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1 Trio Help Med – Virgínia Pereira INTRODUÇÃO: o O Traumatismo Cranioencefálico (TCE) é um insulto ao cérebro, não degenerativo ou congênito, provocado por uma força física externa; o O trauma cranioencefálico pode de modo temporário ou permanente incapacitar a função cerebral; o TCE foi tomando proporções cada vez maiores com a evolução da humanidade até atingir os atuais índices de morbidade e mortalidade; o Pode produzir um estado alterado ou diminuído de consciência, dessa forma decorrendo deficiências dos desempenhos cognitivo, comportamental, emocional ou físico; o Está entre os principais tipos de trauma mais comuns nos serviços de emergência em todo o mundo. ANATOMIA CRANIOENCEFÁLICA: COURO CABELUDO: o Lacerações no couro cabeludo podem gerar repercussões hemodinâmicas importantes no paciente; o Possui extensa vascularização; o Traumas nessa região podem levar a uma perda sanguínea significativa, suficiente para provocar um choque hemorrágico. CRÂNIO: o Estrutura óssea de proteção do cérebro, rígida, não expansível; o Qualquer alteração no volume intracraniano pode levar a graves repercussões. MENINGES: o Proteção membranosa do cérebro; o Possui três camadas: dura-máter, aracnoide e pia- máter. DURA-MÁTER o É uma camada resistente e está aderida a superfície interna do crânio ESPAÇO EPIDURAL: o Entre a dura-máter e o crânio há o espaço epidural, por onde passam as artérias meníngeas; o Traumas nesses vasos podem levar a formação de grandes hematomas epidurais, com rápida deterioração do estado clínico da vítima. ARACNÓIDE: o É uma meninge fina e transparente; o Como essas duas membranas não são aderidas, há um espaço potencial entre elas, chamado de espaço subdural; o Lesões nas veias pontes pode levar a formação de um hematoma subdural. PIA-MÁTER: o Está firmemente aderida a superfície cerebral; o Entre a aracnóide e a pia-máter, há o espaço subaracnóideo, preenchido pelo líquido cefalorraquidiano (LCR); o As hemorragias que ocorrem dentro desse espaço são chamadas de hemorragias subaracnóideas, e costumam ocorrer nos casos de contusão cerebral ou grandes traumas vasculares na base do encéfalo. ENCÉFALO: o Corresponde a uma porção do sistema nervoso central (SNC); o Formado pelo cérebro, cerebelo e pelo tronco cerebral, que por sua vez, é formado pelo mesencéfalo, bulbo e ponte. SISTEMA VENTRICULAR: o Corresponde a um sistema de espaços e aquedutos, localizado no encéfalo e preenchido por LCR, que é constantemente renovado; o A presença de sangue nesse líquido prejudica a sua absorção, podendo resultar em um aumento da pressão intracraniana. COMPARTIMENTOS INTRACRANIANOS: o A cavidade craniana é dividida pela tenda do cerebelo em um compartimento supratentorial e um compartimento infratentorial; o Nessa tenda há uma incisura, que é por onde, habitualmente, ocorre a herniação do úncus (região Trauma Cranioencefálico 2 Trio Help Med – Virgínia Pereira medial do lobo temporal), nos casos de aumento da pressão intracraniana. Imagem: Anatomia craniana. Fonte: AMERICAN COLLEGE OF SURGIONS COMMITTEE ON TRAUMA . Advanced Trauma Life Suport – ATLS. 10 ed., 2018. (ADAPTADO) EPIDEMIOLOGIA: o O trauma cranioencefálico (TCE) possui alta prevalência em nosso meio; o A maioria dos TCE é classificada como leve e não produz sequelas, porém, traumas leves podem ter potencial de gravidade; o O traumatismo cranioencefálico (TCE) é a principal causa de morte e sequela em crianças e adultos jovens nos países industrializados ocidentais; o 80% dos indivíduos que sofrem TCE são homens entre 18 e 30 anos de idade; o O TCE ocorre com mais frequência em homens que em mulheres, em uma proporção de 4:1; o A maioria dos homens jovens sofre TCE como resultado de acidente automobilístico, violência e esportes que tenham um elemento de risco; o O uso de álcool é um fator que contribui para TCE; o O risco de TCE é também é maior entre bebês, crianças pequenas e idosos; o A mortalidade, porém, é mais alta em adultos que em crianças em razão da maior neuroplasticidade da criança; o Principal causa de morte em pessoas entre 1 e 44 anos, sendo determinante de morbidade, incapacidade e mortalidade dentro deste grupo; o Na sua classificação grave está associado a uma taxa de mortalidade de 30%-70%; ETIOLOGIA: o Quedas (especialmente em adultos mais velhos e crianças pequenas); o Acidentes com veículos automotores e outras causas relacionadas a transporte (p. ex., acidentes de bicicleta, colisões com pedestres); o Agressões; o Atividades esportivas; o O TCE tem como principal mecanismo a lesão cerebral focal causada por trauma local direto, provocando contusão, laceração e hemorragia intracraniana; o O dano ao tecido cerebral pode ser causado por uma lesão focal ou lesão axonal difusa; o Algumas pessoas podem apresentar lesão focal associada à lesão axonal difusa decorrente, por exemplo, de um acidente automobilístico no qual ocorra um impacto sobre a cabeça somado ao impacto relacionado à velocidade; o A causa da lesão cerebral traumática está relacionada a idade do paciente: • Na infância -> dos 5 aos 10 anos: A causa mais comum é o atropelamento. • Na adolescência -> Prevalecem as lesões esportivas; • Na idade adulta ->Acidentes automobilísticos e ferimentos por projéteis de arma de fogo e • Entre idosos -> Ocorrência de quedas é a causa mais comum de TCE. FISIOPATOLOGIA: o As lesões cerebrais são classificadas em primárias e secundárias; o As lesões primárias são aquelas que ocorrem no momento do trauma; o Contusões focais: as contusões focais são as lesões mais comumente encontradas em pacientes com TCE, estando presentes em até 30% dos casos. Os locais de ocorrência mais comuns são os lobos temporal e frontal, que são as regiões mais vulneráveis quando há impacto direto. Essas lesões podem evoluir, em curto período de tempo (horas ou dias), para um hematoma intraparenquimatoso com efeito de massa suficiente para exigir rápida intervenção cirúrgica; https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/geriatria/quedas-em-idosos/quedas-em-idosos 3 Trio Help Med – Virgínia Pereira o Hematomas: os hematomas costumam aparecer quando a força externa é distribuída pelas superfícies cerebrais mais superficiais. Podem ser de três tipos: • Hematoma Epidural: como o próprio nome diz, corresponde a uma coleção de sangue no espaço epidural – entre a dura-máter e a superfície interna do crânio -, e ocorre devido a lesões nas artérias meníngeas. Tipicamente, assumem um formato biconvexo, estando localizados principalmente na região temporoparietal e, habitualmente, não estão associados a danos cerebrais adjacentes. • Hematoma Subdural: localizado no espaço subdural, ocorre geralmente devido a traumas nas veias pontes do córtex cerebral. É uma lesão que costuma assumir o formato do contorno do cérebro, ao contrário do hematoma epidural, que tem uma apresentação mais bem delimitada. Geralmente, os hematomas subdurais estão associados a lesões parenquimatosas concomitantes, sendo, portanto, lesões mais graves. • Hemorragia Subaracnóidea (HSA): sangramento que ocorre no espaço subaracnóideo, entre a pia-máter e aracnoide. o Lesão Axonal Difusa: também chamada de lesão por cisalhamento, costuma ocorrer após impactos de alta velocidade ou em mecanismos de desaceleração, e corresponde a múltiplas hemorragias pontilhadas localizadas nos hemisférios cerebrais, principalmente nos limites entre a substância cinzenta e branca. Essas lesões costumam apresentar um prognóstico bastante reservado. o As lesões secundárias decorrem de agressões que se iniciam após o momento do acidente, resultantes da interação de fatores intra e extracerebrais,que se somam para inviabilizar a sobrevivência de células encefálicas poupadas pelo trauma inicial; o Finalmente, existem ainda os mecanismos de morte celular, neuronal, endotelial e glial por distúrbios iônicos e bioquímicos que estão relacionados tanto à lesão primária como à secundária; o Para melhor compreensão, a fisiopatologia do TCE pode ser dividida nos seguintes tópicos: I) mecanismos de morte celular, II) mecanismos de TCE e III) mecanismos de lesão cerebral após o TCE. I) MECANISMOS DE MORTE CELULAR o Atualmente são conhecidos dois mecanismos de morte celular, a apoptose e a necrose; o A característica central da morte por apoptose é a quebra da fita de DNA internucleossomal; o A apoptose é a manifestação morfológica da morte programada, utilizada em situações fisiológicas como no processo de maturação do sistema nervoso, no qual neurônios que não desenvolveram sinapses relevantes são descartados; o A morte celular por apoptose tem a vantagem de suscitar pouca reação inflamatória, o que minimiza lesão tecidual; por outro lado, como é um mecanismo fisiológico, despende de energia; o A apoptose pode ser deflagrada por estímulos conhecidos como a lesão parcial do DNA, o glutamato e o estresse oxidativo. Por outro lado, todos esses fatores também podem levar a necrose neuronal; o No TCE podemos encontrar lesões por apoptose tanto em sítios perilesionais como em estruturas distantes do trauma como o tálamo e o hipocampo; o A necrose é o principal mecanismo de morte celular no TCE. Ao contrário da apoptose, na qual a célula comanda ativamente o processo de sua destruição, na necrose existe uma falência energética e a morte ocorre pela incapacidade da célula de manter sua homeostase. Dessa maneira, é um processo menos organizado e que envolve uma resposta inflamatória de maior intensidade ao seu redor. Os mais conhecidos estímulos que levam a necrose são a excitotoxicidade e o estresse oxidativo; o A excitotoxicidade é o mecanismo pelo qual o glutamato e outros neurotransmissores excitatórios causam lesão celular; o Os níveis de glutamato elevam-se no trauma por vários caminhos. Em um primeiro momento, a energia cinética do TCE causa deformação mecânica nos axônios, que, por sua vez, leva à despolarização das membranas celulares e liberação de neurotransmissores, dentre eles o glutamato. Em um segundo momento, outros fatores, como a hipóxia, o estresse oxidativo e a própria despolarização gerada pela excitotoxicidade podem comprometer o controle da permeabilidade da membrana e aumentar ainda mais a presença do glutamato extracelular; o O glutamato liga-se tanto a receptores acoplados a canais iônicos de Ca++ e Na+, os mais importantes são os chamados Kainato, NMDA e AMPA, como a receptores acoplados a sistemas de segundo mensageiro, chamados metabotrópicos; o Nos mecanismos de excitotoxicidade, os receptores ionotrópicos são os mais estudados. A lesão celular na excitotoxicidade ocorre em dois estágios. Em um primeiro momento ocorre um influxo de Na+ com consequente edema celular. Em um segundo momento, a abertura de canais de Ca++ de longa 4 Trio Help Med – Virgínia Pereira duração leva ao acúmulo excessivo de cálcio intracelular; o O estresse oxidativo é o resultado da ação de radicais livres no tecido. No TCE, a hipóxia é o principal fator para o acúmulo de radicais livres, embora o glutamato, como visto acima, contribua para esse quadro pela ativação da fosfolipase A; o Os radicais livres lesam a célula por diferentes mecanismos. Na membrana eles inibem a bomba de Na+/K+, oxidam a dupla camada de lipídeos e hidrolisam fosfolípides. Essas ações levam ao aumento da permeabilidade da membrana que favorece o acúmulo de cálcio intracelular e liberação de glutamato. Ao hidrolisar fosfolípides levam também a formação de AA, cujas consequências foram descritas acima; o O óxido nítrico (NO) é produzido pelo aumento na concentração do cálcio intracelular associado aos mecanismos de agressão celular presentes no trauma; o No TCE, sua ação pode ser dividida em três fases: antes de 30 minutos, entre 30 minutos e seis horas e após seis horas. Na primeira fase, o NO parece agir preservando o fluxo sanguíneo cerebral (FSC). Em um segundo tempo existe uma depleção do NO acompanhado de diminuição do FSC. Após seis horas, o NO volta a aumentar. Nessa última fase, o acúmulo de NO acomete o endotélio, causando uma potente vasodilatação e aumento da permeabilidade vascular. A combinação dessas ações leva ao aumento do FSC, da PIC e do edema cerebral. II) MECANISMOS DE TCE o As lesões encefálicas no TCE podem ser separadas em: A) difusas e B) focais. Esses dois mecanismos costumam estar associados em um mesmo paciente, embora, geralmente, exista o predomínio de um tipo. A) LESÕES DIFUSAS o As lesões difusas são aquelas que acometem o cérebro como um todo e, usualmente, decorrem de forças cinéticas que levam a rotação do encéfalo dentro da caixa craniana; o Podem ser encontradas disfunções por estiramento ou ruptura tanto de axônios como de estruturas vasculares em regiões distintas do encéfalo; o Dentre as lesões difusas, o termo concussão cerebral é utilizado atualmente para se referir a perda temporária da consciência associada ao TCE; o A lesão axonal difusa (LAD) refere-se à perda de consciência por mais de seis horas, associada ao TCE, sem distúrbio metabólico ou lesão expansiva visível na tomografia que justifiquem o quadro. Na LAD, a tomografia pode ser normal ou apresentar pequenos pontos hemorrágicos próximos aos núcleos da base, no tronco ou na região parassagital. Acredita-se que o mecanismo que dá origem a LAD é o estiramento axonal decorrente do movimento de rotação do encéfalo no momento do trauma. No entanto, a lesão desenvolve-se e estabelece-se somente após uma sequência de eventos que pode durar horas. Ocorrendo um bloqueio no transporte axonal desencadeado pela lesão de estruturas intracelulares, que leva ao surgimento de edema local e, finalmente, ruptura do axônio; 5 Trio Help Med – Virgínia Pereira o A tumefação cerebral pode ser hemisférica (TCH) ou bi-hemisférica, também chamada de difusa (TCD). A TCH frequentemente associa-se à lesões focais como o hematoma subdural agudo (HSDA) e pode causar herniação cerebral; o O Traumatic Coma Data Bank da Brain Trauma Foundation13 classifica as lesões difusas em quatro tipos, de acordo com os achados na tomografia de crânio (TC): (I) Sem alteração visível na TC de admissão; (II) TC com as cisternas basais cerebrais presentes e desvio das estruturas da linha mediana (DLM) de até 5 mm, sem lesão de alta ou mista densidade maior que 25 cm3; (III) TC com cisternas comprimidas ou ausentes e DLM de 0 a 5 mm sem lesão de alta ou mista densidade maior que 25 cm3 (bi-hemisférica) (IV) Pacientes que apresentavam TC com DLM maior que 5 mm sem lesão de alta ou mista densidade maior que 25 cm3 (hemisférica). B) LESÕES FOCAIS o As lesões focais são compostas por hematomas - intra ou extracerebrais - ou áreas isquêmicas delimitadas que acometem apenas uma região do cérebro; o Nas lesões puramente focais, presume-se que o restante do encéfalo mantenha suas propriedades de complacência tecidual e vascular preservadas; o Dentre as lesões focais, as fraturas cranianas podem ser lineares ou associadas a afundamento focal. Elas decorrem de traumas com baixa energia cinética, onde existe o contato da cabeça contraestruturas rígidas externas; o As fraturas lineares costumam ser consequência de traumas que deformam a abóbada craniana enquanto os afundamentos refletem uma colisão mais pontual. As fraturas lineares isoladas não causam danos cerebrais, porém, elas podem estar associadas a lesões de estruturas vasculares que causam complicações potencialmente fatais, como os hematomas extradurais; o O hematoma extradural(HED), na maioria dos casos, resulta de impacto craniano com baixa energia cinética; o Já o hematoma subdural agudo (HSDA) está associado a mecanismos de aceleração e desaceleração dos traumas com grande energia cinética e, do mesmo modo das lesões difusas cerebrais, não necessita do contato do crânio com estruturas externas para ser gerado; o Devido a essas semelhanças, pacientes com HSDA também apresentam, frequentemente, lesões cerebrais difusas, o que piora de maneira significativa seu prognóstico; o A contusão cerebral é composta de áreas hemorrágicas ao redor de pequenos vasos e tecido cerebral necrótico. Usualmente, a hemorragia inicia- se na superfície dos giros, que é onde ocorre o maior atrito entre o cérebro e as estruturas rígidas do crânio; o Os mecanismos de formação das contusões podem ser decorrentes da agressão direta do parênquima, como no caso das fraturas com afundamento craniano, ou pelo movimento do encéfalo dentro da caixa craniana, que pode levar ao esmagamento do parênquima contra a base do crânio ou outras estruturas rígidas. Quando ocorre a ruptura da pia- máter, a contusão passa a ser chamada de laceração; o Os locais mais comuns das contusões nos traumatismos fechados são a base do lobo frontal, a ponta do lobo temporal e a região ao longo da foice. III) MECANISMOS DE LESÃO CEREBRAL APÓS O TCE o As lesões secundárias são decorrentes de processos que contribuem para morte celular após o trauma inicial. Seus principais elementos são a hipóxia, distúrbios metabólicos, distúrbios hidroeletrolíticos e hipertensão intracraniana; o Fatores associados ao TCE como obstrução de vias aéreas, traumatismo pulmonar, choque e hipovolemia podem contribuir para a diminuição de oferta de oxigênio ao tecido cerebral. Associado ainda, distúrbios da microcirculação que comprometem a troca gasosa entre as hemácias e o tecido podem ocorrer por perda da autorregulação vascular ou processos inflamatórios; 6 Trio Help Med – Virgínia Pereira o A diminuição do aporte de energia força a célula a utilizar vias anaeróbias, que, por sua vez, aumentam a concentração de radicais livres e glutamato, amplificando a destruição celular intracraniana. Tanto a hipoglicemia, que priva a célula de nutrientes como a hiperglicemia, que causa acidose tecidual, podem contribuir para o dano cerebral; o Em situações fisiológicas, o organismo mantém um FSC constante, entre 40 e 60ml por 100g por minuto, dentro de uma variação da pressão arterial média (PAM) entre 60 e 150 mmHg; o Para manter essa perfusão constante, os vasos intracranianos contraem e dilatam de acordo com a necessidade; o Quando a PAM fica abaixo dos limites citados acima, pode haver hipoperfusão tecidual. Por outro lado, quando a PAM ultrapassa esses limites existe risco de dano cerebrovascular, com lesão da musculatura lisa vascular e perda da barreira hematoencefálica. O FSC passa, então, a variar livremente de acordo com a PAM; o No TCE, o FSC deve ser avaliado pela pressão de perfusão cerebral (PPC), que é calculada pela PAM menos a pressão intracraniana (PIC). Como o cérebro é confinado em uma caixa óssea rígida e a PPC é dependente da PIC, o controle da hipertensão intracraniana (HIC) assume papel de máxima importância no TCE; o A elastância é definida a partir do aumento da PIC (pressão intracraniana) por unidade de volume acrescentado ao compartimento intracraniano, e a complacência é o inverso da elastância e definida a partir do volume necessário para elevar uma unidade de PIC, medida pela comparação entre os diferentes volumes necessários em diversas situações para elevar a PIC em uma unidade. Define-se, pois, uma fase de baixa elastância e alta complacência enquanto houver deslocamentos de volumes intracranianos, e uma fase de alta elastância e baixa complacência quando se esgotam tais reservas - curva de Langfitt de pressão x volume intracraniano; o No TCE, a presença de elementos como hematomas, contusões, edema, acúmulo de LCR ou aumento do volume intravascular, que superam a capacidade de acomodação intracraniana, elevam a PIC; o O valor normal de PIC em adultos é cerca de 15 mmHg. Em posição deitada, os valores de pressão intraventricular e lombar são iguais. Na posição ereta, a pressão lombar pode atingir valores de 20 a 30 mmHg, a depender da altura do paciente. o Qualquer tipo de TCE pode produzir edema nos tecidos lesados e diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro; o O fluxo cerebral sanguíneo é proporcional à pressão de perfusão cerebral (PPC), que consiste na diferença entre pressão arterial média (PAM) e pressão intracraniana média. Dessa maneira, como a pressão intracraniana aumenta (ou a PAM diminui), a PPC diminui. Quando ela cai abaixo de 50 mmHg, o tecido cerebral pode tornar-se isquêmico; o Isquemia e edema podem desencadear vários mecanismos secundários da lesão (p. ex., liberação de neurotransmissores excitatórios, cálcio intracelular, radicais livres e citocinas), causando dano celular adicional, mais edema e aumento adicional da pressão intracraniana. Complicações sistêmicas advindas de trauma (p. ex., hipotensão, hipóxia) também podem contribuir para isquemia cerebral, sendo chamadas com frequência de lesões cerebrais secundárias; o Inicialmente, pressão intracraniana excessiva causa disfunção do globo cerebral. Se não for aliviada, pressão intracraniana excessiva pode impelir o tecido cerebral ao longo do tentório ou ao longo do forame magno, causando herniação e aumentando significantemente o risco de morbidade e mortalidade. Se a pressão intracraniana aumenta e iguala à PAM, a PPC torna-se zero, o que resulta em isquemia cerebral completa e morte cerebral; ausência de fluxo sanguíneo craniano pode ser utilizada como critério para morte cerebral. SINAIS E SINTOMAS: o Inicialmente, a maioria dos pacientes com TCE moderada ou grave perde a consciência (normalmente por segundos ou minutos), embora alguns pacientes apresentem lesões menores, alguns façam apenas confusões ou tenham amnésia (a amnésia é normalmente retrógrada e causa perda de memória de segundos a algumas horas antes da lesão); o Crianças jovens podem simplesmente tornar-se irritáveis; o Alguns pacientes apresentam convulsão, normalmente na primeira hora ou dia; o Após esses sintomas iniciais, os pacientes devem estar totalmente acordados e alertas ou a consciência e a função podem ser alteradas em https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos/coma-e-consci%C3%AAncia-prejudicada/hernia%C3%A7%C3%A3o-cerebral https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos/coma-e-consci%C3%AAncia-prejudicada/morte-cerebral 7 Trio Help Med – Virgínia Pereira algum grau, variando de confusão leve a estupor e coma; o A duração da falta de consciência e da gravidade do estupor são aproximadamente proporcionais à gravidade da lesão, porém não são específicas; o Por convenção, a gravidade da lesão cerebral é inicialmente definida pela Escala de Coma de Glasgow : • Pontuação GCS de 14 a 15 consiste em TCE leve • Pontuação GCS de 9 a 13 consiste em TCE moderada • Pontuação GCS de 3 a 8 consiste em TCE grave o A predição da gravidade do TCE e do prognóstico pode ser refinada considerando-se também achados em TC e outros fatores. SINTOMAS DOS TIPOS ESPECÍFICOS DE TRAUMATISMO CRÂNIOENCEFÁLICO: o Os sintomas de hematoma epidural normalmente se desenvolvem dentro de minutos ou de muitas horas após a lesão (o período sem sintomas é chamado intervalo de lucidez) e consistem • Cefaleia aumentando de intensidade • Diminuição do nível de consciência • Déficits neurológicos focais (p. ex., hemiparesia) o Dilatação pupilar com perda da reatividade à luz geralmente indica herniação. Alguns pacientes com hematoma epidural perdem a consciência, entãotêm um intervalo de lucidez transiente e, em seguida, deterioração neurológica gradual. o Hematomas subdurais costumam causar perda imediata da consciência. o Hematomas intracerebrais e hematomas subdurais podem causar deficits neurológicos focais como hemiparesia, diminuição progressiva da consciência ou ambos. o O aumento da pressão intracraniana algumas vezes provoca vômitos, mas os vômitos são inespecíficos. Classicamente, a pressão intracraniana muito elevada se manifesta como uma combinação dos seguintes (chamada tríade de Cushing): • Hipertensão (em geral, com aumento da pressão de pulso) • Bradicardia • Depressão respiratória o Em geral, respiração e pulsação são lentas e irregulares. Lesão cerebral difusa grave ou pressão intracraniana marcadamente aumentada podem produzir postura descorticada ou descerebrada. Ambas apresentam mau sinal de prognóstico; o Herniação transtentorial pode resultar em coma, pupilas uni ou bilateralmente dilatadas sem reações, hemiplegia (normalmente no lado oposto à pupila unilateralmente dilatada) e tríade de Cushing. o Fratura da base do crânio pode resultar em: • Extravasamento do líquor pelo nariz (rinorreia liquórica) ou orelhas (otorreia liquórica) • Sangue atrás da membrana timpânica (hemotímpano) ou da orelha externa se a membrana timpânica foi rompida. • Equimose atrás da orelha (sinal de Battle) ou na área periorbital (olhos de guaxinim) • Perda de olfato e audição, geralmente imediata, embora só possam ser percebidas depois de o paciente recuperar a consciência. o Hematomas subdurais crônicos podem se manifestar com aumento da cefaleia diária, tontura flutuante ou confusão (que podem mimetizar demência precoce) e hemiparesia leve a moderada, outros deficits neurológicos focais e/ou convulsões. SINTOMAS A LONGO PRAZO o A amnésia pode persistir e pode ser tanto retrógrada quanto anterógrada (para eventos posteriores à lesão). o Síndrome pós-concussão, que é comum após concussão modera a grave, inclui cefaleia persistente, tontura, fadiga, dificuldade de concentração, amnésia variável, depressão, apatia e ansiedade. Normalmente, o olfato (e, às vezes, o paladar), algumas vezes a audição ou raramente a visão são alterados ou perdidos. Os sintomas normalmente se resolvem de forma espontânea após semanas ou meses. o Uma amplitude de deficits cognitivos e neuropsiquiátricos pode persistir após TCE grave, moderado e até mesmo leve, especialmente se a lesão estrutural tiver sido significante. Os problemas comuns são https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos/coma-e-consci%C3%AAncia-prejudicada/vis%C3%A3o-geral-de-coma-e-consci%C3%AAncia-prejudicada https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos/coma-e-consci%C3%AAncia-prejudicada/hernia%C3%A7%C3%A3o-cerebral 8 Trio Help Med – Virgínia Pereira • Amnésia • Mudanças comportamentais (p. ex., agitação, impulsividade, desinibição, falta de motivação) • Labilidade emocional • Distúrbios do sono • Diminuição da função intelectual DIAGNÓSTICO: o A avaliação de casos de TCE leve deve envolver história, exame físico e observação clínica seriada de hora em hora, observando-se sinais vitais, reação pupilar, escala de coma de Glasgow (ECG), nível de consciência e amnésia pós-traumática; o A tomografia computadorizada (TC) de crânio sem contraste objetiva identificar lesões intracranianas e deve ser realizada se for indicada de acordo com fatores de risco ou se a avaliação seriada alterar a impressão diagnóstica – de um TCE leve para um TCE com risco de lesão intracraniana; o Radiografia de crânio não é suficientemente sensível para ser usada como rastreamento de lesões intracranianas (grau de evidência A). o Se o paciente for considerado de baixo risco, ele deve ser observado por no mínimo quatro horas após o evento traumático. Outros fatores envolvidos no quadro do paciente devem ser avaliados individualmente para requisição de exame de imagem, tais como mecanismo de trauma perigoso, hematoma grande em escalpo ou laceração; o Se o serviço de Tomografia Computadorizada não estiver disponível, a decisão clínica sobre a necessidade de transferência para outros serviço em que a TC seja disponível deve ser feita nos critérios constados na tabela 1 e no estado clínico do paciente; o Pacientes com TCE leve geralmente melhoram dos sintomas iniciais dentro de 2 a 4 horas do trauma. Essa decisão de transferência deve ser tomada no máximo em 4 horas após o trauma. o A TC é auxiliar no diagnóstico e nem sempre está indicada, e a base da terapia consiste em estabilizar o paciente e prevenir lesões cerebrais secundárias. • Avaliação geral e rápida do trauma • Escala de Coma Modificada de Glasgow e exame neurológico • TC MEDIDAS INICIAIS o Uma avaliação geral inicial das lesões deve ser feita; o Avaliam-se a adequação das vias respiratórias e da respiração. Diagnóstico e tratamento do TCE ocorrem simultaneamente em pacientes seriamente lesados. o Avaliação neurológica rápida focada também é parte da avaliação inicial; inclui a avaliação dos componentes da GCS e resposta oculomotora; o Os pacientes são preferencialmente avaliados antes de serem medicados com paralisantes e opioides. Os pacientes são reavaliados em intervalos frequentes (p. ex., a cada 15 a 30 minutos inicialmente e, então, a cada 1 h após a estabilização). Melhora ou piora subsequente ajuda a estimar gravidade e prognóstico da lesão. AVALIAÇÃO NEUROLÓGICA COMPLETA o É feito assim que o paciente estiver suficientemente estável; o Lactentes e crianças devem ser examinados cuidadosamente para hemorragias retinais, as quais podem indicar síndrome do lactente sacudido; o O exame fundoscópico em adultos pode revelar descolamento traumático de retina e ausência de pulso venoso na retina devido a pressão intracraniana elevada, mas o exame pode estar normal apesar da lesão cerebral; o A concussão é diagnosticada quando a perda de consciência ou de memória dura < 6 h e os sintomas não são explicados pela lesão cerebral identificada nos exames de neuroimagem; o Suspeita-se da LAD (lesão axonial difusa) quando a perda de consciência excede 6 h e quando micro- hemorragias são detectadas na TC; o O diagnóstico de outros tipos de TCE é feito através de TC ou RM. NEUROIMAGEM https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos/exame-neurol%C3%B3gico/introdu%C3%A7%C3%A3o-ao-exame-neurol%C3%B3gico 9 Trio Help Med – Virgínia Pereira o A imagem deve ser sempre feita em pacientes com deficiência de consciência, GCS < 15, descobertas neurológicas focais, vômito persistente, história de perda de consciência, convulsões ou fraturas clinicamente suspeitas; o Muitos médicos fazem TC para todos os pacientes com mais de uma lesão cerebral trivial, pois as consequências clínicas e médico-legais de um hematoma despercebido são graves, mas os médicos devem ponderar essa abordagem com o possível risco dos efeitos adversos relacionados à radiação da TC em pacientes mais jovens; o Embora a radiografia possa detectar algumas fraturas cranianas, ela não pode ajudar a avaliar o cérebro e pode atrasar exames de imagem mais definitivos; dessa forma, é raramente utilizada; o A TC é a melhor escolha para imagem inicial, pois detecta hematomas, contusões, fraturas cranianas (cortes finos são obtidos para revelar clinicamente fraturas cranianas basilares suspeitas, as quais, do contrário, não poderiam ser visíveis) e, algumas vezes, LAD; o A TC pode mostrar: • Contusões e sangramento agudo aparecem opacos (densos) em comparação com o tecido cerebral. • Hematomas epidurais arteriais classicamente aparecem como opacidades em formato lenticular acima do tecido cerebral,frequentemente no território da artéria meníngea média. • Hematomas subdurais classicamente aparecem como opacidades em formato de lua crescente que se sobrepõem ao tecido cerebral. • Hematoma subdural crônico aparece hipodenso comparado ao tecido cerebral, enquanto um hematoma subdural subagudo pode ter radiopacidade similar à do tecido cerebral (isodenso). • Hematoma subdural isodenso, particularmente se bilateral e simétrico, pode aparecer somente sutilmente anormal. Em pacientes com anemia grave, um hematoma subdural agudo pode aparecer isodenso com tecido cerebral. Os achados podem ser diferentes dessas aparências clássicas entre diferentes pacientes. • Sinais de efeito de massa incluem apagamento dos sulcos, compressão do ventrículo e cisterna, bem como desvio da linha média. Ausência desses achados não exclui pressão intracraniana aumentada e efeito de massa pode estar presente com pressão intracraniana normal. • Um desvio de > 5 mm da linha média é, geralmente, considerado uma indicação para abordagem cirúrgica do hematoma. o RM pode ser útil mais tarde no curso clínico para detectar contusões mais sutis, LAD e lesão do tronco cerebral. RM normalmente é mais sensível que TC para o diagnóstico de hematomas agudos muito pequenos, subagudos subdurais e isodensos crônicos. Evidência preliminar e não confirmada sugere que certos achados da RM podem antecipar o prognóstico; o Angiografia, angiotomografia, e angiografia por ressonância magnética todas ajudam na avaliação da lesão vascular. Por exemplo, suspeitar lesão vascular quando os achados tomográficos forem incompatíveis com os achados ao exame físico (p. ex., hemiparesia com TC normal ou não diagnóstica por causa da suspeita de isquemia secundária em evolução a trombose vascular ou embolia decorrente de dissecção da artéria carótida). PROGNÓSTICO: o A vasta maioria de pacientes com TCE leve apresenta boa função neurológica. Com TCE moderado a grave, o prognóstico não é bom, porém é muito melhor do que normalmente se acredita. A escala utilizada com mais frequência para avaliar o resultado em pacientes com TCE é a Escala de Resultado de Glasgow. Nessa escala, os possíveis resultados são • Boa recuperação (retorno ao nível anterior da função) • Deficiência moderada (paciente capaz de se autocuidar) • Deficiência grave (paciente incapaz de se autocuidar) • Vegetativa (definida pelo paciente sem função cognitiva) • Morte • Outros sistemas de classificação prognóstica, como o sistema de classificação de Marshall e a pontuação 10 Trio Help Med – Virgínia Pereira da TC de Rotterdam, mais recente, também podem ser usados para estimar a sobrevida em longo prazo. CONDUTA: TRAUMA LEVE (ECG 13-15) o A conduta consiste em avaliação precoce seguida por período de observação clínica para detectar fatores de risco para lesão intracraniana significativa; o A TC não está indicada rotineiramente, a menos que haja um ou mais fatores de risco apresentados na tabela acima; o Após 4h de observação com melhora clínica, com ausência de fatores de risco que indiquem TC ou após TC normal, se realizada, é permitida a alta hospitalar, porém com orientação para retorno imediato à emergência se cefaleia, déficit neurológico e declínio do estado mental; o A admissão hospitalar é considerada se TC anormal ou se não houver melhora clínica 4h após lesão, independente do resultado da TC. Além disso, deve-se ter especial atenção com pacientes idosos, portadores de coagulopatia conhecida ou vulneráveis socialmente. TRAUMA MODERADO (ECG 9-12) E GRAVE (ECG 3-8) o No manejo do trauma moderado/grave deve-se estabilizar paciente do ponto de vista cardiopulmonar e realizar avaliação neurológica; o É mandatória a realização de TC, hospitalização e uma avaliação do neurocirurgião; o O aspecto mais importante do tratamento é ressuscitação sistemática com ABCDE do trauma e prevenir lesão cerebral secundária; o A Ressuscitação com ABCDE e oxigenação adequada, além de fluidoterapia e tratamento de lesões ameaçadoras da vida devem ser a prioridade nesses pacientes, e após, realizar TC para identificar lesões intracranianas focais que requerem intervenção neurocirurgica urgente; o É de suma importância a intubação precoce (trauma grave) para prevenir hipoxemia; o A hiperventilação deve ser evitada nesses pacientes que devem ser ventilados para manter a normocarbia; o Está recomendada ressuscitação com cristaloides, hemoderivados e vasopressores, se necessário, para manter normovolemia e PAM; o Anticonvulsivantes são recomendados para evitar convulsões pós-traumáticas precoces, principalmente se houver alteração em TC ou história prévia de convulsão; o Atentar para possibilidade de hipertensão intracraniana (pressão intracerebral > 20mmHg por mais de 5 minutos) que deve ser manejada com urgência através de drenagem liquórica seguida de bloqueio neuromuscular e sedação se permanecer elevada, controlando a ventilação; o Caso não haja melhora está indicado manitol 1g/Kg a cada 4-6h e por fim hiperventilação em curto prazo para que paciente seja avaliado para descompressão neurocirúrgica. o Avaliação inicial História clínica, exame físico geral e avaliação neurológica fornecem informações básicas para estratificação de risco de um paciente ter ou desenvolver lesão neurológica; o A avaliação do paciente com trauma craniano deve enfatizar a procura de lesões secundárias ao trauma, ou seja, aquelas que decorrem após um período de tempo de ocorrido o trauma craniano; o As lesões secundárias estão altamente associadas, quando não diagnosticadas e tratadas inicialmente, a altos níveis de morbidade e mortalidade; o O primeiro passo é a obtenção e manutenção das vias aéreas pérvias, por meio das manobras de desobstrução das vias aéreas: • Tração do mento; • Elevação da mandíbula; • Cânula orofaríngea (Guedel); • Aspiração; • Via aérea definitiva (intubação orotraqueal ou cricotireidostomia); • Proteção da coluna cervical. o Avaliar a respiração e a ventilação através da ausculta pulmonar, avaliando a necessidade de se realizar procedimentos como a drenagem do tórax (hemotórax ou pneumotórax e pneumotórax hipertensivo); 11 Trio Help Med – Virgínia Pereira o Devem-se tentar normalizar os parâmetros hemodinâmicos do pacientes por meio da infusão de solução cristaloide, sangue ou mesmo fármacos vasopressores, em casos específicos, e realizar a retirada de amostra de sangue para realização de exames laboratoriais de emergência como tipo sanguíneo, hemoglobina e hematócrito em todos os pacientes e teste de gravidez em mulheres; TRATAMENTO: o Para lesões leves, alta hospitalar e observação domiciliar; o Para lesões moderadas e graves, otimização da ventilação, oxigenação e perfusão cerebral: tratamento de complicações (p. ex., pressão intracraniana aumentada, convulsões, hematomas) e reabilitação; o As lesões não cranianas múltiplas, que vêm, provavelmente, de acidentes de automóveis e quedas, requerem, com frequência, tratamento simultâneo; o No local da lesão, deve-se assegurar uma passagem desobstruída de ar e o sangramento externo deve ser controlado antes de o paciente ser movido; o Um cuidado particular é tomado para evitar deslocamento da coluna ou de outros ossos para proteger a medula espinal e os vasos sanguíneos; o A imobilização correta deve ser mantida com um colar cervical e um colete ao longo da coluna até que a estabilidade de toda coluna tenha sido obtida por exame e imagem apropriados; o Após a avaliação neurológica rápida inicial, a dor deve ser aliviada com pequena ação de opioide (p. ex., fentanila); o No hospital, após rápida avaliação, os achados neurológicos (GCS e reação pupilar),pressão arterial, pulso e temperatura devem ser registrados frequentemente por várias horas, pois qualquer piora demanda atenção imediata. GCS serial e resultados da TC estratificam a gravidade da lesão, o que ajuda a guiar o tratamento; o A base do tratamento para todos os pacientes com TCE é • Manutenção de ventilação adequada, oxigenação e perfusão cerebral para evitar lesão cerebral secundária. o O monitoramento precoce agressivo de hipóxia, hipercapnia, hipotensão e aumento da pressão intracraniana ajudam a evitar complicações secundárias; o Os sangramentos provenientes das lesões (internas e externas) são rapidamente controladas e o volume intravascular é prontamente substituído por 12 Trio Help Med – Virgínia Pereira cristaloide (p. ex., soro fisiológico a 0,9%) ou, às vezes, transfusão sanguínea para manter a perfusão cerebral. Líquidos hipotônicos (especialmente soro glicosado a 5%) são contraindicados, pois contêm excesso de água livre, que pode aumentar o edema e pressão intracraniana; o Outras complicações a serem checadas e prevenidas incluem: hipertermia, hiponatremia, hiperglicemia e desequilíbrio de líquido. LESÃO LEVE o Pacientes com lesão leve não têm perda da consciência, que é breve, e os sinais vitais estão estáveis, TC cerebral normal e as funções mental e neurológica normais (incluindo resolução de qualquer intoxicação), eles podem ter alta e serem observados por familiares ou amigos em casa por 24 h adicionais; o Esses observadores são instruídos a retornar com os pacientes ao hospital se qualquer dos seguintes sintomas se desenvolverem: • Diminuição do nível de consciência • Déficits neurológicos focais • Agravamento da cefaleia • Vômitos • Deterioração da função mental (p. ex., parece confuso, não reconhece as pessoas, comporta-se de forma incomum) • Convulsões LESÃO MODERADA E GRAVE o Pacientes com lesão moderada normalmente não requerem entubação e ventilação mecânica (a menos que haja outras lesões) ou monitoramento da pressão intracraniana. No entanto, como a piora é possível, esses pacientes devem ser internados e observados mesmo se a TC for normal; o Pacientes com lesão grave são internados na unidade de terapia intensiva. Como os reflexos protetores da passagem do ar estão normalmente deficientes e a pressão intracraniana está aumentada, eles são entubados endotraquealmente enquanto medidas são tomadas para evitar aumento da pressão intracraniana; o Recomenda-se basear o tratamento dos pacientes com TCE grave em informações de monitoramento da pressão intracraniana para reduzir a mortalidade intra-hospitalar e 2 semanas após a lesão (1, 2); no entanto, algumas evidências sugerem que o tratamento apenas com uma combinação de avaliações clínicas e radiográficas resulta em achados equivalentes; o O monitoramento da PPC também tem sido recomendado como parte do tratamento porque evidências sugerem que pode ajudar a diminuir a mortalidade em 2 semanas após a lesão; o No entanto, o monitoramento atento usando GCS e resposta pupilar deve ser mantido, e repete-se a TC, particularmente se há aumento inexplicável da pressão intracraniana. AUMENTO DA PRESSÃO INTRACRANIANA o O tratamento para pacientes pressão intracraniana aumentada inclui • Entubação orotraqueal de sequência rápida • Ventilação mecânica • Monitoramento de pressão intracraniana e PPC • Sedação como necessário • Manutenção da euvolemia e osmolalidade sérica de 295 a 320 mOsm/kg • Para pressão intracraniana intratável aumentada, possivelmente drenagem do líquor, hiperventilação temporária, craniotomia descompressiva ou coma induzido por pentobarbital o Fármacos são usados para minimizar o aumento da pressão intracraniana quando a passagem de ar é controlada — p. ex., lidocaína, 1.5 mg/kg IV 1 a 2 minutos antes de fornecer o paralisante. Etomidato é uma boa escolha para indução do agente devido aos seus mínimos efeitos na pressão arterial; a dose IV em adultos é de 0,3 mg/kg (ou 20 mg para adulto de tamanho mediano) e, em crianças, é de 0,2 a 0,3 mg/kg. Uma alternativa, se a hipotensão estiver ausente ou for improvável, é propofol, 0,2 a 1,5 mg/kg, IV. Tipicamente, succinilcolina 1,5 mg/kg IV é utilizada como paralisante; o Deve-se avaliar a adequação da oxigenação e da ventilação usando oximetria de pulso e gasometria https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/les%C3%B5es-intoxica%C3%A7%C3%A3o/trauma-cranioencef%C3%A1lico-tce/trauma-cranioencef%C3%A1lico-tce#v36939649_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/les%C3%B5es-intoxica%C3%A7%C3%A3o/trauma-cranioencef%C3%A1lico-tce/trauma-cranioencef%C3%A1lico-tce#v36939649_pt 13 Trio Help Med – Virgínia Pereira arterial (se possível, CO2 expirado). A meta é um nível normal de pressão artéria lparcial de dióxido de carbono (Paco2) (38 a 42 mmHg); o A hiperventilação profilática (PaCO2 de 25 a 35 mmHg) não é mais recomendada; o A Paco2 mais baixa reduz a pressão intracraniana, causando vasoconstrição cerebral, além de diminuir a perfusão cerebral e, dessa maneira, potencializar a isquemia. Portanto, usa-se hiperventilação (alvo Paco2 de 30 a 35 mmHg) somente nas primeiras horas e apenas se a pressão intracraniana não responder a outras medidas; o Monitoramento e controle da CPP e da pressão intracraniana, quando usados, são recomendados para os pacientes com TCE grave que não conseguem obedecer comandos simples, especialmente aqueles com alterações pela TC de crânio. A meta é manter pressão intracraniana < 20 mmHg e PPC o mais próximo de 60 mmHg; o A drenagem venosa cerebral pode ser aumentada (diminuindo assim a pressão intracraniana) pela elevação da cabeceira do leito a 30° e manter a cabeça do paciente na posição mediana. Se houver cateter ventricular, a drenagem do líquor pode abaixar a pressão intracraniana; o O controle adequado da dor muitas vezes exige o uso de opioides; o Manter a euvolemia e osmolalidade sérica normal (isosmolar ou levemente hiperosmolar; osmolalidade sérica alvo de 295 a 320 mOsm/kg) é importante; o Para controlar a pressão intracraniana, estudos recentes descobriram que o soro fisiológico hipertônica (geralmente de 2% a 3%) é um agente osmótico mais eficaz do que o manitol. É administrado de uma só vez na dose de 2 a 3 mL/kg IV conforme necessário, ou em infusão contínua de 1 mL/kg/h. O nível sérico de sódio é monitorado e mantido ≤ 155 mEq/L; o Os diuréticos osmóticos (p. ex., manitol) administrados por via IV constituem uma alternativa para baixar a pressão intracraniana e manter a osmolalidade; o No entanto, devem ser reservados para pacientes nos quais a condição piora ou utilizados pré- operatoriamente em pacientes com hematomas; o Pode-se considerar craniotomia ou craniectomia descompressiva quando o aumento da pressão intracraniana for refratário a outras intervenções. Para a craniotomia, remove-se um retalho de 12 x 15 cm do osso (para ser reposto mais tarde), e a duraplastia é feita para permitir o extravasamento do edema cerebral para fora; o Coma pentobarbital é atualmente uma opção intricada e menos popular para pressão intracraniana aumentada intratável. O coma é induzido pela ingestão de pentobarbital, 10 mg/kg, IV por mais de 30 minutos, 5 mg/kg/h, em 3 doses e, então, 1 mg/kg/h, infusão de manutenção. A dose pode ser ajustada para suprimir as salvas de atividade do EEG, que é monitorado continuamente. A hipotensão é comum e monitorada por aplicação de líquidos e vasopressores, se necessário; o Altas doses de corticosteroides têm sido recomendadas para diminuir o edema cerebral e pressão intracraniana. Mas corticosteroides não são úteis para controlar a pressão intracraniana e não são recomendados. Em um grande estudo randomizado, controlado por placebo,a administração de corticosteroides em até 8 h após o TCE aumentou a mortalidade e incapacidade grave entre os que sobreviveram (6). CONVULSÕES o Convulsões podem piorar a lesão cerebral e aumentar a pressão intracraniana e, portanto, devem ser tratadas imediatamente; o Em pacientes com lesão estrutural significante (p. ex., grandes contusões ou hematomas, laceração cerebral, fratura craniana deprimida) ou GCS < 10, deve ser considerada a utilização de anticonvulsivo profilático; o A duração do tratamento depende do tipo de lesão e dos resultados do EEG. Se as convulsões não se desenvolverem dentro de 1 semana, os anticonvulsivos devem ser suspensos, pois seu valor https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/medicina-de-cuidados-cr%C3%ADticos/abordagem-ao-paciente-criticamente-enfermo/monitoramento-e-exames-para-paciente-de-cuidados-cr%C3%ADticos#v924677_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/les%C3%B5es-intoxica%C3%A7%C3%A3o/trauma-cranioencef%C3%A1lico-tce/trauma-cranioencef%C3%A1lico-tce#v36939649_pt 14 Trio Help Med – Virgínia Pereira para prevenção de convulsões futuras não está estabelecido. FRATURAS CRANIANAS o Fraturas fechadas alinhadas não requerem tratamento específico; o Fraturas depressíveis requerem, às vezes, cirurgia para, elevar os fragmentos, monitorar os vasos corticais lacerados, reparar a dura-máter e debridar o cérebro lesado; o Fraturas abertas podem exigir desbridamento cirúrgico a menos que não haja nenhum extravasamento do líquor e a fratura não esteja rebaixada mais do que a espessura do crânio. CIRURGIA o Os hematomas intracranianos podem requerer drenagem cirúrgica para prevenir ou tratar a mudança, compressão e herniação; portanto, consulta precoce com especialista em neurocirurgia é obrigatória; o No entanto, muitos hematomas não necessitam de remoção cirúrgica. Hematomas intracerebrais pequenos raramente requerem cirurgia. Os pacientes com hematomas subdurais pequenos podem, com frequência, ser tratados sem cirurgia; o Os fatores que sugerem necessidade de cirurgia incluem desvio da linha mediana do cérebro de > 5 mm, compressão das cisternas basais e piora nos achados do exame neurológico; o Hematomas subdurais crônicos podem necessitar de drenagem cerebral, porém com muito menos urgência que os hematomas subdurais agudos. Hematomas epidurais grandes ou arteriais são tratados cirurgicamente, porém hematomas epidurais venosos pequenos podem ser acompanhados por TC em série. OUTROS PROBLEMAS CRUCIAIS DO TRATAMENTO DO TCE o Anemia e trombocitopenia são problemas comuns nos pacientes que tiveram TCE. No entanto, as hemotransfusões podem resultar significativamente em mais complicações e maior mortalidade; assim, o limiar de transfusão entre os pacientes com TCE deve ser alto — o mesmo que para outros pacientes em tratamento intensivo; o A hiperglicemia prediz o maior risco de aumento da pressão intracraniana, do comprometimento do metabolismo cerebral, de ITU e de bacteremia; assim, foi tentado o controle glicêmico rigoroso nos pacientes com TCE. No entanto, em um estudo controlado randomizado comparando os esquemas intensivos (para manter a glicose entre 80 e 120 mg/dL) aos esquemas tradicionais (para manter a glicose < 220 mg/dL), a pontuação pela escala de coma de Glasgow foi a mesma em 6 meses, porém a incidência de hipoglicemia foi maior com o tratamento intensivo; o Os bloqueadores do canal de cálcio têm sido utilizados na tentativa de prevenir o vasoespasmo cerebral após o TCE, a fim de manter o fluxo sanguíneo cerebral e, deste modo, prevenir danos adicionais. Entretanto, uma revisão dos ensaios clínicos randomizados com bloqueadores do canal de cálcio para pacientes com TCE e hemorragia subaracnóidea traumática concluiu que sua eficácia permanece incerta. REABILITAÇÃO o Quando deficits neurológicos persistem, a reabilitação é necessária; o Para a reabilitação pós-lesão cerebral, a melhor opção é uma abordagem em equipe, combinando fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia, atividades de construção de habilidades e aconselhamento para atender as necessidades sociais e emocionais do paciente. Grupos de apoio para lesão cerebral podem fornecer assistência às famílias de pacientes com lesão cerebral; o Para pacientes em que o coma excede 24 h, 50% deles apresentam sequelas neurológicas graves persistentes, um período prolongado de reabilitação, especialmente em áreas cognitivas e emocionais, é normalmente necessário. Os serviços de reabilitação devem ser planejados precocemente. https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/t%C3%B3picos-especiais/reabilita%C3%A7%C3%A3o/reabilita%C3%A7%C3%A3o-para-outras-defici%C3%AAncias#v1129610_pt 15 Trio Help Med – Virgínia Pereira REFERÊNCIAS: GERHARDT, Samanta et al. Trauma cranioencefálico. Acta méd.(Porto Alegre), p. [5]-[5], 2016. ANDRADE, Almir Ferreira de et al. Mecanismos de lesão cerebral no traumatismo cranioencefálico. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 55, n. 1, p. 75-81, 2009. DE ALMEIDA GENTILE, João Kleber et al. Condutas no paciente com trauma crânioencefálico. Rev Bras Clin Med. São Paulo, v. 9, n. 1, p. 74-82, 2011.