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PSICOPATOLOGIA Definição Determinação histórica da loucura Normalidade x anormalidade Principais campos da psicopatologia Mecanismos de formação de sintomas 1 Psicopatologia Elie cheniaux Psiché = alma Páthos = sofrimento/doença Lógos = estudo/ciência Termo criado por Jeremy Benthan – 1817. Esquirol (França, 1837) e Griesinger (Alemanha, 1845) – considerados criadores da psicopatologia. “A psicopatologia é uma disciplina científica que estuda a doença mental em seus vários aspectos: suas causas, as alterações estruturais e funcionais relacionadas, os métodos de investigação e suas formas de manifestação”. 2 Psicopatologia Elie cheniaux/ Paulo dalgalarrondo Segundo Jaspers, “o objeto da psicopatologia é o fenômeno psíquico, mas só os patológicos”. Portanto, a psicopatologia trata do conjunto de conhecimentos referentes ao adoecimento mental do ser humano; não julga moralmente o seu objeto, busca apenas observar, identificar e compreender os diversos elementos da doença mental. 3 Determinação histórica da loucura 4 1. Demonologia – acreditava-se que os indivíduos que se comportavam de forma anormal estavam possuídos por demônios; 2. Introdução de explicações fisiológicas – a ênfase mudou para explicações naturais ou fisiológicas, como humores no corpo (Hipócrates); 3. Retorno à demonologia – a Idade Média viu a ênfase retornar aos demônios como causa do comportamento anormal; 5 A história da loucura David Holmes 4. Introdução do cuidado humanitário – a partir dos séc. XVII e XVIII foi novamente reconhecido que os indivíduos perturbados estavam doentes e tentativas foram empreendidas para tratá-los de forma mais humanitária (Pinel, Tuke); 5. Introdução das explicações psicológicas – no séc. XIX a atenção começou a se focalizar em explicações psicológicas para o comportamento anormal (Charcot, Freud, Pavlov, Skinner, Watson, etc); 6. Interesse renovado nas explicações fisiológicas – na déc. 50 a descoberta de drogas eficazes para tratar o comportamento anormal renovaram o interesse em explicações fisiológicas para o comportamento (neurofisiologia). 6 A história da loucura A história da loucura João Frayze-Pereira A gênese histórica da loucura segundo três grandes momentos: Renascimento (Séc. XVI) – liberdade; Época Clássica (Séc. XVII e XVIII) – “grande internação”; Modernidade (Final do séc. XVIII e início do séc. XIX) - surgimento da Psiquiatria. 7 No Renascimento o louco vivia “solto, errante, expulso das cidades, entregue aos peregrinos e navegantes”. O louco era visto como “tendo um saber esotérico sobre os homens e o mundo, um saber cósmico que revela verdades secretas”. E a loucura significava “ignorância, ilusão, desregramento de conduta, desvio moral, pois o louco toma o erro como verdade, a mentira como realidade” oposição à razão, instância da verdade e moralidade. 8 A história da loucura A experiência da loucura é celebrada de modos diversos: as artes plásticas, as obras de filosofia e de crítica moral e os textos literários testemunham o prestígio desta loucura, cujos enigmas têm poder de atração. 9 A história da loucura 10 A nau dos loucos – hieronymus bosch (1450-1516) “ A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos.” 11 Erasmo de Rotterdam (1467-1536) 12 Miguel de Cervantes (1547-1616) Nas artes plásticas a loucura fascina por sua força de revelação; no entanto, ao nível da literatura e da filosofia a loucura governa todas as fraquezas humanas, ocupa o primeiro lugar na hierarquia dos vícios. Até o final do século XVI sabedoria e loucura estavam muito próximas. 13 A história da loucura Na Época Clássica (séculos XVII e XVIII) a loucura abandona a nau em que ritualmente navegava por toda parte e se fixa no hospital. A designação da loucura era atribuída à percepção que instituições como a igreja, a justiça e a família tinham do indivíduo e os critérios referiam-se à transgressão da lei e da moralidade. 14 A história da loucura Em 1656 funda-se o Hospital Geral em Paris, onde iniciou-se “a grande internação”: os devassos (doentes venéreos), os feiticeiros (profanadores), os libertinos e os loucos. O Hospital Geral era uma instituição assistencial; não havia tratamento. Os loucos não eram vistos como doentes, e integravam um conjunto composto por todos os segregados da sociedade. O critério de exclusão era a inadequação do louco à vida social. 15 A história da loucura Na segunda metade do século XVIII, iniciaram-se reflexões médicas e filosóficas que situavam a loucura como algo que ocorria no interior do próprio homem, como perda da natureza própria, como alienação. Neste período surgem os asilos humanizados – Pinel, Tuke (a mentalidade da época considerava injusto para com os demais presos o convívio com os loucos). Os métodos terapêuticos eram: a religião, o medo, a culpa, o trabalho, a vigilância, o julgamento. 16 A história da loucura A história da loucura Final do séc. XVIII surge o especialista (psiquiatra) – aquele que está autorizado a saber. Inicia-se a medicalização; e a cura da doença mental (novo estatuto da loucura) ocorreria a partir de uma liberdade vigiada e no isolamento. Final do século XIX – Psicanálise: a loucura não passa pela dicotomia normal x anormal: 17 São constitutivos da vida psíquica de todos os indivíduos Angústia Dor Desejos Fantasias O que é loucura? João Frayze-Pereira 18 A loucura vista de duas formas Experiência corajosa de desvelamento do real: a loucura é saber. Falha da forma pessoal, normal, equilibrada e sadia do ser, um desvio do grupo social: o louco é perigoso. EXCLUSÃO Conceito de normalidade e de anormalidade 19 Conceito de normalidade e de anormalidade João Frayze-Pereira O anormal não um fato ou uma entidade autônoma que definiríamos pela identificação de um conjunto de propriedades delimitadas e imutáveis. O anormal é uma relação: ele só existe na e pela relação com o normal. Normalis – “aquilo que não se inclina nem para a direita nem para a esquerda” “que se mantém num justo meio termo”. Normalizar é impor uma exigência a uma existência que possui um caráter diversificado, ou seja, um modo de eliminar uma diferença. 20 Neste sentido o anormal é a negação lógica do normal; Entretanto, o sentido, a função e o valor de uma norma nascem apenas do fato de existir algo que não corresponde à exigência a que ela obedece; Ou seja, uma norma só vem a ser norma mediante a antecipação da possibilidade de sua infração. O anormal é condicionado pelo normal e é ao mesmo tempo condição do normal. 21 Conceito de normalidade e de anormalidade João Frayze-Pereira 22 A loucura depende do referencial: os sintomas vistos dentro da sociedade. “A doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconheça como tal” Foucault A doença em “A” não é em “B” a sociedade faz uma seleção de padrões; as doenças mentais podem variar como a moda – histeria, depressão, esquizofrenia Conceito de normalidade e de anormalidade João Frayze-Pereira Do ponto de vista do indivíduo: Sofrimento e Prejuízo adaptativo Do ponto de vista cultural: Desvio da norma 23 Conceito de normalidade e de anormalidade David Holmes Critérios de normalidade paulo dalgalarrondo 24 Critérios de normalidade paulo dalgalarrondo 25 Critérios de normalidade paulo dalgalarrondo 26 Critérios de normalidade paulo dalgalarrondo 27 Critérios de normalidade paulo dalgalarrondo 28 Critérios de normalidade paulo dalgalarrondo 29 Critérios de normalidade paulo dalgalarrondo 30 SUBJETIVA Critérios de normalidade paulo dalgalarrondo 31 Critérios de normalidade paulo dalgalarrondo 32 Principais campos da psicopatologia 33 Principais campos da psicopatologia paulo dalgalarrondo PSICOPATOLOGIA DESCRITIVA x PSICOPATOLOGIA DINÂMICA Psiquiatria descritiva – interessa basicamentea forma, a estrutura dos sintomas. Psiquiatria dinâmica – interessa o conteúdo da vivência, os movimentos internos de afetos, desejos e temores do indivíduo, sua experiência pessoal. A boa prática em saúde mental implica a combinação hábil e equilibrada de uma abordagem descritiva, diagnóstica e objetiva e uma abordagem dinâmica, pessoal e subjetiva do doente e de sua doença. 34 PSICOPATOLOGIA MÉDICA x PSICOPATOLOGIA EXISTENCIAL A perspectiva médico-naturalista trabalha com uma noção de homem centrada no corpo, no ser biológico. Assim, o adoecimento mental é visto como um mau funcionamento do cérebro, uma desregulação, uma disfunção de alguma parte do aparelho biológico. Na perspectiva existencial, o doente é visto principalmente como “existência singular” que é fundamentalmente histórico e humano. A doença mental, nessa perspectiva, é vista como um modo particular de existência, uma forma trágica de ser no mundo. 35 Principais campos da psicopatologia PSICOPATOLOGIA COMPORTAMENTAL-COGNITIVISTA x PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA Na visão comportamental, o homem é visto como um conjunto de comportamentos observáveis, verificáveis, que são regulados por estímulos específicos e gerais, e por certas leis e determinantes do aprendizado. Associada a essa visão, a perspectiva cognitivista centra atenção sobre as representações cognitivas conscientes de cada indivíduo. Os sintomas resultam de comportamentos e representações cognitivas disfuncionais, aprendidas e reforçadas pela experiência sociofamiliar. 36 Principais campos da psicopatologia Na visão psicanalítica, o homem é visto como ser “determinado”, dominado por forças, desejos e conflitos inconscientes. Os sintomas são considerados formas de expressão de conflitos, predominantemente inconscientes, de desejos que não podem ser realizados, de temores aos quais o indivíduo não tem acesso. O sintoma é uma formação de compromisso. 37 Principais campos da psicopatologia PSICOPATOLOGIA CATEGORIAL x PSICOPATOLOGIA DIMENSIONAL As categorias diagnósticas podem ser compreendidas como entidades completamente individualizadas, com contornos e fronteiras bem demarcadas. Assim, entre a esquizofrenia e os transtornos afetivos bipolares e os delirantes, haveria, por exemplo, uma fronteira nítida, configurando-os como entidades ou categorias diagnósticas diferentes e discerníveis na sua natureza básica. 38 Principais campos da psicopatologia A perspectiva “dimensional” em psicopatologia, que seria hipoteticamente mais adequada à realidade clínica, propõe que haveria dimensões. Por exemplo, o espectro esquizofrênico, que incluiria desde formas muito graves, tipo “demência precoce”, formas menos deteriorantes de esquizofrenia, formas com sintomas afetivos, chegando até um outro polo, de transtornos afetivos, incluindo formas com sintomas psicóticos até formas puras de depressão e mania. 39 Principais campos da psicopatologia PSICOPATOLOGIA BIOLÓGICA x PSICOPATOLOGIA SOCIOCULTURAL A psicopatologia biológica enfatiza os aspectos cerebrais, neuroquímicos ou neurofisiológicos das doenças e dos sintomas mentais. O psiquiatra alemão Griesinger (1845) resume bem essa perspectiva: “doenças mentais são (de fato) doenças cerebrais”. A base de todo transtorno mental são alterações de mecanismos neurais e de determinadas áreas e circuitos cerebrais. 40 Principais campos da psicopatologia A perspectiva sociocultural visa estudar os transtornos mentais como comportamentos desviantes que surgem a partir de certos fatores socioculturais, como discriminação, pobreza, migração, estresse ocupacional, desmoralização sociofamiliar, etc. A cultura, em tal perspectiva, é elemento fundamental na própria determinação do que é normal ou patológico. 41 Principais campos da psicopatologia PSICOPATOLOGIA OPERACIONAL-PRAGMÁTICA x PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL Na visão operacional-pragmática, as definições básicas de transtornos mentais e sintomas são formuladas e tomadas em função de sua utilidade pragmática, clínica ou orientada à pesquisa. Não são questionados a natureza da doença ou do sintoma e tampouco os fundamentos filosóficos ou antropológicos de determinada definição. Trata-se do modelo adotado pelo DSM-5 e CID-10. 42 Principais campos da psicopatologia A psicopatologia fundamental, proposta pelo psicanalista francês Pierre Fedida, visa centrar a atenção da pesquisa psicopatológica sobre os fundamentos de cada conceito psicopatológico. Além disso, tal psicopatologia dá ênfase à noção de doença mental como pathos, que significa sofrimento, paixão e passividade. O pathos, é um sofrimento-paixão que, ao ser narrado a um interlocutor, em certas condições, pode ser transformado em experiência e enriquecimento. 43 Principais campos da psicopatologia Mecanismos de formação de sintomas 44 Os sintomas médicos e psicopatológicos têm, como signos, uma dimensão dupla: índice (indicador) e símbolo. O sintoma como índice indica uma disfunção que está em outro ponto do organismo ou do aparelho psíquico; E ao ser nomeado pelo paciente, por seu meio cultural ou pelo médico, passa a ser “símbolo linguístico” no interior de uma linguagem que só pode ser compreendido dentro de um sistema simbólico dado, em determinado universo cultural. Dessa forma, a angústia manifesta-se (e realiza-se) ao mesmo tempo como mãos geladas, tremores e aperto na garganta (que indicam, p. ex., uma disfunção no sistema nervoso autônomo), e, ao ser tal estado designado como nervosismo, neurose, ansiedade ou gastura, passa a receber certo significado simbólico e cultural. 45 Forma e conteúdo dos sintomas paulo dalgalarrondo Forma do sintoma: estrutura básica relativamente semelhante nos diversos pacientes (delírio, alucinação). Conteúdo: aquilo que preenche a alteração estrutural (conteúdo de culpa, religioso, de perseguição). É pessoal, depende da história de vida do paciente, de seu universo cultural e da personalidade prévia ao adoecimento. 46 De modo geral, os conteúdos dos sintomas estão relacionados aos temas centrais da existência humana, tais como sobrevivência e segurança, sexualidade, temores básicos (morte, doença, miséria, etc.), religiosidade, entre outros. 47 Forma e conteúdo dos sintomas Temas e interesses centrais para o ser humano O que busca e deseja Sexo Alimentação Conforto físico Sobrevivência e prazer Dinheiro Poder Prestígio Segurança e controle sobre o outro 48 Temores centrais do ser humano Formas comuns de lidar com tais temores Morte Religião/mundo místico Continuidade através das novas gerações Ter uma doença grave Sofrer dor física ou moral Miséria Vias mágicas/medicina/psicologia, etc Falta de sentido existencial Relações pessoais significativas Cultura Classicamente, distinguem-se três tipos de fenômenos humanos para a psicopatologia: 1. Fenômenos semelhantes em todas as pessoas: embora haja uma qualidade pessoal essas experiências são basicamente semelhantes para todos (fome, sede, medo de algum animal perigoso). 2. Fenômenos em parte semelhantes e em parte diferentes: São fenômenos que o homem comum experimenta, mas apenas em parte são semelhantes aos que o doente mental vivencia (tristeza x depressão profunda). 3. Fenômenos qualitativamente novos: praticamente próprios apenas a certas doenças e estados mentais (alucinações, delírios, alteração da cognição nas demências). 49 A ORDENAÇÃO DOS FENÔMENOS EM PSICOPATOLOGIA paulo dalgalarrondo A inteligência determina essencialmente os contornos, a diferenciação, a profundidade e a riqueza de todos os sintomas. Pacientes muito inteligentes produzem, por exemplo, delírios ricos e complexos, interpretam constantemente as suas vivências e desenvolvem as dimensões conceituais das vivências de forma mais acabada. Sujeitos com inteligência reduzida criam quadros psicopatológicos indiscriminados, sem detalhes, superficiais e pueris. 50 Transfundos das vivências psicopatológicas Transfundo das vivências psicopatológicas e sintomas emergentes paulo dalgalarrondo Os transfundos das vivênciaspsicopatológicas, são uma espécie de palco, de contexto mais geral, em que emergem os sintomas. Os sintomas emergentes são os sintomas específicos vivenciados; são vivências pontuais, que ocorrem sempre sobre determinado transfundo. O transfundo influencia basicamente o sentido, a direção, a qualidade específica do sintoma emergente. Há uma relação dialética entre o sintoma emergente e o transfundo, entre a figura e o fundo, a parte e o todo, o pontual e o contextual. 51 Transfundos das vivências psicopatológicas Transfundos estáveis ou duradouros - são a personalidade e a inteligência. Qualquer vivência ganha conotação diferente a partir da personalidade específica do indivíduo. Pacientes passivos, dependentes tendem a vivenciar os sintomas de modo também passivo; já indivíduos explosivos, hipersensíveis e muito reativos a diferentes estímulos tendem a responder aos sintomas de forma mais viva e ampla, e assim por diante. 52 2. Transfundos mutáveis ou momentâneos – são o nível de consciência e o humor. O nível de consciência estabelece a clareza e a precisão dos sintomas. Sob o estado de turvação, uma alucinação auditiva ou visual, uma recordação, um sentimento específico são experimentados em uma atmosfera mais onírica e confusa. 53 Transfundos das vivências psicopatológicas O humor e o estado afetivo-volitivo momentâneo influem decisivamente não apenas no desencadeamento de sintomas (os chamados sintomas catatímicos), mas também no colorido específico de sintomas não diretamente deriváveis do estado afetivo. Uma ideia prevalente, em um contexto ansioso intenso, pode ganhar dimensões muito próprias. Em um estado depressivo, qualquer dificuldade cognitiva passa a ter uma importância enorme para o paciente. 54 Transfundos das vivências psicopatológicas Sintomas emergentes Sintomas emergentes são todas aquelas vivências psicopatológicas mais destacadas, individualizáveis, que o paciente experimenta. Incluem as esferas que não fazem parte dos transfundos, como uma alucinação (sensopercepção), um sentimento (afetividade), um delírio (juízo), uma paramnésia (memória), uma alteração do pensamento ou da linguagem, etc. 55 COMPONENTES DO SURGIMENTO, DA CONSTITUIÇÃO E DA MANIFESTAÇÃO DOS SINTOMAS E DOS TRANSTORNOS – paulo dalgalarrondo É preciso observar e avaliar como se articula ao longo da vida do paciente o conjunto de fatos biológicos, psicológicos e sociais para a ocorrência ou não de sintomas ou transtornos mentais. Os fatores genéticos, gestacionais e perinatais, que precedem o início propriamente dito da vida de relações de um sujeito e carregam consigo a vulnerabilidade constitucional, (hereditariedade, constituição) para os distintos transtornos. 56 Os fatores predisponentes são aqueles que ocorrem no início da vida (nos primeiros 3 a 5 anos de vida, sobretudo, e no período escolar). Esses fatores, associados à vulnerabilidade constitucional, sensibilizam o indivíduo para as diversas situações que a vida lhe colocará. Por exemplo, a morte de um dos pais, abuso sexual, violência ou negligência física ou psíquica, etc. 57 COMPONENTES DO SURGIMENTO, DA CONSTITUIÇÃO E DA MANIFESTAÇÃO DOS SINTOMAS E DOS TRANSTORNOS Tais fatores predisponentes tornam as pessoas mais ou menos vulneráveis para os fatores precipitantes, eventos que ocorrem em proximidade temporal ao surgimento propriamente do transtorno mental. São geralmente eventos inespecíficos, como separações conjugais, morte de pessoa próxima, desemprego, promoção no trabalho, casamento, perda ou ganho financeiro, traição de parceiro(a), brigas com amigos ou familiares, etc. 58 COMPONENTES DO SURGIMENTO, DA CONSTITUIÇÃO E DA MANIFESTAÇÃO DOS SINTOMAS E DOS TRANSTORNOS Os fatores precipitantes, associados à vulnerabilidade constitucional e a fatores predisponentes, ocorrem em um sujeito com uma história de vida absolutamente única, que só ocorre uma vez, em um contexto socioeconômico, político e cultural dado, em determinado período histórico; e relaciona-se a um projeto de vida com toda a densidade existencial e a complexidade que as noções de sujeito, projeto existencial e história de vida implicam. 59 COMPONENTES DO SURGIMENTO, DA CONSTITUIÇÃO E DA MANIFESTAÇÃO DOS SINTOMAS E DOS TRANSTORNOS Manifestação dos transtornos mentais: patogenia, patoplastia e psicoplastia O psicopatólogo alemão Karl Birnbaum (1878-1950) discriminou três fatores envolvidos na manifestação das doenças mentais: O fator patogenético (patogênese) está mais relacionado à manifestação dos sintomas diretamente produzidos pelo transtorno mental de base. Por exemplo, o humor triste, o desânimo e a inapetência relacionados à depressão, ou as alucinações auditivas e a percepção delirante relacionadas à esquizofrenia. 60 O fator patoplástico (patoplastia) inclui as manifestações relacionadas à personalidade pré-mórbida do doente, à história de vida específica do sujeito que adoece e aos padrões de comportamento relacionados à cultura de origem do paciente, que lhe eram particulares desde antes de adoecer. São fatores externos e prévios ao processo patológico de base, mas, nem por isso, menos importantes, pois intervêm de forma marcante na constituição dos sintomas e na exteriorização do quadro clínico. 61 Manifestação dos transtornos mentais: patogenia, patoplastia e psicoplastia O fator psicoplástico (psicoplastia) relaciona-se aos eventos e às reações do indivíduo e do meio psicossocial posteriores ao adoecer. São as reações aos conflitos familiares, à desmoralização, às perdas sociais e ocupacionais associadas aos episódios e ao curso da doença. Essas reações do meio, o padrão de interação do indivíduo adoentado e seu meio sociofamiliar contribuem para determinar o quadro clínico resultante. 62 Manifestação dos transtornos mentais: patogenia, patoplastia e psicoplastia Pode-se, assim, exemplificar estes três fatores: Um homem de 50 anos é acometido de um episódio depressivo grave (fator patogenético), ele sempre teve uma personalidade histriônica e é filho de italianos napolitanos (fatores patoplásticos). Após alguns meses, estando ele muito descuidado com suas tarefas profissionais, acaba por perder o emprego (fator psicoplástico). A manifestação dramática e demonstrativa dos sintomas depressivos fica por conta dos fatores patoplásticos; o humor triste, a perda do apetite e a anedonia podem ser atribuídos aos fatores patogenéticos; e, finalmente, as sensações de fracasso, de inutilidade e de desmoralização diante da vida são devidas aos fatores psicoplásticos. 63 Manifestação dos transtornos mentais: patogenia, patoplastia e psicoplastia A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS Os cursos crônicos dos transtornos mentais podem ser de dois tipos: processo e desenvolvimento. Processo refere-se a uma transformação lenta e insidiosa da personalidade, decorrente de alterações psicologicamente incompreensíveis, de natureza endógena; rompe a continuidade do sentido normal do desenvolvimento biográfico de uma pessoa. Utiliza-se o termo processo, por exemplo, para caracterizar a natureza de uma esquizofrenia de evolução insidiosa, que lenta e radicalmente transforma a personalidade do sujeito acometido. 64 Desenvolvimento refere-se à evolução psicologicamente compreensível de uma personalidade. Essa evolução pode ser normal, configurando os distintos traços de caráter do indivíduo, ou anormal, determinando os transtornos da personalidade e as neuroses. Nesse caso, há uma conexão de sentido, uma trajetória compreensível ao longo da vida do sujeito. Fala-se, então, em “desenvolvimento paranoide”, “desenvolvimento histriônico”, “desenvolvimento hipocondríaco”, etc. 65 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS Os fenômenos agudos ou subagudos classificam-se em: crises ou ataques, episódios, reações vivenciais, fases e surtos. A crise, ou ataque, caracteriza-se, em geral, por surgimento e término abruptos, durando segundos ou minutos, raramente horas. Utilizam-se os termos crise ou ataque para fenômenos como:crises epilépticas, crises ou ataques de pânico, crises histéricas, crises de agitação psicomotora, etc. 66 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS O episódio tem geralmente a duração de dias até semanas. Tanto o termo crise como o termo episódio nada especificam sobre a natureza do fenômeno mórbido. São denominações referentes apenas ao aspecto temporal do fenômeno. Na prática, é comum utilizar-se o termo episódio de forma inespecífica, quando não há condições de precisar a natureza do fenômeno mórbido. 67 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS A reação vivencial anormal caracteriza-se por ser um fenômeno psicologicamente compreensível, desencadeado por eventos vitais significativos para o indivíduo que os experimenta. É designada reação anormal pela intensidade muito marcante e duração prolongada dos sintomas. Ocorre geralmente em personalidades vulneráveis, predispostas a reagir de forma anormal a certas ocorrências da vida. 68 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS Após a morte de uma pessoa próxima, da perda do emprego ou do divórcio, o indivíduo reage, por exemplo, apresentando um conjunto de sintomas depressivos ou ansiosos, sintomas fóbicos ou mesmo paranoides. A reação vivencial pode durar semanas ou meses, eventualmente alguns anos. Passada a reação vivencial, o indivíduo retorna ao que era antes, sua personalidade não sofre ruptura; pode empobrecer-se ou enriquecer-se, mas não se modifica radicalmente. 69 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS A fase refere-se particularmente aos períodos de depressão e de mania dos transtornos afetivos. Passada a fase, o indivíduo retorna ao que era antes dela, sem alterações duradouras na personalidade, ou seja, não há sequelas na personalidade. Uma fase pode durar semanas ou meses, menos frequentemente, anos, havendo sempre (ou quase sempre) restauração completa. Fala-se, então, em fase depressiva, fase maníaca e período interfásico assintomático. 70 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS O surto é uma ocorrência aguda, que se instala de forma repentina, fazendo eclodir uma doença de base endógena, não compreensível psicologicamente. O característico do surto é que ele produz sequelas irreversíveis, danos à personalidade e/ou à esfera cognitiva do indivíduo. Por exemplo, após o primeiro surto de esquizofrenia (com alucinações, delírios, percepção delirante, etc.), que pode durar de 3 a 4 meses, o indivíduo “sai diferente”, seu contato com os amigos torna-se mais distanciado, o afeto modula menos, e ele tem dificuldades na vida social, as quais não consegue explicar ou entender. 71 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS Após vários anos de doença, nos quais vários surtos foram se sucedendo (ou um processo insidioso foi se implantando de forma lenta), em geral o paciente encontra-se no chamado estado residual da doença, apresentando apenas sinais e sintomas que são sequelas desta, sintomas predominantemente negativos. 72 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS Personalidade pré-mórbida e os sinais pré-mórbidos são aqueles elementos identificados em períodos da vida do paciente claramente anteriores ao surgimento da doença propriamente dita, em geral na infância. Sinais e sintomas prodrômicos, pertencem ao início do transtorno e representam de fato a fase precoce, inicial do adoecimento. 73 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS Na literatura psiquiátrica utiliza-se os seguintes termos: Remissão - É o retorno ao estado normal tão logo acaba o episódio agudo. Recuperação - É o retorno e a manutenção do estado normal, já tendo passado um bom período de tempo (geralmente se considera um ano) sem que o paciente apresente recaída do quadro. 74 A EVOLUÇÃO TEMPORAL DOS TRANSTORNOS MENTAIS Recaída ou recidiva - É o retorno dos sintomas logo após haver ocorrido uma melhora parcial do quadro clínico ou quando o estado assintomático é ainda recente (não tendo passado um ano do episódio agudo). Recorrência - É o surgimento de um novo episódio, tendo o indivíduo estado assintomático por um bom período (pelo menos por cerca de um ano). Pode-se dizer que a recorrência é um novo episódio da doença. 75