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Perspectivas sobre o conceito de saúde
A construção histórica do conceito de saúde, as diversas concepções atuais e a importância do cuidado
baseado na perspectiva ampliada da saúde.
Alice Medeiros Lima
1. Itens iniciais
Propósito
Compreender a evolução do conceito de saúde ao longo da história para a produção de um cuidado baseado
na concepção ampliada de saúde, proporcionando uma atuação profissional pautada na prestação da
assistência integral.
Objetivos
Descrever a evolução do conceito de saúde ao longo da história.
Identificar a importância da atuação profissional de acordo com a concepção ampliada da saúde.
Introdução
O que é saúde para você? 
Se pensar de uma perspectiva unicamente física, pode ser que sua resposta tenha relação com o
funcionamento dos seus órgãos, pensando no corpo como algo meramente biológico. Mas, se você parar para
pensar um pouco mais, pode ser que sua concepção se amplie, principalmente se associar sua resposta a
essa pergunta: “O que me faz bem?”. Possivelmente, com base nessa reflexão, o seu conceito de saúde vai
sofrer modificações.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), saúde não é apenas a ausência de doenças ou
enfermidades, mas um completo bem-estar físico, mental e social.
Será possível atingirmos essa plenitude?
Muitos autores criticam essa concepção de saúde que a OMS defende desde o final da década de 1940,
acreditando que é utópica (fantasiosa) e inatingível. Já outros pesquisadores acreditam que é importante
manter esse conceito, para que não cesse a busca por melhores condições de vida. Discutiremos a questão
ao longo deste módulo.
É muito importante estudar a história da saúde, pois assim entendemos como muitas questões surgiram e
ainda estão presentes na área, trazendo consequências para o cuidado. E, nesse caminhar, podemos ainda
ampliar o conceito de saúde e pensá-la sob várias perspectivas: biológica, social, política, cultural, econômica,
entre outras.
Um de nossos objetivos é que você possa futuramente produzir um cuidado integral ao indivíduo e à
coletividade.
• 
• 
1. A evolução do conceito de saúde
Você sabe o que é saúde?
Neste vídeo, a conteudista levará o aluno a uma reflexão: você sabe o que é saúde? O que é uma pessoa
saudável? O que é uma pessoa doente?
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Você se considera saudável?
Afinal, o que quer dizer saudável? 
Para começar, vamos pensar em dois exemplos: 
Exemplo
Maria tem 34 anos, possui casa própria, carro, trabalha, é diabética e hipertensa; João tem 33 anos, está
desempregado, mora numa casa de dois cômodos com sete familiares, o seu quintal tem esgoto a céu
aberto e a única alimentação diária, economicamente possível, é macarrão. 
Você consegue avaliar qual dos dois é mais saudável? 
Essa resposta é difícil, precisaríamos de mais dados, mas podemos afirmar que, no caso de João, mesmo sem
doenças diagnosticadas, temos claramente uma família com a cidadania afetada, sem acesso à saúde. 
Podemos pensar em mais duas situações: 
Exemplo
Sérgio tem 40 anos, trabalha em um supermercado, possui casa, seus três filhos estão na escola e, para
dormir, toma duas taças de vinho todas as noites; já Rita, também com 40 anos, é professora, tem casa
própria e usa duas medicações prescritas pelo médico para tratar sua ansiedade exacerbada – sem a
medicação, não consegue realizar as atividades do cotidiano, como trabalhar e dormir. 
Você consegue avaliar qual deles necessita de acompanhamento mais intenso dos profissionais de saúde? 
Outra resposta complexa, mas podemos perceber, de maneira mais clara, que Rita está com maiores prejuízos
em sua saúde. 
Há muitas concepções culturais, históricas, sociais e políticas envolvidas nas discussões sobre saúde e
doença. Desde os primórdios da humanidade, as pessoas já realizavam ações para proteção individual e do
grupo de que faziam parte. Veremos aqui os períodos históricos e a relação da população com a saúde e o
adoecimento. 
Precisamos compreender todo o processo de transformação do conceito de saúde ao longo dos anos, para
entender o que é um cuidado humanizado e integral. Tendo acesso às questões históricas envolvidas no
processo saúde-doença, podemos refletir sobre ações e “não ações” que ainda acontecem no cotidiano dos
serviços de saúde, tendo como pano de fundo uma concepção reducionista sobre o que é saúde. 
Você já passou por uma situação em que precisou procurar atendimento em algum serviço de saúde
e, ao estar diante do profissional, não se sentiu acolhido?
Possivelmente sim. É comum ouvirmos relatos
de pessoas frustradas com o atendimento
recebido. Frases como “Ele nem me examinou”,
“Ela disse que não tenho nada”, “Ela só passou
a receita e não me explicou nada infelizmente
são frequentes. Entre os tantos fatores que
podem causar esse “descuido”, estão os
históricos, sociais, culturais e políticos relativos
ao conceito de saúde e de adoecimento.
Pré-história e Idade
Antiga
Neste vídeo, a conteudista irá abordar como evoluiu o conceito de saúde, desde a Pré-História até a Idade
Antiga.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Pré-história (Até cerca de 4000 A.C.)
Temos registros da arqueologia, da história e de outras áreas do conhecimento sobre a organização e os
hábitos na Pré-história.
Necessidades básicas
Desde os primórdios da humanidade, a preocupação com a saúde existe. Homens e mulheres
preocupavam-se em comer, dormir, proteger-se do frio e do calor.
Socialização
Aos poucos, aprenderam sobre o controle do fogo, o que, segundo estudos, ajudou para que
ocorresse alguma socialização entre os grupos.
Moradia
Prioritariamente, os grupos viviam como nômades, ou seja, não tinham moradia fixa por muitos anos.
O pensamento mágico-religioso predominava nesse período. O adoecimento, na maior parte das vezes, era
considerado castigo dos deuses ou maldição dos demônios. Registros históricos mostram que, em
determinados períodos da Pré-história, ocorreram sepultamentos (com oferendas), o que leva à hipótese de
que algumas civilizações poderiam acreditar em vida após a morte.
Outro fato importante é que a “primeira forma de cuidado” já existia na Pré-história: o instinto materno de
proteção. Ou seja, as mães podem ser consideradas as primeiras cuidadoras da história da humanidade.
Em muitas culturas, existiu uma figura
responsável pela manutenção da ordem, da
saúde, do cuidado. Algumas contavam com
benzedeiras e curandeiras, outras com xamãs
ou sacerdotes. Os recursos de assistência
utilizados variavam desde rituais, rezas, chás
de ervas e plantas, oferendas e até sacrifícios.
Você acha que ainda hoje esses recursos
são utilizados no cuidado? Será que o
pensamento mágico-religioso ainda
atravessa a questão da saúde e do
adoecimento?
A resposta é sim! E é importante valorizarmos as diferenças culturais, com postura ética e acolhedora. Os
cuidados que envolvem sabedoria popular devem ser respeitados, eles muitas vezes têm efeitos positivos
naqueles que acreditam em práticas culturalmente apreendidas e que avançam pelas gerações seguintes. É
primordial reforçar a importância do cuidado científico, porém ele não pode ser antagônico ao cuidado que
advém da cultura individual.
Exemplo
Não devemos julgar ou desvalorizar a religião de uma paciente hipertensa, que faz uso correto da
medicação e tenta se adequar às mudanças de hábitos de vida propostas pela equipe multiprofissional
de saúde, se ela também gosta de ir semanalmente na sua igreja (ou onde quer que seja) receber uma
reza ou oração com o intuito de cuidar da saúde. 
Não devemos emitir julgamentos, pois a paciente cumpre as propostas do seu acompanhamento em saúde e
complementa o próprio cuidado com aspectos que considera importantes para viver.
Idade antiga (4000 A.C. a 476 D.C.)
Na Antiguidade, estudos históricos e
arqueológicos mostram uma série de práticas
de cuidado e assistência à saúde em diversas
civilizações. Ainda nesse período, a morte ou o
adoecimento eram vistos,na maior parte das
vezes, como alguma maldição de demônios ou
castigo divino.
Sacerdotes, benzedeiras, curandeiras, xamãs,
entre outros líderes, continuavam ocupando
papel central como responsáveis pelo cuidado
em saúde. Por um período significativo, o
cuidado prestado por essas referências religiosas e místicas era feito com chás, rituais, massagens,
substâncias para afastar maus espíritos (indutoras de vômito), banhos de água fria e água quente, purgantes,
entre outros.
Atenção
É importante refletir o quanto muitas práticas e concepções permeiam a área da saúde até os dias de
hoje, mesmo depois de séculos. 
A seguir, vamos comentar sobre algumas civilizações e pontos que se destacam segundo relatos históricos da
Idade Antiga:
CHINA
Estudos mostram que, na China, já ocorria a classificação das doenças
em benignas e malignas e, a partir disso, os cuidadores se dividiam
conforme suas habilidades para lidar com situações específicas.
Podemos associar isso ao que atualmente chamamos de “classificação
de risco” e à questão atual das diversas especializações entre os
profissionais de saúde.
EGITO ANTIGO
Muitos cuidados pessoais eram direcionados para cuidar da saúde, como
o hábito de raspar os cabelos e utilizar perucas para evitar piolhos.
Alguns relatos mostram que existiam práticas de hipnose e interpretação
de sonhos. O destaque maior vai para a mumificação, cujo intuito era
manter a alma presa ao corpo, pois os egípcios acreditavam em vida após
a morte. Com isso, a habilidade de fazer ataduras e assepsia do corpo
tornou-se um cuidado complexo no Egito Antigo.
PALESTINA
Existem registros da preocupação das mulheres em trabalho de parto, no
período menstrual e durante a amamentação. Também é possível
encontrar documentos que demonstram que havia preocupação com o
sono, o descanso e algumas patologias, como a tuberculose. Moisés foi
uma figura importante quando se pensa em saúde, pois, segundo relatos,
difundia a importância dos cuidados de higiene, como afastar objetos
contaminados e realizar exame físico nas pessoas consideradas doentes.
ÍNDIA
Há registros de realização de suturas, amputações e correções de fratura
na Índia, assim como a presença de hospitais com narradores de histórias
e músicos para cuidar dos que estavam adoecidos. É importante reforçar
que tudo indica que somente na Índia existia hospital nesse período da
história.
GRÉCIA
É importante destacar que Hipócrates, na Grécia, apresentou grandes
avanços nos estudos do corpo humano, criando a teoria dos quatro
humores, referindo-se à importância do equilíbrio interno do organismo,
que também sofre influência do meio externo. Percebe o avanço? A
concepção mágico-religiosa começa a ceder espaço para um olhar mais
científico em relação à saúde e ao adoecimento.
Muitas outras civilizações na Antiguidade contribuíram para a história da construção das políticas de saúde e,
como já percebemos, nos deixaram práticas que ainda atravessam o cotidiano da área da saúde.
Idade Média e Idade Moderna
Neste vídeo, a conteudista irá abordar como evoluiu o conceito de saúde, desde a Idade Média até a Moderna.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Idade média (476 D.C. a 1453)
A Idade Média, também conhecida como “Período das Trevas”, durou cerca de mil anos. Foi um período
obscuro em muitos sentidos, com grandes retrocessos, epidemias, perseguições.
Nesse período, o poder se centraliza nas mãos da Igreja Católica. Todos os campos eram controlados pela
Igreja: educação, cultura, economia, política e saúde. Os cuidados eram direcionados aos mais pobres e
doentes. Diante do temor do inferno, a maior parte da população tinha grande dedicação à caridade. A elite
abria seus palácios para cuidar dos necessitados com o intuito de garantir um lugar no céu.
Saiba mais
Na Idade Média, as práticas de saúde que estavam apresentando algum desenvolvimento foram
interrompidas e direcionadas por um viés religioso. Os hospitais começaram a surgir como verdadeiros
campos de redenção. Não eram locais científicos e terapêuticos e sim depósitos de pessoas para a
produção de caridade e doutrinação religiosa. 
Você percebeu que muitos hospitais ainda hoje possuem nomes religiosos?
É comum vermos capelas e altares com santos em hospitais. Isso se deve ao fato do aparecimento
significativo dessas instituições na Idade Média sob a direção da Igreja Católica. Os considerados desviantes,
aqueles não católicos que queriam estudar e cuidar de pessoas doentes ou necessitadas, eram perseguidos.
A tortura era autorizada e o Tribunal da Santa Inquisição foi implantado para julgar atos hereges.
Já se perguntou por que desde criança ouvimos histórias sobre bruxas e maldições?
Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, um dos
primeiros hospitais do país.
Milhares de mulheres foram queimadas ou
condenadas à morte nesse período por não se
submeterem à Igreja Católica e por produzirem
cuidados com base em estudos ou outras
crenças. Por representar uma ameaça ao
domínio da instituição vigente, essas mulheres
eram acusadas de bruxaria e responsabilizadas
pelas grandes epidemias que dizimavam a
população naquele momento.
Finalizando, o que você percebe de herança do
período medieval nas práticas atuais de saúde?
Muitos pontos podem ser analisados, mas a
questão da “caridade” ainda parece estar atrelada equivocadamente ao cuidado e ao conceito de saúde. A
ideia de que a atuação na saúde é doação, sacerdócio, não pressupõe boa remuneração, bom salário. Esse
aspecto pode influenciar negativamente a valorização do profissional de saúde, e bem sabemos que existe um
grande investimento nessa formação.
Idade Moderna (1453 a 1789)
No período da Idade Moderna, as sociedades passaram por muitas mudanças, como a Reforma Protestante, a
transição do feudalismo para o capitalismo e as grandes navegações pelo mundo. Mesmo sendo um momento
histórico relativamente curto em relação aos demais, essas transformações sociais trouxeram impactos em
diversos âmbitos, inclusive na saúde. 
Na Europa, a Igreja Católica perde seu domínio e se iniciam os avanços na ciência, como nos estudos da
anatomia, por exemplo. As mulheres religiosas que cuidavam em nome da Igreja foram retiradas dos espaços
hospitalares e pessoas da sociedade deixaram de ter interesse nesse cuidado, uma vez que a devoção à
Igreja Católica não permeava tão fortemente as relações sociais. 
Já, no Brasil, a Irmandade da Santa Casa de
Misericórdia chegou no período colonial, em
1543, ainda com caráter de abrigo e de espaço
para leigos exercerem caridade – portanto, sem
nenhum viés científico, que só iniciaria com a
vinda da Corte portuguesa para a Colônia e a
criação das faculdades de Medicina e de
Direito.
Podemos pensar a Idade Moderna como um
momento importante para a transição na
concepção de saúde, que deixa de ser
prioritariamente objeto de intervenção religiosa
e passa a se atrelar à ciência. Hoje tal fato
ainda gera controvérsias na concepção de saúde por profissionais que polarizam a discussão do cuidado,
acreditando ser válida somente uma intervenção biológica e desconsiderando demais aspectos que envolvem
o sujeito como um todo e que precisam ser incluídos na concepção de saúde. 
Idade contemporânea até os dias atuais
Nesse vídeo, a conteudista irá abordar como evoluiu o conceito de saúde, desde a Idade Contemporânea até
os dias atuais.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Idade contemporânea (1789 até os dias atuais)
A partir de 1789
Valorização da ciência
O mundo passa a ser influenciado pelas mudanças ocorridas na Europa e
nos Estados Unidos. A ciência passa a substituir com maior expressão os
dogmas religiosos, o que reforça a concepção de saúde que vinha
ganhando força na Idade Moderna: um olhar fortemente biológico sobre o
que pode ser considerado saudável ou patológico. Todos aprendemos na
escola sobre a Revolução Francesa, que tinha como lema: “Liberdade,
igualdade e fraternidade”.
Início do século XVIII
Novo olhar para os transtornosmentais
Na França muitas mudanças importantes aconteceram em diversos
âmbitos. Na saúde, destacamos o surgimento da Psiquiatria com os
estudos do médico Philippe Pinel, que reformula os hospitais e rompe
com a ideia de loucura como algo sobrenatural. Pinel aplica o tratamento
moral aos considerados loucos, tirando deles as correntes e mordaças e
implantando o modo asilar de cuidado, que era pautado pelo isolamento
até atingir a cura.
Atualmente, sabemos que muitos transtornos mentais não têm cura, mas
podem ser cuidados a partir de uma perspectiva integral do sujeito,
dando-lhe uma vida mais digna e em liberdade. Porém, no início da Idade
Contemporânea, a visão biologicista da saúde determinava tratamentos
pautados na cura.
No século XIX
A insalubridade nas fábricas
Uma mudança econômica e social tem grande impacto na saúde: a
industrialização. O perfil de adoecimento da população muda
radicalmente. Muitas pessoas saem da zona rural para buscar emprego
nas cidades e, como não há oportunidade para todos ali e tampouco
moradia suficiente, o resultado disso é um aumento da população em
situação de rua ou vivendo em péssimas condições. O resultado foi um
grave adoecimento físico e mental da população.
Nas fábricas, a carga horária de trabalho ficava muito acima do
considerado digno, o ambiente muitas vezes era insalubre e os
trabalhadores adoeciam com as péssimas condições, os acidentes de
trabalho aumentavam. Diante dessa conjuntura, foi preciso criar
legislações para proteger a saúde desses trabalhadores, surgindo a
Medicina do Trabalho.
Movimento feminista
Diante do crescimento do capitalismo, você acha que as mudanças para a proteção da saúde do
trabalhador tinham foco no bem-estar do trabalhador ou em não prejudicar a produção nas
indústrias?
É importante destacar também que, no século XIX, os hospitais começam a sofrer grandes modificações na
Europa, e posteriormente no Brasil, afirmando-se como espaços de formação e ciência, movimento que
começou na Idade Moderna. Os médicos passam a fazer visitas regulares aos pacientes, a enfermagem surge
aos poucos como prática profissional e não leiga e outras profissões vão surgindo posteriormente. A Saúde
Pública configura um novo cenário na saúde.
Outra mudança importante na Idade
Contemporânea tem relação com o lugar das
mulheres na sociedade. Nesse período, vemos
o fortalecimento do movimento feminista, a luta
por direito ao voto, o direito aos estudos
superiores e ao trabalho. Com isso, as mulheres
vão ocupando aos poucos diversos espaços,
incluindo a atuação significativa na área da
saúde.
As concepções atuais de saúde
Como vimos no início deste módulo, atualmente
a concepção de saúde vigente é a descrita pela
Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1948,
que define saúde não somente como ausência
de doença, mas como um completo bem-estar
físico, mental e social.
Será que conseguimos atingir essa totalidade?
Se você pensar na sua vida pessoal, quanto
mais amplia os aspectos que inclui na sua
reflexão, possivelmente a chance de atingir
essa completude fica mais distante. Perceba
que utilizamos o termo “possivelmente”, pois uma reflexão inclui diversas particularidades.
Se refletirmos sobre os indivíduos sem acesso a quase todos os seus direitos básicos para
sobrevivência, devido a faltas e barreiras, não é ainda mais estranho imaginar indivíduos sem acesso
à saúde?
Muitos pesquisadores criticam essa concepção de saúde ainda vigente, com a justificativa de que é
impossível atingir esse nível de perfeição, aliada ao fato de que a OMS separar corpo, mente e social. Para
muitos autores, esses três aspectos possuem inter-relação contínua e de difícil divisão. Não é possível medir
em que parte exatamente o físico afeta o social e o psíquico e nem todas as combinações possíveis nessa
fórmula.
Muitos falam também em “qualidade de vida”. Você já deve ter ouvido frases como estas: “Aqui se
tem qualidade de vida” ou “Hoje em dia não temos qualidade de vida”. 
Afinal, o que é isso?
Assim como no processo saúde-doença, não temos uma resposta unânime. Para Segre e Ferraz (1997): 
Não é possível classificar qualidade de vida como "boa" ou "má", mesmo que a Saúde Pública, para a
elaboração de suas políticas, tenha seus indicadores – estatística de mortalidade, por exemplo. Não é
possível entender a concepção de doença como algo estático, como se fossem doentes (físicos, mentais
ou sociais) todos os que se situarem fora do que é dito “normal”.
Segre e Ferraz, 1997.
Como vimos anteriormente, muitos profissionais e pesquisadores atuam numa lógica biologicista da saúde, o
que fragiliza e minimiza as possibilidades de cuidado.
Em 1978, houve a Conferência Internacional de
Atenção Primária à Saúde, na cidade de Alma-
Ata (onde hoje se localiza o Cazaquistão),
conhecida como Conferência de Alma-Ata que
gerou direções importantes para muitos países
de todo o mundo. Essas diretrizes, voltadas
para a valorização da Atenção Primária à
Saúde, propôs sistemas de saúde universais, ao
alcance de todos, olhando cada pessoa em sua
singularidade e em seu coletivo, de maneira
integral, buscando romper com a lógica
curativista e hospitalocêntrica.
Saiba mais
A Declaração de Alma-Ata se compõe dez itens que enfatizam a Atenção Primária à Saúde (Cuidados de
Saúde Primários), salientando a necessidade de atenção especial aos países em desenvolvimento.
Exortando os governos, a OMS, a UNICEF e as demais entidades e organizações, a declaração defende a
busca de uma solução urgente para estabelecer a promoção de saúde como uma das prioridades da
nova ordem econômica internacional. 
No Brasil, o fortalecimento na Atenção Primária produziu muitos avanços na concepção de cuidado e na
concepção de saúde. Muitos agravos começam a diminuir, em função das intervenções de prevenção e
promoção de saúde, realizadas por equipes multiprofissionais e interdisciplinares, ou seja, profissionais com
diversas formações trabalhando em conjunto para romper com a lógica médico-curativista.
Para finalizar o módulo 1 e pensar na concepção ampliada de saúde, deixamos o olhar de Campos (2006):
Comentário
Ele aponta que a cultura e os valores têm grande impacto na saúde, afirma que os direitos de cidadania
das pessoas portadoras de deficiência, a própria concepção de saúde, a sexualidade, a relação das
pessoas com as diferenças de gênero, étnicas e econômicas vão ampliar ou restringir as possibilidades
de saúde da população. 
Verificando o aprendizado
Questão 1
Estudamos sobre diversos períodos históricos e a evolução do conceito de saúde ao longo do tempo.
Pensando nas questões estudadas, marque a opção correta:
A
Na Idade Média, a ciência ganhou força, com a queda da Igreja Católica e fortalecimento dos ideais
iluministas.
B
Na Idade Contemporânea, período que antecede a Idade Moderna, temos a valorização significativa da
religião nos cuidados em saúde.
C
Na Idade Moderna, Hipócrates, na Grécia, difundia a teoria dos quatro humores (fluidos) corporais nos
estudos sobre saúde.
D
Muitos ainda atrelam os cuidados em saúde à caridade, herança que carregamos do período histórico
denominado Idade Média.
E
A visão que reduz saúde a um aspecto biológico é herança do período denominado Idade Antiga.
A alternativa D está correta.
Durante a Idade Média, as práticas científicas foram desvalorizadas e todo saber e cuidado em saúde
estavam atrelados à Igreja Católica, instituição cosmopolita naquele momento e responsável por cultura,
saúde, lazer, educação, política, entre outros.
Questão 2
Marque a alternativa que traz um cuidado pautado na concepção ampliada de saúde:
A
Maria foi ao médico para cuidar do seu Diabetes. O profissional perguntou se Maria também é hipertensa e
prescreve exames para investigar a outra patologia.
B
Cláudia foi ao médico para cuidar do seu Diabetes, o profissional pediu que, antes de falar sobre as questões
de sua glicemia, Maria contasse sobre sua história pessoal desde a infância até os dias atuais para conhecer
todo o contexto.
C
Pedro édiabético e só pode comer macarrão, pois está desempregado e não consegue se organizar
financeiramente para comprar outros alimentos. O profissional de saúde identifica tal questão e pede que
Pedro procure uma assistente social.
D
Roberta tem 16 anos e está em sua terceira gestação. A enfermeira que a acompanha diz que, após o parto,
faz questão de aplicar anticoncepcional injetável em Roberta, pois não é possível ter tantos filhos nessa idade.
E
Nilson apresenta queixas constantes de dor de cabeça na unidade de saúde que é cadastrado, a cada
semana leva uma nova medicação para tentar resolver seu incômodo.
A alternativa B está correta.
O profissional ampliou o olhar ao atender Cláudia, pois compreende que o Diabetes faz parte da vida da
usuária, porém é apenas mais um aspecto entre tantos outros importantes na história da paciente, inclusive
podendo ser influenciado por questões econômicas, psíquicas, sociais, culturais.
2. Dimensões da saúde pública: doença, sociedade e ação coletiva
O processo saúde-doença
Neste vídeo, a especialista irá abordar o processo saúde-doença.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Como vimos no módulo anterior, saúde não
pode ser entendida somente pelos aspectos
biológicos e fisiológicos.
 
O contexto social, econômico, político, cultural,
entre outros, precisam ser considerados. Da
mesma forma, o olhar direcionado para a
doença deve ultrapassar a concepção
fisiopatológica e incluir o sofrimento, a dor e
tudo que envolve o processo de adoecimento.
Cada pessoa tem uma relação muito particular
com o processo de saúde e adoecimento, o
profissional de saúde deve reconhecer que
existe um corpo subjetivo que adoece. Imagine dois casos distintos:
Exemplo
Marcos e Vanessa possuem o diagnóstico de diabetes tipo 1. Quando perguntam a eles sobre a doença,
Marcos sempre diz que é doente, pois é diabético. Já Maria se diz saudável, que o diabetes é apenas
uma parte do que ela é e que cuida dessa questão. 
Conseguem perceber nesse como cada um pode encarar o mesmo diagnóstico de maneira diferente?
Muitos autores estudam a questão do conceito e da concepção de saúde. Para Narvai et al (2008), a condição
de saúde pode ser definida a partir da soma de três planos: o subindividual, o individual e o coletivo.
Vamos ver as características de cada um desses planos.
Plano subindividual
Corresponde ao aspecto orgânico, biológico. Divide as questões entre normalidade e anormalidade,
ou seja, caso o organismo esteja disfuncional, pode haver duas condições: enfermidade ou doença. A
enfermidade é percebida pelo paciente, como a dor, por exemplo. A doença é percebida pelo
profissional de saúde e dele ganha uma classificação e um diagnóstico de acordo com o quadro
clínico avaliado e definido.
Plano individual
Entende que as anormalidades acontecem em pessoas, que são seres sociais e biológicos ao mesmo
tempo. Para essa abordagem, saúde pode ir de um extremo bem-estar até o extremo da morte, com
questões e eventos intermediários, individuais e coletivos entre esses extremos.
Plano coletivo
Amplia mais ainda a questão do processo saúde-doença, entendendo que este vai além da soma de
aspectos biológicos e sociais. Há também outros fatores que determinam esse processo: família,
residência, bairro, cidade, região, país, continente. Tal abordagem amplia a saúde e o adoecimento
para esferas culturais, econômicas, políticas, entre outras.
Se pensarmos especialmente nas questões do plano coletivo, percebemos que a saúde é a porta de entrada
para a cidadania e que para ter o direito à saúde, garantido pela Constituição Federal de 1988, não basta ter
acesso aos serviços de saúde e sim a todos os aspectos que atravessam a condição humana. Diante da falta
deles, o adoecimento pode surgir.
Atenção
Veja o que diz nossa Constituição de 1988: “Saúde é um direito de todos e dever do Estado, garantido
mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e outros agravos e ao
acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. A
Constituição confirma que os serviços e as ações em saúde precisam ser guiados por um olhar ampliado
para o sujeito e para as coletividades. 
Atenção à saúde
Outro aspecto importante do processo saúde-doença reside no fato de que, nas questões mais ligadas ao
fator biológico, muitas vezes a saúde é “silenciosa”.
O que isso quer dizer? Você lembra da sua garganta quando ela está sadia, sem inflamação? Você
percebe sua respiração quando ela está num ritmo adequado ou sem obstrução nasal?
Possivelmente sua resposta será negativa, pois a doença ou algo que interfira no bom funcionamento dos
nossos órgãos denuncia a existência de uma estrutura importante para nossa existência e que precisa
funcionar adequadamente.
Atenção
É importante também que o sujeito conheça seu corpo e esteja ciente do contexto que o rodeia. Nem
sempre isso acontece. É importante que as pessoas sejam orientadas e estimuladas pelos profissionais
de saúde a ganhar autonomia, para que cada vez mais possam reconhecer sinais de mudanças nos
padrões que considera saudáveis para si mesmos. 
Estamos conversando sobre essa perspectiva ampliada da saúde, mas ainda carregamos muitas
consequências do que podemos chamar de concepção ontológica da saúde.
Concepção ontológica da saúde
Ontologia (do grego ontos "ente" e logoi, "ciência do ser") é a parte da metafísica que trata da natureza,
realidade e existência dos entes. A ontologia trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido como
tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres objeto de seu estudo. A
aparição do termo data do século XVII e corresponde à divisão que Christian Wolff realizou quanto à
metafísica, seccionando-a em metafísica geral (ontologia) e as especiais (Cosmologia Racional,
Psicologia Racional e Teologia Racional). Embora haja uma especificação quanto ao uso do termo, a
filosofia contemporânea entende que metafísica e ontologia são, na maior parte das vezes, sinônimos.
No entanto, a metafísica estuda o ser e os seus princípios gerais e primeiros, sendo, portanto, mais
ampla que o escopo da ontologia. 
Saiba mais
Tal conceito ganha força com o surgimento da bacteriologia, quando Louis Pasteur, no século XIX,
identificou microorganismos causadores de doenças. Temos então um abandono dos aspectos sociais
até então em voga, inspirados nas teorias de Hipócrates, considerado o pai da Medicina. 
A concepção ontológica apaga a existência da pessoa e realça a presença da doença. Todo o procedimento é
voltado para órgãos considerados “perturbados”, visando recuperar um bom funcionamento e restaurar o
equilíbrio do corpo. Mesmo com os avanços nas políticas de saúde, ainda podemos ver muitos profissionais
atuando com essa lógica.
Para Merhy et al (2014), os usuários possuem modos de vida que são frequentemente julgados
pelas equipes de saúde. Estas ficam restritas a um modo de saber tão preponderante, que não abre
possibilidades para que certas atitudes, comportamentos e expressões diferentes possam aparecer.
No momento atual, predomina a ideia de que se deve superar essa concepção reducionista e levar em
consideração tanto as questões individuais quanto as coletivas envolvidas no processo saúde-doença. E isso
está diretamente ligado à mudança no modelo de assistência à saúde, que aos poucos deixa de ser
hospitalocêntrico e passa a ser fortalecido no território com ações de promoção, prevenção e recuperação em
saúde, diminuindo os agravos que necessitam de hospitalização. Esse modelo é chamado de Estratégia de
Saúde da Família (ESF), que faz parte da Atenção Básica.
O Sistema Único de Saúde (SUS) tem a
Estratégia de Saúde da Família (ESF) como um
dos principais recursos para promover acesso a
todos os usuários de maneira integral, singular,
acolhendo as diferenças e dificuldades. Em
outras palavras, a ESF possui profissionais que
olham os usuários sob diversos aspectos,
buscando fortalecimento devínculo e incluindo
o cotidiano e a cultura de cada espaço e
pessoa. A Atenção Básica se fortalece a partir
desse acolhimento.
A Atenção Básica cuida das famílias, incluindo
as questões de trabalho, renda, educação,
acesso à lazer e cultura, transporte,
saneamento básico.
É importante reforçar que nesse modelo de Atenção à Saúde ganham espaço diversas profissões e formações
na saúde, rompendo com a lógica centrada na figura do médico.
Nessa estrutura, médicos são essenciais nas
equipes, assim como enfermeiros, técnicos de
enfermagem, agentes comunitários de saúde,
psicólogos, dentistas, técnicos em saúde bucal,
entre outros. Essa é a perspectiva da
interdisciplinaridade, com vários profissionais
atuando em conjunto.
Além da interdisciplinaridade, é importante
focar na intersetorialidade. Ou seja, a área da
saúde não consegue dar conta isoladamente do
cuidado, é preciso envolver diversos
segmentos da sociedade para que as pessoas possam ter suas particularidades e necessidade atendidas. 
Para Merhy et al (2014), o intuito é a produção de trocas e conexões, é poder conhecer o usuário
que está sendo atendido por um determinado profissional. E, a partir desse encontro, entender que
outros projetos fazem parte de sua existência, ultrapassando o conhecimento dos profissionais de
saúde. 
Vamos analisar a seguinte situação para entender o que estamos falando:
Exemplo
Vanessa é usuária da Clínica da Família de sua região, assim como todos seus familiares. O principal
acompanhamento de Vanessa é direcionado a suas questões psíquicas, pois a usuária já passou por
inúmeras tentativas de suicídio em função de um quadro de depressão recorrente. A escola também
acompanha de perto a situação da adolescente, sempre em articulação com a Clínica da Família. Por
mais que os serviços de saúde e educação se coloquem à disposição com atendimento singular e
entendam que Vanessa tem um quadro psíquico grave e que todas suas atividades precisam ser
monitoradas, é preciso apostar e somar com outras possibilidades, que são igualmente potentes e
trazem vida para os usuários. Ora, os profissionais de saúde precisam estar atentos: o balé é uma
atividade que Vanessa pratica três vezes durante a semana e produz uma sensação de alívio muito
grande, segundo seu relato. O balé e a academia de dança são, portanto, decisivos para a recuperação
de Vanessa e devem ser considerados pela equipe. Conclusão simples: é possível produzir saúde em
espaços que não são necessariamente serviços de saúde. 
Os determinantes sociais de saúde (DSS)
Neste vídeo, em uma entrevista, a especialista irá falar sobre os determinantes sociais de saúde.
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Vimos no módulo anterior que é extremamente importante analisar a situação em que as pessoas vivem,
trabalham, estudam para, a partir desses dados, fazer associações com seu estado de saúde. Em 2006, foi
criada a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais de Saúde (CNDSS) que estabeleceu que:
Os DSS são fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais que
influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população.
Buss; Pellegrini Filho, 2007.
A análise dos DSS tem a ver com a singularidade do cuidado e a necessidade de os profissionais de saúde
olharem o sujeito como um todo. Porém, precisamos pensar em outras questões que são cruciais nesse
processo.
Exemplo
A construção de políticas públicas para amenizar as iniquidades tão grandes em nosso país, buscando
atingir a equidade. 
Políticas públicas, inequidade e equidade. Veja a seguir que palavras são essas:
Políticas públicas de saúde
Resposta que o Estado precisa dar para solucionar determinado problema coletivo com ações e
serviços, ou seja, as políticas públicas não se baseiam em casos isolados, mas em situações que
expressam danos e fragilidades significativos em uma parcela população.
Iniquidades
Diferenças que causam prejuízos e não somente de diferenças injustas.
Equidade
Respeito à igualdade de direito de cada um, mas também é uma forma de localizar as iniquidades
direcionando cuidados diferentes para cada situação. Por exemplo, suponha que uma criança e um
adulto queiram enxergar o que existe atrás de um muro alto. Atente que a estatura da criança é
significativamente menor que a do adulto. Se fôssemos pensar na perspectiva da igualdade, daríamos
um banco do mesmo tamanho para dos dois e, então, o adulto conseguiria enxergar além do muro e a
criança não. Na perspectiva da equidade, teríamos de dar um banco mais alto para a criança, assim
os dois conseguiriam enxergar além do muro. Isso é equidade.
A Organização Mundial de Saúde define DSS como as condições sociais em que as pessoas vivem, isso inclui
todos os aspectos envolvidos que já apontamos: educação, ambiente de trabalho, desemprego, água e
esgoto, serviços sociais de saúde, habitação, produção agrícola e de alimentos. Esses fatores sociais,
econômicos, psicológicos, étnicos/raciais, culturais e comportamentais serão incluídos em políticas públicas
que ultrapassem as políticas direcionadas à saúde e que abordem questões de renda, lazer, mobilidade, entre
tantas outras.
No módulo anterior, citamos a Conferência de Alma-Ata, que aconteceu no final da década de 1970 e
influenciou diversos países do mundo na questão do fortalecimento das ações primárias em saúde, tendo
como lema: “Saúde para todos nos anos 2000”. Nesse sentido, os DSS ganham destaque na agenda de ações
prioritárias.
Existe um modelo amplamente utilizado para explicar os DSS:
Determinantes Sociais: modelo de Dahlgren e Whitehead.
Na base do modelo estão características como sexo, idade e fatores genéticos. Na camada logo acima,
aparecem o comportamento e o estilo de vida individuais. Depois, percebemos as redes comunitárias e de
apoio que também influenciam a saúde. Acima, aparecem os fatores que têm ligação com vida e trabalho,
como saúde e educação, disponibilidade de alimentos e acessos a ambientes e serviços essenciais. No último
nível, estão localizados os macrodeterminantes relacionados às condições econômicas, culturais e ambientais
da sociedade, que influenciam de maneira significativa as demais camadas.
Segundo Buss e Filho (2007), o modelo trabalhado por Dahlgren e Whitehead divide os DSS em camadas,
começando por uma de determinantes individuais até chegar a uma camada mais distante, onde encontram-
se os macrodeterminantes. Como se vê na imagem anterior, o modelo mostra claramente os DSS, porém não
detalha as relações entre os níveis e a origem das iniquidades.
Um caso para entender a integralidade do cuidado:
Exemplo
Carla, 34 anos, negra, desempregada, moradora de uma comunidade com grande vulnerabilidade no
estado do Rio de Janeiro, vive em uma casa de dois cômodos com seus três filhos, a casa não tem
esgoto nem água encanada. Para conseguir alimentar as crianças, Carla organiza o trabalho: cada um vai
para um ponto específico da cidade vender doces. Alguns dias as vendas rendem para comprar pão, ovo
e arroz. Em outros, o dinheiro não dá para quase nada e então Carla conta com a caridade dos
vizinhos. As crianças não estão matriculadas na escola, pois precisam trabalhar e precisariam de
transporte público para estudar – o acesso ao ônibus é difícil. Carla e a família estão cadastradas na
Clínica da Família da região, porém, como moram em uma parte mais afastada da comunidade, precisam
andar por caminhos perigosos, com grande presença de violência, até chegarem aos profissionais de
saúde. Se pensarmos no trabalho da Estratégia de Saúde da Família, todos esses determinantes sociais
e todas as características da família de Carla precisarão ser incluídos no acompanhamento da equipe de
saúde. Do mesmo modo, a articulação intersetorial com serviços de assistência social para pensar em
um suporte financeiro a essa família. A articulação com a escola seria fundamental para pensar na
situação das crianças. Esse caso hipotético deixa clara a importânciade um trabalho que inclua os
determinantes sociais de saúde. Sem esse olhar ampliado, os profissionais não conseguem realizar um
acompanhamento pautado na integralidade do cuidado. 
Saúde pública e saúde coletiva
Neste vídeo, a especialista irá desenvolver o tema saúde pública e coletiva, e sua importância na atenção
primária à saúde.
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Para finalizarmos este módulo, vamos tratar um pouco de conceitos importantes que muitas vezes se
misturam na prática cotidiana dos serviços e ações em saúde. Eles foram e ainda são analisados por
importantes pesquisadores e protagonistas do processo de Reforma Sanitária no Brasil. Veja a seguir:
Muitos estudiosos da Saúde Pública criticam a Saúde Coletiva por focar muito no social e deixar de lado as
questões biológicas e subjetivas. Por outro lado, os adeptos da Saúde Coletiva apontam a maneira vertical e
institucionalizada da atuação da Saúde Pública.
De um lado, a Saúde Pública diz respeito à conservação da vida, à realização de diagnósticos e tratamentos
necessários para doenças que possam prejudicar a manutenção da saúde dos sujeitos, ou seja, ela trabalha
mais com o conceito de “ausência de doença”.
De outro lado, a Saúde Coletiva tem um viés político importante na história da Reforma Sanitária no Brasil, ela
defende conhecer e criar vínculos com os clientes no território, além das ações de diagnóstico e tratamento –
os profissionais que atuam na Saúde Coletiva analisam questões históricas e culturais de determinada área
para compreender o processo de saúde-doença da coletividade.
Atenção
Algo importante a se destacar é que as mudanças e ações necessárias no âmbito da Saúde Pública
dependem das possibilidades do Estado. Já na Saúde Coletiva as mudanças e ações surgem a partir do
território, o que pode gerar conflitos com as possibilidades abertas pelo Estado. 
A Saúde Pública e a Saúde Coletiva têm importância no Sistema Único de Saúde (SUS), mas ainda há certa
confusão quanto às suas práticas. Entenda:
Como exemplos de atuação da Saúde Pública, podemos citar o Programa Nacional de Imunização (o
calendário de vacinas), as campanhas e o Programa Materno-Infantil.
 
Quanto à Saúde Coletiva, podemos referir as ações que visam a promoção à saúde, como os grupos de
acolhimento para pessoas com depressão ou as orientações sobre alimentação saudável de acordo
com a realidade de cada território. Como exemplos de atuação, podemos citar as Unidades de Atenção
Básica do SUS e em Clínicas da Família.
Saúde pública 
Nasce semelhante ao modelo biomédico, no
início do século XX, com campanhas
direcionadas à limpeza dos portos, à saúde
materno-infantil e ao ambiente. É
tradicionalmente conhecida por ter um
modelo campanhista de intervenção e o
Estado como protagonista das ações para a
população.
Saúde coletiva 
Surge no Brasil no final da década de
1970, com um grupo de profissionais da
Saúde Pública e da medicina preventiva
e social que desejava um campo
científico que incluísse a questão social.
Foca em promoção da saúde, incluindo
fortemente os Determinantes Sociais da
Saúde no cuidado, a partir de uma
relação horizontal com o território.
• 
• 
A seguir, será apresentado a você um estudo de caso, referente à fábrica fictícia de processamento de
alimentos Bem-estar. Você será desafiado a analisar as complexidades das questões de saúde ocupacional,
considerando tanto os aspectos físicos quanto mentais que impactam os empregados. Esse estudo de caso
oferece uma oportunidade valiosa para explorar estratégias práticas e teóricas que podem ser implementadas
para melhorar a saúde dos trabalhadores, assim como mitigar os efeitos adversos dos determinantes sociais
em saúde.
Aplicando o conhecimento
Assista ao vídeo e entenda melhor sobre as complexidades das questões de saúde ocupacional a partir da
análise de um estudo de caso.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Em 1948, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece uma definição de saúde de maneira ampliada,
que é vigente até os dias atuais. Muitos pesquisadores e estudiosos criticam essa concepção de saúde,
atribuindo a ela um caráter de algo equivocado e inatingível. Sobre tal definição, marque a opção correta:
A
Em alguns países considerados economicamente e socialmente mais desenvolvidos, saúde pode ser vista
como ausência de doença.
B
É consenso mundial que doença pode ser vista como ausência de saúde.
C
A definição da OMS de 1948 refere que é preciso bem-estar mental, social e físico para se ter saúde.
D
Segundo a OMS, para se caracterizar como doença, os sintomas precisam ser perceptíveis pelos profissionais
de saúde.
E
Para a OMS, saúde e doença têm determinação biológica, sendo irrelevantes as questões sociais.
A alternativa C está correta.
A OMS definiu, em 1948, que saúde não é somente ausência de doença e sim um estado completo de bem-
estar social, mental e físico.
Questão 2
Sabemos que muitos fatores podem influenciar no processo de saúde e adoecimento da população e que por
isso precisam ser analisados em qualquer conjuntura para a realização de ações e serviços de saúde. Em
relação a essa reflexão, marque a opção incorreta:
A
A falta de acesso à educação e às condições adequadas de moradia pode levar ao adoecimento da
população.
B
A dificuldade de acesso ao saneamento básico impacta diretamente a saúde das pessoas.
C
Realizar atividades de lazer tem impacto sobre a saúde da população.
D
É consenso entre pesquisadores que saúde e adoecimento são vivenciados da mesma maneira por toda a
população.
E
É preciso valorizar a palavra do cliente, pois é muitas vezes a principal forma de expressão dos sintomas
vivenciados.
A alternativa D está correta.
Os estudos dos determinantes sociais de saúde e do processo saúde-doença demonstram que saúde e
adoecimento são experiências subjetivas, mesmo com os pontos cruciais que atingem as coletividades.
3. Conclusão
Considerações finais
Visitamos períodos históricos e vimos a evolução do conceito de saúde ao longo do tempo. Estudamos
também aspectos importantes como Determinantes Sociais de Saúde, Saúde Coletiva e Saúde Pública.
Vimos como é importante que o profissional de saúde atue baseado numa concepção ampla de seu campo de
trabalho, rompendo com a lógica biologicista reducionista e incluindo mais ingredientes em sua atuação: as
questões sociais, econômicas, culturais, políticas, entre outras.
Há muitos desafios para atingir a integralidade do cuidado. Por isso é tão necessário abordar as questões
tratadas neste estudo desde o início da formação dos futuros profissionais de saúde, com foco na
interdisciplinaridade e na intersetorialidade, para que possamos nos aproximar de um modelo de saúde
universal e acolhedor.
Podcast
Para encerrar, ouça agora um resumo dos principais pontos abordados neste conteúdo.
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Explore +
Leia o artigo Abordagens contemporâneas do conceito de saúde, de autoria de Carlos Batistella, que
trata das diversas abordagens adotadas atualmente para a compreensão do conceito de saúde.
Disponível no site do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da Fiocruz.
 
Leia o artigo Concepção de saúde-doença e o cuidado em saúde, de Marly Marques da Cruz,
publicado no site da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Ele apresenta conceitos sobre o
processo saúde-doença e cuidado, relacionando as características da população de determinado
território.
 
Consulte no portal oficial da Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS) o
Observatório sobre Iniquidades em Saúde. Você vai encontrar indicadores, análises e outras
informações relevantes sobre os Determinantes Sociais no Brasil e por região.
Referências
BUSS, P. M.; PELLEGRINI FILHO, A. A saúde e seus determinantes sociais. Physis, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p.
77-93, 2007.
 
CAMPOS, et al. (org.).Tratado de saúde coletiva. São Paulo, Rio de Janeiro: Hucitec.
 
MERHY, Emerson Elias et al. Redes Vivas: multiplicidades girando as existências, sinais da rua. Implicações
para a produção do cuidado e a produção do conhecimento em saúde. Revista Divulgação em Saúde para
Debate, n. 52, Centro Brasileiros de Estudos de Saúde (CEBES). Rio de Janeiro, 2014.
 
• 
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• 
NARVAI, P. C. et al. Práticas de saúde pública. In: Saúde pública: bases conceituais. São Paulo: Atheneu, 2008,
p. 269-297.
 
SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE PASSOS. A história das Santas Casas. Publicado em: 02 fev. 2016.
 
SCLIAR, Moacyr. História do conceito de saúde. Physis, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 29-41, abr. 2007.
Consultado em meio eletrônico em: 23 nov. 2020.
 
SEGRE, Marco; FERRAZ, Flávio Carvalho. O conceito de saúde. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 31, n. 5, p.
538-542, out. 1997. Consultado em meio eletrônico em: 23 nov. 2020.
	Perspectivas sobre o conceito de saúde
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Objetivos
	Introdução
	1. A evolução do conceito de saúde
	Você sabe o que é saúde?
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	Exemplo
	Pré-história e Idade Antiga
	Conteúdo interativo
	Pré-história (Até cerca de 4000 A.C.)
	Necessidades básicas
	Socialização
	Moradia
	Exemplo
	Idade antiga (4000 A.C. a 476 D.C.)
	Atenção
	CHINA
	EGITO ANTIGO
	PALESTINA
	ÍNDIA
	GRÉCIA
	Idade Média e Idade Moderna
	Conteúdo interativo
	Idade média (476 D.C. a 1453)
	Saiba mais
	Idade Moderna (1453 a 1789)
	Idade contemporânea até os dias atuais
	Conteúdo interativo
	Idade contemporânea (1789 até os dias atuais)
	Valorização da ciência
	Novo olhar para os transtornos mentais
	A insalubridade nas fábricas
	As concepções atuais de saúde
	Saiba mais
	Comentário
	Verificando o aprendizado
	2. Dimensões da saúde pública: doença, sociedade e ação coletiva
	O processo saúde-doença
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	Plano subindividual
	Plano individual
	Plano coletivo
	Atenção
	Atenção à saúde
	Atenção
	Saiba mais
	Exemplo
	Os determinantes sociais de saúde (DSS)
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	Políticas públicas de saúde
	Iniquidades
	Equidade
	Exemplo
	Saúde pública e saúde coletiva
	Conteúdo interativo
	Atenção
	Aplicando o conhecimento
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	3. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Explore +
	Referências

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