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TCC---Poliana-Rafaela-Saturno-Alves

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Prévia do material em texto

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE 
CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS 
DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL 
 
 
 
 
 
 
POLIANA RAFAELA SATURNO ALVES 
 
 
 
 
 
 
 
O ABANDONO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES: uma análise da violação de 
direitos evidenciada pelo Serviço Especializado em Abordagem Social – 
SEAS/SEMTAS na cidade de Natal/RN e as contribuições do Serviço Social neste 
espaço. 
 
 
 
 
 
 
 
 
NATAL/RN 
2022 
 
POLIANA RAFAELA SATURNO ALVES 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O ABANDONO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES: uma análise da violação de 
direitos evidenciada pelo Serviço Especializado em Abordagem Social – 
SEAS/SEMTAS na cidade de Natal/RN e as contribuições do Serviço Social neste 
espaço. 
 
 
 
 
 
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado 
como requisito para obtenção do título de 
bacharel em Serviço Social pela Universidade 
Federal do Rio Grande do Norte. 
 
Orientador: Prof. Dr. Marcelo Braz Moraes dos 
Reis 
 
 
 
 
 
 
NATAL/RN 
2022 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
POLIANA RAFAELA SATURNO ALVES 
 
 
 
 
O ABANDONO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES: uma análise da violação de 
direitos evidenciada pelo Serviço Especializado em Abordagem Social – 
SEAS/SEMTAS na cidade de Natal/RN e as contribuições do Serviço Social neste 
espaço. 
 
 
 
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado 
como requisito para obtenção do título de 
bacharel em Serviço Social pela Universidade 
Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. 
 
 
Aprovado em: _____/_____/_____ 
 
 
BANCA EXAMINADORA 
 
___________________________________________ 
Prof. Dr. Marcelo Braz Moraes dos Reis 
Orientador 
 
___________________________________________ 
Prof.ª Dr.ª Silvana Mara de Morais dos Santos (membro interno – DESSO) 
 
______________________________________________________ 
Prof.ª Ana Karoline Nogueira de Souza (membro interno – DESSO) 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 Para todos que estiveram comigo e contribuíram para que eu conseguisse 
concluir esta caminhada tão importante para minha formação profissional e humana, 
meus mais sinceros agradecimentos. 
 Primeiramente, quero agradecer a Deus e a Nossa Senhora por eu estar 
alcançando esta conclusão, agradeço por serem minha fortaleza nos momentos de 
dúvidas e aflições, e serem grande parte da minha gratidão nos momentos de alegria. 
 Agradeço a minha família, avós, tios, tias, primas e primos, por todo apoio no 
decorrer da minha jornada acadêmica, em especial aos meus pais, Edileuza e 
Rosemberg que sempre acreditaram no meu sucesso e fazem de tudo pela minha 
felicidade, essa vitória é tão deles, quanto minha. Também quero agradecer ao meu 
irmão Rafael, pelo apoio, principalmente, quando ia me buscar depois das aulas ou 
quando eu precisava tirar alguma dúvida sobre a Universidade. 
 Agradeço também ao meu namorado Vinícius, por estar comigo em todas as 
alegrias e inquietações desta graduação, escutando minhas conversas e 
reclamações, me apoiando em todos os momentos e dizendo sempre que tem orgulho 
de mim. 
 Agradeço, imensamente, aos meus dois orientadores na construção desta 
monografia. A professora Mônica Calixto, que me apoiou e orientou na fundamentação 
deste estudo, muito obrigada por todos os incentivos e indicações nesta produção, a 
senhora foi primordial para os primeiros passos desta pesquisa. E ao professor 
Marcelo Braz, por assumir esse desafio novo de me orientar no meio caminho, muito 
obrigada pela sua acolhida, direcionamentos e motivações, foram essenciais na 
conclusão deste estudo. 
 Agradeço as minhas amigas e colegas da graduação, especialmente, Anna 
Beatrice, Isabela, Jéssica, Katyvânia, Carla Júlia e Ariadnny, pessoas maravilhosas 
que quero levar para minha vida. Muito obrigada por estarem sempre comigo nesta 
caminhada, dividindo todos os êxitos e aflições da nossa jornada acadêmica. 
 Meus agradecimentos também se estendem aos profissionais do SEAS, que 
me acolheram e deram todo apoio necessário na construção desta pesquisa, a 
abertura e auxílio de vocês foi essencial. 
 
 Meu muito obrigada a todos os profissionais que fazem parte da UFRN, em 
especial, do Departamento de Serviço Social que dão todo apoio e incentivo para seus 
alunos, agradeço por todo ensinamento e suporte ao longo desta graduação. 
 Por fim, são muitos agradecimentos para aqueles que estiveram comigo nesta 
caminhada e espero não ter esquecido ninguém. Enfim, sou grata a todos, que de 
alguma forma, contribuíram para essa conquista. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
RESUMO 
 
O presente estudo, trata-se de um trabalho monográfico que almeja analisar o 
abandono de crianças e adolescentes através de uma reflexão sobre os direitos 
desses sujeitos promulgados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA e no 
entendimento do Estado como grande viabilizador dessas garantias e mediador das 
condições necessárias para que elas se concretizem na vida da infância e juventude, 
sobretudo crianças e adolescentes em situação de pobreza. Para a construção desse 
estudo, faremos uma análise sobre aspectos sócio-históricos iminentes dessa questão 
e por fim um recorte das expressões da temática em foco na Cidade de Natal, capital 
do Rio Grande do Norte, mediante os dados apresentados pelo Serviço Especializado 
em Abordagem Social – SEAS e pelo Plano Municipal de Assistência Social (2022 – 
2025), trazendo também a inserção do Serviço Social na conjuntura apontada. 
 
Palavras-chaves: Violação de direitos. Criança. Adolescente. ECA. Questão Social. 
SEAS. Serviço Social. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ABSTRACT 
 
The present study is a monographic work that aims to analyze the abandonment of 
children and adolescents, through a reflection on the rights of these subjects enacted 
by the Child and Adolescent Statute - ECA and in the understanding of the State as a 
great enabler of these guarantees and mediator of the necessary conditions for them 
to materialize in the life of childhood and youth, above all, children and adolescents in 
poverty. For the construction of this study, we will analyze the imminent socio-historical 
aspects of this issue and, finally, a cut of the expressions of the problematic in focus, 
in the City of Natal, capital of Rio Grande do Norte, through the data presented by the 
Specialized Service in Approach Social - SSAS and the Municipal Social Assistance 
Plan (2022 - 2025), also bringing the insertion of Social Service in the indicated 
conjuncture. 
 
Keywords: Violation of rights. Child. Adolescent. ECA. Social Question. SEAS. Social 
Work. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS 
 
CDC Convenção sobre os Direitos da Criança 
CE Código de Ética do/a Assistente Social 
CFESS Conselho Federal de Serviço Social 
CIOSP Centro Integrado de Operações de Segurança Pública 
CMAS Conselho Municipal de Assistência Social 
CNAS Conselho Nacional de Assistência Social 
COMDICA Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente 
CONANDA Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente 
CREAS Centro de Referência Especializado de Assistência Social 
CRESS Conselho Regional de Serviço Social 
DNCr Departamento Nacional da Criança 
DPSE Departamento de Proteção Social Especial 
ECA Estatuto da Criança e do Adolescente 
FEBEMs Fundações Estaduais do Bem-Estar do Menor 
FNCA Fundo Nacional para Criança e Adolescente 
FUNABEM Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor 
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 
IQV Índice de Qualidade de Vida Humana 
MNMMR Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua 
MSI Modelo de Substituição de Importações 
NOB/SUAS Norma Operacional Básica 
ONGS Organizações Não GovernamentaisONU Organização das Nações Unidas 
PAEFI Serviço de Proteção e Atendimento Especializado as Famílias e 
Indivíduos 
PAIF Proteção e Atendimento Integral a Família 
PETI Programa de Erradicação do Trabalho Infantil 
PNAS Política Nacional de Assistência Social 
SAM Serviço de Assistência ao Menor 
SAMU Serviço de Atendimento Móvel de Urgência 
SEAS Serviço Especializado em Abordagem Social 
SEMTAS Secretaria Municipal do Trabalho e Assistência Social 
SGD Sistema de Garantia de Direitos 
SOS Serviço de Obras Sociais 
SUAS Sistema Único de Assistência Social 
UNICEF Fundo das Nações Unidas para Infância 
UPA Unidade de Pronto Atendimento 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE TABELAS 
 
Tabela 1 – Quantidade e perfil das crianças e adolescentes abordados pela equipe 
do SEAS .................................................................................................................... 72 
Tabela 2 – Tipos de violações identificas na abordagem aos usuários .................... 72 
Tabela 3 – Tipos de trabalho infantil identificados na abordagem aos usuários ...... 73 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 13 
2. RAÍZES SOCIO-HISTÓRICAS DO ABANDONO: OS DETERMINANTES 
ESTRUTURAIS QUE INCIDEM NA QUESTÃO .................................................. 16 
2.1. OS POSICIONAMENTOS ASSUMIDOS PELO ESTADO NO 
ENFRENTAMENTO DESSA QUESTÃO ...................................................... 16 
2.2. OFENSIVAS NEOLIBERAIS: OS ATAQUES AOS DIREITOS SOCIAIS, A 
ESTIGMATIZAÇÃO DA POBREZA E A REDUÇÃO DO ESTADO ............... 28 
3. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE: CRIANÇAS E 
ADOLESCENTES COMO SUJEITOS DE DIREITOS ........................................ 41 
3.1. A CONSTRUÇÃO DA DOUTRINA DA PROTEÇÃO INTEGRAL: A LUTA DOS 
MOVIMENTOS SOCIAIS DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
E OS AVANÇOS ADVINDOS DESTA CONCEPÇÃO .................................. 41 
3.2. CONCRETIZAÇÃO E EFETIVIDADE DOS DIRECIONAMENTOS 
DISPOSTOS NO ECA: A FRAGMENTAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS 
PARA A INFÂNCIA E JUVENTUDE E A FRAGILIZAÇÃO DA REDE DE 
PROTEÇÃO ................................................................................................. 50 
4. O SERVIÇO ESPECIALIZADO EM ABORDAGEM SOCIAL – SEAS E AS 
CONTRIBUIÇÕES DO SERVIÇO SOCIAL NESTE ESPAÇO .......................... 59 
4.1. O SEAS NA POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL NO BRASIL: A POLÍTICA 
NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL – PNAS, O SISTEMA ÚNICO DE 
ASSISTÊNCIA SOCIAL – SUAS E A TIPIFICAÇÃO NACIONAL DOS 
SERVIÇOS SOCIOASSISTENCIAIS ........................................................... 59 
4.2. CARACTERIZAÇÃO DO SEAS: RECORTE DAS CONDIÇÕES DE 
FUNCIONAMENTO DO SERVIÇO EM NATAL/RN E A ANÁLISE DOS DADOS 
APRESENTADOS ........................................................................................ 67 
4.3. A INSERÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL NO SEAS: POTENCIALIDADES E 
DESAFIOS PROFISSIONAIS....................................................................... 79 
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................. 86 
REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 89 
 
13 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
O abandono constitui uma forma extrema de violação dos direitos da criança e 
do adolescente, expressando a face cruel da negligência e da irresponsabilidade para 
com aqueles, que colocados como sujeitos direitos, devem ter por garantia o pleno 
“desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência”, como bem 
colocado no art. 7 do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (BRASIL, 2019). 
Para Menegueti e Silva (2018), a história do cuidado com crianças e adolescentes no 
Brasil é fortemente marcada pelo descaso no trato de um fenômeno que se manifesta 
amplamente em diversos aspectos, sejam eles materiais, sociais ou afetivos. 
Quando tratamos do abandono de crianças e adolescentes, em primeira 
impressão, pode-se entender que a situação envolve somente esses sujeitos e seus 
responsáveis legais, entretanto no contexto que almejamos estudar nesta monografia, 
analisamos uma conjuntura mais ampla deste abandono, quando nos afastamos da 
responsabilização unicamente da família e passamos a enxergar que esse núcleo, em 
certos cenários, também está abandonado. E quando tratamos desses cenários 
estamos, justamente, falando das expressões da questão social que violam os direitos 
de crianças e adolescentes, bem como de suas famílias. 
Com isso, buscamos entender o papel do Estado nessa conjunção, visto que a 
instituição estatal como grande viabilizadora dos direitos através das políticas 
públicas, deveria estar no enfrentamento massivo das manifestações da pobreza e da 
desigualdade social. Porém, o que observamos na atualidade e no decurso da história, 
é a reprodução dessa questão que envolve diversas dimensões da vida. 
Afinal, apesar de termos uma legislação tão avançada como Estatuto da 
Criança e do Adolescente – ECA, averiguamos que na realidade da infância e 
juventude pobre, o ECA não consegue atingir a concretude necessária para que as 
violações não aconteçam. Dessa forma, as transgressões de direitos continuam a 
crescer significativamente, em meio a redução do Estado em suas responsabilidades 
e guiado pelo fortalecimento do ideário neoliberal, que ganha cada vez mais espaço 
na atualidade. 
São nessas condições que procuramos analisar o abandono de crianças e 
adolescentes, refletindo sobre os direitos desses sujeitos e o comprometimento do 
Estado na materialidade dessas garantias, mediante a situação evidenciada pelos 
14 
 
dados quanto esta questão, no recorte da cidade de Natal/RN. A partir das 
ponderações, procuramos analisar criticamente o posicionamento do Estado, os 
avanços e retrocessos das legislações e a inserção do Serviço Social no 
enfrentamento dessa expressão da questão social, no âmbito do Serviço 
Especializado em Abordagem Social – SEAS. 
O estudo está estruturalmente é formado por esta introdução, onde podemos 
refletir previamente sobre as análises empreendidas do decorrer desta pesquisa. Os 
seus capítulos estão organizados a partir das condições gerais que incidem nesta 
questão, para chegar as situações mais particulares que envolvem o contexto 
estudado. 
Inicialmente, o capitulo 2 comtempla um pequeno apanhado histórico sobre as 
principais formas de intervenção nessa problemática ao longo do tempo, bem como a 
caracterização do campo de avanço neoliberal onde a Constituição Federal e o 
Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA são criados. O Capitulo 3 concebe 
reflexões mais especificas sobre o ECA, passando pelos determinantes que levaram 
a sua construção até os aspectos que refletem sua efetividade. O último capitulo faz 
o recorte do Serviço Especializado em Abordagem Social – SEAS e da violação de 
direitos evidenciada em Natal/RN, assim como a atuação do Serviço Social no espaço 
do SEAS. 
 Esta monografia teve como objetivo analisar o abandono de crianças e 
adolescentes através dos indicativos apresentados pelo SEAS, através da pesquisa 
qualitativa dos dados quantitativos, documentais e institucionais, do mapeamento da 
incidência dos casos de violação de direitos e na análise dos desmontes e as 
limitações das políticas públicas, que influem diretamente na recorrência dos casos 
de violação. 
O interesse pelo tema surgiu durante a construção do Projeto de Pesquisa e do 
Artigo para as disciplinas de Pesquisa em Serviço Social I e II, no 4º e 5º período desta 
graduação, cursadas em 2020.1 e 2020.2. O referido trabalho se propôs a conhecer 
a realidade do abandono de crianças e adolescentes em Natal/RN, mediante a 
atuação do Serviço Sociale do Conselho Tutelar frente a essa questão. No decorrer 
deste estudo, pude desenvolver um olhar crítico quanto ao conceito de abandono, 
afastando a responsabilização e culpabilização da família, para delegar ao Estado a 
atenção e o cuidado com a infância e juventude, bem como com tudo que os rodeia, 
15 
 
a família, a comunidade, a escola, o ambiente onde vivem, entre outros elementos da 
vida. 
A perspectiva de construir um estudo tendo como base o SEAS aflorou a partir 
do diálogo com os conselheiros tutelares e assistentes sociais que atuam nesta 
realidade. Eles apontaram que o abandono das crianças ou adolescentes por seus 
familiares não era tão comum, na verdade a conjuntura envolvia uma ampla 
desresponsabilização do Estado para com a vida desses sujeitos, em suas 
intervenções focalizadas e insuficientes. Diante disso, um conselheiro tutelar indicou 
o SEAS, para que pudesse me aprofundar mais sobre as violações evidenciadas em 
Natal. 
 Com o intuito de refletir criticamente sobre essas adversidades, foi utilizado o 
método o crítico-dialético, considerando que através desta perspectiva de estudo foi 
possível ponderar sobre as condições materiais, históricas e inerentes as contradições 
do sistema capitalista que incidem sob este objeto de estudo: o abandono das crianças 
e adolescentes. Tendo também como parâmetros os dados disponibilizados pelo 
SEAS referentes aos atendimentos realizados em Natal/RN no ano de 2021. 
 Além disso ainda foi realizada a relação deste relatório com os indicadores 
apontados pelo Plano Municipal de Assistência Social (2022-2025), que está 
disponível no site da Prefeitura de Natal. É relevante ressaltar que também foi feita 
uma breve observação das atividades desempenhadas pelos profissionais do SEAS 
no contato com os usuários. A circulação com uma das equipes, foi solicitada via ofício 
emitido pela UFRN e autorizada pela Secretaria Municipal do Trabalho e Assistência 
Social – SEMTAS e pela coordenação do SEAS. Esta observação foi essencial para 
construção da seção 4.3 desta monografia, que versa sobre a atuação das/os 
assistentes sociais no SEAS. 
 Dentro dessas aspirações, almejamos ampliar o entendimento sobre este 
objeto e constituir novas reflexões, que venham contribuir, principalmente, com o 
estudo desta questão na cidade de Natal/RN, considerando as particularidades desta 
sequela da questão social na capital do Rio Grande do Norte. 
 
 
 
 
 
16 
 
2. RAÍZES SOCIO-HISTÓRICAS DO ABANDONO: OS DETERMINANTES 
ESTRUTURAIS QUE INCIDEM NA QUESTÃO 
 
2.1 OS POSICIONAMENTOS ASSUMIDOS PELO ESTADO NO ENFRENTAMENTO 
DESSA QUESTÃO 
 
Ao considerarmos a infância e juventude no Brasil, constatamos que no 
decorrer da história o tema foi tratado de diversas formas. Para se compreender o 
desenrolar desse enredo é imprescindível analisarmos o lugar ocupado pelas crianças 
e adolescentes ao longo do tempo. Principalmente, para entendermos quais os 
posicionamentos assumidos pelo Estado frente as violações sofridas historicamente 
por esses indivíduos. 
O eixo central desse contexto é a infância pobre, condição imputada aqueles 
que não se enquadram na ética capitalista e permanecem à margem da sociedade, 
ameaçando a formação de “homens de bem” para a reprodução do sistema de 
trabalho do capital. Este problema diagnosticado como gravíssimo e associado a 
pobreza e a vulnerabilidade, em certos períodos foi enfrentado mediante as ações 
filantrópicas e beneméritas, enquanto em outros com propostas sérias de distribuição 
de renda, educação e saúde (RIZZINI; PILOTTI, 2011). 
Assim, apesar dos avanços, as intervenções historicamente formuladas através 
de diagnósticos, leis e instituições objetivando protege-los, ainda não se é capaz de 
garantir condições dignas de vida e pleno desenvolvimento a todas as crianças e 
adolescentes. 
De acordo com Rizzini e Pilotti (2011, p. 15): 
O desenrolar dessa história, ainda muito pouco conhecida em nosso país, 
precisava ser pesquisado, ordenado, interpretado e escoimado das 
impressões enganosas, que sugerem uma longa caminhada, quando, na 
verdade, quase não se saiu do mesmo lugar de origem. 
 
Com isso não se invalida os avanços conquistados, mas se entende que dentro 
da lógica capitalista a concretude dessas garantias é constantemente ameaçada 
quando se valoriza o crescimento econômico em detrimento do desenvolvimento 
social. Dessa forma, a manutenção das desigualdades se perpetua impedindo o 
acesso de crianças e adolescentes a dignidade e cidadania que deveriam está 
17 
 
assegurada pelos seus direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente – 
ECA. 
Entre progressos e retrocessos, é necessário analisarmos essa dimensão do 
abandono de crianças e adolescentes, através dos papeis assumidos pelo Estado no 
enfrentamento dessa questão, considerando-a como uma sequela da questão social 
que nasce intrínseca as raízes da sociedade brasileira e ao tratamento dado a pobreza 
neste país1. Como bem colocado por Rizzini e Pilotti (2011. p.17) “No Brasil, a história 
mostra que foram muitas as mãos por que passaram tais crianças. A retrospectiva 
dessa história contém, certamente, valiosos ensinamentos para o presente...” 
Para reflexão desde ponto, podemos partir da seguinte afirmação de Licia 
Valares (2011, p. 19), externada no prefácio da obra “O século perdido: raízes 
Históricas das Políticas Públicas para Infância no Brasil” de Irene Rizzni (2011): 
A maior parte da literatura sempre foi marcada pelo tom da denúncia e pela 
discussão da violência tout court2 da sociedade sobre o “menor”. Nada de 
estranhar em um país onde sempre predominaram práticas impiedosas 
contra crianças pobres: desde o adestramento físico e mental a que foram 
submetidas as crianças indígenas pelos jesuítas, passando pela 
discriminação racial da adoção de “enjeitados” na época colonial, pelo 
infanticídio disfarçado pela Roda dos Expostos, pelo trabalho quase forçado 
e sem proteção de crianças no mundo fabril (século XIX) e, mais 
recentemente, pela estigmatização da criança pobre em “menor”, em 
“pequeno bandido”, em “menor institucionalizado” com chance de se tornar 
um dia vítima do extermínio em uma rua ou praça de uma grande cidade. 
 
Desse modo, diante do exposto podemos contextualizar os determinantes que 
incidem nessa questão, mediante a análise das principais formas de intervenção 
assumidas em dados momentos históricos, dando uma ênfase maior a infância. Tais 
intervenções, diversas vezes assumidas por outros extratos sociais, revelando a 
desresponsabilização do Estado. No decorrer do tempo, esses indivíduos foram 
deixando de “ser objeto de interesse, preocupação e ação no âmbito privado da família 
e da igreja para torna-se uma questão de cunho social, de competência administrativa 
do Estado”, como elucida Rizzini (2011, p. 23). 
No período colonial, a assistência à infância era guiada pelas ordens de 
Portugal, em um cenário de relação amigável entre o Estado e a Igreja. Os padres 
 
1 De acordo com Ianni (apud SOUZA; SARMENTO, 2009) a história do Brasil é fortemente marcada 
pela “naturalização” da questão social, expressada pelo amplo processo de criminalização que atinge 
os grupos e classes sociais subalternas, um decurso assinalado, sobretudo, por atitudes punitivas e 
repressivas contra essa população. 
2 A expressão francesa significa: sem mais nada, simplesmente (Dicionário informal). Com isso a autora 
busca explicitar que a violência contra a criança pobre é facilmente reproduzida pela sociedade sem 
maiores motivos ou acontecimentos, infelizmente, funciona como algo que já está naturalizado. 
18 
 
Jesuítas seguiam duplamente o objetivo de converter e transformar em doceis súditos 
do Estado, as crianças ameríndias catequizadas, almejando a partir desse contato 
doutrinar também os adultos dentro das estruturassociais e culturais (RIZZINI; 
PILOTTI, 2011). 
Dessa maneira, as crianças indígenas eram aculturadas, como uma espécie de 
domesticação pela educação jesuíta. Anos mais tarde, com a proibição da 
escravização do povo indígena, os Jesuítas foram expulsos e com isso houve o 
advento de novas formas de exploração da terra e extração de matérias da natureza, 
agora com a utilização de mão-de-obra escrava sequestrada do continente africano. 
Nesse contexto, podemos destacar os maus tratos e abusos cometidos contra as 
crianças negras, separadas de suas famílias através da Lei do Ventre Livre 3 
(FÁVERO; PINI; SILVA, 2020). 
A Lei também previa a seguinte condição, a criança poderia permanecer em 
posse do senhor de engenho, tendo os senhores a opção de “cuida-los” até os 14 
anos, após essa idade o suposto tutor tinha direito a um ressarcimento por aqueles 
cuidados, sendo pago pelo então adolescente, até seus 21 anos ou por indenização 
do Estado. Outro agravante é que essas crianças morriam facilmente, em razão das 
inúmeras violações que sofriam desde de seu nascimento, já que até suas mães eram 
alugadas com amas de leite para amamentar os filhos reconhecidos dos senhores 
(RIZZINI; PILOTTI, 2011). 
Rizzini e Pilotti (2011) também destacam que o abandono de crianças, no geral, 
era uma realidade habitual até meados do século XIX, mesmo em nações vistas como 
civilizadas. Durante o Brasil colônia, a Igreja Católica também se encarregou de criar 
casas de recolhimento dos expostos, mas estando em condições precárias essas 
instituições não eram capazes de atender a todos. Assim, esse “cuidado” também 
ficava a cargo da Câmara de Misericórdia ou de famílias ricas (SIMÕES, 2007). 
Um marco significativo desse período foi a criação da roda dos expostos que 
visava conter o grande número de crianças abandonadas, principalmente, após a 
“abolição” da escravidão, como afirma Simões (2007, p. 203): 
Esse cenário agravou-se com a abolição da escravatura e a formação do 
capitalismo industrial, que não se capacitava a absorver essa mão-de-obra. 
 
3 “Para as crianças filhas de mulheres e homens trabalhadores escravizados, nem mesmo a educação 
domestica dos jesuítas era oferecida. O status advindo da Lei do Ventre Livre (28/09/1871), que 
considerava alforriadas as crianças nascidas a partir daquela data, serviu para apartar muitos bebês 
negros de suas mães, pois aos senhores de escravos já não interessava o sustento dessa prole” 
(LANFRANCHI, 2020, p.157). 
19 
 
Milhares de ex-escravos, expulsos das fazendas, aglomeravam-se nas 
periferias das cidades maiores, aparecendo as primeiras favelas. 
 
O instrumento além de contribuir para estigmatização desses sujeitos, também 
correspondia a um produto dos costumes conservadores da época, uma vez que, 
aliado a religião, buscava a preservação da ordem familiar e da moral, “cuidando” do 
grande número de crianças advindas de relações extramatrimoniais e ilegítimas 
(SANTOS, 2010). 
Segundo Rizzini e Pilotti (2011), a moral cristã dominante era rigorosa em não 
aceitar filhos advindos de relações extramatrimoniais e estas crianças, por 
consequência, estavam fadadas ao abandono. Outro agravante era a pobreza, muitas 
crianças eram deixadas em lugares públicos, nas igrejas ou na porta das casas. 
Diante da questão, a Santa Casa de Misericórdia criou o sistema de rodas, que 
consistiam em uma estrutura giratória instalada na parede, possibilitando que a 
criança fosse colocada para dentro da casa ou instituição, sem que se pudesse 
identificar quem a deixou. Destaca-se que as rodas do Rio de Janeiro e São Paulo 
foram abolidas, respectivamente, em 1935 e 1948, entretanto o sistema já havia 
acabado formalmente desde 1927. 
Rizzini e Pilotti (2011, p.19) também colocam que: 
As crianças enjeitadas nas Rodas eram alimentadas por amas-de-leite 
alugadas e também entregues as famílias, mediante pequenas pensões. Em 
geral, a assistência prestada pela Casa dos Expostos4 perdurava em torno 
de sete anos. A partir daí, a criança ficava, como qualquer outro órfão, à 
mercê da determinação do juiz, que decidia sobre seu destino de acordo com 
os interesses de quem quisesse manter. Era comum que fossem utilizadas 
para o trabalho desde pequenas. 
 
A ausência do Estado fortalecia as ações assistencialistas das elites, em um 
cenário de condições precárias de existência aliada ao crescimento urbano 
desordenado, guiado pela perspectiva de higiene social que afastava a população 
pobre dos grandes centros, a fim de esconder as mazelas da sociedade. Como afirma 
Fenelon (1999), nessa conjuntura, as políticas médico-higienistas 5 encontravam 
 
4 A exemplo da cidade de São Paulo, a Casa do Expostos foi criada em 1895, mediante um ato 
consignado nas atas da administração da Irmandade da Santa Casa, em razão do aumento significativo 
de crianças abandonadas atendidas pela roda e para suprir a proteção insuficiente dada pelas amas 
(SIMÕES, 2007). 
5 Tais políticas reforçavam estigmas sociais e afastavam a população pobre do centro das cidades, 
mediante reformas urbanísticas e sanitárias que aconteceram, principalmente, no Rio de Janeiro no 
governo de Rodrigues Alves e tendo como principal expoente o médico-sanitarista Oswaldo Cruz 
(FILHO, 2002) 
20 
 
legitimidade e aliadas as formulações jurídicas e práticas tradicionais, ganhavam uma 
face científica e hegemônica. 
Tratava-se também de uma busca por formas de retirar essas crianças das ruas 
para interna-las em instituições onde se pudesse manter o controle, evitando que elas 
viessem ameaçar a “ordem pública”. A prática se tornou comum no século XIX, 
impulsionando o ideal de formar um exército de trabalhadores obedientes ao sistema, 
através da educação industrial para os meninos e a educação doméstica para as 
meninas. A prática de recolhimento originou uma cultura institucional de “assistência 
ao menor”, uma tendência que se manteve no século XX6 e perdura no Brasil até hoje 
(RIZZINI; PILOTTI, 2011). 
O crescimento da institucionalização era observado amplamente na sociedade, 
representado por diversas instituições que vinham reforçar um modelo de tratamento 
correcional e repressor, expondo as crianças e jovens à violência e aos maus-tratos 
de uma educação forçada. Entre as instituições estava o Instituto Disciplinar, criado 
pela Lei n° 844/1902, tornando-se mais tarde a Unidade Educacional Modelo e 
Colônia Correcional com o propósito de reeducar indivíduos de 09 a 21 anos, por meio 
da formação agrícola, industrial e literária (SIMÕES, 2007). 
Como colocado, anteriormente, a institucionalização de crianças e jovens no 
Brasil, é uma realidade que ainda perdura na atualidade. Entretanto, no período 
apontado acima, a violência e arbitrariedade das ações ligadas a estes institutos era, 
de certa forma, normalizada pelas leis vigentes que não eram pensadas para 
resguardar a cidadania e a dignidade das crianças e adolescentes, mas sim mantê-
los sob controle através de sua separação da sociedade, uma postura, principalmente, 
do Estado, também aplicada a outras manifestações da pobreza. 
Como afirma Rizzini e Pilotti (2011, p. 20): 
O recolhimento, ou a institucionalização, pressupõe, em primeiro lugar, a 
segregação social a que pertence o “menor”; o confinamento e a contenção 
espacial; controle do tempo; a submissão, a autoridade – formas de 
disciplinamento do interno, sob o manto da prevenção de desvios ou da 
reeducação dos degenerados. 
 
Apesar de procurarmos nesta sessão uma análise dos papeis do Estado frente 
a questão do abandono no decorrer da história, até o momento pouco pudemos 
observar de intervenções realmente ligadas a ele. Trata-se de um reflexo dos 
 
6 “No Brasil, ao final do século XIX, identifica-se a criança, filhada pobreza – ‘material e moralmente 
abandonada’ – como um ‘problema social gravíssimo’, objeto de uma ‘magna causa’ , a demandar 
urgente ação.” (RIZZINI, 2011, p. 26) 
21 
 
primeiros posicionamentos manifestados no enfrentamento da problemática, ao 
buscarmos as principais ações formuladas entendemos que o Estado tomou posse de 
sua responsabilidade tardiamente, uma condição demostrada em diversas dimensões 
da questão social. 
Quanto a isso, Faleiros (2011, p.48) explica que: 
Se é bem verdade que, na orientação então prevalecente, a questão da 
política para a criança se coloque como problema do menor, com dois 
encaminhamentos, o abrigo e a disciplina, a assistência e a repressão, há 
emergência de novas obrigações do Estado em cuidar da infância pobre com 
educação, formação profissional, encaminhamento e pessoal competente. Ao 
lado das estratégias de encaminhamento para o trabalho, clientelismo, 
patrimonialismo, começa a emergir a estratégia dos direitos da criança (no 
caso do menor) já que o Estado passa a ter obrigações de proteção. 
 
Desse modo, a passos lentos, o Estado se aplicou em formular algumas 
“soluções”7, que reforçavam ainda mais o caráter repressor e coercitivo, disseminando 
a visão higienizadora8 que via os “desajustados sociais” como uma disfunção da 
sociedade. Dentre as intervenções traçadas, temos o Código de menores de 19279, 
que caracterizou uma das primeiras formas de legislação10, colocando a tutela do 
“menor em situação irregular” 11 sob responsabilidade do Estado e extinguiu 
formalmente a roda dos expostos, um avanço relevante, mas ainda muito insuficiente 
(SIMÕES, 2007). 
Rizzini e Pilotti (2011, p. 22) destacam que: 
Na década de 20, consolidou-se a fórmula Justiça e Assistência para os 
menores viciosos e delinquentes. Estes eram objetos de vigilância por parte 
do Juízo de Menores da Polícia, classificados de acordo com sua origem e 
história familiar e normalmente encaminhados para as casas de correção ou 
as colônias correcionais, onde deveriam permanecer em seção separada dos 
adultos, resolução nem sempre obedecida. Tal fato causava indignação entre 
 
7 “A partir das primeiras tentativas do Estado em organizar a assistência à infância, na década de 1920, 
houve um estreitamento da relação entre os setores público e privado. O modelo de assistência daí 
originado persistiu ao longo do tempo. Contudo, a trajetória dessa relação é repleta de “estórias mal 
contadas” de abusos, corrupção e clientelismo.” (RIZZINI; PILOTTI, 2011, p. 26). 
8 Aliada a esta perspectiva podemos destacar como agente concretizador dessa visão a força policial, 
que cumpria a função de “limpeza” ao retirar os “elementos indesejáveis” das ruas, uma prática que só 
passou ser questionada com a advento da nova legislação, na década de 80 (RIZZINI; PILOTTI, 2011). 
9 “O Código de 1927 incorpora tanto a visão higienista de proteção do meio e do indivíduo, com a 
visão jurídica repressiva e moralista.” (FALEIROS, 2011, p. 47). 
10 Um ponto importante quanto ao Código de 1927 é a proibição do trabalho para menores de 12 anos 
e aos menores de 14 anos que não tivessem uma instrução primária, tal medida foi adotada no sentido 
de associar a inserção no trabalho a educação (FALEIROS, 2011). 
11 Esta conceituação jurídica se referia apenas as crianças e adolescentes de famílias da classe 
trabalhadora, que por motivos de desconstituição familiar não se enquadravam no desenvolvimento de 
novos trabalhadores. A partir da concepção desse termo, esses indivíduos antes tratados como 
delinquentes, passam a ser praticantes de atos infracionais, que necessitam de integração familiar. 
Entretanto, na realidade das medidas baseadas nessa conceituação, prevaleciam a política carceraria 
e punitiva (SIMÕES, 2007). 
22 
 
os defensores da reeducação dos menores, que propunham a criação de 
instituições especiais para esta população, visando reeducá-la através da 
formação profissional – as chamadas escolas de reforma, que começaram a 
ser criadas neste período, por determinação do Código de Menores. 
 
Para além, baseando-se na visão disseminada pelo senso comum de que a 
família deveria ser capaz de cuidar de seus filhos, mas que nas classes mais 
empobrecidas o meio familiar era um lugar de mães e pais irresponsáveis incapazes 
de dar um bom exemplo aos filhos, o Estado passou suspender, retirar e restituir o 
Pátrio Poder, sempre que entendesse que família era inadequada para criança. Esta 
intervenção também acontecia em casos de “menores abandonados” que eram 
apreendidos, mesmo sem o consentimento dos pais (RIZZINI; PILOTTI, 2011). 
 Destaca-se que durante a era Vargas, Estado e sociedade se uniram para 
garantir que as crianças fossem educadas para formarem trabalhadores (“capital 
Humano”) do país, mediante a instrução profissional e a educação moral (RIZZINI; 
PILOTTI, 2011). 
Quanto a isso, Rizzini (2011, p. 24) reitera que: 
O interesse pela infância, nitidamente mais aguçado e de natureza diversa 
daquela observada nos séculos anteriores, deve ser entendido como um 
reflexo do contorno das novas ideias. A criança deixa de ocupar uma posição 
secundária e mesmo desimportante na família e na sociedade e passa a ser 
percebida como valioso patrimônio de uma nação; como ‘chave para o futuro’, 
um ser em formação – ‘ductil e moldável” – que tanto pode ser transformado 
em um ‘homem de bem’ (elemento útil para o progresso da nação) ou num 
‘degenerado’ (um vicioso inútil e pesar nos cofres públicos). 
 
Em 1931, foi criado o Serviço de Assistência ao Menor – SAM12, tratava-se de 
um órgão vinculado ao Ministério da Justiça, formado por um conjunto de 
reformatórios e casas de correção, que reforçavam o modelo correcional-repressivo 
(SIMÕES, 2007). Segundo Behring e Boschetti (2011), tanto o Código de Menores 
(1927), quanto o SAM (1931) tinham como principal objetivo a proteção dos 
“menores”, entretanto o escasso investimento combinado a cultura da época, fizeram 
sobressair os maus tratos e a coerção no tratamento dado a infância e juventude. 
Somente após o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, foram 
observadas mudanças significativas no cuidado com esses sujeitos. 
 Faleiros (2011, p. 54) também elucida que: 
 
12 “O SAM manteve o modelo utilizado a década de 1920, pelos Juízes de Menores, atendendo a 
“menores abandonados” e “desvalidos”, através do encaminhamento às poucas instituições oficiais 
existentes e às instituições particulares, que estabeleciam convênios com o governo. Aos 
“delinquentes”, só restavam as escolas as escolas públicas de reforma, colônias correcionais e os 
presídios, já que a iniciativa privada não dispunha de alternativas para seu atendimento.” (RIZZINI; 
PILOTTI, 2011) 
23 
 
 
A implantação do SAM tem mais a ver com a questão da ordem social que 
dá assistência propriamente dita. Esta instituição, que deveria orientar a 
política pública para a infância, é redefinida (Decreto-lei n.6.865). Vinculada 
ao Ministério da Justiça e aos juizados de menores, tem como competência 
orientar e fiscalizar educandários particulares, investigar os menores para fins 
de internação e ajustamento social, proceder exame médico-
psicopedagógico, abrigar e distribuir os menores pelos estabelecimentos, 
promover a colocação de menores, incentivar a iniciativa particular de 
assistência a menores e estudar causas do abandono. 
 
 Durante o governo Vargas 13 também podemos destacar a criação do 
Departamento Nacional da Criança (DNCr), que juntamente com o Serviço de Obras 
Sociais (SOS) articulava serviços médicos com a assistência privada para as crianças, 
atendendo a necessidade de remédios, hospitais, orfanatos e asilos, mediante o 
ensino da higiene e trabalhos domésticos (FALEIROS, 2011). 
Nos primeiros anos de Ditadura Militar, o SAMfoi extinto para dar lugar a 
Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM)14 e as Fundações Estaduais 
do Bem-estar do Menor (FEBEMs)15, nessas instituições eram muito comuns os maus 
tratos e torturas contra as crianças e adolescentes acolhidos16. Todas elas exerciam 
suas ações pautadas em um modelo correcional-repressivo (SIMÕES, 2007). 
Segundo Rizzini e Pilotti (2011, p. 26): 
De 1964 em diante, a questão da assistência à infância passou, como tantas 
outras coisas, para a esfera de competência do governo militar. Esta via na 
questão social e, no seio desta, na questão do menor, um problema de 
segurança nacional, julgando-o, portanto, objeto legítimo de sua intervenção 
e normalização. 
 
A política nesta conjuntura favoreceu o controle centralizado e autoritário 
Estado militar, desde a formulação até o implemento da assistência à infância, 
colocando os “menores” como um problema social (RIZZINI; PILOTTI, 2011). Para 
 
13 Colocando sob o âmbito do trabalho, em 1932, os industriais conseguem alterar o Código de Menores 
(1927), acabando com os impedimentos que proibiam o trabalho antes dos 14 anos, reforçando a 
estratégia de trabalho precoce (FALEIROS, 2011). 
14 “Com esse objetivo, criou a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM) e a Política 
Nacional do Bem-Estar do Menor (PNBEM), às quais coube comandar todas as ações neste terreno. 
Sua missão era velar para que a massa crescente de “menores abandonados” não viesse transformar-
se em presa fácil do comunismo e das drogas, associados no empreendimento de desmoralização e 
submissão nacional.” (RIZZINI; PILOTTI, 2011, p. 26) 
15 “É fundamental notar que a mudança de uma estratégia repressiva para uma estratégia integrativa e 
voltada para a família tem um novo ordenamento institucional dentro de um governo repressivo que, 
por sua vez, fará reverter os propósitos educativos e integrativos do novo órgão.” (FALEIROS, 2011, p. 
63) 
16 “Em primeiro lugar, buscando se configurar como um meio de controle, em nome da segurança 
nacional, cuja doutrina implica na “redução ou anulação das ameaças ou pressões antagônicas de 
qualquer origem” (FALEIROS, 2011, p. 65 apud FRAGOSO, 1975, p. 37-124) 
24 
 
Fenelon (1999), essas medidas não se aprofundaram o suficiente para apreender as 
raízes da questão e, em sua superficialidade, apenas retiraram as crianças e 
adolescentes das ruas para continuar institucionalizando a situação, agora em 
entidades como as FEBEMs e outras. 
Anos mais tarde, foi criado o Código de Menores de 197917, em substituição ao 
Código de 1927, dando ênfase a “Doutrina da situação irregular”, destinando suas 
ações mediante regras jurídicas a um grupo específico de crianças e adolescentes, 
sem trazer maiores avanços (VERONESE, 2013). 
Rizzini e Pilotti (2011, p. 28) afirmam que: 
O Novo Código de Menores veio consagrar a noção do “menor em situação 
irregular”, a visão do problema da criança marginalizada como uma “patologia 
social”. Caberia ao Juiz de Menores intervir na suposta irregularidade, que 
englobava desde a privatização de condições essenciais à subsistência e 
omissão dos pais, até a autoria de infração penal. 
 
 Por ter se concretizado já no final do governo militar, a concentração do poder 
de decisão sobre a vida do “menores” nas mãos dos juízes, assim como as demais 
determinações do Código de Menores 1979 não duraram muito. Os direitos de 
“proteção” moldados em alicerces frágeis, foram considerados inaceitáveis fora da 
ditadura civil-militar, desse modo, não sobreviveram a redemocratização. (RIZZINI; 
PILOTTI, 2011). 
Nesse viés, Jesus (2021, p. 4) sinaliza que: 
Entretanto, suas expressões e manifestações nas ruas geram nova 
sensibilidade social e efervescência política que estruturou um cenário em 
que o debate se centrava numa forte crítica à cultura institucional da 
FUNABEM e das FEBEMS. No final da década, com a celebração do Ano 
Internacional da Criança e a ampliação da atuação do UNICEF no Brasil, 
assiste-se a uma potencialização mais ampla, mais explícita, e já inicialmente 
orgânica dos grupos sociais em torno da problemática da infância pobre, que 
é posta cada vez mais no centro da vida social. 
 
 Faleiros (2011, p. 35) reitera que: 
A cidadania da criança e do adolescente foi incorporada na agenda dos 
atores políticos e nos discursos oficiais muito recentemente, em função da 
luta dos movimentos sociais no bojo da elaboração da Constituição de 1988. 
Na cultura e estratégias de poder predominantes, a questão da infância não 
se tem colocado na perspectiva de uma sociedade e de um Estado de direito, 
mas na perspectiva do autoritarismo/clientelismo, combinando benefícios 
com repressão, concessões limitadas, pessoais e arbitrárias, com 
disciplinamento, manutenção da ordem [...]. 
 
 
17 “[...] ele funcionou como um instrumento jurídico de controle social, sem perspectiva emancipatória 
do sujeito. A associação da delinquência à pobreza serviu de fundamento para justificar as ações 
repressivas do Estado no cuidado dos menores, filhos das classes subalternas” (LANFRANCHI, 2020, 
p.157). 
25 
 
No início da década de 1980, com à abertura política, começou-se também uma 
discussão mais crítica a respeito do termo “menor”, para dar mais espaço a ideia de 
universalidade e integralidade dos direitos. Segundo Simões (2007), ao longo desta 
década foram realizados diversos encontros e seminários de discussão sobre esse 
tema. Em 1987, foi elaborada pela Comissão Nacional da Criança uma lista de 
recomendações para serem levadas à Assembleia Constituinte, que resultaram nos 
artigos 227 e 228 da Constituição Federal de 1988, ambos expressam direitos 
fundamentais da criança e do adolescente. 
A Carta Magna brasileira, é um marco extremamente importante quando 
tratamos de direitos, políticas sociais e, principalmente, na responsabilização do 
Estado para efetivação desses avanços. Trata-se de um passo primordial, que 
alicerçou o caminho para transformações concretas, prevendo a universalização do 
acesso aos direitos, como afirma Simões (2007, p. 109): 
Antes da Constituição de 1988, incidiam sobre categorias específicas da 
população (critério subjetivo: idosos, pessoas com deficiências e outras). Pelo 
princípio da universalidade, incidem agora sobre situações de risco e 
vulnerabilidade social, de necessidades básicas, sua intensidade e 
localização (critério objetivo) A universalidade rege hierarquicamente os 
demais princípios, ao garantir a todas as pessoas, em tese, os mínimos 
sociais, considerada a situação social prevista. 
 
Colocando sob o âmbito das crianças e adolescentes, objeto desse estudo, a 
Constituição de 1988 trouxe novos paradigmas quanto os direitos deste segmento, 
considerando-os como cidadãos. O documento apresentou uma doutrina inovadora, 
passando priorizar a proteção integral e incentivando a necessidade de formulação de 
políticas públicas que viessem concretizar esses direitos (MARQUES, 2011). 
Destaca-se que em seus artigos, a Constituição já evidencia a defesa desse 
público, parâmetros que serviram de base para a construção do Estatuto da Criança 
e do Adolescente – ECA, fazendo nascer um novo olhar para a infância e juventude. 
Segundo Veronese (2013), a nova base doutrinária inaugurada por esse documento, 
foi fundamental para que as crianças e adolescentes fossem considerados sujeitos de 
direito. 
 É relevante recordarmos que no final da década, em 1989, a ONU declarou a 
Convenção dos Direitos da Criança, priorizando a integração familiar. Dessa forma, 
tais avanços culminaram com a promulgação do Estatuto da Criança e do 
26 
 
Adolescente, em 13 de julho 1990. Uma conquista construída à passos lentos e 
através de muita luta dos movimentos sociais18 em defesa do público infanto-juvenil. 
Diante do exposto, podemos observar que oEstado brasileiro sempre assumiu 
suas responsabilidades de forma tardia e esse atraso tem um custo muito elevado 
para as populações vulnerabilizadas, entre elas, as crianças e adolescentes expostos 
as inúmeras situações de violação de direitos. Antes da promulgação do ECA em 
1990, o Estado mantinha um posicionamento conservador, discriminatório, punitivo e 
corretor, que ainda não foi superado totalmente, afastando-se das suas obrigações, 
que ficavam a cargo de ações filantrópicas e beneméritas. 
Uma realidade, que apesar dos avanços advindos com o ECA, ainda pode ser 
encontrada, basta analisarmos a vida cotidiana, quantas crianças e adolescentes têm 
seus direitos violados diariamente nas ruas, sem acesso educação, moradia, 
alimentação, convivência familiar, entre outros elementos. Com isso, cabe questionar 
a real efetividade do que está disposto no ECA e como essa falta incide na vida desses 
sujeitos. Conforme Pini e Silva (2020, p. 143): 
O paradigma da prioridade absoluta que concebe crianças e adolescentes 
como sujeitos de direitos não se efetivou em sua totalidade, dado o projeto 
neoliberal vigente, o qual exprimi a financeirização do Estado, a privatização 
das políticas sociais, a precarização do emprego/trabalho, a criminalização 
da questão social e dos movimentos sociais, a responsabilização dos 
indivíduos e das famílias e acentuada desigualdade social. 
 
 Na atualidade, a fragmentação e pontualidade das intervenções focalizadas em 
setores específicos combinada aos investimentos escassos, abrem espaço para o 
avanço do capital, que desqualifica o público e valoriza a privatização dos serviços, 
uma realidade arrastada ao longo dos anos. Assim como o fortalecimento das ações 
de caridade e filantropia19, que amenizam, mas não resolvem o problema. Também 
 
18 Uma referência de luta nesse âmbito é o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua 
(MNMMR), que emerge nos anos 80, com crescimento exponencial do contingente de crianças em 
situação de rua. O Movimento passa articular a nível nacional a causa da infância e adolescência 
marginalizadas, organizando mobilizações com a participação das próprias crianças e adolescentes. 
Opondo-se à repressão e o autoritarismo, a fim de privilegiar “a expressão e vozes dos sujeitos 
participantes” (JESUS, 2021). 
19 “Ao não se constituir como uma rede complementar, mas assumir a condição de “alternativa eficaz” 
para viabilizar o atendimento das necessidades, esse apelo ao “Terceiro Setor” ou à “sociedade civil”, 
aqui mistificada, configurou-se como um verdadeiro retrocesso histórico. Trata-se do que Yasbek (1993 
e 2000) denomina de refilantropização das políticas sociais, que implica uma precipitada volta ao 
passado sem esgotar as possibilidades da política pública, na sua formação constitucional” (BEHRING; 
BOSCHETTI, 2011, p. 162). 
27 
 
se destaca a responsabilização da família 20 pelo cuidado com as crianças e 
adolescentes, sem considerar os diversos fatores que influenciam nas condições de 
vida. Como colocado por Pini e Silva (2020, p. 146): 
Os documentos legais colocaram a família na centralidade da proteção social 
do Estado, mas, na prática, as famílias passaram a ser responsabilizadas por 
ausência de recursos materiais em relação aos seus filhos, passando a ser 
punidas em caso de descumprimento de seus deveres em relação ao cuidado 
e à proteção. 
 
 Dessa forma, podemos refletir como essa ausência de dispositivos que 
garantam a efetivação do ECA constituem uma forma de abandono, que impacta não 
somente a vida dessas crianças e adolescentes, mas também de suas famílias que 
não recebem o apoio necessário e são estigmatizadas pelos discursos do senso 
comum, por não “cuidarem” de seus filhos. 
 Vale salientar, a importância de se compreender que esses determinantes são 
inerentes da sociabilidade capitalista, que ao desenvolver-se ocasiona o 
aprofundamento da pauperização e da miserabilidade. Dentro desta conjuntura, 
também se aponta o fomento das concepções e discursos conservadores sobre a 
questão das crianças e adolescentes. 
 Como aponta Faleiros (2011, p. 35): 
As polêmicas relativas às políticas para infância demostram esse conflito de 
visões e de estratégias, por exemplo, a que se refere à divergência entre os 
que privilegiam a punição e os que privilegiam o diálogo, a negociação, as 
medidas educativas. 
 
Por fim, como citado por Rizzini e Pilotti (2011, p. 15) no início desta seção, “[...] 
sugerem uma longa caminhada, quando, na verdade, quase não se saiu do mesmo 
lugar de origem.” Trata-se de um argumento um tanto polêmico e pode parecer 
levemente radical. Mas no sentido desta reflexão, apenas tentamos analisar como 
certas concepções capitalistas e conservadoras são reeditadas ao longo dos 
momentos históricos elencados, ideários que potencializam a estigmatização da 
pobreza e, consequentemente, da infância e adolescência pobre. 
 No decorrer do tempo foram se constituindo diversas formas de intervenção, 
entretanto todas pautadas na associação entre infância e pobreza, sempre na busca 
de “esconderijos” para miserabilidade a que sempre foram expostas milhares de 
 
20 Torna-se interessante também refletir sobre a centralidade da família na política social brasileira. 
Nesse sentido, a construção do “familismo” no Brasil, constitui uma característica marcante da proteção 
social brasileira. Uma perspectiva reforçada no contexto neoliberal, na intenção de responsabilizar, 
unicamente, a família pela formação e sustento de seus membros (MIOTO et al., 2018). 
28 
 
crianças, enquanto a violência contra elas se perpetua através de discursos e ações. 
Evoluímos extraordinariamente na formulação de uma legislação avançada na 
proteção de crianças e adolescentes, como o ECA. Entretanto, retomamos a uma 
questão central: porque tantos direitos ainda são violados? 
Esse questionamento nos leva a refletir porque, de certa forma, “não se saiu do 
mesmo lugar de origem”. Não é inerente no sistema que vivemos um crescimento 
diretamente proporcional entre o econômico e o social, um deles sempre deve 
prevalecer e com certeza não será o avanço de benefício coletivo. 
Desse modo Rizzini, Rizzini, Naiff e Baptista (2006, p. 112) afirmam que: 
Historicamente, as políticas sociais no Brasil se configuram em um campo de 
lutas onde forças desiguais se enfrentam. A legislação, desde a Constituição 
Federal de 1988, tem a possibilitado combater o assistencialismo e o 
clientelismo, tradicionais da área. Contudo a disseminação das ideias 
neoliberais no mundo tem repercutido diretamente na área social, que se vê 
seus projetos de consolidação de políticas sociais universais e democráticas 
emperrarem no recuo dos investimentos do Estado [...]. 
 
Para mais, continuaremos tais reflexões na próxima seção, afinal é necessário 
compreendermos o terreno onde o ECA e a políticas sociais para Infância e juventude 
crescem, a fim de analisarmos sua real efetividade e representação na vida das 
crianças e adolescentes. 
 
 
2.2 OFENSIVAS NEOLIBERAIS: OS ATAQUES AOS DIREITOS SOCIAIS, A 
ESTIGMATIZAÇÃO DA POBREZA E A REDUÇÃO DO ESTADO 
 
 
 Nesta seção iremos analisar o campo de domínio neoliberal capitalista onde as 
orientações e os direitos fundados pela Constituição Federal de 1988 e pelo ECA, 
devem “sair do papel” e tomar sua forma concreta. Porém, devido as contradições 
inerentes deste sistema, permanecem insuficientes e sem a amplitude necessária 
para garantir transformações efetivas na vida dos indivíduos. Com isso, vamos 
ponderar, principalmente, sobre os avanços neoliberais datados da década de 1980 e 
1990, períodos de efervescência dos movimentos sociais, que contribuíram para 
reabertura político-democrática e alicerçaram o caminho de construção das 
legislações citadas acima. 
29Para iniciar, é essencial se entender que os determinantes apontados no título 
desta seção: “os ataques aos direitos sociais, a estigmatização da pobreza e a 
redução do Estado”, são questões que se arrastam no decurso do tempo. Entretanto, 
em outros momentos históricos, não se tinha a dimensão de ações que buscassem a 
superação desses elementos inerentes ao capitalismo. No contexto em foco, 
observamos a formulação de legislações avançadas para os direitos, mas que 
esbarram no crescimento potencializado de ideias neoliberais, que reeditam os 
problemas já existentes. 
Para empreender nossas análises as objeções apontadas, iremos iniciar pela 
crise estrutural do capitalismo na década de 1970, que impôs ao capital novos 
desafios para se manter hegemônico e exigiu ações mais ofensivas na busca de sua 
reestruturação, diante do crescimento das reivindicações coletivas pelos movimentos 
sociais na luta por melhorias de vida, que alcançarão seu auge na década de 1980 e 
1990. 
Quanto a isso, Santos (2008, p. 66) afirma que: 
A década de 1980, reconhecida como a “década perdida” em termos da 
economia foi, também, especialmente no Brasil, consagrada como a década 
da participação política, sendo dialeticamente, síntese, aprofundamento e 
ruptura frente à efervescência político-cultural das décadas anteriores, 
sobretudo dos anos 60, que se constituíram marcos referenciais na 
estruturação de formas de resistência em várias dimensões da vida social. 
 
 A autora também reitera que: 
 
A análise sobre as determinações do desenvolvimento destrutivo do capital, 
sobretudo com o esgotamento do seu período áureo, mediante o processo 
de crise estrutural em curso a partir dos anos 70 do século XX, cedeu lugar 
para estudos que centralizaram na reflexão crítica à modernidade [...]. A 
abordagem pós-moderna21 encontrou solo fértil para se afirmar, seja pelas 
condições objetivas favoráveis, diante da força do sistema do capital impondo 
novas formas de irracionalismo, de menosprezo da razão e apelo pela 
valorização do cotidiano e da individualidade, vistos em si mesmos, isentos 
de determinações da sociabilidade (SANTOS, 2008, p. 67 – 68). 
 
 
 Diante das afirmações podemos refletir como essas ofensivas do capital foram 
se materializando na vida cotidiana e nas relações profissionais, sociais e afetivas dos 
sujeitos, tais vínculos passam por intensos processos de mercantilização e alienação. 
 
21 “[...] o pós-modernismo implica uma rejeição categórica do conhecimento ‘totalizante’ e de valores 
‘universalistas’ [...]. Ao invés disso, os pós-modernistas enfatizam a ‘diferença’: identidades 
particulares, tais como sexo, raça, etnia, sexualidade; suas opressões e lutas distintas, particulares e 
variadas; e ‘conhecimento’ particulares, incluindo mesmo ciências específicas de alguns grupos 
técnicos (WOOD, 1999, p. 12 apud SANTOS, 2008, p. 68). 
30 
 
É crucial a reflexão sobre as demais estratégias de recuperação do capitalismo após 
a crise dos anos 70 (século XX), as principais iniciativas são marcadas pela 
mundialização e a ascensão do neoliberalismo, este segundo se torna essencial para 
entendermos a insuficiência das políticas sociais no Brasil (SANTOS, 2008). 
No tocante ao avanço neoliberal, Fávero (2001, p. 76 – 77) confirma que: 
O ajuste neoliberal implementado no país fez com que as condições 
socioeconômicas de grande parte da população fossem agravadas, 
ocorrendo um aumento nos níveis de pobreza. [...] As mudanças que esse 
ajuste provoca não atingem apenas a esfera econômica, mas redefinem, 
globalmente, o campo político-institucional e as relações sociais, 
desencadeadas por meio de ‘políticas liberalizantes e de mercado’, com 
redução do Estado (ou o Estado Mínimo). 
 
 A entrada do neoliberalismo no país, apresenta situações particulares que 
diferem de outros países latino-americanos. Na década de 1980, a economia brasileira 
contava com um relevante avanço na industrialização, sendo assim “não era possível 
um ajuste ‘passivo’ à nova ordem econômica mundial, na medida em que não possuía 
complementariedades decisivas com qualquer bloco comercial regional” (SOARES, 
2001, p. 153 apud PORTO, 2009, p.04). 
 A submissão à nova “onda” neoliberal, mediante as políticas de liberalização 
econômica e comercial ocorreu de maneira tardia, no começo da década de 1990, 
“com o objetivo de atrair recursos externos, a qualquer custo, inserindo-se de forma 
subordinada no novo quadro financeiro mundial” (TAVARES; MELIN, 1998, p. 51 apud 
PORTO, 2009, p. 04). 
 Tendo em vista as afirmações acima, observamos a reafirmação da 
dependência do Brasil em relação ao capital estrangeiro, essa sujeição é aprofundada 
pelas estratégias dos governos em favor do capital e são otimizadas pela entrada 
neoliberal no país, privilegiando ações mais ofensivas contra as demandas sociais. 
 Chesnais (1996 apud CARVALHO; RODRIGUES JÚNIOR, 2019, p. 278) 
explica que: 
Os circuitos do ajuste são deflagrados em 1990, com a inserção do Brasil ao 
capitalismo financeirizado, demarcando a entrada tardia do país nos 
processos de ajuste da América Latina, no contexto de mundialização do 
capital, com dominância financeira. 
 
 Esta conjuntura marca um golpe final contra o que se construiu no país próximo 
a um Estado Desenvolvimentista22, desde os anos 30 (século XX). O momento crucial 
 
22 Esse modelo tentou consolidar-se no Brasil a partir do Governo Vargas, sendo caracterizado, 
principalmente, pela presença mais ativa do Estado na economia, em substituição do esgotado modelo 
31 
 
de sua falência está, intimamente, ligado ao seu posicionamento favorável em relação 
ao neoliberalismo. A ascensão neoliberal no Brasil remete as decisões tomadas em 
1989 pelo Consenso de Washington23, nos Estados Unidos. As decisões adotadas 
naquele momento, se materializaram com a real validação das propostas neoliberais, 
que o governo norte-americano impunha como pré-condição para conceder apoio 
financeiro (PORTO, 2009). 
Esse cenário também é marcado pela inquietação dos movimentos socias24 em 
meio a reabertura político-democrática no país, os sujeitos coletivos vêm cobrar do 
Estado respostas as suas reinvindicações, essas intervenções surgem através da 
formulação de políticas e programas voltados para a família, mulher, a proteção 
infanto-juvenil, os idosos, entre outros extratos sociais. Tais iniciativas são 
consagradas com a promulgação da Constituição Federal de 1988 (SANTOS, 2008). 
Mais à frente, iremos refletir como os cenários são desenhados em favor do 
capital, como afirma Santos (2008), a agenda pós-moderna se concebeu ao passo em 
que os sujeitos coletivos e suas narrativas contestatórias aos padrões da burguesia 
foram sendo “processualmente absorvidos pelo sistema do capital”. 
Filgueiras (2005, p. 181), faz o seguinte apontamento sobre a questão: 
No entanto, a mobilização política dos trabalhadores, ultrapassando os limites 
do economicismo – cuja expressão maior foi a construção de um partido 
político de massa –, ao ameaçar o poder das classes dominantes, porém não 
conseguindo tornar hegemônico seu projeto nacional, democrático e popular, 
acabou possibilitando, em determinado momento (a partir da eleição de 
Fernando Collor em 1989), à unificação das diversas frações do capital em 
torno do projeto neoliberal, mesmo com idas e vindas, contradições e 
disputas internas, em virtude do temor das mesmas de perderem o controle 
político da sociedade. 
 
 Diante dessa conjuntura, os governos federais que foram sucedendo no poder 
do Estado brasileiro, mostraram-se doceis e abertos aos ditames neoliberais nos 
 
agroexportador. Nos anos 80, a perspectiva desenvolvimentista entra em colapso, “tendo em vista a 
crise financeiradeflagrada em decorrência do aumento progressivo das dívidas interna e externa” 
(PORTO, 2009, p. 03) 
23 “No ocaso da década, os principais responsáveis pela reestruturação capitalista neoliberal reuniram-
se, com intuito de avaliar o processo em curso e traçar as novas diretrizes. Este encontro contou com 
os principais grupos que formavam a rede de poder político, financeiro e intelectual do eixo Washington-
Wall Street, resultando no que ficou conhecido como Consenso de Washington (CW). [...] Em geral, o 
CW baseava-se no assalto do capital aos direitos sociais e trabalhistas e no fim da tolerância de 
Washington com o nacionalismo econômico.” (MATEUS, 2015, p. 01). 
24 Temos como exemplo “[...] à intensa atividade política desenvolvida pelas classes trabalhadoras na 
década de 1980 – que se expressou, entre outros eventos, na constituição do Movimento dos 
Trabalhadores Sem Terra (MST), na criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Partido 
dos Trabalhadores (PT) e na realização de cinco greves gerais entre 1983 e 1989” (FILGUEIRAS, 2005, 
p. 181). 
32 
 
diversos âmbitos da sociedade. As medidas tomadas nos primeiros anos de 
redemocratização e após a Constituição em 1988, pouco colaboraram para a 
concretização do que está disposto na Carta Magna brasileira, valorizando apenas as 
estratégias de desenvolvimento da economia capitalista e a dependência do Brasil ao 
capital estrangeiro. 
 Para análise desses tensionamentos, faz-se necessária uma pequena 
retomada sobre as principais decisões tomadas e as condições existentes, que 
favoreceram a entrada do neoliberalismo no Brasil. Tais ações corroboraram com seu 
desenvolvimento e expansão, antes e durante a inserção mais intensa dessa ideologia 
no país na década de 1990. 
Primeiramente, em 1985, temos a eleição indireta de Tancredo Neves e, 
posteriormente, a sua substituição por José Sarney, após seu falecimento. O governo 
Sarney é marcado pela expressiva efervescência dos movimentos populares e 
centrais sindicais, que conseguiram registrar algumas das suas demandas na 
Constituição Federal de 1988. A conjuntura desse momento, foi atravessada por um 
desgaste25 do poder governamental e a superinflação, sobretudo no último ano dessa 
gestão presidencial. Onde registraram-se também uma mudança brusca da 
concepção de política econômica e social que vigorava até então, mediante a 
profunda instabilidade política, condições “ideais” para justificar a abertura do Brasil 
para o ideário neoliberal, poucos anos depois (PORTO, 2009). 
Bianchi (2004 apud FILGUEIRAS 2005, p. 182) menciona que: 
[...] o projeto neoliberal foi se desenhando e se fortalecendo, passando do 
campo meramente doutrinário para se constituir em um programa político, 
com a formação de uma percepção, entre as diversas frações do capital, de 
que a crise tinha um caráter estrutural e, portanto, que o MSI havia se 
esgotado e que o projeto neodesenvolvimentista era incapaz de responder 
aos problemas por ela colocados. 
 
 Em 1990, Fernando Collor de Mello assume a presidência do Brasil, marcando 
a primeira eleição direta após promulgação da Constituição (1988), em meio a entrada 
e avanço das ideias neoliberais no país. Suas estratégias políticas são pautadas no 
estabelecimento de uma aproximação entre o Estado e a iniciativa privada visando o 
suposto processo de modernização estatal, através do documento Brasil: Um Projeto 
 
25 Um dos marcos deste desgaste foi a implementação e o fracasso do Plano Cruzado (1986/87), 
haviam tentativas de atualizar e reformar o sistema financeiro, mas conservando o papel crucial do 
Estado no processo de acumulação e crescimento, apesar do surgimento de inúmeras críticas a 
estatização desde dos anos 70, após a crise estrutural do capital (BIANCHI, 2004 apud FILGUEIRAS, 
2005). 
33 
 
de Reconstrução Nacional, que propunha uma grande reforma administrativa com o 
Programa Federal de Desregulamentação e o Programa Nacional de Desestatização, 
entre outras medidas neoliberais das quais almejavam, por fim, o processo de 
privatização do Estado (BOSCHETTI; FERREIRA, 1998, p. 48 apud PORTO, 2009). 
 Defronte as propostas neoliberais do governo Collor, Filgueiras (2005, p. 183) 
reforça que: 
Esse processo, que culminou com a afirmação do projeto político neoliberal 
e a construção de um novo modelo econômico, redefiniu as relações políticas 
entre as classes e frações de classes que constituíam a sociedade brasileira. 
A vitória desse projeto expressou, ao mesmo tempo em que estimulou, um 
processo de transnacionalização dos grandes grupos econômicos nacionais 
e seu fortalecimento no interior do bloco dominante, além de exprimir, 
também, a fragilidade financeira do Estado e a subordinação crescente da 
economia brasileira aos fluxos internacionais de capitais. 
 
 Porto (2009, p. 5), ainda reforça que: 
Em perfeita sintonia aos princípios neoliberais em vigência, o eixo central de 
condução da política econômica implementada pelo governo Collor era o 
combate à inflação, adquirindo efetiva materialidade no contexto mais amplo 
do chamado “Plano de Estabilização”. Estreitamente vinculada a essa 
proposta, somaram-se outras, com dimensões equivalentes, as quais 
passaram a integrar o projeto neoliberal brasileiro. 
 
 O governo de Fernando Collor apresentou um solo muito fértil para o 
crescimento neoliberal. Como já mencionado, as condições “ideais” em termos de 
crise econômica deixadas pelo governo Sarney, foram essenciais para inserção do 
neoliberalismo no país, sendo potencializadas pelas medidas privatistas de Collor, 
expressando uma das principais dimensões desse ideário: o Estado Mínimo. 
Quanto a isso, Porto (2009, p. 6) destaca que: 
No que diz respeito às relações do governo Collor com as políticas sociais, 
essa administração deu continuidade, de maneira progressiva, ao desmonte 
dessa área, então iniciado no final do governo Sarney, em absoluta coerência 
com o ideário neoliberal ativamente em vigor. 
 
 Diante deste cenário, já podemos observar os efeitos desastrosos desta política 
sob as deliberações consagradas pela, naquele momento, ainda jovem Constituição 
Federal de 1988. A repercussão negativa foi fortemente sentida diante do 
agravamento da inflação, a ampliação do desemprego e na precarização das políticas 
sociais. 
 Neste viés, ocorreu um descumprimento massivo dos direcionamentos sociais 
dados pela Constituição, culminando com a contraditória proposta de Reforma 
34 
 
Constitucional26, “com indicações clarividentes de uma postura neoliberal que se 
caracterizava por proporcionar a anulação das garantias sociais contempladas” 
(PORTO, 2009, p. 6). 
Este ponto é fulcral em nossa análise e entendimento sobre a real concretude 
do que está disposto na Constituição, visto que poucos anos depois de sua 
promulgação, ela já estava sendo duramente atacada. E dentro de nosso objeto de 
estudo: crianças e adolescentes, o ECA, criado em 1990, nasce em meio a este 
campo conflituoso de investidas contra os direitos sociais e aos direcionamentos que 
irão dimensionar sua efetividade. 
 No entanto, é de extrema relevância destacar que apesar do neoliberalismo ter 
atingido o ápice de sua entrada nos anos 1990, desta década também é datada a 
instauração de grandes avanços no campo das políticas públicas, frutos da pressão 
popular dos movimentos organizados na luta pelo acesso digno aos direitos. 
Para além do ECA (1990), citado mais acima, aqui seguem outros marcos 
legais que nasceram apesar do neoliberalismo, como: A Lei Orgânica da Saúde (Lei 
n° 8,080/90); Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS (Lei n° 8.742/1993); as 
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9.394/96), bem como o Código de 
Ética do/a Assistência Social (Lei n° 8662/93) que trouxe novos paradigmas para 
profissão. Tais demarcações são significativas também, para compreendermosa 
força dos movimentos socias no enfrentamento das investidas do capital. 
Neste contexto, forças progressistas e de esquerda, alinhadas aos 
movimentos sociais, com destaque para a CUT e o Movimento dos Sem-
Terra (MST), empreendem formas de resistência que, se não conseguem 
barrar as reformas neoliberais, mantêm tais reformas dentro de determinados 
limites, na defesa de direitos trabalhistas e sociais. É um momento de 
tensionamento explícito das formas de resistência no enfrentamento ao 
neoliberalismo, na versão brasileira do ajuste (CARVALHO; RODRIGUES 
JÚNIOR, 2019, p. 279). 
 
 Assim, podemos prosseguir com nossa retomada dos delineamentos 
presidenciais no Brasil. Após o impeachment de Collor em 1992, a gestão de Itamar 
Franco (1992-1994), foi guiada em uma direção econômica semelhante à de seu 
antecessor. O presidente passou a executar uma política econômica baseada no 
 
26 “Reformando-se o Estado, com ênfase especial nas privatizações e na previdência social, e, acima 
de tudo, desprezando as conquistas de 1988 no terreno da seguridade social e outros – a carta 
constitucional era vista com perdulária e atrasada –, estaria aberto o caminho para o novo “projeto de 
modernidade” (BEHRING; BOSCHETTI, 2011, p. 148). 
35 
 
Plano Real, respaldando-se nas diretrizes aconselhadas pela “ortodoxia neoliberal” 
(PORTO, 2009). 
 Passados dois anos, assume a presidência o ex-Ministro da Fazenda e 
sociólogo Fernando Henrique Cardoso (FHC). A “Era FHC”, foi marcada pelo 
robustecimento das políticas neoliberais, com crescimento das importações e 
aquisições de recursos externos, bem como a implementação da política financeira 
necessária para a viabilização do Plano Real e a Reforma27 Constitucional objetivando 
a flexibilização das relações entre o Estado e a sociedade. Outro marco importante da 
política econômica de FHC foi o ajuste fiscal, dando a falsa ideia de equilíbrio 
orçamentário e redução do déficit público (PORTO, 2009). 
 O Brasil sob essa administração pública, vivenciou um ingresso mais ativo na 
era da financeirização, operando condições elementares para a consolidação do 
neoliberalismo, “é marcado por cortes de recursos públicos a expropriarem verbas que 
poderiam assegurar políticas sociais na materialização de direitos conquistados na 
Constituição de 1988” (CARVALHO; RODRIGUES JÚNIOR, 2019, p. 279). 
 Em face dos avanços neoliberais empreendidos pelo governo FHC, Carvalho e 
Rodrigues Júnior (2019, p. 278 – 279) reforçam que: 
De fato, a implementação da Agenda de Washington, no contexto brasileiro, 
tem início tardiamente, com a vitória de Fernando Collor de Melo na disputa 
eleitoral de 1989. A eleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC) para a 
presidência da República, em 1995, e a sua reeleição para um segundo 
mandato, em 1998, representou a consolidação da agenda neoliberal em 
seus pilares: abertura econômica, privatização e desregulamentação do 
Estado. Trata-se de um ciclo específico de ajuste marcado pela estabilização 
da economia, durante toda a década de 1990 e limiar dos anos 2000. 
 
 As ações governamentais priorizadas por essas gestões, vêm demostrar a 
valorização de meios que contribuam para a edificação do capital através do ideário 
neoliberal presente nas políticas econômicas que são privilegiadas, enquanto as 
políticas sociais são colocadas a margem no investimento dos governos. Assim, 
evidenciamos as condições onde nascem a Constituição e o ECA, tais legislações 
desabrocham no apogeu do espraiamento neoliberal brasileiro e tentam se 
desenvolver na luta injusta contra o capital. 
 
27 Destaca-se que neste seguimento, o termo “reforma” está despido de seu real sentido, pois trata-se 
de um termo originário das vertentes de esquerda e é apropriado indevidamente pela direita capitalista, 
dando ao termo um sentido pragmático e destituindo do seu conteúdo redistributivo de viés social-
democrata, assim a palavra correta a se usar é contrarreforma (BEHRING; BOSCHETTI, 2011). 
36 
 
 Em 200328, Luiz Inácio Lula da Silva assume à presidência pelo Partido dos 
Trabalhadores (PT). Nessa gestão, podemos observar, conforme explica Carvalho e 
Rodrigues Júnior (2019, p. 280) “uma regulação dos conflitos de classe por diferentes 
vias”29, os autores também afirmam que esta estratégia se concretiza por uma espécie 
de “pacto de adesão”, evidenciado por múltiplas ações nas áreas econômicas e 
sociais, simultaneamente. 
Mantém-se o privilégio aos interesses das classes dominantes do capital, ao 
passo que se busca a administração das expressões da pobreza, através da 
assistência aos extratos mais empobrecidos da sociedade, além da formalização do 
emprego, o aumento do salário mínimo, formulação de programas de moradia e 
transferência de renda30 , assim como a relação com os movimentos sindicais e 
sociais. À princípio, ocorre a consolidação das “políticas macroeconômicas de ajuste 
da ‘Era FHC’”, associadas as chamadas “políticas de enfrentamento à pobreza”. 
(CARVALHO; RODRIGUES JÚNIOR, 2019). 
Carvalho e Rodrigues Júnior (2019, p. 281), ainda destacam que: 
Assim, nesta versão lulista do modelo de ajuste, são incontestes os 
crescentes ganhos do capital rentista e do capital vinculado ao 
neoextrativismo agrícola e mineral, mas, também, são inegáveis mudanças 
na estrutura de classes, com a ascensão social dos miseráveis e 
extremamente pobres. A rigor, mantém-se e amplia-se a desigualdade 
estrutural, em meio à diminuição dos índices de pobreza. 
 
Os dois últimos anos do mandato de Lula, são marcados pela hibridização da 
política macroeconômica neoliberal com o chamado neodesenvolvimentismo31, um 
 
28 “Ao final do século XX e limiar do século XXI, o projeto neoliberal demonstrava sinais de desgaste, 
como uma tendência mundial, a perpassar a civilização contemporânea do capital. Tal desgaste, 
decorrente dos baixos índices de crescimento econômico e aumento da concentração de renda nas 
frações mais ricas das classes dominantes locais e internacionais, acirra a desigualdade, desemprego, 
pobreza e violência. São estes indicadores de uma crise do neoliberalismo, com expressões 
diferenciadas em países da América Latina, no deflagrar dos anos 2000” (CARVALHO; RODRIGUES 
JÚNIOR, 2019, p. 279 – 280). 
29 “A rigor, é fincando-se nesta perspectiva de regulação dos conflitos de classe que os governos 
petistas assumem a ideologia da conciliação de classes, como uma ‘forma específica de consciência 
social, materialmente ancorada e sustentada’ (MÉSZÁROS 2004, p. 65 apud CARVALHO; 
RODRIGUES JÚNIOR, 2019, p. 281). 
30 “[...] aumento real do salário-mínimo com repercussões efetivas aos benefícios previdenciários 
indexados a este salário-mínimo; acesso popular ao crédito bancário; Bolsa Família como projeto 
socioassistencial extremamente ampliado, a atingir populações pobres e extremamente pobres nas 
periferias urbanas e no meio rural, chegando aos mais distintos grotões do país” (CARVALHO; 
RODRIGUES JÚNIOR, 2019, p. 281). 
31 “Este chamado neodesenvolvimentismo brasileiro, no limiar da segunda década do século XXI, vem 
envolto em uma perspectiva ideológica que parece mesclar elementos do desenvolvimentismo do 
século XX com noções e ideias peculiares ao ajuste estrutural do país” (CARVALHO; RODRIGUES 
JÚNIOR, 2019, p. 283). 
37 
 
processo que se estende pelos primeiros anos do governo Dilma Rousseff. Procura-
se preservar como estratégia o combate à pobreza, visando a “perspectiva de adesão 
das massas”. De certo, tais estratégias não obtiveram tanto sucesso do decorrer da 
gestão Dilma e foram sendo fragilizadas pela crise do capital e pela falta de apoio dos 
setores dominantes da burguesia (CARVALHO; RODRIGUES JÚNIOR, 2019). 
O contexto de incertezas, foi aos poucos minando o modelo de “conciliaçãode 
classes” empreendido pelos governos petistas desde de 2003. E o princípio de seu 
esgotamento foi marcado pelos inúmeros protestos que ocorreram no ano de 201332. 
Um desejo de “mudança” que foi devidamente explorado e inflamado pela extrema-
direita, no intuito de pavimentar os caminhos que levaram ao golpe de 2016. O 
segundo mandato da presidenta, foi atravessado pelas imposições da agenda 
neoliberal, que exigiam cortes substanciais dos investimentos públicos (CARVALHO; 
RODRIGUES JÚNIOR, 2019). 
A falência deste modelo é representada pela estruturação do golpe de 2016, 
que levou Michel Temer à presidência. Com o colapso da conciliação de classes dos 
governos petistas, um novo arranjo político foi construído formado por segmentos 
distintos das classes dominantes. O rearranjo que deu os alicerces concretos para o 
ápice da ofensiva neoliberal sob os direitos promulgados em 1988 e, posteriormente, 
pelo ECA em 1990. 
O Golpe de Estado de 2016 bem consubstancia a alternativa das forças do 
capital para manter as taxas de lucro, no contexto de crise. Nesta perspectiva, 
o governo de Michel Temer, emergente do golpe, opta por uma versão do 
modelo rentista-neoextrativista alicerçado na superexploração da força de 
trabalho, com desmonte de direitos e conquistas dos trabalhadores, atingindo 
fortemente os segmentos pauperizados. E, assim, constituiu-se o cenário 
político da ofensiva neoliberal restauradora, fundada na radicalização das 
políticas neoliberais, no desmonte de direitos sociais, na espoliação das 
riquezas nacionais e no desmanche de políticas públicas, penalizando, 
fortemente, a classe trabalhadora (CARVALHO; RODRIGUES JÚNIOR, 
2019, p. 286). 
 
 Efetivamente, em seus quase três anos de mandato, o governo Temer foi 
competente no que tange as contrarreformas do Estado e o desmonte da conquista 
dos direitos sociais mediante políticas públicas de qualidade, bem como os demais 
direcionamentos pactuados na Constituição. Como expressão mais significativa 
 
32 Conforme explica Filgueiras e Druck (2019) “Especificamente no Brasil, o momento de inflexão que 
dá início à conjuntura foi a eclosão das manifestações massivas de 2013, [...] Em sua esteira, vieram a 
desqualificação e a demonização da política, dos partidos políticos e sintetizadas na ‘luta contra a 
corrupção’; que se desdobrou, posteriormente, no ataque ao Estado em geral, mas sobretudo ao 
Estado social, e a tudo que é público e coletivo, tendo como contraposição o individualismo e a 
meritocracia”. 
38 
 
desses ataques temos a Emenda Constitucional n° 95 que impõe efeitos desastrosos, 
ao congelar os gastos públicos com as políticas sociais por 20 anos. 
Este golpe culmina com a ascensão da extrema-direita ao poder, 
conformando o fenômeno do “bolsonarismo”, a partir de uma perigosa 
combinação de ultraneoliberalismo, de militarismo e de reacionarismo 
político-social, a instaurar tempos sombrios de obscurantismo e barbárie 
(CARVALHO; RODRIGUES JÚNIOR, 2019, p. 287). 
 
 A conjuntura pós-golpe, constituiu-se como um cenário sublime para o 
fortalecimento da direita conservadora, tendo como seu principal expoente Jair 
Bolsonaro e seu discurso que evidencia violações e desrespeitos33 aos direitos sociais 
e humanos, e de ataque a própria democracia, mas que em 2018 consegue chegar à 
presidência da república, materializando mais uma vitória neoliberal. 
 Assim refletimos que, os caminhos que desenham mais este triunfo do capital, 
patenteado pela ascensão de Bolsonaro, são os mesmos que denotam a fragilidade 
da democracia-social que tentou ser construída no Brasil desde 1988, mas sem os 
reais investimentos vai sendo “empurrada com a barriga” gestão após gestão, com 
algumas ressalvas. 
Até chegarmos ao estágio que enfrentamos atualmente, de onde emergem 
vigorosamente as violações de direitos, a criminalização e estigmatização da pobreza, 
o aumento da desigualdade social e da miséria e a desresponsabilização do Estado; 
Dimensões cruéis do capital e, sobretudo do neoliberalismo, que são legitimadas e 
reproduzidas diretamente pelo próprio presidente. 
 Como é colocado por Filgueiras e Druck (2019): 
Em todos os casos, em maior ou menor grau, esse movimento representa e 
articula, de forma aparentemente bizarra, um conjunto de interesses e 
tendências ideológicas, que podem ser resumidos em: ultra-neoliberalismo, 
autoritarismo político (desqualificação do Estado Democrático de Direito), 
nacionalismo efetivo ou retórico (contra a “globalização”), xenofobismo 
(contra a imigração), reacionarismo moral e cultural (anti-iluminista), 
fundamentalismo religioso cristão (católico e, principalmente, evangélico). 
 
 Vivemos um contexto de aumento dos abismos sociais mediante o crescimento 
das desigualdades, agudizadas pela pandemia do COVID-1934, que veio evidenciar a 
 
33 “Mobilização que assume um caráter permanente de luta político-ideológico agressiva, que aponta 
para a negação e eliminação dos adversários – responsáveis, supostamente, por todos os problemas 
do país. Adicionalmente, esse movimento se caracteriza por forte conotação emocional e de 
irracionalidade: anti-iluminista, anti-intelectual e desprezo pela teoria – com uso sistemático da mentira 
e da falsidade histórica, praticando distorção da linguagem e dos objetos que ela designa” 
(FILGUEIRAS; DRUCK, 2019). 
34 Soares, Correia e Santos (2021, p. 120) afirmam que “É necessário ressaltar o caráter histórico e a 
determinação social da pandemia, tendo em vista a racionalidade e o caráter destrutivo da sociabilidade 
39 
 
incompetência intencional 35 desse desgoverno, que se pauta na reprodução de 
incoerências e na negação da ciência e das demais áreas do conhecimento. 
Infelizmente para todos os brasileiros, esta gestão só é capaz de fomentar a 
irracionalidade e o senso comum, que reproduz a violência nos atos e nas palavras. 
Dentro dos limites deste estudo, não poderemos fazer mais aprofundamentos sobre o 
desgoverno Bolsonaro, assim seguiremos com outras análises sobre ofensiva 
neoliberal contra os direitos sociais. 
 A retomada política desenvolvida nos parágrafos acima, faz-se necessária para 
o entendimento dos determinantes estruturais que contribuem para perpetuação das 
violações de direitos, apesar de darmos um panorama mais geral sobre a ofensiva do 
capital, todos os direcionamentos apontados ao longo desta sessão remontam as 
ações que, no decorrer da história, foram desestabilizando o processo de 
consolidação da Constituição (1988) e, consequentemente, do ECA, uma vez que o 
Estatuto nasceu a partir da nossa carta magna. 
 Diante do exposto, averiguamos que no início da década de 1990, pouco anos 
depois de sua promulgação, as deliberações consagradas pela Constituição (1988) já 
estavam sendo questionadas, em um momento de abertura mais intensa ao 
neoliberalismo. E, aos poucos, vão se formulando alternativas para retardar a 
materialização dos direitos sociais através das políticas públicas. Desse modo, 
buscamos entender porque estas legislações, com direcionamentos e orientações tão 
avançadas, não conseguem alcançar a efetividade e a amplitude necessárias. Diante 
dos apontamentos anteriores, concluímos que as condições para essa (re)evolução 
nunca foram proporcionadas, integralmente. 
 Quanto a isso, Behring e Boschetti (2011, p. 156) argumentam que: 
As possibilidades preventivas e até eventualmente redistributivas tornam-se 
mais limitadas, prevalecendo o já referido trinômio articulado do ideário 
neoliberal para as políticas sociais, qual seja: a privatização, a focalização e 
a descentralização36. 
 
capitalista contemporânea, inclusive na sua mediação com o meio ambiente, e na configuração como 
a covid-19 se espraiou mundialmente, agudizando as desigualdadessociais existentes.” 
35 “A política genocida que foi adotada pelo governo, seu caráter negacionista, ultraliberal e 
protofascista, não considera as evidências científicas, oculta dados, naturaliza as mortes e provoca a 
flexibilização das medidas recomendadas pela ciência e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) 
em nome do mercado. [...] Além disso, uma característica importante do seu governo tem sido a 
inexistência de uma intervenção nacional consolidada, com orientações para estados e municípios, 
promovendo, intencionalmente, uma fragmentação de decisões por parte dos governos estaduais e 
municipais” (SOARES; CORREIA; SANTOS, 2021, p. 119-120). 
36 Nesse sentido, a “descentralização” não é entendida como uma partilha do poder entre as esferas 
públicas, mas sim como mera transferência de responsabilidades para entidades da federação e 
instituições privadas (BEHRING, BOSCHETTI, 2011). 
40 
 
 
 A partir deste “trinômio articulado do ideário neoliberal” citado pelas autoras, 
entendemos como as políticas públicas que deveriam garantir os direitos chegam 
fragmentadas e fragilizadas na vida da população usuária, não existe uma unidade e 
continuidade de ações, e como maior agravante o usuário ainda tem que provar 
constantemente que está em situação de miséria absoluta para mostrar que merece 
ter acesso a um direito, que deveria ser universal e indivisível. 
Diante dessa desestabilização das conquistas constitucionais, Behring e 
Boschetti (2011, p. 147) reforçam ainda que: 
Os anos 1990 até os dias de hoje têm sido de contrarreforma do Estado e de 
obstaculização e/ou redirecionamento das conquistas de 1988, num contexto 
em que foram derruídas até mesmo aquelas condições políticas por meio da 
expansão do desemprego e da violência. 
 
 A partir destas considerações, reiteramos a relevância de se entender as 
circunstâncias onde se desenvolvem os direcionamentos sociais brasileiros, a julgar 
pelo grande crescimento neoliberal, ao passo que se construíam formas de 
enfrentamento das mazelas da pobreza e da desigualdade 37 , encontramos uma 
enorme contradição38 construída sob a perspectiva de uma legalidade constitucional 
que em seu interior traz a exigência de um Estado atuante, à medida que vivemos em 
um sistema que preza pela diminuição do Estado (MONDAINI, 2007). 
 Em suma, salientamos que as décadas rememoradas acima, sobretudo a de 
1990, foram palco de grandes transformações das condições sociais e econômicas 
na sociedade brasileira. Entre os progressos e retrocessos encontramos as raízes dos 
problemas que vivenciamos atualmente e entendemos a importância da organização 
dos movimentos de luta e enfrentamento da atual conjuntura. Ademais, tais reflexões 
fundamentarão a análise sobre a construção e efetivação do Estatuto da Criança e do 
Adolescente – ECA, a ser desenvolvida nas sessões seguintes. 
 
 
 
 
37 “[...] aos direitos sociais, a produção e a reprodução da exclusão continuam a ser a tônica, dando 
forma a uma verdadeira fabrica especializada na formação de novos contingentes populacionais 
situados completamente à margem do acesso aos bens materiais indispensáveis à sobrevivência” 
(MODAINI, 2007, p. 76 – 77). 
38 “Será exatamente dessa grave contradição entre ‘uma legalidade constitucional progressista’ e ‘uma 
realidade político-econômica conservadora’ que advirão tanto a atual crise como grande parte dos 
nossos conflitos sociais” (MONDAINI, 2007, p. 80). 
41 
 
3. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE: CRIANÇAS E 
ADOLESCENTES COMO SUJEITOS DE DIREITOS 
 
3.1 A CONSTRUÇÃO DA DOUTRINA DA PROTEÇÃO INTEGRAL: A LUTA DOS 
MOVIMENTOS SOCIAIS DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E OS 
AVANÇOS ADVINDOS DESTA CONCEPÇÃO 
 
 A construção do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei n° 8.069/90), 
representa uma vitória grandiosa na luta pelos direitos da infância e juventude. É um 
passo revolucionário, que marca o nascimento de novos paradigmas em relação a 
cidadania desses sujeitos. Enfatizando o reconhecimento desses indivíduos como 
pessoas em condição peculiar de desenvolvimento39, conforme explicita o art. 6 do 
ECA (BRASIL, 2019). 
 Dentro dessas perspectivas inovadoras para o cuidado e atenção ao público 
infanto-juvenil, do ECA advém a concepção de proteção integral de crianças e 
adolescentes, objetivando a universalização dos direitos fundamentais que 
preconizam condições dignas de desenvolvimento e envolvem diversas áreas da vida, 
tais como acesso a convivência familiar e comunitária, à educação, à saúde, à 
alimentação, ao lazer e ao esporte, entre outras dimensões que contribuam para o 
seu crescimento, como fundamenta o ECA em seu art. 4 (BRASIL, 2019). 
 Nesta seção buscaremos retomar, mediante o exposto na seção 2.1, os 
determinantes que levaram a construção deste Estatuto, bem como a sua relevância 
na consumação dos direitos das crianças e adolescentes, almejando entender os 
avanços alcançados por esse documento. 
 Quanto a isso, Schwan e Shweikert (2020, p. 111) afirmam que: 
Não apenas conferiu, pela primeira vez na história, o status de sujeitos de 
direitos às pessoas em desenvolvimento, garantindo-lhes proteção integral 
com prioridade absoluta, mas também buscou favorecer – ao menos no plano 
normativo – as condições para que, de fato, tais sujeitos pudessem exercer 
sua cidadania e ocupar seu lugar no mundo, quer nos espaços públicos, quer 
nos espaços privados. 
 
 
39 “O reconhecimento dessa condição peculiar remete ao respeito ao processo de desenvolvimento da 
criança e do adolescente com o aprovisionamento de condições familiares, sociais, ambientais e 
educacionais em cada etapa do seu crescimento, para que possam expandir suas capacidades 
individuais a sua sociabilidade” (GUARÁ, 1995 apud SALES, 2010, p. 211). 
42 
 
 É esta quebra dos paradigmas conservadores e coercitivos de formas de 
intervenção anteriores – como os Códigos de Menores (1927 e 1979) – que torna o 
ECA um avanço extraordinário, pela primeira vez na história se busca o entendimento 
da totalidade desses sujeitos e a valorização de determinantes que incentivem seu 
crescimento, mediante a doutrina da proteção integral, que primeiramente foi colocada 
na Constituição Federal de 1988. 
 Como afirma Marques (2011, p. 43): 
O art. 227 da Constituição Federal traz um grande avanço com relação aos 
direitos da Criança e do Adolescente, introduzindo no direito brasileiro o que 
preconiza a Doutrina da Proteção Integral da Organização das Nações 
Unidas. Este avanço requerido pela sociedade mudou a concepção da 
Criança e Adolescente e fez com que o Código de Menores de 1979 – que 
tratava a criança e adolescente como objeto da lei a ser aplicada – não 
estivesse mais de acordo com a realidade social, política e jurídica brasileira. 
 
 O ECA é um marco de ruptura com os segmentos que visavam apenas o 
controle da infância e adolescência pobres, visto que as legislações anteriores 
estavam sempre preocupadas com o domínio dessa população, através da 
institucionalização e das medidas punitivas. Em referência a esse rompimento 40, 
podemos fazer um pequeno apanhado sobre os eventos e mobilizações que 
antecederam o nascimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, buscando 
aprofundar os determinantes já mencionados no 2.1. 
 Inicialmente, torna-se importante rememorar as condições conjunturais onde 
se cria o Estatuto, explicitadas na última seção deste estudo (2.2). O contexto 
recrudescimento do ideário neoliberal 41 , também é fortemente marcado pela 
inquietude de diversos movimentos populares, entre eles os de defesa das crianças e 
adolescentes, como veremos mais à frente. 
O cenário pré-constitucional evidencia o fervor das mobilizações e embates 
entre as forças políticas, no tensionamento pela convocação da Assembleia 
Constituinte.De acordo com Faleiros (2011, p. 74 – 75): 
A partir das lutas e pressões sociais, e dentro das correlações de forças 
possíveis, em 1986, o Congresso Nacional funciona também como 
Assembleia Constituinte. As forças militares haviam vetado a convocação de 
uma assembleia constituinte exclusiva. O debate constituinte, no entanto, 
mobiliza tanto os lobbies de conservadores e de grandes empresas, como as 
organizações populares. 
 
40 Destaca-se que esse rompimento ainda não alcançou a superação total da institucionalização e das 
medidas punitivas, na atualidade muitas são as vertentes conservadoras que incentivam essas 
práticas, sobretudo, através do apelo pela aprovação da “redução da maioridade penal”. 
41 Como já destacado, o ECA nasce apesar do avanço do neoliberalismo sob as deliberações 
consagradas na Constituição. 
43 
 
 
 Nesse momento, é posto em evidencia, juntamente com outras demandas 
sociais, os direitos das crianças e adolescentes através de inúmeras organizações 
que se posicionam fortemente na negação do Código de Menores de 1979 e dos 
demais dispositivos que legitimavam suas orientações, como a FUNABEM e as 
FEBEMs. Entre as organizações em destaque, temos o Movimento Nacional de 
Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), a Pastoral do Menor, ONGS e entidades de 
defesa dos Direitos Humanos, que apresentam suas demandas e reflexões de acordo 
com discussões que aconteciam internacionalmente42 (FALEIROS, 2011). 
 Sobre essas mobilizações Vogel (2011, p. 309), confirma que: 
Os anos 1984-86 representaram, de acordo com essa perspectiva, um 
momento de acumulação de forças. Esta levaria, em 1985, à concretização 
de uma nova identidade política que enfeixava os grupos que, em diversas 
esferas, haviam se distinguido pela militância em favor de crianças e 
adolescentes. Tal identidade, consubstanciada na Coordenação Nacional do 
Movimento de Meninos e Meninas de Rua constituiu-se uma oposição à 
“doutrina da situação irregular”, consagrada pelo Código de Menores 1979 
[...]. 
 
 Diante do período em questão, Faleiros (2011) destaca a chamada “cata de 
assinaturas” 43 para subsidiar as quatro emendas populares sobre o tema, que 
chegariam ao plenário. Como uma das primeiras conquistas desta luta, o autor ainda 
ressalta que: 
A Comissão Nacional da Criança e Constituinte, instituída por Portaria 
Interministerial, com vários órgãos do governo e da sociedade consegue 
1.200.000 assinaturas para sua emenda e, além disso, fez intenso lobby junto 
a parlamentares para que se crie a Frente Parlamentar suprapartidária pelos 
direitos da criança e do adolescente, multiplicando-se no país os fóruns DCA 
de Defesa da Criança e do Adolescente (FALEIROS, 2011, p. 75 – 76). 
 
 Vogel (2011, p. 309 – 310) também reforça que: 
Assim, consolidou-se uma articulação do setor público federal, através de sua 
vanguarda técnica, com organismos da chamada sociedade civil. Esse 
movimento conseguiu transformar em preceito constitucional as concepções 
fundamentais da Convenção Internacional dos Direitos da Criança, 
antecipando-se à sua aprovação, que só ocorreria em 1989. 
 
 
42 Com destaque para as Regras de Beijing (1985), as Diretrizes de Riad (1988) e, mais tarde, a 
Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (1989) (FALEIROS, 2011, p. 75). 
43 Conforme explica Cunha (2015), o processo de construção da Constituição Federal de 1988 foi 
marcada por diversas estratégias de garantia da participação popular, entre elas estava a realização 
de audiências públicas e a apresentação de emendas populares para a apreciação da Comissão de 
Sistematização. Cada proposta deveria ser enviada por no mínimo três entidades associativas, 
legalmente constituídas, e acompanhadas de pelo menos 30 mil assinaturas de eleitores brasileiros. 
44 
 
 Tais articulações trazem demandas e posicionamentos extremamente 
inovadores para a proteção de crianças e adolescentes, concepções que anteciparam 
a Convenção Internacional dos Direitos da Criança da ONU de 1989, como frisado por 
Vogel (2011). Demostrando que o ECA, jamais poderia ter sido alcançado sem essas 
mobilizações 44 que fizeram frente e lutaram pela construção das emendas que 
alicerçaram a constitucionalização dos direitos das crianças e adolescentes e 
pavimentaram o caminho para promulgação do Estatuto. Além do mais, tendo em 
conta o robustecimento neoliberal que se desenhava no limiar da década de 1990. 
 Assim, em 1988, com a efetivação da Constituição Federal, são colocados 
também os direitos infanto-juvenis, explicitados no Capítulo VII, arts. 227, 228 e 229, 
afirmando que: 
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, 
adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à 
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade 
e ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de 
colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, 
violência, crueldade e opressão. 
Art. 228. São penalmente imputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos 
às normas da legislação especial. 
Art. 229. Os pais têm dever de garantir, de assistir, criar e educar os filhos 
menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparara os pais na 
velhice, carência ou enfermidade. 
 
 Após este triunfo, a mobilização dos movimentos sociais continuou a pressionar 
para que os avanços não estagnassem somente nesses artigos constitucionais. Tal 
conquista foi excepcionalmente significativa, mas ainda era necessário que essas 
deliberações alçassem novos parâmetros e direcionamentos, através da elaboração 
do documento que, partindo do princípio constitucional, trouxesse uma totalidade 
maior para proteção da infância e juventude. 
 Em atenção a essa totalidade, Martins (2010, p. 197) enfatiza que: 
[...] os direitos da criança possuem ainda duas peculiaridades básicas: 
supõem necessariamente um conjunto de ações que atravessam diversas 
políticas setoriais (saúde, educação etc.), e sua defesa é capaz de articular 
diversas tendências políticas, religiões, e grupos sociais de orientações 
distintas. 
 
 O entendimento desta concepção torna-se essencial quando analisamos os 
fatores que influem na real efetividade do ECA, pois se entende que a concretização 
das disposições do Estatuto supõe um investimento significativo nos equipamentos 
 
44 “A inclusão da participação social enquanto princípio teórico-prático no arcabouço jurídico-legal do 
Estado diz respeito diretamente ao processo constituinte e à Constituição Federal de 1988, visto que 
estes representaram a intenção de ampliação e execução dos direitos” (SOUZA, 2010, p. 176). 
45 
 
públicos que garantam à saúde, à educação, à alimentação, à moradia de qualidade. 
Assim como à convivência familiar, que perpassa dimensões ainda mais abrangentes, 
pois estão diretamente relacionadas as condições socioeconômicas do núcleo 
familiar, e, consequente, ao acesso dos responsáveis ao vínculo empregatício e a 
renda fixa. 
 Nesse interim pós-constitucional, organizações como o MNMMR45 e a Pastoral 
do Menor, continuam ganhando força e espaço nas discussões, lutando pela 
elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente. Esses movimentos, que já 
haviam estabelecido um papel ativo na Constituinte, agora, juntamente com o Fundo 
das Nações Unidas para Infância – UNICEF, realizam diversos encontros e 
negociações, a fim de pressionar para que o Estatuto fosse sancionado em tempo 
recorde, apenas dois anos depois da Constituição. Desse modo, em 13 de julho de 
1990 nasce o ECA (FALEIROS, 2011). 
 Em face desse processo de criação, Faleiros (2011, p. 81) afirma que: 
O Estatuto da Criança e do Adolescente, de julhode 1990, revoga o Código 
de Menores 1979 e a lei de criação da FUNABEM, trazendo detalhadamente 
os direitos da criança e do adolescente já em forma de diretrizes gerais para 
uma política nessa área. Adota expressamente em seu artigo 1° a Doutrina 
da proteção integral que reconhece a criança e o adolescentes como 
cidadãos. 
 
 Vogel (2011, p. 310) ainda reitera que: 
Essa vitória resultou na consagração da “doutrina da proteção integral”. Com 
a “doutrina da situação irregular”, entretanto, caiu a Política Nacional do 
Menor, e esta arrastou consigo a sua, como diz Gomes da Costa, sua “irmã 
siamesa” – a FUNABEM46. 
 
Diante desse processo de criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, 
Vogel (1995 apud MENDES; MATOS, 2010, p. 244) conota a existência de dois fatores 
principais, o autor afirma que: 
O panorama atrás esboçado é importante para entendermos como se deu a 
conquista histórica dos direitos das crianças e dos adolescentes, no país. 
Sustentamos que a conquista é uma confluência de dois itens, um “externo” 
e outro “interno” à área da infância e da juventude. A característica externa 
envolve a conjuntura da década de 80, permeada pela redemocratização do 
 
45 Reforçando a importância desse movimento, Barbetta (1993, p. 170 FALEIROS, 2011) afirma que o 
MNMMR vem contribuir fortemente para a luta, através da realização de três encontros (1986, 1989, 
1990) em Brasília, colocando a questão da política para a infância como um debate nacionalmente 
conhecido, obtendo o apoio internacional, ele organiza seus estatutos, sua administração e ganha 
espaço nos fóruns governamentais e não governamentais sobre a criança, reconhecendo-lhes como 
cidadãos, sujeitos de direito. 
46 “Logo após tomar posse na Presidência da República, Collor de Mello encaminha um projeto de 
reforma administrativa no qual aparece a nova denominação da Fundação Nacional do Bem-Estar do 
Menor que passa ter o nome de CBIA – Fundação Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência, o 
que é consagrado na Lei n. 8.029 de 12 de abril de 1990 (artigo 13)” (FALEIROS, 2011, p. 81). 
46 
 
país, e pela mobilização da sociedade civil. [...] Extrapolando essa 
característica externa, podem ser destacados dois aspectos. O primeiro foi a 
crise do modelo de proteção adotado pela FUNABEM. [...] Ao mesmo tempo, 
sugiram em seu corpo técnico pessoas com uma visão crítica e propostas de 
mudanças institucionais 
 
 O ECA tem como incumbência regulamentar o texto constitucional, fazendo 
com que os direcionamentos anunciados, sobretudo no artigo constitucional 227, 
sejam efetivados. Uma vez que a lei proclamada somente por si, não garante as 
estruturas e políticas eficazes no sentido de assegurar fisicamente os direitos 
conquistados (VERONESE,1997, p. 15 apud MARQUES, 2011). 
 Tal regulamentação dos progressos constitucionais, combinados com a 
implantação, mesmo que vagarosa do Estatuto – devido a resistência de alguns 
setores da sociedade –, busca propiciar uma revolução nas áreas social, política e 
jurídica. Primeiramente, nota-se a mudança no conceito de criança e adolescente, 
visto que, de antemão, eram entendidas como fases da vida desprovidas de direitos, 
necessitando apenas de tutela e mediante a consagração do ECA, eles tornam-se 
titulares de seus próprios direitos (LEAL, 2010) 
 Além disso, o próprio termo “menor” usado para se referir a infância e 
juventude, anteriormente, foi superado para expressar a totalidade e universalidade 
previstos no ECA. Pois “menor” geralmente era usado de forma desdenhosa, para se 
referir a infância e juventude pobre. Uma superação importante no que tange a nova 
definição de criança e adolescente, como sujeitos em desenvolvimento, buscando 
afastar-se das intervenções punitivas47 e, meramente de controle da pobreza. 
Para Marques (2011, p.44): 
O ECA estabelece uma nova concepção de Criança e Adolescente, 
independente de uma suposta situação irregular e contempla a doutrina da 
proteção integral. Rompe-se a separação entre menor e criança e reverte-se 
a imagem negativa que segrega e reprime a Criança e Adolescente pobre, 
criando-se uma lei que obriga o Estado a protege-los, independentemente de 
sua condição social. 
 
 Nessa percepção, rompe-se com a estigmatização formal da infância e 
juventude pobre englobadas, precedentemente, pelo termo “menoridade”. Além da 
busca por cessar a judicialização do atendimento a este grupo, atentando-se para 
igualdade de direitos a todas as crianças e adolescentes “independentemente de suas 
 
47 A exemplo das ações empreendidas pela FUNABEM, Vogel (2011, p. 308) cita que “[...] da concepção 
hibrida do atendimento (correcional-repressivo e assistencialista), seja dos seus parâmetros de gestão 
centralizadora e vertical, que visam a reprodução estereotipada de padrões uniformes de atenção direta 
ao menor, representado como um feixe de carências.” 
47 
 
diferenças de classe social, gênero, etnia ou quaisquer outras; [...]” (MENDES; 
MATOS, 2010, p. 245). 
 O ECA também vem estabelecer a articulação do Estado com a sociedade, 
operacionalizando a política através da criação dos Conselhos de Direitos48 – como o 
Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente49 (CONANDA) e suas 
instâncias estaduais e municipais 50 – e dos Conselhos Tutelares, que fazem a 
gerência de fundos de atenção à criança e ao adolescente. Esse avanço busca 
garantir a descentralização da política51, determinando a criação desses conselhos a 
nível estadual e municipal, além de colocar a criança como prioridade no acesso às 
políticas sociais (FALEIROS, 2011). 
Essa perspectiva de criação dos conselhos disposta pelo ECA, vem seguir as 
tendências decentralizadoras colocadas pela Constituição Federal, assim como a 
“efetivação de um Sistema de Garantia de Direitos – SGD52” (FÁVERO; PINI; SILVA, 
2020, p. 16). Almejando uma inovação nas políticas e uma perceptível intenção de 
reforma, como refletem Behring e Boschetti (2011, p. 178): 
A criação dos conselhos fez parte de um momento histórico no qual se 
supunha estar dentro de uma onda democrática no Brasil e no mundo, com o 
fim dos regimes militares na América Latina e as mudanças no leste europeu. 
Nessa estratégia foram e são depositadas as melhores energias de sujeitos 
políticos e movimentos sociais com compromissos democráticos [...]. 
 
 Os conselhos se empenham em realizar diagnósticos das condições de vida 
das crianças e adolescentes em seus estados e municípios, objetivando a cobrança 
 
48 “Nessa direção, observamos que se os Conselhos têm grandes potencialidades como arenas de 
negociação de propostas e ações que podem beneficiar milhares, milhões de pessoas, e de 
aprofundamento da democracia, há também dificuldades para a realização dos sentidos da participação 
e pleno desenvolvimento na direção acima apontada” (BEHRING; BOSCHETTI, 2011, p.178). 
49 “A Lei n. 8242 que cria o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescentes (CONANDA) 
é promulgada em 12 de outubro de 1991, mais de um ano após a vigência do ECA, mas a posse dos 
conselheiros ocorre mais de um ano depois da lei [...], realizando-se a sua primeira reunião de trabalho 
em 18 de março de 1993” (FALEIROS, 2011, p. 83). 
50 Em Natal, essa instância é representada pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do 
Adolescente do Natal – COMDICA, sendo responsável pelo controle e deliberação quanto a política 
municipal dos direitos infanto-juvenis, atuando de forma integrada com as políticas básicas em nível 
municipal, estadual e nacional, e na definição de estratégias e prioridades para atender o Plano de 
Ação Municipal de atendimento da política dos direitos da criança e do adolescente (NATAL, 2015). 
51 “A redemocratização do Estado brasileirofez surgir uma nova institucionalidade, um novo desenho 
do seu sistema federativo que aponta para a descentralização e para o fortalecimento da capacidade 
decisória das instancias subnacionais – estados e municípios -, ao contrário da trajetória histórica das 
políticas sociais brasileiras, que desde 1930, tiveram uma gestão centralizada pelo governo federal” 
(SOUZA, 2010, p. 176). 
52 “Nessa perspectiva foi desenhado o Sistema de Garantia de Direitos para assegurar a proteção 
integral da criança e do/a adolescente. A práxis desse Sistema se pauta pela interdependência dos 
direitos fundamentais, principio assegurado no Estatuto da Criança e do Adolescente [...] 
(LANFRANCHI, 2020, p. 160). 
48 
 
de ações que implementem o disposto no ECA, baseado na correlação de forças 
dentro dos próprios conselhos, sua operacionalização pauta-se em inúmeros debates 
no esforço de definir as funções previstas no Estatuto (FALEIROS, 2011). 
 No que tange à administração nacional, o CONANDA é um espaço público e 
institucional de composição partidária, constituído por órgãos governamentais e da 
sociedade civil. Tendo poder decisório e regulador de ações em todos os níveis, dentro 
da Política Nacional de Promoção, Atendimentos e Defesa de Crianças e 
Adolescentes (SALES, 2010). 
 Atualmente esse Conselho encontra-se vinculado ao Ministério da Mulher, da 
Família e dos Direitos Humanos. Prossegue atuando na definição e fiscalização de 
políticas para infância e juventude, na gestão do Fundo Nacional para Criança e 
Adolescente (FNCA), regulando a utilização desses recursos em ações que venham 
promover a proteção e garantia dos direitos da criança e do adolescente, de acordo 
com os direcionamentos do ECA. Bem como na convocação, a cada três anos, da 
Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (BRASIL, 2018). 
 Considerando a criação dos conselhos, deve-se dar destaque também para os 
Conselhos Tutelares. Tais órgãos53 são formados por representantes da comunidade, 
escolhidos a cada três anos. Os conselheiros tutelares têm a responsabilidade de 
fiscalizar o cumprimento dos direitos das crianças e dos adolescentes, atuando nos 
casos de violação ou ameaça de omissão dos pais, do Estado, ou pelo seu próprio 
comportamento (MENDES; MATOS, 2010). 
 Voltando-se agora para estrutura legal do Estatuto da Criança e do 
Adolescente, faz-se importante entendermos como as disposições e direcionamentos 
do documento estão organizados. Estruturalmente, o ECA é dividido em duas partes: 
Livro I – Parte Geral e Livro II – Parte Especial. Sendo composto por 267 artigos. 
 O primeiro Livro, traz as disposições preliminares sobre a Lei, em atenção a 
como ela deve ser interpretada e qual o alcance dos direitos previstos por ela, 
apontados como direitos fundamentais (DIAS, 2020). Entre eles temos: o direito à vida 
e à saúde, à liberdade, ao respeito e à dignidade; à convivência familiar e comunitária, 
apresentando as definições de família natural e substituta, assim como guarda e 
 
53 “[...] é um órgão sui generis, uma vez que não se enquadra nos moldes conceituais tradicionais, 
porque nem constitui totalmente um órgão público (entendido como governamental) nem configura um 
órgão do movimento social. O conselho representa a síntese dessas duas dimensões” (MENDES; 
MATOS, 2010, p. 248). 
49 
 
adoção; e o direito à educação, cultura, esporte e lazer, à profissionalização e 
proteção no trabalho, bem como prevenções, produtos e serviços e autorização para 
viajar (BRASIL, 2019). 
 No Livro II são firmadas, principalmente, as diretrizes da política de 
atendimento, evidenciando o papel assumido pelos órgãos que compõe a rede de 
atendimento54 (MENDES; MATOS, 2010). Desse modo, são colocadas as disposições 
sobre: a Política de Atendimento, das Entidades de Atendimento, da fiscalização 
dessas Entidades; das Medidas de Proteção, da Prática de Ato Infracional, dos 
Direitos Individuais e Garantias Processuais; das Medidas Socioeducativas, 
advertência, reparação de danos, assim como demais disposições referentes a atos 
infracionais; colocando também as definições e responsabilidades dos conselhos 
(BRASIL, 2019). 
 Salientamos que em algumas edições do ECA, ainda são incluídas leis 
sancionadas nos últimos anos, que visam contribuir com os direcionamentos do 
Estatuto, como: Lei de Alienação parental (Lei n° 12.318/2010); Lei do Sistema 
Nacional de Atendimento Socioeducativo – SINASE (Lei n° 12.594/2012); Lei Menino 
Bernardo (Lei n° 13.010/2014); Lei da Primeira Infância (Lei n° 13257/2016); Lei da 
Escuta (Lei n° 13.431/2017) e Adendo (Lei n° 13.798/2019 e Lei n° 13. 812/2019). 
 Em face do exposto, podemos refletir, juntamente, com Rizzini e Pilotti (2011) 
que o Brasil está na vanguarda no que tange o ordenamento jurídico da questão 
infanto-juvenil. O país alcança essa posição ao aprovar uma das leis mais avançadas 
do mundo, resultado da árdua luta dos movimentos sociais de defesa da criança e do 
adolescente, através de uma massiva participação social sem precedentes históricos 
nesse segmento. 
 Assim, tentou-se um rompimento das práticas e visões estigmatizantes e 
excludentes sobre a infância e juventude pobre, colocadas nos reformatórios e 
internatos como forma de controle dessa população, um registro histórico já abordado 
anteriormente. Apesar dessa valorosa conquista, muitas crianças e adolescentes 
brasileiros têm seus direitos violados diariamente, como demostram os indicadores 
 
54 Esta conceituação de trabalho em rede colocado pelo ECA, também é importante no entendimento 
da efetivação do Estatuto, visto que essa concretude pressupõe um trabalho bem articulado entre os 
serviços que compõem a rede de proteção e evidencia, novamente, a importância do investimento nos 
equipamentos públicos, para que esses possam oferecer um atendimento de qualidade. 
50 
 
sociais que equiparam o Brasil a alguns dos países mais pobres do planeta (RIZZINI; 
PILOTTI, 2010). 
 Tal afirmação não supõe dizer que o ECA estagnou no plano teórico, na 
verdade, o que seriam das crianças e adolescentes brasileiros se não houvesse o 
Estatuto? Nesses mais de 30 anos de existência, o ECA registra vitórias significativas 
no que tange à redução da mortalidade infantil, acesso à educação, e à diminuição do 
trabalho infantil. 
Como afirma Lanfranchi (2020, p. 160): 
No curso das últimas duas décadas, muito se fez pela proteção da Infância 
no Brasil. Para o aniversário de 30 anos do CDC, a UNICEF lançou um 
relatório com os principais avanços e desafios na área da Infância. Entre os 
avanços está a redução da mortalidade infantil, a ampliação da 
obrigatoriedade da escolaridade para 17 anos, a redução de crianças e 
adolescentes submetidas ao trabalho infantil, mas ressalta que as 11,8 mil 
meninas e meninos de 10 a 19 anos assassinados em 2017 habitavam 
territórios desprovidos de serviços básicos de saúde, assistência social, 
educação, cultura e lazer. 
 
Esse último dado, abre espaço para uma nova discussão a fim de se 
compreender como o ECA chega à infância e adolescência pobre, em condições 
insalubres de vida. Para mais, tais indagações irão prosseguir na próxima seção, 
mediante a reflexão sobre a efetividade do ECA. Como podemos observar temos um 
conjunto avançado de leis, que esbarram em inúmeros entraves ao avanço social 
impostos pelo sistema capitalista, que abarcam o desmonte e enfraquecimento das 
políticas públicas e, consequente, de legislações como o ECA. 
 Entretanto, antes empreendemos estas análises críticas, fez-se relevante 
entender a importância das deliberações consagradas pelo ECA, para 
compreendermos a verdadeira transformação que o Estatuto iria promover se 
conseguisse atingir a amplitude necessária. Além de demostrar a significânciada 
organização social na construção de avanços como o Estatuto da Criança e do 
Adolescente. 
 
 
3.2 CONCRETIZAÇÃO E EFETIVIDADE DOS DIRECIONAMENTOS DISPOSTOS 
NO ECA: A FRAGMENTAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A INFÂNCIA E 
JUVENTUDE E A FRAGILIZAÇÃO DA REDE DE PROTEÇÃO 
 
51 
 
 Na seção anterior trouxemos uma pertinente reflexão sobre a grande 
importância do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, bem como os 
determinantes sociais que levaram a sua promulgação em 1990. O ECA representa 
um passo extraordinário para os direitos da criança e do adolescente, alçando 
avanços sem precedentes, através da perspectiva de proteção integral desses 
sujeitos e do entendimento quanto a sua condição peculiar de desenvolvimento. 
 Apesar da grandiosidade desse avanço, faz-se relevante também analisar 
como o ECA se materializa na vida da infância e juventude, sobretudo quando 
colocamos na realidade de uma população em particular: crianças e adolescentes 
pobres. Torna-se necessária a constante retomada desta categoria, uma vez que a 
pobreza, juntamente, com outras expressões da questão social55, representa um 
elemento catalizador da desigualdade social e, consequentemente, da violação de 
direitos. 
 Como explica Yasbek (2001, p. 34): 
Pobreza, exclusão e subalternidade configuram-se, pois como indicadores de 
uma forma de inserção na vida social, de uma condição de classe e de outras 
condições reiteradoras da desigualdade (como gênero, etnia, procedência, 
etc.), expressando as relações vigentes na sociedade. São produtos dessas 
relações, que produzem e reproduzem a desigualdade no plano social, 
político, econômico e cultural, definindo para pobres um lugar na sociedade. 
 
 Colocando esta análise, de acordo com a definição de Yasbek, entendemos 
que a pobreza é um determinante que atinge amplamente diversos segmentos da vida 
dos sujeitos, que não implica somente o acesso a bens financeiros, mas as outras 
dimensões que constituem condições dignas de existência. Como observamos nas 
ultimas seções, ao passo que se buscam formas de superação da desigualdade social 
através do acesso aos direitos, também se aprofunda a ofensiva neoliberal capitalista 
contra essas garantias sociais. 
 Desse modo, Yasbek (2001, p.33) também afirma que: 
Questão que se reformula e se redefine, mas permanece substantivamente a 
mesma por se tratar de uma questão estrutural, que não se resolve numa 
formação econômico social por natureza excludente. Questão que, na 
contraditória conjuntura atual, com seus impactos devastadores sobre o 
trabalho, assume novas configurações e expressões entre as quais 
destacamos: 1 – as transformações das relações de trabalho; 2 – a perda dos 
padrões de proteção social dos trabalhadores e dos setores mais 
vulnerabilizados da sociedade que vêem seus apoios, suas conquistas e 
direitos ameaçados. 
 
55 Segundo Iamamoto (2006, p. 79) a questão social é apreendida como uma “[...] contradição 
fundamental que expressa a desigualdade inerente à organização vigente dessa sociedade: trabalho 
social e apropriação privada das condições e dos frutos do trabalho, que se traduz na valorização 
crescente do capital e no crescimento da miséria relativa do trabalhador.” 
52 
 
 
 Nessa perspectiva, partimos de uma ideia mais geral dos impactos da pobreza 
na vida dos indivíduos, a fim de entendermos como impacta, concomitantemente, a 
realidade de crianças e adolescentes, sobretudo no que tange os elementos 
formadores da proteção integral. Como colocado, anteriormente, esse paradigma 
fundante do ECA pressupõe o acesso assegurado à saúde, à educação, à 
alimentação, à moradia, à convivência familiar, entre outros fatores. É importante que 
a proteção integral compreenda os diversos aspectos externos constituintes da 
existência desses sujeitos. 
 Diante da compreensão dessa totalidade, Lanfranchi (2020, p. 159) coloca que: 
Trazer a face da diversidade com sua cor, cultura, e território, é fundamental 
para pensar a proteção integral, na perspectiva da universalidade e 
interdependência dos direitos. Isso implica entender que a proteção integral 
é para além do ECA, pois ela só é possível na complementariedade das 
diferentes áreas de proteção. Por isso, invocar a Lei de Diretrizes e Bases da 
Educação, o Estatuto da Juventude, o Estatuto da Pessoa com Deficiência, a 
Lei do Sistema Único de Saúde – SUS, a Lei do Sistema Único de Assistência 
– SUAS, o Estatuto do Índio, a Lei que versa sobre o ensino da história e 
cultura afro-brasileira nas escolas (Lei n. 10.639/03)56, a Lei de Diretrizes 
Orçamentária, entre outras, é essencial quando se pensa em proteção 
integral para uma Infância tão diversificada. 
 
 Entretanto, dentro das condições que buscamos analisar é evidente que essas 
dimensões da proteção integral – consideradas como essenciais para um 
desenvolvimento saudável – não estão de fato garantidas. Especialmente, quando 
atentamos para o massivo desmonte em curso das políticas públicas, mediante a 
ascendência neoliberal. Assim, ficamos diante de uma questão fundamental para este 
estudo: como a proteção integral pode se materializar, se as condições gerais não são 
proporcionadas? 
 Quando colocamos “condições gerais” estamos falando, justamente, do 
conjunto geral das políticas públicas – em especial, as políticas sociais formadoras do 
sistema de proteção social – que devem garantir o acesso aos direitos. Como refletido 
por Lanfranchi (2020, p. 159) “Não há dúvida de que o ponto nevrálgico da proteção 
integral está na construção e promoção das políticas públicas. Sem elas as proteções 
não acontecem.” Por conseguinte, torna-se um desafio pensar a consolidação da 
 
56 As tendências principiológicas e universalistas do ECA tendem, por vezes, a ocultar os segmentos 
menos visíveis, como as crianças indígenas e quilombolas, que ganharam destaque apenas com a Lei 
n° 12.010/2009 (art. 28, parágrafo 6, do ECA), e as crianças e adolescentes ciganas, que nem são 
mencionadas (LANFRANCHI, 2020). 
53 
 
proteção integral em condições de pobreza, miserabilidade e exclusão, em espaços 
que possuem um acesso extremamente restrito as políticas existentes. 
 Defronte dessa problemática, Fávero (2001 apud IAMAMOTO, 2010, p. 264) 
aponta que: 
[...] a vida cotidiana das crianças e adolescentes das classes subalternas – 
vitimados por uma ideologia de naturalização da pobreza e da violência social 
de um modelo concentrador de renda, propriedade e poder – não tem 
adquirido a devida visibilidade no espaço público. 
 
A infância e adolescência representa um dos segmentos socias que melhor 
exprime a concepção de cidadania e direitos humanos no Brasil. Entretanto, são 
também um grande alvo da violência social expressada na carência de projetos de 
vida, no desemprego e no acesso limitado aos serviços de saúde, educação, lazer, 
cultura, esporte, constituído uma espécie de “negligência planejada” (VERISSIMO, 
1999 apud SALES, 2010, p. 211). 
Um conjunto de violações intrínsecos a questão social e, consequentemente, 
inerentes ao capitalismo. Visto que, tal problemática é indissociável da organização 
do capital, dispondo de dimensões estruturais que impactam diretamente a vida dos 
sujeitos, “numa luta aberta e surda pela cidadania, no embate pelo respeito aos 
direitos civis sociais e políticos e aos direitos humanos (IANNI, 1992 apud 
IAMAMOTO, 2010, p. 268). 
Iamamoto (2010, p. 269) ainda faz a seguinte indagação: 
Se a questão social é uma velha questão social, inscrita na própria natureza 
das relações sociais capitalistas, ela também tem novas roupagens, na 
atualidade, aprofundando suas contradições. Alteram-se as bases históricas 
em que ocorre a sua produção e reprodução na periferia dos centros 
mundiais, em um contexto de globalização da produção, dos mercados,da 
política e da cultura, sob a égide do capital financeiro, as quais são 
acompanhadas por lutas veladas e abertas nitidamente desiguais. 
 
Este cenário representa uma preocupação latente para o Sistema de Garantias 
de Direitos – SGD. Essas demandas emergentes, geralmente oriundas das periferias 
urbanas ou de comunidades rurais e tradicionais evidenciam o alcance limitado das 
disposições do ECA. É válido ressaltar que para uma maior amplitude, faz-se 
necessário um trabalho articulado entre as instituições que conheçam suas atribuições 
e reconheçam a importância de se preconizar a proteção integral fundamentada na 
universalidade e indivisibilidade dos direitos, “quando essas duas perspectivas não 
estão alinhadas, abre-se espaço para violações de direitos e a revitimização das 
crianças e suas famílias” (LANFRANCHI, 2020, p.160). 
54 
 
A família também representa é um ponto de reflexão, visto que este núcleo 
configura um “espaço de socialização, proteção, reprodução e formação dos 
indivíduos” (SALES, 2006 apud IAMAMOTO, 2010, p. 262). Dessa forma, crianças e 
adolescentes têm sua condição de vida condicionada a conjuntura geral em que vive 
a sua família, que é colocada como um dos principais agentes de proteção desses 
sujeitos. No tangente ao quadro situacional posto acima, notoriamente a exposição a 
pobreza não está destinada somente às crianças e adolescentes, envolve todo o 
grupo familiar, estando relacionada essencialmente a condição de vida dos seus 
responsáveis. 
Assim, Iamamoto (2010, p. 265) cita que “A capacidade da família de prover as 
necessidades de seus membros encontra-se estreitamente dependente da posição 
que ocupa nas relações de produção e no mercado de trabalho”. Com isso, revela-se 
mais uma questão pertencente ao sistema do capital: as relações de trabalho. 
Para as crianças e adolescentes está resguardado o direito ao desenvolvimento 
pleno no seio familiar, esta disposição pressupõe que seus responsáveis tenham 
condições de proporcionar, com auxílio do Estado e da sociedade, os recursos 
necessários para efetivar esse crescimento. Dentro do sistema capitalista, a 
possibilidade de prover esses meios, está intimamente associada ao vínculo 
empregatício. Porém, uma das principais características do capitalismo é a 
precarização dos postos de trabalho. 
Como explica Yasbek (2001, p. 35): 
A violência da pobreza é parte de nossa experiencia diária. Os impactos 
destrutivos das transformações em andamento no capitalismo 
contemporâneo vão deixando suas marcas sobre a população empobrecida: 
o aviltamento do trabalho, o desemprego, os empregados de modo precário 
e intermitente, os que se tornaram não empregáveis e supérfluos, a 
debilidade da saúde, o desconforto da moradia precária e insalubre, a 
alimentação insuficiente, a fome, a fadiga, a ignorância, a resignação, a 
revolta, a tensão e o medo anunciam os limites da condição de vida dos 
excluídos e subalternizados na sociedade. 
 
 As expressões da pobreza colocadas por Yasbek nessa reflexão, evidenciam 
um conjunto de violações que nascem na precarização do trabalho e se espraiam para 
outras dimensões da vida. Tais adversidades produzem impactos desastrosos na vida 
do núcleo familiar como um todo e acarretam a busca por outras formas de 
sobrevivência, como o uso do trabalho infantil, conforme veremos nas próximas 
seções. 
55 
 
 Nesse cenário, observamos um crescimento significativo da culpabilização e 
responsabilização das famílias. E como essa pode ser cobrada, se a ela também não 
é dada as condições mínimas de existência? Vivemos em um contexto de acirramento 
do individualismo e naturalização da pobreza, onde não se busca o aprofundamento 
das raízes desse problema. 
 Desse modo, Iamamoto (2010, p. 271) explica que: 
Forja-se, assim, uma mentoria utilitária que reforça o individualismo, em que 
cada um é chamado a “se virar” no mercado. Ao lado da naturalização da 
sociedade, ativam-se os apelos morais a solidariedade, no verso crescente 
degradação das condições de vida das grandes maiorias. 
 
Na conjuntura em questão, atenta-se também para o papel do Estado. Se existe 
um aumento exponencial da população excedente pauperizada, presume-se que o 
poder estatal deve estar no enfrentamento intenso das expressões da questão social. 
Entretanto, nas atuais circunstâncias, nota-se o aprofundamento das dinâmicas 
neoliberais, que preconizam o máximo enxugamento da intervenção do Estado, como 
analisamos na seção 2.2. 
Perante a isso, Iamamoto (2010, p. 271) explica que: 
Por meio da vigorosa intervenção estatal a serviço dos interesses privados 
articulados no bloco do poder, contraditoriamente, conclama-se a 
necessidade de reduzir a ação do Estado ante a questão social, mediante a 
restrição de gastos sociais, justificada a partir da crise fiscal do Estado. 
 
 A insuficiência do Estado, suscinta a desestabilização no conjunto das políticas 
públicas, moldadas no “trinômio articulado do ideário neoliberal” – explicado por 
Behring e Boschetti (2011) na seção 2.2 – representado pela privatização, focalização 
e descentralização57. Colocando esta análise sob as políticas sociais, constata-se a 
adoção de serviços e programas fragmentados, seletivos e compensatórios, voltados 
para a parcela mais empobrecida da população, além da valorização dos programas 
de transferência de renda. 
 Segundo Teixeira (2007), países periféricos como o Brasil, construíram seu 
sistema de proteção social marcado pelas constantes interações com o sistema 
privado, que acabam por reproduzir contradições e a desigualdade social. Esse 
sistema conota um misto de intervenções, que nem é corporativista, apesar de sua 
prevalência na Previdência Social, e nem universalista, ainda que inclua os elementos 
universalistas constitucionais. 
 
57 Lembrando que nesse viés a “descentralização” é entendida apenas como uma transferência de 
responsabilidades. 
56 
 
 Esse sistema de proteção convive com os dispositivos neoliberais de 
assistência aos verdadeiramente pobres em parceria com Organizações Não 
Governamentais (ONGs) e a proteção social privada. A heterogeneidade na 
composição desse sistema, salienta sua fragilidade e torna-o uma “presa fácil” das 
propostas de desmonte, impossibilitando a consolidação das tendências 
universalistas de 1988, além de recompor as associações entre “público” e “privado” 
que convertem diretos socias em ajuda filantrópica e caritativa (TEIXEIRA, 2007). 
 No debate acima, colocamos em foco a fragilidade o sistema de proteção social 
brasileiro, mas vale salientar que tais inclinações representam uma problemática geral 
no que tange as políticas públicas. Desse modo, retomamos a efetividade das 
proposições do Estatuto da Criança e do Adolescente, tendo como campo de análise 
o espaço de atuação caracterizado ao longo desta seção. 
 São crianças e adolescentes oriundos de famílias pobres, que vivem em 
condições mínimas de vida, onde seus responsáveis não tem acesso a um vínculo de 
trabalho regular e tem que buscar outras opções de sobrevivência, enquanto tentam 
se apoiar em um sistema de proteção social fragmentado e focalizado58. 
A persistência dos estereótipos negativos é certamente um dos principais 
obstáculos que se antepõe à consideração lúcida referente à questão social 
no Brasil. Seu pior subproduto, no entanto, é a reprodução do abismo social 
no mundo infanto-juvenil, onde nitidamente opõem-se crianças e 
adolescentes, propriamente ditos, a meninos(as) de rua e menores (RIZZINI; 
PILOTTI, 2011, p. 326). 
 
Configura-se nesse cenário, o abandono presente no título deste estudo e que 
buscamos analisar criticamente através de suas manifestações. Constata-se aqui, o 
abandono do Estado em suas intervenções descontinuas, que não atacam a raiz deste 
problema, mas sim perpetuam as desigualdades.Nessa conjuntura, destaca-se também a dificuldade em construir um trabalho 
articulado entre as instituições. Como já mencionado, é extremamente importante 
para consolidação da proteção integral a existência dessa vinculação entre os 
serviços, que constituem a chamada rede de proteção e envolve diversas áreas como: 
 
58 Fávero (2001, p. 126) ainda faz os seguintes destaques sobre essa realidade “É frequente a ausência 
do pai. A habitação geralmente se faz em espaços reduzidos, sem privacidade, podendo, em algumas 
situações, não haver construção em alvenaria ou madeira, como por exemplo, nos casos em que o 
espaço da rua é o local de moradia. O desemprego ou o trabalho informal percorrem 
concomitantemente essa realidade. A rede de apoio familiar ou de vizinhança muitas vezes esgota 
suas possibilidades de ajuda” 
57 
 
a assistência social, a saúde, educação, a segurança pública, o judiciário, a política 
urbana, a alimentação, etc. 
 Quanto ao trabalho em rede, Motti e Santos (2014, p. 4) explicitam que: 
Dessa forma, podemos definir Rede de Proteção Social como uma 
articulação de pessoas, organizações e instituições com o objetivo de 
compartilhar causas e projetos, de modo igualitário, democrático e solidário. 
[...] é uma forma de trabalho coletivo, que indica a necessidade de ações 
conjuntas, compartilhadas, na forma de uma “teia social”, uma malha de 
múltiplos fios e conexões. É, portanto, antes de tudo, uma articulação política, 
uma aliança estratégica entre atores sociais (pessoas) e forças (instituições), 
não hierárquica, que tem na horizontalidade das decisões, e no exercício do 
poder, os princípios norteadores mais importantes. 
 
Portanto, esse trabalho prevê que cada um desses agentes conheça suas 
atribuições e reconheça as ações promovidas pelos demais serviços compositores da 
rede, no respeito da legislação vigente. Entretanto, os escassos investimentos nas 
políticas como um todo, desde estrutura de funcionamento dos serviços públicos até 
a carência de trabalhadores, trazem impactos nefastos à rede de proteção. É valido 
ressaltar que os profissionais que constituem esse trabalho devem estar preparados 
e formados no conhecimento da lei, dos direitos sociais e humanos, bem como na 
análise crítica da totalidade das demandas. A fim de evitar a reprodução de atitudes 
conservadoras e discriminatórias nos espaços de atuação. 
O contexto em pauta, revela o caminho tortuoso que o ECA enfrentou e ainda 
enfrenta, nesses mais de 30 anos de existência, sobretudo no que diz respeito à 
proteção integral de crianças e adolescentes em situação de pobreza. Em relação as 
derrocadas sofridas no decorrer desse tempo, Fávero, Pini e Silva (2020, p 15) fazem 
o seguinte destaque: 
No interior dessa realidade ganham espaço reações voltadas para 
retrocessos em relação ao disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente 
(ECA), no que se refere ao direito da criança à convivência familiar 
prioritariamente com a família de origem, assim como para redução da 
maioridade penal [...]. 
 
 As questões colocadas pelas autoras ganham ainda mais destaque na 
atualidade com o grande crescimento dos discursos conservadores e da 
criminalização da pobreza. No que tange o direito a convivência familiar com a família 
natural, é importante salientar que o fortalecimento dos vínculos ainda é a principal 
medida de combate a violação de direitos, dependendo da situação. 
Em relação ao direito à convivência familiar e comunitária, podemos afirmar 
que o Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças 
e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária, aprovado em 2006 
pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente 
58 
 
(CONANDA), representa um avanço para a garantia desse direito ao traçar 
estratégias, objetivos e diretrizes para o fortalecimento dos vínculos familiares 
(FÁVERO; PINI; SILVA, 2020). 
 
Porém, as autoras alertam para projetos de lei que tramitam no intuito de retirar 
crianças de suas famílias de origem pela adoção, sob premissa delas serem criadas 
em melhores condições (Fávero, Pini, Silva, 2020). 
 Quanto à redução da maioridade penal, talvez seja uma das maiores bandeiras 
levantadas pelos conservadores na atualidade, um debate polêmico que é 
constantemente reforçado pelas mídias sensacionalistas e os “programas policiais”. 
Uma possível redução da maioridade entraria em choque direto com um dos princípios 
fundamentais do ECA, o entendimento de que crianças e adolescentes são pessoas 
em condição peculiar de desenvolvimento, portanto não devem ser tratados como 
adultos59. 
 Fávero, Pini, Silva (2020) ainda dão ênfase as políticas inadequadas voltadas 
para primeira infância adotadas pelos atuais governos. Marcadas pelas ações 
descontinuadas, seletivas e focalizadas, que não garantem as especificidades da 
educação das crianças pequenas e não se atentam para o contexto familiar envolvido. 
Como grande exemplo desse retrocesso temos o Programa Criança Feliz, criado em 
2016 pelo governo Temer, sob a gestão da primeira-dama Marcela Temer 60 , 
reforçando uma retomada ao assistencialismo e ao primeiro-damismo. 
 Desse modo, Fávero, Pini e Silva (2020, p. 15) reforçam que: 
[...] (entre tantos outros retrocessos, num processo cada vez mais acentuado 
de culpabilização, responsabilização e criminalização da população apartada 
do acesso aos direitos sociais). Também a judicialização da questão social 
em detrimento da efetividade do Sistema de Garantia de Direitos de Crianças 
e Adolescentes. 
 
Essa última citação sintetiza o que buscamos analisar nesta seção. Diante de 
um avanço grandioso como Estatuto da Criança e do Adolescente, observamos o 
crescimento de estratégias de ataque aos seus parâmetros e diretrizes, que limitam o 
alcance de sua proteção integral. Todavia, é relevante sinalizar que mesmo em face 
dos inúmeros desmontes, existem serviços que estão no constante enfrentamento 
 
59 Como defende o CFESS (2017) “Crianças e adolescentes são pessoas de direitos próprios e 
especiais, em razão da sua condição específica de pessoa em desenvolvimento, e por isso necessitam 
de uma proteção especializada, diferenciada e integral. [...] é preciso investir em políticas públicas para 
infância e juventude, implementar o ECA em sua totalidade, inclusive no que diz respeito às medidas 
socioeducativas para quem comete atos infracionais. 
60 Para, Arcoverde, Alcântara e Bezerra (2019), “O programa Criança Feliz é um exemplo de como a 
gestão do Governo Temer (2016), buscou uma estratégia conservadora de retorno ao assistencialismo 
com o primeiro-damismo [...]”. 
59 
 
dessa despolitização dos direitos, no contato direto com o usuário e em atenção as 
suas principais demandas. 
Dentre eles, temos o Serviço Especializado em Abordagem Social - SEAS que 
atua na busca ativa dos usuários em situação de violações de direitos, sobretudo na 
proteção de crianças e adolescentes, no esforço pela garantia dos direitos e no 
combate as transgressões. Ademais, aprofundaremos nossas reflexões sobre esse 
Serviço na seção seguinte, principalmente, na análise das violações evidenciadas por 
ele. 
 
 
4. O SERVIÇO ESPECIALIZADO EM ABORDAGEM SOCIAL – SEAS E AS 
CONTRIBUIÇÕES DO SERVIÇO SOCIAL NESTE ESPAÇO 
 
4.1 O SEAS NA POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL NO BRASIL: A POLÍTICA 
NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL – PNAS, O SISTEMA ÚNICO DE 
ASSISTÊNCIA SOCIAL – SUAS E A TIPIFICAÇÃO NACIONAL DOS SERVIÇOS 
SOCIOASSISTENCIAIS 
 
 Em meio aos questionamentos colocados no último tópico, nesta seção iremos 
nos atentar ao trabalho, na busca pelo acesso dos usuários as políticas públicas do 
Serviço Especializado em Abordagem Social – SEAS. Uma vez que, em sua atuação 
no enfretamento das violações, esse Serviço também contribui para preservaçãodas 
disposições do ECA na proteção de crianças e adolescentes. 
Tal análise será construída mediante a definição desse Serviço e a sua 
localização dentro da Política Nacional de Assistência Social - PNAS, do Sistema 
Único de Assistência Social – SUAS e da Tipificação Nacional dos Serviços 
Socioassistenciais. A fim de entendermos quais as contribuições desse Serviço e as 
atividades que desempenha no enfrentamento das violações dos direitos. 
Primeiramente, é relevante traçarmos um pequeno apanhado sobre a trajetória 
da Política de Assistência Social no Brasil. No intuito de acompanharmos a construção 
dessa política e a organização de seus serviços, para assim podermos entender onde 
60 
 
SEAS se encontra nessa ordenação e as suas contribuições para consolidação desse 
sistema junto aos usuários. 
Quanto a isso, o Conselho Federal de Serviço Social – CFESS (2011) destaca 
que a Política de Assistência Social é reconhecida como direito social e dever do 
Estado a partir da Constituição de 198861 e pela Lei Orgânica da Assistência Social – 
LOAS (Lei n° 8.742/93), sendo regulamentada extensivamente pela aprovação do 
Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS, da Política Nacional de Assistência 
Social – PNAS (2004) e do Sistema Único de Assistência Social – SUAS (2005). 
Esta consolidação da Assistência Social como política de Estado, almejou a 
implementação de critérios decentralizado na partilha de recursos e responsabilidades 
entre a União, estados e municípios, a fim de instaurar uma relação sistemática e 
interdependente entre programas, projetos, serviços e benefícios, bem como o 
fortalecimento da relação democrática entre planos, conselhos, fundos e órgão gestor, 
no acompanhamento e monitoramento dessa política (CFESS, 2011). 
Quanto à gestão dos recursos, Behring e Boschetti (2011) trazem 
apontamentos preocupantes quanto a concretização dessa perspectiva na realidade 
brasileira. Segundo as autoras a distribuição dos recursos continua a contrariar as 
orientações constitucionais decentralizadoras e permanece extremamente 
concentrada e centralizada na União. Além disso os investimentos na seguridade 
social são, anualmente, apropriados pelo Governo Federal através da Desvinculação 
das Receitas da União (DRU), sob a justificativa de composição do superávit primário 
e pagamento da dívida pública. Essa “manipulação orçamentária”, tem constituído um 
elemento nefasto para as políticas públicas como um todo, pois permite a realocação 
dos recursos públicos crescentes para o mercado financeiro, enquanto as políticas 
são amplamente desfinanciadas. 
No tocante a LOAS, Souza e Faustino (2011, p. 03) afirmam que: 
A LOAS introduziu uma nova realidade institucional, propondo mudanças 
estruturais e conceituais, um cenário com novos atores revestidos com novas 
estratégias e práticas, além de novas relações interinstitucionais e 
intergovernamentais, confirmando-se enquanto possibilidade de 
reconhecimento público da legitimidade das demandas de seus usuários [...] 
Sabe-se que a Assistência Social antes da LOAS era permeada por uma 
significativa fragilidade institucional devido a sua trajetória de viés clientelista 
 
61 “A Constituição Federal de 1988 traz uma nova concepção para a Assistência Social brasileira. 
Incluída no âmbito da Seguridade Social e regulamentada pela Lei Orgânica da Assistência Social – 
LOAS em dezembro de 1993, como política social pública, a assistência social inicia seu trânsito para 
um campo novo: o campo dos direitos, da universalização dos acessos e da responsabilidade estatal” 
(BRASIL, 2005, p. 31). 
61 
 
historicamente predominante que constituiu relevantes obstáculos à 
mobilização desta arena setorial. 
 
 Assim, acentua-se que somente a sua promulgação em 1993, não era 
suficiente para torná-la concreta. Porém, apenas em 2003, a partir da IV Conferência 
Nacional de Assistência Social, passou-se a discutir a formulação de uma nova 
agenda política com direcionamentos objetivos em relação a sua organização setorial 
(SOUZA; FAUSTINO, 2011). 
No início de 2004, evidencia-se a criação do Ministério do Desenvolvimento 
Social e Combate à Fome – MDS, que atribui um novo estatuto à política de 
assistência, reforçando a perspectiva de profissionalização na área62. Nesse mesmo 
ano, o MDS publicou a versão final da Política Nacional de Assistência Social – PNAS 
(2004), onde difunde a concepção de territorialização do trabalho e perspectiva de 
criação do SUAS (SOUZA; FAUSTINO, 2011). 
Nesse viés, a apresentação da PNAS (BRASIL, 2005, p. 11) elucida que: 
A decisão do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – 
MDS, por intermédio da Secretaria Nacional de Assistência Social – SNAS e 
do Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS, de elaborar, aprovar e 
tornar pública a presente Política Nacional de Assistência Social – PNAS, 
demonstra a intenção de construir coletivamente o redesenho desta política, 
na perspectiva de implementação do Sistema Único de Assistência Social – 
SUAS. Esta iniciativa, decididamente, traduz o cumprimento das deliberações 
da IV Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em Brasília, em 
dezembro de 2003, e denota o compromisso do MDS/SNAS e do CNAS em 
materializar as diretrizes da Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS. 
 
 Em consonância com a LOAS, a PNAS vem trazer a estrutura organizacional 
do que está disposto na Lei Orgânica e abrir caminho para mais um avanço nessa 
área. Nesse sentido, a regulamentação do Sistema Único de Assistência Social - 
SUAS ocorre em 2005, ele nasce fundamentado no conceito tríplice de: 
territorialidade, descentralização e intersetorialidade. É unificado com a repartição das 
responsabilidades entre os entes federativos, respeitando a descentralização prevista 
na LOAS e estabelecendo também um sistema de monitoramento, avaliação e 
informação (SOUZA; FAUSTINO, 2011). 
 O SUAS materializa o conteúdo colocado na LOAS, através de uma gestão 
descentralizada e participativa, regulada e organizada em cada território das ações 
socioassistenciais, no sentido de consagrar os direitos à cidadania e inclusão social. 
 
62 “Isso significa que, pela primeira vez na história da constituição da seguridade no país, há um 
movimento concreto para romper com o legado clientelista e assistencialista que marca esta arena 
setorial” (SOUZA, FAUSTINO, 2011, p. 04). 
62 
 
A criação desse Sistema ainda estabelece e ordena os componentes fundamentais 
para a execução da Política de Assistência Social, “possibilitando a normatização dos 
padrões nos serviços, qualidade no atendimento, indicadores de avaliação e 
resultado, nomenclatura dos serviços e da rede socio-assistencial e, ainda, os eixos 
estruturantes e os subsistemas” (BRASIL, 2005, p. 39). 
 As características de sua gestão e diretrizes estão amplamente explicitadas 
pela Norma Operacional Básica – NOB/SUAS 63 , operacionalizando a divisão de 
competências entre as esferas do governo, os níveis de gestão delas, o controle da 
política, os recursos humanos, a relação entre entidade e organizações 
governamentais e não-governamentais, orientações sobre a partilha de recursos, 
entre outros parâmetros (BRASIL, 2005). Ainda vale salientar que em 2011 ocorre a 
promulgação da Lei 12.435, que altera a LOAS e institui o SUAS (CFESS, 2021). 
O conjunto PNAS/SUAS ainda dispõe de diversas definições primordiais para 
a Assistência Social, no sentido de se entender os níveis de proteção e quais os 
serviços atuam em cada nível, assim como a caracterização do usuário e os territórios 
de atuação. Diante disso, o CFESS (2011) explicita que: 
Por isso, a concepção de Assistência Social e sua materialização em forma 
de proteção social básica e especial (de média e alta complexidades), 
conforme previstona PNAS/SUAS, requer situar e articular estas 
modalidades de proteção social ao conjunto das proteções previstas pela 
Seguridade Social. 
 
Como bem colocado pelo CFESS, são previstos três níveis de proteção dentro 
da Política de Assistência Social: a proteção social básica e a proteção social especial 
de média e alta complexidade. Essa divisão busca organizar e operacionalizar as 
ações realizadas pelos programas e serviços da Assistência Social, configurando-os 
conforme as demandas apresentadas pela população usuária. 
 
63 Quanto a NOB/SUAS colocamos os seguintes destaques, “A NOB-SUAS/2005 representou um 
marco fundamental na estruturação da Política Pública de Assistência Social, imprimindo um grande 
salto quantitativo na implantação de serviços socioassistenciais em todo o território nacional[...]”; “[...] 
a aprovação da NOB-RH SUAS em 2006, cujo um dos objetivos é a padronização das carreiras do 
SUAS, por meio de diretrizes nacionais, para a implementação de ações específicas que têm como fim 
a qualificação e valorização dos trabalhadores atuantes no SUAS”; e sua atualização em 2012, 
dispondo que “o Sistema galga um novo patamar de estruturação, institucionalidade e aprimoramento. 
São introduzidas novas estratégias que possibilitam um necessário salto de qualidade na gestão e na 
prestação de serviços, projetos, programas e benefícios socioassistenciais. Instrumentos como os 
compromissos pactuados para o alcance de prioridades e metas, a instituição de blocos de 
financiamento e a implantação e operacionalização da Vigilância Socioassistencial permitirão continuar 
progredindo e aperfeiçoando a ação protetiva da Assistência Social” (BRASIL, 2012, p. 11-14) 
 
63 
 
De acordo com a PNAS/SUAS, “a proteção social básica tem como objetivo 
prevenir situações de risco por meio do desenvolvimento de potencialidades e 
aquisições, e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários” (BRASIL, 2005, 
p. 33). Os serviços e programas nessa perspectiva vem contribuir para que uma 
situação de risco64 não se transforme em uma violação concreta aos direitos. 
A proteção social especial vai para além das situações de risco, atuando 
diretamente quando a violação já foi identificada. Desse modo, enfatiza-se que: 
A proteção social especial é a modalidade de atendimento assistencial 
destinada as famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco 
pessoal e social, por ocorrência de abandono, maus tratos físicos e, ou, 
psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas, cumprimento de 
medidas socio-educativas, situação de rua, situação de trabalho infantil, entre 
outras. São serviços que requerem acompanhamento individual e maior 
flexibilidade nas soluções protetivas (BRASIL, 2005, p. 37). 
 
 A sua subdivisão em dois níveis, define de que forma a proteção social especial 
vai enfrentar as transgressões de diretos mediante seu grau de complexidade. Assim, 
a PNAS/SUAS prevê a seguinte definição para a média complexidade: 
São considerados serviços de média complexidade aqueles que oferecem 
atendimentos às famílias e indivíduos com seus direitos violados, mas cujos 
vínculos familiar e comunitário não foram rompidos. Neste sentido, requerem 
maior estruturação técnico-operacional e atenção especializada e mais 
individualizada, e, ou, de acompanhamento sistemático e monitorado 
(BRASIL, 2005, p. 38). 
 
 Enquanto a alta complexidade é definida como: 
Os serviços de proteção social especial de alta complexidade são aqueles 
que garantem proteção integral – moradia, alimentação, higienização e 
trabalho protegido para famílias e indivíduos que se encontram sem 
referência e, ou, em situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu 
núcleo familiar e, ou, comunitário (BRASIL, 2005, p. 38). 
 
 
 Tais definições no campo das proteções sociais, tornam-se essenciais no 
entendimento de que o conceito de proteção social vai para além de uma única política 
social, requerendo a instituição de um conjunto de políticas públicas que “garantam 
direitos e respondam as diversas e complexas necessidades básicas (PEREIRA, 2000 
apud CFESS, 2011, p. 09)65. 
 
64 Dessa forma, situação de risco pode ser configura como “vulnerabilidade social decorrente da 
pobreza, privação (ausência de renda, precário ou nulo acesso aos serviços públicos, dentre outros) e, 
ou, fragilização de vínculos afetivos – relacionais e de pertencimento social (discriminações etárias, 
étnicas, de gênero ou por deficiências, dentre outras)” (BRASIL, 2005, p. 33). 
65 Esta perspectiva retoma as reflexões construídas quanto a proteção integral prevista pelo ECA, que 
pressupõe um trabalho articulado entre as políticas públicas. 
64 
 
 O CFESS (2011) ainda faz um alerta sobre a importância dessa identificação 
no intuito de evitar redimensionamento para Assistência Social de funções que não 
pertencem a ela, mas sim ao conjunto das políticas públicas; outra questão a ser 
levantada são os recursos destinados para a política de Assistência, visto que para o 
recebimento do montante se faz necessária à nitidez sobre os direitos englobados 
pela Assistência Social e executados pela proteção básica e especial. 
 Mediante a determinação dessas tipologias, é aprovada Tipificação Nacional 
de Serviços Socioassistenciais 66 (Resolução CNAS n° 109/2009) pelo Conselho 
Nacional de Assistência Social – CNAS. Essa normativa viabilizou a sistematização 
nacional dos serviços ofertados de proteção social básica e especial. Esse documento 
também determina os conteúdos essenciais, as contribuições e o propósito de cada 
um deles, a população a ser atendida, bem como os resultados almejados. Além de 
dispor sobre as condições estruturais e de funcionamento das unidades de referência 
do serviço, as provisões, aquisições e formas de acesso, a articulação em rede, assim 
como suas regulamentações gerais e específicas (BRASIL, 2014). 
 Diante dessa ordenação, podemos nos aprofundar sobre o Serviço 
Especializado em Abordagem Social - SEAS, localizado na PNAS/SUAS dentro dos 
serviços de proteção social especial de média complexidade e definido pela 
Tipificação com a seguinte descrição: 
Serviço ofertado, de forma continuada e programada, com a finalidade de 
assegurar o trabalho social de abordagem e a busca ativa que identifique, 
nos territórios, a incidência de trabalho infantil, exploração sexual de crianças 
e adolescentes, situação de rua, dentre outras (BRASIL, 2014). 
 
 Esse serviço atua, principalmente, como um instrumento de identificação de 
situação de risco, buscando o atendimento das necessidades imediatas das famílias 
e dos usuários atendidos. Através desse contato, procura-se possibilitar o acesso à 
rede de serviços socioassistenciais e as demais políticas públicas mediante os 
encaminhamentos. Trata-se também de um trabalho fundamentado na construção 
gradativa de vínculos de confiança, que promova a promoção de um trabalho social 
continuado (BRASIL, 2013). 
Essa articulação com a rede prevê o trabalho junto aos demais serviços 
socioassistenciais de proteção social básica e proteção social especial; aos serviços 
 
66 “A aprovação da Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais representou um importante 
conquista para a assistência social brasileira alcançando um novo patamar, estabelecendo tipologias 
que, sem dúvidas, corroboram para ressignificar a oferta e a garantia do direito socioassistencial” 
(BRASIL, 2014). 
65 
 
de políticas públicas setoriais; a sociedade civil organizada; outros órgãos do Sistema 
de Garantia de Direitos; Instituições de Ensino e Pesquisa, assim como serviços, 
programas e projetos de instituições não governamentais e comunitárias (BRASIL, 
2014). 
 Os vínculos construídos são uma parte primordial do trabalho,visto que os 
usuários atendidos pelo Serviço geralmente estão passando por violações extremas 
de seus direitos, já possuem vínculos rompidos e lidam diariamente com a 
desumanidade da exclusão social e suas demais implicações nas condições de vida 
desse público. Desse modo, é válido reforçar que: 
A abordagem social constitui-se em processo de trabalho planejado de 
aproximação, escuta qualificada e construção de vínculo de confiança com 
pessoas e famílias em situação de risco pessoal e social nos espaços 
públicos para atender, acompanhar e mediar acesso à rede de proteção 
social (BRASIL, 2013). 
 
 São considerados espaços de atuação do SEAS, diversos locais onde se possa 
averiguar a ocorrência de situações de risco pessoal e social de violação de direitos, 
dessa maneira podemos citar: as ruas, entroncamentos de estradas, praças, 
fronteiras, rodoviárias, no transporte público, nas feiras livres e comércios, nos 
semáforos, nas praias, nos prédios abandonados, entre outros espaços públicos 
(BRASIL, 2013). 
 É parte do planejamento coordenado pelo órgão gestor da Abordagem Social, 
a definição dos locais de intervenção, as equipes que compõe o corpo profissional do 
SEAS devem ter participação ativa neste planejamento, mediante a sua vivência nos 
territórios de atuação. Nesse contexto, as informações disponibilizadas pelos 
diagnósticos socioterritoriais67 são essenciais para esse processo de organização das 
ações e definição dos espaços de trabalho (BRASIL, 2013). 
Identifica-se como usuários do SEAS, indivíduos que utilizam os espaços 
públicos, colocados acima, como forma de moradia e/ou sobrevivência, entre eles 
temos: crianças, adolescentes, adultos, idosos e famílias (BRASIL, 2013). Portanto, 
retomando o foco deste estudo, destacamos que a Abordagem Social atua, 
principalmente, junto a grande parcela de crianças e adolescentes que tem seus 
direitos, que foram consagrados pelo ECA, violados constantemente. Defronte o 
acesso restrito as condições mínimas de vida, como já analisamos na última seção. 
 
67 “Esses diagnósticos devem ser realizados em conjunto com a área da vigilância socioassistencial” 
(BRASIL, 2013). 
66 
 
Nessa conjuntura, o SEAS trabalha identificando a situação de risco que aquela 
criança ou adolescente está exposto e faz os encaminhamentos necessários para a 
inserção daquele indivíduo nos demais serviços da rede. Essa intervenção, 
fundamenta-se especialmente no fortalecimento dos vínculos familiares, uma vez que 
essas situações geralmente envolvem todo o núcleo familiar. 
Esse trabalho objetiva, sobretudo a construção do processo de saída das ruas, 
através do já referido acesso aos serviços e benefícios assistenciais, buscando 
promover ações para reinserção familiar e comunitária, assim como a “sensibilização 
para o trabalho realizado, direitos e necessidades de inclusão social e 
estabelecimento de parcerias” (BRASIL, 2013). 
Para isso, o SEAS estabelece alguns eixos norteadores de seu trabalho, entre 
eles destacamos os seguintes: a Proteção Social Proativa, que é caracterizada pela 
presença continuada e ativa dos profissionais nos espaços públicos, identificando as 
demandas e necessidades dos indivíduos e famílias; a ética e respeito à dignidade, 
diversidade e não discriminação, que compreende a conduta ética dos profissionais 
frente as demandas e na noção de respeito a dignidade humana e a diversidade dos 
indivíduos e territórios de atuação; o acesso aos direitos socioassistenciais e a 
construção da autonomia, mediante um atendimento digno e respeitoso, ausente de 
procedimentos vexatórios e coercitivos; bem como a construção gradativa de 
vínculos68, o trabalho em rede69 e a relação com a cidade e a realidade do território70 
(BRASIL, 2013). 
 Conforme a Tipificação Nacional (Resolução CNAS n° 109/2009) e Resolução 
CNAS n° 09/2013, o SEAS pode ser ofertado pelo Centro de Referência Especializado 
de Assistência Social – CREAS, por uma Unidade específica referenciada pelo 
CREAS ou pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de 
Rua - Centro POP. Tal organização é determinada de acordo com a avaliação da 
 
68 “Na realização do trabalho de abordagem social, faz-se indispensável a criação de vínculos de 
confiança com as pessoas que se encontram nos espaços públicos. Contudo, isso ocorre 
processualmente. A construção gradativa de vínculos deve acontecer com cautela, respeitando os 
códigos que regem os grupos e deixando sempre claro os objetivos e valores que regulam as ações do 
Serviço” (BRASIL, 2013, p. 13). 
69 “A concepção de trabalho em rede baseia-se em alguns princípios, tais como: a integralidade dos 
sujeitos e a incompletude institucional inerente às diversas políticas públicas” (BRASIL, 2013, p. 14). 
70“[...] conhecer os territórios de atuação e a relação que as pessoas mantêm com esses espaços, é 
condição para se aproximar dos sujeitos que lá estão e iniciar o trabalho social inerente ao serviço. 
Identificar e mapear a localização, a permanência, os fluxos e os pontos de referência significativos 
para as dinâmicas dos locais de atuação representa uma ação estruturante desse serviço” (BRASIL, 
2013, p 15). 
67 
 
gestão local, que dependendo da ocorrência das demandas pode considerar 
necessário que o Serviço seja oferecido, concomitantemente, por uma ou mais 
unidades CREAS, Centro POP ou unidade(s) específica(s) referenciada(s) ao CREAS 
(BRASIL, 3013). 
 Quanto aos recursos humanos do Serviço, a Resolução CNAS n° 09/2013 
(Capitulo I, Seção I, § 2º) determina que deve ser assegurada uma equipe técnica de 
referência para a execução das abordagens sociais formada por pelo menos três 
profissionais, sendo no mínimo um deles com formação em nível superior. Essas 
equipes devem estar distribuídas entre as unidades do Serviço, para realização das 
atividades propostas frente as demandas e mediante o planejamento local. 
Em síntese, nesta seção buscamos analisar os parâmetros mais gerais de 
atuação do SEAS, por meio de sua regulamentação na Política de Assistência Social, 
que coloca as indicações de suas condições de funcionamento, objetivo, público-
usuário, espaço de atuação, eixos norteadores, assim como a composição de sua 
equipe técnica. Tais indicações, tornam-se essencialmente indispensáveis para as 
reflexões da próxima seção, onde faremos um recorte sobre o Serviço Especializado 
em Abordagem Social - SEAS na cidade de Natal/RN, através da caracterização do 
Serviço e as violações que evidencia no município. 
 
 
4.2 CARACTERIZAÇÃO DO SEAS: RECORTE DAS CONDIÇÕES DE 
FUNCIONAMENTO DO SERVIÇO EM NATAL/RN E A ANÁLISE DOS DADOS 
APRESENTADOS 
 
Na cidade de Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte, o Serviço 
Especializado em Abordagem Social – SEAS é regulamentado pelo Regimento 
Interno. Este documento dispõe sobre o funcionamento do Serviço no campo da 
Política de Assistência Social, estando explicitadas nele as principais informações 
sobre o SEAS, bem como sua constituição e atribuições, de acordo com a Tipificação 
Nacional de Serviços Socioassistenciais (Resolução n° 109/2009). 
Na capital, o SEAS tem sua coordenação situada na Secretaria Municipal do 
Trabalho e Assistência Social – SEMTAS, no Departamento de Proteção Social 
Especial – DPSE, nos serviços de Média Complexidade. Enquanto o espaço 
68 
 
institucional destinado ao planejamento, atividades administrativas e reuniões das 
equipes é localizado nas quatro unidades do Centro de Referência Especializado de 
Assistência Social (CREAS), sobretudo no CREAS Oeste, onde os profissionais do 
SEAS têm um espaço próprio para a organização das ações (NATAL, 2016). 
Segundo o capítulo III71 Art. 10 do Regimento Interno, os profissionais do SEAS 
estão divididos em seis equipes, organizadascom base nas suas regiões 
administrativas de atuação, sendo três equipes responsáveis pelas regiões Norte e 
Leste e outras três dão cobertura as regiões Sul e Oeste, cada equipe é formada por 
um assistente social (técnico de referência) e dois educadores sociais. O expediente 
de trabalho funciona no formato de escalas, com carga horaria de 12 horas de trabalho 
por 48 horas de folga. Visto que o SEAS funciona de segunda-feira a domingo, das 
08:00 h às 24:00 h (NATAL, 2016). 
O itinerário de trabalho é organizado da seguinte forma: uma equipe trabalha 
das 08h às 20h, o expediente é divido em duas partes, das 08h às 12h, ela é 
responsável por todas as zonas de Natal e a partir das 12h até 20h, ela fica 
responsável apenas pelas regiões Norte e Leste. A outra equipe trabalha das 12h às 
00h, esse expediente também divido, das 12h às 20h, ela fica responsável pelas zonas 
Sul e Oeste e das 20h à 00h, atende a todas as zonas de Natal (NATAL, 2016). 
Existem duas linhas telefônicas, destinadas uma para cada equipe, por elas os 
profissionais recebem as demandas. Além disso, diariamente eles também fazem a 
circulação na rota de monitoramento, principalmente, quando não chegam demandas 
pelo telefone (NATAL, 2016). 
O capitulo VI72, art. 25 do Regimento Interno, explica que: 
Art. 25. Os recursos materiais pertencentes essenciais ao funcionamento do 
serviço, dos quais as equipes dispõem são: 01 (um) telefone móvel 
institucional para as equipes que cobrem a região administrativa Norte e 
Leste; 01 (um) telefone móvel institucional para as equipes que cobrem a 
região administrativa Sul e Oeste; 01 (um) telefone móvel institucional para a 
coordenação do Serviço; 02 (dois) veículos do tipo Doblô (NATAL, 2016, p. 
05). 
 
 Quanto os recursos humanos, essa organização é regulamentada de acordo 
com Resolução CNAS nº 09/201373, já mencionada na seção 4.1. Segundo o art. 24 
(capítulo VI), compreende-se como recursos humanos essenciais desse Serviço: um 
 
71 Este capítulo dispõe do espaço físico e área de abrangência do SEAS. 
72 Este capítulo ordena a estrutura organizacional, recursos humanos e materiais do Serviço. 
73 A referida Resolução determina que cada equipe do SEAS é composta por, no mínimo 3 (três) 
profissionais, sendo pelo menos 1 (um) desses com formação em nível superior (NATAL, 2016). 
69 
 
coordenador, servidor efetivo do quadro funcional da SEMTAS; assistente social e 
educador social para composição das equipes, ambos servidores efetivos; e o 
motorista. 
Todas as atividades realizadas durante os expedientes são documentadas no 
livro de ocorrência, uma espécie de diário de campo, onde os profissionais registram 
a data e o horário das atividades, local de realização, como ocorreram as abordagens, 
dificuldades enfrentadas, demandas recorrentes, encaminhamentos realizados, entre 
outras informações importantes. Este livro deve ser lido todos os dias, principalmente, 
pela equipe que está ingressando no plantão, para que ela tenha ciência das 
atividades já realizadas e das ocorrências ainda não foram atendidas. 
Para esse registro de informações, também pode ser utilizada uma planilha 
para registro dos dados pessoais do usuário atendido, a abordagem realizada, tipo de 
violação indicada na ocorrência, encaminhamentos realizados, observações, equipe 
que atendeu a ocorrência, violações identificadas. 
O capítulo II74 art. 6° reforça a utilização do uniforme padrão do Serviço, 
composto por um colete com as logomarcas na Prefeitura Municipal de Natal e da 
SEMTAS, durante a realização das atividades diárias para identificação do SEAS 
pelos usuários (NATAL, 2016). 
Como já abordado na última seção, e reforçado no art. 19 (capítulo V75) do 
Regimento Interno, a Abordagem Social trabalha por meio da Proteção Social 
Proativa; da articulação com os serviços socioassistenciais da rede de proteção e com 
os órgãos do Sistema de Garantia de Direitos – SGD; do conhecimento dos territórios, 
com georreferenciamento e geoprocessamento de informações; além da orientação e 
encaminhamentos sobre/para os serviços da rede, mediante a informação, 
comunicação e defesa dos direitos, bem como a escuta qualificada dos usuários 
(NATAL, 2016). 
Esse Serviço tem como principais parceiros na rede de proteção: o Serviço 
Especializado para pessoas em situação de rua – Centro Pop; Serviço de Acolhimento 
Institucional – Albergue Municipal e Casas de Acolhimento; Centro Integrado de 
Operações de Segurança Pública – CIOSP; Saúde – Consultório na Rua, Serviço de 
Atendimento Móvel de Urgência – SAMU, Unidade de Pronto Atendimento – UPA, 
 
74 Este capítulo traz a definição do Serviço, funcionamento e organização. 
75 Este capítulo explica o trabalho essencial do Serviço. 
70 
 
entre outros. Quando tratamos dos atendimentos as crianças ou adolescentes e suas 
famílias, os principais encaminhamentos realizados são para a Proteção e 
Atendimento Integral a Família – PAIF e para o Serviço de Proteção e Atendimento 
Especializado as Famílias e Indivíduos – PAEFI; estabelecendo articulações também 
com o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI. Além disso, o SEAS 
ainda responde ao Conselho Tutelar e aos órgãos jurídicos, como o Ministério Público. 
As perspectivas citadas mais acima constituem as atividades 
socioeducacionais76 promovidas pelo SEAS, que devem ser vedadas de qualquer 
ação de caráter coercitivo, policialesco e repressivo contra os direitos da população, 
assim como ações que representem uma ameaça para equipe do SEAS, conforme 
explica o art. 21 parágrafo único do Regimento (NATAL, 2016). 
No momento da abordagem, os profissionais da equipe devem se apresentar 
como agentes do SEAS e explicar as atividades que serão realizadas. Primeiramente, 
deve-se fazer o recolhimento das informações do usuário na Ficha de Abordagem, 
ressalta-se que as informações colhidas são utilizadas na realização dos 
encaminhamentos, na caracterização da população usuária e no registro no 
Prontuário Eletrônico do SUAS. 
 Nessa Ficha de Abordagem são colocados os dados pessoais, a composição 
familiar, os dados socioeconômicos, o tipo de violação evidenciada – em casos de 
trabalho infantil, é registrado também qual o tipo de trabalho –, a síntese da situação 
e os encaminhamentos, assim como a identificação da equipe com o nome do 
profissional77 e a data da abordagem (NATAL, 2016). 
De acordo com o capítulo III art. 11, os usuários abordados na região de 
abrangência do município de Natal, mas oriundos de outros municípios, terão suas 
fichas de abordagem e demais instrumentais direcionados a Secretaria Municipal de 
Assistência Social de seu município, para conhecimento e providências cabíveis. 
Ainda é válido ressaltar que, em conformidade com art. 15 do Regimento, locais e 
instituições privadas, como supermercados e shoppings, não pertencem a área de 
atuação do SEAS (NATAL, 2016). 
 
76 O art. 20 (capítulo V) explica que o Serviço deve estar atento às necessidades mais imediatas das 
famílias e dos indivíduos atendidos e, quando tecnicamente avaliado necessário, a equipe pode 
identificar familiares de pessoas abordadas com o objetivo de reestabelecer os vínculos. 
77 No caso das assistentes sociais é solicitado também o seu registro no Conselho Regional de Serviço 
Social – CRESS. 
71 
 
No que tange os usuários e as formas de acesso, dispostos no capítulo VI, o 
art. 16 elucida que, em conformidade com a Tipificação Nacional, o público atendido 
pelo SEAS é formado por crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos e famílias 
que utilizam espaços públicos como moradia e/ou meio de sobrevivência. As 
demandas podem advir da identificação dessas situações de riscos, através da rota 
demonitoramento diária; por encaminhamentos de serviços programas ou projetos da 
rede socioassistencial; ou por meio de ligações nos telefones das equipes, como 
explicitado no art. 17 (NATAL, 2016). 
Diante do exposto, destacamos a importância do Serviço Especializado em 
Abordagem Social – SEAS, como um agente da Política de Assistência Social que 
está ativamente nos espaços públicos evidenciado as violações de direitos e fazendo 
os encaminhamentos necessários dentro dessa política. Um processo que se constrói 
fundamentado na escuta qualificada das famílias ou indivíduos, no entendimento das 
demandas, no respeito aos territórios e, sobretudo na orientação e informação dos 
usuários, visto que o vínculo construído entre as equipes e as pessoas atendidas, 
torna-se também um canal de tomada de consciência da população usuária sobre o 
exercício da cidadania e no reconhecimento dos direitos como um dever do Estado. 
Nessa perspectiva, é relevante salientar que trazendo para a realidade de 
crianças e adolescentes, o trabalho articulado do SEAS com outros serviços 
socioassistenciais e demais políticas públicas, representa uma ramificação da 
proteção integral prevista pelo ECA, uma vez que vem seguir uma direção semelhante 
a que é proposta por essa concepção, baseando-se no fortalecimento da relação entre 
os serviços da rede de proteção a fim promover a ampliação das garantias de crianças 
e adolescentes. 
Estando em contato direto com as situações de violações, o SEAS também é 
um importante observatório da realidade de crianças e adolescentes que tem seus 
direitos violados constantemente. Através do atendimento de suas demandas diárias, 
ao passo que se busca o acesso da infância e juventude pobre aos seus direitos, 
ainda se evidência os impactos desastrosos que a falta de amplitude do ECA pode 
gerar na vida desses indivíduos. 
Diante desta reflexão, iremos analisar os dados disponibilizados pelo Serviço 
Especializado em Abordagem Social sobre os atendimentos realizados em Natal, no 
período de janeiro a dezembro de 2021. Este documento traz os dados apresentados 
72 
 
pelo SEAS 78 e organizados pelo Departamento de Informação, Monitoramento e 
Avaliação de Políticas Públicas – DIMAPS. 
Quanto a quantidade e perfil das pessoas abordadas, os dados gerais indicam 
que: 
 
Tabela 1: Quantidade e perfil das crianças e adolescentes abordados pela equipe do SEAS 
Região Norte Sul Leste Oeste 
Idade/sexo Masc. Fem. Masc. Fem. Masc. Fem. Masc. Fem. 
0 a 12 anos 63 47 174 198 165 228 18 20 
13 a 17 anos 4 1 30 29 18 39 11 6 
Total 67 48 204 227 183 267 29 26 
Fonte: SEMTAS/SEAS/DPSE/DIMAPS (2022) 
 
 Os próximos dados revelam os principais tipos de violação de direitos 
evidenciados pelo Abordagem Social, trazendo a classificação das violações 
organizadas a partir da região onde foi identificada, apontando os seguintes números: 
 
Tabela 2: Tipos de violações identificas na abordagem aos usuários 
Violações/Regiões Norte Sul Leste Oeste 
Violência física 01 00 01 00 
Violência psicológica 01 00 00 00 
Violência sexual 01 00 00 00 
Abuso sexual 00 01 00 00 
Negligência e abandono 04 00 03 03 
Pessoas perdidas ou 
desorientadas 
01 00 00 04 
Outros tipos 01 06 20 04 
Pessoas abordadas junto 
a um caso de trabalho 
infantil 
01 03 08 00 
Trabalho infantil 105 435 419 47 
Fonte: SEMTAS/SEAS/DPSE/DIMAPS (2022) 
 
Os dados ainda indicam os principais tipos de trabalho infantil encontrados 
durante o trabalho da Abordagem Social, representados pelos números abaixo: 
 
78 Ressaltamos que esses dados estão fundamentados nos atendimentos realizados, portanto não 
consta qual a região de origem dos usuários, somente a região onde ele foi abordado pelo SEAS. 
73 
 
Tabela 3: Tipos de trabalho infantil identificados na abordagem aos usuários79 
Regiões Norte Sul Leste Oeste 
Trabalho 
infantil/Idade 
0 a 12 
12 a 
16 
0 a 12 
12 a 
16 
0 a 
12 
12 a 
16 
0 a 12 
12 a 
16 
Mendicância 70 00 297 20 394 18 33 00 
Vendedor 
ambulante 
18 00 41 08 09 00 01 00 
Feirante 01 00 24 00 00 01 00 00 
Fretista (feira livre) 00 00 125 00 00 00 00 00 
Guardador de carro 01 00 28 00 00 00 00 00 
Limpador de 
parabrisa 
10 00 130 01 00 00 00 00 
Malabarista 01 00 05 04 06 00 00 00 
Trabalho doméstico 00 00 14 00 00 00 00 00 
Coleta de lixo ou 
materiais recicláveis 
00 00 24 00 00 00 00 13 
Office 
boy/mensageiro 
00 00 26 00 00 00 00 00 
Outros 01 01 00 00 00 00 00 00 
Fonte: SEMTAS/SEAS/DPSE/DIMAPS (2022) 
 
 Os dados apresentados acima revelam aspectos importantes sobre a violação 
de diretos de crianças e adolescentes em Natal. Primeiramente, constata-se a 
superioridade das ocorrências entre crianças de 0 a 12 anos, do sexo feminino, nas 
regiões Sul e Leste. Posteriormente, os dados mostram que a grande parte dos casos 
são de trabalho infantil, com uma ênfase maior para a situação de mendicância, que 
provavelmente envolve todo o núcleo familiar. Ainda é válido destacar a região Sul, 
apresenta a maioria das violações, estando concentrado em seu território diversos 
tipos de trabalho infantil, seguida da região Leste. 
Destacamos que essa ocorrência predominante das violações caracterizadas 
por trabalho infantil nas regiões Sul e Leste da capital potiguar, também elucida um 
outro indicativo relacionado a concentração de renda nessas regiões da cidade, visto 
que a população mais rica reside nos bairros localizados nessas zonas. Enquanto as 
 
79 Salientamos que em uma análise mais profunda dos dados, notou-se uma discrepância entre os 
números apresentados no total de casos das tabelas 1 e 2 em relação a tabela 3, principalmente nas 
regiões Sul e Leste. Essa diferença entre os números foi questionada à coordenação do SEAS. Foi-
nos explicado que a distinção acontece devido à recorrência de casos, ou seja, quando o usuário é 
abordado mais de uma vez pelo Serviço. Por essa razão a Tabela 3, que especifica os tipos de trabalho 
infantil identificados, revela um número superior em relação as outras tabelas quando somamos o total 
de casos. A coordenação do SEAS também ressaltou que os dados estão passando por um processo 
de reordenamento, para que essas diferenças fiquem melhor explicadas. 
 
74 
 
regiões Norte e Oeste, que apresentam um número menor de demandas e são aonde 
se concentram os bairros mais pobres de Natal. 
Para comprovarmos tal reflexão iremos analisar os indicativos apontados pelo 
Plano Municipal de Assistência Social (2022 – 2025) elaborado pela Assessoria 
Técnica/SEMTAS juntamente com a Comissão de Elaboração do Plano (instituída 
pela Portaria nº 148/2021 – GS/SEMTAS, de 07 de outubro de 2021) formada por 
técnicos da SEMTAS e membros do Conselho Municipal de Assistência Social – 
CMAS (NATAL, 2021). Este documento traz dados importantes quanto a situação 
territorial e socioeconômica do município de Natal, colocando apontamentos 
extremamente relevantes para a análise da disparidade entre a realidade das regiões 
Sul e Leste em comparação com as regiões Norte e Oeste. 
Os dados apresentados nesse Plano, são fundamentados em índices 
demográficos e socioeconômicos, que expõem as situações de risco ocasionadas 
pela condição de pobreza e vulnerabilidade social que afetam pessoas e famílias 
residentes das quatro regiões de Natal, sobretudo nas zonas Norte e Oeste. Os 
estudos produzidos com base em análises mais específicas em territórios de menos 
extensão como bairros, vilas e favelas, são empreendidas a partir estudos produzidos 
por terceiros e, quando possível, pela equipe da Vigilância Socioassistencial (NATAL, 
2021). 
No tocante a população, Natal/RN tem uma estimativa de população residente 
de 896.708 habitantes em 2021, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e 
Estatística – IBGE. A população encontra-se divididanas quatro Regiões 
Administrativas com características próprias e peculiares, sendo a região Norte a mais 
populosa com uma estimativa de 353.905 habitantes, seguida, respectivamente, pelas 
regiões Oeste (242.378 habitantes), a Sul (185.795 habitantes) e a Leste (108.400 
habitantes) (NATAL, 2021). 
Quanto a renda da população por regiões, os dados já evidenciam que: 
[...] as regiões Norte e Oeste têm aproximadamente 67% da população da 
cidade com renda domiciliar de cerca de 03 salários-mínimos menor do que 
aproximadamente 35% restantes, residentes nas regiões Leste e Sul. Há uma 
disparidade populacional e de renda nessas regiões que já nos prenuncia a 
vulnerabilidade social observada durante a execução cotidiana nos serviços 
socioassistenciais (NATAL, 2021, p. 19). 
 
A análise dos dados ainda revela que: temos as duas regiões mais populosas 
de Natal, que possuem a menor concentração de renda, quando comparamos com as 
regiões menos populosas. Uma contradição potencializadora de diversas expressões 
75 
 
da questão social que circunda todo o contexto familiar e, consequente, impacta a vida 
das crianças e adolescentes residentes dessas regiões, como iremos observar. 
Desse modo, os dados também revelam que as zonas Norte e Oeste da Capital 
potiguar concentram a maior população absoluta – sobretudo jovens e adultos (18 a 
59 anos) – e também retêm a grande parcela da população de crianças e 
adolescentes, em comparação com as zonas Sul e Leste. “Levando em conta todo o 
município, 77% das crianças estão nas regiões Norte e Oeste” (NATAL, 2021, p. 21). 
 Diante disso, destaca-se que se considerarmos que: 
[...] as piores rendas estão com as famílias nas regiões onde há mais crianças 
e adolescentes, temos um quadro geral de potencial sujeição a 
vulnerabilidades diversas naqueles territórios. Há uma grande parcela de 
jovens e adultos com as piores rendas da cidade e com a maior parcela de 
crianças e adolescentes sob sua responsabilidade ou sob a dependência de 
idosos” (NATAL, 2021, p. 21). 
 
 Defronte dessa observação podemos refletir, novamente sobre a condição de 
pobreza de crianças e adolescentes que envolvem todo o contexto familiar, uma vez 
que essa população é dependente de seus responsáveis e sua situação de vida está 
condicionada ao contexto de existência de sua família. Quando tratamos destas 
condições, refletidas na seção 3.2, consideramos famílias sem renda fixa e nem 
moradia adequada, que dependem das políticas públicas brasileiras fragmentadas e 
fragilizadas, incluindo a Assistência Social, e que procuram outras formas de 
sobrevivência. 
A baixa renda dos adultos ocasiona outro conjunto de problemas ligados ao 
subemprego, à baixa instrução e qualificação, bem como possíveis situações de 
assédio e exposição a atividades ilegais. Desse modo, muitas crianças e adolescentes 
pressionados pela baixa renda familiar, podem vir a buscar outras atividades para 
gerar renda e ajudar no sustento da família, mas que acabam expondo-os a situações 
de risco e vulnerabilidade (NATAL, 2021). 
Configurando o abandono que analisamos no decorrer deste estudo, que não 
envolve apenas o núcleo familiar, mas todo o conjunto de inconsistências nas 
responsabilidades do Estado brasileiro. É nessa conjuntura que o SEAS busca 
atender esses indivíduos, na perspectiva de inseri-los nos serviços socioassistenciais 
e demais políticas públicas. Entretanto, esse trabalho ativo esbarra na insuficiência do 
sistema de proteção social brasileiro e nos diversos desmontes em curso no país, que 
impactam negativa e extensivamente as articulações do Serviço e o trabalho em rede, 
76 
 
envolvendo outra série de determinantes, que vão desde a qualidade e estrutura física 
dos serviços até a formação dos profissionais. 
Os dados revelados pelo Plano Municipal de Assistência Social, tendo em foco 
a situação delicada das regiões Norte e Oeste, ainda apontam que os indicadores 
quanto a educação nesses territórios, não são muito animadores. No que tange a rede 
pública municipal, as zonas Norte e Oeste possuem um maior número de unidades 
do que as regiões Sul e Leste. No entanto, “Norte e Oeste têm uma taxa de 
alfabetização cerca de 5% abaixo das regiões Sul e Leste. Porém um número bem 
maior de matriculas indica a existência de algum fator que reduz o aproveitamento 
dos estudos para alunos daquelas regiões” (NATAL, 2021, p. 25). 
 Como já podemos observar, a garantia do acesso aos direitos em sua 
totalidade, envolve uma série de fatores e determinantes da vida de crianças e 
adolescentes. O acesso à educação, não pressupõe somente a existência de escolas, 
mas também à convivência familiar daquele individuo, o acesso à alimentação de 
qualidade diariamente, à moradia adequada, o ambiente de crescimento, entre outras 
condições preconizadas para o desenvolvimento nessas fases da vida. 
Dessa maneira, destaca-se ainda que: 
No campo da Educação pública, todo o município tem resultados 
insatisfatórios, com agravantes nas regiões Norte e Oeste, cuja combinação 
da baixa, ausência familiar e rede de ensino frágil confere um potencial de 
expectativas negativas à criança/adolescentes e suas famílias (NATAL, 2021, 
26). 
 
 Quando tratamos da saúde, considera-se que a concentração de famílias com 
renda acentuadamente inferior nas regiões Norte e Oeste, consequentemente, 
ocasiona uma pressão maior nos serviços públicos de saúde, evidenciando a 
fragilidade deste sistema, principalmente, na atenção básica e acompanhamento das 
famílias. Nota-se também que tanto na saúde, quanto na educação, as regiões Sul e 
Leste tem mais concentração de clinicas e hospitais privados, bem como redes 
particulares de ensino (NATAL, 2021). 
Quanto aos aspectos socioeconômicos, os dados indicam que: 
As regiões Sul e Leste têm mais que o dobro das unidades econômicas de 
Norte e Oeste, revelando uma circulação de renda maior naquelas regiões e 
em consonância com a renda média sensivelmente maior que possuem. 
Importante lembrar aqui que 67% da população vive nas regiões Norte e 
Oeste e que, ainda que estas sejam empregadas em sua maioria nas regiões 
Sul e Leste, a renda sensivelmente menor de seus moradores nos habilita a 
dizer que as receitas, lucros e dividendos permanecem nas regiões com 
maioria de unidades econômicas (NATAL, 2021, p. 31). 
 
77 
 
 Esses indicativos retomam a nossa proposição de que os atendimentos do 
SEAS são mais frequentes na região Sul e Leste devido a maior concentração de 
renda, visto que a maioria dos casos abordados é trabalho infantil (mendicância) e 
ocorre nos territórios de maior circulação de dinheiro. Diante disto, e dos demais 
indicativos expostos, ainda podemos supor que as famílias atendidas nas regiões Sul 
e Leste podem ser oriundas das regiões Norte e Oeste, onde as condições de 
desenvolvimento são acentuadamente mais pauperizadas80. 
 Reavendo as disparidades significantes entre as regiões Sul e Leste em 
comparação com as regiões Norte e Oeste, o Plano Municipal de Assistência Social 
reitera essa análise através da medição do Índice de Qualidade de Vida Humana 
(IQV), contabilizado a partir na média aritmética dos IQV’s ambiental, de educação e 
de renda, com isso eles explanam que (NATAL, 2021, p.33): 
Estes subíndices do IQV procuram aferir a renda, a taxa de analfabetismo, o 
abastecimento de água, adequação da coleta de lixo e de esgotamento 
sanitário. Novamente, a distribuição entre as regiões se repete, ficando a 
região Sul com o maior índice, seguida pela Leste. Num patamar mais abaixo, 
aparece a região Oeste e então a Norte. 
 
 As discrepâncias alarmantes também se repetem quando se revelam os dados 
tangentes a infraestrutura dos territórios, visto que as regiões Norte e Oeste contêm 
uma quantidade significativamente maior de moradias inadequadas, chamados pelo 
IBGE de aglomerações subnormais. Em relação à instalaçãode equipamento 
urbanos, como unidades de desporto e praças, a região Sul possui aproximadamente 
o dobro de instalações se compararmos com a região Oeste, apresentada como a 
mais escassa nesse sentido (NATAL, 2021). 
 Em face dos dados apresentados ao longo desta seção, reforçamos, 
novamente, que relacionando os indicadores disponibilizados pelo SEAS com os 
diagnósticos territoriais do Plano Municipal de Assistência Social podemos supor que 
as famílias abordadas pelo SEAS nas regiões Sul e Leste, são oriundas das regiões 
Norte e Oeste. Principalmente, quando notamos que em um comparativo geral entre 
as regiões administrativas, averígua-se que as zonas Norte e Oeste possuem a 
maioria dos casos de vulnerabilidade, ameaça ou violação de direitos acompanhados 
pelos serviços socioassistenciais (NATAL, 2021). 
 
80 Salientamos que, apesar dos indicativos apresentados fazemo-nos refletir sobre este apontamento, 
não podemos afirmar, pois ainda não existem dados concretos baseados nos encaminhamentos feitos 
pelo SEAS, que comprovem essa hipótese. 
78 
 
 Esta análise pode ir para além do comparativo com os dados de atendimento 
do SEAS, uma vez que revelam as acentuadas diferenças entre as regiões de Natal, 
demostrando que se a grande maioria das crianças e adolescentes natalenses são 
residentes das regiões com menos infraestrutura e mais exposição vulnerabilidades, 
onde a proteção integral prevista pelo ECA enfrenta desafios enormes para alcançar 
a amplitude. 
 Possuímos uma população crescente de crianças e adolescentes 
abandonados pelo Estado e um grande contingente de famílias, que sem as estruturas 
e condições necessárias, são totalmente responsabilizadas por esse abandono. Um 
ponto fulcral para as aspirações desse estudo e uma contradição inerente do sistema 
capitalista, que alimenta a intensificação da pobreza e da miséria na vida de grande 
parte das famílias. 
 Com isso, não invalidamos as ações desenvolvidas pelo SEAS ou pelos demais 
serviços socioassistenciais, que dentro de suas possibilidades, representam 
intervenções essencialmente importantes nessa realidade, apenas buscamos 
evidenciar que a recorrência de casos de violação de diretos, relacionados a pobreza 
e a miséria, são agudizados pelo avanço neoliberal sob as políticas públicas e pelo 
afastamento do Estado de suas responsabilidades. Produzindo impactos desastrosos, 
que não se limitam somente as perspectivas abordadas nesse estudo, de fato atingem 
massivamente todo o conjunto dos diretos sociais e humanos previstos, sobretudo em 
nossa Constituição Federal de 1988. 
 Em suma, esta seção buscou analisar através dos dados apresentados, uma 
realidade que está em face no nosso cotidiano, quando observamos o número 
progressivo de crianças, adolescentes e suas famílias nas ruas buscando outras 
formas de sobrevivência, dentro desse sistema cruel que reproduz amplamente as 
diversas expressões da questão social. 
 Diante deste cenário conflituoso, na seção seguinte iremos refletir sobre a 
inserção do Serviço Social no espaço sociocupacional do SEAS, além de ressaltarmos 
a importância da/do Assistente Social na luta pelos direitos das crianças e 
adolescentes, como uma profissão aguerrida no enfretamento da questão social 
mediante o acesso garantido aos direitos e na organização da classe trabalhadora. 
 
 
79 
 
4.3 A INSERÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL NO SEAS: POTENCIALIDADES E 
DESAFIOS PROFISSIONAIS 
 
 Desde seu surgimento, o Serviço Social passou por intensos e importantes 
processos de reconceituação, rompendo com linhas de pensamento hegemônicas 
para sociedade, a fim de elevar as análises profundas das determinações capitalistas, 
que potencializam a pobreza e o pauperismo nas classes subalternas. Uma trajetória 
atravessada por inúmeros tensionamentos na busca pela ampliação do que já foi 
conquistado, afastando-se das práticas conservadoras e discriminatórias, como 
colocado por Iamamoto (2011, p. 51): 
A relação do debate atual com esse longo trajeto é uma relação de 
continuidade e de ruptura. É uma relação de continuidade, no sentido de 
manter conquistas já obtidas, preservando-as; mas é, também, uma relação 
de ruptura, em função das alterações históricas de monta que se verificam no 
presente, da necessidade de superação e impasses profissionais vividos e 
condensados em reclamos da categoria profissional. 
 
 Nesta seção iremos nos aprofundar sobre o Serviço Social, em sua luta pela 
garantia de direitos, principalmente, no segmento da infância e juventude. 
Destacando, a princípio, como a profissão se alinhava diante das primeiras formas de 
intervenção quanto a questão das crianças e adolescentes, abordadas na seção 2.1 
deste estudo. Até sua ruptura com vertentes conservadoras que compreende uma 
virada total nas perspectivas teóricas, metodológicas e interventivas da profissão. A 
partir desta reflexão, analisaremos a inserção do Serviço Social no âmbito do Serviço 
Especializado em Abordagem Social – SEAS, através das contribuições profissionais 
nesse espaço. 
 Inicialmente, acentua-se que em meio as primeiras intervenções caracterizadas 
pela “parceria” Estado-Igreja, a profissão se apresentava como um agente regulador 
enquadrado na categoria de controle e manutenção da ordem, mediante ações que 
reforçavam a lógica compensatória e assistencialista. Afinal, dentre todas as 
manifestações da questão social, comedir a infância e adolescência desassistida era 
uma tarefa essencial, visto que essa população poderia se tornar, futuramente, os 
adultos revoltosos que colocariam em risco a ordem vigente (PAULA, 2001). 
 Nessa conjuntura, observa-se o alinhamento do Serviço Social tradicional a 
ideologia hegemônica, que se preocupava apenas em institucionalizar o problema 
80 
 
como forma de conter o crescimento dos “menores em situação irregular”. Com isso, 
Paula (2001, p. 13 – 14) afirma que: 
Dentro deste contexto de desenvolvimento histórico, percebemos a presença 
dos profissionais em Serviço Social, aliando seus saberes, à uma 
metodologia pautada nos princípios funcionalistas. Essa lógica unia a ideia 
do modelo correcional à prática assistencialista. 
 
Essa perspectiva se arrastou ao longo dos anos, em intervenções pouco 
aprofundadas e descontinuas, que potencializavam somente a violência e a coerção 
contra as crianças e adolescentes pobres. Um posicionamento que começa a sentir 
os primeiros sinais de mudança diante da insuficiência destes modelos retrógrados de 
gestão social, quando a categoria passa a enfrentar uma crise identitária e a 
questionar tanto os métodos de atendimento as crianças e adolescentes, quanto da 
população em geral (PAULA, 2001). 
Este vazio no interior da prática profissional gerou uma corrida em busca da 
cientificidade. Encontros, congressos, seminários e intensos debates no 
interior da categoria buscaram referendar a formação técnica e o 
conhecimento científico dos Assistentes Sociais. Documentos como os de 
Araxá, Teresópolis e Sumaré expressam essas primeiras tentativas (PAULA, 
2001, p. 15). 
 
 A partir dos primeiros movimentos de intenção de ruptura, passa-se também a 
compreender a essencialidade da presença profissional do Serviço Social nos amplos 
processos de acompanhamento e atendimento as crianças e adolescentes, assim 
como de suas famílias. Nota-se ainda um crescimento o significativo de estudos e 
análises nessa área. Dessa forma, a/o Assistente Social passa a ser um profissional 
indispensável na composição de equipes multiprofissionais (PAULA, 2001). 
 O fim da década de 1970, representa o desgaste do militarismo e para o Serviço 
Social constitui o momento de renascimento como profissão e área de conhecimento, 
em novos moldes e perspectivas, permeados por estratégias inovadoras de trabalho. 
Este marco para o Serviço Social é consagrado pelo 3º Congresso Brasileirode 
Assistentes Sociais - CBAS em 1979, conhecido como “Congresso da Virada”, que 
concretizou as aspirações revolucionarias que cresciam no interior da categoria e 
buscavam essa ampla transformação nas bases da profissão. 
 O início da década de 1980, assinala os primeiros passos dessa nova postura 
profissional, em meio a inquietude dos movimentos sociais e, sobretudo ao apelo pela 
construção de novas perspectivas para a proteção da criança e do adolescente no 
Brasil (PAULA, 2001). Desse modo, temos um marco primordial dessas aspirações 
81 
 
inovadoras no Serviço Social, o Código de Ética de 198681, fundamentado em novos 
direcionamentos ancorados no comprometimento com os interesses e necessidades 
da classe trabalhadora, respaldando-se em uma análise histórica, buscada na tradição 
marxista, assim como na superação do tratamento a-histórico e abstrato dos Códigos 
anteriores (BARROCO; TERRA, 2012). 
 Como já abordado neste estudo, a intensa luta dos movimentos de defesa da 
infância e juventude culminaram nos arts. 227, 228 e 229 da Constituição Federal de 
1988 e, posteriormente, na promulgação do ECA, em 1990. Pouco tempo depois, 
também se registra outro passo importante para o Serviço Social, a aprovação do 
Código de Ética de 1993 82 , através da Lei de Regulamentação (Lei 8.662/93), 
fundamentando o novo direcionamento ético-político, teórico-metodológico e técnico-
operativo. 
 Diante desses marcos legais, Iamamoto (2010, p. 262 – 263) reitera ainda que: 
As conquistas legais se refletiram no espaço ocupacional do assistente social, 
em especial na esfera pública, permitindo inscrever o conteúdo e 
direcionamento do trabalho profissional na órbita dos direitos sociais: em sua 
viabilização e no acesso aos meios de exerce-los. Nesse sentido, salienta-se 
o redimensionamento da seguridade social – saúde, assistência e previdência 
-, com especial destaque para a assistência social, regulamentada em 1993, 
através a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS). 
 
Segundo Netto (1999), a profissão é atravessada por propostas teórico-
metodológicas, fraturas ideológicas, práticas múltiplas, confronto de intervenções e 
alternativas. Inserido em diversos espaços sócio-ocupacionais, o Serviço Social 
reafirma seu posicionamento em defesa da classe trabalhadora e tenta se articular 
com outros setores nessa luta. 
Para Iamamoto (2011), um grande desafio para os assistentes sociais na 
contemporaneidade é ampliar a capacidade de entender e analisar a realidade com o 
intuito de contribuir com sugestões criativas e eficazes na garantia de direitos, 
mediante as demandas que se apresentam nos diversos campos de atuação, a fim de 
ser um “profissional propositivo e não só executivo”. 
 
81 “A partir de 1986, o CE passa a se dirigir explicitamente ao compromisso profissional com a 
realização dos direitos e das necessidades dos usuários, entendidos em sua inserção de classe. Como 
se percebe, são conquistas políticas inestimáveis, sem as quais não seria possível alcançar o 
desenvolvimento verificado nos anos 1990” (BARROCO; TERRA, 2012, p.48). 
82 “A reformulação do CE de 1993 ocorreu, portanto, em um cenário de enfrentamento do 
neoliberalismo, em meio ao surgimento da questão ética como tema de mobilização política da 
sociedade e de um longo processo de debates que revelou a disputa entre as tendências profissionais 
que, por um lado, buscavam preservar as conquistas objetivadas em 1986 e, por outro, pretendiam a 
sua regressão” (BARROCO; TERRA, 2012, p. 49). 
82 
 
 Essas reflexões fazem da profissão um agente indispensável na luta dos 
trabalhadores e trabalhadoras pelo acesso a seus direitos, além de representar uma 
relevante área de produção do conhecimento, principalmente, no que tange a questão 
social e suas múltiplas expressões. Tais reflexões fomentam análises empreendidas 
no sentido entender o real papel do Estado como viabilizador das políticas públicas 
que garantam condições dignas de vida para todos os indivíduos, na busca pela 
emancipação humana. Nesse sentido, inclui-se também a garantia da proteção 
integral de crianças e adolescentes, mediante a concretização do ECA e o acesso 
assegurado aos serviços. 
 Como consagra o princípio fundamental I do Código de Ética do/a Assistente 
Social (Lei 8.6662/93) “Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das 
demandas políticas a ela inerentes - autonomia, emancipação e plena expansão dos 
indivíduos sociais” (CFESS, 2012, p. 23). 
 Paula (2001, p. 9) ainda explana que: 
Neste sentido, é que a categoria profissional do Serviço Social agrega valores 
emancipatórios ao trabalho, à medida que disponibiliza as reservas teórico-
metodológicas acumuladas no decorrer de sua história, assim como a diretriz 
técnica de seu projeto ético-político. No mais, como categoria estruturante do 
trabalho na área social, o Serviço Social tem estado a frente das lutas 
significativas que engendram direitos e valores democráticos como por 
exemplo as lutas que levaram a aprovação da Lei 8.069/90 (ECA) ou da Lei 
8.742/93 (LOAS). 
 
 Tendo como base essas ponderações, entende-se a importância de reforçar a 
ideia de responsabilização do Estado, a fim de romper com a culpabilização dos 
indivíduos, fundamentada na falta de uma análise profunda dos determinantes que 
incidem nas diversas situações de vulnerabilidade. Neste viés, é importante 
compreender como profissionais se posicionam em sua inserção nos diversos 
ambientes sócio-ocupacionais. 
Desse modo, o Serviço Social trava sua luta contra a disseminação dos 
discursos conservadores e na defesa de condições dignas de vida para todos os 
indivíduos, mediante o acesso as políticas sociais amplas e continuadas. Alinhados 
aos interesses da classe trabalhadora, os profissionais são desafiados pelas 
demandas cotidianas e atravessados pelos ditames do capital, que implicam na 
construção e concretização do seu trabalho. 
 Afinal, os assistentes sociais são chamados a refletirem de forma crítica, em 
seu cotidiano de trabalho, tendo como parâmetro as diretrizes do Código de Ética, que 
indicam a direção ético-política do exercício profissional, buscando que a 
83 
 
materialização dessas orientações não aconteça de forma abstrata, sendo necessário 
dar vida ao documento, tê-lo como base da construção do projeto profissional 
(IAMAMOTO, 2011). 
 Assim, ressalta-se a importância da valorização desses parâmetros na inserção 
dos assistenciais sociais em órgãos e serviços, de defesa das crianças e dos 
adolescentes, como o Serviço Especializado em Abordagem Social – SEAS, estando 
dispostos a entender os determinantes sociais que incidem na questão do abandono 
e quais as formas de enfrentamento. Dessa maneira, espera-se que os profissionais 
inseridos neste Serviço de proteção, estejam alinhados com o que é proposto pelo 
Serviço Social em suas dimensões teórico-metodológicas, técnico-operativas e ético-
politicas indissociáveis. 
 Em sua atuação no SEAS, as/os assistentes sociais83 desempenham um papel 
importantíssimo 84 quando tratamos do conhecimento dos usuários sobre seus 
direitos. O profissional tem uma participação ativa nas atividades socioeducacionais 
desenvolvidas, sendo o técnico de referência das equipes e estando também na 
coordenação do Serviço, assim como no planejamento das ações e encaminhamentos 
realizados. 
 No contato direto com os usuários e as violações evidenciadas, os profissionais 
buscam através da orientação e informação fazer com que aquele indivíduo se 
reconheça como sujeito de direito e tenha plena consciência de que esses direitos 
devem ser assegurados pelo Estado. E, mediante os encaminhamentos, alcançar o 
acesso da população atendida aos serviços e programas disponibilizados pelas 
políticas públicas. 
 Esse trabalho desenvolvido pelas/pelos assistentes sociais no SEASremete ao 
art. 5 do Código de Ética, alíneas b e c: 
b- garantir a plena informação e discussão sobre as possibilidades e 
consequências das situações apresentadas, respeitando democraticamente 
as decisões dos/as usuários/as, mesmo que sejam contrárias aos valores e 
às crenças individuais dos/as profissionais, resguardados os princípios deste 
Código; 
 
83 Destacamos que as reflexões sobre o trabalho das/os assistentes sociais no SEAS, foram 
construídas a partir de uma breve observação realizada junto a uma das equipes do Serviço, como 
explicitado na introdução desta monografia. A atividade de pesquisa foi desempenhada através da 
solicitação via oficio emitida pela UFRN e autorizada pela SEMTAS e pela coordenação do SEAS. 
84 “Os assistentes sociais trabalham com as mais diversas expressões da questão social, esclarecendo 
a população sobre seus direitos sociais e os meios de ter acesso aos mesmos” (IAMAMOTO, 2010, p. 
276). 
84 
 
c- democratizar as informações e o acesso aos programas disponíveis no 
espaço institucional, como um dos mecanismos indispensáveis à participação 
dos/as usuários/as; 
 
 De acordo com Iamamoto (2010), os assistentes socias são desfiados, 
cotidianamente, a trabalhar com as situações singulares da vida dos sujeitos, dotadas 
de dimensões universais e particulares das manifestações da questão social, que se 
espraiam ao longo da vida de cada um deles. O contato com essas dimensões permite 
ao assistente social lograr de um conjunto de informações, que associadas a uma 
perspectiva teórica crítica propiciam a esse profissional compreender os novos ramais 
da questão social, que impõem outros desafios a atuação profissional. 
 Com essa reflexão a autora ainda destaca alguns dos desafios enfrentados, 
que também podem se encaixar no cotidiano das/dos assistentes socias no SEAS, 
em face das situações vivenciadas pelos usuários no que tange: 
[...] a falta de atendimento às suas necessidades na esfera da saúde, da 
habitação, da assistência; nas precárias condições de vida das famílias; na 
situação das crianças de rua, no trabalho infantil; na violência doméstica, 
entre inúmeros outros exemplos (IAMAMOTO, 2010, p 276). 
 
 São inúmeras situações de violações já abordadas no decorrer deste estudo, o 
enfretamento das expressões da questão social com certeza estabelece múltiplos 
tensionamentos na atuação dos assistentes sociais tanto no SEAS, como em outros 
espaços de inserção como a saúde, o sociojurídico, a política urbana, a questão 
agrária, entre outras áreas. 
 Defronte das violações, os profissionais possivelmente ainda lidam com 
estraves burocráticos85 na sua relação com as demais políticas, órgãos e serviços, 
bem como com suas limitações e desfinanciamento. O processo de despolitização do 
enfrentamento da questão social – expressada pelos desmontes, pela transferência 
das responsabilidades estatais para o Terceiro setor e pela crescente mercantilização 
do atendimento as necessidades sociais – outorga uma árdua conjuntura para os 
assistentes sociais (IAMAMOTO, 2010). 
 Iamamoto (2010, p. 271) reforça ainda que: 
E o assistente social, que é chamado a implementar e viabilizar direitos 
sociais e os meios de exercê-los, vê-se tolhido em suas ações, que 
dependem de recursos e meios de trabalho cada vez mais escassos para 
operar as políticas e serviços sociais públicos. 
 
85 Acreditamos também, que no espaço do SEAS, os assistentes sociais também têm de lidar com a 
requisição imediatista de resposta as demandas, que pode dificultar a análise mais profunda dos dados. 
 
 
85 
 
 
 Por conseguinte, identifica-se os efeitos adversos na atuação profissional, do 
recrudescimento no projeto neoliberal notabilizado no decurso dos últimos anos, 
caracterizado nas ofensivas copiosas ao já incipiente padrão de proteção social 
brasileiro que promove, juntamente, a reconfiguração e destituição dos direitos 
sociais, tal como o esvaziamento das políticas públicas, como ponderado na seção 
2.2 (SANTOS, 2020). 
 As reflexões construídas nesta seção, partem da amplitude da importância do 
Serviço Social em contextos gerais dentro da Assistência Social para o recorte de sua 
atuação no SEAS, onde os profissionais defronte das violações – principalmente, 
crianças ou adolescentes e suas famílias em situação de mendicância – são 
desafiados por essas demandas, enquanto buscam a construção de vínculos com os 
usuários, objetivando o acesso aos programas e serviços. 
 Diante das exposições, ressaltamos novamente, a essencialidade deste 
profissional como técnico de referência nas equipes do SEAS, visto que o Serviço 
Social como graduação e área de conhecimento traz contribuições indispensáveis, 
sobretudo na construção de um trabalho alicerçado nas análises críticas dos 
determinantes, livre de preconceitos e discriminações, como bem expresso em nosso 
Código de Ética, “Exercício do Serviço Social sem ser discriminado/a, nem discriminar 
[...]” (CFESS, 2012, princípio fundamental XI, p. 24). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
86 
 
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 
 Ante as considerações desenvolvidas no desenrolar desta monografia, a 
princípio empreendemos nossa análise a partir das intervenções do Estado diante das 
inúmeras expressões da questão social que atingem a infância e a juventude pobre 
ao longo dos anos. Observamos um cenário, em que esses posicionamentos, em 
certos momentos históricos, nem sempre estavam diretamente ligados a ação estatal, 
de fato as crianças e adolescentes oriundos das classes subalternas não eram 
enxergados como um problema de responsabilidade do Estado, visto que pertenciam 
ao âmbito privado da família ou, em outros casos, à atuação filantrópica da Igreja. 
 Identificamos que esse problema só passou a ser reconhecido como uma 
questão de Estado entre as décadas de 1920 e 1930, com a aprovação do Código de 
Menores de 1927 e a criação do SAM, intervenções essas que vieram apenas 
fortalecer a perspectiva de institucionalização do problema através da disseminação 
de uma visão cada vez mais estigmatizada dos chamados “menores em situação 
irregular”. A coerção e a violência características dessas intervenções ainda foram 
fortalecidas com a promulgação do Código de Menores de 1979. Em observância e 
obediência as legislações que o antecederam, apenas contribuiu para a tonificação 
deste “padrão” de atenção a infância e a juventude mediante à criação da FUNABEM 
e das FEBEMs. 
 Essas perspectivas sofreram uma verdadeira transformação somente com a 
criação e aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, em 1990. Um 
avanço grandioso no campo dos direitos infanto-juvenis, as inovações advindas deste 
documento simbolizam a luta aguerrida dos movimentos sociais pela construção de 
novos paradigmas no cuidado com as crianças e adolescentes. Pela primeira vez na 
história esse segmento social é enxergado em sua totalidade e seus diretos são 
entendidos a partir da concepção de proteção integral que envolve diversas áreas da 
vida e da sociabilidade desses sujeitos, como apontado na seção 2.1. 
 Todavia, essa construção também é atravessada por elementos que 
enfraquecem a sua amplitude e abrangência. A história ainda nos mostrou que ao 
passo que se concebem direcionamentos inovadores para a proteção de crianças e 
adolescentes, as ofensivas contra essas garantias crescem em proporções 
significativas, por meio da abertura dos governos a partir da década de 1990 aos 
87 
 
novos ditames do capital representados pelo ideário neoliberal. Esse advento marca 
um desafio mais árduo para a resistência dos movimentos sociais, em um período 
marcado pela promulgação de outras legislações sociais igualmente importantes, 
frutos da luta e esforço dessas organizações sociais. 
 A construçãodo ECA representa, justamente, uma conquista sublime dessa 
resistência social, salientando a relevância do enfrentamento do avanço neoliberal sob 
os direitos sociais. E como já refletido, o que seriam das crianças e adolescentes sem 
os direcionamentos desse Estatuto? Uma reflexão extremamente necessária em meio 
a tantos desmontes que sofremos atualmente nas políticas sociais, procuramos 
reconhecer a grandiosidade desse documento e entender que se ele fosse aplicado 
em sua totalidade, teríamos uma real transformação na realidade de crianças e 
adolescentes. 
 Transformação que, devido à falta de amplitude do ECA, ainda não consegue 
proteger integralmente todas as crianças e adolescentes, pois a pobreza e 
vulnerabilidade continuam a atingir grande parte da população, acentuando a violação 
de direitos básicos em uma realidade onde, verdadeiramente, nem os mínimos sociais 
estão garantidos. Uma condição extensamente identificada na cidade de Natal/RN, 
utilizada como recorte deste estudo. 
 Através dos dados disponibilizados pelo Serviço Especializado em Abordagem 
Social – SEAS – que atua diretamente com os usuários e as violações de direitos nos 
espaços público da cidade, buscando a inserção desses indivíduos nos serviços 
socioassistenciais e demais políticas públicas – averiguamos a predominância dos 
casos de trabalho infantil, sobretudo a condição de mendicância que diversas vezes 
envolve todo o núcleo familiar e está diretamente ligada a busca por formas de 
sobrevivência, em um sistema que necessita da pobreza para se desenvolver. 
 Retomamos ainda que essa situação foi analisada de acordo com a relação 
dos dados do SEAS com os indicadores apresentados pelo Plano Municipal de 
Assistência Social (2022 – 2025), que faz diagnóstico socio-territorial muito relevante 
na análise das condições de vida de crianças e adolescentes na capital potiguar, 
sobretudo a população residente nas regiões mais pobres da cidade. Salientamos 
que, tal análise fez nascer novas reflexões no tocante esta questão que ainda não 
podem ser comprovadas, devido à falta de dados específicos sobre os 
encaminhamentos do SEAS. 
88 
 
 Além disso, também podemos observar a indispensabilidade deste Serviço, 
principalmente, na busca ativa e no acesso aos direitos pelos usuários. Além de se 
mostrar como um observatório importante quanto as violações de direitos. Defronte 
do estudo sobre SEAS, ainda ressaltamos a relevância da inserção do Serviço Social 
nesse espaço, visto que nessa atuação o assistente social tem papel fundamental nas 
ações socioeducativas de conscientização dos usuários sobre seus direitos e no 
reconhecimento deles como cidadãos. No entanto, assim como em outros espaços, 
os profissionais do SEAS tendem a enfrentar seus desafios cotidianos, na articulação 
com outros serviços e programas da rede de proteção, assim como na busca do 
acesso dos indivíduos a direitos sociais cada vez mais fragilizados. 
 Em suma, retomamos a reflexão inicial de Rizzini e Pilotti “sugerem uma longa 
caminhada, quando, na verdade, quase não se saiu do mesmo lugar de origem”. Após 
as argumentações desenvolvidas no decorrer deste estudo, entendemos que 
conseguimos sair sim “do mesmo lugar de origem”, em face de tantos avanços sociais, 
como ECA. Entretanto as condições socioeconômicas da sociedade capitalista que 
vivemos, reeditam constantemente realidades que já poderiam ter sido superadas e 
muitas vezes nos fazem acreditar que não avançamos tanto assim. Verdadeiramente, 
conquistas como ECA ou as legislações da Assistência Social, apontadas neste 
estudo – LOAS, PNAS, SUAS e a Tipificação Nacional que regulamenta o SEAS – 
representam grandes avanços alcançados e, mais do que isso, também revelam a 
força e resistência dos movimentos sociais que lutaram por essas conquistas. 
 Pensar que “quase não se saiu do mesmo lugar” na concretização real desses 
direitos deve ser um impulso na luta pela ampliação dessas garantias, afinal temos 
legislações extremamente avançadas no plano normativo, mas que esbarram nas 
ações limitadas, seletivas e descontinuas de um Estado que, cada vez mais, se isenta 
de suas responsabilidades, sobretudo quando analisamos o abandono nos moldes 
que buscamos refletir nesta monografia. Trata-se de um abandono que não atinge 
somente as crianças e adolescentes pobres, mas todo o conjunto da classe 
trabalhadora. 
 
 
 
 
 
89 
 
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