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0. Introdução Trabalho da cadeira de Didactica de Ciências Sociais com o tema leitura e interpretação de mapas, o surgimento desta Conferência, orientada para o Ensino Básico, serviu de catalisador para reflectirmos sobre este assunto naquele nível de ensino, uma vez que a leitura e a interpretação de mapas é um dos temas contemplado no currículo. O aluno é confrontado, diariamente, desde o ensino primário ao ensino secundário e não só, com factos geográficos próximos e distantes que requerem, para a sua compreensão, um certo domínio de conhecimentos cartográficos básicos. Essas noções básicas estão ligadas ao domínio de alguns conceitos relativos a orientação, localização e escala. Neste sentido, pretendemos analisar o processo de leitura e interpretação de mapas no ensino de ciências sociais. Objectivo Geral: Compreender a leitura e interpretação de mapas no ensino de ciências sociais. Objectivos Específicos: Conceito de mapas e globos, tipos, função e diferenças entre mapas e globos, identificar as coordenadas geográficas, vantagens e desvantagens dos globos, elementos fundamentais de um mapa, identificar como é que o professor utiliza o mapa na sala de aula, indicar as dificuldades dos professores e alunos na leitura e interpretação de mapas e globos e mapa no ensino de Ciências Sociais. Metodologia: A pesquisa, realizada em Maio de 2023, circunscreveu-se a uma escolar de Maputo nomeadamente, Escola Primária Completa de 1° de Maio e cingiu-se à 6ª classe, envolvendo 5 alunos e 2 professores. O estudo baseou-se na análise bibliográfica e na análise de um questionário feito aos alunos e professores das referida escola. Tendo em conta os nossos objectivos o trabalho apresenta, em primeiro lugar, uma análise de diferentes autores sobre a leitura de mapas e globos e o processo de construção da noção de espaço, em seguida faz-se uma breve apresentação do capítulo do livro que trata deste tema em termos de conteúdo e objectivos e por último, os resultados da pesquisa. I.SUPORTE TEÓRICO LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE MAPAS Pode-se definir o mapa como sendo “uma representação da superfície da terra, conservando com esta relações matematicamente definidas de redução, localização e projecção no plano” (ALMEIDA, 2006). Sendo o mapa a representação do espaço, ele constitui um meio de ensino privilegiado das disciplinas que estudam a organização do espaço, quer próximo ou distante, real ou abstracto. O que significa que o indivíduo que não pode ou não sabe utilizar um mapa não pode pensar sobre aspectos do espaço que ele não conhece, nem pode pensar de modo crítico sobre a organização do espaço que lhe é apresentado. Por isso, ensinar o aluno a ler e a interpretar os mapas são tarefas primordiais da escola que visam essencialmente preparar os alunos para a compreensão da organização espacial da sociedade. Isso exige, como afirma (ALMEIDA ,2006) A CONSTRUÇÃO DA NOÇÃO ESPACIAL HUGONIE (1992), ALEXANDRE & DIOGO (1993), SIMIELLI (2006) apoiando-se em estudos sobre o desenvolvimento cognitivo de Piaget, chamam-nos atenção para a utilização de mapas e a construção da noção de espaço que estão intrinsecamente ligados ao desenvolvimento mental dos alunos. Ao observarmos os programas de EB, tanto no 1º ciclo assim como no 2º ciclo, podemos constatar que o aluno estuda a sua comunidade ou bairro, na 3ª classe, a província, na 4ª classe e o país, na 5ª classe. O que se pretende com estes programas concêntricos, é que o aluno vá, paulatinamente, compreendendo os diferentes conceitos, factos e fenómenos, que são objecto de estudo da disciplina. Os autores citados acima afirmam que as crianças do EB (6 a 12 anos) estão na fase das operações concretas. Nesta fase, a representação do espaço é feita a partir daquilo que elas conhecem, vivem no seu dia-a-dia e percebem - é o espaço conhecido, vivido e percebido. E é sobre este espaço que o professor deverá dar início à leitura, interpretação e construção de mapas. Deste modo, o professor poderá propor actividades de representação do espaço mais próximo, a sala de aula, seguindo-se, a escola, o bairro, a cidade, o país e, por último, o planisfério. Estas actividades deverão ser geridas paulatinamente em cada classe, tendo em conta os conteúdos e o desenvolvimento mental dos alunos. A 6ª CLASSE E A LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE MAPAS A escolha da 6ª classe deve-se ao facto de ser a classe inicial onde se aborda com profundidade a questão da leitura e interpretação de mapas. De facto, o programa de ensino desta classe define as seguintes competências básicas na I unidade: a capacidade de distinguir os tipos de mapas, utilizar coordenadas para a localização de objectos geográficos no mapa - como localizar o continente africano no mapa, calcular a distância entre dois pontos no mapa utilizando a escala, interpretar os mapas através da legenda, entre outros (INDE, 2003:326). Folheando o livro da 6ª classe encontramos o tema 1, capítulo 1, sobre a leitura de mapas que apresenta-nos os seguintes objectivos: distinguir o tipo de mapas e seus conteúdos, calcular a distância entre dois pontos utilizando a escala, ler mapas através de legendas,utilizar as coordenadas geográficas para a localização de objectos geográficos no mapa. Como conteúdos temos: I) Globo terrestre – tipos de mapas e seus conteúdos; II) Legenda e escala de mapas e plantas; III) Coordenadas geográficas. GLOBOS E MAPA NO ENSINO DE CIÊNCIAS SOCIAIS · Ensinar o aluno a ler e a interpretar os globos e mapas são tarefas primordiais da escola que visam essencialmente preparar os alunos para a compreensão da organização espacial da sociedade. · No nosso país, grande parte das escolas do EB e secundário não possui mapas, ou se estes existem, são em número bastante reduzido e não adequados ao processo de ensino e aprendizagem de diferentes conteúdos. · Contudo, os mapas, estão presentes nos livros das Ciências Sociais do EB. Na 6ª classe por exemplo, a primeira unidade é dedicada à leitura de mapas, isto é, o aluno é confrontado com diferentes mapas e diferentes conceitos a ele relacionados, tais como, escala, simbologia (legenda) e coordenadas geográficas (latitude e longitude). · os elaboradores dos livros escolares assim como os professores partem do pressuposto de que os alunos têm bases para a compreensão destes conceitos abstractos, o que está longe de ser verdade. · No ensino da ciencias sociais é essencial o uso constante do Globo Terrestre em qualquer faixa etária do estudante. · melhor recurso a ser usado pelo professor nas primeiras séries escolares no que se refere à percepção e formação de conceitos espaciais como: direções, localizações, distâncias, fluxos, limites e relações entre fenômenos e fatos da superfície do planeta Terra. · O professor precisa ter paciência na transmissão dos conceitos espaciais e temporais, pois estes são construídos, pouco a pouco, na mente do aluno por implicarem a elaboração de um sistema de relações, podendo se afirmar que as construções tempo e espaço são correlativas. · Os Globos nas ciencias sociais deve ser utilizado com os mapas para facilitar a formação de conceitos corretos sobre localização relativa de regiões e países, suas dimensões, distâncias, direções etc. · Até os 10 e/ou 12 anos aproximadamente, o conceito de Coordenadas Geográficas fica além da capacidade de compreensão do aluno. Também a sua capacidade de interpretação é pouco desenvolvida, pois ainda não utiliza os seus conhecimentos já adquiridos. Nessa fase, é indispensável o auxílio do professor e a realização de muitos exercícios práticos. · a escolha do tipo de Globo Terrestre mais adequado ao assunto a ser tratado e à realidade do aluno,a sua função na sala de aula, e o preparo do professor no tocante à sua capacidade de leitura e interpretação do referido recurso cartográfico. · ALEXANDRE & DIOGO (1993) aconselham que, “Tal como a escrita, também a expressão gráfica, tem de ser objecto de um longo processo educativo, que, atendendo ao desenvolvimento intelectual global do indivíduo, vá aproveitando as diferentes facilidades de abstracção e de conceptualização.” O que significa que a leitura de globos e mapas não é nem espontânea, nem inata e tal como ensinamos o A, B, C, às crianças, devemos criar condições. OS INSTRUMENTOS DE ANÁLISE O estudo teve como base a bibliografia de referência de autores que tratam da leitura e interpretação de mapas e globos no ensino da Geografia e ciências sociais. Foi ainda elaborado um questionário que foi distribuído a 5 alunos da escola e a 2 professores que leccionam a disciplina de Ciências Sociais. Neste estudo, procuramos recolher informação necessárias para responder às seguintes questões preliminares: Nas perguntas colocadas aos alunos da Escola Primária Completa do 1º de Maio. A idade dos alunos situa-se entre 11 e 14 anos, sendo a maioria da faixa etária de 11 anos. Procuramos obter informações sobre: - A frequência de utilização de mapas na sala de aula? - Os tipos de mapas que os alunos conhecem? - As coordenadas geográficas e a escala? - A localização de objectos geográficos no mapa? As perguntas colocadas aos professores estavam relacionadas com os seguintes aspectos: - A experiência dos professores na mediação do tema? - A frequência de utilização de mapas na sala de aula? - As dificuldades de alunos e professores na leitura e interpretação de mapas? - Tipos de desenho solicitados pelo professor na aula? perguntas colocadas Os professores e a leitura e interpretação de mapas e globos na escola Os alunos e a leitura e interpretação de mapas e globos na escola A frequência de utilização de mapas e globos na sala de aula? P1: O professor utiliza o livro do aluno. P2: o rofessor afirma ter explicado o conteúdo a partir de mapas murais. Ex: pendurava o mapa e dizia que este representa todos os continentes e oceanos do mundo, o que quer dizer superfície terrestre e identificava o tipo e tinha como auxilio o livro do aluno. Os alunos dizem que o professor de Ciências Sociais utiliza mapas nas aulas, mas nem sempre e outros alunos dizem que os mapas utilizados na sala de aulas são basicamente dos seus livros escolares. Os tipos de mapas e globos que os alunos conhecem? P1 e P2: Globo Terrestre Político, globo Terrestre Físico- politico, globo Terrestre Lousa. Os tipos de mapas são: os planisférios, os mapas corográficos, os mapas topográficos, as plantas, os mapas temáticos, as fotografias aéreas e imagens de satélite e as as ortofotocartas. Relativamente aos tipos de mapas e globos, cerca de 2 dos 5 alunos é que puderam identificar correctamente Os alunos conseguem identificar as coordenadas geográficas e a escala? P1 e P2: Os professores afirmam que os alunos têm dificuldades na manipulação de elementos como legenda, escala e coordenadas geográficas. os alunos confirmam a dificuldades na manipulação de elementos como legenda, escala e coordenadas geográficas. A localização de objectos geográficos no mapa? P1: A dificuldade reside em nomes, isto é, na leitura de nomes e localização com base em coordenadas geográficas. Os resultados da pesquisa mostram que os alunos têm sérias dificuldades em trabalhar com a localização de objectos no mapa. Somente uma menina de 11 anos é que respondeu favoravelmente, embora não totalmente correcto. Ela indicou as latitudes e longitudes dos lugares, tendo faltado a referência sobre se os lugares estavam a N ou S, e a W ou E, A experiência dos professores na mediação do tema? P1: As dificuldades de alunos e professores na leitura e interpretação de mapas e globos? P1: Os alunos têm dificuldades de ler a legenda, escala dos mapas e globos e os respectivos cálculos. Do lado do professor a dificuldade reside na escola ter apenas mapas gerais e não específicos, assim, eles dificilmente conseguem destacar os conteúdos específicos de cada aula. P2: Desinteresse dos alunos na aprendizagem. O professor explica hoje, dá exercício, e no dia seguinte já não sabem nada. Do lado do professor nenhuma dificuldade. Apenas a falta de material mais detalhado para facilitar mais a transmissão. Tipos de desenho solicitados pelo professor na aula? P1: O mapa é sempre tratado como um produto acabado, ele não é objecto de aprendizagem dos alunos e nem objecto de problematização no processo de ensino-aprendizagem. Ele serve apenas como objecto de reprodução, não havendo construção de representações gráficas. P2: A elaboração de esboços não era prática comum na escola. Nenhum Definição de mapas e globos No tocante à definição de mapa, mais uma vez os alunos tiveram sérias dificuldades 3 não definiram o mapa. A que definiu, referirau-se à forma de representar a superfície da terra outro, referiram-se nos seguintes termos: é a visualização de qualquer província, é o que nos mostra os lugares de todo continente africano, é uma rede que nos ajuda a localizar o nosso destino, é um objecto que nos leva a vários sítios na terra. Considerações finais As competências básicas definidas para esta unidade temática não são devidamente alcançadas pois a maior parte dos alunos apresenta grande dificuldade no domínio dos elementos que intervêm na leitura e interpretação de mapas (legenda, simbologia, escala) bem como na localização dos elementos geográficos. No presente trabalho o grupo constatou que tanto o globo quanto os mapas têm seus méritos e deméritos, no sentido de que, quando se trata de precisão, o globo representa direções e distâncias melhores do que um mapa. Da mesma forma, os mapas estão um passo à frente dos globos em relação a várias vantagens. Normalmente, os mapas são compactos, o que os torna fáceis de armazenar, transportar e manusear. Além disso, pode-se ver o mapa em diferentes tamanhos de tela, bem como pode mostrar uma área maior, de uma só vez Na leitura e interpretação de mapa e globos são temas ou conteúdos contemplados no cur-rículo do Ensino Básico (EB), mais concretamente na 6ª classe. O aspecto para o conhecimento do espaço, está presente em todas as aulas de Ciências Sociais. o aluno assim como o professor devem ver o mapa como um recurso que transmite informações a serem discutidas.Ver e ler são os principais objetivos nos mapas, os principais elementos fundamentais para leitura e interpretação de um mapa: área geográfica, coordenadas, escala, legenda, título, indicação do norte e a fonte de onde foi extraído o mapa. Todo mapa deve possuir algumas características para assegurarem a leitura e interpretação correctas das informações nelas contidas. Bibliografia ALEXANDRE, Fernando e DIOGO, José. Didáctica da Geografia: contributos para uma educação no ambiente. 2. ed. Lisboa, Texto Editora, 1993. ALMEIDA, Rosângela Doin de. Do desenho ao mapa: iniciação cartográfica na escola. S. Paulo, Contexto, 2006. CASTROGIOVANI, António Carlos et al. Ensino de Geografia: práticas e textualizações no quotidiano, 6. Ed. Porto Alegre, Editora Mediação, 2008. HUGONIE, Gérard. Pratiquer la géographie au college. Paris, Armand Colin, 1992. ISMAEL, A. Ismael e BICÁ, Firoza. Tempos e espaços. Livro do aluno - 6ª classe, Ciências Sociais, Porto, Porto editora. Ensino Básico em Moçambique: Políticas, Práticas e Qualidade 149 MEC (Ministério da Educação e Cultura). Plano Curricular do Ensino Básico (PCEB). Maputo, INDE, 2003. _____. Programas do Ensino Básico. Maputo INDE, 2003. PONTUSCHKA, Nídia Nacibet al. Para ensinar e aprender geografia. S. Paulo, Cortez Editora, 2007. SIMIELLI, Maria Elena Ramos. Cartografia no ensino fundamental e médio; In: ALES SANDRI, Ana Fani: A geografia na sala de aula, 8. ed. S. Paulo, Contexto, 2006. pp. 92-108