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POLÍTICA E ESTRATÉGIA EM SAÚDE Tema 1: Evolução do conceito de saúde ao longo da história; Introdução O que é saúde para você? Se pensar de uma perspectiva unicamente física, pode ser que sua resposta tenha relação com o funcionamento dos seus órgãos, pensando no corpo como algo meramente biológico. Mas, se você parar para pensar um pouco mais, pode ser que sua concepção se amplie, principalmente se associar sua resposta a essa pergunta: “O que me faz bem?”. Possivelmente, com base nessa reflexão, o seu conceito de saúde vai sofrer modificações. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), saúde não é apenas a ausência de doenças ou enfermidades, mas um completo bem-estar físico, mental e social. Será possível atingirmos essa plenitude? Muitos autores criticam essa concepção de saúde que a OMS defende desde o final da década de 1940, acreditando que é utópica (fantasiosa) e inatingível. Já outros pesquisadores acreditam que é importante manter esse conceito, para que não cesse a busca por melhores condições de vida. Discutiremos a questão ao longo deste módulo. É muito importante estudar a história da saúde, pois assim entendemos como muitas questões surgiram e ainda estão presentes na área, trazendo consequências para o cuidado. E, nesse caminhar, podemos ainda ampliar o conceito de saúde e pensá-la sob várias perspectivas: biológica, social, política, cultural, econômica, entre outras. Um de nossos objetivos é que você possa futuramente produzir um cuidado integral ao indivíduo e à coletividade. A evolução do conceito de saúde Você se considera saudável? Afinal, o que quer dizer saudável? Para começar, vamos pensar em dois exemplos: Exemplo Maria tem 34 anos, possui casa própria, carro, trabalha, é diabética e hipertensa; João tem 33 anos, está desempregado, mora numa casa de dois cômodos com sete familiares, o seu quintal tem esgoto a céu aberto e a única alimentação diária, economicamente possível, é macarrão. Você consegue avaliar qual dos dois é mais saudável? Essa resposta é difícil, precisaríamos de mais dados, mas podemos afirmar que, no caso de João, mesmo sem doenças diagnosticadas, temos claramente uma família com a cidadania afetada, sem acesso à saúde. Podemos pensar em mais duas situações: Exemplo Sérgio tem 40 anos, trabalha em um supermercado, possui casa, seus três filhos estão na escola e, para dormir, toma duas taças de vinho todas as noites; já Rita, também com 40 anos, é professora, tem casa própria e usa duas medicações prescritas pelo médico para tratar sua ansiedade exacerbada – sem a medicação, não consegue realizar as atividades do cotidiano, como trabalhar e dormir. Você consegue avaliar qual deles necessita de acompanhamento mais intenso dos profissionais de saúde? Outra resposta complexa, mas podemos perceber, de maneira mais clara, que Rita está com maiores prejuízos em sua saúde. Há muitas concepções culturais, históricas, sociais e políticas envolvidas nas discussões sobre saúde e doença. Desde os primórdios da humanidade, as pessoas já realizavam ações para proteção individual e do grupo de que faziam parte. Veremos aqui os períodos históricos e a relação da população com a saúde e o adoecimento. Precisamos compreender todo o processo de transformação do conceito de saúde ao longo dos anos, para entender o que é um cuidado humanizado e integral. Tendo acesso às questões históricas envolvidas no processo saúde-doença, podemos refletir sobre ações e “não ações” que ainda acontecem no cotidiano dos serviços de saúde, tendo como pano de fundo uma concepção reducionista sobre o que é saúde. Você já passou por uma situação em que precisou procurar atendimento em algum serviço de saúde e, ao estar diante do profissional, não se sentiu acolhido? Possivelmente sim. É comum ouvirmos relatos de pessoas frustradas com o atendimento recebido. Frases como “Ele nem me examinou”, “Ela disse que não tenho nada”, “Ela só passou a receita e não me explicou nada infelizmente são frequentes. Entre os tantos fatores que podem causar esse “descuido”, estão os históricos, sociais, culturais e políticos relativos ao conceito de saúde e de adoecimento. Pré-história (Até cerca de 4000 A.C.) Temos registros da arqueologia, da história e de outras áreas do conhecimento sobre a organização e os hábitos na Pré-história. O pensamento mágico-religioso predominava nesse período. O adoecimento, na maior parte das vezes, era considerado castigo dos deuses ou maldição dos demônios. Registros históricos mostram que, em determinados períodos da Pré-história, ocorreram sepultamentos (com oferendas), o que leva à hipótese de que algumas civilizações poderiam acreditar em vida após a morte. Outro fato importante é que a “primeira forma de cuidado” já existia na Pré-história: o instinto materno de proteção. Ou seja, as mães podem ser consideradas as primeiras cuidadoras da história da humanidade. Em muitas culturas, existiu uma figura responsável pela manutenção da ordem, da saúde, do cuidado. Algumas contavam com benzedeiras e curandeiras, outras com xamãs ou sacerdotes. Os recursos de assistência utilizados variavam desde rituais, rezas, chás de ervas e plantas, oferendas e até sacrifícios. Você acha que ainda hoje esses recursos são utilizados no cuidado? Será que o pensamento mágicoreligioso ainda atravessa a questão da saúde e do adoecimento? A resposta é sim! E é importante valorizarmos as diferenças culturais, com postura ética e acolhedora. Os cuidados que envolvem sabedoria popular devem ser respeitados, eles muitas vezes têm efeitos positivos naqueles que acreditam em práticas culturalmente apreendidas e que avançam pelas gerações seguintes. É primordial reforçar a importância do cuidado científico, porém ele não pode ser antagônico ao cuidado que advém da cultura individual. Exemplo Não devemos julgar ou desvalorizar a religião de uma paciente hipertensa, que faz uso correto da medicação e tenta se adequar às mudanças de hábitos de vida propostas pela equipe multiprofissional de saúde, se ela também gosta de ir semanalmente na sua igreja (ou onde quer que seja) receber uma reza ou oração com o intuito de cuidar da saúde. Não devemos emitir julgamentos, pois a paciente cumpre as propostas do seu acompanhamento em saúde e complementa o próprio cuidado com aspectos que considera importantes para viver. Idade antiga (4000 A.C. a 476 D.C.) Na Antiguidade, estudos históricos e arqueológicos mostram uma série de práticas de cuidado e assistência à saúde em diversas civilizações. Ainda nesse período, a morte ou o adoecimento eram vistos, na maior parte das vezes, como alguma maldição de demônios ou castigo divino. Sacerdotes, benzedeiras, curandeiras, xamãs, entre outros líderes, continuavam ocupando papel central como responsáveis pelo cuidado em saúde. Por um período significativo, o cuidado prestado por essas referências religiosas e místicas era feito com chás, rituais, massagens, substâncias para afastar maus espíritos (indutoras de vômito), banhos de água fria e água quente, purgantes, entre outros. Atenção! É importante refletir o quanto muitas práticas e concepções permeiam a área da saúde até os dias de hoje, mesmo depois de séculos. A seguir, vamos comentar sobre algumas civilizações e pontos que se destacam segundo relatos históricos da Idade Antiga: CHINA Estudos mostram que, na China, já ocorria a classificação das doenças em benignas e malignas e, a partir disso, os cuidadores se dividiam conforme suas habilidades para lidar com situações específicas. Podemos associar isso ao que atualmente chamamos de “classificação de risco” e à questão atual das diversas especializações entre os profissionais de saúde. EGITO ANTIGO Muitos cuidados pessoais eram direcionados para cuidar da saúde, como o hábito de raspar os cabelos e utilizar perucas para evitar piolhos. Alguns relatos mostram que existiampráticas de hipnose e interpretação de sonhos. O destaque maior vai para a mumificação, cujo intuito era manter a alma presa ao corpo, pois os egípcios acreditavam em vida após a morte. Com isso, a habilidade de fazer ataduras e assepsia do corpo tornou-se um cuidado complexo no Egito Antigo. PALESTINA Existem registros da preocupação das mulheres em trabalho de parto, no período menstrual e durante a amamentação. Também é possível encontrar documentos que demonstram que havia preocupação com o sono, o descanso e algumas patologias, como a tuberculose. Moisés foi uma figura importante quando se pensa em saúde, pois, segundo relatos, difundia a importância dos cuidados de higiene, como afastar objetos contaminados e realizar exame físico nas pessoas consideradas doentes. ÍNDIA Há registros de realização de suturas, amputações e correções de fratura na Índia, assim como a presença de hospitais com narradores de histórias e músicos para cuidar dos que estavam adoecidos. É importante reforçar que tudo indica que somente na Índia existia hospital nesse período da história. GRÉCIA É importante destacar que Hipócrates, na Grécia, apresentou grandes avanços nos estudos do corpo humano, criando a teoria dos quatro humores, referindo-se à importância do equilíbrio interno do organismo, que também sofre influência do meio externo. Percebe o avanço? A concepção mágicoreligiosa começa a ceder espaço para um olhar mais científico em relação à saúde e ao adoecimento. Muitas outras civilizações na Antiguidade contribuíram para a história da construção das políticas de saúde e, como já percebemos, nos deixaram práticas que ainda atravessam o cotidiano da área da saúde. Idade média (476 D.C. a 1453) A Idade Média, também conhecida como “Período das Trevas”, durou cerca de mil anos. Foi um período obscuro em muitos sentidos, com grandes retrocessos, epidemias, perseguições. Nesse período, o poder se centraliza nas mãos da Igreja Católica. Todos os campos eram controlados pela Igreja: educação, cultura, economia, política e saúde. Os cuidados eram direcionados aos mais pobres e doentes. Diante do temor do inferno, a maior parte da população tinha grande dedicação à caridade. A elite abria seus palácios para cuidar dos necessitados com o intuito de garantir um lugar no céu. Saiba mais Na Idade Média, as práticas de saúde que estavam apresentando algum desenvolvimento foram interrompidas e direcionadas por um viés religioso. Os hospitais começaram a surgir como verdadeiros campos de redenção. Não eram locais científicos e terapêuticos e sim depósitos de pessoas para a produção de caridade e doutrinação religiosa. Você percebeu que muitos hospitais ainda hoje possuem nomes religiosos? É comum vermos capelas e altares com santos em hospitais. Isso se deve ao fato do aparecimento significativo dessas instituições na Idade Média sob a direção da Igreja Católica. Os considerados desviantes, aqueles não católicos que queriam estudar e cuidar de pessoas doentes ou necessitadas, eram perseguidos. A tortura era autorizada e o Tribunal da Santa Inquisição foi implantado para julgar atos hereges. Já se perguntou por que desde criança ouvimos histórias sobre bruxas e maldições? Milhares de mulheres foram queimadas ou condenadas à morte nesse período por não se submeterem à Igreja Católica e por produzirem cuidados com base em estudos ou outras crenças. Por representar uma ameaça ao domínio da instituição vigente, essas mulheres eram acusadas de bruxaria e responsabilizadas pelas grandes epidemias que dizimavam a população naquele momento. Finalizando, o que você percebe de herança do período medieval nas práticas atuais de saúde? Muitos pontos podem ser analisados, mas a questão da “caridade” ainda parece estar atrelada equivocadamente ao cuidado e ao conceito de saúde. A ideia de que a atuação na saúde é doação, sacerdócio, não pressupõe boa remuneração, bom salário. Esse aspecto pode influenciar negativamente a valorização do profissional de saúde, e bem sabemos que existe um grande investimento nessa formação. Idade Moderna (1453 a 1789) No período da Idade Moderna, as sociedades passaram por muitas mudanças, como a Reforma Protestante, a transição do feudalismo para o capitalismo e as grandes navegações pelo mundo. Mesmo sendo um momento histórico relativamente curto em relação aos demais, essas transformações sociais trouxeram impactos em diversos âmbitos, inclusive na saúde. Na Europa, a Igreja Católica perde seu domínio e se iniciam os avanços na ciência, como nos estudos da anatomia, por exemplo. As mulheres religiosas que cuidavam em nome da Igreja foram retiradas dos espaços hospitalares e pessoas da sociedade deixaram de ter interesse nesse cuidado, uma vez que a devoção à Igreja Católica não permeava tão fortemente as relações sociais. Já, no Brasil, a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia chegou no período colonial, em 1543, ainda com caráter de abrigo e de espaço para leigos exercerem caridade – portanto, sem nenhum viés científico, que só iniciaria com a vinda da Corte portuguesa para a Colônia e a criação das faculdades de Medicina e de Direito. Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, um dos primeiros hospitais do país. Podemos pensar a Idade Moderna como um momento importante para a transição na concepção de saúde, que deixa de ser prioritariamente objeto de intervenção religiosa e passa a se atrelar à ciência. Hoje tal fato ainda gera controvérsias na concepção de saúde por profissionais que polarizam a discussão do cuidado, acreditando ser válida somente uma intervenção biológica e desconsiderando demais aspectos que envolvem o sujeito como um todo e que precisam ser incluídos na concepção de saúde. Idade contemporânea (1789 até os dias atuais) A partir de 1789 O mundo passa a ser influenciado pelas mudanças ocorridas na Europa e nos Estados Unidos. A ciência passa a substituir com maior expressão os dogmas religiosos, o que reforça a concepção de saúde que vinha ganhando força na Idade Moderna: um olhar fortemente biológico sobre o que pode ser considerado saudável ou patológico. Todos aprendemos na escola sobre a Revolução Francesa, que tinha como lema: “Liberdade, igualdade e fraternidade”. Início do século XVIII Na França muitas mudanças importantes aconteceram em diversos âmbitos. Na saúde, destacamos o surgimento da Psiquiatria com os estudos do médico Philippe Pinel, que reformula os hospitais e rompe com a ideia de loucura como algo sobrenatural. Pinel aplica o tratamento moral aos considerados loucos, tirando deles as correntes e mordaças e implantando o modo asilar de cuidado, que era pautado pelo isolamento até atingir a cura. Atualmente, sabemos que muitos transtornos mentais não têm cura, mas podem ser cuidados a partir de uma perspectiva integral do sujeito, dando-lhe uma vida mais digna e em liberdade. Porém, no início da Idade Contemporânea, a visão biologicista da saúde determinava tratamentos pautados na cura. No século XIX Uma mudança econômica e social tem grande impacto na saúde: a industrialização. O perfil de adoecimento da população muda radicalmente. Muitas pessoas saem da zona rural para buscar emprego nas cidades e, como não há oportunidade para todos ali e tampouco moradia suficiente, o resultado disso é um aumento da população em situação de rua ou vivendo em péssimas condições. O resultado foi um grave adoecimento físico e mental da população. Nas fábricas, a carga horária de trabalho ficava muito acima do considerado digno, o ambiente muitas vezes era insalubre e os trabalhadores adoeciam com as péssimas condições, os acidentes de trabalho aumentavam. Diante dessa conjuntura, foi preciso criar legislações para proteger a saúde desses trabalhadores, surgindo a Medicina do Trabalho. Diante do crescimento do capitalismo, você acha que as mudanças para a proteção da saúde do trabalhador tinham foco no bem-estardo trabalhador ou em não prejudicar a produção nas indústrias? É importante destacar também que, no século XIX, os hospitais começam a sofrer grandes modificações na Europa, e posteriormente no Brasil, afirmando-se como espaços de formação e ciência, movimento que começou na Idade Moderna. Os médicos passam a fazer visitas regulares aos pacientes, a enfermagem surge aos poucos como prática profissional e não leiga e outras profissões vão surgindo posteriormente. A Saúde Pública configura um novo cenário na saúde. Outra mudança importante na Idade Contemporânea tem relação com o lugar das mulheres na sociedade. Nesse período, vemos o fortalecimento do movimento feminista, a luta por direito ao voto, o direito aos estudos superiores e ao trabalho. Com isso, as mulheres vão ocupando aos poucos diversos espaços, incluindo a atuação significativa na área da saúde. Movimento feminista As concepções atuais de saúde Como vimos no início deste módulo, atualmente a concepção de saúde vigente é a descrita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1948, que define saúde não somente como ausência de doença, mas como um completo bem-estar físico, mental e social. Será que conseguimos atingir essa totalidade? Se você pensar na sua vida pessoal, quanto mais amplia os aspectos que inclui na sua reflexão, possivelmente a chance de atingir essa completude fica mais distante. Perceba que utilizamos o termo “possivelmente”, pois uma reflexão inclui diversas particularidades. Se refletirmos sobre os indivíduos sem acesso a quase todos os seus direitos básicos para sobrevivência, devido a faltas e barreiras, não é ainda mais estranho imaginar indivíduos sem acesso à saúde? Muitos pesquisadores criticam essa concepção de saúde ainda vigente, com a justificativa de que é impossível atingir esse nível de perfeição, aliada ao fato de que a OMS separar corpo, mente e social. Para muitos autores, esses três aspectos possuem inter-relação contínua e de difícil divisão. Não é possível medir em que parte exatamente o físico afeta o social e o psíquico e nem todas as combinações possíveis nessa fórmula. Muitos falam também em “qualidade de vida”. Você já deve ter ouvido frases como estas: “Aqui se tem qualidade de vida” ou “Hoje em dia não temos qualidade de vida”. Afinal, o que é isso? Assim como no processo saúde-doença, não temos uma resposta unânime. Para Segre e Ferraz (1997): Não é possível classificar qualidade de vida como "boa" ou "má", mesmo que a Saúde Pública, para a elaboração de suas políticas, tenha seus indicadores – estatística de mortalidade, por exemplo. Não é possível entender a concepção de doença como algo estático, como se fossem doentes (físicos, mentais ou sociais) todos os que se situarem fora do que é dito “normal”. Segre e Ferraz, 1997. Como vimos anteriormente, muitos profissionais e pesquisadores atuam numa lógica biologicista da saúde, o que fragiliza e minimiza as possibilidades de cuidado. Em 1978, houve a Conferência Internacional de Atenção Primária à Saúde, na cidade de Alma-Ata (onde hoje se localiza o Cazaquistão), conhecida como Conferência de Alma-Ata que gerou direções importantes para muitos países de todo o mundo. Essas diretrizes, voltadas para a valorização da Atenção Primária à Saúde, propôs sistemas de saúde universais, ao alcance de todos, olhando cada pessoa em sua singularidade e em seu coletivo, de maneira integral, buscando romper com a lógica curativista e hospitalocêntrica. No Brasil, o fortalecimento na Atenção Primária produziu muitos avanços na concepção de cuidado e na concepção de saúde. Muitos agravos começam a diminuir, em função das intervenções de prevenção e promoção de saúde, realizadas por equipes multiprofissionais e interdisciplinares, ou seja, profissionais com diversas formações trabalhando em conjunto para romper com a lógica médico-curativista. A importância da atuação profissional de saúde O processo saúde-doença Como vimos no módulo anterior, saúde não pode ser entendida somente pelos aspectos biológicos e fisiológicos. O contexto social, econômico, político, cultural, entre outros, precisam ser considerados. Da mesma forma, o olhar direcionado para a doença deve ultrapassar a concepção fisiopatológica e incluir o sofrimento, a dor e tudo que envolve o processo de adoecimento. Cada pessoa tem uma relação muito particular com o processo de saúde e adoecimento, o profissional de saúde deve reconhecer que existe um corpo subjetivo que adoece. Imagine dois casos distintos: Exemplo Marcos e Vanessa possuem o diagnóstico de diabetes tipo 1. Quando perguntam a eles sobre a doença, Marcos sempre diz que é doente, pois é diabético. Já Maria se diz saudável, que o diabetes é apenas uma parte do que ela é e que cuida dessa questão. Conseguem perceber nesse como cada um pode encarar o mesmo diagnóstico de maneira diferente? Muitos autores estudam a questão do conceito e da concepção de saúde. Para Narvai et al (2008), a condição de saúde pode ser definida a partir da soma de três planos: o subindividual, o individual e o coletivo. Vamos ver as características de cada um desses planos. Plano subindividual: Corresponde ao aspecto orgânico, biológico. Divide as questões entre normalidade e anormalidade, ou seja, caso o organismo esteja disfuncional, pode haver duas condições: enfermidade ou doença. A enfermidade é percebida pelo paciente, como a dor, por exemplo. A doença é percebida pelo profissional de saúde e dele ganha uma classificação e um diagnóstico de acordo com o quadro clínico avaliado e definido. Plano individual: Entende que as anormalidades acontecem em pessoas, que são seres sociais e biológicos ao mesmo tempo. Para essa abordagem, saúde pode ir de um extremo bem-estar até o extremo da morte, com questões e eventos intermediários, individuais e coletivos entre esses extremos. Plano coletivo: Amplia mais ainda a questão do processo saúde-doença, entendendo que este vai além da soma de aspectos biológicos e sociais. Há também outros fatores que determinam esse processo: família, residência, bairro, cidade, região, país, continente. Tal abordagem amplia a saúde e o adoecimento para esferas culturais, econômicas, políticas, entre outras. Se pensarmos especialmente nas questões do plano coletivo, percebemos que a saúde é a porta de entrada para a cidadania e que para ter o direito à saúde, garantido pela Constituição Federal de 1988, não basta ter acesso aos serviços de saúde e sim a todos os aspectos que atravessam a condição humana. Diante da falta deles, o adoecimento pode surgir. Atenção! Veja o que diz nossa Constituição de 1988: “Saúde é um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. A Constituição confirma que os serviços e as ações em saúde precisam ser guiados por um olhar ampliado para o sujeito e para as coletividades. Atenção à saúde Outro aspecto importante do processo saúde-doença reside no fato de que, nas questões mais ligadas ao fator biológico, muitas vezes a saúde é “silenciosa”. O que isso quer dizer? Você lembra da sua garganta quando ela está sadia, sem inflamação? Você percebe sua respiração quando ela está num ritmo adequado ou sem obstrução nasal? Possivelmente sua resposta será negativa, pois a doença ou algo que interfira no bom funcionamento dos nossos órgãos denuncia a existência de uma estrutura importante para nossa existência e que precisa funcionar adequadamente. Atenção! É importante também que o sujeito conheça seu corpo e esteja ciente do contexto que o rodeia. Nem sempre isso acontece. É importante que as pessoas sejam orientadas e estimuladas pelos profissionais de saúde a ganhar autonomia, para que cada vez mais possam reconhecersinais de mudanças nos padrões que considera saudáveis para si mesmos. Estamos conversando sobre essa perspectiva ampliada da saúde, mas ainda carregamos muitas consequências do que podemos chamar de concepção ontológica da saúde. *concepção ontológica da saúde Ontologia (do grego ontos "ente" e logoi, "ciência do ser") é a parte da metafísica que trata da natureza, realidade e existência dos entes.[1][2] A ontologia trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres objeto de seu estudo. A aparição do termo data do século XVII e corresponde à divisão que Christian Wolff realizou quanto à metafísica, seccionando-a em metafísica geral (ontologia) e as especiais (Cosmologia Racional, Psicologia Racional e Teologia Racional). Embora haja uma especificação quanto ao uso do termo, a filosofia contemporânea entende que metafísica e ontologia são, na maior parte das vezes, sinônimos. No entanto, a metafísica estuda o ser e os seus princípios gerais e primeiros, sendo, portanto, mais ampla que o escopo da ontologia. * Saiba mais Tal conceito ganha força com o surgimento da bacteriologia, quando Louis Pasteur, no século XIX, identificou microorganismos causadores de doenças. Temos então um abandono dos aspectos sociais até então em voga, inspirados nas teorias de Hipócrates, considerado o pai da Medicina. A concepção ontológica apaga a existência da pessoa e realça a presença da doença. Todo o procedimento é voltado para órgãos considerados “perturbados”, visando recuperar um bom funcionamento e restaurar o equilíbrio do corpo. Mesmo com os avanços nas políticas de saúde, ainda podemos ver muitos profissionais atuando com essa lógica. Para Merhy et al (2014), os usuários possuem modos de vida que são frequentemente julgados pelas equipes de saúde. Estas ficam restritas a um modo de saber tão preponderante, que não abre possibilidades para que certas atitudes, comportamentos e expressões diferentes possam aparecer. No momento atual, predomina a ideia de que se deve superar essa concepção reducionista e levar em consideração tanto as questões individuais quanto as coletivas envolvidas no processo saúde-doença. E isso está diretamente ligado à mudança no modelo de assistência à saúde, que aos poucos deixa de ser hospitalocêntrico e passa a ser fortalecido no território com ações de promoção, prevenção e recuperação em saúde, diminuindo os agravos que necessitam de hospitalização. Esse modelo é chamado de Estratégia de Saúde da Família (ESF), que faz parte da Atenção Básica. O Sistema Único de Saúde (SUS) tem a Estratégia de Saúde da Família (ESF) como um dos principais recursos para promover acesso a todos os usuários de maneira integral, singular, acolhendo as diferenças e dificuldades. Em outras palavras, a ESF possui profissionais que olham os usuários sob diversos aspectos, buscando fortalecimento de vínculo e incluindo o cotidiano e a cultura de cada espaço e pessoa. A Atenção Básica se fortalece a partir desse acolhimento. A Atenção Básica cuida das famílias, incluindo as questões de trabalho, renda, educação, acesso à lazer e cultura, transporte, saneamento básico. É importante reforçar que nesse modelo de Atenção à Saúde ganham espaço diversas profissões e formações na saúde, rompendo com a lógica centrada na figura do médico. Nessa estrutura, médicos são essenciais nas equipes, assim como enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde, psicólogos, dentistas, técnicos em saúde bucal, entre outros. Essa é a perspectiva da interdisciplinaridade, com vários profissionais atuando em conjunto. Além da interdisciplinaridade, é importante focar na intersetorialidade. Ou seja, a área da saúde não consegue dar conta isoladamente do cuidado, é preciso envolver diversos segmentos da sociedade para que as pessoas possam ter suas particularidades e necessidade atendidas. Para Merhy et al (2014), o intuito é a produção de trocas e conexões, é poder conhecer o usuário que está sendo atendido por um determinado profissional. E, a partir desse encontro, entender que outros projetos fazem parte de sua existência, ultrapassando o conhecimento dos profissionais de saúde. Vamos analisar a seguinte situação para entender o que estamos falando: Exemplo Vanessa é usuária da Clínica da Família de sua região, assim como todos seus familiares. O principal acompanhamento de Vanessa é direcionado a suas questões psíquicas, pois a usuária já passou por inúmeras tentativas de suicídio em função de um quadro de depressão recorrente. A escola também acompanha de perto a situação da adolescente, sempre em articulação com a Clínica da Família. Por mais que os serviços de saúde e educação se coloquem à disposição com atendimento singular e entendam que Vanessa tem um quadro psíquico grave e que todas suas atividades precisam ser monitoradas, é preciso apostar e somar com outras possibilidades, que são igualmente potentes e trazem vida para os usuários. Ora, os profissionais de saúde precisam estar atentos: o balé é uma atividade que Vanessa pratica três vezes durante a semana e produz uma sensação de alívio muito grande, segundo seu relato. O balé e a academia de dança são, portanto, decisivos para a recuperação de Vanessa e devem ser considerados pela equipe. Conclusão simples: é possível produzir saúde em espaços que não são necessariamente serviços de saúde. Os determinantes sociais de saúde (DSS) Vimos no módulo anterior que é extremamente importante analisar a situação em que as pessoas vivem, trabalham, estudam para, a partir desses dados, fazer associações com seu estado de saúde. Em 2006, foi criada a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais de Saúde (CNDSS) que estabeleceu que: Os DSS são fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população. Buss; Pellegrini Filho, 2007. A análise dos DSS tem a ver com a singularidade do cuidado e a necessidade de os profissionais de saúde olharem o sujeito como um todo. Porém, precisamos pensar em outras questões que são cruciais nesse processo. Exemplo A construção de políticas públicas para amenizar as iniquidades tão grandes em nosso país, buscando atingir a equidade. Políticas públicas: Resposta que o Estado precisa dar para solucionar determinado problema coletivo com ações e serviços, ou seja, as políticas públicas não se baseiam em casos isolados, mas em situações que expressam danos e fragilidades significativos em uma parcela população. Inequidade: Diferenças que causam prejuízos e não somente de diferenças injustas. Equidade: Respeito à igualdade de direito de cada um, mas também é uma forma de localizar as iniquidades direcionando cuidados diferentes para cada situação. Por exemplo, suponha que uma criança e um adulto queiram enxergar o que existe atrás de um muro alto. Atente que a estatura da criança é significativamente menor que a do adulto. Se fôssemos pensar na perspectiva da igualdade, daríamos um banco do mesmo tamanho para dos dois e, então, o adulto conseguiria enxergar além do muro e a criança não. Na perspectiva da equidade, teríamos de dar um banco mais alto para a criança, assim os dois conseguiriam enxergar além do muro. Isso é equidade. A Organização Mundial de Saúde define DSS como as condições sociais em que as pessoas vivem, isso inclui todos os aspectos envolvidos que já apontamos: educação, ambiente de trabalho, desemprego, água e esgoto, serviços sociais de saúde, habitação, produção agrícola e de alimentos. Esses fatores sociais, econômicos, psicológicos, étnicos/raciais, culturais e comportamentais serão incluídos em políticas públicas que ultrapassem as políticas direcionadas à saúde e que abordem questões de renda, lazer, mobilidade, entre tantas outras. No móduloanterior, citamos a Conferência de Alma-Ata, que aconteceu no final da década de 1970 e influenciou diversos países do mundo na questão do fortalecimento das ações primárias em saúde, tendo como lema: “Saúde para todos nos anos 2000”. Nesse sentido, os DSS ganham destaque na agenda de ações prioritárias. Existe um modelo amplamente utilizado para explicar os DSS: Determinantes Sociais: modelo de Dahlgren e Whitehead. Na base do modelo estão características como sexo, idade e fatores genéticos. Na camada logo acima, aparecem o comportamento e o estilo de vida individuais. Depois, percebemos as redes comunitárias e de apoio que também influenciam a saúde. Acima, aparecem os fatores que têm ligação com vida e trabalho, como saúde e educação, disponibilidade de alimentos e acessos a ambientes e serviços essenciais. No último nível, estão localizados os macrodeterminantes relacionados às condições econômicas, culturais e ambientais da sociedade, que influenciam de maneira significativa as demais camadas. Segundo Buss e Filho (2007), o modelo trabalhado por Dahlgren e Whitehead divide os DSS em camadas, começando por uma de determinantes individuais até chegar a uma camada mais distante, onde encontramse os macrodeterminantes. Como se vê na imagem anterior, o modelo mostra claramente os DSS, porém não detalha as relações entre os níveis e a origem das iniquidades. Um caso para entender a integralidade do cuidado: Exemplo Carla, 34 anos, negra, desempregada, moradora de uma comunidade com grande vulnerabilidade no estado do Rio de Janeiro, vive em uma casa de dois cômodos com seus três filhos, a casa não tem esgoto nem água encanada. Para conseguir alimentar as crianças, Carla organiza o trabalho: cada um vai para um ponto específico da cidade vender doces. Alguns dias as vendas rendem para comprar pão, ovo e arroz. Em outros, o dinheiro não dá para quase nada e então Carla conta com a caridade dos vizinhos. As crianças não estão matriculadas na escola, pois precisam trabalhar e precisariam de transporte público para estudar – o acesso ao ônibus é difícil. Carla e a família estão cadastradas na Clínica da Família da região, porém, como moram em uma parte mais afastada da comunidade, precisam andar por caminhos perigosos, com grande presença de violência, até chegarem aos profissionais de saúde. Se pensarmos no trabalho da Estratégia de Saúde da Família, todos esses determinantes sociais e todas as características da família de Carla precisarão ser incluídos no acompanhamento da equipe de saúde. Do mesmo modo, a articulação intersetorial com serviços de assistência social para pensar em um suporte financeiro a essa família. A articulação com a escola seria fundamental para pensar na situação das crianças. Esse caso hipotético deixa clara a importância de um trabalho que inclua os determinantes sociais de saúde. Sem esse olhar ampliado, os profissionais não conseguem realizar um acompanhamento pautado na integralidade do cuidado. Saúde pública e saúde coletiva Para finalizarmos este módulo, vamos tratar um pouco de conceitos importantes que muitas vezes se misturam na prática cotidiana dos serviços e ações em saúde. Eles foram e ainda são analisados por importantes pesquisadores e protagonistas do processo de Reforma Sanitária no Brasil. Veja a seguir: Saúde pública Nasce semelhante ao modelo biomédico, no início do século XX, com campanhas direcionadas à limpeza dos portos, à saúde materno-infantil e ao ambiente. É tradicionalmente conhecida por ter um modelo campanhista de intervenção e o Estado como protagonista das ações para a população. Saúde coletiva Surge no Brasil no final da década de 1970, com um grupo de profissionais da Saúde Pública e da medicina preventiva e social que desejava um campo científico que incluísse a questão social. Foca em promoção da saúde, incluindo fortemente os Determinantes Sociais da Saúde no cuidado, a partir de uma relação horizontal com o território. Muitos estudiosos da Saúde Pública criticam a Saúde Coletiva por focar muito no social e deixar de lado as questões biológicas e subjetivas. Por outro lado, os adeptos da Saúde Coletiva apontam a maneira vertical e institucionalizada da atuação da Saúde Pública. De um lado, a Saúde Pública diz respeito à conservação da vida, à realização de diagnósticos e tratamentos necessários para doenças que possam prejudicar a manutenção da saúde dos sujeitos, ou seja, ela trabalha mais com o conceito de “ausência de doença”. De outro lado, a Saúde Coletiva tem um viés político importante na história da Reforma Sanitária no Brasil, ela defende conhecer e criar vínculos com os clientes no território, além das ações de diagnóstico e tratamento – os profissionais que atuam na Saúde Coletiva analisam questões históricas e culturais de determinada área para compreender o processo de saúde-doença da coletividade. Atenção! Algo importante a se destacar é que as mudanças e ações necessárias no âmbito da Saúde Pública dependem das possibilidades do Estado. Já na Saúde Coletiva as mudanças e ações surgem a partir do território, o que pode gerar conflitos com as possibilidades abertas pelo Estado. A Saúde Pública e a Saúde Coletiva têm importância no Sistema Único de Saúde (SUS), mas ainda há certa confusão quanto às suas práticas. Entenda: Como exemplos de atuação da Saúde Pública, podemos citar o Programa Nacional de Imunização (o calendário de vacinas), as campanhas e o Programa Materno-Infantil. Quanto à Saúde Coletiva, podemos referir as ações que visam a promoção à saúde, como os grupos de acolhimento para pessoas com depressão ou as orientações sobre alimentação saudável de acordo com a realidade de cada território. Como exemplos de atuação, podemos citar as Unidades de Atenção Básica do SUS e em Clínicas da Família. Considerações finais Visitamos períodos históricos e vimos a evolução do conceito de saúde ao longo do tempo. Estudamos também aspectos importantes como Determinantes Sociais de Saúde, Saúde Coletiva e Saúde Pública. Vimos como é importante que o profissional de saúde atue baseado numa concepção ampla de seu campo de trabalho, rompendo com a lógica biologicista reducionista e incluindo mais ingredientes em sua atuação: as questões sociais, econômicas, culturais, políticas, entre outras. Há muitos desafios para atingir a integralidade do cuidado. Por isso é tão necessário abordar as questões tratadas neste estudo desde o início da formação dos futuros profissionais de saúde, com foco na interdisciplinaridade e na intersetorialidade, para que possamos nos aproximar de um modelo de saúde universal e acolhedor. Tema 2: Histórico das Políticas de Saúde; INTRODUÇÃO Todos nós temos direito de acessar o Sistema Único de Saúde (SUS), seja por serviços ou ações de saúde, como vacinas, consultas e exames, seja pelo restaurante que você frequenta, que tem ação da Vigilância Sanitária, ou pela medicação que você usa, que tem participação do SUS na formulação, entre tantas outras áreas. A concepção ampliada de saúde ultrapassa o entendimento meramente biológico. Dessa forma, é necessário um sistema de saúde com ações de promoção, prevenção e recuperação, incluindo no cuidado as questões sociais, econômicas, políticas, culturais, entre outras. Assim, é preciso um sistema complexo e universal, ou seja, todos devem ter acesso sem qualquer limitação. Você acha que sempre foi assim? Atualmente, o nosso direito é garantido pela Constituição Federal de 1988. Para chegar a essa grande conquista, existiu um longo caminho histórico de construção e desconstrução na área da Saúde. Veremos ao longo desse material os diversos períodos históricos, as dificuldades, as mudanças e as consequências de todo o processo até chegar ao atual momento. A proposta principal desse conteúdo é que você possa refletir sobre o impacto de toda a construção histórica das políticas de Saúde sobre o atual sistemade saúde e que consiga ter uma atuação profissional reflexiva baseada no conteúdo teórico trabalhado, considerando a realidade da prática. Por que precisamos estudar História? Existem muitas respostas possíveis para essa pergunta, mas uma resposta costuma ser consenso: estudamos História para aprender com o passado e planejar o futuro, evitando a ocorrência dos mesmos equívocos. Uma parte significativa dos que escolhem cursar uma graduação na área da Saúde relata não ter grande apreço por estudar conteúdos históricos e filosóficos. No entanto, ao trabalhamos com o conceito ampliado de saúde, é preciso compreender todo o contexto em que vive cada sujeito e, para isso, é imprescindível pensar nas questões históricas que geram as iniquidades e a dificuldades de acesso aos serviços e ações públicas de saúde. É primordial, por exemplo, conhecermos a história da profissão que escolhemos exercer, pois isso fortalece a identidade profissional, auxiliando a configurar cada uma delas como corpo político e social. Na mesma proporção, é essencial conhecermos a história das políticas de Saúde, como o processo foi se construindo, desconstruindo e reconstruindo, para chegar ao momento atual, que traz dificuldades significativas e avanços importantes. Nesse módulo, o foco será na evolução das políticas de Saúde no Brasil. O que seria uma política pública de saúde? Podemos dizer de maneira bem simples que uma política pública de saúde diz respeito a uma resposta do Estado para uma necessidade encontrada na sociedade. Ou seja, para enfrentar os problemas relacionados à saúde, são criadas as políticas públicas, que trarão impactos à vida da população. É importante ter clareza sobre um ponto: as políticas públicas de saúde nascem a partir de questões social e coletiva e não a partir de algo individual. Não podemos utilizar situações pontuais e isoladas para justificar uma política de saúde. A coletividade é o foco, porém, obviamente, ocorrerão também impactos nos indivíduos de maneira singular. O Brasil apresenta uma desigualdade social muito significativa. O Estado precisa garantir um sistema de saúde que busque diminuir as iniquidades, aumentar o acesso, pensando muito além da construção de hospitais. Grande parte da nossa população vive em condições precárias e, certamente, tal fato é resultado de um processo histórico de distribuição de renda fortemente desigual. O SUS existe a partir da premissa de que saúde é direito da população e deve ser garantida pelo Estado. Mesmo ainda com tantos desafios, podemos observar muitos avanços. Até chegarmos ao SUS, tivemos um longo caminho de construção das políticas de Saúde. Vamos ver, a partir de agora, como se dava essa questão em períodos históricos específicos. BRASIL PRÉ-COLONIAL Quando falamos em Brasil pré-colonial, estamos abordando o período em que o país ainda não havia sido colonizado por Portugal, ou seja, o período anterior ao ano de 1500. Nessa época, milhões de indígenas viviam em diversas tribos distribuídas por todo o território nacional. Os indígenas tinham suas próprias culturas, crenças e formas de organização social. Os rituais e práticas curativas com uso de plantas e chás eram realizados nas aldeias e conviviam com as questões que atravessavam a saúde, podendo realizar cuidados conhecidos até hoje. Quando os portugueses chegaram, a população indígena foi dizimada pelas novas doenças trazidas pelos europeus, como cólera e varíola, e sofreram inúmeras intervenções em sua cultura e crença, sendo alfabetizados em português, catequizados pelos líderes católicos e servindo de mão de obra escrava. As pesquisas mostram que, na década de 1970, o país não chegava a ter 100 mil indígenas. Lembra que vimos que milhões de indígenas moravam aqui antes da chegada dos portugueses? Alguns estudos apontam que eram aproximadamente cinco milhões. Pense em quantas vidas se perderam. Como seria possível responder a tal tragédia? Através de políticas públicas voltadas para a população indígena. Em função dessas políticas públicas, o censo de 2010 apontava que o país tinha uma população de cerca de 800 mil indígenas. Ou seja, é preciso investir nas políticas de Saúde para que essa população tenha melhores condições de vida. BRASIL COLÔNIA A partir do momento que Portugal chegou ao Brasil, iniciamos o período chamado de Brasil Colônia, que vai de 1500 a 1822, quando sofremos grandes mudanças culturais, sociais, políticas e econômicas. Apesar das intervenções e perdas envolvendo os indígenas, muitas práticas utilizadas pelas tribos nativas foram aproveitadas pelos boticários no período colonial. Você sabe quem eram os boticários? Atualmente, entende-se que foram os precursores dos farmacêuticos. Eles viajavam por todo o país, prescrevendo remédios, poções e misturas para pessoas consideradas doentes. É importante reforçar que, naquele período, os médicos eram praticamente inexistentes no país e que a população ficava muito desamparada em relação à assistência em saúde. Para algumas doenças como a hanseníase, conhecida popularmente como lepra, as medidas tinham muito mais relação com afastar o chamado leproso do convício social do que em tratar sua questão de saúde. Cabe falar que as pessoas acometidas por essas doenças infectocontagiosas eram direcionadas para locais isolados, coordenados por religiosos. Outra questão importante diz respeito à chegada dos escravos africanos ao Brasil. Depois de algum tempo, o local de desembarque dos navios negreiros passou a ser realizado em local afastado para permitir a separação de escravos considerados saudáveis dos escravos considerados doentes. Percebe que não existia medida de cuidado em saúde, mas uma exclusão higienista e preconceituosa? Somente em 1808, com a chegada da corte portuguesa no Brasil, percebemos um estímulo maior para a presença médica, diante da necessidade de cuidar da nobreza. Foram inauguradas a Escola de Cirurgia do Rio de Janeiro e o Colégio Médico-Cirúrgico em Salvador. Alguns estudos apontam tentativas de construção de escolas de ensino superior para formação médica antes da chegada da corte portuguesa no Brasil, mas possuir formação em nível superior era considerado algo proibido por Portugal nos tempos do Brasil Colônia. Você consegue perceber que o avanço que começa a acontecer, com a vinda das escolas de formação médica, tem relação direta com a presença e interesses de um grupo privilegiado e nenhuma relação com as necessidades da população? Veremos adiante que essa lógica está sempre atravessando a construção de ações e serviços de saúde em nosso país. BRASIL IMPERIAL Esse período histórico começou com a Proclamação da Independência do Brasil por D. Pedro I em 1822 e foi até 1889, quando aconteceu a Proclamação da República. É importante reforçar que pouco se tem para relatar sobre avanços ou mudanças na área da saúde. As ações limitavam-se a manter certa higienização no Rio de Janeiro, a capital do Império, em função da grande disseminação de doenças e condições precárias de vida e da proteção da nobreza portuguesa. Essas ações eram realizadas principalmente com intuito de evitar grandes perdas financeiras diante do aumento significativo de doenças, já a questão da qualidade de vida para população não era levada em consideração. Algumas tentativas foram feitas como a criação da Junta de Higiene Pública para unificar os serviços sanitários do império a partir do surgimento de casos de febre amarela. Mesmo com essa criação, alguns anos depois a situação sanitária do país ainda continuava muito frágil; posteriormente foi instituído o Conselho Superior de Saúde Pública, que também não surtiu grandes efeitos práticos sobre a situação da salubridade do país. Você consegue perceber a fragilidade e desinteresse nesse período em cuidar da saúde da população? Considerando nossa sociedade escravocrata, a saúde da maior parte da população não eraobjeto de preocupação. Por isso, temos pouco a relatar em relação a mudanças positivas para a saúde em seu significado amplo: biológico, social, econômico, político, entre outros. PRIMEIRA REPÚBLICA Esse período histórico, que começou em 1889 com a Proclamação da República e terminou em 1930, também é conhecido como “República Velha”. Tivemos nesse período uma alternância no governo do país entre os estados mais ricos: o Rio de Janeiro; o São Paulo; o Minas Gerais. Houve um grande incentivo à cafeicultura, que se tornou o setor de destaque na economia, com boa parte do seu lucro direcionada para a industrialização e urbanização. Tal fato proporcionou um grande aumento da população nas cidades, com grande êxodo rural nesse período. Aconteceu também significativo aumento da imigração de europeus, principalmente, para trabalhar como mão de obra assalariada nas lavouras de café, tendo em vista que a escravidão foi abolida em 1888. Diante desse aumento da população urbana, tivemos também um crescimento na transmissão de doenças e o surgimento de novos agravos de saúde, o que prejudicava fortemente a economia brasileira. Apesar de parecer estranha, essa lógica do mercado prevalecia e ganhava mais força ao longo do tempo. A preocupação com a saúde da população era muito inferior em relação à preocupação com as finanças do país. Existia forte ameaça com a presença significativa de varíola e febre amarela e, para isso, era necessária a adoção de ações voltadas para o enfrentamento dessas doenças. Nesse período, a saúde pública começava a ter um desenvolvimento mais acelerado no país, com práticas fortemente pautadas na Bacteriologia e Microbiologia. A partir da descoberta de microrganismos patogênicos, as práticas sanitaristas começaram a se estruturar. As campanhas sanitárias agiram fortemente nos portos, no controle de doenças e no saneamento, organizando serviços de saúde pública. Cada vez mais, no final do século XIX, ganhava visibilidade a necessidade de ampliar as ações de comércio no exterior e contratar imigrantes para trabalhar no país. Com uma estrutura pouco eficaz para enfrentar a questão epidemiológica, foram criados laboratórios de saúde pública e serviços sanitários foram organizados. Saiba mais Nessa época, importantes atores no processo de fortalecimento da Saúde Pública, como Vital Brasil, que testou soros e vacinas, e Emílio Ribas, que atuou fortemente no combate a epidemias e endemias, principalmente em relação à febre amarela, que vinha apresentando uma taxa de mortalidade muito alta. Muitos sabiam que, ao chegar no Rio de Janeiro, poderiam adoecer gravemente ou até morrer. Então, nosso país ganhou fama de ser um local altamente insalubre. Em função dessa situação, no ano de 1900, foi criado o Instituto Soroterápico Municipal. No governo de Rodrigues Alves (1902-1906), tivemos a presença marcante do sanitarista Oswaldo Cruz à frente da Diretoria Geral de Saúde Pública, com foco em ações higienistas para responder às questões de saúde no Brasil. O principal papel de Oswaldo Cruz era erradicar a febre amarela, sendo necessário convencer a população sobre a as intervenções de controle do vetor e vigilância das pessoas adoecidas. Imagine a seguinte cena: Você ouve alguém bater na porta de sua casa e, ao abrir, uma equipe invade seu espaço e começa a destruir colchões e cortinas e limpar possíveis reservatórios de mosquitos. Ou ainda lhe expulsa de sua moradia, alegando que sua casa está impossibilitada de continuar habitada. Qual seria sua reação? Essa cena foi proposta para dar dimensão das reações populares diante do que foi chamado de modelo campanhista de intervenção, implementado por Oswaldo Cruz para enfrentar as epidemias da época. É importante ressaltar que essas campanhas sanitárias eram altamente repressivas, interditando e invadindo casas, sempre com a presença da chamada polícia sanitária. Agora vamos imaginar outra situação: Algum profissional de saúde se aproxima de você e aplica uma vacina, sem a menor explicação. O que você faria? Atualmente, recorremos à vacinação porque temos acesso à informação e sabemos que as vacinas são potentes para a erradicação de muitas doenças. Porém, nem sempre a população teve acesso a essas informações. javascript:void(0) Veja como a vacinação era vista: Em 1904, foi aprovada uma lei que tornava obrigatória a vacinação contra varíola, medida também coordenada por Oswaldo Cruz. A forma violenta e invasiva desse processo, com a ação da polícia sanitária novamente, provocou uma revolta sangrenta da população em relação à medida governamental. Esse movimento ficou conhecido como Revolta da Vacina, tendo duração de aproximadamente seis dias, no Rio de Janeiro, até ser reprimido pelo governo. Em seguida, a lei que tornava a vacina obrigatória foi revogada. Houve significativa queda no número de pessoas com varíola, mas a maneira como a ação foi realizada trouxe outros prejuízos para a população. Em 1920, houve a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública e foi implementada a chamada Reforma Carlos Chagas, que trouxe uma separação entre saúde pública e previdência. É importante que você saiba que, nesse período, as famílias que tinham uma posição social privilegiada recorriam aos médicos que iam às suas casas e recebiam pagamento pelos serviços prestados. Já a maior parte da população, pobre, precisava buscar cuidados em instituições filantrópicas ou religiosas. Em 1923, foi criada Lei Eloy Chaves, que representou o início da previdência social e trouxe as Caixas de Aposentadoria e Pensão (CAP) – que eram responsáveis pelos benefícios dos funcionários e organizadas por cada empresa, de natureza privada. O financiamento das CAP era feito a partir de um desconto do valor recebido pelos funcionários e de recursos dos empregadores. A arrecadação variava de acordo com cada empresa. Naquele momento, a iniciativa pública somente atuava na resolução de conflitos. A partir da criação da previdência social, podemos perceber uma mudança política do Estado diante das questões de saúde e de trabalho, com maior atenção às questões sociais, porém ainda muito distante das necessidades da população. ERA VARGAS No período conhecido como Era Vargas, que foi de 1930 a 1945, tivemos importantes mudanças jurídicas e de proteção social no país. A perda de importância da cafeicultura trouxe prejuízos políticos para a classe dominante da época. Houve um movimento de pessoas da elite não ligadas à cafeicultura para fim da hegemonia da chamada “política do café com leite”, que contou com grande apoio de diversos grupos da sociedade. Com esse movimento, que ficou conhecido como Revolução de 1930, Getúlio Vargas chegou ao poder, trazendo importantes avanços sociais. Mas seu governo também foi extremamente autoritário, o que fez com que se tornasse um dos políticos mais enigmáticos da história brasileira. A Era Vargas foi marcada por forte perseguição à oposição e teve como um dos principais marcos a criação do Estado Novo, em 1937 – um regime de ditadura, com forte centralização de poder, que durou até 1945. O cenário da saúde no Brasil nesse momento era composto pela medicina previdenciária, pelas instituições filantrópicas e por profissionais médicos liberais. Houve também algum avanço com a construção de departamentos de saúde no interior do país e a criação do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), que focava em áreas com pouca ou nenhuma cobertura pelos serviços oferecidos pelo governo. Os trabalhadores da época conseguiram que o salário-mínimo fosse aprovado, porém o período era de crescente inflação, com grande piora nas condições de vida. Diante disso, a luta trabalhista precisava continuar, inclusive para conseguir melhor assistência de saúde. Foram criados os Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAP), que eram organizados por categorias profissionais. Algumas categorias foram mais beneficiadas que outras,gerando grandes desigualdades financeiras e nas condições de trabalho. Com a crescente industrialização, havia preocupação com a produção e, assim, com as condições físicas dos trabalhadores. Por isso, muitas empresas criaram serviços de saúde ambulatoriais. As classes mais beneficiadas eram os: o Marítimos o Ferroviários o Comerciantes o Bancários o Funcionários públicos Atenção É importante lembrar que os trabalhadores urbanos tinham muito mais acesso a esses avanços que os trabalhadores rurais. Lembra que falamos sobre as CAP, que eram organizadas pela iniciativa privada? Quando ocorre a mudança para os IAP, houve incremento da participação pública e significativa dependência do governo federal. Porém, esses institutos serviram mais como criadores de reserva financeira para o governo do que como prestadores de serviços à população. Nesse ritmo acelerado de industrialização nacional, outro destaque foi o crescimento da indústria farmacêutica, o que reforçava a concepção de saúde reducionista como algo biológico que pressupõe uma prática unicamente curativista, restando pouco espaço para ações de prevenção e promoção da saúde. É possível identificar avanços importantes nessa etapa da nossa história, como a ampliação de alguns direitos trabalhistas, porém muitas questões estruturais permaneciam, como a orientação de estruturar um modelo embasado nos interesses das grandes empresas e pouco estruturado nas reais necessidades de saúde da população em geral. Será que isso mudou nos anos posteriores? Veremos mais períodos históricos adiante para analisarmos. PERÍODO DE REDEMOCRATIZAÇÃO Esse período da história brasileira começou em 1945 e foi até 1964. O mundo passava por muitas mudanças e crises decorrentes do fim da Segunda Guerra Mundial e o Brasil foi influenciado por essas questões. A população, insatisfeita com o governo Vargas, passou a reivindicar democracia, o que levou ao encerramento da ditadura de Vargas e ao início de um processo democrático, de eleições diretas para os cargos políticos do governo; a imprensa ganhou maior liberdade e os sindicatos se organizaram novamente. Mesmo com algumas flexibilizações, certas ações anteriores ainda foram mantidas, como, por exemplo, o intervencionismo nos sindicatos e em partidos políticos de oposição pelo presidente Eurico Dutra. O Brasil teve fortalecida sua aliança com os Estados Unidos; os movimentos sociais ganharam força em sua luta por melhores condições de vida e busca por melhores condições de saúde e de trabalho. Lembra que falamos sobre o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) criado no período anterior? Nessa fase, em função dessa aliança do Brasil com Estados Unidos, o SESP teve uma atuação forte de assistência à saúde dos trabalhadores da Amazônia que faziam extração de borracha, pois eles ficavam muito suscetíveis a contraírem malária. Como a borracha era importante para as questões que envolviam a 2ª Guerra Mundial, era primordial manter esses trabalhadores saudáveis para não prejudicar a produção. Percebe algo que estamos conversando desde o início desse conteúdo? Qual questão prevalece nessa conduta: o interesse do mercado ou as necessidades de saúde da população? Em função das ações de Saúde Pública passarem por uma significativa expansão, foi criado em 1953 o Ministério da Saúde, que teve atuação pouco significativa e recebia poucos recursos financeiros por parte do governo. Havia uma luta para que os IAP fossem unificados e prestassem assistência médica aos seus trabalhadores. Entretanto, essa ideia não foi adiante, pois muitos acreditavam que uma fusão nos IAP poderia diminuir a qualidade dos serviços. Dessa maneira, os IAP que tinham mais recursos construíam seus próprios hospitais. É importante que você saiba que, nesse período, houve um investimento muito maior em construção de hospitais do que em serviços e ações de atenção primária. Como vivíamos uma segunda fase da industrialização, houve crescimento no número de equipamentos para exames e procedimentos médicos e da indústria farmacêutica, com a produção de novas medicações consideradas promissoras. Ou seja, o foco ainda permanecia em curar e não em prevenir e promover saúde da população. Você consegue perceber que, mesmo com avanços, o passado continua bem presente nesse momento? REGIME MILITAR Em 1964, ocorreu um golpe de Estado que colocou os militares à frente do governo do país, encerrando todas as instituições que buscavam por reformas de base, suspendendo direitos e punindo violentamente todas as pessoas que se opunham ao novo regime de governo. Muitos estudantes, políticos, artistas, líderes sindicais e até religiosos que lutavam por mudanças e melhores condições de vida foram presos e perseguidos. O argumento utilizado era a necessidade de proteger o país contra uma possível ameaça comunista, com promessas de garantir segurança e acabar com a corrupção. Saiba mais O chamado “milagre econômico” conferiu aumento da produtividade do país, aumentou a carga horária dos trabalhadores e reduziu salários, constituindo um período de grande concentração de renda para poucos e de altos índices de pobreza, inflação e desemprego para a maior parte das famílias do Brasil. Com o aumento da miséria, nossa população adoeceu mais – deu-se o surgimento de epidemias como poliomielite e meningite, e os veículos de mídia foram censurados em relação à divulgação dos dados alarmantes sobre essas epidemias. Mesmo diante desse cenário, houve um corte significativo e progressivo dos recursos destinados à saúde pública, e o Ministério da Saúde atuava muito mais numa perspectiva individual de saúde do que numa perspectiva coletiva. Houve também a intensificação do modelo hospitalocêntrico, ou seja, um modelo de saúde que focava na construção de hospitais como principal estratégia de assistência. Consegue notar o predomínio da lógica curativista na saúde? Parece fazer parte da lógica da industrialização – os grandes hospitais romperam com a lógica artesanal de cuidado e passaram a focar em produtividade. Por conta disso, os gastos cresceram muito, pois o governo financiava a construção de hospitais pela iniciativa privada e a população, em sua maioria, não tinha acesso a esse parque hospitalar. Você sabia que, nesse período, tivemos um crescimento desenfreado de hospitais psiquiátricos, mais conhecidos como hospícios? Nesses locais, muitas pessoas consideradas indesejadas pela sociedade eram depositadas, sofrendo violência e abandono e passando por grande negligência. QUEM ERAM ESSAS PESSOAS? Mulheres cujos maridos não queriam mais manter o casamento, homossexuais, negros, pessoas com deficiência física e pessoas com transtornos mentais, dentre tantas outras situações. O sofrimento acontecia entre muros, deixando as ruas sem a presença dos que eram vistos como desviantes. Em 1967, tivemos a fusão de todos os IAP, formando o Instituto Nacional da Previdência Social (INPS), com grande concentração de recursos financeiros, o que aumentou a compra de serviços e ações da iniciativa privada. É importante reforçar que os trabalhadores sem vínculo formal de trabalho não possuíam direito a usufruir da previdência social. O INPS destinava boa parte dos seus gastos à cobertura de assistência médica individual especializada. Podemos notar mais uma vez a desvalorização das ações de saúde pública de viés preventivo e coletivo. Nesse período, havia o predomínio da busca por consultas médicas individuais. A medicina era vista como detentora da cura. Houve um crescimento importante de faculdades privadas de medicina – muitas vezes distantes da realidade das necessidades de saúde da população –, com formação fortemente embasada em equipamentos modernos e medicações lançadas a todo momento pela indústria farmacêutica. Perceba que não existia grande espaço e autonomia para as demais profissões da saúde, era um modelo hospitalocêntrico e médico-centrado. Atenção É primordial o reconhecimento da importância das universidades nesse cenário. A partir da impossibilidade da participação de trabalhadores e pesquisadores da saúde na formulação das políticas sanitárias, o meio acadêmico configurou-se como um importante espaço de luta e resistência para romper com as iniquidades e barreiras encontradas para acesso à saúde. A medicina comunitária começou a ganhar espaço no Brasil, fortemente apoiada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e propunha um acompanhamento em todo o território, com forte atuação de agentes de saúde, conhecedores da realidade do local, através de ações mais simples, com caráter de prevenção e participação da comunidade. Aconteceu também nesse período, o Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento (PIASS) para levar saúde às populações mais carentes e com menos acesso. Em 1975, tivemos a V Conferência Nacional de Saúde, que instituiu o Sistema Nacional de Saúde e deixou uma divisão clara na área: Diante da grave crise financeira no INPS, foi criado o Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social (SINPAS), com a finalidade de reorganizar o modelo vigente através do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS) – responsável pela assistência médica dos trabalhadores – e do Instituto de Arrecadação da Previdência Social (IAPAS), que cuidaria do Fundo de Assistência da Previdência Social. Mesmo com a ideia de organização a longo prazo, percebe-se uma fragmentação do sistema nesse modelo de organização. Tivemos, nesse período, a proposta do Programa Nacional de Serviços Básicos de Saúde (PREV-SAÚDE), que buscava ampliar e reestruturar os serviços e ações de saúde, o saneamento e a habitação. Propunha colocar a atenção básica como porta de entrada do sistema, a partir de uma hierarquia no atendimento. Também propôs a regionalização do sistema, a participação da população e integração entre serviços públicos e privados. Por tratar-se de um período de ditadura militar, esse programa não foi aprovado. Atenção É importante que você saiba que o INAMPS (1977- 1993) configurou uma assistência bem segmentada à saúde, promovendo atendimento individual e especializado aos que contribuíam com a Previdência Social. Há até bem pouco tempo atrás era muito comum que pessoas com idade mais avançada apresentassem a carteira de trabalho aos profissionais de saúde, acreditando que seria necessária para o acesso, fato ainda recorrente nos dias de hoje nos serviços de saúde do SUS. É essencial que a população receba a informação de que, atualmente, o sistema público da saúde é um direito de todos. Podemos observar no início dos anos 1980 um desgaste profundo em diversos âmbitos, inclusive no da saúde. Tal desgaste fortaleceu os movimentos em busca de uma reforma sanitária a fim de romper com a lógica de saúde como mercadoria e a visão restritamente biológica. Também houve uma busca maior pela inclusão das questões sociais, culturais, políticas e econômicas ao lidar com saúde. REFORMA SANITÁRIA Não existe uma data específica para colocarmos como início do processo de Reforma Sanitária Brasileira. O que podemos afirmar é que esse movimento, que ganhou força entre as décadas de 1970 e 1980, não tem fim, precisa continuar acontecendo sempre, ou seja, a reforma sanitária é um processo constante. Esse processo nasceu da luta contra a Ditadura e podemos observar que um objetivo fortaleceu o outro: Movimento de reforma sanitária fortaleceu movimento de abertura democrática Movimento de abertura democrática fortaleceu movimento de reforma sanitária O movimento sanitarista pela reforma vinha, desde a década de 1970, solicitando mudanças no modelo centrado no médico e no hospital, buscando fortalecimento do setor público da saúde e com foco em cuidados primários. Somente na década de 1980 que todos os pontos defendidos passaram a ganhar espaço. No início dessa década foi criado o Programa de Ações Integradas de Saúde (AIS), que propunha a integração dos serviços de saúde prestados à determinada região. Cada estado teria convênio com o Ministério da Saúde e o Ministério da Previdência para executar o programa. A ideia era unir a assistência de saúde pública com a assistência médica individual, diferentemente da lógica anterior do INAMPS e dos grupos privados de medicina. Reforma sanitária é um movimento que busca modificar não somente a assistência à saúde, mas mudar todo o paradigma que envolve o conceito de saúde, provocar mudanças e transformações na prática, para melhorar as condições de vida da população. O termo “Reforma Sanitária” teve grande inspiração na experiência italiana. Alguns chamavam os protagonistas desse movimento de “partido sanitário”, dando um ar depreciativo ao que ia muito além disso – tratava-se de uma ação mobilizada pelo social. É importante que você perceba que todo processo de mudança enfrenta grandes dificuldades, desde apelidos pejorativos e informações equivocadas a ações mais violentas de repressão. Um tema presente no processo inicial de reforma sanitária foi “Saúde é Democracia”, que ganhou força nas universidades e nos sindicatos, com ápice em 1986, durante a realização da VIII Conferência Nacional de Saúde, da qual falaremos mais adiante, que teve como um dos seus principais representantes Sérgio Arouca. Outro ponto importante é que você saiba que a concepção de saúde e assistência estava se modificando no mundo todo. Um momento bastante importante e que influenciou o Brasil foi a Conferência de Alma-Ata, que aconteceu em 1978 no atual Cazaquistão, organizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para priorizar os cuidados primários em saúde, principalmente nos países em desenvolvimento. Esse encontro gerou um documento conhecido como Declaração de Alma-Ata, que trouxe pontos essenciais e orientadores para a implementação da Atenção Primária da Saúde. A tese defendida por Sérgio Arouca, em 1975, chamada “O Dilema Preventivista”, impulsionou a ideia da reforma sanitária. Também ajudaram na ideia de um movimento que reformasse a saúde no Brasil a criação, em 1976, do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (CEBES) e, em 1979, da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO). Essa duas instituições ainda hoje são altamente relevantes, para um sistema que seja integral, fazendo dentro dele a interlocução política. Outra instituição de grande importância nas articulações e avanços na saúde, a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da FIOCRUZ, surgiu nesse momento e, com ela, projetos e feitos importantes, como a clínica da família e pesquisas sobre saúde comunitária. javascript:void(0) Consegue perceber que, no cenário de desgaste do regime autoritário, toda essa movimentação crescente forma um grupo coeso, lutando por uma causa comum? O acesso universal à saúde só seria possível a partir de um modelo democrático. Uma das propostas do movimento de Reforma Sanitária era transferir o INAMPS para o Ministério da Saúde, diminuindo essa fragmentação. Outro acontecimento importante nesse processo de fortalecimento da proposta da reforma sanitária foi o I Simpósio de Política Nacional de Saúde da Câmara dos Deputados, quando a criação do SUS foi defendida ineditamente. Agora retornamos ao que foi chamado de ápice da Reforma Sanitária, a VIII Conferência Nacional de Saúde, em Brasília, no ano de 1986, coordenada por Sérgio Arouca. Essa foi a primeira conferência aberta à população, contando com participação significativa dessa parcela tão importante para a configuração de um sistema construído dentro da concepção ampliada de saúde. Na VIII Conferência Nacional de Saúde, tivemos também a participação de trabalhadores, gestores e prestadores de serviços de saúde. As propostas da conferência originaram-se de apontamentos realizados em conferências municipais e estaduais, ou seja, um processo ascendente, que, de fato, poderia trabalhar em torno dasreais necessidades da população. Percebe a busca por romper com o que vimos até aqui? Saiba mais Um legado importante da VIII Conferência Nacional de Saúde foi o documento final gerado a partir dos debates, que trouxe uma ampliação da necessidade de cuidado e promoção de saúde. Podemos ver nesse relatório final que saúde é definida como “resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde. É assim, antes de tudo, o resultado das formas de organização social da produção, as quais podem gerar desigualdades nos níveis de vida.” Esse documento é a base do texto da Constituição Federal de 1988, ainda vigente atualmente, na parte que diz respeito à saúde. É importante que você saiba que a pauta da saúde foi abordada dentro de um texto constitucional pela primeira vez. É perceptível o avanço! O Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS) foi uma ferramenta de transição para o SUS durante o processo de redemocratização. Ele propunha a transferência dos serviços do INAMPS para estados e municípios, estabelecendo que cada esfera (nacional, estadual e municipal) deveria contar com um gestor da saúde. Segundo Bertolozzi e Grecco: [...] Os principais pontos aprovados na Carta Magna de 1988 foram: o direito universal à saúde: a saúde como um dever do Estado: a constituição do SUS, integrando todos os serviços públicos em uma rede: além da preservação dos princípios aprovados pela VIII Conferência e a participação do setor privado no SUS de forma complementar, bem como a proibição da comercialização de sangue e de seus derivados. Apesar dos avanços alcançados, algumas questões permaneceram indefinidas tais como, o financiamento do setor saúde, a política de medicamentos e as ações no âmbito da saúde do trabalhador. Há ainda que ressaltar que permaneceu intocável o paradigma do modelo assistencial centrado na assistência médica individual e, portanto, na figura do médico. Bertolozzi; Grecco, 1996. As propostas da VIII Conferência de Saúde proporcionaram um momento único e diferente para sociedade brasileira. Algumas dessas propostas foram: 1. Saúde como direito de todo cidadão, trabalhador rural ou urbano, contribuinte ou não. 2. Ações de saúde integrais de cunho preventivo e curativo. 3. Descentralização do sistema, em âmbito financeiro e administrativo (ou seja, o poder não seria mais centralizado em uma única entidade, como na época da Ditadura). 4. Controle e participação social e acompanhamento das ações das políticas públicas de saúde. A postura de Sérgio Arouca, ao sustentar o protagonismo da população nesses espaços de decisão, foi bastante criticada, pois, até então, esses eventos só contavam com a participação de políticos e gestores. Sérgio Arouca foi chamado por muitos de louco e irresponsável pelo teor de suas ideias. É essencial que você compreenda que todo esse movimento de mudança tinha como objetivo criticar as intervenções focadas na doença, investindo arduamente em hospitais e exames complexos, de maneira vertical e distante. A ideia principal era a garantia de acesso à saúde por todos (universalidade); um trabalho pautado na concepção ampliada de saúde; a descentralização das ações entre os níveis federal, estadual e municipal; a hierarquização do sistema, com entrada pela atenção primária; a participação da população; a regionalização dos serviços e a integração entre saúde previdenciária e saúde pública. Em 1990, ocorreu a promulgação de duas leis importantes para a saúde, chamadas de leis orgânicas da saúde, sendo a primeira a Lei nº8.080/1990, que instituiu o SUS, e a Lei nº 8.142/1990, que aborda as questões do controle e participação social no sistema. Toda essa trajetória histórica tem o intuito de sensibilizar e instrumentalizar a defesa do SUS, entendendo como evoluímos até chegar a esse sistema, num país com tanta desigualdade social e econômica desde o século XVI. Compreender esse processo é de grande ajuda para tornar-se um futuro profissional que possa direcionar um olhar sensível aos serviços e em suas ações de saúde. Defenda o SUS, pois assim você está defendendo a cidadania de todos nós! CONSIDERAÇÕES FINAIS Visitamos os principais períodos históricos do Brasil, identificando e refletindo sobre as questões da evolução das políticas de Saúde no país. Muitos avanços foram alcançados, como o direito a um sistema de saúde universal, em que não é necessário ser trabalhador com vínculo formal para acesso. Percebemos também que muitas dificuldades históricas permanecem com o passar dos anos. Além disso, ficou nítida a importância dos movimentos constantes de estudantes, profissionais de saúde, pesquisadores e população na luta pelo direito a um sistema de saúde que funcione pautado na integralidade, universalidade e equidade. Tema 3: O SUS e Seus Principais Caminhos Normativos; INTRODUÇÃO Abordaremos a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) e o quanto é complexa a existência de um sistema que precisa garantir saúde para toda a população brasileira, estando em um cenário de grandes desigualdades sociais e com diversas outras questões que colocam inúmeros desafios para que seus princípios aconteçam na prática. Veremos também os avanços que o SUS já alcançou e o quanto é importante defender esse sistema, que existe não somente para prestar assistência à saúde, mas para garantir um olhar integral, que acolha as diferenças e que seja acessível a todos, ou seja, uma garantia para a nossa cidadania. Vamos trazer pontos importantes, como as principais legislações que embasam o SUS e a aplicabilidade dessas leis, decretos e portarias na prática do cotidiano. Você perceberá o quanto é essencial o papel de cada um de nós na sustentação e no avanço desse sistema tão importante! A BASE DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS) Pode parecer cansativo estudar leis, decretos e portarias, principalmente para quem escolheu investir em formação na área da saúde. Porém, veremos de maneira dinâmica exemplos da prática para que você possa associar pontos importantes da legislação que embasa o Sistema Único de Saúde (SUS). A saúde não era considerada um direito de toda a população, ou seja, era acessada somente por aqueles que tinham mérito para tal. Essa visão meritocrática da saúde excluía a maior parte da população brasileira, tendo em vista que, desde a colonização, o país possui concentração de riqueza para pequenos grupos. Você consegue identificar quando esse cenário começou a mudar? Na década de 1970, muitos começaram a unir forças contra o regime de ditadura vigente, lutando contra a opressão e a exclusão que atingiam diversos setores, inclusive a área da saúde. Na década de 1980, o Brasil reconquistou um regime democrático de governo e, a partir desse renascimento da democracia, começou a construção de um sistema de saúde universal, ou seja, para toda a população, até para os que não tinham vínculos formais de trabalho. Percebe como o SUS tem ligação estreita com a democracia? Os dois nascem juntos e são garantidos pela nossa Constituição Federal de 1988. Por isso, ouvimos rotineiramente a seguinte frase: “Lutar pelo SUS é lutar pela democracia!”. Relembrando É importante que você lembre-se de que o texto constitucional referente à saúde universal é originário da 8ª Conferência Nacional de Saúde de 1986, a primeira conferência que teve participação popular, pensando em mudanças significativas no sistema vigente. Porém, o fato de estar garantido na Constituição Federal de 1988 não exclui os inúmeros desafios para sua real implementação no cotidiano. Discutiremos a seguir pontos importantes dessa construção do SUS a partir da Constituição Federal de 1988. CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 No sistema que surge junto com a democracia, além de acesso universal, a ideia é melhorar a qualidade devida da população, pensando que não seria possível ter saúde em um modelo em que predomine concentração de renda, com grande marca de exclusão, ou seja, não seria possível ter saúde a partir de um modelo de governo opressor e autoritário. O movimento democrático fortaleceu o movimento sanitário e vice-versa, ou seja: saúde é democracia e democracia é saúde. É nesse contexto que a Constituição Federal de 1988 é publicada, com o intuito de assegurar direitos, liberdade, segurança, justiça, entre outros, visando a uma sociedade igualitária e sem preconceitos. Em função de todo o cuidado em detalhar tais pontos em seu texto, a Constituição Federal de 1988 é conhecida como uma das melhores do mundo, sendo chamada também de Constituição Cidadã. A Constituição reforça, em um de seus parágrafos, que todo poder emana do povo e que a população exerce esse poder diretamente e por meio de governantes eleitos democraticamente, tendo como alguns de seus objetivos: o Erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais; o Construir uma sociedade justa e livre; o Promover o bem de todos sem nenhum tipo de exclusão. Independentemente de raça, gênero, sexo, idade, todos estão contemplados no texto constitucional. Por que estamos falando disso? Porque isso é saúde, ultrapassa a visão biologicista. A Constituição de 1988 aborda os nossos direitos sociais, que são: o Alimentação o Assistência aos desamparados o Educação o Lazer o Moradia o Previdência social o Proteção à maternidade e à infância o Saúde o Segurança o Trabalho Pensando em todo o cenário que você estudou até aqui, consegue perceber o avanço que é ter esse texto como base legal para o funcionamento do país? Vamos, porém, trazer tudo isso para o dia a dia: conseguimos, pensando coletivamente, o acesso a todos esses direitos que são garantidos constitucionalmente? Visualize o Brasil como um todo: quantas pessoas ainda vivem em situação de rua? Quantas crianças precisam trabalhar para ter comida? Quantas pessoas não conseguem estudar? E os índices de desemprego? É possível ter grande acesso à cultura e ao lazer? Sabemos que as respostas a tais perguntas reflexivas são de cunho pessimista em função de uma realidade ainda tão desigual e assim temos um outro direito minado: a segurança. Por que tantas falhas nessas questões acontecem? A violência cresce, causando adoecimento e morte. Ao chegar à parte que aborda a questão da saúde, que vai dos artigos 196 a 200, a Constituição Federal de 1988 afirma que as ações e os serviços de saúde precisam fazer parte de uma rede regionalizada e hierarquizada. Também reforça a necessidade de ocorrer a descentralização, a integralidade e a participação da comunidade. Leia o trecho constitucional a seguir: CITAÇÃO Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988 Percebe que não basta construir serviços de saúde para responder a questões individuais e coletivas? É preciso investimento em políticas sociais e econômicas que proporcionem acesso à educação, à alimentação, à cultura, entre outros. Tal diretiva rompe com a ideia de saúde como algo biológico e privilegiado. Você já reparou o quanto a maior parte da população deseja um plano privado de saúde? A visão de saúde como mercadoria ainda está presente na sociedade brasileira em nossos dias. No texto constitucional, vemos que a iniciativa privada na saúde deve participar de forma complementar em relação ao Sistema Único de Saúde, preferencialmente a partir de entidades filantrópicas e sem fins lucrativos, segundo as diretrizes do SUS. Vamos pensar: você acha que, na prática, a iniciativa privada complementa ou compete com o SUS? Outra questão muito importante que aparece no texto constitucional, no art. 200, diz respeito às diversas atribuições do SUS. São elas: 1. Controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse para a saúde e participar da produção de medicamentos, equipamentos, imunobiológicos, hemoderivados e outros insumos. 2. Executar ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador. 3. Ordenar a formação de recursos humanos na área de saúde. 4. Participar da formulação da política e da execução das ações de saneamento básico. 5. Incrementar, em sua área de atuação, o desenvolvimento científico e tecnológico. 6. Fiscalizar e inspecionar alimentos, compreendido o controle de seu teor nutricional, bem como bebidas e água para consumo humano. 7. Participar do controle e fiscalização da produção, transporte, guarda e utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos. 8. Colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o trabalho. Lendo todas essas atribuições trazidas pela Constituição, você ainda acha que o SUS restringe-se a exames, consultas e procedimentos em saúde? É possível algum brasileiro dizer que não usa o SUS? A partir da leitura desse fragmento de texto, podemos afirmar que todos os brasileiros utilizam o SUS! Que tal disseminar essa informação a partir desses pontos? Precisamos buscar uma sociedade justa, rompendo com preconceitos e exclusões, dando lugar a todos, sendo a saúde um dos âmbitos capazes de possibilitar que o texto constitucional aconteça na prática. Agora que vimos o nascimento do SUS e da democracia, formalizados pela Constituição de 1988, discutiremos duas leis que vieram para regulamentar o sistema, detalhando seu funcionamento e sua organização. LEI N. 8.080 DE 1990 No caminho de mudanças tão significativas para a saúde no Brasil, temos, em 1990, a promulgação da Lei n. 8.080, conhecida como Lei Orgânica da Saúde. É importante que você entenda essa lei na íntegra, pois ela traz muitos conteúdos essenciais para sua atuação no SUS e para a sua formação. Abordaremos aqui os pontos mais importantes. A Lei Orgânica da Saúde traz as condições para promover, proteger e recuperar saúde, pensando na organização e no funcionamento dos serviços, bem como outras providências. Todo o território nacional será regulado por essa lei a partir de ações e serviços de saúde, ou seja, a Lei n. 8.080/1990 institui o SUS! A Lei n. 8.080/1990 aponta a competência de cada esfera de governo no SUS, ou seja, o sistema funciona de maneira descentralizada, rompendo com a lógica federal centralizadora de períodos anteriores, dando atribuições e autonomia a estados e municípios. Outros pontos importantes: 1. Traz a organização do sistema, com o SUS acontecendo em uma direção única, partindo da atenção primária até a atenção terciária. 2. Detalha melhor o funcionamento e a participação complementar dos serviços privados de assistência à saúde. 3. Traz questões de recursos humanos necessárias no sistema. 4. Aborda questões de recursos financeiros, gestão financeira, planejamento e de orçamento. Essa lei traz princípios doutrinários e organizativos para o funcionamento do SUS. Vamos trazer cada um deles de maneira clara e que desperte seu interesse. Os princípios doutrinários são: universalidade, equidade e integralidade. Os princípios organizativos são: descentralização, participação e controle social, resolutividade, regionalização e hierarquização. vamos conversar primeiro sobre os princípios doutrinários: UNIVERSALIDADE Quando falamos que saúde é um direito de todos e que é dever do Estado que suas ações e serviços sejam garantidos, estamos falando de universalidade. Esse princípio busca garantir o acesso de todos que tenham necessidade de fazer uso do SUS, independentemente de sexo, raça, classe econômica, profissão ou qualquer outra particularidade. O princípio da universalidade rompe com a lógica do Inamps, que limitava saúde a quem tivessevínculo empregatício formalizado. Saúde é para todos, tanto quando se pensa em prevenção como para promoção da saúde ou recuperação. É comum ainda ver idosos apresentando carteira de trabalho ou justificando a ausência dela ao acessarem algum serviço de saúde. É preciso que os profissionais expliquem que não há mais necessidade desse tipo de ação. EQUIDADE Não podemos confundir equidade com igualdade; de maneira alguma estamos falando de sinônimos. Precisamos pensar em equidade como justiça social, em que as diferenças são reconhecidas, respeitadas e acolhidas. Ou seja, é preciso entender que partimos de lugares desiguais, necessitando assim de intervenções diferenciadas para que se possa chegar ao mesmo lugar. Em equidade não é possível a presença de preconceitos ou privilégios, pois reconhecemos que vivemos em um país de dimensão continental, com diversas culturas, questões regionais e sociais. Todos somos diferentes, mas existem diferenças que são prejudiciais e afetam o coletivo. É nesse caminho que a equidade vai atuar. Para você compreender melhor, vamos a um exemplo: a população indígena. A ideia é que essa população tenha o mesmo atendimento e acesso que todos os brasileiros, mas temos conhecimento de que essa população foi dizimada por séculos, tendo sua cultura, organização social e política sendo violentadas e invadidas. Para uma tentativa de recuperação histórica, é preciso construir políticas públicas de saúde para essa população, incluindo suas particularidades, direcionando um olhar minucioso para dificuldades, barreiras e peculiaridades. É preciso investir para que os profissionais de saúde recebam formação para essa atuação específica, bem como é necessária a presença de representantes indígenas na coordenação e aplicação dessa política. Para representar a equidade e sua importância no SUS, poderíamos usar mais exemplos como: população em situação de rua, população privada de liberdade no sistema prisional, mulheres, população negra, entre outros. INTEGRALIDADE Esse princípio traz a importância de se olhar o sujeito como um todo, acolhendo suas necessidades específicas, olhando além da doença, incluindo todas as suas dimensões de existência, utilizando ações de promoção, prevenção e recuperação em saúde. Mesmo em situações similares, o atendimento integral pressupõe ações singulares Para você entender melhor, vamos a um exemplo: pense em dois homens de 50 anos, com diagnóstico de diabetes tipo 2. Um deles mora em uma pequena casa, trabalha como camelô e consegue fazer caminhada duas vezes por semana. O outro mora na rua, não tem renda e só consegue comer porque vive na calçada ao lado de uma padaria. Mesmo com pontos em comum, não podemos traçar para eles o mesmo plano de cuidados. Possivelmente, o homem que tem casa e trabalho poderá cuidar um pouco mais de sua dieta do que o homem que vive nas ruas e depende de doações, comendo o que consegue ganhar. É possível pensar também na questão do sedentarismo e no acesso aos serviços de saúde: no caso do homem em situação de rua, as barreiras são maiores, sendo importante que os serviços possam ir até ele. Agora que discutimos os princípios doutrinários, vamos discutir os princípios organizativos, ou seja, aqueles que vão explicar o funcionamento e a organização do sistema. São eles: REGIONALIZAÇÃO As ações e serviços de saúde devem compor uma região de saúde, com organização por níveis de complexidade, delimitados geograficamente, definindo a população que será atendida, ou seja, regionalizar envolve muito mais do que somente contornar espaços. A região de saúde precisa de características comuns de transporte, de cultura, ou seja, precisam ter realidades semelhantes e com funcionamento compartilhado. O acesso inicial é feito por meio da Atenção Básica ou Atenção Primária que, a partir de um acompanhamento no cotidiano do território, consegue responder a muitas questões. As situações que precisam de níveis mais específicos de cuidado e intervenção serão direcionadas, a partir da atenção primária, para serviços de maior complexidade. Já no texto da Constituição Federal de 1988, podemos encontrar apontada a necessidade de o SUS ser regionalizado. Vamos a um exemplo para ajudar no entendimento: em uma região de saúde que contenha sete municípios, estes precisarão compartilhar ações e serviços de saúde. Cada município precisa ter atenção básica, porém vamos pensar juntos: seria necessária a construção de uma maternidade de alto risco em cada um desses sete municípios? Podemos concentrar a maternidades de alto risco em menos municípios, possibilitando maior investimento financeiro e em recursos humanos, bem como abrir atendimento para todos os municípios da região, pois, felizmente, a maior parte dos partos são de baixo risco. Isso otimiza recursos e aprimora o cuidado! HIERARQUIZAÇÃO A organização dos serviços em redes deve ser feita de maneira hierarquizada a fim de fazer um diagnóstico mais aprimorado dos problemas e das questões de saúde de uma região e assim traçar as ações necessárias de prevenção, promoção e recuperação de saúde para aquele local. Ou seja, a partir do território nasce o planejamento para gestão e cuidado em saúde, em uma lógica ascendente. RESOLUTIVIDADE Em qualquer nível de complexidade que as pessoas necessitem, é preciso que o atendimento em saúde seja resolutivo, capaz de resolver a questão. DESCENTRALIZAÇÃO Tem relação direta com a regionalização. As três esferas de governo — federal, estadual e municipal — terão competências e responsabilidades em relação a ações e serviços de saúde, tanto no sentido administrativo quanto no sentido financeiro. A descentralização existe com o intuito de estimular a capacidade de cogestão entre os entes na lógica regional, rompendo com a ideia de que o ente federal deve ser o maior responsável pelo sistema, como antes acontecia, com forte centralização de poder. CONTROLE E PARTICIPAÇÃO SOCIAL Para que o SUS atue conforme os interesses e as necessidades populares, é preciso que a população ocupe entidades representativas, como os conselhos de saúde, existentes nas três esferas (federal, estadual e municipal) e participe de conferências de saúde também nas três esferas, formulando e fiscalizando a execução das políticas de saúde. Finalizamos a discussão dos princípios organizativos do SUS, porém daremos destaque maior a um deles no item a seguir, que traz outra lei do ano de 1990, promulgada alguns meses depois da Lei n. 8.080. Veja adiante. LEI N. 8.142 DE 1990 Em 28 de dezembro de 1990, foi promulgada a Lei n. 8.142, que aborda a questão da participação da comunidade e do controle social no SUS e as questões de transferências intergovernamentais. A Lei n. 8.142/1990 determina que as conferências de saúde precisam ter participação representativa de diversos segmentos sociais, ocorrendo a cada quatro anos nas três esferas de governo, as quais vão se reunir a cada quatro anos para avaliar a situação de saúde e propor novas diretrizes para a formulação das políticas públicas de saúde. Essa lei também traz detalhes sobre o funcionamento e a composição dos conselhos de saúde: CITAÇÃO Deve ter caráter permanente e deliberativo, com a seguinte composição nos três níveis de gestão: 50% dos usuários, 25% de gestores e prestadores de serviço e 25 % de profissionais de saúde. Os conselhos de saúde devem atuar na formulação de estratégias e no controle da execução da política de saúde em cada instância correspondente, incluindo aspectos econômicos e financeiros. As decisões serão homologadas pelo chefe do poder legalmente constituído em cada esfera do governo. LEI n. 8.142, 1990 Será que a população faz uso efetivo desses espaços? Você já frequentou alguma reunião de conselho de saúde ou participou de alguma conferência de saúde? Saiba mais É importante que você leia na íntegra a Lei n. 8.080/1990 e a Lei n. 8.142/1990 paraaprofundar ainda mais seus conhecimentos e defender o SUS com embasamento legal e teórico. Você conseguiu perceber até aqui a complexidade do SUS? Para muitos estudiosos e pesquisadores, é uma das melhores políticas públicas do mundo. Abordaremos agora os muitos desafios para a implementação desse sistema e da continuidade dos marcos normativos que surgiram ao longo dos anos após a promulgação da Lei n. 8.080/1990 e da Lei n. 8.142/1990. Estudamos os princípios doutrinários e organizativos do SUS e pudemos perceber que os profissionais que estão na prática do cotidiano tentam fazer com que esses princípios aconteçam, mesmo diante de cenários de desmonte, com investimento financeiro insuficiente, falta de insumos, de infraestrutura muitas vezes precária, salários insuficientes, entre tantos outros problemas. Exemplo O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) é o principal dispositivo de cuidado em saúde mental do SUS e existe em todo o país com o intuito de cuidar em liberdade, longe de muros de hospitais psiquiátricos, de pessoas com transtornos mentais severos, articulando seu trabalho com diversos outros dispositivos da cidade. Vamos pensar em um CAPS localizado em uma grande cidade. A lógica de atendimento corresponderá a questões da regionalização, ou seja, existe uma área territorial que cada CAPS é responsável por cuidar. Nesse CAPS, existe uma equipe multiprofissional, porém em número insuficiente, pois falta investimento da gestão para aumento dos recursos humanos nesse serviço. Sabemos que nem todos os pacientes conseguem ir até o CAPS para o acompanhamento, então é necessário que profissionais do serviço se dirijam a essas pessoas. Por exemplo, Maria vive com seu companheiro em situação de rua, em um bairro próximo ao CAPS, porém não consegue organizar-se para ir até o serviço (ser atendida pela psicóloga, pelo psiquiatra e pela enfermeira para ajudar Maria a estabilizar-se psiquicamente). A equipe precisa se organizar para ir até Maria uma vez por semana para realizar o atendimento e levar a medicação utilizada. Porém, isso só é possível quinzenalmente em função do número insuficiente de profissionais no serviço para atender a toda a clientela que frequenta o CAPS diariamente. Diante da saída de qualquer profissional, a fragilidade aumenta na equipe. Pensando nesse exemplo, como sustentar os princípios doutrinários do SUS (equidade, universalidade e integralidade) diante desse grande problema? Esse é apenas um exemplo de desafio no cotidiano da assistência. Ou seja, é difícil garantir esses princípios mediante uma gestão sem qualificação, que fragmenta e fragiliza o cuidado. Muitos outros desafios aparecem. CITAÇÃO O SUS todo o tempo nos desafia com seus conteúdos complexos: a sua estrutura; a sua organização jurídico-administrativa; o conceito de saúde; os serviços que devem ser oferecidos à população; o aspecto econômico cada dia mais ofensivo e oneroso e a luta que se trava entre um sistema que deve ser público e universal e serviços que podem e são explorados economicamente pelo mercado. SANTOS, 2013 Desafios do SUS Temos um grande desafio em nível de gestão, que é o fato de três entes serem responsáveis, autônomos, solidários e cooperativos no sistema — o que chamamos de articulação interfederativa —, que é essencial para a descentralização e a integralidade, mas que ainda precisa avançar significativamente, pois, na prática, ainda vemos protagonismo do Ministério da Saúde. Em algum momento você já pode ter pensado que o Ministério da Saúde seria o órgão com maior poder no SUS, mas já vimos no módulo anterior que essa não é a realidade. Outro desafio é a participação da população no SUS, pois ela ainda não ocupa de maneira eficaz os espaços — como em conselhos de saúde para controle e participação social —, podendo fiscalizar e propor políticas de saúde. Podemos citar também o grande desafio que é a dificuldade de regulamentação do setor privado na saúde brasileira, devendo ser complementar e não substitutivo. Existe também alta rotatividade de profissionais em gestão e assistência devido a vínculos frágeis, mudanças de governo, entre outros fatores. Tudo que estamos conversando aqui exemplifica o quanto o SUS é complexo e o quanto precisamos caminhar para que, de fato, ele possa atuar na prática. É preciso uma aposta da gestão dos trabalhadores e dos usuários para evoluir nessa caminhada. Agora, voltemos à questão dos marcos normativos, pensando nas mudanças que vieram após a instituição do SUS em 1990. Para entender esse sistema na prática dos dias atuais e refletir sobre os avanços e desafios, precisamos olhar sempre para a história e para a legislação. AS NORMAS OPERACIONAIS BÁSICAS (NOBS) E AS NORMAS OPERACIONAIS DE ATENÇÃO À SAÚDE (NOAS) Ainda na década de 1990, tivemos algumas normas operacionais publicadas com o intuito de embasar o SUS juridicamente e institucionalmente, trazendo normatização, objetivos, prioridades, diretrizes e estratégias para o sistema. Foram publicadas as Normas Operacionais Básicas (NOBs) e as Normas Operacionais de Atenção à Saúde (NOAs), com a presença dos três níveis de governo, buscando formalização e regularização nessa articulação interfederativa. Antes de explicarmos cada uma dessas normas, é importante que você entenda como acontece a gestão do SUS entre os três entes. No nível federal, o órgão responsável por gerir é o Ministério da Saúde; no nível estadual, temos as secretarias estaduais de saúde e no nível municipal temos as secretarias municipais de saúde. Os gestores de cada esfera reúnem-se em espaços chamados Comissão Intergestores Bipartite (CIB), com participação do estado e municípios e Comissão Intergestores Tripartite (CIT), com a presença dos níveis federal, estadual e municipal. Nesses espaços, com reuniões periódicas, as políticas e os programas de saúde são avaliados e pactuados. Exemplo Vamos pensar no estado do Rio de Janeiro. Pelo menos uma vez por mês os gestores da Secretaria Estadual do Rio de Janeiro encontram-se na CIB com os gestores das Secretarias Municipais de Saúde dos 92 municípios existentes no estado para analisar a situação da saúde, e assim acontece em todos os estados brasileiros. Dessa mesma maneira, pelo menos uma vez por mês, os gestores das três esferas (federal, com estados e municípios de todo Brasil) reúnem-se em Brasília, na CIT. Voltando às normas publicadas: o 1991 Foi publicada a Norma Operacional Básica do SUS 01/91 (NOB/SUS 01/91), instituindo o pagamento por produção de serviços, equiparando prestadores públicos e privados na compra e venda de serviços. Mesmo sendo um fato negativo para o SUS, os municípios apoiaram essa NOB, pois assim receberiam recursos diretamente do nível federal, o que fragilizava o papel dos estados no processo. o 1992 Tivemos a publicação da segunda dessas normas, a NOB 01/92, seguindo a NOB anterior, mantendo o pagamento por produção de serviços, com exceção das internações hospitalares. o 1993 Tivemos a NOB/SUS 01/93, que trazia o tema: "A municipalização é o caminho", com fortalecimento da gestão municipal no sistema, instituindo as seguintes formas de gestão municipal e estadual: incipiente, parcial e semiplena. Os municípios que antes eram pouco atuantes foram habilitados como gestores e, nesse momento, surgem as Comissões Intergestores Bipartite e Tripartite. o 1996 Publicada a NOB/SUS 01/96, que fortaleceu a descentralização, inovando nas condições de gestão dos municípios e estados, definindo competências e responsabilidades. Houve a criação do Piso da Atenção Básica (PAB), ampliando o acesso à atenção primária a partir do financiamento global per capita, promovendo uma mudança no modelo de atenção à saúde, o que consolidou o Programa da Saúde da Família. o 2001 Temos a publicação da NOAS 01/01, dando maiores responsabilidades aos municípios na Atenção Básica, definindo como acontece a regionalização naatenção à saúde. Define também o processo de regionalização da assistência por meio do Plano Diretor de Regionalização (PDR), um instrumento para organizar o processo de regionalização, pensando na garantia de acesso próximo às residências dos usuários. O Plano Diretor de Investimento (PDI) também vem como instrumento para desenvolver estratégias de investimentos, com o intuito de ofertar assistência em todos os níveis de complexidade. Nesse sentido, a Atenção Básica ganha força com a NOAS/2001, a partir de ações mais claras. Nesse momento temos também valorização e estímulo aos municípios para trabalharem conjuntamente, trazendo a questão de referência e contrarreferência e propostas de ações de média e alta complexidade. o 2002 Foi publicada a NOAS/SUS 01/02, que fortalece a gestão estadual a partir de acordos relativos aos serviços de média e alta complexidade e do mecanismo de acompanhamento dos recursos federais para assistência da saúde. Dica Quando a Atenção Básica é fortalecida, reduz agravos em saúde e diminui hospitalizações. Muitas vezes, quando falamos em Atenção Básica, chamamos de “posto de saúde”, que recebe o nome oficial de Clínica da Família. Quanto mais eficaz é o trabalho nesses serviços, melhor será a qualidade de vida da população. Exemplo As clínicas da família realizam um potente trabalho no acompanhamento de pacientes hipertensos e diabéticos. Com isso, vemos que o número de internações decorrentes de complicações dessas doenças crônicas diminuiu fortemente. Quem ganha? Todos! Depois de todo esse processo de retrospectiva da construção de políticas de saúde, percebemos que as normas trouxeram avanços, porém tinham grande protagonismo ainda do Ministério da Saúde, sendo este o órgão responsável pelo controle de mais de 5.000 municípios e dos 27 estados, ou seja, uma forte centralização. O processo de municipalização a partir dessas normas foi muito importante, mas, ao mesmo tempo, tornou a regionalização mais difícil de acontecer na prática, ou seja, sobre municípios que fazem parte da mesma região de saúde trabalharem compartilhando ações e não de maneira individual, fragmentando o sistema. Tal fato, muitas vezes, ainda acontece. Como seria isso na prática? Vamos pensar em uma região de saúde composta por 11 municípios. Cada município precisa ter sua Atenção Básica fortalecida, porém não é necessário que todos tenham hospitais de grande porte e complexidade. É importante que todos que integram tal região possam compartilhar esse tipo de serviço, que pode concentrar-se em alguns municípios, porém considerados serviços regionais, de modo que o recurso é otimizado e a assistência pode ser mais qualificada. PACTO PELA SAÚDE Voltando aos marcos normativos, a Portaria n. 399, de 22 de fevereiro de 2006, instituiu o Pacto pela Saúde, uma proposta formalizada pelos três entes — federal, estadual e municipal —, visando o fortalecimento da regionalização e o alcance dos princípios do SUS para superar sua fragmentação. Vamos ver como era dividido o Pacto pela Saúde e as competências de cada uma dessas composições. O Pacto era composto por três partes: Pacto pela vida, Pacto em defesa do SUS e Pacto de gestão do SUS. PACTO PELA VIDA Esta parte trazia um conjunto de compromissos e prioridades definidos pelos três entes gestores (triparte) a partir da análise da situação de saúde da população. Trazia metas nacionais, estaduais e municipais, com objetivos e prioridades, buscando resultados. Algumas prioridades do Pacto pela vida: Ações para contribuir com a redução da mortalidade por câncer de colo de útero e de mama; Atenção integral para a população idosa, por meio da implementação da Política Nacional de Saúde da População Idosa; Focar no cuidado dentro do SUS voltado para as doenças emergentes e endemias, como dengue e hanseníase, buscando fortalecer as respostas a essas questões; Diminuir a mortalidade materna e infantil; Fortalecer e qualificar a Estratégia de Saúde da Família na Atenção Básica; Estimular e fortalecer a promoção da saúde por meio da implantação da Política Nacional de Promoção da Saúde, pensando em ações que estimulassem um estilo de vida saudável para a população. PACTO DE GESTÃO DO SUS Determina as responsabilidades de cada ente federado, com gestão solidária e compartilhada no SUS, com fortalecimento da descentralização, incentivando a organização dos sistemas a partir da territorialização da saúde, trazendo as regiões de saúde e instituindo Colegiados de Gestão Regional. É importante que você saiba também que cada esfera de gestão possui conselhos gestores que se reúnem frequentemente para planejar e organizar a saúde. São eles: o Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (composto por secretários estaduais de saúde) e o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS). PACTO EM DEFESA DO SUS Engloba ações articuladas entre os três níveis de gestão para qualificação do SUS, fortalecendo os princípios basilares. Visa dar apoio à mobilização social, objetivando a garantia de saúde como um direito. Diante de tanto conteúdo trabalhado, você consegue perceber o quanto o Pacto pela Saúde trouxe importantes avanços em pontos frágeis do SUS, que até aquele momento ainda eram confusos teoricamente? Como colocar em prática uma teoria que ainda não era tão clara como, por exemplo, quanto à questão da regionalização? DECRETO N. 7.508/2011 O tempo foi passando e algumas questões ainda permaneciam confusas para a implementação do SUS. Em 28 de junho de 2011, foi pulicado o Decreto n. 7.508, que veio regulamentar a Lei n. 8.080/1990, para dispor sobre a organização do Sistema Único de Saúde (SUS), o planejamento da saúde, a assistência à saúde e a articulação interfederativa. Ou seja, 21 anos depois nasce um decreto para esclarecer pontos importantes da Lei Orgânica da Saúde. Percebe o tempo de amadurecimento necessário diante de tanta complexidade? O Decreto n. 7.508/2011 reforça a importância da articulação interfederativa, ou seja, que os três entes sejam autônomos, dividindo e compartilhando ações no SUS. É muito importante que as ações, ainda muito centradas no Ministério da Saúde, cedam espaço para os outros dois entes. CITAÇÃO O SUS formal, construído sob grande complexidade conceitual e operativa, somente teve sua Lei n. 8.080, de 1990, regulamentada pelo Decreto n. 7.508 em junho de 2011, 21 anos depois. Esse fato postergou deleteriamente a explicitação de conceitos, com desgaste para a organização do sistema, que o tempo todo careceu de uma explicitação adequada e unívoca de conceitos organizativos. SANTOS, 2013 Muitos pontos encontrados na Lei n. 8.080/1990 — redes de atenção à saúde; planejamento regional integrado; regiões de saúde; serviços portas de entrada; assistência farmacêutica e regulação — precisavam ser aprofundados para de fato acontecerem no SUS. As inúmeras portarias publicadas até então geravam interpretações diversas e muitas vezes equivocadas, fragilizando e fragmentando o SUS, trazendo dúvidas e dificuldade de organização efetiva. Esclarecendo pontos tão importantes, o Decreto n. 7.508/2011 trouxe mais transparência à gestão do SUS, mais segurança jurídica nas relações interfederativas (entre os entes federal, estadual e municipal) e controle social mais efetivo, com participação da sociedade, em uma perspectiva de gestão compartilhada. A questão da regionalização fica mais evidente e valorizada nesse decreto, definindo região de saúde como: CITAÇÃO Espaço geográfico contínuo constituído por agrupamentos de municípios limítrofes, delimitado a partir de identidades culturais, econômicas e sociais e de redes de comunicação e infraestrutura de transportes compartilhados, com a finalidade de integrar a organização, o planejamento e a execução de ações e serviços de saúde. DECRETO n. 7.508, 2011 É importante que essas regiões sejam vistas a partir deum aspecto vivo, rompendo com a lógica estritamente burocrática. Ainda precisamos avançar muito nesse sentido, mas o Decreto n. 7.508/2011 vem para fortalecer. Saiba mais Você precisa ler o Decreto n. 7.508/2011 na íntegra, vai contribuir bastante para o entendimento e o aprendizado adquirido aqui! Dica O conteúdo que trabalhamos aqui é extenso, com muitos detalhes essenciais para compreensão do SUS, mas é primordial que você articule esse material com outros: a Reforma Sanitária é um processo constante e todos esses marcos normativos fazem parte dessa trajetória contínua. Tudo isso, no entanto, não garante um SUS eficaz porque é preciso vontade política, investimento e conhecimento para avançarmos ainda mais. A luta é de todos nós! Atenção As leis abordadas são extensas. É importante que você leia todas na íntegra. Essas leis são bastante cobradas em concursos públicos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conhecemos a construção do Sistema Único de Saúde (SUS) a partir dos principais marcos normativos que servem de base para a sustentação do sistema. Vimos que, atualmente, o SUS encontra muitos desafios para que seus princípios doutrinários (equidade, integralidade e universalidade) aconteçam na prática e conseguimos discutir importantes avanços ao longo dos anos. Entendemos que é preciso que o SUS seja defendido na sociedade, na formação e nos serviços de saúde, pois concluímos que o SUS está em muitos espaços que ultrapassam a assistência de saúde. Ou seja, todos usam o SUS e é fundamental que possamos compartilhar informações sobre esse sistema tão importante. Tema 4: Programas e Projetos Estratégicos do SUS; Introdução O Brasil passou por intensas transformações ao longo dos últimos anos. A crescente urbanização decorrente desse período trouxe diversas transformações no âmbito da Saúde Coletiva e uma reestruturação do sistema de saúde do país. Os movimentos sociais surgiram nesse cenário de mudanças devido à falta de políticas populacionais. Como reflexo, grande parte dos trabalhadores viram-se obrigados a construir suas moradias em áreas de risco, que resultaram em favelas. Consequentemente, houve aumento na ocorrência de agravos à saúde da população devido à precariedade sanitária e a políticas de saúde voltadas apenas para o modelo biomédico da época. Nesse contexto, uma expressiva parcela da população começou a reivindicar melhores condições de saúde para a massa que se desenvolvia ao redor das grandes cidades. A partir dessas manifestações, foram criados conselhos com participação popular, quando puderam ser identificadas características econômicas, sociais e ambientais baseadas nas necessidades das camadas mais carentes e vulneráveis. Tais acontecimentos permitiram a criação do campo da Saúde Coletiva, que originou ações no sentido de minimizar os problemas de saúde no campo individual e coletivo por meio de prevenção e promoção da saúde. Desse modo, a partir da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), foram implementados programas e projetos no campo da Saúde Coletiva que proporcionassem melhoria da qualidade de vida da população. Políticas públicas e políticas de saúde no campo social As políticas públicas consistem em resoluções e ações distribuídas entre os níveis federal, estadual e municipal. Em teoria, abrangem a comunidade como um todo, na proposição de intervenções que visam o bem-estar do cidadão sem distinção, em sua totalidade e de forma igualitária. Na prática, as parcelas da população que necessitam de atuação no âmbito da educação, saúde, habitação, alimentação, previdência e transporte carecem de ações efetivas na resolução dos problemas sociais. No Brasil, essa disparidade entre a formação e a efetivação das políticas públicas ocorre devido a um processo histórico desajustado, em que os interesses econômicos foram priorizados em relação às reais necessidades da sociedade. Sobre as responsabilidades das políticas públicas no país cabem medidas preventivas, de proteção e promoção em saúde. Dispõem também sobre as vigilâncias, que se desdobram por meio da elaboração de programas com características específicas, de acordo com as necessidades de cada grupo social, como veremos neste módulo. Dessa maneira, desenvolveu-se a política de saúde no país com ações voltadas para a resolução de problemas nos serviços de saúde, determinados por riscos, agravos ou doenças correspondentes a cada território. Isto significa que, por meio da prevenção, podem orientar a população quando à obtenção de hábitos que viabilizem a saúde em detrimento das doenças e supervisionem a construção e a divisão de bens e serviços. O principal impasse da política de saúde no Brasil consiste na dificuldade de acesso da população de menor renda, de forma igualitária e em sua totalidade, às questões relativas as suas reais demandas de saúde. Em outras palavras, manifesta a deficiência de uma gestão mais efetiva na atenção básica com ações e serviços em saúde que garantam cobertura total dentro da sua complexidade. Podemos dizer que essa política objetiva a preservação do direito à saúde, determinado pela Constituição Brasileira de 1988. Nessa perspectiva, a Saúde Coletiva tem se consolidado ao longo dos últimos anos no controle de doenças, promovendo melhoria da qualidade e aumento da expectativa de vida, contribuindo também para a organização dos serviços de saúde. Assim, foi a partir desse pensamento de caráter social que surgiu o SUS, composto da associação das ciências sociais com as políticas de saúde pública. O fortalecimento das políticas de saúde na sociedade ocorreu a partir dos movimentos sociais, conhecidos como espaços igualitários que possibilitaram ações coletivas e que expressavam os interesses da sociedade. Em síntese, os movimentos sociais colaboraram com a construção do SUS como política pública social, atuando anteriormente à legislação que estabelecia os direitos à saúde. Somente por meio da exposição dos problemas e desigualdades seria possível estabelecer uma sociedade com menos injustiças. Por isso, o propósito do SUS dedica-se a assegurar a igualdade e a universalidade na atenção à saúde e a preservação do bem-estar social e dos direitos do cidadão. Principais programas de saúde pública do Brasil Estratégia de saúde da família (ESF) Implantado em 1994 pelo Ministério da Saúde (MS), com o nome de Programa de Saúde da Família (PSF), é um conjunto de serviços multidisciplinares em benefício das comunidades por meio da Atenção Básica, que é a porta de entrada do indivíduo ao SUS. A Saúde da Família é uma estratégia prioritária para a organização da atenção básica, pois atua de forma eficaz no território por meio de planejamento, de acordo com o diagnóstico situacional e integrado na comunidade. Como resultado de um processo de desospitalização e humanização do sistema, a ESF valoriza diversos aspectos com base na saúde além do ambiente hospitalar. Quem nunca visitou uma Clínica da Família (CF) ou recebeu um Agente Comunitário de Saúde (ACS) em sua casa? Os ACS são o vínculo da Clínica da Família com a comunidade. Eles são de extrema importância, muitos são residentes da própria comunidade e conhecem o território de maneira a saber claramente quais são os problemas enfrentados por aquelas pessoas. As equipes que a compõem são multiprofissionais (médico, enfermeiro, odontólogo, técnico enfermagem, ACS, entre outros) e suas unidades disponibilizam aos usuários consultas, exames, vacinas, radiografias, educação em saúde, apoio diagnóstico etc. Por isso, possuem responsabilidade sobre um número determinado de famílias situadas em território geográfico delimitado chamado de microárea. Assim, atuam na manutenção da saúde da comunidade por meio de ações de promoção da saúde e prevenção de doenças, além da recuperação e reabilitação dos agravos mais comuns. Cabe falar que essas ações têm caráter contínuo e integral. As áreas estratégicas das equipesde Saúde da Família compreendem um território delimitado, podendo intervir a partir de ações educativas em prol da qualidade de vida, controle de imunização, enfoque nos grupos de risco como hipertensos, diabéticos, idosos, entre outros. Além disso, contam com o cumprimento da Política Nacional de Humanização, incluindo o acolhimento. As unidades de saúde estão preparadas para atuar no suporte de urgências médicas e odontológicas. Possibilitam também a cooperação dos demais profissionais da equipe na organização e no desempenho das intervenções, incorporando projetos sociais e outros setores, focados na promoção em saúde e no apoio a estratégias de gestão local e de domínio social. A característica estrutural dos sistemas municipais de saúde direcionados a partir das ESF tem encorajado uma renovação do modelo de atenção do SUS. A Saúde da Família busca executar as políticas da atenção primária, sendo o primeiro contato da população com as ações e serviços de saúde. Assim, a ESF direciona os usuários na rede de serviços atuando com maior racionalidade na utilização dos níveis assistenciais, sendo considerada a principal porta de entrada do SUS. Núcleo ampliado de saúde da família e atenção básica (NASF-AB) O NASF-AB foi instalado pelo Ministério da Saúde em 2008 para tornar mais estável a Atenção Básica no Brasil, expandindo as ofertas de saúde na cadeia de serviços, o que resulta em um sistema mais resolutivo e abrangente no foco das ações. A estrutura é composta por equipes multiprofissionais (nutricionista, psicólogo, assistente social, farmacêutico, fisioterapeuta, entre outros), que agem de forma participativa junto às equipes de Saúde da Família e de Atenção Básica para populações específicas (consultórios na rua, equipes fluviais e ribeirinhas) e com o Programa Academia da Saúde. A equipe do NASF surge para dar suporte clínico e esse dinamismo cria visibilidade para a ESF. As duas equipes multidisciplinares organizam o cuidado em relação ao serviço especializado necessário para um determinado território. Por isso, recebe a denominação de clínica ampliada — por proporcionar maior cobertura a partir de suas especialidades e por reconhecer algumas formas de cuidado fora do campo da saúde. Essa assistência heterogênea permite manter discussões de casos clínicos e atendimento compartilhado entre diferentes profissionais, tanto no local das unidades como nas visitas domiciliares. Além disso, permite ações intersetoriais com foco preferencial na promoção e prevenção da saúde e implantação de projetos terapêuticos partilhados na ampliação e qualificação das atividades no território e na saúde de grupos da população. A partir de 2012, o Ministério da Saúde ampliou o serviço das equipes de NASF para qualquer município no Brasil. No entanto, é necessário ter ao menos uma equipe de Saúde da Família por território. Política nacional de saúde mental O avanço da política de saúde mental no Brasil colaborou fortemente na formação do SUS, pois promoveu a transferência de responsabilidades na administração da saúde, gerando valorização dos profissionais nessa área e transformações sociais no país. A política de saúde mental foi consolidada pelo papel dos hospitais psiquiátricos, definido pelo declínio na qualidade da assistência e transgressão dos direitos humanos. O sistema psiquiátrico passou por importante reforma na década de 1970, o que contribuiu para o avanço de um processo ajustado de acordo com as particularidades do cenário brasileiro, cooperando significativamente para a idealização da saúde mental como atualmente a conhecemos. Saiba mais Em princípio, a reforma apontou benefícios para as condições de vida nesses hospitais e promoveu um regime de desinstitucionalização. Assim, ocorreu uma transição gradual das instituições psiquiátricas, tornando-as foco de serviços comunitários, incluindo-as como eixo da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que tiveram influência pela assistência dos centros de saúde mental italianos e de outros países europeus. No Brasil, após os progressos gerados no sistema psiquiátrico, as práticas em saúde mental foram valorizadas sob a ótica do cuidado aos pacientes com transtorno mental, aos familiares e indivíduos em uso de substâncias psicoativas por meio de ações com abordagem clínica e reabilitação psicossocial. A publicação da Lei nº 10.216/2001 da reforma psiquiátrica permitiu a garantia dos direitos da pessoa com transtorno mental, a participação de suas famílias no tratamento e sua defesa contra qualquer forma de abuso. Dessa forma, ocorreram diversas ações específicas voltadas para melhor assistência aos pacientes nas instituições de longa permanência, como foi o caso do desenvolvimento do Serviço Residencial Terapêutico (SRT), que veremos a seguir. Rede de atenção psicossocial (RAPS) Por meio da reforma psiquiátrica, o país avançou nas políticas de saúde, o que levou à elaboração da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Esse programa de atenção à saúde foi normalizado pela Portaria nº 3.088/2011, por meio da adesão a serviços estratégicos, como o Serviço Residencial Terapêutico (SRT), o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), o Ambulatório de Saúde mental, leitos em hospitais gerais, hospitais-dia etc. Nesse contexto, os serviços demandaram prioridade no trabalho multidisciplinar, geralmente compostos por médico, enfermeiro, assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional, entre outros, que realizam ações e atividades de acolhimento, orientação dos pacientes de forma individualizada, em grupos e com os familiares. Assim, surgiu uma nova organização dos serviços e estratégias, que estabeleceu a integração e a continuidade do cuidado por meio de um diálogo entre os serviços e a formação de vínculos entre profissionais e pacientes. Isso ocorreu em oposição ao modelo de gestão anterior, que apresentava fragmentação das práticas clínicas e dos programas, ofertando ações curativas isoladas entre os serviços e as especialidades. Consultório na rua A população em situação de rua apresenta condições ruins de saúde e nível social, inclusive no que diz respeito ao alcance aos direitos sociais básicos e previstos na Constituição. A privação das camadas marginalizadas pela falta de ingresso no mercado de trabalho formal, acesso à educação qualificada, atendimento nos serviços de saúde e a vários outros serviços públicos, favorecem a construção da imagem social negativa desses indivíduos. Tudo isso interfere no comportamento dos profissionais, prejudicando as interações na atenção e no cuidado, produzindo estigma e preconceitos com relação a essa parcela da população. O consultório na rua surgiu como uma estratégia de acolhimento e cuidado à saúde da população em situação de rua, o qual oferece suporte social, envolvimento e expectativas de transformações para a população atendida. Além disso, auxilia nos desafios experimentados pela população em situação de rua, entre eles a dificuldade de acesso aos serviços públicos associados ao preconceito e à discriminação por parte de profissionais nas Redes de Atenção à Saúde. Nesse programa, realizam-se ações de forma itinerante, ou seja, que se deslocam de um lugar para outro. Tais atividades são desenvolvidas por equipes multiprofissionais que olham o indivíduo integralmente, observando todas as suas necessidades. Caso seja necessário, essas atividades podem ser articuladas em parcerias com as Unidades Básicas de Saúde (UBS) do território. Serviço de assistência domiciliar (SAD) A visita domiciliar é um método utilizado por diferentes profissionais, que tem como finalidade o atendimento ou acompanhamento dos usuários em suas residências. As visitas podem servir para a criação vínculos com pacientes, preferencialmente os que possuem dificuldade de locomoção ou que são acometidos de depressão, tendo como ponto positivo a familiarização dos profissionais no cenário onde os sujeitosestão inseridos. A partir do vínculo construído com os usuários, tais visitas oferecem relevância à dimensão subjetiva das práticas em saúde, das vivências dos usuários e dos trabalhadores da saúde, gerando ambientes de comunicação entre conhecimento e prática, além de novo sentido para o cotidiano. No Brasil, a visita domiciliar existe como uma ação praticada dentro do SUS por profissionais das equipes de ESF, e atualmente pelo NASF. Nesse sentido, atua na composição de novos métodos de formação do processo de saúde e cuidado, visto que, por meio dessa atividade, o profissional passa a entender os problemas de saúde dos indivíduos no ambiente no qual eles estão estabelecidos. Nesse contexto, a proximidade dos profissionais da saúde pode propiciar maior entendimento sobre o processo de saúde e doença. Academia da saúde O programa Academia da Saúde foi criado em 2011 por meio de repasse de recurso federal como estratégia de fortalecimento da promoção em saúde e construção do cuidado nas comunidades, atuando em locais públicos conhecidos como sedes do programa. Esses espaços oferecem infraestrutura, equipamentos para exercício físicos e profissionais qualificados para o acompanhamento. Portanto, as Academias da Saúde são compostas por estrutura e suporte de profissionais que as qualificam em relação aos tradicionais serviços de saúde, pois visam principalmente as práticas corporais e atividades físicas como recursos complementares na promoção da saúde das comunidades. Recentemente, o programa teve seu objetivo ampliado contribuindo para um comportamento de vida saudável da população, completando o cuidado e fortalecendo as práticas de promoção da saúde, vinculado a outros programas e ações de saúde como a ESF, os NASF-AB e de Vigilância em Saúde. O trabalho desenvolvido no programa deve ser adaptado ao território, com abrangência das práticas corporais (dança, esportes, musculação, natação) e atividades físicas, atividades de vida saudáveis, alimentação saudável, práticas integrativas e complementares, práticas artísticas e culturais, educação em saúde e mobilização da comunidade. HumanizaSUS A Política nacional de humanização (PNH), também chamada de HumanizaSUS, foi elaborada em 2003 pelo Ministério da Saúde a partir da observação de vivências contemporâneas e consistentes que integram o SUS. A metodologia da PNH promove e assegura o relacionamento entre pessoas, instituições, práticas, saberes, poderes, entre outros elementos, para a criação coletiva de enfrentamentos em comum. A PNH promoveu transformações em atenção e gestão ao propor uma reflexão no contexto da saúde pública no Brasil, promovendo mudanças coparticipativas entre trabalhadores, gestores e usuários. O HumanizaSUS mobiliza o sistema de saúde, contribuindo para manter a cidadania e a resolução dos desafios enfrentados na rede que o sustenta, envolvendo governo federal, estadual e municipal. Nesse sentido, a PNH contrastou das demais políticas de saúde em sua busca pela totalidade das práticas do cuidar, procurando solucionar sua fragmentação ao ressaltar a dependência entre atenção e gestão. Para exercer a humanização, é imprescindível que os participantes dos processos em saúde reconheçam-se como responsáveis por suas práticas, a fim de assegurar a universalidade do acesso, a integralidade do cuidado e a equidade nas ofertas de saúde. Política nacional de práticas integrativas e complementares do SUS (PNPIC) No Brasil, a formação das práticas integrativas e complementares de atenção à saúde teve início a partir da criação do SUS. A relação dessas práticas executadas nas unidades de saúde compreende modalidades que integram medicina tradicional chinesa, homeopatia, fitoterapia, práticas corporais e meditativas, entre outros. Essa modernização na forma de fazer saúde ocorreu a partir de um movimento caracterizado por ideias inovadoras de aprendizado e práticas da saúde multidisciplinares e direcionadas. Tais ideias trouxeram uma percepção tecnológica de saúde que domina a sociedade de mercado, regida por convênios de saúde cujo objetivo é fragmentar o cuidado ao paciente em especialidades que não consideram uma abordagem integral e preventiva. Nesse contexto, as práticas integrativas podem colaborar para a inclusão de gênero interdisciplinar, ou seja, possibilitam esclarecer que se trata de ações sustentadas e de acentuada importância para práticas que se destacam no trabalho de saúde pública. A utilização dessas práticas no SUS requer reflexão ao explorar sua adoção na política nacional brasileira, pela inclusão de métodos tecnológicos cada vez mais refinados e caros. Esses sistemas caracterizam-se por procedimentos que estimulam a prevenção de agravos e recuperação da saúde com destaque na escuta receptiva, no crescimento do vínculo terapêutico, na interação do ser humano com o meio ambiente e a sociedade, na visão amplificada do processo saúde-doença e o estímulo ao cuidado humano, especificamente ao autocuidado. As Práticas integrativas e Complementares (PIC) foram implementadas a partir de 2006, quando a política foi criada. Em 2006 eram cinco: Acupuntura, Termalismo, Antroposofia, Fitoterapia e Homeopatia. Em 2017 foram incluídas mais catorze PIC: Ayurveda, Arteterapia, Biodança, Meditação, Dança Circular, Musicoterapia, Naturopatia, Osteopatia, Reiki, Yoga, Quiropraxia, Reflexologia, Shantala e Terapia Comunitária. Já em 2018 a lista foi complementada por Aromaterapia, Apiterapia, Constelação Familiar, Cromoterapia, Geoterapia, Ozonioterapia, Imposição de Mãos, Terapia de Florais, Hipnoterapia e Bioenergética. Assim, hoje somam-se 29 PICs ofertadas pelo SUS. Contudo, ainda é necessária a ampliação para todos os estados e municípios, além de profissionalização e capacitação nessas práticas nos serviços de saúde. Rede cegonha A Rede Cegonha é composta por um conjunto de ações com o objetivo de garantir um serviço qualificado, seguro e humanizado para todas as mulheres. O propósito consiste em ofertar, com a cobertura do SUS, assistência no planejamento familiar, desde a confirmação da gravidez, na fase pré-natal, parto, nos 28 dias de puerpério, até os dois anos de idade do bebê. Confira a seguir as principais diretrizes da rede cegonha: Garantia de atendimento para avaliação e classificação de risco e vulnerabilidade, de forma a ampliar o acesso e melhorar a qualidade da fase pré-natal. Fidelização da gestante à unidade realizadora do parto. Bons hábitos na atenção ao parto e nascimento. Cuidado à saúde das crianças de 0 a 2 anos a fim de promover e manter o alcance sobre as ações de planejamento familiar. O programa busca a sistematização da assistência à saúde da mulher e da criança, promovendo um modelo novo de atenção ao cuidado desde o parto até o nascimento, crescimento e desenvolvimento das fases iniciais da criança. Dessa forma, a rede de atenção materna-infantil estaria organizada e com a garantia de total acesso, amparo, resolução e redução da mortalidade, com destaque para assistência neonatal. Programa saúde na escola (PSE) O PSE destaca-se por ser uma das principais políticas públicas para infância e adolescência. Tem por objetivo oferecer uma variedade de intervenções preventivas, de promoção e atenção à saúde da criança, adolescentes e jovens que cursam o ensino básico público. Esse acompanhamento ocorre em conjunto com as escolas públicas e as equipes de ESF durante a realização de atividades direcionadas aos alunos. Confira a seguir elementos que compõem o programa: Avaliação clínica, nutricional, oftalmológica. Instrução sobre alimentação saudável. Ações de educação sobre atividade física e cultura no ambiente escolar. Inserção de temas de educação em saúde no plano pedagógico das escolas. O PSE objetiva auxiliar na educação dos estudantes por meio de ações de prevenção, promoção e atenção à saúde para o completo desenvolvimentode crianças e jovens da rede pública de ensino. Dessa forma, a atuação ocorre dentro do território das ESF e abrange não só os estudantes da rede básica de ensino, mas também gestores, profissionais da educação e saúde e da organização escolar. A promoção da saúde no contexto escolar deve ocorrer como um processo permanente e contínuo para que as ações de prevenção se tornem cada vez mais eficientes. Política nacional de alimentação e nutrição (PNAN) Com a publicação do Decreto nº 7.508/2011 deu-se a regulamentação de protocolos clínicos e terapêuticos que possibilitaram progressos no domínio do SUS sobre a organização e oferta de práticas alimentares e nutricionais. Essas ações levaram aos princípios e diretrizes da PNAN no exercício de uma melhor abordagem em saúde e segurança alimentar-nutricional. A PNAN objetiva a melhoria das ações relacionadas a alimentação, nutrição e saúde da população brasileira por meio da promoção de rotinas alimentares corretas e saudáveis, da prevenção e do cuidado a agravos relacionados à alimentação e à nutrição. A atenção nutricional deve ser capaz de identificar deficiências na saúde da população pela qual é responsável, colaborando na organização de ações sobre as reais necessidades dos usuários. No atual cenário brasileiro, são prioridades ações de prevenção e tratamento de obesidade, carências nutricionais, desnutrição e doenças crônicas não transmissíveis. É também importante o cuidado aos indivíduos portadores de necessidades alimentares especiais, como os transtornos alimentares, distúrbios alimentares genéticos, entre outros. No campo da Atenção Básica, as equipes referenciadas devem ser sustentadas por equipes multiprofissionais, com a presença de técnicos e especialistas da área de nutrição, que deverão coordenar outros profissionais no aperfeiçoamento das ações nessa dimensão. Política nacional da saúde dos povos indígenas O objetivo dessa política é assegurar o acesso à saúde integral pelos povos indígenas, em concordância com os princípios e diretrizes do SUS, considerando as desigualdades históricas às quais essa população foi exposta, tornando-a mais susceptível a danos à saúde. A política visa a superação desse passado histórico e busca considerar a competência da medicina para os povos indígenas e a legitimação de sua cultura. As comunidades são atendidas nos chamados polos-base, que podem estar localizados na comunidade indígena ou no município referenciado, conhecidos como modelos para os agentes indígenas de saúde que atuam nas aldeias. Geralmente, correspondem à unidade básica de saúde já existente na rede de serviços de determinado município, à qual cabe a resolução da maioria dos agravos à saúde. Garantir a efetividade dessa política exige a utilização de um modelo suplementar e particularizado que componha os serviços, garantindo espaço para os indígenas no desempenho de seu papel como cidadãos. Portanto, é fundamental a criação de uma rede de serviços no território indígena para minimizar a carência de cobertura, acesso e aceitação do SUS. Nesse sentido, é fundamental a prática de ações que permitam melhorias no desempenho e regulação do sistema de saúde, tornando possível a utilização de tecnologias pertinentes por meio de planejamento de serviços. A atenção básica nas aldeias é desempenhada regularmente por meio de agentes indígenas de saúde e por equipe multidisciplinar, de acordo com a organização de suas ações. Política nacional de saúde integral da população negra De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de 2015 os dados apontaram que 53,9% da população brasileira se reconhecia de cor ou raça preta ou parda. Saiba mais O Ministério da Saúde compreende a condição de desigualdade e fragilidade que afeta a saúde da população negra, altos índices de mortalidade materna e infantil, óbitos precoces, alto predomínio de doenças crônicas e infecciosas e elevados casos de violência. Assim, admite que o preconceito que muitas pessoas negras sofrem recai negativamente nesses preceitos, prejudicando seu ingresso aos serviços públicos de saúde, causando diversas situações para a introdução dos indivíduos nos diferentes círculos da sociedade de forma idônea, que permita sua autossuficiência como cidadãos. Nesse contexto, o Ministério da Saúde, em conjunto com o ParticipaSUS, criou em 2009 a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Esse programa tem como objetivo o enfrentamento ao racismo e às injustiças étnico-raciais, combate ao racismo nas instituições e no SUS, buscando progresso na equidade em relação à saúde. Atenção integral à saúde das pessoas no sistema prisional Em 2014, o Ministério da Saúde apresentou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional (PNAISP). Tal política foi desenvolvida com o propósito de ampliar as ações de saúde do SUS para a população em reclusão, transformando cada unidade básica de saúde prisional com processos que podem impactar diretamente no resultado da Rede de Atenção à Saúde. O programa visa garantir o acesso dessa população ao SUS, de acordo com a lei dos direitos humanos e de cidadania, caracterizando a atenção básica na esfera prisional, e vinculado a outros recursos dessa rede no território. As unidades do programa carcerário deverão ter Unidade Básica de Saúde Prisional composta por equipes multiprofissionais, que apresentarão ações de promoção à saúde e prevenção a agravos. Se não for possível sua instalação na unidade prisional, a Unidade Básica de Saúde do território poderá se responsabilizar. A PNAISP surgiu após dez anos de execução do Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário (PNSSP), na constatação de seu enfraquecimento pelo não cumprimento de suas proposições destinadas ao programa carcerário como as cadeias públicas, delegacias e distritos policiais, colônias agrícolas ou industriais e penitenciárias federais. Consequentemente, essas transformações apontaram benefícios na defesa dos direitos humanos no Brasil. Telessaúde Brasil redes O ministério da saúde criou em 2006 um projeto piloto de Telessaúde, com a determinação de auxiliar a ESF em nove estados brasileiros. Esses núcleos servem para dar apoio ao diagnóstico em regiões distantes do país contribuindo para a garantia do bem-estar da população onde geralmente existe carência de profissionais. O médico atende o paciente usando a consulta por intermédio de tecnologias disponíveis, com prontuário eletrônico, por meio da plataforma de telessaúde. Essa ação ocorre de forma digital, realizada com o apoio de tecnologias da informação e de comunicação. O ministério da saúde, por meio da Portaria nº 2.546/2011, ampliou o programa, que passou a ser chamado Programa Telessaúde Brasil Redes. Assim, sob a ótica de uma gestão participativa, foi ampliado para quase todos os estados brasileiros. Sistema de informação (DATASUS) DATASUS significa Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde, criado em 1991 por meio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Tem o compromisso de difundir melhorias e modernidade apor meio da tecnologia da informação para apoiar o SUS. No período de transição, a fundação começou a realizar o controle e o tratamento dos dados referentes à saúde, que eram da Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social (DATAPREV). O DATASUS tem como função abastecer o SUS com sistemas de informação e suporte de informática, fundamentais para o planejamento, a execução e a monitorização. Atualmente, o serviço é um extenso fornecedor de soluções de software para as secretarias estaduais e municipais de saúde, moldando seus processos de acordo com as necessidades dos gestores e inserindo novas tecnologias na medida em que a descentralização do poder público se concretiza. Política nacional de saúde bucal - Brasil sorridente Há algumas décadas, o alcance dos brasileirosem relação à saúde bucal era consideravelmente complexo e restrito. Além disso, a dificuldade na procura a atendimento em conjunto com a limitação dos serviços odontológicos ofertados fazia com que o principal tratamento oferecido pela rede pública fosse a extração dentária, mantendo uma imagem adulterada sobre odontologia e do dentista, com exercício focado apenas na atenção clínica. Diante disso, em 2003, o Ministério da Saúde criou a Política Nacional de Saúde Bucal, chamada de Programa Brasil Sorridente. Esse programa estabeleceu uma sequência de critérios que buscam a garantia de práticas preventivas e de promoção/recuperação da saúde bucal dos brasileiros, que são essenciais para a saúde em geral e para a qualidade de vida da população. O propósito da política é a restruturação das condutas e a da qualidade das ações e serviços ofertados, constituindo um conjunto de práticas em saúde bucal voltadas para os usuários de várias faixas etárias, ampliando o alcance ao tratamento odontológico gratuito dos brasileiros por meio do SUS. Assim, o programa possibilitou o acesso da população às suas ações, que tem as seguintes recomendações: Reconstrução da atenção básica em saúde bucal. Expansão e qualidade da atenção especializada. Incorporação de flúor aos canais de tratamento de águas de distribuição pública. Política Nacional de Gestão Estratégica e Participativa no SUS A principal função dessa política é a orientação em relação a ações de promoção, qualificação de gestão estratégica e igualitária das políticas públicas na esfera do SUS. Por isso, todos os indivíduos que estão envolvidos nas ações de gestão podem participar do processo de decisão e compartilhar competências e responsabilidades. Essa metodologia democrática e descentralizadora proporciona igualdade às ações. Por isso, necessita que sejam adotadas práticas e estratégias eficientes para a participação dos profissionais da área de saúde e da comunidade em consonância com os gestores públicos. A gestão participativa é um método perspicaz, existente nos processos comuns na gestão do SUS, que torna possível a definição e a discussão no processo de controle social, pois determina a escolha de práticas e estruturas que realizem a participação dos profissionais de saúde e da comunidade. A gestão estratégica prevê a expansão dos espaços públicos e coletivos para a prática do diálogo e da aceitação das diferenças, de maneira a formar um conhecimento partilhado sobre saúde, mantendo as características individuais existentes na relação entre os indivíduos inseridos na coletividade. A gestão estratégica e participativa do SUS é formada por uma rede de atividades direcionadas ao aperfeiçoamento do trabalho na gestão. Esse modelo de gestão busca efetividade a partir de ações que abrangem: o Apoio à participação da população no processo de controle e criação de políticas de saúde. o Apoio à educação que promove o apoio popular. o Empenho em razão da equidade, a partir de ouvidoria e auditoria. Comando da ética nos serviços públicos de saúde. Assim, a ampliação do movimento e do controle social podem ocorrer com o auxílio de outras formas de comunicação entre a comunidade e o governo. Por exemplo, a partir da promoção da educação popular, conselheiros, qualificação de lideranças, associações de classe e atividades populares articuladas, baseando-se no princípio da equidade em saúde e buscando a atenção às particularidades de cada indivíduo. Atenção! É extremamente importante que os gestores conheçam os problemas que acontecem no pleno exercício da gestão para que possam enfrentá-los. A falta de planejamento, quando acontece, coloca em risco a eficiência de todo o processo de trabalho, necessitando de ações ou gastos desnecessários. Para o gerenciamento do trabalho com equipe multiprofissional, é necessário gestores atentos, que tenham o intuito de evitar conflitos. A qualidade no atendimento deve ser um objetivo constante da gestão para que o planejamento esteja comprometido com o alcance da universalidade. Além disso, o financiamento dos serviços precisa de um cuidado minucioso dos gestores, porque é por meio dele que se torna possível a realização de ações e projetos. Assim, é imprescindível o conhecimento das questões financeiras para que o gestor tenha condição de administrar bem e de desenvolver estratégias que tragam resolução. O Pacto pela Saúde do SUS, como veremos a seguir, é a confirmação da importante participação no controle social nos processos. As estruturas que o compõem incentivam a organização da sociedade para um desempenho efetivo do controle social na saúde, impulsionam a participação social e personalizam a gestão participativa do SUS, tendo pela frente a tarefa de assumir a construção de modelos de atenção e gestão da saúde, regido pela ótica das necessidades, demandas e direitos de toda a população. Panorama e desafios do SUS no cenário atual No Brasil, o propósito do Pacto pela Saúde constitui-se sobre a necessidade de reduzir as desigualdades sociais, causadas por razões determinantes e condicionante como hábitos de vida, educação, trabalho, habitação, cultura, ambiente, lazer, acesso a bens e serviços essenciais, entre outros. Entre os diversos desafios sobre realizar saúde pública com qualidade em um país como o Brasil, existem as reais vulnerabilidades do SUS. A principal ameaça na reorganização da Política Nacional de Atenção Básica é o modelo assistencialista brasileiro. Para sua execução, é fundamental o envolvimento de todos os atores relevantes para o campo da saúde. Ao longo dos últimos anos, podemos observar o enfraquecimento do trabalho em saúde, com ausência de políticas eficazes do governo federal. O ideal seria o reconhecimento dos profissionais da atenção básica, buscando a valorização do trabalho em saúde, com políticas de pessoal e de dedicação exclusiva nos estabelecimentos do SUS. Certamente, isso contribuiria para uma atenção básica autêntica e inabalável quanto a qualidade. O SUS é o maior sistema público de saúde do mundo, no entanto diversos problemas fazem com que o sistema não seja tão eficiente quanto deveria. Vejamos a seguir uma tabela com os principais desafios e possíveis soluções para um sistema de saúde brasileiro mais efetivo. Sistema Único de Saúde Principais desafios Possíveis soluções Melhorias na produtividade dos profissionais da saúde. Promover treinamentos para a integração de novos profissionais. Fornecer constantes capacitações e palestras atualizadas sobre as inovações na área. Estabelecer metas qualitativas e quantitativas juntamente com as equipes para estimular o trabalho e a produtividade. Oferecer gratificações por desempenho com base nos resultados obtidos. Alto custo de aquisição e manutenção de equipamentos e medicamentos. Indicar bons gestores em todas as áreas. Suprir necessidades de acordo com o diagnóstico do território, reduzindo as deficiências locais; esta ação deve ser realizada pelo gestor municipal. Acompanhar e cobrar resultados e cumprimento das metas estabelecidas. Utilizar um sistema de gerenciamento em saúde de armazenamento de informações com histórico de pacientes. Utilizar um sistema de informação que permita gerenciar todas as unidades. Aliviar o atendimento em prontos-socorros. Incentivar a cultura de prevenção para evitar pressão sobre esse tipo de atendimento. Propor mutirões para orientação de prevenção de doenças ou, por exemplo, de vacinação. Investir no Programa Saúde da Família, Programa Remédio em Casa e acompanhamento psicossocial. Sistema Único de Saúde Principais desafios Possíveis soluções Controlar agendamentos, atendimentos, medicamentos e exames realizados pelos estabelecimentos de saúde do SUS, por meio do software da Betha Saúde Cidadão. Diminuir a espera na recepção. Informatizar a rede com um sistema de gestão hospitalar. Coletar dadosa partir de prontuários eletrônicos para agilizar o atendimento e reduzir chance de erros. Utilizar ficha informatizada, onde são disponibilizados aos profissionais dados que auxiliem em futuros tratamentos, com a possibilidade de serem acessadas remotamente. Tabela: Principais Desafios e Possíveis Soluções do SUS. Rafaela Brito de Moraes. Considerações finais Ao longo dos últimos anos, a vivência do Brasil na realização de uma política de saúde trouxe profundas transformações do sistema nacional de saúde e melhorias significativas no acesso e na qualidade dos cuidados dessa área. Embora tenham ocorrido vários progressos no campo da saúde coletiva, ainda existem muitos desafios importantes, que só poderão ser confrontados se houver a definição de uma política centralizada, atualizada e alinhada com os direitos universais, em relação às demandas de saúde da população brasileira. Nesse sentido, todo o empenho deverá ser proposto na construção de um consenso amplo, que provoque a continuação dos progressos já obtidos nos programas e políticas de saúde do SUS, criados para garantir e melhorar a saúde individual e coletiva em determinado território. Portanto, podemos concluir que a saúde pública é heterogênea, constituída por diversos setores que formam uma rede complexa de atendimentos e serviços, cabendo aos gestores municipais a responsabilidade de ajustar os recursos decorrentes dessa produção frente as necessidades dos usuários do SUS.