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ARQUIVO 1: O "Gold Standard" da Depressão
Nome do Arquivo: Relatório Clínico Extensivo - Transtorno Depressivo Maior e
Ativação Comportamental.pdf Público-Alvo: Estudantes de Psicopatologia II e Estágio
em Clínica.
RELATÓRIO DE ESTUDO DE CASO
CLÍNICO: DEPRESSÃO UNIPOLAR
1. IDENTIFICAÇÃO DO PACIENTE
• Nome: Ana Clara V.
• Idade: 34 anos.
• Naturalidade: Belo Horizonte, MG.
• Escolaridade: Ensino Superior Completo (Publicidade e Propaganda).
• Ocupação Atual: Desempregada (último cargo: Gerente de Contas).
• Estado Civil: Divorciada há 8 meses.
• Configuração Familiar: Mora sozinha; sem filhos.
• Encaminhamento: Psiquiatra particular (Dr. S.), com prescrição de
Escitalopram 15mg.
2. DEMANDA E QUEIXA PRINCIPAL
A paciente chega ao consultório com aparência descuidada (cabelos despenteados,
roupas largas e escuras), postura cabisbaixa e contato visual evitativo. Chora
copiosamente nos primeiros 10 minutos.
• Relato Verbal: "Eu sinto que minha vida acabou e eu esqueci de morrer. Não
tenho força para levantar da cama, tomar banho é um sacrifício. Sinto uma
culpa esmagadora por ter perdido meu emprego e meu casamento no mesmo
ano. Não vejo cor em nada, só cinza."
3. HISTÓRIA DA MOLÉSTIA ATUAL (HMA)
O quadro iniciou-se insidiosamente há cerca de 14 meses, caracterizado por leve
distimia e irritabilidade no ambiente de trabalho. O "fator estressor agudo" ocorreu há 8
meses, quando o marido pediu o divórcio alegando "desgaste". Duas semanas após a
separação, Ana Clara foi demitida em um corte de custos da empresa, evento que ela
interpretou como confirmação de sua "incompetência total". Desde então, apresenta:
• Sintomas Afetivos: Tristeza profunda na maior parte do dia (humor
hipotímico), anedonia severa (abandonou a pintura e o yoga, atividades que
amava).
• Sintomas Cognitivos: Déficit de atenção, bradipsiquismo (lentificação do
pensamento) e ruminação obsessiva sobre erros do passado.
• Sintomas Vegetativos: Insônia terminal (acorda às 04:00 e não dorme mais),
perda de peso não intencional (7kg em 3 meses) e constipação.
• Ideação Suicida: Pensamentos de morte passivos e recorrentes ("Se eu dormisse
e não acordasse, seria um favor para o mundo"). Nega planejamento ativo, mas
admite que parou de olhar ao atravessar a rua.
4. HISTÓRIA DE VIDA E FAMILIAR (ANAMNESE)
Ana Clara é a filha do meio de três irmãs. Descreve o pai como uma figura autoritária,
militar reformado, que valorizava apenas o desempenho e a "força". Chorar era proibido
em casa. A mãe é descrita como submissa e emocionalmente distante.
• Dados da Infância: Ana aprendeu cedo que "para ser amada, preciso ser
perfeita e útil". Sempre foi a aluna nota 10, a funcionária que não tirava férias.
• Crença de Base: A paciente construiu sua autoestima inteiramente sobre pilares
externos (casamento e carreira). Com o colapso desses pilares, sua estrutura de
"valor pessoal" desmoronou.
5. EXAME DO ESTADO MENTAL (SÚMULA
PSÍQUICA)
• Aparência: Desleixo no autocuidado, fácies de sofrimento.
• Consciência: Clara, orientada autopsiquicamente e alopsiquicamente.
• Atenção: Hipovigilante e hipotenaz (dificuldade de focar e manter o foco).
• Memória: Preservada, com viés de evocação para memórias negativas.
• Sensopercepção: Sem alterações (nega alucinações).
• Pensamento: Curso lentificado; conteúdo de ruína, culpa e desesperança; forma
lógica.
• Afeto/Humor: Humor depressivo; afeto embotado e hipotímico.
• Volição: Hipobulia severa (perda da vontade de agir).
6. DIAGNÓSTICO NOSOLÓGICO (DSM-5-TR)
296.32 (F33.1) Transtorno Depressivo Maior, Recorrente, Episódio Atual
Moderado a Grave.
• Critérios Preenchidos: Humor deprimido, anedonia, perda de peso, insônia,
agitação/retardo psicomotor, fadiga, sentimento de inutilidade, capacidade
diminuída de pensar.
7. CONCEITUAÇÃO COGNITIVA (MODELO DE
AARON BECK)
Para guiar o tratamento, estruturou-se o seguinte mapa cognitivo:
A. Crenças Nucleares (Core Beliefs)
1. Desamor: "Eu não sou digna de ser amada." / "Vou morrer sozinha."
2. Fracasso/Incompetência: "Eu sou uma fraude." / "Tudo o que eu toco dá
errado."
B. Pressupostos Subjacentes (Regras)
• "Se eu não for a melhor no que faço, então sou um lixo."
• "Se meu marido me deixou, é porque tenho algum defeito terrível."
• "Devo ser produtiva o tempo todo para justificar minha existência."
C. Tríade Cognitiva da Depressão
• Visão de Si: "Defeituosa, Inútil, Feia."
• Visão do Mundo: "Exigente, Cruel, Sem Oportunidades."
• Visão do Futuro: "Solidão eterna e miséria financeira."
8. PLANO TERAPÊUTICO E EVOLUÇÃO (16
SESSÕES)
FASE 1: Estabilização e Ativação (Sessões 1-4)
• Foco: Quebrar a inércia (paralisia).
• Técnica: Ativação Comportamental.
o Foi solicitado que Ana não esperasse a "vontade" vir para agir. Criou-se
uma tabela de "Micro-passos".
o Semana 1: Apenas arrumar a cama ao acordar e escovar os dentes.
o Semana 2: Caminhar 10 minutos no quarteirão (exposição à luz solar
para regular sono).
• Resultado: A paciente relatou leve melhora na energia ("De 10% para 20%") ao
perceber que conseguia cumprir pequenas tarefas.
FASE 2: Reestruturação Cognitiva (Sessões 5-10)
• Foco: Identificar e desafiar os Pensamentos Automáticos Negativos (PANs).
• Técnica: Registro de Pensamentos Disfuncionais (RPD).
o Situação: Viu vaga de emprego no LinkedIn.
o Pensamento: "Nem vou mandar, vão rir do meu currículo. Sou velha e
incompetente."
o Desafio (Socrático): "Quais as evidências de que você é incompetente?
Você não foi gerente por 5 anos? Você não ganhou prêmios?"
• Técnica: Gráfico de Pizza (Reatribuição de Culpa). Ana atribuía 100% da culpa
do divórcio a si mesma. O gráfico ajudou a distribuir a responsabilidade
(desgaste natural, escolhas do marido, falta de comunicação de ambos).
FASE 3: Crenças Centrais e Prevenção de Recaída (Sessões 11-16)
• Foco: Trabalhar a raiz do problema (o pai crítico).
• Técnica: Roleplay (Psicodrama Cognitivo). Ana "conversou" com a imagem do
pai, validando que ela não precisa mais da aprovação dele para ter valor.
• Cartão de Enfrentamento:
o "Estar desempregada é um estado, não minha identidade."
o "Posso ser imperfeita e ainda ser digna de amor."
9. PROGNÓSTICO
Alta clínica sugerida com "desmame" gradual das sessões (quinzenais -> mensais).
Paciente retornou ao mercado de trabalho (freelancer) e retomou aulas de pintura.
Escore BDI (Beck Depression Inventory) caiu de 38 (Grave) para 11 (Mínimo).
10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
• BECK, J. S. (2013). Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. 2.
ed. Porto Alegre: Artmed.
• CLARK, D. A.; BECK, A. T. (2012). Terapia Cognitiva para os Transtornos de
Ansiedade. Porto Alegre: Artmed.
• DSM-5-TR. (2023). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
5. ed. texto rev. Porto Alegre: Artmed.