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— Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
— O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coa-
lhada?
— Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. 
Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
— Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
— E há quanto tempo o senhor mora aqui?
— Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: 
um pouco mais, um pouco menos.
— Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
— Ah, o senhor fala a situação? Dizem que vai bem.
— Para que Partido?
— Para todos os Partidos, parece.
— Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
— Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que ou-
tro. Nessa mexida...
— E o Prefeito?
— Que é que tem o Prefeito?
— Que tal é o Prefeito daqui?
— O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
— Que é que falam dele?
— Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
— Você, certamente, já tem candidato.
— Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
— Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, 
que história é essa?
— Aonde, ali? Ué, gente: penduraram isso aí...
SABINO, Fernando. Crônicas 5. São Paulo: Ática, 2011. 
p. 29-30. (Coleção Para Gostar de Ler).
partido: associação de 
pessoas que têm os 
mesmos interesses 
políticos.
mexida: confusão, 
tumulto.
trem: que pode significar 
praticamente qualquer 
coisa, objeto ou comida.
Fernando Tavares 
Sabino nasceu em Belo 
Horizonte (MG), em 
1923, e faleceu em 2004, 
no Rio de Janeiro (RJ). 
Cronista, contista e 
romancista, teve seus 
textos publicados em 
diversos jornais do 
Brasil. Atuou também 
como editor de livros 
e como cineasta, 
produzindo uma série 
de documentários sobre 
escritores brasileiros, 
que foi lançada em 
2006 como uma 
coletânea de curtas.
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Capa de Crônicas 5, 
de Fernando Sabino e 
outros autores.
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Reprodução do Livro do Estudante em tamanho reduzido.
Leitura 
Habilidades da BNCC: 
EF69LP44, EF69LP47, EF69LP49, 
EF69LP55, EF67LP28
O texto escolhido para leitura tem 
por finalidade o exercício da habilidade 
de ler e compreender, de forma autô-
noma, o gênero, selecionando estra-
tégias adequadas, considerando ca-
racterísticas específicas do gênero 
(EF67LP28).
É importante destacar que o texto 
foi escolhido por contemplar o exercí-
cio da habilidade EF69LP44, de inferir 
a presença de valores sociais, culturais 
e humanos e de diferentes visões de 
mundo, em textos literários, reconhe-
cendo nesses textos formas de estabe-
lecer múltiplos olhares sobre as identi-
dades, sociedades e culturas e consi-
derando a autoria e o contexto social e 
histórico de sua produção. Contempla 
também a habilidade de reconhecer as 
variedades da língua falada, o concei-
to de norma-padrão e o de preconceito 
linguístico (EF69LP55).
Orientar uma primeira leitura indivi-
dual e silenciosa do texto. Em seguida, 
os estudantes poderão formar duplas 
para uma leitura em que cada mem-
bro da dupla represente um persona-
gem. Essa forma de ler será retomada 
na seção Prática de oralidade, na qual 
se sugere que seja feita de forma siste-
mática e com preparação. Essa primei-
ra leitura em dupla, além do caráter lú-
dico, tem por objetivo estimular o tra-
balho de interpretação e poderá ajudar 
os estudantes a perceberem aspectos 
textuais que serão abordados a par-
tir das questões sobre o texto (como 
a diferença nas formas de tratamento 
usadas pelos interlocutores, a lingua-
gem mais próxima da norma urbana 
de prestígio de um deles enquanto a 
do outro é marcada por formas de de-
terminada variedade linguística regio-
nal, entre outros aspectos que podem 
enriquecer a interpretação e a com- 
preensão do texto).
Comentar com os estudantes que o 
autor do texto, Fernando Sabino, era de 
Minas Gerais: no caso desse texto, essa 
informação é particularmente relevante. 
Questionar os estudantes sobre a im-
portância que isso pode ter para o texto.
É oportuno sinalizar que a repre-
sentação do que seja uma “conversi-
nha mineira” foi feita, nesta crônica, 
por um autor que é, ele mesmo, minei-
ro. Isso ajudará os estudantes a come-
çarem a despertar para a questão da 
autoria e do lugar de fala, mesmo se, 
neste momento, isso acontecer de for-
ma mais intuitiva do que reflexiva.
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Interpretação do texto
Compreensão inicial
 1 A crônica que você leu é construída pela conversa entre um cliente e o dono de um café em uma cidade.
 a) Onde acontece essa conversa? 
Em um café ou em uma leiteria (as duas formas são usadas na crônica 
para fazer referência ao lugar).
 b) Como é possível saber que um dos personagens é visitante no lugar? 
 c) Em que trecho é possível saber que o outro é o dono do lugar onde a conversa acontece?
 2 Nesse diálogo, os dois interlocutores, isto é, os dois participantes da conversa, interagem de formas 
diferentes. Qual deles:
 a) é o que faz muitas perguntas? O cliente.
 b) trata o outro amigavelmente por “você”? O cliente.
 c) trata o outro com cerimônia, usando “senhor”? O dono do café.
 d) fica impaciente durante a conversa? O cliente.
 e) muda o assunto da conversa? O cliente.
 f) não é receptivo com o outro? O dono do café.
 3 Qual é o fato que provoca o descontentamento do cliente? Copie no caderno a frase dita pelo cliente 
quando desiste de conversar sobre esse fato. 
 4 Na primeira metade da crônica, o assunto do diálogo são os produtos oferecidos no estabelecimento. 
Qual é o assunto que predomina na segunda metade da conversa? 
 5 Para não responder a uma das perguntas, o dono do café diz: ”— Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.”. 
Esse argumento não é aceito pelo cliente. Por quê? Porque, embora não seja da cidade, o dono do café mora há 
muito tempo lá: segundo ele, aproximadamente quinze anos.
 6 Releia as respostas dadas pelo dono do café às perguntas sobre:
 ⓿ o tempo em que mora na cidade:
— Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
 ⓿ a situação política:
— Dizem que vai bem.
 ⓿ quem vai ganhar a eleição:
— Uns falam que é um, outros falam que outro.
 ⓿ o prefeito da cidade:
— É tal e qual falam dele.
 ⓿ o que falam do prefeito:
— Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
Copie no caderno a(s) alternativa(s) que melhor explica(m) os tipos de resposta dados pelo dono do café.
 a) Ele responde com clareza e precisão a todas as perguntas.
 b) Ele se alonga nas respostas e dá detalhes que não foram perguntados.
 c) Ele responde de modo vago e impreciso. 
 Em uma das falas do cliente 
é possível saber que ele é de outro lugar: “[...] como é que vai indo a política aqui na sua cidade?”.
No trecho em que o visitante/cliente afirma: “Você é o dono do café, não sabe dizer?”.
 O fato de não haver leite na leiteria.
“— Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite.”
Na segunda metade da conversa, o assunto que predomina é a política.
NÃO ESCREVA NO LIVRO.
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Reprodução do Livro do Estudante em tamanho reduzido.
Interpretação do texto 
Compreensão inicial 
Habilidades da BNCC:
EF69LP44, EF06LP03
Atividade 2
Em uma única ocorrência, o cliente 
trata o dono da leiteria por “senhor” (no 
trecho: “E há quanto tempo o senhor 
mora aqui?”). Essa mudança na forma 
de tratamento ocorre exatamente no 
momento da conversa em que o diálo-
go se torna mais equilibrado. Se achar 
pertinente, sinalizar esse momento aos 
estudantes e questionar por que essa 
mudança de tratamento ocorre. Con-
siderar todas as respostas, e, ao final, 
ajudá-los a perceber – caso não o te-
nham feito – o efeito de sentido que 
essa mudançada forma de tratamento 
produz no texto.
Atividade 6
Estimular os estudantes a refletirem 
sobre a razão de o dono da leiteria res-
ponder às perguntas sobre política des-
sa maneira. É possível inferir que ele 
não quer se comprometer ou assumir 
uma posição política e por isso se es-
quiva, dando respostas vagas.
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