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RELEVÂNCIA CLÍNICA • O tratamento da tuberculose e da hanseníase possui várias coisas em comum • Houve um aumento da incidência de tuberculose associado ao aumento de pacientes imunocomprometidos. Seja devido aos pacientes transplantados, que usam imunossupressores por toda a vida, pacientes com doença crônicas, que tem imunossupressão • Tem uma incidência maior em populações pobres que vivem em uma densidade populacional muito grande e população carcerária → aglomeração favorece a disseminação da tuberculose • Existe uma série de limitações relacionadas ao tratamento e manejo da tuberculose: - resistência natural - poucas opções disponíveis (pouca inovação e pesquisa em novos fármacos) - eficácia é questionável em monoterapia → os fármacos devem ser usados em terapia combinada - tratamento longo → leva no mínimo meses/ anos - existe a resistência adquirida (seleção de cepas resistentes, abandono do tratamento) - adoção de antibioticoterapia racional → cultura/ antibiograma AGENTES ANTIMICOBACTERIANOS • É importante lembrar que o uso de antibióticos causam seleção de bactérias resistentes • O tratamento básico para tuberculose no Brasil hoje dura 6 meses • É composto por: 1. uma dose de ataque/ intensiva/ fase aguda: - dois meses - contendo 4 fármacos 2. uma fase de continuação: - por pelo menos 4 meses - no mínimo 2 fármacos • Contra a tuberculose, os fármacos de primeira escolha são são Etambutol (E), Isoniazida (H), Piranzinamida e Rifampicina (Z) obs: a rifampicina pode ser substituída por rifabutina ou rifapentina → fármacos com atividade cinética diferente • Dentre os fármacos de segunda escolha para tuberculose para temos: ácido paraminossalicílico, aminoglicosídeos (S)/ estreptomicina, bedaquilina, capreomicina, ciclosserina, etionamida, fluroquinolonas, macrolídeos • Para hanseníase, os fármacos usados são clofazimina, dapsona, rifampicina - segunda opção: ofloxacino, minociclina TUBERCULOSE • A micobactéria tem uma série de características específicas. Alguns fármacos exploram essas características dessas micobactérias • Fármacos que atuam na parede celular das bactérias (presença de ácido micólico): 1. Isoniazida: inibe a síntese de ácido micólico 2. Etambutol: inibe a síntese da parede celular 3. Pirazinamida: inibe a síntese da membrana celular • Fármacos com ação na transcrição ou tradução: 1. Rifamicina: inibe a síntese de RNA atuando na RNA polimerase 2. Estreptomicina: inibe a síntese de proteínas atuando na subunidade ribossômica 30S • As micobactérias tem um mecanismo de escape do sistema imune: utilizam proteínas da membrana para serem endocitadas por células do sistema imune para ficar dentro das células → escapando de outras células do sistema imune • Devido a isso muitos fármacos precisam entrar nas células para atuarem → dificulta o combate RESISTÊNCIA MICOBACTERIANA NATURAL E ADQUIRIDA Natural: • Possuem baixa taxa de crescimento → muitos fármacos antibacterianos atuam em vias metabólica • Parede micólica → dificulta acesso do fármaco • Formas latentes → formas inertes sofrem pouca ação dos fármacos • pH baixo entorno da micobactéria no meio intracelular deixa o fármaco inativo (estreptomicina) • há também condições específicas Adquirida: • mutações nos genes de reparo do DNA levam à resistência a múltiplos fármacos • alteração de enzima impede a conversão do pró-fármaco à forma ativa (pirazinamida, isoniazida) • alteração na estrutura da proteína-alvo impede o reconhecimento do fármaco (rifamicina, etambutol, estreptomicina, fluoroquinolona, macrolídeo) • fármaco exportado para a célula antes de alcaçar o alvo (estreptomicina, isoniazida, etambutol) --. Bombas de efluxo O ANTIMICOBACTERIANO IDEAL • Idealmente, os micobacterianos teriam que ter 3 características principais: 1. Bactericida: matar as bactérias - diminuir baciloscopia no escarro, diminuir contágio em no máximo 15 dias - rifampicina, isoniazida, pirazinamida, estreptomicina 2. Bacteriostático: reduzir a proliferação das bactérias - aumentar a susceptibilidade do bacilo - reduzir a resistência do bacilo → torna-lo mais susceptível ao sistema imune - etambutol, rifampicina, isoniazida 3. Esterilizante: eliminar bactéria que estão em locais protegidos do organismo - diminuir baciloscopia em lesões - diminuir a chance de recidiva - rifampicina, pirazinamida, isoniazida 1. ISONIAZIDA (INH) E CORRELATOS • É um pró-fármaco e muito hidrossolúvel • No organismo humano: Chega até os tecidos, é metabolizada (metabolito acetilado) e é excretado • No bacilo: o fármaco é ativado pela enzima KatG (catalase/ peroxidase) e convertida em um radical livre, sendo o principal o nicotinoil - esse radical livre altera o metabolismo da micobactéria: redução da síntese de ácido micólico e da conversão de tetrahidrofolato (importante para a síntese de ácido nucleico, DNA, formação de novas micobatérias) • Ineficácia do fármaco podem ocorrer quando há mutações na enzima KatG e a presença de antioxidantes que neutralizam o radical nicotinoil • Vantagens: - Pró-fármaco de ativação seletiva: diminuição efeito colateral - Efeito bacteriostático e bactericida - Reduz a integridade da parede celular - Biodisponibilidade oral é grande (aproximadamente 100%) - Penetração em lesões caseosas é alta • Fármaco correlato: etionamida, pode ser usada como fármaco de segunda escolha • Particularidades e efeitos indesejados: é um análogo da vitamina B6, compete com os sítios de ação dessa vitamina gerando alterações no metabolismo celular e na síntese de GABA. Por isso, alguns efeitos indesejados estão associados à indisponibilidade de vitamina B6 1) Hepatite tóxica (náusea, icterícia, diminuição do apetite) 2) Hemólise, principalmente em pacientes que tem deficiência de glicose-6- fosfatodesidrogenase 3) Neuropatia periférica e anemias → fazer suplementação com vit B6 4) Acúmulo no SNC (amnésia, convulsão, psicoses) → fazer suplementação com vit B6 5) Interação com simpatomiméticos: isoniazida tem efeito inibidor da MAO, enzima que degrada catecolaminas. Então todo tipo de fármaco que também tem efeito simpaticomético, isto é, que aumente a liberação de catecolaminas, vai sofrer interação com a isoniazida → causa aumento agudo de catecolaminas que é conhecida como reação do queijo 6) Reação do queijo: caracterizada pelo aumento agudo de catecolaminas. Queijos curados tem tiramina (substância que tem efeito simpatomimético), ao chegar em neurônios que produzem dopamina, noradrenalina e serotonina, causam a liberação dessas catecolaminas. Portanto pacientes que usam inibidores da MAO e comem esses queijos tem uma crise hipertensiva muito grande que podem chegar a causar AVE, hemorragia intracraniana 7) Risco de overdose: se o paciente toma muitos comprimidos pode morrer Existem algumas alterações genéticas que podem impactar no metabolismo da isoniazida • Polimorfismo genético das enzimas que fazem o intermédio da reação → determinam o tempo de meia- vida da isoniazida 1) Nos acetiladores rápidos, a isoniazida tem meio-vida curta (aproximadamente 1 horas). - concentração plasmática máxima reduzida e depuração do fármaco mais rápida - menor eficácia do fármaco 2) Nos acetiladores lentos, a isoniazida tem meia-vida longa (aproximadamente 3 horas) - concentração plasmática máxima maior e uma depuração mais lenta - maior chance de toxicidade Além disso, a isoniazida também tem possibilidade de interações com outros fármacos uma vez que é metabolizada por isoformas da citocromo P450 • Pode causar acúmulo de anticonvulsivanete por inibir a isoforma que faz a degradação → toxicidade neurológica • Pode inibir isoformas que fazem a degradação do paracetamol→ podendo causar hepatotoxicidade 2. RIFAMPICINA (RPM) E OUTRAS RIFAMICINAS MACROCÍCLICAS • Bactericida (inclusive para gram +) com ação esterilizante (ação nas lesões caseosas) • Ação: Inibe a RNA polimerase bacteriana • Podem penetrar fagócitos e abscessos • Além de ser efetiva para tuberculose, também são efetivas para M. leprae (hanseníase) • A excreção da rifampicina é principalmente biliar (60%) e renal • Efeitos adversos: náusea, vômito e hepatotoxicidade - Hipersensibilidade: exantema, febre, eosinofilia, mialgia, hemólise, hematúria, hemoglobinúria, insuficiência renal aguda (necrose tubular) → não é muito comum - é uma grande causadora de secreções laranja → suor, saliva, lágrimas, até as mucosas → acontece com 100% dos pacientes que usam o fármaco - “síndrome do homem vermelho” (overdose de rifampicina) → possui colorações laranja, avermelhado É um fármaco indutor de enzimas hepáticas → interação com outros fármacos • Reduz nível plasmático de: Anticoagulantes orais, Anticoncepcionais, Hipoglicemiantes orais, Agonistas β-adrenérgicos, Cetoconazol, Corticoides, Digitálicos, Enalapril, Metadona, Opioides, AINES, Propafenona, Quinidina, Teoflina • Aumenta a hepatotoxicidade de: isoniazida, cetoconazol, fenitoína, etionamida, sulfas e sulfonas • Indução de hiperglicemia quando usado com fármacos para diabetes (sulfanilureias) • Quando usado junto com fármacos para HIV (ritonavir, indinavir, saquinavir) pode ter aumento da toxicidade da rifampicina ou até diminuir as [plasmáticas] dos antivirais • A escolha do fármaco depende da situação do paciente. Existem vantagens e desvantagens com cada um dos fármacos. • Idealmente não se quer que um fármaco seja metabolizado pela enzima P450 (CYP3A) porque aumenta as chances de interação medicamentosa • A rifampicina é o mais usado porque há mais evidência clínica 3. PIRAZINAMIDA (PZA) • Possui efeito bacteriostático e bactericida em meio ácido (pH < 5,5) → consegue agir em meio intracelular de fagócitos, por exemplo, e em necrose • Ativado por enzimas micobacterianas Hipóteses de efeitos: • Inibe a síntese de ácido micólico • Interrompe transporte de membrana • Diminui o pH micobacteriano • Hepatotoxicidade → depende da dose • Efeito clássico → Hiperuricemia → gota 4. ETAMBUTOL (BEM) • Efeito bacteriostático (diminui a resistência) • Seletivo para micobactérias • Inibe a arabinosil-transferase III (parede celular) • Interação com etanol porque é metabolizado por enzimas necessárias para o metabolismo do etanol (ALDH – aldeído desidrogenase) • Evidência de Resistência bacteriana grande no uso do etambutol por bombas de efluxo, por isso não pode ser usado em monoterapia Neurite retrobulbar → causa alterações ópticas): • Diminuição da acuidade visual (progressiva) • Alteração na percepção de cores • Também afeta outros nervos → Neuropatias 5. ESTREPTOMICINA (SM) OU OUTROS AMINOGLICOSÍDEOS • É o primeiro fármaco de segunda linha a ser usado • Ação bactericida em especial em células que se multiplicam rapidamente (micobactérias que estão no meio extracelular) • Inibe irreversivelmente a síntese proteica (efeito pós- antibiótico →tem ação até mesmo depois que para de tomar o remédio) - bloqueia a iniciação da síntese de proteínas - bloqueia a posterior tradução e estimula a terminação prematura - incorporação de aminoácidos incorretos • Efetivo em gram-aeróbicos além das micobactérias • Pode ser usado para substituir a rifampicina ou isoniazida • É um fármaco que apresenta vários grupos com nitrogênio em sua estrutura química → esses grupos podem ser ionizados em meio ácido - em meio ácido (fagócitos e lesões caseosas), sofre protonação e não consegue entra na micobactéria. Portanto, é um exemplo de fármaco que não tem ação nos fagócitos e nas lesões caseosas • Não há absorção oral → porque quando ingerido or via oral esses grupos e nitrogênio protonados não ocorre transporte pelo epitélio do TGI. A estreptomicina precisa ser injetada por meia intramuscular → diminui a adesão ao tratamento • Causa nefrotoxicidade reversível (leve) • Ototoxicidade irreversível → vestibular / coclear → paciente pode ter perda da audição, equilíbrio • Em pacientes que estão usando estreptomicina e passam por uma cirurgia que usa um bloqueador neuromuscalar → pode ocorrer aumento do efeito do bloqueio neuromuscular (parece envolver redução do cálcio intracelular e redução na acetilcolina) Reações adversas menores aos fármacos do Esquema Básico não suspender o tratamento • Náusea, vômito, dor gástrica → atinge 40% das pessoas • Suor/urinas de cor avermelhada → 100% • Prurido e exantema leve → 20% • Dor articular → 4% • Neuropatia periférica → isoniazida por redução de vitamina B, fazer suplementação ou trocar o fármaco • Hiperucemia (aumento do ácido úrico)→ pirazinamida • Cefaleia e mudança de comportamento (euforia, insônia, depressão leve, ansiedade e sonolência) → isoniazida (inibidor da MAO) Reações adversas maiores aos fármacos do Esquema Básico suspender o tratamento • Exantema ou hipersensibilidade de moderada a grave → etambutol, isoniazida, rifampicina → suspender o tratamento, substituir fármaco e usar esquema especial alternativo • Psicose, crise convulsiva, encefalopatia tóxica ou coma → isoniazida (iMAO) → suspender • neurite ótica → etambutol → suspender • rabdomiólise com mioglobinúria e insuficiência renal → pirazinamida → suspender • hepatotoxicidade → isoniazida, pirazinamida, rifampicina → suspender o tratamento • hipoacusia, vertigem e nistagnmo (ototoxicidade) → estreptomicina → suspender • trombocitopenia, leucopenia, eosinofilia, anemia hemolítica, agranulocitose, vasculite → rifampicina → suspender fármaco • nefrite intersticial → rifampicina → suspender TERAPIA COMBINADA NA TUBERCULOSE – TERAPIA DE CURSO RÁPIDO • • Em crianças, o esquema terapêutico é parecido, não se usa o etambutol → porque é neurotóxico e as crianças estão em fase de desenvolvimento do sistema nervoso, logo possuem maior chance de terem complicações por neurotoxicidade → neurite • Esquemas diferenciados: em pessoas com casos reincidentes, HIV +, multirresistência, micobactérias atípicas, gestantes VANTAGENS DA TERAPIA COMBINADA 1. Uso de fármacos que tem mecanismos diferentes → sinergismo e múltiplos alvos → espectro de ação muito grande 2. Diminui a chance de resistência 3. bacteriana → menos chance de crescer 4. “Compensação” farmacocinética: um fármaco compensa/ cobre a deficiência cinética do outro a. volume de distribuição (DP com [tecidual] b. distribuição distêmica (IP com tempo de meia-vida) c. Ka – constante de absorção (quanto maior a Ka, maior absorção → DP) 5. Diminui a duração do tratamento: aumenta a eficácia (diminui a chance de resistência e de abandono do tratamento) e diminui as doses (diminui as chances de efeito indesejados) - profilaxia em pessoas com alto risco de contágio: H (300 mg/dia/ 6 meses) ou R (10 mg/dia/ 4 meses) Hoje existe fármacos combinados com os 4 fármacos → melhora adesão do paciente ao tratamento FARMACOLOGIA DA HANSENÍASE • Menos opções e maior duração de tratamento • Dois tipos de tratamento: 1) Forma paucibaiclar (quando o paciente tem menos de 5 lesões)→TUBERCULOIDES - tratamento por n mínimo 6 meses, pode prolongar por até 9 meses nas situações em que o paciente não aparece por um mês, tem atraso para iniciar uma cartela - Nos EUA é adota um tratamento com dapsona 100 mg por 3 a 5 anos depois da doença 2) Formamultibacilar (maior que 5 lesões) → LEPROMATOSA - tratamento por no mínimo 12 meses e no máximo 18 meses - nos EUA, dapsona 100 mg por até 10 anos • Tem algumas particularidades no ajuste de dose de adultos e crianças 1. DAPSONA • É um fármaco bem Velho (1940) • Inibe a síntese de folato (inibe enzima que converte o PABA em folato) → as micobactérias precisam sintetizar folato, não adquirem do meio externo • Também tem efeito em gram +/ - e é utilizada no tratamento de malária e toxoplasmose • Tempo de meia-vida grande (de 24 a 48horas) → facilita a adesão • Efeitos adversos: risco de hepatotoxicidade, pode causar hemólise e metemoglobinemia, e aumenta o risco de reações hansêmicas (pode ser fatal, em especial em pessoas que são multibacilares) 2. CLOFAZIMINA • 1960 • Agente corante → urina e pele vermelha/ negro • Mecanismo de ação não é muito conhecido, proposto → alterações no DNA, aumenta radicais livres, bloqueio no transporte de elétrons • Possui um efeito anti-inflamatório adicional → inibe macrófagos, Linfócitos T → por isso é adicionada ao esquema terapêutico dos multibacilares, uma vez que a morte de bacilos pode causar uma resposta inflamatória exacerbada • Tempo de meia-vida longo → de 4 a 8 semanas → mesmo que a pessoa esquecer de tomar não vai ter uma queda brusca → reservatório • Possui efeito lento → demora de 6 a 7 semanas • Causa descoloração de lesões na pele → avermelhada ou esbranquiçadas • Dor, diarreia, náuseas, vômito Reação hansêmica: é uma reação de hipersensibilidade tardia por exposição antigênica • Lesões hansêmicas → bactérias podem estar sequestradas em macrófagos → o tratamento pode expor essas micobactérias ao expor o antígeno → Promove uma resposta do sistema imune → pode sinalizar que o tratamento está funcionando • Reação tipo I: reação reversa, acontece em pacientes paucibacilares (parece que a lesão está piorando), paciente relata edema, infiltração, dor, neurite • Reação tipo II: eritema nodoso hansênico, EDH, paciente apresenta múltiplas lesões, novos nódulos eritematosos e doloridos muito mais sérios e ricos em bacilos. Formação de vesículas, pústulas, bolhas e úlceras. P acientes também apresentam sinais sistêmicos de inflamação (febre, mialgia, náusea, artralgia, edema e neurite) TRATAMENTO DE REAÇÕES HANSÊNICAS (EMERGÊNCIA) • Na maioria das reações: Predinisona (1mg/kg/dia) ou dexametasona (0,15,mg/ kg/ dias) • Tipo II: além do corticoide, deve-se administrar talidomida (100 – 400 mg/dia), diminui TNF alfa