Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

QUAL O SIGNIFICADO DA AVALIAÇÃO DE CRIANÇAS 
NAS CRECHES E PRÉ-ESCOLAS?  
 
Jussara Hoffmann 
1
 
 
 
A discussão da avaliação na Educação Infantil inicia pela 
reflexão sobre o papel das instituições voltadas à educação de 
crianças de zero a seis anos e pela análise das concepções de 
educação e de avaliação vigentes entre os profissionais que aí 
atuam, uma vez que as práticas avaliativas são construídas em 
ação, em um ambiente extremamente plástico e dinâmico, tal 
como se caracteriza o processo de construção de conhecimento 
na primeira infância. 
As crianças aprendem em permanente atividade e sempre 
com grande potencialidade para descobertas e invenções em 
11​Jussara Hoffmann éMestre emEducação pela UFRJ. Atuou comoProfessora                     
da Faculdade de Educação da UFRGS até 1996, dando continuidade à sua                       
carreira como Consultora Educacional de escolas e universidades em todo                   
país. É autora de várias obras sobre Avaliação Educacional e Educação Infantil                       
e Diretora da Editora Mediação em Porto Alegre, especializada em livros para                       
formação de professores.  
 
 
 
todas as áreas de desenvolvimento. Com a mesma rapidez com 
que se desenvolvem, novas capacidades emergem. Essa evolução 
é visível, no dia a dia, por pais e profissionais que convivem com 
elas. Além disso, não há uma criança que apresente 
desenvolvimento similar a outra, mesmo tendo sido criada no 
mesmo ambiente familiar e social. Cada uma delas apresenta 
características únicas, maneiras de agir peculiares que independem 
da sua idade, origem sociocultural, educação na família e outras 
variáveis. 
Ao longo das etapas de seu desenvolvimento, elas revelam 
conquistas e avanços diferentes em relação às várias dimensões da 
aprendizagem. Algumas apresentam, por exemplo, um vocabulário 
desenvolvido e um pleno domínio da oralidade, mas não 
apresentam ainda determinadas habilidades motoras, como correr, 
pular, explorar escorregadores ou balanços, ou o inverso, domínio 
amplo da motricidade, mas dificuldades ainda em termos de fala, 
de controle de esfíncteres e outros. Diferenciam- se também 
dentro da mesma faixa etária, em termos de independência no 
vestir-se, alimentar-se, guardar brinquedos e outras conquistas. 
Dessa forma, é essencial, na Educação Infantil, o acompanhamento 
individual, com o delineamento de objetivos e ações educativas 
voltadas a cada criança, o que é ainda mais relevante quando nos 
referimos a processos educativos com os bebês. 
Decorrente da dinâmica do desenvolvimento infantil, a ação 
educativa, em termos do planejamento e das metodologias, pode 
ser apropriada para uma criança e para outra não, uma vez que os 
2 
 
 
tempos de aprendizagem ocorrem em sequências diferentes, não 
havendo parâmetros homogêneos para se definir o “adequado” 
desenvolvimento infantil. 
Marita Redin (REDIN et al., 2012, p. 36) tece a bela imagem 
de uma pipa ao falar em planejamento da ação educativa para 
crianças pequenas: 
A heterogeneidade das crianças, considerando sua cultura, grupo 
social, gostos, jeitos de viver, é uma realidade a ser considerada 
no planejamento e na prática pedagógica. Como ser flexível para 
soltar a linha do carretel sem que a pipa caia e se espedace ou 
sem que escape pelo infinito? As crianças precisam de afeto, 
vínculos, elos que lhes possibilitem ousar sem perder a confiança 
e a referência. Não existe papagaio/pipa que possa voar se 
estiver amarrado com linhas curtas. 
Avaliar o desenvolvimento infantil exige dos educadores, 
portanto, partir de uma concepção de educação como um projeto 
vivo, flexível, em permanente movimento. Como sugere Redin (in 
op. cit., p. 37), “é permitir-se ousar, errar, acertar, começar 
novamente, voltar atrás, ir adiante, dar voltas... é desenhar, 
inscrever na história a capacidade de maravilhar-se com as 
crianças abrindo caminhos não percorridos”. 
O professor, como mediador, postura para a qual nem 
sempre se encontra preparado, precisa de novas referências 
conceituais em sua formação e para sua atuação, para efetivar um 
processo avaliativo que: 
3 
 
 
 
a) tem por finalidade a promoção de oportunidades de 
aprendizagem adequadas aos interesses e necessidades das 
crianças na faixa etária de zero a seis anos; 
b) baseia-se em uma prática docente reflexiva, transformando 
o professor em um permanente pesquisador e aprendiz do 
desenvolvimento infantil e dos conhecimentos que lhe são 
inerentes. 
 
As crianças não aprendem sozinhas. Aprendem interagindo 
com as pessoas e com os objetos de exploração que estejam 
disponíveis no seu contexto social e educacional. Uma rica 
experiência com objetos, pessoas diferentes, atividades variadas e 
ambientes adequados é uma condição essencial ao seu processo 
de construção de conhecimento. Movimentando-se, vendo, 
ouvindo, explorando, tocando, criando, sentindo, crianças formam 
conceitos e valores, desenvolvem sua linguagem e seu 
vocabulário. Aprendem pela sua interação própria com os objetos 
e com as pessoas, fazendo descobertas individuais. Contudo, cada 
ação vivida por elas, de forma independente, pode ganhar novos 
contornos mentais pela interlocução com adultos ou outras 
crianças que interajam com elas sobre as ações que realizam, 
acompanhando-as em suas brincadeiras e fantasias, conversando, 
complementando suas afirmações, brincando de maneiras 
4 
 
 
diferentes ou provocando-as a fazer algo diferente do que estão a 
fazer. 
A finalidade primeira do processo avaliativo é justamente 
conhecer cada uma das crianças com as quais se atua para 
promover-lhes experiências educativas desafiadoras e 
oportunidades no sentido do melhor desenvolvimento físico, moral 
e intelectual. O papel do professor/avaliador é o de observar cada 
uma em suas ações e manifestações de pensamento, de interpretar 
o significado do que a criança revela em determinado momento e 
conversar, agir, orientar, desafiar a ponto de a criança estabelecer 
novas relações, associações, refletir sobre suas ideias e modos de 
agir, apropriando-se de novos conhecimentos. Alguns 
procedimentos pedagógicos são essenciais à avaliação mediadora: 
– O planejamento de ações educativas com base nas 
possibilidades e interesses das crianças em suas diferentes 
faixas etárias com foco nas múltiplas dimensões da 
aprendizagem. 
 
– A organização de um ambiente educativo e de situações de 
aprendizagem que tenham por foco uma criança 
permanentemente ativa, curiosa e inventiva. 
 
– O estabelecimento de um cenário educativo propício a 
múltiplas interações criança-criança e adultos-crianças. 
 
5 
 
 
– A proposição de atividades ou situações de aprendizagem 
intencionalmente provocativas e reflexivas. 
 
– A observação e o acompanhamento individualizado das 
crianças, com registros permanentes que constituam 
referências significativas para a continuidade do seu 
processo educativo. 
Em relação à avaliação vigente na Educação Infantil, as 
pesquisas apontam para a dificuldade de as escolas atenderem aos 
princípios até então delineados, libertando-se dos modelos 
classificatórios que ainda prevalecem nos graus maisavançados de 
ensino e que intentam a seleção e a exclusão. Há um modelo de 
criança almejado que deve ser seguido e alcançado em tempo e 
ritmo determinados. Assim, uma avaliação em respeito à 
diversidade, às diferenças das crianças, ao seu tempo e jeito de 
aprender, que faz parte de muitos documentos e normas 
educacionais das instituições de Educação Infantil, não ultrapassa o 
discurso. Sobre essa questão, comenta Elisandra Girardelli Godoi 
(2010, p. 41): 
A avaliação, da maneira como aparece, acaba se tornando um 
instrumento forte e presente nesse momento da educação, 
podendo trazer consequências negativas às crianças. Não 
queremos uma avaliação classificatória e seletiva na Educação 
Infantil, pelo contrário, almejamos uma avaliação que auxilie o 
6 
 
 
trabalho do professor e que favoreça o crescimento da criança e 
não a sua exclusão. 
Qual a dificuldade de se avançar em termos de uma avaliação 
mediadora nas instituições educacionais? 
 
Na concepção mediadora, avaliar é acompanhar um             
percurso de vida de uma criança, durante o qual ocorrem                   
mudanças em múltiplas dimensões, com a intenção de favorecer                 
o máximo possível o seu desenvolvimento.  
O que se entende por acompanhar? O “Dicionário da 
Academia Brasileira de Letras” (2008, p. 97) define o termo 
acompanhar como “1. Fazer companhia a, ir junto a; seguir. 2. 
Seguir com o pensamento, a atenção, o sentimento”. 
Quando se pergunta a professores iniciantes na Educação 
Infantil sobre seus procedimentos avaliativos, muitos dizem que 
avaliar é “acompanhar as crianças” todos os dias, observá-las em 
vários momentos do processo. E em sua maioria, esses professores 
estão, de fato, junto a elas, observando-as, acompanhando suas 
ações, fazendo -lhes companhia, conversando e brincando com 
elas, bem como realizando muitos cuidados necessários. 
Contudo é preciso atentar à segunda definição do 
dicionário: acompanhar é “seguir com o pensamento, a atenção, o 
sentimento”. Acompanhar as crianças, segundo tal definição, é 
muito mais complexo do que fazer companhia ou estar junto delas. 
Seguir em pensamento significa permanecer atento às 
7 
 
 
manifestações de cada uma, refletindo sobre suas ações e reações, 
“sentindo”, percebendo seus diferentes jeitos de ser e de aprender, 
respeitando-as em suas particularidades, em sua singularidade. 
É importante ressaltar, então, que o processo avaliativo na 
Educação Infantil, devido à forte influência da concepção 
classificatória ainda vigente na maioria das instituições de ensino, 
pode significar “acompanhar” as crianças apenas no sentido de 
estar junto a elas, observando suas ações e colecionando 
desenhos, trabalhos realizados, registros do seu trabalho. Quando 
os professores não têm clareza da finalidade dessa observação 
continuada, acabam realizando-a para cumprir procedimentos 
burocráticos ao final de determinados períodos, registrando e 
relatando dados observados do desempenho de cada criança e 
analisando-os a partir de parâmetros de julgamento, na maioria 
das vezes comparativos e classificatórios. 
Para que se proceda a uma prática avaliativa mediadora, é 
preciso avançar sobre o significado do termo “acompanhar” como 
“segui-las com o pensamento, a atenção, o sentimento”. Ou seja, 
observar para conhecer e compreender cada uma das crianças, 
suas necessidades próprias, seus interesses, seus momentos de 
vida, dando-lhes atenção, refletindo sobre o que se observa de 
cada uma e efetivando um fazer pedagógico sensível e reflexivo 
(HOFFMANN, 2014). 
Essa não é uma tarefa simples para professores iniciantes, 
uma vez que precisam de um olhar avaliativo que contemple a 
diversidade do contexto de uma sala de aula com crianças de zero 
8 
 
 
a seis anos de idade que apresentam, de um dia para outro, dado o 
ritmo acelerado do seu crescimento, comportamentos, hábitos e 
jeitos de ser muito diferentes. Além disso, crianças na faixa etária 
de zero a quatro anos ainda não se expressam claramente, têm um 
ritmo intenso de exploração do ambiente e precisam de cuidados 
constantes e uma atenção particular dos adultos. 
A avaliação compromete, assim, subjetivamente o 
professor, que, em meio a atribuições de cuidar da alimentação, do 
sono, da higiene, de organizar as situações de aprendizagem e 
muitas outras incumbências, precisa interpretar reações e 
manifestações dessas crianças e promover ações pedagógicas 
adequadas ao seu desenvolvimento. Ele não irá atingir essa 
finalidade se não se apropriar de um profundo conhecimento 
acerca do desenvolvimento infantil, se não houver seu 
conhecimento pedagógico em relação a várias áreas de 
conhecimento (linguagem, artes, matemática, ciências, etc.) e das 
questões afetivas, dispondo dessa bagagem teórica no dia a dia da 
ação pedagógica. 
O ciclo de um processo avaliativo mediador envolve 
observação – reflexão – ação pedagógica, seguindo novamente 
para a observação – reflexão – ação pedagógica, numa 
circularidade ininterrupta (HOFFMANN, 2011a). A observação do 
aprendiz, de suas ações e manifestações ao realizar uma 
determinada atividade ou em algum momento do dia, é apenas 
uma das etapas desse ciclo. 
9 
 
 
Não há ação educativa que possa ser mais adequada do que 
aquela que tenha na observação da criança a base para o seu 
planejamento. É isso o que permite ao adulto programar e atuar, 
tomando como base a tensão criativa entre uma perspectiva 
curricular teoricamente sustentada e um conhecimento real dos 
interesses, das necessidades, das competências e das 
possibilidades das crianças (ZABALZA (1998, p. 148). 
 
Deve-se alertar que observar é essencial ao processo para 
se conhecer cada uma das crianças com as quais se trabalha, 
registrando ações realizadas e suas manifestações. Entretanto não 
se pode denominar de “avaliação” apenas a observação e o 
registro. Isto é, o processo avaliativo envolve necessariamente a 
reflexão crítica sobre o que se observou e a ação pedagógica 
decorrente de apoio ao aprendiz, sendo esta a finalidade essencial 
da avaliação mediadora na creche e na pré-escola. 
 
 
Referências 
ACOMPANHAR. In: ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. ​Dicionário escolar da 
língua portuguesa​. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. p. 97. 
GODOI, E. G. ​Avaliação na Educação Infantil​: um encontro com a realidade. 3. 
ed. Porto Alegre: Mediação, 2010. 
10 
 
 
HOFFMANN, J. ​Avaliação e Educação Infantil​: um olhar sensível e reflexivo 
sobre a criança. 18. ed. Porto Alegre: Mediação, 2012. 
_____. ​Avaliar para promover​: as setas do caminho. 14. ed. Porto Alegre: 
Mediação, 2011a. 
HOFFMANN, J.; GOMES DA SILVA, M. B. Apresentação. In: REDIN, M. M. et al. 
Planejamento, projetos e práticas pedagógicas na Educação Infantil. Porto 
Alegre: Mediação, 2012. 
PIAGET, J. ​Abstração reflexionante​: relações lógico-aritméticas e ordem das 
relações espaciais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. 
VALSINER, J. Culture in minds and societies​: foundations of cultural psychology. 
New Delhi: Sage, 2007. 
VYGOTSKY,​ ​L. S. ​Obras escogidas.​ Madrid: Visor Distribuciones, 1991. 3 v. 
ZABALZA, M. A. ​A qualidade em Educação Infantil.​Porto Alegre: Artmed, 1998. 
 
 
11

Mais conteúdos dessa disciplina