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<p>INTROPOS LIMITES alga</p><p>Olga Pombo Interdisciplinaridad- Ambições e Limite Relógio D'Água Editores Rua Sylvio Rebelo, 15 1000-282 Lisboa tel. 21 8474450 fax: 21 8470775 www.relogiodagua.pt relogiodagua@relogiodagua.pt o: Interdisciplinaridade: Ambições e Limites Autora: Olga Pombo Revisão técnica: Helder Guégués ógio D' Água Editores sobre fragmento de pintura Klee, Livre, mas Rigorosamente Contido (1930) elógio D'Água Editores, Novembro de 2004 e paginação: Relógio D'Água Editores Impressão: Tipografia Guerra / Viseu Depósito Legal n.° 217907/04 Antropos</p><p>Índice 11 Prefácio 29 Introdução 43 EM BUSCA DE UMA TEORIA A infinitude do complexo. Teoria dos sistemas e unidade das ciências 43 A interdisciplinaridade entre a epistemologia 50 e a antropologia Uma concepção ecológica (utópica) da interdisciplinaridade 56 A institucionalização da teoria 66 PRÁTICAS INTERDISCIPLINARES 73 Ciências de fronteira, interdisciplinas e interciências 75 O exemplo das Ciências Cognitivas 78 Novas estruturas institucionais da investigação interdisciplinar 87 Para uma tipologia das práticas de investigação interdisciplinar 91 1. Práticas de importação 92 2. Práticas de cruzamento 93</p><p>3. Práticas de convergência 94 4. Práticas de descentração 95 5. Práticas de comprometimento 96 EXPERIÊNCIAS INTERDISCIPLINARES DE ENSINO 105 Interdisciplinaridade e pedagogia 105 Um conjunto de experiências 109 Uma aspiração 116 DA ESPECIALIZAÇÃO À INTERDISCIPLINARIDADE À minha neta Alio DISCURSOS DE CRISE E RESISTÊNCIA 133 ( Ortega Y Gasset e a do 136 As duas culturas 137 ( Homens de ciência contra a especialização 140 ( A inflação sociológica e a perversão do espírito científico 142 Tecnociência e pós-modernidade 144 DA INTERDISCIPLINARIDADE À UNIDADE DAS CIÊNCIAS 151 Uma poética da interdisciplinaridade 154 Entre o projecto e sintoma 156 A CONCLUSÃO POSSÍVEL 159 Para um vocabulário sobre interdisciplinaridade 163 Referências bibliográficas 173 (</p><p>PREFÁCIO Hoje as fronteiras são porosas. E nós, que havíamos sonhado com o seu derrube, sentimos que, sem elas, o mundo se tornou menos seguro. A banalidade derrubou não apenas a fronteira en- tre a arte e o bom senso, mas todas as fronteiras. Tudo pode ser incluído, misturado, amalgamado, simplesmente junto, lado a lado. Ora, a interdisciplinaridade é uma palavra que tem sido con- vocada para descrever este domínio do indiferenciado. Ela surge tanto para sancionar a diluição das fronteiras entre disciplinas - espécie de sinónimo de capitulação face aos rigores que todas as posturas disciplinares implicam - como para referir controlo e exploração (leia-se potenciação) da transversalidade entre nhecimentos que a anulação das fronteiras entre disciplinas po- de favorecer. Entre a recusa indolente das especializações e a fertilidade heu- rística dos cruzamentos de competências, a palavra</p><p>12 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 13 congresso que não é interdisciplinar? Também no contexto em- geral, essas dificuldades de comunicação nada têm a ver com a in- presarial, a palavra tem tido uma utiliza- terdisciplinaridade. Ao contrário, na esmagadora maioria dos ca- ção exponencial. Refiram-se apenas caso da gestão de empresas, isso tem tudo a ver com a disciplinaridade, ou seja, com a in- onde alguma coisa designada por interdisciplinaridade é usada capacidade, que todos temos, de ultrapassar os nossos próprios mo processo expedito de gestão e decisão, ou caso da produção princípios discursivos, as perspectivas teóricas e os modos de fun- técnica e tecnológica, sobretudo a mais avançada, onde se tende cionamento em que fomos treinados, formados, educados. cada vez mais a reunir equipas interdisciplinares para trabalhar na concepção, planificação e produção dos objectos a Do conjunto de práticas de investigação e de ensino orienta- De modo similar, em muitas Escolas Secundárias e Universi- das pelo esforço de convergência entre especialidades, dos dis- dades, são feitas experiências ditas interdisciplinares. Ora, que cursos mais ou menos utópicos sobre uma fraternidade última de muitas vezes acontece é que a palavra está lá, mas percebemos todos os saberes, das encenações televisivas da pluralidade, res- que a experiência em causa é insuficiente, que, muitas vezes, se ta apenas a designação vaga de No entan- resume a um acto, legítimo por certo, mas de pura animação cul- to, nem as pessoas que a praticam, nem as que a teorizam, nem tural. No entanto, qual o curso que hoje não comporta elemen- aquelas que a procuram definir, sabem que ela A interdisci- tos curriculares interdisciplinares? Qual a reforma que hoje se plinaridade é uma palavra gasta, tantas vezes banalizada, vazia não reclama da interdisciplinaridade? de sentido. Um conceito à deriva, uma palavra à procura de uma A interdisciplinaridade é também capturada pelos meios de co- teoria. Por isso, falar sobre interdisciplinaridade é hoje uma ta- municação que fazem dela uma utilização selvagem, abusiva, ca- refa ingrata e difícil quase impossível. ricatural. Quando se quer discutir um problema qualquer, a Guer- ra do Iraque, as eleições americanas, a moda ou o mais Se, mesmo assim, este livro se escreve, é porque acreditamos extravagante episódio futebolístico, a ideia é sempre a mesma: que, na própria palavra, ou nos seus usos, selvagens ou domes- juntar várias pessoas, de diferentes áreas do conhecimento, e pô- ticados, algo de fundamental se procura dizer, tanto sobre a con- -las em conjunto a falar à roda de uma mesa, lado a lado, frente a dição actual do conhecimento, como sobre as formas possíveis frente, em círculo ou semicírculo, em presença ou por videocon- do seu ensino. Por isso, para além de propor novas definições ferência, etc. Cada pessoa fala na sua vez ou procura-se que con- deste conceito, ou outros mapas para a descrição dos seus usos versem umas com as outras. Porém, a maior parte das vezes, que em projectos de investigação, nas escolas, nas teorias da ciência, acontece é desentenderem-se, caírem em mal-entendidos, confli- este livro procura sobretudo escutar que, ao longo dos últimos tos, falhas terríveis de comunicação. Não importa! O que está sub- 40 ou 50 anos, se foi procurando dizer na palavra interdiscipli- jacente a esta mera inventividade de cenários é sempre a ideia em- naridade. Tentar oferecer um panorama dos estudos até agora brionária e muito ingénua de que a simples presença física efectuados sobre interdisciplinaridade. Tentar perceber o que por (ou virtual) de várias pessoas (como incarnações de vários sabe- ela, e através dela, se dá a pensar. res) em torno de uma mesma mesa (sobretudo se for >), criaria automaticamente um real confronto de perspectivas, uma discussão mais rica porque, mais interdisciplinar. Ora, em</p><p>14 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 15 Comecemos pelas palavras. Há uma intimidade, uma proxi- passagem, ao deslocamento no modelo analítico de uma ciência midade suave que exigimos ter com as palavras. Ora, a palavra que, desde os seus começos, se construiu como a procura de di- logo na sua matéria, na sua composição visão de cada dificuldade no seu conjunto de elementos ínfimos, de sons e sentidos, é uma palavra agreste, desagradável. Com- isto é, que partiu do princípio de que existe um conjunto finito prida demais na sua estrutura por composição. Além disso, não de elementos constituintes, e que só a análise de cada um desses há só uma. Há uma família de quatro elementos pluridiscipli- elementos permite, depois, reconstituir todo. Quer isto dizer multidisciplinaridade, transdisciplinaridade - que se que o programa analítico está em crise? Não, isto quer dizer que apresentam como mais ou menos equivalentes a interdisciplina- ele surge hoje como insuficiente. Este programa temos de ridade. Sentimo-nos perdidos nesta multiplicação de palavras reconhecer deu ao homem muitas e magníficas coisas, prati- que procuram exprimir afinidades electivas entre saberes. Até camente tudo que temos hoje como ciência, tudo o que enqua- todas elas sofreram o mesmo processo de erosão. Para lá dra a nossa vida e constitui a base da nossa compreensão do das suas múltiplas vozes, dizem vagamente o ideal de um con- mundo. Só que temos também de estar abertos a reconhecê- certo do mundo e dos conhecimentos. -lo há muita coisa que a própria ciência produziu e que já não cabe neste programa. Se não podemos esquecer, diminuir, negar Uma solução seria abandonar a palavra os benefícios da ciência moderna, tanto em termos de com- e suas congéneres e procurar uma alternativa. E, em certa preensão do mundo como de melhoria das nossas próprias vidas, medida, é isso que está a acontecer. Há hoje várias palavras nes- isso não pode ser impeditivo do reconhecimento dos custos que ta situação. A mais séria alternativa é a palavra (in- a especialização trouxe consigo. tegração europeia, integração dos saberes, estudos integrados, li- cenciaturas integradas, circuitos integrados, Mas, a Em primeiro lugar, custos relativos ao próprio especialista, verdade é que também não sabemos determinar satisfatoriamen- que se transforma numa criatura estranha, que sabe tu- te as suas fronteiras, delimitar de forma suficiente o seu sentido. do acerca de cada vez como diz Ortega Y Gasset, em O problema não é pois facilitado pela emergência de palavras al- páginas célebres de La Rebelión de las Massas (1929). Trinta ternativas, mas agravado. anos mais tarde, Lord C.P. Snow, num pequeno texto intitulado Cultures>>, escrevia também: cientistas nunca leram A situação não deixa de ser curiosa. Depois de tentativas vá- uma obra de Shakespeare e os literatos não conhecem a segunda rias para pensar a articulação entre domínios do conhecimento lei da (Snow, 1959: 15). Por outras palavras, a evitando a erosão da interdisciplinaridade, a palavra resiste, per- tem como efeito dramático que cada grupo de in- siste, teima em reaparecer. Porquê? Como explicar esta teimosia? vestigadores desconhece e ignora que o outro grupo faz, che- gando mesmo, em alguns casos, a considerar que o que outro A hipótese que organiza este livro é a de que, pela palavra grupo faz não tem qualquer interesse. Neste sentido, famoso li- se dá a pensar algo merece de Sokal e Bricmont (1998) pode porventura ser lido como ser pensado, que nela e por ela se procura pensar um fenómeno o mais recente resultado, e mais requentado exemplo, desta da ciência contemporânea. Referimo-nos à clivagem, à triste</p><p>16 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 17 Em segundo lugar, custos relativos à estrutura institucional teadas. Qualquer coisa de muito estranho se está a passar, algo em que trabalho científico hoje se enquadra. A ciência que, que vem pôr em causa a nossa ideia de ciência como saber uni- como sabemos, nasceu numa situação democrática, na cidade versal, público, desinteressado. Sabíamos que, por diversas ve- grega, na praça pública, num lugar de diálogo e discussão, vi- zes na história da ciência, foram desenvolvidas pesquisas em si- sando a racionalidade dos seus resultados e, mesmo é dizer, a multâneo. Que diversos investigadores podiam ter uma mesma universalidade daqueles que a podiam construir e entender, pa- ideia, mais ou menos na mesma época e que, quando isso acon- rece encontrar-se absolutamente liquidada nesse objectivo. Ela é tecia, se estava perante um acontecimento festivo, um dos mais hoje uma- enorme e devastadora organização interna- belos e significativos acontecimentos da racionalidade imanente mente por inúmeras comunidades, agregados competitivos cada à produção científica. A existência dessas descobertas simultâ- equal com os seus congressos, as suas revistas, as suas bibliote- neas traduzia-se, em geral, no facto de os cientistas envolvidos cas, os seus territórios, os seus bolseiros, os seus equipamentos serem laureados em conjunto por uma mesma descoberta, verem e espaços institucionais, etc. Já não se trata de os cientistas vi- os seus nomes ligados para sempre à designação de uma deter- verem de costas völtadas uns contra os outros, de desconhece- minada lei. Hoje é tudo isto que está em ruína. O projecto de in- rem que os seus colegas do lado estão a fazer. Trata-se agora vestigação demarca seu terreno antes de haver qualquer des- de competir naquilo que deveria ser de todos, de cada um pro- coberta, antes mesmo de iniciar verdadeiramente a investigação curar defender os seus interesses particulares, se possível, reti- que se propõe fazer. Para que outros não possam trabalhar no rando as benesses do colega do mesmo objecto, para inviabilizar ou dificultar tanto quanto pos- Um fenómeno-limite é de patentificação de áreas de inves- sível as descobertas simultâneas. E, nesse movimento, se esfuma tigação. Esse fenómeno, na sua displicente ocorrência, ameaça o carácter público, universal e desinteressado da ciência. destruir a nossa própria ideia de ciência4 Sabemos que, durante Como se explica esta vontade de patentificação precoce? Não muito tempo, só se faziam patentes quando investigador des- é certamente porque os investigadores sejam hoje mais perver- cobria qualquer coisa, descoberta essa que, depois, patenteava. SOS do que antigamente, ou tenham maus instintos, ou falta de Isso ocorria sobretudo nas áreas das tecnologias. As leis, os prin- modéstia, ou sejam incapazes de colaboração. Não! É porque, cípios, as teorias, essas, ficavam naturalmente à mercê de todos, sendo a ciência cada vez mais cara, mais dependente de equipa- apenas consagradas com O nome daqueles que tinham apresen- mentos muito dispendiosos, os investigadores precisam de gran- tado pela primeira vez (ou de forma completa e consistente) des financiamentos. E, para tal, precisam de garantir lucros das resultado da investigação. No caso das tecnologias, então sim, suas descobertas futuras. E, para garantir lucros antecipados, havia e há patentes para as mais diversas aplicações técnicas. têm de obter financiamento de empresas que, em troca, ficam Ora, neste momento, muitas instituições onde se faz investiga- com O direito de aplicar imediatamente as descobertas que os ção científica de estão a patentear, não novas aplicações seus programas de investigação se propõem realizar. Ora, para tecnológicas, não resultados obtidos, mas áreas de investigação. darem esse financiamento, essas empresas exigem que as áreas Quando um projecto de investigação se apresenta, com os seus de pesquisa sejam patenteadas antes que outras empresas se pos- objectos e a sua metodologia, antes mesmo de começar a traba- sam dedicar a essa mesma investigação científica (ou será ex- lhar, a área seleccionada e a metodologia proposta são paten- ploração?). Não são pois os investigadores mas as próprias</p><p>18 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 19 presas que financiam as pesquisas que, à partida, colocam como ção dessas duas disciplinas. Da mesma maneira, a recente cons- condição a existência de resultados precisos e altamente espe- tituição da cognição como objecto de estudo das ciências cogni- cializados, susceptíveis desse tipo de patentificação. Outras ve- tivas também não resultou de uma decisão voluntária ou volun- zes, a investigação altamente especializada faz-se em laborató- tarista de um filósofo, de um matemático, de um neurologista ou rios comandados por generais. Nesse caso, não são sequer de um homem da computação que, num dado momento, tives- necessárias patentes antecipadas. O que é necessário é garantir o sem resolvido fazer um novo arranjo interdisciplinar para ajudar segredo da investigação que está a ser desenvolvida, silêncio a resolver um velho problema. O que aconteceu foi que, ao es- do investigador-funcionário. Por outras palavras, estamos pe- tudar esse problema, os investigadores perceberam a necessida- rante custos institucionais de uma lógica de especialização cada de de convocar outras especialidades. Esta é uma primeira razão vez mais feroz. e, do meu ponto de vista, a estrutura básica da interdisciplina- ridade. Paralelamente, é significativo que a investigação se faça cada vez mais, não só no interior dos adquiridos de uma disciplina Estamos pois perante transformações epistemológicas muito especializada, mas no cruzamento das suas hipóteses e resulta- profundas. É como se próprio mundo resistisse ao seu retalha- dos com as hipóteses e os resultados de outras disciplinas. Ou mento disciplinar. Trata-se de compreender que o progresso do seja, progresso da ciência, a partir sobretudo da segunda me- conhecimento já não se dá apenas pela especialização crescente, tade do século XX, deixou de poder ser pensado como linear. como estávamos habituados a pensar. A ciência começa a apare- Num número cada vez maior de casos, deixou de resultar de cer como um processo que exige também um olhar transversal. uma especialização cada vez mais funda mas, ao contrário e Há que abrir para lado para ver outras coisas, ocultas a um ob- cada vez mais, depende da fecundação recíproca de diversas dis- servador rigidamente disciplinar. ciplinas, da transferência de conceitos, problemas e métodos, Digamos que estamos a entrar num terceiro momento da numa palavra, do cruzamento interdisciplinar. Trata-se de reco- história das relações cognitivas do homem com mundo. nhecer que determinadas investigações reclamam a sua própria O primeiro seria o momento sincrético, anterior à ciência, an- abertura para conhecimentos que pertencem, tradicionalmente, terior à análise, fundado numa relação indistinta entre ho- ao domínio de outras disciplinas e que só essa abertura vai per- mem e o cosmos, isto é, a totalidade orgânica e organizada que mitir aceder a camadas mais profundas da realidade que se quer cerca. Um segundo momento, correspondente à Galáxia de estudar. Digamos que a ciência já descobriu, ou está em vias de Gutenberg como diria McLuhan (1963), seria da especiali- descobrir, tudo que é possível descobrir através da especiali- zação, da fragmentação disciplinar, do pensamento analítico zação. A partir de determinado momento, é progresso da pró- governado pelo princípio, hoje insustentável na sua generali- pria especialização que exige cruzamento, a articulação entre dade, de que todo é igual à soma das partes. Estaríamos ago- A bioquímica já tem 50 anos e, se se constituiu como ra a entrar num terceiro momento: aquele que, justamente, re- disciplina científica, não foi para responder a um qualquer ape- clama contributo da interdisciplinaridade e integração dos lo interdisciplinar. Foi porque os biólogos e os químicos perce- saberes. beram que determinados problemas necessitavam da colabora-</p><p>20 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 21 O que significa que, a interdisciplinaridade não é qualquer coi- sa que nós tenhamos de fazer. É qualquer coisa que se está a fa- influência extraordinária na nossa ciência e na nossa maneira de zer quer nós queiramos ou não. Nós estamos colocados numa si- pensar a questão da interdisciplinaridade. É que, se o todo não é tuação de transição para um novo momento das relações a soma das partes, a especialização tem de ser complementada, cognitivas do homem com mundo e os nossos projectos parti- ou mesmo em alguns casos substituída, por uma compreensão culares não são mais do que formas, mais ou menos conscientes, interdisciplinar capaz de dar conta das configurações, dos arran- de inscrição nesse movimento. A interdisciplinaridade surge as- jos, das perspectivas múltiplas que a ciência tem de convocar sim como algo que se situa algures entre um projecto voluntaris- para conhecimento mais aprofundado dos seus objectos de es- ta, algo que nós queremos fazer, que temos vontade de fazer e, ao tudo. Ou seja, problema da especialização encontra os seus mesmo tempo, qualquer coisa que, independentemente da nossa mites justamente aqui, no momento em que a ciência toma cons- ciência da verdade desse enunciado. vontade, se está inexoravelmente a fazer, quer queiramos quer E é na tensão entre estas duas dimensões que nós, indiví- duos particulares, na precariedade e fragilidade das nossas vidas, Esta transformação epistemológica dá-se também a ver na me- procuramos caminhos para fazer alguma coisa que, por nossa tafórica com que a ciência sempre se deixou pensar. No fundo, vontade e porventura independentemente dela, se vai fazendo. estaríamos a passar de um esquema arborescente, em que havia Podemos compreender este processo e, discursivamente, dese- uma raiz, um tronco cartesiano que se elevava, majestoso, acima nhar projectos que visam acompanhar esse movimento, ir ao en- de que se dividia em ramos e pequenos galhos dos quais contro de uma realidade que se está a transformar para além das saíam vários e suculentos frutos, todos ligados por uma espécie nossas próprias vontades e dos nossos próprios projectos. Ou de harmoniosa e fecunda hierarquia, e a avançar para um mode- podemos não perceber que se está a passar e reagir pela recusa lo em rede, em complexíssima constelação, em que deixa de ha- da interdisciplinaridade ou pela sua utilização fútil, superficial, ver hierarquias, ligações privilegiadas. Por exemplo, nas ciên- como se se tratasse de um mero projecto voluntarista formulado cias cognitivas, qual é a ciência fundamental? no contexto de uma simples moda, passageira como todas as modas. Sabemos que a metáfora torna visível algo que é do domínio do conceito. Mas, ao mesmo tempo, estabiliza esse conceito nas Perceber a transformação epistemológica em curso é perceber determinações de visibilidade que estabelece, adquire a condi- que onde esperávamos encontrar simples, está complexo, ção de uma imagem culturalmente pregnante, dotada de enormes infinitamente complexo. Que quanto mais fina é a análise, efeitos de modelação conceptual. Ora, desde a Antiguidade Clás- maior a complexidade que se abre à nossa frente. E, portanto, sica até ao Renascimento, a ciência teve na figura do círculo a que O todo não é a soma das Esta é, penso eu, uma das sua metáfora por excelência: da paideia grega e helenística até chaves fundamentais para entendimento desta questão. Colo- Rabelais, círculo é a metáfora do próprio conhecimento. Ele cado na ordem do dia pelos desenvolvimentos de diversas ciên- começa por valer enquanto perfeição, ausência de hierarquias e cias (das matemáticas às ciências da natureza e às ciências hu- estabilidade cosmológica (Antiguidade Clássica) ou teológica manas), este simples enunciado tem tido um impacto e uma (Idade Média), para, no Renascimento, ser lido enquanto ideal enciclopédico, dilatação do centro, princípio gerador de um per-</p><p>22 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 23 curso completo de formação educativa. Quando Gargantua, na É belíssima esta metáfora da árvore. E, provavelmente, vamos belíssima carta endereçada ao seu filho Pantagruel, lhe diz: ter de a abandonar, como os homens do século XVII tiveram de que aprendas as línguas perfeitamente [...] que não haja abandonar a ideia de círculo. É certo que, nos séculos XVIII e XIX, História que tu não tenhas sempre presente na tua memória [...], a ideia de arvore sofreu já uma rotação decisiva. Transformou-se das artes liberais, que cultives a Geometria, Aritmética e Música em chaveta, árvore ainda, mas horizontal, amputada das suas raí- [...], que conheças todos os cânones da Astronomia [...]. Do Di- zes. O seu tronco, os seus ramos deixaram de se elevar vertical- reito Civil quero que saibas de cor os seus mais belos textos e mente. Nada os funda, nada os explica. A chaveta ainda é uma que mos refiras de forma filosófica. E, quanto ao conhecimento árvore mas perdeu sentido metafísico e ganhou funcionalidade dos factos da Natureza, quero que te dediques a eles com curio- classificativa. Ela é um esquema cartográfico que, sobretudo, re- sidade, que não haja nem mar, nem rio, nem fonte de que não co- vela atenção aos limites territoriais, aos contornos, às posições nheças as paixões; todos os pássaros do ar, todas as árvores, ar- relativas de cada disciplina. bustos e frutíferas das florestas, todas as ervas da Terra, todos os metais escondidos no ventre dos abismos, que nada te seja des- Agora, provavelmente, vamos ter de reconfigurar a nossa (Rabelais, 1532: 133-135), o que está em causa é a ideia de a partir de uma outra metáfora. A rede, metáfo- constituição de um programa de estudos que tem no círculo per- ra das conexões múltiplas, heterogéneas e descentradas. Ora, feito do conhecimento (eu kuklios paideia) a sua configuração que há de diferente entre a árvore e a rede? É que, na árvore, as fundamental. Nesta óptica, as figuras majestosas dos grandes ciências se mantêm, digamos assim, fiéis a um tronco funda- sábios-artistas do Renascimento terão sido, justamente, as últi- mental, a um crescimento orgânico, a uma estrutura hierárquica: mas grandes florações da esperança de reconstituição desse cír- há ciências que estão mais próximas do tronco e outras que estão mais afastadas. Por isso se fala de ciências mães, de disci- culo do conhecimento. fundamentais, de subdisciplinas, especialidades, progra- Na verdade, embora a metáfora do círculo seja mas de investigação. Dizemos, por exemplo, que o direito tem no século XVII percebe-se que círculo tinha de ser fendido. muitas disciplinas (direito civil, criminal, comercial, etc.) mas, E Descartes, o mesmo Descartes dos princípios da análise, foi todas elas continuam a fazer parte da disciplina mãe (o direito). um dos que mais propôs (e impôs), a imagem da árvore como E esse dizer da mãe, da matriz, tem a ver com essa configuração metáfora da ciência6 A ciência era uma árvore que tinha as suas arbórica que nós, em grande parte, ainda habitamos mas da qual, raízes na metafísica e cujo tronco se ramificava em diversos ra- progressivamente, nos estamos a afastar. mos, estes, por sua vez, em ramos menores e assim sucessiva- Atentemos um pouco mais na metáfora da árvore da Agora, provavelmente, vamos entrar numa espécie de delírio, ciência apenas para sublinhar a especialização que nela se anun- que é o delírio de deixarmos de ter um tronco a que nos agarrar, cia: os frutos, que são as diversas leis, as diversas teorias, as di- de aceitarmos viver de forma imponderável, sem referências es- versas formas matemáticas, encontram-se nas terminações, cada táveis, levados por uma estrutura constantemente reformulável. vez mais finas, dos ramos da árvore da ciência. Aceitarmos viajar, divagar, ou escorregar, ou perdermo-nos, ou misturarmo-nos, ou fragmentar-nos. Aceitar que a nossa condi-</p><p>24 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 25 ção passa por qualquer coisa que deixou de ter um centro, que comum, disponibilidade para abandonar a segurança do seu do- deixou de ter um ponto fixo. Aceitar relações não hierárquicas, mínio próprio, para interromper conforto da sua linguagem múltiplas, deslizantes, irregulares. Quando se fala hoje das difi- técnica, para se aventurar em campos lavrados por muitos, é culdades da interdisciplinaridade, elas passam por aqui. É muito certo mas de que ninguém é proprietário exclusivo. difícil perder centro, perder o ponto onde nos agarremos, onde contamos encontrar um sentido. Na árvore, o sentido era dado Não se trata de defender que, com a interdisciplinaridade, se pelo tronco e pelas raízes. O fragmento tinha no todo seu sig- alcançaria uma forma de anular o poder que todo o saber impli- nificado. Na rede, temos de procurar sentido do fragmento. No ca. Isso seria cair na utopia beata do sábio sem poder e, por con- contexto da rede, a interdisciplinaridade não reenvia a nenhuma traponto, aceitar como boa a figura do político sem saber, do unidade ideal mas é sempre e necessariamente um aconte- mero técnico. Trata-se de procurar partilhar, ou melhor, de dese- cimento de âmbito local jar partilhar poder que se tem. Não guardar. Não o ocultar. Retirar ao poder o seu segredo. Torná-lo discursivo. Estar ani- Por outras palavras, temos de perceber que estamos num mun- mado da boa vontade necessária para discutir. do em que os muros foram derrubados (embora outros a ser erguidos), que a queda do muro de Berlim é um aconteci- No fundo, perceber que a verdade é um compromisso colecti- mento de inesgotável sentido simbólico. Temos de perceber que Como recordava Sócrates no Protágoras de Platão (347d) estamos num mundo de anulação e de mistura de fronteiras. Co- lembrando Homero, dois homens caminham juntos, um mo diz Agamben (1990), a comunidade que vem é uma comuni- pode ver antes do outro>>. dade de imigrantes, de mestiços, de apátridas, de impuros, de O que nos espera é um mundo em que se perde o próprio sentido da identidade (ou seria melhor dizer de pertença a um lugar?). Esta é também uma realidade nova que exige de Este livro tem a sua origem mais antiga no Projecto Mathe- nós a capacidade para encontrar formas mais alargadas de CO- sis, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Ins- nhecimento e que, muito provavelmente, tem a ver com as ques- tituto Nacional de Investigação Científica entre os anos 1989 e tões que se dão a pensar sob a palavra interdisciplinaridade. 1995. Para além da gratidão aos meus colegas e amigos da Fa- culdade de Ciências de Lisboa, em especial aos que participa- Uma última palavra diz respeito ao facto de a interdisciplina- ram nesse projecto Teresa Levy, Henrique e José ridade se deixar pensar, não apenas na sua faceta cognitiva, en- Manuel Conceição este livro está marcado pela nostalgia quanto sensibilidade à capacidade de penetração desses anos em que foi possível construir um enorme arquivo do olhar no sentido da procura de mecanismos comuns, estrutu- sobre interdisciplinaridade e acompanhar de forma sistemática ras profundas que possam articular que aparentemente não é algumas experiências de ensino interdisciplinar em escolas se- articulável, mas também em termos de atitude: curiosidade, von- cundárias de Lisboa. Mais tarde, no momento da minha tese de tade de saber, interesse real por escutar que outro tem para doutoramento sobre as figuras da Unidade da Ciência, apoio dizer, gosto pela colaboração, pela cooperação, pelo trabalho em de Daniel Andler no domínio das ciências cognitivas foi decisi-</p><p>26 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 27 para a compreensão do estatuto interdisciplinar dessa galáxia A investigação que está na raiz deste livro inscreve-se nas ac- feliz. Agradeço-lhe, portanto, ter-me introduzido naquele que é tividades do projecto POCTI/SOC/48133/2002 do Centro de Fi- talvez hoje facto mais eloquente de uma interdisciplinaridade losofia das Ciências da Universidade de Lisboa (CFCUL), com em acto. Do mesmo modo agradeço a Félix Costa o ter-me ini- o apoio e aprovação da FCT, POCTI e FEDER ciado nas ciências da complexidade. Mais recentemente, Luís Bastos, Carlos Pimenta e Jayme Paviani, ao convidarem-me a apresentar em público parte do meu trabalho sobre a interdisci- plinaridade, vieram conferir como uma urgência a este li- vro. Finalmente, quero também agradecer aos meus colegas do NOTAS recém-criado Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa (CFCUL)8 Clara Queiroz, João Caraça, José Cro- 1 Cf., por exemplo, Birnbaum-More; Rossini e Baldwin (1990) ou Decker (2001). 2 Também as palavras e têm a ver com alguma ca, Nuno Nabais, Pedro Marvão e Rui Moreira. Foi nos traba- coisa que se dá a pensar na palavra interdisciplinaridade. lhos de constituição deste Centro, onde fui como que forçada a 3 Para um escorreito balanço das virtudes e graves do famoso livro aceitar a responsabilidade da sua direcção, que senti que o meu de Sokal e BricMont, cf. Miller (2000). 4 esforço para pensar a interdisciplinaridade a partir da filosofia Cf. Teresa Levy (1993) que faz o ponto desta situação e dela retira as inquietan- tes questões que a situação reclama. era o melhor contributo que a herança de Leibniz, Kant, Popper 5 Encontramo-la ainda a funcionar durante os séculos XVII, e XIX. Veja-se, por ou Foucault podia oferecer a um projecto onde convergem li- exemplo, o caso de Hegel (1830), em que o círculo, ao coincidir com a enciclo- nhas de investigação que pertencem a universos tão distintos pédia das ciências filosóficas, faz com que cada ciência particular só ganhe sen- como a física quântica, a biologia, a genética, a fisiologia, as tido na sua referência ao círculo de todos os círculos. Mesmo no século XX, o cír- culo aparece como metáfora decisiva do conhecimento na sua sistematicidade e ciências humanas, a filosofia ou a política da ciência. Por razões capacidade de irradiação (cf., por exemplo, Mortimor Adler (1973) ou, num mui- similares, quero manifestar o meu reconhecimento aos estudan- to diferente horizonte, Paulo Caro (1993)) 6 tes de doutoramento e mestrado que até hoje orientei. Todos Na verdade, antes de Descartes (e antes de Bacon), esse genial e enigmático pen- eles, Eduarda Moniz dos Santos, Leonor Santos, Helena Abreu, sador catalão que foi Ramón Llull, mantendo-se embora ligado à figura do cír- culo (cf. Llull, 1308), havia já estabelecido, muito claramente, a árvore como António Almeida, Rosário Laureano, Ana Paula Rocha, Teresa metáfora da ciência numa obra póstuma intitulada Arbor Scientiae, publicada em Leitão, João Cordovil e António Cerqueira Tomé, pela sua con- latim em 1482. Para um estudo detalhado desta concepção llullina da ciência, cf dição de homens e mulheres com formação científica e genuína Carreras e Artau (1939). 7 Aqui temos a chave para a compreensão da expressão da Qual curiosidade filosófica, me ofereceram a possibilidade de fazer é a sua especialidade? Em que ramo trabalha? das suas teses verdadeiros laboratórios onde pude experimentar 8 Cuja homepage pode ser consultada em as dificuldades, mas também as potencialidades e alegrias, do trabalho interdisciplinar. Por último, agradeço a Nuno Nabais que leu e discutiu comigo as teses principais deste livro, a Orlando Lourenço que me ajudou na revisão do texto, e a Fran- cisco Vale que arriscou publicar este livro na sua prestigiada editora.</p><p>INTRODUÇÃO é o conceito onde hoje se reconhecem as nossas reflexões sobre a condição fragmentada das ciências. É aí que pensamos a especialização vertiginosa do conhecimen- to científico e, ao mesmo tempo, é aí que se exprime a nossa nos- talgia/utopia de um saber unificado. Por isso, a interdisciplinari- dade é um conceito quase mágico. Invocamo-la sempre que nos confrontamos com os limites do nosso território de conhecimen- to ou sempre que procuramos um saber no qual cada domínio, cada lei, cada observação empírica aparecesse como que na for- ma de uma entrada de um imenso tratado do mundo e do ho- mem. Por isso também a palavra se nos impõe sempre que ge uma nova realidade epistemológica, uma nova cujo lugar não está ainda traçado no grande mapa das ciências ou, simplesmente, sempre que precisamos de convocar perspec- tivas diferentes para a análise de um objecto cuja complexidade se não deixa esclarecer por uma estrita lógica disciplinar. Não é de estranhar portanto que o conceito de interdisciplina- ridade apareça, com uma frequência crescente, em contextos muito diferentes e em níveis de generalidade muito diversos cor- respondentes a um cenário localizado, a uma utilização particular e aos seus previsíveis (e desejáveis) campos de aplicação. Há en-</p><p>30 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 31 tão uma utilização mais ou menos selvagem que não envolve ne- a palavra é convocada a designar são, não apenas muito hetero- nhuma tematização do conceito e dos seus possíveis significados géneas, como distantes de qualquer consenso sobre sentido pos- e que, na maior parte dos casos, não é sequer acompanhada de sível do termo interdisciplinaridade. Ninguém sabe exactamente uma definição operatória minimamente consistente. Dos enge- qual a fronteira a partir da qual uma determinada prática, seja ela nheiros aos jornalistas, dos empresários aos organizadores de co- actividade de investigação ou experiência de ensino, pode ser lóquios e congressos de todos os tipos e sobre todos os assuntos, dita interdisciplinar e não multidisciplinar, pluridisciplinar ou a palavra entrou na linguagem de todos os dias e invadiu todos os transdisciplinar. A palavra aparece para designar os mais varia- Na verdade, ainda que ninguém saiba muito bem o que dos tipos de experiências que, de alguns anos a esta parte e um significa, todos a utilizam para, com ela, qualificar os mais pouco por todo o lado, vêm sendo realizadas. Experiências que variados projectos e iniciativas, podendo mesmo dizer-se que, têm em comum facto de traduzirem uma grande vontade de su- de tão vulgarizada, a palavra está gasta e vazia (cf. Pombo, peração das barreiras disciplinares a que as instituições do saber 1994a: 3). Nesses casos, a interdisciplinaridade resume-se à ideia estão tradicionalmente confinadas. Experiências que, muitas ve- de reunião, numa mesma sala ou anfiteatro, à volta de uma mesa, zes, se limitam a algum tipo de colaboração entre dois ou mais in- nos ecrãs de televisão, ou na mesma página de um jornal, de es- vestigadores e/ou professores; que podem envolver alguma con- pecialistas de diversas áreas. Como sublinha Gusdorf (1990: 29), vergência processual, metodológica ou teórica, mas que pensa-se que, aproximação física (ou de diversos raramente alcançam de facto uma efectiva integração dos saberes especialistas, pela justaposição aditiva de diferentes perspectivas disciplinares. Experiências ainda de valor muito desigual, umas e opiniões, se podem (magicamente) retirar vantagens cognitivas francamente conseguidas, outras desinteressantes, algumas (pou- avultadas, saltar etapas, aprender depressa, ficar como se cos- cas) excepcionais, quase sempre trabalhadas pelo suposto ingé- tuma dizer com ideia do problema. nuo de que a justaposição de investigadores e/ou professores de diferentes disciplinas em actividades comuns produz, por si pró- Pondo de lado estas situações em que a palavra interdiscipli- pria, a fecundação recíproca dos conteúdos trabalhados. naridade, de tão amplamente vulgarizada, acaba por aparecer mo vazia, afectada mesmo de algum descrédito, é necessário re- Esta situação de indeterminação conceptual atinge a própria conhecer que, na sua formulação técnica, o conceito pertence ao literatura especializada. Embora exista uma volumosa bibliogra- vocabulário de dois domínios fundamentais: da construção e o fia dedicada ao problema da não há ainda da transmissão do E, de facto, apenas nestes uma definição minimamente estável. Os esforços mais sistemáti- dois contextos (epistemológico e pedagógico), o conceito de in- nesse sentido são ainda os trabalhos dos pioneiros, como é terdisciplinaridade tem sido objecto de alguma teorização, ainda caso de Heckhausen (1972), Palmade (1979) e Resweber assim incipiente. O primeiro parte da apresentação de um conjunto de critérios na base dos quais se torna possível caracterizar uma disciplina cientí- Porém, esta duplicidade de contextos de utilização técnica (na fica para, em seguida, distinguir diferentes tipos de relações inter- ciência e na escola) tem, como primeira consequência, inevitáveis disciplinares, organizadas por ordem crescente de maturidade. oscilações de sentido. As diversas experiências e realizações que Tratando-se de uma das mais reputadas e fundamentadas hipóteses</p><p>32 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 33 para a definição do conceito de interdisciplinaridade, Heckhausen oferece ainda a vantagem de, a cada momento, e mediante um ri- clarificadora mas, naturalmente, condenada a ser apenas mais CO trabalho de exemplificação, dar conta das implicações pedagó- uma definição entre outras mas procurar, no interior das sig- gicas de cada uma das seis concepções de interdisciplinaridade nificações que, ao longo dos últimos anos, se têm vindo como apresentadas4. que a sedimentar nas práticas e nas conceptualizações da inter- Porém, o que interessa assinalar é que cada aproximação ao disciplinaridade, uma formulação em bissectriz que permita conceito de interdisciplinaridade propõe a sua definição, procura enunciar algo que seria a condição, digamos des- estabelecer as relações e recortar os limites da interdisciplinari- sa ideia. Esse seria caso de uma definição de interdisciplinari- dade com os conceitos afins, designadamente, os de pluridisci- dade que contemplasse, por um lado, os elementos comuns, sub- plinaridade (multidisciplinaridade) e transdisciplinaridade. Defi- jacentes à indeterminação conceptual referida e, por outro, as nir a interdisciplinaridade como entre várias indicações semânticas que as palavras em uso carregam consigo. disciplinas científicas no exame de um mesmo e único (Marion, 1978: 17), de problemáticas, conceitos e Nas diversas definições propostas é efectivamente possível métodos de uma disciplina para outra>> (Thom, 1990: 637), ou co- encontrar dois pontos comuns, a saber: 1) elas são em geral cons- mo entre disciplinas diversas ou entre sectores he- truídas com base em distinções triádicas, ou seja, a partir do con- terogéneos de uma mesma ciência que conduz a integrações pro- fronto entre o conceito de interdisciplinaridade e dois outros priamente ditas, isto é, a uma certa reciprocidade de trocas tendo conceitos afins, nomeadamente, os de pluridisciplinaridade e como resultado final um enriquecimento recíproco>> (Piaget, 2) nessas relações triádicas, o conceito 1972: 142), não é a mesma coisa que defini-la como elaboração de interdisciplinaridade ocupa invariavelmente uma posição in- de um suficientemente geral e preciso que permita termédia. A interdisciplinaridade é tendencialmente pensada exprimir numa linguagem única os conceitos, as preocupações, mo algo que se deve entender como mais do que a pluridiscipli- os contributos de um número maior ou menor de disciplinas que, naridade e menos do que a transdisciplinaridade. Como escreve de outro modo, permaneceriam fechadas nas suas linguagens es- Resweber (1981: 75-76): a interdisciplinaridade ultrapassa a (Delattre, 1973: 185). Da simples cooperação de pluridisciplinaridade porque mais longe na análise e con- disciplinas, à transferência de problemas, conceitos e métodos, frontação das porque operar uma ao seu intercâmbio e enriquecimento recíproco, ou ainda a uma a nível dos métodos utilizados, das leis formuladas e das aplica- integração capaz de romper a estrutura de cada disciplina e al- ções porque um regresso ao fundamento cançar uma axiomática comum, jogam-se diferenças significati- da porque revela de que modo a identidade do ob- vas. A verdade é pois que não estão (ainda?) estabelecidas e fi- jecto de estudo se complexifica através dos métodos das várias xadas as distinções e oposições conceptuais necessárias para disciplinas e explicita a sua problematicidade e mútua relativi- claro e preciso significado de cada um destes conceitos. dade. Na mesma ordem de ideias, Piaget (1972: 141) considera mesmo os conceitos de multidisciplinaridade, interdisciplinari- Face a este estado de coisas, importa não tanto apresentar uma dade e transdisciplinaridade como de uma progres- outra definição de interdisciplinaridade supostamente mais siva integração das componentes disciplinares em jogo (cf. Piaget, 1972: 141). Como escreve, etapa das relações inter-</p><p>Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 35 34 Olga Pombo disciplinares sucede-se uma etapa superior que seria a transdis- Mas, se é verdade que a polissemia do conceito de disciplina ciplinaridade, etapa que não só atingiria as ou reci- não facilita o esclarecimento do conceito de interdisciplinarida- procidades entre investigações especializadas, mas também si- de, é igualmente verdade que o enriquece8. Por exemplo, é em tuaria estas relações no interior de um sistema total, sem função da dimensão normativa da palavra disciplina que a inter- fronteiras estáveis entre as disciplinas (Piaget, 1972: 144, su- disciplinaridade pôde surgir como palavra de ordem em Maio de 68 e pode ainda hoje surgir como sintoma de irreverência. Por- blinhados nossos). que em cada um destes três sentidos do conceito de disciplina se Mas, para além destes dois pontos comuns a algumas das mais deixam pensar realidades diferentes e porque cada um deles re- significativas definições de interdisciplinaridade, importa cha- mete para diferentes campos de análise, o conceito de interdisci- mar a atenção para facto de o conceito fazer parte de uma fa- plinaridade surge afectado de uma similar complexidade. As três mília de palavras todas ligadas entre si pelo radical disciplina. dimensões que sobre ele projectam os três sentidos do conceito A' interdisciplinaridade, assim como os outros conceitos da mes- de disciplina hão-de permitir revelar a tripla condição do con- ma família, surgem então como algo que designa diferentes mo- ceito de interdisciplinaridade: enquanto fenómeno cognitivo, dos de relação e articulação entre disciplinas; algo que depende analisável em termos epistemológicos, heurísticos e históricos; da delimitação dos seus territórios, das suas proximidades, dis- enquanto configuração escolar, analisável em termos de teoria tâncias, deslocamentos e articulações, da redefinição constante curricular e de inovação pedagógica; enquanto caso particular das suas fronteiras; algo que, em última análise, visa superar a da questão das relações que interessa tanto à socio- compartimentação disciplinar que tradicionalmente configura as logia da ciência como à dos pequenos grupos e das instituições. instituições de produção e transmissão do conhecimento6. Simultaneamente, reconhecimento dessa tripla dimensão da Em boa verdade, facto de estes conceitos terem mesmo ra- interdisciplinaridade permite pensar, de forma porventura mais dical disciplina não torna mais simples o esclarecimento do consistente, a articulação que liga a ciência e a escola. Se não há seu sentido. Esse radical é, ele mesmo, afectado por uma forte escola sem disciplina e se não há escola sem disciplinas, seria equivocidade, remetendo para três sentidos diferentes: 1) em sen- possível mostrar como também não há disciplinas (nem discipli- tido cognitivo, disciplina é sinónimo de ciência particular, área de na) sem escola9. estudo, ramo do saber ou campo específico de investigação; 2) em sentido escolar, disciplina significa entidade curricular, con- Para além do reconhecimento do comum radical que liga a in- junto de conhecimentos que, seleccionados no interior de uma terdisciplinaridade aos seus conceitos afins, respeito pela eti- ciência especializada, são considerados como devendo ser objec- mologia das palavras em análise aponta também no sentido de se to de ensino numa determinada cadeira ou de pensar a relação entre esses conceitos a partir do jogo dos seus um determinado sistema de ensino ou estabelecimento escolar; e prefixos. 3) em sentido normativo, disciplina remete para o conjunto de Referimo-nos ao facto de os diversos conceitos em jogo serem leis ou regras que todas as instituições constituem e que, simulta- construções com base na diferente prefixação da palavra disci- neamente, estruturam e regulam os comportamentos dos indiví- plinaridade. Neste sentido, a etimologia do prefixo po- deria explicar a já referida centralidade e carácter duos que as</p><p>36 Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 37 Olga Pombo do conceito de interdisciplinaridade. É o que sublinha Gusdorf conjunto das múltiplas variações possíveis entre os dois extre- nas suas Refléxions sur l'interdisciplinarité (1985) quando es- mos. Como forma de reforçar esta nossa proposta, refira-se que, creve: prefixo 'inter' não indica apenas uma pluralidade, uma apesar de todas as oscilações, são diversos os autores que dão justaposição; evoca também um espaço comum, um factor de conta da continuidade existente entre os três conceitos em jogo. coesão entre saberes diferentes. Os especialistas das diversas Assim, Resweber (1981: 75) escreve: interdisciplinaridade ul- disciplinas devem estar animados de uma vontade comum e de trapassa a pluridisciplinaridade ao explorar os pressupostos, o uma boa vontade. Cada qual aceita esforçar-se fora do seu do- objecto, o método e os resultados que aquela lhe fornece. Ela (a mínio próprio e da sua linguagem técnica para aventurar-se num interdisciplinaridade) vai mais longe na análise e confrontação domínio de que não é proprietário exclusivo>> (1985: Tam- das conclusões, não se contenta com um simples em bém os outros prefixos são portadores de significativas indica- ça das disciplinas mas procura operar uma síntese entre os méto- ções semânticas: (vários) e (muitos) chamando dos utilizados, as leis formuladas e as aplicações De a atenção para a diversidade e quantidade das disciplinas em jo- modo semelhante, também Jantsch (1972), a propósito da trans- e (para além de), evocando a passagem qualitativa disciplinaridade, considera que ela corresponde a grau últi- a um estádio superior de articulação disciplinar. mo de coordenação susceptível de existir num sistema de educa- ção e que ela é etapa avançada relativamente à Na pluralidade de sentidos que conceito admite, é pois pos- (1972: sublinhados sível descobrir a tendência para inscrever a interdisciplinaridade num lugar intermédio ou de compromisso. Tal respeita, ao mes- Assim, não é porventura excessivo que se entenda por pluri- mo tempo, a etimologia e os elementos consensuais acima refe- disciplinaridade qualquer tipo de associação mínima entre duas ridos. De facto, pensar a interdisciplinaridade pela sua condição ou mais disciplinas, associação esta que, não exigindo alterações de médio>> contempla, quer modelo triádico de oposi- forma e organização da investigação e/ou ensino, supõe con- ções conceptuais, quer carácter intermédio com que o conceito tudo algum esforço de coordenação entre os investigadores e/ou de interdisciplinaridade é invariavelmente pensado. professores dessas disciplinas. A definição que mais se aproxima Pensamos por isso que, apesar desta deriva terminológica, há da que aqui propomos é a de Dellatre: associação de vantagem em tomar os conceitos de pluridisciplinaridade, inter- disciplinas que concorrem para uma realização comum mas sem disciplinaridade e transdisciplinaridade enquanto conceitos carac- que cada disciplina tenha que modificar sensivelmente a sua pró- terizadores de diversificadas práticas de investigação e pria visão de coisas e os seus métodos próprios>> (1973: 185). cias de ensino, como continuum de uma mesma Conforme os casos, esse esforço poderá traduzir-se numa sim- A pluridisciplinaridade seria o pólo mínimo da ples colaboração com vista à recolha de informações, na análi- plinar, a transdisciplinaridade o pólo máximo e a interdisciplina- se conjunta de um mesmo objecto, no encontro pontual para a ridade, o espaço alargado, o espectro de modalidades possíveis resolução de um problema concreto, no pôr em presença de di- entre esses dois limites. Por outras palavras, a interdisciplinarida- versas disciplinas com objectivo de esclarecer um mesmo ob- de caracterizaria então, e muito simplesmente, algo que acontece jecto mas sem o desejo de encontrar imediatamente uma solução entre (inter) a pluridisciplinaridade e a transdisciplinaridade, conjunta, etc. Próxima desta caracterização é ainda a definição</p><p>38 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 39 de Resweber (1981), autor para quem a pluridisciplinaridade se ciplinaridade dada por Berger (1972: 24), de caracteriza pela colocação em presença de disciplinas uma axiomática comum, nos parece incompleta, a de Gusdorf visando a análise de um mesmo objecto e sem implicar a elabo- (1990) é, segundo cremos, francamente excessiva a transdis- ração de uma síntese comum (cf. 1981: 71-73). ciplinaridade evoca aí perspectiva de transcendência que A partir do momento em que uma experiência, seja ela de in- se aventura para além dos limites do saber propriamente dito em vestigação ou de ensino, ultrapassa de alguma maneira estes mí- direcção a uma unidade de natureza nimos, estaríamos já face a uma experiência de interdisciplinari- A definição mais próxima da que aqui propomos seria ainda a de dade. Por interdisciplinaridade deveria então entender-se Piaget, autor quem a transdisciplinaridade, etapa superior qualquer forma de combinação entre duas ou mais disciplinas das relações interdisciplinares, só atingiria as où com vista à compreensão de um objecto a partir da confluência reciprocidades entre investigações especializadas, como situaria de pontos de vista diferentes e tendo como objectivo final a ela- tais relações no interior de um sistema total, sem fronteiras está- boração de uma síntese relativamente ao objecto comum. A in- veis entre as (1972:144 Tratar-se-ia então de uma terdisciplinaridade implicaria portanto alguma reorganização forma extrema de integração disciplinar, impossível nas circuns- dos processos de investigação e/ou ensino, supondo um trabalho tâncias actuais da ciência e da escola, mas para a qual, eventual- continuado de cooperação dos investigadores e/ou professores mente, aponta o próprio processo de desenvolvimento cogniti- envolvidos. Conforme os e os níveis de integração preten- e Rompendo as fronteiras entre as didos, ela pode traduzir-se num leque muito alargado de possi- disciplinas envolvidas, ela implicaria profundas alterações tanto bilidades: de problemática, conceitos e métodos nos dispositivos da investigação como nos regimes de ensino, de uma disciplina para outra>>, como quer Thom (1990: tanto na estruturação das comunidades científicas como na orga- 637), transposição de terminologias, tipos de discurso e argu- nização da instituição escolar. mentação, cooperação metodológica e instrumental, importação de conteúdos, problemas, exemplos, transferência de resultados É claro que esta inscrição da interdisciplinaridade entre a plu- e aplicações, etc. Como mostra Resweber, pela interdisciplinari- ridisciplinaridade e a transdisciplinaridade tem um mero alcance dade se revela de que modo a identidade do objecto de estudo esquemático. Mais do que fixar significado preciso de cada um se complexifica através dos diferentes métodos das várias disci- dos conceitos em análise, que ela visa é tão-só assinalar, no plinas, de que modo revela a sua problematicidade e torna ex- continuum de integração progressiva, algumas zonas de relativa plícita a sua mútua relatividade (cf. Resweber, 1981: 75). estabilidade, grandes configurações que permitam dizer a partir Finalmente, por transdisciplinaridade entender-se-ia o nível de que momento determinadas práticas podem deixar de ser qua- máximo de integração disciplinar. Tratar-se-ia então da unifica- lificadas como pluridisciplinares ou devem ser já inscritas no ção de disciplinas tendo por base a explicitação dos seus funda- campo da transdisciplinaridade mentos comuns, a construção de uma linguagem comum, a iden- tificação de estruturas e mecanismos comuns de compreensão do Este carácter vago não afecta apenas os contornos dos concei- real, a formulação de uma visão unitária e sistemática de um sec- tos que hoje utilizamos para pensar a articulação entre disciplinas. tor mais ou menos alargado do saber. Se a definição de transdis- Veremos que ele se manifesta também em termos de teorização.</p><p>40 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 41 NOTAS discutir o disciplinar da filosofia; que, em sentido escolar, se pode di- 1 É que já proclamava Gusdorf na entrada da zer a de educação física>> ou a que eu lecciono>>; e que, em sentido normativo, se pode falar da das dificuldades Encyclopediae Universalis (1986), ao afirmar a interdisciplinaridade como um fenómeno de moda. Sobre as dificuldades de definição do conceito de interdis- dos professores em manter a ou ainda do aluno 8 Porque, como faz notar Bechtel (1986a: 7), a interdisciplinaridade pode ocor- ciplinaridade, veja-se também Gozzer (1982), (1985), Lehmann e Schwartz (1990), Gabriel e Schwartz (1992), Levy (1992), Sinaceur (1983 e rer a qualquer dos níveis de especificidade com que o conceito de disciplina científica tem sido pensado (disciplinas como ramos fundamentais do conheci- 1992), Balsiger (1993), Lenoir (1997) e Paviani (2003). 2 De forma muito clara aí se manifesta a irredutibilidade da relação entre ciência mento científico ontologicamente diferenciados, campos, áreas, domínios, es- pecialidades, programas de investigação, grupos de investigação, etc.), usare- e escola. Na verdade, estas duas determinações da palavra estão de mos o conceito de disciplina para significar qualquer unidade disciplinar tal modo ligadas que é possível dizer que cada uma delas é, ao mesmo tempo, envolvida numa prática interdisciplinar. Para uma teorização do conceito de causa e consequência uma da outra. Sobre este tema, remetemos para o nosso es- tudo e construção do conhecimento científico>>, in Pombo (2002: disciplina em sentido cognitivo, veja-se Gil (1984, em especial 389-460), 182-227). Para uma tematização da duplicidade constitutiva do próprio concei- e também Laitko (1988) e Guntau e Laitko (1991). Vejam-se também Darden to de interdisciplinaridade, cf. Jantsch (1972), Zilles (1979) e Resweber (1981). e Maull (1977), autores que trabalham o conceito de e Shapere (1977, 1984 e 1984a) que estuda o conceito de Para uma discussão dos Curiosamente, é não reconhecimento desta articulação que permite a Michaud (1972) distinguir a interdisciplinaridade da pluridisciplinaridade. A seu ver, a conceitos de campo e domínio, tal como foram propostos por Darden e Maull, cf. Hagstrom (1972) e Gokalp (1989). primeira seria antes de mais uma categoria científica, a segunda, uma prática de 9 Esta é uma das conclusões a retirar dessas obras fundamentais de Michel Fou- ensino (cf. Michaud, 1972: 295). 3 Apresenta-se no final deste estudo uma bibliografia que recolhe algumas cente- cault que são L' Ordre du Discours (1970) e Surveiller et Punir (1975). Sobre nas de títulos. Para mais informação bibliográfica, cf. também Mathesis (1990a) esta articulação, vejam-se também as magníficas páginas dedicadas por F. Gil e (1991). ao tema e (Gil, 1984: 437-460). 4 Para uma apresentação comparativa das principais definições de interdisciplina- 10 A pluridisciplinaridade seria assim, como diz René Thom (1990: 636), cola- ridade e conceitos afins. Cf. adiante, um Vocabulário sobre Interdiscipli- boração em equipa de especialistas de diversas a multidisciplina- pp. 163-171. ridade dar-se-ia sempre que, como quer Piaget, solução de um problema 5 requer informações provenientes de duas ou mais ciências ou sectores do co- Quanto ao conceito de multidisciplinaridade que aparece também com muita fre- (1972: 141, sublinhados quência, ele é, em geral, ou tido como sinónimo de pluridisciplinaridade, ou pu- 11 Retomamos aqui, alargando-a para fora do contexto pedagógico em que então ra e simplesmente não considerado. Vejam-se, por exemplo, o caso de Piaget (1972: em especial, pp. 141 e seg.) que não considera o termo de pluridiscipli- a delimitámos, a proposta terminológica que apresentámos, pela primeira vez, naridade, ou o de Gusdorf (1977a: 588 e 1986:30) para quem o conceito de mul- no nosso estudo conceito, problemas e perspectivas in Pombo, Guimarães e Levy (1993: 10-14). tidisciplinaridade é dado como equivalente ao de Mesmo 12 Também Gilbert Durand considera a pluridisciplinaridade, a interdisciplinari- no caso de Berger (1972), que mantém os dois conceitos, a distinção entre eles é Multidisciplinaridade seria a de disciplinas diversas, às dade e a transdisciplinaridade como os três níveis da multidisciplinaridade (Du- rand, 1991: 35). vezes sem relação aparente entre elas (1972: 23) e pluridisciplinaridade, 13 taposição de disciplinas mais ou menos próximas nos seus campos de conheci- Nesta linha, os trabalhos mais significativos são os de Basarab Nicolescu (1985 e 1996). (ibid.). Diferença de tal modo ténue que a qualificação do tipo de rela- 14 ção estabelecida entre as disciplinas em causa é feita, nos dois casos, pela Que o digam Descartes, Leibniz ou Neurath, para não referir senão alguns dos palavra autores dos mais fortes e determinantes programas de unidade das ciências. 15 6 Para uma análise das relações entre interdisciplinaridade e disciplina, cf. Mit- Veja-se, por exemplo, McLuhan, autor para quem a escola tal como hoje a con- telstrass (1987), Heckhausen (1972), Boisot (1972) e também Léon (1980: cebemos, com os seus curricula segmentarizados, os seus programas especiali- 121-148), Kuczynski et alii (1983) e Thomson Klein (1996) e Moran (2001). zados, as suas salas sigilosamente separadas, os seus horários rígidos, a sua dis- 7 É assim que, em sentido cognitivo, se diz, por exemplo, que a matemática é uma ciplinaridade estanque, é uma figura irremediavelmente Coextensiva científica>>, que se podem referir as várias artísticas>> ou com a cultura guttenberguiana de que constitui uma das mais significativas rea- lizações, a escola e o tipo de ensino que nela se opera e produz obriga à</p><p>42 Olga Pombo apresentação disciplinada das ideias em enunciados formais de acordo com conexões lógicas explícitas, ao estabelecimento de sucessões discursivas linea- res de que são exemplo maior o equacionamento da realidade no espaço tridi- mensional de Euclides e as leis de causalidade linear estabelecidas pela ciência moderna. Baseada na lição, na escrita, no livro, na segmentação curricular, a escola tradicional promove uma aprendizagem sequencial, comulativa e frag- mentária que vai ter como efeito mais notório a ruptura entre as duas culturas: o humanismo eloquente e erudito e a especialização Pelo con- trário, segundo McLuhan, a cultura electrónica, ao proceder por instantaneidade eléctrica e por iluminação súbita dos vários sentidos, faz apelo à percepção glo- bal dos dados, à simultaneidade sensorial e à integração intelectual, aponta para uma estrutura interdisciplinar dos curricula e promove a integração dos saberes. Simultaneamente, ao permitir, e mesmo solicitar, a participação activa do estu- EM BUSCA DE UMA TEORIA dante no seu próprio processo de aprendizagem, ao colocar à sua frente um uni- verso permissivo onde a exploração imaginativa é livre de estabelecer encontros, aproximações, agregados sugestivos e redes analógicas insuspeitadas, a escola cibernética do futuro fará desaparecer a antinomia trabalho/lazer. Para referên- A infinitude do complexo. Teoria dos sistemas cias em McLuhan, vejam-se (1962) e (1977) e, em especial, o último capítulo de e unidade das ciências. Understanding Media (1964), texto no qual se encontram as suas mais explíci- tas e consistentes referências à inevitável transformação da Escola. Sobre o con- É no contexto da Teoria dos Sistemas que surgem os progra- ceito de escola em McLuhan, veja-se o nosso estudo (Pombo, 1994c). mas interdisciplinares mais significativos. Refiram-se, em espe- cial, os trabalhos de autor que identifica como pri- meiro objectivo da nova disciplina por si criada a integração das diversas ciências naturais e sociais (cf. Bertalanffy, 1968: 36). A teoria dos sistemas aparece assim como uma teoria geral da or- ganização capaz de fazer face aos efeitos perversos da especiali- zação da ciência moderna, ao enclausuramento das disciplinas e às suas dificuldades de comunicação (cf. Bertalanffy, 1968: 28-33)2. Também Kenneth Boulding, fundador, juntamente com Bertalanffy, da for General System Research em 1957, num texto intitulado General System Theory. The Skeleton of Science (1956) caracteriza a vocação interdisciplinar da Teoria dos Sistemas nos seguintes termos: teoria dos sistemas é es- da ciência no sentido em que ela procura oferecer um quadro ou estrutura de sistemas no qual se podem inscrever a car- ne e o sangue das disciplinas particulares e dos assuntos particu- lares num corpo de conhecimento ordenado e (1956: 17). O objectivo de Boulding é que aquilo que ele caracteriza co-</p><p>44 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 45 mo um (1956: 12) não degenere numa situação de mas, ao invés, desenvolva a sua única tentativa contemporânea para preparar um instrumento de própria estrutura, tarefa maior, a seu ver, da teoria dos sistemas. (Apostel, 1977: 20), ou seja, uma disciplina comparati- Mais do que definir cada ciência pelo seu objecto de estudo, o va e exacta que se pode aplicar tanto aos sistemas físicos como que equivale a reforçar a sua especialização, à teoria dos siste- sociais e psicológicos e que, por essa razão, constitui plano ar- mas importa portanto tentar compreender que liga as várias quitectural que pode permitir integrar de forma criativa os ciências entre si, que há de comum entre elas, o que nelas se tados das ciências naturais e humanas4. Inversamente, para Pur- cruza e transfere. Só assim ela estará em condições de fornecer sová (1984), que importa é procurar ver de que modo a Teoria instrumentos conceptuais utilizáveis pelas diversas disciplinas, dos Sistemas pode contribuir, não para a integração dos conhe- ampliar os domínios de aplicação de métodos e modelos já pro- cimentos científicos, mas para a identificação dos diversos con- vados numa ciência mas transferíveis para as outras, assinalar ceitos de sistema produzidos. E isto quer no interior das ciências isomorfismos entre fenómenos aparentemente diversos mas com particulares (conceitos intradisciplinares de sistema), quer nas afinidades profundas, identificar enfim princípios unificadores ciências de fronteira (conceitos interdisciplinares de sistema), das ciências particulares. Assinale-se ainda facto de Berta- quer na filosofia (conceitos supradisciplinares de sistema), área lanffy extrair da teoria dos sistemas uma posição muito clara em esta na qual autor situa a Teoria dos Sistemas de Bertalanffy, a favor do ensino integrado das ciências. Como escreve: ensi- Cibernética de Wiener e a desenvolvida no convencional da Física, da Biologia, da Psicologia ou das pela escola soviética (Blauberg, Yudin e Sadovsky). Neste últi- Ciências Sociais trata estas disciplinas como domínios separa- mo caso é curioso verificar a plasticidade do materialismo dia- dos. A tendência geral é transformá-las em ciências separadas, léctico. Como prolongamento da filosofia da natureza de Marx e subdomínios cada vez mais pequenos, ao ponto de cada especia- Engels, a Systems Approach atribui à filosofia a tarefa integra- lidade se tornar um pequeno modelo insignificante separado do dora de promover, por intermédio do estudo das propriedades, resto. Pelo contrário, a teoria dos sistemas procura satisfazer as leis e dos objectos materiais, uma compreensão uni- necessidades de educação em "generalistas científicos" compe- ficada do mundo. Neste sentido, a Teoria dos Sistemas não seria tentes e em "princípios fundamentais (Ber- senão uma manifestação da função integrativa mais radical da talanffy, 1968: 49). E, dando conta de um duplo objectivo, que dialéctica da própria perfeitamente se enquadra no espírito da interdisciplinaridade, se trata aqui de um simples programa ou voto Um dos desenvolvimentos mais explícitos da articulação en- piedoso porque, como procurámos mostrar, essa estrutura teóri- tre interdisciplinaridade e teoria dos sistemas é de Pierre De- ca já se encontra em processo de Neste senti- lattre. Em structure, fonction, évolution Essai d'a- do, a teoria dos sistemas parece ser um progresso importante pa- nalyse épistémologique (1971), Delattre defende que a origem ra uma síntese das disciplinas e para um ensino da Teoria dos Sistemas deve ser vista não tanto como resulta- (ibid., sublinhados do de uma transferência para a Biologia e para as Ciências Hu- Para além de Bertalanffy e de Boulding, refiram-se também manas de utensílios metodológicos da Matemática e da Física, Apostel e Para primeiro, a Teoria dos Sistemas é mas como a descoberta de problemas novos para todas as disci- plinas (cf. Delattre, 1971: 168-169). Dois anos mais tarde, em</p><p>Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 47 46 Recherches Interdisciplinaires. Objectifs et Difficultés (1973), intermédio do dilema aniquilação-integração e da necessidade tomando por base a constatação das capacidades sintéticas e me- de > (Delattre, 1981: 23). De assinalar ainda os efeitos éticos e políticos que se procu- O programa, talvez o mais fecundo, de cooperação interna en- rou produzir com a teoria dos sistemas. Trata-se de uma impli- tre disciplinas na construção de modelos de inteligibilidade de cação inscrita na ideia mesma de uma teoria global das formas objectos de fronteira, foi o da epistemologia genética de Jean de unificação do diverso e que constituiu, na sua origem, um dos Piaget. Ele coloca-se desde início num duplo plano: da efec- pontos de fuga relativamente ao positivismo. É assim que, por tiva prática interdisciplinar de investigação, e da problemática exemplo, num estudo intitulado general de sistemas y cognitiva da interdisciplinaridade, tematizando-a explicitamen- ética de los sistemas>> (Mier, 1984), Mier parte dos conceitos de te, não apenas em relação à epistemologia das ciências humanas e da conduta dos sistemas para (cf. Piaget, 1966, 1970a, 1976), como em termos do problema da desenvolver a ideia da dos que ilustra por unidade das ciências (cf. Piaget, 1967, 1970, 1971, 1972). Pers-</p><p>48 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 49 pectiva extremamente influente, esta proposta tem ainda méri- Ainda neste plano epistemológico, é impossível não referir es- to de dar conta das múltiplas dificuldades inerentes à prática in- se texto inaugural da inscrição da interdisciplinaridade no pro- terdisciplinar a nível da grama da unidade da ciência que é Unity of Science as a Social A posição de Piaget está construída com base em dois ele- Problem (1962) de Dewey. Texto que, para lá do facto de per- mentos. Em primeiro lugar, Piaget faz radicar fundamento da mitir uma singular articulação entre a problemática da interdis- na unidade e complexidade do próprio ob- ciplinaridade e para a Unidade da for- jecto da ciência. O progresso do conhecimento científico faz-se nece importantes elementos para a discussão da importância pela procura de determinações cada vez mais profundas da rea- cultural, social e mesmo política da prática interdisciplinar, tan- lidade, determinações essas que rompem com as barreiras su- to na investigação como na educação científicas. Como Dewey perficiais entre as várias disciplinas correspondentes a estados escreve: unidade da ciência aparece normalmente referida menos adiantados da análise. Piaget defende mesmo, em Métho- em conexão com a unificação dos resultados obtidos pela ciên- dologie des Rélations Interdisciplinaires (1971), que futuro cia. Nesté campo, o problema de se conseguir a unidade da ciên- das ciências experimentais parece advir do das relações interdis- cia é da coordenação do disperso e imenso corpo de descober- (Piaget, 1971: 539). Em segundo lugar, considera a tas especializadas no seio de um todo sistemático. Este problema necessidade de distinguir três tipos de relações interdisciplinares é real e não pode ser negligenciado. Mas há também um signifi- (verticais, horizontais e cooperação interdisciplinar) correspon- cado humano, cultural, da unidade da ciência. Há, por exemplo, dentes a outros tantos tipos de relações entre ciências: 1) entre a questão da unificação dos esforços de todos aqueles que utili- ciências hierarquizáveis, como, por exemplo, entre a psicologia zam método científico nos seus próprios problemas, de modo e a biologia, sendo então necessário evitar reduções de sentido que estes esforços possam ganhar a força que advém do esforço único, seja do nível superior ao inferior ou do inferior ao supe- (Dewey, 1962: 32). Quer isto dizer que, no coração da rior, e antes procurar estabelecimento de assimilações recípro- International Encyclopaedia of Unified Science, manifestação cas (cf. Piaget, 1971: 541-544); 2) entre ciências não hierarqui- privilegiada do programa neopositivista da unidade da ciência, záveis, como, por exemplo, entre a psicologia e a linguística. Dewey opera um deslocamento importante. Ao contrário de Car- sendo aqui igualmente necessário escapar à lógica reducionista e nap e dos outros colaboradores, o problema central da unidade garantir a pluralidade de assimilações recíprocas em todas as da ciência não diz respeito à ciência enquanto corpo e fronteiras das duas disciplinas (cf. Piaget, 1971: 544-546) e, 3) imenso>> de conhecimentos. Dewey reconhece a necessidade entre ciências de factos e ciências dedutivas, como, por exemplo, e de unificar os resultados dos sa- a psicologia e a lógica, disciplinas que, não tendo procedimen- beres especializados. Mas, a seu ver, a tarefa prioritária é a união tos comuns, ainda assim permitem estabelecimento de uma dos esforços daqueles que reconhecem O valor decisivo da atitu- cooperação com vista à resolução de problemas que exigem a de científica, atitude que se define negativamente como não confrontação entre factos e normas formais (por exemplo, de- sujeição ao controlo da rotina, do preconceito, do dogma, da tra- senvolvimento psicogenético das estruturas lógicas (cf. Piaget, dição não submetida a exame, do puro interesse (De- 1971: 546-549). wey, 1962: 31) e, positivamente, como a de inquirir, de examinar, de discriminar, de chegar a conclusões apenas com</p><p>50 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 51 base na evidência depois de um esforço de reunião com todas as traçam os lugares das suas autonomias para desenhar, com a pre- provas disponíveis (ibid.). Embora os dois conceitos de ciência, cisão de um agrimensor, os pontos de intercessão possível entre como corpo de conhecimentos e como atitude, não sejam sepa- territórios do conhecimento, até uma certa globalidade difusa da rados e existam em conexão um com o outro, no entanto, é a ati- verdade, orientada pela nostalgia de uma unidade ingénua do vi- tude científica que tem prioridade temporal. a unidade vido, pode dizer-se que os procedimentos orientados pela ideia da ciência é levar aqueles que a aceitam [à atitude científica] e de fecundação recíproca das disciplinas legitimaram quase tudo. trabalham com ela a uma cooperação activa entre si. Este pro- A interdisciplinaridade gerou assim um novo tipo de problemas: blema transcende em importância o problema mais técnico da os da sua própria perversão. Compreende-se por isso que tenham unificação dos resultados das ciências particulares, tem priorida- surgido então aproximações quase ortopédicas, algo entre o es- de sobre (Dewey, 1962: 33). Ora, como essa atitude não é catológico e o libertário. O livro Interdisciplinarité et Ideologies propriedade apenas da comunidade científica ela é partilhada de Palmade (1979) é exemplar. Face aos perigos da interdisci- por todos que lidam, inteligente e abertamente, com os plinaridade quando ela procura, de forma abrupta, objectos e energias do meio (ibid.) a unidade da das (1979: 21), Palmade procura preservar as virtu- ciência surge então como um problema simultaneamente cientí- des das fronteiras entre ciências. A interdisciplinaridade teria co- fico, social e educativo. Ela consiste no desenvolvimento da ati- mo vocação fundamentar programas de atenção aos isomorfis- tude científica, tanto a nível daqueles que reconhecem essa ati- mos e estruturas comuns a diversas áreas do conhecimento; tude e que com ela trabalham (comunidade científica), como a programas de atenção à promoção do respeito pela singularida- nível daqueles que têm vivido à sua margem ou mesmo contra de e especificidade das disciplinas, das suas metodologias pró- ela (ignorantes e inimigos da atitude científica), como ainda a ní- prias, dos seus processos de conhecimento, de valorização do vel daqueles que têm de ser preparados para dar lhe continuida- trabalho em equipa, de instauração de situações de complemen- de (crianças e jovens em processo de educação). Como justa- taridade e interrogação recíproca (cf. 1979: 286 e mente assinala Salmeron, antigo ideal de Peirce de uma Já Resweber, em La Méthode Interdisciplinaire (1981), pro- comunidade genuína de investigadores comprometidos numa cura uma terapia normativa. Ele propõe uma análise da interdis- actividade contínua e dispostos a rever criticamente tanto os seus ciplinaridade enquanto programa metodológico que recusa tanto propósitos como os resultados do seu trabalho encontra em De- a planificação unitária, quanto a dispersão anárquica que arrasta wey um complemento final na (1982: 71). cada especialista para a deriva face ao seu método próprio. Par- tindo da tese segundo a qual a interdisciplinaridade se impõe mo uma</p><p>52 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 53 lização dessa tarefa essencial, e ao contrário do que se poderia catológica. Ela aponta com intenção profética para os factos da pensar, a interdisciplinaridade não procura apagar as linhas de existência humana a partir dos quais se ordenam as várias apro- demarcação entre as diferentes disciplinas ou fundi-las numa in- ximações ao conhecimento e mostra que essa (unidade) é uma determinação globalizante: > 44). A sua Mas não foi só Gusdorf que procurou preservar, na racionali- consiste em saber de tal dade polifónica da interdisciplinaridade, a expressão de um fac- modo que se não obscureça a verdade sob o horizonte totalitário to essencial da condição humana. Este mesmo pressuposto hu- das suas (ibid.)8. manista da unidade do conhecimento, enquanto expressão de uma realidade estável e universal que seria a humanidade do ho- Este cuidado com os fundamentos e os limites da interdisci- mem, pode ser encontrado em Bobossov (1978). Ele parte do re- plinaridade não marcou apenas os seus efeitos metodológicos. conhecimento da eternidade e sobretudo da actualidade do con- Ele foi estendido até às suas raízes antropológicas. Modificar as ceito de Homem, da sua constituição enquanto problema rotinas do saber é tocar naquilo que há de essencial na face cog- científico central, não apenas das ciências humanas e sociais, nitiva do homem, é inscrevê-lo desde a origem nos procedimen- mas de todas as ciências, inclusive das ciências naturais e técni- tos de articulação entre disciplinas, permitindo a emergência de cas. Por isso ele pode defender uma interdiscipli- uma inteligência plural do mundo. É que faz Georges Gusdorf nar ao problema do homem, aproximação na qual se reúnam e quando, através de uma análise simultaneamente histórica e pro- entrelacem os métodos e as ideias das diferentes ciências, onde blemática, defende a necessidade da inscrição do problema da as conquistas fundamentais de umas conduzam eventualmente à interdisciplinaridade num projecto antropológico que reconheça transformação das aplicações das outras (1978: Bobossov ao ser humano seu privilegiado de ponto de partida e de está sobretudo a pensar na interpenetração dos domínios da re- ponto de chegada de todas as formas do (1986: gulação automática dos processos de produção (o trabalho) e das 31), isto é, pólo de todos os esforços cognitivos que homem técnica da comunicação, no contributo que a antropologia, a ci- desencadeia e que nele apenas podem reencontrar seu hori- bernética, a economia, a psicologia e sociologia industriais, a er- zonte de sentido9. É porque parte da ideia de uma unidade ideal gonomia, a estética industrial e, em geral, todas as ciências hu- do humano para descrever os seus contornos nos saberes por ele manas podem dar para a compreensão dos homens na variedade mesmo produzidos que Gusdorf pode proclamar a necessidade das suas relações, sentimentos e condições sociais de existência de uma interdisciplinar que inverta sentido da (1978: 28-35). Trata-se no fundo de constituir uma fragmentação dos saberes e reconheça O homem como ponto de científica>>, uma filosofia que, na tradição marxista, encare o ho- reagrupamento de todos os propósitos de investigação nos di- mem de forma integrativa, reconhecendo-o não apenas como su- versos domínios do saber, isto é, como inalienável jeito, mas como objecto de todas as ciências humanas, sociais de todo empreendimento de (1986: 35). Como e naturais isto é, que tome não como uma essência abstrac- escreve em Past, Present and Future in Interdisciplinary Re- ta, mas na sua condição de sujeito histórico concreto. Se bem search (1977a: 598), unidade interdisciplinar só pode ser es- que não tenha sentido falar ainda hoje de uma época do homem</p><p>54 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 55 interdisciplinar, é para esse novo homem que Bobossov aponta, bilidade de um novo espírito científico, aberto ao diálogo, cons- trabalhando no sentido de uma aplicação articulada da diversi- ciente da necessidade de buscar novamente a unidade e sentido dade disciplinar que define o conhecimento. do saber. De Zan revela então a sua intenção instauradora das condições de um programa consequente de interdisciplinaridade. Chamámos a estes programas antropológicos porque eles ex- Ele supõe uma solução paradoxal. Por um lado, reconheci- cedem deliberadamente o plano epistemológico onde habitual- mento da da autonomia e pluralismo (1983: mente se movem as reflexões sobre a interdisciplinaridade. Na 101) que governa o destino do conhecimento científico. As ciên- urgência de impedirem o uso da interdisciplinaridade como cor- cias, na sua diversidade de objectos e de métodos, na singulari- rectivo puramente processual da dispersão dos objectos, dos mé- dade dos seus mecanismos de crescimento interno, são irredutí- todos e dos procedimentos científicos, eles transformam a har- veis entre si. Reina aí um pluralismo absoluto. Mas, por outro monia entre ciências num facto não tanto do conhecimento, mas lado, exige-se um olhar unificante dessa diversidade. E esse da humanidade do homem. olhar só pode ser dado por algo exterior às urgências do próprio De Zan (1978 e sobretudo 1983), apesar de retomar muitos conhecimento. Essa seria a tarefa da filosofia, enquanto dos argumentos do humanismo da unidade do conhecimento, re- gência, que surge no seio da ciência contemporânea, de uma in- conduz ao plano epistemológico o combate contra a dispersão terpretação sintética e (1983: 108). disciplinar. Partindo de uma caracterização crítica, largamente Nessa mesma linha, Martin Carrier e Jurgen Mittelstrass inspirada em Ortega Y Gasset (cf. 1929: 56-59, 62 e segs.), dos (1990) oferecem uma perspectiva alargada do problema da in- mecanismos da especialização e da ideologia cientista, De Zan terdisciplinaridade nas suas relações com fenómeno da atomi- analisa as consequências da desintegração do saber, quer para as zação disciplinar. Eles afirmam-se expressamente contra os pro- próprias ciências (que assim perdem consciência integrativa jectos de unidade da ciência formulados no quadro do que lhes permite questionar o domínio indiscutido dos factos), empirismo lógico (unidade da linguagem e unidade das leis cien- quer para os seus praticantes, esses humanos atípi- tíficas). Carrier e Mittelstrass mostram subtilmente os limites do cos e sem par na História>> (1983: 62) que são os especialistas, modelo reducionista, no seu projecto de recondução do conjun- quer ainda para a civilização em geral, ameaçada, hoje mais que to das ciências à Física e à Química. Eles pelo contrá- ontem, por uma perigosa tendência para a desagregação e for- rio, uma unidade de métodos, aquilo a que chamam unidade mação de clãs incomunicantes e hostis. Da crítica cerrada ao prática e operacional da ciência>>. A unidade da ciência poderia cientismo, reconhecido como fenómeno hoje anacrónico e cada assim consistir, não na unidade da sua linguagem e teorias, mas vez mais raro mas cuja consideração é indispensável para a na unidade dos seus processos de produção e progresso do co- compreensão das transformações que definem o perfil cultural nhecimento, isto é, na unidade da racionalidade científica ou da ciência contemporânea (no reconhecimento das suas incidên- dos critérios de racionalidade científica>> (1990: 28) e na unida- cias práxicas, na alteração da sua imagem pública, no desenvol- de de uma forma de investigação interdisciplinar, caracterizada vimento da sua autoconsciência crítica, no movimento de des- em larga escala pela confrontação com problemas solução dogmatização que a epistemologia contemporânea estabelece e exige o esforço cooperativo de sub-áreas capazes de se modifi- consagra) o autor acede à pergunta pelas condições de possi- carem em virtude desse mesmo (1990:29)</p><p>56 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 57 Uma concepção ecológica (utópica) da interdisciplinaridade ciador de futuros possíveis. Trata-se de uma análise que opera sobre factos, equaciona cenários e delimita linhas prospectivas Atentemos por último e valerá a pena fazê-lo com algum de- de actuação, uma análise que toma os factos (ambientais, sociais talhe numa singular tentativa de teorização da ideia de inter- e mentais) na sua efectividade visível, os interpreta no seu sen- disciplinaridade a partir de uma perspectiva já não tido virtual, enquanto sinais indiciadores de efeitos previsíveis ca, ou mesmo antropológica, mas É caso de Felix das transformações em curso e, simultaneamente, propõe e in- Guattari em Fondements Ethico-politiques de centiva formas criativas de intervenção. Situação actual que, se- té (1992). Mais do que o cruzamento das a interdisci- gundo Guattari, se deixa caracterizar, a partir dos finais dos anos plinaridade é aí pensada como uma práxis individual e colectiva 80, pelos seguintes traços: 1) intensa transformação técnico- que se reencontra com os seus comprometimentos ecológicos. ou -científica (revolução informática e robótica); 2) aceleração das como o autor prefere. Como Guattari escreve: velocidades de transporte e comunicação, interdependência dos questão da interdisciplinaridade desloca-se assim do domínio centros urbanos; 3) constituição de uma nova formação capita- cognitivo para os domínios sociais, políticos, éticos e mesmo es- lista post-industrial capitalismo mundial integrado ali- (1992: 101). cerçado já não em sistemas produtivos de bens materiais ou de serviços mas em produtoras de signos, de sintaxe e Num texto anterior intitulado Les trois écologies, Felix Guatta- de (1989: semióticas económicas (mundia- ri (1989) havia já defendido a necessidade do alargamento do con- lização do mercado), semióticas jurídicas e técnico-científicas ceito de De mero discurso ou folclorizante de (que lhe permitem enquadramento das relações sociais e inter- defesa da natureza, esse conceito devia abrir-se de modo a poder nacionais em grandes máquinas policiais e militares e semióticas pensar, nas suas articulações internas, as questões ambientais, so- de subjectivação (controlo dos media, da publicidade, do siste- ciais e mentais. Muito para lá de um mero alcance cognitivo, a ma de sondagens, do urbanismo, etc.); 4) perda do sentido das ecologia generalizada ou é um projecto que reclama solidariedades grupais e internacionais (desterritorialização sel- para si a responsabilidade de um compromisso ético-político que vagem do terceiro mundo, sistematicamente afectado na sua tex- visa contrariar a passividade e fomentar a de confian- tura cultural, no seu habitat, nas suas defesas imunitárias, no seu ça da humanidade nela Como Guattari es- clima, reforço das atitudes segregacionistas (imigrantes, mulhe- creve, relações da humanidade com socius, a psyche e a res, jovens, idosos; 5) desnaturização e perda de eficácia das for- natureza tendem a deteriorar-se cada vez mais, não apenas em mações de emancipação anticapitalista (sindicatos e partidos de consequência de prejuízos e poluições objectivas, mas também esquerda) que, por introjecção do poder repressivo, entravam no por efeito de um desconhecimento e de uma passividade fatalista seu seio a inovação e a expressão livre de ideias e que, por isso, dos indivíduos e dos poderes em relação a estas questões conside- se fecham num obreirismo corporativista deslocado e dogmáti- radas no seu (1989: 31). 6) aparecimento de novas formações proletárias (desempre- Guattari parte de uma análise da situação actual da humanida- gados, imigrados, marginais; 7) redução ao mínimo das relações de no planeta Terra e procura perscrutar aquilo que nela é anun- de parentesco e deterioração dos modos de vida individuais e colectivos em consequência dos efeitos de e in-</p><p>58 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 59 fantilização resultante do consumo mass-mediático; 8) tendência cultura seria, não uma manifestação decadente da socie- ao esvaziamento da subjectividade como resultado do exacerba- dade capitalista como a análise esquerdista canónica tende a mento do consumo de bens materiais e imateriais em detrimen- encará-lo mas, ao invés, como defende Guattari (cf. 1989: 20), to da fixação de territórios e existências congruentes e autóno- uma forma de distanciação e singularização da juventude face à mos (cf. 1989: 15-43). subjectividade normalizada engendrada pelo poder capitalista. Neste contexto global de desmoronamento de valores e práti- Ainda que, como vimos, tudo possa acontecer, piores ca- cas tradicionais, de descentração e multiplicação de antagonis- tástrofes como as evoluções (1989: 68), vários factores mos, de grandes desequilíbrios ambientais e sociais, nenhum des- jogam a favor de um certo optimismo: a possibilidade sempre fecho está antecipadamente determinado. Nenhuma esperança em aberto, de uma brusca tomada de consciência pelas massas; salvífica, nenhuma crença num inevitável caminho de progresso, a provável emergência de novos arranjos na luta de classes re- nenhum determinismo infra-estrutural é hoje aceitável. Uma só sultante do afundamento das organizações de tipo estalinista; a certeza nos habita: não é possível voltar atrás, reencontrar os an- hipótese de uma utilização singularizadora dos media como con- tigos equilíbrios e as formas de vida do passado. O futuro está sequência da sua própria evolução, sobretudo da sua miniaturi- aberto. Tudo pode acontecer: a catástrofe ou a resposta zação e baixa de custo; o crescente apelo a uma produção cria- ria; a barbárie ou a solução cionista, tanto individual como colectiva, resultante da Assim, por exemplo, a disponibilização de cada vez maiores recomposição do regime de trabalho nos escombros da era in- quantidades de actividade humana potencial, resultante do de- dustrial; a sobreposição de modos de existência altamente in- senvolvimento do trabalho maquinal e dos progressos da revolu- dustrializados sobre comunidades e subjectividades que conser- ção informática, tanto poderá ter efeitos desastrosos e patológi- vam traços muito fortes de antigas formas de existência, como é cos (aumento do desemprego, marginalização cada vez maior o caso do Japão, da Itália e de alguns países do Terceiro Mundo das camadas jovens e idosas da população e dos trabalhadores (cf. 1989: 63-64). desqualificados, solidão, angústia, neurose), como ser canalizada Porém, para que uma resposta satisfatória possa ser encontra- para formas criativas de investigação e reinvenção do ambiente, da, é necessária uma revolução política, social e cultural de al- dos modos de vida social, da sensibilidade. Do mesmo modo, a cance planetário (1989: 14). Uma revolução que articule, har- resposta aos fenómenos de mundialização dos padrões civiliza- monize e considere conjuntamente os três fundamentais cionais e de uniformização e nivelamento mass-mediático tanto (ambiental, social e mental) de uma ecologia generalizada. De pode conduzir ao completo esgotamento da subjectividade, à ani- uma vez por todas, é necessário deixar de separar Natureza e quilação de toda a capacidade de resistência ao conformismo e à Cultura. Por um lado, é notória a incapacidade dos poderes cen- manipulação, como originar uma explosão de reivindicações de trais e das instâncias executivas para apreender a problemática singularidade de toda a espécie, desde os nacionalismos, autono- ecológica nas suas múltiplas facetas e Numa es- mismos, integralismos religiosos, racismos, etc. a que hoje assis- tratégia de > (1989: 32), os poderes centrais e os media por invenção pedagógica. Neste sentido, carácter transnacional da eles controlados recusam-se a estabelecer quaisquer relações</p><p>60 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 61 entre os fenómenos de degradação ambiental, social e psicológi- Como Guattari adverte, não se trata de, como aconteceu no ca. Determinadas apenas pela lógica do lucro, as políticas ecoló- passado, fazer funcionar de forma unívoca uma qualquer ideolo- gicas adoptadas são sempre sectoriais, não ultrapassam nunca gia, renovar antigas formas de militantismo, ou pôr em marcha uma perspectiva industrial e tecnocrática, revelam-se incapazes um discurso de enfrentamento de classes por intermédio de pa- de articular, de forma útil e operatória, as próprias transforma- lavras de ordem redutoras do domínio das Pelo ções e desenvolvimentos técnico-científicos (cf. 1989: 12-17). contrário, programa ecosófico, prático e es- Por outro lado, as forças sociais organizadas (sindicatos, igrejas, peculativo, ético-político e (1989: 70), visa fomentar formações políticas, partidos de esquerda) não conseguem per- todos os vectores potenciais de singularização, apoiar todas as ceber as novas realidades sociais e a sua lógica, ou sequer con- aberturas prospectivas e inovadoras, tanto a nível molar como gregar as novas reivindicações de singularidade que, aqui e molecular, tanto de natureza teórica e comunicacional como além, se fazem sentir. Por conservadorismo dogmático, as suas existencial e experimental. análises continuam a privilegiar os efeitos económicos infra- A nível mental, em vez de reprimir e censurar, em nome de -estruturais, sem reconhecer a importância dos novos operadores grandes princípios morais, as formas de expressão das subjecti- simbólicos e comunicativos na modelação da subjectividade in- vidades, ou de as apreciar por meros critérios de eficacidade, dividual e colectiva. rendimento e lucro, importa apoiar todas as formas de produção Ora, segundo Guattari, capitalismo avançado dispõe hoje de da subjectividade, centradas sobre respeito da singularidade, meios que lhe permitem não só evitar os perigos da convivencia- da sua autonomia e ética individual, fomentar todas as formas de lidade pelos mecanismos de fechamento característicos da célula criação artística, permitir a expressão das singularidades isola- familiar burguesa, não só invadir a privacidade de cada lar e de das, recalcadas, fechadas sobre si próprias, experimentar alter- cada consciência pela acção de operadores capazes de gerir nativas válidas de articulação com a sociedade. A nível social, há mundo da infância, do amor, da angústia, da dor, da morte, da que proceder à reinvenção da práxis social humana, pela inven- criação artística, como impedir toda a singularidade sobrepondo- ção de novas formas de vida quotidiana, doméstica, conjugal, -lhe a constituição de</p><p>62 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 63 biental, importará não apenas defender a natureza, mas desenca- A prática da interdisciplinaridade ecosófica é ainda pensada dear uma ofensiva de reparação, restabelecimento e regulação por Guattari em função dos seus efeitos. Na verdade, ela vem re- maquínica dos equilíbrios naturais dependentes, de um modo velar que os diferentes domínios não são fechados sobre si mes- cada dia mais profundo e inevitável, das intervenções humanas mos mas, ao invés, são atravessados por uma comum precarie- (cf. 1989: 68-69). dade, finitude, singularidade e capacidade processual. Por outras palavras, tal como é pensada pela ecosofia, a interdisciplinarida- Ao operar tanto sob o regime da resistência como sob o da de teria como determinações ou efeitos maiores a abertura práxi- contra-ofensiva face à mass-mediática, ao con- ca dos vários domínios implicados, a sua solidariedade episte- formismo das modas, às manipulações da opinião pela publici- mológica (decorrente da consciência da sua comum precariedade dade, pelas sondagens, (1989: 23), a ecosofia implica, por e finitude), o reconhecimento da sua capacidade de diferenciação isso, a responsabilização e o envolvimento ético-político de to- singularizadora e o acréscimo da sua produção discursiva ou ca- dos aqueles que têm possibilidade de intervir nas pacidade processual. quicas individuais e (1989: 29), isto é, nas institui- Um último traço diz respeito ao facto de o projecto ecosófico ções de educação, saúde e assistência, cultura, desporto, nos de Guattari ser definido pelo seu carácter simultaneamente teóri- media, na moda, etc. Aí, ela visa fazer valer princípio artístico CO e prático, especulativo e interventivo, pela sua dimensão ética da singularização e reinvenção permanente das práticas sociais e e estética, sendo que, como o autor esclarece, termo ético visa individuais. assinalar a necessidade de um compromisso na acção, e o termo estético a necessidade de invenção e reinvenção permanentes. Embora, em toda esta obra, não haja sequer uma única ocor- Assim sendo, é o próprio conceito de interdisciplinaridade que rência da palavra interdisciplinaridade, a sua necessidade está resulta afectado dessas determinações. Mais do que um processo suposta de forma implícita e é requerida, por diversas vezes, na de articulação e complementaridade de domínios cognitivos, a in- arquitectura da teorização aí desenvolvida. Desde logo, a própria terdisciplinaridade, tal como ela se deixa pensar através do pro- definição de um programa ecosófico enquanto necessidade de grama ecosófico, adquire um sentido político, ético e estético. articulação global dos registos ambientais, sociais e mentais supõe uma transversalidade interdisciplinar. Como Guattari es- Neste contexto problemático e programático, não é pois de es- creve, necessário aprender a pensar as in- tranhar que, no texto posterior acima referido, Fondements teracções entre ecossistemas, mecanosfera e Universos de refe- Ethico-Politiques de l'Interdisciplinarité (1992), Guattari pense rência sociais e (1989: 34). Transversalidade que, explicitamente a figura da interdisciplinaridade. O aspecto mais envolvendo uma multiplicidade de domínios disciplinares, a marcante da teorização aí apresentada é, de facto, o alargamen- saber, a ecologia, a sociologia, a economia, a psicologia, a psi- to máximo (ecológico) do conceito de interdisciplinaridade, quiatria, a psicanálise, a análise institucional, etc., é pensada, aquilo a que poderíamos chamar a do conceito de fundamentalmente, sob dois modelos: da articulação ou inte- racção e o da complementaridade ou jogo perspectivista (cf. Guattari assinala três grandes vectores de expansão da inter- 1989: 23-32). disciplinaridade. Num caso, a interdisciplinaridade consistiria</p><p>64 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 65 no abandono da perspectiva tradicional e etnocêntrica branco, adulto, competitivo) e na exploração complementar de Assim como a acção humana não pode ser isolada do univer- perspectivas divergentes (mulher, criança, velhos, deficientes) SO pessoal de valores que lhe dá sentido, assim também a inves- (cf. 1992: 105). Ao funcionar sob o modelo do jogo perspecti- tigação do fenómeno humano deverá de forma trans- vista, a interdisciplinaridade é aqui assimilada a um processo de versal entre a ciência, socius, o estético e (1992: fuga relativamente ao olhar estandardizado imposto pelos media 105). Não basta pois compreender a íntima relação existente en- e, consequentemente, meio possível de singularização e recon- tre os domínios das várias ciências humanas e do ambiente. É ur- quista da subjectividade. gente compreender também que as novas análises produzidas Um outro vector de desenvolvimento da interdisciplinaridade por essa investigação interdisciplinar têm de ser postas ao servi- situa-se no quadro das novas tecnologias. O seu da transformação da vida colectiva, social e individual (me- to faz supor, quer a articulação múltipla dos diversos domínios dicina, educação, vida familiar, relações de vizinhança, relações de poder, etc.). da cultura aos quais, mercê da progressiva libertação do homem face ao trabalho, se dedicarão cada vez maiores camadas da po- Fica assim consumado o completo deslocamento da interdis- pulação; quer aparecimento de uma > (1992: 104). de dados entre domínios até aqui completamente heterogéneos. Em todos os casos, modelo de interdisciplinaridade aqui ex- De referir ainda que, fiel ao seu programa ecosófico, Guattari é plorado é da interacção. conduzido a pensar a interdisciplinaridade a uma escala planetá- Porém, como não podia deixar de ser tendo em vista a nature- ria. Os problemas ecosóficos (simultaneamente ambientais, so- za do projecto ecosófico de Guattari, é a investigação nas ciên- ciais e mentais) nunca se colocam num único bairro, país ou con- cias humanas e do ambiente, aqui conjuntamente pensadas, que tinente nem, por maioria de razão, são resolúveis de forma se revela como mais importante campo de aplicação da inter- sectorial, local ou estritamente Ao invés, dada a íntima Ainda que estas ciências, porque se mantêm em articulação dos domínios ecológicos e a cada vez mais estreita in- grande parte enfeudadas a um paradigma cientista, sobrevalori- terdependência das regiões do globo, a interdisciplinaridade zem os aspectos cognitivos e objectiváveis da acção humana, e transporta consigo a de transformação da condição hu- tendam por isso a pensá-la desligada dos subjectivos de mana no (1992: 104). De simples processo de transver- responsabilidade e envolvimento (1992: 101), qualquer salidade, articulação ou jogo de espelhos, ou virtuosa interdisciplinaridade neste campo deverá, pelo contrário, reco- mobilidade de perspectivas, a interdisciplinaridade passa, insensi- nhecer a sua efectividade prática e seu alcance político. velmente, ao estatuto de perspectiva globalizadora. de horizonte privilegiado de sentido em função do qual, se podem</p><p>Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 67 66 e devem situar, dimensionar, problematizar e valorizar as ques- de ler na alocução inaugural do célebre colóquio internacional tões locais relativas à vida dos indivíduos e dos grupos. organizado pela Unesco em 1967 sobre o tema Science et Dadas as virtualidades da interdisciplinaridade, Guattari ainda Synthèse, à especialização crescente do pensamento e da refere a necessidade da constituição de equipas interdisciplina- acção pela diversificação da investigação e da divisão do traba- res com a missão de proceder à sobre a investiga- lho, a Unesco visa favorecer as investigações e as confrontações (1992a: 106), isto é, registar as experiências inovadoras interdisciplinares, encorajar as reflexões de conjunto, sublinhar que se vão realizando, os seus sucessos e fracassos e que, na au- a importância vital do espírito de síntese para o equilíbrio da sência de caminhos já desbravados, de orientações pedagógicas nossa (Maheu, já traçadas, possuíssem gosto estético de invenção e reinvenção É neste contexto que vão ser desencadeadas diversas iniciati- permanentes, capacidade de gosto do risco, capaci- vas no sentido de promover a reflexão sobre a interdisciplinari- dade para sair dos esquemas preestabelecidos, maturação da per- dade, tanto a nível do ensino, como da construção do conheci- (1992: 107). mento científico. O projecto de constituição de um de investigação interdisciplinar em ciências redigido a Mais do que um alargamento ecológico da questão da interdis- pedido da Unesco por Georges Gusdorf17 é um bom exemplo. ciplinaridade, já por várias vezes estamos pois pe- Como forma de inverter e compensar a especialização crescente rante um texto que nos surpreende pela ambição do seu âmbito e dos conhecimentos humanos, de tornar possível a passagem da sua proposta. Segundo Guattari, a nossa situação no mundo de ciências humanas à ciência do homem (Gusdorf, 1967a: hoje só pode ser pensada e transformada a partir de uma 39), o projecto visava constituir uma organização modelar de in- perspectiva interdisciplinar mediante a qual nos seja possível fa- vestigação interdisciplinar, uma que trabalhas- zer recuo planetário e problematizar as questões locais a par- se para tornar possível uma tomada de consciência unitária da tir de horizontes que pusessem em jogo o conjunto da vida e das cultura do nosso tempo>> (ibid.). Nesse sentido, Gusdorf prevê a relações constituição de um instituto internacional, diferente quer de uma academia quer de uma superuniversidade (cf. 1967a: 58), um composto por um número limitado de A institucionalização da teoria membros escolhidos em função da sua competência num deter- minado domínio da informação relativa a domínios Este esforço de teorização da interdisciplinaridade - mau vizinhos, e da atenção, abertura de espírito e curiosidade relati- grado facto de não ter permitido constituir (ainda?) um pro- vamente à realidade humana no seu conjunto (cf. 1967: grama consistente encontrou, paralelamente, o seu lugar pri- O centro assim constituído deveria ser capaz de assumir diferen- vilegiado de legitimação na esfera das instituições interuniversi- tes objectivos: avanço na investigação interdisciplinar da ciência tárias e mesmo de cooperação internacional. Refira-se, a título do homem; tomada de consciência dos diferentes saberes espe- de exemplo, papel da Unesco que, a partir dos anos 60, inter- cializados; informação e formação no sentido da unidade das preta em termos de interdisciplinaridade a sua vocação enquan- ciências; definição de uma pedagogia da convergência interdis- to organização mundial de coordenação intelectual. Como se po- ciplinar (cf. 1967a: 40-41). No número das tarefas precisas a</p><p>68 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 69 realizar, Gusdorf especifica as seguintes: 1) criação de um loque International sur l'Interdisciplinarité, promovido pela cabulário ou comunidade de capaz, não tanto de Unesco e realizado em Paris, de 16 a 19 de Abril de 1991 e o eliminar, censurar ou julgar conceitos provenientes das diversas 1.° Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, promovido especialidades, mas de recensear divergências de significação; tambem pela Unesco e realizado em Portugal, no Convento da 2) investigação na área dos visando elucidar Arrábida, de 3 a 6 de Novembro de 1994 (cf. Cazenave, as correlações, os contactos, as trocas entre disciplinas próximas lescu e Robin (1994)20 e ainda a Conferencia Interdisciplina- e separadas, a irradiação interdisciplinar dos conceitos científi- rity and the Organisation of Knowledge in organizada cos emergentes num determinado domínio, o papel desenvolvi- do por certos indivíduos no panorama geral das ciências do seu pela Academia Europeia e realizada em 1999, em Bruxelas (cf. Cunningham, 1999). tempo (tais como S. Tomás, Bacon, Newton, Leibniz, Kant, Marx, Darwin, Freud, etc.), as razões do predomínio de certas disciplinas sobre outras numa determinada época; 3) elaboração de uma e geografia da cultura>> capaz de identificar e caracterizar as diversas configurações da experiência humana Apesar do empenho institucional e dos diversos ensaios já existentes - de que demos alguns é bem visível em termos espácio-temporais, tomada de consciência da reci- o vazio que atravessa a ideia da interpenetração dos conheci- procidade das tradições intelectuais e espirituais da humanidade (cf. 1967a: mentos. A interdisciplinaridade tende a tornar-se um facto novo que, tanto no domínio da produção do conhecimento como da sua transmissão, funda a sua necessidade na sua possibilidade. No que diz respeito a reuniões internacionais, é também na Como se, em si mesma, a prática de confluência de saberes os- década de 70 que se assiste à realização dos primeiros grandes tentasse, na sua descrição, seu princípio de explicação, trans- encontros dedicados ao tema da interdisciplinaridade. Destaca- formando facto da interdisciplinaridade na sua própria lei de mos O colóquio realizado sob os auspícios da Unesco e do pour la Recherche et l'Inovation dans A situação é paradoxal. Ela caracteriza-se pela ausência de criado pela OCDE, em Junho de 1968, no rescaldo dos aconte- uma teorização que enquadre, explique e oriente as diversas ex- cimentos de Maio desse mesmo ano em França, sob título periências e realizações que a palavra interdisciplinaridade é L'Interdisciplinarité. Problèmes d'Enseignement et de Recher- convocada a designar e que, além disso, as novas condições co- che dans les Universites (cf. CERI, 1972). Nele participaram municativas tendem a desenvolver de forma Mas, nomes como Jean Piaget, Leo Apostel, André Lichnerowicz. ao mesmo tempo, e de forma quase interdependente. na investi- De referir também promovido pelo voor gação científica como na escola vê-lo-emos de seguida Empirischen criado por Leo Apostel na Vrije que há sobretudo é um conjunto de práticas e experiências cu- Universiteit Brussel, entre 14 e 16 de Março de 1973, sob o tí- jos frutos adquirem mesmo, em alguns casos, uma forte sedi- tulo Multidisciplinariteit, Interdisciplinariteit en Transdiscipli- mentação institucional. nariteit in de mens-en natuurwetenschaffen (cf. Ruytinx e Gysens-Gosslin, 1975). Mais recentemente, assinale-se o Col-</p><p>70 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 71 NOTAS (1991), que defende a natureza radicalmente interdisciplinar e holística da An- tropologia. 11 1 Após uma primeira apresentação da ideia fundamental da Teoria dos Sistemas Como Guattari escreve: necessário pensar a vida humana em ter- em 1937 no seminário de Charles Morris na Universidade de Chicago, só de- mos de ecologia generalizada ambiental, social e mental a que chamo (1989: 102). pois da guerra surgirão as primeiras publicações de Bertalanffy sobre Teoria 12 dos Sistemas, nomeadamente An Outline of General System Theory (1950) e A grande inspiração parece ser Hans Jonas que, por exemplo em Technology General System Theory. A New Approach to Unity of Science (1951) e General and Responsability: Reflections on the New Tasks of Ethics (1972), escreve: Systems Theory (1956). Para um balanço dos efeitos epistemológicos e institu- planeta e toda a biosfera passa a fazer parte daquilo de que somos res- cionais da constituição da Teoria dos Sistemas como uma nova disciplina cien- (1972: 38). 13 Guattari retoma aqui uma das teses de um texto anterior intitulado La Révolu- tífica, cf. Delattre (1981 e 1984). 2 Sobre o projecto unitário subjacente à constituição da Teoria dos Sistemas, tion (1977), texto no qual defende existirem apenas duas grandes veja-se o trabalho fundador de Ludwig von Bertalanffy (1968), em especial hipóteses de evolução do capitalismo mundial integrado: a sua consolidação e cap. I e II. estabilização ou a sua progressiva perda de controlo da situação. 3 Além de Laszlo (1983: em especial, 213-218), é Rosnay (1975) quem mais ex- 14 A proximidade a Hans Jonas é mais uma vez notória. Como Jonas escreve plora as consequências educativas e pedagógicas da Teoria dos Sistemas. Num (1972: 57), há hoje uma clara do governo representativo para fa- zer face a novos desafios com base nos princípios e nos mecanismos que são propósito, francamente excessivo, de determinação das promessas da Teoria normalmente os dos Sistemas, Rosnay vai mesmo ao ponto de delimitar os princípios básicos 15 daquilo a que chama (cf. Rosnay, 1975: 235-247). Também ela reclamada pelo projecto ecológico de Hans Jonas quando escreve: 4 De Apostel, veja-se ainda (1972a, 1972b, 1978a, 1978b) e em co-autoria com poder tecnológico impele-nos hoje a objectivos de uma espécie que outrora Vanlandschoot (1988). eram prerrogativa das (1972: 55). 5 Para maiores desenvolvimentos, cf. Ursul e Zdenek Javurek (1984) e Fedose- 16 Por exemplo, Bobossov (1978: 25-27) ou Resweber (1981: 67-69). 17 Além de ser um dos teóricos mais consistentes do problema da interdisciplina- yev (1984). 6 Para um estudo sobre a natureza interdisciplinar da epistemologia de Piaget, cf. ridade que tematiza num significativo conjunto de publicações (cf. Gusdorf, Díaz (1981) e Boden (1990). Encontrar-se-á em Gusdorf (1977a) uma avalia- 1967, 1977a, 1985, 1986, 1990), Georges Gusdorf pode ser considerado um mi- ção crítica do projecto interdisciplinar de Piaget. litante da interdisciplinaridade, tanto em termos epistemológicos, como peda- 7 Trata-se do texto da contribuição de John Dewey (1859-1952) para a Interna- gógicos e organizativos. Assim se explica que, no contexto das actividades em tional Encyclopaedia of Unified Science editada por Otto Neurath em 1937. prol da interdisciplinaridade desencadeadas pela Unesco Georges Gusdorf te- 8 Falenda (2003) constitui porventura o mais recente esforço de constituição da nha sido convidado em 1961 a apresentar um projecto de investigação inter- interdisciplinaridade enquanto programa fundamentalmente metodológico. disciplinar para as ciências humanas que pudesse constituir um modelo de uma 9 Como Gusdorf escreve em De des Sciences à l' Histoire de la Pen- organização de investigação interdisciplinar. Cf. Gusdorf (1967a e 1967b). 18 sée, história da física não é senão uma expressão da história da inteligência Gusdorf aponta para a constituição de um grupo experimental que incluísse um científica. Ora, a inteligência científica não é, ela mesma, senão uma aplicação matemático, um físico, um biólogo, um médico psiquiatra, um economista, um da inteligência humana em geral (1977: 184). E, mais adiante: homem não etnólogo, um psicólogo, um sociólogo, representantes das ciências políticas e é feito para as matemáticas, para a mecânica dos fluidos ou para a biologia, mas jurídicas, históricas, da estética e história de arte, das ciências filológicas e lin- a biologia, a mecânica dos fluidos e a teoria dos conjuntos são feitas pelo ho- guísticas, um geógrafo, um filósofo e um especialista em investigação opera- mem e para o homem (1977: 185). cional e cibernética (cf. Gusdorf, 1967a: 60). 10 Trata-se de uma perspectiva desenvolvida pelo autor em numerosos textos (cf. 19 Desiludido com a falta de apoio institucional que permitisse concretizar o pro- em especial, 1967a, 1967b, 1977a, 1985, 1986) e direcções, quer enquanto his- jecto apresentado à Unesco, Gusdorf, num texto intitulado Propositions pour toriador da cultura e das ciências humanas (cf. 1967, 1967c, 1974, 1977, 1990), une Fondation Antropologique (1967b), apresentado no Symposium da quer enquanto pedagogo (1963), organizador e mesmo militante da interdisci- nen reimers Stiftung für antropogenetische em 1964, retoma a ideia plinaridade Próximo de Gusdorf, veja-se o projecto de Japiassu (1976) de uma de um centro interdisciplinar em ciências humanas, solicitando agora o apoio, epistemologia interdisciplinar que tenha o homem como pólo aglutinador. Pa- mais modesto, de uma fundação privada a um grupo de homens re- ra um estudo sobre Japiassu, cf. César (1982). Veja-se também Da Matta solutos, de competência (1967b: 69).</p><p>72 Olga Pombo 20 Sobre referido congresso, veja-se também Random (1996) que oferece um conjunto de entrevistas com alguns dos mais significativos participantes. Ain- da em Portugal, de âmbito das ciências sociais, refira-se a constituição em 1993 de uma Gulbenkian para a Reestruturação das Ciências Sociais>>. Dirigida pelo Prof. Wallerstein (presidente da Associação Internacional de Sociologia), esta comissão, que reuniu um grupo internacional de especialistas das ciências sociais, das ciências da natureza e das humanidades (em que se in- cluem Ilya Prigogine e o sociólogo português Boaventura Sousa Santos), tinha por objectivo pensar as novas condições interdisciplinares de construção do em especial no que diz respeito ao seu impacto no desenvolvi- mento das ciências Cf. Wallerstein et alii (1996). Mais recentemente, refiram-se também encontro internacional Interdisciplinares: As Ciências e as Artes em fim de realizado em Lisboa, de 25 a 27 de PRÁTICAS INTERDISCIPLINARES Maio de 1994 (cf. Pinheiro de Sousa e Ataíde Malafaia (Eds.), 2003) e o coló- quio internacional Humanismo e Universidade>>, reali- zado na Faculdade de Letras do Porto, de 12 a 14 de Novembro de 2003. 21 Significativo é ainda aparecimento de revistas exclusivamente dedicadas ao Sabemos que a ciência é esse tipo de conhecimento que se ca- problema da interdisciplinaridade e unidade das ciências. Tal é, por exemplo, racteriza por estar em crescimento permanente. Na perspectiva caso do International Journal on the Unity of the Sciences, Interdisciplinary do positivismo clássico, esse crescimento não é mais do que a Studies of Knowledge and Values. Como explica Marcelo Alonso (1988) no progressiva aproximação a uma verdade da qual a humanidade editorial do primeiro número, a revista visa colmatar o isolamento decorrente da extrema especialização do conhecimento científico e contribuir para o esta- estivera durante séculos afastada por representações teológicas e belecimento e reforço da rede de relações que, segundo o editor, se está a esta- metafísicas. O processo inevitável de expansão de domínios em belecer entre todas as ciências. Sobre este tema, veja-se ainda Granger (1993). direcção à verdade arrastaria consigo um fenómeno de amplifi- 22 São de facto inumeráveis as experiências online que se reclamam da palavra in- cação de escala das disciplinas, da sua subdivisão interna, numa terdisciplinaridade: grupos de discussão, centros de investigação, associações, networks, seminários online, etc. A título menos que ilustrativo, referiremos palavra, da sua especialização exponencial. O crescimento da on o Center for Transdisciplinary ciência teria então como seu corolário um mecanismo de subdi- Researche (CIRET), a for Integrative (AIS) e o semi- visão infinita dos campos de investigação. Essa perspectiva nário online organizado pelo CNRS, Paris. encontra-se bem formulada por De Zan (1983) quando, no con- texto de uma análise circunstanciada do fenómeno da desinte- gração do saber e das suas consequências culturais, escreve: das tendências mais características que se tem manifesta- do no desenvolvimento das ciências modernas é a sua progressi- va fragmentação e especialização. No decurso deste processo, foram-se constituindo constantemente novas disciplinas que se emanciparam das anteriores, reclamando cada uma delas a dig- nidade de ciência independente e proclamando a sua completa autonomia face a todas as outras. [...] A reivindicada autonomia de cada uma das disciplinas teve como resultado a fragmentação</p><p>74 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 75 do universo teórico do saber numa multiplicidade crescente de modo diferente o mecanismo de subdivisão infinita dos campos especialidades desligadas entre si, que não se fundam já em prin- de investigação. O crescimento da ciência deixa-se então ler, não cípios comuns, nem se podem integrar numa unidade sistemáti- tanto como o resultado inevitável de um movimento de aproxi- Esta dispersão das ciências trouxe também a sua incomuni- mação infinita à verdade, mas sobretudo como o resultado do au- cação e isolamento, devido à diversidade de métodos que cada mento da comunidade dos investigadores. uma foi desenvolvendo e à especialização da linguagem própria cujos termos não têm equivalência na linguagem das outras e re- Talvez O facto mais interessante que caracteriza a interdisci- sultam, na maior parte das vezes, visto que a sua plinaridade enquanto fenómeno, não da sociologia, mas, diga- significação apenas adquire sentido no contexto das suas pró- mos assim, da ontologia da ciência, é que ela só se deixa pensar prias teorias. [...] Com o correr do tempo, a progressiva especia- no cruzamento da perspectiva veritativa e da perspectiva socio- lização que separava as ciências umas das outras foi igualmente lógica da ciência. Não se trata agora, nem só da subdivisão con- desmembrando os diversos ramos de cada ciência, desintegran- tínua dos domínios disciplinares num movimento orientado em do a sua própria unidade interna até a pulverizar em secções su- direcção à verdade, nem da expansão quantitativa da comunida- perespecializadas, fechadas sobre si, que muitas vezes se igno- de dos investigadores. O crescimento do conhecimento científi- ram (De Zan, 1983: 43-44) CO resulta, pelo contrário, de um processo de reordenamento in- terno das comunidades levado a cabo por um reordenamento das Mas grande parte da compreensão contemporânea da ciência disciplinas. A interdisciplinaridade traduz-se na constante emer- deixou de se rever nessa imagem de um Prometeu feliz que rou- gência de novas disciplinas que não são mais do que a estabili- ba O conhecimento aos deuses e que, em lugar de expiar a sua ou- zação institucional e epistemológica de rotinas de cruzamento de sadia, a vê transformar-se em promessa de progresso para a hu- disciplinas. Este fenómeno não apenas torna mais articulado manidade inteira. Hoje tornámo-nos demasiado cépticos quanto conjunto dos diversos do saber (depois de os ramos a um fundamento puramente veritativo do progresso dos conhe- principais se terem constituído, as novas ciências, resultantes da cimentos. É assim que, numa obra da chamada das ciên- sua subdivisão sucessiva, vêm ocupar espaços vazios), como rapidamente tornada. um clássico, Little Science, Big fazem dilatar, constituindo espaços de investiga- Science (1963), Derek J. de Solla Price adopta um ponto de vis- ção, surpreendentes campos de visibilidade. ta, digamos pragmático, sobre o fenómeno do crescimento per- manente da ciência. Ele parte de índices quantitativos da expan- são da ciência (número de investigadores activos durante um Ciências de fronteira, interdisciplinas e interciências determinado período, número de estudos publicados em certos domínios, descobertas feitas no período em estudo segundo a Entre essas novas ciências, resultantes do reordenamento inter- avaliação de investigadores qualificados, número de membros de no da cartografia dos saberes, podemos distinguir três tipos fun- instituições científicas, etc.) para chegar à conclusão de que essa. damentais: ciências de fronteira, interdisciplinas e interciências. expansão segue uma curva Ora, este olhar socioló- As primeiras ciências de fronteira são novas disciplinas gico sobre crescimento da ciência permite explicar de um constituídas nas interfaces de duas disciplinas tradicionais. Tam-</p><p>76 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 77 bém designadas por (Boulding (1956) e Finalmente por interciências, Boulding (1956: 12) denomi- Dogan (1991)), elas são resultado, como diz Boulding, do cru- na por >, designamos as novas dis- zamento de respeitáveis e honestos pais (ibid.) ciplinas constituídas na confluência de várias disciplinas de dife- recrutados, seja no âmbito interno das ciências da natureza (a Bio- rentes áreas de conhecimento. É caso da Ecologia, das Ciências química, a Biofísica, a Geofísica, a Geobotânica ou Biomatemá- Cognitivas ou das Ciências da Complexidade. Quanto à Ciberné- tica) ou das ciências sociais e humanas (a Psicolinguística, a Psi- tica, a sua inclusão no grupo das interciências não é isenta de con- cossociologia, a História Económica), no cruzamento das trovérsia. Por um lado, seu estatuto de é estäbele- ciências da natureza e das ciências sociais e humanas (Biologia cido desde esse texto inaugural que é Cybernetics, or Control and Social, Etologia, Geografia Económica) ou das ciências naturais Communication in the Animal and the Machine (1948). Texto no e disciplinas técnicas (Engenharia Genética, Biónica). qual Norbert Wiener, para além da formulação do programa unitá- Por interdisciplinas entendem-se as novas disciplinas que apa- rio, de reclamada inspiração leibniziana (cf. Wiener, 1948: 12) que recem com autonomia académica a partir de 1940/50 e que sur- presidiu à constituição da nova caracteriza seu cam- gem do cruzamento de várias disciplinas científicas com cam- po de actuação como terra de ninguém entre os vários cam- po industrial e organizacional, tais como as Relações Industriais pos (cf. Wiener, 1948: 2) e dá conta da necessida- e Organizacionais (disciplina que estuda o comportamento dos de, reconhecida logo de início, de reunir cientistas de diversas homens nas organizações em que eles trabalham), Psicologia In- áreas, matemáticos (como próprio Wiener e Von Newmann), en- dustrial (aptidões dos indivíduos, problemas ligados ao manusea- genheiros (Bigelow), fisiologistas (como Rosenblueth), psicólogos mento de máquinas e relações interpessoais), Selecção e Forma- (como Kurt Lewin), sociólogos (como Bateson e Margareth ção Profissional (adaptação dos traços de personalidade às Mead), neuroanatomistas e neurofisiologistas (como Bonin e carreiras profissionais), Sociologia dos Pequenos Grupos (nor- Lloyd). Como Wiener escreve, exploração dos espaços em mas dos grupos. de trabalho e questões de liderança), Sociologia branco do mapa das ciências requer uma equipa de cientistas, ca- das Organizações (inovação, mudanças e solução de conflitos nas da qual especialista no seu próprio campo mas possuindo uma etc. Caso particularmente interessante é da competência significativa nos campos dos seus (Wiener, Operational Research, disciplina que surge em Inglaterra na 1948: 3). Por outro lado, tendo em vista as directas e imediatas sequência da iniciativa de chamar um conjunto de cientistas para aplicações da cibernética ao campo industrial, organizacional e mi- ensinar aos militares como usar radar. Desencadeia-se então um litar, justificar-se-ia a sua inclusão no grupo das processo intenso de colaboração entre cientistas, engenheiros e É desse carácter híbrido do estatuto disciplinar da cibernética que militares. Favorecida pelo esforço de guerra e pelas condições de se faz eco Bowker (1993) quando a caracteriza como experimentação que ela proporcionava, a disciplina foi posterior- universal visando a reordenação da hierarquia tradicional das ciên- mente reforçada com contributo de uma equipa interdisciplinar cias (1993: 107), disciplina que contudo oscilaria entre objecti- reunida com O objectivo de testar e resolver problemas de avia- (modesto) de se constituir como instrumento indispensável ao ção, command research Group>> que incluía dois desenvolvimento das ciências e a com que físicos, dois matemáticos, um astrofísico, um oficial militar, um por vezes se apresenta enquanto disciplina capaz de dirigir todas antigo aviador, um as outras na busca da verdade (cf. Bowker, 1993: 117-122)5</p><p>78 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 79 exemplo das Ciências Cognitivas Trata-se pois de um conjunto disciplinar aberto, potencial- mente alargável, sujeito às variações resultantes das exigências Um dos exemplos mais pregnantes das interciências é o das colocadas pela complexidade da área de estudo e cujo estatuto chamadas ciências cognitivas6. A pluralidade da forma designa- disciplinar pelo menos por enquanto dificilmente se deixa tória pela qual é vulgarmente conhecida esta nova área de inves- apreender pelos critérios tradicionais de delimitação das discipli- tigação é, em si mesma, muito significativa. O número plural nas. Bastará comparar as duas figuras a seguir transcritas (adian- dessa designação exprime, é claro, uma situação de facto. Por te, figuras 1 e 2) para nos darmos conta, não apenas da diversi- enquanto, não parece possível identificar que seria uma ciên- dade, mas também da flutuação das disciplinas que podem fazer cia cognitiva ou a ciência da cognição. Cabe aos progressos fu- parte daquilo a que, recentemente, Ganascia (1996: 76) chamava turos que se vierem a registar proceder à reclamação de uma ainda a confraria das ciências Como se ve- designação unitária que traduza uma possível orientação unifi- rá, a maior diferença diz respeito ao facto de, no segundo esque- cadora dos seus desenvolvimentos ou, ao contrário, legitimar a ma, a rede fundamental das ciências cognitivas incluir um sexto pluralidade presente. grupo de disciplinas: O grupo das ciências sociais (a teoria da co- municação, a teoria da decisão, a economia e a antropologia). A das ciências como lhes chama Andler (1990: 81)7, é constituída por um conjunto de investigações que têm origem em cinco disciplinas dominantes: a psicologia, a lin- guística (fonética, gramática, acústica, pragmática), a filosofia sociologia (lógica, filosofia da linguagem, epistemologia, filosofia do espí- economia rito, filosofia moral), a inteligência artificial e as neurociências lógica física psicologia social (neurofisiologia, neuroanatomia, neuroquímica, biologia molecu- psicofísica lar, citologia). Porém, para lá destas disciplinas que, como diria filosofia antropologia Lakatos, delimitam das ciências cognitivas, ne- se inclui ainda um conjunto muito mais amplo que, conforme linguística psicolinguística psicologia os casos e as exigências dos problemas em estudo, pode incluir psicofisiologia disciplinas, subdisciplinas, especialidades, subespecialidades e neuropsicologia programas de investigação provenientes quer das ciências da na- inteligência neurociências tureza (física, electromagnetismo, cronometria, mecânica, quími- artificial ca), quer da lógica e das ciências matemáticas (geometria, proba- robótica bilidades, estatística), quer da área das engenharias (informática, informática cibernética, robótica), quer das ciências humanas (antropologia, sociologia, economia), quer ainda uma pluralidade de especiali- dades de fronteira como a psicolinguística, a psicofísica, a neuro- (figura 1 das Ciências Cognitivas, in Andler (1989: 65)) linguística, a neuropsicologia e a psicologia social.</p><p>80 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 81 que se pretendia constituir como disciplina fundamental da cog- nição9, de aparente unanimidade em torno de posições cogniti- EPISTEMOLOGIA vistas que se apresentavam como síntese inesperada e altamen- te prometedora, e mesmo como possível de teoria>> (Proust, 1991: 82), estamos hoje numa fase que, em termos kuh- (c) LINGUÍSTICA PSICOLOGIA nianos, se poderia caracterizar como de (c) (d) oposição doutrinal e rivalidades estratégicas entre di- CIÊNCIAS CIÊNCIAS SOCIAIS vergentes. (b) DA COMPUTAÇÃO (COMUNICAÇÃO, DECISÃO, ECONOMIA, Estamos portanto perante um conjunto muito recente, que não E INTELIGÊNCIA ANTROPOLOGIA ARTIFICIAL parece aceitar qualquer estruturação hierárquica entre as disci- plinas envolvidas, de contornos teóricos e metodológicos fluidos e imprecisos, cujo estatuto disciplinar apenas de forma extensio- nal, através da identificação de um comum objecto de estudo, pode ser estabelecido. Referimo-nos à existência (ou melhor, ao (figura 2 das Ciências Cognitivas, in Le Moine (1986: 51)) reconhecimento) de uma área comum de investigação a cog- nição (ou também inteligência>>, proces- Por um lado, dada a extrema juventude destas ciências, nas- mentais>>, sistemas de tratamento da cidas há anos8, parece prematura qualquer determinação da sua único laço em que, por enquanto e para lá de todas as flutuações constituição disciplinar a partir de factores externos de nature- e ambiguidades, é possível fazer residir a identificação discipli- za institucional, tais como a lenta constituição de uma tradição, nar das ciências cognitivas. uma mais ou menos conflituosa filiação de escolas ou um con- Trata-se, porém, de uma determinação muito precária. Na junto de circunstâncias favoráveis a um enquadramento acadé- verdade, para que esse antiquíssimo objecto mico. Esse enquadramento académico, como era de esperar, de atenção, reflexão e análise por parte da filosofia possa verifica-se tanto ao nível de centros de investigação como de li- constituir-se hoje como efectivo objecto de ciência, é neces- cenciaturas existentes em grande número de universidades. sário que nele se delimite um domínio de fenómenos, perfei- Sendo em si mesmo interdisciplinares, a introdução das ciências tamente identificáveis em termos conceptuais e cognitivas nos curricula escolares e nas universidades coloca Ora, a cognição (e, ainda mais, processos ou em termos muito imediatos a necessidade de um ensino inter- tal como hoje é perspectivada pelas diferentes disciplinar. Por outro lado, uma definição intencional que pro- ciências cognitivas, é ainda um terreno insuficientemente de- cedesse à sua delimitação disciplinar em função de factores in- limitado. Até agora ela tem sido compreendida sobretudo se- ternos estritamente cognitivos parece igualmente inadequada, gundo três características: a) funcionalidade, b) formalidade e dada a inexistência de qualquer unidade teórica ou metodológi- c) internalidade. A primeira exprime a convicção de que a ca que se verifica no campo das ciências cognitivas. Passada cognição consiste num certo número de operações de conhe- uma primeira fase de euforia em torno da Inteligência Artificial, cimento (tais como a visão, a linguagem, a memória) execu-</p><p>82 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 83 tadas de forma puramente estrutural, independentemente do PERSPECTIVA TEMPORAL seu suporte físico, ou hardware. A formalidade diz respeito à Estado final natureza específica da causalidade realizada nas operaçõesde i. Estado ontogenético conhecimento, a qual tende a ser concebida como uma eficá- MATEMÁTICO cia das próprias representações (simbólicas ou espaciais). Fi- D nalmente, a internalidade designa a independência das leis e NÍVEL COMPUTACIONAL da natureza das funções cognitivas face ao contexto externo; C élas resultam unicamente de um conjunto de regras e instru- PSICOLÓGICO pensáveis por analogia com um programa de computa- B dor. BIOLÓGICO Face a estas três características, que fazem genericamente da A cognição uma de as ciências 3 4 cognitivas não podem deixar de aparecer como uma área aber- 1 2 ta, irradiante, comportando diferentes dimensões e susceptível COMPETÊNCIAS de diversas abordagens e níveis de análise. Dimensão esta, de lugar de irradiação de saberes, que havia já sido sublinhada por um dos fundadores das ciências cognitivas. Como Simon (figura 3 das Ciências Cognitivas, in Imbert et alii (1986: 11)) escrevia em 1969: notado a crescente comunicação en- tre disciplinas intelectuais que se desenrola à volta do compu- Às três dimensões do sólido corresponderiam três eixos fun- tador. Temos acolhido bem essa comunicação porque nos pôs damentais de investigação: 1) o das competências cognitivas: em contacto com novos mundos de conhecimento - tem-nos percepção (em especial, a interpretação das formas visuais e do ajudado a combater o isolamento entre as várias culturas. Esta movimento), linguagem (compreensão do texto escrito e falado), dissolução das velhas fronteiras interdisciplinares tem sido inferência (dedutiva e indutiva, detecção de regularidades e de- muito comentada e é frequentemente assinalada a sua relação cisão com base na incerteza) e acção (planificação da actividade com os computadores e as ciências da (Simon, corporal, especialmente do movimento, do equilíbrio e da coor- 1969: 137): 2) o dos níveis de abordagem dos fenómenos cogniti- Neste sentido, é significativa a analogia proposta por Michel vos: biológico (mecanismos que suportam a Imbert num relatório apresentado à Comissão Europeia em Fe- actividade cognitiva), psicológico (processos funcionais de de- vereiro de 1986 com vista a dar conta da heterogeneidade e ex- tecção, representação e armazenamento da informação e da sua tensão das investigações em curso sobre as ciências cognitivas utilização em actividades intencionais), computacional (modela- na Europa. ção algorítmica das habilidades cognitivas humanas) e matemá- tico (propriedades formais da competência cognitiva); da aquisição temporal das capacidades cognitivas (da emergência das competências nos recém-nascidos às competências cristali-</p><p>84 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 85 zadas no adulto e à sua degenerescência com a idade e a doen- teorético (1984: 259) susceptível de ser pensado a par- ça) (cf. Imbert et alii, 1986: 8-9). Da combinatória e articulação tir de vocabulário específico e de um conjunto razoavel- diferida dos três eixos resulta a possibilidade de classificação mente uniforme de princípios independentes dos das outras ciên- das investigações em ciências cognitivas em trinta e dois tipos cias e dotados de uma autonomia (1984: diferentes. Pelo contrário, segundo uma hipótese fraca, na emergência e Significativamente, ao pretender oferecer uma imagem orga- constituição das ciências cognitivas, assim como na avaliação dos nizada e conglomeradora (a imagem do do vasto e he- seus sucessos, é necessário ter em conta a importância decisiva que terogéneo conjunto de investigações que se reclamam das ciên- terão tido factores extrínsecos como a enorme apetência, soli- cias cognitivas, Michel Imbert não consegue escamotear as citação, estímulo e apoio dado desde o início às investigações em cisões e fracturas que atravessam essa área disciplinar e vê-se ciências cognitivas pelos poderes políticos, económicos e da in- forçado a cindir internamente a própria imagem que construiu dústria da comunicação; a importância dos avultados fundos pos- (as trinta e duas subdivisões do prisma). tos à disposição dos mais variados projectos; as excepcionais con- dições de reunião e comunicação entre os investigadores (encontros, colóquios, conferências, publicações, revistas); o rápi- do reconhecimento que qualquer investigação nesta área tem tido, Resta averiguar a que se pode ficar a dever facto de, apesar tanto entre a comunidade científica, como na comunidade em ge- de tudo, e para lá de todas as subdivisões e fracturas internas ral, nomeadamente na indústria e nos meios de comunicação. (que os trinta e dois compartimentos do prisma cognitivo suge- Trata-se de um conjunto de factores de natureza contextual, mas rem), ser possível delimitar uma área de investigação comum às cuja importância, pelo menos nos momentos iniciais da curta his- ciências cognitivas a cognição enquanto instância corres- tória das ciências cognitivas, é em geral unanimemente reconheci- pondente à imagem do prisma como totalidade, da. Verdadeiro Sésamo das subvenções públicas e priva- das, como diz Joelle Proust (1991: 77), as ciências cognitivas A hipótese mais forte é a de que as ciências cognitivas consti- teriam beneficiado de um importante apoio financeiro, o que teria tuem uma nova disciplina científica no sentido clássico do ter- facilitado agrupamento de especialistas de uma diversidade mo. Tal como antes aconteceu com a física, a química, a biolo- sem precedentes na história>> (1991: 78). Nesta perspectiva, por- gia ou a sociologia, a emergência hoje das ciências cognitivas tanto, a existência de uma área de investigação comum às ciências corresponderia ao lento desvelar de uma área inexplorada da rea- cognitivas seria já resultado de uma prática de trabalho trans- lidade a cognição mediante a qual se caminharia no senti- versal às delimitações disciplinares estabelecidas. Como se, neste do de uma crescente complexidade e aproximação ao humano. caso, fosse a riqueza da comunicação a criar pólo de confluência É que, por exemplo, defende Pylyshyn (1984), autor para quem de interesses e não inverso. É nesse sentido que Joel Proust con- as ciências cognitivas são, não um agregado circunstancial e pre- sidera que noção de cognição representa um primeiro passo in- cário baseado no interesse comum por um conjunto muito amplo (1991: 78), uma espécie de compromisso decorren- e fluido de questões, mas uma nova disciplina científica detento- te da vontade interdisciplinar que, desde os primeiros momentos, ra de um genuíno objecto de estudo a cognição anima estas ciências e os seus praticantes. Por outras</p><p>86 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 87 reconhecimento da cognição enquanto área de investigação co- determinada área, isto é, de um conjunto evanescente e efémero de mum às ciências cognitivas é, não a causa, mas a consequência de investigações e pistas de trabalho que, a curto prazo, se vão revelar um determinado arranjo disciplinar, melhor dito, interdisciplinar. inconsequentes porque, finalmente, os mentais>>, a a que elas erigiram em ob- Uma última hipótese deve porém ser assinalada. Não será, pe- jecto de estudo se não deixa delimitar como objecto de ciência? lo contrário, a excepcional e incontornável complexidade do ob- jecto em causa a cognição que está na raiz da interdisci- A esta questão pode, no entanto, fazer-se corresponder uma in- plinaridade praticada pelas ciências cognitivas? Neste caso, a terrogação bem mais precisa: na ausência de uma disciplina clara- determinação da área de investigação das ciências cognitivas te- mente unificada e institucionalizada, não estaremos perante uma ria a sua origem não tanto no desvelamento de uma inexplorada novidade em termos de arranjo disciplinar? Será a ou a área da realidade ou na interdisciplinaridade das práticas utiliza- > das ciências cognitivas apenas um mero con- das, mas na complexidade do objecto em causa a cognição junto de programas de investigação oriundos de diferentes disci- objecto que, necessariamente, se não deixa circunscrever de for- plinas sem qualquer espécie de compromisso que as articule, ou, ma monodisciplinar. Andler, por exemplo, não hesita em afirmar pelo contrário, um novo tipo de estrutura disciplinar, simultanea- explicitamente a necessidade desta determinação. Como ele diz, mente flexível, aberta, horizontal e autodeterminada, uma estudo da cognição não pode ser senão ração autónoma de disciplinas como pretende Andler (1990: 63)? (1989: 68). Por outras palavras, não seria tanto a existência de Mas será que a figura da ao excluir toda a hierarquia, uma área comum de investigação, um teorético natu- exclui por esse facto qualquer hipótese de unidade? Ou, inversa- ral, como dizia Pylyshyn, mas a sua excepcional e incontorná- mente, a melhor metáfora da unidade é justamente aquela que não vel natureza interdisciplinar que, verdadeiramente, poderia cons- admite nenhuma ambição hierarquizadora? Nesse caso, às ciên- tituir hoje a única possível definição das ciências cognitivas e cias cognitivas, como a todas as outras ciências, aplicar-se-ia a me- das práticas interdisciplinares que nelas têm lugar. táfora planificada do pela qual Neurath (1937a: 245-246) se propunha pensar a tarefa unitária das ciências. Assim Qual o alcance sentido destas determinações? Estaremos pe- se compreenderia por que razão qualquer ambição hierarquizado- rante a forma incipiente de uma nova disciplina a ciência cog- ra ou para usar ainda a terminologia daquele ilus- nitiva que temos a oportunidade de poder ver emergir em torno tre seria não só inadequada como inconve- da lenta e árdua descoberta de um novo continente científico? Ou niente para dar conta da complexidade do fenómeno da cognição. apenas perante uma união pragmática, efémera e circunstancial de disciplinas independentes? Estaremos perante o estado embrioná- rio de uma das grandes ciências do futuro (capaz de vir a resolver Novas estruturas institucionais da investigação de forma positiva alguns dos velhos problemas que a filosofia se interdisciplinar coloca há milénios)? Ou tão-só perante o resultado de uma situação técnica e sociologicamente determinada que cria condições favorá- Para além do caso das ciências cognitivas dotadas como veis (vide, excepcionais) para a investigação interdisciplinar numa são de características particularmente reveladoras da condição</p><p>Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 89 88 interdisciplinar das é ainda conveniente su- que emergem nos sistemas naturais, artificiais e sociais>> blinhar a importância das novas estruturas institucionais que têm () vindo a ser na instauração da ideia mesma de in- terdisciplinaridade. O ponto de partida é reconhecimento da natureza interdis- ciplinar das ciências da complexidade, do inédito cruzamento Apesar da inexistência de uma teorização consistente que le- que aí se opera entre biologia, computação, imunologia, econo- gitimasse e iluminasse a prática da interdisciplinaridade, a proli- mia, informação, ciências sociais, antropologia, vida artificial, feração de estudos descritivos de modalidades de trabalho e for- teoria dos jogos, teoria da aprendizagem. Reconhece-se também mas de organização interdisciplinar na investigação científica a natureza, ela mesma complexa, do seu objecto de estudo o que se tem vem provar que é ao nível da produção comportamento dos sistemas complexos, de que são exemplos em regime interdisciplinar dos diferentes conhecimentos cientí- os mercados financeiros, o sistema imunológico humano, as re- ficos que a interdisciplinaridade verdadeiramente se joga. gulações climatéricas globais, as redes informáticas, os circuitos cerebrais, os sistemas ecológicos, a aprendizagem, etc. O SFI Digamos que a interdisciplinaridade existe sobretudo como assume como sua missão criar um novo ambiente prática. Ela traduz-se na realização de diferentes tipos de expe- de investigação que possa catalisar um novo tipo de ciência>> riências interdisciplinares de investigação (pura e aplicada) em (1994: 1). Espera-se que novo tipo de instituição possa contri- universidades, laboratórios, departamentos técnicos; na experi- buir para a fixação do vocabulário e apuramento consensual das mentação e institucionalização de novos sistemas de organiza- definições dos conceitos fundamentais da nova que o ção, programas interdepartamentais, redes e grupos interuniver- estabelecimento de novos modelos colaborativos, de novos esti- sitários adequados às previsíveis tarefas e potencialidades da los de e de novos regimes de conquista da consen- interdisciplinaridade; na criação de diversos tipos de institutos e facilitem a investigação que nela se pratica. Por úl- centros de investigação interdisciplinar que, em alguns casos, se timo, confia-se que a exploração heurística de transferências, constituem mesmo como o pólo organizador de novas ciências, analogias e metáforas de um domínio para seja poten- a sua única ou predominante base ciada pelo trabalho conjunto de investigadores provenientes das mais variadas áreas. Um dos exemplos mais significativos é o Santa Fe Institute Nesse sentido, SFI, que se descreve a si mesmo como uma (SFI), instituição de referência das ciências da complexida- que cresce, se alarga, e cujos membros se mantêm em Fundado em 1984, SFI é uma organização independen- contacto por telefone e computador, regressando frequentemen- te de investigação (financiada por universidades, fundações, te para participar em seminários e colaborar em projectos de in- agências governamentais e indivíduos particulares) que, como (The Santa Fe Institute, 1994: 4), é aventura se pode ler nas primeiras linhas da sua homepage, se define co- interdisciplinar que opera fora das limitações da investigação mo instituto à criação de um novo tipo de comuni- convencional (1994: 2). É uma organização dade de investigação, comunidade que enfatiza a colaboração muito leve do ponto de vista burocrático, não dividida em de- interdisciplinar na procura da compreensão dos temas comuns partamentos, com um núcleo reduzido de cerca de cinquenta</p><p>90 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 91 investigadores residentes (Internal Faculty) e um largo corpo de rações ocorrem com facilidade e transformam-se quase com a investigadores visitantes (Visiting Faculty). Professores de di- mesma facilidade. Simplesmente, não há fronteiras entre disci- versas universidades, estudantes e bolseiros de pós-graduação plinas no SFI (The Santa Fe Institute. A general Overview, constituem a que contava, em Maio de 1994: 3). com investigadores de cerca de 100 universidades em Tanto no que diz respeito à escolha dos temas como dos todo mundo e com ligações a diversos centros de investigação colaboradores da investigação, o SFI procede por auto- sobre fenómenos não lineares e -organização, procurando atrair investigadores dotados de três características principais: espírito colaborativo a inte- Contrariamente aos métodos científicos tradicionais que pas- ragir com pessoas de outros campos e desejosos de o fazer para sam pela especialização progressiva das áreas de investigação e lá das fronteiras das disciplinas académicas e das determinam a criação de estruturas institucionais atomizadas, (); qualidades de e SFI trabalha a partir da identificação de potenciais temas integra- abertura>>, que exige de hospitalidade e vontade de O plano base é uma de Investigação que se pro- partilhar (ibid.); e capacidade de investigação baseada clama aberta a modificações e revisões regulares e que tem como em computador (ibid.). Digamos que SFI tem consciência de denominadores comuns os conceitos de simplicidade, complexi- desenvolver um estilo de investigação de alguma maneira caó- dade, sistemas complexos e, em especial, sistemas complexos tico. Como escrevem George Cowan e David Pines na de Os quatro grandes critérios definidos na abertura>> de Complexity. Metaphors, Models and Reality do ISF para a escolha dos tópicos de investigação (1994: XV), como os sistemas que estuda, a comunidade são: em primeiro lugar, a sua de científica do SFI é um sistema complexo interesse que transcendem uma qualquer disciplina e não podem ser adequadamente estudados nos contextos disciplinares tradi- (); em segundo lugar, a sua Para uma tipologia das práticas de investigação excelência, definida como a capacidade para pessoas de interdisciplinar elevada criatividade e (ibid.); em terceiro lugar, a sua novidade, facto de tópico de investigação não ser tratado por Estamos pois perante uma situação que se caracteriza pelo qualquer outra instituição; finalmente, em quarto lugar, o seu ca- aparecimento de um novo tipo de disciplinas (de que as ciências rácter catalítico, ou seja, a sua capacidade de a for- cognitivas são exemplo eloquente) e pela invenção de novas mo- ma como a ciência vai ser feita no próximo (ibid.). dalidades institucionais (que Santa Fe Institute ilustra) as Para além dos programas e projectos dinamizados pelos in- quais, dando corpo à ideia de interdisciplinaridade, simultanea- vestigadores residentes, surgem constantemente, de forma livre mente, a revelam na sua condição de novidade e actualidade. e autónoma, configurações com grande mutabilidade e dinamis- mo, novos grupos de trabalho e projectos Na ausência de um programa teórico unificado do que pode- colóquios, workshops, conferências, seminários, encontros in- ria ser a interdisciplinaridade, de uma determinação rigorosa do formais: das principais atracções do SFI é que as colabo- que ela seja enquanto modo de investigação, a realidade da in-</p><p>92 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 93 terdisciplinaridade oscila entre dois extremos: uma versão ins- que Boisot (1972: 93-94) designa por trumental instaurada pela complexidade do (de que as de e Hechausen (1972: 88-89)</p><p>94 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 95 tam. As disciplinas distinguem-se umas das outras, em parte por isto dizer que, neste tipo de práticas, a interdisciplinaridade passa razões históricas e de controvérsia administrativa (como a organi- não tanto pela concertação prévia de uma metodologia, mas pelo zação do ensino e do corpo docente), e em parte porque as teorias convite à convergência de perspectivas em torno de um determi- que construímos para solucionar os nossos problemas têm ten- nado objecto de Objecto de análise este cuja delimita- dência a desenvolver-se sob a forma de sistemas unificados. Con- ção pode ser já, ela mesma, uma forma de provocar a situação de tudo, toda esta classificação e distinção são superficiais e têm re- interdisciplinaridade, isto é, que, muitas vezes, só pelo recurso à lativamente pouca importância. Estudamos problemas, não interdisciplinaridade faz sentido enquanto objecto de análise cien- matérias. Problemas que podem ultrapassar as fronteiras de qual- tífica (seja, por exemplo, Pensa-se então que, quanto quer matéria ou (1963: 67). A interdisciplinaridade mais reduzidas forem as dimensões desse maiores se- tem aqui uma direcção centrífuga. Próxima daquilo que Hec- rão as hipóteses de fecundidade do trabalho interdisciplinar30 khausen (1972: 89-90) denomina como >, ela consiste num processo de fecundação recí- dificações estruturais nas disciplinas envolvidas e que, por essa ra- proca das disciplinas envolvidas. Na medida em que cada disci- zão, se pode considerar próxima da interdisciplinaridade restritiva plina é incapaz de esgotar problema em análise, a interdiscipli- de Boisot (1972: 96). naridade traduz-se na abertura intrínseca de cada disciplina a todas as outras, na disponibilidade de cada uma das disciplinas envolvidas se deixar cruzar e contaminar por todas as outras28 4. Práticas de descentração Práticas que têm na sua origem a irrupção de problemas im- 3. Práticas de convergência possíveis de reduzir às disciplinas tradicionais. Estes problemas podem ser problemas novos, como o em grande par- Referimo-nos agora a práticas de convergência na análise de te resultantes dos próprios desenvolvimentos científicos e da ca- um terreno comum. Como é que diferentes disciplinas, distintas, pacidade tecnológica que o homem adquiriu para a or- vizinhas, apreendem um mesmo objecto, que tipo de relações e de dem natural. A interdisciplinaridade é então como respostas estabelecem? Conhecido também pelo nome de diz Boisot (1972: 95), dando origem a corpo de leis novas dos por áreas>>, quando posto em prática pelas ciências sociais, es- que compõem a ossatura de uma disciplina original (é caso da te tipo de interdisciplinaridade toma frequentemente por objecto ecologia), não redutível à reunião formal das que a engendra- regiões geograficamente circunscritas dotadas de unidade cultural, Podem ser grandes demais>>, isto é, problemas ou linguística. Como explica Wallerstein (1996), estes (como clima ou a que envolvem tratamento estudos, oriundos dos EUA, terão tido na sua base uma forte mo- de um número heterogéneo e gigantesco de dados, que exigem tivação política na medida em que, desencadeados após a guerra, uma rede alargada de cooperantes e, cada vez mais, a utilização muitos deles teriam visado o conhecimento exaustivo de regiões de processos automáticos de Trata-se aqui, segundo estratégicas importantes para o papel de liderança que os EUA se Heckhausen, de uma isto é, preparavam para representar na cena mundial (1996: 59-70). Quer ideia audaciosa mas errónea, segundo a qual poderia ser estabe-</p><p>96 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 97 lecida uma interdisciplinaridade intrínseca entre disciplinas pelo homens das mulheres, rapidamente percebemos quão limitadas recurso aos mesmos instrumentos de análise (Heckhausen, são as nossas perspectivas (Walshok, 1995: 29) 1972: 88). Por fim, de isto é, problemas que, pela sua complexidade, atravessam, cruzam e contaminam A interdisciplinaridade (próxima daquilo a que Heckhausen diversas áreas e disciplinas (bons exemplos seriam cérebro, a (1972: 89) chama >) é aqui cir- tradução ou a cognição). A interdisciplinaridade pode então ser cular, envolvente. Ela tem a forma de um esforço conjugado que dita descentrada, ou circular, querendo-se com isto significar que visa não apenas trocar informações ou confrontar métodos, mas não há propriamente uma disciplina que constitua o ponto de fazer circular um saber, explorar activamente todas as suas pos- partida ou irradiação do problema, ou que seja o ponto de che- síveis complementaridades, explorar de gada do trabalho interdisciplinar. Há um policentrismo de disci- zação e cujo objectivo é encontrar técnicas plinas ao serviço do crescimento do conhecimento. Interdiscipli- para a resolução de problemas que resistem às contingências his- naridade que pode dar origem não tanto a novas disciplinas, tóricas em constante (Heckhausen, 1972: 89). como a constelações de disciplinas, novos arranjos disciplinares, algo de que, como vimos, as ciências cognitivas são exemplo eloquente. Das categorias consideradas pelos três autores que estão na ba- se deste esboço de uma tipologia de práticas interdisciplinares de 5. Práticas de comprometimento investigação, a saber, Heckhausen (1972), Boisot (1972) e Pal- made ficam apenas de fora a he- Existem ainda aquelas práticas que visam questões vastas e di- terogénea>> de Heckhausen (1972: 87-88) e a fíceis, questões que resistem a todos os esforços desenvolvidos ao dade de de Palmade (1979: 88-89). À primeira longo dos séculos com vista à sua solução, mas que reclamam pertenceriam os diversos luções urgentes. No limite, como escreve Walshok (1995), esforços de carácter enciclopédico materializados em programas se nenhuma das grandes questões da ciência, escola ou sociedade de estudo generalistas. A segunda de re- cabe em simples disciplinas e muitas dessas questões são agora diria respeito à existência de vastas zonas de inter- perseguidas de forma Sejam elas questões acerca da cepção entre os objectos e/ou os métodos de diferentes discipli- origem das partículas, da vida, da sociedade ou do cosmos; ques- nas, por exemplo, entre a economia, a sociologia e a tões acerca do sentido, da existência, do ser humano, do paren- Ambos os casos nos parecem pouco pertinentes: primeiro, por- tesco, ou dos símbolos; questões relativas à matéria ou à energia, que é de âmbito exclusivamente pedagógico; segundo, ao átomo, célula, família ou nação rapidamente vamos contra diz respeito a uma situação praticamente incontornável em todas os limites das estruturas disciplinares. E, se perguntamos porque as ciências, situação que decorre, em última análise, da existên- é que umas pessoas matam outras, porque é que a fome persiste cia de um poderoso fundamento ontológico e lógico da unidade num mundo de abundância, ou porque é que tão grandes afasta- das ciências, isto é, das continuidades que organizam Mundo e mentos separam os ricos dos pobres, os negros dos brancos, os da universalidade da Razão que procura conhecer.</p><p>98 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 99 NOTAS sura existente nas disciplinas institucionalizadas e que se traduz por uma li- berdade de movimentos e de opções de trabalho resultante quer da novidade I A expressão é de Solla Price (1963: cap. 1) e pretende designar a possibilidade das metodologias usadas, quer da ausência de tradição, quer da facilidade das de constituir a ciência como uma (Solla Price, 1963: VI). Pa- situações de troca (colóquios, conferências, encontros de todo o tipo), quer ra uma discussão deste tópico, cf. Lagneux (1978). ainda do facto de a capacidade de modelação do computador, seu instrumento 2 De acordo com Solla Price, a ciência, tanto no que respeita ao número dos seus privilegiado, ser suficientemente poderosa para cobrir a falta de teorização e praticantes quanto ao número de publicações, tende a duplicar em cada dez/quin- acolher todo e qualquer resultado de investigação. Face a essa sua situação de ze anos (1963: 6-32). Sobre publicações científicas e seu significado enquanto desequilíbrio entre uma extraordinária capacidade de modelização e uma no- índice quantitativo do e da ciência, cf. Ménard tória incapacidade de teorização, Andler pergunta mesmo até que ponto a inte- (1971: em especial 17-155) e Chauvin (1981: 112-147) e Knorr-Cetina (1981 e ligência artificial não irá revelar-se como uma iniciativa não científica mas pu- também 1999). ramente tecnológica, assim se explicando o favor certeiro a que tem sido 3 Tendo o primeiro grau académico em Research sido criado em votada pela indústria. 1952 nos EUA e, em 1964, em Inglaterra, a nova disciplina, que implica uma 6 Num estudo intitulado dans les Sciences Joel- perspectiva sistémica segundo a qual qualquer acção sobre uma parte do sistema le Proust (1991) indica três grandes razões que justificam a exemplaridade das tem algum efeito sobre o comportamento do sistema no seu todo, tem por ob- ciências cognitivas para o estudo da interdisciplinaridade: 1) o facto de a inter- jecto de estudo os problemas de performance de sistemas organizados. Trata-se disciplinaridade ser aqui definitória; 2) a tensão existente entre as origens disci- de uma interdisciplina resultante do cruzamento de diversas disciplinas teóricas plinares das ciências envolvidas e as suas relações interdisciplinares; 3) as ex- (a lógica, a estatística, a teoria da comunicação, a cibernética, a teoria da deci- cepcionais condições materiais de que as ciências cognitivas têm beneficiado são) e de um conjunto de métodos, técnicas e instrumentos desenvolvidos em di- (cf. Proust, 1991: 77-79). ferentes contextos industriais e organizacionais que a Research 7 Num texto posterior, Andler retoma a expressão das ciências cogniti- rentabiliza em termos da construção dos modelos físicos, gráficos e simbólicos vas, definindo-a como informe de programas de investigação que rele- e da criação de situações de simulação com que preferencialmente opera. Para vam de uma multidão de (Andler, 1992: 10). uma informação detalhada sobre o estatuto disciplinar da Re- 8 A primeira data em geral apontada é a do encontro internacional de Dartmonth cf. Hillier (1979). em 1956 em que a expressão foi consagrada. Porém, se- 4 Para uma discussão sobre a intenção unitária do programa teórico da Cibernéti- gundo le Moine (1986: 32-50), o nascimento das ciências cognitivas deve ser lo- ca, veja-se Wiener (1960 e 1988) e também Linguiti (1980) e Pasolini (1986). calizado só em 1979, aquando da constituição da primeira sociedade internacio- 5 Interessante é também o caso da Inteligência Artificial de cujo estatuto disci- nal para as ciências cognitivas, de que Pylyshyn é o primeiro presidente, e do plinar se pode dizer que oscila entre o de uma e de uma lançamento da revista Cognitive Science. Para uma breve caracterização da his- terciência>>. Na medida em que, pela natureza dos fenómenos estudados, se tória das ciências cognitivas, cf. Le Moine (1986) e (1986a), Andler (1989) e Ga- cruza constantemente, não apenas com a filosofia (como pretende Ringle, nascia (1996: 10-40). 1977), mas com outras ciências lógica, psicologia, informática, 9 Num estudo intitulado est la place de l'intelligence artificielle dans l'é- linguística, economia, etc.), a inteligência artificial aproxima-se das interciên- tude de la Andler (1990) estuda precisamente o estatuto da Inteli- cias (cf. Newell, 1983). Por outro lado, a formação inicial de grande parte dos gência Artificial no seio das ciências cognitivas mostrando como, à ambição ini- seus investigadores, na sua maioria provenientes da informática e das enge- cial com que a ciência do se apresentava enquanto a única das nharias, tendem a fazer dela uma dos engenheiros>>. Como diz Bolter ciências cognitivas dotada de uma doutrina elaborada (a teoria (1984: 201) [a inteligência artificial] não é uma ciência mas antes uma es- computo-representacional do espírito) e de uma inaudita capacidade tecnológica pecialidade da engenharia e da lógica>>. Também Andler (1990: 81) considera de modelização (o computador) correspondeu a reivindicação do estatuto de que seu temperamento é o dos construtores de objectos, de edifícios, de dis- ou, alternativamente, de fundamental do processo de positivos concretos; naturalmente, ela tende mais para vencer do que para des- constituição de uma ciência unificada da cognição. Entretanto, e como Andler crever e Em última análise, e escapando às categorias aqui pro- (1990: 67) mostra também, se a Inteligência Artificial conseguiu resistir às críti- postas, Andler acaba por considerar que as ciências cognitivas constituem, cas que sobre ela se foram acumulando (Dreyfus, Searle, Putnam), a verdade é simultaneamente, terra de acolhimento, um melting pot e uma nova fron- que, face à modéstia e fragilidade dos seus resultados, ela teve de aceitar um es- teira>> (1990: 80), em qualquer caso, uma realidade que vive ao abrigo da cen- tatuto de parceria face às outras ciências cognitivas.</p><p>100 Olga Pombo Interdisciplinaridade: Ambições e Limites 101 10 não estamos hoje numa situação comparável à da Física de Newton mas an- romatsu (1991) ou Decker (2001)) ou nas suas aplicações industriais (Krohn e tes à da Física do tempo de Galileu e de Descartes. Ainda nos falta portanto pôr Schafer (1976), David (1979)). Veja-se ainda o estudo bibliométrico à prova muitas concepções (Georges Rey, cit. in Proust, 1991: 85). 11 tura sobre investigação interdisciplinar entre 1951 e 1986 apresentado por Chu- Cf. Andler, 1990: 64 e tb. Ganascia (1996: 80-89) que organiza numa estrutu- bin et alii (1986). ra triádica o objecto das ciências cognitivas. 16 Para uma panorâmica relativa aos EUA, cf. Ikenberry e Friedman (1972), Ro- 12 Cf. Churchland (1986: 23). se (1976), Klein (1986a), Bechtel (1986a), Stehr e Weingart (2000) e Decker 13 Como escreve Pylyshyn (1984: XI), assim como para a biologia há seres vivos, (2001). Sobre a institucionalização da interdisciplinaridade, veja-se ainda Hi- também para as ciências cognitivas há seres que conhecem things>>, romatsu (1991) e sobretudo Smirnoy (1984), autor que estabelece uma interes- sante hierarquização dos diversos tipos de modalidades institucionais de cola- 14 Neurath chama à intenção sistemática (que opõe ao seu progra- boração interdisciplinar da ciência dos nossos dias: da simples troca de ma enciclopédico) de construir um das ciências simétrico e completo elementos (informações, resultados, pessoal e equipamentos); à planificação e por intermédio de divisões principais, subdivisões, sub-subdivisões, organização da investigação (coordenação de actividades de investigação, or- (1937a: 245). ganização de complexos projectos de investigação, tanto a nível regional como 15 Como dizem Chubin, Porter, Rossini e Connolly (1986: 8), estuda-se não ape- nacional, internacional e global); ao desenvolvimento de modalidades de tra- nas o mas o o o quê, o da interdisci- balho que cruzam a ciência, a tecnologia e o progresso social materializadas em plinaridade, ou seja, as características dos grupos interdisciplinares (Parthey associações de produção científica aplicada; à investigação interdisciplinar de- (1983), Blackwell (1986), Macdonald (1986), Petrie (1986), os seus conflitos corrente da cosmização da ciência, da sua ecologização, da sua axiologização (Sherif (1979), Bella e Williamson (1986)), suas formas de recrutamento (Tay- e da sua humanização, ou seja, do interesse crescente que a ciência manifesta lor (1986)); o papel da personalidade do cientista no processo interdisciplinar para com os problemas (interdisciplinares) da exploração do cosmos, da res- (Horz, 1983); as pré-condições para o trabalho interdisciplinar) Thomson Klein ponsabilidade ecológica, das questões axiológicas envolvidas no desenvolvi- e Porter (1990)), as modalidades de cooperação na investigação interdiscipli- mento da investigação científica, e do regresso à cada vez mais reconhecida nar (Rickman (1967), Sherif e Sherif (1969), Knorr, Krohn e Whitley, (1980), centralidade dos problemas do homem. Swanson (1986), Wilbanks (1986), Anbar (1986), Blume e Stuart (1987), Fau- 17 Tendo como antecedentes a teoria dos sistemas de Bertalanffy a sua tese sobre re (1991), Rege Colet (1997)); os desafios organizacionais que a interdiscipli- organismos vivos como sistemas, os estudos de McCulloch e Pitts sobre redes naridade coloca (Bradley (1982), Hattery (1986), Stucki (1986), Friedman e neuronais e a cibernética de Norbert Wiener, e como ponto de arranque a ex- Friedman (1990), Vertinsky e Vertinsky (1990), Casey (1994)); as estruturas plosão da tecnologia do computador e o aparecimento de novos instrumentos institucionais de que o trabalho interdisciplinar necessita (Whitley (1973, 1976 matemáticos adaptados ao estudo dos sistemas complexos, as ciências da com- e 1980), Smirnov (1984), Teich (1986), Long (1986)); as implicações interna- plexidade são resultantes do cruzamento de diversas linhas de investigação: as cionais da investigação interdisciplinar (Di Castri (1976), Wilpert (1986), Po- teorias matemáticas da complexidade (de Turing a von Newman), a teoria da lanco (1990), Choucri (1991)); as relações históricas entre diferentes discipli- informação (Shannon, Weaver e Hamming), as teorias físicas do caos, as teo- nas (Hanson (1965), Switon (1975), Swoboda (1979), Kuczynski et alii (1983), rias das redes neuronais (Marr, Cooper, Rumelhart, Hopfield, Gardner), frac- Hulin (1994), Renn (1995), Desclés (1982)); problemas relativos à investiga- tais, inteligência artificial (Doyne Farmer, Minsky, John Holland) e estudos na- ção interdisciplinar em ciências sociais e humanas (Piaget (1966) (1970a) turalistas sobre o cérebro. Para uma discussão do estatuto epistemológico novo (1976), Sherif e Sherif (1969), Ruytinx e Gysens-Gosslin (1975), Renauld do objecto das ciências da complexidade, do seu carácter de (alar- (1982), Benoist (1983), Unesco (1983), Vilar (1991), Dogan (1991), relativos, gamento do campo dos saberes) ou (transformação do campo dos por exemplo, ao estatuto da Linguística (Jakobson (1973), Desclés (1982), às saberes), cf. Stengers (1987a). origens da Psicologia (Müller (1991), da nova História (Lepetit (1990), da An- 18 Não há ainda uma fixação completa do vocabulário técnico das ciências da tropologia (Da Matta (1991) ou Moscovici (1998)), ou da Comunicação (Du- complexidade. Mesmo em relação ao conceito de complexo>> existem barle (1981)); as modalidades de trabalho na investigação interdisciplinar (De- flutuações. Conjunto de partes relativamente independentes, altamente interco- Wachter (1976), Krober (1983), Kuczynski et alii (1983), (1984), nectadas e interactivas de tal modo que um grande número dessas partes são Klein (1986), Cassell (1986), Callon (1989), Birnbaurn-More, Rossini e Bald- necessárias para realizar funções de auto-organização, aprendizagem e adapta- win (1990), Thomson Klein (1990b), Girardot (1991)), na sua ligação à pes- ção, em geral diz-se que um sistema é complexo quando as suas alterações de quisa tecnológica (Gilbert (1976), Mulkay e Edge (1976), Rossini (1986), Hi- comportamento não são linearmente resultantes de modificações externas.</p>

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