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Globalização e interdisciplinaridade1 
 
 
No livro Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado, Jurjo Santomé 
afirma que o resultado de uma análise do processo educacional no século passado 
apontava o “distanciamento existente entre a realidade e as instituições escolares”. Esta 
constatação fez com que se percebesse a necessidade de aproximar as questões 
cotidianas à sala de aula. Segundo o autor, surgiram desta constatação os termos 
“Método de projetos”, por Dewey e Kilpatrick e “Centros de Interesse”, segundo Decroly. 
Para esclarecer-nos quanto aos termos, o autor traça um breve panorama dos 
acontecimentos do mundo do trabalho no século XX para que possamos compreender, 
então, o resultado da análise feito para os processos educacionais daquele período. 
Acompanhe os aspectos apresentados pelo autor. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A política de fragmentação de empregos e produção, orientados pelo taylorismo, indicava 
a necessidade da formação de tipos humanos distintos: um voltado a “estudar e planejar 
um trabalho e outro, completamente diferente, para executá-lo” (F. W. Taylor, 1970, p.53). 
Para o mercado de trabalho de então a maioria das vagas poderia ser facilmente ocupada 
por qualquer pessoa, sem que houvesse necessidade de formação especializada. 
 
Um exemplo desta organização do trabalho é proporcionado pela fábrica Ford. “Nesta 
empresa, doze anos após a introdução das linhas de montagem, dos seus 7782 postos de 
trabalho, 43% exigiam apenas um dia de aprendizagem; 36% um período compreendido 
entre um dia e uma semana; 65% de uma a duas semanas; e só 15% requeriam um 
período de aprendizagem mais longo. Em suma, 85% dos trabalhadores da fábrica Ford 
conseguiam obter a aptidão necessária para o trabalho em menos de duas semanas.” 
(Citado por César Neffa, J. 1990, p141) Resultava daí uma política de empregos em que 
 
1 SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinariedade. Porto Alegre: Artes Médicas, 
1998. 
Método de projetos 
 
A proposta de Dewey e as psicologias piagetiana 
e vygotskyana vão, justamente, “ligar o âmbito 
experiencial escolar ao ambiente, concebido 
este em sua acepção mais ampla. A escola deve 
fazer com que meninos e meninas possam 
reconstruir a experiência e o conhecimento 
característicos de sua comunidade. (...) Assim, o 
método de projetos desenhado por Kilpatrick é 
outra das propostas integradas que também será 
sustentada nesta defesa da experiência 
‘interessante’ como requisito do plano de 
trabalho, de toda situação a ser resolvida por 
alunos e alunas.” 
Centros de Interesse 
 
Durante o século passado, sobretudo a partir 
dos anos 20, os movimentos pedagógicos 
vêm centrando suas ações na infância. 
Decroly afirmará que os Centros de 
Interesse são o resultado da percepção 
global infantil sobre objetos, fatos e 
situações que despertam a curiosidade de 
meninos e meninas. (Santomé, 1998, p.35) 
 
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“qualquer operário pode ser facilmente demitido quando se torna um ‘incômodo’ para os 
meios de produção.” 
 
As políticas educacionais deste momento histórico impediam a “reflexão crítica sobre a 
realidade e a participação na vida comunitária”. A formação da juventude não implicava 
em lhes atribuir responsabilidade para intervir em questões como “o que deve ser 
produzido, por quê, para quê, como, quando, etc.”. Com tal postura a escola se 
desvincula de sua razão de ser: preparar as pessoas para compreender, avaliar, intervir 
em sua comunidade de forma responsável, justa, solidária e democrática. Neste cenário 
os professores se ocupavam em ser obedecidos, seguir o ritmo das tarefas e proporcionar 
a memorização de dados e conceitos, mas os alunos não conseguiam compreender o 
significado do ensino e da aprendizagem. Enquanto para os professores importavam as 
notas que, segundo Santomé, “representavam a mesma coisa que os salários para os 
operários e as operárias”, para os alunos, a significação cultural dos conteúdos estava 
totalmente distante. 
 
O processo de globalização da economia dos países em desenvolvimento traz novas 
regras de competitividade que obrigam a uma revisão dos processos de produção. Surge 
a necessidade de eficiência produtiva, trazendo consigo novas formas de organização do 
trabalho. A descentralização torna-se a forma viável para atender as necessidades de 
produção e consumo. Este quadro aponta para a importância da formação contínua dos 
trabalhadores, mudando sua situação anterior relacionada à instabilidade no trabalho. 
Desperdiçar a experiência, a prática e os conhecimentos acumulados passa a significar 
uma perda. Do ponto de vista dos modelos de produção, no entanto, “a delegação de 
poder ocorre até determinado limite e, ao mesmo tempo, os controles tornam-se mais 
difusos e ocultos.” 
 
A nova filosofia econômica implica em novos procedimentos para as instituições 
escolares. A flexibilidade curricular, a autonomia das instituições e a necessidade de 
maior formação de professores tornam-se evidentes. A criação de dinâmicas de 
participação, “a revisão crítica de conteúdos” por professores, estudantes e instituições 
educacionais aponta para uma democratização das estruturas escolares. 
 
Santomé propõe dinâmicas em que alunos “manejem referenciais teóricos, conceitos, 
procedimentos, habilidades de diferentes disciplinas, para compreender e solucionar as 
questões e problemas propostos.” O autor justifica que no mundo global em que vivemos 
tudo está relacionado nacional e internacionalmente, nas dimensões financeiras, culturais, 
políticas, ambientais, científicas e etc., de forma interdependente. O autor diz que 
“qualquer tomada de decisão em algum destes setores deve implicar uma reflexão sobre 
a repercussão e efeitos colaterais que cada um provocará nos âmbitos restantes.” 
 
Ao considerarmos, então, tanto as propostas dos “Métodos de Projeto”, quanto as dos 
“Centros de Interesse” importa, de acordo com Santomé, refletir continuamente. O autor 
enfatiza que “o problema central reside na forma em que promovemos e escolhemos 
experiências realmente interessantes, e também, em que estas opções estejam 
condicionadas e selecionadas por concepções epistemológicas e opções de valor 
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imprescindíveis.” Tudo isto a fim de que não sejamos presas fáceis do discurso da 
autonomia que “pode reduzir-se apenas à liberdade de escolha de estratégias para obter 
os objetivos impostos pelas estruturas centrais dos sistemas educacionais”, atendendo a 
indicadores daquilo que os sistemas devem conseguir e para cuja definição não 
contribuímos.

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