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QUÍMICA QUÂNTICA AULA 4 Profª Líliam Maria Born Martinelli 2 CONVERSA INICIAL Na mecânica clássica, o estado de uma partícula, em determinado tempo, é definido por vetores que se distribuem no espaço em um sistema de coordenadas, e a sua dinâmica pode ser descrita por meio da aplicação da equação de movimento de Newton. Mas a mecânica quântica revela que é preciso considerar o caráter ondulatório das partículas, o que traz muitas mudanças e o desenvolvimento de pesquisas que precisamos conhecer. No que se refere à química, os estudos que deram origem à mecânica quântica abriram espaços para buscar aprofundamento na compreensão das reações químicas. Isso se justifica ao saber que as reações ocorrem por meio de mecanismos que provocam a reorganização dos átomos, e que isso está muito ligado à distribuição dos elétrons na eletrosfera. Tendo em vista que a mecânica quântica evidenciou a presença da energia na organização do sistema atômico, esta aula pretende analisar os conceitos e as definições para a aplicação dos postulados da mecânica quântica aos sistemas atômicos. Para tanto, cada um dos temas tratará de um conjunto de aspectos considerados importantes para tal empreitada. Começaremos pela mecânica quântica não relativista, seguindo para os sistemas unidimensionais e bidimensionais, voltaremos o olhar para a equação de Schrödinger tanto para o átomo de hidrogênio quanto para os átomos multieletrônicos; por fim trataremos do Princípio da Exclusão de Pauli e suas consequências. TEMA 1 – POSTULADOS DA MECÂNICA QUÂNTICA NÃO RELATIVÍSTICA Este tema busca fundamentar e aprofundar a compreensão da realidade interna de um átomo, mais especificamente de um elétron na sua eletrosfera. Mesmo que isso pareça muito distante da nossa capacidade de compreensão, não se pode negar que seus efeitos são percebidos com clareza e os estudos até hoje produzidos trazem muito benefícios mesmo que acompanhados de preocupações. Assim, é muito importante identificar os conceitos que fundamentam os postulados da mecânica quântica não relativista. O que é um postulado? Segundo o Dicionário Houaiss (Houaiss; Villar, 2001, p. 2.272), um postulado é “o que se considera como fato reconhecido e ponto de partida, implícito ou explícito, de uma argumentação; afirmação ou fato 3 admitido sem necessidade de demonstração”. Percebe-se que postulado é um recurso utilizado quando precisamos explicar algo cujos efeitos estão visíveis, mas faltam formas de comprovação das ideias admitidas como verdadeiras. A argumentação que conduz à veracidade do que se está afirmando é feita com base em fatos não passíveis de comprovação até aquele momento. No caso do estudo da dualidade da luz e da matéria, os fenômenos estão presentes e, por mais que a pesquisa estivesse avançada, as bases da explicação sempre caíam para o lado da impossibilidade de comprovação por meio de experimentação ou outra via. No estudo do elétron e sua dualidade, os postulados ajudavam a responder às seguintes perguntas: “como o estado de um sistema quântico é descrito matematicamente em um determinado instante de tempo? Conhecido o estado do sistema, como poderemos determinar os resultados da medida de diferentes grandezas ou observáveis físicas?” (Bugalski; Gabe, 2020, p. 89). Nesse sentido, do que cada postulado trata? • O primeiro postulado trata da descrição do estado das partículas de um sistema por meio de uma função de onda em um tempo determinado. • O segundo postulado apresenta a descrição das quantidades ou grandezas físicas. • O terceiro postulado trata da medida da quantidade ou grandeza física. Segundo Bugalski e Gabe (2020, p. 91), “uma medida do observável a realizada para um estado |𝜓𝜓⟩ terá como seu único valor possível um os autovalores do observável correspondente”. • O quarto postulado define que, na mecânica quântica, o estado de um sistema é representado por um vetor, enquanto na mecânica clássica é dado por um operador, como posição, momento linear, entre outros, apresentados em três situações: a. caso de um espectro discreto não degenerado; b. caso de um espectro discreto; e c. caso do espectro contínuo não degenerado. • O quinto postulado destaca a redução do pacote de ondas. Segundo Bugalski e Gabe (2020, p. 92), “quando a medida da grandeza física a em um sistema físico de estado |𝜓𝜓⟩ fornece o resultado 𝑎𝑎𝑎𝑎, imediatamente após a medição o estado do sistema é igual a projeção normalizada de |𝜓𝜓⟩”. 4 • O sexto postulado apresenta a evolução temporal de um sistema físico indicando que a evolução de um vetor em função do tempo é determinada pela Equação de Scrödinger (Bugalski; Gabe, 2020). A mecânica quântica traz, assim, elementos que podem contribuir muito com o conhecimento das partículas e os sistemas que compõem. TEMA 2 – APLICAÇÕES EM SISTEMAS SIMPLES, UNI E BIDIMENSIONAIS Nesse momento, buscamos compreender as bases teóricas da aplicação da química quântica aos sistemas unidimensionais e bidimensionais. Em primeiro lugar, é importante destacar que serão considerados os prováveis comportamentos das ondas de matéria, cujas partículas estão em movimento em um espaço limitado, sendo em armadilhas unidimensional ou bidimensionais. Para fundamentar a discussão, podemos partir das explicações de Halliday, Resnick e Walker (2018, p. 218, grifo dos autores). Considere agora a onda de matéria associada a um elétron atômico, como o elétron de valência (elétron da última camada) de um átomo. Um elétron desse tipo, mantido no lugar pela força de atração do núcleo atômico, não é uma partícula livre; pode existir apenas em estados discretos, caracterizados por valores discretos da energia. A situação lembra muito a de uma corda esticada, de comprimento finito, que também só comporta um número finito de estados e frequências de oscilação. Assim, no caso das ondas de matéria, como no caso de ondas de qualquer tipo, podemos enunciar um princípio de confinamento: o confinamento de uma onda leva à quantização, ou seja, à existência de estados discretos de energias discretas. A onda pode ter apenas essas energias. A intenção é apresentar um modelo para o comportamento de um elétron preso em um sistema unidimensional ou bidimensional. A análise desse sistema é apenas um modelo didático que nos permite compreender um elétron em espaço delimitado. Pode-se imaginar que o elétron preso em um túnel constituído por “dois cilindros semi-infinitos mantidos a um potencial elétrico de –∞; entre eles existe um cilindro oco, de comprimento L, que é mantido a um potencial elétrico nulo. O elétron a ser confinado é colocado no interior desse último cilindro.” (Halliday; Resnick; Walker, 2018, p. 219). Tal situação pode ser visualizada na Figura 1 a seguir. 5 Figura 1 – Modelo para o comportamento de um elétron preso em um sistema unidimensional ou bidimensional Fonte: Martinelli, 2020. Tal situação também pode ser conhecida como Poço de Potencial Infinito. Mesmo sabendo que é muto difícil construir e conservar armadilhas como essa, é importante lembrar que situações com maior grau de complexidade já foram construídas por meio das quais se observou o comportamento dos elétrons. No entanto, a armadilha apresentada é um bom modelo didático. Mas qual é a contribuição desse provável experimento? 1. O elétron confinado dificilmente poderá sair do poço e isso limita o seu movimento a uma só dimensão. Nessa condição, “quando ele se aproxima de uma das paredes do poço ele é repelido pelo potencial negativo de fora. A energia 𝐸𝐸𝑎𝑎 dos elétrons dentro do poço é quantizada” (Bugalski; Gabe, 2020, p. 107). Ou seja, um elétron confinado permanece em um único estado de energia. Tal situação só mudaria se ele recebesse uma quantidade de energia externa (fóton). Issofará com que ele ocupe um outro estado de energia maior ao seu estado original, denominado estado excitado. Pode-se dizer que ∆E representará a diferença entre a energia em que se encontra e a energia que vai atingir quando estiver excitado (∆E= Ealta – Ebaixa). 6 2. A mudança de estado de energia do elétron ocorrida por meio da absorção de um fóton pode ser chamada de salto quântico, “com quantidade de energia dada por ℎ𝜈𝜈= Δ𝐸𝐸=𝐸𝐸𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎−𝐸𝐸𝐸𝐸𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎𝑎, onde 𝜈𝜈 é a frequência de vibração do fóton e ℎ é a constante de Planck” (Bugalski; Gabe, 2020, p. 95). Figura 2 – Salto quântico Crédito: Nasky/Shutterstock. 3. O retorno do elétron ao seu estado original de energia ocorre com a devolução da mesma energia recebida. Isso demonstra que há quantização dos estados de energia do elétron. 4. As armadilhas unidimensionais ideais não permitem os saltos, mas são um bom modelo didático para a compreensão dos saltos quânticos. 5. “O confinamento do elétron (ao qual está associada uma onda de matéria) leva à quantização da energia. Como o poço é infinitamente profundo, as energias permitidas” (Halliday; Resnick; Walker, 2018, p. 221) são passíveis de cálculo por equações específicas e relacionam-se diretamente ao número quântico principal. Saiba mais Considerando que esse assunto pode ser muito interessante, sugerimos assistir ao vídeo “O poço de potencial infinito: aplicação da Equação de Schrödinger”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=d3jSiN5rPyI>. Aceso em: 7 out. 2020. 7 Consulte também a obra a seguir, de modo especial o intervalo entre as páginas 217 e 226, em ques são apresentados detalhes sobre o desenvolvimento das equações matemáticas correspondentes. HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Volume 4: óptica e física moderna. Tradução Ronaldo Sérgio De Biasi. 10 ed. Rio de Janeiro: LTC, 2018. Nos sistemas bidimensionais, o elétron estará confinado em uma região retangular em que a barreira ocorre em duas dimensões. Halliday, Resnick e Walker (2018, p. 231) dizem que “o curral pode estar na superfície de um objeto que de alguma forma impede que o elétron se mova paralelamente ao eixo z e deixe a superfície”, ou seja, como explicam Bulgalski e Gabe (2020, p. 97): A versão bidimensional para o poço de potencial infinito é denominada curral retangular, nessa situação o elétron está confinado em um poço de potencial infinito com larguras lx e ly, isso significa que o elétron move-se no plano xy mas não se move na direção de z. Imaginem que o elétron está preso por barreiras de potencial infinitas, paralelas aos planos xz e yz. Levando em consideração que a equação de Schrödinger define a onda de matéria do elétron confinado, é importante destacar que a solução dessa equação dever ser nula nas extremidades do curral. Ou seja, a onda deve ser quantizada nas duas dimensões, o que implica a necessidade de dois números quânticos, que devem ser números inteiros e positivos. A excitação e o decaimento do elétron se dão da mesma forma que no sistema unidimensional, como nos explicam Bugalski e Gabe (2020, p. 98): “para valores diferentes de nx e ny os valores da energia também serão diferentes, os estados correspondentes a essa situação são chamados de estados degenerados”. 8 Figura 3 – Onda quantizada nas duas dimensões, o que implica dois números quânticos Fonte: Holen, 2020. TEMA 3 – ÁTOMO DE HIDROGÊNIO, SEGUNDO SCHRÖDINGER O hidrogênio é um sistema atômico constituído por um próton (carga positiva) e um elétron (carga negativa), cuja dinâmica se pauta pela força gerada pelo caráter de oposição entre as partículas que o compõem. Em função disso, o objetivo deste tema é compreender que, ao aplicar os conceitos da física quântica ao modelo atômico de Schrödinger, foi possível perceber o funcionamento do sistema dinâmico do átomo. No caso do átomo de hidrogênio, o sistema próton-elétron pode ser um exemplo de poço de potencial infinito tridimensional. Figura 4 – Átomo de hidrogênio Crédito: Blueringmedia/Shutterstock. 9 Quais são as contribuições advindas desse processo? a. A quantização dos níveis de energia e o comportamento do elétron em relação a essa energia. Como afirmam Bugalski e Gabe (2020, p. 100): os níveis de energia nos quais encontramos os elétrons de um átomo são quantizados e que dependem do número quântico n. O nível de energia mais baixo está associado a n=1 e chamamos esse estado de estado fundamental. As energias associadas possuem valores negativos, assim para outros valores de n teremos energias maiores que correspondem aos estados excitados. Quanto mais aumenta o valor de n, maior a energia associada ao estado, para 𝑎𝑎→∞ o valor de 𝐸𝐸=0. Se de alguma forma a energia tornar-se positiva, o elétron desliga-se do próton e o átomo de hidrogênio deixa de existir. b. Absorver ou emitir energia depende da interação e da quantidade de energia do fóton, sendo que a absorção ou emissão de luz ocorrerão em função da diferença de energia entre os estados do átomo (fundamental e excitado). O comprimento de onda associado a tais variações de energia define o espectro do átomo de hidrogênio. c. O átomo de H será ionizado quando receber uma energia maior que o seu limite e, dessa forma, o elétron será afastado do núcleo ao ponto de desprender-se dele. d. A equação de Schrödinger foi corrigida usando algumas condições de contorno quando se percebeu que soluções sem sentido seriam possíveis. e. Foi possível admitir que as regiões de maior densidade para encontrar um elétron poderiam assumir simetrias diferentes. Ou seja, quando n=1 e l=0, a simetria se mostrou esférica unicamente. Entretanto, ao variar os valores de n, surgiam simetrias diferentes, como explicam Bugalski e Gabe (2020, p. 103-104): Quando variamos os valores dos números quânticos, utilizando 𝑎𝑎=1 e 𝑚𝑚𝑎𝑎=−1,0,+1, observa-se que para 𝑚𝑚𝑎𝑎=−1 e 𝑚𝑚𝑎𝑎=+1 as densidades de probabilidades são iguais, com relação ao eixo z, mas a simetria não é mais esférica devido ao valor do momento angular não ser mais igual a zero. Ao somar as densidades de probabilidade dos três possíveis estados quando 𝑎𝑎=2, obteremos a probabilidade novamente com simetria esférica, o que faz com que o eixo de simetria deixe de existir. Com essas percepções, foi possível organizar a ideia de átomo com um núcleo positivo e uma eletrosfera subdividida em níveis que são formados por subníveis de energia, os quais abrigam os orbitais. Essa é a estrutura básica que consideramos para o átomo. É certo que tais ideias estão sofrendo mudanças na medida em que as pesquisas avançam. 10 Saiba mais Sugerimos que assista ao vídeo “Quântica – Função de onda do átomo de hidrogênio”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v= 5FUAZWjIDt8>. Acesso em: 7 out. 2020. É certo que uma pergunta fica: e os átomos com número atômico maior do que 1 seguem o mesmo modelo? TEMA 4 – ÁTOMOS MULTIELETRÔNICOS Neste tema, vamos abordar os conceitos já estudados nesta aula, os quais estavam muito ligados ao átomo de um elétron apenas, ou seja, o H. Nesse sentido, o objetivo é avaliar conceitos e definições que fundamentam a existência dos átomos considerando aqueles que possuem mais de um elétron em sua eletrosfera, os átomos multieletrônicos. Figura 5 – Átomos multieletrônicos Crédito: Nasky/Shutterstock. O conhecimento a respeito das partículas que compõem a matéria vem sendo abordado desde os estudos a respeito dos diferentes modelos atômicos, os quais foram sendo construídos sob o olhar revelado pelos estudos da luz, do calor, do eletromagnetismo e de tantas outras ideias, teorias, experimentos. Até aqui, vimos o comportamento de um único elétron sendo submetido a uma situação de confinamento em condições em parte definidas.11 Tal estudo encaminhou para a percepção das possíveis regiões que formam a eletrosfera de um átomo e da possibilidade de identificar um elétron por meio de um conjunto de números que expressam a possível posição do elétron na eletrosfera, considerando que está em constante movimento e em determinada velocidade. No entanto, a determinação exata de um deles (posição ou velocidade) gera interferência no outro e isso não é favorável para a compreensão dos comportamentos dos átomos em ligações químicas. Verificamos anteriormente que a suposição de confinamento de um elétron pode se dar em três armadilhas diferentes, conforme nos indica Bulgalski e Gabe (2020, p. 104): “armadilha unidimensional: a descrição do elétron nesse caso se dá por meio de apenas um número quântico principal n, além disso, ele terá também o número quântico de spin 𝑚𝑚𝑚𝑚 que pode variar entre ms = +1/2 e ms = –1/2”. No entanto, a presença de mais um elétron no mesmo nível de energia só poderia acontecer se os spins dos elétrons fossem contrários, ou seja, N poderia ser o mesmo, mas um dos elétrons teria ms= +1/2 e o outro ms= –1/2. No caso do curral retangular, “deveremos lembrar que o número quântico n divide-se em duas coordenadas passando a ser escrito em termos de 𝑎𝑎𝑎𝑎 e 𝑎𝑎𝑛𝑛”. (Bugalski; Gabe, 2020, p. 104). Em função disso, os ms continuam na mesma possibilidade (um dos elétrons com spin +1/2 e o outro com Spin –1/2), mas os outros números quânticos serão diferentes. Por fim, como continuam afirmando Bugalski e Gabe (2020, p. 104), no caso da caixa retangular, “a descrição do comportamento eletrônico depende de três números quânticos: 𝑎𝑎𝑎𝑎, 𝑎𝑎𝑛𝑛 𝑒𝑒 𝑎𝑎𝑛𝑛, mais o número quântico 𝑚𝑚𝑚𝑚, sendo 𝑚𝑚𝑚𝑚= +1/2 𝑒𝑒 𝑚𝑚𝑚𝑚 = −1/2”. Ou seja, os números quânticos n (nível de energia), l (subnível de energia) e m (orbital) podem ser iguais, mas o ms (spin) deverá ser diferente. O que se percebe é que, quando um elétron entra em um sistema atômico, ou seja, na eletrosfera de um átomo, a sua tendência é ocupar as posições de menor energia, entendidas como aquelas mais próximas do núcleo. Porém, nem sempre isso acontece, como demonstrou Pauli, ao propor o princípio da exclusão estudado a seguir. No entanto, isso não invalida a ideia de que há princípios que regem a distribuição eletrônica e que, dessa forma, vão se formado os conjuntos de números quânticos possíveis para aquele átomo. Isso ajuda a compreender os processos de combinação dos átomos por meio das ligações químicas, assim 12 como as propriedades de solubilidade, polaridade de moléculas, forças intermoleculares, entre outras. Com base nisso, é possível destacar a importância da forma como os elétrons se distribuem na eletrosfera de um átomo, pois ao compreender os princípios que definem essa distribuição pode-se explicar ou prever as possíveis ligações entre átomos com o mesmo número atômico (do mesmo elemento químico) ou com números atômicos diferentes (de elementos químicos diferentes). A distribuição eletrônica também explica a posição dos elementos na tabela periódica. TEMA 5 – PRINCÍPIO DA EXCLUSÃO DE PAULI Muitas vezes, para compreender a formação de algumas moléculas, é necessário apoiar-se no conhecimento da estrutura da eletrosfera e da distribuição dos elétrons nos níveis, subníveis e orbitais. Porém, é importante destacar a influência do spin do elétron na ocupação dos orbitais de um subnível. Por isso, neste tema vamos estudar os conceitos e as bases teóricas do princípio de exclusão de Pauli, bem como suas consequências. Wolfgang Ernest Pauli foi um físico austríaco que se dedicou ao estudo dos elétrons, de modo especial o spin do elétron. Seus estudos e descobertas foram se encaixando nas pesquisas de Heisenberg, inspirando Dirac e provocando situações de pesquisa. Em 1945, ele recebeu o Prêmio Nobel de Física, sendo indicado por Einstein. Pauli foi uma excelência entre a brilhante escola dos físicos do meio do século XX. Foi reconhecido quando, pouco fora de sua adolescência e ainda estudante, ele publicou uma revisão magistral da teoria da relatividade. Seu princípio de exclusão, que muitas vezes é citado com seu nome, cristalizou o conhecimento existente da estrutura atômica no momento em que foi postulado e levou ao reconhecimento da variável de dois valores necessária para caracterizar o estado de um elétron. Pauli foi o primeiro a reconhecer a existência do neutrino, uma partícula não carregada e sem massa que transporta energia radioativa no decaimento β. (Witchemichen, 2020) 13 Figura 6 – Selo em homenagem a Pauli Crédito: Lefteris Papaulakis/Shutterstock. Saiba mais Se quiser saber um pouco mais sobre tal fato, indicamos acessar os seguintes endereços. • PARANÁ. Secretaria de Educação. Portal Dia a dia Educação. Prêmio Nobel de Física 1941-1960. Disponível em: <http://www.fisica.seed.pr.gov.br/ modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=56>. Acesso em: 7 out. 2020. • UNIOESTE – Universidade Estadual do Centro-Oeste. Programa de Educação Tutorial – PET. Disponível em: <https://www3. unicentro.br/petfisica/quem-somos/apresentacao/>. Acesso em: 7 out. 2020. Talvez já tenhamos nos perguntado como se comportam os elétrons em relação ao spin. Antes disso, é importante saber que, segundo Bugalski e Gabe (2020, p. 105), “Wolfgang Pauli tinha como objetivo descrever o comportamento das partículas que possuem o número quântico de spin semi-inteiro, 𝑚𝑚=12, que se aplica para elétrons, prótons e nêutrons”. O spin confere ao elétron a possibilidade de se comportar como campos magnéticos, o que possibilita apresentarem comportamento de repulsa e atração. Dois elétrons se repelem se possuírem spin com sinais contrários, e se atraem quando os spins possuem sinais diferentes. Isso ocorre porque, quando os sinais forem contrários, possuem campos magnéticos opostos e, portanto, se atraem. 14 De acordo com Jaspersen (2017, p. 321): Quando um feixe de átomos com um número ímpar de elétrons passa por um campo magnético não homogêneo, o feixe se divide em dois, [...] O desdobramento ocorre porque os elétrons no átomo interagem com o campo magnético de duas formas diferentes. Os elétrons se comportam como pequenos ímãs e são atraídos para um dos polos conforme a sua orientação. Isso pode ser explicado imaginando que um elétron gira em torno do seu eixo como um pião. Uma carga em movimento cria um campo elétrico em movimento, que, por sua vez, cria um campo magnético. A carga elétrica girante do elétron cria o seu próprio campo magnético. Esse spin do elétron pode ocorrer em duas direções possíveis, o que explica os dois feixes produzidos. Esse fenômeno é conhecido por Princípio da Exclusão de Pauli e, de forma simples, afirma que “não há dois elétrons em um mesmo átomo com valores idênticos de seus quatro números quânticos” (Jaspersen, 2017, p. 321). Observe a Figura 7 a seguir. Figura 7 – Os átomos mais simples Crédito: Nasky/Shutterstock. Observe que o elemento químico hélio tem dois elétrons no primeiro nível de energia, que é formado por 1 subnível s, com apenas um orbital s. Sendo assim, nele cabem apenas dois elétrons, desde que possuam spins contrários. É importante lembrar que o primeiro elétron terá o conjunto de números quânticos: n = 1, ℓ = 0 e mℓ = 0 e ms = +1/2. O segundo elétron terá n = 1, ℓ = 0 e mℓ = 0 e ms = –1/2. Observe que a única diferença está no ms. Didaticamente, podemos lançar mão da seguinte representação: o orbital e cada elétron ↑ spin +1/2 e ↓ spin: –1/2. Agora, preste atenção na distribuição eletrônica do alumínio. Ele tem 13 elétrons distribuídos em três níveis de energia, conforme se pode ver a seguir. ↑↓ 15 • 1º nível: 2 elétrons no orbital s. • 2º nível: 2 elétrons no subnível s + 6 elétrons no subnível p. • 3º nível: 2 elétrons no subnível s + 1elétron no subnível p . Qual é a importância disso? É saber como se distribuem os elétrons do último nível, pois, por estarem mais distantes do núcleo, serão aqueles que farão as ligações químicas. Outra observação importante é que os elétrons desemparelhados são os mais suscetíveis a realizar ligações químicas. De acordo com a energia do nível eletrônico em que está, com o subnível que ocupa, se está ou não emparelhado (dois elétrons em um mesmo orbital com spins contrários estão emparelhados). Assim, serão desenvolvidos os diferentes tipos de ligações químicas. Saiba mais Recomendamos ler o artigo “Princípio de exclusão de Pauli”. Disponível em: <https://www.ufsm.br/cursos/graduacao/santa-maria/fisica/2020/ 02/27/principio-de-exclusao-de-pauli/>. Acesso em: 7 out. 2020. NA PRÁTICA Você sabe indicar os motivos pelos quais existem os ímãs? É fácil indicar o seu uso no cotidiano, desde o imã que prende objetos decorativos na geladeira até o funcionamento de um alto-falante e dos cartões bancários. A propriedade de atração e repulsão entre campos magnéticos pode ser explicada pela ideia do spin. Adilson de Oliveira, do departamento de física da Universidade de São Carlos, em um artigo para a revista Ciência Hoje, explica: O spin, no caso dos elétrons, quando combinado com o momento angular que essas partículas possuem ao redor do átomo, é responsável pelas propriedades magnéticas da matéria. A interação entre o spin e o momento angular é que faz com que surja o magnetismo da matéria. Materiais magnéticos têm uma infinidade de aplicações – dos ímãs de geladeira para fixarmos os recados que não queremos esquecer aos ímãs utilizados em motores elétricos, passando pelos materiais utilizados para a gravação magnética de informação nos discos rígidos dos computadores. (Oliveira, 2010) O conhecimento da matéria em sua profundidade está resultando no desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao processamento de informações. Tais pesquisas demonstram que os conhecimentos a respeito do spin estão ↑↓ ↑ 16 contribuindo para que sejam construídos processamentos de informações mais rápidos e com menor quantidade de energia. Inaugura-se, assim, a spintrônica, um novo campo de pesquisa e de produção. Saiba mais Caso esse assunto lhe interesse, acesse o artigo de Oliveira (2010) no endereço a seguir. Disponível em: <https://cienciahoje.org.br/coluna/o-spin-que- move-o-mundo/>. Acesso em: 7 out. 2020. FINALIZANDO Nesta aula, estudamos como os princípios da mecânica quântica aplicados aos modelos atômicos ampliaram a visão da estrutura da matéria e também permitiram a formalização de tais conhecimentos por meio da matemática. Assim, desde a ideia de níveis de energia defendidas por Bohr até a compreensão do spin de um elétron, foi possível aprofundar os conhecimentos dos átomos em suas diferenças, as quais definem a diversidade dos elementos químicos e suas propriedades físicas e químicas. Com esse apoio, podemos compreender também as reações químicas, as forças que unem ou afastam átomos e moléculas, modelizando propriedades como a solubilidade, a polaridade das moléculas, o magnetismo, entre outros. 17 REFERÊNCIAS BUGALSKI, L. B.; GABE, D. A. Química quântica. Curitiba: InterSaberes, 2020. HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Volume 4: óptica e física moderna. Tradução Ronaldo Sérgio De Biasi. 10 ed. Rio de Janeiro: LTC, 2018. HOLEN, P. Cap. 39 – Mais ondas de matéria. Slideplayer. Disponível em: <https://slideplayer.com.br/slide/14071669/86/images/19/39.7+armadilhas+bidim ensionais+e+tridimensionais.jpg>. Acesso em: 7 out. 2020. JESPERSEN, N. D. Química: a natureza molecular da matéria. Tradução Oswaldo Esteves Barcia, Edilson Clemente da Silva, Júlio Carlos Afonso. 7. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2017. v. 1. OLIVEIRA, A. de. Ciência Hoje, 19 nov. 2010. Disponível em: <http://cienciahoje.org.br/coluna/o-spin-que-move-o-mundo/>. Acesso em: 7 out. 2020. POSTULADO. In: HOUAISS, A.; VILLAR, M. de S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. WITCHEMICHEN, D. H. Wolfgang Ernst Pauli (1900-1958). Disponível em: <https://www3.unicentro.br/petfisica/2017/07/17/wolfgang-ernst-pauli-1900- 1958/>. Acesso em: 7 out. 2020.