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MICROBIOLOGIA DO SOLO AULA 2 Profª Fernanda Eliza Toscani Burigo 2 CONVERSA INICIAL Agora que você já conhece a estrutura das células procarióticas e eucarióticas, vamos desvendar os mecanismos que possibilitam sua sobrevivência. Nesta etapa, vamos analisar o metabolismo microbiano, compreendendo como os microrganismos obtêm energia, produzem substâncias, degradam nutrientes, e outros eventos importantes. Perceberemos que a maioria dos processos bioquímicos que ocorrem nas bactérias também podem ser observados em organismos unicelulares e pluricelulares eucariontes, embora as reações nos procariontes sejam ainda mais fascinantes, pois lhes possibilitam fazer coisas que não podemos, como degradar celulose, utilizar petróleo como nutriente, reciclar compostos na natureza, dentre outras. Ainda, destacaremos o crescimento bacteriano, abordando as fases e formas de medidas deste crescimento. Figura 1 – Metabolismo Quando falamos em metabolismo, queremos destacar o conjunto de reações químicas realizado pelas células. Essas reações são mediadas e reguladas pela atividade enzimática, que as catalisa. Podemos observar 2 processos metabólicos: o catabolismo e o anabolismo. O catabolismo envolve reações de degradação de moléculas complexas; por exemplo, um 3 polissacarídeo – como o glicogênio – pode ser degradado em várias moléculas de monossacarídeo (glicose). Já o anabolismo inclui reações de síntese de substâncias; como exemplo, podemos citar a união de vários aminoácidos para a construção de uma proteína. Dessa forma, o metabolismo microbiano é formado por reações que liberam energia (exergônicas), como o catabolismo e que consomem energia (endergônicas), como o anabolismo. Para a ocorrência das reações, é fundamental a molécula de ATP (adenosina tri-fosfato), a moeda energética da célula, a qual armazena a energia oriunda das reações catabólicas e a libera para a realização das reações anabólicas e outras atividades celulares. Assim, o ATP é essencial para o acoplamento das reações metabólicas. Dessa forma, é possível perceber a importância da compreensão do metabolismo microbiano, o qual se baseia principalmente na liberação e no consumo de energia. Assim, são objetivos desta etapa: • Compreender as principais fontes de nutrientes dos microrganismos, bem como sua classificação; • Destacar o importante papel das enzimas no metabolismo microbiano, enfatizando fatores que influenciam a atividade enzimática e o mecanismo de retroalimentação; • Abordar os principais processos catabólicos e anabólicos dos microrganismos; • Compreender as fases de crescimento bacteriano, além das medidas de crescimento; • Descrever os fatores de crescimento microbiano e o efeito dos fatores abióticos sobre esse crescimento. TEMA 1 – FONTES DE NUTRIENTES Os microrganismos apresentam grande versatilidade metabólica, utilizando vias indisponíveis nos organismos pluricelulares. No geral, os seres vivos podem ser classificados de acordo com seus padrões nutricionais, os quais incluem as fontes de energia e de carbono utilizadas por eles. Em relação à fonte de energia, que pode ser a energia luminosa ou química, classificamos os microrganismos como fototróficos e quimiotróficos, 4 respectivamente. No primeiro caso, a energia solar é a fonte primária de energia, enquanto os quimiotróficos dependem de reações de oxidação-redução de compostos orgânicos e inorgânicos para obtenção de energia. Por sua vez, quanto à fonte de carbono utilizada, os seres vivos são divididos em autotróficos e heterotróficos. Seres autotróficos, também chamados litotróficos, como algumas bactérias e algas (além das plantas), são aqueles capazes de sintetizar seu próprio alimento, utilizando o gás carbônico (CO2) como fonte de carbono. Já os seres heterotróficos (bactérias, protozoários e fungos, além dos animais), ou organotróficos, cuja alimentação depende de outros organismos, utilizam como fonte de carbono alguma substância orgânica, como a glicose. É possível combinar as fontes nutricionais e, assim, obtêm-se: 1.1 Fotoautotróficos Compreende os seres que utilizam a luz como fonte de energia e o CO2 como fonte de carbono; o principal processo, que envolve os 2 fatores, é a fotossíntese. Nesse processo, o hidrogênio que compõe a molécula da água é utilizado na redução do gás carbônico, liberando oxigênio (processo oxigênico) e glicose (alimento), como o que ocorre com as cianobactérias. Caso a bactéria dependa de um ambiente sem oxigênio, seu processo fotossintético não gerará essa molécula (anoxigênico), utilizando compostos inorgânicos, como compostos de enxofre, para gerar moléculas orgânicas. É o caso das bactérias verdes e púrpuras. 1.2 Foto-heterotróficos Envolve organismos que utilizam a luz como fonte de energia, mas não são capazes de usar CO2 como fonte de carbono, necessitando de outros compostos orgânicos como alcóois, ácidos graxos e outros. Necessariamente, são anoxigênicos, como as bactérias púrpuras e verdes não sulfurosas. 1.3 Quimioautotróficos Utilizam compostos orgânicos (e seus elétrons reduzidos) como fonte de energia e o gás carbônico como fonte de carbono. Nesse grupo, destacam-se 5 importantes bactérias do solo, como a Nitrosomonas, que utiliza amônia como fonte inorgânica e a Nitrobacter, que usufrui de íons nitrito. 1.4 Quimio-heterotróficos Nos indivíduos desse grupo, a fonte de energia e de carbono é o mesmo composto orgânico – a glicose, por exemplo. Utilizam, especificamente, os elétrons de hidrogênio dos compostos orgânicos como fonte de energia. Em relação à fonte de matéria orgânica, os heterotróficos podem utilizar moléculas orgânicas provenientes de organismos vivos, atuando como parasitas, ou podem consumir matéria orgânica morta, sendo denominados de saprófitos (decompositores). A maioria das bactérias, protozoários, todos os fungos e animais se enquadram nesse grupo. A imagem a seguir resume a classificação nutricional dos organismos. Figura 2 – Classificação nutricional dos organismos TEMA 2 – CONTROLE DA ATIVIDADE ENZIMÁTICA E PRODUÇÃO DE ENERGIA 2.1. Atividade enzimática As enzimas – classe especial de proteínas – são substâncias capazes de acelerar a velocidade das reações químicas, sem alterar essa reação, sendo 6 denominadas catalisadores biológicos. Apresentam alta especificidade, atuando sobre moléculas denominadas substratos. Por exemplo, a enzima lactase atua sobre o substrato lactose, hidrolisando esse dissacarídeo em glicose e galactose. A enzima, uma molécula tridimensional, possui um sítio-ativo de ligação com o substrato, formando o complexo enzima-substrato, crucial para acelerar a velocidade de determinada reação, sem elevar a temperatura, fundamental para os sistemas vivos. Figura 3 – Atividade enzimática Crédito: Jefferson Schnaider. Normalmente, são constituídas por uma porção proteica (apoenzima) e uma porção não-proteica (cofator, ou coenzima caso seja uma molécula inorgânica, como íons de ferro), a qual ativa a apoenzima; juntos, apoenzima e cofator formam a holoenzima, ou seja, a enzima ativa. É importante considerar que diversas coenzimas são derivadas de vitaminas; importantes funções metabólicas, como o metabolismo do ácido pirúvico (respiração celular), transporte de elétrons, metabolismo de aminoácidos, síntese de bases nitrogenadas (purinas e pirimidinas) dos ácidos nucleicos, envolvem a participação de vitaminas atuando como coenzimas. Mas qual é o mecanismo de ação das enzimas? Segue a sequência de eventos: 7 • Ligação da superfície do substrato com o sítio ativo da enzima (1); • Formação do complexo enzima-substrato (2); • Transformação do substrato, seja por meio da quebra de sua molécula, rearranjo dos átomos ou combinaçãocom outras moléculas (3); • Produtos da reação (substrato transformado) se dissociam da enzima, pois não há mais encaixe perfeito entre eles (4); • Enzima está livre para reagir com outras moléculas de substrato (5). Figura 4 – Mecanismo de ação das enzimas Crédito: Jefferson Schnaider. O resultado dessa interação é que as enzimas conseguem acelerar as reações químicas. 2.1.1 Fatores que influenciam a atividade enzimática As enzimas estão sujeitas à ação de inúmeros fatores, os quais influenciam sua atividade. Dentre eles, destaca-se a influência da tempertatura, do pH, da concentração de substrato e da presença de inibidores. 2.1.1.1 Temperatura (T) O aumento da temperatura tende a aumentar a velocidade da reação; no entanto, caso essa elevação ultrapasse a temperatura ideal (temperatura ótima), ocorre a redução drástica da velocidade da reação. Essa queda se deve à desnaturação da enzima, isto é, à perda de sua conformação, impedindo a formação do complexo enzima-substrato. No geral, a temperatura ótima para bactérias patogênicas é entre 35 e 40 ºC. 8 Figura 5 – Temperatura ótima 2.1.1.2 pH A maioria das enzimas possui um pH ótimo de funcionamento, no qual a atividade enzimática é máxima; acima ou abaixo desse valor, a velocidade da reação é reduzida, podendo provocar a desnaturação enzimática e, consequentemente, a perda de sua função. Por exemplo, a enzima pepsina (que atua no estômago), tem pH ótimo em torno de 2-3, ou seja, a melhor atividade enzimática ocorre em meio ácido. Já a enzima amilase (presente na saliva), apresenta melhor atividade em meio neutro, sendo seu pH ótimo em torno de 7. Figura 6 – pH ótimo 9 2.1.1.3 Concentração de substrato A velocidade máxima da reação ocorre quando há maior concentração de substrato; nessa condição, a enzima se encontra em estado de saturação, no qual o sítio ativo se mantém ocupado por moléculas de substrato. Em saturação, caso se aumente a quantidade de substrato, a velocidade não sofrerá alteração, pois todas as moléculas enzimáticas estão ocupadas. Assim, esse fator não leva à desnaturação da enzima, diferentemente da T e do pH. Figura 7 – Concentração do substrato 2.1.1.4 Inibidores Uma forma efetiva de controlar o crescimento bacteriano é por meio do controle de sua atividade enzimática. O cianeto, por exemplo, é um veneno que inibe a atividade de importantes enzimas no metabolismo celular, levando à sua morte. Os inibidores podem ser competitivos, quando ocupam o sítio ativo enzimático, impedindo a ligação do substrato, como a sulfanilamida, droga que inibe a ligação de certa enzima ao seu substrato, o PABA (ácido para- aminobenzoico), um nutriente essencial à atividade microbiana. Já os inibidores não-competitivos ligam-se a outra parte da enzima, alterando a conformação do sítio-ativo, tornando-o não funcional – inibição alostérica. Um tipo especial de inibição é a inibição por retroalimentação, a qual impede a célula de gastar mais recursos do que o necessário na síntese de substâncias; no anabolismo, o produto final de uma via pode inibir alostericamente a atividade de uma enzima 10 inicial da via, impedindo que ocorra a síntese em demasia de uma determinada molécula. Vale considerar que há uma classe especial de enzimas, as ribozimas, as quais não são formadas por proteínas, mas sim, por um tipo peculiar de RNA. Funcionam como as enzimas tradicionais, mas atuam especificamente nas fitas de RNA, apresentando ação mais restrita do que as enzimas proteicas. 2.2 Produção de energia O ATP, adenosina trifosfato, é a molécula que serve como transportadora de energia dentro da célula; as ligações entre os átomos são instáveis, e, uma vez necessárias, podem ser quebradas, liberando energia de forma rápida e fácil. Figura 8 – Produção de energia Crédito: BigBear Camera/Shutterstock. A síntese de energia pode envolver as reações de oxidação e redução (ou redox), importantes na transferência e energização de elétrons (perda e ganho de elétrons, respectivamente) e a produção de ATP, a principal moeda energética da célula. A energia acumulada em reações redox pode ser utilizada para sintetizar ATP em reações posteriores. 11 Já a geração de ATP se dá por meio da adição de um grupo fosfato à molécula de ADP (adenosina difosfato), em um processo denominado fosforilação. As ligações entre os átomos são de alta energia (~) e, quando ocorre a remoção de um radical fosfato – por hidrólise, a energia utilizável é liberada. Figura 9 – ATP: energia para a célula Crédito: Aldona Griskeviciene/Shutterstock. A fosforilação do ADP pode ocorrer de 3 formas: • Fosforilação em nível de substrato: transferência de um grupo fosfato de alta energia, a partir de um composto fosforilado – o substrato. C = C = C ~ P + ADP → C = C = C + ATP • Fosforilação oxidativa: envolve o transporte de elétrons, os quais são carreados por moléculas orgânicas, como o NAD+ e o FAD (vide box Saiba 12 mais a seguir), e transferidos a moléculas inorgânicas, como o oxigênio. Esse processo ocorre na membrana plasmática de procariontes e na membrana interna (cristas) das mitocôndrias nos eucariontes. À sequência de carreadores de elétrons dá-se o nome de cadeia transportadora de elétrons; • Fotofosforilação: realizado somente em seres fotossintéticos, os quais possuem pigmentos (como a clorofila) que absorvem a luz (foto). Nesse tipo de fosforilação, a energia luminosa é convertida em energia química, formando ATP e NADPH, que serão utilizadas para a síntese de compostos orgânicos, como a glicose. Saiba mais NAD+ = NICOTINAMIDA-ADENINA-DINUCLEOTÍDEO = Associado à vitamina nicotinamida = Intermediário de processos catabólicos que geram ATP = Fermentação e Respiração; NADP+ = NAD+ + FOSFATO (P) = Intermediário em processos anabólicos, de síntese, como a fotossíntese, envolvendo a produção de moléculas orgânicas de alta energia (como a glicose); FAD = FLAVINA-ADENINA-DINUCLEOTÍDEO = Associado à vitamina flavina = Atua em processos catabólicos – restrito a algumas etapas da respiração celular; não participa da fermentação. Dessa forma, podemos compreender a importância da geração de ATP e das reações de oxidação-redução para realização do metabolismo celular. Mas como os organismos produzem energia? Quais processos envolvidos? TEMA 3 – DIVERSIDADE CATABÓLICA E BIOSSÍNTESE Pudemos perceber que a molécula de ATP é essencial para manutenção de processos vitais da célula. Mas quais processos estão relacionados à síntese dessa molécula? Na maioria dos organismos procariontes e eucariontes, o catabolismo dos carboidratos é a fonte primária de energia – seja através da respiração aeróbica, anaeróbica ou fermentação; no entanto, dependendo das circunstâncias, também pode haver a catálise de lipídios e proteínas. 13 3.1 Catabolismo 3.1.1 Catabolismo de carboidratos Para os seres vivos, a glicose é o principal carboidrato utilizado na síntese de ATP. Esse componente é degradado pelos organismos por meio de duas formas principais: respiração celular – aeróbica e anaeróbica e fermentação; ambos apresentam em comum uma etapa denominada glicólise (quebra da glicose), a qual envolve a oxidação da glicose – gerando ácido pirúvico – com baixa produção de ATP e NADH. Na respiração, há ainda outros 2 processos: o Ciclo de Krebs e a cadeia transportadora de elétrons. Veremos os principais eventos de cada etapa. 3.1.1.1 Glicólise Ocorre no citoplasma das células; esta etapa envolve a degradação da glicose, um açúcar de 6 carbonos, produzindo 2 açúcares de 3 carbonos (trioses). Este é um evento que não requer oxigênio, sendo considerado, portanto, uma etapa anaeróbica. A oxidação das trioses forma 2 moléculas de ácido pirúvico e libera energia, a qual será utilizada para a síntese de ATP ede NADH. Na glicólise, são produzidas 4 moléculas de ATP por molécula de glicose, mas 2 moléculas são consumidas no início do processo; assim, o saldo da glicólise é de 2 moléculas de ATP por molécula de glicose degradada. Saiba mais Algumas bactérias utilizam vias alternativas à glicólise. • Via da pentose-fosfato: simultânea à glicólise, permite a degradação de açúcares de 5 carbonos, as pentoses. Gera pentoses essenciais na síntese de ácidos nucleicos, aminoácidos e glicose (a partir do CO2 na fotossíntese). Produz somente 1 molécula de ATP; Escherichia coli é um exemplo de bactéria que utiliza essa via. • Via de Entner-Doudoroff: gera 2 moléculas de NADH e 1 de ATP; dificilmente encontrada nas bactérias gram-positivas, seres que usam essa via metabolizam a glicose sem utilizar a glicólise ou a via da pentose- fosfato (apresentam enzima específica). São exemplos de bactérias que utilizam essa via: Rhizobium, Pseudomonas e Agrobacterium; 14 Antes de descrevermos as outras etapas, vale ressaltar que elas serão somente observadas no fenômeno da respiração, seja anaeróbica, quando o oxigênio não é o aceptor final de elétrons, função ocupada, normalmente, por uma molécula inorgânica; seja aeróbica, quando utiliza o oxigênio. Vamos iniciar pelos eventos ocorridos na respiração aeróbica. 3.1.1.2 Ciclo de Krebs Ocorre na matriz mitocondrial nas células eucariontes; envolve a oxidação de um composto derivado do ácido pirúvico, o acetil coenzima A (Acetil-CoA), gerando gás carbônico, por um processo de descarboxilação e a redução das coenzimas NAD+ e FADH. Ainda, produz 2 moléculas de ATP por molécula de glicose degradada, NADH e também FADH2. Figura 10 – Ciclo de Krebs Crédito: Hakan.demir/Shutterstock 15 Também denominado de ciclo do ácido cítrico, pode ser definido por um conjunto de reações bioquímicas complexas, cujos principais eventos estão resumidos no infográfico a seguir: Figura 11 – Reações bioquímicas do ciclo do ácido cítrico Lembre-se: todas as reações são catalisadas por enzimas específicas. O CO2 gerado será um resíduo da respiração celular, a ser eliminado da célula; a maior parte da energia produzida está nas coenzimas NADH e FADH2 (energia que será utilizada na síntese do ATP). 3.1.1.3 Cadeia transportadora de elétrons Nos eucariontes, ocorre nas cristas mitocondriais (invaginações da membrana interna da mitocôndria) e nos procariontes, na membrana plasmática; consiste na transferência de elétrons, em uma sequência de moléculas carreadoras que participam de reações redox. A passagem de elétrons pela cadeia libera gradualmente energia, a ser utilizada na geração de ATP. As substâncias carreadoras compõem 3 classes: flavoproteínas (contêm flavina), citocromos (contêm ferro) e ubiquinonas (ou coenzima Q, pequenas moléculas não proteicas). Uma característica comum entre todas as cadeias transportadoras de elétrons (são variáveis entre procariontes e também entre estes e os eucariontes) é que todas possuem o mesmo objetivo: liberar energia pela transferência de elétrons de alta energia, para os de baixa energia. Ao longo da cadeia, os elétrons vão cedendo energia, sendo a energia liberada pela oxidação transferida para o ATP, graças à fosforilação do ADP. No fim do sistema transportador, os elétrons promovem a ativação do oxigênio, produzindo O- (pela ação de um complexo enzimático, o citocromo-oxidase), o qual combina- se com H+, formando água. O veneno cianeto inibe o complexo citocromo- oxidase, impedindo o envio de elétrons, o que torna as mitocôndrias incapazes de produzir ATP. Essa é a etapa de maior rendimento energético, produzindo cerca de 32-34 moléculas de ATP por molécula de glicose. Acetil se desliga da coenzima A Acetil (2C) + Ácido oxalacético (4C) = Ácido Cítrico (6C) Produção de prótons e elétrons = Captados pelo NAD e FAD Modificações do ácido cítrico - forma ácido oxalacético = Reinicia o ciclo 16 É importante considerar que, da mesma forma que se acumulam elétrons (os quais são transportados), há o acúmulo de prótons, que fornecem energia para a síntese de ATP por um mecanismo peculiar – a quimiosmose. Neste processo, a energia liberada quando um próton se move ao longo de um gradiente é utilizada para produzir ATP. O excesso de prótons, os quais não são permeáveis à membrana fosfolipídica, se acumulam em um dos lados da membrana, estabelecendo uma diferença de concentração entre os dois lados da membrana; os prótons – do meio mais concentrado – ficam livres para se difundirem através da membrana, passando por canais específicos, que possuem a enzima ATP-sintase, sendo tal fluxo responsável por liberar energia para fosforilar o ADP, sintetizando, assim, o ATP. Assim, na respiração aeróbica, cada molécula de glicose gera, ao final do processo, cerca de 38 mols de ATP. As etapas da respiração celular, nos eucariontes, encontram-se resumidas na imagem abaixo. Figura 12 – Respiração celular Crédito: VectorMine/Shutterstock. Na respiração anaeróbia, o aceptor de elétrons não é o oxigênio, mas sim moléculas inorgânicas como íons nitrato (NO3-), nitrito (NO2-), sulfato (SO4-2), ou 17 orgânica, como o fumarato. A utilização dos íons nitrato e sulfato por bactérias do solo é essencial para a realização dos ciclos do nitrogênio e enxofre. No geral, a respiração anaeróbica apresenta menor eficiência energética do que a aeróbica, principalmente porque o Ciclo de Krebs é incompleto e as moléculas inorgânicas são menos eficientes do que o oxigênio. 3.1.2 Fermentação A fermentação é um processo de produção de ATP que não depende da participação do oxigênio (embora possa acontecer em ambiente aeróbico) e envolve a glicólise e a formação de um produto orgânico, como o etanol e o ácido láctico. Não requer a utilização do Ciclo de Krebs e da cadeia transportadora de elétrons, empregando uma molécula orgânica como aceptora final de elétrons. É um processo de baixo rendimento energético – normalmente produz 2 moléculas de ATP por molécula de matéria (glicose, aminoácidos ou ácidos orgânicos) inicial. Nesse processo, o ácido pirúvico – e seus derivados, produzido na glicólise, recebe os elétrons (e prótons) das moléculas de NADH e NADPH (coenzimas reduzidas), as quais serão reduzidas a diferentes produtos, dependendo da atividade microbiana, conforme pode ser observado a seguir: Figura 13 – Fermentação Vale considerar que, dependendo dos produtos formados, os microrganismos podem ser classificados em homofermentativos ou heterofermentativos; no primeiro, há a formação de um único produto – como ocorre com as bactérias do gênero Lactobacillus – cujo único produto gerado após a fermentação é o ácido láctico. Já no segundo caso, há a produção de 18 diferentes produtos, como a fermentação realizada pelas leveduras (Saccharomyces), na qual ocorre a formação de etanol e gás carbônico. A atividade fermentativa dos microrganismos pode ocorrer em diferentes substratos, sendo tal fato utilizado na classificação desses seres. Iremos destacar 2 tipos de fermentação, comumente abordados: a fermentação láctica e a fermentação alcoólica. 3.1.2.1 Fermentação láctica Após a ocorrência da glicólise e a consequente geração de ácido pirúvico, estas são reduzidas por 2 moléculas de NADPH, produzindo, assim, o ácido láctico. Este, por sua vez, por ser o produto final da reação, não sofre mais oxidação, armazenando a maior parte da energia (baixo rendimento energético). As principais bactérias que realizam esse processo são as do gênero Lactobacillus e Streptococcus, classificadas como homofermentativas. A fermentação láctica está relacionada com a deterioração de alimentos (azedos); no entanto apresenta importantes aplicações industriais, como a produção dos laticínios (iogurte, queijos), conservas de pepinoe produção do chucrute (a partir do repolho). Ainda, é o único tipo de fermentação observado o corpo humano: em resposta à fadiga muscular, as fibras musculares esqueléticas são induzidas a realizarem fermentação. Então, é formado o ácido láctico, que se acumula nos tecidos e gera as câimbras. 3.1.2.2 Fermentação alcoólica Também tem início na glicólise, produzindo ácido pirúvico, o qual será convertido em acetaldeído e gás carbônico. O NADPH reduz a molécula de acetaldeído, gerando etanol – produto final, juntamente com o gás carbônico; assim, os seres que realizam este tipo de fermentação são denominados heterofermentativos. Apresentam importância econômica, pois estão relacionados à fabricação das bebidas alcoólicas e também à produção de massas e bolos, uma vez que o CO2 liberado no processo relaciona-se ao crescimento da massa, tornando-a fofa. As leveduras, em especial a Saccharomyces cerevisiae, estão presentes no fermento biológico e constituem importantes (se não os principais) representantes desse grupo de fermentadores. 19 O quadro a seguir traz algumas aplicações da fermentação na indústria, destacando os microrganismos envolvidos, o produto de interesse e o substrato inicial. Quadro 1 – Aplicações da fermentação na indústria 3.1.3 Catabolismo de lipídeos e proteínas Conforme pudemos observar, a glicose é a principal substância fornecedora de energia para a célula. Entretanto, dependendo da necessidade, os microrganismos também oxidam outras moléculas orgânicas, como as proteínas e os lipídios. Os microrganismos são capazes de sintetizar lipases, ou seja, enzimas capazes de degradar gorduras, formando ácidos graxos e glicerol, ambos metabolizados separadamente, sendo os produtos de sua oxidação incorporados ao Ciclo de Krebs e seguindo as vias já destacadas anteriormente. É importante considerar que algumas bactérias produzem enzimas para degradar produtos de petróleo, atuando como importantes biorremediadores (a ser abordado em etapa posterior). Já no catabolismo das proteínas, a síntese de peptidases e proteases pelos organismos é essencial para degradar as moléculas proteicas, muito grandes para atravessarem a membrana plasmática, gerando os aminoácidos. Mas, para poderem ser incorporados ao Ciclo de Krebs, os aminoácidos devem sofrer transformações, como a desaminação, na qual um grupo amino de um Microrganismo Substrato inicial Produto final Uso comercial Saccharomyces cerevisae (levedura) Uva ou suco de frutas Etanol Vinho Acetobacter Etanol Ácido acético Vinagre Pediococcus Carne Ácido láctico Linguiça, salsicha Clostridium acetobutylicum Melaço Acetona e butanol Uso farmacêutico e industrial Aspergillus (fungo) Melaço Ácido cítrico Sabor Methanosarcina Ácido acético Metano Combustível Gluconobacter Sorbitol (carboidrato) Sorbose Vitamina C 20 aminoácido é removido e convertido em amônio (excretado pela célula); o ácido resultante deste processo pode, então, entrar no Ciclo de Krebs. A Figura 14 ilustra e resume o catabolismo de diversas fontes, sejam carboidratos, lipídios ou proteínas. Figura 14 – Catabolismo de diversas fontes 21 3.2 Biossíntese – Reações anabólicas A biossíntese envolve reações de anabolismo, a fim de sintetizar moléculas orgânicas celulares complexas, geralmente, a partir de substâncias simples. 3.2.1 Fotossíntese Conforme pudemos observar, os compostos orgânicos são essenciais à obtenção de energia pelos microrganismos. Mas como esses compostos são produzidos? Os organismos denominados autotróficos, como as cianobactérias, algas e plantas, são capazes de produzir, a partir de compostos inorgânicos, como a água e o gás carbônico, compostos orgânicos complexos – como a glicose. Esta molécula pode, então, ser utilizada por outros seres vivos, os heterotróficos (bactérias, protozoários, fungos e animais) para sintetizar ATP. Assim, os autotróficos constituem a base da cadeia alimentar, sendo denominados de produtores. O mecanismo utilizado para essa produção é a fotossíntese, processo que converte a energia luminosa em energia química. Resumidamente, os organismos capazes de realizar esse processo absorvem água e gás carbônico do meio e, na presença de luz e pigmentos fotossintéticos (clorofila), produzem açúcares (alimento) e oxigênio, liberado para a atmosfera. Nesse sentido, os organismos fotossintéticos são essenciais ao planeta, pois além de produzirem o oxigênio que respiramos, também participam ativamente do ciclo do carbono e da reciclagem desse elemento na Natureza, atuando no sequestro do carbono atmosférico (cujo excesso intensifica o efeito estufa, acarretando no aquecimento global) e promovendo a fixação do carbono, a fim de construir as moléculas energéticas importantes no metabolismo de todos os seres vivos. Ainda, bactérias púrpuras e verdes não utilizam água como doador de H+, mas sim, utilizam sulfeto de hidrogênio (H2S) como doador de enxofre, produzindo grânulos de enxofre. A fotossíntese é organizada em duas etapas: fotoquímica (ou fase clara), que contempla reações dependentes da luz solar, e química (ou fase escura), cujas reações ocorrem independentemente da luz. O Quadro 2 resume e compara as 2 etapas. 22 Quadro 2 – Etapas fotoquímica e química da fotossíntese ETAPA FOTOQUÍMICA ETAPA QUÍMICA • Dependente de pigmentos fotossensíveis – o principal é a clorofila a. • Ocorre nos tilacoides dos cloroplastos (eucariontes) e em membranas fotossintéticas nos procariontes. • Energia luminosa converte ADP em ATP – processo denominado fotofosforilação (luz energiza elétrons da molécula de clorofila) e pode ser cíclica (elétrons retornam para a clorofila) ou acíclica (mais comum, elétrons são incorporados ao NADPH). • ATP produzido por quimiosmose, utilizando a energia liberada em uma cadeia transportadora de elétrons. • Ocorre a fotólise da água, na qual a molécula se dissocia em prótons (a serem utilizados na quimiosmose) e gás oxigênio. • Não dependem de pigmentos fotossintéticos nem de luz. • Ocorre no estroma dos cloroplastos nos eucariontes e no citoplasma dos procariontes. • Envolve uma sequência de reações químicas complexas – Ciclo de Calvin-Benson. • Nas reações, o carbono do CO2 é fixado, produzindo glicose. • Para a ocorrência das reações, o ATP produzido na etapa fotoquímica é consumido. A descrição mais detalhada do processo fotossintético pode ser encontrada na disciplina de Citologia. A imagem a seguir resume o processo de fotossíntese nos seres eucariontes: 23 Figura 15 – Processo de fotossíntese nos seres eucariontes Crédito: Designua/Shutterstock. Já a Figura 16 retrata a estrutura de uma cianobactéria, a qual apresenta tilacoides membranosos em seu citoplasma, onde é armazenada a clorofila: 24 Figura 16 – Estrutura de uma cianobactéria Crédito: VectorMine/Shutterstock. 3.2.2 Biossíntese de polissacarídeos Após a síntese de carboidratos simples, como a glicose, os microrganismos podem sintetizar polissacarídeos mais complexos, como o glicogênio e o amido. Esses polissacarídeos são constituídos por várias moléculas de glicose (monossacarídeo), as quais devem ser fosforiladas para serem unidas. O produto desta fosforilação é a glicose-6-fosfato, que, dependendo da fonte de energia utilizado – ATP ou UTP (uridina-trifosfato, nucleotídeo com potencial energético) – produz glicogênio ou peptideoglicana. 25 3.2.3 Biossíntese de lipídeos Os lipídeos apresentam grande variação em sua composição; assim, as vias de sua biossíntese são diversas. Na sua constituição básica, os lipídeos são moléculas compostas por glicerol e ácidos graxos. O glicerol deriva de uma molécula sintetizada na glicólise, a diidroxiacetona-fosfato; já o ácido graxo (hidrocarbonetode cadeia longa) é produzido a partir de Acetil-CoA. Os lipídeos apresentam importantes funções biológicas: fosfolipídeos compõem a membrana plasmática, cerídeos atuam na composição da parede celular de bactérias álcool-resistentes, carotenoides são lipídeos que possibilitam diferentes colorações e, com destaque, os glicerídeos, que atuam como reserva energética. Lembre-se de que a degradação de lipídeos gera produtos que poderão ser incorporados ao Ciclo de Krebs. 3.2.4 Biossíntese de proteínas Para produzir proteínas, os seres vivos precisam, primeiramente, sintetizar as unidades básicas que compõem essa macromolécula: os aminoácidos. Algumas bactérias apresentam enzimas que possibilitam sintetizar todos os aminoácidos que necessitam, a partir de glicose e de sais inorgânicos, como é o caso da Escherichia coli. Os microrganismos que não possuem essas enzimas necessitam absorver aminoácidos do meio. O Ciclo de Krebs, assim como a via da pentose-fosfato e de Entner- Doudoroff, fornece importantes precursores para a síntese de aminoácidos, como o ácido pirúvico e outros ácidos orgânicos, nos quais a adição de um grupo amino converte o ácido em um aminoácido, processo denominado aminação. Caso o grupo amino seja derivado de outro aminoácido preexistente, o processo é chamado transaminação. Para formar a proteína, os aminoácidos unem-se entre si por meio de ligações peptídicas, nas quais um grupamento amino de um aminoácido se une ao grupo carboxila de outro, liberando uma molécula de água (síntese por desidratação). Vale considerar que as informações para as proteínas a serem sintetizadas pelo microrganismo estão contidas no seu material genético, ou seja, nos seus genes. Fragmentos de DNA microbiano contêm os dados da sequência de aminoácidos a serem recrutados e unidos. A mensagem contida 26 no DNA é transcrita em RNA mensageiro, o qual será, com auxílio dos ribossomos, traduzido no polipeptídeo de interesse. Nos procariontes, todo esse processo ocorre no citoplasma; nos eucariontes, a transcrição ocorre no núcleo, enquanto a tradução ocorre no citoplasma. 3.2.5 Biossíntese de purinas e pirimidinas Os ácidos nucleicos, classe molecular do DNA e RNA, são formados por unidades denominadas nucleotídeos; cada um deles é constituído por um radical fosfato, um açúcar de 5 carbonos (pentose – desoxirribose ou ribose) e uma base nitrogenada – adenina (A), timina (T), citosina (C), guanina (G) e uracila (U). Estas, são classificadas em 2 grupos principais, de acordo com suas características bioquímicas, as purinas (A e G) e as pirimidinas (C, T e U). Tanto a glicólise quanto o Ciclo de Krebs produzem intermediários que são utilizados na fabricação de aminoácidos que participarão da constituição das purinas e pirimidinas; os anéis presentes nessas bases derivam dos átomos de carbono e nitrogênio dos aminoácidos. Figura 17 – Biossíntese de purinas e piridinas Crédito: New Africa/Shutterstock. 27 TEMA 4 – CRESCIMENTO BACTERIANO Em um ambiente natural, os microrganismos desempenham inúmeras atividades; metabolismo (energético e genético), crescimento (em número) e evolução (facilidade me sofrer mutações), são algumas delas. Uma importante característica microbiana é a ubiquidade, ou seja, a capacidade de distribuição em todos os ambientes naturais. Em meios de cultura no laboratório, é possível representar graficamente as grandiosas populações bacterianas, resultantes de sua proliferação, além de determinar a quantidade delas, pelo método de contagem ou pela avaliação de sua atividade metabólica. O crescimento bacteriano envolve o aumento no número de indivíduos, os quais se multiplicam por fissão binária. Nela, a célula se alonga, duplica o material genético, sendo seguido pelo início da divisão da parede celular e da membrana plasmática. Então, formam-se paredes intermediárias que separam completamente as duas cópias de DNA; enfim, as células se separam. Algumas bactérias, assim como as leveduras, também podem se reproduzir por brotamento, no qual um pequeno broto vai se desenvolvendo, até atingir tamanho suficiente para se separar do indivíduo parental. É importante considerar que há um tempo para uma célula se dividir e, consequentemente, aumentar/duplicar a população, sendo esse tempo chamado de tempo de geração, variável de acordo com o microrganismo envolvido e fatores como temperatura e outras condições do meio. Por exemplo, na bactéria Escherichia coli a fissão binária ocorre a cada 20 minutos e, após 20 gerações, uma única célula pode originar até um milhão de indivíduos, em cerca de 7 horas. Em 24 horas, esse número pode ser tão grande que fica difícil expressá-lo em números aritméticos; assim, é normal utilizar-se de escalas logarítmicas para representar o crescimento bacteriano. A compreensão dessas escalas requer um aprofundamento em modelos matemáticos, essencial aos microbiologistas. Saiba mais Uma análise mais detalhada deste assunto pode ser observada no capítulo 7 e também no Apêndice B do livro Microbiologia de Tortora, Funke e Case, disponível para download acessando o link a seguir: 28 TORTORA, G; FUNKE, B.; CASE, C. Microbiologia. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. Disponível em: <https://bibliotecadebiomedicina.blogspot.com/2019/01/livro-microbiologia- tortora-funke-case_10.html>. Acesso em: 10 abr. 2023. 4.1 Fases do crescimento bacteriano Quando inoculamos bactérias, assim como leveduras, em um meio de cultura líquido, é possível contar a população em intervalos regulares, representando assim a curva de crescimento bacteriano, que demonstra o crescimento no número de células em função do tempo. O crescimento microbiano possui 4 fases: 4.1.1 Fase Lag (1) Nesta fase, não há aumento da população bacteriana, embora as células aumentem seu volume, indicando intensa atividade metabólica na preparação para a divisão e também na adaptação ao meio. Tem duração de uma hora a vários dias. 4.1.2 Fase Log (2) Fase na qual o crescimento populacional ocorre de forma logarítmica ou exponencial, aumentando consideravelmente a população. Nela, o suprimento de nutrientes é superior às necessidades dos indivíduos. O tempo de geração é constante, sendo representado graficamente por uma linha reta. Como representa a maior atividade metabólica, essa fase é a preferida para fins industriais – representa a eficiência na produção de determinado produto. 4.1.3 Fase estacionária (3) A velocidade de crescimento reduz drasticamente, até atingir o equilíbrio entre o número de novas células e a quantidade de organismos mortos, estabilizando a população. A causa da interrupção do crescimento exponencial pode ser o déficit de nutrientes, acúmulo de resíduos, alteração brusca do pH, esgotamento de oxigênio,dentre outras. 29 Figura 18 – Curva de crescimento populacional bacteriano 4.1.4 Fase de declínio ou de morte (4) Nela, a população microbiana decresce em velocidade logarítmica, isto é, a quantidade de indivíduos que morrem é bem superior ao surgimento de novas células. Vale ressaltar que algumas células passam pelas 4 fases em poucos dias, enquanto outras mantêm indefinidamente alguns indivíduos vivos. 4.2 Medida do crescimento bacteriano Para determinar as taxas de crescimento microbiano, bem como o tempo de geração, há várias formas de se medir essa proliferação, as quais podem ser diretas ou indiretas. 4.2.1 Medição direta A mais comum é a medição direta, sendo a contagem de células o método mais tradicional; nele, é possível não só contar o número de células, mas também avaliar seu tamanho e morfologia. Para se contar o número de células viáveis (deve-se considerar que muitas delas possam morrer), se faz uma retirada de uma amostra, sua diluição seriada – onde se dilui a amostra em solução salina ou água peptonada(nunca em água comum, devido à pressão osmótica), a fim de obter colônias puras, dispersando-as em meio de cultura 30 sólido, por meio do plaqueamento. Então, calcula-se o número original de indivíduos viáveis, a partir do número de colônias formadas e da diluição. Uma vez que cada colônia foi formada a partir de uma célula, é comum expressarmos os resultados do crescimento microbiano em unidades formadoras de colônia (UFC), ao invés do número de microrganismos. 4.2.2 Medição indireta A medição indireta não necessita da contagem de células propriamente dita, mas sim da avaliação da atividade metabólica microbiana. Por exemplo, a turbidimetria permite analisar a turbidez do meio, o qual se torna opaco/turvo, devido à multiplicação das células. Em organismos filamentosos, como os fungos, por exemplo, uma das melhores maneiras de se medir o crescimento é por meio do peso seco, no qual o ser é removido do meio de cultura, filtrado e seco em dissecador e, então, pesado. A medição do crescimento é fundamental para se compreender alguns processos envolvendo microrganismos, como a contaminação e a deterioração de alimentos, a infecção hospitalar, a qualidade do solo e da água, a decomposição de cadáveres, dentre outros. TEMA 5 – EFEITOS DOS FATORES ABIÓTICOS SOBRE O CRESCIMENTO MICROBIANO Para o crescimento microbiano, alguns fatores abióticos, como temperatura, pH, necessidade de oxigênio, dentre outros, são necessários. Devido à sua ubiquidade, os microrganismos irão depender de variações nesses fatores para a sua sobrevivência. Por exemplo, algumas bactérias suportam temperaturas elevadíssimas, ao passo que outras necessitam de uma temperatura mais amena. Os fatores que determinam o crescimento microbiano podem ser físicos – como temperatura, pH e pressão osmótica – ou químicos, como os nutrientes e as fontes de carbono, nitrogênio, enxofre e fósforo, além da atmosfera gasosa, utilizadas para seu desenvolvimento. A seguir, descreveremos cada um destes fatores, apresentando as classificações dos microrganismos quanto a cada um deles. 31 5.1 Fatores físicos 5.1.1 Temperatura Esse fator é essencial ao metabolismo microbiano, uma vez que determina a velocidade das reações químicas e a absorção de nutrientes. As condições de temperatura ideais para cada tipo de indivíduo são variáveis, classificando-os, assim, em 4 subtipos: psicrófilas, mesófilas, termófilas e termófilas extremas ou hipertermófilas. Organismos psicrófilos são os que gostam de baixas temperaturas, apresentando boa taxa de crescimento entre 5 °C e 17 °C. São incluídos nesse grupo bactérias e fungos que deterioram alimentos estocados (em refrigeradores, por exemplo). Os microrganismos mesófilos correspondem à maioria, sendo beneficiados em temperaturas moderadas, entre 28°C e 40°C. Os termófilos, por sua vez, gostam de temperaturas elevadas, que variam entre 45 °C e 70 °C. Por fim, as termófilas extremas sobrevivem a temperaturas bem elevadas, entre 70 °C e 110 °C e possuem, como principais representantes, indivíduos do Domínio Archaea, os quais estão associados a atividades vulcânicas e fontes termais. Ainda, há um termo comumente utilizado dentre os microbiologistas para se referirem aos microrganismos deteriorantes – são os chamados psicotróficos; estes, podem crescer em baixas temperaturas (0 °C), apresentam temperatura ótima entre 20 °C e 30 °C, mas não crescem em temperaturas superiores a 40 °C. 32 Figura 19 – Relação entre velocidade de crescimento e temperatura Dentre essas variações, vale considerar que cada grupo possui uma temperatura mínima de crescimento (menor temperatura em que a espécie sobrevive), uma temperatura ótima – a temperatura ideal de crescimento, e uma temperatura máxima, ou seja, a maior temperatura de crescimento. O gráfico acima representa cada subtipo, considerando que o decaimento do crescimento esteja diretamente relacionado à inativação de enzimas, após ultrapassarem a temperatura ótima. Saiba mais Na preservação de alimentos, o fator temperatura é essencial; sabe-se por exemplo, que temperaturas negativas, inibem o crescimento microbiano (princípio da refrigeração). A partir de 10 °C, ocorre o crescimento bacteriano lento, sendo as temperaturas entre 20 °C e 50 °C muito perigosas para a proliferação bacteriana. Já as temperaturas acima de 60 °C destroem mais rapidamente os microrganismos do que as temperaturas inferiores. 33 Figura 20 – Efeitos da temperatura 5.1.2 pH O pH se refere à acidez ou basicidade de um meio. A grande maioria dos microrganismos apresenta crescimento ideal em pH neutro (aproximadamente 7), sendo chamadas de neutrófilos. No entanto, alguns microrganismos podem crescer bem em ambientes ácidos, sendo denominados acidófilos. Existem bactérias que podem sobreviver em pH 1. Microrganismos que possuem crescimento maior em meios básicos (alcalinos), cujo pH varia entre 7 e 14, chamam-se alcalófilos. É importante considerar que o próprio metabolismo microbiano pode gerar ácidos, o que poderia influenciar seu crescimento em meios de cultura laboratoriais; assim, é relevante adicionar alguns elementos ao 34 meio, como aminoácidos e sais de fosfato, que atuam como tampões (impedem variações bruscas de pH). Figura 21 – Relação entre taxa de crescimento e pH Crédito: Arte/UT. 5.1.3 Pressão osmótica A pressão osmótica se refere à capacidade absorção de nutrientes de um meio, considerando-se o meio aquoso como principal fornecedor de substâncias importantes aos microrganismos; assim, a quantidade de sal (NaCl) de uma solução interfere diretamente na absorção dos nutrientes. Em meio hipertônico, onde a concentração de sais é maior que a de água, a célula tende a perder água por osmose, visando o equilíbrio. Essa perda faz com que a célula murche, promovendo o descolamento da membrana plasmática da parede celular, fenômeno conhecido por plasmólise, o que inibe o crescimento microbiano. Assim, a adição de sais em alimentos pode promover a sua conservação. Microrganismos adaptados à altas concentrações de sais são denominados halófilos extremos, como as arquebactérias, e podem depender, inclusive, de sais para o seu crescimento (nesse caso, denominam-se halófilos obrigatórios ou halofílicos); organismos de águas salinas, como o Mar Morto, entram nesse grupo. Já os halófilos facultativos ou halotolerantes, compreendem a maioria dos microrganismos e não necessitam de altas concentrações de sais para se desenvolverem, como a bactéria S. aureus. Por fim, existem bactérias que não 35 toleram altas concentrações de sais, como a E. coli, sendo chamadas de não- halofílicas. Figura 22 – Relação entre taxa de crescimento e cloreto de sódio 5.2 Fatores químicos 5.2.1 Carbono O carbono é um dos elementos químicos mais importantes para os seres vivos, uma vez que compõe as moléculas orgânicas, vitais aos organismos, como os carboidratos, lipídeos e proteínas. Ainda, na forma de molécula inorgânica, como o CO2, é essencial para a ocorrência da fotossíntese. 5.2.2 Nitrogênio, enxofre e fósforo Além do carbono, outros elementos são essenciais na constituição celular. Importantes moléculas, como as proteínas e os ácidos nucleicos, necessitam de nitrogênio para sua composição, além de estes últimos também necessitarem de fósforo, assim como a molécula de ATP. Para se ter ideia, o nitrogênio compõe cerca de 14% do peso seco da célula bacteriana. O nitrogênio pode ser obtido de diversas formas: decomposição de material proteico, reincorporando aminoácidos, utilização de íons amônio (NH4+) – disponíveis no material celular orgânico e derivação do nitrogênio a partir de nitrato. Algumas bactérias são capazes de utilizar o nitrogênio gasoso (N2) diretamente da atmosfera, possuindopapel crucial na fixação biológica do 36 nitrogênio, importante etapa do Ciclo do Nitrogênio, conforme veremos em etapa posterior. O enxofre, por sua vez, participa da composição de alguns aminoácidos, sendo obtido a partir de fontes que contenham o íon sulfato (SO42-), além da degradação de aminoácidos com esse elemento químico. Por fim, o fósforo, elemento importante na síntese dos ácidos nucleicos, da membrana plasmática de fosfolipídeos, da molécula de ATP, dentre outros componentes celulares, possui com principal fonte os íons fosfato (PO43-). 5.2.3 Elementos-traço Além dos elementos químicos citados anteriormente, outras substâncias são importantes ao crescimento microbiano, embora presentes em baixas concentrações, como ferro, cobre, magnésio, molibdênio e zinco, os quais são fundamentais, pois participam do metabolismo, atuando como cofatores enzimáticos. 5.2.4 Atmosfera gasosa A atmosfera gasosa representa a necessidade ou não de oxigênio para o crescimento bacteriano. Embora pensemos no oxigênio como elemento vital, para alguns organismos ele pode ser considerado um gás venenoso. Lembre-se de que na atmosfera primitiva não havia oxigênio disponível de forma suficiente para os primeiros seres vivos; assim, estes passaram a utilizar outros compostos para a produção de energia, conforme vimos em etapa anterior. Em relação à necessidade do oxigênio, os microrganismos podem ser classificados em 5 tipos: • Aeróbicos obrigatórios: apresentam necessidade absoluta de oxigênio para se proliferarem; é o caso das bactérias do gênero Mycobacterium (tuberculose e hanseníase); • Anaeróbicos facultativos: devido à baixa solubilidade do O2 em meio aquoso, alguns microrganismos continuam sendo capazes de se desenvolver na ausência deste elemento. Dessa forma, podem realizar fermentação ou respiração anaeróbica na ausência de oxigênio e respiração aeróbica em sua presença. Um exemplo é a bactéria presente no intestino humano, Escherichia coli, além das leveduras. 37 • Anaeróbicos obrigatórios: são os seres incapazes de utilizar o oxigênio molecular para sintetizar energia e, a presença do oxigênio pode ser letal; por exemplo, bactérias do gênero Clostridium (tétano e botulismo) obtêm o oxigênio na forma atômica de materiais celulares. • Anaeróbicos aerotolerantes: não utilizam o oxigênio para seu metabolismo – como aceptor final de elétrons, mas o toleram bem. Utilizam os carboidratos do meio para sintetizar o ácido láctico e, assim, favorecer o ambiente ao seu desenvolvimento. É o caso dos lactobacilos, importantes na produção de laticínios. Apresentam um sistema enzimático eficiente, que as protegem de formas tóxicas do oxigênio. • Microaerófilas: utilizam oxigênio, mas em concentrações muito menores do que a disponível no ar. Em meios de cultura, estes microrganismos crescem no fundo do tubo de ensaio, onde há poucas moléculas difusas. Bactérias do gênero Vibrio (por exemplo, da cólera), Neisseria (como a causadora da gonorreia) e Helicobacter (pode causar a gastrite) são importantes exemplos destes organismos. FINALIZANDO Nesta etapa, abordamos importantes aspectos do metabolismo microbiano; pudemos perceber como os microrganismos obtêm e degradam nutrientes e as propriedades de seu crescimento. O infográfico a seguir resume os tópicos abordados nesta etapa: 38 Figura 23 – Tópicos abordados METABOLISMO MICROBIANO - CATABOLISMO - ANABOLISMO 1. FONTES DE NUTRIENTES: Fonte de energia e carbono 2. CONTROLE DA SÍNTESE ENZIMÁTICA E A PRODUÇÃO DE ATP 3. CATABOLISMO (Carboidratos, lipídeos e proteínas) e ANABOLISMO 4. CRESCIMENTO BACTERIANO: Fases (Lag, Log, estacionária e de morte) e medição. 5. FATORES DE CRESCIMENTO (Físicos e químicos) e EFEITOS DOS FATORES ABIÓTICOS 39 REFERÊNCIAS JUNQUEIRA, L. C; CARNEIRO, J. Biologia celular e molecular. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. TORTORA, G; FUNKE, B.; CASE, C. Microbiologia. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. Conversa inicial 1.1 Fotoautotróficos 1.2 Foto-heterotróficos 1.3 Quimioautotróficos 1.4 Quimio-heterotróficos 2.1.1.1 Temperatura (T) 2.1.1.2 pH 2.1.1.3 Concentração de substrato 2.1.1.4 Inibidores 3.1.1.1 Glicólise 3.1.1.2 Ciclo de Krebs 3.1.1.3 Cadeia transportadora de elétrons 3.1.2.1 Fermentação láctica 3.1.2.2 Fermentação alcoólica 4.1.1 Fase Lag (1) 4.1.2 Fase Log (2) 4.1.3 Fase estacionária (3) 4.1.4 Fase de declínio ou de morte (4) 4.2.1 Medição direta 4.2.2 Medição indireta 5.1.1 Temperatura 5.1.2 pH 5.1.3 Pressão osmótica 5.2.1 Carbono 5.2.2 Nitrogênio, enxofre e fósforo 5.2.3 Elementos-traço 5.2.4 Atmosfera gasosa FINALIZANDO REFERÊNCIAS