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Lucas Melo – Medicina Ufes T103 Artrite Reumatóide A artrite reumatóide é uma doença inflamatória autoimune sistêmica crônica com presença de artrite e manifestações gerais de inflamação, como dor, rubor, calor e edema. Pelo fato de ser uma doença crônica, ela tem uma duração de mais de seis semanas e a doença predomina nas pequenas articulações periféricas, é simétrica e pode evoluir para deformidade e perda funcional, portanto a principal característica é de uma poliartrite simétrica erosiva. - Epidemiologia: Acomete mais mulheres (3:1) com uma maior frequência entre os 30-50 anos de idade, possui uma distribuição em todo o mundo e não tem predileção por raça. - Etiologia e fisiopatologia: A etiologia não é completamente conhecida, mas há uma associação entre fatores genéticos e ambientais (tabagismo, microbiota, hormônios, etc). O alvo da inflamação é a membrana sinovial, que fica espessada e infiltrada por células de defesa que estão reconhecendo os antígenos próprios do nosso corpo como estranhos, há um estímulo para o recrutamento dessas células, ocorre uma liberação de citocinas, promovendo uma reação inflamatória na região. A parte da membrana sinovial que fica em contato com a cartilagem articular e o osso forma um tecido de inflamação granulomatoso com células gigantes, o que culmina na destruição da articulação. No tecido sinovial na artrite reumatóide vamos encontrar uma angiogênese pronunciada, com hiperplasia celular, fluxo aumentado de células T, aumento de moléculas de adesão, proteinases e citocinas e a formação do pannus, que é um tecido inflamatório que se forma. Em relação aos complexos de histocompatibilidade, a imagem a seguir mostra alguns deles que vão estar associados com a artrite reumatóide, e outros que não tem essa relação, configurando um fator de proteção contra a doença: Na fase inicial vemos a cartilagem ainda preservada com o pannus, que é o tecido inflamatório formado, e na fase final, não há presença de cartilagem mais. - Quadro clínico: O quadro articular normalmente é precedido de manifestações gerais, como fadiga, mialgia e febre, por esses sintomas serem tão inespecíficos, a doença fica bem difícil de ser diagnosticada em sua fase inicial. As principais manifestações da doença são as manifestações articulares, que consistem em dor, edema, rigidez matinal prolongada (com duração superior a uma hora, sendo que quando maior o tempo de rigidez matinal, maior será a intensidade da inflamação), na maioria dos casos o acometimento articular é simétrico e aditivo (tem um início insidioso), em relação ao tecido ósseo, pode haver osteopenia por conta do processo inflamatório que afeta o tecido ósseo. Nos MMSS as articulações mais acometidas são punho, metacarpofalangeanas e interfalangeanas proximais (a artrite reumatóide normalmente não acomete as interfalangeanas distais, isso pode ser um diagnóstico diferencial), mas elas não se restringem a pequenas articulações, podendo se estender para grandes articulações, como joelhos, cotovelos, ombros, etc. Com a evolução da doença, o paciente pode apresentar algumas deformidades que são típicas da doença, como o desvio ulnar dos dedos e Boutonierre. Algumas complicações que podem derivar desse acometimento são as compressões nervosas por conta do processo inflamatório de tendões e punhos, como a compressão do nervo mediano e sindrome do túnel do carpo. Nos MMII, articulações dos joelhos e pés são as mais acometidas, uma complicação mais comum de acontecer nos joelhos é o cisto de Baker. Podem existir manifestações extra-articulares, como os nódulos reumatóides, que são nódulos no subcutâneo em proeminências ósseas, em Lucas Melo – Medicina Ufes T103 superfícies extensoras e pontos de pressão, associados com FR positivo. Pode ter ainda acometimento ocular, cardíaco, pulmonar, nervoso, de VAS, eritema nodoso, pioderma gangrenoso, vasculite de pequenos vasos, e pode apresentar sintomas gerais como emagrecimento e fadiga. Nos exames laboratoriais podemos encontrar anemia, plaquetose e leucocitose. - História clínica: A história clínica que o paciente apresenta é variável, existem pacientes com uma evolução monocíclica ou oligocíclica, existem pacientes com uma evolução policíclica que possui períodos de piora e períodos de melhora, mas os de piora são sempre agressivos e o padrão agressivo, que tem uma evolução rápida para deformidades e perda funcional. *Quando no início da doença os pacientes têm manifestações poliarticulares agudas com o PCR bem alto, é mais fácil de ser feito o diagnóstico e começar o tratamento, por isso esses pacientes vão ter um melhor prognóstico do que os que tem sintomas inespecíficos na fase inicial da doença. *Sempre lembrar que o tabagismo é um fator de risco para o desenvolvimento de AR em indivíduos com fatores genéticos favoráveis. - Exame físico: Na inspeção, temos que conferir se o paciente possui aumento de volume, deformidades ou rubor (normalmente é raro). Na palpação temos que conferir se a paciente queixa de dor, se há espessamento sinovial, squeeze teste positivo (compressão das metacarpofalangeanas e o paciente pode referir dor nesse exame), derrame articular e calor. Na mobilização temos que avaliar Subluxações (redutíveis e irredutíveis), diminuição da mobilidade e anquilose. O diagnóstico inicial é um pouco difícil, pois os sintomas apresentados são frustros, como a imagem abaixo, e isso pode passar batido se não estiver com a doença em mente, na imagem do rx vemos uma osteopenia (osso mais preto) nas partes mais próximas as articulações. Imagem mostrando uma artrite reumatóide bem estabelecida com desvio ulnar e presença de nódulos reumatóides. Lucas Melo – Medicina Ufes T103 Ainda podem haver alterações ligamentares, que causam deformidade nas mãos. O dedo em botoneira a uma extensão da articulação distal com uma flexão da articulação proximal, enquanto que o dedo em pescoço de cisne tem uma flexão da articulação distal com uma extensão da articulação proximal. Imagem mostrando um quadro avançado de destruição com perda de função do membro. *Doença de Still é uma doença que pode estar presente tanto na criança como no adulto, e representa a forma de um quadro mais sistêmicos da doença, uma artrite associada aos sintomas de febre, hepatoesplenomegalia, linfadenomegalia, rash evanescente, leucocitose, plaquetose, odinofagia, FAN e FR negativos, provas de atividade inflamatória elevadas (VHS, PCR e ferritina). - Diagnóstico e exames: O diagnóstico de AR é clínico e é feito na presença de 4 dos 7 critérios a seguir: 1. Rigidez matinal prolongada (maior ou igual a 1 hora). 2. Artrite em 3 ou mais regiões articulares. 3. Artrite da articulação das mãos. 4. Artrite simétrica. 5. Nódulos reumatóides. 6. FR sérico. 7. Alterações radiológicas. *Todas as artrites devem ter uma evolução maior ou igual a seis meses. Outro critério de classificação é o de 2010, que permite o diagnóstico um pouco mais precoce da doença. Os índices compostos de atividades, vão ser os responsáveis por acompanhar a evolução da doença de acordo com o tempo e o tratamento realizado. Lucas Melo – Medicina Ufes T103 O índice mais utilizado é o DAS28, que consiste na contagem de 28 articulações, avaliar quais são dolorosas e quais estão edemaciadas. Além do fator reumatóide, outro anticorpo que é dosado para fazer o diagnóstico da doença é o anti- CCP, que se positivo junto com o FR tem uma especificidade de 99% para o diagnóstico da doença. *Um teste de FR positivo não garante a presença da doença, pois existem outras doenças que podem causar a positividade do FR, e um teste de FR negativo não exclui a presençada doença. Além desses fatores, ao exame laboratorial podemos encontrar aumento de PCR e VHS, anemia de doença crônica, autoanticorpos como anticorpos anti-CCP e Fator Reumatóide. - Exames de imagem: Esses exames são essenciais para complementar o diagnóstico e fazer o acompanhamento da doença. O mais usado é o RX para ver o nível de destruição das articulações causada pela doença, podemos ver: 1. Edema de partes mole s periarticulares. 2. Erosões marginais. 3. Subluxações. 4. Anquiloses ósseas. 5. Aumento da cavidade articular. 6. Áreas de osteopenias justa-articulares. 7. Aéreas de derrubamento da articulação. 8. Osteófitos. 9. Cavidades no osso. *A radiografia de mãos e pés é utilizada para fazer o acompanhamento da doença, normalmente é anual. A seta amarela mostra o edema de partes moles, enquanto que a seta preta mostra áreas de osteopenia. Doença em estágio avançado, observamos bastante destruição articular, presença de subluxações com desvio dos dedos e perda de funcionalidade. Lucas Melo – Medicina Ufes T103 Quadro avançado com áreas de osteopenia justa- articular. *É importante lembrar que pode acontecer uma subluxação da articulação atlantoaxial, o que é muito perigoso pois pode gerar secção medular. - Diagnóstico diferencial: Deve ser feito com as seguintes patologias: Osteoartrite, LES, Sjogren, MII, doenças infecciosas crônicas, artrite psoriásica, condrocalcinose e chikungunya. - Diagnóstico inicial: É bem difícil de ser realizado, pois os pacientes podem apresentar PCR normal e sintomas inespecíficos nessa fase da doença, por isso, quando estivermos diante de um paciente que não temos certeza do diagnóstico, podemos considerar artrite reumatóide quando: 1. Houver uma rigidez matinal com mais de 30 minutos de duração. 2. Artrite em pelo menos três articulações. 3. Compressão dolorosa das articulações das mãos. - Fatores de mau prognóstico: - Tratamento: O tratamento da AR é baseado em algumas metas, que são o controle da dor, controle do edema, mínimo de efeitos colaterais, evitar a lesão articular e evitar evolução para deformidade e/ou perda funcional. Pode ser feita a administração de corticoide para fazer o resgate do paciente da fase inflamatória com uma dose inferior a 10mg/dia. Mas o tratamento é baseado na administração de fármacos que vão mudar a evolução da doença, como, imunomoduladores e imunossupressores, chamadas de DMARDs (drogas modificadoras do curso da doença), tais como: o Cloroquina/hidroxicloroquina (usadas em casos bem leves). o Sulfassalazina (antimicrobiano). o Metotrexato (é a droga de escolha para ser utilizada, imunossupressor usado em dose semanal, sempre fazer a administração de ácido fólico no dia após a ingestão da medicação). o Leflunomida. o Azatioprina. o Ciclosporina. o Se muito grave, pode ser usado pulso com ciclofosfamida. Sempre lembrar que o tratamento de cada paciente deve ser individualizado, pois cada paciente possui Lucas Melo – Medicina Ufes T103 certas demandas que devemos nos atentar, e nenhum caso é como o outro. O tempo de início do efeito é longo, então não vai começar a tomar o remédio e sentir benefício do dia para noite, tem um tempo para esse benefício aparecer. Para fazer o acompanhamento da doença, os exames a serem solicitados no serviço são hemograma, TGO, TGP, Cr, Ur, VHS e PCR. Outro tratamento é a utilização de terapia biológica, que são os medicamentos que vão agir sobre as citocinas envolvidas no processo inflamatório. Toda terapia biológica necessita de um rastreio antes de começar a ser utilizada.