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Marcia Bernardon ANEMIAS • A anemia é uma manifestação de uma doença. Qualquer doença pode apresentar anemia! Hemácia • A estrutura do glóbulo vermelho tem forma de disco bicôncavo • Hemoglobina (dá a cor avermelhada) • É uma célula anucleada • Precisa ser flexível para passar pela microcirculação (2 micrometros) e não gerar obstruções • Volume da hemácia = VCM = 80 a 100 fentolitros • Em 1 mm cúbico temos cerca de 4,5 milhões de hemácias Hemoglobina • A hemoglobina é a unidade funcional da hemácia • A hemoglobina é fundamental para o transporte de oxigênio • É uma sequência de aa formando 4 cadeias (globinas). • Cada cadeia está ligada a um agrupamento heme que contém um átomo de ferro • O ferro gera cor para hemoglobina • Estima-se que em uma hemácia existam cerca de 100 à 400 milhões de moléculas de hemoglobina. Produção de hemácia • Em condições normais, apenas a medula óssea produz hemácias • Em determinadas condições patológicas, outros lugares podem começar a produzir hemácia • São alguns componentes essenciais para produção de hemácia: ac fólico, vit b12 e ferro. • Para estimular a produção de hemácias, precisamos de um hormônio chamado de eritropoietina. Em condições de hipóxia e variações mínimas na oxigenação do sangue, as células justaglomerulares, possuem sensores de que identificam o risco e secretam a eritropoietina (90% produzida no rim e 10% no fígado). Esse hormônio chega na medula óssea pela corrente sanguínea, e lá vai estimular uma produção de grande quantidade globulos vermelhos o Na insuficiência renal, paciente tem anemia pois não consegue produzir glóbulos vermelhos Fases da produção 1- HSC = célula tronco hematopoética (indiferenciada) 2- Ela dá| origem a CFU-GEMM (unidade formadora de colônia de Granulócitos, Eritrócitos, Monócitos e Megacariócitos). Não é mais pluripotencial, apenas multipotencial. 3- A CFU-GEMM tem a capacidade de gerar filhas diferenciadas como a BFU-E (unidade formadora de explosão). É a 1ª célula das progenitoras que só tem 1 capacidade: gerar hemácia/eritrócito 4- Reproduz diversas vezes e vira CFU-E (unidade formadora de colônia de eritrócitos) → a CFU-E é extremamente sensível a eritropoietina, que se acopla a receptores da CFU-E → induz uma serie de transcrições genéticas que levam a uma reprodução grande destas células ▪ A CFU-E é extremamente ativa, 4 a cada 5 células dessas células no nosso organismo estão se reproduzindo e irão gerar uma hemácia 5- Em algum momento a CFU-E se transforma no PRÓ-ERITROBLASTO: grande quantidade de material genético, complexo de Golgi avantajado, citoplasma azulado e grande. É o primeiro precursor da hemácia que se pode visualizar microscopicamente. O pro-eritroblasto só tem 1 função: se tornar uma hemácia Marcia Bernardon 6- Em determinado momento, o pro-eritroblasto perde citoplasma, reduz de tamanho e vira um ERITROBLASTO BASÓFILO 7- Ao entrar em contato físico com o macrófago, o eritroblasto basófilo recebe ferro do macrófago. E, assim, começa a produzir hemoglobina, se tornando um ERITROBLASTO POLICROMATÓFILO (muitas cores). A hemoglobina é vermeha e o RNA é azul, tornando o eritroblasto roxo. Possui uma quantidade grande e visível de hemoglobina 8- O eritroblasto policromatofilo, vai progressivamente parando de produzir Hb quando já tem uma quantidade satisfatória. Assim, como não precisa mais de RNA ele perde RNA (que é azul) e fica totalmente vermelho, sendo chamado de ERITROBLASTO ORTOCROMATICO (orto = igual, igual a cor da hemácia) 9- Até esse momento, ainda tem núcleo, quando perde o núcleo, se torna um RETICULÓCITO (a contagem de reticulocitos é fundamental para anemias). Depois de 1 a 2 dias que o reticulócito é gerado, ele vai para a corrente sanguínea, fica preso numa fenestra do baço e perde seu material genético, tornando-se um ERITRÓCITO. ▪ O reticulócito é o percursor direto da hemácia!!!!!!!!! ▪ Esse processo de síntese dura em torno de 20 dias ▪ Uma hemácia dura 100-120 dias, pois não tem material genético e não consegue produzir novas proteínas. Tudo que ela perder, não é reposto. Durante o tempo que estiver viva, irá produzir energia para flexibilidade da célula, para manter o processo de oxidação e redução da hb e para transportar oxigênio. HSC → CFU-GEMM → BFU-E → CFU-E → acopla eritropoietina → PRÓ-ERITROBLASTO → ERITROBLASTO BASÓFILO → recebe ferro →ERITROBLASTO POLICROMATÓFILO (produz Hb) → perde RNA → ERITROBLASTO ORTOCROMATICO → perde o núcleo → RETICULÓCITO → ERITRÓCITO Hemograma • Fornece informações sobre leucócitos (serie branca), plaquetas e hemácias (serie vermelha) • Dados numéricos o Cv= coeficiente de variação. ▪ O cv de um hmg manual é 10-20% ▪ O cv de um hmg automático é de 1% ▪ Indica que um hmg automático é 20x mais confiável Anemia • Anemia é a redução da massa eritrocitária medida por redução da Hb ou hematócrito (volume globular) em valores abaixo da referência (de acordo com a faixa etária e sexo do indivíduo). • Mulheres tem 32 ml/kg de massa eritrocitária • Homens tem 36 ml/kg de massa eritrocitária • A Hb e hematócrito sofrem influência da idade, sexo e altitude o Em lugares de maior altitude, tem menos o2 e, por isso, os indivíduos por uma questão adaptativa possuem mais Hb e hematócrito • 99,99% das vezes usamos a Hb para definir se a pessoa tem anemia, pois é mais seguro • O valor limítrofe de Hb para mulher é 12, no homem 13. Marcia Bernardon • Anemia é uma doença extremamente prevalente: o Mulheres: 30:1000 → na mulher é mais comum, devido a menstruação, que gera anemia ferropriva o Homens: 6:1000 • As manifestações da anemia dependem de um desequilíbrio entre: o falha no transporte de O2 e CO2 o Co-morbidades o Compensação cardio-pulmonar o O resultado do desequilíbrio entre a incapacidade de oxigenação dos tecidos e eventualmente mecanismos capazes de compensar essa dificuldade gera anemia • Compensação o O aumento da frequência cardíaca é um mecanismo que pode compensar a anemia. o A FC aumenta para aumentar o debito cardíaco (DC= FC x volume sistólico) e a velocidade que a hemácia passa na corrente sanguínea, tornando-a mais eficiente. É uma maneira de compensação aguda, de curto prazo, mas não serve a longo prazo. o Outra compensação é o aumento da 2,3 difosfoglicerato (DPG) intraeritrocitário. o Essa molécula diminui a afinidade da Hb com o O2, aumentando a liberação tecidual de O2. Como o anêmico tem pouca Hb, eu preciso aumentar o DPG para aumentar a liberação de oxigênio e impedir que os tecidos fiquem com hipóxia ▪ A Hb tem uma capacidade de carregar oxigênio muito maior do que nossos tecidos precisam, isto é, mesmo após ter passado por todos os tecidos, a Hb volta para o pulmão com cerca de 75% de oxigênio, ela libera apenas 25%. Com o aumento da 2,3 DPG ela irá liberar uma maior quantidade de o2. ▪ Esse é uma maneira de compensação crônica, a longo prazo. Pacientes que não produzem 2,3 DPG se tornam muito mais sintomáticos • Um paciente com anemia crônica é menos sintomático do que um paciente com anemia súbita devido aos mecanismos de compensação Manifestações de anemia → Dependentes da intensidade da anemia, da capacidade de compensação da hipóxia e também do tempo de instalação • Cansaço • Cefaleia • Irritabilidade e sonolência Marcia Bernardon • Palidez: refere-se principalmente as mucosas. Não graduar em +/4, pois não ajuda em nada, utilizar o hemograma para conferir Hb e Ht Avaliação da anemia 1- Estabelecer o início da doença: tentar definir se o caso é recente, crônico ou hereditário, através do histórico do paciente, história e evolução sintoma e dados objetivos o Quando começou a se sentir mal? o Quanto tempo está hipocorada? o Já doou sangue alguma vez na vida? (nãopode doar sangue anêmica) o Já recebeu uma transfusão sanguínea? Se paciente recebeu há seis meses pode ser grande indicativo de que na época ele já apresentava esse quadro de anemia o Comparar com exames anteriores: se o exame passado era normal, temos já um indicativo de tempo máximo de desenvolvimento da anemia o Já tratou anemia antes? o Quando tratou anemia, melhorou? 2- Antecedentes pessoais/familiares o Anemia o Icterícia (amarelão): várias icterícias pode ser anemia hemolítica o Esplenomegalia: pode ter sido por anemiahemolitica hereditária o Sangramentos: fundamental pesquisar sangramentos. Sempre perguntar da menstruação também. o Pedra na vesícula em pacientes jovens: pode ser anemia hemolítica 3- Ocupação/hábitos: em geral alguma atividades ocupacionais, podem causar anemia por 3 principais motivos: o Hemólise o Neutropenia o Anemia aplásica o Aqueles que trabalham com chumbo, baterias, tinta, podem desenvolver uma anemia por intoxicação por chumbo (ou qualquer outro material capaz de causar hemólise – destruição das hemácias) 4- Avaliação de sangramento. Algumas causas: o Neoplasias no tubo digestivo o Perdas menstruais o Hematúria o Hemorroidas 5- Considerar: o Infecções o Nefropatia crônica o Doenças endócrinas o Neoplasias o Quadros anteriores de anemia → Anemia é manifestação de alguma outra doença então não podemos esquecer de considerar os itens acima que irão nos ajudar a dirigir nosso diagnostico Tipos mais comuns Causas mais comuns em ADULTOS (+ preocupante) Causas mais comuns em CRIANÇAS (- preocupante) Anemia ferropriva Anemia ferropriva Doença crônica Inflamação aguda Doença renal Talassemias Deficiência de b12/folato Anemia falciforme Hemólise auto-imune Enzimopatias eritrocitárias Esferocitose hereditária Esferocitose hereditária Mielodisplasias Leucemias Processos leucoeritroblásticos Aplasia eritrocitária congênita Anemias aplásicas Eritroblastopenia Transitória • ADULTO: Muitos dos casos são graves, mais preocupantes, como por exemplo, as neoplasias. Marcia Bernardon • CRIANÇA: Imensa maioria das anemias não são graves, ou seja, tem um prognóstico normalmente muito melhor que do adulto. Na lista de anemias mais comuns em crianças, encontramos casos mais graves somente no final, ou seja, menos frequentes. Algumas das anemias mais frequentes na criança são anemia ferropriva, inflamações agudas e talassemias Classificação Morfológica: fornecida a partir do volume corpuscular médio (VCM). Dado fornecido no hemograma. A média do volume da hemácia é normalmente de 80 a 100fL, com o resultado do hemograma temos então três possibilidades: que o volume esteja dentro do esperado (normocítica), abaixo do esperado (microcítica) ou acima do esperado (macrocítica). o Anemia Microcítica: VCM abaixo de 80 ▪ A anemia microcítica corresponde a 3% dos internamentos, é comum ▪ Anemia microcítica é a síntese reduzida de Hb, que como consequência, deixa a hemácia pequena ▪ Melhor avaliada pela Hb ▪ Para entender de forma simplificada podemos imaginar um fazendeiro que produz leite, quando esse quer armazenar uma quantidade X, ele compra uma embalagem para X, não há motivo em gastar com uma embalagem que tenha o dobro do tamanho se ela não estará cheia. O volume corpuscular médio segue a mesma lógica, ele diminui pois a hemácia está produzindo pouca hemoglobina e não se faz necessário ter um volume de 80fL. ▪ Causas:** em negrito as principais causas ➢ Distúrbios do metabolismo do ferro ❖ Anemia ferropriva (falta de ferro) ❖ Anemia de doença crônica ❖ Atransferrinemia ❖ Anemia microcitica familiar ❖ Intoxicação alumínio ❖ Administração de gálio ➢ Desordens da síntese de Hb ❖ Talassemia ❖ Hemoglobinopatia E ❖ Hemoglobinas instáveis ➢ Anemias sideroblásticas ❖ Congênita ❖ Adquirida: refrataria ou responsiva a B6 o Anemia Normocitica: VCM de 80-100 fL ▪ Não tem defeito básico: as anemias normocíticas não têm nenhum fator fisiopatogênico comum único, ao contrário das anemias microcítica que são TODAS devidas a síntese reduzida de hemoglobina e as anemias macrocíticas que se devem a problemas no DNA. ▪ Quando temos uma hemácia de valor normal (80-100fL) normalmente o caso não se trata de uma doença hematológica, e sim é consequência de outra doença (problema renal crônico, infecção crônica, hipotireoidismo, outras doenças endócrinas...). ▪ Um problema é a definição não-exata dos valores de VCM: quem definiu que o normal seria 80- 100fL não considerou que um paciente com 101, 102fL não é macrocítico mas sim normocítico, assim como um paciente com 78fL não é microcítico. ▪ Pode ser levemente macrocítica: mixedema, hepatopatia, sangramento ▪ Pode ser levemente normocítica: anemia de doença crônica (ADC) Marcia Bernardon ▪ Anemias normocíticas podem ser associação entre anemias: por falta de B12/acido folico + talassemia ou falta de B12/ácido fólico + anemia ferropriva ▪ Nas anemias normocíticas há aumento na produção de hemácias, e essas anemias estão associadas com hemólises e sangramentos ▪ Causas: Produção eritrocitária aumentada Doença primaria da medula óssea Produção reduzida de eritropoietina Distúrbios do ferro • Hemólise • Hemorragia • AAS, Hipoplasia Eritrocitária • Infiltração – leucemia e mieloma • Anemia Diseritropoética • Anemia Diseritropoética • Insuficiência Renal • Hepatopatias (?) • Endocrinopatias • Desnutrição • Anemia de Doenças Crônicas • Anemia de doença crônica • Anemia ferropriva inicial o Anemia Macrocítica: VCM acima de 100 ▪ É causada pela síntese defeituosa de DNA ▪ Muito comum em idosos e etilistas ▪ Nem todas as macrocitoses cursam com anemia ▪ Não é raro estar sem causa aparente ▪ Doença mais comum que leva a anemia macrocítica é a anemia megaloblástica (falta de b12 e ácido fólico) ▪ Causas: divididas em 2 grandes grupos: Megaloblásticas Não-megaloblásticas Deficiência de B12/folato Acidúria orótica Sd. de Lesh-Nyhan Hemocistinúria Eritroleucemia Eritropoese aumentada • Hemólise • Hemorragia Anormalidade de membrana Hepatopatias Icterícia Obstrutiva Anemias refratárias • Mielodisplasias • Aplasias • Anemia Macrocítica do Idoso • Elitismo • Hipotireoidismo • DPOC • Macrocitose Familiar Cinética: fornecida a partir da contagem de reticulócitos (hemácia jovem) o Reticulócitos não são fornecidos pelo HMG completo, a contagem deve ser pedida!! Pedir: hemograma com contagem de reticulócitos. O HMG e o reticulócitos precisam ser contados juntos, não adianta pedir HMG e depois de 2 dias pedir reticulócitos. o Com a contagem nós podemos avaliar o funcionamento dinâmico da medula óssea do nosso paciente, sabendo que o reticulócito vive de 1-2 dias na medula e 1-2 dias no sangue conseguimos saber se a medula está funcionando muito ou pouco, porque é uma célula que vai tornar-se hemácia o A contagem de reticulócitos pode vir de 2 formas: ▪ Em número absoluto: já corresponde aos reticulócitos corrigidos. A produção acima de 100 mil reticulócitos a medula está funcionando bem, abaixo de 50 mil não está funcionando Marcia Bernardon ▪ Em porcentagem: é a porcentagem de reticulócitos em relação a quantidade de hemácias. Se supostamente uma hemácia vive 100 dias e o reticulócito vira hemácia em 1 dia, a porcentagem de reticulócito em relação as hemácias normal no sangue é de 1%. A cada dia temos que produzir 1% de glóbulos vermelhos para não ficarmos anêmicos. Esse valor não é exatamente 1%, varia entre 0,5-2,5% das hemácias, sendo mais próximo de 0,5% para o homem e mais próximo de 2,5% para a mulher. Esse número em porcentagem pode ser enganoso como por ex: é melhor ter 10% % de 1000, do que 60% de100. Por isso, deve ser feito correção a partir da formula: ÍNDICE DE PRODUCAO DE RETICULÓCITOS = RETICULÓCITOS/ TEMPO DE MATURAÇAO DE RETICULOCITOS (TMR) o Um índice de produção de reticulócitos> 3 mostra uma resposta normal da medula a anemia. Um índice < 2 é uma resposta inadequada à anemia. o Para hematócrito e hemoglobina normais, o valor do índice de produção de reticulócitos de 1 será normal. o A partir da classificacao cinética, classificamos em 2 tipos de anemia: ▪ Anemia hiperproliferativa: reticulócitos aumentados. IRP > 3. Esse tipo de anemia só ocorre em 2 situações: ➢ Hemólise: destruição de sangue ➢ Hemorragias ▪ Anemia hipoproliferativa: reticulócitos menor ou normal. IRP < 2 ➢ O reticulócito não está aumentando e consequentemente não há como recuperar o quadro anêmico. É impossível repor essa quadro de anemia pois não há hemácias jovens (reticulócitos) para se transformarem em hemácias adulta. RETICULOCITOS CORRIGIDOS = RETICULÓCITOS (%) X (VG DO PACIENTE/45) Quando temos um alto índice de reticulócitos sabemos que está ocorrendo uma maior produção por necessidade do organismo que sofreu uma diminuição na quantidade de sangue, seja por sangramentos ou por destruição. Outro fato importante é que se o corpo é capaz de produzir mais, sabemos que a medula óssea desse paciente é boa.