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Wilian Chaves - FICHAMENTO - Santiago castro-Gomez - Hybris del punto cero

Fichamento sobre Decolonizar la universidad (Castro-Gómez): teoria decolonial aplicada à universidade latino‑americana; discute herança colonial nas práticas acadêmicas, as colonialidades do ser/poder/saber, o conceito 'hybris do ponto zero' e dois modelos de universidade (técnico-científico e moral).

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Universidade Federal de Pelotas - Faculdade de Direito
Metodologia da Pesquisa Jurídica
Profa. Márcia Bertoldi
Aluno Wilian Peres Chaves
FICHAMENTO
CASTRO-GÓMEZ, S. Decolonizar la universidad. La hybris del punto cero y el
diálogo de saberes. In: CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. Reflexiones para
una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. [s.l.] Bogotá: Siglo del
hombre editores, 2007. 
1 Objeto
Teoria decolonial aplicada à Universidade latino-americana. Discutir a herança
colonial embutida nos paradigmas trabalhados nas universidades latinas e como tal
herança se expressa desde a formação oferecida até os tipos de investigação, os textos
trabalhados e os regimes de avaliação dentro dessas universidades. Conceito de “hybris
do ponto zero” e proposta para sua superação. 
2 Principais conceitos e ideias do autor
O que significa decolonizar a universidade, na América Latina? 
A resposta passa por deixar claro como a universidade reproduz
sistematicamente tal visão de mundo, que o Castro Gomez identifica como um modelo
epistêmico que ele denomina “HYBRIS DO PONTO ZERO” e que segundo ele é
reproduzido tanto no TIPO DE PENSAMENTO DISCIPLINAR que encarna, como na
ORGANIZAÇÃO ARBÓREA de suas estruturas. Dentro deste pensamento, a
universidade estaria inscrita na chamada estrutura triangular da colonialidade: as
colonialidades do ser, do poder e do saber.
De que forma esse tipo de saber se legitima e se institucionaliza dentro da
universidade? Castro-Gomez traz, pra entendermos isso, dois grandes meta-relatos, duas
grandes imagens, duas grandes missões (atribuídas a Jean-François Lyotard) que
cumpriram este papel e que se traduzem em dois grandes modelos de universidade e
dois tipos de conhecimento.
O primeiro é o da educação do povo: todos os povos e nações tem direito às
benesses da ciência e da consequente melhora de suas condições materiais; cabe à
universidade prover o povo de conhecimentos técnico-científicos que impulsionem este
progresso.
O segundo é o progresso moral da humanidade: não se trata somente do
progresso material de um povo específico, mas da moral da humanidade. Aqui a
universidade não é tecnicista, mas sim tem a função de formar sujeitos capazes de
educar moralmente o resto da humanidade.
À parte as diferenças, esses dois modelos tem o quê em comum?
O primeiro é a ESTRUTURA ARBÓREA do conhecimento: conhecimento
hierarquizado e especializado, com fronteiras epistemológicas que marcam claramente a
diferença entre um e outro campo do saber.
O segundo ponto em comum é o reconhecimento da universidade como o
LUGAR PRIVILEGIADO DA PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO. É o
academicismo pelo qual a universidade não só produz como se torna o NÚCLEO
VIGILANTE, FISCALIZADOR da legitimidade desse saber, como único ator apto a
atestar a validade e utilidade de um saber.
Esses dois pontos em comum reproduzem um modelo epistemológico que o
autor denomina “hybris do ponto zero”.
Em que consiste a “hybris do ponto zero”? CastroGomez começa estabelecendo
um ponto de ruptura colocado nas invasões europeias: antes delas, predominava aqui
uma visão orgânica de mundo. Natureza, homem e conhecimento como um todo inter-
relacionado. A partir da formação do sistema-mundo capitalista e da expansão colonial
europeia começa a se impor a ideia da separação ontológica entre o homem e a natureza,
sendo o conhecimento uma ferramenta de controle racional sobre o mundo.
A “hybris do ponto zero” seria então esse modelo de pensamento que a gente
automaticamente associa com o cartesianismo: distância entre o sujeito e o objeto, a
questão dos sentidos consistirem um obstáculo epistemológico entre o sujeito e o
conhecimento, tudo isso condensado em uma estruturação matemática do pensamento,
fundada na ideia de fragmentação da realidade prévia ao seu estudo. O universo e as
pessoas são máquinas que podem ser explicadas pela disposição lógica de suas partes,
por sua constituição. Uma pessoa doente e um relógio defeituoso diferem apenas em
magnitude e complexidade.
O ponto zero seria uma localização fora do mundo, distante o suficiente pra
permitir uma visão analítica ao observador, como um Deus. Querendo ser como Deus, a
ciência moderna incorreria no pecado da hybris, ou do excesso: se distanciou tanto que
privou-se da visão.
A hybris é um conceito grego que significa desmedida, no sentido de cometer
excessos. É o “pecado” daquele que se tem em altíssimo valor, que é orgulhoso,
insolente, presunçoso, e isto tudo unido à falta de controle sobre seus próprios impulsos,
paixões e emoções. Os sete pecados capitais são exemplos dessa hybris, e dentro da
tradição cristã são os pecados merecedores de condenação.
Na mitologia vemos que alguns heróis, tomados por esse excesso de confiança,
incitam os deuses à humilhá-los ou até mesmo derrotá-los. Icaro chegou muito próximo
ao sol por sua hybris, o calor derreteu a cera com a qual suas asas foram feitas e ele
caiu.
E a universidade? Onde se encaixa em toda essa conceituação? Em nosso caso, a
estrutura disciplinar dos cursos, bem como a estrutura departamental dos programas se
encaixaria perfeitamente na “hybris do ponto zero”.
As disciplinas materializam a ideia de necessária fragmentação da realidade pra
que se concentre a análise em UMA parte específica dela a fim de alcançar seu
entendimento: uma disciplina é um recorte delimitado dentro de um campo do
conhecimento. E cada disciplina constrói sua própria mitologia, suas origens, seus “pais
fundadores”.
A estrutura universitária segue a mesma ideia. A Universidade é dividida em
Faculdades, Departamentos e Programas. Os professores são inseridos em suas
“caixinhas”, dentro de uma estrutura fragmentada. Pierre Bordieu: essa divisão da
estrutura universitária esconde uma luta feroz por um determinado tipo de capital.
Isso tudo configuraria nosso momento, que seria uma condição “pós-moderna” e
pós-colonial, no qual a função narrativa do saber atende à planetarização do capitalismo
e aos imperativos do mercado global. A universidade não é mais o lugar privilegiado de
produção do conhecimento, perdendo espaço para aquele que se produz nas empresas
transnacionais. As investigações de ponta não estão tanto mais nas relações Estado-
Universidade, mas no mercado. Aquela ideia da Universidade como fiscal do saber já
não é realizável. O compromisso da Universidade passa a ser com o mercado, não mais
necessariamente ao progresso moral da humanidade ou ao progresso material da nação.
A investigação deve produzir conhecimentos úteis à biopolítica global. Qual seria a
alternativa?
O paradigma da complexidade, que traz a ideia da transdisciplinaridade. É
diferente da interdisciplinariedade, que é um conceito lá dos anos 50 e trato do
intercâmbio de dados entre disciplinas e deixa intactos os fundamentos das mesmas. A
transdisciplinaridade implica a incorporação do princípio do terceiro incluído: uma
coisa pode ser igual ao seu contrário, dependendo do nível de complexidade trabalhado.
Não se trata de anulação, mas sim de restrição ao princípio do terceiro excluído.
Lei do Terceiro Excluído, onde temos o seguinte raciocínio lógico: "ou A é A ou
não é não-A e não há uma terceira possibilidade T". Dessa forma, dentro da lógica da
Lei do Terceiro Excluído, não existe um terceiro estado no qual A possa ser A e não-A
ao mesmo tempo, ou seja, não existe um estado e dualidade T para A. A lógica do
Terceiro Incluído torna-se um instrumento que sempre considera as “verdades” como
provisórias e dinâmicas.
O paradigma da complexidade implica também na estrutura da Universidade,
rompendo os programas e planos de estudo delimitados e permitindo aos professores o
trânsito entre departamentos,por exemplo.
Ele propõe a UNIVERSIDADE TRANSCULTURAL, fundada no diálogo de
saberes. Esse diálogo de saberes não significa simplesmente a geração de um campo de
saber novo a partir de campos já articulados em disciplinas, mas sim a convivência entre
as diferentes formas culturais de produção de conhecimento. Esses dois aspectos são
respectivamente, a flexibilização transdisciplinar e a transculturalização do
conhecimento.
Esse diálogo de saberes só será possível através da superação da hybris do ponto
zero, deste olhar distanciado do observador do mundo colocado em uma plataforma
metaempírica e metacultural. Meta empírica na medida em que se desliga dos sentidos.
Metacultural porque não sói pertencer a qualquer tipo de tradição cultural.
Na medida que o ponto zero seria a dimensão epistemológica do colonialismo, uma
faceta dele, superá-lo significa descolonizar o conhecimento e descolonizar as
instituições produtoras ou administradoras do conhecimento. Descer do pedestal do
ponto zero e deixar evidente o lugar onde o conhecimento é produzido.
Em resumo e como conclusão, decolonizar a Universidade significa duas coisas:
- favorecer a transdisciplinaridade, mudando a lógica de exclusão, do isto OU aquilo,
para uma lógica inclusiva: isto E aquilo;
- favorecer a transculturalidade, estabelecendo diálogo com aqueles conhecimentos que
foram excluídos da epistemologia por serem considerados pré-racionais, míticos ou
orgânicos.
Por último, decolonizar não significa uma cruzada antiocidental, em nome de
algum nacionalismo populista ou um culturalismo etnocêntrico. Tampouco significa ir
contra a ciência ou promover um obscurantismo epistêmico. Não se trata de NEGAR as
categorias de análise e disciplinas modernas , mas ir além e ampliar o campo de visão
das mesmas, abrindo-as a domínios proibidos, como as emoções, a intimidade, a
corporalidade e os conhecimentos ancestrais.

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