mais). - Disfunção renal avançada (p. ex., ClCr < 15 mL/min). • A hiponatremia ocorre por conta da incapacidade do rim em excretar água livre, em fases avançadas da doença renal. 4- Se o paciente não faz uso de diuréticos tiazídicos e não tem filtração glomerular intensamente Natalia Quintino Dias reduzida, avaliar se há edema e/ou ascite. Caso positivo, existem três causas principais: - Insuficiência cardíaca. - Cirrose. - Síndrome nefrótica. 5- Caso o paciente não se apresente clinicamente edemaciado, o próximo passo é pesquisar sinais de hipovolemia: - Hipotensão ortostática, turgor da pele reduzido e mucosas secas podem sugerir hipovolemia. - Pacientes que têm esses sinais clínicos devem estar perdendo sódio pela via renal ou extrarrenal. Se a causa não estiver clara pela história clínica, orienta-se realizar a dosagem de sódio urinário. • Sódio urinário < 25 mEq/L: sugere perdas extrarrenais de sódio, tais como gastrointestinais ou para o terceiro espaço. • Sódio urinário > 40 mEq/L: sugere perdas renais de sódio, tais como insuficiência adrenal (déficit de cortisol e aldosterona), síndrome cerebral perdedora de sal e perdas por diuréticos. Nos pacientes euvolêmicos, existem dois exames que nos auxiliam no diagnóstico etiológico da hiponatremia, o sódio urinário e a osmolaridade urinária: - Sódio urinário < 25 mEq/L e osmolaridade urinária < 100 mEq/L sugerem que o paciente tem ADH adequadamente suprimido e nesses casos você deve pesquisar sobre a ingesta intencional excessiva de água, como na polidipsia primária, maratonistas ou uso de ecstasy. • Caso não exista ingesta excessiva de água, a hiponatremia pode ser secundária a dietas com restrição proteica e alta quantidade de fluidos como na dieta do chá e torrada ou bebedores de cerveja em excesso. - Se sódio urinário > 40 mEq/L e osmolaridade urinária > 100 mOs-m/L, deve-se realizar pesquisa para deficiência de glicocorticoide com cortisol sérico da manhã e teste da estimulação do ACTH, e para hipotireoidismo com TSH: • Caso testes positivos para uma das endocrinopatias, iniciar o tratamento. • Caso testes negativos, o diagnóstico de exclusão é síndrome da antidiurese inapropriada. Nesse caso deve-se realizar ampla pesquisa para medicações, neoplasias, pneumopatias, doenças neurológicas, infecção pelo HIV e cirurgias, que possam cursar com essa síndrome. Considerações antes do tratamento Tempo de instalação da hiponatremia Aguda (< 48 h): geralmente ocorre por conta da infusão excessiva de fluidos hipotônicos parenterais ou intoxicação por água (p. ex., pacientes psicóticos). Crônica (> 48 h): mais comumente quando não se consegue determinar o tempo de instalação pela história. Classificação de acordo com o valor do sódio sérico Leve: 130-134 mEq/L. Moderada: 120-129 mEq/L. Grave: < 120 mEq/L. Classificação quanto à gravidade dos sintomas Sintomas graves: convulsão, obnubilação, coma e parada respiratória. Sintomas leves a moderados: cefaleia, fadiga, letargia, náuseas, vômitos, tontura, confusão mental, distúrbio de marcha, cãibras. Presença de patologias intracranianas preexistentes TCE, neurocirurgia, acidente vascular recente ou lesões com efeito de massa. Tratamento Objetivos do tratamento: - Prevenir maiores reduções no sódio sérico. - Reduzir pressão intracraniana em pacientes com risco de herniação. - Aliviar os sintomas da hiponatremia. - Não corrigir rápida e/ou excessiva o sódio sérico para evitar síndrome da desmielinização osmótica. 1- Preparar a solução que será infundida; recomendamos que a correção seja feita com solução salina a 3%. • 445 mL de SF 0,9% + 55 mL de NaCl 20% = 500 mL NaCl 3%. Dica: a cada 1 mL/kg de solução de NaCl 3% infundida, o sódio sérico se eleva em 1 mEq/L. Natalia Quintino Dias É necessário se ter em mente algumas medidas gerais que devem ser adotadas para os pacientes que apresentam hiponatremia: - Identificar e tratar a causa de base. - Suspender medicações que possam contribuir com a hiponatremia. - Restringir água livre da dieta ou líquidos hipotônicos. - Para pacientes com SIADH e/ou hiponatremia crônica, deve-se considerar a prescrição de diuréticos de alça e aumento da ingesta de sódio. Natalia Quintino Dias Natalia Quintino Dias Hipernatremia Hipernatremia é definida como sódio sérico > 145 mEq/L. Classificação A hipernatremia pode ser classificada em: - Hipovolêmica: quando o paciente perde água livre e sódio, porém mais água do que sódio. • Geralmente secundária a diarreia e/ou perdas renais por diuréticos. – Euvolêmica: desidratação, ou seja, ocorre perda de água livre do plasma, porém a quantidade total de sódio corporal não muda. • Pode ocorrer por diabetes insipidus e/ou perdas insensíveis (sudorese, taquipneia). - Hipervolêmica: sobrecarga de volume, geralmente por conta da infusão excessiva de soluções cristaloides. • Pode ocorrer também por conta dos erros em hemodiálise ou ingesta excessiva de sal (tentativa de suicídio). Na grande maioria dos casos a hipernatremia se desenvolve quando as perdas de água não são repostas, como nas seguintes situações: - Idosos com capacidade mental comprometida e acesso a água limitado. - Pacientes críticos intubados ou recebendo dieta por via enteral (sem reposição adequada de água livre). - Paciente com diabetes insipidus com acesso limitado a água por algum motivo. Se o acesso a água e a sede estiverem intactos, é improvável que se desenvolva hipernatremia. Principais causas de hipernatremia: - Perda de água livre não reposta (deve haver sede e/ou acesso a água prejudicados) - Perdas insensíveis e suor - Perdas gastrintestinais - Diabetes insipidus nefrogênico ou central - Diurese osmótica: • Hiperglicemia • Dieta hiperproteica (principalmente nasoentérica) gerando ureia • Manitol - Lesões hipotalâmicas que prejudicam sede ou função do osmorreceptor • Hipodipsia primária • Excesso de mineralocorticoide gerando reset do osmostato - Perda de água para dentro das células • Exercício extenuante ou convulsões Sobrecarga de sódio • Ingesta ou infusão de soluções salinas Quadro clínico Os sintomas dependem do tempo de instalação do distúrbio. Diagnóstico História clínica Avaliar: - TCE, neurocirurgia, doença psiquiátrica e doença renal crônica. - Medicações que podem causar hipernatremia. Natalia Quintino Dias - Condições metabólicas que podem causar diabetes insipidus e consequentemente hipernatremia: • Hipercalcemia, hipocalemia grave, desnutrição proteica. Condições tubulointersticiais que podem cursar com hipernatremia: • Poliúria pós-desobstrução de via urinária, recuperação de necrose tubular aguda, doença renal policística, anemia falciforme, síndrome de Sjögren, amiloidose, gravidez (vasopressinase placentária). Exame físico Procurar por sinais de hipovolemia como hipotensão ortostática (queda > 20 mmHg na PAS e 10 mmHg na PAD) e aumento excessivo da frequência cardíaca em ortostase (> 30 bpm). Avaliar as mucosas e o turgor da pele: turgor da pele reduzido e mucosas secas sugerem desidratação, assim como edema de extremidades sugere sobrecarga volêmica. Exame neurológico sumário deve ser realizado para avaliação de nível de consciência, resposta motora e reflexos profundos. Exames complementares Caso exista dúvida com relação à presença ou não de hipernatremia, pode-se solicitar medição iônica direta ou osmolaridade sérica (osmolaridade sérica > 295 mOsml/L sugere sódio > 145-147 mEq/L). • Por definição, todos os pacientes hipernatrêmicos são hipertônicos. Solicitar função renal e demais eletrólitos (relação ureia/ creatinina > 40 sugere depleção de volume). Ocasionalmente a hipernatremia pode ser mascarada por fatores que alteram a medição indireta do íon, como: • Hiperglicemia, por conta do efeito osmótico da glicose no plasma (a cada aumento de 100 mg/dL da glicemia acima de 100 mg/dL, ocorre uma redução de 1,6 mEq/L no sódio sérico). • Hiperproteinemia e/ou hiperlipidemia. Amostra urinária deve ser colhida para avaliação de osmolaridade: • A osmolaridade urinária é o principal determinante da atividade do hormônio antidiurético (ADH); sendo assim, osmolaridade urinária < 300 mOsm/L sugere inefetividade do ADH. o Deficiência de ADH (diabetes insipidus central): responsiva a administração exógena de ADH. o Resistência a ADH (diabetes insipidus nefrogênico): não responde a administração de ADH exógeno, portanto osmolaridade urinária não se altera após sua administração. - Osmolaridade urinária > 800 mOsm/L indica uma resposta adequada do néfron à ação do ADH e capacidade de concentração urinária mantida, o que pode ocorrer nas seguintes situações: • Perdas extrarrenais (perdas insensíveis ou gastrintestinais). • Diurese osmótica. • Sobrecarga de sódio (NaCl, NaHCO3 corticoides). • Ureia (dieta hiperproteica, sangramento digestivo, hiperca-tabolismo por queimaduras ou uso de esteroides). • Glicose ou manitol no plasma em excesso. - Hipodipsia primária (condição rara de distúrbio da sede). - Osmolaridade entre 300 e 800 mOsm/L pode ser vista em: • Diabetes insipidus parcial tanto central quanto nefrogênico. • Diabetes insipidus central com depleção de volume. • Diuréticos de alça. Manejo terapêutico Reestabelecer o acesso à água livre ou suprir a necessidade diária de H2O (≥ 1 L/dia) pode ser suficiente para corrigir a hipernatremia. Avaliar o status volêmico: - Pacientes hipovolêmicos: • Realizar expansão volêmica com salina isotônica (SF 0,9% -> 154 mEq/L de sódio) até sinais vitais estáveis. • Assim que atingir euvolemia, deve-se dosar novamente o sódio sérico, calcular o déficit de água livre e realizar a reposição. Natalia Quintino Dias Déficit de água livre (L) = [(sódio sérico - 140)/140] × água corporal total Água corporal total (ACT) = peso × 0,6 (H) ou 0,5 (M) se idoso, 0,5 (H) ou 0,45 (M) Diabetes insipidus: O diabetes insípido resulta de uma deficiência de vasopressina [hormônio antidiurético (ADH)] decorrente de doença hipotalâmica-hipofisária (diabetes insípido central) ou da resistência dos rins à vasopressina (diabetes insípido nefrogênico). Desenvolvem-se poliúria e polidipsia. O diagnóstico é pelo teste de privação hídrica mostrando incapacidade de alcançar a concentração máxima de urina; os níveis de vasopressina e a resposta à vasopressina endógena auxiliam a diferenciar o diabetes insípido central do nefrogênico. Variação de sódio para cada litro de solução infundido = (sódio sérico – sódio solução) / ACT + 1. As fórmulas usadas são meramente estimativas, ao longo da reposição deve-se dosar o sódio sérico a cada 4-6 horas. A variação de sódio nas primeiras 24h não pode ultrapassar 8-10 mEq/L, para hipernatremia crônica (> 48 h de duração). • Se o sódio sérico variar mais do que isso, existe o risco de edema cerebral. • Para hipernatremia aguda é permitida a correção na taxa de 1 mEq/L/h nas primeiras 6 a 8 horas. A reposição pode ser feita tanto com glicose a 5%, como com salina a 0,45%, ou 0,225%. • Lembre-se de que a cada litro infundido de glicose a 5% existe 1 L de água livre, para salina a 0,45% (77 mEq/L de Na) existe 0,5 L e para salina a 0,225% (38 mEq/L de Na) existe 0,75 L. • Opta-se por soluções salinas quando se deseja repor o déficit de água livre associado a reposição volêmica. Tratar a causa de base (p. ex., suspensão de diuréticos e tratar diarreia). Pacientes euvolêmicos(mais comumente secundário a diabetes insipidus): Deve-se corrigir o déficit de água livre e associado a isso tratar a causa de base. • Para diabetes insipidus central, prescrever acetato de desmopressina (DDAVP) IV, SC ou intranasal. • Para diabetes insipidus nefrogênico, tentar controlar agente etiológico (p. ex., suspender medicação culpada). o Diurético tiazídico, associado a restrição de sódio da dieta, pode ser útil em reduzir a poliúria (a indução de discreta hipovolemia aumenta a reabsorção de sódio e água do túbulo proximal e reduz o aporte de água Natalia Quintino Dias livre para os segmentos disfuncionais do néfron). o Amilorida deve ser prescrita quando existe DI induzida por lítio. Pacientes hipervolêmicos: Deve-se suspender o aporte de sódio + repor o déficit de água livre de acordo com as fórmulas + administrar diuréticos, tanto para sobrecarga volêmica quanto para salina, dessa forma deve-se associar tiazídicos com diuréticos de alça.