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PROBLEMA 30 | SISTEMAS ORGÂNICOS INTEGRADOS V VIVIAN SCANAGATTA ANATOMIA DA MÃO Em conjunto as articulações do punho permitem todos os movimentos, exceto a rotação. Realiza Abdução (desvio radial); Adução (desvio ulnar); Flexão; Extensão. Entretanto a mão pode descrever ângulo de até 270 graus (resultado das rotações do ombro e radioulnares) Articulações Carpometacárpicas: são do tipo deslizante, exceto a do polegar (tipo sela). A 2ª e 3ª articulação carpometacárpica são imóveis, a 4ª e 5ª realizam flexão (auxiliam a concha palmar), 1ª (polegar) realiza flexão, extensão, adução, abdução e oposição e reposição. Articulações Metacarpofalângicas: A do polegar é do tipo dobradiça e só permite flexão e extensão. Da 2ª a 5ª são condilóide e permitem flexão e extensão, além da abdução e adução. Articulações Interfalângicas: São do tipo dobradiça e só realizam flexão e extensão. Os ligamentos palmar e colaterais impossibilitam a hiperextensão DEFINIÇÃO A artrite reumatóide (AR) é uma doença crônica, progressiva auto-imune de causa desconhecida. É caracterizada por inflamação persistente que afeta principalmente as articulações periféricas Sem tratamento, evolui para erosões ósseas com deformidades irreversíveis Apesar do forte acometimento articular, a doença é de caráter sistêmico, podendo acometer pulmões, pleura, coração, vasos sanguíneos e outros órgãos do corpo. É uma condição em que o sistema imunológico, que normalmente defende o nosso corpo de infecções (vírus e bactérias), passa a atacar o próprio organismo (no caso, o tecido que envolve as articulações, conhecido como sinóvia) EPIDEMIOLOGIA E FATORES DE RISCO A doença tem prevalência estimada de 1% na população brasileira adulta, acometendo três vezes mais mulheres do que homens. Seu pico de incidência é entre os 30 e 50 anos de idade. Resulta em dificuldade progressiva, e quase metade de todos os pacientes experimentam prejuízo funcional importante em 10 anos. Encurta a expectativa de vida por um número de anos em homens e mulheres Qualquer pessoa, desde crianças até idosos, pode desenvolver a doença Pessoas com história de Artrite Reumatoide na família têm mais risco de desenvolver a doença. reumatoide PROBLEMA 30 | SISTEMAS ORGÂNICOS INTEGRADOS V VIVIAN SCANAGATTA Alguns grupos étnicos e geográficos podem ser mais ou menos afetados pela AR. Foi identificado em estudos de coorte que algumas populações rurais da Nigéria não possuem nenhum caso identificado de AR, enquanto a prevalência em certas tribos norte-americanas chegaram a 5%. A importância de um componente hormonal é indicada pela maior incidência da doença em mulheres (proporção de pelo menos três mulheres para cada homem com artrite reumatóide), no período da pré- menopausa ou pós-parto, e melhora dos sintomas durante a gestação. Considera-se como fator protetor o uso de pílulas anticoncepcionais, sugerindo-se que as oscilações hormonais das mulheres têm implicação na doença ETIOLOGIA Embora sua etiologia permaneça desconhecida, o envolvimento do sistema imunológico, de processos autoimunes, está bem definido, caracterizado pela presença de auto-anticorpos como o fator reumatóide, que é um auto-anticorpo padrão, um anticorpo dirigido contra um outro anticorpo, ou seja, uma imunoglobulina, geralmente IgM dirigida contra a porção constante de uma IgG. Há evidências da interação de vários fatores para o desenvolvimento da doença. São eles: fatores genéticos, do hospedeiro (hormonais etc.) e ambientais (agentes infecciosos, tabagismo, entre outros). Existem indivíduos suscetíveis geneticamente à AR, que são expostos a patógenos desconhecidos (antígenos), e que isto gera uma resposta imunológica persistente e desregulada nas articulações sinoviais. A associação de certos alelos HLA, em especial o HLA-DR4, com maior risco de AR e de doença mais grave já foi identificada. Existe ainda o componente hormonal, que confere um risco maior de desenvolvimento da AR em mulheres, tendo associação com as pílulas anticoncepcionais. Dentre outros fatores ambientais, temos o tabagismo e substâncias irritativas para o tecido pulmonar – resultando na alteração da citrulinação de proteínas da mucosa, a exposição a alguns vírus e patógenos: Epstein-barr, parvovírus B-19, M. tuberculosis, E. coli e P. mirabilis. O contato com esses patógenos pode induzir a formação de complexos imunes, que desencadeiam a produção do fator reumatoide – um anticorpo de alta afinidade com a porção Fc da imunoglobulina. FISIOPATOLOGIA O desequilíbrio entre as citocinas pró-inflamatórias e as anti-inflamatórias desempenham um papel importante na doença: interleucinas e fatores de crescimento promovem a diferenciação de células Th17, suprimindo a diferenciação de células T reguladoras. Isso promove um status pró-inflamatório que contribui para a manutenção da autoimunidade e destruição articular. O alvo-primário da doença é a membrana sinovial, formada por tecido conjuntivo frouxo e camadas de cé lulas internas. Esse ataque às células sinoviais as torna mais espessas por proliferação celular de sinoviócitos e pela invasão de células do sistema linfo-hematopoiético. Há ainda hiperplasia e proliferação vascular, neoangiogênese e infiltrado inflamatório intenso. Ainda na região da membrana sinovial, forma-se um tecido granulomatoso com células gigantes, fibroblastos e macrófagos denominado pannus. Esse tecido pode invadir e induzir degradação do tecido conjuntivo, perda de condrócitos e erosões ósseas, por meio da estimulação da sobrevida de osteoclastos sobre a matriz óssea. Há abundância de células TCD4+ nos folículos linfoides sinoviais, enquanto TCD8+ são mais numerosos nos neovasos. Há ainda menos células B nas camadas sinoviais profundas. Essas células, em sua maioria, estão ativadas expressando o MHC II e recepto- res de TNF-alfa, bem como secretando citocinas pró-inflamatórias. Estas, especialmente o TNF-alfa (que, aliás, inibe as células T regulatórias) e as IL- -1-beta e IL-6, são as principais responsáveis pela inflamação crônica. O líquido sinovial tem aumento de volume e celularidade, com abundância de polimorfonucleares – raramente encontradas no tecido sinovial normal, bem como células T, macrófagos, células dendríticas e células B. PROBLEMA 30 | SISTEMAS ORGÂNICOS INTEGRADOS V VIVIAN SCANAGATTA Células do sistema imune inato também exercem papel na inflamação. Macrófagos, mastócitos e células NK são encontradas na membrana sinovial; enquanto neutrófilos são encontrados principalmente no fluido sinovial. Macrófagos são os efetores principais da sinovite. Eles liberam citocinas, intermediários reativos de oxigênio e nitrogênio, produzem enzimas que degradam a matriz celular, além de fazerem fagocitose e apresentação de antígenos. São ativados por receptores toll-like e citocinas. Já os neutrófilos contribuem para a sinovite por meio da síntese de prostaglandinas, proteases, e reativos intermediários de oxigênio. Mastócitos – ativados pelos receptores de toll-like – que produzem altos níveis de aminas vasoativas, citocinas, quimiocinas e proteases também exercem papel. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS O quadro clínico da artrite reumatoide é clássico e caracterizado principalmente por artrite simétrica e aditiva das articulações periféricas. Com frequência há sinais flogísticos nas articulações – dor, edema, rubor e alteração da temperatura. Os sintomas são mais intensos pela manhã logo ao acordar e após longos períodos de inatividade. Esses sintomas persistem por mais de uma hora (rigidez matinal prolongada), sendo quea duração está positivamente associada com o grau de inflamação articular. As mãos são envolvidas na grande maioria dos casos, afetando particularmente os punhos, metacarpofalangeanas (MCF) e interfalangeanas proximais (IFP). Convém pontuar que muito raramente a AR envolve as interfalangeanas distais (IFD) e seu acometimento deve levantar suspeita de diagnósticos diferenciais, como a artrite psoríaca. Outra articulação muito frequentemente acometida é a metatarsofalangeana (MTF). No en- tanto, qualquer articulação sinovial (diartrodial) pode ser afetada. Essas articulações citadas são então sucedidas do acometimento dos joelhos, cotovelos, tornozelos, quadris e ombros, aproximadamente nessa ordem. Menos frequente e mais tardiamente no curso da doença, pode haver acometimento das articulações temporomandibulares, cricoaritenoides e esternoclaviculares. Além disso, apesar de a AR quase sempre poupar a coluna axial, podem ser afetadas as articulações C1-C2 – enquanto o resto da coluna é preservado. MANIFESTAÇÕES ARTICULARES As mãos são a principal área de acometimento. Classicamente, inicia-se com edema das MCF’s e IFP’s. Na doença mais avançada, desenvolvem-se deformidades nessa região: desvio ulnar, dedos em pescoço de cisne (hiperextensão das IFP’s) e em boutonnière (hiperextensão das IFP’s) podem se desenvolver secundários a inflamação articular de longo prazo. Ruptura de tendão pode acontecer e gerar sintomas abruptos de perda de função, requerendo abordagem cirúrgica. Nos pés, as articulações MTFs são particularmente acometidas no curso inicial da doença, com erosões radiográficas surgindo antes ou juntamente às das mãos. Subluzação dos artelhos pode ocorrer, com posterior ruptura e ulceração cutânea. A locomoção pode tornar-se dolorosa uma vez que é perdido o coxim gorduroso que protege as articulações MTFs. PROBLEMA 30 | SISTEMAS ORGÂNICOS INTEGRADOS V VIVIAN SCANAGATTA Em relação aos punhos, há comprometimento na maioria dos pacientes com AR e o desvio radial é frequente. Além disso, pode haver síndrome do túnel do carpo secundária à compressão do nervo mediano devido ao edema articular. Já o envolvimento das grandes articulações, como joelhos, tornozelos, quadris e ombros é comum. A superfície articular é totalmente afetada si- metricamente. Ou seja, tanto o acometimento da articulação é simétrico como também a superfície articular é acometida simetricamente. Isso é uma pista para a diferenciação entre AR e osteoartrite: nesta, apenas um dos lados da articulação está afetado, ao passo que o acometimento na AR é bilateral. Cistos sinoviais podem ocorrer em qualquer articulação e resultam do acúmulo de líquido sinovial. Quando localizado no joelho, chama-se também Cisto de Baker e sua ruptura pode imitar um quadro de tromboflebite, sendo por isso também chamado de pseudotromboflebite. Uma das articulações cuja afecção pela AR merece cuidado são as cervicais. Embora o esqueleto axial seja geralmente poupado, pode haver acometimento das articulações C1- C2. A subluxação pode ocorrer e costuma ser assintomática, contudo, em casos de comprometimento da coluna cervical, pode levar a óbito. As articulações cricoaritenoides, quando atingidas, podem causar sensação de plenitude, volume na gargante, rouquidão e, em casos graves, obstrução respiratória aguda alta. MANIFESTAÇÕES EXTRA-ARTICULARES Dentre as manifestações extra-articulares, temos alguns sintomas inespecíficos, como fadiga, perda ponderal e febre baixa, que respondem ao tratamento da doença. Em órgãos específicos, há manifestações características, como adiante: Pele: nódulos subcutâneos (20% dos pacientes), quase exclusivamente naqueles com FR positivo. Apresentam consistência firme à palpação e são geralmente indolores. Acredita-se que se devam a vasculite de pequenos vasos. A vasculite de pequenos vasos pode ocorrer como infartos digitais ou vasculite leucocitoclástica, requerendo tratamento mais agressivo. Por fim, o pioderma gangrenoso atinge com frequência portadores de AR. Coração: apesar do envolvimento cardíaco ser pouco comum, pacientes com AR possuem risco cardiovascular aumentado – o que se acredita ser devido a inflamação crônica. No mais, derrames pericárdicos são comuns, mas costumam ser assintomáticos. Pode ainda ocorrer pericardite, doença valvar e nódulos nos anéis valvares. Pulmão: derrames pleurais, nódulos reumatoides e doença parenquimatosa pulmonar. O líquido pleural na AR é caracterizado por baixos níveis de glicose e de pH. Os nódulos em geral são sólidos, mas podem se calcificar, gerando infecções ou cavitações. Fibrose intesticial difusa acontece na AR e, raramente, bronquiolite obliterante. Olhos: a manifestação mais comum é a ceratoconjutivite seca (olho seco), devido a síndrome de Sjögren secundária. Esclerite pode ocorrer e ser dolorosa. Episclerite, escleromalacia perforans e ceratopatia ulcerativa periférica são outras manifestações oftalmológicas da AR. PROBLEMA 30 | SISTEMAS ORGÂNICOS INTEGRADOS V VIVIAN SCANAGATTA Neurológico: as síndromes compressivas dos nervos periféricos, como a síndrome do túnel do carpo ou do tarso são comuns. Vasculites podem causar neuropatia em bota ou em luva, ou mononeurite lúpica. Subluxação de C1-C2 pode causar mielopatia. DIAGNÓSTICO Cada vez mais preconiza-se o diagnóstico precoce da artrite reumatoide, uma vez que o tratamento precoce com as drogas modificadoras da doença (MARMDs) conferem menores chances de progressão clínica e radiológica. A artrite reumatoide é suspeitada a partir de um quadro clínico muito característico aliado a um exame físico minucioso, com exames laboratoriais sendo utilizados para fechar o diagnóstico e prever prognóstico. Existem atualmente dois sistemas de classificação da AR. Na primeira, os cinco primeiros critérios são clínicos, sendo os dois últimos laboratoriais ou radiológicos, e os quatro primeiros critérios precisam estar presentes por pelo menos 6 semanas para que seja diagnosticada a AR – já que várias síndromes virais podem cursar com poliartrite. Rigidez matinal prolongada (>1h); Edema de 3 ou mais articulações; Edema das articulações das mãos (MCFs, IFPs ou punho); Edema simétrico; Nódulos subcutâneos; Fator reumatoide positivo; Erosões e/ou osteopenia periarticular em articulações da mão ou punho na radiografia. Em 2010, o American College of Rheumatology (ACR) e a European League Against Rheumatism (EULAR) lançaram em conjunto uma série de critérios utilizados para o diagnóstico da AR. Esse critério não requer 6 semanas de duração e dão grande ênfase à presença de anticorpos FR ou ACPA. A presença de ACPA, mesmo que nas primeiras semanas, é altamente sugestiva de AR em curso. Dentre os achados laboratoriais, a anormalidade mais característica é o fator reumatoide (FR) positivo, que possui elevada sensibilidade na AR uma vez que está presente em 80% dos acometidos. No entanto, o FR é pouco específico, estando presente em outras patologias. Nesse contexto, o anticorpo antipeptídeo citrulinado (ACPA) é de grande valor, já que apesar de ter sensibilidade menor (75%), possui elevada especificidade para artrite reumatoide (93% a 98%). Além do valor diagnóstico, esses anticorpos têm valores prognósticos: sua presença está associada a doença mais grave, particularmente o ACPA, que indica doença erosiva grave. Cera de 15% dos pacientes com AR, no entanto, possuem FR e ACPA negativos (soronegativos). Existem outros anticorpos associados com AR, como o anticorpo antinuclear (30% dos pacientes) e o anticorpo anticitoplasma de neutrófilosdo tipo perinuclear (30%). Ainda, a maioria dos pacientes têm anemia de doença crônica, cujo grau é proporcional à atividade da doença. Reagentes de fase aguda (PCR e VHS) acompanham a atividade da doença, e sua elevação persistente indica pior prognóstico – em dano articular e em mortalidade. Se o paciente tiver síndrome de Felty, a contagem de leucócitos estará dimunuída. O líquido sinovial, quando analisado, apresenta contagem de leucócitos entre 5.000 a 100.000/mm3, predominando os polimorfonucleares. PROBLEMA 30 | SISTEMAS ORGÂNICOS INTEGRADOS V VIVIAN SCANAGATTA Em relação aos exames de imagem, a radiologia é o principal exame utilizado no contexto do diagnóstico e acompanhamento da AR. As principais alterações são aumento das partes moles periarticulares, osteopenia periarticular, redução dos espaços articulares, erosões marginais, subluxação e anquilose óssea. Inicialmente, faz a radiografia inicial e repete-se 6 meses depois, para avaliar evolução e possível necessidade de tratamento mais grave. A partir daí, recomendam-se exames anuais. A coluna cervical deve ser avaliada periodicamente – em perfil neutro, flexão e extensão máximas – para descartar subluxações. A USG e RNM identificam precocemente erosões e sinovites. A RNM tem alta sensibilidade e boa capacidade de analisar valor prognóstico das lesões (edema ósseo prediz evolução para erosão), enquanto a USG se destaca pelo valor e praticidade. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico diferencial da artrite reumatóide inclui outras poliartrites, a osteoartrose, a fibromialgia, algumas doenças sistêmicas auto-imunes e outras doenças sistêmicas que podem apresentar dores articulares. Osteoartrose (OA) tem seu início em idade mais avançada, geralmente apresenta poucos e breves sinais inflamatórios e seus sintomas e sinais não são generalizados e/ou sistêmicos como na AR. A osteoartrose de mãos se caracteriza pelo acometimento das interfalangeanas distais (nódulos de Heberden), diferentemente da AR na qual predomina o acometimento das interfalangeanas proximais e metacarpofalangeanas. A incapacidade funcional só ocorre nos pacientes com OA quando existe acometimento intenso dos quadris ou joelhos. Alguns pacientes em idade avançada podem apresentar fator reumatóide positivo (comum em idosos). Fibromialgia é uma doença que acomete principalmente mulheres jovens e se caracteriza por dores em várias regiões do corpo em pontos bem determinados extra-articulares. As pacientes se queixam, também, de distúrbios do sono e podem relatar outros problemas associados à dor tais como a síndrome do cólon irritável e enxaquecas frequentes. Embora as queixas da fibromialgia e da AR sejam, em princípio, diferentes, em alguns casos o diagnóstico diferencial se torna difícil, pois alguns pacientes com AR podem apresentar dores difusas musculares e outros pacientes podem ter as duas entidades (AR e fibromialgia) concomitantemente. Pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES) podem apresentar dores articulares intensas, porém inflamação persistente e deformidades articulares são raras nesta doença. O LES geralmente tem acometimento sistêmico importante que é raramente visto na artrite reumatóide. Uma das fontes de confusão no diagnóstico diferencial destas duas doenças é a presença do fator antinúcleo. Este anticorpo, positivo na quase totalidade dos pacientes com LES, também pode estar presente no soro dos pacientes com artrite reumatóide, porém em quantidades menores e com implicações clínicas pouco definidas. Outras doenças que podem, eventualmente, ser confundidas com a AR são as denominadas espondiloartropatias soronegativas. A espondilite anquilosante, a síndrome de Reiter (artrite reativa), a artrite psoriásica e as artrites associadas a problemas intestinais podem apresentar quadro clínico articular bastante semelhante ao da AR. O envolvimento das articulações sacroilíacas e da coluna lombar, as manifestações extra-articulares características (dermatite, uretrite, diarréia etc.) e a persistência do fator reumatóide negativo são diferenciais com a AR utilizados no raciocínio diagnóstico. Embora a esclerose sistêmica (esclerodermia), a polimiosite e muitas vasculites possam apresentar quadros de dor e inflamação articular, estes geralmente são de curta duração e de menor intensidade quando comparados ao envolvimento articular da AR. PROBLEMA 30 | SISTEMAS ORGÂNICOS INTEGRADOS V VIVIAN SCANAGATTA Algumas doenças sistêmicas podem apresentar dores articulares como parte de seu quadro clínico, incluindo a endocardite bacteriana, o eritema nodoso, o hipotiroidismo, a anemia falciforme, a febre reumática e a febre familiar do mediterrâneo, entre outras. Na grande maioria destas doenças as dores articulares são de curta duração, não evoluem para deformidades e geralmente fazem parte de uma ampla constelação de sintomas e sinais que não estão presentes na AR. A poliartrite é um sintoma inespecífico que pode acompanhar diversas patologias. Por isso, a exploração do sintoma e uma boa história são de grande importância para o diagnóstico diferencial e o raciocínio clínico. Muitas doenças podem mimetizar a AR, como síndromes virais autolimitadas em fase inicial: hepatites B e C, parvovírus, rubéola e EBV. Em relação a doenças não-infecciosas, temos o LER, artrite psoríaca, artrite reativa e hipotireoidismo. Nesse contexto, convém perguntar sobre erupções eritematosas, úlceras orais, alteração das unhas, dactilites uretrite e problemas renais, pulmonares, gastrintestinais ou oftalmológicos. Diversas outras doenças e condições podem confundir durante o diagnóstico de artrite reumatoide, principalmente aquelas que apresentam algum tipo de deformidade articular. Abaixo traremos alguns exemplos e suas diferenças para a artrite reumatoide. TRATAMENTO O tratamento da doença consiste em, inicialmente, orientar a mudança de hábitos de vida: cessar tabagismo, inventivar exercício físico, reduzir uso de alcóol e reduzir o peso, além de monitorar e tratar comorbidades (HAS, DM, dislipidemia e osteoporose). Orientar atualização da vacinação e contracepção em mulheres candidatas ao uso de MARMDs. PROBLEMA 30 | SISTEMAS ORGÂNICOS INTEGRADOS V VIVIAN SCANAGATTA O objetivo do tratamento é alcançar remissão da doença, sendo esta medida por índices como ICAD e HAQ. O tratamento de primeira linha inclui o uso de MMCD. O metotrexato (MTX) é a primeira escolha por via oral. Se houver intolerância, dividir a administração por via oral ou empregar metotrezato injetável. Caso não seja possível o uso de MTX ou caso não haja melhora, usar preferencialmente leflunomida (LEF), sulfassalazina (SSZ) ou Hidroxicloroquina (HCQ), sendo que a HCQ não é recomendada em monoterapia, a não ser para aqueles casos extremamente leves com fatores negativos e sem fator de pior prognóstico. O MTX está associado a hepatotoxicidade e efeitos gastrointestinais, sendo recomendado o uso de ácido fólico durante o tratamento (5mg, 1x por semana em 24-36h após a tomada do MTX). No entanto, em 30% dos casos, será necessária sua descontinuação. A dose do metotrexato varia entre 7,5 a 25mg por semana. Após 3 meses, caso haja falha em atingir as metas, recomenda-se terapia dupla ou tripla de MMCDs. As mais recomendadas são MTX ou LEF com HCQ e/ou sulfassalazina. A segunda linha de tratamento é constituída pelos MMCDbio e é utilizada após falha de pelo menos dois esquemas terapêuticos da primeira linha, com duração de 3 meses cada um. Se a atividade da doença persistir segundo o ICAD, recomenda-se o uso de MMCDbio (abatacepte,adalimumabe, certolizumabe pegol, etanercepte, golimumabe, infliximabe, rituximabe, tocilizumabe e tofacitinibe). Este deve ser usado em associação com o MTX, exceto se contra-indicado. Nestes casos, pode ser associado com outro MMCD da primeira linha. As doses variam de acordo com o medicamento, sendo a Leflunomida de 20mg/dia; Sulfassalazina entre 2 e 3g/ dia e a Hidroxicloroquina 400mg/dia. As terapias biológicas incluem os an- ti-TNF (certolizumabe pegol, golimumabe, infliximabe, etanercepte e adalimumabe) e os não anti-TNF (abatacepte e tocilizumabe). Não há diferença significativa em perfil de segurança e de eficácia entre os MMCD biológicos, não havendo, portanto, uma preferência. No entanto, o rituximabe só é indicado caso os anti-TNF e os não anti-TNF supracitados estejam contraindicados. Além disso, o tofacitinibe tem menor experiência de uso e o perfil de segurança a longo prazo não é muito bem estabelecido, portanto outras terapias são preferenciais. Já a terceira linha é usada em falha terapêutica ou toxicidade da segunda linha. Após 3 meses de MMCDbio (em monoterapia ou combinada com MMCD), havendo persistência da atividade da doença, deve-se usar outro esquema de MMCDbio (anti-TNF ou não anti-TNF) ou Tofacitinibe. Se possível, associar a um MMCD sintético (preferencialmente MTX). O uso de imunossupressores, como azatioprina e ciclofosfamida, embora possam ser utilizados para tratar a AR, possuem mais efeitos adversos, com o advento dos medicamentos biológicos, esses imunossupressores estão caindo em desuso para essa patologia. Contudo, continuam disponíveis pelo SUS. Em relação ao tratamento sintomático, pode-se lançar mão dos glicocorticoides ou dos AINEs, pelo menor tempo disponível. O uso prolongado dessas drogas indica falha terapêutica dos MMCD, sendo um sinal de necessidade de rever o esquema. Em relação aos corticoides, tanto a prednisona como prednisolona estão disponíveis no SUS. O uso do prednisona é mais conveniente pela sua apresentação em comprimidos. No entanto, a prednisolona está disponível em solução oral e é preferível em casos de disfunção hepática. Doses altas de glicocorticoides só são recomendadas para o tratamento de manifestações extra-articulares ameaçadoras (como vasculite e neurite).